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Ao mesmo tempo em que recebe- mos uma enxurrada de notícias que expõem questões sociais e ambientais preocupantes para o Brasil – como a fome no Nordeste ou o desmatamento na Amazônia –, também recebemos informações sobre ações socioambientais significativas, que têm fomentan- do a cidadania e a esperança do povo brasileiro por mudanças. Nesse contexto, Gestão socioambiental no Brasil emerge como instrumento de reflexão e de práticas a ser utilizado em salas de aula e em ambientes organi- zacionais públicos e privados. Além disso, contribui para nos sentirmos aptos a argumentar sobre temas de domínio impres- cindível neste século XXI: responsabilidade social, civilidade, e individualismo, coletivismos e sustentabilidade. Assinado por quem tem autoridade no assunto, este livro apresenta subsídios para a atividade de gestão voltada para as práticas socioambientais e nos capacita para atuar com consciência socioambiental na comunidade em que estamos inseridos. Atualizações nas questões relativas à legislação ambiental. Inserção de destaques para facilitar a visualização dos assuntos. Infográficos para facilitar a compreensão. Estudo de caso. O que há de novo nesta edição: Rodrigo Berté gestão socioam biental no brasil Rodrigo Berté Uma análise ecocêntrica 2a e d i ç ã o gestãosocio ambiental no brasil g e s t ã o s o c i o a m b i e n t a l n o B r a s i l Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. O selo DIALÓGICA da Editora Ibpex faz referência às publicações que privilegiam uma linguagem na qual o autor dialoga com o leitor por meio de recursos textuais e visuais, o que torna o conteúdo muito mais dinâmico. São livros que criam um ambiente de interação com o leitor – seu universo cultural, social e de elaboração de conheci mentos –, possibilitando um real processo de interlocução para que a comunicação se efetive. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. g e s t ã o s o c i o a m b i e n t a l n o B r a s i l Rodrigo Berté Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Av. Vicente Machado, 317 – 14º andar – Centro CEP 80420-010 – Curitiba – PR – Brasil Fone: (41) 2103-7306 www.editoraibpex.com.br editora@editoraibpex.com.br Conselho editorial Dr. Ivo José Both (presidente) Dr.ª Elena Godoy Dr. Nelson Luís Dias Dr. Ulf Gregor Baranow Editor-chefe Lindsay Azambuja Editor-assistente Ariadne Nunes Wenger Editor de arte Raphael Bernadelli Copidesque Sandra Regina Klippel Preparação de originais Jassany Omura Capa João Leviski Alves Fotografia da capa Minden Pictures/Latinstock Projeto gráfico Bruno Palma e Silva Diagramação Fernando Zanoni Szytko Iconografia Danielle Scholtz Berté, Rodrigo Gestão socioambiental no Brasil [livro eletrônico] / Rodrigo Berté. – Curitiba: Ibpex, 2012. – (Série Desenvolvimento Sustentável). 2 MB ; PDF Bibliografia. ISBN 978-85-417-0000-9 1. Desenvolvimento sustentável 2. Empresas – Responsabilidade social 3. Gestão ambiental 4. Meio ambiente 5. Proteção ambiental 6. Responsabilidade ambiental I. Título. II. Série. 12-14672 CDD-304.20981 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 1ª edição, 2012. Índices para catálogo sistemático: 1. Brasil: Gestão socioambiental: Sociologia 304.20981 Informamos que é de inteira responsabilidade do autor a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Ibpex. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei nº 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Código Penal. Esta obra é utilizada como material didátido nos cursos oferecidos pelo Grupo Uninter. Foi feito o depósito legal. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. s u m á r i o Apresentação, 13 Como aproveitar ao máximo este livro, 15 c a p í t u l o 1 Ecologia e meio ambiente, 19 Ecologia, meio ambiente e natureza, 22 ~ As políticas de gestão das empresas brasileiras em relação ao meio ambiente, 28 c a p í t u l o 2 A gestão ambiental e a responsabilidade social, 37 Dimensões da gestão, 40 ~ A variável ambiental e o seu enfrentamento, 43 ~ Meio social, 49 ~ Gestão socioambiental como mediação de conflitos, 57 c a p í t u l o 3 Uma prática de gestão participativa, 67 A necessidade dos processos educativos para gestores, 69 ~ Fatores complicadores para a gestão ambiental, 70 ~ Problemas e conflitos ambientais, 71 ~ Estudo de um problema ambiental e do processo de socialização de sua existência, 76 c a p í t u l o 4 A multidisciplinaridade na gestão ambiental, 95 Mecanismos multidisciplinares de defesa ambiental, 98 ~ Vulnerabilidade ambiental, 108 c a p í t u l o 5 Impactos ambientais, 119 Impacto ambiental: procedimentos e regulamentações, 122 ~ Como reconhecer os impactos, 132 c a p í t u l o 6 Instrumentos de proteção ao meio ambiente, 141 Meio ambiente: uma retrospectiva histórica brasileira, 144 ~ As propostas ambientalistas na virada do século, 155 ~ Licenciamento ambiental, 158 Gestão ambiental em áreas urbanas, 165 Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. c a p í t u l o 7 Soluções para áreas degradadas com passivos ambientais, 173 Definição legal e caracterização de áreas degradadas, 175 ~ Tratamento de passivos ambientais, 177 ~ Gerenciamento de resíduos, 180 ca p í t u l o 8 Certificação e responsabilidade social, 189 A série ISO, 191 ~ Órgãos acreditadores e certificadores, 196 Referências, 219 Respostas, 263 Sobre o autor, 269 Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. d e d i c a t ó r i a Dedico esta obra, primeiramente, a Deus, Pai de infinita bondade, Arquiteto do universo. Ao meu pai, Otávio Berté (in memoriam), por ter dedicado sua vida a seus filhos e à educação deles. À minha mãe, Irde Araldi Berté, às minhas irmãs Luciane e Emanuele, e ao meu cunhado Pedro (Neco). Aos meus sobrinhos, André Berté Busnelo (in memoriam), Maria Clara e Emanuel. Ao meu “filhotinho”, Rinco, que fez minha vida melhorar muito. À justiça conquistada. A verdade sobre o acidente que levou à morte do meu pai foi restabelecida e as inverdades sobre os fatos vieram à tona. Creio que agora ele descansa em paz. Também dedico este livro ao meu tio e padrinho Luiz Kohl, que tem sido importante na minha vida. Empresário de sucesso, ele é um espelho de bons exemplos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. A g r a d e c i m e n t o s Agradeço aos meus amigos e colaboradores da Universidade Livre de Proteção à Biodiversidade (Unibio), os quais sempre estiveram presentes nas horas mais difíceis. Aos amigos que ganhei na Petrobras em Santa Catarina, no Paraná e no Rio Grande do Sul. À minha afilhada, Letícia Kososki Rocha. Aos amigos do Grupo Educacional Uninter, especialmente à família Picler (senhores Gabriel, Wilson e Edimilson) e ao professor Moacyr Paranhos Filho, exemplo de incansável dedicação à instituição. À Direção Executiva do Grupo Educacional Uninter, por acreditar nas minhas ações que justificam a gestão socioambiental nas nossas instituições de ensino superior. À Coordenação da Educação a Distância e Presencial, aos coordenadores de curso e aos professores, em especial ao professor Dr. Osvaldo Vieira do Nascimento, nosso diretor, e aos coordenadores-gerais do ensino presencial e a distância, professores Benhur Etelberto Gaio e Luiz Roberto Dias de Macedo. Nestes agradecimentos, dedico menção especial à nossa editora-chefe, sra. Lindsay Azambuja, por acreditar no meu trabalho e por dar-me a oportunidade para tornar públicas as minhas ideias. Agradeço, em particular, à sra. Sandra Regina Klippel, que me mostrou o melhor caminho a seguir nas belas páginas de meu livro, pois eu concebia o texto apenas sob o ponto de vista de quem escreve, sem o olhar do leitor, e ela, com simplicidade, humildade e coerência, ajudou-me a fazer desta uma obra inteligível para todos. Estendo esses agradecimentos aos demais participantes da equipe da Editora Ibpex. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 11 P r e f á c i o F o i c o m m u i t a s a t i s f a ç ã o e a l e g r i a q u e r e c e b i o h o n r o s o convite do professor Dr. Rodrigo Berté para elaborar o prefácio do seu excelente e oportuno livro sobre gestão socioambiental no Brasil. Digo excelente e oportuno porque atende com qualidade de conteúdo – este baseado em uma perspectiva inovadora – e clareza comunicativa à necessidade de informação e de formação em uma área essencial neste século: a da gestão ambiental. Devo confessar que, ao ler seu texto, pude estabelecer relações com outros aspectos do conhecimento, entre eles os provenientes da física, a qual nos ensina que a dinâmica se caracteriza pela movimentação de corpos, isolados no espaço ou em conjunto. O fato é que essa movimentação de corpos quase sempre forma sistemas simples ou complexos de movimento, como é o caso tanto dos sistemas micro (átomos) quanto dos macro (planetários). A consciência dessa dinâmica nano/micro ou macro/cósmica levou milhares de anos e de sucessivas gerações para ser construída e se estabelecer na mente humana como um valor e, até mesmo, como um fator de sobrevivência da espécie, e é esse valor de civilidade o ponto que destaco nesta obra. Lembro, ainda, que ao processo de construção desse conhecimento e, sobretudo, de fixação desse valor, cuja importância alcança o nível da sobrevivência humana, chamamos de educação. Tomando como base o mesmo ponto de vista físico, indivíduos e organiza- ções são também sistemas dinâmicos complexos, uma vez que, tanto um como o outro – e, por via de consequência, ambos –, são construídos, estabelecidos, habitados, produzidos e movidos por seres humanos, o que traz igualmente im- portantes valores de civilidade e de sobrevivência. Assim, mais uma vez surgem a educação e a gestão como processos construtivos de toda essa teia de complexi- dade organizacional em que a espécie humana se engendrou a partir da evolução e da construção de sua consciência socioambiental, individual e coletiva. É nesse contexto que a obra Gestão socioambiental no Brasil – com a auto- ridade de quem conhece as peculiaridades do meio ambiente, como o profes- sor Rodrigo Berté – discute problemas relacionados à gestão ambiental, tendo como foco principal a questão da responsabilidade social, aplicando conceitos universais ao tema da formação de uma consciência crítica sobre as questões de Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto rais é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 12 meio ambiente e de sustentabilidade*, no que diz respeito ao desenvolvimento de todas as suas facetas, ou seja, nos contextos social, geográfico, econômico e político, tendo como alvo principal a problemática brasileira. Outro aspecto de singular importância, presente no trabalho do professor Berté, é que não se trata de uma mera discussão teórica, mas sim de um texto objetivo e denso de praticidade, característica de quem viveu e vive os proble- mas relacionados ao meio ambiente no contexto da responsabilidade social em nosso país. Com isso, a obra levanta problemas fundamentais e traz ferramentas importantes para o diagnóstico e para a atuação efetiva no que se refere tanto à legislação como às práticas de gestão ambiental. Aliás, o autor não esconde em momento algum a sua vocação inata de educador voltado para a prática da cátedra, ao inserir um modelo de projeto para o desenvolvimento de tais atividades e, até mesmo, uma descrição objetiva de procedimentos. Também é necessário realçar os aspectos didáticos agregados à maneira como os temas são tratados e apresentados, assim como a clareza da linguagem, o que possibilita um fácil entendimento, sem, no entanto, cair ou sequer resvalar em nada que pareça simplório. A distribuição dos capítulos e de seus temas deixa nítida uma grande intencionalidade de organizá-los de forma racional e, ao mesmo tempo, um sutil planejamento do processo epistemológico do ato de aprender. Sem sombra de dúvida, é um trabalho que visa à conscientização sobre a importância da temática ambiental e da responsabilidade individual, social e coletiva de todos nós, bem como à capacitação de indivíduos para atuar, intervindo e agindo com conhecimento técnico e científico, com competência gerencial e, sobretudo, com plena responsabilidade social. Como conclusão, podemos dizer que a comunidade acadêmica está de parabéns por esta obra, assim como todos nós, que nos tornamos realmente mais enriquecidos. O professor Rodrigo Berté nos deu mais este tesouro para que possamos assumir, cada vez com maior comprometimento, as nossas res- ponsabilidades na gestão socioambiental deste nosso Brasil. Prof. Dr. Osvaldo Vieira do Nascimento * Sustentabilidade: o termo, quando relacionado à questão do desenvolvimento, significa a racionalização adequada dos recursos do patrimônio natural, am- biental e cultural, em harmonia com a sobrevivência humana e com o bem-estar social, não apenas na atualidade, mas principalmente visando às gerações futuras. Observação: as notas de rodapé que dizem respeito à terminologia ambiental foram elaboradas com sustentação nas obras dos seguintes autores: Goldim (2011), Odum (1983), Rede Brasileira de Informação Ambiental (2011) e CIMM (2011). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 13 A p r e s e n t a ç ã o A n o s s a c i v i l i z a ç ã o, n o q u e s e r e f e r e à t r a j e t ó r i a d e ocupação e de exploração do planeta, encontra-se em um momento crucial, pois a Terra emite sinais de alarme que indicam evidências de esgotamento da sua capacidade de suporte para as atividades humanas. Nessa conjuntura, torna-se urgente reexaminarmos e redimensionarmos os projetos de crescimento econômico, com base na perspectiva do desenvolvimento humano e da con- servação ambiental. Esse é um desafio que se apresenta para todas as culturas do século XXI, e é dentro desse cenário que esta obra busca identificar os meca- nismos da gestão ambiental brasileira, suas implicações e responsabilidade social. Com esse objetivo, a temática do livro foi dividida em oito capítulos, cada um com exercícios propostos, por meio dos quais pretendemos levar o aluno dos cursos de tecnologia (ou os respectivos profissionais) às praxes empresariais, formando uma corrente de responsabilidade socioambiental. Inclusive, apresen- tamos nos apêndices um resumo da legislação ambiental pertinente aos processos licenciatórios, conforme a vocação e a demanda das organizações, para que o leitor tenha acesso aos subsídios que legitimam essas atividades. Temos, assim, a premissa de colaborar para o processo de conscientização e de internalização de novas concepções de desenvolvimento, processo que deve considerar a sustentabilidade, tanto nas atividades produtivas como nos proce- dimentos habituais dos cidadãos, uma vez que ela se impõe como condição de governabilidade para todas as nações. Além disso, considerando a necessidade de formarmos um grande grupo de pensadores com visão protecionista na defesa do meio ambiente, a qual chamamos de tutela ambiental, cada capítulo tem um momento de reflexão em que são abordados temas locais e da sociedade em geral. Com essa postura, buscamos oferecer instrumentos para sensibilizar os em- preendedores no sentido de atingirem essa gestão, que caracteriza a empresa socialmente justa e ambientalmente responsável. A finalidade de tudo isso é buscar a tão almejada qualidade de vida, garantindo, desse modo, a sobrevi- vência da raça humana e dos demais seres que integram a biosfera, a esfera da vida, no planeta. Para a execução de uma tarefa desse porte, é indispensável a atuação da gestão ambiental e da responsabilidade social, a que chamamos de gestão socioambiental (conforme abordagem civilizatória que detalhamos ao longo do texto). Considerando que a gestão ambiental tem como objetivo analisar Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 14 a questão ambiental, fazemos, com base na interação entre os meios social e físico-natural, a identificação dos principais aspectos da gestão ambiental no Brasil, bem como suas implicações. Nesse contexto, buscaremos o entendimento do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), do pacto federativo relativo às atribuições estatais e, principalmente, da ampla discussão que se dá com a sociedade civil organizada. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. C o m o a p r o v e i t a r a o m á x i m o e s t e l i v r o Este livro traz alguns recursos que visam enriquecer o seu aprendizado, facilitar a compreensão dos conteúdos e tornar a leitura mais dinâmica. São ferramentas projetadas de acordo com a natureza dos temas que vamos examinar. Veja a seguir como esses recursos se encontram distribuídos no projeto gráfico da obra. C o n t e ú d o s d o c a p í t u l oLogo na abertura do capítulo, você fica conhecendo os conteúdos que serão abordados. A p ó s o e s t u d o d e s t e c a p í t u l o , v o c ê s e r á c a p a z d e : Você também é informado a respeito das compe- tências que irá desenvolver mediante o estudo do capítulo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. E s t u d o s d e c a s o Nesta seção, serão apresentados relatos referentes a situações que se vinculam aos conteúdos abordados no capítulo. S í n t e s e Você dispõe, ao final de cada ca- pítulo, de uma síntese que retoma resumidamente os principais con- ceitos estudados. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Q u e s t õ e s p a r a r e f l e x ã o Nesta seção, você será estimu- lado a refletir sobre os temas do capítulo por meio de questões dissertativas. 61 aumentando de tamanho nas duas últimas décadas, devemos reconhecer que ainda permanece uma visão pré-ambientalista e pré-sustentabilista, em parte pela falta de uma internalização dessa cultura institucional nova e também por- que o modelo de administração atual é menos profissional e mais político. Os ministérios, assim como as secretarias, tanto nos governos estaduais como nos municipais, são loteamentos políticos. Há, portanto, uma necessidade urgente de se alterar essa conjuntura. A reforma não ensejou o novo pacto federativo. O que observamos são ainda desenhos precários. As áreas da gestão ambiental e da responsabilidade social ainda explicitam essa incompletude do pacto mais do que outras, pois têm como vocação a ordenação do território e do desenvolvimento. Q u e s t õ e s p a r a r e f l e x ã o 1. Você já observou quais são os recursos ambientais específicos da sua região? Faça um levantamento e verifique as condições em que se encontram esses recursos. 2. Você conhece comunidades da sua região que sofreram impactos ambien- tais? Você sabe a razão desses impactos? Existem unidades de conservação na região onde você vive ou trabalha? Você lembra quais são? Sabe quais são os órgãos públicos responsáveis por elas? Q u e s t õ e s p a r a r e v i s ã o 1. Considerando que são as práticas do meio social que determinam a natureza dos problemas ambientais, os quais, como resultado, afligem a humanidade, o que se revela necessário nesse contexto em relação à área da gestão? 2. A concepção de que homem e a natureza encontram-se no mesmo nível e, portanto, as suas relações e inter-relações são igualitárias, corresponde à visão do biocentrismo. Justifique. 3. Os técnicos dos órgãos públicos convivem com uma série de dificuldades para agir no cumprimento da legislação ambiental. Por que isso ocorre? i. Embora sempre exista vontade política dos governantes, as dificulda- des são crônicas. ii. Os técnicos convivem com dificuldades, como falta de equipes técnicas adequadas, recursos financeiros escassos e instalações precárias, falta de acesso a informações e, muitas vezes, falta de apoio da chefia, entre outros obstáculos. iii. A falta de condições de trabalho é crônica. iv. Há, inclusive, a falta de vontade política dos governantes. Q u e s t õ e s p a r a r e v i s ã o Esta seção engloba questões per- tinentes aos conteúdos tratados, divididas em exercícios abertos e fechados. P e r g u n t a s & r e s p o s t a s Nesta seção, o autor responde a dú- vidas frequentes relacionadas aos conteúdos do capítulo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. C o n s u l t a n d o a l e g i s l a ç ã o Esta seção destaca textos legais que regulam os assuntos aborda- dos em cada capítulo. P a r a s a b e r m a i s Para propiciar o aprofundamento sobre os temas explorados, são in- dicadas outras obras de relevância. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. c a p í t u l o 1 Ecologia e meio ambiente Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. C o n t e ú d o s d o c a p í t u l o : • Conceituação de ecologia; • Relação entre as concepções de ecologia, natureza e ambiente; • Conceituação de meio ambiente; • As empresas brasileiras e o meio ambiente. A p ó s o e s t u d o d e s t e c a p í t u l o , v o c ê s e r á c a p a z d e : • fazer a relação entre as concepções de meio ambiente, ecologia e natureza; • diferenciar a visão antropocêntrica da visão biocêntrica da natureza; • visualizar as interações entre as políticas ambientais e as concepções que as validam; • atentar para a importância da variável ambiental na gestão organizacional. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 21 N o p a s s a d o , a e c o l o g i a r e s u m i a - s e a o e s t u d o d a n a t u - reza, uma espécie de história natural, que se inspirava em trabalhos de grandes observadores e pesquisadores do século XIX. Classificada pelo zoólogo alemão Ernst Haeckel como um ramo das ciências biológicas, foi proposta pela primeira vez em 1869 e tendo como finalidade estudar as relações entre os organismos vivos e seus ambientes. Sendo um vocábulo derivado do grego oikos, que significa “casa”, e logos, que significa “estudo”,conforme Odum (1983), a ecologia é o estudo do lugar onde se vive. Esse estudo inclui todos os organismos contidos na biosfera, ou seja, a esfera da vida. Assim, onde houver vida, há biosfera, e onde há biosfera, encontra-se a ecologia. Trata-se do estudo da “casa”, das interações entre os seres vivos em um ambiente que evolui no tempo e no espaço e com os padrões que o próprio meio proporciona para essa evolução. No entanto, com o passar do tempo, percebeu-se a necessidade de ampliar esses estudos, apesar do arcabouço de informações dos naturalistas e das dis- cussões em torno da nova matéria. Assim, no início do século passado, por volta de 1925, surgiu a ecologia das comunidades, considerando a necessidade de se estudar as espécies* por grupos ou comunidades, e não apenas por indivíduos. O estudo da “casa” deveria ser ampliado e percebido no meio em que os seres vivos se relacionam e onde ocorrem as interações entre as mesmas espécies, e também levar em conta as diferenças entre as populações e as comunidades. Tal interação era chamada de comunidade biológica ou comunidade de vida. Paralelamente a esse estudo que tem como foco as comunidades, houve e há a necessidade de estudarmos espécie por espécie. Isso porque existem os riscos parasitológicos, além de precisarmos de informações para os órgãos de saúde * Espécie: compõe-se de indivíduos semelhantes em todos ou na maioria de seus ca- racteres estruturais e funcionais, que se reproduzem sexuada ou assexuadamente e constituem uma linhagem filogenética distinta. É uma categoria da classificação biológica subordinada imediatamente ao gênero ou ao subgênero, sendo a menor população natural considerada suficientemente diferente de outras para merecer um nome e da qual se assume ou se prova que permanecerá diferente, apesar de eventuais intercruzamentos com espécies aparentadas. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 22 pública, como as pesquisas sanitárias relacionadas à prevenção de doenças e à prevenção antiparasitária. No entanto, conforme já foi dito, permanece a necessidade de estudarmos o conjunto, as diferentes espécies e a influência que elas têm sobre o meio. É importante o estudo por população, ainda que, pelo novo conceito de ecologia, devamos considerar como base o meio em que os seres vivos – as florestas, os animais, as bactérias, os fungos e as algas, entre outros – estão inseridos. É com base nessas relações de interação dos seres vivos (incluindo o ser humano) e os espaços (com todas as suas classificações e abrangências) por eles ocupados que surge o conceito de meio ambiente. 1 . 1 E c o l o g i a , m e i o a m b i e n t e e n a t u r e z a A e c o l o g i a , d e a c o r d o c o m J o l l i v e t e P a v é ( 1 9 9 6 ) , c o m o foi proposta, deve ser repensada. Para esses autores, conceito de meio ambiente deve ser “talvez mesmo reinventado, mas não refeito. Devemos nos apoiar sobre a base de saberes e de técnicas já acumuladas, bem como numa identificação e numa definição mais precisa possível sobre o que entendemos exatamente como meio ambiente” (Jollivet; Pavé, 1996, p. 55). Assim, poderemos definir ecologia de forma coerente e, de fato, significativa. Aliás, Medina (1989) declarou ser meio ambiente uma expressão polissêmica (uma palavra que apresenta uma gama variada de significados) que vem sendo desenvolvida, ampliada e construída ao longo da evolução do pensamento am- biental, bem como das demais ciências, não se restringindo, portanto, a uma determinada área do saber. E você verá, ao longo deste e de outros estudos que venha a fazer, que são múltiplos os saberes que se interligam nesse contexto, como os relacionados às ciências biológicas, químicas, físicas, tecnológicas e sociológicas. A palavra ambiente tem sua origem no latim – ambiens, significando “que rodeia”. Já a expressão meio ambiente é definida por vários autores de diferentes maneiras, das quais julgamos oportuno mencionar algumas para o entendimento mais amplo do assunto: • conforme Ricklefs (1996), meio ambiente é “a circunvizinhança de um organismo, incluindo as plantas, os animais e os microorganismos com os quais ele interage”. Nesse caso, o autor identifica a comunidade bioló- gica, na qual os seres vivos realizam uma interação com o meio – plantas, animais e todos os organismos vivos; • por sua vez, Morán (1990) classifica o meio ambiente em mundo biótico e abiótico: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 23 • o primeiro – mundo biótico – está relacionado à vida e pertence aos seres vivos, às comunidades e às populações, o que inclui a biosfera, isto é, as plantas, os animais, as bactérias, os fungos; ou seja, os organismos vivos de um ecossistema*, de uma região ou de um espaço geográfico. • no segundo – mundo abiótico –, não existem organismos vivos; ele é inerte, sem ação e impróprio para viver: é o ambiente físico-químico; • o meio ambiente também pode ser definido como uma unidade bió- tica de maior expressão geográfica, compreendendo várias comunida- des em diferentes estágios de evolução, os componentes necessários para a manutenção da vida e suas inter-relações com o meio. De acordo com Mello (2006, p. 96), o meio ambiente é um objeto complexo, que pode ser estudado pelas Ciências Naturais (físicas, químicas, biológicas), mas, quando é visto pelo ângulo das relações que as sociedades humanas estabelecem com os sistemas** “naturais”, passa a ter outro conjunto de premissas e de conceitos básicos. [grifo nosso]; • para Batalha (1987), meio ambiente é o “conjunto de todas as condi- ções e influências externas que afetam a vida e o desenvolvimento de um organismo”. Essas definições são de caráter biológico, referindo-se ao meio ambiente sem estabelecer um vínculo de interação do homem como parte integrante desse meio. Já as relações entre comunidade biológica e homem como organismo vivo podem ser definidas como a esfera da vida: onde houver vida, existe a biosfera; onde há a biosfera, existe uma integração entre todos os seres que a compõem. Consultando a legislação • A Lei Federal n. 6.938, de 31 de agosto de 1981 (com várias alterações em sua redação dadas por leis posteriores), que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente no Brasil, define a expressão meio ambiente como “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas” (Brasil, 1981b). * No tópico “Indicadores de vulnerabilidade”, você encontra mais informações sobre ecossistemas. ** Sistema: grupo de componentes que se inter-relacionam de tal forma que as mudanças de um podem afetar alguns ou todos os demais componentes. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a prév ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 24 É uma definição de caráter amplo, pois em nenhum momento o homem que integra esse meio faz parte do referido conceito. • Já na Lei n. 5.793, de 16 de outubro de 1980, do Estado de Santa Catarina, que dispõe sobre a proteção e a melhoria da qualidade ambiental, encontramos uma lacuna para as relações entre o meio, o homem e a sociedade, quando, por exem- plo, em seu artigo 2º, parágrafos I e II, a referida lei afirma que: I – meio ambiente é a interação de fatores químicos e biológicos que con- dicionam a existência de seres vivos e de recursos naturais* e culturais; II – degradação da qualidade ambiental é a alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de energia ou de substâncias sólidas, líquidas e gasosas, ou combi- nação de elementos produzidos por atividades humanas ou delas decor- rentes, em níveis capazes de, direta ou indiretamente: a. prejudicar a saúde, a segurança e o bem-estar da população; b. criar condições adversas às atividades sociais e econômicas; c. ocasionar danos relevantes à flora, à fauna e outros recursos naturais. (Brasil, 1980c, grifo nosso) Citamos essa legislação como exemplo de posturas em que o ser humano é considerado parte do meio ambiente. Também destacamos, nesse contexto de definições, que meio ambiente e natureza constituem outra relação que deve ser esclarecida. A conceituação rigorosa e inflexível de meio ambiente o define apenas como “sinônimo de natureza”. Mas o que é natureza? Segundo Houaiss, Villar e Franco (2001), natureza diz respeito ao conjunto de elementos do mundo natural, tal como os mares, as montanhas, as árvores e os animais. Portanto, o meio ambiente, entendido como sinônimo de natureza, não abrange o componente humano. Logo, nessa concepção, existe um distanciamento entre homem e natureza. Assim como nos conceitos citados anteriormente e por força de lei (Lei Federal n. 6.938/1981), o ser humano se dissocia do meio ambiente, o que constitui uma inverdade. Tal pensamento é oriundo do modelo positivista: o antropocen- trismo. No entanto, no que diz respeito à matéria em estudo, contraditoriamente, o positivismo, ao dissociar o homem do meio, dá origem à visão que coloca a natureza – e não o homem – em uma posição de centralidade. * Recursos: são aspectos do ambiente natural que facilitam a satisfação das necessi- dades humanas e o alcance dos objetivos sociais; é qualquer coisa que seja útil para algo. Os recursos naturais, em sentido amplo, são bens procedentes da natureza não transformada pelo homem, entre os quais se incluem o ar, a água, a paisagem e a vida selvagem, e que são capazes de satisfazer as necessidades humanas. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 25 Contudo, podemos inferir, se partirmos do princípio de que o homem integra o meio – o que corresponde a uma nova ordem, isto é, à visão do biocentrismo, na qual ser humano e natureza estão no mesmo nível de in- terações e de modificações –, que a natureza, o homem no meio social e a utilização dos recursos naturais estão em um mesmo patamar. Portanto, na visão biocêntrica, todos esses três conjuntos de elementos relaciona- dos são colocados no mesmo nível. Saímos, assim, da concepção de meio ambiente somente como unidade biótica e/ou abiótica para chegar à concepção de um meio ambiente multidimensional – que trata dos múltiplos aspectos e é abrangente. Nessa conjuntura de teorias e de fatos, o que você pode observar na confi- guração da paisagem* do país é que os resultados ocasionados pela degradação dos recursos naturais e dos ecossistemas já são fatos concretos, provocando o que se convencionou chamar de crise ambiental. Deparamo-nos, então, com a necessidade urgente de reverter essa situação provocada pela sociedade. Figura 1.1 – A esfera da vida P an th er m ed ia B io sfe ra . Bio sfer a . Bi osfera . Biosfera . Biosfera . Biosfera . B io sfera . B iosfera . Biosfera . Biosfera . Biosfera . Bio sfe ra . Bi os fe ra . B io sf er a . B io sf er a . * Paisagem: é o sistema geográfico formado pela influência dos processos naturais e das atividades antrópicas, e configurado na escala da percepção humana. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 26 Perguntas e respostas Falamos anteriormente em crise ambiental, e você pôde observar que no texto da lei se fala em qualidade ambiental; provavelmente essas são expressões que você conhece dos mais variados meios de comunicação (TV, jornais e revistas). No entanto, você já ponderou sobre o que é a qualidade ambiental? Quais fatores estão inseridos nessa concepção? Podemos definir a qualidade ambiental como o conjunto de características biofísicas ou químicas que tornam determinado meio ou produto adequado ao uso pelos seres vivos. É a capacidade relativa que determinado meio ambiente apresenta para satisfazer as necessidades e os desejos de um indivíduo e da so- ciedade como um todo. Assim, são parâmetros de qualidade ambiental a serem avaliados: a) o saneamento ambiental – disponibilidade, contaminação e qua- lidade da água, efluentes locais, ar e conforto térmico; b) a estética ambiental – beleza dos elementos naturais e antropogênicos; c) o tratamento de resíduos domésticos e industriais – reciclagem e instalações operacionais; d) os valo- res culturais da relação homem-meio ambiente – grau de cultura ecológica, apreciação social da percepção ambiental, respeito a normas e regras. Diante desse panorama, você considera que já tem elementos para observar e estabelecer parâmetros da crise ambiental? Vamos ampliar nossas observações e estudos para realizarmos essa reflexão? Nesse contexto, uma nova concepção, a concepção sistêmica, vem sobre- pujar a anterior (antropocêntrica). Ao aplicarmos esse novo paradigma às relações do homem com o meio am- biente, é importante destacar que a concepção sistêmica refere-se ao “resultado de processos de origem natural, não humana, e de ações antrópicas; estas últi- mas adquirem uma importância considerável, pelo fato de interagirem com os processos naturais a ponto de conseguirem alterar suas tendências profundas” (Jollivet; Pavé, 1996). Um fato que exemplifica apropriadamente esse processo de alterações a que se referem Jollivet e Pavé (1996) é o “efeito estufa”, o qual resulta dos danos provocados na atmosfera por ações antrópicas. Nesse sentido, destacamos que um conceito amplo de meio ambiente, no qual estão incluídos os constituintes da natureza, além da humanidade e de toda a tramade relações estabelecidas a partir das inte- rações que surgem de tal contato, foi proposto em 1977, na Conferência de Tbilisi*. * A Conferência de Tbilisi, realizada em 1977 pela Unesco, foi a primeira confe- rência intergovernamental sobre educação ambiental, representando um marco para a educação ambiental. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 27 1 . 1 . 1 A conce pção s i s t êmica de me io ambient e D i a n t e d a c o m p l e x i d a d e d o s f a t o r e s e x p o s t o s e d a dificuldade em definirmos meio ambiente, a nossa proposição, neste estudo, é a de optarmos pela conceituação sistêmica de meio ambiente, ou seja, consi- derarmos “as relações existentes entre o comportamento dos elementos da natureza (físicos, químicos e biológicos) com o homem (como núcleo fami- liar) e sociedade (estrutura política social e econômica)” (Hardt; Lopes, 1990). Assim, passamos a visualizar um processo de interdependência entre subsiste- mas da natureza (de caráter químico, físico e biológico) e destes com o subsistema social-humano. Resumindo, podemos dizer que é essa sequência de operações, com suas inter-relações e sucessivas conexões, que compõem o meio ambiente. Nesse cenário, duas características, de acordo com Capra (1982), são peculiares aos subsistemas que formam o meio ambiente: • a natureza intrinsecamente dinâmica – as relações não são estáticas ou rígidas, mas flexíveis e em permanente transformação; • as relações simbióticas – significa que são mutuamente vantajosas para os parceiros associados, ou seja, animais e plantas desenvolvem-se em uma relação de competição e de mútua dependência. Isso explica o fato de, mui- tas vezes, aparecerem sinais de descontrole se o sistema sofrer perturbações. Podemos dizer, novamente recorrendo a Hardt e Lopes (1990) – mais espe- cificamente aos estudos destes (interpretação e síntese de resultados em estudos e relatórios de impacto ambiental), divulgados em 1990 – que o meio ambiente, com base em uma visão integral e de forma mais detalhada, pode ser con- ceituado como o resultado da combinação dinâmica dos subsistemas bio- lógico, físico-químico e social-humano. Tais subsistemas, em determinada porção do espaço, do tempo e do momento social, formam um conjunto único e indissociável. Perguntas e respostas Antes de continuarmos o nosso estudo sobre os conceitos de meio ambiente, fazemos a você uma pergunta sobre algo fundamental, que se encontra em toda a estrutura desta obra: Você sabe o que é impacto ambiental? A Resolução Conama n. 001, de 18 de março de 1986, define impacto am- biental como: qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio am- biente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das ativi- dades humanas que, direta ou indiretamente, afetam: I – a saúde, a segurança e o bem-estar da população; Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 28 II – as atividades sociais e econômicas; III – a biota[*]; IV – as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; V – a qualidade dos recursos ambientais. (Brasil, 1986c) Retomaremos essa abordagem mais adiante. 1 . 2 A s p o l í t i c a s d e g e s t ã o d a s e m p r e s a s b r a s i l e i r a s e m r e l a ç ã o a o m e i o a m b i e n t e C o n s i d e r a n d o e s s a c o n c e p ç ã o d e m e i o a m b i e n t e c o m o um conjunto único e indissociável, chegamos à compreensão de que a herança sociocultural da sociedade de um determinado espaço natural deve ser con- siderada no âmbito dessas relações. E, com base nessa perspectiva, existe a necessidade de concebermos a natureza de uma forma em que não lhe seja atribuído apenas um valor instrumental ou de uso, pois, como diz Unger (1991), “ela tem valor real em si mesma, pelo fato de existir – é o valor de existência, traduzido como benefício sem consumo”. A compreensão e a aplicação dessa concepção permitem o desenvolvimento sustentável, de modo que homem e natureza sejam preservados. No entanto, nas empresas de nosso país, a incorporação da variável am- biental ainda é realizada basicamente por meio da fiscalização das instituições públicas ambientais e da pressão ecológica e social proveniente dos âmbitos nacional e internacional. Perguntas e respostas O que é variável ambiental? Na mesma proporção em que a população se conscientiza da importância de preservar o meio ambiente, de evitar e/ou corrigir sua degradação, aumenta a necessidade de as organizações incluírem essa nova variável – que é a mensura- ção do impacto ambiental – em seus planejamentos estratégicos. É a exigência por produtos ecologicamente corretos; mas que produtos são esses? A inclusão da variável ambiental no processo de produção caracteriza os produtos com selo verde ou selo ambiental, ou, ainda, aqueles que, além de serem elaborados com materiais ecologicamente corretos, apresentam um processo de fabricação que provoca o menor dano possível ao sistema ambiental da Terra. * Biota: conjunto de plantas e de animais de uma determinada região ou província biogeográfica. Ex.: biota amazônica. É o conjunto de seres vivos que habitam um determinado ambiente ecológico, em estreita correspondência ou relação com as características físicas, químicas e biológicas desse ambiente. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 29 A inclusão da variável ambiental no sistema de gestão de uma organização pode ser realizada pela implantação do Total Quality Environmental Management (TQEM), como veremos no capítulo que trata das certificações e do uso das séries ISO. Nesse processo, caso a liderança empresarial queira estabelecer as propostas de desenvolvimento sustentável como ponto de partida, já terá um direcio- namento: a Agenda 21. Nesse cenário, observamos que algumas indústrias já se adequaram à proposta de trabalhar e se relacionar com o meio ambiente dentro de uma perspectiva sustentável. Contudo, em sua grande maioria, as empresas brasileiras agem de forma pouco consciente e pouco responsável em relação aos problemas ambien- tais. Por que isso ocorre? Se você observar, verá que uma proporção relativamente grande de empre- sários considera utópica a ideia de que é possível obter crescimento econômico juntamente com a proteção do meio ambiente. Dessa forma, observamos nor- malmente que a prática ambiental restringe-se ao cumprimento das normas de poluição e aos relatórios de impactos ambientais (Maimon, 1992). No entanto,nesse processo gradativo de assimilação das necessidades pre- mentes de novas soluções ambientais para a preservação, inclusive da espécie humana, já é possível observar mudanças, como comenta Schmidheiny (1992). Assim, nesse cenário, embora a assimilação das novas demandas ambientais seja gradativa e lenta, encontramos um número crescente de empresas incor- porando a variável ambiental a seus modelos de gestão. São empresas que percebem economia e vantagens competitivas nessa postura. P a r a s a b e r m a i s Agenda 21* Um dos principais resultados da [Conferência] Rio-92, a Agenda 21 é o plano de ação da Organização das Nações Unidas para o início do século XXI. Em 1992, os países-membros presentes no Rio de Janeiro comprometeram-se em pautar suas políticas econômicas, sociais e ambientais com base no conceito do desenvolvi- mento sustentável, segundo o qual se procura atender às necessidades das gerações presentes sem comprometer as possibilidades de as gerações futuras também verem atendidas as suas. Para isso, define em 40 capítulos 2.500 recomendações e responsabilidades a curto, médio e longo prazos. Fonte: Rio+10 Brasil, 2008. * Você pode acessar a Agenda 21 na íntegra no site da Ecol News. Disponível em: <http://www. ecolnews.com.br/agenda21>. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 30 1 . 2 . 1 Prát i ca s t e cno l óg i ca s e ambienta i s cont emporâneas N e s s e u n i v e r s o d e n o v o s p a r a d i g m a s , o b s e r v a m o s q u e práticas tecnológicas e ambientais contemporâneas ou vanguardistas podem gerar uma interação positiva entre empresas, natureza e meio social. Ademais, desse processo podem surgir soluções, como a transformação de resíduos* em novas oportunidades de negócios, em vez de serem tratados como dejetos poluidores. Para que esse processo seja implantado, o ser humano deve atentar para alguns fatores, como: • a gestão dos ciclos de vida dos produtos; • a reciclagem. Esses fatores, por sua vez, devem ser analisados sob o prisma de um novo processo mercadológico, a logística reversa. Isso significa que o desenvolvi- mento pode: • utilizar tecnologias limpas; • realizar a troca de materiais e de processos poluentes** por outros, com índices de poluição menores. A adequação a essas condições tem como resultado um instrumental para atingir a meta de índice zero de poluição, pois, dessa maneira, as empresas tra- balham com a prevenção da poluição. No entanto, para que isso seja realizado efetivamente, devem ser agregados novos conceitos aos processos de gestão das empresas, como a ecoeficiência e o princípio da precaução. • Conceito de ecoeficiência – expressa uma postura de gestão cujo obje- tivo é a sustentabilidade. Originou-se em uma publicação do Conselho Mundial de Negócios para o Desenvolvimento Sustentável (em inglês, Word Business Council for Sustainable Development – Schmidheiny, 1992), que o define como a “entrega de bens e serviços com preços competitivos que satisfaçam as necessidades humanas e tragam qualidade de vida, reduzindo progressivamente impactos ambientais dos bens e serviços, através de todo o ciclo de vida, em linha com a capacidade estimada da Terra em suportar”. Entre os aspectos que caracterizam uma gestão nos moldes da ecoeficiência, encontram-se: * Resíduo: material ou resto de material cujo proprietário ou produtor não mais o considera com valor suficiente para conservá-lo. ** Poluente: qualquer forma de matéria ou energia que interfira prejudicialmente nos usos preponderantes das águas, do ar e do solo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 31 • a diminuição do consumo de materiais e de energia nos processos de produção de bens e de serviços; • a diminuição da disseminação de matérias tóxicas; • o aumento das atividades de reciclagem dos vários tipos de materiais descartados; • a maximização do aproveitamento sustentável dos recursos disponi- bilizados pela natureza; • o aumento do tempo de uso dos produtos; • a incorporação do fator valor aos bens e aos serviços. • Princípio da precaução – consta na Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ONU, 1992, p. 4): “Com o fim de proteger o meio ambiente, [...] Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental”. Assim, esse princípio, formalmente criado na Conferência Rio-92, refere-se a uma garantia contra os potenciais riscos a que o meio ambiente encontra-se suscetível, os quais, entretanto, ainda não são conhecidos ou identificados. Esse princípio afirma que, na ausência de certeza científica formal, a existência de um risco de um dano sério ou irre- versível requer a implementação de medidas que possam prever esse dano. Outro aspecto essencial para a efetiva instauração de uma política ambiental sustentável é o de que o sistema de mercados também deve incorporar esses valores aos sistemas de preços dos produtos. Dessa forma, existe a necessidade de fixar os preços de forma que reflitam os custos do meio ambiente, o que significa in- serir ou computar as externalidades. Estas, conforme esclarecimento de Maimon (1996), referem-se “aos danos ambientais causados por alguma atividade a terceiros”. Salientamos a questão das externalidades porque a economia tradicional não incorpora esses danos ambientais na elaboração e na fixação de preços dos produtos advindos de empreendimentos privados. Contudo, se você observar em seu entorno, talvez encontre algumas empresas ou produtos que estejam inseridos nessa nova concepção. Sobre essa questão, Schmidheiny (1992) diz ser necessária uma nova relação, fundamentada na cooperação tecnológica. Esse processo deve ser estimulado e as- sumir tal proporção que envolva governos, universidades, empresas, empregadores, empregados, fornecedores, consumidores e grupos de cidadãos. Além disso, de- vemos atentar, dentro do paradigma da sustentabilidade, para aspectos como: • a questão energética; • a gestão da água; • a agricultura; • a exploração florestal. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 32 Nesse contexto, ressaltamos a importância da criação do Business Council for Sustainable Delevopment (BCSD), ou Conselho de Negócio para o Desenvolvimento Sustentável, no final de 1990, por um grupo de líderes em- presariais mundiais,o qual discute temas fundamentais para o processo de implantação do desenvolvimento sustentável, tais como: • o valor estratégico do conceito de desenvolvimento sustentável na gestão empresarial; • a educação para a sustentabilidade; • a produção e o consumo sustentáveis; • as parcerias envolvendo governo, empresas e sociedade civil. É nesse cenário que a gestão socioambiental busca instaurar-se como mo- dus operandi para incluir e implantar novas formas de pensar a ecologia, o meio ambiente, o ser humano, a sociedade e as múltiplas inter-relações resultantes da compreensão da interdependência que existe entre todos os seres, fatos e universos. S í n t e s e A f i n a l , o q u e s i g n i f i c a a g e s t ã o s o c i o a m b i e n t a l e qual o seu significado para a sociedade? Esse é o tema que fundamenta e per- corre toda esta obra. Podemos dizer que todos os temas que abordaremos na sequência são aspectos da gestão socioambiental. Ela envolve procedimentos técnico-administrativos, mas é de fundamental importância entender que so- mente se torna viável de fato quando é assimilada e compreende a vida a partir de sua pluralidade, dos sistemas, dos ciclos, das intersecções, do movimento conjunto dos universos de práticas e de saberes. Portanto, ao concluirmos esse traçado inicial do estudo que faremos nesta obra, em um percurso no qual fomos buscar os passos (os fatos) e os parâmetros que foram trazidos ao século XXI, sob o signo da gestão socioambiental, devemos ressaltar que a maioria dos países desenvolvidos permanecem fiéis a seus padrões tecnológicos de produção e de consumo, o que ocasiona uma forte pressão consumista e provoca o desgaste dos recursos naturais, enquanto a maioria da população dos países em desenvolvi- mento encontra-se carente das necessidades mínimas e básicas. Nesse contexto, as empresas passam a ter enormes responsabilidades, em um processo de gestão que não poderá se dissociar das premissas de inserção na coletividade, ao mesmo tempo respondendo pela condição de sobrevivência das futuras gerações e não apenas pela preservação* de ambientes isolados ou de espécies específicas. * Preservação: é a proteção rigorosa de determinadas áreas e de recursos naturais considerados de grande valor como patrimônio ecológico ou paisagístico. Não se admite qualquer intervenção humana no local protegido. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 33 Q u e s t õ e s p a r a r e f l e x ã o 1. O que você considera necessário para que haja uma efetiva reformulação nos processos de produção, consumo e preservação ambiental? 2. Estamos constantemente ouvindo ou lendo informações sobre o efeito estufa, sobre o caos previsível do clima na Terra. Obviamente, é necessá- rio filtrar e buscar mais conhecimento sobre o assunto. No entanto, uma coisa é certa: estamos enfrentando os efeitos de processos poluidores da nossa civilização. Nesse contexto, como você pode ler em texto do site Portal Vegetariano Natureba: o metano, gás do efeito estufa, responde por um terço do aquecimento do planeta. A sua capacidade de reter calor na atmosfera é 23 vezes maior que a do gás carbônico. Cerca de 28% das emissões mundiais desse gás vêm da pecuária. O gado envia milhões de toneladas anuais de metano para a atmosfera (ruminação, fermentação intestinal, es- terco). O metano também é liberado na queima de gás natural, em campos de arroz inundados, em aterros e lixões (decomposição de resí- duos orgânicos), no esgoto, na queima do carvão e de material vegetal, entre outros. O metano permanece ativo na atmosfera por 12 anos. Segundo relatório da FAO (nov. 2006), a pecuária prejudica mais o am- biente que os carros. (Portal Vegetariano Natureba, 2011, grifo do original) O referido site, além da preocupação planetária, advoga a causa vegetariana como parte da solução para o problema. Você concorda com isso? A alimenta- ção vegetariana é uma alternativa para diminuir a poluição? Já pensou sobre o desperdício (lixões produzindo metano)? Já pensou sobre a falta de cuidado com o meio ambiente (lixos depositados nos mais diversos espaços, provocando toda sorte de interferência no ambiente)? Q u e s t õ e s p a r a r e v i s ã o 1. De forma resumida, como você definiria a visão biocêntrica do meio ambiente? 2. Qual o principal fator que não está relacionado à conscientização ambien- tal, mas que tornou a inclusão da variável ambiental uma necessidade nas políticas de gestão das organizações? 3. Leia atentamente as afirmativas a seguir e assinale “V” quando forem verdadeiras e “F” quando forem falsas: ( ) A realidade e/ou concepção da qual advém o conceito de meio ambiente compreende o espaço em que os seres vivos estão inseridos, as florestas, os animais, as bactérias, os fungos e as algas, entre outros. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. sousa Texto digitado É a visão oriunda da concepção de que o meio compreende a natureza,nullo ser humano, o meio social e a utilização dos recursos naturais. sousa Texto digitado A variável ambiental está sendo incorporada aos modelos de gestão,nullpor razões de ordem econômica e pelas vantagens competitivasnulladvindas dessa postura. 34 ( ) As interações entre as mesmas espécies constituem o que se denomina de comunidade biológica ou comunidade da vida. ( ) Assim como não existem diferenças entre as populações e as comu- nidades, não existe, de acordo com o critério da ecologia das comu- nidades, a necessidade de se estudar as espécies por grupos – basta o estudo por indivíduos. ( ) O fato de as relações não serem estáticas ou rígidas, mas flexíveis e em permanente transformação, corresponde à característica dinâmica dos subsistemas que formam o meio ambiente. A sequência correta é: a. V, F, V, F. b. V, V, V, F. c. V, V, F, V. d. F, V, F, V. 4. Assinale a alternativa correta: Com base na opinião de Jollivet e Pavé (1996) relacionada à ecologia, po- demos dizer que: a. ecologia é o estudo da relação dos seres vivos entre si e com o meio em que vivem. b. a ecologia, uma vez inserida na concepção de meio ambiente, deve ter seu conceito reinventado. c. ecologia é o estudo das relações do homem com seu meio moral, social e econômico. d. a ecologia trata dos aspectos referentes à natureza, esta compreendida como herança sociocultural da sociedade. 5. O conceito de meio ambiente passou por várias reformulações, em um processo de abrangência gradativa. Nas assertivas a seguir, assinale “V” (verdadeiro) e “F” (falso), considerando que esses conceitos são de caráter biológico: ( ) Meio ambiente é a comunidade biológica na qual os seres vivos pro- movem uma interação com o meio, ou seja, as plantas, os animais e todos os organismos vivos. ( ) O meio ambiente compreende o mundo biótico e abiótico: um é rela- tivo à vida e pertence aos seres vivos, às comunidades e às populações; o outro, aos aspectosfísico-químicos. ( ) Meio ambiente é o meio físico, químico e biológico de qualquer orga- nismo, vivo ou não. 6. A Lei Federal n. 6.938/1981, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente no Brasil, define a expressão meio ambiente como “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. sousa Realce sousa Realce sousa Texto digitado F sousa Texto digitado V sousa Texto digitado V 35 que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”. Considerando esse parâmetro legal, assinale a única alternativa correta: a. O meio ambiente foi considerado como um espaço em que se estabe- lece um vínculo de interação do ser humano como parte integrante desse meio. b. A biosfera foi definida como o elemento que estabelece uma integração entre todos os seres que a compõem. c. O ser humano, embora tenha vida, não foi inserido no conceito de meio ambiente. d. O meio ambiente pode ser conceituado como o resultado da combi- nação dinâmica dos subsistemas biológico, físico-químico e social-hu- mano que, em determinada porção do espaço, tempo e momento social, compõem um conjunto único e indissociável. 7. Nas afirmativas a seguir, assinale “V” para as verdadeiras e “F” para as falsas. Quando afirmamos que o resultado das ações antrópicas é muito mais abrangente e drástico que aquele somente de origem natural, pois o ser humano tem condições de alterar as tendências da natureza, estamos: ( ) considerando o homem como parte integrante do meio ambiente. ( ) incluindo os constituintes da natureza, além da humanidade e toda a trama de relações estabelecidas a partir das interações que resultam de tais contatos como elementos constitutivos do meio ambiente. ( ) optando pela concepção sistêmica de meio ambiente. ( ) inferindo uma situação própria da concepção antropocêntrica. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. sousa Realce sousa Texto digitado V sousa Texto digitado V sousa Texto digitado V sousa Texto digitado V sousa Texto digitado F Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. c a p í t u l o 2 A gestão ambiental e a responsabilidade social Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. C o n t e ú d o s d o c a p í t u l o : • Concepção sistêmica de meio ambiente; • Variável ambiental; • Concepção de gestão socioambiental; • Dimensões da gestão socioambiental. A p ó s o e s t u d o d e s t e c a p í t u l o , v o c ê s e r á c a p a z d e : • compreender os princípios da gestão socioambiental; • estabelecer paradigmas de abordagens ecológicas dos processos de gestão; • identificar os fatores que provocam impacto ambiental; • identificar as bases legais que fundamentam a inclusão da variável ambiental nas atividades de gestão. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 39 S e v o c ê e x a m i n a r c e r t o s a s p e c t o s r e l e v a n t e s d a p r o - blemática ambiental, do ponto de vista da relação sociedade-natureza, terá a oportunidade de analisar a questão ambiental baseada na interação entre os meios social e físico-natural, com uma abordagem e uma visão holística e sis- têmica de mundo. Essa visão requer que a gestão ambiental e a responsabilidade social mostrem à sociedade suas correlações. Nesse processo, alguns procedimentos são impor- tantes para os atores sociais, os quais, após as discussões de assuntos como os apresentados nesta obra, devem comprometer-se com a manutenção e com a melhoria do meio ambiente. Nesse cenário: • os ambientalistas devem consolidar as conquistas e conferir maior consis- tência às propostas, tanto técnica como politicamente – o pragmatismo continua; • os técnicos e os gestores governamentais devem integrar as políticas am- bientais de gestão às outras áreas políticas e administrativas dos governos – devem atuar nas interfaces; • os empresários têm as tarefas de buscar a ecoeficiência e de utilizar os pa- drões ambientais como incentivos às estratégias de competitividade, bem como de enfrentar os desafios das pequenas e médias empresas e alertar para uma política ambiental e de responsabilidade social; • os pesquisadores, por meio dos centros de pesquisa e das universidades, devem produzir o conhecimento e as tecnologias que o desenvolvimento sustentável requer e, desse modo, formar quadros técnicos; • os parlamentares, no âmbito governamental, têm a obrigação de defen- der os interesses nacionais nessa área e de garantir as institucionalidades conquistadas, bem como de responder às demandas da sociedade; • os movimentos sociais devem comprometer-se com o combate à pobreza e com a promoção do desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente equilibrado, isto é, praticar a justiça ambiental. Responsabilidade social é isso: o envolvimento de todas as pessoas e de todos os setores na gestão ambiental. Aliás, considerando o fato de ser complicado e até mesmo impossível viver sem os outros elementos do meio, estamos falando de decisões que influenciam grandemente a qualidade de vida da raça humana. No caso específico desta obra, o foco é a população brasileira e/ou o espaço Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a utora is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 40 físico do Estado brasileiro. No entanto, é importante observarmos que as ações realizadas no nosso país têm reflexo nos demais espaços geográficos e sociais do planeta (e vice-versa), uma vez que a natureza é intercomunicante, tenhamos ou não a visão holística e sistêmica do processo ambiental. Perguntas e respostas O que significa uma abordagem e/ou uma visão holística e sistêmica? Se você consultar o Dicionário Houaiss de língua portuguesa, irá encontrar o termo holismo, substantivo do qual deriva o adjetivo holística, cujo significado é o seguinte: “no campo das ciências humanas e naturais, abordagem que prioriza o entendimento integral dos fenômenos, em oposição ao procedimento analítico em que seus componentes são tomados isoladamente [Por ex., a abordagem so- ciológica que parte da sociedade global e não do indivíduo.]” (Houaiss; Villar; Franco, 2001). Contudo, ao atribuirmos a concepção sistêmica à visão ambiental, estamos con- siderando que o meio ambiente é constituído por um grupo de componentes que se inter-relacionam de tal forma que as mudanças de um podem afetar alguns ou todos os demais componentes. Nesse contexto, é oportuno recorrermos à definição de Boff, citado por Nigro (2011, p. 23), segundo a qual “sistema significa um conjunto articulado de inter-retro-relacionamentos entre partes constituindo um todo orgânico. Ele é mais do que as próprias partes, um sistema dinâmico sempre buscando seu equilíbrio e se autorregulando permanentemente”. E, assim como Nigro (2011) afirma que “a concepção sistêmica da vida percebe a mente e a consciência como processos, e não como coisas”, o mesmo podemos dizer em relação à gestão ambiental, pois “refere-se à técnica dos sistemas com- plexos”. Nessa concepção, sistemas são considerados “[estruturas que se organi- zam] [...] com base em conjuntos de unidades inter-relacionáveis por dois eixos básicos: o eixo das que podem ser agrupadas e classificadas pelas características semelhantes que possuem; e o eixo das que se distribuem em dependência hie- rárquica ou arranjo funcional” (Houaiss; Villar; Franco, 2001). 2 . 1 D i m e n s õ e s d a g e s t ã o S e c o n s i d e r a r m o s a s c o n c e p ç õ e s v i s t a s n o t ó p i c o anterior, a partir do momento que optarmos por inserir a variável ambiental no processo de gestão de uma organização, é interessante observar que ela se interliga às demais, como, por exemplo, as variáveis econômica, tecnológica, competitiva, cultural, demográfica, sociocultural e político-legal. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 41 Além disso, esse sistema complexo constitui-se no que denominamos de meio ambiente, que é o cenário, ou melhor, a realidade na qual se desenrola a vida da organização e de todos os interessados e envolvidos com ela (denominados na linguagem administrativa de stakeholders). Nascimento, Lemos e Mello (2008, p. 19), com base em uma visão relativa à gestão de negócios, referem-se a esse contexto, dizendo que A gestão socioambiental estratégica (GSE) de uma organização consiste na inserção da variável socioambiental ao longo de todo o processo gerencial de planejar, organizar, dirigir e controlar, utili- zando-se das funções que compõem esse processo gerencial, bem como das interações que ocorrem no ecossistema do mercado, visando a atingir seus objetivos e metas da forma mais sustentável possível. Como você pode perceber, nessa incorporação da variável ambiental ao pro- cesso de gestão, obviamente há a absorção do princípio da sustentabilidade. Este, por sua vez, pela concepção sistêmica em que está inserido, agrega ao gerencia- mento, além de fatores ambientais com seus possíveis impactos, também fatores sociais, econômicos, político-institucionais, de informação e de conhecimento (histórico, cultural e tecnológico). Portanto, existe a necessidade de especificarmos, baseados na Agenda 21 (Ecol News, 2011), os aspectos pontuais dessas dimensões, quando incorpora- dos em um projeto ou planejamento organizacional, para então descrevermos o contexto ambiental. • Aspectos de responsabilidade da gestão que são caracterizados pela dimensão social: • reduzir as desigualdades entre as pessoas situadas nos diferentes ní- veis de renda; • combater a pobreza; • promover a seguridade social; • criar e prestigiar atividades educacionais e culturais de estímulo à sustentabilidade; • promover ações que visam ao bem-estar da comunidade. • Aspectos de responsabilidade da gestão que são caracterizados pela dimensão econômica: • transformar padrões de produção e de consumo; • inserir a organização no espaço competitivo; • promover a geração de empregos e de renda; • gerar condições de acesso à habitação. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 42 • Aspectos de responsabilidade da gestão que são caracterizados pela dimensão político-institucional da organização: • tomar decisões que permitam a integração entre meio ambiente e desenvolvimento; • estabelecer instrumentos reguladores e de descentralização da gestão; • estimular a cooperação, os trabalhos em parceria, as atitudes que vi- sem ao desenvolvimento sustentável e à democratização das decisões. • Aspectos de responsabilidade da gestão que são caracterizados pela dimensão da informação e do conhecimento: • promover oportunidades de capacitação e de conscientização para desenvolver a sustentabilidade na organização e em seu entorno; • disponibilizar a difusão e a transferência de tecnologia na organização, participando do desenvolvimento tecnológico de modo cooperativo; • promover o acesso à informação adequada para as tomadas de decisão; • desenvolver ações que propiciem a geração, a absorção, a adaptação e a inovação do conhecimento. Você pode concretizar todos esses aspectos no âmbito de uma organização, como também pode considerá-los no âmbito regional, nacional ou mundial. Se pesquisar na Agenda Global 21, verá que esse documento estabeleceu quatro objetivos irradiadores das ações por um planeta sustentável, que, em princípio, são os estímulos da gestão socioambiental. Esses quatro objetivos são: 1. reduzir pela metade a proporção das pessoas que não têm acesso à água potável ou ao saneamento* básico até 2015; 2. recuperar as áreas pesqueiras até 2015; 3. reduzir a perda da biodiversidade até 2010; 4. estabelecer um cronograma de ações de modo que se possa usar e pro- duzir produtos químicos que não agridam a saúde humana e o ambiente natural até 2020. Essas são, com certeza, metas ambiciosas e exigem de cada país um esforço conjunto de seus órgãos estatais e empresas privadas. No Brasil, todo o processo é desenviolvido pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), pois envolve polí- ticas públicas deorientação, de fiscalização e de estímulo à prática de ações que atendam a essa proposta ecológica ou ambientalista. * Saneamento: controle de todos os fatores do meio físico do homem que exercem ou podem exercer efeito nocivo sobre seu bem-estar físico, mental ou social. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 43 Consultando a legislação As competências do MMA, definidas na Lei n. 10.683, de 28 de maio de 2003 (Brasil, 2003a), e mantidas pelo Decreto n. 6.101, de 26 de abril de 2007 (Brasil, 2007a), estão em sintonia com os objetivos vistos. Senão, vejamos: Capítulo I Da natureza e competência Art. 1º O Ministério do Meio Ambiente, órgão da administração pública federal direta, tem como área de competência os seguintes assuntos: I – política nacional do meio ambiente e dos recursos hídricos; II – política de preservação, conservação e utilização sustentável de ecossistemas, e biodiversidade e florestas; III – proposição de estratégias, mecanismos e instrumentos econômicos e sociais para a melhoria da qualidade ambiental e o uso sustentável dos recursos naturais; IV – políticas para a integração do meio ambiente e produção; V – políticas e programas ambientais para a Amazônia Legal; e VI – zoneamento* ecológico-econômico. Uma questão que nos leva a sérias ponderações é a terceira meta da Agenda Global 21: reduzir a perda da biodiversidade até 2010. Esse ano já chegou, já passou e, considerando o que ocorre em nosso país, podemos dizer que atin- gimos essa meta? Quais são os reais indicadores da biodiversidade? Você está informado a respeito? 2 . 2 A v a r i á v e l a m b i e n t a l e o s e u e n f r e n t a m e n t o A s p r o p o s t a s , o s o b j e t i v o s e a s m e t a s t r a ç a d a s s ã o promissores; no entanto, diariamente os trabalhadores de órgãos de gestão am- biental (prefeituras, órgãos estaduais e municipais de meio ambiente, e o Ibama), bem como os militantes de entidades da sociedade civil que atuam na área (ONGs ambientalistas, movimentos sociais, associações comunitárias, entidades de classes etc.), costumam tomar conhecimento de agressões e de ameaças ao meio ambiente. Nesse contexto, é importante destacarmos que de várias formas e de várias fontes chegam denúncias e informações de: * Zoneamento: é a divisão de um território de acordo com os critérios e normas de uso e as formas de ocupação do solo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 44 • desmatamentos ilegais; • aterramentos de manguezais; • derramamentos de óleo no mar; • pesca predatória; • tráfico de animais silvestres; • lixões; • lançamento de esgoto doméstico e industrial sem tratamento no mar e nos rios; • destruição das nascentes; • funcionamento de empreendimentos potencialmente poluidores sem licença ambiental. Essas são algumas das situações, mas há outras ocorrências que colocam em risco a integridade dos ecossistemas e interferem de forma negativa na qua- lidade de vida das populações localizadas em ambientes assim impactados ou degradados. 2 . 2 . 1 Dif i cu ldades para cumpr ir a l eg i s l a ção ambienta l H á c a s o s e m q u e o s p r ó p r i o s t r a b a l h a d o r e s o b s e r v a m as agressões ao meio ambiente no percurso diário de casa para o trabalho. Muitas vezes, surge um sentimento de angústia e de impotência dos cidadãos (técnicos ou não) diante das dificuldades e do tamanho dos problemas. Os técnicos ambientais dos órgãos públicos convivem com uma série de di- ficuldades para cumprir a legislação ambiental. São obstáculos de toda ordem, que vão desde a falta crônica de condições de trabalho (meios materiais, equipe técnica adequada, recursos financeiros, instalações, acesso às informações técni- cas, apoio da chefia etc.) até a ausência pura e simples de vontade política dos governantes para tornar esses órgãos presentes e atuantes na realidade social. Apesar de todos os esforços para vencerem as barreiras e “brigarem para tra- balhar”, muitas vezes esses técnicos são rotulados de “corruptos”, “perseguidores dos ‘pequenos’” (com comentários do tipo “eles não mexem com os grandes”), “incompetentes”, “omissos” e “descomprometidos” com a causa ambiental. Diante disso, sentem-se incompreendidos e injustiçados, principalmente pelas críticas aos órgãos ambientais, os quais, em muitos casos, não levam em consideração as dificuldades e os esforços dos seus servidores. Um discurso comum no meio é: “de tanto apanhar, em certas horas a vontade é de desistir”. Por outro lado, quando esses técnicos atuam em entidades da sociedade civil, deparam-se, em muitos casos: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 45 • com a omissão, a incapacidade e, às vezes, a conivência dos órgãos públicos; ou • com a indiferença, a incompreensão e o desinteresse de parte da po- pulação diante das ameaças e das agressões ao meio ambiente. Como se não bastasse, há situações em que as autarquias também não se entendem: é o chamado jogo de empurra. Isso significa que determinado órgão, quando cobrado para tomar providência em relação a determinado fato, diz que tal assunto é de competência de outro órgão; este, por sua vez, discordando ou alegando falta de condições, “passa o problema para frente”, “senta em cima”, ou ainda, “devolve a batata quente” ao remetente. Enquanto isso, nada se resolve – o agressor continua levando vantagem e a degradação ambiental continua cres- cendo cada vez mais. O mais complicado, nessa conjuntura, é que existem muitos problemas ambien- tais cuja solução exige a participação de vários segmentos do setor público. É o caso de várias questões envolvendo as áreas costeiras, as quais demandam a in- terferência da Secretaria de Patrimônio da União (responsável pela gestão dos terrenos da Marinha), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama (responsável pela gestão ambiental dos bens da União) e do órgão estadual de meio ambiente, quando a infração se der em área fora da jurisdição das intituições citadas. Entretanto, nos órgãos públicos há servidores profundamente comprometi- dos com a causa ambiental, e na sociedade civil existem muitas entidades que, mesmo reconhecendo as fragilidades, as limitações e os defeitos do nosso serviço público, lutam por seu fortalecimento e buscam trabalhar em parceria, deixando de lado a competição. Perguntas e respostas As ações compartilhadas são comuns? Você provavelmentejá percebeu que as questões aqui abordadas evidenciam a complexidade da problemática ambiental, e pode vir a pensar: “Isso é muito bom e muito bonito, mas muito difícil de acontecer na realidade”. Sobre isso, não há dúvida. Entretanto, também sabemos que em muitos lugares a parceria poder Os técnicos ambientais dos órgãos públicos convivem com uma série de dificuldades para cumprir a legislação ambiental. São obstáculos de toda ordem, que vão desde a falta crônica de condições de trabalho [...] até a ausência pura e simples de vontade política dos governantes para tornar esses órgãos presentes e atuantes na realidade social. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 46 público-sociedade civil acontece. O que procuramos evidenciar é o caminho de busca por formas participativas de contribuir para os processos de gestão ambien- tal, em que a sociedade civil e os órgãos públicos trabalhem preferencialmente em ações compartilhadas e a partir de objetivos comuns. Com isso, não é possível pensarmos, em meio a uma sociedade democrática, na prática da gestão ambiental sem a presença do Estado e da sociedade civil. Daí vem a convicção de que, no terreno da gestão ambiental, Poder Público e sociedade civil não se opõem, mas se complementam. No entanto, um trabalho dessa natureza não acontece em um passe de mágica, assim como não há receitas prontas para sua realização. Sua efetivação exige das pessoas e das organizações envolvidas: objetivos comuns, compromisso com a causa ambiental, transparência, humildade e posturas negociadoras. Todos esses fatores podem ser considerados condições necessárias para “início de conversa”. Entretanto, mesmo que essas condições estejam estabelecidas, deve-se considerar ainda a necessidade daqueles profissionais diretamente envolvidos nos trabalhos. São pessoas que precisam, necessariamente, de conhecimentos e de habilidades para realizarem a tão sonhada parceria Poder Público – sociedade civil. 2 . 2 . 2 A questão ambienta l C o n s i d e r a m o s , n o c e n á r i o q u e a c a b a m o s d e e s b o ç a r , que, na “busca por formas” eficientes (que respondam às expectativas da socie- dade), o primeiro passo é o enfrentamento, a delimitação do problema, ou melhor dizendo, suas interligações. Afinal, qual é a questão ambiental? Sobre isso, é bastante ilustrativa a história contada por Morin, citado por Quintas (2000b): Era uma vez um grão de onde cresceu uma árvore que foi abatida por um lenhador e cortada numa serração. Um marceneiro trabalhou-a a um vendedor de móveis. O móvel foi decorar um apartamento e, mais tarde, deitaram-no fora. Foi apanhado por outras pessoas que o venderam numa feira. O móvel estava lá no adeleiro, foi comprado barato e, finalmente, houve quem o partisse para fazer lenha. O móvel transformou-se em chama, fumo e cinzas. O autor citado reclama para si – na condição de sujeito –, diante dos fatos, que lhe seja facultada a oportunidade de reflexão, de pensar sobre o processo que levou à sequência narrativa, dizendo: “Eu quero ter o direito de refletir sobre esta história, sobre o grão que se transforma em árvore que se torna móvel e acaba no fogo, sem ser lenhador, marceneiro, vendedor, que não veem senão um segmento da história” (Quintas, 2000b). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 47 Esse posicionamento – ou desejo – do autor corresponde diretamente a seu modo de pensar a “questão ambiental” como a define Quintas (1992): de que ela se refere aos diferentes modos pelos quais a sociedade se relaciona com o meio físico-natural ao longo dos tempos. Sobre isso, deve-se destacar, acompanhando a justificativa dada por Quintas para essa assertiva, alguns aspectos básicos da relação do ser humano com o meio físico-natural: • o ser humano sempre dependeu do meio físico-natural para sua sobrevivência; • ao longo de sua história, a humanidade contou sempre com o auxílio do meio físico-natural; • o uso do meio físico-natural e as alterações decorrentes desse uso como fator fundamental e essencial, para a sobrevivência dos seres humanos, remonta às origens destes no planeta. Logo, podemos relacionar o tratamento dado à questão ambiental em diferentes momentos ou espaços da história com base em modelos de ges- tão ambiental. Esses modelos revelam as mudanças radicais de diversas visões, conforme visto no Capítulo 1, pelas quais passaram o se humano e a natureza: • uma vem do antropocentrismo, ou seja, o ser humano como ser supremo sobre as demais espécies e seres do planeta; • a outra – na qual fundamentamos esta obra – é uma visão fundamen- tada no biocentrismo; nesta, o ser humano e a natureza encontram-se no mesmo nível, pois suas relações e inter-relações são igualitárias. Isso comprova a afirmação de Quintas (1992), quando o autor diz ser o meio ambiente o resultante, aquilo que emerge dessas relações, tanto dos seres entre si como destes com o meio físico-natural. Assim, o meio ambiente agrega o trabalho do ser humano para ser construído e reconstruído e, portanto, para ter existência concreta como a conhecemos hoje. É evidente que o meio ambiente passou e passa continuamente por trans- formações de ordem físico-natural e também humana. Por exemplo, as cidades e as metrópoles são consideradas ecossistemas artificiais, ou seja, criados pelo homem, mas não deixam de ser locais de interações do homem com a natureza, mesmo que modificada. Esse meio físico-natural, abordado por Quintas (1992), comprova o fato de que a gestão ambiental não é um problema de administração das relações do homem com a natureza, mas um processo de constantes mudanças nos pa- radigmas socioambientais, os quais necessitam urgentemente de uma ruptura para provocar modificações nos processos de gestão. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 48 2 . 2 . 3 O homem natura l e soc ia l O m e i o n a t u r a l e o m e i o s o c i a l s ã o f a c e s d e u m a m e s m a moeda, na concepção de Quintas e Gualda (1995), e, desse modo, indissociáveis. Os referidos autores consideram o homem como parte integrante da natureza e também um ser social; logo: detentor de conhecimentos e valores socialmente produzidos ao longo do processo histórico, tem [consequentemente] ele o poder de atuar permanentemente sobre sua base natural de sustentação (material e espiritual), alterando suas propriedades, e sobre o meio social provo- cando modificações em sua dinâmica.(Quintas; Gualda; 1995, p. 26) Assim, o fator que distingue esse ser simultaneamente social e integrante da natureza é o conhecimento, ferramenta que lhe permite modificar a ordem socioambiental. Isso se realiza por meio de um processo em que o sujeito opera a transformação dos valores e das competências, integrando-os ao meio ambiente e modificando este conforme a sua – do sujeito – própria necessidade. Sobre essa interação, Quintas e Gualda (1995) afirmam que, ao se construir e reconstruir o meio ambiente, sob a ação do homem, são criadas e recriadas novas formas de relacionamento deste com a natureza e com a própria sociedade. Os autores destacam o fato de que é na dinâmica dessas relações que o ser humano: desenvolve a criação e a produção de bens materiais, estabelece valores e modos de pensar, promove percepções de mundo e elabora interações com a natureza e com os outros seres humanos. Esse panorama, por sua vez, constitui o patrimônio cultural* construído pela humanidade ao longo de sua história. Os autores advertem ainda sobre a concepção de que a questão ambiental diz respeito apenas à relação sociedade-natureza, afirmando não ser ela suficiente para direcionar um processo de análise e de reflexão que permita a compreensão desse relacionamento em toda a sua complexidade. Assim, no que diz respeito a essa relação, a descrição de um panorama possível de ser compreendido em suas inter-relações pressupõe pré-requisitos elucidativos ou concepções balizadoras: • o primeiro requisito encontra-se na postura de assumir que, nesse con- texto, a construção do conhecimento é realizada sob a ótica dos pro- cessos ocorridos na sociedade, e não no meio físico-natural; • o segundo requisito elucidativo refere-se à compreensão do significado do primeiro, ou seja, ao fato de ser necessário analisar o processo sob a * Patrimônio cultural: é o conjunto de bens materiais, culturais, simbólicos e espiri- tuais de uma sociedade, nos quais se incluem os conjuntos urbanos, arquitetônicos e os sítios de valor histórico, paisagístico, arqueológico, paleontológico e científico. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 49 ótica da sociedade como um todo, pois, em decorrência desse fator, a chave do entendimento da problemática ambiental encontra-se no mundo da cultura; • a terceira concepção norteadora diz respeito à compreensão de que, em- bora a chave esteja no mundo da cultura, o conhecimento do meio físico-natural é extremamente importante, pois possibilita que se verifi- quem as implicações da ação do ser humano no meio natural e o seu reflexo nesse próprio meio e no meio social, uma vez que estes são indissociáveis. O que se infere desse panorama é que as práticas do meio social tam- bém contribuem para determinar a natureza dos problemas ambientais, os quais, no retorno e como resultado, afligem a humanidade. Todos esses elementos compõem a conjuntura que produz a necessidade da prática da gestão socioambiental. 2 . 3 M e i o s o c i a l O s a s p e c t o s v i s t o s p e r m i t e m - n o s c o n c l u i r q u e a s p r á - ticas do meio social constituem-se fatores provocadores das mudanças (positivas ou negativas) na qualidade do meio ambiente. Portanto, é necessário entendermos certas noções sobre o meio social. Para isso, é preciso olhá-lo “por dentro”, o que significa integrar-se no processo, observar e absorver o movimento da sociedade com todas as suas variáveis – ou seja, contextualizar-se. 2 . 3 . 1 Aspec tos he te rogêneos A o c o l o c a r m o s o f o c o n o c o n t e x t o p r á t i c o d a v i d a , l o g o descobrimos que o meio social não é homogêneo. Assim, da mesma maneira que nos referimos à biodiversidade, quando o tema é o ambiente físico-natural, também é legítimo atentarmos para a sociodiversidade, a fim de caracterizar o meio social. • Sociodiversidade é um conceito cuja abrangência vai desde a concepção ecológica até as concepções baseadas em mecanismos de adaptação cultural: • a concepção ecológica refere-se a situações em que as funções, as atividades ou os papéis são assimilados com o objetivo de proporcio- nar a fixação ou a permanência de uma espécie ou de uma população; • as concepções baseadas em mecanismos de adaptação cultural referem-se a procedimentos de seleção e de elaboração de estratégias com fundamentação cultural, possibilitando a atuação das comunida- des humanas sobre os recursos do meio ambiente. Isso é realizado de maneira a conservar as formas tradicionais de interação entre o homem Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 50 e o meio, portanto, preservando a cultura dos variados povos existentes, em determinadas regiões ou mesmo no planeta como um todo. No enfrentamento das questões ambientais, é importante refletirmos sobre esses conceitos, pois eles se encontram interligados nas ações que buscam con- cretizar a inclusão das variáveis ambiental e social nos programas de gestão, como você poderá observar ao longo deste nosso estudo e na vida prática. Perguntas e respostas Você poderia resumir o significado de sociodiversidade? Resumindo, o termo sociodiversidade compreende aspectos de adaptação do ser humano à paisagem física e de como esta interfere nas organizações sociais, bem como aspectos referentes a distintas manifestações culturais forjadas pela ação humana em diferentes ecossistemas. Logo, socio + diversidade = sociodiversidade, isto é, a diversidade das culturas sociais. Hete rogene idade organizac ional : a soc iodive rsidade Esse meio social a que nos referimos, que envolve todas essas interligações relativas à sociodiversidade, se observado pela ótica da organização, possibilita que encon- tremos os seus atores na esfera da sociedade civil e do Estado, os quais passam a ter existência com base em variados motivos. Entre eles: • interesses; • valores; • necessidades; • aspirações; • ocupação do mesmo território. Nessa conjuntura socioambiental, é interessante atentarmos para a visão que o economista indiano Vinod Thomas, ex-diretor do Banco Mundial em Brasília, expressa em seu livro O Brasil visto por dentro: o desenvolvimento em uma terra de contrastes, a qual podemos conferir em uma matéria publicada por Léo (2005) e que se resume em: a importância de se pensar o desenvolvimento econômico sem se perder de vista os aspectos socioambientais. O Brasil não pode perder sua chance É justo que as discussões sobre desenvolvimento se concentrem no tema do crescimento econômico, mas “também é importante se concentrar nos as- pectos mais amplos da qualidade de vida, que incluem educação básica, saúde, água, saneamento, habitação e um meio ambiente limpo”, preconiza o econo- mista, que considera indispensável incluir uma parcela maior da população Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lquer m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 51 no processo produtivo, se o Brasil quiser crescer 7% ao ano. “Desse modo, os programas sociais eficazes não serão apenas bons complementos para o cres- cimento, mas também contribuirão para o desenvolvimento”, avisa. Fonte: Léo, 2005. Nesse cenário, observamos que Thomas prognosticava para o Brasil um crescimento promissor de 7% ao ano, em 2005; no entanto, nosso país apresen- tou o diminuto índice de 2,3% naquele ano, ficando à frente apenas do Haiti, na América Latina, enquanto países como Argentina e Venezuela atingiram percentuais na casa dos 9%. Aqui, ocorre-nos uma pergunta: Será que o meio social não recebeu as inferên- cias de que precisaria, como preconizou o autor, para atingir um índice melhor? Devemos nos lembrar de que os atores sociais que interagem nessa conjuntura fazem parte da sociedade civil ou da esfera estatal. Na sociedade civil, encontram-se, como atores sociais: • sindicatos de trabalhadores e de patrões; • federações de trabalhadores e de patrões; • centrais sindicais; • partidos políticos; • grupos organizados por gênero (mulheres), por geração (terceira idade, jovens) e por etnia (negros, índios, descendentes de imigrantes etc.); • associações de moradores, de profissionais, de produtores, assistenciais etc.; • congregações religiosas católicas, evangélicas, espíritas, de candomblé e de umbanda etc.; • clubes; • blocos carnavalescos e escolas de samba; • entidades ambientalistas; • cooperativas e empresas rurais, comerciais, industriais etc.; • bancos; • comunidades de determinadas localidades (como ruas, povoados, vilas, bairros etc.) sem organização formal; • movimentos sociais e outras formas criadas pelos atores sociais para se agruparem e agirem no mundo real. Na esfera estatal, os atores sociais são instâncias dos poderes públicos, assim constituídos: • Executivo – União, estados, Distrito Federal e municípios; • Legislativo – Câmara dos Deputados, Senado Federal, assembleias legis- lativas e câmaras de vereadores; • Judiciário – Federal e Estadual. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 52 No Poder Executivo, encontram-se os órgãos que compõem as administra- ções públicas federal, estadual e municipal (ministérios, secretarias, institutos, fundações, autarquias, empresas públicas, ministérios públicos etc.), das quais fazem parte os integrantes do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama, estabelecido pela Lei Federal n. 6.938/1981). Esse sistema tem como órgãos exe- cutores o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, conforme redação do Decreto n. 6.792, de 10 de março de 2009 (Brasil, 2009a). Consultando a legislação Você que está interessado em compreender as orientações e as determinações legais do Programa Nacional do Meio Ambiente (PNMA), pode informar-se acessando os seguintes sites: • BRASIL. Lei n. 6.938, de 31 de agosto de 1981. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 2 set. 1981. Disponível em: <http://www.planalto.gov. br/ccivil_03/Leis/L6938.htm>. Acesso em: 1º set. 2011. Neste site, você encontrará a referida lei com suas respectivas alterações e acrés- cimos, o que lhe permitirá ver o esboço jurídico da gestão ambiental. • BRASIL. Decreto n. 99.274, de 6 de junho de 1990. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 7 jun. 1990. Disponível em: <http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/decreto/antigos/d99274.htm>. Acesso em: 1º set. 2011. Neste site, você encontrará, entre outras informações, os dados da estrutura do Sistema Nacional do Meio Ambiente. • BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. O ministério. Organograma. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/estruturas/secex_instituicao/_ imagens/88_10122008013203.jpg>. Acesso em: 24 ago. 2011. Nesse site você encontrará a disposição hierárquica dos órgãos do MMA, de acordo com o Decreto n. 6.101/2007. O Sisnama é – de acordo com o Decreto n. 99.274/1990 (Brasil, 1990d), que regulamenta a Lei n. 6.938/1981 (Brasil, 1981b) e as alterações introduzidas pelo Decreto n. 6.792/2009 – constituído pelos órgãos e entidades da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, bem como pelas fundações instituídas pelo Poder Público, responsáveis pela proteção e pela melhoria da qualidade ambiental. Nessa estrutura, encontramos: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 53 • o órgão superior – o Conselho de Governo; • o órgão consultivo e deliberativo – o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama); • o órgão central – o Ministério do Meio Ambiente (MMA); • órgãos executores – o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio); • órgãos seccionais: • os órgãos ou as entidades da administração pública federal direta e indireta; • as fundações instituídas pelo Poder Público cujas atividades estejam associadas às de proteção da qualidade ambiental ou àquelas de dis- ciplinamento do uso de recursos ambientais; • os órgãos e as entidades estaduais responsáveis pela execução de pro- gramas e projetos, pelo controle e pela fiscalização de atividades ca- pazes de provocar a degradação ambiental; • órgãos locais – os órgãos ou as entidades municipais responsáveis pelo controle e pela fiscalização das atividades referidas no item anterior, nas suas respectivas jurisdições. Para saber mais Você já ouviu falar do Instituto Chico Mendes? O professor Antonio Silvio Hendges, no portal EcoDebate (Hendges, 2010), esclareceu que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) é uma autarquia federal vinculada ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), responsável pela administração das unidades federais de conservação, pela execução de pes- quisas e pela proteção e conservação da biodiversidade brasileira. Essa instituição executa as ações da política nacional de Unidades de Conservação (UCs), propõe, implanta, gerencia, protege, fiscaliza e monitora as UCs instituídas pela União e as políticas de uso sustentável dos recursos naturais renováveis e de apoio ao extrativismo e às populações tradicionais nas UCs federais de uso sustentável, bem como exerce o poder de polícia ambien- tal para a proteção das UCs federais. Foi criado por um desmembramento do Ibama, pela Lei n. 11.516, de 28 de agosto de 2007 (Brasil, 2007i). No universo da esfera estatal, é preciso lembrar ainda da existência dos ministérios públicos (o Federal, os dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios), pois eles têm desempenhado umpapel fundamental na proteção do meio ambiente do país. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 54 Figura 2.1 – Organograma do Ministério do Meio Ambiente (Decreto n. 6.101/2007) Órgãos de assistência direta e imediata ao ministro de Estado Órgãos específicos singulares Departamento de fomento ao desen- volvimento sustentável Departamento de Políticas para Combate ao Desmatamento Departamento de Articulações de Ações da Amazônia Departamento de Economia e Meio Ambiente Órgãos colegiados Entidades vinculadas Gabinete Assessoria de Assuntos Internacionais Consultoria Jurídica Ministro do Estado Departamento de Gestão Estratégica Secretaria Executiva Departamento de Apoio ao Conama Subsecretaria de Planejamento Orçamento e Administração Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental Secretaria de Biodiver- sidade e Floresta Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano Secretaria de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental Serviço florestal brasileiro Conselho Nacional de Meio Ambiente Conama Conselho nacional da Amazônia legal Conamaz Conselho de Gestão do Patrimônio Genético Conselho Nacional de Recursos Hídricos CNRH Conselho Deliberativo do Fundo Nacional do Meio Ambiente Comissão de Gestão de Florestas Públicas Comissão Nacional de Florestas Conaflor Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis Ibama (AUTARQUIA) Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade INSTITUTO CHICO MENDES (AUTARQUIA) Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro JBRJ (AUTARQUIA) Agência Nacional de Águas ANA (AUTARQUIA) Campanha de Desenvolvimento de Barcarena Codebar (EMPRESA PÚBLICA) Fonte: Brasil, 2011f. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 55 Aliás, um fato que expõe de forma clara essa situação, por ser amplamente di- vulgado, é o julgamento da questão da reserva Raposa Serra do Sol, uma disputa de terras entre índios e colonos de Roraima, como você pode acompanhar na notícia da Agência Estado transcrita a seguir. STF começa a julgar disputa na Raposa Serra do Sol Distantes fisicamente dos conflitos entre índios e arrozeiros em Roraima por causa da reserva Raposa Serra do Sol, os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) começam a decidir hoje [27 ago. 2008] a extensão e o formato da reserva indígena. Cientes da situação de tensão na área, os ministros do STF tentam costurar uma decisão que não desagrade muito aos índios e também aos arrozeiros que se instalaram na região. [...] Além de resolver o problema da demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, o julgamento servirá de base para outros processos que tramitam no STF há anos. Três ministros do Supremo já disseram que o tribunal deverá definir uma regra geral para as demarcações. Atualmente, tramitam no STF nada menos que 144 processos sobre terras indígenas. Esses processos discutem a posse de terras cujo tamanho total não é conhecido por autoridades dos órgãos envol- vidos no debate – Supremo, Ministério Público, Advocacia-Geral da União (AGU) e Fundação Nacional do Índio (Funai). Algumas dessas autoridades deverão falar durante o julgamento de hoje. O advogado-geral da União, José Antonio Dias Toffoli, vai defender a demarcação contínua da Raposa Serra do Sol. Segundo a Advocacia-Geral da União, mesmo com a demarcação da terra indígena, será preservada a economia do Estado. Fonte: STF começa..., 2008. Hete rogene idade do meio soc ia l : os conf l i tos soc ia i s e po l í t i cos O u t r o f a t o r q u e f i c a e v i d e n c i a d o n o r e l a t o a n t e r i o r (reserva Raposa Serra do Sol) são os conflitos sociais e políticos que envolvem o enfrentamento de questões relativas ao meio ambiente, considerando a visão sistêmica da referida concepção. Aliás, uma evidência da heterogeneidade do meio social, segundo Santos (2003), são os conflitos sociais e políticos que ocorrem no cotidiano. Os autores Bobbio, Matteucci e Pasquino (1992) afirmam que os conflitos (sociais e políticos) são formas de interação entre indivíduos, grupos, organiza- ções e coletividades, que implicam choques para o acesso e para a distribuição de recursos escassos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 56 Isso decorre do fato de que, na tomada de decisões, percebemos que a sociedade, de forma geral, produz conflitos baseados em interesses pessoais, os quais eventualmente se tornam coletivos. É evidente que, quando a sociedade é organizada com fundamento em preceitos democráticos, prevalece o interesse da maioria, o qual dependerá de fatos motivadores, como uma eleição ou uma grande obra com vários impactos ambientais, por exemplo. Nessa perspectiva, conforme Santos (2003), “todo conflito tem como objeto a disputa de algum tipo de recurso escasso”: • no caso de uma eleição – exemplo de um conflito político –, as organiza- ções (partidos políticos) interagem disputando “recursos escassos” (ou, em uma linguagem da dinâmica social, cargos públicos altamente seletivos) nessa esfera, como os cargos de presidente da República, de governador do estado, de prefeito do município, de deputado etc.; • nas situações de conflitos fronteiriços entre dois países, a disputa é, geralmente, pelo controle do território, e a interação entre eles pode se efetivar por via pacífica (negociação) ou por meio da violência (guerra); • em campeonatos esportivos, como de vôlei, lutas de boxe, olimpíadas ou mesmo em partidas de futebol, os recursos escassos em disputa são títulos, medalhas, classificações etc. Em regra, o controle dos recursos escassos está associado ao poder, à riqueza e ao prestígio. Também na área ambiental, a ideia de conflito está associada ao controle de recursos que, hoje sabemos, são limitados e não podem ser usados indiscrimi- nadamente. Destacamos esse fato, pois o uso intensivo dos recursos ambientais tem provocado tanto a sua escassez quanto o comprometimento da qualidade ambiental. Essa situação tem suscitado uma série de campanhas que têm como objetivo motivar a sociedade a evitar o desperdício – estamos na era: • do “reutilizar”;• do “reciclar”; • do “dar destinação adequada”; • do “evitar certos consumos” – de sacolas plásticas, do abuso de água e luz etc.; • do “identificar os produtos que possibilitam uma melhor qualidade de vida”. Outro aspecto importante a ser considerado, de acordo com Santos (2003), quando analisamos os conflitos sociais e políticos, “é ter em mente que eles são inerentes à própria existência do meio social”. Por isso, não se tem notícia de uma sociedade sem conflitos. A respeito dessa condição, Quintas (2004, p. 17) acrescenta que “a sociedade não é lugar da harmonia, mas, sobretudo, o lugar dos conflitos e confrontos que ocorrem em suas diferentes esferas (da política, da economia, das relações sociais, dos valores etc.)”. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 57 Aliás, para Bobbio, Matteucci e Pasquino (1992), “um conflito social e polí- tico pode ser suprimido, isto é, bloqueado em sua expressão pela força, coerci- tivamente, como é o caso de muitos sistemas autoritários e totalitários, exceto o caso em que se reapresente com redobrada intensidade num segundo tempo”. No entanto, os mesmos autores alertam para o fato de que a “supressão” é rela- tivamente rara. Da mesma forma, a completa resolução dos conflitos socioam- bientais é praticamente impossível, pois os fatores que os desencadearam (causas, tensões e contrastes), os que estão no início dos desentendimentos, dificilmente são solucionados. Isso significa que, quase por definição, um conflito social não pode ser resolvido em toda sua extensão. Assim, visto que não podemos acabar com conflitos no meio social, “o processo ou a tentativa mais frequente é o proceder à regulamentação dos conflitos, isto é, à formulação de regras aceitas pelos participantes, que estabelecem determinados limites aos conflitos” (Bobbio; Matteucci; Pasquino, 1992). O que observamos nesse procedimento é uma estratégia de regulamentação das formas de manifestação dos conflitos, com a finalidade de torná-los menos destrutivos para os envolvidos, e não o seu fim. Aparentemente, isso pode suge- rir uma ideia de simplicidade na resolução dos problemas; contudo, não é isso o que ocorre, pois “o ponto crucial é que as regras devem ser aceitas por todos os participantes e, se mudadas, devem ser mudadas por recíproco acordo” (Bobbio; Matteucci; Pasquino, 1992). E, como sabemos, isso não é fácil. No entanto, “quando um conflito se desenvolve segundo regras aceitas, sancio- nadas e observadas, há a sua institucionalização” (Bobbio; Matteucci; Pasquino, 1992). Dessa concepção, decorre que os processos de disputa (como vimos no caso da reserva Raposa Terra do Sol) pelo uso e pelo acesso aos recursos ambientais situam-se no âmbito dos conflitos institucionalizados, quando acontecem dentro das regras estabelecidas na legislação ambiental. 2 . 4 G e s t ã o s o c i o a m b i e n t a l c o m o m e d i a ç ã o d e c o n f l i t o s O b v i a m e n t e , o c o n f l i t o é a p e n a s u m a d a s p o s s í v e i s formas de interação entre indivíduos, grupos, organizações e coletividades. Outra forma possível de interação é a cooperação. Nesse contexto, a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988*, em seu art. 225, ao consagrar o meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito de todos, bem de uso co- * Na sequência do texto, utilizaremos apenas o termo Constituição, sempre que nos referirmos à Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Para consultar o texto constitucional na íntegra, acesse: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/Constituicao/Constituiçao.htm>. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 58 mum e essencial à sadia qualidade de vida, atribuiu a responsabilidade de sua preservação e defesa não apenas ao Poder Público, mas também à coletividade. Em suma, a Constituição visa assegurar o direito à qualidade de vida da geração presente sem comprometer o da(s) geração(ões) futura(s). Entretanto, mesmo conferindo também à coletividade a obrigação de prote- ger o meio ambiente, segundo Brinckmann (1997), a Constituição fez do Poder Público o principal responsável pela garantia a todos os brasileiros do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Consultando a legislação A Constituição define como obrigação do Poder Público sete incumbências para que ele assegure a efetividade do direito ao meio ambiente equilibrado: I – preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo* ecológico das espécies e ecossistemas; II – preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético; III – definir, em todas as unidades da Federação, espaços terri- toriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção; IV – exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou ativi- dade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade; V – controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente; VI – promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente; * Manejo: aplicação de medidas para a utilização dos ecossistemas, naturais ou artificiais, fundamentada em teorias ecológicas sólidas, de modo a prevenir o esgotamento e a manter, da melhor maneira possível, as comunidades vegetais e/ou animais como fontes úteis de produtos biológicos para a espécie humana e manancial de conhecimento científico ou área de lazer. O manejo é dito de flora, de fauna ou de solo quando a ênfase é dada aos recursos vegetais, animais ou ao solo (Aciesp, 1987). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 59 VII – proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade. (Brasil, 1988a) Todavia, a mesma sociedade ou coletividade que tem – ou deveria ter – direito a viver em um ambiente que lhe proporcione uma sadia qualidade de vida, por outro lado, necessita usar os recursos ambientais para saciar suas necessidades básicas. E, comosabemos, não é possível ter uma vida digna e saudável sem o atendimento dessas necessidades. Sobre essa questão, encontramos a opinião manifestada por Quintas (2004). Para o referido autor, na vida prática, o processo de apropriação e de uso dos recursos ambientais não acontece de forma tranquila. Existem interesses e con- flitos (potenciais ou explícitos) entre os atores sociais que atuam de alguma forma sobre os meios físico-naturais e os meios construídos, visando ao seu controle ou à sua defesa e proteção, conforme determina a Constituição. Uma relação de conflito entre os atores da sociedade pode se estabele- cer a partir de um processo de degradação ambiental – quando, então, a qualidade de vida é comprometida. Nesse cenário, e por ser o principal responsável pela proteção ambiental no Brasil, cabe ao Poder Público, por meio de suas diferentes esferas, intervir nesse processo. Essa intervenção deve ter o objetivo de evitar que os interesses de deter- minados atores sociais (madeireiros, empresários de construção civil, industriais, agricultores, moradores etc.) provoquem alterações no meio ambiente, sob pena de colocar em risco a qualidade de vida da população. Nessa situação, o direito explicitado na Constituição, em seu art. 225, garante o restabelecimento do meio ambiente degradado, evitando os conflitos entre sociedade e Poder Público; este último funciona, nesse caso, como gestor da qualidade de vida. A respeito dessa função de “gestor da qualidade de vida” atribuída ao Poder Público, Quintas (2004, p. 6) a justifica, dizendo que: o Poder Público, como principal mediador deste processo, é detentor de poderes estabelecidos na legislação que lhe permitem promover desde o ordenamento e controle do uso dos recursos ambientais, inclusive articulando instrumentos de comando e controle com instrumentos econômicos, até a reparação e mesmo a prisão de indivíduos respon- sabilizados pela prática de danos ambientais. Neste sentido, o Poder Público estabelece padrões de qualidade ambiental, avalia impactos ambientais, licencia e revisa atividades efetiva e potencialmente po- luidoras, disciplina a ocupação do território e o uso de recursos natu- rais, cria e gerencia áreas protegidas, obriga a recuperação do dano Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 60 ambiental pelo agente causador, e promove o monitoramento, a fisca- lização, a pesquisa, a educação ambiental e outras ações necessárias ao cumprimento da sua função mediadora. [grifo nosso] Esse exercício de poder e de direitos contemplados foram atribuídos ao Poder Público na gestão ambiental. Realizá-los requer uma visão estratégica e planejada; considerando isso, estratégia e planejamento devem ter como intuito preservar e condicionar, o que significa: • preservar, cada vez mais, as áreas protegidas; • condicionar, nos casos de infração e de penalidades ambientais, a imediata reparação do dano pelo infrator. Somente dessa maneira será efetivado e garantido o direito que a sociedade tem a um ambiente ecologicamente equilibrado. No entanto, de acordo com Quintas (2004), observamos uma assimetria no poder de decidir e de intervir nos processos pertinentes a tal direito (seja de transformação ou de preservação ambiental), tanto no âmbito do ambiente físico-natural como no do ambiente construído. Esse processo não funcional se estabelece como consequência de uma conexão direta com o uso do poder e de suas influências. Sabemos – podemos até dizer que é conhecimento de domínio público – que os detentores de poder outorgam custos e benefícios diferenciados, de acordo com os diferentes espaços sociais e geográficos. Isso ocorre pelo fato de determinados atores sociais possuírem, “por serem detentores de poder econômico ou de poderes outorgados pela sociedade, por meio de suas ações, capacidade variada de influenciar direta ou indireta- mente na transformação (de modo positivo ou negativo) da qualidade do meio ambiental” (Quintas, 2004, p. 6). Nessa condição, ou com esse papel, encontram-se, principalmente: • empresários – exprimindo o poder do capital; • políticos – representando o poder de legislar; • juízes – espelhando o poder de condenar, de absolver etc.; • Ministério Público – simbolizando o poder de investigar e de acusar; • dirigentes de órgãos ambientais – representando o poder de embargar, de licenciar, de multar etc.; • jornalistas e professores – expressando o poder de influenciar a forma- ção da opinião pública; • agências estatais de desenvolvimento – representando o poder de fi- nanciamento e de construção de infraestrutura. Devemos destacar que, além desses, existem “outros atores sociais cujos atos podem ter grande repercussão na qualidade ambiental e consequentemente na Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 61 qualidade de vida das populações” (Quintas, 2004, p. 6). O que fizemos foi des- crever os mais expressivos ou mais constantes desses atores. Acreditamos que somente com os atores sociais – sociedade civil organizada e Poder Público – assumindo o exercício pleno da cidadania (garantia dada pelo direito constitucional), como gestores do meio ambiente e exercendo o poder de denunciar, de opinar e de julgar (poder estatal), é que conseguiremos garantir que o meio ambiente não seja violado em seus direitos constitutivos. Nesse panorama, o problema se encontra, de acordo com Quintas (2004, p. 7), no fato de que “estes atores, ao tomarem suas decisões, nem sempre levam em conta os interesses e as necessidades das diferentes camadas sociais direta ou indiretamente afetadas. As decisões tomadas podem representar benefícios para uns e prejuízos para outros”. Assim, se trouxermos essa concepção, por exemplo, para a prática empresarial, muitas vezes uma atividade ou empresa que, embora gere lucros para alguns e demonstre ser altamente desejável por um grupo ou uma camada da população, pode ao mesmo tempo ocasionar perda para outros, tornando-a inaceitável. Na área ambiental, essa constatação é muito comum, pois, segundo Quintas (2000b, p. 7): um determinado empreendimento pode representar lucro para em- presários, emprego para trabalhadores, conforto pessoal para mora- dores de certas áreas, votos para políticos, aumento de arrecadação para Governos, melhoria da qualidade de vida para parte da popu- lação e, ao mesmo tempo, implicar prejuízo para outros empresá- rios, desemprego para outros trabalhadores, perda de propriedade, empobrecimento dos habitantes da região, ameaça à biodiversidade, erosão*, poluição atmosférica e hídrica, desagregação social e outros problemas que caracterizam a degradação ambiental. O quadro descrito por Quintas (2000b), por si só, justifica a necessidade de associarmos a gestão ambiental à gestão social – em outras palavras, a gestão socioambiental. Nesse tipo de caso, como o relatado, a sociedade civil deve ter pleno acesso às informações de empreendimentoscom vistas às causas e às consequências de sua instalação, sendo que a mera desculpa de geração de emprego poderá, no futuro, criar dificuldades. Conforme o empreendimento – se, por exemplo, for potencialmente poluidor –, poderá sofrer penalização do Poder Público e gerar o problema social do desemprego, além dos prejuízos já provocados por sua instalação. * Erosão: consiste no desprendimento da superfície do solo pela ação do vento, da água e, muitas vezes, intensificado pelas práticas humanas de retirada da vegetação. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 62 Essas situações demonstram o quanto é importante que a sociedade esta- beleça fóruns permanentes de discussões temáticas sobre o seu entorno e suas inter-relações com o meio. Aliás, segundo Quintas (2004, p. 7), a prática da gestão ambiental não é neutra. O Estado, ao assumir determinada postura diante de um problema ambiental, está de fato definindo quem ficará, na sociedade e no país, com os custos, e quem ficará com os benefícios advindos da ação antrópica (ativida- des socioeconômicas ou as ações provocadas pelo ser humano) sobre o meio, seja ele físico, natural ou construído. [grifo nosso] Daí vem a importância de se praticar uma gestão ambiental participativa. Somente assim será possível avaliarmos os custos e os benefícios de forma transparente. Para saber mais Fizemos um percurso de fundamentações sob uma perspectiva ecológica das questões ambientais. No entanto, se você quiser fazer uma leitura ou um estudo sobre a gestão socioambiental do ponto de vista de estudiosos ligados às áreas da economia e da administração, com certeza enriquecerá seus conhe- cimentos. Uma obra interessante é a de Nascimento, Lemos e Mello, indicada a seguir, na qual os autores fazem uma abordagem bastante útil com base na perspectiva de gerenciamento estratégico: NASCIMENTO, L. F.; LEMOS, A. D. da C.; MELLO, M. C. A. de. Gestão socio- ambiental estratégica. Porto Alegre: Bookman, 2008. S í n t e s e E n t e n d e m o s q u e o p r o c e s s o d e g e s t ã o a m b i e n t a l , m a i s especificamente de gestão socioambiental, aqui abordado, possa denominar-se “ecologização” da administração pública. No entanto, embora esta venha aumen- tando de tamanho nas duas últimas décadas, devemos reconhecer que ainda permanece uma visão pré-ambientalista e pré-sustentabilista, em parte pela falta de uma internalização dessa cultura institucional nova e também porque o mo- delo de administração atual é menos profissional e mais político. Os ministérios, assim como as secretarias, tanto nos governos estaduais como nos municipais, são loteamentos políticos. Há, portanto, uma necessidade urgente de se alterar essa conjuntura. A reforma não ensejou o novo pacto federativo. O que observamos são ainda desenhos precários. As áreas da gestão ambiental e da responsabilidade social ainda explicitam essa incompletude do pacto mais do que outras, pois têm como vocação a ordenação do território e do desenvolvimento. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 63 Q u e s t õ e s p a r a r e f l e x ã o 1. Você já observou quais são os recursos ambientais específicos da sua região? Faça um levantamento e verifique as condições em que se encontram esses recursos. 2. Você conhece comunidades da sua região que sofreram impactos ambien- tais? Você sabe a razão desses impactos? Existem unidades de conservação na região onde você vive ou trabalha? Você lembra quais são? Sabe quais são os órgãos públicos responsáveis por elas? Q u e s t õ e s p a r a r e v i s ã o 1. Considerando que são as práticas do meio social que determinam a natureza dos problemas ambientais, os quais, como resultado, afligem a humanidade, o que se revela necessário nesse contexto em relação à área da gestão? 2. A concepção de que ser humano e a natureza encontram-se no mesmo nível e, portanto, as suas relações e inter-relações são igualitárias, corresponde à visão do biocentrismo. Justifique. 3. Os técnicos dos órgãos públicos convivem com uma série de dificuldades para agir no cumprimento da legislação ambiental. Por que isso ocorre? i. Embora sempre exista vontade política dos governantes, as dificulda- des são crônicas. ii. Os técnicos convivem com dificuldades, como falta de equipes técnicas adequadas, recursos financeiros escassos e instalações precárias, falta de acesso a informações e, muitas vezes, falta de apoio da chefia, entre outros obstáculos. iii. A falta de condições de trabalho é crônica. iv. Há, inclusive, a falta de vontade política dos governantes. Assinale a alternativa que indica as afirmativas corretas: a. I e III. b. I, II e IV. c. II, III e IV. d. I e IV. 4. Os órgãos de gestão ambiental e os militantes de entidades da sociedade civil que atuam na área são as pessoas que normalmente tomam conhe- cimento das denúncias de agressão à natureza. Considerando esse fato, assinale “V” (verdadeiro) e “F” (falso) para as afirmações a seguir: ( ) As prefeituras, os órgãos estaduais e municipais de meio ambiente, o Ibama e a Agenda 21 fazem parte dos órgãos de gestão ambiental. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. sousa Realce sousa Texto digitado F sousa Texto digitado Essa conjuntura faz surgir a necessidade da prática da gestão ambientalnulle, nesse contexto, o conhecimento do meio físico-natural é extremamentenullimportante, pois possibilita verificar as implicações da ação donullser humano no meio natural, bem como o seu reflexo no próprio meionulle no meio social. Alia-se a isso o conhecimento dos aspectos própriosnullda cultura local e a relação sociedade-natureza. sousa Texto digitado Com base em modelos de gestão ambiental que revelam mudanças radicaisnullde múltiplas visões pelas quais passam o homem e a natureza, considerandonulla visão biocêntrica, a gestão ambiental não é um problema denulladministração das relações do homem com a natureza, mas um processonullde constante mudança nos paradoxos socioambientais. O biocentrismonulltrouxe novas perspectivas para a gestão ambiental, pois considera o meionullambiente como o resultante, aquilo que emerge das relações, tanto dosnullseres entre si (incluindo o homem) como com o meio físico-natural. 64 ( ) As ONGs ambientalistas, os movimentos sociais, as associações co- munitárias, as entidades de classe, entre outras, fazem parte das or- ganizações não governamentais. ( ) As denúncias e as informações de desmatamentos ilegais,aterramen- tos de manguezais, derramamentos de óleo no mar, pesca predatória, tráfico de animais silvestres, lixões, lançamento de esgoto doméstico e industrial sem tratamento no mar e nos rios, destruição das nascen- tes, funcionamento de empreendimentos potencialmente poluidores sem licença ambiental e outras ocorrências sempre são comunicadas à polícia militar ou civil. ( ) Empreendimentos potencialmente poluidores sem licença ambiental colocam em risco a integridade dos ecossistemas e interferem nega- tivamente na qualidade de vida das populações que vivem no local onde eles ocorrem. 5. Com base na gestão ambiental e na responsabilidade social, assinale as assertivas corretas: a. A necessidade de se praticar a gestão ambiental surgiu da constatação de ser a natureza dos problemas ambientais decorrente das práticas do meio social que afligem a humanidade. b. Na esfera estatal, os atores sociais são instâncias dos poderes públicos, como o Executivo, que compreende a União, os estados, o Senado Federal, os municípios e as Câmaras de Vereadores. c. A sociedade é um lugar de harmonia, com conflitos e confrontos que ocorrem em diferentes esferas. d. O poder de decidir e de intervir para modificar ou preservar o am- biente (físico, natural ou construído), bem como os benefícios e os custos consequentes de tais procedimentos, estão distribuídos de modo assimétrico, tanto em relação ao espaço social quanto ao geográfico. 6. Classifique as questões de acordo com os tópicos a seguir: a. Questão ambiental. b. Meio social. c. Gestão ambiental como mediação de conflitos. ( ) A união entre ser humano e meio físico-natural resulta no próprio meio ambiente. ( ) Para entender é preciso dar uma olhada “por dentro”, descobrindo assim que não é homogêneo. ( ) Como não se pode acabar com os conflitos, o processo ou a tentativa mais frequente é proceder à regulamentação. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. sousa Texto digitado V sousa Texto digitado F sousa Texto digitado V sousa Realce sousa Texto digitado A sousa Texto digitado B sousa Texto digitado B 65 ( ) Realização de mediação de interesses e conflitos entre atores sociais cuja atuação se faz sobre o meio físico-natural. ( ) Produz mudanças tanto positivas como negativas na qualidade do meio ambiente. ( ) A Constituição de 1988 fez do Poder Público o principal responsável pela garantia, a todos os brasileiros, do direito ao meio ambiente eco- logicamente equilibrado. ( ) Diferença de métodos em que a sociedade, ao longo do tempo, interage com o meio físico-natural. ( ) Não é neutra, mas sim participativa, pois somente dessa maneira é possível avaliar custos e benefícios de forma transparente. ( ) Um processo de análise e reflexão para possibilitar a compreensão de tal situação deve ir além da concepção da relação sociedade-natureza. Assinale a sequência correta: a. b, b, b, c, b, c, a, c, a. b. a, b, b, c, b, c, a, c, a. c. a, b, b, c, a, c, a, c, a. d. a, b, b, c, a, c, a, c, b. p Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. sousa Realce sousa Texto digitado C sousa Texto digitado A sousa Texto digitado C sousa Texto digitado B sousa Texto digitado C sousa Texto digitado A Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. c a p í t u l o 3 Uma prática de gestão participativa Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. C o n t e ú d o s d o c a p í t u l o : • Concepções de problema e de conflito ambiental; • Abordagem de um problema ambiental sob a perspectiva da gestão participativa. A p ó s o e s t u d o d e s t e c a p í t u l o , v o c ê s e r á c a p a z d e : • identificar um problema ambiental; • reconhecer um conflito ambiental; • organizar a socialização de um problema ambiental; • relacionar os paradigmas da gestão participativa com a pesquisa-ação. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 69 C o m o v i m o s n o s c a p í t u l o s a n t e r i o r e s , a o r g a n i z a ç ã o do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama) visa orientar a participação da sociedade civil e das demais esferas do Poder Público na resolução das questões ambientais. No entanto, precisamos estar atentos para o fato de que a gestão par- ticipativa, relacionada com as questões ambientais, vai muito além de discussões, dos fóruns sociais ou do meio acadêmico. Nesse processo de democratização das decisões e de transparência dos atos e fatos, surge a necessidade de uma mudança nos paradigmas, o que significa buscar a mobilização com a finalidade de se alcançar objetivos nas diferentes esferas do poder. É considerando essa ne- cessidade que este estudo objetiva validar a proposta do processo experimental, processo no qual, a partir do exame de uma situação-problema, devemos apontar suas causas e consequências para restabelecer o ambiente degradado por meio da mobilização da sociedade. 3 . 1 A n e c e s s i d a d e d o s p r o c e s s o s e d u c a t i v o s p a r a g e s t o r e s E m r a z ã o d a c o m p l e x i d a d e d a q u e s t ã o a m b i e n t a l , existe a necessidade de os processos educativos proporcionarem condições para as pessoas adquirirem conhecimentos e habilidades, e desenvolverem atitudes a fim de intervir de forma participativa em processos decisórios que implicam a alteração, para melhor ou pior, da qualidade ambiental. Com esse objetivo, a realização de atividades educativas programadas para gestores ambientais deve oferecerinstrumentos que facilitem a caracte- rização de um problema ambiental e o envolvimento de outras pessoas na sua discussão, pois, com base em um problema ambiental observado, é possível: • verificar e reconhecer os principais atores sociais envolvidos, bem como suas formas de organização; • relacionar os efeitos sobre o meio físico-natural que ameaçam a qualidade de vida dos grupos sociais afetados; • conhecer o posicionamento da comunidade envolvida ou afetada; • distinguir os aspectos da legislação ambiental federal relacionados ao problema, e as possibilidades de sua utilização pelo órgão ambiental e por organizações da sociedade civil; Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 70 • aplicar procedimentos que facilitem a participação dos diferentes segmen- tos sociais no estudo do problema, bem como na difusão dos resultados encontrados. O ideal é realizar uma atividade educativa como essa em grupo (colegas dos diferentes órgãos ambientais que atuam no local, e de ONGs, se existirem), para que, desde o início, haja a possibilidade da socialização dos resultados. Caso não seja possível, a tarefa pode ser cumprida individualmente. Enfatizamos esse processo, pois, provavelmente, no seu dia a dia, o gestor ambiental irá lidar com a maioria dos conteúdos abordados aqui. O que faremos ao longo deste estudo será uma sistematização, ou seja, a elaboração de uma forma mais clara para que você possa visualizar o problema como um todo. Aliás, facilitar a compreensão para o gestor possibilita o envolvimento de outras pessoas no estudo do problema. Vamos fazer uma breve retomada de aspectos referentes à pesquisa ambiental, apenas para subsidiar o entendimento do estudo que iremos propor na sequência. 3 . 2 F a t o r e s c o m p l i c a d o r e s p a r a a g e s t ã o a m b i e n t a l Q u e m a t u a n a á r e a a m b i e n t a l s a b e q u e v á r i o s s ã o o s fatores que podem interferir e complicar um processo de gestão ambiental. Entre eles, destacam-se: • a dificuldade das pessoas em visualizar as causas e as consequências relacionadas à ação humana no meio ambiente; • a crença de que os recursos naturais são infinitos; • a sensação de impotência diante das questões ambientais. A respeito do primeiro fator elencado, a não visualização de causas e con- sequências, Quintas (2000a, p. 12) explica que: o processo de contaminação de um rio, por exemplo, pode estar distante das comunidades afetadas, espacialmente (os objetos são lançados a vários quilômetros rio acima) e temporalmente (come- çou há muitos anos, e ninguém lembra quando). O processo pode, também, não apresentar um efeito visível (a água não muda de sabor e de cor, mas pode estar contaminada por metal pesado, por exemplo) e nem imediato sobre o organismo humano (ninguém morre na mesma hora ao beber a água). Nesse cenário, o segundo fator complicador apontado, a crença na pereni- dade dos recursos, permite verificar que são vários os exemplos que a nossa cultura apresenta, entre eles: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 71 • este rio jamais vai secar (dito em relação a um grande rio)! • uma floresta tão imensa não vai acabar! • os peixes continuarão abundantes todos os anos! Isso ocorre até que a realidade mostre o contrário, ou seja, até que fique vi- sível que a floresta está ficando cada vez mais distante, que o volume das águas está diminuindo e que os peixes estão desaparecendo. Dessa forma, a postura do “sou igual a São Tomé, só acredito vendo” provoca um imenso desafio para a educação ambiental: a necessidade de desenvolver, na nossa sociedade, atitudes preventivas diante das questões ambientais. A última dificuldade apontada, a sensação de impotência das pessoas diante das questões ambientais, também se tornou um fator preocupante; seu reflexo está presente em uma vasta gama de situações comprometedoras, como, por exemplo, na ocupação desordenada de áreas litorâneas, a qual, por sua vez, provoca destruição de dunas*, aterramento de mangues, expulsão de comunidades e privatização de praias. Esse tipo de processo envolve, comumente, interesses de grandes grupos econômicos e/ou políticos. A atuação desses atores sociais com poder e respon- sáveis pela degradação daquele ambiente faz o indivíduo, o cidadão afetado pelas ocupações desordenadas, sentir-se “pequeno”. Essa sensação é perfeitamente com- preensível, mas, se não houver uma mudança de atitude por parte da população, todo o processo de gestão ambiental fica comprometido ou mesmo inviabilizado. 3 . 3 P r o b l e m a s e c o n f l i t o s a m b i e n t a i s C o m o o b j e t i v o d e e l u c i d a r o s p r o c e s s o s d e a p r o p r i a - ção e de usos dos recursos ambientais, é possível observar que estes sempre en- volvem: os interesses da coletividade (cuja defesa é obrigação do Poder Público) e outros interesses específicos de determinados atores sociais. Estes últimos, no entanto, mesmo quando legítimos, nem sempre estão em conformidade com os da coletividade. Nessas situações, tais atores sociais podem possuir grande capacidade para influir, a seu favor, nas decisões dos órgãos de meio ambiente, sobre a destinação dos recursos ambientais. Eles fazem isso ou pela via da pressão política direta, ou por meio da divulgação à sociedade sobre a importância econômica e social do seu empreendimento (a geração de empregos é um dos argumentos mais fortes) ou, ainda, pelas duas formas. * Dunas: são montes de areia móvel depositada pelos ventos nas planícies areno- sas do litoral. A ação contínua e multidirecional dos ventos provoca constante movimento das dunas, assim como mudanças de forma e tamanho, sendo então chamadas de dunas móveis ou ativas. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 72 Além disso, como vimos anteriormente, a disputa pelo controle de qualquer recurso escasso é própria da natureza da sociedade. Por conseguinte, o órgão de meio ambiente, no exercício de sua competência mediadora, deve proporcionar condições para que os diferentes atores sociais envolvidos tenham a oportunidade de expor a outros atores e ao conjunto da sociedade os argumentos que fundamen- tam a posição de cada um quanto à destinação dos recursos ambientais em disputa. As audiências públicas surgem como um elemento de transição entre os conflitos gerados e a autonomia de cada cidadão participativo, o que promove a cidadania. Entretanto, entre os envolvidos,existem aqueles que dispõem de conhecimentos e habilidades sobre a problemática em discussão (os empreendedores, por exemplo), o que lhes permite argumentar a seu favor com melhor fundamentação ou com argumentos mais convincentes. Ao mesmo tempo, há outros que, apesar de afe- tados pelas decisões (por exemplo, comunidades costeiras, no caso da construção de um porto), não têm acesso aos conhecimentos e às habilidades necessárias para poderem defender seus interesses. Em muitas situações, caso tais interesses sejam contrariados, esse fato ameaça a própria sobrevivência da comunidade envolvida. A experiência dos educadores tem mostrado que uma ferramenta importante para se compreender a complexidade da questão ambiental é o estudo de caso. Esse “caso”, por sua vez, pode ser: • um problema; • um conflito; ou • uma potencialidade ambiental. Nesta obra, abordaremos especificamente a análise de problemas ambien- tais. Entretanto, os roteiros adotados para o estudo de problemas e para a so- cialização de seu resultado poderão, com algumas adaptações, serem utilizados no estudo de conflitos e de potencialidades ambientais. Perguntas e respostas Afinal, o que é um problema ou conflito ambiental? O termo problema, no nosso dia a dia, assume vários significados: • quando alguém fala de um problema financeiro, em geral está se referindo a fatos como falta de dinheiro, dificuldades para pagar contas etc.; • da mesma forma, se uma pessoa fala de um problema de saúde, pode estar querendo transmitir a ideia de risco ou ameaça (“essa doença pode deixar fulano sem condições de andar pelo resto da vida”), de dano temporário ou permanente ao organismo (“tal enfermidade deixou fulano com o pulmão comprometido para o resto da vida”; “a fratura deixou sicrano sem poder usar a mão direita por uns tempos” etc.); Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 73 • há também casos em que o termo está associado ao desafio de realizar uma tarefa prática (o problema da construção de uma ponte), além de inúmeros outros sentidos. Recorrendo ao Dicionário Houaiss da língua portuguesa, encontramos para o termo conflito o significado de “profunda falta de entendimento entre duas ou mais partes” (Houaiss; Villar; Franco, 2001). Por extensão, na área administra- tiva, ele se refere à “contestação recíproca entre autoridades pelo mesmo direito, competência ou atribuição”. Contudo, essas são afirmações genéricas. O que nós chamaremos, aqui, de problema ou conflito ambiental? Existe(m) diferença(s) entre os dois? Trataremos dessa questão na sequência. 3 . 3 . 1 O enfoque de probl ema ambienta l C o m o s o m o s p e s s o a s e n v o l v i d a s c o m o c a m p o d a g e s - tão do meio ambiente, quando usamos a expressão problema ambiental, tam- bém atribuímos a ela vários sentidos. Ao mencioná-la, podemos estar nos referindo às: • dificuldades – o problema da fiscalização em alto-mar; • carências – o problema da falta de embarcações para fiscalizar em alto-mar; • tarefas práticas – o problema da criação de uma unidade de conservação. No entanto, devemos estar cientes de que esses são apenas alguns significa- dos, pois existem muitos outros. Conforme Carvalho e Scotto (1995), problema ambiental refere-se àquelas “situações onde há riscos e/ou dano social/ambiental, mas não há nenhum tipo de reação por parte dos atingidos ou de outros atores da sociedade civil face ao problema”. De acordo com essa concepção, encontramos como problemas ambientais: • a ameaça ou a extinção de espécies da fauna e da flora; • os lixões; • o uso de agrotóxicos; • os desmatamentos; • a contaminação de praias, rios e águas subterrâneas por metais pesados, chorume*, esgotos domésticos e industriais, agrotóxicos etc.; * Chorume: líquido produzido pela decomposição de substâncias contidas nos resíduos orgânicos, que tem como características a cor escura, o mau cheiro e a elevada demanda bioquímica de oxigênio (DBO). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 74 • a poluição do ar; além de outras formas de poluição. É interessante refletirmos sobre o fato de que, embora os problemas admi- nistrativos dos órgãos ambientais (falta de pessoal, de recursos materiais e fi- nanceiros etc.) influenciem negativamente na qualidade ambiental, eles não são considerados problemas ambientais. Assim, além de ser uma situação na qual observamos dano e/ou risco à qua- lidade de vida das pessoas – em decor- rência da ação de atores sociais sobre os meios físico-natural e/ou construído –, o problema ambiental caracteriza-se também pela inexistência de qualquer tipo de reação ou ação modificadora por parte dos atingidos ou de outros ato- res sociais. Tem-se a constatação de sua presença – o fato problema –, mas não ocorre uma transformação da realidade constatada. Nesse cenário, segundo Carvalho e Scotto (1995), são frequentes os casos onde existe apenas uma construção técnico-científica do problema [, por exemplo,] – exames de laborató- rio concluem que o rio está contaminado por metais pesados. Outras vezes, há sugestões de solução ou de encaminhamento para uma ação de governo, ou seja, uma política ambiental”. Evidentemente, atividades desse tipo não podem ser caracterizadas como uma ação contrária (reação) àquela que está provocando o risco e/ou o dano ao meio ambiente. Foi apenas uma análise que comprovou, que documentou, a existência do fato. Verificamos essa postura, a de encarar a situação como problema ambiental, por exemplo: quando o esgoto a céu aberto, no espaço que um dia foi ocupado por um rio, transforma-se em um fato tão banal no cotidiano da comunidade que as pessoas passam a aceitar o seu mau cheiro, o seu mau aspecto e o risco de contaminação por doenças transmitidas por vetores diversos, como algo “normal”. Nesse tipo de situação, observamos que o fato de o rio contaminado ser uma realidade, parece que não incomoda, não interessa e não sensibiliza as pessoas. 3 . 3 . 2 O conf l i t o ambienta l O c o n f l i t o a m b i e n t a l é a q u i e n t e n d i d o , s e g u n d o Carvalho e Scotto (1995), como “aquelas situações onde há confronto de [...] embora os problemas administrativos dos órgãos ambientais (falta de pessoal, de recursos materiais e financeiros etc.) influenciem negativamente na qualidade ambiental, eles não são considerados problemas ambientais. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 75 interessesrepresentados por diferentes atores sociais, em torno da utilização e/ ou gestão do meio ambiente”, diferente- mente do que acontece na concepção de problema ambiental. Nesse caso, tem-se reação dos atores sociais diante de uma situação; eles reagem em defesa dos seus interesses, o que significa uma atitude participativa e consciente pela utilização e/ou pela gestão dos recursos ambientais. Encontramos no conflito ambiental situações como as de: • moradores que se organizam para evitar a reativação de um aterro sanitário ou a construção de um incinerador de lixo pela prefeitura; • pescadores que contestam o período de defeso decretado pelo Ibama e exigem participar da elaboração da portaria referente ao evento; • grupos ambientalistas que se mobilizam para contestar a construção de uma hidrelétrica ou de uma estrada; • grandes fazendeiros de soja que lutam pela construção de uma hidrovia que vai facilitar o escoamento de sua produção; • outros atores sociais que se organizam para lutarem por seus interesses ou de sua coletividade. Um caso significativo nesse contexto foi o dos seringueiros do Acre, que, nos anos 1970, impediram a transformação da floresta em pastagens (em defesa de sua potenciali dade) e conseguiram a criação de reservas extrativistas por parte do Governo Federal. Podemos dizer que muitos conflitos ambientais envolvem um problema am- biental, mas nem todo problema ambiental envolve um conflito. Como você pôde perceber, um conflito ocorre quando atores sociais tomam consciência de um dano e/ou risco ao meio ambiente e, assim, mobilizam-se e agem no sentido de interromper ou eliminar o problema ambiental. Estabelecida as diferenças entre conflito e problema ambiental, vamos pra- ticar, a seguir, o modo de proceder à análise deste último e de envolver o maior número de pessoas na sua discussão. A ideia é que as pessoas, durante o processo de estudo do problema ambiental, percebam os danos e/ou riscos e se sintam motivadas a participar do encaminhamento das soluções. Assim, ao partirmos do exame de um problema ambiental, esperamos atingir o estágio de conflito ambiental institucionalizado. Você poderá observar que, em muitos casos, é necessário que aconteça uma situação de conflito explícito na sociedade civil, entre atores que representam interesses coletivos e atores que defendem interesses privados para, somente então, Podemos dizer que muitos conflitos ambientais envolvem um problema ambiental, mas nem todo problema ambiental envolve um conflito. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 76 o Poder Público perceber a existência de um dano e/ou risco ao meio ambiente e tomar as providências cabíveis. 3 . 4 E s t u d o d e u m p r o b l e m a a m b i e n t a l e d o p r o c e s s o d e s o c i a l i z a ç ã o d e s u a e x i s t ê n c i a N e s t a o b r a , d e s e n v o l v e m o s o p r e s e n t e e s t u d o d e c a s o com base em uma situação-problema idealizada (imaginária) e elaborada com objetivos didáticos. Obviamente, a situação vivida é mais complexa do que a situa- ção pensada. Entretanto, isso não invalida o exercício, que, embora não explore toda a riqueza da complexidade do mundo, não deixa de fornecer elementos importantes para a prática de uma gestão ambiental que pretende ter na ação da cidadania o antídoto ao clientelismo político, à corrupção, ao descompromisso e a muitos outros males que afetam o nosso serviço público. Escolhemos para o estudo um caso prático, um fato bastante comum, embora desconhecido por muitos, que causa graves danos ao meio ambiente: a destina- ção inadequada do óleo lubrificante queimado. Esse é o fato. Utilizaremos uma matéria, publicada em 1999, na Folha do Meio Ambiente, de Brasília, como suporte expositivo desse fato. Ou seja, o relato do caso, para maior veracidade, fica por conta do texto da referida publicação, transcrito a seguir*. O óleo e o mico: o triste fim do lubrificante queimado O s ó l e o s l u b r i f i c a n t e s b á s i c o s s ã o o b t i d o s d i r e t a - mente a partir do petróleo bruto ou então são reciclados a partir de óleos já usados, aos quais adicionam-se obrigatoriamente, [sic] aditivos especiais, altamente poluentes (antioxidantes, anticorrosivos, dispersantes, antidesgas- tantes, antiespumantes, reguladores de viscosidade etc.). Quando utilizados, contaminam-se ainda mais com poluentes diversos, como metais pesados, por exemplo. Portanto, quando se dirige um carro, caminhão, ônibus, não se está lançando apenas gases e até fumaça (particulados) no ambiente, mas utilizando, passivamente, poluentes altamente tóxicos na lubrificação forçada das peças metálicas do motor. Essas peças fatalmente se desgastam, somando então mais contaminantes perigosos aos componentes dos aditivos. * O referido texto, a partir deste ponto até o início da Seção 3.4.1, foi extraído com adaptações da obra de Berté (2007). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 77 Esse óleo contaminado (“óleo vencido”), importante recurso econômico para uma nação e não um lixo qualquer, que você substitui por “óleo novo” (rerrefinando ou não), tem três destinos bem diversos. Um deles é a queima, geralmente descontrolada, em caldeiras industriais, podendo dar a sua contri- buição negativa à atmosfera (5 litros podem conter até 20 gramas de chumbo). O outro é o econômico e ecologicamente correto, o rerrefino. Por fim, o outro tipo de destino é o simples descarte no meio ambiente, tremendo desperdício. Só para se ter uma noção quantitativa do problema, que normalmente escapa até ao mais fanático “ecólogo de passeata”, a Petrobras, através de seu relatório “Rerrefino de óleos no Brasil” [busca através deste apontar a reuti- lização dos óleos inservíveis]. Araújo (1992) aponta uma situação dramática, [estimando em números redondos a destinação dos óleos inservíveis]. [Do total] disponível no Brasil, somente 1/3 é coletado, contra mais de 2/3 em países civilizados. A Alemanha coleta quase todo o seu óleo usado. O agravante dessa situação fica, portanto, por conta do volume não coletado para o processamento do rerrefino, conforme determina a legislação. Segundo estudos e dados disponíveis no Sindicato Nacional da Indústria do Rerrefino de Óleos Minerais, o volume não coletado é mais de 246 milhões de litros [...]. Fonte: Custódio, 1999. Como podemos deduzir do artigo de Custódio, a destinação inadequada do óleo lubrificante queimado é um problema ambiental presente no nosso dia a dia, ainda que poucas pessoas – provavelmente somente os especialistas – conheçam e/ou entendam a sua gravidade. Por ser usado nos automóveis de todos os tipos, o óleo lubrificante queimado é um elemento que apenas se torna visível para a pessoa quando ela vai a um posto de gasolina e faz a troca de óleo. Nessa hora, quando é retirado do motor pelo funcionário do posto, raramente alguém perguntapara onde vai aquele “óleo vencido” que não tem mais utilidade. Como todas as pessoas que têm carro, muitos de nós vamos periodica- mente a um posto de gasolina fazer a troca de óleo. Será que antes de lermos a matéria de Custódio, já havíamos nos perguntado para onde vai o óleo queimado e qual o seu efeito sobre o meio ambiente? O caso A g o r a q u e t o m a m o s c o n h e c i m e n t o d e s t a r e a l i d a d e ( a destinação inadequada do óleo queimado), vamos imaginar que o artigo que Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 78 lemos tenha provocado o interesse de um de- terminado grupo de pessoas. Vamos supor que esse grupo seja composto por três jo- vens estudantes do ensino médio que, após lerem a matéria da Folha do Meio Ambiente, ficaram preocupados com o destino dado pelos postos de gasolina do seu município ao “óleo vencido”, recolhido quando fazem a troca de óleo dos automóveis. Diante disso, os referidos estudantes resolveram tomar uma atitude. Para acompanharmos os fatos a partir de então, iremos: • primeiramente, contextualizar a situação, descrevendo um espaço geo- gráfico (utilizaremos um fato fictício para fins didáticos, mas que poderia acontecer em várias regiões do nosso país); • posteriormente, desenvolver a narrativa dos fatos relacionados à movi- mentação e à organização da comunidade para o enfrentamento da degra- dação ambiental provocada pela destinação inadequada do óleo queimado. i. Descrição do município • O município imaginário, onde residem os tais jovens, está situado na área litorânea, e em seu território há uma grande extensão de praias margeadas por coqueirais e vegetação* de mata atlântica, inclusive próximo ao perímetro urbano. Em várias dessas praias, encontram-se pequenos núcleos populacionais, que vivem da atividade pesqueira e da lavoura de subsistência. • A sede do município está localizada na margem de um rio que desem- boca no mar. Na foz** desse rio, forma-se um extenso manguezal, onde está instalada uma comunidade com cerca de 500 habitantes, os quais vivem basicamente da pesca e da cata dos caranguejos. • Por estar localizado na área do Projeto de Desenvolvimento Turístico do Estado, o município foi incluído entre aqueles beneficiados com a implantação de saneamento básico (abastecimento de água e rede de esgoto), coleta de lixo e obras de infraestrutura viária (pavimentação de ruas, iluminação pública, construção de calçadões na beira do rio, * Vegetação: é o conjunto de espécies vegetais que se associam sob condições ambien- tais idênticas, para se constituírem em florestas (conjunto de indivíduos vegetais com forma de árvore), campos (conjunto de indivíduos com forma de grama) etc. ** Foz (desaguadouro): boca de descarga de um rio. O desaguamento de um rio pode ocorrer no mar, em uma lagoa ou mesmo em outro rio. A foz de um rio pode ser classificada como estuário ou como delta. Será que antes de lermos a matéria de Custódio, já havíamos nos perguntado para onde vai o óleo queimado e qual o seu efeito sobre o meio ambiente? Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 79 de acesso às praias e à rodovia litorânea etc.), construções de hospital e de postos de saúde. • Após a ligação com a rodovia litorânea, a comunicação, por via terrestre, do município com a capital e com o resto do país tornou-se mais fácil. Com a estrada, foi criada uma linha de ônibus diária entre a sede do município e a capital, permitindo que uma viagem, que anteriormente demorava até dois dias, seja realizada atualmente em oito horas. • Com o asfalto, cresceu consideravelmente o fluxo turístico, que quase duplicou a população do município na época de “alta estação”. • Com o turismo, a economia local, principalmente na alta estação, tornou-se bastante dinâmica. Nesse processo, surgiram hotéis, pou- sadas, loteamentos para residências de praia, bares, quiosques e várias outras atividades econômicas até então desconhecidas na cidade. • Com o turismo, também aumentou o número de postos de gasolina na sede do município e nas suas redondezas. ii. Socialização do problema Conversando sobre o problema da destinação do óleo queimado, os jovens se perguntaram, preocupados: “O que fazer?” Em virtude do descritivo do município, é fácil perceber que havia uma grande quantidade de óleo queimado circulando na região. Entre suas indagações, encontravam-se: • Qual seria a condição poluidora desse resíduo na região? • “Deixar pra lá” ou procurar alguma autoridade? • Se sim, qual autoridade? O Ibama, o delegado de polícia, o juiz, o promotor, o prefeito ou o órgão de meio ambiente do município ou do estado? Alguém lembrou que não existia um órgão de meio ambiente municipal, e que as representações do órgão estadual e do Ibama ficavam na capital, a cerca de 600 quilômetros de distância. Os jovens resolveram, então, antes de qualquer outra ação, procurar professores do colégio que, em suas aulas, tinham mostrado preocupação com o meio ambiente. Os professores de Química, de Biologia, de História e de Geografia se interessaram pelo problema – pois também não tinham “se tocado” – e entraram na discussão sobre o que fazer e por onde começar. Depois de uma longa conversa, o grupo – agora com a participação dos professores que aderiram à causa – concluiu que não adiantaria procurar as autoridades antes de saberem como “a coisa” acontecia por ali, e tomaram como ponto de partida a indagação: Por onde começar? Porém, outro dilema surgiu: Como fazer algo, se todos tinham pouco tempo para se dedicar à causa? Os jovens estudavam, ajudavam seus Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 80 pais; os professores davam aulas em dois turnos e tinham família. O grupo combinou que, primeiramente, todos procurariam indagar nos postos de gasolina do município (dez, aproximadamente), “da forma mais natural possível”, o que eles faziam com o “óleo vencido” depois da troca. Eles assim fizeram e constataram que: • todos os postos jogavam o óleo queimado no rio, diretamente ou pela rede de esgoto pluvial; • a maioria não sabia que o óleo poderia ser vendido na capital para ser refinado novamente nem tinha noção do risco que ele representa para a saúde das pessoas e para o ambiente; • um único dono de posto conhecia a possibilidade de vender o óleo vencido para ser refinado e reutilizado, porém, achava que a pouca quantidade coletada semanalmente (200 litros em média) nãodava para pagar o valor do frete do transporte por caminhão-tanque; e • não havia lugar para armazenar mais do que 300 litros de óleo e, por isso, tinha de fazer seu despejo no rio todas as semanas. Com os dados levantados, o grupo resolveu atrair mais pessoas para discutir o problema. Ficou acertado que cada um tentaria trazer o máximo de amigos para uma reunião, no final de semana, na qual os jovens fariam uma apresentação sobre o que, até então, sabiam sobre o problema. iii. Linha de ação Na reunião, além dos quatro professores e dos três jovens, compareceram dez estudantes, entre moças e rapazes. Após a apresentação dos dados publicados na Folha do Meio Ambiente e da informação sobre o modo como é feito o descarte do óleo pelos postos de gasolina do município, o grupo passou a discutir uma linha de ação para conseguir interromper o processo de contaminação das águas do rio. Os professores sugeriram que fosse feito um estudo desse caso, com a realização de uma análise da situação, sendo esta a mais detalhada possível. Porém, foi consenso no grupo que o estudo seria um meio, um instrumento, para a elaboração coletiva do conhecimento sobre o problema e sua solução, não apenas o resultado do trabalho do grupo ali formado. Por isso, previram a realização das duas tarefas iniciais, deixando a definição das demais para o futuro, quando teriam a participação de outros atores sociais, isto é, de um grupo maior de munícipes: • na execução da primeira tarefa, tentariam identificar os atores so- ciais diretamente atingidos pelo problema, a forma como eles eram afetados, a situação deles em termos de organização e, ainda, os riscos e/ou danos visíveis sobre o meio físico natural; Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 81 • na segunda tarefa, o desafio seria encontrar estratégias para envolver esses atores no processo de busca de soluções para o problema. iv. A ação Primeira tarefa 1º passo: Identificação dos atores sociais diretamente afetados Nessa fase do processo, o grupo concentrou todo o esforço para obter as melhores respostas possíveis para perguntas como: • Quem são os afetados pelo descarte do óleo queimado? Como vivem? Onde vivem? De que vivem? De que modo o problema ameaça a sua qualidade de vida (saúde, economia, renda, lazer etc.)? • Essas pessoas estão formalmente organizadas? Estão iniciando ou reiniciando algum tipo de organização formal? • Mesmo não possuindo organização formal, elas apresentam outros ti- pos de formação (grupos de oração, rodas de samba, grupos de dominó, grupo de elaboração e conserto de instrumentos de trabalho, grupo responsável pela festa de padroeiro ou da padroeira etc.)? 2º passo: Caracterização do ator social diretamente afetado Realizada a primeira atividade (o levantamento de dados), da primeira fase do trabalho, passaram para a segunda atividade: discutiram o que caracterizaria um ator social como diretamente afetado pelo lançamento do óleo queimado no rio. Nessa análise, surgiram várias hipóteses (opiniões): • alguns sugeriram que sofreriam os efeitos do descarte de óleo todas as pessoas que usassem de alguma forma o rio em locais abaixo (jusante) do ponto de lançamento do óleo, como as praias e o manguezal da foz; • outros ponderaram que esse critério não diferenciava, por exemplo, quem tomava banho esporadicamente no rio ou nas praias dos que consumiam diariamente a água, os peixes, os caranguejos e as ostras; • havia, ainda, o caso dos que consumiam os produtos pesqueiros even- tualmente (turistas, por exemplo) e aqueles que dependiam da sua ex- tração para sobreviver (alimentando-se deles e/ou comercializando-os). Por fim, os participantes chegaram ao consenso de que os atores sociais diretamente afetados eram os que, em decorrência do descarte do óleo queimado no rio, tivessem sua saúde (pelo uso constante dos produtos contaminados) e/ou sua situação econômica sob ameaça. Com esse critério, excluíram da condição de ator social diretamente afetado pela situação em foco: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 82 • os usuários de água encanada, pois a captação é realizada acima dos pontos de lançamento; • os eventuais frequentadores das praias e consumidores dos produtos pesqueiros obtidos no mangue e em outros pontos da foz do rio. Definidos os aspectos que caracterizavam o ator social diretamente afetado, o grupo decidiu identificar os locais de lançamento do óleo queimado (partindo do ponto de descarte mais distante da foz, desceram o rio até ela) e, ainda, visitar a comunidade situada na sua desembocadura. 3ª passo: Identificação dos riscos, dos danos visíveis e da organização da comunidade Em conversas com vários moradores da comunidade da foz do rio, o grupo ficou sabendo que, de vez em quando, os pescadores observavam peixes e caranguejos mortos, manchas de óleo na água e árvores do mangue com “cara de que estavam morrendo”. Eles também comentaram que, às vezes, notavam um gosto “esquisito” nas ostras, nos caranguejos e nos peixes. Disseram ainda que, na época “de muito turista”, apareciam mais caranguejos e ostras com gosto esquisito. Várias vezes os donos dos quiosques (que compram peixe, caranguejos e ostras dos pescadores) se queixaram de que, ao cozinharem caranguejos e ostras, notaram óleo na água e um gosto ruim neles. Por conta disso: • esses comerciantes ameaçaram comprar peixes, caranguejos e ostras em outros municípios, mesmo sabendo que seriam mais caros; • os pescadores passaram a pescar cada vez mais longe da foz (“Demora mais e é muito arriscado com nossos barcos pequenos”, dizem eles); e • os catadores cada vez entram mais mangue adentro (o que cansa muito e demora mais). Perguntados a partir de quando começaram a notar essas mudanças, vários moradores disseram que “foi de uns anos para cá”. No entanto, o médico do posto de saúde do povoado, que atende duas vezes por semana, apesar de já ter ouvido comentários sobre o assunto, não observara nenhuma doença na população que pudesse associar ao consumo de alimentos contaminados com óleo queimado. O grupo visitou também o padre, que desenvolve, no salão paroquial, várias atividades com idosos, casais, mulheres e jovens. Ele disse já ter ouvido comentários sobre o problema, mas não tinha noção de sua gravidade. Dispôs-se de pronto a colaborar com o grupo na mobilização dos moradores, oferecendo, inclusive, o salão paroquial para as reuniões de discussão da situação. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t.1 84 do C ód igo P en al. 83 Retornando à sede do município, os jovens se dividiram em dois grupos e visitaram os donos das pousadas e dos quiosques situados nas praias urbanas. Todos se mostraram preocupados quando ficaram sabendo do problema. Lembraram ter ouvido turistas e moradores comentarem que se sujaram de óleo enquanto tomavam banho nas praias próximas do núcleo urbano. Entretanto, não desconfiando da verdadeira razão, atribuíam a presença do óleo aos navios que, de vez em quando, viam no horizonte. Os comerciantes também comentaram que essa devia ser a causa de, às vezes, encontrarem óleo na água onde os caranguejos e as ostras eram cozidos. O grupo não detectou qualquer tipo de organização formal entre os moradores da comunidade, e entre os donos de quiosques e de pousadas. Também não observou qualquer processo indicativo de início ou reinício de organização desses atores sociais. Segunda tarefa 1º passo: Estratégia para o envolvimento dos atores sociais diretamente afetados Após conhecer os atores sociais diretamente afetados, o grupo (estudantes e professores) discutiu qual seria a melhor estratégia para o envolvimento daqueles nas próximas etapas do trabalho. Todos concordaram que, caso os atores sociais diretamente atingidos pelo óleo queimado não se motivassem a defender seus interesses, ficaria muito difícil sensibilizar outros atores para participarem da busca de uma solução para o problema. Os estudantes e professores planejaram, levando em conta a diferença existente entre o grupo de comerciantes (donos de pousadas e de quiosques) e a comunidade de pescadores, fazer reuniões distintas: • uma na cidade, com o pessoal das pousadas e dos quiosques; • outra no salão paroquial, com os moradores da foz do rio. Além disso, optaram por, antes de marcar das reuniões, fazer uma consulta rápida a alguns donos de quiosques e de pousadas e ao padre da comunidade de pescadores sobre o dia e o horário mais conveniente para os participantes. Com relação ao grupo de comerciantes, foi solicitado que alguns deles sugerissem o local e ajudassem na divulgação da reunião, visitando as pousadas e os quiosques em conjunto com alguns estudantes e professores em seus horários disponíveis. O grupo de professores e de estudantes tinha clareza de que, sendo um trabalho voluntário, sua execução teria de ser feita de acordo com a disponibilidade de horário de todos os envolvidos (inclusive eles próprios). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 84 No caso da comunidade da desembocadura do rio, combinaram que, parte do grupo, em conjunto com o padre, visitaria, no domingo (dia de folga dos pescadores), as casas de pessoas cujas opiniões são respeitadas na comunidade. O padre também se prontificou a avisar sobre a reunião durante a missa. 2º passo: Formação do “grupão” Os comerciantes elegeram cinco pessoas (entre donos de pousadas e de quiosques) e os moradores da comunidade de pescadores escolheram dez (pensando em se revezarem) para integrarem ao grupo de estudantes e de professores, formando o que eles chamaram de “grupão”. Essas pessoas, além de atuarem no “grupão”, deveriam manter seu grupo de origem informado sobre todas as atividades programadas e mobilizado para participar da realização delas. As atividades do “grupão” A primeira tarefa do “grupão” foi definir os próximos passos: • Conversar com os donos dos postos de gasolina. Todos concordavam sobre a importância desse diálogo. A opinião geral era de que esses empresários, apesar de responsáveis diretos pelo problema, não tinham consciência da gravidade de seus atos. • Expor o problema ao promotor de justiça, ao juiz de direito e ao pre- feito do município, visto não haver na região um órgão que tratasse especificamente do meio ambiente, ao qual pudessem recorrer. • Resolveram, inclusive, conversar com o representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no município, para que a entidade propor- cionasse assessoramento sobre os aspectos legais da questão durante os encontros com os donos dos postos e com as autoridades. No encontro com os advogados da OAB, ficou claro que tanto os postos quanto a prefeitura estavam descumprindo a legislação ambiental. Consultando a legislação Nesse contexto, se aplicada a lei, os postos poderiam ser enquadrados em artigos da Lei Federal n. 6.938/1981 (Brasil, 1981b) e da Lei Federal n. 9.605/1998 (Brasil, 1998e), conforme explicitaremos. Art. 14 da Lei Federal n. 6.938/1981: Sem prejuízo das penalidades definidas pela legislação federal, estadual e mu- nicipal, o não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção dos inconvenientes e danos causados pela degradação da qualidade ambiental sujeitará os transgressores: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 85 I – à multa simples ou diária, nos valores correspondentes, no mínimo, a 10 (dez) e, no máximo, a 1.000 (mil) Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional – ORTNs, agravada em casos de reincidência específica, conforme dispuser o regulamento, vedada a sua cobrança pela União se já tiver sido aplicada pelo Estado, Distrito Federal, Territórios ou pelos Municípios. [...] IV – à suspensão de sua atividade. §1º Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente de existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e terceiros, efetuados por sua atividade. O Ministério Público da União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e criminal por danos causados ao meio ambiente. Art. 54 da Lei n. 9.605/1998: Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam re- sultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora: Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa. [...] §2º Se o crime: [...] IV – dificultar ou impedir o uso público das praias; V – ocorrer por lançamento de resíduos sólidos, líquidos ou gasosos, ou detritos, óleos ou substâncias oleosas, em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou regulamentos: Pena – reclusão, de um a cinco anos. Verificaram, também, que os postos estavam descumprindo a Resolução Conama 009/1993 (Brasil, 1993f) que estabelece, entre outros: Art. 3º Ficam proibidos: I – quaisquer descartes de óleos usados em solos, águas superficiais, subterrâneas, no mar territorial e em sistemas de esgoto ou evacuação de águas residuais; II – qualquer forma de eliminação de óleos usados que provoque contaminação atmosférica superior ao nível estabelecido na legislação sobre proteção ao ar at- mosférico (Pronar). [...] Art. 10. Obrigações dos receptores de óleos usados: I – alienar o óleo lubrificante contaminado ou regenerável exclusivamente para o coletor ou rerrefinador autorizado; II – divulgar, em local visível ao consumidor, a destinação disciplinada nestaResolução, indicando a obrigatoriedade do retorno dos óleos lubrificantes usados e locais de recebimentos; Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 86 III – colocar, no prazo de 60 (sessenta) dias, a partir a publicação desta Resolução, à disposição de sua própria clientela, instalações ou sistemas, próprios ou de tercei- ros, para troca de óleos lubrificantes e armazenagem de óleos lubrificantes usados; IV – reter e armazenar os óleos usados de forma segura, em lugar acessível à coleta, em recipientes adequados e resistentes a vazamentos, no caso de instala- ções próprias. Já a prefeitura, como órgão responsável pelo “licenciamento ambiental de em- preendimentos e atividades de impacto ambiental local”, segundo o art. 6º da Resolução Conama n. 237/1997 (Brasil, 1997g), no caso dos postos de gasolina, deveria ter exigido deles, como “receptores de óleos lubrificantes”, o cumpri- mento dos arts. 3º e 10, citados anteriormente. O prefeito, por ter se omitido (a prefeitura não tem órgão de meio ambiente), pode ser enquadrado na Lei dos Crimes Ambientais, que estabelece, em seu art. 68: “Deixar, aquele que tiver o dever legal ou contratual de fazê-lo, de cumprir obrigação de relevante interesse ambiental: Pena – detenção, de um a três anos, e multa”. A segunda tarefa do “grupão” foi realizar as reuniões e encaminha- mentos do problema levantado. No âmbito do Ministério Público: • O grupo, acrescido por representantes da OAB, teve um encontro com o representante do Ministério Público Estadual (promotor de justiça), em que expôs todo o problema e suas consequências para a qualidade ambiental. O promotor explicou que, como se tratava de dano ao meio ambiente, o Ministério Público (MP) poderia propor uma ação civil pública que, pela Lei n. 7.347/1985 (Brasil, 1985), art. 3º, “poderá ter por objeto a condenação em dinheiro ou o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer”. • Na situação exposta, o MP poderia, desde logo, propor uma ação cau- telar na própria comarca, objetivando interromper as atividades dos postos até que se provasse que tinham resolvido a questão, conforme determina a Resolução Conama n. 009/1993. No âmbito da prefeitura: • De posse das informações coletadas, o grupo foi conversar com o pre- feito, chamando a atenção para a importância de a prefeitura se envolver na solução do problema, considerando que cabe a ela o licenciamento ambiental para o funcionamento dos postos de gasolina. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 87 • Na ocasião, o prefeito esclareceu que não tinha ideia da gravidade do problema do descarte do óleo queimado e, muito menos, que cabia à prefeitura a responsabilidade pelo licenciamento ambiental para fun- cionamento de postos de gasolina. Ele pensava que a prefeitura tinha obrigação apenas de conceder os alvarás de construção e de funciona- mento, de acordo com o Plano Diretor do Município. • O prefeito declarou que estava disposto a tomar todas as providências de responsabilidade da prefeitura; entretanto, antes de aplicar a legis- lação, declarou que gostaria de buscar uma solução negociada com os proprietários de postos, com a participação de todos os envolvidos e afetados. • Ficou acertado que ele convocaria os donos de postos para uma reu- nião na prefeitura, juntamente com o “grupão”, a OAB e o MP, com o objetivo de solucionar a questão da forma mais rápida possível. No âmbito das conclusões: Após o encontro com o prefeito, o “grupão”, em conjunto com a OAB, realizaou uma avaliação das atividades e concluiu que era hora de fazer uma “prestação de contas” aos comerciantes afetados e aos moradores da comunidade da foz do rio, e também discutir os próximos encaminhamentos. Na ocasião, levantaram-se indagações, como as seguintes: • O que será exigido dos donos dos postos? • Como nós (Poder Público e sociedade civil) nos organizamos para evitar outros problemas ambientais? • Que atividades devem ser desenvolvidas para que a preocupação com o meio ambiente não seja passageira? • Que outros atores sociais nas esferas da sociedade civil e do Estado de- vem ser envolvidos nessa nova fase para se ampliar e se manter, perma- nentemente, a discussão sobre a problemática ambiental do município? • Como aproveitar o momento para fazer isso? Nesse estágio do processo, o “grupão” estava com um problema ambiental constatado, bem como se encontravam definidas as ações que poderiam surgir na sequência. Essas ações visualizadas como os próximos passos após o levantamento do problema provavelmente se enquadram no conceito de conflito ambiental, pois representam a ação transformadora da situação. No entanto, em consonância com a proposta desta obra, vamos acompanhar o fato só até aqui, uma vez que ele já cumpriu seu objetivo, ou seja, possibilitou o estudo de um caso prático, demonstrando certos Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 88 procedimentos que podem facilitar o trabalho, no sentido de instaurar processos participativos de gestão ambiental. 3 . 4 . 1 Conside raçõe s sobre o proce sso de e studo A p r á t i c a q u e f o i d e s c r i t a n e s t e e s t u d o c o n f i g u r a o processo denominado de educação no processo de gestão ambiental, ou educação ambiental, ou educação ambiental na gestão do meio ambiente. Tais métodos são aplicados com a finalidade de proporcionar condições para a produção e a aquisi- ção de conhecimentos e de habilidades, bem como desenvolver atitudes, visando à participação individual e coletiva. Essa participação deve estar presente na gestão do uso dos recursos ambientais e, da mesma forma, na concepção e na aplicação de decisões que afetam a qualidade dos meios físico-natural e social. Para saber mais Você poderá aprofundar e ampliar conceitos, princípios e metodologias (pes- quisa-ação, pesquisa-participante etc.) em obras específicas que abordam esses temas, pois tais conhecimentos são necessários para o desenvolvimento de pro- cessos educativos em comunidades de diferentes contextos culturais no Brasil. Com esse propósito, sugerimos a leitura de duas obras: MORIN, A. Pesquisa-ação integral e sistêmica: uma antropopedagogia renovada. Rio de Janeiro: DP&A, 2004. EL ANDALOUSSI, K. Pesquisas-ações: ciências, desenvolvimento, democracia. São Carlos: EdUFSCAR, 2004. Sinopse. A importância da temática dessas obras soma-se ao entendimento de que: Todo projeto de pesquisa-ação pressupõe uma forte interaçãocom atores. Esse postulado, hoje, tende a tornar-se mais aceito de que no passado, em função da generalização do trabalho em parceria. Um importante avanço na sistematização da pesquisa-ação, tal como a concebe o autor, consiste precisamente na proble- matização dos papéis dos parceiros e no aprofundamento do próprio conceito de parceria. Isto é fundamental para pensar os processos e relacionamentos que ocorrem na pesquisa-ação e, ao mesmo tempo, para ampliar a habilidade e a ca- pacidade de gestão por parte dos responsáveis de projetos. (El Andaloussi, 2004) A preocupação, no sentido de desenvolver tais capacitações, justifica-se plenamente, pois a complexidade do exercício ou da prática da educação no processo de gestão ambiental exige profissionais especialmente habilitados para esse fim. Além disso, ao falarmos em educação no processo de gestão Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 89 ambiental, estamos nos referindo a uma prática que, inspirada nas Orientações da Conferência de Tbilisi, vem se propagando no espaço da gestão ambiental desenvolvida pelo Ibama. Nesse documento (Orientações da Conferência de Tbilisi), foi definido que a educação ambiental se constitui em “uma dimensão dada ao conteúdo e à prática da educação, orientada para a resolução dos problemas concretos do meio ambiente por meio de enfoques interdisciplinares e de uma participação ativa e responsável de cada indivíduo e da sociedade” (Brasil, 1997b). O propósito da pesquisa ambiental no âmbito das atividades de gestão C a b e , a g o r a , u m e s c l a r e c i m e n t o e p i s t e m o l ó g i c o . C o m o vimos no início deste nosso estudo, as concepções sobre ecologia e meio am- biente foram agregando novos significados à medida em que o homem foi ampliando sua visão e modificando suas compreensões. Logo, a aplicação des- ses saberes à pesquisa ambiental (inserida no contexto da gestão ambiental) também se fez e se faz de forma progressiva e com contínuas alterações e/ou reformulações em seus métodos e práticas. Sobre isso, encontramos nas publi- cações de Sato e Santos (2003, p. 265) um quadro (adaptado de Cantrel, 1996) que nos oferece uma síntese interessante sobre tal processo. Vamos transcrevê- -lo parcialmente, ou seja, apenas o propósito da pesquisa. Quadro 3.1 – Propósitos da pesquisa em educação ambiental Pressupostos Positivismo Construtivismo Sócioconstrutivismo Propósito da pesquisa Descoberta de leis que expliquem a realidade, permitindo controle e generalização. Compreensão e emancipação dos atores e interpretação das estruturas sociais. Emancipação dos atores sociais, através das críticas das desigualdades (práxis para a transformação). Sempre que realizarmos uma pesquisa, devemos ter um propósito como pano de fundo do foco no problema ou conflito (o fato em si). Além disso, como encontramos na síntese-quadro dos autores, existem ou- tros pressupostos que sofrem modificações em função de nossa compreensão e concepção filosófica e metodológica. Assim, quando formos realizar uma pesquisa ambiental, inclusive para que possamos inseri-la adequadamente nas propostas de gestão ambiental, devemos deixar claros aspectos como: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 90 • a ontologia – nossa visão sobre a realidade a ser pesquisada; • a epistemologia que iremos aplicar – espécie de conhecimento, modelos e métodos de pesquisa; • a finalidade – relação estabelecida entre o pesquisador ou pesquisadores e a descoberta. Vamos lembrar, então, que realizamos um estudo de caso sob a perspectiva da gestão participativa, a qual traz em seu bojo a pesquisa participativa, a pesquisa com fun- damentações epistemológicas e ontológicas provenientes do construtivismo, do sociocons- trutivismo, do pós-construtivismo, e oriunda da visão biocêntrica, da abordagem sob a ótica dos sistemas complexos. Procuramos deixar expressa essa opção desde o início, bem como o fato de não ser o escopo desta obra fazer uma resenha filosófica; no entanto, esbar- ramos em diversas teorias, às quais fizemos alusão, pois o saber é resultado da tessitura de inúmeros saberes. Sobre a atualização das concepções sobre meio ambiente e gestão socioambiental, Sato e Santos (2003, p. 264) inter-relacionam os saberes de diversos estudiosos e concluem de forma bastante útil para ampliarmos a abrangência de nossa visão: Na vertente pós-estruturalista, Gough (1996), Cheney (1989), Grün (2002) e Sato e Passos (2002) consideram que os objetos, os elementos e os significados constituem a compreensão da realidade, através da narrativa biorregional e na perspectiva biocêntrica. O biorregiona- lismo nasce da ruptura do sistema “eu-mundo” para uma estrutura mais complexa do “eu-outr@-mundo”, ou seja, nossa relação não é direta com a natureza, mas mediatizada pelos complexos sistemas da sociedade. É uma vertente que tenta a conjugação entre a sociedade e a natureza; no diálogo necessário entre os diversos conhecimentos existentes, mergulhando a racionalidade na emoção; na necessidade da compreensão das ciências que estudam as partes, com as ciências que estudam o todo e as suas partes; e sobretudo no resgate da ética, solidariedade e coletivismo como alternativas possíveis para alcan- çarmos uma humanidade mais responsável. (Toledo, 2000) Nesse documento (Orientações da Conferência de Tbilisi), foi definido que a educação ambiental se constitui em “uma dimensão dada ao conteúdo e à prática da educação, orientada para a resolução dos problemas concretos do meio ambiente por meio de enfoques interdisciplinares e de uma participação ativa e responsável de cada indivíduo e da sociedade” (Brasil, 1997b). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 91 Nesse cenário – o da educação –, é habitual encontrarmos em documentos oficiais, nacionais e internacionais, inclusive na lei que dispõe sobre a Política Nacional de Educação Ambiental, a denominação de educação ambiental não for- mal (para processos educativos praticados fora do currículo escolar), bem como de educação ambiental formal. O que podemos dizer sobre isso? Acreditamos que “definir a galinha como a ave que não é pato não diz nada sobre ela”, pois podemos saber tudo sobre patos, mas, por essa definição, conti- nuamos não sabendo nada sobre galinhas. Do mesmo modo, podemos adquirir vários conhecimentos sobre a educação ambiental formal, mas continuarmosignorando o que qualifica a chamada educação ambiental não formal. Por essa razão de ordem prática, e em concordância com a assertiva de que “negar o que um objeto é não significa afirmar o que ele é”, optamos pela linha de conceitua- ção dos educadores do Ibama, o que implica considerar a prática da educação am- biental a partir do espaço em que ela se produz – o da gestão ambiental –, sem nos atermos a questões relativas às concepções de educação formal ou não formal. S í n t e s e A m o b i l i z a ç ã o s o c i a l t e m g a n h a d o e s p a ç o n o s c o n s e - lhos municipais, estaduais e federais. É a garantia do pleno exercício de cidadania, na qual grupos organizados encontram soluções para os problemas comuns, de ordem coletiva e não individual. Nesse contexto, surgem os conselhos do meio ambiente em que, a exemplo do Conama, há a efetiva participação da sociedade na elaboração de resoluções que buscam melhor qualidade de vida. Sobretudo os governos que se dizem populares não podem deixar de usar plenamente os mecanismos de participação popular e de transparência que estão disponíveis. Com o objetivo de ilustrar esses processos, elaboramos um exemplo para estudo: a luta de uma comunidade contra a destinação inadequada de óleo combustível lubrificante queimado. Esse caso evidencia exatamente uma prática de gestão participativa para diagnosticar um problema ambiental, cuja sequência seria naturalmente a instauração do conflito e suas respectivas ações transformadoras. Q u e s t õ e s p a r a r e f l e x ã o C o m o p r o p ó s i t o d e p r o v o c a r a s u a r e f l e x ã o , v a m o s ilustrar com fatos o paradigma de gestão ambiental apresentado nesta obra. Assim, transcrevemos um trecho de uma publicação do MMA, Caminhos para a sustentabilidade (Brasil, 2009b, p. 42). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 92 Ministério Público e promotorias de meio ambiente O ordenamento legal sofreu profundas mudanças nos estados da Amazônia Legal, devido aos projetos e ações do PPG7/SPRN. As parcerias levaram a uma aproximação entre Oemas, Ministério Público e organizações da so- ciedade civil e essas parcerias fortaleceram instituições como os núcleos de meio ambiente dos ministérios públicos estaduais, e as unidades de polícias especializadas em questões ambientais. A descentralização do Ministério Público incluiu nos mecanismos legais de negociação com o poder local os Termos de Ajustamento de Conduta (TACs), que possibilitam ao município condições para negociar a solução de passivos ambientais e adequação aos preceitos legais vigentes. Diversos ministérios públicos estaduais, em parti- cular aqueles envolvidos nas ações de implementação dos PGAIs, passaram a atuar em parceria com os Oemas e polícias, adotando Termos de Correção de Conduta, instrumentos similares aos TACs como primeira alternativa para a correção de atividades. Em Mato Grosso, as novas práticas de gestão participativa e compartilhada contribuíram para a criação do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente, no âmbito do Ministério Público Estadual. Essa nova estrutura foi complementada com três promotorias de Defesa do Meio Ambiente, para atender Cuiabá e dez polos administrativos no interior do Estado. Um resultado relevante foi a criação do Fórum do Ministério Público de Meio Ambiente da Amazônia, uma rede de articula- ção interinstitucional que reúne os ministérios públicos dos nove estados da Amazônia Legal e tem como objetivo o apoio mútuo para desenvolvimento organizacional, capacitação e mobilização e para ampliar o alcance da atua- ção da organização no cumprimento da sua missão de defesa jurídica do meio ambiente, em ação conjunta ou separadamente. Fonte: Brasil, 2009b, p. 42. Como você pode ver, aí está devidamente documentada a substancial parti- cipação do Ministério Público na gestão ambiental. 1. Como você encara esse tipo de participação? Considera que existem as- pectos fundamentais para tal envolvimento? Justifique sua resposta. 2. Da mesma forma, nessa mudança de paradigmas, você considera que os demais órgãos do Poder Público e da sociedade civil devem se integrar nesse processo de forma progressiva? Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 93 Q u e s t õ e s p a r a r e v i s ã o 1. O que diferencia um conflito ambiental de um problema ambiental? 2. Quando afirmamos que neste capítulo realizamos um estudo de caso sob a perspectiva da gestão participativa, que espécie de pesquisa aplicamos? 3. Em razão da complexidade ambiental, existe a necessidade de os pro- cessos educativos proporcionarem condições para as pessoas adqui- rirem conhecimentos, habilidades e desenvolverem atitudes para que possam intervir de forma participativa nos processos decisórios. Após a realização das atividades programadas, os indivíduos passam a do- minar um instrumental que facilita a caracterização de um problema ambiental e o envolvimento de outras pessoas na sua discussão. Isso quer dizer que, em relação a um problema ambiental observado, o indivíduo deve: i. identificar os principais atores sociais envolvidos e suas formas de identificação. ii. relacionar os efeitos sobre o meio físico-natural como ameaça direta à qualidade cultural e de lazer dos grupos afetados. iii. identificar o posicionamento dos atores sociais envolvidos e afetados. iv. aplicar procedimentos que facilitem a participação dos diferentes ato- res sociais no seu estudo, bem como na difusão dos resultados. Com base nas proposições anteriores, podemos afirmar que: a. somente as alternativas I e II estão corretas. b. somente a alternativa IV é correta. c. somente a alternativa II é incorreta. d. somente a alternativa IV é incorreta. 4. Ao falarmos em educação no processo de gestão ambiental, estamos nos referindo a uma prática inspirada: a. nas orientações da Conferência de Tbilisi. b. nas orientações da Agenda 21. c. nas orientações da Conferência de Estocolmo. d. nas orientações do Relatório de Subsídios Técnicos para a Elaboração do Relatório Nacional do Brasil para a Rio-92. 5. Complete as lacunas com os termos apropriados e em seguida marque a alternativa que fornece a sequência correta. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. sousa Realce sousa Realce sousa Texto digitado O problema ambiental caracteriza-se pela constatação e pela conscientizaçãonullda existência de um dano ao meio ambiente; é uma etapanulldeanálise e de conclusão. Já o conflito ambiental caracteriza-se pelanullmobilização dos atores sociais em um processo de interrupção ou eliminaçãonulldo problema ambiental. É uma etapa de ação transformadora. sousa Texto digitado Em um estudo de caso sob a perspectiva da gestão participativa, aplicamosnulla pesquisa participativa, que se realiza com fundamentaçõesnullepistemológicas e ontológicas oriundas do construtivismo, do socioconstrutivismo,nulldo pós-construtivismo, da visão biocêntrica e de umanullabordagem que considera a ótica dos sistemas complexos. 94 A técnica de estudar um caso prático para o entendimento de um problema ou conflito ambiental, quando da capacitação de pessoas para a gestão socioambiental, corresponde ao processo denominado de educação no processo de gestão ambiental, ou educação ambiental, ou educação ambiental na gestão do meio ambiente. Aplicam-se tais métodos com o , de proporcionar condições para e de e , bem como para desenvolver , visando à participação individual e coletiva. Essa participação deve estar presente na gestão do dos recursos ambientais, e da mesma forma na concepção e na aplicação de decisões que afetam a qualidade dos meios físico-natural e social. a. uso, conhecimentos, habilidades, produção, aquisição, objetivo, atitudes. b. objetivo, atitudes, uso, conhecimentos, habilidades, produção, aquisição. c. objetivo, produção, aquisição, conhecimentos, habilidades, atitudes, uso. d. uso, produção, aquisição, conhecimentos, habilidades, atitudes, objetivo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. sousa Realce 95 c a p í t u l o 4 A multidisciplinaridade na gestão ambiental Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. C o n t e ú d o s d o c a p í t u l o : • O aspecto multidisciplinar da gestão ambiental; • A influência da perspectiva biocêntrica e ecocêntrica na gestão ambiental; • A abordagem geossistêmica e a vulnerabilidade ambiental. A p ó s o e s t u d o d e s t e c a p í t u l o , v o c ê s e r á c a p a z d e : • compreender a importância da geotecnia ambiental nos processos de gestão; • ampliar as interligações entre disciplinas para gerir os procedimentos de defesa ambiental; • definir geossistema e ecossistema; • aplicar fundamentos do pensamento contemporâneo, como o biocen- trismo e o ecocentrismo, na gerência ambiental; • localizar as situações de aplicabilidade da geologia* ambiental; • identificar os indicadores de vulnerabilidade ambiental. * Geologia: abrange o conhecimento da estrutura terrestre e dos seus processos, bem como da origem mineral dos solos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 97 O s i n s t r u m e n t o s d e d e f e s a a m b i e n t a l , q u e t ê m c o m o objetivo estabelecer um elo entre o meio ambiente degradado e a sua reparação, compreendem técnicas e mecanismos aplicados nas diferentes áreas do conhe- cimento, integrando diferentes conteúdos de forma pluridisciplinar, como se destaca nos vários enfoques dos capítulos desta obra. Nesse âmbito, é necessário, por exemplo, aprender, entre outros assuntos, sobre elementos do conhecimento técnico e metodológico dos indicadores de vulnerabilidade, bem como saber manejá-los em determinadas avaliações nas tomadas de decisão. Portanto, podemos considerar que, além da capacidade administrativa e da fundamentação sociológica e filosófica, o gestor deve agregar ao processo de ges- tão (ato ou efeito de gerir) os conhecimentos da geotecnia ambiental, em que estão incluídos conhecimentos biológicos, físicos e antrópicos*. Consideramos oportuno salientar que abordar a multidisciplinaridade na gestão ambiental é um fator relativo à tomada de consciência, pois estamos tratando, neste livro, de uma atividade administrativa – a gestão – que agrega, necessariamente, conhecimentos vários, por meio da contribuição de profissio- nais de outras esferas que não a da administração. Esclarecemos isso porque, nesta obra, o enfoque central é a gerência ambien- tal e esta é a administração voltada para o enfrentamento das questões relacio- nadas com o meio ambiente, o que, por sua vez, implica abordar as conexões que se estabelecem com áreas diversas das tecnologias e das ciências, bem como com os parâmetros advindos da legisla- ção ambiental. A multidisciplinaridade, portanto, é um tema que não se esgota neste capítulo, mas que perpassa toda a obra, embora esta também não o esgote. Contudo, a gestão gerencia, enquanto as ferramentas são oriundas das mais variadas áreas do conhecimento. * Antrópico: relativo ou pertencente ao homem ou ao seu período de existência na Terra; concernente à ação do homem. No contexto do tema meio ambiente, o termo é adotado para se referir aos fatores sociais, econômicos e culturais. Além da capacidade administrativa e da fundamentação sociológica e filosófica, o gestor deve agregar ao processo de gestão (ato ou efeito de gerir) os conhecimentos da geotecnia ambiental, em que estão incluídos conhecimentos biológicos, físicos e antrópicos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 98 4 . 1 M e c a n i s m o s m u l t i d i s c i p l i n a r e s d e d e f e s a a m b i e n t a l A c o m b i n a ç ã o e n t r e a c o n d i ç ã o d e a m e a ç a d e a c i d e n t e (probabilidade física) à exposição de uma comunidade (estrutura social) e sua condição de vulnerabilidade (os possíveis danos a que está sujeita a comunidade) caracteriza-se como risco na perspectiva ambiental. Diante desse cenário, você pode deduzir que realmente são necessários conhecimentos múltiplos para a gestão ambiental, pois faz parte de sua área de estudo prevenir e/ou sanar acidentes ambientais. Podemos contextualizar esse cenário de atuação multidisciplinar em relação às interligações estabele- cidas com base em diversas discipli- nas, como a Geologia, por exemplo. Esta é uma das áreas de conheci- mentos fundamentais para que o gestor possa realizar um trabalhode gerência de um determinado meio ambiente, pois a interligação da ge- ologia ambiental (necessária nesse processo) faz-se principalmente com os campos da geologia de engenharia, da geologia econômica (no que se refere aos recursos minerais) e dos processos geológicos. Só nesse exemplo de conexões encontramos cinco disciplinas, considerando que as quatro aqui citadas (todas da Geologia) colocam-se em função da gestão ambiental. Agora, você pode imagi- nar quantas interligações poderá fazer e quantas disciplinas poderá enumerar, se considerar os demais conhecimentos necessários para a gestão ambiental. Perguntas e respostas Você já havia pensado na possibilidade de os conhecimentos geológicos fa- zerem parte da gestão ambiental? Afinal, gestionar significa gerir, gerenciar. E o que significa geologia? O termo geologia, de acordo com o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, tem a concepção de “ciência que estuda a origem, história, vida e estrutura da Terra” (Houaiss; Villar; Franco, 2001) e, também, a de “conjuntos de terrenos, rochas e fenômenos de que trata essa ciência”. Nesse âmbito das definições, ao nos re- ferirmos à geologia aplicada, estamos especificando-a e caracterizando-a como aquela que integra o conhecimento geológico para a solução de problemas. É nessa concepção que iremos inserir a geologia ambiental na gestão ambiental. Consideramos oportuno salientar que abordar a multidisciplinaridade na gestão ambiental é um fator relativo à tomada de consciência, pois estamos tratando, neste livro, de uma atividade administrativa – a gestão – que agrega, necessariamente, conhecimentos vários, por meio da contribuição de profissionais de outras esferas que não a da administração. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 99 4 . 1 . 1 Contr ibuição da geo log ia ambienta l à ge stão E x i s t e m v á r i a s d e f i n i ç õ e s p a r a e s s e r a m o d a g e o l o g i a , mas vamos nos pautar pela concepção de Flawn (1970), para quem a geologia ambiental é o ramo da ecologia que versa sobre as relações entre o homem e seu habitat* geológico. Ela se concentra em estudos e práticas cujo foco está nos problemas do homem com o uso da terra e a consequente reação da terra a tais ações antrópicas. É importante, para entendermos a aplicação desses ramos da geologia no ce- nário brasileiro, abrirmos um parêntese para acompanhar a trajetória histórica da geologia aplicada. Foi na década de 1930 que se instaurou a prática metodo- lógica da geologia aplicada, por meio do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), cujas atividades eram centradas na construção civil: materiais de construção, boçorocas**, escorregamentos. Em 1967, foi criada a Associação Paulista de Geologia Aplicada (APGA), a qual, em 1974, por ocasião do 2º Congresso Internacional de Geologia de Engenharia, transformou-se em Associação Brasileira de Geologia de Engenharia (ABGE). Portanto, foi nesse período, nas décadas de 1960 e 1970, que ocorreu a consolidação da geologia aplicada em nosso país, em razão das atividades de construção de barragens e de obras viárias de grande porte. Nos anos de 1980, embora tenha existido a retração nos processos de construção de grandes obras de engenharia, avolu- maram-se as preocupações com os impactos ambientais, o que intensificou os trabalhos de geologia ambiental, sendo que essa demanda foi estimulada por determinações legais, como quando se estabeleceu a exigência de estudos de impacto ambiental, ou seja, da utilização do EIA/Rima, promulgadas pelo Conama, assunto sobre o qual iremos discorrer na sequência deste estudo. E como podemos analisar o meio ambiente, por exemplo, utilizando a geologia? Em que situações isso ocorre? Esse aspecto específico, entre as inúmeras ciências que contribuem para a nossa análise, tem uma área de abrangência que compreende: • os fenômenos geológicos naturais que afetam o meio ambiente – tectonismo, vulcanismo, abalos sísmicos, variação do nível do mar; • a interferência do homem em acidentes ambientais naturais – escor- regamentos de solo, erosão e enchentes. * Habitat: local ou ambiente onde um organismo normalmente vive. ** Boçoroca: sinônimo de voçoroca, isto é, “escavação no solo ou rocha decomposta causada pela erosão do lençol de escoamento de águas pluviais” (Houais; Villar; Franco, 2001). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 100 4 . 1 . 2 Como são ut i l izadas a s c i ênc ia s apl i cadas na prát i ca ambienta l C o n s i d e r a n d o a s á r e a s d o c o n h e c i m e n t o q u e s e c a r a c - terizam como aplicadas e que se inserem na prática, na solução de problemas, é lógico perguntarmos: Como esses conhecimentos são aplicados? Como são utilizados? Em relação a isso, temos uma extensa área de abrangência, pois podemos observar tal uso em situações como as de: • análise do meio ambiente; • estudo de infiltração de contaminantes pelo solo e pela interação solo- -contaminante, bem como os efeitos oriundos desse processo, no com- portamento mecânico do solo (análise desse processo em solos tropicais, por exemplo); • estudo de tecnologias de disposição de resíduos sólidos; • análise de opções de monitoração e remediação de solos contamina- dos, como, por exemplo, técnicas de estabilização físico-química e de biorremediação. Esse uso é um quadro de aplicação da geotecnia ambiental. Ele apresenta diferentes técnicas utilizadas como instrumentos de defesa do meio ambiente na gestão ambiental. Esse é um cenário no qual outra disciplina, a Geofísica, ganhou visibilidade com o seu emprego e desempenho na exploração do petróleo, não se restringindo, no entanto, a esse campo de uso. Trata-se de um domínio técnico – no qual se agregam a geotecnia, a sondagem e a geoquímica – extre- mamente importante em várias especificidades, operando por meio de: • sondagem por radar; • processos sísmicos; • processos de indução geoelétricos. No entanto, devemos estar cientes quanto ao fato de que a capacitação para utilizar tais ferramentas (geotecnia ambiental) não se encontra somente na conscientização da necessidade de se preservar ou recuperar o meio ambiente; ela passa por conhecimentos técnicos, pelo entendimento de aspectos básicos, como as concepções de ecossistema e de geossistema. Os ecossistemas compreendem áreas específicas, constituídas por clima, solo e comunidades de plantas e animais, bem como pela inter-relação entre essas partes, de modo a permitir que o sistema funcione como um todo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta belec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 101 Quando falamos em geossistema, estamos nos referindo à combinação de determinada superfície de um geoma (rocha, ar, água) e de uma biocenose* (conjunto de organismos em interação em um mesmo biótipo**; comunidade), bem como considerando que as suas estruturas e o seu funcionamento sofrem fortes variações interanuais. Corresponde, portanto, o geossistema à visão sis- têmica na geografia física. Nessa conjuntura, conforme Beroutchachvili e Bertrand (1978), geossistema é “um conceito territorial, uma unidade espacial bem delimitada e analisada numa escala dada: o geossistema é bem mais amplo que o ecossistema que vem a ser, assim, uma parte do sistema geográfico natural”. Essa é uma discussão que você pode ampliar, e à qual pode agregar diferentes opiniões. No estudo de tal enfoque, faremos um breve parêntese para analisar o que sejam essas duas concepções (ecossistema e geossistema). Assim, buscamos ampliar nossa visão multidisciplinar da gestão socioambiental. 4 . 1 . 3 Contr ibuiçõe s do e studo dos ecossi s temas E s s e s s i s t e m a s n ã o s ã o f e c h a d o s . E m b o r a d i f e r e n t e s , eles compartilham elementos com outros ecossistemas pela própria condição de fazerem parte de um todo (biosfera***). Por exemplo: sementes que podem ser levadas de uma região para outra, animais que atravessam os espaços geográficos, nutrientes contidos no solo e distribuídos em várias áreas, bem como a água, o sol, a chuva etc. É importante destacarmos que a delimitação de um ecossistema depende do nível de estudo que estivermos realizando. Lembramos ainda, conforme o infográfico, que é a reunião de todos os ecossistemas que constituem a biosfera. * Biocenose: conjunto de seres vivos (animais, plantas e micro-organismos) dentro de um mesmo ambiente (biótopo) e em equilíbrio dinâmico. É o mesmo que comunidade biológica ou biótica. ** Biótipo: conjunto de características fundamentais, comuns ou semelhantes, de grupos de indivíduos. *** Biosfera: bios vem do grego e significa “vida”. A biosfera abrange certo espaço acima e abaixo da superfície do planeta. Segundo o Dicionário Houaiss de língua portuguesa, é o conjunto de todas as partes do planeta Terra onde existe ou pode existir vida, e que abrange regiões da litosfera, da hidrosfera e da atmosfera; é a chamada ecosfera. Também pode ser definida como o conjunto de seres vivos existentes na superfície terrestre; parte sólida e líquida da Terra e de sua atmosfera onde é possível a vida. Sistema integrado de organismos (vivos e seus suportes), compreendendo a atmosfera circundante e o interior da Terra onde possa existir qualquer forma de vida. Por fim, é a área de vida do planeta. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 102 Ecossistema é, portanto, uma fração da biosfera possível de ser estudada ou analisada, de forma isolada. Nesse cenário, podemos dizer que um pân- tano, um lago ou um trecho de Mata Atlântica constituem-se em ecossistemas distintos. Isso, de forma sucinta, significa que naqueles espaços geográficos existe uma diversidade – um conjunto – própria de seres vivos que se relacionam entre si, constituindo o processo de manutenção daquele meio. Figura 4.1 – Os níveis de organização na ecologia 1. Biosfera 2. Ecossistema 3. Comunidades 4. Populações 5. Indivíduos 6. Sistemas de órgãos 7. Órgãos 8. Tecidos 9. Células 10. Organelas 11. Moléculas 11 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 Equilíbrio nos ecossistemas A p r o d u ç ã o d e u m s i s t e m a a m b i e n t a l p o r u n i d a d e d e tempo é proporcional à quantidade (massa) de matéria disponível, à quantidade de energia necessária para a transformação e, visto que a fonte de matérias-primas é esgotável, à sua taxa de renovação. Nesse processo, os principais agentes de influência são: • a energética da produção primária (organismos autótrofos); • o equilíbrio térmico e hídrico; Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 103 • o armazenamento de energia (húmus*); • a energia da produção secundária (matéria orgânica por heterótrofos**); • a interação de autótrofos*** e heterótrofos (transferência de nutrientes). Devemos considerar, nessa dinâmica de equilíbrio dos ecossistemas, além dos fatores de influência, também os chamados significados de estabilidade: constância, persistência, inércia, elasticidade, amplitude, ciclo e trajetória. Essas caracterís- ticas são determinantes fundamentais nos processos dos sistemas ambientais, na sua fixação e na sua evolução: • Constância – ausência de mudanças nos parâmetros do sistema ambiental, como, por exemplo, no número de espécies, na composição taxonômica, na estrutura em tipos biológicos de uma comunidade, ou em alguma ca- racterística do ambiente físico. • Persistência – tempo (prazo) de sobrevivência de um sistema ambiental ou de alguns de seus componentes. Nesse sentido, uma população poderia ser considerada mais “estável” que outra se o tempo médio (persistência) até a sua extinção for maior, por exemplo. • Inércia – capacidade de um sistema ambiental para resistir às pertur- bações externas. Nessas condições, as mudanças podem medir-se em vários parâmetros ou variáveis, que incluem todas as características da estabilidade aqui mencionadas. Na estrutura da rede trófica****, mudanças iguais na abundância de uma das espécies produzem mudanças distintas (caracterizando a capacidade inercial destas) nas abundâncias das demais, (similar à flexibilidade). * Húmus: produto da decomposição microbiana e química dos detritos orgânicos, cuja composição química é muito variável. Atua, em geral, como ácido orgânico bivalente com cerca de 60% de H, 3% de N e 2% de S, P, Ca, Fe e K e outros elementos. Quando quase saturado de Ca (cálcio), constitui terras ricas. Solúvel, em grande parte, em hidróxidos alcalinos, mas insolúvel em hidróxidos alca- lino-terrosos e em ácidos. ** Heterótrofo: organismo que necessita, no meio em que vive, de compostos orgâ- nicos para sua nutrição. *** Autótrofo: diz-se de organismo autotrófico (vegetal autotrófico), que é capaz de produzir seu próprio alimento a partir de compostos inorgânicos e com a utili- zação de uma fonte de energia. **** Rede trófica: é o conjunto formado por várias cadeias tróficas que, por força de suas estruturas, naturezas e disposições no ecossistema, sobrepõem-se e interligam-se parcialmente, apresentando-se como uma trama sem início nem fim, em razão de sua complicada aparência, imposta pelas relações entre seus níveis tróficos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E ditor a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 104 • Elasticidade – velocidade com a qual um sistema ambiental retorna a seu estado anterior após uma perturbação. Existe, em nível formal, a possi- bilidade de comparar elasticidade de uma maneira quantitativa (modelos matemáticos). • Amplitude – superfície sobre a qual um sistema ambiental é estável. Um sistema tem uma amplitude elevada se puder alterar consideravelmente seu estado prévio e retornar a ele. Esse processo tem sido descrito, muitas vezes, como estabilidade global e é de particular interesse para vários pro- blemas ecológicos aplicados, como perícia e auditoria ambiental. • Estabilidade cíclica – propriedade de um sistema ambiental de realizar ciclos ou oscilar ao redor de algum ponto ou zona central de determinado sistema. Alguns importantes processos de interação ecológica, notavel- mente os sistemas predador-presa, têm essa propriedade, que se tem de- nominado ciclo limite estável. • Estabilidade de trajetória – propriedade de um sistema ambiental de al- terar algum ponto ou zona final, apesar das diferenças no ponto de partida. Esse é o significado de estabilidade durante a sucessão ecológica, na qual se pode alcançar um único estágio-clímax a partir de vários pontos de partida. Afinal, que leis e sistemas operam nesse processo? Por exemplo: nesse pa- norama, o da continuidade da vida, um fato que chama a atenção da humanidade é o aquecimento global. Por meio dele, percebemos a mudança climática, em re- lação aos efeitos dos organismos da fauna e da flora, principalmente com a redução dos seus habitats e seus processos de ex- tinção. Nesse caso, o aquecimento global age como mecanismo de persistência junto ao ecossistema. Isso significa que, apesar dessa tamanha crise ambiental, as es- pécies procuram sobreviver mesmo em severas condições ambientais. Você já pensou sobre isso? 4 . 1 . 4 Contr ibuiçõe s da abordagem geossi s têmica A a p l i c a ç ã o d a t e o r i a d o s s i s t e m a s à g e o g r a f i a f í s i c a deu origem à abordagem do geossistema. Nesse contexto, aplica-se a definição C om st oc k Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 105 de Bertrand (1971), segundo a qual, o meio é “o resultado da combinação dinâmica, portanto instável, de elementos físicos, biológicos e antrópicos que, ao reagir uns em relação aos outros, fazem da paisagem um conjunto único e indivisível em evo- lução perpétua”. O que isso significa? Principalmente que a concepção de ação antrópica foi aglutinada, acrescentada, ao conceito inicial de complexo territorial natural, pois este compreende apenas aspectos correspondentes à geologia, ao clima, à geomorfologia, à pedalogia e à capacidade da biótica (flora e fauna naturais). Nesse contexto, também é importante ficar claro, de acordo com Dias e Santos (2007), que, “na análise geossistêmica, o geossistema é uma categoria de sistemas territoriais regido por leis naturais, modificados ou não pelas ações antrópicas” [grifo nosso]. Aqui, é importante fazermos um parêntese para melhor entendermos o pa- pel epistemológico de geossistema. A teoria geral dos sistemas de Bertalanffy (desenvolvida nos anos 1950) teve repercussão em todas as áreas de estudos, e a geografia não ficou imune à influência desse tipo de análise. Jean Tricart, ao realizar a “classificação ecodinâmica dos meios ambientes”, reconheceu o papel da teoria sistêmica no âmbito da geografia. Em 1977, ele declarou que o “conceito de sistema é, atualmente, o melhor instrumento lógico de que dispomos para estudar os problemas do meio ambiente” (Tricart, 1977, p. 17). Equilíbrio biogeocenótico O q u e o b s e r v a m o s n o e q u i l í b r i o b i o g e o c e n ó t i c o é a atividade geomorfológica e biogeocenótica na composição diferenciada das pai- sagens naturais e construídas. A formação dessas áreas ou geossistemas não ocorre, portanto, ao acaso: é determinada por aspectos oriundos tanto das deci- sões humanas quanto das leis da natureza. As diferenciações decorrentes dessas influências (humanas e do meio físico-natural) podem ocorrer, algumas vezes, de forma repentina e bem definida; outras vezes, acontecem gradualmente. Neste último caso (modo gradual), ocorrem espaços de transição com graus de variações de certas características, possibilitando que surjam áreas de transição entre duas comunidades vizinhas, as quais se fixam como novos espaços definidos – diferenciados ou mistos – do seu meio ambiente de origem, como, por exemplo, entre uma floresta e uma pradaria (os espaços formados dessa forma chamam-se ecótonos). Isso torna possível a inserção, dentro da mesma unidade elementar (área em transição), tanto de uma clareira de pastagens como de um campo agrícola ou de uma mancha florestal – variações que, de modo gradual, modificam a paisagem. Nesse âmbito, as inter-relações entre produtores e consumidores estão de- terminadas por seu número, pela efetividade com que a energia é aproveitada pelos níveis tróficos inferiores, pela velocidade de renovação das populações Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 106 dominantes, pela capacidade dos produtores de renovar a produção consumida e pela relação entre a energia que se necessita para a manutenção e a que se encontra disponível para a produção nas espécies dominantes das distintas cadeias tróficas*. O panorama descrito nos permite inferir que, nesse processo de equilíbrio biogeocenótico, no qual prevalece a visão biocêntrica, englobando homem e na- tureza, existem vários agentes de influência. Entre eles, destacam-se: • as diferenças entre biomas; • a influência das flutuações da população; • a influência dos consumidores sobre a produção primária; • as diferenças entre a ação dos consumidores homeotérmicos** e dos pecilotérmicos. Portanto, ao realizarmos a análise de uma área territorial, devemos observar suas origens, influências biofísicas, funcionais e estéticas. A ótica contemporâ- nea privilegia essa ética multidimensional, uma vez que o panorama terrestre não é uniforme e se estruturar com base em relações pluralísticas que situam, delineiam e distinguem um determinado geossistema. Para saber mais Se você quiser aprofundar seu conhecimento sobre a visão sistêmica e a concei- tuação teórica e metodológica do geossistema, seria interessante ler os seguintes textos: TROPPMAIR, H. Biogeografia e meio ambiente. 7. ed. Rio Claro: Ed. da Unesp, 2007. TROPPMAIR, H.; GALINA, M. H. Geossistemas. Mercator. Revista de Geografia da Universidade Federal do Ceará, ano 5, n. 10, 2006. Disponível em: <http://www. mercator.ufc.br/index.php/mercator/article/viewFile/69/44>. Acesso em: 1º set. 2011.4 . 1 . 5 As contr ibuiçõe s do pensamento contemporâneo para a ge stão ambienta l A s s i m , e m e r g i n d o d e s u c e s s i v o s p o s i c i o n a m e n t o s e m relação ao meio ambiente (concernentes ao pensamento dominante em cada época * Cadeias tróficas: também chamadas de cadeias alimentares, são representadas pela consecução das relações alimentares de um grupo de organismos por outros, o que forma níveis tróficos englobando os produtores, os consumidores e os decompositores. ** Consumidores homeotérmicos: consumidores de temperatura constante, independentemente da temperatura ambiente. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 107 da civilização), os quais Siqueira (2002) classifica em sete períodos distintos, che- gamos ao século XXI, ainda buscando, em muitos lugares, fazer valer a visão biocêntrica ao mesmo tempo em que avançamos para a visão ecocêntrica. O processo evolutivo desses dois modos de pensar a problemática ética-ambiental fica bem definido na caracterização do sexto e do sétimo períodos, conforme delineado por Siqueira (2002, p. 15-17): O sexto momento é o “biocêntrico”, surge no final do século XIX e evolui através do século XX, sua marca está na valorização da vida, nos aspectos evolutivos dos organismos vivos e no extraordinário avanço das ciências da vida, como a genética e seus processos de clonagem, por exemplo. O sétimo e último momento é o “ecocêntrico”, é um novo momento na cultura ocidental, está em construção, sua preocupação é com o meio ambiente e as questões sociais, desde a escala micro até a escala macro da problemática ambiental e social do planeta Terra. O eco- centrismo vai tentar articular os inúmeros fragmentos do fenômeno da globalização atual, o ecocentrismo é um processo de construção de valores éticos, para a construção de uma cidadania, apesar de seu processo global, ele age no local, no regional. [grifo nosso] Nesse contexto, partindo da valorização da vida, surgem novas perspectivas, novos parâmetros que fundamentam a gestão ambiental na busca por um equi- líbrio entre, de um lado, a preservação de traços socioambientais particulares e regionais e, de outro, o processo de interação global. Isso faz com que a humanidade, a começar por aqueles que estão envolvidos nos procedimentos de gestão ambiental, busque novos valores éticos. É o que se denominou de ética multidimensional, sobre a qual provavelmente muito ainda está para ser construído, mas cujas bases já estão lançadas: • visão sistêmica do meio ambiente; • redirecionamento dos focos econômico, social e político (com processos mais justos e igualitários), privilegiando o desenvolvimento sustentável; • novos conceitos científicos; • observação e respeito às inter-relações e às interdependências; • menor consumo de recursos naturais; • desenvolvimento de tecnologias adaptadas aos ecossistemas e às regiões específicas; • implantação da gestão ambiental participativa e da educação ambiental. Obviamente, embora tenhamos destacado a gestão e a educação ambiental, bem como o desenvolvimento sustentável, a implantação de tais processos só é Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 108 possível se observarmos os demais aspectos que envolvem a complexa teia das estruturas socioambientais pela perspectiva da valorização da vida, como a entendemos aqui: visão biocêntrica e não antropocêntrica, enquanto cami- nhamos, como já foi dito, para a construção do ecocentrismo. 4 . 2 Vu l n e r a b i l i d a d e a m b i e n t a l To d o s o s a s p e c t o s l e v a n t a d o s e a n a l i s a d o s n o s i t e n s anteriores justificam-se em função da vulnerabilidade ambiental. Esta pode ser analisada por meio da observação e da mensuração da pressão das atividades humanas sobre o meio ambiente ou sobre o ecossistema local (atividades que comprometem a estabilidade natural), bem como pelas condições da própria natureza. Nesses procedimentos, utilizando-se de ferramentas de análise, como os vários aspectos de intervenção do conhecimento a que já nos referimos, os técnicos poderão chegar a conclusões referentes aos danos ambientais causados por um determinado empreendimento. Nesse cenário, as pressões sobre o meio ambiente (considerando especifica- mente os fatores provocados pela ação humana) que provocam a vulnerabilidade ambiental são: • a pressão industrial; • a pressão agrícola; • a pressão urbana. O que existe de comum a esses três aspectos de pressão sobre o meio é a ação antrópica, a qual pode causar impactos ou resultar em desastres ambientais. Na interligação desses três fatores que podem desencadear a vulnerabilidade do meio ambiente, podemos observar a degradação do potencial agrícola de várias regiões. Nessa degradação, percebemos o efeito dos constantes processos erosivos negativos, como a construção urbana, ou mesmo de indústrias, em terras com condições próprias para a agricultura. Outras situações constatadas nesse cenário são as de obras que acabam por interferir nos ecossistemas, ao abranger extensas regiões, e as de uso indevido de determinados agrotóxicos ou de formas erradas de manejo agrícola. Aliás, você já deve ter ouvido falar sobre a desertificação da Amazônia motivada pelo mau uso do solo. É algo para refletirmos. Nessa conjuntura em que encontramos a vulnerabilidade ambiental versus as atividades antrópicas, um dos mais graves problemas a ser solucionado é o das águas residuais. Os esgotos, tanto de origem doméstica como indus- trial, são, em sua quase totalidade, lançados nas águas dos rios. Um exemplo bem característico de tal situação é a do rio Tietê, em São Paulo, com o seu elevado grau de poluição. No entanto, infelizmente, em outros lugares do país a Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 109 situação não é diferente. Grande parte dos municípios e das indústrias do país não apresentam solução para esse problema, pois “estações de tratamento de águas residuais” em perfeito funcionamento, devidamente adequadas, não se veem com frequência; pelo contrário, elas são, por assim dizer, quase utópicas. Enquanto isso, os rios estão sendo mortos (afetados em seu equilíbrio natural) e com eles a vida que lhes é própria com todas as suas interligações (ecossistema). 4 . 2 . 1 Indicadore s de vu lne rabi l idade Para avaliar a condição de vulnerabilidade de determinado ambiente, exis- tem vários indicadores, que são classificados em: • indicadores desensibilidade do solo; • indicadores de sensibilidade do clima e da atmosfera; • indicadores de sensibilidade de águas interiores*; • indicadores de sensibilidade da vegetação; • indicadores de sensibilidade da fauna. Sustentando-nos em Araujo et al. (2005), devemos nos ater, de modo mais aprofundado, em cada um desses indicadores, conforme demonstramos a seguir. Indicadores de sensibilidade do solo É c o n s e n s o c o n s i d e r a r m o s q u e o s i n d i c a d o r e s d e s e n - sibilidade do solo constituem conjunto de dados que fornecem a condição para avaliar a situação de determinado terreno, no que concerne à sua situa- ção em questões básicas: espessura ou profundidade do solo, textura, estrutura, capacidade de retenção hídrica e de infiltração, erodibilidade** e drenabilidade. Essas condições constituir-se-ão em fatores que autorizam ou restringem prá- ticas específicas, a saber: • espessura ou profundidade do solo – constitui-se em fator que facilita, inibe ou impede o desenvolvimento das raízes das plantas; • textura – representa um fator que irá determinar o uso ou o não uso do solo para fins agrícolas; • estrutura – apresenta fatores relativos às condições de armazenamento e de filtração da água no subsolo; * Águas interiores: também chamadas de águas territoriais, dizem respeito à presença da água no litoral, como baías, portos, abras, recôncavos, estuários, enseadas, assemelhadas aos lagos e rios. ** Erodibilidade: suscetibilidade de um solo à erosão. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 110 • capacidade de retenção hídrica e de infiltração – define a condição de se desenvolver, ou não, culturas cíclicas ou perenes; • erodibibilidade e drenalidade – informa os fatores de condições dos usos que são associados ao indicador estrutura. Indicadores de sensibilidade do clima e da atmosfera O s i n d i c a d o r e s d e s e n s i b i l i d a d e c l i m á t i c a , s e a o r i g e m dos danos estiver em ações provocadas pelo homem, podem ser agrupados em dois tipos: • o de sensibilidade aos componentes físicos; e • o de sensibilidade em relação à constituição da atmosfera. No entanto, há ocasiões em que os dois tipos de sensibilidade estão intrinse- camente associados. Assim, uma alteração na composição química atmosférica pode modificar o clima; em situação oposta, uma alteração em algum elemento físico do clima pode mudar a composição atmosférica. Nesse contexto, os indi- cadores se expressam em aspectos como: • estabilidade do microclima* – depende dos ciclos diurnos da tempe- ratura, da umidade, da radiação solar, dos ventos, dos balanços de água e de energia etc.; • estabilidade do ciclo hidrológico** e do clima regional – está ligada a mudanças nos padrões das chuvas, dos ventos, da temperatura, da umi- dade, da duração das estações etc.; • equilíbrio do sistema florestal – depende da manutenção da vegetação; • estabilidade da composição da atmosfera – está sujeita a queimadas, inversão térmica, efeito estufa, concentração de poluentes etc. Nesse sentido, o Quadro 4.1, que apresentamos a seguir, oferece uma visua- lização objetiva da relação entre os componentes naturais e os indicadores de sensibilidade de estado do clima e da atmosfera, constituindo-se em um padrão interessante e importante para uma análise técnica, considerando a situação aqui abordada. * Microclima: clima local em um espaço muito reduzido ou micro-habitat. Pode-se considerar como um microclima as condições existentes no interior de uma ca- verna, por exemplo. ** Ciclo hidrológico: movimento da água pelo ecossistema. Esse ciclo depende da capacidade de a água estar presente nas formas líquida e gasosa. O ciclo tem quatro fases: evaporação, condensação, precipitação e deflúvio. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 111 Quadro 4.1 – Exemplos de indicadores de estado do clima e da atmosfera Componente natural Indicadores Observações Microclima Ciclos diurnos de temperatura, umidade, radiação solar, ventos; balanços de água e energia; temperatura e umidade do solo (até um metro de profundidade). A temperatura da superfície é o melhor indicador, devido à praticidade de obtenção. Ciclo hidrológico e do clima regional Padrões (espaciais e temporais) das chuvas, ventos, temperatura, umidade; alteração na frequência da ocorrência de extremos e na duração da estação seca. As vazões dos grandes rios são os melhores indicadores, porque integram a precipitação***** de enormes extensões. Sistema florestal Vegetação nas áreas de transição entre os biomas* ou entre as expressões vegetais do mesmo bioma do indivíduo (fenologia**, taxa fotossintética***, produtividade, estratégia de reprodução, suscetibilidade a doenças e perda de variedade genética) e na comunidade (mudanças na fisionomia****, perda ou substituição de espécies, invasão de espécies exóticas, perdas de extratos e mudança no índice de área foliar). * Bioma: amplo conjunto de ecossistemas terrestres caracterizados por tipos de vegeta- ção fisionomicamente semelhantes. No Brasil, existem os seguintes grandes biomas: floresta amazônica, floresta atlântica, cerrado, caatinga, floresta de araucária, cam- pos e zonas de transição (Pantanal e zona costeira). O termo bioma é usado para denominar um grande sistema biológico ou ecossistema de proporções regionais e até subcontinentais (caracteriza-se pela existência de um tipo específico). ** Fenologia: estudo das características que se referem às datas, nas diversas fases de cultivo do arroz – data de emergência, de floração, de emissão de panícula e de ciclo. *** Taxa fotossintética: intensidade do processo de fotossíntese que a planta realiza. **** Fisionomia: feições características no aspecto de uma comunidade vegetal. ***** Precipitação: queda de água meteórica em estado líquido ou sólido. (continua) Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 112 Componente natural Indicadores Observações Composição da atmosfera Quantificação de queimadas (focos, área, biomassa******); frequência e altura das inversões térmicas; concentrações de poluentes na atmosfera: Hg vapor, CO2, CO, O3, CH4, H2O, NO, SO2, H2S, hidrocarbonetos, agrotóxicos, material particulado. A quantificação das queimadas, seja em área total ou em quantidade de biomassa envolvida nos processos de combustão, é o indicador mais óbvioda qualidade do ar em relação à emissão de poluentes pelas queimadas. Fonte: Araujo et al., 2005, p. 14. Indicadores de sensibilidade de águas interiores A d e s e s t a b i l i z a ç ã o d o s e c o s s i s t e m a s a q u á t i c o s t e m s e mostrado um fator corriqueiro, em consequência de várias atividades do ser humano, constituindo-se em um fato divulgado e conhecido. No entanto, em uma análise técnica da qualidade das águas, devemos considerar que os aspec- tos analisados são complexos e exclusivos de cada situação. Devemos, pois, levar em consideração a região ou microrregião em sua singularidade e seus fatores biogeoquímicos. Na análise da sensibilidade de águas interiores, os principais indicadores dos danos resultantes dos usos antrópicos são: • poluição por salinidade; • poluição tóxica – metais pesados, organoclorados* e outros defensivos agrícolas, óleos e graxas, fenóis** etc.; * Organoclorados: inseticidas orgânicos sintéticos que contêm, em suas moléculas, átomos de cloro, de carbono e de hidrogênio. Exemplos: DDT, Aldrin e Dieldrin. ** Fenóis: grupo de compostos aromáticos, com um grupo hidroxila ligado dire- tamente ao núcleo benzênico. Eles são altamente tóxicos aos organismos vivos ou durante a ingestão do iodo. Não obstante, em determinadas condições, eles podem ser decompostos por tratamento biológico. ****** Biomassa: conjunto constituído pelos componentes bióticos de um ecossistema. (Quadro 4.1 – conclusão) Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 113 • poluição orgânica – eutrofização*, coliformes fecais e totais, cor, turbidez; • poluição por sólidos dissolvidos ou em suspensão – descarga sólida, sólidos suspensos e dissolvidos, mudanças hidráulicas e na morfometria dos rios. Considerando que as atividades humanas responsáveis por esses tipos de da- nos são, entre outras, a silvicultura, a pecuária, a agricultura, a mineração, as obras de infraestrutura e as construções urbanas e industriais, torna-se fácil perceber a complexidade da situação, pois tais empreendimentos são necessários para a sobrevivência. No entanto, devemos destacar que, justamente por isso, a gestão ambiental se impõe como fator de relevância para o equilíbrio socioambiental. Nesse tipo de gestão, o que se busca são as possibilidades de controle, o en- frentamento do problema para se encontrar as soluções, como: práticas adequa- das na agricultura e no manejo pastoril; controle ambiental dos garimpos e da erosão; adoção de novas tecnologias adequadas à preservação do meio ambiente; tratamento de resíduos; planejamento do desenvolvimento das áreas urbanas; estudos de impacto ambiental, entre outros. Indicadores de sensibilidade da vegetação O s l i m i t e s d e t o l e r â n c i a d a v e g e t a ç ã o à s a l t e r a ç õ e s ou às interferências desordenadas nas características de seu meio físico são in- dicados por aspectos como: • a mudança no padrão fenológico; • a taxa de fotossíntese; • a produtividade; • a estratégia reprodutiva; • o aumento da suscetibilidade a doenças; • as perdas de estratos**; * Eutrofização: aumento da concentração de nutrientes na água natural, doce ou salgada, decorrente de um processo de intensificação do fornecimento ou de produção de nutrientes (principalmente nitratos e fosfatos), o que acelera o cres- cimento de algas e de formas mais desenvolvidas de vegetais e a deterioração da qualidade da água. Esse processo, quando provocado pelo lançamento de águas residuárias, ou dos afluentes do seu tratamento, em um lago, constitui um dos principais problemas no gerenciamento dos recursos hídricos. ** Estrato: possui características idênticas às reservas biológicas, mas permite alterações antrópicas, com finalidade de pesquisa ou outras atividades, em até 10% da sua área, desde que não coloque em perigo a sobrevivência das espécies ali existentes. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 114 • a mudança completa na fisionomia; • a mudança na cobertura. Nesse cenário, a desestabi- lização do ecossistema de uma área ou região (biota) pode de- correr de consequências de or- dem direta ou indireta das ações inadequadas do ser humano no meio físico-natural. O desequilí- brio, provocado dessa forma, traz consigo, entre outros aspectos: a perda da biodiversidade; altera- ções na distribuição da temperatura; a proliferação de pragas e de doenças; o desenvolvimento de espécies exóticas (ou espécies invasoras, que destroem as es- pécies nativas); a ativação e a dinamização de processos erosivos; a contaminação de aquíferos; o assoreamento de cursos de água; a deterioração das condições de fertilidade dos solos e as voçorocas. Indicadores de sensibilidade da fauna Q u a n d o r e a l i z a m o s u m a a n á l i s e t é c n i c a d o s i n d i c a - dores da sensibilidade da fauna, existem procedimentos que provocam alterações no meio físico-natural desta. Nesses processos, devemos considerar escalas de mensuração temporal e espa- cial, nas quais, necessariamente, ocorre a interferência de aspectos da vegetação presente. Entre os indicadores que são utilizados para detectar as condições de qualidade da fauna, destacamos: • o tamanho e a distribuição espacial da população; • a probabilidade de desastres naturais; • o número de espécies; • as estruturas de cadeias alimentares/nível trófico*; • o tempo de existência da comunidade; • as taxas de extinção de espécies; • o potencial reprodutivo. Quando falamos de fauna, estamos nos referindo aos mais diversos portes das espécies, com variados períodos de vida (variação relativa à diversidade de * Nível trófico: posição ocupada por um organismo na cadeia alimentar (produtor primário, decompositor, entre outros). Considerando que as atividades humanas responsáveis por esses tipos de danos são, entre outras, a silvicultura, a pecuária, a agricultura, a mineração, as obras de infraestrutura e as construções urbanas e industriais, torna-se fácil perceber a complexidade da situação, pois tais empreendimentos são necessários para a sobrevivência. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 115 espécies). Isso significa que uma análise dos fatores desestabilizadores desse pro- cesso é complexa, pois são inúmeros os fatores que influenciam a sensibilidade das espécies e das comunidades. Ressalta-se o fato de a sensibilidade da fauna à ação antrópica refletir-se, principalmente, no fatorpopulação: alterações na composição, na extinção em uma determinada região ou no aumento da população de uma espécie específica. Você já observou como ocorre a urbanização em nosso país? Considerando os fatores e os indicadores analisados até aqui, e se observamos nosso entorno, a resposta parece unânime: de forma desordenada, principalmente nas regiões metropolitanas das capitais. Nesse contexto, claramente a questão da vulnerabilidade am- biental torna-se crítica, pois, com o crescimento populacional, as áreas preservadas, ou seja, os ambientes de reprodução de animais e uma quan- tidade significativa de organismos florestais sofrem a supressão provo- cada pela ação antrópica sem plane- jamento por parte do Poder Público, que em determinadas ocasiões é o próprio motivador desses processos. Portanto, este se constitui em um mo- mento propício para refletir sobre os dados, os enfrentamentos necessários, bem como as perspectivas socioambientais a que estamos expostos. S í n t e s e A p r e s s ã o d a s a t i v i d a d e s h u m a n a s s o b r e o m e i o a m - biente atinge a vulnerabilidade ambiental, a qual, por sua vez, exerce influên- cia nas relações entre populações e organismos da fauna e da flora e provoca a degradação ambiental. Nesse contexto, uma das alternativas destacadas para a verificação do nível de degradação ambiental é a adoção de indicadores de vul- nerabilidade, os quais possibilitam que autoridades e técnicos possam avaliar e buscar soluções para os problemas ambientais. Assim, por meio dos instrumentos de defesa do ambiente na gestão ambiental, lançamos a base fundamental deste estudo, ou seja, técnicas e métodos para a avaliação do ecossistema ou de uma determinada área. Consideramos tal abordagem extremamente importante, pois, com o avanço significativo da tecnologia, encontramos uma série de instrumentos L ev en du la Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 116 que podem medir o impacto ambiental e, ao mesmo tempo, encontrar signifi- cados para a sua vulnerabilidade e/ou estabilidade. Por outro lado, os desastres ambientais comprovam que o modelo de exploração do meio ambiente que o homem adotou deve ser repensado. As agressões são constantes e, por isso, ne- cessitamos conhecer e estabelecer mecanismos para a recuperação dos ambientes degradados, o que implica uma abordagem ou atuação multidisciplinar. Essa é uma necessidade concreta e urgente. Q u e s t õ e s p a r a r e f l e x ã o C o n s i d e r a n d o o s d o i s t r e c h o s d e d o c u m e n t o s d e o r i e n - tação da administração pública, transcritos a seguir, o que nós já discutimos até aqui, a sua observação do local em que vive e o que você tem de informações sobre a realidade de diversas regiões do país, reflita sobre o que ocorre no nosso meio em relação à gestão ambiental. A Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental (SNSA) A Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental (SNSA) tem como meta promover um significativo avanço, no menor prazo possível, rumo à universalização do abastecimento de água potável, esgota- mento sanitário (coleta, tratamento e destinação final), gestão de resíduos sólidos urbanos (coleta, tratamento e disposição final), além do adequado manejo de águas pluviais urbanas, com o consequente controle de enchentes. (Brasil, 2011b) No manual do Programa Nacional de Capacitação de Gestores Ambientais, consta que: B. Gerir quer dizer administrar, dirigir, manter determinada situa- ção ou processo sob controle para obter o melhor resultado. Realizar a gestão do meio ambiente significa executar uma série de ações, de forma encadeada e articulada, que resultem em: • maior consciência sobre as consequências da atuação humana sobre o ambiente; e • adoção de práticas e de comportamentos que melhorem essa atuação. (Ceará, 2011, grifo nosso) 1. Você já observou se essa preocupação com o saneamento é traduzida por fatos objetivos, por ações? E mais, você considera que tais medidas de suporte urbano e de conscientização educacional implicam atividades multidisciplinares? Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 117 2. Especificamente sobre o manejo das “águas pluviais urbanas”, qual é a sua opinião? Você acredita que elas sejam fatores importantes para prevenir os aspectos vulneráveis de um determinado local? E para as enchentes, quais medidas você proporia? Q u e s t õ e s p a r a r e v i s ã o 1. Geologia ambiental é o ramo da ecologia que trata das relações entre o ser humano e seu habitat geológico; ela se ocupa, por exemplo, dos problemas do homem com o uso da Terra – e a reação da Terra a esse uso. A geologia ambiental inclui os ramos tradicionais da geologia de engenharia e da geologia econômica, ou uma pequena parte desta última, referente aos recursos minerais. Você pode relatar algumas situações em que podemos utilizar a geologia para analisar o meio ambiente? 2. A vulnerabilidade ambiental pode ser analisada com base na pressão das atividades humanas sobre o meio físico-natural. Nesse contexto, relacione quais são os indicadores de vulnerabilidade. 3. Em relação aos indicadores da sensibilidade do clima e da atmosfera, as- sinale “V” para as proposições verdadeiras e “F” para as falsas: ( ) Estabilidade do microclima (ciclos diurnos de temperatura, umidade, radiação solar, ventos, balanços de água e energia etc.). ( ) Estabilidade dos recursos não renováveis. ( ) Estabilidade do ciclo hidrológico e da temperatura média do globo terrestre (mudança nos padrões das chuvas, dos ventos, da tempera- tura, da umidade etc.). ( ) Estabilidade da composição da atmosfera (queimadas, inversão térmica, efeito estufa, concentração de poluentes etc.). ( ) Equilíbrio do sistema de sustentabilidade espacial e econômica. A sequência correta é: a. V, F, F, V, F. b. F, F, V, V, F. c. V, F, V, F, V. d. F, V, F, V, F. 4. No que se refere aos significados de estabilidade, podemos dizer que: i. Constância é a ausência de mudanças nos parâmetros do sistema ambiental, como, por exemplo, caça predatória, destruição de habitats e ação de novos predadores e competidores. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. sousa Realce sousa Texto digitado sousa Texto digitado V sousa Texto digitado F sousa Texto digitado F sousa Texto digitado V sousa Texto digitado F sousa Texto digitado No caso de fenômenos geológicos, como otectonismo e o vulcanismo,nullos abalos sísmicos e as variações do nível do mar; na interferência donullhomem em acidentes ambientais naturais, como o escorregamentonullde solo, a erosão e as enchentes; no uso de tecnologias de disposiçãonullde resíduos sólidos. 118 ii. Amplitude é a velocidade com a qual um sistema ambiental retorna a seu estado anterior após uma perturbação, podendo ser comparada a modelos matemáticos. iii. Estabilidade cíclica é a propriedade que tem um sistema ambiental para alterar algum ponto ou zona final, apesar das diferenças no ponto de partida. iv. Persistência consiste na capacidade que um sistema ambiental tem para resistir às perturbações externas. Com base nas informações anteriores, podemos dizer que: a. somente as afirmativas I e II estão corretas. b. somente as afirmativas II e III estão corretas. c. somente as afirmativas I e IV estão corretas. d. Nenhuma das alternativas anteriores. 5. Assinale as alternativas corretas. a. A gestão ambiental se impõe como fator de relevância para o equilíbrio socioambiental. b. O ecocentrismo é um processo de construção de valores éticos, para a construção da cidadania, e o conflito de tal abordagem reside no fato de seu processo agir apenas no nível global. c. Com base na valorização da vida, surgem novas perspectivas, novos parâmetros que fundamentam a gestão ambiental, na busca por um equilíbrio entre, de um lado, a preservação de traços socioambientais particulares e regionais e, de outro, o processo de interação global. d. A gerência ambiental caracteriza a administração voltada para o en- frentamento das questões relacionadas com o meio ambiente, o que, por sua vez, implica abordar as conexões que se estabelecem com áreas diversas das tecnologias e das ciências, bem como com os parâmetros advindos da legislação ambiental. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. sousa Realce sousa Realce sousa Realce sousa Realce 119 c a p í t u l o 5 Impactos ambientais Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. C o n t e ú d o s d o c a p í t u l o : • A concepção de AIA, EIA e Rima; • A fundamentação legal da aplicação da AIA, do EIA e da elaboração do Rima; • Ferramentas para realização do EIA e da AIA. A p ó s o e s t u d o d e s t e c a p í t u l o , v o c ê s e r á c a p a z d e : • conhecer a fundamentação legal que viabiliza a gestão socioambiental; • definir o que é o AIA, o EIA e o Rima, no âmbito da gestão ambiental; • identificar a área de aplicação desses instrumentos de avaliação, de estudo e de elaboração de pareceres sobre o meio; • identificar a necessidade de projetos multidisciplinares para a gestão ambiental; • descrever as áreas de utilização e os procedimentos necessários para os estudos e avaliação ambiental; • definir o impacto ambiental, os indicadores, os bioindicadores e os mé- todos geofísicos; • caracterizar os impactos ambientais; • elaborar um Rima. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 121 O s i m p a c t o s a m b i e n t a i s s ã o o c a s i o n a d o s p o r c h o q u e s de interesses diretos ou indiretos, envolvendo o homem e a natureza. Esses con- frontos são classificados como positivos ou negativos, diretos ou indiretos, oca- sionais ou permanentes, locais ou globais. Nesse embate, desmatamentos, quei- madas, erosão, aumento ou redução da camada de ozônio*, efeito estufa, inversão térmica e poluição são as consequências mais graves. Diante desse quadro, surge a necessidade de estudarmos, conhecermos e aplicarmos determinados princí- pios, técnicas e também recorrer a dispositivos legais para a efetividade da gestão ambiental (Estudo Prévio de Impacto Ambiental – EIA, Avaliação de Impacto Ambiental – AIA, Relatório de Impacto Ambiental – Rima e outros). Por essa razão, esses aspectos devem ser abordados pela perspectiva da representação do fenômeno dos impactos ambientais relacionados a diversas áreas de estudo. A aplicação da política ambiental, no Brasil, encontra-se essencialmente baseada em dispositivos legais. Consultando a legislação No Brasil, o gestor ambiental encontra na Resolução Conama n. 001/1986 (Brasil, 1986c) o parâmetro legal que indica a forma de avaliar o impacto am- biental, expressão cujo conceito é apresentado nessa mesma resolução: Art. 1º Para efeito desta Resolução, considera-se impacto ambiental qualquer alte- ração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam: I – a saúde, a segurança e o bem-estar da população; II – as atividades sociais e econômicas; * Ozônio: é uma variedade de oxigênio composta por três átomos. Apresenta-se sob a forma de um gás azulado e de odor acre, que ocorre naturalmente na atmosfera, a 22 quilômetros do solo. Esse “filtro” protege o planeta contra a ação direta dos raios solares, garantindo, assim, a vida na superfície terrestre. A destruição do ozônio pela emissão de clorofluorocarboneto (CFC) afeta a camada, que diminui ao ritmo de 4% por década, aumentando a radiação dos raios UVA e UVB, responsáveis pelos dois tipos de câncer de pele mais comuns: os carcinomas baso e espinocelular. Calcula-se que 900 mil casos dessa doença tenham surgido no Brasil nos últimos anos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 122 III – a biota; IV – as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; V – a qualidade dos recursos ambientais. 5 . 1 I m p a c t o a m b i e n t a l : p r o c e d i m e n t o s e r e g u l a m e n t a ç õ e s C o m o o b j e t i v o d e e l u c i d a r m o s a o p e r a c i o n a l i z a ç ã o dos procedimentos estabelecidos para organizar a gestão ambiental, vamos fazer algumas inferências em relação ao uso e à finalidade de alguns instrumentos reguladores, pois toda atividade poluidora, ou que apresente a possibilidade de sê-lo, necessita de autorização da autoridade ambientalcompetente para se estabelecer. Por esse motivo, apresentamos um breve resumo dos principais do- cumentos inseridos no processo de estudo de impacto ambiental. Figura 5.1 – Documentos de estudo do impacto ambiental Relatório de Impacto de VizinhançaEstudo de Impacto de Vizinhança A Avaliação de Impacto Ambiental (AIA): foi instituída pela Lei Federal n. 6.938/1981 (Brasil, 1981b), que estabeleceu a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA) e definiu, em seu art. 9º, alínea III, a AIA como um de seus instrumentos. A sua regulamentação deu-se por meio Decreto n. 99.274/1990, que designou como finalidade prática desse instrumento o seu uso pelos sistemas de licenciamento de atividades poluidoras ou modificadoras do meio ambiente, bem como as atividades ligadas às entidades ambientais dos governos estaduais (Brasil, 1990d). O Estudo de Impacto Ambiental (EIA): estão englobadas nesse estudo várias atividades de cunho técnico e científico, como o diagnóstico ambiental, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 123 a identificação de fatores impactantes, a previsão e a medição de impactos, além da interpretação e da valoração de dados em relação a atividades impactantes, bem como a indicação de ações amenizadoras por meio de programas de moni- toração de tais atividades. Inserem-se, portanto, no âmbito do EIA, os estudos indicativos das modificações que possam ser causadas por um projeto (obra ou atividade) sobre as características socioeconômicas e biofísicas do meio ambiente de forma significativa, ou seja, que tenha um potencial de degradação considerável. O Relatório de Impactos Ambientais (Rima): constitui-se em um documento do processo de Avaliação do Impacto Ambiental (AIA) e deve esclarecer todos os elementos do estudo (EIA), de modo que possam ser utili- zados na tomada de decisões e divulgados para o público em geral (em especial, para a comunidade afetada). O Rima formaliza as conclusões do EIA, devendo conter a discussão dos impactos positivos e negativos. Os EIAs e os respectivos Rimas servem para estabelecer a avaliação de im- pacto ambiental como preconizado na AIA. Estes são instrumentos de política ambiental formados por um conjunto de procedimentos que tem como objetivo assegurar o desenvolvimento de projetos. Faz parte do processo de otimizar as decisões, de proporcionar uma retroalimentação contínua entre as conclusões e a concepção da proposta (projeto, programa, plano ou política). Nesse contexto das avaliações ambientais com os instrumentos propostos pelo EIA/Rima, devemos ter em mente quais são os impactos ambientais de um empreendimento, bem como o seu significado, considerando o que diz a Resolução do Conama n. 001/1986, em seu art. 1º, conforme citação no início deste capítulo; devemos, portanto, levar em conta as características ali apresentadas. A abrangência do EIA deve considerar os processos biogeoquímicos como transformadores da crosta terrestre (duração, forma, extensão, causas, conse- quências etc.), dentro do uso e da apropriação dos espaços urbano e rural pelas atividades humanas. 5 . 1 . 1 Aval ia ção de Impacto Ambienta l (AIA) C o m o j á f o i d i t o , a A I A s u r g i u n o B r a s i l c o m o a d - vento da Lei Federal n. 6.938/1981, que criou a PNMA, que, por sua vez, dispõe sobre os fins e os mecanismos de formulação e de aplicação dessas políticas. Nesse período, ainda não estava muito claro para os empreendedores o funcionamento e a aplicação dos dispositivos legais em relação aos impactos e aos empreendi- mentos que se sujeitam a essa lei. Com o tempo, outras ferramentas de caráter legal foram adequando-se ao modelo de desenvolvimento adotado, e as normas ambientais foram ampliadas com: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 124 • a Resolução do Conama n. 001/1986 – que estabelece diretrizes, con- forme declara no preâmbulo do documento: “Considerando a necessidade de se estabelecerem as definições, as responsabilidades, os critérios básicos e as diretrizes gerais para uso e implementação da Avaliação de Impacto Ambiental como um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente”. Portanto, constitui-se em um manual da AIA; • a Resolução do Conama n. 237/1997 – que elabora uma lista de empreen- dimentos em relação à licença ambiental, pois revisa procedimentos e crité- rios, incorpora instrumentos de gestão ambiental, regulamenta, estabelece competências e se manifesta em relação à necessidade de “ação integrada” entre os órgãos do Sisnama na execução da PNMA (Brasil, 1997g); • a Resolução Sema n. 031/1998 (Estado do Paraná) – que estabelece normas para a licença ambiental no que se refere a empreendimentos mi- nerários, ou seja, licença prévia, de instalação, de operação e de renovação de licença de operação (também outros estados dispõem de resoluções similares) (Brasil, 1998i). Além disso, foram criados, nas esferas governamentais (federal, estadual e municipal), processos de instrumentalização para o licenciamento ambiental (iniciativa privada), bem como procedimentos estatísticos. 5 . 1 . 2 Leg i s la ção brasi l e ira e ge stão ambienta l F o i e m f u n ç ã o d a s e x i g ê n c i a s p r o v e n i e n t e s d e ó r g ã o s financiadores internacionais que se instituiu a AIA no Brasil (acompanhando a tendência mundial da década de 1980); esse instrumento, portanto, não repre- sentava uma postura de conscientização em relação aos fatores ambientais. Mais tarde, ela passou a compor as informações fornecidas aos sistemas de licencia- mento ambiental e, posteriormente, foi incorporada à PNMA na sua execução. Os marcos fundamentais da legislação ambiental no Brasil foram: 1. Decreto n. 73.030/1973 (Brasil, 1973) – criou a Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema – não confundir com as secretarias estaduais do meio ambiente com a mesma sigla). 2. Lei n. 6.803/1980 (Brasil, 1980b) – instituiu o zoneamento industrial e incorporou a avaliação de impacto ambiental ao licenciamento industrial. 3. Lei n. 6.938/1981 (Brasil, 1981b) – instituiu a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA). 4. Decreto n. 88.351/1983 (Brasil, 1983b) – regulamentou a Lei n. 6.938/1981. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 125 5. Lei n. 7.347/1985 (Brasil, 1985) – importante instrumento na socialização da gestão ambiental, ela instituiu a ação civil pública contra os danos ao meio ambiente. 6. Resolução Conama n. 001/1986 – regulamentou e disciplinoua avaliação de impactos ambientais. 7. Constituição Federal de 1988 (Brasil, 1988a) – dedicou um capítulo (art. 225, parágrafo 1º, inciso IV) ao meio ambiente, no qual determina que o Poder Público deve exigir, na forma da lei, para a instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade. 8. Decreto n. 99.274/1990 (Brasil, 1990d) – novo regulamento que abrangeu as Leis n. 6.902/1981 (Brasil, 1981a) e n. 6.938/1981 (Brasil, 1981b), as quais definem os parâmetros para a criação de estações ecológicas e áreas de proteção ambiental e direcionam a Política Nacional do Meio Ambiente, respectivamente. 9. Criação do Ministério do Meio Ambiente (MMA) pela Lei n. 8.490/1992 (Brasil, 1992) – o qual passou por sucessivas alterações no nome e no âm- bito das competências e das estruturas organizacionais. 10. Decreto n. 6.101/2007 (Brasil, 2007a) – estabeleceu a atual estrutura re- gimental, a natureza e as competências do MMA. Consultando a legislação A Resolução Conama n. 001/1986 contém os elementos básicos dos EIA/ Rima. De acordo com seu art. 5º, o EIA deve: I – Contemplar todas as alternativas tecnológicas e de localização de projeto, confrontando-as com a hipótese de não execução do projeto; II – Identificar e avaliar sistematicamente os impactos ambientais gerados nas fases de implantação e operação da atividade; III – Definir os limites da área geográfica a ser direta ou indiretamente afetada pelos impactos, denominada “área de influência do projeto”, con- siderando, em todos os casos, a bacia hidrográfica* na qual se localiza; IV – Considerar os planos e programas governamentais, propostos e em implantação na área de influência do projeto, e sua compatibilidade. No seu art. 6°, consta que o EIA desenvolverá, no mínimo, as atividades técni- cas que listamos a seguir: * Bacia hidrográfica: área de terra drenada por um determinado curso d’água e seus tributários, e que é limitada perifericamente pelos divisores de água. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 126 I – Diagnóstico ambiental* da área de influência do projeto, completa descrição e análise dos recursos ambientais e suas interações, tal como existem, de modo a caracterizar a situação ambiental da área, antes da implantação do projeto, considerando: a. o meio físico – o subsolo, as águas, o ar e o clima, destacando os recursos minerais, a topografia, os tipos e aptidões do solo, os corpos d’água, o regime hidrológico, as correntes marinhas, as correntes atmosféricas; b. o meio biológico e os ecossistemas naturais – a fauna e a flora, des- tacando as espécies indicadoras da qualidade ambiental, de valor científico e econômico, raras e ameaçadas de extinção e as áreas de preservação permanente; c. o meio socioeconômico – o uso e ocupação do solo, os usos da água e a socioeconomia, destacando os sítios e monumentos arqueológicos, históricos e culturais da comunidade, as relações de dependência en- tre a sociedade local, os recursos ambientais e a potencial utilização futura desses recursos. II – Análise dos impactos ambientais do projeto e de suas alternativas, através de identificação, previsão da magnitude e interpretação da im- portância dos prováveis impactos relevantes, discriminando: os impactos positivos e negativos (benéficos e adversos), diretos e indiretos, imediatos e a médio e longo prazos, temporários e permanentes; seu grau de rever- sibilidade; suas propriedades cumulativas e sinérgicas; a distribuição dos ônus e benefícios sociais. III – Definição das medidas mitigadoras dos impactos negativos, entre elas os equipamentos de controle e sistemas de tratamento de despejos, avaliando a eficiência de cada uma delas. IV – Elaboração do programa de acompanhamento e monitoramento (os impactos positivos e negativos, indicando os fatores e parâmetros a serem considerados). A análise atenta desses dois artigos nos fornece um panorama abrangente, ao mesmo tempo em que faz uma descrição detalhada dos aspectos envolvidos no EIA e cuja aplicação é imprescindível para a gestão socioambiental. Por exemplo: a construção de uma usina hidrelétrica, que, além de alterar o ecossistema local, promove um aumento de algas (estas funcionam como bioindicadores), pois a massa biológica que ficou submersa com o enchimento do lago causa a redução * Diagnóstico ambiental: consiste no conhecimento e na interpretação da interação e da dinâmica do estado ambiental em uma determinada área, relacionando-o aos fatores abióticos, bióticos e antrópicos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 127 do oxigênio e o aumento de temperatura da água, o que aumenta, consequen- temente, a população desses organismos. É um impacto visível, porém pode ser mitigável, ou seja, existem mecanismos técnicos para minimizar o nível desse impacto. Nesse contexto, a aplicação dos procedimentos do EIA, bem como da elaboração da Rima, constituem-se em instrumentos viabilizadores da gestão socioambiental. 5 . 1 . 3 Classi f i cação dos impactos A c l a s s i f i c a ç ã o d o s i m p a c t o s a m b i e n t a i s d e v e c o n t e m - plar aspectos ecológicos, sociais, culturais e econômicos, considerando os pres- supostos da sustentabilidade. Nesse contexto, impactos sobre os elementos so- cioeconômicos do meio ambiente são, geralmente, identificados como: • desapropriações; • situação populacional; • núcleos populacionais; • atividades econômicas; • infraestrutura regional; • saúde pública; • educação; • recreação e lazer; • patrimônio paisagístico, cultural, histórico e arquitetônico. Devemos destacar que, durante esse processo de classificação e de identi- ficação dos impactos ambientais, surge a necessidade de nos valermos do uso dos documentos já elencados, relacionados ao EIA; no entanto, quando da elabo- ração de documentos para o estudo dos impactos ambientais, existem situações em que eles se tornam inadequados, porque apresentam características que os desclassificam. Alguns exemplos são os documentos viciosos, os sem conteúdo científico ou, ainda, os com informações escassas: • Documentos viciosos – trazem informações distorcidas, em razão de interesses financeiros da consultoria, a qual mantém acordo com o em- preendedor; sendo assim, o documento perde a imparcialidade própria de uma análise técnica e científica, pois os dados irão favorecer o empreen- dedor em detrimento do meio ambiente. • Documentos sem conteúdo científico (sem dados primários) – são produzidos pela denominada indústria de Rimas. Nesses documentos, constam apenas dados secundários (muitas vezes não relacionados) sobre o empreendimento e o meio ambiente. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm as em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 128 • Documentos com informação insuficiente – desconexas, evasivas e sem abrangência, as informações sobre o empreendimento e o meio ambiente neles contidas não preenchem todos os requisitos, pois são insuficientes. Revelam falta de capacitação técnica da equipe e/ou recursos insuficientes para a realização das pesquisas, das análises e dos estudos. Salientamos o fato de que os documentos são os mesmos, o que os torna ade- quados ou inadequados são os processos ou os procedimentos durante sua elabo- ração. Se no processo de elaboração forem observados os princípios éticos e cien- tíficos, os documentos (relatórios e análises) serão adequados para a classificação e a identificação dos impactos ambientais. 5 . 1 . 4 Diag nóst i co ambienta l O d i a g n ó s t i c o a m b i e n t a l é r e a l i z a d o c o m b a s e n a a n á - lise da totalidade de dados do Rima; podemos também dizer que ele ocorre após a avaliação de todas as variáveis do geossistema estudado. Assim, abrange: • a descrição e a análise dos componentes de um ambiente, bem como as suas interligações, relatando a condição ambiental da área de influência; • as variáveis sujeitas a impactos, diretos ou indiretos, cujos efeitos sejam altamente expressivos em função de atividades, quer seja no planejamento, na implantação, na operacionalização ou, ainda, na desativação destas; • a apresentação de um quadro de informações cartográficas em escalas compatíveis, utilizando, em sua elaboração, dados ambientais (físicos, biológicos, sociais, econômicos e culturais), e orientando os métodos pró- prios para a análise desses processos com o propósito de caracterizar as inter-relações estabelecidas entre os elementos integrantes da biota (abióticos e antrópicos) do sistema a ser atingido pela obra ou atividade; • a identificação das tendências evolutivas dos fatores mais importantes para caracterizar a interferência (impacto). Nesse processo, fazemos a caracterização do meio físico pelas condições ex- pressas pelo clima e pelas condições meteorológicas da área potencialmente utili- zada do empreendimento, bem como pela qualidade do ar e dos níveis de ruídos na região, além das características geológicas e dos recursos hídricos (bacia hidro- gráfica, hidrogeologia, oceanografia física, qualidade do uso da água, entre outros). Já a caracterização do meio biológico ocorre pela observância da caracte- rização e análise dos ecossistemas terrestres, aquáticos e de transição da área de influência do empreendimento; pela descrição da cobertura vegetal, do mapea- mento temático, dos indicadores da qualidade do ar, da umidade e da perturbação Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 129 do solo; bem como pela descrição geral das inter-relações fauna-flora; além do inventário de espécies por ecossistema, seus sítios de reprodução, territórios e áreas de ocorrência. O meio antrópico é caracterizado, no processo do diagnóstico ambiental, por vários fatores e implica uma complexidade própria da atividade humana. Entre os aspectos indicativos e descritivos desse meio, encontra-se: • distribuição, densidade e dinâmica populacional, mapa de localização das aglomerações urbanas e rurais, taxa de crescimento demográfico; • aspectos do uso e de ocupação do solo, e estrutura fundiária (zoneamento); • quadro referencial do nível de vida; • dados sobre a estrutura produtiva e de serviços; • organização social da área de influência. Uma vez ciente de tais caracterizações, para a elaboração do diagnóstico, a aná- lise dos impactos ambientais segue uma série de procedimentos, quais sejam: • identificação, valoração e interpretação dos prováveis impactos ambientais nas fases de planejamento, implantação, operação e desativação, sobre os meios físicos, biológicos e antrópicos; • avaliação dos impactos: diretos e indiretos; benéficos e adversos; tem- porários, permanentes e cíclicos; imediatos e de médio e longo prazo; reversíveis e irreversíveis; locais e estratégicos; • dimensionamento da magnitude, da abrangência e da interpretação da importância de cada um dos impactos. O resultado dessa análise, seguindo os passos apresentados, resulta no documento denominado Prognóstico da qualidade ambiental da área de influência, o qual possibilita a prescrição de medidas mitigadoras e de procedimentos para os impactos. As medidas mitigadoras devem explicitar os procedimentos que visam mini- mizar os impactos adversos quanto: • à natureza (preventiva ou corretiva); • à fase do empreendimento; • aos fatores ambientais (físico, biológico ou socioeconômico); • ao prazo de permanência (curto, médio ou longo); • ao responsável pela medida (empreendedor, Poder Público e outros). Esses processos de minimização dos impactos ambientais, para serem efetivos, devem ser monitorados. As medidas que permitem esse monito- ramento são: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 130 • indicação e justificativa dos parâmetros selecionados para avaliação dos impactos; • análise de rede de amostragem, dimensionamento e distribuição espacial; • uso de métodos de coleta e análise de amostras, parâmetros e periodização; • elaboração e observação do quadro da evolução dos impactos ambientais, considerando as fases do empreendimento. Não devemos nos esquecer, nesse processo de pesquisa e de avaliação, da importância de se buscar informações referentes ao Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) e ao Relatório de Impacto de Vizinhança (Rivi), determinado pelo Estatuto das Cidades (Lei n. 10.257/2001). Aqueles instrumentos (estudo e documento) não são de caráter obrigatório, mas são necessários em empreendi- mentos onde haja uma comunidade atingida diretamente pelos aspectos neles levantados e relatados. 5 . 1 . 5 Re latór io de Impacto Ambienta l (Rima) O R i m a é o r e s u l t a d o d e t o d a s a s p e s q u i s a s e d i s c u s s õ e s técnicas encontradas no EIA, obedecendo ao disposto na Resolução Conama n. 001/1986. No texto do art. 9º dessa resolução, são definidos a finalidade e o conteúdo do Rima. Consultando a legislação Art. 9º [...] O Rima deve conter, no mínimo: I – Os objetivos e justificativas do projeto, sua relação e compatibilidade com as políticas setoriais, planos e programas governamentais; II – A descrição do projeto e suas alternativas tecnológicas e locacionais, especificando para cada um deles, nas fases de construção e operação, a área de influência, as matérias-primas, e mão de obra, as fontes de ener- gia, os processos e técnica operacionais, os prováveis efluentes,emissões, resíduos de energia, os empregos diretos e indiretos a serem gerados; III – A síntese dos resultados dos estudos de diagnósticos ambiental da área de influência do projeto; IV – A descrição dos prováveis impactos ambientais da implantação e operação da atividade, considerando o projeto, suas alternativas, os hori- zontes de tempo de incidência dos impactos e indicando os métodos, técnicas e critérios adotados para sua identificação, quantificação e interpretação; V – A caracterização da qualidade ambiental futura da área de influência, comparando as diferentes situações da adoção do projeto e suas alterna- tivas, bem como com a hipótese de sua não realização; Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 131 VI – A descrição do efeito esperado das medidas mitigadoras previstas em relação aos impactos negativos, mencionando aqueles que não pude- ram ser evitados, e o grau de alteração esperado; VII – O programa de acompanhamento e monitoramento dos impactos; VIII – Recomendação quanto à alternativa mais favorável (conclusões e comentários de ordem geral). Além disso, deve constar no relatório a composição da equipe técnica res- ponsável pela sua elaboração: nome, título e registro profissional. E, no tocante aos elementos constitutivos do texto, no parágrafo único do art. 9º fornece uma importante explicação da forma de estruturação prevista para o Rima. Consultando a legislação Resolução Conama n. 001/1986, art. 9º, parágrafo único: O RIMA deve ser apresentado de forma objetiva e adequada à sua compreensão. As informações devem ser traduzidas em linguagem acessível, ilustradas por ma- pas, cartas, quadros, gráficos e demais técnicas de comunicação visual, de modo que se possam entender as vantagens e desvantagens do projeto, bem como todas as consequências ambientais de sua implantação. Já no art. 11 da referida resolução, são definidos os critérios éticos e de publi- cação do relatório: Respeitado o sigilo industrial, assim solicitando e demonstrando pelo in- teressado, o RIMA será acessível ao público. Suas cópias permanecerão à disposição dos interessados, nos centros de documentação ou bibliotecas da SEMA e do órgão estadual de controle ambiental correspondente, in- clusive o período de análise técnica. Como você pode deduzir, pela riqueza de detalhes, esse relatório constitui-se no documento que registrará, ou seja, espelhará os levantamentos e as análises realizados na área de instalação de determinado projeto. Apresenta a sua via- bilidade e as correções necessárias, bem como as condições ambientais atuais e futuras, oriundas da instalação de tal projeto, o que pode significar a recomen- dação para a sua não instalação. Para saber mais Se você estiver envolvido com as práticas da gestão ambiental, é interessante acessar o site do Conama. Lá encontram-se todas as resoluções deste órgão, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 132 inclusive as de 2011. Essa leitura é importante, pois irá mantê-lo atualizado e fornecer detalhes técnicos fundamentais do processo. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Conama. Resoluções. Disponível em: <http:// www.mma.gov.br/port/conama/legiano.cfm?codlegitipo=3>. Acesso em: 1º set. 2011. 5 . 2 C o m o r e c o n h e c e r o s i m p a c t o s S e r á q u e p o d e m o s r e c o n h e c e r o s i m p a c t o s a m b i e n t a i s sem que sejam conhecidos os processos que os produziram? Que processos são esses? E, afinal, quais são os seus elementos constituintes? Embora reconheçamos que seja difícil conceituar os impactos ambientais provocados por um projeto (âmbito da ação antrópica), destacamos que, de acordo com Bolea (citado por La Rovère, 2001), são eles “a diferença entre a situa- ção do meio ambiente (natural e social) futuro, modificado pela realização de um projeto, e a situação do meio ambiente futuro tal como teria evoluído sem o projeto”, por nos parecer esta definição concisa e aplicável. Podemos dizer que os elementos constituintes dos impactos ambien- tais são: • relações dinâmicas entre os processos sociais e ecológicos; • estrutura dos indicadores de primeiro nível (origem direta), de segundo e de terceiro níveis (origem indireta); • aspectos ecológicos e socioeconômicos. Nesse contexto, entre as alternativas de análise para avaliar as condições do meio, sugerimos a utilização de bioindicadores de poluição, os quais são organismos vivos que reagem em ambientes poluídos ou degradados, possibili- tando a verificação do impacto ambiental, sua magnitude e amplitude, e podem confirmar ou não o dano ambiental. Quando falamos de indicadores ambientais, estamos nos referindo a fatores que decorrem de “estatísticas selecionadas que representam ou resumem alguns aspectos do estado do meio ambiente, dos recursos naturais e de atividades hu- manas relacionadas” (Brasil, 2011d). 5 . 2 . 1 Bio indicadore s O s b i o i n d i c a d o r e s ( o r g a n i s m o s , o u c o m u n i d a d e d e organismos) constituem-se em importante ferramenta nos processos de ava- liação ambiental, pois, uma vez que reagem perante as alterações do meio onde estão inseridos com a modificação de suas atividades vitais normais e/ou de sua composição química, eles possibilitam a elaboração de conclusões a respeito das condições ambientais. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 133 O uso de bioindicadores permite verificar várias condições referentes ao ambiente analisado. Entre elas: • a verificação do impacto da poluição, pois somente bioindicadores con- seguem provar que um determinado poluente, ou mistura de poluentes, realmente provoca um determinado efeito; • a integração de todos os fatores endógenos* de uma planta que podem influenciar a resposta à poluição, como o estágio de desenvolvimento e a idade dessa planta, a resistência de espécies e variedades, possibilitando a delimitação de populações de risco; • a integração de todos os fatores externos, como condições climáticas e edáficas**, a ocorrência de outros poluentes ao mesmo tempo ou a concor- rência entre espécies, características que viabilizam a avaliação de efeitos sinérgicos e aditivos; • a detecção de estresse crônico por níveis baixos de poluição atuando por períodos prolongados. Em função das características apresentadas, ou seja, por serem indicativos bio- lógicos de uma determinada condição ambiental, os bioindicadores são aptos a: • provar o impacto da poluiçãosobre um ecossistema; • fornecer informações sobre as causas de efeitos observados no ecossistema; • demonstrar a distribuição espacial e temporal do impacto; • fornecer dados sobre um potencial risco para a flora, a fauna e a popula- ção humana. Os bioindicadores, em razão dessas propriedades, representam uma dentre as várias ferramentas úteis para você implantar um sistema de ges- tão ambiental. Nesse âmbito, considerando ainda a importância de se manter a estabilidade do meio ambiente e diante da série de agressões às quais esse mesmo meio está sujeito, é possível definir as principais áreas de utilização desses indi- cadores ambientais. Entre elas, destacam-se: • o monitoramento de fontes de emissão*** singulares; • o controle da eficiência de medidas técnicas para a redução de emissões; • as redes de monitoramento regionais, nacionais e internacionais em áreas urbanas e industriais; • o monitoramento global e em áreas remotas; * Endógeno: proveniente do interior ou produzido pelo interior. ** Edáfico: relativo ao solo. *** Emissão: lançamento de descargas na atmosfera. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 134 • os estudos de impactos ambientais (EIA); • o controle da qualidade do ar dentro de moradias e de instalações industriais. No âmbito das pesquisas e projetos, devemos destacar que há exemplos de estudos com bioindicadores nativos ou tradicionalmente cultivados na América do Sul. No entanto, há muito a ser realizado em relação aos impactos ambientais com a utilização desses indicadores em pesquisas e projetos, como: • melhorar o intercâmbio de grupos de trabalho; • criar um banco de dados relativo ao impacto da poluição e à sensibilidade versus a resistência de espécies nativas e/ou cultivadas; • intensificar os estudos experimentais, incluindo estudos de campo. Para esses procedimentos de avaliação ambiental, consideramos três grupos de organismos: os de apontadores e indicadores ecológicos, os de testes e os de monitores: 1. Organismos apontadores e indicadores ecológicos – indicam o im- pacto da poluição pelas mudanças no tamanho de sua população ou por sua existência ou desaparecimento sob certas condições ambientais. Isso acontece, por exemplo, com as algas, que, em ambientes poluídos, podem aumentar de quantidade. 2. Organismos testes – são indicadores cuja característica principal é a de serem altamente padronizados, utilizados em testes (bioensaios) em labo- ratórios toxicológicos e ecotoxicológicos, tais como a Daphnia, a Lemna e a Tradescantia, que são utilizados em testes de toxicidade. 3. Organismos monitores (biomonitores) – mostram, qualitativa e quan- titativamente, o impacto da poluição ambiental sobre os organismos vivos. São utilizados para o monitoramento da qualidade do ar ou da água, como, por exemplo, musgos, liquens, trevos, entre outros, pois esses organismos perdem aspectos de qualidade, bem como podem reduzir ou aumentar o seu número ou mesmo extinguirem-se em ambientes poluídos. Os liquens, quando em ambientes urbanos, podem ser completamente extintos pelos gases poluentes despejados no ar. Existe, na área da gestão ambiental, a necessidade de a gerência realizar projetos multidisciplinares (contando com biólogos, químicos, geofísicos etc.) nos quais haja a cooperação entre os pesquisadores, projetos de pesquisas do acompanhamento do desenvolvimento industrial e urbano para estabelecer pa- râmetros de sensibilidade do meio, da percepção e da reação dos bioindicadores. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 135 5 . 2 . 2 Métodos geof í s i cos N e s s e c e n á r i o m u l t i d i s c i p l i n a r d a t e c n o l o g i a c o m o instrumento de suporte para o enfrentamento dos impactos ambientais, a geofísica ambiental também constitui-se em uma ferramenta respeitada, princi- palmente, na elaboração de estudos e diagnósticos. Nesse trabalho, ela é utilizada em várias situações, como nas investigações confirmatórias, nas investigações de passivos ambientais e nas averiguações dos níveis de contaminação dos solos. Os objetivos desses procedimentos consiste em verificar, entre outros: • a resistência à penetração oferecida pelo solo; • o atrito lateral e a permeabilidade do subsolo; • o nível do lençol freático; • a pressão de infiltração de um líquido no subsolo. A notoriedade dos métodos geofísicos na área ambiental deve-se também ao fato de essa tecnologia, e o seu manejo, estarem em sintonia com pressupostos fundamentais da gestão ambiental, bem como da visão biocêntrica. Isso porque utiliza procedimentos que, além de possibilitarem ações em tempo redu- zido, são não invasivos, limpos e não produzem resíduos. Em relação a esses atributos, podemos observar que as características dos equipamentos utilizados constituem-se em fatores que possibilitam tais resul- tados operacionais. Em geral, eles são portáteis, leves e apresentam alta produ- tividade e grande resolução; consequentemente, o impacto ambiental é mínimo quando do uso dos métodos geofísicos nas questões ambientais. S í n t e s e P a r a c o n h e c e r o i m p a c t o a m b i e n t a l e a s u a p r o p o r c i o - nalidade, devemos entender seus mecanismos causadores; assim, um dos proce- dimentos adotados é a avaliação preliminar. A partir da AIA, o profissional terá um instrumento de avaliação no qual poderá estabelecer a duração, a forma, a extensão, a causa e as consequências de tais impactos sobre o meio ambiente e as atividades humanas. O conhecimento desses fatores possibilita definir estraté- gias para a recuperação ambiental de áreas impactadas. Nesse sentido, podemos observar que os impactos ambientais ocorrem pelo confronto direto ou indireto entre o ser humano e a natureza. Assim, percebemos que inúmeros empreendi- mentos possuem impactos significativos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 136 Q u e s t õ e s p a r a r e f l e x ã o C r i s t i n a Á v i l a ( 2 0 1 1 ) i n f o r m a , n o t e x t o I n v e n t á r i o v a i indicar fontes de emissões por poluentes orgânicos persistentes, entre outras coisas, que: A queima de lixo ou de pneus a céu aberto causa mais do que a poluição do ar. Esses tipos de combustão geram dioxinas e furanos – substâncias que provocam doenças como o câncer nas pessoas e também afetam a vida silvestre. A preocupação é internacional e está explícita na Convenção de Estocolmo, que trata dos Poluentes Orgânicos Persistentes(POPs) e já foi ratificada pelo Brasil. [...] Além da queima de pneus e lixo, esses poluentes provêm de vá- rios meios, como, por exemplo, da produção de cimento e de pa- pel. Persistentes, são capazes de entrar na cadeia alimentar sem se degradar. Isso significa que podem passar de uma planta para o animal que a come. Uma pesquisa realizada em dez cidades do País, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2001, constatou ní- veis acima da média aceitável de dioxinas e furanos no leite de mães em Cubatão, Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Índices próximos à média foram encontrados em Caapora (PB), Belém (PA), São Paulo (SP) e Fortaleza. Níveis mais baixos ficaram em Brasília (DF) e Recife (PE). Dioxinas e furanos são produzidos de modo involuntário, com a combinação de carbono, oxigênio, hidrogênio, cloro, em tempera- turas abaixo de 800°C (para se ter uma ideia, um forno doméstico chega a 300°C). Produzem-se inclusive em processos de aquecimento e resfriamento. As substâncias viajam pelo planeta, por meio e cor- rentes de ar, rios ou oceanos. Já foram encontradas em animais que vivem em ambientes teoricamente livres de poluição, como ursos no Ártico e pinguins do Polo Sul. [...] Como o tema abrange outras áreas além da ambiental, foi criado um grupo interinstitucional que vai avaliar o texto do inventário a ser apresentado pelo MMA em maio. Representantes de áreas como saúde, indústria, comércio, ciência, trabalho e agricultura vão se encontrar na sede do próprio ministério. Eles terão a companhia de Heidelore Fiedler, especialista que faz parte do secretariado da Convenção de Estocolmo. [...] Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 137 1. Se você considerar, como vimos em nosso estudo, que entre os elementos constituintes dos impactos ambientais encontramos as relações dinâmicas entre os processos sociais e ecológicos, e os aspectos ecológicos e socioeco- nômicos, pode dizer que nos fatos relatados tais fatores estão presentes? Você já detectou a presença dessas interações em alguma situação do ambiente em que, vive ou já havia pensado sobre isso? 2. Também verificamos que entre os elementos constituintes dos impactos ambientais, devemos detectar a estrutura dos indicadores de origem di- reta e de origem indireta. No presente relato de Ávila (2011), eles são um fato. Isso fica claro quando a autora se refere à série de consequências desencadeada pela queima de pneus. Como relatado, além da poluição do ar (indicadores de origem direta), várias outras contaminações de origem indireta, por exemplo, a comprovação da presença de dioxinas e de furanos no leite de mães (origem indireta) de várias regiões de nosso país. Você já observou ou teve informações de fatos análogos a esse? Como você vê o enfrentamento de tais situações? Na sua opinião, a nossa legislação está sendo devidamente aplicada? Justifique sua resposta. Q u e s t õ e s p a r a r e v i s ã o 1. Defina impacto ambiental de acordo com a Resolução do Conama n. 001/1986. 2. Quais são os principais textos da legislação ambiental no Brasil que de- terminaram a aplicação da AIA? 3. Segundo a Resolução Conama n. 001/1986, art. 6°, o EIA realiza deter- minadas atividades. Assinale “V” para as proposições verdadeiras e “F” para as falsas: ( ) Desenvolve análises dos impactos ambientais do projeto e de suas alternativas, por meio da identificação, da previsão da magnitude e da interpretação da importância dos prováveis impactos relevantes, discriminando os impactos positivos e negativos, diretos e indiretos, imediatos e a médio e longo prazos, temporários e permanentes; seu grau de reversibilidade; suas propriedades cumulativas e sinérgicas; a distribuição dos ônus e dos benefícios sociais. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. sousa Texto digitado V sousa Texto digitado Impacto ambiental é qualquer alteração das propriedades físicas, químicasnulle biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma denullmatéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ounullindiretamente, afetam a saúde, a segurança e o bem-estar da população,nullas atividades sociais e econômicas, a biota, as condições estéticasnulle sanitárias do meio ambiente e a qualidade dos recursos ambientais. sousa Texto digitado Decreto n. 73.030/1973; Lei n. 6.803/1980; Lei n. 6.938/1981; Decretonulln. 88.351/1983; Lei n. 7.347/1985; Resolução Conama n. 001/1986;nullConstituição Federal de 1988; Decreto n. 99.274/1990; Lei n. 8.490/1992;nullDecreto n. 6.101/2007. 138 ( ) Elabora o programa de acompanhamento e monitoramento dos im- pactos positivos e negativos, indicando os fatores e os parâmetros a serem considerados. ( ) Define as medidas mitigadoras dos impactos positivos, avaliando a deficiência. ( ) Considera que, antes do projeto, é importante atentar para o meio físico (o subsolo, o ar, o clima etc.), o meio biológico e os ecossistemas naturais (a fauna, a flora) e o meio sociocultural (lazer, teatro etc.). ( ) Realiza o diagnóstico ambiental da área de influência do projeto. Assinale a sequência correta: a. V, V, F, F, V. b. V, V, F, V, F. c. V, F, V, F, V. d. F, V, F, F, V. 4. Considerando o uso de bioindicadores, verifique a veracidade das afir- mações a seguir. i. Permite verificar o impacto da poluição: somente bioindicadores conse- guem provar que um determinado poluente ou a mistura de poluentes realmente provoca efeito. ii. Consegue fornecer dados somente sobre riscos à população humana. iii. Consegue integrar todos os fatores externos, como condições climáti- cas e edáficas, a ocorrência de outros poluentes ao mesmo tempo ou a concorrência entre espécies, características que viabilizam a avaliação de efeitos sinérgicos e aditivos. iv. Consegue integrar todos os fatores endógenos da planta que podem ou não influenciar a resposta da poluição, como, por exemplo, os estágios de desenvolvimento e a idade desta. v. Consegue integrar determinados fatores endógenos da planta que po- dem influenciar a resposta da poluição, como, por exemplo, os estágios de desenvolvimento e a idade desta etc. vi. Permite demonstrar dados espaciais e temporais do impacto. Após a análise da veracidade, podemos afirmar que: a. somente as alternativas II e V estão corretas. b. somente as alternativas I, II, IV e VI estão corretas. c. somente as alternativas I, III, IV e VI estão corretas. d. somente as alternativas III e IV estão corretas. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 184 do C ód igo P en al. sousa Realce sousa Texto digitado V sousa Texto digitado F sousa Texto digitado F sousa Texto digitado V sousa Realce 139 5. Assinale a(s) alternativa(s) correta(s) sobre o estudo de impacto ambiental. i. O diagnóstico ambiental deve conter a descrição e a análise dos fatores ambientais e de suas interações. ii. As informações cartográficas do diagnóstico ambiental não necessitam de escalas compatíveis. iii. A caracterização do meio físico deve conter o clima e as condições meteorológicas da área potencialmente utilizada do empreendimento; qualidade do ar e níveis de ruídos na região; abundância relativa e absoluta de espécies, e descrição do forrageamento ótimo. iv. A caracterização do meio biológico deve distinguir e analisar os ecos- sistemas terrestres, aquáticos e de transição da área de influência do empreendimento. v. Dados sobre a estrutura produtiva e de serviços estão diretamente relacionados com a caracterização do meio antrópico. vi. O resultado da análise dos impactos ambientais gera o Prognóstico da qualidade ambiental da área de influência. Assinale a sequência correta: a. II, IV, V, VI. b. I, IV, V, VI. c. II, III, IV, V. d. III, IV, V, VI. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. sousa Realce Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. c a p í t u l o 6 Instrumentos de proteção ao meio ambiente Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. C o n t e ú d o s d o c a p í t u l o : • Aspectos fundamentais da proteção ambiental; • Evolução histórica da gestão ambiental no Brasil; • Licenciamento ambiental e sua função preservacionista; • Instrumentos multidisciplinares da gestão urbana. A p ó s o e s t u d o d e s t e c a p í t u l o , v o c ê s e r á c a p a z d e : • entender a importância dos fatores legais, constitucionais e sociais que instrumentalizam a gestão ambiental; • conhecer a trajetória histórica do nosso PNMA; • visualizar o conjunto de medidas que provocaram os procedimentos de proteção ambiental; • identificar a necessidade e os passos do licenciamento ambiental; • compreender a importância da gestão ambiental urbana pelo viés da sus- tentabilidade para a proteção ao meio ambiente. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 143 A base para a gestão ambiental encontra- -se agregada aos dispositivos legais (leis, decretos, resoluções) e às políticas públi- cas. É nesse contexto que vamos encontrar os instrumentos de normatização e de orien- tação quanto à proteção ao meio ambiente. Constatamos, por exemplo, que com o ad- vento da PNMA, pela Lei n. 6.938/1981 (Brasil, 1981b), houve um avanço no sis- tema de gestão ambiental, sendo observado, naquele período, o crescimento em importância e em consistência da atuação estatal na proteção ao meio ambiente. Enquanto isso, com a Constituição de 1988 (Brasil, 1988a), houve uma mudança na cultura jurídica ambiental e a necessidade de se colocar em prática os ins- trumentos de proteção ao meio ambiente por meio de procedimentos expressos nos documentos legais. Conferiu-se, assim, a ênfase ao licenciamento ambiental, instrumento que, até então, não era uma prática comum em todos os estados da Federação. Foi nesse contexto que os aspectos da gestão ambiental passaram a ser pensados e respeitados. Devemos ainda atentar para o fato de que, com o crescimento po- pulacional, existiu e existe a necessidade de se estabelecer mecanismos para o ordenamento urbano, como instrumento de proteção ao meio ambiente. Segundo Souza (2000), “A gestão ambiental encontra na legislação, na po- lítica ambiental e em seus instrumentos e na participação da sociedade suas ferramentas de ação”. Logo, tudo o que foi discutido até agora se constitui em fundamentos ou instrumentos de proteção ao meio ambiente, partindo-se dos pressupostos do desenvolvimento sustentável. Se você considerar esses fatores modificadores que comentamos nos pará- grafos anteriores, como o avanço no sistema de gestão ambiental, a nova cultura jurídica ambiental, a necessidade de mecanismos para o ordenamento urbano sus- tentável e a participação da sociedade, torna-se claro que o gestor deve conhecer: • a prática do licenciamento ambiental nas esferas da União, dos estados e dos municípios; • os princípios de legalidade e de autuação dos órgãos ambientais; e • os aspectos da gestão ambiental urbana. “A gestão ambiental encontra na legislação, na política ambiental e em seus instrumentos e na participação da sociedade suas ferramentas de ação”. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 144 Para você se situar nos conceitos e paradigmas dos instrumentos de gestão ambiental inseridos em um contexto de desenvolvimento sustentável, “o plane- jamento da ocupação do espaço geográfico deve basear-se no reconhecimento das potencialidades e fragilidades dos fatores físicos, biológicos e antrópicos que compõem o meio ambiente ante as características e especialidades das ati- vidades a serem acomodadas” (Souza, 2000, p. 17). Além disso, deve considerar que estamos tratando da construção ou da desconstrução de um espaço onde o ser humano está inserido. 6 . 1 M e i o a m b i e n t e : u m a r e t r o s p e c t i v a h i s t ó r i c a b r a s i l e i r a C o n s i d e r a m o s q u e , c o m o g e s t o r e s , n a t e n t a t i v a d e entendermos as questões ambientais em nosso país, é importante fazermos uma retrospectiva do desenvolvimento dos aspectos político-econômicosda sociedade brasileira. Dessa forma, poderemos analisar, com mais detalhes, os fatos e os fatores, tanto de degradação como de preservação do meio ambiente em nosso país. 6 . 1 . 1 O prote sto dos inte l ec tuai s A d e g r a d a ç ã o a m b i e n t a l * , d e a c o r d o c o m e s t u d o a p r e - sentado por Pádua (1999), foi objeto de preocupação da intelectualidade bra- sileira. Prova disso é que, a partir de 1780, os protestos se tornaram firmes, constituindo-se em atitudes de crítica ambiental que permearam a história do Brasil. Entre esses intelectuais ativistas, encontramos: Baltazar da Silva Lisboa e Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá, na Bahia; José Severiano Maciel da Costa, no Rio de Janeiro; Manuel Arruda da Câmara, em Pernambuco; José Vieira Couto e José Gregório de Morais Navarro, em Minas Gerais; Antônio Rodrigues Veloso de Oliveira, no Maranhão; e José Bonifácio de Andrada e Silva, em São Paulo. Entre 1786 e 1888, Pádua (1999) esclarece que foram produzidos 150 textos, preparados por 38 autores brasileiros, que denunciavam e debatiam os danos ambientais ocorridos no Brasil. Por exemplo, o baiano Baltazar S. Lisboa publi- cou o Discurso histórico, político e econômico dos progressos e estado atual da filosofia natural portuguesa, acompanhado de algumas reflexões sobre o estado do Brasil, no * Degradação ambiental: termo usado para designar alterações adversas, resultantes da atividade humana no ambiente e que podem causar desequilí- brio e destruição, parcial ou total, dos ecossistemas. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 145 qual relata que a agricultura era desenvolvida no país da forma mais miserável que possamos imaginar. As técnicas que, na época, já haviam sido desenvolvidas, como o uso do arado, entre outras, eram desconhecidas no território nacional e, concomi- tante a isso, era grande a quantidade de lenha consumida pelas fornalhas de açúcar. É preciso ressaltar que, naquela época, as denúncias sobre danos ambientais eram feitas responsabilizando-se o atraso tecnológico pela degradação ou des- truição da natureza. Nesse processo, observamos que a importância do meio natural era avaliada com base na concepção do valor instrumental dos seus recursos. 6 . 1 . 2 Os pe r íodos re pub l i canos P r i m e i r a m e n t e , e n f o c a r e m o s a n o s s a o b s e r v a ç ã o c o m base nos fatores que provocaram a degradação ambiental no Primeiro Período Republicano ou Primeira República, que se estendeu de 1889 a 1930. As ca- racterísticas que predominaram nessa fase foram: • o crescimento e a ampla propagação do setor agrícola; • a preponderância de extensos latifúndios; • o predomínio do cultivo de um só produto (monoculturas). No entanto, esse ambiente latifundiário, da República Velha, no qual ocorria o cultivo concentrado em uma única espécie, sofreu um choque com a Revolução de 1930, que marcou o início do Segundo Período Republicano ou República Nova. Naquela ocasião, inúmeras mudanças políticas, sociais e econômicas foram introduzidas no país, o que representou um estímulo ao desenvolvimento in- dustrial, embora o apoio de fato às indústrias de base só tenha sido fomentado a partir de 1937, com a institucionalização do Estado Novo. Entre as consequências dessa expansão industrial, podemos mencionar o surgimento da(o): • Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), fundada em 1941, na região de Volta Redonda, no Rio de Janeiro; • Serviço Social da Indústria (Sesi), criado em 1942; • Serviço Nacional da Aprendizagem Industrial (Senai), criado em 1943. Tanto o Senai como o Sesi foram criados com a finalidade de promover a formação de mão de obra para o setor industrial. Após essa primeira fase de desenvolvimento industrial, outro momento mar- cante foi o da redemocratização do país, em 1946. Implantou-se, naquela ocasião, um programa de modernização industrial e urbana no Brasil. Essa Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 146 condição assumiu proporções verdadeiramente transformadoras no período compreendido entre os anos de 1951 e 1961; portanto, foi uma década caracteri- zada por inúmeras mudanças. É nesse cenário progressista que se insere o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), identificado pelo lema “Cinquenta anos de progresso em cinco anos de governo”. No plano de desenvolvimento de seu governo, o chamado Plano de Metas, constam como objetivos prioritários o desenvolvimento dos setores de energia, transporte, alimentação, indústria de base e educação. O resultado principal desse projeto foi a construção de estradas e de usinas hidrelétricas. Além disso, criou-se a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), expandiu-se o polo automobilístico e de eletrodomésticos do ABC paulista e construiu-se a cidade que passou a ser a nova capital da nação, Brasília, no Planalto Central, inaugurada em 21 de abril de 1960. Essa movimentação e interligação de forças e de ideias tornaram aquele pe- ríodo um marco para a sociedade brasileira. Especificamente no período com- preendido entre 1960 e 1969, foram editados documentos cuja repercussão quanto aos fatos relativos à questão ambiental foram marcantes. São eles: • o Estatuto da Terra, pela Lei Federal n. 4.504/1964 (Brasil, 1964), cujo objetivo foi “a execução da Reforma Agrária e a promoção de Política Agrícola”, no qual consta a possibilidade de desapropriação de áreas para a implantação de reservas florestais; • o Novo Código Florestal, pela Lei Federal n. 4.771/1965 (Brasil, 1965b), que, entre outros aspectos, trata do desmatamento e da exploração das matas nativas; • a Política Nacional de Saneamento, que resultou de leis e decretos criados no período compreendido entre os anos de 1965 e 1969 e que, posteriormente, mais especificamente em 1976, foi a base geradora do Programa de Saneamento Ambiental. Como você pode constatar por meio desses marcos relativos ao meio ambiente em nossa história, assim como a degradação ambiental não é recente, a preocu- pação com a degradação ambiental no Brasil também não o é. Nesse contexto, em 1965, o presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, analisando o avanço da migração da Região Sul para o Centro-Oeste e, consequentemente, para o Norte, promulgou a Lei Federal n. 4.771/1965, que instituiu o então denominado novo Código Florestal Brasileiro (que substituiu o de 1934). Houve, na ocasião (1965), o estímulo à referida migração pela necessidade de ocupação da Amazônia; no entanto, além das questões de soberania, a preocupa- ção do governante era com a devastação de florestas tropicais e, consequentemente, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi olaçã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 147 com os problemas ambientais futuros. Essa lei, um princípio legal com mais de 40 anos, é utilizada pelos órgãos ambientais na atualidade. A propósito, neste início do terceiro milênio, são inúmeras as discussões no Congresso Nacional, com o objetivo de alterar essa lei. Há os que veem nela amarras para o desenvolvimento e outros que a consideram um dos instrumentos de salvaguarda não só das florestas, mas também da própria territorialidade da nação. Aliás, é uma das controvérsias que tem originado choques governamentais, como você deve ter acompanhado pela imprensa nos últimos meses. Consultando a legislação Códigos Florestais Brasileiros: 1. 1934 – Primeiro Código Florestal Brasileiro – Decreto n. 23.793/1934 (Brasil, 1934a): a. Objetivo – estatizar as fontes de energia disponíveis. Estabeleceu regras de proteção e de uso das florestas com o propósito básico de salvaguardar os solos, as águas e os mercados de madeira. Na época, o carvão era a principal fonte de energia. b. Estratégia de preservação das fontes de energia do governo Vargas. 2. 1965 – Segundo Código Florestal Brasileiro – Lei n. 4.771/1965: a. Objetivo – viabilizar a ocupação da Amazônia. Quem explorasse uma determinada área, tornava-se responsável pela preservação de florestas de uma certa área indicada por percentuais de acordo com a região. b. Estratégia de defesa do território nacional do governo Castelo Branco. c. Alterações – foi atualizado e modificado com revogações e inserções feitas principalmente pela Medida Provisória n. 2.166-67/2001 (Brasil, 2001e), no governo de Fernando Henrique Cardoso. 3. 2010/2011 – Terceiro Código Florestal Brasileiro – ainda em discussão, apresenta pontos polêmicos introduzidos pelo relator, o Deputado Aldo Rebelo. 6 . 1 . 3 A evo lução da que stão ambienta l e o pro je to Brasi l Grande Potênc ia E m 1 9 6 9 , a p r e s i d ê n c i a d o p a í s p a s s o u à s m ã o s d o General Emílio Garrastazu Médici. A sociedade brasileira passara por profundas modificações advindas de um processo político que implantou o sistema ditato- rial e o projeto Brasil Grande Potência. Naquele período, o desenvolvimento caracterizou-se pelo crescimento econômico a qualquer custo, incluindo-se, nesses custos, a forma predatória. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 148 Passou a haver um total descaso com preocupações preservacionistas. Entre as atitudes reveladoras desse descaso, está o fato de não se exigirem equipamen- tos antipoluentes para as atividades destacadamente poluidoras. A postura era deixar para mais tarde a solução para os possíveis danos ao meio ambiente. Nessa mentalidade, conforme esclarecido por Maimon (1992), havia um total desinteresse pelas questões do meio ambiente. Além disso, os recursos naturais eram considerados abundantes e inesgotáveis. Concomitantemente a essa con- cepção, a situação foi agravada pela cultura da exploração predatória, própria da mentalidade do lucro fácil – a qual não considera os prejuízos causados nos aspectos social, econômico e ecológico de uma comunidade ou de toda a humani- dade –, que herdamos da época do Brasil Colônia e permaneceu como substrato imediatista para as ações da República. Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente (Unced) C o m o r e s u l t a d o d e s s a v i s ã o , n a C o n f e r ê n c i a d a s Nações Unidas sobre o Meio Ambiente (Unced), realizada em Estocolmo, na Suécia, no ano de 1972, o governo brasileiro assumiu uma posição desenvol- vimentista. Argumentaram os representantes do país que a preocupação com aspectos relativos à proteção ambiental serviria aos propósitos dos países ricos no sentido de impedir a expansão das indústrias dos países em desenvolvimento e, assim, bloquear os processos de crescimento. Na ocasião, os países subdesen- volvidos foram liderados pelo Brasil no intento da não aprovação das propostas de crescimento zero. Essas propostas foram elaboradas e defendidas pelo Clube de Roma e constavam do relatório O limite do crescimento. Perguntas e respostas Qual o contexto de O limite do crescimento ou Relatório Meadows? Este relatório, conforme nos informa Ferreira (2011), em seu artigo Economia ecológica, causou grande impacto, pois, ao apontar um cenário catastrófico, no qual não seria possível continuar infinitamente com o crescimento econômico, uma vez que este levava ao esgotamento dos recursos ambientais, apresentou como solução o “crescimento zero”. O que isso significava? De forma resumida, podemos dizer que propunha que fossem reduzidas as taxas de natalidade e os índices de crescimento nos países em desenvolvimento. Sob a perspectiva dessa análise, considerada “neomalthusiana”, a explosão demográfica era a grande vilã da civilização. No entanto, os críticos da proposta apontam para o fato de que ela assinalava para a manutenção ou preservação dos negócios, e não do ecossistema. O fato é que se confrontava de Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 149 forma acintosa com as posições desenvolvimentistas do “direito ao crescimento”, que era a tese defendida pelas nações do mundo em desenvolvimento. Essa declaração polêmica foi amplamente discutida na Conferência da Unced (Estocolmo, 1972), onde foi proposto o “ecodesenvolvimento”, cujo sustentáculo é a ideia de que o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental são passíveis de coexistir ou de serem harmonizáveis, pois são interdependentes na geração do progresso econômico. Tal debate continuou ardoroso na primeira reunião do Conselho Administrativo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), realizado em Genebra, em junho de 1973. Nessa conferência, o chefe da missão brasileira foi o General Costa Cavalcanti (ministro do Interior, na época), o qual repetia como slogan (de acordo com a sua conveniência) a frase que fora dita pela primeira-ministra da Índia, Indira Ghandi: “A pior poluição é da miséria”. Argumentava que, para combater a mi- séria, deveríamos buscar um crescimento econômico maior, ou seja, conforme destaca Zucca (1991), o propósito era tornar o Brasil uma potência no cenário internacional. Essa postura, como você pode deduzir, era resultante da política do projeto Brasil Grande Potência. E foi esse projeto que, posteriormente, em 1973, resul- tou no ambicioso empreendimento energético, envolvendo Brasil e Paraguai, que criou a empresa binacional de Itaipu. Esta foi construída no rio Paraná, na fronteira entre os dois países, e é considerada a maior hidrelétrica do mundo em extensão (comprimento da barragem) e em volume de energia gerada. Criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema) O a m b i c i o n a d o c r e sc i m e n t o e c o n ô m i c o d a q u e l e p e r í o - do, conforme os estudos de Viola (1987) e Maimon (1992), foi considerado incom- patível com a harmonia ambiental. Até então não havia uma política de controle ambiental* no país. Contudo, em 1973, conforme o esclarecimento de Monteiro (1981), principalmente em função da repercussão negativa que teve a posição desenvolvimentista do Estado brasileiro na Conferência de Estocolmo, e contra- pondo-se aos objetivos dos ambientalistas, o presidente Geisel criou a Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema). Esta era vinculada ao Ministério do Interior, sendo seu titular, na ocasião, o Dr. Paulo Nogueira Neto. Posteriormente, a Sema, foi extinta pela Lei n. 7.735/1989 (Brasil, 1989a), que criou o Instituto Brasileiro * Controle ambiental: é a atividade que exerce a orientação, a correção, a fisca- lização e o monitoramento sobre as ações referentes à utilização dos recursos ambientais, de acordo com as técnicas administrativas e as leis em vigor. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 150 do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). As atribuições em matéria ambiental pertencem atualmente ao Ministério do Meio Ambiente. Com base nos estudos de Monteiro (1981), podemos concluir que eram duas as linhas básicas de ação dessa secretaria: a. conservar o meio ambiente, considerando a utilização de um modo racional na apropriação e no uso dos recursos naturais; b. preservar, no sentido de intocabilidade (de biomas, por exemplo). A Sema tinha como propósito fazer com que fossem respeitadas e cumpridas normas ambientais de algumas instituições internacionais. Posteriormente, como vimos, foi extinta. Viola (1987) esclarece que os empréstimos designados para obras públicas só eram liberados quando tais exigências eram atendidas. É importante que se diga, de acordo com a opinião de Monteiro (1981) e de Dias (1993), que, embora tenha sido constituída com a finalidade de exercer o papel de uma agência de controle da poluição, a secretaria estabeleceu programas de estações ecológicas e deixou os fundamentos para as leis ambientais; portanto, os atos que estabeleceram o res- peito às normas internacionais relativas ao meio ambiente foram de fundamental importância para o desenvolvimento do pensamento ecológico no Brasil. Nesse ínterim, agências estaduais de meio ambiente foram sucessivamente criadas nas regiões Sul e Sudeste. Destacamos, por exemplo, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), que aplicou normas de insti- tuições internacionais em relação a problemas de excesso de poluição industrial, embora tenha atuado no quesito licenciamento ambiental apenas a partir do início dos anos 1980 (Viola, 1987). Em 1973, outro fator que agravou o descaso ecológico foram os dois choques mundiais provocados pela crise do petróleo, os quais fizeram com que o Brasil investisse na busca de alternativas energéticas. Isso seria altamente salutar para o país, afirma Maimon (1992), se os programas desenvolvidos nessa área, como a expansão de hidrelétricas e o Programa Pró-Álcool, não estivessem empenhados apenas na busca de mais uma economia de divisas, sem preocupação com os im- pactos ambientais que tais empreendimentos poderiam produzir. Alguns fatos devem ser destacados para que possamos compreender melhor as questões ambientais no Brasil naquele período: • os projetos do Pró-Álcool provocaram a diminuição na poluição do ar nas cidades e nos polos industriais, apesar de produzirem um alto índice de poluentes nos locais de produção; • o processo de geração de energia nuclear, introduzido no Brasil em 1975, com o objetivo de suprir as necessidades energéticas do país, não alcançou o sucesso esperado, representando somente 1% da geração total de energia elétrica; Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 151 • ainda no ano de 1975, o Brasil constou em editorial da revista científica Science como uma reserva mundial de energia, uma região capaz de ofe- recer fontes de energia alternativa; também destacou-se a importância que deveria ser dada à preservação e à produção dos recursos naturais do país (Maimon, 1992). Em 1975, a questão ambiental ainda era tratada de forma pontual na esfera do governo. No entanto, a introdução da temática ambiental no II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) trouxe a abordagem de três linhas de ação importantes para a evolução do processo de gestão ambiental: • política ambiental na área urbana e definição de áreas críticas de poluição; • política de preservação de recursos naturais; • política de proteção à saúde humana. Consequentemente, como analisa Maimon (1992), a aprovação da implanta- ção de projetos industriais ficou sujeita à observância de normas antipoluidoras. 6.1.4 A questão ambiental brasileira nas décadas de 1980 e 1990 U m m a r c o e s s e n c i a l n e s s a p r o g r e s s ã o d e f a t o s r u m o a uma política ambiental foi, em 1981 (governo do Presidente João Figueiredo), a entrada em vigor da Lei Federal n. 6.938/1981 (já abordada neste estudo), que estabeleceu a Política Nacional de Meio Ambiente. O objetivo dessa política, conforme exposto no art. 2º da lei, era a: • preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no País, condições ao desenvolvimento socioeco- nômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana [...] (Brasil, 1981). Considerando o meio ambiente um patrimônio público, é do entendimento da lei que este deve ser necessariamente assegurado e protegido, uma vez que seu uso é coletivo. Assim, atendendo aos parâmetros legais e à diretiva governa- mental, bem como à consciência ambiental daquele período, foi criado o Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama). O seu propósito era: • integrar e coordenar a política ambiental nacional; e • compatibilizar a atuação municipal, estadual e federal. Também foi criado, na ocasião, o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). Entre os aspectos organizacionais relacionados à questão ambiental de maior expressão que resultaram da criação do Sisnama e do Conama, encon- tramos a diretiva que estabeleceu o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 152 respectivo Relatório de Impacto sobre o Meio Ambiente (Rima), pela Resolução Conama n. 001/1986 (Brasil, 1986c). É importante observarmos novamente que a legislaçãoambiental brasileira, embora seja uma das mais completas do mundo, apresenta um caráter excessiva- mente biótipo (grupos com a mesma estrutura), pois não inclui explicitamente o ser humano na sua conceituação de meio ambiente, apenas implicitamente, em alguns casos. Contudo, não devemos nos enganar com essa sua completude, pois, quanto à sua aplicabilidade e implementação, os fatos chegam a ser constrangedores, em função de fatores como: • o quadro de pessoal nas agências estaduais de controle de poluição é reduzido; • as políticas dos municípios, estados e do país como um todo não apre- sentam uma coordenação inter e intragovernamental, embora tenhamos o Sisnama; • por último, a falta de recursos financeiros. Nesse contexto, a adoção, por parte do Banco Mundial, de uma política que estabeleceu como pré-condição (a partir de setembro de 1988), para liberar financiamentos de obras para países em desenvolvimento, a apresentação de estudos de impactos ambientais, teve um efeito enorme na sociedade brasileira, minimizando os problemas ambientais do país. A aplicação dessa condição, no Brasil, causou maior efeito no setor elétrico e na mineração, como bem observou Maimon (1992). No entanto, em outubro de 1988, um fato trágico – o assas- sinato, em Xapuri, no Acre, de Chico Mendes, ambientalista que lutava por um projeto de desen- volvimento conhecido como re- serva extrativista – foi fator pre- ponderante para a manifestação de inúmeros protestos por parte da comunidade internacional em relação à negligência do governo brasileiro no que diz respeito ao desmatamento da Floresta Amazônica. Isso se explica pelo fato de Chico Mendes ser reconhecido internacionalmente por sua luta em favor de ações de sustentabilidade do meio ambiente, pois ganhara o Prêmio Global 500, outorgado pelo Pnuma para pessoas que contribuem com as causas ambientais. É importante observarmos novamente que a legislação ambiental brasileira, embora seja uma das mais completas do mundo, apresenta um caráter excessivamente biótipo (grupos com a mesma estrutura), pois não inclui explicitamente o ser humano na sua conceituação de meio ambiente, apenas implicitamente, em alguns casos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 153 Perguntas e respostas O que é o Projeto Reserva Extrativista? A reserva extrativista é a reforma agrária dos seringueiros. É o reconhecimento de áreas de floresta, ocupadas tradicionalmente por seringueiros e outros extrati- vistas, como áreas de domínio da união, com usufruto exclusivo dos seringueiros organizados em cooperativas ou associações. Nas reservas extrativistas, não há títulos individuais de propriedade. Nelas serão respeitadas a cultura e as formas tradicionais de organização e de trabalho dos seringueiros, que continuarão a realizar a extração de produtos de valor comercial como a borracha, a castanha e muitos outros, bem como a caça e a pesca não predatória, juntamente com pequenos roçados de subsistência em harmonia com a regeneração da mata. As reservas extrativistas não serão áreas inviáveis economicamente: garantida a floresta, os seringueiros organizados aumentarão a produtividade, introduzindo inovações tecnológicas adequadas. Além disso, darão continuidade à criação de escolas, postos de saúde e cooperativas geridas por seringueiros. A reserva extrativista não é apenas a reforma agrária dos seringueiros, mas tam- bém uma forma de preservação da natureza pelos que dela dependem, e uma alternativa econômica para a Amazônia. (Silva, 2011) A criação de programas e institutos de políticas ambientais, bem como a fusão de outros pelo presidente José Sarney, nos últimos anos da década de 1980, constituíram-se em medidas visando à execução de políticas e diretrizes ambientais, esclarece Maimon (1992). Foram eles: • o Programa Nossa Natureza; • o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), resultado da fusão da Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), da Superintendência do Desenvolvimento da Pesca (Sudepe), da Superintendência do Desenvolvimento da Borracha (Sudhevea) e do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF); • a Divisão de Educação Ambiental, criada dentro do Ibama. Nesse período, o Brasil passou por movimentos de pressão internacional em razão de sua contraditória política social, bem como por ser apontado como um dos grandes responsáveis pelo “efeito estufa”, o qual, em muitos casos, é provo- cado pelo aumento do desmatamento e pelas queimadas. Esses fatores relacionados com a política externa, ainda segundo Maimon (1992), fizeram com que o governo Collor, no intuito de obter apoio internacional, estabelecesse como um dos eixos da política externa do Brasil o desenvolvimento Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 154 sustentável. Dentro desse paradigma, criou-se a Secretaria Nacional de Meio Ambiente (em 1990) e entregou-se a sua coordenação ao engenheiro agrônomo José Lutzemberger. No seu governo, Fernando Collor de Mello também lutou para que o Brasil sediasse a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (também conhecida como Rio-92 ou Eco-92), que foi realizada na cidade do Rio de Janeiro. Sediar tal congresso foi muito significativo, pois a finalidade desse encontro era formular uma nova política ambiental mundial. Assim, embora não se possa dizer que esse presidente tenha implantado uma política ambiental como era seu projeto, é justo reconhecermos que legou à nação três documentos fundamentais no que diz respeito à questão ambiental: • o Programa Nacional de Meio Ambiente; • o Projeto de Reconstrução Nacional; e • os Subsídios Técnicos para a Elaboração do Relatório Nacional do Brasil para a Rio-92. A abrangência e as ações básicas relativas a tais documentos podem ser resu- midas, baseando-nos em Maimom (1992), nos seguintes pontos: • Programa Nacional de Meio Ambiente – foi financiado pelo Banco Mundial e executado pelo Ibama. O seu objetivo era fortalecer a proteção das áreas de conservação e proteger ecossistemas já ameaçados, como o Pantanal Mato-Grossense, a Mata Atlântica e a costa brasileira, entre outros. Além disso, tinha a responsabilidade de reestruturar o Ibama. • Projeto de Reconstrução Nacional – esse projeto abarcou as propostas de desenvolvimento sustentável sob a ótica do Relatório Brundtland*, ou seja, enfocou os conflitos ou resoluções ligadas aos ecossistemas naturais, à preservação da biodiversidade e à exploração racional das espécies nativas e exóticas. Além disso, demonstrou que o modelo de crescimento adotado nas décadas anteriores a 1990 foi a causa da degradação ambiental no Brasil. Assim, apesar de, na prática, ter sido inviabilizada a implantação do projeto de reconstrução, em razão das trocas na equipe econômica do governo ocorridas na ocasião, o projeto trouxe elementos que subsidiaram* Produzido pela Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento (em 1987), esse relatório recomendou a realização de uma conferência mundial para orientar as questões ambientais, resultando na Rio-92. O seu nome deve-se ao fato de a comissão ser presidida pela primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 155 as futuras tratativas do assunto ambiental, bem como uma conscientização relativa à gestão ambiental. • Subsídios Técnicos para a Elaboração do Relatório Nacional do Brasil para a Rio-92 – esse documento foi produzido pela Comissão Interministerial para a Preparação da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Cima). É constituído por uma introdução (intitulada “O desafio do desenvolvimento sustentável”) e mais seis capítulos, cujos títulos indicam o teor do estudo: • “Desenvolvimento brasileiro e suas implicações socioambientais”; • “Evolução da política ambiental”; • “Situação atual dos grandes biomas brasileiros”; • “Realidade socioambiental brasileira e os problemas globais”; • “Dimensões básicas de um novo estilo de desenvolvimento”; • “O meio ambiente e as negociações internacionais”. Efetivamente, sediar a Rio-92 foi um desafio para o Brasil, principalmente pelo fato de o governo e de significativa parcela da sociedade brasileira, naquela ocasião, somarem suas forças na defesa da necessidade do crescimento econô- mico e do respeito à soberania nacional para discutir questões ambientais, sem considerar o ambiente como o todo planetário. Outro fator de destaque nos anos 1990 foi a criação do Ministério do Meio Ambiente, pela lei sancionada em 19 novembro de 1992, sobre a qual já discor- remos anteriormente. 6 . 2 A s p r o p o s t a s a m b i e n t a l i s t a s n a v i r a d a d o s é c u l o A g e s t ã o a m b i e n t a l n o B r a s i l c o n t i n u a e m d i s c u s s ã o , com avanços e recuos; no entanto, as questões ambientais encontram-se cada vez mais interligadas com as questões e as políticas públicas. Por exemplo, no ano 2000 foi criado o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), pela Lei n. 9.985/2000 (Brasil, 2000g). Este dispositivo legal orienta a criação, a implantação e a gestão de unidades de conservação em todo o ter- ritório nacional. Trata-se, sem dúvida, de um instrumento legal de grande valia para os ges- tores, principalmente para a gestão pública, uma vez que nele estão previstas categorias diversas de proteção, as quais são agregadas em dois grupos distintos: • Unidades de proteção integral – estações ecológicas, reservas biológicas, parques nacionais, monumentos naturais e refúgios silvestres. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 156 • Unidades de uso sustentável – áreas de proteção ambiental, áreas de relevante interesse ecológico, florestas nacionais, reservas extrativistas, reservas de fauna, reservas de desenvolvimento sustentável e reservas particular do patrimônio natural. Consultando a legislação Lei n. 9.985/2000 Art. 4o O SNUC tem os seguintes objetivos: I – contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais; II – proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional; III – contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais; IV – promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais; V – promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza* no processo de desenvolvimento; VI – proteger paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza cênica; VII – proteger as características relevantes de natureza geológica, geo- morfológica, espeleológica, arqueológica, paleontológica e cultural; VIII – proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos; IX – recuperar ou restaurar ecossistemas degradados; X – proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica, estudos e monitoramento ambiental; XI – valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica; XII – favorecer condições e promover a educação e interpretação ambien- tal, a recreação em contato com a natureza e o turismo ecológico; XIII – proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais, respeitando e valorizando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente. (Brasil, 2000g) Ainda em 2002, foi instituída a Política Nacional da Biodiversidade, pelo Decreto n. 4.339/2002 (Brasil, 2002e), cuja ação em relação à biodiversidade ocorre nas seguintes áreas: * Conservação da natureza: é o uso equilibrado e autossustentado dos recursos naturais. É a manutenção do equilíbrio ecológico natural por meio de técnicas adequadas de manejo. O conceito de conservação é distinto do conceito de preser- vação, porque implica a interferência do homem para assegurar a manutenção das espécies ou dos ecossistemas. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 157 • do conhecimento; • da conservação; • da utilização sustentável de seus componentes; • do monitoramento, avaliação, prevenção e mitigação de impactos. Esse documento foi um dos resultados mais expressivos das discussões da Eco-92 e continua orientando os projetos de proteção ao meio ambiente. Nesse âmbito, temos a atuação do Programa Nacional da Biodiversidade (Probio) e da Comissão Nacional da Biodiversidade (Conabio). No ano de 2011, foi editada a Resolução Conama n. 429/2011 (Brasil, 2011g), que dispõe sobre a metodologia de recuperação das Áreas de Preservação Permanente (APPs), que são instrumentos importantes para a gestão ambien- tal no que concerne à preservação. Para saber mais Ao nos dedicarmos à gestão ambiental, é necessário que estejamos em constante atualização e, por isso, recomendamos que você acesse os seguintes sites: • BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Conama. Resoluções. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/port/conama/legiano1. cfm?codlegitipo=3&ano=2010>. Acesso em: 5 set. 2011. Nesse endereço, você encontrará as sucessivas resoluções do Conama com ca- racterização e metodologias para a aplicação das políticas ambientais e para o uso dos instrumentos de proteção e de recuperação do meio ambiente. • BRASIL. Ministério do Meio ambiente. Assessoria de Comunicação. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/sitio/index.php?ido=ascom.