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RADIOPROTEÇÃO E DOSIMETRIA: FUNDAMENTOS Luiz Tauhata Ivan Salati Renato Di Prinzio Antonieta R. Di Prinzio INSTITUTO DE RADIOPROTEÇÃO E DOSIMETRIA COMISSÃO NACIONAL DE ENERGIA NUCLEAR RIO DE JANEIRO 10a - Revisão – Abril/2014 ii Todos os direitos reservados aos autores Comissão Nacional de Energia Nuclear Instituto de Radioproteção e Dosimetria Av. Salvador Allende, s/n - Barra da Tijuca Rio de Janeiro - RJ CEP: 22783-127 Tel.: (21) 2173-2885 (21) 2173-2833 (21) 2173-2300 e-mail: tauhata@ird.gov.br ivsalati@cnen.gov.br renato@ird.gov.br tuna115@hotmail.com Nota: todos os conceitos emitidos e contidos nesta publicação, são de responsabilidade exclusiva dos autores. Tauhata, L., Salati, I. P. A., Di Prinzio, R., Di Prinzio, M. A. R. R. Radioproteção e Dosimetria: Fundamentos - 10ª revisão abril/2014 - Rio de Janeiro - IRD/CNEN. 344p. ISBN: 978-85-67870-02-1 1.Radiações 2.Fontes de Radiação Ionizante 3.Interação da Radiação com a Matéria 4.Efeitos Biológicos da Radiação 5.Grandezas Radiológicas e Unidades 6.Detectores de Radiação 7.Noções de Proteção Radiológica 8.Gerência de Rejeitos Radioativos 9.Transporte de Materiais Radioativos 10.Anexo A: Normas da CNEN 11.Anexo B: Radiações Ionizantes e Legislação para Trabalhadores 12.Anexo C: Determinação de Blindagens em Radioterapia. iii APRESENTAÇÃO Esta é uma versão revisada da apostila Radioproteção e Dosimetria: Fundamentos, preparada para atender aos cursos de treinamento oferecidos pelo IRD e as pessoas interessadas no assunto. Nesta 10a Revisão foram atualizados conceitos, principalmente no capítulo de Grandezas Radiológicas, devido à atualização da Norma CNEN-NN-3.01 Diretrizes Básicas de Proteção Radiológica, publicada no Diário Oficial da União em 01 de setembro de 2011. Foram incluídos um capítulo relacionado à Gerência de Rejeitos, outro relativo ao Transporte de Materiais Radioativos e três anexos sobre Normas da CNEN, Radiações Ionizantes e Legislação para Trabalhadores e Determinação de Blindagens em Radioterapia. Foram ainda adicionadas várias tabelas de uso em proteção radiológica, para facilitar a consulta por parte dos usuários. Na preparação da apostila, os autores desejam agradecer a todos os colegas da Divisão de Metrologia de Radionuclídeos, principalmente à Estela Maria de Oliveira Bernardes, pela paciência e colaboração. A todos que tiverem acesso ao texto, solicitamos sugestões, ementas e correções, para que possamos elaborar um trabalho aperfeiçoado e com menor número de falhas ou omissões. Os autores iv ÍNDICE Relação de Figuras .................................................................................................... xix Relação de Tabelas .................................................................................................. xxvi CAPÍTULO 1 RADIAÇÕES ................................................................................................................ 1 1.1. COMPOSIÇÃO DA MATÉRIA E TEORIA ATÔMICA ............................ 1 1.1.1. Visão macroscópica da matéria .......................................................................... 1 1.1.2. Substâncias simples e compostas ........................................................................ 1 1.1.3. Fases e estados da substância ............................................................................. 1 1.1.4. Visão microscópica da matéria ........................................................................... 1 1.1.5. A aceitação do átomo .......................................................................................... 2 1.1.6. Lei das proporções definidas .............................................................................. 2 1.1.7. Lei das proporções múltiplas .............................................................................. 2 1.2. ESTRUTURA DA MATÉRIA ......................................................................... 2 1.2.1. Composição da matéria ....................................................................................... 2 1.2.2. Estrutura do átomo .............................................................................................. 2 1.2.3. Raio atômico ....................................................................................................... 2 1.2.4. Raio iônico .......................................................................................................... 3 1.2.5. Estrutura eletrônica ............................................................................................. 3 1.2.6. Energia de ligação eletrônica .............................................................................. 4 1.2.7. Estrutura nuclear ................................................................................................. 5 1.2.8. Notação química ................................................................................................. 5 1.2.9. Organização nuclear ........................................................................................... 5 1.2.10. Tabela de nuclídeos .......................................................................................... 6 1.2.11. Isótopos, isóbaros e isótonos ............................................................................ 7 1.2.12. Tabela Periódica ............................................................................................... 8 1.2.13. Preenchimentos das camadas eletrônicas ....................................................... 10 1.2.14. Regra de Hund ................................................................................................ 12 1.3. TRANSIÇÕES ................................................................................................ 12 1.3.1. Estados excitados .............................................................................................. 12 1.3.2. Transição eletrônica .......................................................................................... 12 1.3.3. Transição nuclear .............................................................................................. 13 1.3.4. Meia-vida do estado excitado ........................................................................... 13 1.4. ORIGEM DA RADIAÇÃO ........................................................................... 15 1.4.1. Fótons ............................................................................................................... 15 1.4.2. Raios X ............................................................................................................. 16 1.5. RADIOATIVIDADE ...................................................................................... 16 1.5.1. Constante de decaimento λ ............................................................................... 16 1.5.2. Atividade de uma amostra, A ........................................................................... 16 1.5.3. Atividade de uma amostra em um dado instante .............................................. 16 v 1.5.4. Decaimento da atividade com o tempo ............................................................. 17 1.5.5. Unidades de atividade - o becquerel e o curie .................................................. 17 1.5.6. Múltiplos e submúltiplos das unidadesde atividade ........................................ 18 1.5.7. Meia-vida do radioisótopo T1/2 ......................................................................... 18 1.5.8. Vida-média do radioisótopo, τ .......................................................................... 18 1.6. RADIAÇÕES NUCLEARES ......................................................................... 19 1.6.1. Unidades de energia de radiação ...................................................................... 19 1.6.2. Radiação β ........................................................................................................ 19 1.6.2.1. Emissão β- ...................................................................................................... 20 1.6.2.2. O neutrino v e o anti-neutrino ..................................................................... 20 1.6.2.3. Equação da transformação do nêutron na emissão β- ..................................... 20 1.6.2.4. Emissão β+ ...................................................................................................... 20 1.6.2.5. Características da emissão beta ...................................................................... 20 1.6.2.6. Emissão de mais de uma radiação beta em um decaimento ........................... 22 1.6.2.7. Emissores β puros ........................................................................................... 22 1.6.2.8. Captura eletrônica, EC ................................................................................... 23 1.6.3. Radiação α ........................................................................................................ 24 1.6.3.1. Equação da transformação no decaimento alfa .............................................. 24 1.6.3.2. Energia da radiação α ..................................................................................... 25 1.6.4. Emissão gama ................................................................................................... 26 1.6.4.1. Características da emissão gama .................................................................... 26 1.6.4.2. Intensidade relativa de emissão Iγ (branching ratio). .................................... 27 1.6.4.3. Valores de referência para as energias das radiações γ .................................. 28 1.6.5. Intensidade relativa das radiações e atividade total .......................................... 30 1.6.6. Atividade e decaimento de uma mistura de radionuclídeos ............................. 31 1.6.7. Esquema de decaimento de um radionuclídeo .................................................. 32 1.7. INTERAÇÕES EM PROCESSOS DE DECAIMENTO ............................ 32 1.7.1. Raios X Característicos ..................................................................................... 32 1.7.2. Elétrons Auger .................................................................................................. 33 1.7.3. Conversão interna ............................................................................................. 33 1.8. RADIAÇÃO PRODUZIDA PELA INTERAÇÃO DE RADIAÇÃO COM A MATÉRIA ........................................................................................ 35 1.8.1. Radiação de freamento (Bremsstrahlung) ........................................................ 35 1.8.2. Produção de pares ............................................................................................. 36 1.8.3. Radiação de aniquilação ................................................................................... 36 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................... 38 CAPÍTULO 2 FONTES NATURAIS E ARTIFICIAIS DE RADIAÇÃO IONIZANTE ............. 39 2.1. FONTES NATURAIS .................................................................................... 39 2.1.1. Origem dos elementos químicos ....................................................................... 39 2.1.2. Composição química do homem referência ..................................................... 40 2.1.3. Os elementos radioativos naturais .................................................................... 42 vi 2.1.4. As famílias radioativas ..................................................................................... 42 2.1.5. O radônio e o torônio ........................................................................................ 44 2.1.6. A radiação cósmica ........................................................................................... 47 2.2. FONTES ARTIFICIAIS ................................................................................ 47 2.2.1. Tipos de geradores de radiação ......................................................................... 48 2.2.2. Tubos de raios X ............................................................................................... 48 2.2.3. Aceleradores de partícula ................................................................................. 49 2.2.4. Aceleradores de elétrons ................................................................................... 49 2.2.5. Acelerador Van de Graaff ................................................................................. 50 2.2.6. Ciclotrons .......................................................................................................... 51 2.2.6.1. Ciclotrons para produção de radioisótopos para medicina ............................. 51 2.2.6.2. O acelerador do Laboratório Nacional de Luz Sincrotron ............................. 52 2.6.2.3. O Grande Colisor de Hadron (Large Hadron Collider) - LHC ..................... 53 2.2.7. Fontes de nêutrons ............................................................................................ 54 2.2.8. Irradiadores com radioisótopos ......................................................................... 55 2.2.8.1. Bomba de Cobalto .......................................................................................... 55 2.2.8.2. Fontes para braquiterapia ............................................................................... 55 2.2.8.3. Irradiadores para gamagrafia .......................................................................... 56 2.2.8.4. Irradiador industrial ........................................................................................ 57 2.2.9. Efluentes e precipitações .................................................................................. 57 2.3. INSTALAÇÕES NUCLEARES NO BRASIL ............................................. 59 2.3.1. Reatores nucleares ............................................................................................ 59 2.3.1.1. Reatores de potência ....................................................................................... 60 2.3.1.2. Reatores de pesquisa ...................................................................................... 63 2.3.2. O ciclo do combustível nuclear ........................................................................ 63 2.3.2.1. A mineração e extração do urânio .................................................................. 63 2.3.2.2. Conversão para hexafluoreto de urânio (UF6). ............................................... 65 2.3.2.3. O enriquecimento isotópico do urânio ........................................................... 65 2.3.2.4. A fabricação do elemento combustível .......................................................... 66 2.3.2.5. O reprocessamento do combustível ................................................................ 67 2.3.2.6. Rejeitos radioativos no ciclo do combustível ................................................. 682.3.2.7. Instalações nucleares industriais do Ciclo do Combustível no Brasil ............ 68 2.3.2.8. Instalações nucleares de pesquisa no Brasil ................................................... 69 2.4. INSTALAÇÕES RADIATIVAS NO BRASIL ............................................ 72 2.4.1. Instalações médicas .......................................................................................... 72 2.4.1.1. Serviços de Radioterapia ................................................................................ 72 2.4.1.2. Serviços de Medicina Nuclear ........................................................................ 73 2.4.1.3. Instalações de produção de radiofármacos de meia-vida curta ...................... 73 2.4.2. Instalações industriais ....................................................................................... 74 2.4.2.1. Instalações de radiografia industrial ............................................................... 74 2.4.2.2. Indústrias que operam medidores nucleares ................................................... 74 2.4.2.3. Serviços de perfilagem de petróleo ................................................................ 74 2.4.2.4. Irradiadores industriais de grande porte ......................................................... 74 2.4.3. Instalações de pesquisa ..................................................................................... 75 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................... 76 vii CAPÍTULO 3 INTERAÇÃO DA RADIAÇÃO COM A MATÉRIA ............................................. 77 3.1. IONIZAÇÃO, EXCITAÇÃO, ATIVAÇÃO E RADIAÇÃO DE FREAMENTO ................................................................................................ 77 3.1.1. Excitação atômica ou molecular ....................................................................... 77 3.1.2. Ionização ........................................................................................................... 77 3.1.3. Ativação do núcleo ........................................................................................... 77 3.1.4. Radiação de freamento ..................................................................................... 77 3.2. RADIAÇÕES DIRETAMENTE E INDIRETAMENTE IONIZANTES ................................................................................................. 78 3.2.1. Interação ........................................................................................................... 78 3.2.2. Probabilidade de interação ou secção de choque .............................................. 78 3.3. INTERAÇÃO DA RADIAÇÃO ELETROMAGNÉTICA COM A MATÉRIA ....................................................................................................... 79 3.3.1. Efeito Fotoelétrico ............................................................................................ 79 3.3.2. Pico de absorção K para o efeito fotoelétrico ................................................... 80 3.3.3. Efeito Compton ................................................................................................. 81 3.3.4. Espalhamento Compton coerente ou efeito Rayleigh ....................................... 83 3.3.5. Formação de par ............................................................................................... 83 3.3.6. Importância relativa dos efeitos fotoelétrico, Compton e produção de pares ... 84 3.3.7. Coeficiente de atenuação linear total, μ ............................................................ 85 3.3.8. Coeficiente de atenuação linear em massa ....................................................... 86 3.3.9. Coeficiente de atenuação e secção de choque microscópica ............................ 87 3.3.10. Coeficiente de atenuação linear total de uma mistura ou composto ................. 88 3.3.11. Coeficiente de transferência de energia ............................................................ 88 3.3.12. Coeficiente de absorção de energia .................................................................. 89 3.4. INTERAÇÃO DE NÊUTRONS COM A MATÉRIA ................................. 89 3.4.1. Classificação da energia dos nêutrons .............................................................. 90 3.4.2. Tipos de interação com nêutrons ...................................................................... 91 3.4.2.1. Ativação com nêutrons ................................................................................... 92 3.4.2.2. Reação de fissão nuclear ................................................................................ 92 3.5. INTERAÇÃO DAS RADIAÇÕES DIRETAMENTE IONIZANTES COM A MATÉRIA ........................................................................................ 94 3.5.1. Radiações diretamente ionizantes ..................................................................... 94 3.5.2. Poder de freamento ........................................................................................... 95 3.5.3. Poder de freamento de colisão e de radiação .................................................... 96 3.5.4. Poder de freamento restrito ou LET ................................................................. 96 3.5.5. Alcance de partículas carregadas em um material (range) ............................... 96 3.5.5.1. Alcance médio ................................................................................................ 96 3.5.5.2. Alcance extrapolado ....................................................................................... 97 3.5.5.3. Alcance máximo ............................................................................................. 97 3.6. INTERAÇÃO DE ELÉTRONS COM A MATÉRIA .................................. 97 3.6.1. Alcance para elétrons monoenergéticos ........................................................... 98 viii 3.6.2. Atenuação das partículas beta ........................................................................... 99 3.6.3. Alcance das partículas beta ............................................................................. 100 3.6.4. Poder de freamento para elétrons de alta energia ........................................... 101 3.6.5. Valor efetivo de (Z/A) de um material ........................................................... 102 3.7. INTERAÇÃO DAS PARTÍCULAS α COM A MATÉRIA ...................... 102 3.7.1. Alcance das partículas α ................................................................................. 103 3.7.2. Alcance e atenuação das radiações no ar e no tecido humano........................ 103 3.8. INTERAÇÃO DE FRAGMENTOS DE FISSÃO COM A MATÉRIA ... 104 3.8.1. Alcance de fragmentos de fissão .................................................................... 105 3.9. TEMPO DE PERCURSO ............................................................................ 105 3.10. PROCESSOS INTEGRADOS DE INTERAÇÃO: DISSIPAÇÃO DE ENERGIA ...................................................................................................... 105 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 107 CAPÍTULO 4 EFEITOS BIOLÓGICOS DA RADIAÇÃO .......................................................... 108 4.1. ESTRUTURA E METABOLISMO DA CÉLULA ................................... 108 4.1.1. Estrutura básica da célula ............................................................................... 108 4.1.2. Metabolismo celular ....................................................................................... 109 4.1.3. Fases da vida celular .......................................................................................109 4.1.3.1. O ciclo celular .............................................................................................. 109 4.1.3.2. Reprodução celular ....................................................................................... 110 4.2. INTERAÇÃO DA RADIAÇÃO COM O TECIDO BIOLÓGICO .......... 111 4.2.1. Formas e tipos de irradiação ........................................................................... 111 4.2.1.1. Exposição única, fracionada ou periódica .................................................... 112 4.2.1.2. Exposição de corpo inteiro, parcial ou colimada ......................................... 113 4.2.1.3. Exposição a feixes intensos, médios e fracos ............................................... 113 4.2.1.4. Exposição a fótons, partículas carregadas ou a nêutrons ............................. 113 4.2.2. Danos celulares ............................................................................................... 114 4.2.3. Mutações ......................................................................................................... 116 4.2.4. Modificação celular pela radiação .................................................................. 116 4.2.5. Morte celular ................................................................................................... 117 4.2.6. Curvas de sobrevivência ................................................................................. 117 4.2.7. Detrimento ...................................................................................................... 118 4.2.8. Risco do efeito biológico induzido pela radiação ionizante ........................... 118 4.2.9. Detectabilidade epidemiológica ...................................................................... 119 4.3. ETAPAS DA PRODUÇÃO DO EFEITO BIOLÓGICO PELA RADIAÇÃO .................................................................................................. 119 4.3.1. Efeitos físicos .................................................................................................. 119 4.3.2. Efeitos químicos ............................................................................................. 120 ix 4.3.3. Efeitos biológicos ........................................................................................... 121 4.3.4. Efeitos orgânicos - Doenças ........................................................................... 122 4.4. RADIOSSENSIBILIDADE DOS TECIDOS ............................................. 123 4.4.1. Efetividade biológica relativa - RBE .............................................................. 123 4.4.2. Transferência linear de energia - LET ............................................................ 124 4.4.3. Radiações de baixo LET ................................................................................. 125 4.4.4. Indução de câncer pelas radiações de baixo LET ........................................... 125 4.4.5. Radiações de alto LET .................................................................................... 126 4.4.6. Indução de câncer pelas radiações de alto LET .............................................. 126 4.4.7. Fator de eficiência da dose e da taxa de dose - DDREF ................................. 127 4.4.8. O fator de redução DDREF ............................................................................ 127 4.4.9. Obtenção do DDREF ...................................................................................... 127 4.5. CLASSIFICAÇÃO DOS EFEITOS BIOLÓGICOS ................................. 128 4.5.1. Denominação dos efeitos biológicos .............................................................. 128 4.5.2. Efeitos estocásticos ......................................................................................... 128 4.5.3. Efeitos determinísticos .................................................................................... 129 4.5.4. Efeitos somáticos ............................................................................................ 130 4.5.5. Efeitos genéticos ou hereditários .................................................................... 130 4.5.6. Efeitos imediatos e tardios .............................................................................. 131 4.6. REVERSIBILIDADE, TRANSMISSIVIDADE E FATORES DE INFLUÊNCIA ............................................................................................... 131 4.6.1. Reversibilidade ............................................................................................... 131 4.6.2. Transmissividade ............................................................................................ 132 4.6.3. Fatores de influência ....................................................................................... 132 4.6.3.1. Idade ............................................................................................................. 132 4.6.3.2. Sexo .............................................................................................................. 133 4.6.3.3. Estado físico ................................................................................................. 133 4.7. EFEITOS BIOLÓGICOS PRÉ-NATAIS ................................................... 134 4.8. EFEITOS BIOLÓGICOS NA TERAPIA .................................................. 136 4.8.1. Radioterapia .................................................................................................... 136 4.8.2. Aplicações oftalmológicas e dermatológicas .................................................. 136 4.8.3. Aplicação de radiofármacos............................................................................ 136 4.9. SÍNDROME DE IRRADIAÇÃO AGUDA ................................................. 137 4.9.1. Exposições acidentais com altas doses ........................................................... 137 4.9.2. Exposição externa localizada .......................................................................... 138 4.9.3. Exposição de corpo inteiro de um adulto........................................................ 139 4.9.4. Sindrome de irradiação aguda......................................................................... 140 4.9.5. Dose letal para componentes da fauna e flora ................................................ 143 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 144 x CAPÍTULO 5 GRANDEZAS RADIOLÓGICAS E UNIDADES ................................................. 145 5.1. EVOLUÇÃO CONCEITUAL DAS GRANDEZAS .................................. 145 5.1.1. A quantificação da radiação ionizante ............................................................ 145 5.1.1.1. Campo de radiação ....................................................................................... 145 5.1.1.2. Grandezas dosimétricas ................................................................................ 145 5.1.1.3. Grandezas limitantes .................................................................................... 145 5.1.1.4. Grandezas operacionais ................................................................................ 146 5.1.1.5. Fatores de conversão e condições de medição ............................................. 146 5.1.1.6. ICRP e ICRU ................................................................................................ 146 5.1.2. A notação diferencial ...................................................................................... 147 5.2. PROCEDIMENTO DE DEFINIÇÃO DAS GRANDEZAS RADIOLÓGICAS .........................................................................................147 5.2.1. Exigência básicas para a definição de uma grandeza ..................................... 147 5.2.2. Concepções estabelecidas pelas ICRP 26 e ICRP 60 ..................................... 148 5.3. GRANDEZAS RADIOLÓGICAS .............................................................. 149 5.3.1. Atividade, A .................................................................................................... 149 5.3.2. Fluência, Φ ...................................................................................................... 150 5.3.3. Exposição, X ................................................................................................... 150 5.3.4. Dose absorvida (Absorbed dose), D ............................................................... 151 5.3.5. Dose equivalente (Dose Equivalent), H, (ICRP 26). ...................................... 151 5.3.6. Dose equivalente num tecido ou órgão (Dose equivalent in a tissue or organ) Dose HT (ICRP 26) e CNEN-NE-3.01 (1988). ................................... 153 5.3.7. Dose equivalente efetiva (Effective dose equivalent), HE (ICRP 26). ............ 153 5.3.8. Kerma, K ......................................................................................................... 154 5.3.9. Dose absorvida comprometida (Committed absorbed dose), D(τ) ................. 154 5.3.10. Dose equivalente comprometida num tecido (Committed equivalent dose in a tissue), HT() (ICRP 26) .......................................................................... 154 5.3.11. Dose efetiva comprometida (Committed effective dose), HE) (ICRP 26). ... 155 5.3.12. Dose equivalente coletiva num tecido (Collective equivalent dose in a tissue), ST ........................................................................................................ 155 5.3.13. Dose efetiva coletiva (Collective effective dose), S ........................................ 155 5.4. RELAÇÕES ENTRE AS GRANDEZAS ................................................... 155 5.4.1. Relação entre kerma (K) e dose absorvida (D) .............................................. 155 5.4.2. Relação entre kerma de colisão (KC) e a fluência (Φ) .................................... 156 5.4.3. Relação entre exposição (X) e dose absorvida no ar (Dar) ............................. 156 5.4.4. Relação entre dose absorvida no ar (Dar) e em outro material (Dm) ............. 156 5.4.5. Relação entre taxa de exposição (�̇�) e atividade da fonte (A) ........................ 157 5.4.6. Relação entre dose efetiva (E) e atividade de uma fonte (A) puntiforme ...... 164 5.4.7. Relação entre dose efetiva (E) e atividade (A) por unidade de área ............... 166 5.4.8. Relação entre dose absorvida na pele (DT) e atividade (A) por unidade de área de emissor beta ........................................................................................ 167 5.4.9. Relação entre dose efetiva (E) e atividade (A) de radionuclídeo incorporada ..................................................................................................... 170 5.5. GRANDEZAS OPERACIONAIS ............................................................... 173 5.5.1. Esfera ICRU .................................................................................................... 173 xi 5.5.2. Campo expandido ........................................................................................... 174 5.5.3. Campo expandido e alinhado .......................................................................... 174 5.5.4. Grandezas operacionais para monitoração de área ......................................... 174 5.5.4.1. Equivalente de dose ambiente (Ambient dose equivalent) H*(d) ................. 174 5.5.4.2. Equivalente de dose direcional (Directional dose equivalent), H´(d,Ω) ...... 174 5.5.5. Grandeza operacional para monitoração individual ....................................... 175 5.5.5.1. Equivalente de dose pessoal (Individual dose equivalent), Hp(d) ............... 175 5.5.5.2. Equivalente de dose para fótons (Photon dose equivalent), HX ................... 175 5.5.6. Relações entre as grandezas limitantes e operacionais ................................... 176 5.6. GRANDEZAS DEFINIDAS NA ICRP 60, EM SUBSTITUIÇÃO ÀS DA ICRP 26, E INCLUÍDAS NA NORMA CNEN-NN-3.01 (2011). ....... 177 5.6.1. Dose equivalente (Equivalent dose), HT ......................................................... 177 5.6.2. Dose efetiva (Effective dose), E ...................................................................... 177 5.6.3. Outras grandezas que mudaram de denominação ........................................... 178 5.7. COEFICIENTE DE RISCO, F .................................................................... 178 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 180 CAPÍTULO 6 DETECTORES DE RADIAÇÃO ........................................................................... 181 6.1. PRINCÍPIOS DE OPERAÇÃO DOS DETECTORES DE RADIAÇÃO .................................................................................................. 181 6.1.1. Detectores de radiação .................................................................................... 181 6.1.2. Propriedades de um detector ........................................................................... 181 6.1.3. Eficiência de um detector ............................................................................... 182 6.1.3.1. Eficiência intrínseca do detector .................................................................. 182 6.1.3.2. Eficiência absoluta de um detector ............................................................... 182 6.1.4. Fatores que definem a escolha de detectores .................................................. 183 6.1.4.1. Tipo da radiação ........................................................................................... 183 6.1.4.2. Intervalo de tempo de interesse .................................................................... 183 6.1.4.3. Precisão, exatidão, resolução........................................................................ 183 6.1.4.4. Condições de trabalho do detector ............................................................... 183 6.1.4.5. Tipo de informação desejada ........................................................................ 184 6.1.4.6. Características operacionais e custo ............................................................. 184 6.1.5. Especificações para monitores, dosímetros e sistemas de calibração ............. 184 6.1.5.1. Monitor de radiação...................................................................................... 184 6.1.5.2. Dosímetro ..................................................................................................... 185 6.1.5.3. Sistema de calibração ................................................................................... 185 6.1.5.4. Detector para medição de uma grandeza por definição ............................... 186 6.2. DETECÇÃO UTILIZANDO EMULSÕES FOTOGRÁFICAS .............. 186 6.2.1. Emulsões fotográficas ..................................................................................... 186 6.2.2. Mecanismo de interação da radiação com as emulsões fotográficas .............. 187 6.2.3. Interação de fótons e nêutrons com a emulsão fotográfica ............................. 187 6.2.4. Aplicações da dosimetria com emulsões fotográficas .................................... 187 xii 6.2.4.1. Monitoração pessoal de radiação X e gama ................................................. 187 6.2.4.2. Uso em raio X diagnóstico ...........................................................................188 6.2.4.3. Gamagrafia ................................................................................................... 189 6.3. DETECTORES TERMOLUMINESCENTES .......................................... 189 6.3.1. O mecanismo da termoluminescência ............................................................ 189 6.3.2. Utilização na detecção e dosimetria de radiação ............................................ 190 6.3.3. Principais materiais termoluminescentes ........................................................ 190 6.3.4. Leitor de TLD ................................................................................................. 190 6.4. DETECTORES À GÁS ................................................................................ 191 6.4.1. Uso de gases como detectores ........................................................................ 191 6.4.2. Energia média para formação de um par de íons (W) em um gás .................. 191 6.4.3. Formação de pulso de tensão ou de corrente em detectores à gás .................. 192 6.4.4. Regiões de operação para detectores à gás ..................................................... 192 6.4.4.1. Região inicial não-proporcional ................................................................... 193 6.4.4.2. Região de saturação de íons ......................................................................... 193 6.4.4.3. Região proporcional ..................................................................................... 193 6.4.4.4. Região de proporcionalidade limitada .......................................................... 194 6.4.4.5. Região Geiger-Müller................................................................................... 194 6.4.4.6. Região de descarga contínua ........................................................................ 194 6.4.5. Câmaras de ionização ..................................................................................... 194 6.4.6. Detectores proporcionais ................................................................................ 198 6.4.7. Detectores Geiger-Müller ............................................................................... 199 6.5. DETECTORES À CINTILAÇÃO .............................................................. 200 6.5.1. Características importantes de materiais cintiladores ..................................... 201 6.5.2. Eficiência de cintilação ................................................................................... 201 6.5.3. Emissão de luz em materiais cintiladores inorgânicos ................................... 201 6.5.4. A válvula fotomultiplicadora .......................................................................... 202 6.5.5. Materiais cintiladores ...................................................................................... 204 6.5.5.1. O iodeto de sódio .......................................................................................... 204 6.5.5.2. O iodeto de césio .......................................................................................... 204 6.5.5.3. O germanato de bismuto............................................................................... 205 6.5.5.4. Sulfeto de zinco ativado ............................................................................... 205 6.5.6. Emissão de luz em materiais cintiladores orgânicos ...................................... 205 6.5.7. Materiais cintiladores orgânicos ..................................................................... 206 6.5.8. Cintiladores plásticos ...................................................................................... 206 6.6. DETECTORES À CINTILAÇÃO LÍQUIDA ............................................ 207 6.6.1. A solução cintiladora ...................................................................................... 207 6.6.1.1. Soluções cintiladoras comerciais.................................................................. 208 6.6.2. Processo de conversão de energia em luz ....................................................... 208 6.6.2.1. A migração de energia no solvente .............................................................. 209 6.6.2.2. A migração de energia do solvente para o soluto ......................................... 209 6.6.2.3. A transferência de energia do solvente para o soluto primário .................... 210 6.6.2.4. A transferência de energia para o soluto secundário .................................... 210 6.6.3. Processo quantitativo de detecção com cintilação líquida .............................. 210 6.6.4. Agente extintor ............................................................................................... 213 6.6.5. Equipamento de cintilação líquida .................................................................. 213 xiii 6.7. DETECTORES UTILIZANDO MATERIAIS SEMICONDUTORES ... 216 6.7.1. Formação de pulsos em materiais semicondutores ......................................... 216 6.7.1.1. Materiais isolantes, condutores e semi-condutores ...................................... 216 6.7.1.2. Pares elétrons-buracos .................................................................................. 216 6.7.1.3. Criação de doadores e receptores em um material ....................................... 217 6.7.1.4. Interação da radiação com o material semicondutor .................................... 217 6.7.1.5. Junção p-n..................................................................................................... 218 6.7.1.6. Região de depleção ....................................................................................... 218 6.7.1.7. Polarização reversa ....................................................................................... 218 6.7.2. Detectores de diodos de silício ....................................................................... 218 6.7.3. Detectores de germânio .................................................................................. 219 6.7.3.1. Blindagem do detector.................................................................................. 219 6.7.3.2. Blindagem do Dewar .................................................................................... 220 6.7.4. Detector de barreira de superfície ................................................................... 220 6.7.5. Detectores de silício-lítio ................................................................................ 220 6.7.6. Detectores de telureto de cádmio .................................................................... 222 6.7.7. Detectores de telureto de zinco e cádmio - CZT ............................................ 222 6.8. CALIBRAÇÃO DE DETECTORES: RASTREABILIDADE ................. 223 6.9. TEORIA DE BRAGG-GRAY ..................................................................... 223 6.10. CADEIAS DE MEDIÇÃO - PRINCIPAIS EQUIPAMENTOS AUXILIARES ............................................................................................... 224 6.10.1. Processamento de sinais em uma cadeia de medição ..................................... 224 6.10.2. Padrões de instrumentação ............................................................................. 224 6.10.3. Pulso linear e pulso lógico .............................................................................. 224 6.10.4. Fonte de tensão (detector bias voltage supplier). ........................................... 225 6.10.5. Pré-amplificador (preamplifier) ...................................................................... 225 6.10.6. Amplificador linear (linear amplifier). ........................................................... 226 6.10.7.Discriminador integral (integral discriminator). ............................................ 226 6.10.8. Discriminador diferencial ou analisador monocanal (single-channel analyzer) - SCA .............................................................................................. 226 6.10.9. Gerador de retardo (delay generator). ............................................................ 226 6.10.10. Gatilho (gate) ............................................................................................... 227 6.10.11. Coincidência (coincidence unit). .................................................................. 227 6.10 12. Conversor tempo-amplitude (Time to amplitude converter) - TAC ............. 227 6.10.13. Temporizador (timer) ................................................................................... 228 6.10.14. Contador (scalers ou counters). ................................................................... 228 6.10.15. Analisador multicanal (multichannel analyzer) - MCA ............................... 228 6.10.16. Diagrama de blocos ...................................................................................... 229 6.10.17. Sistema de calibração absoluta (Triple to Double Coincidence Ratio) - TDCR ........................................................................................................... 230 6.10.18. Hierarquia dos sistema metrológicos ........................................................... 230 6.11. INCERTEZAS ASSOCIADAS ÀS MEDIÇÕES ....................................... 231 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 233 xiv CAPÍTULO 7 NOÇÕES DE PROTEÇÃO RADIOLÓGICA ...................................................... 234 7.1. SEGURANÇA E PROTEÇÃO RADIOLÓGICA ...................................... 234 7.1.1. Conceito de Proteção Radiológica .................................................................. 234 7.1.1.1. Proteção Radiológica do Ecossistema .......................................................... 234 7.1.1.2. Avaliação de Impacto Ambiental ................................................................. 235 7.1.1.3. NORM e TENORM ..................................................................................... 235 7.1.2. Conceito de Segurança Radiológica ............................................................... 236 7.1.3. Segurança doméstica e externa ....................................................................... 236 7.2. PRINCÍPIOS DE PROTEÇÃO RADIOLÓGICA .................................... 237 7.2.1. Justificação ..................................................................................................... 237 7.2.2. Otimização ...................................................................................................... 237 7.2.3. Limitação da dose individual .......................................................................... 238 7.2.4. Limites primários ............................................................................................ 239 7.2.4.1. Limites secundários, derivados e autorizados .............................................. 240 7.2.4.2. Níveis de referência ...................................................................................... 241 7.2.4.3. Classificação da áreas de trabalho ................................................................ 242 7.2.4.4. Exposição crônica do público....................................................................... 243 7.2.4.5. Bandas de dose efetiva ................................................................................. 243 7.3. SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA .............................................................. 244 7.3.1. Sistema de triagem de público ........................................................................ 245 7.4. CUIDADOS DE PROTEÇÃO RADIOLÓGICA ...................................... 246 7.4.1. Tempo ............................................................................................................. 246 7.4 2. Distância ......................................................................................................... 247 7.4.3. Blindagem ....................................................................................................... 247 7.4.4. Blindagem de uma instalação ......................................................................... 247 7.4.5. Blindagem para diferentes tipos de radiação .................................................. 248 7.4.5.1. Blindagem para nêutrons .............................................................................. 248 7.4.5.2. Blindagem para partículas carregadas .......................................................... 248 7.4.5.3. Blindagem para raios X e gama ................................................................... 249 7.4.5.4. Camada semi-redutora .................................................................................. 250 7.4.5.5. Fator de redução ou atenuação ..................................................................... 254 7.4.5.6. Fator de crescimento (build up).................................................................... 254 7.5. O PLANO DE PROTEÇÃO RADIOLÓGICA ......................................... 255 7.5.1. Responsabilidades do titular (direção) da instalação ...................................... 256 7.5.2. Responsabilidades do supervisor de proteção radiológica - SPR ................... 256 7.5.3. Responsabilidades dos IOE da instalação ....................................................... 257 7.6. ATIVIDADES DO SERVIÇO DE PROTEÇÃO RADIOLÓGICA ........ 257 7.7. REGRAS PRÁTICAS DE PROTEÇÃO RADIOLÓGICA ..................... 257 7.7.1. Equipamentos e instalações ............................................................................ 257 7.7.2. Planejamento da atividade .............................................................................. 258 xv 7.7.3. Procedimentos operacionais ........................................................................... 258 7.7 4. Gerência de rejeitos ........................................................................................ 258 7.7.5. Segurança e acidentes ..................................................................................... 259 7.8. O SÍMBOLO DA RADIAÇÃO ................................................................... 259 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 261 CAPÍTULO 8 GERÊNCIA DE REJEITOS RADIOATIVOS ...................................................... 262 8.1. REJEITOS RADIOATIVOS E DEPÓSITOS DE REJEITOS ................ 262 8.2. CLASSIFICAÇÃO DOS REJEITOS RADIOATIVOS ............................ 263 8.3. REQUISITOS BÁSICOS DA GERÊNCIA DE REJEITOS RADIOATIVOS ............................................................................................ 263 8.4. DISPENSA DE REJEITOS .............................................................................. 265 8.4.1. Rejeitos líquidos ............................................................................................. 265 8.4.2. Rejeitos sólidos ............................................................................................... 265 8.4.3. Rejeitos gasosos .............................................................................................. 266 8.4.4. Dispensa de efluentes em instalações nucleares e minero-industriais ............ 266 8.5. CONDIÇÕES PARA UM DEPÓSITO DE REJEITOS ........................... 266 8.6. REGISTROS E INVENTÁRIOS ................................................................267 8.7. TRANSFERÊNCIA DE REJEITOS RADIOATIVOS DE UMA INSTALAÇÃO PARA OUTRA .................................................................. 267 8.8. PLANO DE GERENCIAMENTO DE REJEITOS RADIOATIVOS ..... 267 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 270 CAPÍTULO 9 TRANSPORTE DE MATERIAL RADIOATIVO ................................................ 271 9.1. INTRODUÇÃO ............................................................................................. 271 9.2. NORMA CNEN-NE-5.01: TRANSPORTE DE MATERIAL RADIOATIVO .............................................................................................. 271 9.3. ESPECIFICAÇÕES DOS MATERIAIS RADIOATIVOS PARA TRANSPORTE ............................................................................................. 272 xvi 9.3.1. Materiais radioativos em forma especial ........................................................ 273 9.3.2. Material radioativo em outras formas ............................................................. 273 9.3.3. Embalados para transporte de material radioativo .......................................... 273 9.3.4. Limite da atividade para transporte de material radioativo ............................ 273 9.3.4.1. Limite para embalados exceptivos ............................................................... 274 9.3.4.2. Limite para embalados do Tipo A ................................................................ 274 9.3.4.3. Limite para embalados do Tipo B ................................................................ 274 9.4. PARA EMBALADOS .................................................................................. 276 9.4.1. Embalados do Tipo A ..................................................................................... 276 9.4.2. Embalados do Tipo B ..................................................................................... 276 9.5. REQUISITOS DE CONTROLE DURANTE O TRANSPORTE ............ 277 9.5.1. Índice de transporte ......................................................................................... 277 9.5.2. Categorias de embalados ................................................................................ 278 9.5.3. Rótulos, marcas e placas ................................................................................. 279 9.5.4. Requisitos específicos para transporte terrestre .............................................. 280 9.5.5. Documentação para transporte de material radioativo ................................... 281 9.5.6. Emergência no transporte de material radioativo ........................................... 282 9.6. RESPONSABILIDADES DURANTE O TRANSPORTE ........................ 282 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 284 ANEXO A NORMAS DA CNEN ............................................................................................... 285 A.1. GRUPO 1: INSTALAÇÕES NUCLEARES ............................................. 285 A.2. GRUPO 2: CONTROLE DE MATERIAIS NUCLEARES, PROTEÇÃO FÍSICA E CONTRA INCÊNDIO ........................................ 286 A.3. GRUPO 3: PROTEÇÃO RADIOLÓGICA .............................................. 286 A.4. GRUPO 4: MATERIAIS, MINÉRIOS E MINERAIS NUCLEARES ... 287 A.5. GRUPO 5: TRANSPORTE DE MATERIAIS RADIOATIVOS ............. 288 A.6. GRUPO 6: INSTALAÇÕES RADIATIVAS ............................................. 288 A.7. GRUPO 7: CERTIFICAÇÃO E REGISTRO DE PESSOAS .................. 288 A.8. GRUPO 8: REJEITOS RADIOATIVOS ................................................... 289 A.9. GRUPO 9: DESCOMISSIONAMENTO ................................................... 289 ANEXO B RADIAÇÕES IONIZANTES E LEGISLAÇÃO PARA TRABALHADORES . 290 xvii B.1. INTRODUÇÃO ............................................................................................. 290 B.1.1. Aspectos históricos ......................................................................................... 290 B.1.2. Atividades com radiações ionizantes na CLT ................................................ 291 B.1.2.1. Normas regulamentadoras as radiações ionizantes ....................................... 292 B.1.2.2. Aposentadoria especial para IOE na CLT .................................................... 292 B.1.2.3. Acidente de trabalho e doença profissional na CLT .................................... 293 B.1.3. Atividades com radiações ionizantes no Regime Jurídico Único ................... 293 B.2. NORMAS E DISPOSIÇÕES PARA AS RADIAÇÕES IONIZANTES .. 294 B.2.1. Considerações em torno da Lei 8.270 ............................................................. 294 B.2.2. Compensações cumulativas na forma de gratificação e adicional .................. 295 B.2.2.1. Orientação SEGEP/MPOG Nº 6 e Laudo Técnico....................................... 296 B.2.2.1.1. Necessidade de Laudo Técnico .................................................................. 296 B.3. RISCO POTENCIAL E O ADICIONAL DE IRRADIAÇÃO IONIZANTE ................................................................................................. 297 B.3.1. A concepção do Decreto 877/93 ..................................................................... 297 B.3.2. Modelos propostos .......................................................................................... 297 B.3.2.1. Risco operacional e risco em situação de emergência ................................. 298 B.4. CRITÉRIOS E DISCUSSÕES .................................................................... 299 B.4.1. Adicional de irradiação ionizante ................................................................... 299 B.4.1.1. Complicações administrativas para enquadramento .................................... 300 B.4.2. Gratificação por trabalho com raios X ou substâncias radioativas ................. 301 B.4.2.1. Gratificação para IOE ................................................................................... 301 B.4.3. Férias específicas ............................................................................................ 302 B.4.4. Aposentadoria especial para IOE no serviço público ..................................... 303 B.4.4.1. Nova contagem ............................................................................................. 304 B.4.4.2. Requerimento ............................................................................................... 304 B.4.4.3. Acidente de trabalho no RJU........................................................................ 304 B.5. CONCLUSÕES ............................................................................................. 304 B.6. GLOSSÁRIO DE TERMOS BÁSICOS UTILIZADOS EM PROTEÇÃO RADIOLÓGICA ................................................................... 307 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 310 ANEXO C DETERMINAÇÃO DE BLINDAGENS EM RADIOTERAPIA ......................... 312 C.1. CLASSIFICAÇÃO DE ÁREAS .................................................................. 312 C.2. MONITORAÇÃO DE ÁREAS ................................................................... 312 C.3. CÁLCULO DE BLINDAGEM EM INSTALAÇÕES DE RADIOTERAPIA ......................................................................................... 313 xviii C.3.1. Estabelecendo a dose para a área ocupada (dose semanal) para a área ocupada ...........................................................................................................314 C.3.2. Cálculo das doses de radiação na área ocupada, sem a blindagem................. 315 C.3.3. Atenuação do feixe de radiação pela blindagem ............................................ 316 C.3.4. Transmissão da radiação primária .................................................................. 318 C.3.4.1. Fator de transmissão da barreira primária .................................................... 318 C.3.4.2. Largura da barreira primária......................................................................... 319 C.3.5. Transmissão da radiação espalhada - Barreiras secundárias .......................... 320 C.3.6. Transmissão da radiação pela porta da sala - labirinto ................................... 329 C.3.6.1. Aceleradores com energia menor ou igual a 10 MeV .................................. 329 C.3.6.2. Considerações para produção de nêutrons em aceleradores de partículas de alta energia ............................................................................................... 333 C.3.6.3. Aceleradores com energia maior ou igual a 10 MeV ................................... 334 C.3.7. Otimização das barreiras ................................................................................. 339 C.4. EXERCÍCIOS ............................................................................................... 341 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 343 xix RELAÇÃO DE FIGURAS Figura 1.1 - Representação de modelos atômicos: a) geométrica, onde os orbitais são trajetórias geométricas percorridas por elétrons; b) quântica, onde os orbitais são representados por nuvens envolvendo o núcleo, onde para cada posição geométrica existe uma probabilidade associada de encontrar o elétron ................................................................ 4 Figura 1.2 - Energia necessária para ionização dos átomos em função de Z ................ 4 Figura 1.3 - Ocupação dos níveis de energia de um núcleo representado por um poço de potencial atrativo (energia negativa). .......................................... 5 Figura 1.4 - Energia de ligação nuclear por partícula. Os valores mais proeminentes correspondem aos núcleos com camadas nucleares completas de prótons ou de nêutrons (números mágicos). ........................ 6 Figura 1.5 - Tabela de Nuclídeos. ................................................................................. 6 Figura 1.6 - Representação de um segmento transversal da região da superfície (Z,N) de distribuição dos nuclídeos, onde no eixo vertical estão representados os valores da energia de ligação dos nuclídeos .................. 7 Figura 1.7 - Segmento da Tabela de Nuclídeos mostrando isótopos, isóbaros e isótonos. ..................................................................................................... 8 Figura 1.8 - Tabela Periódica dos elementos químicos. ............................................... 9 Figura 1.9 - Diagrama de Linus Pauling para distribuição dos elétrons segundo os níveis de energia ...................................................................................... 12 Figura 1.10 - Representação de uma transição eletrônica, resultando na emissão de um fóton de luz ou raio X característico. ................................................ 13 Figura 1.11 - Raios X característicos originados nas transições entre níveis eletrônicos. .............................................................................................. 13 Figura 1.12 - Curva representativa do decaimento de um radiosótopo em função do tempo e seus principais parâmetros. ................................................... 17 Figura 1.13 - Emissão β ................................................................................................ 19 Figura 1.14 - Espectro de distribuição em energia de um processo de emissão β. ....... 21 Figura 1.15 - Esquema de decaimento para caminhos alternativos de decaimento β. .. 22 Figura 1.16 - Representação do processo de captura eletrônica e da emissão de raio X característico. ....................................................................................... 23 Figura 1.17 - Representação da emissão de uma partícula α por um núcleo. ............... 24 Figura 1.18 - Espectro das radiações alfa com energias entre 5,389 MeV e 5,545 MeV, emitidas pelo 241Am, e obtido com detector de barreira de superfície ................................................................................................. 25 Figura 1.19 - Representação da emissão da radiação gama pelo núcleo. ..................... 26 Figura 1.20 - Espectro das radiações gama do 60Co obtido com o detector de germânio puro. ........................................................................................ 28 Figura 1.21 - Esquema de decaimento do radionuclídeo X, indicando os valores das probabilidades de emissão das radiações beta e gama. ..................... 31 Figura 1.22 - Esquema de decaimento do 60Co. ............................................................ 32 Figura 1.23 - Representação do processo de conversão interna ................................... 33 Figura 1.24 - Espectro de raios X de freamento com raios X característicos para voltagem de pico de 60, 90 e 120 kV. ..................................................... 36 Figura 2.1 - Concentração média dos elementos químicos componentes da crosta terrestre .................................................................................................... 40 Figura 2.2 - Série radioativa do 232Th. ........................................................................ 43 Figura 2.3 - Série radioativa parcial do 238U. .............................................................. 43 xx Figura 2.4 - Exposição do homem à radiação ionizante. ............................................ 44 Figura 2.5 - Variação da concentração do radônio e torônio com a altura em relação ao solo. ........................................................................................ 45 Figura 2.6 - Variação da concentração de radônio e torônio durante o dia ................ 45 Figura 2.7 - Variação da concentração de radônio e torônio durante o ano. .............. 46 Figura 2.8 - Concentração de 222Rn no Rio de Janeiro, no verão de 1997. ................. 46 Figura 2.9 - Concentração de 222Rn no Rio de Janeiro, no inverno de 1997. ............. 47 Figura 2.10 - Esquema de uma máquina geradora de raios X. ..................................... 48 Figura 2.11a - Esquema de um acelerador linear de elétrons. ...................................... 49 Figura 2.11b - Acelerador de elétrons usado em terapia de câncer em hospitais. ........ 50 Figura 2.12 - Esquema de um acelerador eletrostático do tipo Van de Graaff: (1) Fonte de tensão contínua; (2) Fita de isolamento; (3) Terminal de alta voltagem; (4) Tanque pressurizado com gás isolante; (5) Fonte de íons; (6) Tubo de aceleração e anéis de equalização do campo; (7) Feixe de íons acelerados; (8) Bomba de vácuo; (9) Magneto para reflexão e análise do feixe; (10) Sistema de dispersão do feixe conforme a energia; (11) Amplificador de sinal; (12) Pontos de efeito corona ............................................................................................ 51 Figura 2.13 - Esquema de um cíclotron e equipamento instalado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares - IPEN - utilizado para a produção de radioisótopos. ...................................................................................... 52 Figura 2.14 - Esquema do Grande Colisor de Hadrons (Large Hadron Collider) - LHC - e vista interna com um segmento do tubo de aceleração de 3m de diâmetro. Quatro grandes experimentos são realizados nos pontos: ALICE, ATLAS, CMS e LHCb ................................................. 53 Figura 2.15 - Colisão dos feixes de prótons para a possível produção do Boson de Higgs ....................................................................................................... 54 Figura 2.16 - Esquema de uma fonte de nêutrons de Pu-Be de um medidor de nível. ........................................................................................................ 54 Figura 2.17 - Corte de um cabeçote de uma bomba de 60Co - modelo Theratron 780 usado em radioterapia. ............................................................................. 55 Figura 2.18 - Foto de um irradiador de 192Ir e esquema de guarda da fonte no irradiador e respectiva blindagem ........................................................... 56 Figura 2.19 - Esquema de um irradiador industrial ...................................................... 57 Figura 2.20 - 543 testes nucleares atmosféricos e 1876 testes subterrâneos realizados nos períodos de 1945 a 1980 e 1955 a 1998 respectivamente, por diversos países (UNSCEAR 2000). ...................... 58 Figura 2.21 - Concentrações de 137Cs e 90Sr na dieta alimentar dos habitantes dos hemisférios Norte e Sul. .......................................................................... 59 Figura 2.22 - Dose efetiva anual per capita para os indivíduos da população mundial no período de 1945 a 2005. ....................................................... 59 Figura 2.23 - Esquema de um reator de potência do tipo PWR .................................... 61 Figura 2.24 - Reator nuclear do tipo de Angra 2. ......................................................... 61 Figura 2.25 - Esquema do ciclo do combustível. .......................................................... 64 Figura 2.26 - Elemento combustível ............................................................................. 67 Figura 2.27 -Tipos de instalações radiativas no Brasil ................................................. 72 Figura 3.1 - Modos de interação da radiação com a matéria ...................................... 78 Figura 3.2 - Representação do efeito fotoelétrico ....................................................... 79 Figura 3.3 - Valores de secção de choque para efeito fotoelétrico para o chumbo, em função da energia da radiação. .......................................................... 81 xxi Figura 3.4 - Representação do efeito Compton ........................................................... 82 Figura 3.5 - Valores de seção de choque para espalhamento Compton (e) em função da energia do fóton; eσa é a seção de choque de absorção e eσs de espalhamento da radiação no Efeito Compton. .................................. 83 Figura 3.6 - Representação do efeito de produção de pares. ....................................... 84 Figura 3.7 - Importância relativa dos diversos processos de interação dos fótons com a matéria em função da energia do fóton e do número atômico do material. .............................................................................................. 85 Figura 3.8 - Probabilidade relativa de diferentes efeitos para fótons de diferentes energias no carbono e no chumbo. .......................................................... 85 Figura 3.9 - Atenuação de um feixe de fótons por um material de espessura X. ........ 86 Figura 3.10 - Contribuição relativa dos diversos efeitos produzidos pela interação da radiação num material para o coeficiente de atenuação linear total. .. 87 Figura 3.11 - Representação da fissão em cadeia autossustentável induzida pela absorção de nêutrons, num reator nuclear. .............................................. 93 Figura 3.12 - Variação do stopping power com a energia de partículas incidentes no silício e germânio. .............................................................................. 95 Figura 3.13 - Definição do alcance Re e Rm para partículas alfa e elétrons .................. 97 Figura 3.14 - Espalhamento de elétrons em um material. ............................................. 97 Figura 3.15 - Alcance de elétrons monoenergéticos. .................................................... 98 Figura 3.16 - Relação alcance x energia para elétrons absorvidos no silício e no germânio. ................................................................................................. 98 Figura 3.17 - Alcance de elétrons no silício (ρ = 2,33 g.cm-3) e no iodeto de sódio (ρ = 3,67 g.cm-3), materiais muito usados em detectores. ....................... 99 Figura 3.18 - Atenuação de partículas beta no alumínio, cobre e prata. ..................... 100 Figura 3.19 - Alcance de partículas beta em vários materiais (com densidade, ρ, em g.cm-3): (1) Ferro = 7,8; (2) Pirex = 2,60; (3) PVC = 1,38; (4) Plexiglass = 1,18; (5) Ar = 0,0013. ...................................................... .101 Figura 3.20 - Perda de energia de elétrons na matéria ................................................ 101 Figura 3.21 - Taxa de perda de energia de partículas alfa na interação com um meio material. ........................................................................................ 103 Figura 3.22 - Alcance de partículas alfa em vários materiais (com densidade, ρ, em g.cm-3): (1) Ar = 0,0013; (2) Tecido = 1,0; (3) Alumínio = 2,70; (4) Cobre = 8,96. ......................................................................................... 103 Figura 3.23 - Processos integrados de interação. ........................................................ 106 Figura 4.1 - Diagramas típicos de células animal e vegetal. ..................................... 108 Figura 4.2 - Representação das fases do ciclo celular e detalhamento da fase Mitótica ................................................................................................. 109 Figura 4.3 - Fases da mitose celular .......................................................................... 111 Figura 4.4 - Modelo de extrapolação linear (curva a) para a correlação entre dose- efeito biológico, onde não são contabilizados possíveis efeitos de aumento da probabilidade de ocorrência na região de doses baixas (curva b) ou da existência de limiares ou de fatores de redução da incidência dos efeitos até então desconhecidos (curva c). .................... 112 Figura 4.5 - Transformação de células expostas à radiação do 60Co e nêutrons do espectro de fissão, com exposições únicas e fracionadas. ..................... 113 Figura 4.6 - Quadro representativo dos diversos processos envolvidos na interação da radiação ionizante com as células do tecido humano e o tempo estimado para sua ocorrência. .................................................... 115 Figura 4.7 - Alguns tipos de alterações no cromossoma que podem ser induzidos xxii por radiação ionizante. .......................................................................... 115 Figura 4.8 - Tipos de aberrações cromossomiais que podem ser induzidos pela radiação ionizante. ................................................................................. 116 Figura 4.9 - Curvas de sobrevivência para células de mamíferos. ............................ 117 Figura 4.10 - Fases do efeito biológico produzido pela radiação ionizante. ............... 122 Figura 4.11 - Visualização do processo de transferência de energia (dE) por uma partícula carregada (elétron) em função da distância percorrida (dx) num meio material. ................................................................................ 125 Figura 4.12 - Formas de curvas dose-resposta, para radiações de baixo e alto LET,para indução de efeitos estocásticos. ..................................................... 127 Figura 4.13 - Curva de resposta: probabilidade de indução de câncer versus dose absorvida, do tipo Linear - quadrática, p = D + D2 .......................... 128 Figura 4.14 - Tempo de latência para aparecimento de câncer após irradiação. ........ 129 Figura 4.15 - Relações típicas entre dose e gravidade do dano (severidade), para efeitos determinísticos numa população. .............................................. 130 Figura 4.16 - Variação da incidência do câncer de pulmão em trabalhadores de minas de urânio, fumantes e não fumantes. .......................................... 133 Figura 4.17 - Incorporação preferencial de radioisótopos nos tecidos e órgãos do corpo humano, em função do tipo de composto químico utilizado, para produção de imagens em gama-câmaras para diagnóstico em Medicina Nuclear. ................................................................................. 137 Figura 4.18 - Frequência de cromossomos dicêntricos para células submetidas à radiação gama do 60Co e a nêutrons de várias energias. ....................... 138 Figura 4.19 - Evolução média de pessoas irradiadas em relação ao tempo e em função da dose ....................................................................................... 141 Figura 4.20 - Indução de câncer na tireóide na Bielorrússia devido ao acidente nuclear de Chernobyl, em 1986. ............................................................ 142 Figura 4.21 - Faixas aproximadas de dose aguda letal para vários grupos taxonômicos (UNSCEAR, 2008). ......................................................... 143 Figura 5.1 - Representação esquemática do procedimento de definição das grandezas e as relações entre elas estabelecidas no ICRP 26 e CNEN-NE-3.01 e ICRP 60 e Norma CNEN NN-3.01 de 2011 ............ 149 Figura 5.2 - Valores do fator de conversão dose no ar para dose na água e no tecido muscular em função da energia do fóton. ................................... 157 Figura 5.3 - Geometria de irradiação da esfera ICRU e o ponto P na esfera, no qual H*(d) é determinado num campo de radiação expandido e alinhado. ................................................................................................ 174 Figura 5.4 - Geometria de irradiação da esfera ICRU e o ponto P na esfera, no qual o equivalente de dose direcional é obtido no campo de radiação expandido, com a direção Ω de interesse. ............................................. 175 Figura 6.1 - Disposição dos filtros metálicos e do filme no monitor individual utilizado pelo IRD ................................................................................. 188 Figura 6.2 - Emissão de luz na termoluminescência ................................................. 190 Figura 6.3 - Esquema e fotografia de uma leitora TLD ............................................ 191 Figura 6.4 - Regiões de operação para detectores à gás ............................................ 193 Figura 6.5 - Esquema da câmara de ionização tipo free-air ...................................... 195 Figura 6.6 - Caneta dosimétrica ................................................................................ 195 Figura 6.7 - Câmara de ionização, portátil, tipo babyline, com faixa de medição de 0,1 mR.h-1 a 50 R.h-1 (1 μSv.h-1 a 500 mSv.h-1), para detecção de radiações X, gama e beta, em instalações nucleares, clínicas de xxiii medicina nuclear, radiodiagnóstico e radioterapia. ............................... 196 Figura 6.8 - Câmara de ionização pressurizada, portátil, para medição de níveis baixos de radiação X e gama, provenientes da radiação de fundo, fugas de aparelhos usados em radiodiagnóstico e radioterapia e radiação espalhada ................................................................................. 196 Figura 6.9 - (a)Vista interna da câmara de ionização Centronic IG-11, do LNMRI, (b) foto da câmara NPL-CRC-Capintec fabricada pela Southern Scientific plc, do LNMRI ...................................................... 197 Figura 6.10 - Cãmara de extrapolação modelo PTW 23391 ....................................... 197 Figura 6.11 - Dosímetro Farmer modelo 2570A da Nuclear Enterprise ..................... 198 Figura 6.12 - Esquema de um detector proporcional cilíndrico. ................................. 198 Figura 6.13 - Detector proporcional portátil para medição de contaminação superficial. ............................................................................................. 199 Figura 6.14 - Detectores G-M utilizados para medição de taxa de contagem ou convertidos para .................................................................................... 200 Figura 6.15 - Detector Geiger, tipo pancake, para medição de contaminação superficial com janela de mylar aluminizado, para radiação alfa, beta e gama. .................................................................................................. 200 Figura 6.16 - Sonda G-M para detecção beta e gama, com janela metálica muito fina ......................................................................................................... 200 Figura 6.17 - Estrutura de bandas de energias em um cintilador cristalino ativado ... 202 Figura 6.18 - Elementos básicos de uma válvula fotomultiplicadora ......................... 203 Figura 6.19 - Cintilômetro portátil Rad Eye PRD, de alta sensibilidade, utilizado em atividades de triagem e localização de fontes emissoras de radiação gama. ....................................................................................... 203 Figura 6.20 - Espectrômetro gama, com NaI(Tl)+GM e analisador multicanal, portátil, que permite determinar a energia da radiação, obter o espectro e identificar o radionuclídeo. .................................................. 203 Figura 6.21 - Gama-câmara de duas cabeças, com detector de NaI(Tl) planar de grandes dimensões, utilizado em diagnóstico com radiofármacos em órgãos e corpo inteiro, em medicina nuclear. ........................................ 204 Figura 6.22 - Sondas de sulfeto de zinco para medição de contaminação superficial (alfa). ..................................................................................................... 205 Figura 6.23 - Níveis de energia em uma molécula orgânica ....................................... 206 Figura 6.24 - Processo de formação do sinal no cintilador líquido ............................ 212 Figura 6.25 - Estimativa do número de fotoelétrons formados a partir da interação de um elétron de 5 keV com o cintilador líquido .................................. 212 Figura 6.26 - Cintilador líquido .................................................................................. 214 Figura 6.27 - Diagrama de blocos do um cintilador líquido. ...................................... 215 Figura 6.28 - Estrutura de bandas em um material (Ei energia do intervalo). ............ 216 Figura 6.29 - Impurezas doadoras e receptoras em uma estrutura cristalina. ............. 217 Figura 6.30 - Detector de germânio de alta pureza, resfriado a nitrogênio líquido, utilizado em técnicas de espectrometria X e gama, em medições de laboratório. ............................................................................................ 219 Figura 6.31 - Vista interna de um detector de barreira de superfície e espectro das radiações alfa emitidas pelo 241Am ....................................................... 221 Figura 6.32 - Monitor individual com detector de diodo de silício para radiação X e gama, com leitura direta da dose equivalente, taxa de dose, equivalente de dose pessoal Hp(10), com memóriapara estocagem de dados, alarme sonoro e luminoso e identificação do usuário. .......... 221 xxiv Figura 6.33 - Espectro das radiações de baixa energia do 241Am obtido com o CdTe ...................................................................................................... 222 Figura 6.34 - Dosímetro gama de terlureto de zinco e cádmio ................................... 223 Figura 6.35 - (a) Pulsos analógicos ou lineares, com seus parâmetros de formato e; (b) Pulso lógico (quadrado) de comando ou de saída, por exemplo, de um gate ou discriminador ................................................................. 225 Figura 6.36 - Esquema do funcionamento da unidade de coincidência para dois pulsos de entrada ................................................................................... 227 Figura 6.37 - Esquema de operação de um ADC ........................................................ 229 Figura 6.38 - Diagrama de blocos de uma cadeia de medição utilizando o método de coincidência 4πβ-γ ............................................................................ 229 Figura 6.39 - Arranjo experimental do sistema TDCR e foto do módulo MAC3 ...... 230 Figura 6.40 - Representação da hierarquia e rastreabilidade metrológica das medições realizadas pelos instrumentos dos usuários até aos padrões internacionais para cada tipo de grandeza ............................................. 231 Figura 7.1 - Descrição esquemática do método de análise custo-benefício para a otimização da proteção radiológica ....................................................... 238 Figura 7.2 - Grandezas básicas e derivadas utilizadas para a limitação da exposição individual .............................................................................. 241 Figura 7.3 - Bandas de Dose Efetiva Individual, em mSv, que podem ser utilizadas em situações de operação normal ou de emergência ............ 244 Figura 7.4 - Detectores portáteis apropriados para uso em triagem de público quando da ocorrência de acidentes com dispersão de material radioativo no ambiente. Os detectores mostrados sâo: (a) identFINDER, (b) Electronic Personal Dosemeter, (c) Thermo RadEye PRD ......................................................................................... 246 Figura 7.5 - Valores dos parâmetros “a” e “b” em função da energia da radiação da fórmula de Berger para o cálculo do fator de build up ..................... 255 Figura 7.6 - Trifólio - Símbolo da radiação ionizante ............................................... 260 Figura 9.1 - Etiquetas padronizadas para embalados. ............................................... 279 Figura 9.2 - Placa para tanques e contêineres. A palavra RADIOATIVO pode ser substituída pelo número de classificação de materiais da ONU, conforme tabela 9.5 ............................................................................... 280 Figura B.1 - RJU e Legislação relativa às radiações ionizantes ................................ 295 Figura C.1. - Esquema simplificado de uma sala de tratamento de radioterapia com um acelerador linear de elétrons. O equipamento pode girar em torno do isocentro, a 1 m do alvo (linha pontilhada). A figura superior mostra o corte da sala passando pelo cinturão primário (paredes A, C e teto). Na figura inferior é possível visualizar as barreiras A´, B, C´, D e D´ .................................................................... 314 Figura C.2 - Largura da barreira primária quando a protuberância é construída no lado interno da sala (a) e no lado externo da sala (b) de tratamento (NCRP, 2005). ....................................................................................... 320 Figura C.3 - Esquema da sala onde está instalado o acelerador do exemplo, mostrando os pontos utilizados para o cálculo da espessura da barreira primária (cinturão). Note-se que os pontos calculados situam-se a 0,3 m da parede .................................................................. 321 Figura C.4 - Distâncias utilizadas para se determinar as barreiras secundárias (NCRP, 2005). ....................................................................................... 323 xxv Figura C.5 - Esquema da sala onde está instalado o acelerador de exemplo, mostrando os pontos utilizados para o cálculo das espessuras das barreiras secundárias. Note-se que os pontos calculados situam-se a 0,3 m da parede ..................................................................................... 325 Figura C.6 - Esquema do labirinto da sala onde está instalado o acelerador do exemplo, mostrando as áreas definidas para a determinação da dose equivalente na porta devida ao espalhamento do feixe primário na parede A ................................................................................................ 329 Figura C.7 - Esquema do labirinto da sala onde está instalado o acelerador do exemplo, mostrando as áreas definidas para a determinação da dose equivalente na porta devida ao espalhamento único da radiação de fuga do cabeçote na parede A ............................................................... 331 Figura C.8 - Esquema do labirinto da sala onde está instalado o acelerador do exemplo, mostrando as áreas definidas para a determinação da dose equivalente na porta devida ao espalhamento da radiação pelo paciente na parede A ............................................................................. 332 Figura C.9 - Esquema do labirinto da sala onde está instalado o acelerador do exemplo, mostrando as áreas definidas para a determinação da dose equivalente na porta devida à radiação de fuga que atravessa a parede interna do labirinto ..................................................................... 333 Figura C.10 - Esquema geral para definição dos parâmetros usados na blindagem da porta do labirinto (NCRP, 2005). ................................................... 335 xxvi RELAÇÃO DE TABELAS Tabela 1.1 - Denominação, símbolo e características dos elementos de Z = 97 a 118......................................................................................................... 10 Tabela 1.2 - Energias e intensidades relativas dos raios X emitidos pelos elementos de número atômico de 20 a 109 ........................................... 14 Tabela 1.3 - Emissores beta puros............................................................................. 23 Tabela 1.4 - Radionuclídeos alfa emissores, com energias bem conhecidas, utilizados como padrões para calibração de detectores. ....................... 26 Tabela 1.5 - Valores padrões recomendados para radiações gama de alguns radionuclídeos ....................................................................................... 29 Tabela 1.6 - Características das radiações em função de sua origem ....................... 37 Tabela 2.1 - Composição química do Homem Referência, que possui massa total de 70 kg e densidade de 1,025 g.cm-3 ........................................... 41 Tabela 2.2 - Composição química de materiais tecido-equivalentes e do músculo utilizada em proteção radiológica, para cálculos por simulação, utilizando Métodos de Monte Carlo, e para teste de equipamentos de medição. .................................................................... 42 Tabela 2.3 - Reatores nucleares de potência no Mundo............................................ 62 Tabela 2.4 - Irradiadores industriais de grande porte em operação, em 2013, para esterilização de materiais com radiação gama do 60Co ................. 74 Tabela 2.5 - Aceleradores de elétrons em operação no Brasil, em 2013 .................. 75 Tabela 3.1 - Denominaçãodos nêutrons de acordo com sua energia ....................... 91 Tabela 3.2 - Componentes da energia liberada na fissão dos núcleos 233U, 235U e 239Pu ...................................................................................................... 94 Tabela 3.3 - Valores de (Z/A)ef de alguns materiais utilizados em dosimetria das radiações ............................................................................................. 102 Tabela 3.4 - Exemplo de interação das radiações ionizantes com o ar e tecido humano ................................................................................................ 104 Tabela 4.1 - Duração estimada das fases de um tipo de célula ............................... 110 Tabela 4.2 - Riscos de danos à saúde ...................................................................... 118 Tabela 4.3 - Detectabilidade epidemiológica de efeitos biológicos ........................ 119 Tabela 4.4 - Valores médios do LET e RBE para a água (ICRP-ICRU, 1963). ..... 123 Tabela 4.5 - Limiares de dose para efeitos determinísticos nas gônadas, cristalino e medula óssea .................................................................... 131 Tabela 4.6 - Evolução das características do feto em função do tempo ................. 134 Tabela 4.7 - Valores das probabilidades de indução de efeitos biológicos induzidos por radiações de baixo LET no feto ................................... 135 Tabela 4.8 - Risco de efeitos biológicos pré-natais, deletérios à saúde humana, induzidos pela radiação ionizante ....................................................... 135 Tabela 4.9 - Limiares estimados de doses absorvidas agudas gama para 1% de morbidez e mortalidade, após exposição de corpo inteiro de uma pessoa (ICRP 103, 2007). ................................................................... 139 Tabela 4.10 - Síndrome de irradiação aguda ............................................................. 140 Tabela 4.11 - Sintomas de doença resultantes da exposição aguda à radiação ionizante, em função do tempo. .......................................................... 140 Tabela 4.12 - Sintomas e sinais no estágio prodrômico e síndrome de irradiação aguda em ordem aproximada de crescente gravidade ......................... 141 Tabela 4.13 - Pessoas com síndrome de irradiação aguda irradiadas durante o acidente nuclear de Chernobyl ............................................................ 142 xxvii Tabela 5.1 - Valor de Q em função do poder de freamento de colisão (L∞) .......... 152 Tabela 5.2 - Valores de Q(L) em função do LET, na água ..................................... 152 Tabela 5.3 - Valores do fator de qualidade efetivo (Effective quality fator) - Q - para os diversos tipos de radiação - ICRP 26 (1977), CNEN-NE- 3.01 (1988). ......................................................................................... 152 Tabela 5.4 - Valores do fator de peso, wT, para tecido ou órgão definido na ICRP 26 e ICRP 60 ............................................................................. 153 Tabela 5.5 - Valores de Γ para alguns radionuclídeos emissores gama em (R.m2)/(h.Ci) ....................................................................................... 158 Tabela 5.6 - Valores da constante de taxa de exposição, Γ, e do fator de conversão f de dose absorvida no ar para dose absorvida no tecido ... 159 Tabela 5.7 - Valores do fator de conversão para a obtenção da dose efetiva (em mSv) devida à exposição a uma fonte puntiforme (atividade em kBq) para um tempo t (em h). ............................................................. 165 Tabela 5.8 - Fator de conversão da atividade por unidade de área para dose efetiva E, em função do período de permanência no solo contaminado ........................................................................................ 166 Tabela 5.9 - Fator de conversão de atividade por unidade de área (concentração) para dose absorvida na pele de radionuclídeo emissor beta ............... 168 Tabela 5.10 - Coeficientes de dose efetiva comprometida e(g) por unidade de incorporação ........................................................................................ 171 Tabela 5.11 - Uso das grandezas de acordo com o tipo de radiação monitorada ..... 176 Tabela 5.12 - Profundidade de determinação de dose efetiva em alguns tecidos. .... 176 Tabela 5.13 - Valores do fator de peso da radiação wR ............................................ 177 Tabela 5.14 - Coeficiente de probabilidade de mortalidade numa população de todas as idades por câncer após exposição a baixas doses. ................. 178 Tabela 5.15 - Estimativas das probabilidades de efeitos biológicos induzidos pelas radiações ionizantes ................................................................... 179 Tabela 5.16 - Probabilidade de incidência e mortalidade de câncer de pele induzido por radiação ionizante .......................................................... 179 Tabela 6.1 - Energia média para formação de pares de íons em alguns gases ........ 191 Tabela 6.2 - Soluções cintiladoras comerciais típicas. ............................................ 208 Tabela 6.3 - Fases do processo quantitativo de detecção com cintilação líquida. .. 211 Tabela 6.4 - Componentes da expressão que calcula a amplitude do pulso de tensão produzido em sistema de detecção com cintilação líquida. ..... 212 Tabela 7.1 - Limites primários anuais de dose efetiva - CNEN-NN-3.01 (2011) e BSS 115. ........................................................................................... 239 Tabela 7.2 - Coeficientes de probabilidade de detrimento fatal e fatores de peso para vários tecidos............................................................................... 240 Tabela 7.3 - Níveis de registro e de investigação para monitoração individual, de indivíduos ocupacionalmente expostos (IOE), estabelecidos pela Posição Regulatória 3.01/004:2011 da CNEN.................................... 242 Tabela 7.4 - Comprimento de relaxação aproximado de alguns materiais, para nêutrons rápidos .................................................................................. 248 Tabela 7.5 - Camadas semi-redutoras (HVL) e deci-redutoras (TVL). .................. 250 Tabela 7.6 - Valores da camada semi-redutora (HVL) de vários materiais, para vários radionuclídeos emissores de radiação gama, numa condição de boa geometria, onde a contribuição da radiação secundária de espalhamento não é importante. Ref. IAEA - TECDOC - 1162, Vienna (2000). .................................................................................... 251 xxviii Tabela 9.1 - Valores básicos de limites de concentração e atividade, para alguns radionuclídeos, em embalados Tipo A................................................ 275 Tabela 9.2 - Limites de atividade para embalados exceptivos ................................ 276 Tabela 9.3 - Fatores de multiplicação do IT para embalados de grandes dimensões ............................................................................................ 278 Tabela 9.4 - Categoria de embalados ...................................................................... 279 Tabela 9.5 - Resumo da classificação da ONU para nomes apropriados ao transporte de materiais radioativos e respectiva numeração ............... 281 Tabela B.1 - Definição de adicional de irradiação ionizante constante do Decreto 877/93 ................................................................................................. 305 Tabela C.1 - Valores típicos para o fator de uso ...................................................... 317 Tabela C.2 - Valores sugeridos para ofator de ocupação (NCRP, 2005). .............. 317 Tabela C.3 - Propriedades de materiais usados em blindagem (Profio, 1979). ....... 319 Tabela C.4 - Camadas deci-redutoras para concreto, aço e chumbo com as densidades médias dadas na Tabela C.3 (NCRP, 2005). .................... 319 Tabela C.5 - Fator de espalhamento (a) a 1 m de um fantoma com dimensões humanas, distância alvo-superfície de 1 m e tamanho de campo de 400 cm2 (McGinley, 2002; Taylor et al., 1999). ................................. 324 Tabela C.6 - Camada deci-redutora em concreto para radiação espalhada pelo paciente em vários ângulos (NCRP, 2005). ........................................ 325 Tabela C.7 - Valores sugeridos para camada deci-redutora em concreto para radiação de fuga (NCRP, 2005). ......................................................... 326 Tabela C.8 - Valores sugeridos para o coeficiente de reflexão na parede A (Figura C.6) para concreto (NCRP, 2005) Incidência a 0º e 45º para fótons de bremsstrahlung e monoenergéticos. Cada valor apresentado abaixo deve ser multiplicado por 10-3 ............................. 330 1 CAPÍTULO 1 RADIAÇÕES 1.1. COMPOSIÇÃO DA MATÉRIA E TEORIA ATÔMICA 1.1.1. Visão macroscópica da matéria A observação simples da matéria que compõe todos os objetos, seres vivos e a própria Terra mostra, entre outras coisas, uma diferenciação na constituição, na cor, no grau de dureza, na transparência ou opacidade, na elasticidade e na estabilidade, ou não, das suas características no tempo. Uma inspeção mais aguda permite identificar a mesma natureza química, em objetos com características físicas muito diferentes, como por exemplo, o grafite, o diamante sintético, o diamante natural e o carbono em pó. A busca da identificação e da caracterização dos elementos básicos que permitem compor tais objetos invoca a necessidade de unificação dos conceitos e a crença na simplicidade da Natureza. 1.1.2. Substâncias simples e compostas O simples fato de uma peça de ferro exposta à umidade se enferrujar gradativamente com o tempo mostra o surgimento de outra substância, a ferrugem, em cuja composição deve constar o ferro e algo proveniente do ar ou da água. Isto implica que uma substância considerada simples, pode compor outras substâncias ao combinar- se com outra substância. 1.1.3. Fases e estados da substância Uma substância como a água pode se apresentar sob a forma de líquido, de gelo ou de vapor, conforme sua temperatura. Da mesma maneira, muitas outras substâncias. Outra característica notável das substâncias é o estado de organização em que se apresenta, ora de forma caótica, amorfa, ora sob a forma de cristais regulares. 1.1.4. Visão microscópica da matéria Analisando um material com o microscópico percebe-se que tanto as substâncias simples como as consideradas compostas apresentam a mesma imagem, para as variadas e possíveis ampliações. Mesmo utilizando um microscópio poderoso, como o microscópio eletrônico, o cenário pouco se modifica e só indica o modo de organização do material. Isto sugere que os elementos básicos continuam invisíveis ao microscópio óptico e até ao eletrônico e que, para identificá-los, é preciso utilizar modelos e procedimentos hipotéticos de trabalho. Por exemplo, pode-se supor que, ao cortar um pedaço de ferro em fragmentos gradativamente menores, deve-se chegar a uma fração que, se cortada, deixará de ser ferro. Esta fração final foi denominada, pelos gregos, de átomo. 2 1.1.5. A aceitação do átomo A necessidade de se invocar a hipótese da estrutura corpuscular da matéria, somente ocorreu no final do século XVIII, quando da descoberta das leis químicas das proporções definidas por Proust (1754-1826) e das proporções múltiplas por Dalton (1766-1844). Essas leis conduziram, de forma natural, à consideração de que quando substâncias elementares se combinam, o fazem como entidades discretas ou átomos. 1.1.6. Lei das proporções definidas Um determinado composto químico é sempre formado pelos mesmos elementos químicos combinados sempre na mesma proporção em massa, independentemente de sua procedência ou método de preparação. Exemplo: 10 g de H + 80 g de O formam 90 g de H2O, na proporção 1:8. 1.1.7. Lei das proporções múltiplas As massas de um elemento químico que se combinam com uma massa fixa de um segundo elemento, para formar compostos diferentes, estão entre si numa proporção de números inteiros, em geral pequenos. Exemplo: 71 g de Cl2 + 16 g de O2 = 87 g Cl2O 71 g de Cl2 + 48 g de O2 = 119 g Cl2O3 1.2. ESTRUTURA DA MATÉRIA 1.2.1. Composição da matéria Todos os materiais existentes no universo são constituídos de átomos ou de suas combinações. As substâncias simples são constituídas de átomos e, as combinações destes, formam as moléculas das substâncias compostas. A maneira como os átomos se combinam depende da sua natureza e das propriedades que as suas estruturas propiciam. 1.2.2. Estrutura do átomo O conceito inicial de átomo indivisível sofreu modificações profundas com as experiências realizadas por Ernest Rutherford (1871-1937) e seus colaboradores. O modelo utilizado para representar o átomo, passou a ser concebido como tendo um núcleo pesado, com carga elétrica positiva, e vários elétrons, com carga elétrica negativa, cujo número varia com a natureza do elemento químico. O raio de um átomo é da ordem de 10-7 cm e suas propriedades químicas são definidas pelos elétrons das camadas mais externas. 1.2.3. Raio atômico Teoricamente, é a distância do centro do núcleo atômico até o último orbital ocupado por elétrons. Na prática, ele é determinado como sendo o valor médio da distância entre núcleos de dois átomos vizinhos ligados e no estado sólido. 3 O valor do raio depende da força de atração entre o núcleo e os elétrons e é expresso em angstron (1 A = 10 -8 cm) ou em picômetro (1 pm=10-12m). Assim, aumentando-se Z, o raio diminui; aumentando-se o número de camadas eletrônicas, o raio aumenta. Para átomos com a última camada de elétrons completa, o raio tende a ser menor devido à alta energia de ligação das partículas. Assim, os raios do 40Ca, 222Rn e 207Pb medem 2,23, 1,34 e 1,81 A , respectivamente, enquanto que o raio do 39K vale 2,77 A e o raio do 127I, 1,32 A . 1.2.4. Raio iônico O acréscimo ou o desfalque de elétrons num átomo modifica o raio do sistema restante, que é o íon. O íon positivo, denominado de cátion, possui elétrons a menos. O íon negativo, o ânion, tem excesso de elétrons. O desfalque de elétrons faz com que a carga nuclear atue mais intensamente sobre os elétrons restantes, reduzindo o raio. Este é o caso do 127I, cujo raio vale 1,32 A e raio iônico vale 0,50 A . O efeito do emparelhamento de elétrons é significativo, como se pode perceber com o 40Ca cujo raio vale 2,23 e o raio iônico de Ca2+ = 0,99 A . O excesso de elétrons aumenta o raio, devido a atenuação da força de atração pelo núcleo e pelo aumento da repulsão entre os elétrons. A deficiência de elétrons diminui o raio conforme pode ser observado, comparando-se os raios dos cátions com carga (+1), (+2) e (+3). Por exemplo, Ag+ com 1,26 e Ag2+ com 0,89 A , Bi 3+ com 0,96 e Bi5+ com 0,74 A . 1.2.5. Estrutura eletrônica Os elétrons se distribuem em camadas ou orbitais, de tal modo que dois elétrons não ocupem o “mesmo lugar” ao mesmo tempo. Somente dois elétrons podem ocupar a mesma região no espaço, mas eles devem ter características magnéticas (spin) diferentes. Esta restrição é denominada dePrincípio de exclusão de Pauli. Quanto mais elétrons possuir o elemento químico, mais camadas ele deve ter ou mais complexa será a maneira como eles se acomodarão. Cada orbital pode ser representado por um elétron se movendo segundo uma trajetória circular (ou elíptica) ou por uma nuvem envolvendo o núcleo e distribuída em torno de um raio médio, conforme é ilustrado na Figura 1.1. O orbital é um conceito proveniente da teoria quântica do átomo e é definido como uma região do espaço em torno do núcleo onde os elétrons têm grande probabilidade de estar localizados. Cada camada comporta um número definido de elétrons. Quando preenchida, denomina-se camada fechada. O número de elétrons destas camadas é denominado de número mágico e, quando excedido, os novos elétrons devem ocupar novos orbitais, senão haverá repetição dos números quânticos que caracterizam cada elétron (ver 1.2.13). Os números mágicos são: 2, 8, 18, 32, 32, 18 até 8. 4 Elétrons Núcleo Figura 1.1 - Representação de modelos atômicos: a) geométrica, onde os orbitais são trajetórias geométricas percorridas por elétrons; b) quântica, onde os orbitais são representados por nuvens envolvendo o núcleo, onde para cada posição geométrica existe uma probabilidade associada de encontrar o elétron. 1.2.6. Energia de ligação eletrônica Cada elétron está vinculado ao átomo pela atração entre a sua carga negativa e a carga positiva do núcleo e pelo acoplamento atrativo do seu momento magnético (spin) com elétrons da mesma camada. A força atrativa sofre uma pequena atenuação devido à repulsão elétrica dos demais elétrons. A energia consumida neste acoplamento se denomina energia de ligação. Para elementos de número atômico elevado, a energia de ligação dos elétrons próximos ao núcleo é bastante grande, atingindo a faixa de 100 keV (ver Tabela 1.2), enquanto que a dos elétrons mais externos é da ordem de alguns eV. Os elétrons pertencentes às camadas fechadas possuem energia de ligação com valores bem mais elevados do que os das camadas incompletas e, portanto, são os mais estáveis. A Figura 1.2 mostra a variação da energia de ligação dos elétrons da última camada, ou energia potencial de ionização, com o número atômico Z do elemento químico. Quanto maior o raio atômico, mais distante os elétrons estarão do núcleo e, portanto, mais fraca será a atração sobre eles. Assim, quanto maior o raio atômico, menor o potencial de ionização. Os valores máximos correspondem a de elementos com a última camada eletrônica completa. Figura 1.2 - Energia necessária para ionização dos átomos em função de Z. 5 1.2.7. Estrutura nuclear O núcleo atômico é constituído de A nucleons, sendo N nêutrons e Z prótons. Os prótons são carregados positivamente e determinam o número de elétrons do átomo, uma vez que este é eletricamente neutro. Os nêutrons possuem praticamente a mesma massa que os prótons, mas não têm carga elétrica. Prótons e nêutrons são chamados indistintamente de nucleons. O número de nucleons A = N + Z é denominado de número de massa e Z de número atômico. Os nucleons se movem com uma velocidade média da ordem de 30.000 km.s-1, num volume obtido por 4/3.π.R3, onde R = r0A1/3 (10-13 cm) é o raio nuclear, com r0 = 1,15. A densidade nuclear tem um valor em torno de ρ = 1015 g.cm-3, com uma densidade de ocupação de 1,6.1038 nucleons.cm-3. 1.2.8. Notação química A notação utilizada para identificação de um elemento químico é do tipo XAZ onde A é o número de massa e Z o número atômico ou número de prótons. O número de nêutrons é obtido de N = A - Z. Exemplos: He42 , Pu23994 e U23592 . 1.2.9. Organização nuclear Os prótons e nêutrons se organizam em orbitais, em níveis de energia, sob a ação do campo de forças intensas e de curto alcance. Não existe correlação entre orbitais e trajetórias geométricas, mas entre orbitais e energias das partículas. A base da organização dos nucleons no espaço nuclear é o Princípio de Exclusão de Pauli. Estas forças são denominadas de forças nucleares, ou interação forte, e a energia de ligação da última partícula dentro do "poço de potencial" caracteriza a energia de ligação do núcleo. O valor médio da energia de ligação dos núcleos é cerca de 7,5 MeV, muito maior que a energia de ligação dos elétrons. Esses conceitos podem ser representados pelas Figuras 1.3 e 1.4. Figura 1.3 - Ocupação dos níveis de energia de um núcleo representado por um poço de potencial atrativo (energia negativa). 6 Figura 1.4 - Energia de ligação nuclear por partícula. Os valores mais proeminentes correspondem aos núcleos com camadas nucleares completas de prótons ou de nêutrons (números mágicos). 1.2.10. Tabela de nuclídeos Registrando num gráfico todos os elementos químicos conhecidos, estáveis e instáveis, tendo como eixo das ordenadas o número atômico Z e o das abscissas o número de nêutrons N, obtém-se a denominada Tabela de Nuclídeos. Nesta tabela, observa-se que, para os elementos de número de massa pequeno, o número de prótons é igual ou próximo do número de nêutrons. À medida que o número de massa A vai aumentando, o número de nêutrons aumenta relativamente, chegando a um excesso de quase 40% no final da tabela. Esta tabela está representada na Figura 1.5. Figura 1.5 - Tabela de Nuclídeos. 7 Seccionando-se perpendicularmente a região onde se distribuem os nuclídeos na superfície (Z,N) da Figura 1.5, tem-se uma situação mostrada na Figura 1.6. Ou seja, a superfície (N,Z) não é plana, mas apresenta um formato de um vale, onde se distribuem nuclídeos nas encostas da esquerda e da direita, e no fundo se situam os nuclídeos pertencentes à linha de estabilidade beta. Pela Figura 1.6, percebe-se que os nuclídeos da encosta da esquerda decaem para a linha de estabilidade, reduzindo o número de prótons por meio de decaimento β+ e, os da encosta da direita por decaimento β-, para reduzir o excesso de nêutrons. Figura 1.6 - Representação de um segmento transversal da região da superfície (Z,N) de distribuição dos nuclídeos, onde no eixo vertical estão representados os valores da energia de ligação dos nuclídeos. Na Figura 1.7 é apresentado um segmento da Tabela de Nuclídeos. Nela aparecem outros parâmetros nucleares, tais como, a meia-vida do nuclídeo, os tipos de radiações emitidas, a energia das radiações mais intensas, a abundância percentual de cada isótopo, e a secção de choque de reação nuclear. 1.2.11. Isótopos, isóbaros e isótonos Observando o segmento da Tabela de Nuclídeos na Fig. 1.7 percebe-se que vários elementos simples, ou seja, quimicamente puros, não são nuclearmente puros. Apresentam diferentes massas atômicas. São os denominados isótopos. São nuclídeos com o mesmo número de prótons Z, mas diferentes números de nêutrons. Por exemplo, do boro quimicamente puro, 80% é constituído de B115 e 20% de B105 . Alguns nuclídeos possuem muitos isótopos estáveis, como o estanho com 8. Além dos nuclídeos estáveis, existem os instáveis, que são radioativos, denominados de radioisótopos ou radionuclídeos. Os nuclídeos de elementos diferentes, mas que possuem a mesma massa atômica são denominados de isóbaros. É o caso do 34Cl, 34S, 34P e 34Si. Os nuclídeos que possuem o mesmo número de nêutrons são denominados de isótonos, como por exemplo, 33Cl, 32S, 31P, 30Si, com N=16. N + + + + - - - Linha de estabilidade beta Núcleos estáveis ( - ) E N ER G IA D E LI GA Ç Ã O XA Z N Y 20 A Z-1 + - X Z A Y A Z+1 N-1 Z 8 Figura 1.7 - Segmento da Tabela de Nuclídeos mostrando isótopos, isóbaros e isótonos. 1.2.12. Tabela Periódica Na história da ciência, várias propostas para classificar os elementos químicos conhecidos surgiram, em geral, acreditando haver semelhanças de comportamento nas reações químicas. A classificação mais completa e criativa foi estabelecida por Dmitri Mendeleiev, em 1869, ao mostrar que os elementos apresentavam uma periodicidade nas propriedades químicas, de acordo com o número de elétrons da última camada, coadjuvada, em alguns casos, com os da penúltima camada. Foi denominada, então, de Tabela Periódica dos elementos químicos. Nela, os elementos químicos foram dispostos em 18 colunas e 9 linhas, em ordem crescente de seus números atômicos, e contém 7 períodos: O 1o possui somente 2 elementos, o H (Z=1) e He (Z=2), com elétrons na camada 1s. O 2º possui 8 elementos, vai de Li (Z=3) até Ne (Z=10), com elétrons em 2s e 2p. O 3º possui 8 elementos, vai do Na (Z=11) até Ar (Z=18), com elétrons em 3s e 3p. O 4º com 18 elementos, vai do K (Z=19) até o Kr (Z=36), com elétrons 4s, 3d e 4p. O 5º com 18 elementos, vai do Rb (Z=37) até o Xe (Z=54), com elétrons 5s, 4d e 5p. O 6º com 32 elementos, vai do Cs (Z=55) até o Rn (Z=86), com os últimos subníveis 6s, 4f, 5d e 6p preenchidos. O 7º com 17 elementos, os actinídeos, vai do Fr (Z=87) até o Lr (Z=103), com os últimos subníveis 7s, 5f e 6d preenchidos. Os elementos dispostos na mesma coluna têm propriedades químicas similares e constituem as famílias ou grupos. Por exemplo, He, Ne, Ar, Kr, Xe e Rn constituem o grupo dos gases nobres; Li, Na, K, Rb, Cs e Fr, os metais alcalinos; F, Cl, Br, I e At, os halogênios; Be, Mg, Ca, Sr, Ba e Ra os metais alcalinos-terrosos. Na Figura 1.8 é apresentada a Tabela Periódica dos elementos químicos. 9 Atualmente existem mais 8 elementos com Z = 113 até 118, com símbolos ainda não definidos pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC), mas que em algumas tabelas são designados por: Uut, Fl, Uup, Lv, Uus e Uuo. Estes elementos são metais sintéticos obtidos por reações nucleares com íons pesados, são radioativos e os seus últimos elétrons preenchem os subníveis 5f, 6d e 7s. Além destes, existem mais 12 elementos pesados com Z = 104 até Z = 118, todos radioativos, cujas propriedades químicas e físicas ainda não estão bem definidas. Na Tabela 1.1 são apresentados os nomes, os métodos de obtenção e algumas das características dos elementos Z = 97 a 115, todos radioativos. Figura 1.8 - Tabela Periódica dos elementos químicos. 10 Tabela 1.1 - Denominação, símbolo e características dos elementos de Z = 97 a 118. (ver: IUPAC 2010, Pure Appl.Chem. v.83, pp.359-396,2011). http://www.chem.qmvl.ac.uk/iupac/ Elemento Simbolo Número Atômico Massa Atômica Método de Obtenção Configuração Eletrônica Berkélio Bk 97 247,0703 246Cm(α,pn) [Rn] 5f9 7s2 Califórnio Cf 98 251,0796 245Cm (,n) [Rn] 5f10 7s2 Eisteinio Es 99 252,083 249Cf(d,3n) [Rn] 5f11 7s2 Férmio Fm 100 257,0951 240Pu(12C,4n) [Rn] 5f12 7s2 Mendelévio Md 101 258,0984 241Am(12C,5n) [Rn] 5f13 7s2 Nobélio No 102 259,1011 244Cm (12C,4n) [Rn] 5f14 7s2 Laurêncio Lr 103 262,1098 205Tl(50Ti,2n) [Rn] 5f14 6d1 7s2 Rutherfórdio Rf 104 261,1089 242Pu(22Ne,4n) [Rn] 5f14 6d2 7s2 Dúbnio Db 105 262,1144 249Cf (15N,4n) [Rn] 5f14 6d3 7s2 Seaborgio Sg 106 263,1186 248Cf(22Ne,4n) [Rn] 5f14 6d4 7s2 Bóhrio Ns 107 262,1231 209Pb (54Cr,n) [Rn] 5f14 6d5 7s2 Hássio Hs 108 265,1305 208Pb(58Fe,n) [Rn] 5f14 6d6 7s2 Meitnério Mt 109 266,1378 209Bi(58Fe,n) [Rn] 5f14 6d7 7s2 Darmstadio Ds 110 281,162 208Pb(269Ds,n) [Rn] 5f14 6d9 7s2 Roentgenio Rg 111 280,1645 209Bi(64Ni,n) [Rn] 5f14 6d10 7s2 Copernicio Cn 112 285,174 208Pb(70Zn,n) [Rn] 5f14 6d10 7s2 Ununtrio Unt 113 283,176 284,178 [Rn] 5f14 6d10 7s2 7p1 Ununquadrio Unq 114 288,186 289,187 244Pu(48Ca,3n) [Rn] 5f14 6d10 7s2 7p2 Ununpentio Livermorio Ununseptio Ununoctio Unp Lv Uus Uuo 115 116 117 118 287,191 288,192 (293) (294) (294) [Rn] 5f14 6d10 7s2 7p3 1.2.13. Preenchimentos das camadas eletrônicas Para distribuir os elétrons nos níveis e subníveis de energia, é preciso adotar o Diagrama criado por Linus Pauling, obedecer ao Princípio de Exclusão de Pauli e a Regra de Hund. O diagrama provém da teoria quântica da matéria, na qual, a energia não se apresenta de modo contínuo, mas em pacotes discretos, em quanta. Esta teoria foi necessária para explicar, dentre outros fenômenos, os orbitais estacionários dos elétrons e nucleons atômicos e as transições com emissão de radiações com energia definida. Nesta visão do átomo, os elétrons se distribuem ao redor do núcleo, em regiões privilegiadas, denominadas camadas, sendo que em cada camada só podem habitar orbitais bem definidos pelos denominados números quânticos. Assim, cada elétron possui um conjunto de números que o identificam. Número Quântico Principal n O número quântico principal n, representa o nível principal de energia que, para os elétrons, corresponderia a “distância” deles em relação ao núcleo. Isto porque a intensidade da força de atração entre as cargas positiva (Ze) do núcleo e negativa (e) do 11 elétron, varia com o inverso do quadrado da distância (d) entre elas. Como esta força deve ser equilibrada pela força centrífuga do elétron com determinada velocidade, a distância (d) fixa o valor de sua energia cinética, no estado estacionário. Os valores de n são: 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7, e correspondem aos denominados níveis energéticos K, L, M, N, O, P e Q. Número Quântico Orbital l O número quântico orbital ou secundário l, equivale aos orbitais dos subníveis energéticos e descreve a forma dos orbitais. Para cada valor de n, l varia de 0 até n–1. Por exemplo: n = 1 l = 0 n = 2 l = 0 e 1 n = 3 l = 0, 1 e 2 Existe uma nomenclatura para estes subníveis: l = 0 subnível s l = 1 subnível p l = 2 subnível d l = 3 subnível f Como para os diversos valores de n, pode haver valores de l iguais, a notação utilizada para diferenciá-los é a seguinte: para n =1, 1s; n =2, 2s e 2p; n = 3, 3s, 3p, 3d. Número Quântico Magnético m O número quântico magnético m, indica o número de orbitais dos subníveis e a orientação em relação a uma direção estabelecida no espaço. Ele varia, em número inteiro, de (-l) até (+l), incluindo l=0. Isto significa que, para um valor do momento angular orbital l, existem (2l+1) orientações, ou “meridianos” possíveis de serem ocupados por elétrons. Por exemplo, para l=2, existem -2, -1, 0, 1 e 2. Spin O quarto número quântico é denominado de spin. Corresponde, na visão geométrica clássica, ao sentido de rotação do elétron em torno de seu próprio eixo. Constitui um momento magnético intrínseco do elétron. Pode assumir somente dois valores: + ½ e - ½, correspondentes às orientações “para cima” e “para baixo”, respectivamente. Resumindo todos estes conceitos, vê-se que n, l, e m têm variações com valores expressos por números inteiros, indicando que a energia dos elétrons se diferencia em valores inteiros, em quanta. Na Figura 1.9 é apresentado o diagrama de Linus Pauling, onde em cada célula podem ser alocados 2 elétrons, um com spin para cima e outro para baixo. O valor da energia de cada nível ou subnível é negativo, para representaruma energia de campo atrativo. Assim, quanto mais negativo, mais próximo do núcleo estará o elétron, e maior será sua energia de ligação. 12 Figura 1.9 - Diagrama de Linus Pauling para distribuição dos elétrons segundo os níveis de energia. 1.2.14. Regra de Hund Se dois orbitais de mesma energia estão disponíveis, o elétron ocupará, de preferência, o orbital vazio, ao invés de ocupar um orbital onde já existe um elétron. 1.3. TRANSIÇÕES 1.3.1. Estados excitados Quando o átomo se encontra em equilíbrio, os seus elétrons e seus nucleons se encontram em orbitais estacionários. Se partículas ou ondas eletromagnéticas forem lançadas contra ele, sob certas condições físicas, elas poderão colidir com alguns de seus elétrons ou com o seu núcleo. Devido à disposição geométrica, ao número, à carga e ao movimento, a probabilidade de colisão com os elétrons é muitas vezes superior à probabilidade de colisão com o núcleo. No choque, a radiação transfere parcial ou totalmente a sua energia que, se for superior à energia de ligação, provocará uma ionização ou uma reação nuclear, no átomo ou no núcleo, respectivamente. Quando a energia absorvida for inferior à energia de ligação, ocorrerá um deslocamento da partícula alvo, para estados disponíveis nas estruturas eletrônica ou nuclear, gerando os denominados estados excitados eletrônicos ou nucleares. 1.3.2. Transição eletrônica É possível classificar as transições eletrônicas em dois tipos. O primeiro tipo envolve as transições de baixa energia (luz) que ocorrem entre os níveis ou subníveis de energia próximos do contínuo. O segundo, envolvendo os níveis ou subníveis mais internos, originando os raios X característicos, de alta energia, conforme são ilustrados nas Figuras 1.10 e 1.11. Na Tabela 1.2 são dadas as energias e as intensidades relativas dos raios X característicos emitidos pelos elementos de número atômico de 20 a 109. 13 Figura 1.10 - Representação de uma transição eletrônica, resultando na emissão de um fóton de luz ou raio X característico. Figura 1.11 - Raios X característicos originados nas transições entre níveis e subníveis eletrônicos. 1.3.3. Transição nuclear Quando nucleons são deslocados para estados disponíveis, formando os estados excitados, no restabelecimento do equilíbrio eles emitem a energia absorvida sob a forma de radiação gama, que será descrita posteriormente. 1.3.4. Meia-vida do estado excitado O tempo de permanência da partícula no estado excitado depende das características que definem os estados inicial e final que irão participar da transição, e pode ser definido probabilisticamente em termos de meia-vida. O seu valor depende da variação do momento angular e paridade do orbital do estado excitado, energia e tipo de 14 transição eletromagnética. Em geral, seu valor é muito pequeno, variando entre 10-6 a 10- 15 segundos, principalmente para elétrons. Os estados excitados nucleares são de duração semelhante, mas alguns núcleos possuem estados excitados com meia-vida bastante longa e podem, em alguns deles, funcionar como estados isoméricos. A meia-vida do estado excitado não apresenta ligação direta com a meia-vida do núcleo. Tabela 1.2 - Energias e intensidades relativas dos raios X emitidos pelos elementos de número atômico de 20 a 109. Ref.: J.A. Bearden Rev of Modern Physics F.T. Porter, M.S. Freedman, J. Of Phys. And Chem. Reference Data 7,1276 (1978) EX: Z = 84 - 103 T.A. Carlson, C.W. Nestor, Atomic Data and Nucl. Data Tables 19, 153 (1977) EX: Z104 J.H. Scofield, Phys. Rev. A9. 1041 (1974) Ir : Z + 20 - 98 C.C. Lu, F.B. Malik, T.A. Carlson, Nucl. Phys. A 175, 289 (1975) Ir : Z99 Ex [keV] Ir* Ex [keV] Ir* Elem. K K K K 1 2 Elem. K K K K 1 2 20 Ca 21 Sc 22 Tl 23 V 24 Cr 25 Mn 26 Fe 27 Co 28 Ni 29 Cu 30 Zn 31 Ga 32 Ge 33 As 34 Se 35 Br 36 Kr 37 Rb 38 Sr 39 Y 40 Zr 41 Nb 42 Mo 43 Tc 44 Ru 45 Rh 46 Pd 47 Ag 48 Cd 49 In 50 Sn 51 Sb 52 Te 53 J 54 Xe 55 Cs 56 Ba 57 La 58 Ce 59 Pr 60 Nd 3,69 4,09 4,50 4,94 5,41 5,89 6,39 6,92 7,46 8,03 8,62 9,22 9,86 10,51 11,18 11,88 12,60 13,34 14,10 14,88 15,69 16,52 17,37 18,25 19,15 20,07 21,02 21,99 22,98 24,00 25,04 26,11 27,20 28,32 29,46 30,63 31,82 33,03 34,28 35,55 36,85 3,69 4,09 4,51 4,95 5,41 5,90 6,40 6,93 7,48 8,05 8,64 9,25 9,89 10,54 11,22 11,92 12,65 13,40 14,17 14,96 15,78 16,62 17,48 18,37 19,28 20,22 21,18 22,16 23,17 24,21 25,27 26,36 27,47 28,61 29,78 30,97 32,19 33,44 34,72 36,03 37,36 4,01 4,46 4,93 5,43 5,95 6,49 7,06 7,65 8,26 8,90 9,57 10,26 10,98 11,73 12,50 13,29 14,11 14,96 15,84 16,74 17,67 18,62 19,61 20,62 21,66 22,72 23,82 24,94 26,10 27,28 28,49 29,73 31,00 32,29 33,62 34,99 36,38 37,80 39,26 40,75 42,27 9,66 10,37 11,10 11,86 12,65 13,47 14,32 15,19 16,08 17,02 17,97 18,95 19,97 21,01 22,07 23,17 24,30 25,46 26,64 27,86 29,11 30,39 31,70 33,04 34,42 53,82 37,26 38,73 40,23 41,77 43,33 50,6 50,7 50,8 50,8 50,9 51,0 51,1 51,2 51,2 51,3 51,4 51,5 51,5 51,5 51,6 51,8 51,9 52,0 52,1 52,2 52,3 52,4 52,5 52,6 52,7 52,8 52,9 53,1 53,2 53,3 53,4 53,6 53,7 53,8 54,0 54,1 54,3 54,4 56,4 54,8 54,9 19,8 20,1 20,4 20,6 20,2 20,9 21,0 21,1 21,2 20,9 21,4 21,8 22,3 22,8 23,3 23,7 23,8 24,2 24,6 25,0 25,4 25,8 26,2 26,5 26,8 27,1 27,4 27,8 28,0 28,3 28,6 28,8 29,1 29,3 29,5 29,7 30,0 30,2 30,4 30,6 30,9 0,5 0,9 1,3 1,8 2,4 2,8 3,2 3,5 3,7 3,9 4,0 4,2 4,4 4,5 4,7 4,8 5,1 5,4 5,6 6,0 6,3 6,6 7,0 7,3 7,6 7,7 7,7 7,8 7,9 65 Tb 66 Dy 67 Hg 68 Er 69 Tm 70 Yb 71 Lu 72 Hf 73 Ta 74 W 75 Re 76 Os 77 Ir 78 Pt 79 Au 80 Hg 81 Tl 82 Pb 83 Bi 84 Po 85 At 86 Rn 87 Fr 88 Ra 89 Ac 90 Th 91 Pa 92 U 93 Np 94 Pu 95 Am 96 Cm 97 Bk 98 Cf 99 Es 100 Fm 101 Md 102 No 103 Lr 104 105 43,74 45,21 46,70 48,22 49,77 51,35 52,97 54,61 56,28 57,98 59,72 61,49 63,29 65,12 66,99 68,90 70,83 72,80 74,81 76,86 78,95 81,07 83,23 85,43 87,68 89,96 92,28 94,65 97,07 99,53 102,03 104,59 107,19 109,83 112,53 115,29 118,09 120,95 123,87 126,85 129,8844,48 46,00 47,55 49,13 50,74 52,39 54,07 55,79 57,53 59,32 61,14 63,00 64,90 66,83 68,80 70,82 72,87 74,97 77,11 79,29 81,52 83,79 86,11 88,47 90,89 93,35 95,86 98,43 101,06 103,73 106,47 109,27 112,12 115,03 118,01 121,06 124,17 127,36 130,61 133,95 137,35 50,38 52,12 53,88 55,68 57,72 59,37 61,28 63,23 65,22 67,24 69,31 71,41 73,56 75,75 77,98 80,25 82,58 84,94 87,34 89,81 92,32 94,87 97,47 100,13 102,84 105,60 108,42 111,30 114,23 117,73 120,28 123,40 126,12 129,82 133,14 136,52 139,97 143,51 147,11 150,80 154,56 51,72 53,51 55,32 57,21 59,09 60,98 62,97 64,98 67,01 69,10 71,23 73,40 75,62 77,88 80,19 82,54 84,95 87,36 89,86 92,39 94,97 97,61 100,30 103,04 105,83 108,68 111,59 114,56 117,58 120,67 123,82 127,03 130,31 133,65 133,06 140,55 144,10 147,74 151,45 155,25 159,12 55,8 56,0 56,2 56,3 56,5 56,7 56,9 57,1 57,4 57,6 57,8 58,0 58,3 58,5 58,7 59,0 59,2 59,5 59,8 60,1 60,3 60,6 60,9 61,2 61,5 61,8 62,1 62,5 62,8 63,2 63,5 63,9 64,2 64,6 65,1 65,4 65,8 66,2 66,7 67,1 67,5 31,9 32,0 32,2 32,4 32,6 32,7 32,9 33,1 33,2 33,4 33,5 33,7 33,8 34,0 34,1 34,3 34,4 34,6 34,7 34,9 35,0 35,2 35,3 35,5 35,6 35,8 35,9 36,1 36,2 36,4 36,5 36,7 36,8 38,0 37,2 37,3 37,3 37,6 37,7 37,8 38,0 8,3 8,3 8,4 8,4 8,5 8,5 8,7 8,8 9,0 9,1 9,3 9,4 9,6 9,7 9,9 10,0 10,2 10,4 10,6 10,8 11,1 11,3 11,5 11,7 11,9 12,1 12,2 12,3 12,5 12,6 12,8 12,9 13,0 13,2 13,3 13,4 13,5 13,7 13,8 13,9 14,1 15 Ex [keV] Ir* Ex [keV] Ir* Elem. K K K K 1 2 Elem. K K K K 1 2 61 Pm 62 Sm 63 Eu 64 Gd 38,17 39,52 40,90 42,31 38,72 40,12 41,54 43,00 43,83 45,41 47,04 48,70 44,94 46,58 48,26 49,96 55,1 55,3 55,4 55,6 31,1 31,3 31,5 31,7 8,0 8,1 8,1 8,1 106 107 108 109 132,94 136,09 139,30 142,58 140,80 144,37 148,01 151,75 158,37 162,30 166,31 170,42 163,04 167,08 171,21 175,43 68,0 68,4 68,9 69,4 38,1 38,2 37,3 38,5 14,2 14,3 14,5 14,6 *Ir K = 100 EX K: E ( K-LII ) K: I ( K-LII ) K: E ( K-LIII )K: I ( K-LIII ) K: E ( K-MIII ) 1: I ( K-MIII) + I ( K-MII) + I ( K-MIV+V) 1 ~0,5 < 0,05 : E ( K-NIII ) 2: I ( K-NIII) + I ( K-NII) + I ( K-NIV+V) + I ( K-O + ...) 1 ~0,5 < 0,05 ~0,2 - 0,4 (Z ~50 - 109) 1.4. ORIGEM DA RADIAÇÃO As radiações são produzidas por processos de ajustes que ocorrem no núcleo ou nas camadas eletrônicas, ou pela interação de outras radiações ou partículas com o núcleo ou com o átomo. Exemplos: radiação beta e radiação gama (ajuste no núcleo), raios X característico (ajuste na estrutura eletrônica), raios X de freamento (interação de partículas carregadas com o núcleo) e raios delta (interação de partículas ou radiação com elétrons das camadas eletrônicas com alta transferência de energia). 1.4.1. Fótons A radiação eletromagnética é constituída por vibração simultânea de campos magnético e elétrico, perpendiculares entre si, originados durante a transição, pela movimentação da carga e momento magnético da partícula, quando modifica seu estado de energia, caracterizado pelo momento angular, spin e paridade. As radiações eletromagnéticas ionizantes de interesse são os raios X e a radiação gama. Para compreender como surge uma onda eletromagnética a partir da transição entre dois estados de uma partícula ligada num orbital eletrônico ou nuclear, uma explicação detalhada será dada a seguir. Pelo Eletromagnetismo, sabe-se que quando uma carga elétrica se move num orbital fechado, ela gera um campo magnético �⃗⃗� , perpendicular ao seu plano de rotação. Da mesma forma, uma carga magnética, gera um campo elétrico �⃗⃗� . Quando uma partícula, que possui cargas elétrica e magnética (spin), faz uma transição de estado, a sua energia varia de um valor inicial (Ei) para um valor final (Ef) ou seja, libera uma energia E = Ei - Ef. Como os estados inicial (i) e final (f) possuem frequências de rotação de valores (i) e (f), à transição estará associada a uma diferença de frequências = i - f, que constitui a frequência da transição de energia (E), expressa quanticamente por E = h, onde h é a constante de Planck. Na transição, houve simultaneamente uma mudança nos valores dos campos elétrico (�⃗� ) e magnético (�⃗� ) associados aos estados inicial e final da partícula. Isto significa que as diferenças de valores de campos (∆�⃗� ) e (∆�⃗� ) serão simultaneamente 16 carregadas pelas diferenças de energia (E) e frequência () da transição, ou seja, por uma onda eletromagnética ou fóton (E=h). 1.4.2. Raios X Raio X é a denominação dada à radiação eletromagnética de alta energia que tem origem na eletrosfera ou no freamento de partículas carregadas no campo eletromagnético do núcleo atômico ou dos elétrons. 1.5. RADIOATIVIDADE 1.5.1. Constante de decaimento λ Os átomos instáveis, de mesma espécie e contidos numa amostra, não realizam transformações para se estabilizarem, ao mesmo tempo. Eles as fazem de modo aleatório. Não se pode prever o momento em que um determinado núcleo irá se transformar por decaimento. Entretanto, para uma quantidade grande de átomos, o número de transformações por segundo é proporcional ao número de átomos que estão por se transformar naquele instante. Isto significa que a probabilidade de decaimento por átomo por segundo deve ser constante, independente de quanto tempo ele tem de existência. Esta probabilidade de decaimento por átomo por segundo é denominada de Constante de Decaimento λ e é característica de cada radionuclídeo. 1.5.2. Atividade de uma amostra, A A taxa de mudanças dos átomos instáveis em um determinado instante é denominada de Atividade. Assim, chamando de n(t) o número de átomos existentes numa amostra, no instante t, a atividade A(t), será expressa por: )( )( )( tn dt tdn tA Nota: O número n(t) de átomos radioativos é obtido em função da massa do isótopo contido na amostra, do número de Avogadro NA, da massa atômica A e do percentual de átomos radioativos na massa do isótopo. 1.5.3. Atividade de uma amostra em um dado instante Integrando a equação diferencial e chamando de n0 o número de átomos radioativos existentesna amostra no instante t = 0: tentn 0)( A atividade da amostra pode ser obtida pela expressão: tentntA 0)()( A atividade da amostra no instante zero, A0, é expressa por: 17 00 nA e, portanto: teAtA 0)( O número inicial n0 de átomos de massa atômica A numa amostra de massa m (em g) é obtido pela expressão: 𝑛0 = 𝑚.𝑁𝐴 𝐴 onde NA = número de Avogadro= 6,02 .10 23 átomos em A gramas do radionuclídeo. 1.5.4. Decaimento da atividade com o tempo Num núcleo radioativo existem vários estados excitados. A maneira e o tempo com que cada estado se transforma num estado mais estável, depende de suas características físicas como: energia, momento angular, paridade, spin, etc. Cada estado tem duração média e transição próprias. Globalmente, o núcleo se comporta como um todo, estabilizando-se com uma probabilidade constante, característica do nuclídeo, que é a constante de decaimento λ. A atividade de uma amostra depende do valor inicial da atividade no instante zero e é uma função exponencial decrescente do tempo. A Figura 1.12 mostra a função de decaimento e os parâmetros principais envolvidos no processo. Figura 1.12 - Curva representativa do decaimento de um radiosótopo em função do tempo e seus principais parâmetros. 1.5.5. Unidades de atividade - o becquerel e o curie A atividade de uma fonte é medida em unidades de transformações por segundo, denominada becquerel (Bq) = s-1 no Sistema Internacional. n =número de átomos radioativos no instante (t) n0 = número de átomos radioativos no instante (t=0) = constante de decaimento T1/2 = meia-vida = vida-média 18 A unidade antiga, ainda em uso em equipamentos antigos ou produzidos em alguns países (como os EUA.) é o curie (Ci). Por sua definição inicial, equivale ao número de transformações por segundo em um grama de 226Ra, que é de 3,7.1010 transformações por segundo. Portanto, 1 Ci é equivalente a 3,7.1010.Bq. A título de informação, nos rótulos das garrafas de água mineral, a radioatividade é expressa numa unidade denominada de mache. O mache equivale a uma concentração de 12,802 Bq L-1 associada, em geral, ao 226Ra. 1.5.6. Múltiplos e submúltiplos das unidades de atividade No registro do valor da atividade de uma amostra são utilizados, frequentemente, múltiplos ou submúltiplos destas unidades. Assim: Múltiplos e Símbolos Submúltiplos e Símbolos Quilo k 103 kBq kCi Mili m 10-3 mBq mCi Mega M 106 MBq MCi Micro μ 10-6 μBq μCi Giga G 109 GBq GCi Nano n 10-9 nBq nCi Tera T 1012 TBq TCi Pico p 10-12 pBq pCi Peta P 1015 PBq PCi Femto f 10-15 fBq fCi Como as unidades becquerel e curie tem valores muito diferentes, em termos de ordem de grandeza, alguns múltiplos do Ci não são utilizados, como GCi, TCi e PCi, e da mesma forma, os valores abaixo de nBq. 1.5.7. Meia-vida do radioisótopo T1/2 O intervalo de tempo, contado a partir de um certo instante, necessário para que metade dos átomos radioativos decaiam é denominado de meia-vida, e pode ser visualizado na Figura 1.12. A relação entre a meia-vida e a constante de decaimento λ é expressa por: 693,02 2/1 n T A meia-vida pode ter valores muito pequenos como os do 20F e 28Al, com 11 s e 2,24 min respectivamente, grandes como 90Sr (28,5 a), 60Co (5,6 a) e 137Cs (30 a), e muito grandes como os do 232Th (1,405.1010 a) e 238U (4,46.109 a). 1.5.8. Vida-média do radioisótopo, τ O intervalo de tempo necessário para que a atividade de uma amostra decresça de um fator 1/e, onde e é a base do logaritmo neperiano, é denominado de vida-média e vale: 𝜏 = 1 𝜆 = 𝑇1/2 0,693 19 1.6. RADIAÇÕES NUCLEARES Radiação nuclear é o nome dado às partículas ou ondas eletromagnéticas emitidas pelo núcleo durante o processo de restruturação interna, para atingir a estabilidade. Devido à intensidade das forças atuantes dentro do núcleo atômico, as radiações nucleares são altamente energéticas quando comparadas com as radiações emitidas pelas camadas eletrônicas. É bom salientar que as radiações não são produtos da desintegração nuclear, como se os núcleos instáveis estivessem se quebrando ou desmanchando. Ao contrário, elas são indicadores do resultado das transformações do núcleo instável, na busca de estados de maior estabilidade e perfeição, ou seja, são produtos da otimização de sua estrutura e dinâmica. 1.6.1. Unidades de energia de radiação A energia da radiação e das grandezas ligadas ao átomo e ao núcleo é geralmente expressa em elétron-volt (eV). Um eV é a energia cinética adquirida por um elétron ao ser acelerado por uma diferença de potencial elétrica de 1 volt. 1 MeV = 106 eV = 1,6.10-13 Joule. 1.6.2. Radiação β Radiação beta (β) é o termo usado para descrever elétrons de origem nuclear, carregados positiva (β+) - pósitrons - ou negativamente (β-) - negatrons. Sua emissão constitui um processo comum em núcleos de massa pequena ou intermediária, que possuem excesso de prótons ou de nêutrons em relação à estrutura estável correspondente. A Figura 1.13 ilustra o processo de decaimento beta. Figura 1.13 - Emissão β. 20 1.6.2.1. Emissão β- Quando um núcleo tem excesso de nêutrons em seu interior e, portanto, falta de prótons, o mecanismo de compensação ocorre através da transformação de um nêutron em um próton mais um elétron, que é emitido no processo de decaimento. Nesse caso, o núcleo inicial transforma-se de uma configuração XAZ em XAZ 1 uma vez que a única alteração é o aumento de uma carga positiva no núcleo. 1.6.2.2. O neutrino e o anti-neutrino A necessidade de conservação de energia e de paridade no sistema durante o processo de decaimento beta levou Pauli à formulação da hipótese da existência de uma partícula, que dividiria com o elétron emitido, a distribuição da energia liberada pelo núcleo no processo de decaimento. A teoria foi posteriormente confirmada, sendo verificada a presença do neutrino, na emissão β+ e do anti-neutrino, , na emissão β-. O neutrino é uma partícula sem carga, de massa muito pequena em relação ao elétron, sendo, por esse motivo, de difícil detecção. 1.6.2.3. Equação da transformação do nêutron na emissão β - A transformação do nêutron em um próton pelo processo da emissão β- pode ser representada por: epn 0101 A energia cinética resultante da diferença de energia entre o estado inicial do núcleo XAZ e o estado do núcleo resultante YAZ 1 é distribuída entre o elétron e o anti- neutrino. Após o processo pode haver ainda excesso de energia, que é emitido na forma de radiação gama. 1.6.2.4. Emissão β + A emissão de radiação tipo β+ provém da transformação de um próton em um nêutron, assim simbolizada: enp 0011 O núcleo inicial, XAZ , após a transformação do próton, resulta em YAZ 1 . O pósitron tem as mesmas propriedades de interação que o elétron negativo, somente que, após transferir sua energia cinética adicional ao meio material de interação, ele captura um elétron negativo, forma o positrônio, que posteriormente se aniquila, gerando duas radiações gama de energia 0,511 MeV cada, emitidas em sentidos contrários. 1.6.2.5. Características da emissão beta Nas transições beta, que abrangem a emissão 𝛽−, 𝛽+e captura eletrônica (EC), ocorrem mudanças de umestado do núcleo-pai para um ou mais estados do núcleo-filho. 21 Tais estados são caracterizados por seus parâmetros como: energia, momento angular total e paridade. Assim, as transições carregam diferenças de energia, momento angular e paridade. a) Distribuição de energia na emissão β A energia da transição é bem definida, mas como ela é repartida entre elétron e o neutrino, a energia da radiação beta detectada terá um valor variando de 0 até um valor máximo, denominado de Emax. Assim, o espectro da radiação beta detectada será contínuo, iniciando com valor 0 e terminando em Emax como é mostrado na Figura 1.14. 36 Ar Figura 1.14 - Espectro de distribuição em energia de um processo de emissão β. O espectro β+ tem forma semelhante à do espectro β-, porém um pouco distorcido para a direita, devido à repulsão da carga elétrica positiva concentrada no núcleo. O espectro β - detectado, difere um pouco do emitido, devido à atração elétrica do núcleo e repulsão dos elétrons atômicos, que o distorce para a esquerda, no sentido da região de baixa energia. A energia de radiação beta é normalmente representada por seu valor máximo, embora uma melhor caracterização seja dada pelo seu valor médio e pela moda da distribuição. b) Paridade da transição beta A paridade da transição beta é obtida pelo produto das paridades dos estados inicial do núcleo-pai e final do núcleo filho, podendo ser positiva ou negativa, ou seja, trocar ou não de paridade. A paridade de um estado de uma partícula está associada ao formato de sua descrição pela função matemática que o descreve, denominada de função de onda. Se, na sua representação gráfica, ela seccionar o eixo dos X um número par de vezes, ela possui a paridade par ou positiva. Se seccionar um número ímpar, paridade ímpar ou negativa. c) Classificação das transições beta Conforme os valores do momento angular e da paridade associados à transição beta, as transições beta são denominadas de Permitidas e Proibidas. 22 Por exemplo, as transições com diferença de momento angular (J = 0 ou 1) e que não mudam a paridade dos estados inicial do núcleo-pai e final do núcleo-filho, são denominadas de Permitidas. As transições com valores de J = 1 ou 2 e que mudam a paridade, são denominadas de 1ª proibida ou 1ª proibida única. As com valores de J=2,3 que não trocam a paridade são denominadas de 2ª proibida e 2ª roibida única, e assim por diante. (ver: E. de Almeida e L. Tauhata, Física Nuclear, Ed. Guanabara 2 - 1981). As transições permitidas têm maior probabilidade de emissão que as proibidas. 1.6.2.6. Emissão de mais de uma radiação beta em um decaimento No processo de decaimento, a busca do estado fundamental pode ocorrer por meio de processos alternativos, com probabilidades de ocorrência de acordo com o grau de facilidade ou de dificuldade para realizar a transformação. A probabilidade de transição beta depende da diferença de energia e das características físicas (números quânticos) entre os estados inicial e final. Para alguns nuclídeos é possível ocorrer a transição beta diretamente para o estado fundamental do núcleo-filho. São os denominados emissores beta puros. Na maioria dos casos, a transição beta gera o núcleo-filho em estado excitado e o estado fundamental é atingido por meio de transições gama, conforme é ilustrado na figura 1.15. O espectro beta observado na medição de uma amostra constitui a soma dos espectros das diversas transições beta ocorridas e a sua energia máxima corresponde à da transição de maior Emax. Figura 1.15 - Esquema de decaimento para caminhos alternativos de decaimento β. 1.6.2.7. Emissores β puros Na maior parte dos casos, a emissão β ocorre deixando um excesso de energia no núcleo-filho, que então, emite radiação gama para descartar este excesso. Em alguns casos a transição β é suficiente para o núcleo alcançar o estado de energia fundamental. Nesses 23 casos ocorre somente a emissão β e o nuclídeo emissor é denominado de emissor β puro. A tabela 1.3 traz exemplos de alguns desses nuclídeos. Tabela 1.3 - Emissores beta puros. Nuclídeo Meia-vida Energia máxima (MeV) 3H 14C 32P 33P 35S 36Cl 45Ca 63Ni 90Sr 99Tc 147Pm 204Tl (12,312 ± 0,025) a (5.700 ± 30) a (14,284 ± 0,036) d (25,383 ± 0,040) d (87,25 ± 0,15) d (302 ± 4)103 a (162,64 ± 0,11) d (98,7 ± 0,24) a (28,80 ± 0,07) a (211,5 ± 0,11)103 a (2,6234 ± 0,0004) a (3,788 ± 0,015) a (18,564 ± 0,003) (156,476 ± 0,004) (1710,66 ± 0,21) (248,5 ± 0,11) (167,33 ± 0,030) (709,53 ± 0,05) (258 ± 0,7) (66,980 ± 0,015) (545,9 ± 0,14) (293,8 ± 0,14) (224,1 ± 0,3) (763,7 ± 0,2) 1.6.2.8. Captura eletrônica, EC Um processo que geralmente pode ocorrer junto com o decaimento β é o de captura eletrônica. Em alguns núcleos, a transformação do próton em nêutron ao invés de se realizar por emissão de um pósitron, ela se processa pela neutralização de sua carga pela captura de um elétron orbital das camadas mais próximas, assim representada (ver Figura 1.16): nep 0101 Para núcleos de número atômico elevado, este tipo de transformação é bastante provável e compete com o processo de emissão β+. Nesse caso não ocorre emissão de radiação nuclear, exceto a do neutrino. No entanto, a captura do elétron da camada interna da eletrosfera, cria uma vacância que, ao ser preenchida, provoca a emissão de raios X característicos. Figura 1.16 - Representação do processo de captura eletrônica e da emissão de raio X característico. 24 1.6.3. Radiação α Quando o número de prótons e nêutrons é elevado, o núcleo pode se tornar instável devido à repulsão elétrica entre os prótons, que pode superar a força nuclear atrativa, de curto alcance, da ordem do diâmetro nuclear. Nesses casos pode ocorrer a emissão pelo núcleo de partículas constituídas de 2 prótons e 2 nêutrons (núcleo de 4He), que permite o descarte de 2 cargas elétricas positivas (2 prótons) e 2 nêutrons, num total de 4 nucleons (ver Figura 1.17), e grande quantidade de energia. Em geral os núcleos alfa-emissores têm número atômico elevado e, para alguns deles, a emissão pode ocorrer espontaneamente. Figura 1.17 - Representação da emissão de uma partícula α por um núcleo. 1.6.3.1. Equação da transformação no decaimento alfa As modificações nucleares após um decaimento alfa podem ser descritas como: energiaHeYX AZ A Z 4 2 4 2 Assim, por exemplo, MeVHeUPu 2,542 235 92 239 94 A explicação da emissão de partículas alfa pelo núcleo se baseia no valor do coeficiente de transmissão de uma partícula alfa, através de uma barreira de potencial coulombiano com energia maior que a da partícula, num fenômeno conhecido como Efeito Túnel. Este coeficiente é determinado utilizando-se o método WKB (G. Wentzel, H.A. Kramers e L. Brillouin) com um formalismo tipicamente quântico. (ver: A. Messiah, Quantum Mechanics, Vol.2 - North Holland, 1974; E. de Almeida e L. Tauhata, Física Nuclear, Ed. Guanabara Dois, 1981 - Rio). A partícula alfa pode ser emitida tanto dos estados fundamental ou excitado do núcleo-pai, gerando o núcleo-filho em diversos estados excitados, que decaem por emissão gama para o seu estado fundamental. Isto gera também radiações alfa de várias energias. 25 1.6.3.2. Energia da radiação α A emissão α representa transições com energias bem definidas e, portanto, com valores discretos (não contínuo).De modo semelhante ao decaimento beta, o processo de decaimento pode ocorrer por caminhos alternativos, emitindo partículas alfas com diferentes energias. O espectro da contagem das partículas em função da energia apresenta, então, vários picos, cada um correspondendo a uma transição alfa. Na figura 1.18, é apresentado o espectro das radiações alfa emitido pelo 241Am e obtido por um detector de barreira de superfície. Sendo a energia de ligação da partícula α extremamente alta (28 MeV) quando comparada à dos nucleons (6 a 8 MeV) na maioria dos núcleos, pode-se entender a razão pela qual o núcleo excitado, com A > 150 não emite separadamente prótons e nêutrons por emissão espontânea. Figura 1.18 - Espectro das radiações alfa, com energias entre 5,389 MeV e 5,545 MeV, emitidas pelo 241Am, e obtido com detector de barreira se superfície. Como a maior parte das partículas α são emitidas com energia entre 3 e 7 MeV, a sua velocidade é da ordem de um décimo da velocidade da luz. Obs.: a energia da partícula α chega a 11,65 MeV no 212Po. Na Tabela 1.4 estão relacionadas as energias das radiações alfa emitidas por alguns radionuclídeos, muito deles escolhidos como padrões para calibração de sistemas de detecção. 26 Tabela 1.4 - Radionuclídeos alfa emissores, com energias bem conhecidas, utilizados como padrões para calibração de detectores. (ver: www.nucleide.org/DDEP_WG/DDEPdata.htm) Fonte Meia-vida Energia (keV) Intensidade Relativa (%) 241Am 432,6 ± 0,6 a 5485,56 ± 0,12 5442,86 ± 0,12 0,8445 ± 0,0010 0,1323 ± 0,0010 242Cm 162,86 ± 0,08 d 6112,72 ± 0,08 6069,37 ± 0,09 0,7406 ± 0,0007 0,2594 ± 0,0007 210Po 138,3763 ± 0,0047 d 5304,33 ± 0,07 0,9999876 ± 0,0000004 239Pu (24100 ± 11) a 5156,59 ± 0,14 5143,82 ± 0,21 5105,81 ± 0,21 0,7079 ± 0,0010 0,1714 ± 0,0004 0,1187 ± 0,0003 235U (704 ± 1)106 a 4397,8 ± 1,3 4366,1 ± 2,0 4596,4 ± 1,3 4556,0 ± 0,4 4322 ± 4 4414,9 ± 0,5 0,5719 ± 0,0020 0,1880 ± 0,0013 0,0474 ± 0,0006 0,0379 ± 0,0006 0,0333 ± 0,0006 0,0301 ± 0,0016 238U (4,468 ± 0,005)109 a 4198 ± 3 4151 ± 5 0,7754 ± 0,0050 0,2233 ± 0,0050 232Th (14,02 ± 0,06)109 a 4011,2 ± 1,2 3948,5 ± 1,4 0,789 ± 0,013 0,210 ± 0,013 1.6.4. Emissão gama Quando um núcleo decai por emissão de radiação alfa ou beta, geralmente o núcleo residual tem seus nucleons fora da configuração de equilíbrio, ou seja, estão alocados em estados excitados. Assim para atingir o estado fundamental, emitem a energia excedente sob a forma de radiação eletromagnética, denominada radiação gama (γ), conforme é ilustrado na Figura 1.19. Figura 1.19 - Representação da emissão da radiação gama pelo núcleo. 27 1.6.4.1. Características da emissão gama a) Energia da Radiação Gama A energia da radiação gama é bem definida e depende somente dos valores inicial e final de energia dos orbitais envolvidos na transição, ou seja: hEEE fi onde h é a constante de Planck (6,6252.10-34 J.s) e é a frequência da radiação. Assim, por exemplo, as energias das radiações gama emitidas pelo 60Ni, formado pelo decaimento beta do 60Co, são: MeVE 17321,133250,150571,21 MeVE 33250,1033250,12 b) Paridade da transição A paridade de uma transição gama é definida pelo produto das paridades dos estados nucleares, inicial e final, podendo ser positiva (+) ou negativa (-). A paridade de um estado depende do seu momento angular orbital (l), ou seja, 𝜋 = (−1)𝑙. c) Classificação das transições gama A diferença entre os momentos angulares totais dos estados, inicial e final, de um nucleon, 𝑙 = 𝑗𝑖 − 𝑗𝑓, é denominada de multipolaridade da transição. Para valores de l = 0, 1, 2, 3, 4… as transições gama são denominadas de monopolo, dipolo, quadrupolo, octupolo, hexadecapolo, …. Se a paridade da transição puder ser expressa por 𝜋 = (−1)𝑙 , a transição é classificada como sendo do tipo elétrica E, (Dipolo elétrica=E1, Quadrupolo elétrica E2, Octupolo Elétrica E3…), se for expressa por 𝜋 = (−1)𝑙+1, será classificada como do tipo magnética M, (Dipolo magnética=M1, Quadrupolo magnética=M2, Octupolo magnética=M3…). Em geral, as transições elétricas são mais intensas que as correspondentes magnéticas de mesma multipolaridade. Além das transições gama normais, cujas probabilidades de ocorrência podem ser estimadas pelos modelos de Partícula Simples e de Camadas, existem as transições gama coletivas, oriundas das vibrações ou rotações coletivas nucleares. Essas transições têm intensidades muito maiores que as transições normais e suas probabilidades de ocorrência são previstas pelos Modelos Nucleares Coletivos. (ver: J.M. Eisenberg e W. Greiner, Nuclear Models, Vol. 1 de Nuclear Theory, North Holland Publishing Company, Amsterdam-London, 1970.) 1.6.4.2. Intensidade relativa de emissão Iγ (branching ratio) Um estado excitado, conforme sua energia, momento angular e paridade, pode realizar uma ou mais transições para os estados excitados de menor energia, ou para o estado fundamental. 28 Quanto mais semelhantes as características dos estados envolvidos, mais provável será a transição. Como a soma das probabilidades de transição é 1, o percentual de emissão de cada radiação gama é diretamente proporcional à probabilidade de transição envolvida. Assim, por exemplo, para a transição de 1,17321 MeV do 60Ni, a intensidade relativa será: %)88,99(9988,000,19988,011 III Para a transição de 1,33250 MeV será: 99,88% + 0,12% = 100%. Para a transição de 2,1508 MeV o valor (desprezível) será = 0,0081% 1.6.4.3. Valores de referência para as energias das radiações γ Na Tabela 1.5 são apresentados os principais radionuclídeos, cujas energias e intensidades relativas das radiações gama são bem estabelecidas e, assim, muitas vezes utilizados como fontes de calibração de detectores e obtenção de suas curvas de eficiência de detecção. Na Tabela 1.5, Iabs(%) é o percentual de decaimento absoluto para cada radiação gama, e o termo entre parênteses é o seu desvio padrão. Figura 1.20 - Espectro das radiações gama do 60Co obtido com o detector de germânio puro. 1332 keV 1173 keV 29 Tabela 1.5 - Valores padrões recomendados para radiações gama de alguns radionuclídeos (Marie-Martine Bé, Valery P. Chechev - Nuclear Intr. Meth., A, 728 (2013) p. 157-1712). Nuclídeo T1/2 Eγ (keV) Iabs (%) Nuclídeo T1/2 Eγ (keV) Iabs (%) 7Be 22Na 24Na 40K 46Sc 51Cr 54Mn 59Fe 56Co 57Co 60Co 65Zn 88Y 95Zr 99Mo (53,22 ± 0,06) d (2,6029 ± 0,0008) a (14,9574 ± 0,0020) h (1,2504 ± 0,003).109 a (83,788 ± 0,022) d (27,703 ± 0,003) d (312,13 ± 0,03) d (44,495 ± 0,008) d (77,236 ± 0,026) d (271,80 ± 0,05) d (5,2711 ± 0,0008) a (244,01 ± 0,09) d (106,626 ± 0,021) d (64,032 ± 0,006) d (2,7479 ± 0,0006) d 477,6035(20) 511,00 1.274,547(7) 1.368,626(5) 2.754,00(11) 1.460,822(6) 889,271(2) 1.120,537(3) 320,0824(4)834,838 192,349(5) 1.099,245(3) 1.291,590(6) 511,00 846,7638(19) 977,363(4) 1.037,8333(24) 1.175,0878(22) 1.238,2736(22) 1.360,196(4) 1.771,327(3) 2.015,176(5) 2.034,752(5) 2.598,438(4) 3.009,559(4) 3.201,930(11 3.253,402(5) 3.272,978(6) 14,41295(31) 122,06065(12) 136,47356(29) 1.173,228(3) 1.332,492(4) 511,00 1.115,539(2) 898,036(4) 1.836,052(13 724,193(3) 756,729(12) 40,58323(17) 140,511(1) 181,068(8) 366,421(15) 739,500(17) 777,921(20) 10,44(4) 180,7((13) 99,9935(5) 99,872(8) 10,55(11) 99,9833(5) 99,986(36) 9,87(3) 99,9746(11) 2,918(29) 56,59(21) 43,21(25) 39,21(22) 99,9399(23) 1,422(7) 14,03(5) 2,249(9) 66,41(16) 4,80(13) 15,45(4) 3,017(14) 7,741(13) 16,96(4) 1,038(19) 3,203(13) 7,87(3) 1,855(9) 9,15(17) 85,51(6) 10,71(15) 99,85(3) 99,9826(6) 2,842(13) 50,22(11) 93,90(23) 99,32(3) 44,27(22) 54,38(22) 1,022(27) 89,61(17 6,01(11) 1,194(23) 12,12(15) 4,28(8) 99mTc 108Ag 108mAg 110mAg 123I 125I 131I 124Sb 134Cs 137Cs 144Ce (6,0067 ± 0,0010) h (2,382 ± 0,011) min (439 ± 9) a (249,78 ± 0,2) d (13,2234 ± 0,0037) h (59,388 ± 0,028) d (8,0233 ± 0,001) d (60,208 ± 0,011) d (2,0644 ± 0,0014) a (30,05 ± 0,08) a (284,91 ± 0,05) d 140,511(1) 632,98(5) 79,131(3) 433,938(5) 614,276(4) 722,907(10) 446,812(3) 620,3553(17) 657,7600(11) 677,6217(12) 687,0091(18) 706,6760(15) 744,2755(18) 763,9424(17) 818,0244(18) 884,6781(13) 937,485(3) 1.384,2931(20) 1.475,7792(23) 1.505,028(2) 1.562,2940(18) 158,97(5) 528,96(5) 35,44925 80,1850(19) 284,305(5) 364,489(5) 636,989(4) 722,911(5) 602,7260(23) 645,8520(19) 709,33(2) 713,776(4) 722,782(3) 968,195(4) 1.045,125(4) 1.325,504(4) 1.355,20(2) 1.368,157(5) 1.436,554(7) 1.690,971(4) 2.090,930(7) 475,365(7) 563,246(3) 569,330(2) 604,720(3) 795,86(1) 801,950(6) 1.167,967(4) 1.365,194(4) 661,657(3) 80,120(5) 133,515(2) 88,5(2) 88,5(2) 6,9(5) 90,1(6) 90,5(16) 90.8(16) 3,65(5) 2,72(8) 94.38(8) 10,56(6) 6,45(3) 16,48(8) 4,71(3) 22,31(9) 7,33(4) 74,0(12) 34,51(27) 24,7(5) 4,03(5) 13,16(16) 1,21(3) 83,31(20 1,25(3) 6,63(6) 2,607(27) 6,06(6) 81,2(8) 7,26(8) 1,96(20) 97,775(20) 7,442(15) 1,363(5) 2,273(7) 10,708(22) 1,887(10) 1,852(14) 1,587(7) 1,0412(38) 2,620(8) 1,234(8) 47,46(19) 5,493(24) 1,479(7) 8,342(15) 15,368(21) 97,63(8) 85,47(9) 8,694(16) 1,791(5) 3,019(8) 84,99(20) 1,36(6) 11,1(1) 30 Nuclídeo T1/2 Eγ (keV) Iabs (%) Nuclídeo T1/2 Eγ (keV) Iabs (%) 152Eu 170Tm 192Ir (13,522 ± 0,016) a (127,8 ± 0,6) d (73,827 ± 0,013) d 121,7817(3) 244,6974(8) 344,2785(12) 411,1165(12) 443,965(3) 778,9045(24) 867,380(3) 964,079(18) 1.085,837(10 1.089,737(5) 1.112,076(3) 1.212,948(11 1.299,142(8) 1.408,13(3) 84,2547(8) 205,79430(9) 295,95650(15 308,45507(17) 316,50618(17) 468,0688(3) 484,5751(4) 588,5810(7) 604,41105(25) 612,4621(3) 28,37 7,51 26,58 2,234 2,80 1,70 12,96 4,21 14,62 10,16 1,710 13,56 1,397 1,626 20,85 2,48(9) 3,34(4) 28,72(14) 29,68(15) 82,75(21) 47,81(24) 3,189(24) 4,517(22) 8,20(4) 5,34(8) 182Ta 198Au 203Hg 207Bi 226Ra 241Am (114,61 ± 0,13) d (2,6944 ± 0,0008) d (46,594 ± 0,012) d (32,9 ± 1,4) a (1600 ± 7) a (432,6 ± 0,6) a 65,72215(15) 67,7497(1) 84,68024(26) 100,10595(7) 152,42991(26 156,3864(3) 179,39381(25 198,35187(29 229,3207(6) 264,0740(3) 1001,6856(12 1.121,290(3) 1.189,040(3) 1.221,395(3) 1.231,004(3) 1257,407(3) 1289,145(3) 411,80205(8) 279,1952(10) 569,698(2) 1.063,656(3) 1.770,228(9) 186,211(13) 26,3446(2) 59,5409(1) 46,31 14,23 6,95 3,09 3,64 35,30 16,44 27,17 11,58 95,54(7) 81,61(5) 97,7(3) 74,58(22 6,871(26 3,555(19 2,31(8) 35,92(17 1.6.5. Intensidade relativa das radiações e atividade total Nas transformações que ocorrem dentro do núcleo, para se atingir uma configuração mais estável ou organizada, radiações sob a forma de partículas e ondas eletromagnéticas são emitidas, com intensidades que dependem de suas probabilidades de emissão. Se os valores destas probabilidades de emissão são conhecidos, é possível determinar a atividade total da amostra medindo-se a intensidade de emissão de somente uma única radiação. Assim, por exemplo, no esquema de decaimento mostrado na Figura 1.21, o radionuclídeo X decai por emissão beta com as probabilidades: p1 = 20% para o estado excitado de energia E1 p2 = 30% para o estado excitado de energia E2 p3 = 50% para o estado excitado de energia E0 Os estados excitados de energias E1 e E2 decaem para o estado fundamental emitindo 3 radiações gama, γ1, γ2 e γ3, conforme mostra a Figura 1.22. As probabilidades de desexcitação do estado E1 são de 80% para γ1 e 20% para γ2. A probabilidade de desexcitação do estado E2 é de 100% para E0, com γ3. 31 Figura 1.21 - Esquema de decaimento do radionuclídeo X, indicando os valores das probabilidades de emissão das radiações beta e gama. Assim, a intensidade relativa da radiação γ3 é obtida por, 46,0)00,130,0()80,020,0()()( 22113 ppppI Desta forma, o número de radiações γ3 emitidas, representa 46% das radiações resultantes da atividade total de X na amostra. Isto significa que, de 100 transformações nucleares em X, são emitidas 46 radiações γ3. Se ε3 for o valor da eficiência do detector para a energia da radiação γ3, e se a amostra estiver sendo contada durante um intervalo de tempo Δt, a atividade de X na amostra será: )/( 33 tIcpsA 1.6.6. Atividade e decaimento de uma mistura de radionuclídeos Uma mistura de radionuclídeos com atividades A1, A2, A3, ... , An com respectivas constantes de decaimento λ1, λ2, λ3, ... , λn terá como atividade total AT, num certo instante t0: n i iT AA 1 Após o tempo t, a atividade da mistura será: tin i iT eAA 1 32 1.6.7. Esquema de decaimento de um radionuclídeo A representação gráfica de todas as transições e estados excitados do núcleo, com os valores dos parâmetros que os caracterizam, constitui o Esquema de Decaimento do Radionuclídeo. A Figura 1.23 mostra o esquema de decaimento do 60Co, onde estão definidos os valores da meia-vida do 60Co, as energias dos estados excitados, as transições beta, as transições gama, as meias-vidas dos estados excitados e as intensidades relativas de cada radiação emitida. É bom observar que, convencionalmente, as transições beta são associadas ao núcleo-pai, isto é, se emitidas pelo 60Co recebem a denominação usual de radiações beta do 60Co. Já as transições gama provenientes das transições do núcleo-filho, por exemplo o 60Ni, recebem a denominação de radiações gama do núcleo-pai, ou seja, do 60Co. Figura 1.22 - Esquema de decaimento do 60Co. 1.7. INTERAÇÕES EM PROCESSOS DE DECAIMENTO 1.7.1. Raios X característicos Quando ocorre a captura eletrônica (EC) ou outro processo que retira elétrons da eletrosfera do átomo, a vacância originada pelo elétron é imediatamente preenchida por algum elétron de orbitais superiores. Ao passar de um estado menos ligado para outro mais ligado (por estar mais interno na estrutura eletrônica), o excesso de energia do elétron é liberado por meio de uma radiação eletromagnética, cuja energia é igual à diferença de energia entre o estado inicial e o final. A denominação “característico” se deve ao fato dos fótons emitidos, por transição, serem monoenergéticos e revelarem detalhes da estrutura eletrônica do elemento químico e, assim, sua energia e intensidade relativa permitem a identificação do elemento de origem. Os raios X característicos são, portanto dependentes dos níveis de energia da eletrosfera e, dessa forma, seu espectro de distribuição em energia é discreto. Como a emissão de raios X característicos é um fenômeno que ocorre com energia da ordem da energia de ligação dos diversos níveis da eletrosfera, as energias de emissão dos raios X característicos variam de alguns eV a dezenas de keV. 33 1.7.2. Elétrons Auger Num átomo excitado em sua eletrosfera, o excesso de energia, ao invés de ser liberado pela emissão de raios X característicos, pode ser transferido diretamente para um elétron de uma camada mais externa. O processo pode ser entendido como se, ao ser emitido, o raio X característico virtual colidisse com elétrons do próprio elemento, retirando-os por efeito fotoelétrico. Estes elétrons são denominados de elétrons Auger. Tais elétrons podem ser também emitidos no rearranjo dos elétrons nas camadas mais externas do átomo, quando da ocorrência de uma transição com raio X característico. Da mesma forma que os raios X característicos, os elétrons Auger são dependentes dos níveis de energia da eletrosfera e portanto seu espectro de distribuição em energia é discreto. Como sua energia de emissão é igual à energia do raio X característico, do qual é concorrente, menos a energia de ligação do nível do elétron emitido, seu valor é um pouco menor, ou seja, é também da ordem de alguns eV a dezenas de keV. Para nuclídeos com Z<80, a energia destes elétrons é em torno de 56 keV. Nota: A emissão de elétrons Auger permite observar, por outra via, a ocorrência do processo de captura eletrônica. 1.7.3. Conversão interna O processo de conversão interna compete com a emissão de radiação gama e consiste na transferência da energia de excitação nuclear para elétrons das primeiras camadas (K e L), por meio da interação coulombiana, retirando-os dos orbitais. Estes elétrons são denominados de elétrons de conversão, são monoenergéticos e permitem identificar o elemento químico. Devido à vacância deixada pelo elétron, ocorrerá subsequentemente a emissão de raios X característico (ver Figura 1.24). Assim, no espectro de radiações observa-se a presença de picos de contagem correspondentes aos elétrons de conversão, raios X característicos e radiação gama. A energia dos elétrons emitidos pelo processo de conversão interna é igual à energia da radiação gama concorrente, menos a energia de ligação do elétron ao átomo. Varia, portanto, de dezenas de keV a alguns MeV. Seu espectro de distribuição de energia é discreto. Transição Raio X Característico Núcleo EstávelNúcleo Excitado Elétron de Conversão Elétron Figura 1.23 - Representação do processo de conversão interna. 34 Na conversão interna, a energia e o momento angular da radiação gama prevista, são transferidos para um elétron orbital. A energia cinética do elétron expelido é igual à diferença de energia entre os estados inicial e final (Ei - Ef) menos a energia de ligação do elétron ao orbital, por exemplo, a camada K, ou seja, 𝐸𝑒 = (𝐸𝑖 − 𝐸𝑓) − 𝐸𝐾 Esta competição entre tipos de transição, pode ser expressa pela relação entre as probabilidades de transição por segundo de conversão interna (e) e emissão gama (), denominada de Coeficiente de Conversão Interna (), ou seja, 𝛼 = 𝜆𝑒 𝜆𝛾 O elétron de conversão pode ser proveniente dos orbitais K, L, M, N, etc., sendo os da camada K os mais provavelmente emitidos devido à maior energia de ligação. Então, 𝛼 = 𝛼𝐾 + 𝛼𝐿 + 𝛼𝑀 + ⋯ = 𝛼𝑇 = 𝑐𝑜𝑒𝑓. 𝑐𝑜𝑛𝑣𝑒𝑟𝑠ã𝑜 𝑖𝑛𝑡𝑒𝑟𝑛𝑎 𝑡𝑜𝑡𝑎𝑙 O valor experimental da probabilidade de emissão gama, pode ser aproximadamente obtido do esquema de decaimento, usando a meia-vida do estado excitado, ou seja, 𝜆𝛾 = 𝜆𝑛2 𝜏 A probabilidade de ocorrência de uma conversão interna, por exemplo na camada K, pode ser obtida por meio dos valores dos coeficientes de conversão interna correspondentes, isto é, 𝜆𝑒𝐾 = 𝛼𝐾 1 + 𝛼 Da mesma forma, 𝜆𝑒𝐿 = 𝛼𝐿1 + 𝛼𝐿2 + 𝛼𝐿3 1 + 𝛼 A probabilidade de conversão interna para elétrons da camada M é calculada de forma semelhante, ou então, utilizando a expressão, 𝜆𝑒𝑀 = 𝛼 − (𝛼𝐾 − 𝛼𝐿) 1 + 𝛼 Finalmente, a probabilidade de transição total (s-1) do estado inicial para o final será dada por, 𝜆 = 𝜆𝛾(1 + 𝛼) 35 Os valores dos coeficientes de conversão interna podem ser obtidos teoricamente ou em tabelas ou gráficos que fornecem valores em função de Z, E e tipo de transição gama (E1, M1, E2, M2, etc) (ver Table of Isotopes - Lederer e Hollander, ou Lederer e V. Shirley, apêndice 26). Também podem ser encontrados em tabelas que fornecem o esquema de decaimento, as probabilidades de transição gama e os valores dos diversos coeficientes para as várias camadas eletrônicas. 1.8. RADIAÇÃO PRODUZIDA PELA INTERAÇÃO DE RADIAÇÃO COM A MATÉRIA Ao interagir com a matéria, a radiação incidente pode também transformar, total ou parcialmente, sua energia em outro tipo de radiação. Isso ocorre na geração dos raios X de freamento, na produção de pares e na radiação de aniquilação. 1.8.1. Radiação de freamento (Bremsstrahlung) Quando partículas carregadas, principalmente elétrons, interagem com o campo elétrico de núcleos de número atômico elevado ou com a eletrosfera, elas reduzem a energia cinética, mudam de direção e emitem a diferença de energia sob a forma de ondas eletromagnéticas, denominadas de raios X de freamento ou bremsstrahlung. A energia dos raios X de freamento depende fundamentalmente da energia da partícula incidente. Os raios X gerados para uso médico e industrial não passam dos 500 keV, embora possam ser obtidos em laboratório raios Xaté com centenas de MeV. Como o processo depende da energia e da intensidade de interação da partícula incidente com o núcleo e de seu ângulo de saída, a energia da radiação produzida pode variar de zero a um valor máximo, com espectro contínuo em energia. Nota: Na produção de raios X são produzidos também raios X característicos referentes ao material com o qual a radiação está interagindo (alvo ou anodo). Esses raios X característicos somam-se ao espectro de raios X de freamento e aparecem com picos destacados nesse espectro, conforme mostra a Figura 1.25 (espectro de raios X de freamento com raios X característicos). 36 Raio X Característico Energia Máxima In te ns id ad e da r ad ia çã o Figura 1.24 - Espectro de raios X de freamento com raios X característicos para voltagem de pico de 60, 90 e 120 kV. 1.8.2. Produção de pares Quando fótons de energia superior a 1,022 MeV passam perto de núcleos de elevado número atômico, ao interagir com o forte campo elétrico nuclear, a radiação desaparece e dá origem a um par elétron-pósitron (2mec 2 = 1,022 MeV), por meio da reação: cinéticaenergiaee A energia cinética do elétron e do próton criados é igual à energia do fóton incidente menos 1,022 MeV necessários para a criação das partículas. A distribuição dessa energia entre as duas partículas não tem predominância, variando de 20 a 80% da energia disponível. O espectro de distribuição de energia das partículas formadas é, portanto, contínuo, variando entre essas duas faixas. 1.8.3. Radiação de aniquilação Quando um pósitron, após perder sua energia cinética, interage com um elétron, a matéria é toda transformada em energia, sendo emitidos dois fótons, em sentidos opostos, com energia de 0,511 MeV (2 0,511 MeV= 2mec2). Seu espectro de distribuição de energia é, portanto, discreto. )511,0(2 MeVee Essa radiação é também denominada de radiação gama, embora não seja de origem nuclear. 37 Tabela 1.6 - Características das radiações em função de sua origem. TIPO DESIGNAÇÃO EVENTO GERADOR ENERGIA Valores Distribuição Fóton Raios X característicos Desexcitação da eletrosfera, alterada por captura eletrônica eV a dezenas de keV Discreta Desexcitação da eletrosfera, alterada por interação com partículas carregadas externas Desexcitação da eletrosfera, alterada por conversão interna Desexcitação da eletrosfera, alterada por interação com fótons externos Raios X de freamento Interação de elétron externo com campo elétromagnético nuclear ou eletrônico eV a centenas de MeV Contínua Raios gama Desexcitação nuclear keV a MeV Discreta Aniquilação de pósitron em interação com elétron 0,511 MeV Discreta Elétron Foto-elétron Elétron arrancado da camada eletrônica por interação com fóton, com transmissão total de energia eV a MeV Discreta (hv - B) Elétron-Compton Elétron arrancado da camada eletrônica por interação com fóton, com transmissão parcial de energia keV a MeV Contínua Radiação β - Decaimento em núcleo instável por excesso de nêutrons. keV a MeV Contínua Elétron de conversão Transmissão de energia de excitação nuclear diretamente para a camada eletrônica; concorre com emissão gama. Dezenas de keV a MeV Discreta (Eγ - B) Elétron Auger Desexcitação da eletrosfera por transmissão de energia a elétrons mais externos (menos ligados); concorre com raios X característicos. eV a dezenas de keV Discreta Raios δ Elétrons arrancados da eletrosfera de átomos por interação com partículas carregadas com os átomos. eV a MeV Contínua Elétron de formação de par Transformação de energia em matéria por interação de um fóton de alta energia (> 1,022 MeV) com o campo eletromagnético do núcleo. eV a MeV Contínua Pósitron Radiação β+ Decaimento em núcleo instável por excesso de prótons eV a MeV Contínua Pósitron de formação de par Transformação de energia em matéria por interação de um fóton de alta energia (> 1,022 MeV) com o campo eletromagnético do núcleo eV a MeV Contínua Partícula α Radiação α Decaimento em núcleos pesados instáveis MeV Discreta Nêutrons Nêutrons Fissão espontânea MeV (pode ser moderado a eV) Contínua Reações nucleares 38 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS IUPAC 2-10, Pure Appl. Chem., v. 83, pp. 359-396, 2011. http://www.chem.qmvl.ac.uk/iupac C. Michael Lederer, J.M. Hollander, I. Perlman, Table of Isotopes, Sixth Ed. John Wiley & Sons, Inc., 1978. K.C. Chung, Introdução à Física Nuclear, Ed. UERJ, Rio de Janeiro, RJ, 2001. R.D. Evans, The Atomic Nucleus, Mc Graw Hill, 1955. K. Siegbahn, Alpha, Beta and Gamma-Ray Spectroscopy, North Holland, 1974. E. de Almeida e L. Tauhata, Física Nuclear, Editora Guanabara Dois, Rio de Janeiro, RJ, 1981. A. Messiah, Quantum Mechanics, Vol.2 - North Holland, 1974. J.M. Eisenberg e W. Greiner, Nuclear Models, Vol. 1 de Nuclear Theory, North Holland Publishing Company, Amsterdam-London, 1970. M.M. Bé, V.P. Chechev, Nuclear Intr. Meth., A, 728, p. 157-1712, 2013. 39 CAPÍTULO 2 FONTES NATURAIS E ARTIFICIAIS DE RADIAÇÃO IONIZANTE 2.1. FONTES NATURAIS 2.1.1. Origem dos elementos químicos As teorias sobre a origem dos elementos químicos no Universo e na Terra indicam as estrelas como os locais onde se desenvolveram e desenvolvem os processos de síntese. As estrelas, compostas inicialmente de hidrogênio, nos diversos estágios de sua evolução, conseguem formar muitos elementos químicos por meio de reações nucleares de fusão, induzidas por temperaturas na faixa de 107 a 1010 K provocadas por contrações gravitacionais de suas massas e pela energia liberada nas reações. O conteúdo e a massa da estrela estabelecem o caminho de sua evolução. A produção em larga escala de elementos químicos ocorre na fase de explosão de supernova, que algumas estrelas atingem, se suas massas forem 4 a 8 vezes maiores que a massa do Sol. Neste evento catastrófico, de duração média de 2 segundos, é sintetizada a maioria dos núcleos conhecidos. Os núcleos sintetizados são dispersos no espaço sideral, após a explosão, e acabam se incorporando ou depositando em planetas, asteroides, protoestrelas e estrelas, por atração gravitacional. A abundância cósmica destes elementos difere bastante da abundância deles na crosta de um planeta, pois muitos elementos não conseguem ser retidos pelo seu campo gravitacional. Por exemplo, no caso da Terra, a força da gravidade não consegue superar o movimento de expansão dos elementos gasosos de pequena massa atômica, provocado pela temperatura. A abundância relativa dos elementos químicos no sistema solar e na crosta terrestre constitui constante tema de pesquisa da astrofísica e geoquímica. Com base na concentração de elementos nos condritos carbonáceos e nas estrelas novas, pode-se inferir a abundância relativa no sistema solar. Para a crosta terrestre as estimativas foram baseadas na concentração dos elementos nos meteoritos e em sequências teóricas de condensação de gases nebulosos. Devido ao uso de métodos de medição indireta, tais estimativas contêm muitas incertezas em seus valores. A Figura 2.1 mostra os valores médios das concentrações dos elementos químicos componentes da crosta terrestre em função do número atômico Z. Observando os valores das concentrações percebe-se que eles apresentam uma correlação direta com ovalor da energia de ligação dos nucleons. As espécies mais abundantes são as que apresentam camadas fechadas de número de prótons Z e de nêutrons N. Observando os valores das concentrações dos elementos mais abundantes na crosta terrestre, é fácil entender porque as composições químicas do homem, dos animais e vegetais apresentam uma correlação direta entre si e com a crosta. Isto fica muito evidente, quando se observa os processos de reprodução e crescimento destes indivíduos, uma vez que tais organismos necessitam captar os elementos químicos necessários para sua composição nas imediações de seu sítio de vida e pela respectiva cadeia alimentar. 40 Figura 2.1 - Concentração média dos elementos químicos componentes da crosta terrestre. 2.1.2. Composição química do homem referência Em muitos estudos associados à proteção radiológica, é preciso conhecer a composição química do corpo humano, devido ao fato das interações das radiações ionizantes com tecidos e órgãos ocorrerem, de fato, com os seus átomos componentes. Por isso é necessário escolher um “homem referência” para evitar escolhas arbitrárias de sua composição. Na Tabela 2.1 é apresentada a composição do Homem Referência em termos de massa e percentual de cada elemento químico. Nela se observa a predominância dos elementos mais abundantes na crosta terrestre e que possuem número atômico Z pequeno. Em estudos envolvendo simulações, por métodos computacionais, da interação da radiação com o organismo humano, utiliza-se uma composição simplificada do corpo ou do tecido humano, conforme os seus objetivos. Por exemplo, para estimativas de dose em pacientes submetidos à radioterapia, a água apresenta resultados de interação com a radiação gama e X muito semelhantes aos obtidos com o tecido humano. Assim, para cada tipo de estudo, pode haver um material tecido equivalente. A Tabela 2.2 mostra alguns exemplos. 41 Tabela 2.1 - Composição química do Homem Referência, que possui massa total de 70 kg e densidade de 1,025 g.cm-3. ELEMENTO QUÍMICO QUANTIDADE (g) PERCENTUAL EM MASSA 01. Oxigênio 02. Carbono 03. Hidrogênio 04. Nitrogênio 05. Cálcio 06. Fósforo 07. Enxofre 08. Potássio 09. Sódio 10. Cloro 11. Magnésio 12. Silício 13. Ferro 14. Flúor 15. Zinco 16. Rubídio 17. Estrôncio 18. Bromo 19. Chumbo 20. Cobre 21. Alumínio 22. Cádmio 23. Boro 24. Bário 25. Prata 26. Manganês 27. Iodo 28. Níquel 29. Ouro 30. Molibdênio 31. Cromo 32. Césio, Cobalto, Urânio, Berílio, Rádio 43.000 16.000 7.000 1.800 1.000 780 140 140 100 95 19 18 4,2 2,6 2,3 0,32 0,32 0,20 0,12 0,072 0,061 0,050 0,048 0,022 0,017 0,012 0,013 0,010 0,010 0,0093 0,0018 0,0015 < 0,0015 61 23 10 2,6 1,4 1,1 0,20 0,20 0,14 0,12 0,027 0,026 0,006 0,0037 0,0033 0,00046 0,00046 0,00029 0,00017 0,00010 0,00009 0,00007 0,00007 0,00003 0,00002 0,00002 0,00002 0,00001 0,00001 0,00001 0,000003 0,000002 < 0,000002 42 Tabela 2.2 - Composição química de materiais tecido-equivalentes e do músculo utilizada em proteção radiológica, para cálculos por simulação, utilizando Métodos de Monte Carlo, e para teste de equipamentos de medição. ELEMENTO QUÍMICO MÚSCULO (ICRP 1962) (%) TECIDO EQUIVALENTE (DOSE EXTERNA) (%) TECIDO EQUIVALENTE (DOSE INTERNA) (%) Hidrogênio Carbono Nitrogênio Oxigênio Sódio Magnésio Fósforo Enxofre Cloro Potássio Cálcio 10,2 12,3 3,5 72,9 0,08 0,02 0,2 0,5 - 0,3 0,007 10 14,9 3,49 71,4 0,15 - - - 0,1 - - 10 18 3 65 0,15 0,05 1 0,25 0,15 0,20 1 2.1.3. Os elementos radioativos naturais Devido ao processo de captura rápida de nêutrons durante o processo de explosão da supernova, a maioria dos núcleos dos elementos químicos sintetizados são instáveis. Num intervalo pequeno de tempo muitos deles se tornam estáveis ao emitir radiações, por terem a meia-vida muito pequena. Os nuclídeos de meia-vida longa podem compor, juntamente com os estáveis, os objetos cósmicos e a crosta terrestre, por mecanismo de acumulação gradual. O 40K, o 238U e 232Th contribuem, juntamente com os radionuclídeos originados pelo seus decaimentos (ver Famílias Radioativas) e os cosmogênicos, para a radioatividade natural da crosta terrestre. O urânio consiste de 2 isótopos: 99,28% de 238U e 0,7% de 235U. A meia-vida do 238U é de 4,67.109 anos e a do 235U de 7.1.108 anos. Existem estudos mostrando que, há cerca de 5 bilhões de anos, as quantidades de 238U e 235U deveriam ter sido iguais, indicando que esses elementos foram formados entre 4 e 6.109 anos, que é a idade estimada de formação dos elementos na Terra e do sistema solar. 2.1.4. As famílias radioativas Na busca incessante do equilíbrio nuclear, o 238U emite radiações alfa e se transforma no 234Th que, sendo radioativo, emite radiações beta formando um novo elemento radioativo o 234Pa, que decai no 234U. Este processo continua por várias etapas, cujo núcleo formado é melhor organizado que o anterior mas possui imperfeições que necessitam ser corrigidas por emissão de radiação. Isto forma uma família ou série de elementos radioativos, a partir do núcleo-pai 238U, terminando no isótopo 206Pb, estável. Isto ocorre também com o 232Th, que termina no 208Pb, conforme mostram as Figuras 2.2. e 2.3. 43 Radionuclídeos de meia-vida curta Radionuclídeos de meia-vida longa estável Figura 2.2 - Série radioativa do 232Th. Radionuclídeos de meia-vida curta Radionuclídeos de meia-vida longa 8,15 min Figura 2.3 - Série radioativa parcial do 238U. 44 2.1.5. O radônio e o torônio Dentro dos radionuclídeos descendentes do 238U destaca-se o 226Ra, que possui meia-vida de 1.600 anos, e que, por emissão alfa forma o 222Rn, o radônio, de meia-vida de 3,82 dias. Seus descendentes são o 218 Po (Ra A), 214 Pb (Ra B), 214Bi (Ra C) e 214Po, todos com meias-vidas muito curtas. Na série do 232Th ocorre um processo semelhante, com o 220Rn, também chamado de torônio, de meia-vida de 55 segundos e seus descendentes, 216 Po, 212Pb, 212 Bi, 208Tl e 212Po. Como a maioria das rochas, solos, sedimentos e minérios contêm concentrações significativas de urânio e tório, como consequência dos decaimentos, estes materiais contêm também os radionuclídeos pertencentes às famílias radioativas. Como o radônio e o torônio são gasosos, nos ambientes construídos por materiais como, cerâmica, revestimento de pedra, granito, argamassa, concreto, gesso, etc., vai ocorrer o fenômeno da emanação destes gases radioativos. Como eles possuem um peso atômico elevado, sua concentração é maior em níveis próximos do solo, devido à decantação gravitacional. Assim, juntamente com os gases componentes do ar, o homem e os animais respiram gases e aerossóis radioativos. Devido às meias-vidas curtas dos radionuclídeos descendentes do radônio e do torônio, compatíveis com o tempo de metabolismo, a maioria dos radionuclídeos incorporados por inalação ou ingestãodecai no interior de seus organismos, irradiando os seus órgãos e tecidos. Na comparação dos dados publicados de 1982 e 2008 pela UNSCEAR, mostrados na Figura 2.4, percebe-se a evolução da Proteção Radiológica. As exposições mundiais do homem devido à radiação natural em 1982 contribuíam, em termos relativos, com 67,6% e, em 2008, com 79,68%. As exposições médicas contribuíam com 30,7% e passaram para 19,92%. Da mesma forma as exposições ocupacionais de 0,45% para 0,01%. O ciclo do combustível nuclear que contribuíam com 0,15% passaram para 0,17%. Figura 2.4 - Exposição do homem à radiação ionizante. Na Figura 2.5 tem-se a variação da concentração do radônio e torônio com a altura em relação ao solo e nas Figuras 2.6 e 2.7, as variações da concentração durante o dia e durante o ano. 45 Figura 2.5 - Variação da concentração do torônio e do radônio com a altura em relação ao solo. 2 4 6 8 10 12 Figura 2.6 - Variação da concentração de radônio e torônio durante o dia. 46 Figura 2.7 - Variação da concentração de radônio e torônio durante o ano. Os valores da concentração de 222Rn dependem da época do ano, do local e do ambiente em que são determinados. Por exemplo, nas medições realizadas no Rio de Janeiro, em 1997, por Maísa Magalhães do IRD, observou-se que, no inverno, os valores são 10 a 20 vezes maiores que os observados durante o verão e que, os valores são mais significativos no ambiente externo. No verão, ocorre o contrário. O ambiente interno apresentou maiores concentrações que no externo, conforme pode ser observado nas figuras 2.8 e 2.9. Figura 2.8 - Concentração de 222Rn no Rio de Janeiro, no verão de 1997. 47 Figura 2.9 - Concentração de 222Rn no Rio de Janeiro, no inverno de 1997. 2.1.6. A radiação cósmica Raios cósmicos são partículas altamente energéticas, principalmente prótons, elétrons, nêutrons, mésons, neutrinos, núcleos leves e radiação gama, provenientes do espaço sideral. A energia destas radiações é muito alta, da ordem de centenas de MeV a GeV. Muitas são freadas pela atmosfera terrestre ou desviadas pelo cinturão magnético de Van Allen. Os raios detectados na superfície são, na maioria, partículas secundárias, criadas nas colisões com os núcleos da camada atmosférica. Além de interagir com os raios cósmicos, a atmosfera terrestre exerce um papel de blindagem para os habitantes, atenuando e absorvendo bastante as radiações. A quantidade de radiação aumenta com a altitude e latitude, ou seja, as pessoas que habitam as montanhas recebem mais radiação que as que vivem ao nível do mar, os habitantes das regiões próximas aos pólos são mais expostos que os da região equatorial. Alguns raios cósmicos se originam de distúrbios solares e são mais abundantes nos anos de alta atividade solar, que ocorre a cada 11 anos. Um dos resultados do bombardeio constante da atmosfera superior pelos raios cósmicos, principalmente nêutrons, é a produção dos denominados radionuclídeos cosmogênicos: 3H, 7Be, 14C, 22Na e 85Kr. Como quase todos os organismos vivos têm grande quantidade de carbono e hidrogênio, um pequeno percentual é radioativo. 2.2. FONTES ARTIFICIAIS As fontes artificiais de radiação mais importantes são os dispositivos de diagnóstico e terapia utilizados na área médica, os aparelhos de controle, medidores e radiografia usados na indústria e comércio, as instalações do ciclo do combustível nuclear e as máquinas utilizadas na pesquisa científica. No Brasil, nas instalações industriais destacam-se os seis irradiadores de grande porte, sendo que cinco são destinados para esterilização e um para irradiação de componentes para ração animal e de cosméticos. Ressalta-se também o avanço na área de perfilagem de poços de petróleo onde já constam 21 instalações distribuídas em diferentes regiões do País. 48 Na área médica são 595 instalações sendo 225 de radioterapia e 370 de medicina nuclear. Nos serviços de radioterapia estão instalados 260 aceleradores lineares, 78 equipamentos de braquiterapia de alta taxa de dose e 57 equipamentos de cobalto. Nos serviços de medicina nuclear além das fontes como 131I, 99mTc, 67Ga, 201Tl, 153Sm, 92 serviços do país já contam com equipamentos de tomografia por emissão de pósitrons (PET/CT) que utilizam o 18F associado à uma molécula de glicose (2[18F] fluoro-2-deoxi- D-glicose) para o diagnóstico ou mapeamento de tumores. Atualmente o 18F é produzido em 13 cíclotrons instalados em diversas cidades brasileiras. 2.2.1. Tipos de geradores de radiação Dentre os mais importantes tipos de geradores de radiação ionizante destacam-se os tubos de raios X, os aceleradores de partícula, os irradiadores com radioisótopos e as fontes de nêutrons. Os dois primeiros dispositivos utilizam a eletricidade como fonte de energia para acelerar partículas e gerar radiação. Os irradiadores utilizam radioisótopos como fonte de radiação, acoplados a um sistema blindado de exposição e guarda da fonte. As fontes de nêutrons utilizam reações nucleares produzidas por partículas alfa emitidas por um material radioativo num determinado alvo. 2.2.2. Tubos de raios X Quando elétrons, acelerados por um campo elétrico intenso, colidem com um alvo metálico, eles reduzem sua energia cinética, mudam de direção e, alguns deles, emitem a diferença de energia sob a forma de ondas eletromagnéticas, os raios X. Os elétrons sofrem espalhamento e redução da velocidade devido à atração da carga do núcleo e à repulsão dos elétrons dos átomos do material alvo. Por isso, esse tipo de radiação é também denominado de radiação de freamento (bremsstrahlung). Num tubo de raios X, o feixe de elétrons é gerado por emissão termoiônica num filamento aquecido. O campo elétrico é obtido aplicando-se uma alta voltagem entre os terminais do tubo de raios X, onde o alvo metálico, anodo, é polarizado positivamente e o filamento, catodo, negativamente. A emissão de raios X só ocorre, obviamente, quando estiver ligada a alta tensão. Quanto maior a tensão aplicada ao tubo, maior será a energia dos raios X gerados e maior também o seu poder de penetração. Aumentando-se a corrente, aumenta-se a intensidade do feixe. A Figura 2.10 mostra o esquema básico de uma máquina de raios X. Ampola de Vidro Alta Tensão Anodo Alvo de Tungstênio Feixe de Raios X Janela Copo focalizador Catodo Feixe de Elétrons Filamento Figura 2.10 - Esquema de uma máquina geradora de raios X. 49 Os tubos de raios X, embora funcionem com o mesmo princípio físico, sofrem variações no formato, tipo de alvo do anodo, faixa da tensão (kV) e corrente aplicadas e sistema de refrigeração. As máquinas utilizadas para radiologia oral apresentam a tensão na faixa de 60 a 80 kV; para mamografia entre 30 e 40 kV; para radiodiagnóstico, de 100 kV a 150 kV e as utilizadas em radiografia industrial, de 150 a 500 kV. Os alvos são constituídos por tungstênio ou molibdênio. 2.2.3. Aceleradores de partícula Existem diversos dispositivos que permitem a geração de feixes intensos de partículas com energia variável, utilizando processos de aceleração baseados em campos elétricos, campos magnéticos e ondas eletromagnéticas. Dentre estes dispositivos, os mais difundidos são os aceleradores de elétrons, os aceleradores Van der Graaf e os cíclotrons. 2.2.4. Aceleradores de elétrons Os aceleradores de elétrons são utilizados nos hospitais, nas indústrias e nos institutos de pesquisa. São muito versáteis, pois, a partir do feixede elétrons pode-se produzir feixes de radiação de freamento (radiação eletromagnética de alta energia e espectro contínuo), ou feixe de nêutrons, utilizando reações nucleares, para certas faixas de energia. Os elétrons, gerados por emissão termoiônica nos filamentos aquecidos, são injetados num tubo e carregados por uma onda portadora estacionária, por várias secções da máquina, até atingir a energia desejada, num mecanismo de transporte semelhante ao surf. A onda portadora é gerada por válvulas tipo Klystron, de microondas, e introduzida na máquina por meio de guias de onda. O feixe é colimado por bobinas. As Figuras 2.11a e 2.11b mostram o esquema de funcionamento e a visão de um acelerador linear de elétrons utilizado em terapia de câncer em hospitais. Cabeçote Eixo central do feixe Filamento Grade Anodo Circulador F onte de m ic ro ondas (Klystron ou magnetron) Sistema de refrigeração Sistema de pressurização Carga Modulador de pulso Bobina focalizadora Bo ina defletorab Bobina defletora Bomba de vácuo Guia de onda Feixe pulsado de elétrons Magneto quadripolar Seletor de energia Janela de saída Colimador primário Filtro achatador Colimador superior Colimador inferior Eixo de rotação da mesa Alvo Unidade de controle Fonte de alimentação Canhão de eletrons Bobina defletoraBobinadefletora Janela de cerâmica Janela de cerâmica Mesa de tratamento Câmara de ionização dual Colimador multifolhas (Opcional) Sistema de transporte do feixe Figura 2.11a - Esquema de um acelerador linear de elétrons. 50 Figura 2.11b - Acelerador de elétrons usado em terapia de câncer em hospitais. 2.2.5. Acelerador Van de Graaf O princípio de operação é a aceleração de partículas carregadas por campos eletrostáticos de alta voltagem. Basicamente é constituído de 3 partes principais: um tanque pressurizado, o gerador (rotor, fontes de alimentação, correia móvel, eletrodo de alta tensão, etc.) e o acelerador propriamente dito, isto é, a fonte de íons e o tubo de aceleração. Na Figura 2.12 é apresentado um esquema deste tipo de máquina, que pode acelerar desde partículas leves, como elétrons, até partículas alfa e íons pesados. A diferença de potencial é gerada por cargas acumuladas num terminal de alta tensão de formato cilíndrico ou hemisférico. As cargas são induzidas por descarga corona, transportadas e coletadas no terminal de alta tensão por uma correia e escova metálica. Os íons positivos produzidos no terminal de alta tensão são acelerados até o potencial zero (terra). A diferença de potencial pode atingir 8 MV. As máquinas com dois estágios de aceleração, onde íons pesados negativos são produzidos ao potencial terra e posteriormente acelerados pelo terminal positivo, são denominadas aceleradores tipo Tandem. Nelas um íon de 16O pode ser acelerado até 6 MeV no primeiro estágio e atingir a energia final de 54 MeV, no segundo estágio. 51 Figura 2.12 - Esquema de um acelerador eletrostático do tipo Van de Graaff: (1) Fonte de tensão contínua; (2) Fita de isolamento; (3) Terminal de alta voltagem; (4) Tanque pressurizado com gás isolante; (5) Fonte de íons; (6) Tubo de aceleração e anéis de equalização do campo; (7) Feixe de íons acelerados; (8) Bomba de vácuo; (9) Magneto para reflexão e análise do feixe; (10) Sistema de dispersão do feixe conforme a energia; (11) Amplificador de sinal; (12) Pontos de efeito corona. 2.2.6. Cíclotrons 2.2.6.1.Cíclotrons para produção de radioisótopos para medicina Os cíclotrons ganharam grande importância nos últimos anos pela sua capacidade de produção de radionuclídeos de meia-vida curta, de uso crescente na medicina nuclear diagnóstica, principalmente nos dispositivos de tomografia por emissão de pósitrons. (PET). A diminuição de custo e de instalação desses equipamentos pelo uso de materiais supercondutores e de geradores de campo magnético de grande intensidade, permitiu sua rápida difusão para colocação em hospitais e centros médicos. São dispositivos que aceleram partículas carregadas, utilizando a diferença de potencial elétrico, associada a campos magnéticos para defletir o feixe. É constituído de duas partes em forma de D separadas por um intervalo, conforme mostra a Figura 2.13. O feixe de partículas é injetado no centro da máquina e é acelerado eletricamente por uma voltagem alternada, quando atravessa o intervalo entre os D. Sob a ação de um campo magnético, sincronizado, o feixe é defletido até cruzar e ser novamente acelerado no intervalo do outro lado do D. À medida que a velocidade da partícula vai crescendo, o raio do feixe vai aumentando, numa trajetória em espiral, até que atinja a energia final e, então, um extrator, desloca o feixe na direção do alvo a ser bombardeado. A condição para o bom funcionamento destas máquinas é o sincronismo entre a velocidade da partícula e os campos de aceleração e deflexão. Todas as regiões, no interior da máquina, de percurso e aceleração do feixe, devem ser providas de alto vácuo para não perturbá-lo. 52 As energias obtidas chegam a 15 MeV para prótons, 25 MeV para dêuterons e 50 MeV para partículas alfa. Figura 2.13 - Esquema de um cíclotron e equipamento instalado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares - IPEN - utilizado para a produção de radioisótopos. 2.2.6.2 O acelerador do Laboratório Nacional de Luz Sincrotron Fazendo a frequência da voltagem aplicada modular periodicamente com o tempo, obtém-se outro tipo de máquina denominada de sincrociclotron ou sincrotron. Com isto podem ser produzidos feixes de prótons com energia muito alta, como por exemplo, 730 MeV na Califórnia (U.S.A.), 680 MeV em Dubna (Rússia), 600 MeV em Genebra (Suiça), etc. Com o acoplamento de máquinas aceleradoras, pode-se chegar a energias incríveis, como por exemplo, 10 GeV no synchrophasotron do Instituto de Pesquisas Nucleares de Dubna (Rússia) e 12,5 GeV na máquina do Laboratório Nacional de Argonne (USA). 53 Em Campinas, estado de São Paulo, está instalado o Laboratório Nacional de Luz Sincrotron (LNLS) que utiliza um sincrotron para acelerar elétrons que vão gerar feixes de fótons de alta energia e diferentes comprimentos de onda. O sincrotron existente acelera elétrons com energia de até 1,37 GeV que vão gerar os feixes de fótons utilizados em diversos ramos de pesquisa e estudo de materiais como estruturas moleculares, cristalografia e em desenvolvimentos de materiais para a indústria. Está prevista a construção de um novo sincrotron no mesmo local, com energia de até 3 GeV. O novo projeto denomina-se Sirius. 2.2.6.3 O Grande Colisor de Hadrons (Large Hadron Collider) - LHC Acelerando feixes de partículas e jogando um contra outro, obtêm-se os denominados “anéis de colisão”, cuja energia de interação, para elétrons e pósitrons, atinge a 60.000 GeV no laboratório. O Grande Colisor de Hadrons (Large Hadron Collider) - LHC - do CERN foi construído num túnel a 100 metros de profundidade, com 27 quilômetros de circunferência e 8,6 km de diâmetro. Ele acelera prótons a uma energia de 7 TeV, com uma energia total de colisão no centro de massa de 14 TeV. (1 TeV = 1012 eV). Uma de suas pesquisas recentes foi a busca da detecção do Bóson de Higgs, partícula subatômica que seria responsável por expressar a energia do Universo no formato de massa. Por esta propriedade ele foi apelidada de partícula de Deus. A sua massa prevista está entre 115 e 127 GeV (1 GeV = 109 eV). Figura 2.14 - Esquema do Grande Colisor de Hadrons(Large Hadron Collider) - LHC - e vista interna com um segmento do tubo de aceleração de 3 m de diâmetro. Quatro grandes experimentos são realizados nos Pontos: ALICE, ATLAS, CMS e LHCb. O processo de aceleração dos prótons segue a sequência. Os átomos de hidrogênio são obtidos de uma garrafa de hidrogênio e os prótons são obtidos com a retirada dos elétrons dos átomos. Os prótons saem do acelerador linear LINAC 2 no injetor da Proton Synchrotron (PS Booster, PSB) com uma energia de 50 MeV, que os acelera até 1,4 GeV. O feixe é injetado no Proton Synchrotron (PS), onde sua energia chega a 25 GeV e a seguir enviado para o Super Proton Synchrotron (SPS), onde é acelerado a 450 GeV. Finalmente, ele é transferido para o LHC com um tempo de carregamento de 4 min 20 s por anel, onde os prótons são acelerados por 20 minutos para atingir a energia 54 nominal de 7 TeV. A seguir um feixe é jogado contra o outro (acelerado em sentido contrário) produzindo uma energia de colisão de 14 TeV. Figura 2.15 - Colisão dos feixes de prótons para a possível produção do Boson de Higgs. 2.2.7. Fontes de nêutrons Utilizando o bombardeio do berílio com partículas alfa provenientes de um radionuclídeo com ele misturado, gera-se feixe de nêutrons de alto fluxo, a partir das reações nucleares nele produzidas. As fontes mais utilizadas são de: Am-Be, Po-Be, Ra-Be, Pu-Be, capazes de gerar fluxos de mais de um milhão de nêutrons por cm2, por segundo. São dispositivos selados e de pequeno volume, mas devido à capacidade de penetração e interação em vários materiais e no corpo humano, eles devem ser devidamente blindados com material de pequeno número atômico. A reação nuclear é do tipo: 9Be (α,n) 12C. A Figura 2.16 mostra, simplificadamente, a estrutura de uma fonte de nêutrons utilizada em medidores nucleares. Figura 2.16 - Esquema de uma fonte de nêutrons de Pu-Be de um medidor de nível. 55 2.2.8. Irradiadores com radioisótopos A obtenção de feixes de radiação a partir de radioisótopos permite a construção de muitos aparelhos usados na medicina, indústria e pesquisa. Conforme a finalidade, o tipo de radiação e intensidade do feixe, a máquina dispõe de blindagem, colimadores, sistemas de segurança ou mobilidade apropriados. Os dispositivos mais utilizados na medicina são as bombas de cobalto-60 para teleterapia, as fontes de radiação gama para braquiterapia e os aplicadores oftalmológicos e dermatológicos com emissores beta. 2.2.8.1. Bomba de Cobalto A bomba de cobalto é constituída por um cabeçote contendo uma fonte selada de 60Co, com atividade de até 296 TBq (8000 Ci), no interior de uma blindagem de chumbo ou urânio exaurido, encapsulada por aço. No cabeçote, existe uma janela de saída do feixe gama, com colimadores apropriados para estabelecer o tamanho de campo e um sistema de abertura e fechamento que pode ser acionado por um sistema pneumático ou elétrico. Em alguns modelos, conforme mostra a Figura 2.17, a fonte é deslocada de sua posição de guarda, dentro da blindagem, para a posição de irradiação. Nesse modelo, existe uma barra metálica indicadora da posição da fonte, se exposta ou recolhida. Para a exposição do paciente durante um intervalo de tempo, o operador fixa, por meio de um sistema de colimação da própria máquina, o tamanho e o formato do campo de irradiação em conformidade com o procedimento terapêutico prescrito. Figura 2.17 - Corte de um cabeçote de uma bomba de 60Co modelo Theratron 780 usado em radioterapia. 2.2.8.2. Fontes para braquiterapia As fontes utilizadas em braquiterapia são seladas, e têm isótopos emissores gama ou beta encapsulados no formato adequado com sua aplicação. Podem ser aplicadas superficialmente, intracavitariamente para exposição localizada ou intersticialmente em certas regiões do corpo. A atividade varia de 37 MBq a 370 GBq (1 mCi a 10 Ci). Os isótopos mais utilizados são 137Cs, 60Co, 90Sr e 192Ir. 56 2.2.8.3. Irradiadores para gamagrafia Os isótopos 192Ir, 60Co, 75Se e 137Cs são utilizados na área de gamagrafia industrial, sendo que os irradiadores com 192Ir, do tipo portátil, constituem a maioria deles. Os irradiadores são classificados em duas categorias: a) Categoria I: irradiador direcional, onde a fonte não é removida da blindagem durante a exposição. A irradiação é feita abrindo-se um obturador ou movendo-se a fonte dentro do próprio irradiador; b) Categoria II: irradiador panorâmico, onde a fonte é removida de sua blindagem, por meio de um tubo guia, até a posição de irradiação. Quanto às suas características físicas de transporte e mobilidade eles são classificados em: Classe P: portáteis, não excedendo a 50 kg; Classe M: móveis, mas não portáteis; podem ser deslocados de um lugar para outro por meio de dispositivos próprios; Classe F: fixos ou com mobilidade restrita dentro de uma área controlada. Os irradiadores móveis, da categoria II, são constituídos de um conjunto de discos metálicos de 192Ir, encapsulados em aço inox e soldado a um porta-fonte flexível, denominado de “rabicho”. Ele é conectado a um cabo de aço que o desloca dentro de um tubo-guia, durante as operações de exposição e recolhimento, na realização de uma radiografia. A atividade da fonte vai de 0,74 a 1,85 TBq (20 a 50 Ci), podendo comportar até 3,7 TBq (100 Ci). A fonte é guardada e transportada dentro de uma blindagem constituída de urânio exaurido ou de chumbo, com um invólucro de aço inox, mecanicamente resistente. A fonte é movida por meio de uma manivela, a qual aciona um cabo de aço para deslocar a fonte da posição de guarda até o ponto de irradiação, dentro de um tubo-guia flexível. Na Figura 2.18 é mostrado um modelo de irradiador com 192Ir, o esquema de guarda e blindagem da fonte e do procedimento técnico de obtenção da radiografia. Figura 2.18 - Foto de um irradiador de 192Ir e o esquema de guarda da fonte no irradiador e respectiva blindagem. Tubo em S Tubo guia Tubo guia Fonte de Ir 192 Blindagem de Urânio exaurido Engate Engate e Chave Cabo Condutor Caixa Rabicho flexível 57 2.2.8.4. Irradiador industrial Dentre as máquinas que utilizam radioisótopos, o irradiador industrial é uma das mais significativas, pois, utiliza o 60Co em grande quantidade e atividade. A atividade total de 60Co atinge a 3,7.1016 Bq = 37 PBq (1.000.000 curies). Ele é muito utilizado em diversos tratamentos para desinfestação e conservação de produtos alimentares, como frutas, especiarias, aves, peixes e carnes; esterilização e redução da carga microbiana de produtos descartáveis como seringas, luvas e alguns produtos médico-cirúrgicos. A fonte é constituída de cilindros metálicos contendo 60Co, encapsulados em varetas de aço inox, dispostas verticalmente numa armação retangular, semelhante a um secador de roupa. A instalação é constituída basicamente de um sistema de correia transportadora que carrega, do exterior para dentro da máquina, as caixas e containeres apropriados para a irradiação, fazendo-os passar diante da fonte exposta, com uma velocidade pré- estabelecida. Cada caixa passa duas vezes pela fonte, expondo ora um lado ora outro, para aplicar, o mais homogeneamente possível, a dose nos produtos alocados em seu interior. Para realizar a irradiação, um eletromecanismo suspende a fonte, a partir do fundo de uma piscina cheia de água pura, até a posição de operação. Em qualquer outra situação, a fonte fica recolhida no fundo da piscina. Todo o conjunto contémum sofisticado e redundante sistema de segurança e é envolvido por uma espessa blindagem de concreto, constituindo uma forte casamata, dentro da qual pessoa nenhuma pode permanecer, um segundo sequer. As doses aplicadas no tratamento de frutas variam entre 0,2 e 0,4 kGy e para produtos médico-cirúrgicos na faixa de 25 kGy. Na Figura 2.19 é apresentado um esquema de um irradiador industrial. Figura 2.19 - Esquema de um irradiador industrial. 2.2.9. Efluentes e precipitações A presença ou a liberação de materiais radioativos no meio ambiente potencialmente expõe a população à radiação ionizante, aumenta o risco de efeitos deletérios à saúde. Muitos compostos contendo radionuclídeos podem ser provenientes de instalações nucleares, como reatores e unidades do ciclo combustível, que 58 periodicamente liberam concentrações, permitidas por normas específicas, para o ambiente em operação rotineira, ou se dispersam descontroladamente, numa situação de acidente. Estas liberações normalmente são constituídas de efluentes líquidos ou gasosos. Os rejeitos sólidos que são dispersos no ambiente são quase sempre de forma acidental. Outros materiais radioativos, dispersos na atmosfera e em ambientes aquáticos, são os produtos dos testes nucleares (Fallout) realizados na atmosfera, principalmente os realizados entre 1945 a 1980. Eles precipitaram em grande quantidade por ocasião dos testes, mas até hoje, podem ser medidos em qualquer localidade do mundo. Nos 543 testes realizados na atmosfera, com 189 megatons (Mt) por artefatos à fissão e 251 megatons por fusão, a atividade de trício produzida foi estimada em: 251 Mt (fusão) 7,4.1017 Bq Mt-1 =1,8.1020 Bq. Nos 1876 testes subterrâneos realizados, foram injetados na Terra 90 Megatons de material radioativo. Um Megaton (Mt) corresponde a explosão de 1 milhão de toneladas de dinamite (TNT). Figura 2.20 - 543 testes nucleares atmosféricos e 1876 testes subterrâneos realizados nos períodos de 1945 a 1980 e 1955 a 1998 respectivamente, por diversos países (UNSCEAR 2000). Os radionuclídeos provenientes da fissão do urânio e plutônio (fragmentos de fissão) se dispersaram por toda a superfície da Terra, de tal modo que, hoje, é muito difícil encontrar um local ou um objeto, que não contenha os radionuclídeos de meia-vida longa como o 137Cs, 90Sr, 85Kr, 129I, remanescentes dos testes realizados no passado. A quantidade de 90Sr difundida nos testes nucleares é estimada em 6.1017 Bq e a de 137Cs em 9,6.1017 Bq, sendo 76% no hemisfério Norte e 24% no hemisférico Sul. A Figura 2.21 mostra as concentrações de 137Cs e 90Sr na dieta humana, nos hemisférios Norte e Sul. 59 Figura 2.21 - Concentrações de 137Cs e 90Sr na dieta alimentar dos habitantes dos hemisférios Norte e Sul. Conforme a publicação do UNSCEAR 2008-Sources and Effects of Ionizing Radiation, a dose efetiva total, em mSv, por ano per capita da população mundial causada pelos testes nucleares é mostrada na figura 2.22. Para a dose efetiva total, estão contabilizadas, as doses devido à ingestão, inalação e exposição externa. Figura 2.22 - Dose Efetiva anual per capita para os indivíduos da população mundial no período de 1945 a 2005. 2.3. INSTALAÇÕES NUCLEARES NO BRASIL 2.3.1. Reatores nucleares Reatores nucleares são instalações que utilizam a reação nuclear de fissão em cadeia, de forma controlada, para a produção de energia ou de fluxo de nêutrons. 60 Quanto ao seu uso, os reatores nucleares podem ser divididos em dois grandes grupos: os reatores de potência, utilizados para a geração núcleo-elétrica em usinas nucleares ou como mecanismos de propulsão naval, e os reatores de pesquisa, usados para experimentos e ensino. A esses últimos poderiam ser adicionados os que são utilizados para a produção de radioisótopos, denominados de reatores de multipropósito, e os para testes de materiais. 2.3.1.1. Reatores de potência Os reatores de potência contribuem com 13,4% da produção mundial de energia elétrica e são instalações que utilizam a energia nuclear para a produção de calor, que é então transformado em energia elétrica. Existem diferentes projetos de reatores de potência, que criam condições para a realização da reação em cadeia, seu controle e a transmissão do calor gerado para um sistema que movimenta uma turbina a vapor, que é o dispositivo gerador da energia elétrica. Alguns reatores trabalham com o urânio enriquecido, outros com o urânio natural. Nesse caso, para criar as condições para a realização da fissão, esses reatores utilizam o combustível em um ambiente de água pesada, que é a água enriquecida em isótopos mais pesados do hidrogênio (deutério e trítio). Os reatores de potência utilizados no Brasil são do tipo PWR (Pressurized Water Reactor) e utilizam a água leve sob pressão como meio de retirada do calor produzido. A água leve é a água na proporção natural dos isótopos de oxigênio e hidrogênio, sendo assim denominada para diferenciar da água pesada. Os principais componentes desse tipo de reator são: O vaso do reator, onde fica o núcleo do combustível; O sistema primário de refrigeração, que é o sistema onde circula a água que está em contato com o núcleo; O pressurizador, componente do sistema primário que tem a função de permitir o adequado controle da pressão; O sistema secundário, que é o circuito onde circula a água que recebe o calor do circuito primário e é transformada em vapor para a movimentação da turbina; O gerador de vapor, que é o equipamento onde se dá a troca de calor entre o sistema secundário e o sistema primário, através da interpenetração de suas tubulações, sem haver troca de água entre eles. Os circuitos primário e secundário são selados, isto é, não se comunicam com o ambiente. Existe ainda um circuito terciário de refrigeração, para baixar a temperatura da água do circuito secundário. Esta água está em forma de vapor e, para condensá-la, é necessária outra fonte de refrigeração. No caso das usinas brasileiras, a água do circuito terciário é a água do mar. Em outros países é usada a água de rios ou a refrigeração é feita pela circulação da água do secundário em altas torres, que se assemelham a grandes e largas chaminés. A Figura 2.23 apresenta o esquema de um reator de potência do tipo PWR e a Figura 2.24 apresenta um corte de um reator do tipo de Angra 2. 61 Figura 2.23 - Esquema de um reator de potência do tipo PWR. Figura 2.24 - Reator Nuclear do tipo de Angra 2. O Brasil tem, em funcionamento, duas usinas nucleares de potência, Angra 1 e Angra 2, e uma em construção, Angra 3, constituindo a Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto - CNAAA. As usinas nucleares são operadas pela Eletronuclear, empresa do Ministério de Minas e Energia. Angra 1 é uma usina de fabricação Westinghouse, americana, e tem 626 MWe de potência. Angra 2 é de fabricação Siemens-KWU, alemã, e tem 1.300 MWe de potência. Angra 3 é de fabricação Siemens-KWU, alemã, e tem 1.405 MWe, e se encontra Vaso de Contenção Pressurizador Vaso de Pressão Núcleo do Reator Água Gerador de Vapor Turbina Torre de Alta Tensão Gerador Elétrico Condensador Bomba Tanque de Alimentação Bomba Barras de Controle Circuito Primário Circuito Secundário Circuito de Refrigeração Tomada d’Água Descarga 62 em fase de construção. Embora sejam usinas relativamente antigas, principalmente Angra 1, são atualizadas sistematicamente com os desenvolvimentos de segurança, comoocorre normalmente com os reatores de potência em todo o mundo. A Tabela 2.3 mostra os reatores de potência utilizados para geração nucleo- elétrica em operação e em construção no mundo. Além desses, existem os reatores planejados. Tabela 2.3 - Reatores nucleares de potência no Mundo http://www.world-nuclear.org/info/reactors.htm REATORES NUCLEARES NO MUNDO – 2013 País Em operação Em construção % Geração Elétrica (em 2011) No Reatores Total MWE No Reatores Total MWE África do Sul 2 1.800 - - 5,2 Alemanha 9 12.003 17,8 Argentina 2 935 1 745 5,0 Armênia 1 376 33,2 Bélgica 7 5.943 54,0 Brasil 2 1.901 1 1.405 3,2 Bulgária 2 1906 32,6 Canadá 19 13.553 15,3 China 173 13.955 28 30.550 1,8 Eslovênia 1 696 41,7 Emirados Árabes 1 1.400 Espanha 79 7.002 19,5 Estados Unidos 103 101.570 3 3.618 19,2 Finlândia 4 2.741 1 1.700 31,6 França 58 63.130 1 1.720 77,7 Holanda 1 485 3,6 Hungria 4 1.755 42,2 Índia 20 4.385 7 5.300 3,7 Irã 2 2.111 Japão 50 44.396 3 3.036 18,1 Coreia do Sul 23 20.787 4 5.415 34,6 México 2 1.600 3,6 Paquistão 3 725 2 680 3,8 Reino Unido 16 10.038 17,8 Rep. Checa 6 3.766 33,0 Romênia 2 1.310 19,0 Rússia 33 24.169 10 9.160 17,6 Suécia 10 9.399 39,6 Suíça 5 3.252 40,8 Ucrânia 15 13.168 47,2 TOTAL 435 374.524 66 68.309 63 2.3.1.2. Reatores de pesquisa Os reatores de pesquisa são normalmente reatores com potência relativamente baixa em comparação com os destinados à geração de energia. No Brasil existem quatro reatores de pesquisa em operação: a) Reator IEA-R1 no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares - IPEN/CNEN em São Paulo; b) Reator IPEN-MB-01 no Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo - CTMSP; c) Reator Triga no Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear - CDTN/CNEN em Belo Horizonte; d) Reator Argonauta no Instituto de Engenharia Nuclear - IEN/CNEN, no Rio de Janeiro. O reator IEA-R1 tem 5 MWe de potência e além de ser usado para pesquisa, é usado para a produção de radioisótopos. Os reatores Triga e Argonauta tem a potência da ordem de centenas de kWe. O reator IPEN-MB-01 é usado principalmente para testes de materiais e combustíveis. 2.3.2. O Ciclo do combustível nuclear O Ciclo do Combustível Nuclear compreende todos os processos e manuseios pelos quais o combustível nuclear tem que passar, desde a mineração até a disposição do rejeito radioativo. O escopo do ciclo do combustível pode variar consideravelmente porque cada um dos muitos tipos de reator existentes no mundo tem seu combustível diferente, que requer um tratamento distinto em sua produção (Figura 2.25). Os reatores à água pressurizada (pressurized water reactor - PWR) e reatores à água fervente (boiling water reactor - BWR), que juntos constituem a grande maioria dos reatores comerciais em funcionamento, têm, para todos os propósitos práticos, o mesmo ciclo de combustível, mudando somente o nível de enriquecimento do combustível e suas dimensões. Reatores a água pesada ou reatores refrigerados a gás, entretanto, não requerem uma planta de enriquecimento do urânio em seu ciclo, pois trabalham com o urânio natural, isto é, na distribuição isotópica encontrada na natureza. 2.3.2.1. A mineração e extração do urânio O urânio é um material relativamente abundante, presente em um grande número de minerais e formações geológicas. Uma quantidade considerável de urânio explorável economicamente existe na Austrália, no Canadá, na Nigéria, nos Estados Unidos e na África do Sul. Embora somente um quarto de seu território tenha sido devidamente prospectado, o Brasil detém a sexta reserva mundial. O teor de urânio nas minas mais ricas varia de 0,1% até quase 1%. Muitas minas de urânio contêm o urânio associado a outros minerais de interesse. No Brasil, o urânio de Itataia, Ceará, está associado ao fosfato. A definição de uma jazida em relação a ser economicamente explorável depende de um conjunto de fatores, como o tipo do minério, a tecnologia disponível e seu rendimento, o preço do urânio no mercado internacional, e fatores ambientais que podem dificultar sua extração. 64 A mineração do urânio pode ser feita a céu aberto ou em minas subterrâneas. No Brasil, Poços de Caldas iniciou-se com mineração subterrânea, passando posteriormente para mineração a céu aberto. A mina de Caetité, na Bahia, utiliza a mineração a céu aberto. Áreas Selecionadas Prospecção de Urânio Pesquisa Corpos Mineralizados Mina e Usina de Beneficiamento de Urânio (Caetité - INB) Minério bruto Produção de Concentrado de Urânio (Yellow-Cake) Yellow-Cake Enriquecimento (Resende -INB) Urânio Natural Conversão para UF6 Urânio recuperado Elemento Combustível gasto Reprocessamento Reator Nuclear Centrais Nucleares (Angra - Eletronuclear) Urânio Enriquecido UF6 Fabricação do Elemento Combustível - FEC UO2 UO2 Rede de Energia Elétrica (Resende -INB) U O3 8 Mina Resíduos Finais Armazenamento de Rejeitos (Exterior) (Não realizado) Figura 2.25 - Esquema do ciclo do combustível nuclear. A extração do urânio depende do minério em que se encontra, a partir do qual é definido o processo de melhor economicidade para sua extração. O minério de urânio é normalmente moído para facilitar o ataque por agentes químicos. O urânio é então 65 lixiviado com ácido para ser extraído do minério. A solução obtida, denominada licor, é depois purificada por métodos químicos comuns. O produto final é um concentrado de urânio (U3O8), sólido, de cor amarela, conhecido por yellow-cake, que contém aproximadamente 70% do urânio do minério. Ainda que uma planta de mineração consuma uma quantidade razoável de água para sua operação, seu funcionamento não precisa se constituir em algo prejudicial para os lençóis de água da região, bastando somente o manejo adequado. Os acidentes potenciais considerados na mineração são aqueles relacionados à mineração convencional de minérios com metais pesados. Os maiores cuidados são relacionados à contaminação ambiental. Em relação ao trabalhador, a maior preocupação para minas a céu aberto é a inalação de poeira e, para minas subterrâneas, além da poeira, a presença de radônio acumulado no ambiente. 2.3.2.2. Conversão para hexafluoreto de urânio (UF6) O concentrado de urânio extraído do minério consiste de óxidos de urânio. Uma planta química converte o óxido de urânio em hexafluoreto de urânio (UF6). O hexafluoreto de urânio é uma substância sólida em temperatura ambiente, que sublima para o estado gasoso na temperatura de 64°C. Ele reage fortemente com água e também com o vapor de água atmosférico. Durante o armazenamento e transporte, o urânio deve ser mantido em contêineres à prova de ar. Esses contêineres são cilindros robustos, de diversos tamanhos padronizados e com qualidade controlada. Nesse estágio do ciclo do combustível o concentrado de urânio é purificado e preparado para o processo de enriquecimento. 2.3.2.3. O enriquecimento isotópico do urânio O processo de enriquecimento consiste em alterar a distribuição isotópica do urânio existente na natureza, aumentando a proporção do isótopo 235 do urânio, criando condições para a realização da reação em cadeia. Os combustíveis de reatores comerciais tipo PWR são enriquecidos em níveis de 3,5 -5,0%. Para reatores de submarinos nucleares ou reatores de pesquisa, o nível de enriquecimento é da ordem de 20%. O método de enriquecimento utilizado no Brasil é o da ultracentrifugaçãogasosa, sendo o Brasil um dos oito países no mundo a dominar a tecnologia do enriquecimento. Nesse processo, o hexafluoreto de urânio, mantido em estado gasoso utilizando parâmetros de pressão e temperatura, é centrifugado em altíssimas velocidades. A fração mais pesada do gás, mais pobre nas moléculas contendo o isótopo 235U, concentra-se nas regiões mais externas do volume da centrífuga, enquanto que a fração mais leve concentra-se junto ao eixo. Separando-se a extração de cada região pode-se obter uma fração mais enriquecida no isótopo 235U, que é o que se deseja, e outra mais empobrecida nesse isótopo. A capacidade de separação de cada unidade isoladamente é muito pequena e é necessária uma enorme quantidade de estágios trabalhando em paralelo e em série. Esses conjuntos constituem-se o que é chamado de uma cascata de enriquecimento. Existem outros métodos de enriquecimento de urânio, como a difusão gasosa, o enriquecimento por separação eletromagnética, o enriquecimento por jato centrífugo, o enriquecimento por troca iônica e o enriquecimento à laser. Dos métodos existentes, somente a ultracentrifugação e a difusão gasosa são utilizados comercialmente nos dias de hoje. No processo de enriquecimento de urânio, além do urânio enriquecido em 235U resulta também o urânio empobrecido nesse isótopo, que também é chamado de urânio 66 depletado. Esse urânio, em função de sua alta densidade específica, tem sido usado como blindagem para radiação gama e também na indústria bélica, em blindagem pesada e em pontas perfurantes de projéteis. O acidente potencial associado com o processo de conversão e com o de enriquecimento é o vazamento de hexafluoreto de urânio. A toxidade química do urânio e do flúor são os principais eventos neste tipo de acidente. A liberação de hexafluoreto resulta na formação de ácido fluorídrico e compostos de flúor e urânio, mais pesados que o ar. O efeito da radioatividade é menos significativo que o efeito tóxico do ácido fluorídrico e que o efeito químico do urânio como metal pesado. 2.3.2.4. A fabricação do elemento combustível Os reatores à água leve, como Angra 1 e Angra 2, utilizam o combustível constituído de óxido de urânio encapsulado em tubos de zircaloy (liga especial, resistente à corrosão, bastante permeável à passagem de nêutrons e boa condutora de calor). O passo seguinte após o enriquecimento é a conversão do hexafluoreto de urânio em pó de dióxido de urânio. Esse processo é comumente denominado reconversão. E consiste em transformar o hexafluoreto de urânio em UO2 que é um pó de coloração cinza escuro metálico. O pó é então comprimido em pequenas pastilhas cilíndricas que são cozidas à uma temperatura da ordem de 1.700 oC. O material assim preparado é um material cerâmico e, pelas suas características, tem alta capacidade de retenção dos produtos de fissão resultantes do processo de reação nuclear. Essas pastilhas recebem um acabamento e são montadas dentro dos tubos de zircaloy. Por sua vez, esses tubos ou varetas são montados em conjuntos sustentados por grades (assemblers), constituindo cada conjunto um elemento combustível. São utilizados 121 elementos combustíveis em um reator do tipo de Angra 1 e 193 elementos em Angra 2. Na planta de reconversão e fabricação de elemento combustível os acidentes potenciais considerados mais relevantes, além do vazamento de hexafluoreto de urânio, são os acidentes de criticalidade. Esses acidentes ocorrem quando por algum motivo uma quantidade de urânio enriquecido suficiente para iniciar uma reação em cadeia é agregada em uma geometria que crie as condições para essa reação. O resultado é a emissão de grande quantidade de radiação e calor. 67 Figura 2.26 - Elemento combustível. 2.3.2.5. O reprocessamento do combustível Depois de utilizado, o combustível queimado de um reator nuclear ainda contém material físsil - valores típicos para reatores à água leve são 0,7-0,8% de 235U e 0,6 a 0,7% de plutônio. O aproveitamento desse material para a fabricação de novos elementos combustíveis pode ser feito por meio do seu reprocessamento. Além do urânio, o plutônio pode ser utilizado para a fabricação de combustível, com óxido misto de urânio e plutônio. Nesse tratamento, os elementos combustíveis são dissolvidos e, através de um conjunto de operações de separação, os materiais utilizáveis são separados dos que são considerados definitivamente rejeitos. O reprocessamento é também realizado com materiais provenientes dos arsenais atômicos. As plantas de enriquecimento e de conversão são projetadas para trabalhar com urânio com uma radioatividade muito pequena. Dessa forma são estabelecidos requisitos muito restritivos para o trabalho com urânio reprocessado, que normalmente vem contaminado com outros materiais provenientes das reações de fissão. 68 Os acidentes potenciais previstos em uma planta de reprocessamento são os de vazamento e de criticalidade, além de explosões químicas e incêndio. As plantas de reprocessamento merecem maior atenção em função da quantidade de material altamente radioativo que manipulam. 2.3.2.6. Rejeitos radioativos no ciclo do combustível Os rejeitos radioativos são constituídos por material não aproveitado produzido em cada uma das fases do ciclo do combustível. Em todas essas fases existe a produção de certa quantidade de material contaminado, como roupas, luvas, ferramentas, filtros e componentes dos equipamentos substituídos. Esses tipos de material fazem parte dos rejeitos de baixa e média atividade. O rejeito da extração do urânio consiste do estéril moído e lixiviado contendo traços de urânio, algum tório, rádio e polônio. Há também o radônio liberado na atmosfera. Muitas vezes são adicionados aditivos para a neutralização da massa de rejeitos. O maior cuidado com os rejeitos da mineração é evitar a contaminação do ambiente com o restante do urânio que não foi retirado do material, mas que se encontra mais disponibilizado depois dos tratamentos a que foi submetido. Na fase de conversão, o principal rejeito é o proveniente da purificação do urânio. No enriquecimento não existe rejeito do processo, exceto material contaminado. Da mesma forma na reconversão e na fabricação de pastilhas e montagem do elemento combustível. Nos reatores de potência tipo PWR, a maior quantidade de rejeito é constituída de rejeitos de baixa e média atividade. Os rejeitos de alta atividade são os que provêm do reprocessamento do combustível queimado. Alguns países optaram por não reprocessar o combustível, como é o caso dos Estados Unidos. Nesse caso, o rejeito de alta atividade é o próprio combustível queimado. O reprocessamento, além do material contaminado, produz como rejeito o material que é separado daquele que será reutilizado. 2.3.2.7. Instalações nucleares industriais do Ciclo do Combustível no Brasil Caetité-BA No interior da Bahia, na cidade de Caetité, encontram-se as instalações da URA- Unidade de Concentrado de Urânio das Indústrias Nucleares do Brasil - INB, que envolvem a mina e o beneficiamento do minério. Esse urânio é extraído do minério pelo processo de lixiviação estática e beneficiado no local, produzindo o yellow-cake, que é enviado ao exterior para purificação, conversão em hexafluoreto de urânio e posterior enriquecimento. A previsão de produção é de 400 t/ano de U3O8 na forma de diuranato de amônio (DUA). Resende No acordo de Cooperação Nuclear com a Alemanha foi acertada a transferência de tecnologia de várias etapas da fabricação do elemento combustível nuclear. Assim, foram construídasem Resende, com tecnologia alemã, as instalações das Indústrias Nucleares do Brasil - INB - referentes à fabricação de pó e das pastilhas e à fabricação de componentes e montagem do elemento combustível. 69 O urânio, após o processo de enriquecimento, é recebido nas instalações da INB ainda na forma de hexafluoreto de urânio e é processado para a obtenção do pó e para a confecção das pastilhas. Essas pastilhas são montadas em varetas, com sistemas de molas, para pressionar as pastilhas e guardar espaço para os gases radioativos e inertes, gerado em seu interior. As varetas são montadas em grades e cada conjunto constitui um elemento combustível para o reator. Parte do urânio enriquecido utilizado nas usinas Angra 1 e Angra 2 é produzida nas instalações de Resende onde estão sendo construídas as cascatas para enriquecimento em escala industrial, que utiliza a tecnologia nacional de ultracentrifugação transferida pela Marinha do Brasil. No ano de 2014 está previsto a conclusão do Módulo 2 da Usina de Enriquecimento, que ampliará a capacidade nacional de enriquecimento de urânio. Nos anos de 2015 e 2016 está prevista a entrada em operação dos Módulos 3 e 4 da Usina de Enriquecimento. Poços de Caldas As atividades de mineração da antiga mina de urânio estão definitivamente suspensas. Existem projetos de uso de suas instalações para os laboratórios de análise da INB e para o desenvolvimento e estudos de processos envolvendo a mineração e o beneficiamento de urânio. 2.3.2.8. Instalações nucleares de pesquisa no Brasil O Brasil é um dos poucos países do mundo a possuir o domínio completo da tecnologia do Ciclo do Combustível Nuclear. Esse desenvolvimento tecnológico foi feito principalmente nas instalações do IPEN e do Centro de Tecnologia da Marinha de São Paulo (CTMSP), antiga COPESP. Os demais institutos da CNEN e centros de pesquisa de outras instituições também participaram deste programa como um todo. IPEN-SP O Instituto de Pesquisa Energéticas e Nucleares – IPEN, foi fundado como Instituto de Energia Atômica em 1956, com a finalidade de abrigar o reator IEA-R1, recebido naquele ano através do programa Átomos para a Paz. Está localizado na Campus da USP, em São Paulo. Em torno do reator, que ficou pronto apenas um ano depois, em 1957, foram desenvolvidas atividades diversas, criando o principal núcleo de pesquisas na área nuclear no País. Além do IEA-R1, que teve sua potência original aumentada de 3,5 MW para 5,0 MW, foi construído no IPEN, em colaboração com a Marinha, o reator MB-01, utilizado para testes de materiais e configurações de combustíveis no núcleo. O IPEN mantém em funcionamento sua capacidade de produzir combustível para reatores de pesquisa, trabalhando principalmente com ligas de urânio metálico. Tem ainda condições de produzir esse combustível à partir do hexafluoreto enriquecido. Além de produzir o combustível para o IEA-R1, produz também para os outros reatores de pesquisa do país. Grande parte das instalações, onde foram realizados muitos dos trabalhos pioneiros do desenvolvimento nacional da tecnologia do ciclo do combustível, está hoje desativada. No IPEN existe também um irradiador de cobalto de grande porte, de fabricação totalmente nacional e dois cíclotrons para a produção de radiofármacos de meia-vida curta. São áreas de pesquisa do IPEN a produção de radiofármacos, as aplicações industriais da energia nuclear, o desenvolvimento de lasers, a aplicação de 70 técnicas nucleares na área ambiental, além de pesquisas em outras áreas correlatas, como células de combustível. O IPEN é o centro de preparação e distribuição de Molibdenio-99, que produz o Tecnécio-99m, radiofármaco mais utilizado em medicina no Brasil e no mundo. O IPEN é também o responsável pela coordenação do Projeto do Reator Multipropósito Brasileiro - RMB, em desenvolvimento com o apoio de outros institutos da CNEN, com o objetivo de produzir radioisótopos para uso diverso (principalmente Molibdênio-99), de permitir o testes de materiais e de disponibilizar feixe de nêutrons para atividades de pesquisa e desenvolvimento. CTMSP O Centro de Tecnologia da Marinha em São Paulo - CTMSP, tem suas principais instalações construídas no local denominado Aramar (de ara-terra e mar-Marinha), situa-se em Iperó, no estado de São Paulo. É o principal centro de pesquisas da Marinha do Brasil para a área nuclear, e reúne as principais pesquisas em andamento no ciclo do combustível nuclear no Brasil. Neste local, está em construção o reator protótipo de propulsão naval (LABGENE), que servirá de base para o reator para o futuro submarino nuclear. No CTMSP, além das instalações piloto e de demonstração de enriquecimento de urânio por ultracentrifugação, estão instalações voltadas para o desenvolvimento e fabricação de elemento combustível para reatores de pesquisa. Está também em construção uma unidade de demonstração de purificação de urânio e conversão para hexafluoreto de urânio. O CTMSP possui também instalações de pesquisa e desenvolvimento na Cidade Universitária da USP, na cidade de São Paulo, junto ao IPEN, onde são realizadas pesquisas complementares. CDTN-BH O Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear - CDTN, situado no campus da UFMG, em Belo Horizonte, é o sucessor do antigo Instituto de Pesquisas Radioativas - IPR, primeiro instituto voltado para a área nuclear no País, fundado em 1953. O CDTN conta com um reator Triga para pesquisas e análises radioquímicas, além de um irradiador de cobalto para desenvolvimento de trabalhos na área de irradiação de materiais e estudos com pedras semipreciosas. Durante o Acordo Brasil-Alemanha, o CDTN foi o principal centro nacional de suporte técnico para as pesquisas de desenvolvimento do processo de enriquecimento por jatocentrífugo, no tempo em que a Nuclebrás era a empresa responsável pelas atividades industriais nucleares no país. Esse processo era desenvolvido em conjunto com a Alemanha. O CDTN mantém pesquisas na área de combustíveis de reatores e de corrosão de materiais. É também o principal centro nacional no estudo de gestão de rejeitos e de projeto de repositórios para rejeitos de baixo e médio nível de atividade. Executa também trabalhos e pesquisas na área ambiental, envolvendo radionuclídeos ou técnicas nucleares. IEN-RJ O Instituto de Engenharia Nuclear - IEN localiza-se na Ilha do Fundão, no Campus da UFRJ. Foi fundado em 1962 e seu início foi marcado pela construção do reator Argonauta, de um projeto feito em Argonne (EUA) e com fabricação totalmente nacional. 71 O reator, ainda em funcionamento, é utilizado principalmente para atividades de ensino, de radioquímica e de estudo de interação de nêutrons com a matéria. No início de sua existência, o IEN dedicou a pesquisas na área de reatores rápido. Possui também looping de água para estudos de tubulações em reatores. O IEN foi o pioneiro na implantação bem como na produção de radionuclídeos com cíclotron no País. Na fase de desenvolvimento do Programa Autônomo para o Ciclo do Combustível, o IEN participou principalmente do desenvolvimento de substâncias químicas essenciais e estratégicas para as diversas etapas da produção do combustível nuclear e no desenvolvimento de instrumentação nuclear, sendo responsável pela atualização de mesas de controle de vários equipamentos de grande porte no próprio IEN e em outras instalações nucleares. Desenvolveu também pesquisas sobre o processo de enriquecimento de urânio utilizando colunas de resina de troca iônica. Atuou também na área de caracterização do combustível de reatoresde pesquisa produzido com urânio metálico. Atualmente desenvolve trabalhos na área de interação homem-sistema, com estudos de simuladores e desenvolvimento de ambientes de trabalho. IRD-RJ O Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD) teve sua origem na década de 1960 em um pequeno laboratório de dosimetria do Departamento de Pesquisas Científicas e Tecnológicas da CNEN, situado nas dependências da PUC-RJ. Em 21 de março de 1972, o Laboratório de Dosimetria foi transferido para suas novas instalações na Barra da Tijuca, passou a integrar o Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear da Companhia Brasileira de Tecnologia Nuclear (CBTN) e, em 29 de janeiro de 1974, passou a denominar-se Instituto de Radioproteção e Dosimetria. Em 16 de janeiro de 1974 a CBTN foi sucedida pelas Empresas Nucleares Brasileiras (NUCLEBRÁS) que incorporou o IRD e, em 26 de julho de 1979, ele foi reincorporado à CNEN. O IRD é uma unidade da CNEN dedicada à pesquisa, desenvolvimento e ensino na área de proteção radiológica, dosimetria e metrologia das radiações ionizantes, atua em colaboração com universidades, agências governamentais, hospitais e indústrias para promover o uso seguro das radiações ionizantes e da tecnologia nuclear. Além disso, possui cursos de divulgação, especialização, mestrado e doutorado, com a finalidade básica de formação de recursos humanos especializados nas suas áreas de atuação. Possui estreita ligação com setores de segurança e proteção radiológica da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), Comissão Internacional de Proteção Radiológica (ICRP) e United Nations Scientific Committee on the Effects of Atomic Radiation (UNSCEAR) e, em metrologia com o Bureau International de Pesos e Medidas (BIPM). É o laboratório designado pelo INMETRO para metrologia das Radiações Ionizantes no Brasil e o Laboratório Padrão Secundário pela IAEA. LAPOC-Poços de Caldas-MG O Laboratório de Poços de Caldas destacou-se como local de estudo dos processos de extração e beneficiamento de urânio das diversas jazidas do país, com trabalhos sobre o minério de Poços de Caldas, da jazida de Lagoa Real, em Caetité, e de Itataia. Hoje atua como laboratório de apoio ao licenciamento e controle das instalações nucleares, na área de remediação de áreas degradadas e na avaliação de processos dentro do Ciclo do 72 Combustível. Fornece também apoio analítico e suporte técnico para as atividades de inspeção e avaliação na área mineral e de processamento do urânio. 2.4. INSTALAÇÕES RADIATIVAS NO BRASIL As instalações radiativas podem ser classificadas em 5 grandes áreas conforme mostrado na Figura 2.27. As instalações médicas, industriais, de ensino e pesquisa foram agrupadas pelas práticas adotadas. As áreas de distribuição e serviços estão agrupadas por equipamento ou operações envolvendo fontes de radiação, conforme aplicável. Em 2000, o cadastro nacional incluía 2.925 instalações radiativas. Embora cerca de 70% das instalações estejam concentradas na região Sudeste, é esperado um crescimento nas demais regiões. Das instalações existentes no cadastro, 1.202 operam na área de medicina, 914 na área de indústria, 628 na área de pesquisa e as demais na área de serviços e distribuição. Radioterapia INSTALAÇÕES RADIATIVAS Controle de Processos Agricultura Radionuclídeos Manutenção de Equipamentos Medicina Nuclear Densitometria Óssea Irradiador de Sangue Irradiação Industrial Prospecção Ensaios não Destrutivos Fabricação de Dispositivos Produção de Isótopos Física Nuclear Química Nuclear Biologia Hidrologia Equipamentos Dispositivos Troca de Fontes Calibração de Instrumentos Monitoração Individual Salvaguardas Medicina Indústria Pesquisas Distribuição Serviços Figura 2.27 - Tipos de instalações radiativas no Brasil. 2.4.1. Instalações médicas 2.4.1.1 Serviços de Radioterapia O país segue a tendência mundial de substituição de equipamentos de telecobaltoterapia por aceleradores lineares e de fontes de braquiterapia convencional por equipamentos de alta taxa de dose, além da disseminação dos implantes temporários e definitivos principalmente com fontes de 125I. Em 2013, as 313 instalações de Serviços 73 de Radioterapia no país operaram 78 fontes radioativas de braquiterapia de alta dose, 57 equipamentos de 60Co e 260 aceleradores lineares. 2.4.1.2 Serviços de Medicina Nuclear Os crescentes avanços do uso de radioisótopos em Medicina, tanto devido à substituição dos métodos de irradiações externa por irradiação interna em terapia, como ao emprego de novos radiofármacos em diagnóstico, tem refletido em um enorme crescimento na disseminação e no uso dessas técnicas. 2.4.1.3 Instalações de produção de radiofármacos de meia-vida curta Até o ano de 2006, a produção de radioisótopos para uso médico no Brasil era monopólio estatal, sendo realizada em 4 cíclotrons da CNEN: 2 localizados na cidade de São Paulo e 2 na cidade do Rio de Janeiro. A crescente demanda por radiofármacos emissores de pósitrons, cuja meia vida é menor do que duas horas, levou à mudança na legislação e, em fevereiro de 2006, através da Emenda Constitucional 49, foi quebrado o monopólio estatal para a produção e comercialização de radioisótopos de meia-vida inferior a 2 horas. Desde então, o número de aceleradores cíclotrons privados para a produção de radiofármacos vem crescendo acentuadamente. A partir de 2006 foram instalados mais 9 cíclotrons no país: 1 em Brasília, 2 em Porto Alegre, 1 em Campinas, 1 em São Paulo, 1 em Salvador, 1 em Curitiba, 1 em Belo Horizonte (CNEN) e 1 em Recife (CNEN). Atualmente duas novas instalações estão em construção (São José do Rio Preto/SP e Euzébio/CE). Associadas aos cíclotrons para a produção de radioisótopos de meia-vida curta para uso em medicina, estão instalações de radiofarmácia, responsáveis pela produção das substâncias que serão utilizadas nos diversos processos metabólicos. Dentre os isótopos produzidos por cíclotron para uso em medicina, o mais utilizado é o 18F, de meia vida inferior a duas horas, que decai por emissão de pósitron. Esse pósitron, ao ser liberado, interage com um elétron livre, produzindo dois raios gamas de energia 0,511 MeV e direção opostas. Processando o sinal gerado pela radiação gama, é possível criar imagens com grande precisão para processos diversos, utilizados principalmente para o diagnóstico de câncer e para a área de cardiologia. Os equipamentos que trabalham e formam a imagem proveniente do processamento da radiação de aniquilação do pósitron são os tomógrafos por emissão de pósitrons - PET, que, associados a imagens geradas pela tomografia computadorizada - TC, formam os equipamentos e técnicas conhecidas por PET/CT. O PET/CT utiliza o 18F associado à uma molécula de glicose (2[18F] fluoro-2- deoxi-D-glicose) para o diagnóstico ou mapeamento de tumores. Atualmente outros compostos com o 18F estão em desenvolvimento, assim como o uso de outros emissores de pósitrons (11C, 13N) em instituições de pesquisa brasileiras. No País, até meados de 2013, existiam 91centros utilizando equipamentos de diagnóstico por PET. 74 2.4.2 Instalações industriais 2.4.2.1. Instalações de radiografia industrial A utilização da radiografia industrial no Brasil voltou a ter um aumento de demanda com a construção do gasoduto Brasil-Bolívia e depois com sua duplicação. A radiografia industrial tem grande utilização na verificação da qualidade das soldas nas junções das tubulações. É tambémmuito utilizada no controle da qualidade da produção de peças metálicas ou estruturas de concreto. 2.4.2.2 Indústrias que operam medidores nucleares As indústrias siderúrgicas, petroquímicas, fabricantes de bebidas, de plásticos e papel em geral utilizam equipamentos fixos com fontes radioativas incorporadas para medição de nível ou espessura, assim como medidores portáteis para medição de densidade e compactação de solos. Em junho de 2013 existiam 546 instalações com 4.415 fontes radioativas utilizadas, sendo as principais: 137Cs, 241Am, 60Co, 90Sr e 85Kr. 2.4.2.3. Serviços de perfilagem de petróleo Em 2013, 6 empresas operaram 18 bases de prospecção de petróleo, localizadas nas regiões Norte e Nordeste e na Bacia de Campos com o total de 339 fontes radioativas de 241Am, 60Co, 226Ra, 137Cs e fontes de nêutrons de Am-Be. 2.4.2.4. Irradiadores industriais de grande porte Em 2013 existem no país cinco irradiadores industriais de grande porte, sendo cinco em São Paulo, nas cidades de São José dos Campos, Campinas, Jarinu e Cotia Esses irradiadores operam com fontes de 60Co e são utilizados para esterilização de artigos médicos, de componentes de cosméticos, de ração animal, e em alguns casos, de alimentos para exportação (Tabela 2.4). Além desses, existem 4 aceleradores industriais que produzem feixes de elétrons utilizados principalmente para a polimerização de cabos plásticos, com a finalidade de melhorar suas propriedades mecânicas e de resistência ao tempo (Tabela 2.5). Tabela 2.4 - Irradiadores industriais de grande porte em operação, em 2013, para esterilização de materiais com radiação gama do 60Co. INSTALAÇÃO LOCAL/ESTDO ATIVIDADE (kCi) Unidade de Esterilização de Cotia (Embrarad I) Cotia/SP 780 Unidade de Esterilização de Cotia (Embrarad II) Cotia/SP 2.060 Companhia Brasileira de Esterilização Jarinu/SP 2.700 Johnson& Johnson São José dos Campos/SP 380 IPEN São Paulo/SP 1.000 75 Tabela 2.5 - Aceleradores de elétrons industriais em operação no Brasil, em 2013. INSTALAÇÃO LOCAL/ESTADO ENERGIA (keV) FUNÇÃO Acelétrica Rio de Janeiro/RJ 10.000 Irradiação de turfas Acome Irati/PR 550 Reticulação de polímero (cabos elétricos) Sumitomo Fazenda Rio Grande/PR 500 Reticulação de polímero (pneus) Michelin Rio de Janeiro/RJ 600 Reticulação de polímero (pneus) IPEN São Paulo/SP 1.500 Reticulação de polímero (cabos elétricos) 2.4.3. Instalações de pesquisa O uso de material radioativo em pesquisa se dá principalmente em universidades e centros especializados. As finalidades das pesquisas são as mais diversas: física nuclear, biologia, agricultura, saúde, meio ambiente, hidrologia e outras. Em 2013, 578 instalações de pesquisa estavam cadastradas na CNEN. As fontes mais utilizadas são 3H, 14C, 22Na, 55Fe, 55Ni, 125I, 226Ra, 35S, 233U, 234U e 32P. 76 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E. de Almeida e L. Tauhata, Física Nuclear, Editora Guanabara Dois, Rio de Janeiro, RJ, 1981. Ya.B. Zeldovich and I.D. Novikov, Relativistic Astrophysics, Vol. I, Stars and Relativity, The University of Chicago Press, USA, 1971. NCRP REPORT No.160, Ionizing Radiation Exposure of the Population of the United States, National Council on Radiation Protection and Measurement - 7910 Woodmont Avenue, Suite 400, Bethesda, MD 20814-3095, 2009. UNSCEAR, Report, Sources and Effects of Ionizing Radiation, 1993. http://www.unscear.org/unscear/publications.html. UNSCEAR, Report, Exposures to the public from man-made sources of radiation, Vol. I, Annex C, 2000. http://www.unscear.org/unscear/publications.html. UNSCEAR, Report, Sources and Effects of Ionizing Radiation, Vol. I, 2008. http://www.unscear.org/unscear/publications.html. 77 CAPÍTULO 3 INTERAÇÃO DA RADIAÇÃO COM A MATÉRIA 3.1. IONIZAÇÃO, EXCITAÇÃO, ATIVAÇÃO E RADIAÇÃO DE FREAMENTO Sob o ponto de vista físico, as radiações, ao interagir com um material, podem nele provocar excitação atômica ou molecular, ionização ou ativação do núcleo. 3.1.1. Excitação atômica ou molecular Interação onde elétrons são deslocados de seus orbitais de equilíbrio e, ao retornarem, emitem a energia excedente sob a forma de luz ou raios X característicos. 3.1.2. Ionização Interação onde elétrons são removidos dos orbitais pelas radiações, resultando elétrons livres de alta energia, íons positivos ou radicais livres quando ocorrem quebra de ligações químicas. 3.1.3. Ativação do núcleo A interação de radiações, com energia superior à energia de ligação dos nucleons, com um material, pode provocar reações nucleares, resultando num núcleo residual e emissão de radiação. A absorção de nêutrons de baixa energia, denominados de nêutrons térmicos, pode ocorrer com certa frequência dependendo da natureza do material irradiado e da probabilidade de captura do nêutron pelo núcleo (ver Figura 3.1), deixando- o também em um estado excitado. 3.1.4. Radiação de freamento As radiações constituídas por partículas carregadas, como alfa, beta e elétrons acelerados, ao interagir com a matéria, podem converter uma parte de sua energia de movimento, cerca de 5%, em radiação eletromagnética. Esta radiação, denominada de raios X de freamento, é o resultado da interação entre os campos elétricos da partícula incidente, do núcleo e dos elétrons atômicos. Ocorre com maior probabilidade na interação de elétrons com átomos de número atômico elevado. Devido ao mecanismo e ao ângulo aleatório de saída da partícula após a interação, a energia convertida em raios X é imprevisível, com valor variando de zero até um valor máximo, igual à energia cinética da partícula incidente. 78 Figura 3.1 - Modos de interação da radiação com a matéria. 3.2. RADIAÇÕES DIRETAMENTE E INDIRETAMENTE IONIZANTES No processo de transferência de energia de uma radiação incidente para a matéria, as radiações que têm carga, como elétrons, partículas α e fragmentos de fissão, atuam principalmente por meio de seu campo elétrico e transferem sua energia para muitos átomos ao mesmo tempo, e são denominadas radiações diretamente ionizantes. As radiações que não possuem carga, como as radiações eletromagnéticas e os nêutrons, são chamadas de radiações indiretamente ionizantes, pois interagem individualmente transferindo sua energia para elétrons, que irão provocar novas ionizações. Este tipo de radiação pode percorrer espessuras consideráveis dentro de um material, sem interagir. 3.2.1. Interação No contexto das radiações indiretamente ionizantes (fótons e nêutrons), a palavra interação é aplicada aos processos nos quais a energia e/ou a direção da radiação é alterada. Tais processos são aleatórios e, dessa forma, só é possível falar na probabilidade de ocorrência das interações. 3.2.2. Probabilidade de interação ou secção de choque Secção de choque para uma radiação em relação a um dado material é a probabilidade de interação por unidade de fluência de partículas daquela radiação por centro de interação do material. Fluência é o número de partículas que passa por unidade de área. 79 Secção de choque (σ) para uma radiação em relação a um dado material pode ser representada pela área aparente que um centro de interação (núcleo, elétron, átomo) apresenta para que haja uma interação com a radiação que o atinge. A dimensão da secção de choque é [L2] e a unidade no SI é o m2. Como é utilizada para dimensõesda ordem do raio do núcleo, é adotada uma unidade especial, o barn (b), que vale 10-28 m2. 3.3. INTERAÇÃO DA RADIAÇÃO ELETROMAGNÉTICA COM A MATÉRIA As radiações eletromagnéticas ionizantes de interesse são as radiações X e gama. Devido ao seu caráter ondulatório, ausência de carga e massa de repouso, essas radiações podem penetrar em um material, percorrendo grandes espessuras antes de sofrer a primeira interação. Este poder de penetração depende da probabilidade ou secção de choque de interação para cada tipo de evento que pode absorver ou espalhar a radiação incidente. A penetrabilidade dos raios X e gama é muito maior que a das partículas carregadas, e a probabilidade de interação depende muito do valor de sua energia. Quando a energia dos fótons ultrapassa o valor da energia de ligação dos nucleons, cerca de 8,5 MeV, podem ocorrer as reações nucleares. Assim, para radiações eletromagnéticas com energia de valor no intervalo de 10 a 50 MeV podem ativar a maioria dos elementos químicos com os quais interagir. Nesta região de energia ocorrem as denominadas reações fotonucleares por ressonância gigante. Os principais modos de interação, excluindo as reações nucleares são o efeito fotoelétrico, o efeito Compton e a produção de pares. 3.3.1. Efeito Fotoelétrico O efeito fotoelétrico é caracterizado pela transferência total da energia da radiação X ou gama (que desaparece) a um único elétron orbital, que é expelido com uma energia cinética Ec bem definida, ec BhE onde h é a constante de Planck, é a frequência da radiação e Be é a energia de ligação do elétron orbital. Como Ec difere da energia do fóton de um valor constante Be, com a sua transferência para o material de um detector, pode ser utilizada como mecanismo de identificação do fóton e de sua energia (Figura 3.2) Figura 3.2 - Representação do efeito fotoelétrico. 80 Nota: Como a transferência de energia do elétron de ionização para o meio material produz uma ionização secundária proporcional, a amplitude de pulso de tensão ou a intensidade de corrente proveniente da coleta dos elétrons ou íons, no final do processo, expressam a energia da radiação incidente. A direção de saída do fotoelétron em relação à de incidência do fóton varia com a energia. Para energias acima de 3 MeV, a probabilidade do elétron sair na direção e sentido do fóton é alta; para energias abaixo de 20 keV a maior probabilidade é a de sair com um ângulo de 70. Isto se deve à ação dos campos elétrico e magnético que, variando na direção perpendicular à de propagação do fóton, exercem força sobre o elétron na direção de 90°, e se compõe com o momento angular do elétron. Nota: O alcance de um fotoelétron de 1 MeV é cerca de 1,8 mm no NaI(Tl) e 0,8 mm no Ge, que são substâncias utilizadas para a confecção de detectores de radiação. O efeito fotoelétrico é predominante para baixas energias e para elementos químicos de elevado número atômico Z. A probabilidade de ocorrência aumenta com (Z)4 e decresce rapidamente com o aumento da energia. Para o chumbo, o efeito fotoelétrico é predominante para energias menores que 0,6 MeV e para o alumínio para energias menores que 0,06 MeV. Para os elétrons do mesmo átomo, a probabilidade de ocorrência do efeito fotoelétrico é maior para os que possuem maior energia de ligação, isto é, os elétrons das camadas K, L e M. Na Figura 3.3 são apresentados os valores dos coeficientes de atenuação total para radiação gama para o chumbo, em função da energia, onde se pode observar a contribuição do efeito fotoelétrico e das energias de ligação das camadas eletrônicas K e L, nas faixas de energia de 10,4 a 59,8 keV e 74,8 a 89 keV. 3.3.2. Pico de absorção K para o efeito fotoelétrico Para que o processo fotoelétrico ocorra com um elétron em particular, a energia do fóton não pode ser menor que a energia de ligação Be deste elétron no átomo. Para fótons com energia maior que Be, a probabilidade decresce à medida que cresce essa energia, isto é, a probabilidade de interação é máxima quando a energia do fóton for igual a energia de ligação Be. Nessa região de energia, a seção de choque atômica para o efeito fotoelétrico varia aproximadamente com (ℎ𝑣)−3. Mais de 80% das interações primárias são na camada K, quando a interação com essa camada é permitida (h v > BK). Quando a energia do fóton atinge a energia de ligação da camada K, há então uma descontinuidade na curva que descreve a probabilidade de interação em função da energia, chamada de pico de absorção K. A probabilidade de interação, que vinha decrescendo com o aumento da energia do fóton, sofre um acréscimo repentino, para depois cair novamente. Efeito similar ocorre com a camada L. A Figura 3.3 mostra essas características para o chumbo. 81 Figura 3.3 - Valores de secção de choque para efeito fotoelétrico para o chumbo, em função da energia da radiação. 3.3.3. Efeito Compton No efeito Compton, o fóton é espalhado por um elétron de baixa energia de ligação, que recebe somente parte de sua energia, continuando sua sobrevivência dentro do material em outra direção e com menor energia. Como a transferência de energia depende da direção do elétron emergente e esta é aleatória, de um fóton de energia fixa podem resultar elétrons com energia variável, com valores de zero até um valor máximo. Assim, a informação associada ao elétron emergente é desinteressante sob o ponto de vista da detecção da energia do fóton incidente. Sua distribuição no espectro de contagem é aleatória, aproximadamente retangular. A energia do fóton espalhado E´ depende da energia do fóton incidente E e do ângulo de espalhamento , em relação à direção do fóton incidente, dada pela expressão, 𝐸𝛾 ´ = 𝐸 1 + 𝛼(1 − 𝑐𝑜𝑠𝜃) onde 𝛼 = 𝐸𝛾 𝑚𝑜𝑐2 A energia do fóton espalhado é máxima para = 0o e mínima para = 180o. A energia cinética do elétron ejetado é máxima para este caso, e igual a, 𝑇 = 𝑇𝑚𝑎𝑥 = 𝐸 2𝛼 1 + 2𝛼 82 Figura 3.4 - Representação do efeito Compton. Quando a energia de ligação dos elétrons orbitais se torna desprezível face à energia do fóton incidente, a probabilidade de ocorrência de espalhamento Compton aumenta consideravelmente. O efeito Compton se torna mais provável quando a energia da radiação gama incidente aumenta de valor, ou quando a energia de ligação do elétron que sofre a incidência possui um valor comparativamente menor, a ponto de, considerá-la desprezível em relação à da radiação incidente. O formalismo físico-matemático anteriormente descrito foi simplificado à semelhança de uma colisão mecânica e, assim, expressões para a energia do fóton espalhado, com um ângulo , e do elétron emergente, com um ângulo 𝜑, puderam ser obtidas facilmente. Nesta descrição, assim como para o efeito Fotoelétrico, considera-se que o fóton se comporta como um corpúsculo e o elétron como uma partícula livre. Entretanto, sabe-se que isto constitui aproximações pragmáticas, sem o tratamento quântico mais rigoroso. Na descrição da Física Quântica, a interação do fóton com o elétron, é tratada no formato de probabilidades de interação, que nada mais são que as secções de choque microscópicas. Nesta descrição, são envolvidos o formalismo de Dirac (ver: C. Cohen- Tannoudjii, B. Diu, F. Laloé, Mécanique Quantique, Herman 1973) e o modelo de Klein- Nishina (O. Klein, Y. Nishina: Z. der Physik 52, p.863 (1929)). O cálculo da secção de choque de espalhamento Compton, descreve o evento como resultado de doisprocessos, com diferentes estados intermediários: 1) O fóton incidente E = hvo é totalmente absorvido pelo elétron, que então atinge um estado intermediário de momento hvo/c. Na transição para o estado final, o elétron emite o fóton E´ = hv´. 2) O elétron que emitiu o fóton hv´, atinge um estado intermediário com momento (- hv/c), ficando então presentes, dois fótons hvo e hv´. Na transição para o estado final, o fóton hvo é então absorvido pelo elétron. 83 Com esta descrição do processo de espalhamento Compton, a secção de choque total de colisão c, fica composta de uma secção de choque de espalhamento (emissão) da radiação gama sc e uma secção de choque de absorção de energia da radiação eletromagnética ac. Na Figura 3.5 são mostrados os valores da variação da secção de choque para espalhamento Compton em função da energia da radiação. Figura 3.5 - Valores de seção de choque para espalhamento Compton (e) em função da energia do fóton; eσa é a seção de choque de absorção e eσs é a seção de choque de espalhamento da radiação no Efeito Compton. 3.3.4. Espalhamento Compton coerente ou efeito Rayleigh Em interações de fótons de baixa energia com elétrons muito ligados, pode ocorrer uma interação onde o átomo todo absorve o recuo e o fóton praticamente não perde energia, mudando simplesmente sua direção. Esse tipo de interação é denominado espalhamento Compton coerente ou efeito Rayleigh, e a direção de espalhamento predominante é para a frente. O efeito Rayleigh tem maior probabilidade de ocorrência para baixas energias dos fótons e para valores altos de Z. Para o carbono, o efeito Rayleigh ocorre na região dos 20 keV de energia dos fótons e contribui com um máximo de 15% de participação na atenuação total. O efeito Rayleigh pode ser considerado como um caso particular do espalhamento Compton. 3.3.5. Formação de par Uma das formas predominantes de absorção da radiação eletromagnética de alta energia é a produção de par elétron-pósitron. Este efeito ocorre quando fótons de energia superior a 1,022 MeV passam perto de núcleos de número atômico elevado, interagindo com o forte campo elétrico nuclear. Nesta interação, ilustrada na Figura 3.6, a radiação desaparece e dá origem a um par elétron-pósitron (2mc2 = 1,022 MeV), por meio da reação: cinéticaenergiaee 84 As duas partículas transferem a sua energia cinética para o meio material, sendo que o pósitron volta a se combinar com um elétron do meio e dá origem a 2 fótons, cada um com energia de 511 keV. Nota: No caso de ocorrer a formação de par num detector, dependendo de suas dimensões, a probabilidade de escape de um fóton ou mesmo até dos 2 fótons de 511 keV, pode ser significativa e, assim, no espectro, observam-se 3 picos de contagem; o primeiro correspondente à energia do fóton incidente, o segundo com energia desfalcada de 511 keV e o terceiro, desfalcado de 1,02 MeV, correspondentes, respectivamente, à detecção total do fóton, aos escape simples e duplo. Figura 3.6 - Representação do efeito de produção de pares. 3.3.6. Importância relativa dos efeitos fotoelétrico, Compton e produção de pares As interações fotoelétricas predominam para todos os materiais em energias de fótons suficientemente baixas, mas à medida que a energia cresce, o efeito fotoelétrico diminui mais rapidamente que o efeito Compton e este acaba se tornando o efeito predominante. Continuando a aumentar a energia do fóton, ainda que o efeito Compton decresça em termos absolutos, continua aumentando em relação ao efeito fotoelétrico. Acima da energia de alguns MeV para o fóton, a produção de pares passa a ser a principal contribuição para as interações de fótons. A Figura 3.7 mostra a variação da participação de cada um desses processos para a variação de Z e da energia dos fótons. A Figura 3.8 mostra essa contribuição para o caso do carbono e do chumbo. 85 Figura 3.7 - Importância relativa dos diversos processos de interação dos fótons com a matéria em função da energia do fóton e do número atômico do material. Figura 3.8 - Probabilidade relativa de diferentes efeitos para fótons de diferentes energias no carbono e no chumbo. 3.3.7. Coeficiente de atenuação linear total, μ Quando um feixe de radiação gama ou X incide sobre um material de espessura x, parte do feixe é espalhada, parte é absorvida pelos processos já descritos e uma fração atravessa o material sem interagir. A intensidade I do feixe emergente está associada à intensidade Io do feixe incidente, pela relação: 86 xeII 0 onde μ é a probabilidade do feixe sofrer atenuação devido a eventos de espalhamento Compton, absorção fotoelétrica ou formação de pares, sendo denominado de Coeficiente de Atenuação Linear Total. Assim, negligenciando as reações fotonucleares e o espalhamento Rayleigh, o coeficiente de atenuação linear total pode ser escrito como: onde σ é o coeficiente de atenuação linear Compton total (espalhamento e absorção), que é a probabilidade do fóton ser espalhado para fora da direção inicial do feixe pelo material absorvedor; κ é o coeficiente de atenuação devido ao efeito fotoelétrico; e τ é o coeficiente de atenuação linear devido à formação de par. A Figura 3.9 ilustra o processo de atenuação para um feixe de intensidade I0. Figura 3.9 - Atenuação de um feixe de fótons por um material de espessura X. 3.3.8. Coeficiente de atenuação linear em massa O coeficiente de atenuação de um material para um determinado tipo de interação varia com a energia da radiação, mas depende, para um mesmo material, de seu estado físico ou fase. Assim, por exemplo, a água pode possuir valores diferentes de seus coeficientes de atenuação conforme esteja no estado de vapor, líquido ou sólido (gelo). Da mesma forma, o carbono depende de suas formas alotrópicas de apresentação: grafite, diamante ou pó sinterizado. Para evitar esta dificuldade, costuma-se tabelar os valores dos coeficientes de atenuação divididos pela densidade do material, tornando-os independentes de sua fase. O coeficiente de atenuação, assim tabelado, tem a denominação de Coeficiente Mássico de Atenuação ou Coeficiente de Atenuação em Massa (μ/ρ). 87 Figura 3.10 - Contribuição relativa dos diversos efeitos produzidos pela interação da radiação num material para o coeficiente de atenuação linear total. 3.3.9. Coeficiente de atenuação e secção de choque microscópica Os efeitos fotoelétricos, Compton e formação de par, muitas vezes são expressos pelas suas secções de choque microscópica de interação, em que os vínculos entre seus valores e os coeficientes de atenuação são dado pelas expressões, Efeito Fotoelétrico: Af N A gcm 1 )/( 2 88 Efeito Compton: Ae N A Z gcm )/( 2 Formação de Par: Ap N A gcm 1 )/( 2 onde A é o número de massa (em g/mol), NA é o número de Avogadro = 6,02.10 23 (em átomos/mol) e Z é o número atômico. τf, σe e κp são as secções de choque microscópicas (em cm2/átomo) para os efeitos fotoelétrico, Compton e formação de pares, respectivamente. 3.3.10. Coeficiente de atenuação linear total de uma mistura ou composto O coeficiente de atenuação linear em massa μ/ρ para uma mistura ou substância química composta é obtido pela relação: i i i i w onde wi é a fração em pesodo elemento i na mistura ou composto, μi é o coeficiente de atenuação do elemento i e ρi é a densidade do elemento i. Para compostos, esta expressão eventualmente pode falhar devido a efeitos de absorção ressonante de fótons em certas faixas de energia. 3.3.11. Coeficiente de transferência de energia O coeficiente total de transferência de energia para interações com fótons, desprezando qualquer reação fotonuclear, é dado por: trtrtrtr O coeficiente de atenuação linear total em massa μ/ρ está relacionado com o coeficiente de transferência de energia em massa por meio de seus componentes, h mc h atr 22 11 onde /h é a fração emitida pela radiação característica no processo de efeito fotoelétrico (δ é a energia média emitida como radiação de fluorescência por fóton absorvido e h é a energia do fóton incidente); 89 a/ é a fração de energia do efeito que é efetivamente transferida, isto é, que não é levada pelo fóton espalhado; /.(1-2mc2/h) é a fração que resta no efeito de formação de pares, subtraindo-se a energia dos dois fótons de aniquilação; e h é a energia do fóton incidente. 3.3.12. Coeficiente de absorção de energia A energia transferida dos fótons para a matéria sob a forma de energia cinética de partículas carregadas não é necessariamente toda absorvida. Uma fração g dessa energia pode ser convertida novamente em energia de fótons pela radiação de freamento. A energia absorvida dada pelo coeficiente de absorção μen é dada por: )1( gtren A fração g pode ser de um valor apreciável para interação de fótons de altas energias em material de número atômico elevado, mas normalmente é muito pequena para material biológico. Nas estimativas da dose absorvida nos materiais e tecidos, deve-se utilizar este coeficiente de absorção de energia e não o coeficiente de atenuação total. Valores dos coeficientes de atenuação em massa e de absorção de energia em massa associados aos elementos químicos e alguns compostos importantes utilizados em dosimetria e blindagem são fornecidos pelo site do National Institute of Standards and Technology (NIST) dosEstadosUnidos: www.physics.nist.gov/PhysRefData/XrayMassCoef/ em Summary, Table 3 e Table 4. 3.4. INTERAÇÃO DE NÊUTRONS COM A MATÉRIA O nêutron possui grande massa e carga nula e por isso não interage com a matéria por meio da força coulombiana, que predomina nos processos de transferência de energia da radiação com partículas carregadas para a matéria. Por isso é bastante penetrante e, ao contrário da radiação gama, as radiações secundárias são frequentemente núcleos de recuo, principalmente para materiais hidrogenados, com alto poder de ionização. Além dos núcleos de recuo, existem os produtos de reações nucleares tipo (n, α), altamente ionizantes. A atenuação de um feixe de nêutrons por um material é do tipo exponencial, xtoteII 0 onde I é a intensidade do feixe após a espessura x, I0 é a intensidade do feixe de nêutrons incidente e Σtot é a secção de choque macroscópica total para nêutrons com energia E. A secção de choque total é obtida por: Ntot onde N = número de núcleos por cm3 (= NA.ρ/A); 90 σ = secção de choque microscópica do elemento do material para energia E do nêutron (em barn = 10-24 cm2); NA = número de Avogadro (6,02.10 23 átomos/átomo grama ou mol); ρ = densidade do material (em g.cm-3); e A = número de massa expresso (em g). A secção de choque macroscópica total é a probabilidade do nêutron sofrer espalhamento ou captura, por unidade de comprimento. Desta forma, seu valor é dado pela soma das secções de choque de espalhamento e de captura. Para um material alvo composto de massa molecular M, densidade , número N de átomos da espécie i por cm3, a secção de choque macroscópica é obtida pela soma ponderada das secções de choque dos elementos que compõem a molécula, ou seja, Σ = 𝑁1𝜎1 + 𝑁2𝜎2 + ⋯+ 𝑁𝑖𝜎𝑖 = 𝜌𝑁𝐴 𝑀 (𝑛1𝜎1 + 𝑛2𝜎2 + ⋯+ 𝑛𝑖𝜎𝑖) onde ni é o número de átomos da espécie i na molécula do composto. O conceito inicial de secção de choque microscópica σ, era de caráter geométrico, ou seja, sabendo-se que o raio nuclear é da ordem de 10-12 cm, a sua área de impacto para uma partícula nele incidente seria da ordem de 10-24 cm2. Assim, o seu valor seria adequadamente expresso por uma unidade denominada de barn (sendo que 1 barn = 10- 24 cm2). Entretanto, apoiado nos dados experimentais e nos conceitos estabelecidos pela mecânica quântica, sabe-se que ela representa somente uma probabilidade de interação, e seu valor pode exceder, ou não, a correspondente área geométrica de impacto nuclear. Isto fica bem explicito nos valores da secção de choque de reação nas regiões de ressonância, por exemplo, de captura. Ao contrário das demais radiações, o nêutron tem facilidade de interagir com o núcleo atômico e, às vezes, ativá-lo. O material para a sua blindagem deve ter baixo Z para atenuar significativamente a energia do nêutron no processo de colisões sucessivas ou apresentar reação nuclear de captura para absorvê-lo. Fluxos intensos de nêutrons, mono e polienergéticos, podem ser gerados por reatores, artefatos nucleares, reações nucleares do tipo (α,n) com fontes de Am-Be, Po- Be, Pu-Be, Ra-Be, etc., além de reações nucleares (γ,n), (p,n) produzidas em alvos expostos a aceleradores de partículas, cíclotrons, e outros tipos de máquinas. 3.4.1. Classificação da energia dos nêutrons Os nêutrons apresentam propriedades de interação muito dependentes da sua energia. Existem faixas de energia em que ocorrem ressonâncias no processo de captura, o que interfere fortemente na taxa de reações nucleares. Estas ressonâncias constituem argumentos básicos para o comportamento quântico das interações entre partículas e núcleos. Por isso, dependendo de sua faixa de energia ele recebe denominações conforme é mostrado na Tabela 3.1. 91 Tabela 3.1 - Denominação dos nêutrons de acordo com sua energia. Denominação Energia Térmico 0,025 eV Epitérmico 0,025 eV ≤ E ≤ 0,4 eV Lento 1 eV ≤ E ≤ 10 eV Lento 300 eV ≤ E ≤ 1 MeV Rápido 1 MeV ≤ E ≤ 20 MeV 3.4.2. Tipos de interação com nêutrons Reações com nêutrons podem ser, grosseiramente, classificadas em duas classes, denominadas de espalhamento e absorção. Nas reações de espalhamento, o resultado final envolve uma troca de energia entre as partículas em colisão, e o nêutron permanece livre após a interação. Nos processos de absorção, o nêutron é retido pelo núcleo e novas partículas são formadas. As reações de espalhamento podem ocorrer em duas maneiras, denominadas de espalhamento elástico e espalhamento inelástico. O espalhamento elástico ocorre quando o nêutron colide com um núcleo alvo de massa igual ou próxima à dele, como os materiais hidrogenados. Neste tipo de interação, há a conservação da energia cinética, o nêutron muda de direção e transfere parte de sua energia para o núcleo alvo. No espalhamento inelástico, o núcleo alvo tem massa maior que a dele, sendo por ele capturado, formando um núcleo composto num estado excitado, que decai num outro nêutron de menor energia e com a emissão do restante de energia sob a forma de radiação gama. Portanto, neste processo não há a conservação da energia cinética, pois parte da energia de movimento do nêutron inicial se converteu em energia gama. Nas reações de absorção ou de captura,os processos mais importantes são as de captura radiativa e a fissão. As reações de captura radiativa, do tipo (n,) ou com a emissão de partícula carregada do tipo (n,α) e (n,p) e, alguns casos especiais, (n,f) ou seja, fissão nuclear, ocorrem com muito mais frequência com nêutrons térmicos ou lentos. As reações com nêutrons rápidos são de baixa probabilidade e ocorrem com poucos núcleos. Uma das reações de grande importância na física de reatores, é a reação (n,p) que ocorre nos reatores refrigerados a ar ou água, onde existe grande quantidade de oxigênio disponível. Esta reação, gera o hidrogênio nascente no interior do reator e o 16N de meia- vida de 7,13 s, emissor beta e duas radiações gama de alta energia E1=6,13 MeV (68%) e E2 = 7,11 MeV (4,9%), ou seja, 𝑂8 16 + 𝑛0 1 → ( 𝑂8 17 ) → 𝐻 + 𝑁7 16 1 1 As reações (n,) ocorrem com quase todos os elementos químicos, as (n,α) com poucos elementos, as (n,p) com poucos elementos e com massa pequena e, as (n,f) com os elementos físseis. Desta forma, a secção de choque total, medida em cm2 ou em barns, pode em primeira aproximação, ser expressa por: 𝜎𝑡𝑜𝑡𝑎𝑙 = 𝜎𝑒𝑠𝑝 + 𝜎𝑐𝑎𝑝 + 𝜎𝑓𝑖𝑠𝑠ã𝑜 92 3.4.2.1. Ativação com nêutrons A incidência de nêutrons em uma amostra de um elemento químico simples ou substância composta pode provocar a ativação na maioria deles, por reações de captura. O nêutron é absorvido pelo núcleo e forma um novo isótopo, na sua grande maioria, instável ou radioativo. Este processo é denominado de reação de ativação com nêutrons. O radionuclídeo formado emite suas radiações gama características, no processo de decaimento, permitindo a sua identificação. Esta propriedade constitui a base de um dos métodos de análise de materiais, não destrutivo, pois pela coleta das energias e intensidades relativas, pode-se saber que elementos estáveis a amostra era composta e com que proporção. Se um feixe de nêutrons com intensidade incidir sobre uma amostra com n0 átomos de um elemento com secção de choque , o número de radionuclídeos formado será dado pela expressão: 𝑑𝑁 𝑑𝑡 = 𝜙. 𝜎. 𝑛0 − 𝜆𝑁 Então, 𝑁(𝑡) = 𝜙. 𝜎. 𝑛0. (1 − 𝑒−𝜆𝑡) 𝜆 𝐴 = 𝜆.𝑁(𝑡) = 𝜙. 𝜎. 𝑛0. (1 − 𝑒 −𝜆𝑡) onde, = fluxo de nêutrons (nêutrons.cm-2.s-1); = secção de choque microscópica (em cm2); n0 = número de átomos da amostra = m.NA/AM; m = massa da amostra (em g); AM = número de massa do elemento da amostra constante de decaimento do núcleo formado (s-1) =0,693/T1/2; e T1/2 = meia-vida do núcleo formado (s). A atividade A de saturação, ou seja, com t ∞, será, 𝐴 = 𝜆.𝑁(𝑡) = 𝜙. 𝜎. 𝑛0 Pois, (1 − 𝑒−𝜆𝑡) = 1 3.4.2.2. Reação de fissão nuclear As reações de fissão induzidas por nêutrons ocorrem com maior frequência em alguns núcleos pesados, como por exemplo o 233U, 235U, 239Pu. Estes são denominados de núcleos físseis. Existem outros núcleos, como o 232Th e 238U, denominados de núcleos férteis que, ao capturarem um nêutron se transformam em 233Th e 239U, e decaem em 233U e 239Pu, que são físseis. 93 O nêutron, após ser absorvido pelo núcleo de 235U, forma o núcleo composto que é instável e inicia um processo de vibração coletiva, assumindo formas de elipsóides com excentricidades crescentes, até a atingir o formato de um oito, quando então se fissiona em dois fragmentos, na maioria das vezes, com massas atômicas diferentes. A separação dos fragmentos ocorre devido à crescente vibração da massa nuclear em crescente deformação, onde a repulsão coulombiana entre as cargas dos futuros núcleos exerce um papel fundamental, até que o potencial nuclear atinja o denominado ponto de sela, quando a recomposição do formato inicial pela tensão superficial e forças atrativas nucleares se torna fisicamente inviável. Os fragmentos, denominados de fragmento leve com uma massa atômica da ordem de 90 e o fragmento pesado da ordem de 140, são gerados sempre na forma esférica ou elipsoidal, nunca no formato hemiesférico. Esta tendência é causada pela busca, pelos fragmentos, por uma maior estabilidade nuclear, que seria alcançada com um número de partículas próximo de um dos números mágicos de camadas nucleares. Além dos fragmentos, são emitidos de 2 a 3 nêutrons prontos, radiações gama prontas. Esta denominação de pronta está associada às partículas emitidas juntamente com os fragmentos. As demais partículas emitidas, denominadas de partículas retardadas são emitidas pelos fragmentos (já separados) que são altamente instáveis. No caso em que os nêutrons originados numa fissão, após apropriada moderação, atingir outros núcleos de 235U, e fissioná-los, pode dar origem ao fenômeno denominado de criticalidade e, então, gerar uma reação nuclear de fissão em cadeia, numa quantidade de urânio, denominada de massa crítica conforme é mostrado na figura 3.11. Figura 3.11 - Representação da fissão em cadeia autosustentável, induzida pela absorção de neûtron, num reator nuclear. 144 Ce 89 Sr 113 Ag 99 Tc 134 Cs 120 Sb n n n n n n n n n FISSÃO NUCLEAR REAÇÃO EM CADEIA 236 U 137 Cs 96 Nb n n n n 235 U MODERADOR 236 U 236 U 236 U 94 Tabela 3.2 - Componentes da energia liberada na fissão nuclear dos núcleos 233U, 235U e 239Pu. Produtos de fissão 233U (MeV) 235U (MeV) 239Pu (MeV) Energia cinética do fragmento leve 99,1 ± 1 99,8 ± 1 101,8 ± 1 Energia cinética do fragmento pesado 67,9 ± 0,7 68,4 ± 0,7 73,2 ± 0,7 Energia dos nêutrons prontos 5,0 4,8 5,8 Energia da radiação gama pronta ~ 7 7,5 ~ 7 Energia da radiação beta dos produtos de fissão ~ 8 7,8 ~ 8 Energia da radiação gama dos produtos de fissão ~ 4,2 6,8 ~ 6,2 Energia total da fissão 192 195 202 Neutrinos do decaimento beta 10 MeV/fissão Conforme Tabela 3.2, a energia da fissão que é utilizada na conversão em calor nos reatores nucleares, corresponde à soma das energias cinéticas dos fragmentos, cerca de 87%, com pequena contribuição das energias dos nêutrons e gamas prontos. As energias das radiações beta e gama dos fragmentos, pouco contribuem, pois muitos dos fragmentos possuem meias-vidas médias e longas, tempo suficiente para os elementos combustíveis sejam removidos do reator por estarem gastos. Além disso, existe uma perda de cerca de 5% da energia dos neutrinos por fissão. 3.5. INTERAÇÃO DAS RADIAÇÕES DIRETAMENTE IONIZANTES COM A MATÉRIA 3.5.1. Radiações diretamente ionizantes As radiações denominadas de diretamente ionizantes incluem todas as partículas carregadas, leves ou pesadas, emitidas durante as transformações nucleares e transferem a energia interagindo com os elétrons orbitais ou, eventualmente, com os núcleos dos átomos do material, por meio de processos de excitação, ionização, freamento e, para altas energias, de ativação. Nota: A ionização é o processo mais dominante e absorve, para cada tipo de matéria, determinada energia para a formação de um par elétron-íon. Por exemplo, no caso do ar seco e nas condições normais de temperatura e pressão, em média, a radiação ionizante necessita gastar (33,85 ± 0,15) eV na formação de um par elétron-ion. 95 3.5.2. Poder de freamento Ao atravessar um material, a partícula carregada transfere sua energia por meio dos processos de colisão e freamento, de tal maneira que, ao longo de uma trajetória elementar dx, a taxa de perda de energia pode ser expressa por:BN vm ze dx dE S 2 0 244 onde 22 2 0 )1ln(ln I vm ZB β = v/c; c = velocidade da luz; e = carga do elétron; v = velocidade da partícula; N = átomos/cm3 do material absorvedor = NA.ρ/A; z = carga da partícula incidente; Z = número atômico do material absorvedor; I = potencial de excitação e ionização, médio [ I=18 eV (H), 186 eV (ar) e 820 eV (Pb)]; e m0 = massa de repouso da partícula. A relação S = dE/dx é denominada de taxa específica de perda de energia ou poder de freamento linear (linear stopping power). A perda específica de energia depende do quadrado da carga da partícula, aumentando quando a velocidade diminui, e a massa só afeta a forma de sua trajetória. Na Figura 3.12 são apresentados valores calculados de S para diferentes partículas incidentes no silício e germânio. Figura 3.12 - Variação do stopping power com a energia de partículas incidentes no silício e no germânio. 96 3.5.3. Poder de freamento de colisão e de radiação Desprezando-se as perdas devido às reações nucleares, existem dois componentes principais: um devido a perdas por colisões e outro devido a radiação de freamento, ou seja, 700 )( / ZMeVE dx dE dx dE com dx dE dx dE S CRRC O primeiro termo é denominado poder de freamento de colisão e o segundo poder de freamento de radiação. A importância dessa separação é que a energia perdida por colisão é normalmente absorvida próxima à trajetória, enquanto que a energia perdida por radiação é utilizada para criar fótons que podem interagir a distâncias grandes em relação ao ponto em que foram gerados e, portanto, a energia é dissipada longe do ponto da interação primária. 3.5.4. Poder de freamento restrito ou LET Para se obter o valor da energia depositada nas imediações da trajetória de uma partícula carregada, é importante descontar as perdas que ocorrem longe dela. Elétrons podem gerar, na interação, fótons de freamento que tem chance de serem absorvidos longe da trajetória da partícula incidente. Por exemplo, um fóton de 50 keV pode atravessar até 1 cm de tecido humano, antes de ser absorvido. Da mesma forma, elétrons de alta energia, denominados de raios δ, gerados em colisões com alta transferência de energia podem dissipar sua energia longe do local da interação. Por isso, é necessário estabelecer limites para a contabilização da energia transferida no entorno da trajetória da partícula, inclusive o valor da sua energia cinética final de corte. O poder de freamento, assim considerado, é denominado de poder de freamento restrito (restricted stopping power), que recebe a denominação de transferência linear de energia (LET = Linear Energy Transfer). 3.5.5. Alcance de partículas carregadas em um material (range) Com as constantes colisões e eventual emissão de radiação de freamento, as partículas carregadas penetram num meio material até que sua energia cinética entre em equilíbrio térmico com as partículas do meio, estabelecendo um alcance R no meio absorvedor, após um percurso direto ou em zig-zag. As partículas pesadas, como alfa e fragmentos de fissão, têm uma trajetória praticamente em linha reta dentro do material, ao contrário da dos elétrons que é quase aleatória. Para cada tipo de partícula pode-se definir um alcance, utilizando variações da definição provenientes de dificuldades experimentais em sua determinação. 3.5.5.1. Alcance médio Utilizando-se um gráfico de representação da intensidade de feixe I após uma espessura x penetrada dentro de um material pela intensidade I0 de incidência, em função de x, o alcance médio é definido como a espessura Rm, quando a razão I/I0 cai pela metade, conforme mostra a Figura 3.13. 97 3.5.5.2. Alcance extrapolado Na Figura 3.13, pode-se tomar o valor Re obtido no eixo X como o valor para o alcance R, uma vez que a posição final da partícula não é bem definida. O valor obtido dessa forma é denominado alcance extrapolado. 3.5.5.3. Alcance máximo Alcance máximo Rmax corresponde ao maior valor penetrado dentro de um material, por uma partícula, com uma determinada energia. Este valor constitui um conceito estatístico, mas, no gráfico da Figura 3.13, corresponde ao valor assintótico da curva de I/I0 em função da espessura x. Figura 3.13 - Definição do alcance Re e Rm para partículas alfa e elétrons. 3.6. INTERAÇÃO DE ELÉTRONS COM A MATÉRIA Elétrons perdem energia principalmente pelas ionizações que causam no meio material e, em segunda instância, pela produção de radiação de freamento (bremsstrahlung). Como são relativamente leves, sua trajetória é irregular, podendo ser defletidos para a direção de origem, conforme mostra a Figura 3.14. Elétrons incidentes Elétrons transmitidos e espalhados Elétrons retro-espalhados Elétrons absorvidos Figura 3.14 - Espalhamento de elétrons em um material. 98 3.6.1. Alcance para elétrons monoenergéticos Se um feixe colimado de elétrons monoenergéticos incidir em um material absorvedor, mesmo pequenos valores de espessura de absorvedor irão levar à perda de elétrons do feixe detectado, uma vez que o espalhamento de elétrons efetivamente os removerá da direção do fluxo que atinge o detector. Dessa forma, a representação gráfica do número de elétrons detectado versus espessura do absorvedor irá decrescer imediatamente desde o início, atingindo gradualmente o valor nulo para espessuras maiores do absorvedor. Os elétrons que mais penetram no absorvedor são aqueles cuja trajetória foi menos alterada com as interações. A Figura 3.15 mostra a variação da relação entre a intensidade I0 de um feixe de elétrons monoenergéticos incidente e a intensidade do feixe transmitido I para uma espessura de material absorvedor. Figura 3.15 - Alcance de elétrons monoenergéticos. O conceito de alcance é menos definido para elétrons rápidos que para partículas pesadas, uma vez que o caminho total percorrido pelos elétrons é consideravelmente maior que a distância de penetração na direção do seu movimento incidente. Normalmente o alcance para os elétrons é obtido pelo alcance extrapolado, prolongando- se a parte linear inferior da curva de penetração versus espessura, até interceptar o eixo das abscissas. Essa distância é suficiente para garantir que quase nenhum elétron ultrapasse a espessura do absorvedor. A Figura 3.1 mostra o alcance de elétrons em materiais usados como detectores, como o iodeto de sódio e o silício. Figura 3.16 - Relação alcance x energia para elétrons absorvidos no silício e no germânio. 99 Quando o alcance é expresso em distância x densidade (densidade superficial ou espessura em massa), os seus valores, para a mesma energia do elétron, praticamente não se alteram, apesar da grande diferença entre os materiais, como mostra a figura 3.17, para o alcance de elétrons no Si e no NaI, com densidades de 3,67 e 2,33 g/cm3, respectivamente. Figura 3.17 - Alcance de elétrons no silício (ρ = 2,33 g/cm3) e no iodeto de sódio (ρ = 3,67 g.cm-3), materiais muito usados em detectores. 3.6.2. Atenuação das partículas beta As partículas beta são atenuadas exponencialmente na maior parte de seu alcance num meio material, e o coeficiente de atenuação apresenta uma dependência com a energia máxima do espectro beta. A atenuação exponencial é o resultadode uma complexa combinação do espectro contínuo em energia da radiação beta, com a atenuação isolada de cada elétron. A determinação da atenuação da radiação beta por um absorvedor conhecido serve como modo preliminar de determinação de sua energia máxima. Algumas vezes é definido um coeficiente de absorção η dado por: xe I I 0 onde I0 é a taxa de contagem sem o absorvedor, I é a taxa de contagem com o absorvedor e x é a espessura do absorvedor (em g.cm-2). 100 Figura 3.18 - Atenuação de partículas beta no alumínio, no cobre e na prata. 3.6.3. Alcance das partículas beta Apesar das partículas beta não possuírem um alcance preciso, existem várias relações semi-empíricas para determinação do alcance em função da energia, tais como: R = 0,542.E - 0,133 (g/cm2) para E > 0,8 MeV R = 0,407.E1,38 (g/cm2) para 0,15 < E < 0,8 MeV R = 0,530.E - 0,106 (g/cm2) para 1 < E < 20 MeV Na Figura 3.18 são apresentados valores do alcance de elétrons em diversos meios materiais. Na Figura 3.19 são apresentadas as perdas de energia por colisão e por radiação para elétrons no ar, na água e em grafite. É bom salientar que estas expressões semi-empíricas para calcular o alcance das partículas podem ter fórmulas ou valores dos coeficientes diferentes em cada época e para cada autor da fórmula. Isto se deve à qualidade, quantidade e forma dos ajustes dos dados experimentais disponíveis até então. 101 Figura 3.19 - Alcance de partículas beta em vários materiais (densidade em g.cm-3): (1) Ferro = 7,8; (2) Pirex = 2,60; (3) PVC = 1,38; (4) Plexiglass = 1,18; (5) Ar = 0,0013. Figura 3.20 - Perda de energia de elétrons na matéria. 3.6.4. Poder de freamento para elétrons de alta energia São apresentados na Figura 3.19 os valores de S/ρ (mass stopping power) em função da energia de elétrons em diferentes meios absorvedores. Conforme se pode observar, os valores do poder de freamento em massa dependem pouco da densidade dos materiais. 102 3.6.5. Valor efetivo de (Z/A) de um material Em muitos casos, é necessário obter o valor efetivo de (Z/A) de um material composto, utilizando valores tabelados para cada um de seus elementos químicos componentes. A maneira mais simples de se obter é por meio da média ponderada, expressa por: ... ...)( 1 3 3 3 2 2 2 1 1 1 321 A Z a A Z a A Z a aaaA Z ef onde ai é a fração, em pêso, de átomos com número atômico Zi e massa atômica Ai. Na Tabela 3.3 são dados valores de (Z/A)ef para alguns materiais. Tabela 3.3 - Valores de (Z/A)ef de alguns materiais utilizados em dosimetria das radiações. Material Densidade (g.cm-3) (Z/A)ef Água 1 0,557 Plástico Tecido-equivalente 1,055 0,556 Lucite 1,18 0,538 3.7. INTERAÇÃO DAS PARTÍCULAS α COM A MATÉRIA As partículas α perdem energia basicamente por ionização, e o perfil da curva de ionização versus a distância percorrida se mantém praticamente o mesmo, nele destacando 3 regiões importantes: a. A partícula α, inicialmente com grande velocidade, interage por pouco tempo com os elétrons envoltórios dos átomos do meio e, assim, a ionização é pequena e quase constante; b. À medida que a partícula α vai perdendo velocidade, ela passa a interagir mais fortemente com os elétrons envoltórios dos átomos do meio e o poder de ionização vai aumentando até chegar a um máximo, quando captura um elétron do meio, e passa do íon +2 para um íon +1; c. A carga da partícula α caindo de +2 para +1, faz o seu poder de ionização cair rapidamente até chegar a zero, quando o íon +1 captura um outro elétron e se torna um átomo de hélio, neutro. A Figura 3.21 mostra a taxa de perda de energia (poder de freamento) de partículas alfa de alguns MeV de energia inicial, em função da distância percorrida. Observa-se que a taxa de perda de energia é muito maior no final da trajetória da partícula. 103 Figura 3.21 - Taxa de perda de energia de partículas alfa na interação com um meio material. 3.7.1. Alcance das partículas α A penetração das partículas alfa é muito reduzida, incapaz de ultrapassar a espessura da pele humana. Pela Figura 3.22 pode-se avaliar o alcance no ar de partículas alfa em vários materiais, em função de sua energia. Observa-se que o alcance é menor para materiais mais densos e que aumenta com a energia da partícula. O valor do alcance no ar pode ser estimado semi-empiricamente por expressões do tipo: 2/3318,0 ER onde <R> é o valor médio do alcance (em cm) e E é a energia da partícula alfa (em MeV). Esta relação é válida para a faixa de energia de 3 a 7 MeV, que abrange quase a totalidade dos valores de energia das partículas alfa emitidas Na Figura 3.22 são apresentados os valores de Rρ e R para diferentes meios absorvedores. Figura 3.22 - Alcance de partículas alfa em vários materiais (densidades g.cm-3): (1) Ar = 0,0013; (2) Tecido = 1,0; (3) Alumínio = 2,70; (4) Cobre = 8,96. 3.7.2. Alcance e atenuação das radiações no ar e no tecido humano Conforme foi descrito, as partículas carregadas quando interagem com um material, nele penetram até transferir toda sua energia, ou seja, possuem um alcance (range), cujo valor depende da sua energia, da densidade e tipo de material. Já as radiações eletromagnéticas, tipo gama e X, não possuem alcance, mas atenuação 104 exponencial, dependente da sua energia e das características do material. A Tabela 3.4 mostra o alcance em (cm) ou o percentual de atenuação das radiações em 100 cm de Ar e 1 cm de Tecido Humano. Tabela 3.4 - Exemplo de interação das radiações ionizantes com o ar e tecido humano. Tipo de radiação Energia (MeV) Material de interação Ar Tecido humano Alcance (cm) Atenuação (%) X=100 cm Alcance (cm) Atenuação (%) X=1 cm Alfa 5,5 4 - 0,005 - Beta 1 300 - 0,4 - Gama 1 - 0,8 - 6,9 Raio X 0,030 - 7,7 - 30 0,060 - 4,2 - 17,5 3.8. INTERAÇÃO DE FRAGMENTOS DE FISSÃO COM A MATÉRIA Fragmentos de fissão são íons de átomos de número de massa médio, com alta energia cinética e carga elevada, oriundos da fissão nuclear. Quando um núcleo de 235U, absorve um nêutron térmico e fissiona, gera dois núcleos e 2 a 3 nêutrons. As massas dos núcleos gerados em uma fissão com nêutrons térmicos normalmente se distribuem em torno de dois valores bem diferentes de número de massa A, um em torno de 90 e outro de 140. A perda de energia de um fragmento de fissão através da matéria se efetua quase que totalmente por colisão e ionização. Apesar das energias cinéticas serem elevadas, atingindo 130 MeV, suas velocidades iniciais não são tão altas devido à sua massa. A velocidade de um fragmento leve corresponde mais ou menos a de uma partícula alfa de 4 MeV. Devido a alta carga iônica, a ionização específica é elevada, mas devido a sua baixa velocidade, a ionização decresce ao longo da trajetória, o que não ocorre com as partículas alfa ou com os prótons. Isso é consequência do decréscimo contínuo da carga iônica do fragmento, que pode iniciar com +17e, ao capturar elétrons do meio material. No processo de fissão, a energia cinética dos fragmentos apresenta valores distribuídos entre 40 MeV e 130 MeV, com dois picos proeminentes centrados em 68,1 MeV e 99,23 MeV para o 235U e 72,86 MeV e 101,26 MeV para o 239Pu correspondentes, respectivamente, aosvalores médios das energias cinéticas dos fragmentos pesado e leve do núcleo fissionado. Quando a velocidade dos fragmentos de fissão, num meio material, se aproxima de 2 106 m.s-1, a perda média de energia por unidade de trajetória novamente aumenta, ao contrário do comportamento de -dE/dx da partícula alfa. Esse aumento está associado a um novo mecanismo de perda de energia, que são as colisões com os núcleos atômicos. Tais colisões são mais prováveis para valores menores da energia do fragmento e valores maiores de sua carga. 105 3.8.1. Alcance de fragmentos de fissão A trajetória dos fragmentos num meio material é linear, sofrendo distorções somente no seu final devido às colisões com núcleos, que são a causa básica da sua difusão. O alcance de um fragmento leve é maior do que o de um pesado devido à maior energia cinética média e menor carga iônica. O alcance do fragmento leve, de massa média, no ar é cerca de 2,2 cm. Dentro do próprio material, o fragmento leve (médio) tem um alcance de 11,3 mg.cm-2, e o fragmento pesado (médio) da ordem de 9 mg.cm-2, correspondente a cerca de 0,006 mm e 0,0047 mm, respectivamente. 3.9. TEMPO DE PERCURSO O tempo requerido para uma partícula carregada parar num meio absorvedor pode ser obtido do alcance e da velocidade média, usando E m R E mc Kv R v R t A7 2 102,1 2 onde R é o alcance (em m), v é a velocidade inicial da partícula (em m.s-1), K é a constante de proporcionalidade (= 0,5 ou 0,6), mA é a massa da partícula em unidade de massa atômica e E é a energia da partícula incidente (em MeV). 3.10. PROCESSOS INTEGRADOS DE INTERAÇÃO: DISSIPAÇÃO DE ENERGIA Quando uma radiação muito energética interage com a matéria, ela desencadeia um número grande de processos que envolvem a transferência de energia para outras partículas assim como a criação de outros tipos de partículas que, por sua vez, também vão interagir com a matéria. Dessa forma, um fóton muito energético pode dar origem a um par elétron- pósitron, que pode gerar raios X de freamento, e assim por diante. A Figura 3.22 procura esquematizar a descrição desses processos. A energia é finalmente dissipada sob a forma de calor e de alterações no estado de ligação da matéria. 106 Figura 3.23 - Processos integrados de interação. 107 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Attix, Roesch, Tochilin, Radiation Dosimetry, Vol. I, Academic Press, 1966. www.physics.nist.gov/PhysRefData/XrayMassCoef/ em Summary, Table 3 e Table 4. K.C. Chung, Introdução à Física Nuclear, Ed. UERJ, Rio de Janeiro, RJ, 2001. Samuel Glasstone and Alexander Sesonske, Nuclear Reactor Engineering, D.Van Nostrand Company, Inc., Princeton, New Jersey, USA, 1962. G. Robert Keepin, Physics of Nuclear Kinetics, Addison Wesley Publishing Company Inc., Massachusetts, USA, 1965. 108 CAPÍTULO 4 EFEITOS BIOLÓGICOS DA RADIAÇÃO 4.1. ESTRUTURA E METABOLISMO DA CÉLULA 4.1.1. Estrutura básica da célula Embora as células sejam muito diferentes na aparência, tanto externa quanto interna, certas estruturas são comuns às células animais e vegetais. Assim, elas são envolvidas por uma membrana citoplasmática e contêm, na maioria dos casos, um núcleo facilmente identificável. No líquido que preenche a célula, o citoplasma, são vistas organelas envolvidas por membranas, o retículo endoplasmático e o complexo de Golgi. As células vegetais têm, além da membrana celular, uma parede mais rígida. Na Figura 4.1. são apresentados diagramas de células típicas de animais e vegetais. A função da membrana, além de proteger e estabelecer os limites físicos da célula, está associada ao fato de que todos os nutrientes, secreções e rejeitos precisam passar por esta barreira. A membrana tem aproximadamente 7,5 nm de espessura, é composta primariamente de fosfolipídeos (20 a 30%) e proteínas (50 a 70%). Ao contrário das paredes das células de muitos vegetais, que é feita em 98% de celulose, a membrana celular precisa de constante renovação química. Por meio de uma substância denominada de pectina, que é uma mistura de polissacarídeos, as células se acoplam às vizinhas, por meio da membrana celular. Figura 4.1 - Diagramas típicos de células animal e vegetal. No núcleo existem três componentes: nucleoplasma, cromossomos e os nucléolos. Os cromossomos consistem de ácido desoxirribonucleico (DNA) e proteína. Nas células não reprodutivas, os cromossomos são finos filamentos que, durante a divisão celular, formam uma massa espessa e podem ser facilmente identificados. Os nucléolos são pequenos corpos que contêm nucleoproteínas, a maioria na forma de ácido ribonucléico (RNA). O nucleoplasma contém proteína e sais. O complexo de Golgi consiste de sacos membranosos achatados com vesículas esféricas nas extremidades, e é o principal responsável pelo transporte seguro dos compostos sintetizados para o exterior da célula e pela proteção contra o ataque de suas próprias enzimas. 109 4.1.2. Metabolismo celular Embora as membranas tenham uma permeabilidade seletiva, seria incorreto supor que grandes moléculas ou partículas penetrem na célula. Existe um mecanismo denominado de pinocitose, que permite que partículas e moléculas inicialmente no meio exterior, consigam habitar o interior da célula. Na pinocitose, formam-se inicialmente, pequenos vacúolos e canais no citoplasma, induzidos por aminoácidos, proteínas, sais e enzimas, que envolvem a partícula, crescem e posteriormente se fecham, já com a partícula no interior da célula. É um mecanismo diferente do transporte ativo, em que o movimento de moléculas é regido pelo gradiente de concentração, ou seja, os solventes passam de uma região de baixa concentração de soluto para uma com alta concentração de soluto, pelo mecanismo denominado de osmose. Em certos casos, o soluto atravessa a membrana semipermeável permanecendo no lado de menor concentração, num mecanismo de difusão simples. 4.1.3. Fases da vida celular 4.1.3.1. O ciclo celular As células dos organismos não tem estrutura e funcionamento permanentes. Elas possuem um ciclo de vida, denominado de Ciclo Celular, ilustrado na Figura 4.2. Figura 4.2 - Representação das fases do ciclo celular e detalhamento da fase Mitótica. As modificações básicas da célula em cada fase são as seguintes: G1 = período de biossíntese (RNA, proteínas, enzimas, etc.) no qual a célula cresce de volume e sintetiza proteínas, ribossomas, etc., até o ponto de restrição, que após avaliação, evolui para a fase seguinte ou caminha para a fase G0. 110 S = fase de síntese do DNA. Cada cromossomo é duplicado longitudinalmente, passando a ser formado por 2 cromatídeos ligados pelo centrômero. G2 = fase que conduz à mitose e que permite formar estruturas a ela diretamente ligadas; síntese de biomoléculas essenciais à mitose Fase Mitótica = fase de reprodução da célula. Assim a célula possui um período de vida denominado de interfase, constituído pelas fases G1, S e G2 e um período de reprodução denominado de fase mitótica. A duração do ciclo celular depende de cada tipo de célula. Para fins de exemplificação e comparação entre os tempos de cada fase, a Tabela 4.1 ilustra os valores de duração relativos. Tabela 4.1 - Duração estimada das fases de um tipo de célula Fases da célula Interfase 12 a 30 h Mitótica Prófase 1 a 2 h Metáfase 5 a 15 min Anáfase 2 a 10min Telófase 10 a 30 min 4.1.3.2. Reprodução celular As células se reproduzem pelo processo de mitose ou bipartição. Neste processo podem ser identificadas 4 fases: prófase, metáfase, anáfase e telófase. No início da prófase, os cromossomos não aparecem duplicados, embora o DNA seja duplicado antes do início da mitose. No meio da prófase, os cromossomos aparecem duplicados. Na metáfase, os cromossomos se alinham num plano e se acoplam às fibras do fuso mitótico. Os cromossomos se separam e se movem para os polos da célula, durante a anáfase. Ao final da telófase surgem duas células- filhas, ambas contendo cópia de todo o material genético da célula inicial. Estas fases podem ser ilustradas na Figura 4.3. 111 Figura 4.3 - Fases da mitose celular. 4.2. INTERAÇÃO DA RADIAÇÃO COM O TECIDO BIOLÓGICO 4.2.1. Formas e tipos de irradiação A correlação entre a exposição à radiação ionizante e os efeitos biológicos induzidos no homem foi estabelecida, inicialmente, pela observação de efeitos danosos em pessoas nas primeiras exposições com raios X, e em exposições com radionuclídeos sofridas pelos pioneiros das descobertas sobre radioatividade. Entretanto, para o seu detalhamento, foi necessária a adoção de modelos de exposição e hipóteses baseadas em extrapolações, uma vez que dependia claramente, da quantidade, forma e período de exposição, bem como de expectativas de concretização dos efeitos, em termos de sua observação, no tempo. Isto porque os dados experimentais disponíveis eram relacionados a exposições com doses elevadas, a acidentes radiológicos, às observações nas vítimas de Hiroshima e Nagasaki ou a experiências com cobaias. As conclusões dos estudos iniciais poderiam ter comparações e confirmações diretas em pacientes submetidos a tratamento de radioterapia ou em experiências em cobaias, onde propositadamente as doses são elevadas. Entretanto, para o estabelecimento de recomendações de segurança para o trabalho rotineiro com a radiação ionização em suas diversas aplicações, aonde as doses são mantidas duas a quatro ordens de grandeza menores que as anteriormente citadas, a observação dos efeitos biológicos fica ofuscada pela ocorrência de muitos outros efeitos, provocados por outros agentes físicos ou químicos, inclusive ambientais. Um modelo conservativo em termos de proteção radiológica seria a correlação linear entre dose e efeito, mesmo para baixos valores de dose. Este modelo, utilizado até hoje, se baseia numa extrapolação para doses muito baixas, do ajuste da curva obtida entre dose e efeitos biológicos observados em valores elevados. Questiona-se, como é óbvio, da sua validade científica, pois poderia estar ignorando possíveis valores limiares para 112 certos efeitos, ou minimizando a ocorrência de alguns outros efeitos, devido a influência e comportamento de outros fatores nesta região de baixas doses. Figura 4.4 - Modelo de extrapolação linear (curva a) para a correlação entre dose-efeito biológico, onde não são contabilizados possíveis efeitos de aumento da probabilidade de ocorrência na região de doses baixas (curva b) ou da existência de limiares ou de fatores de redução da incidência dos efeitos até então desconhecidos (curva c). 4.2.1.1. Exposição única, fracionada ou periódica A exposição do homem ou parte de seus tecidos à radiação, pode ter resultados bastante diferenciados, se ela ocorreu de uma única vez, de maneira fracionada ou se periodicamente. As exposições únicas podem ocorrer em exames radiológicos, como por exemplo, uma tomografia; de maneira fracionada, como no tratamento radioterápico; ou periodicamente, como em certas rotinas de trabalho com material radioativo em instalações nucleares. Para uma mesma quantidade de radiação, os efeitos biológicos resultantes podem ser muito diferentes. Assim, se ao invés de fracionada, a dose aplicada num paciente em tratamento de câncer, fosse dada numa única vez, a probabilidade de morte seria muito grande. A exposição contínua ou periódica que o homem sofre da radiação cósmica, produz efeitos de difícil identificação. O mesmo não aconteceria, se a dose acumulada em 50 anos fosse concentrada numa única vez. A Figura 4.5 mostra o percentual de sobrevivência de células de mamíferos quando irradiadas com exposição única ou fracionada. 113 Figura 4.5 - Transformação de células expostas à radiação do 60Co e nêutrons do espectro de fissão, com exposições únicas e fracionadas. 4.2.1.2. Exposição de corpo inteiro, parcial ou colimada Um trabalhador que opera com material ou gerador de radiação ionizante pode expor o corpo todo ou parte dele, durante sua rotina ou num acidente. Um operador de gamagrafia sofre irradiação de corpo inteiro, na sua rotina de expor, irradiar a peça, recolher e transportar a fonte. Em alguns acidentes, como a perda e posterior resgate da fonte de irradiadores, pode expor mais as extremidades que outras partes do corpo. Uma pessoa que manipula radionuclídeos, expõe bastante suas mãos. No tratamento radioterápico, a exposição do tumor a feixes colimados de radiação é feita com muita precisão e exatidão. 4.2.1.3. Exposição a feixes intensos, médios e fracos Na esterilização e conservação de frutas, especiarias, peixes e carnes, com radiação gama, as doses aplicadas chegam a 10 kilograys (kGy) e em radioterapia, a 2 Gy por aplicação. São feixes intensos e capazes de induzir à morte uma pessoa, se aplicados de uma única vez e no corpo todo. Os feixes utilizados em radiologia são de intensidade média, comparativamente, pois atingem alguns miligrays (mGy), e não devem ser recebidos por uma pessoa com muita frequência, sob pena de sofrer algum dano biológico. A radioatividade natural induz ao homem doses de radiação da ordem de 1 mGy por ano. Poucos são os efeitos identificáveis e atribuídos exclusivamente à este tipo de radiação. 4.2.1.4. Exposição a fótons, partículas carregadas ou a nêutrons A grande maioria das práticas com radiação ionizante envolve fótons provenientes de fontes de radiação gama ou geradores de raios X como as de radiodiagnóstico, radioterapia, radiografia industrial e medição de nível e densidade. Nas instalações nucleares, nos reatores, além dos fótons, existem fluxos de nêutrons gerados na fissão dentro dos elementos combustíveis e que atingem as áreas de manutenção e operação da 114 máquina. Alguns medidores de nível, de densidade e instrumentos para prospecção de petróleo, utilizam fontes e geradores de nêutrons. Os feixes de partículas carregadas têm nos aceleradores lineares de elétrons, nos cíclotrons com feixes de prótons e nos radionuclídeos emissores beta e alfa, os principais representantes. Os fótons e nêutrons constituem as radiações mais penetrantes e causam danos biológicos diferentes conforme a taxa de dose, energia e tipo de irradiação. Os feixes de elétrons têm um poder de penetração regulável, conforme a energia estabelecida na máquina aceleradora. A radiação beta proveniente de radionuclídeos em aplicadores oftalmológicos e dermatológicos tem alcance de fração de milímetro no tecido humano. As radiações alfa são muito pouco penetrantes, mas doses absorvidas devido a radionuclídeos de meia-vida curta incorporados nos sistemas respiratório ou digestivo de uma pessoa podem causar danos 20 vezes maiores que iguais valores de doses de radiação X, gama ou beta. 4.2.2. Danos celulares O processo de ionização, ao alterar os átomos, pode alterar a estrutura das moléculas que os contêm. Se a energia de excitação ultrapassara energia de ligação entre os átomos, pode ocorrer quebra das ligações químicas e consequentes mudanças moleculares. Da energia transferida pela radiação ao tecido, metade dela induz excitações, cujas consequências são menores que as de ionização. Se as moléculas alteradas compõem uma célula, esta pode sofrer as consequências de suas alterações, direta ou indiretamente, com a produção de radicais livres, íons e elétrons. Os efeitos da radiação dependem da dose, taxa de dose, do fracionamento, do tipo de radiação, do tipo de célula ou tecido e do indicador (endpoint) considerado. Tais alterações nem sempre são nocivas ao organismo humano. Se a substância alterada possui um papel crítico para o funcionamento da célula, pode resultar na alteração ou na morte da célula. Em muitos órgãos e tecidos o processo de perda e reposição celular, faz parte de sua operação normal. Quando a mudança tem caráter deletério, ela significa um dano. Na Figura 4.6 tem-se um quadro representativo dos diversos processos induzidos pelas interações da radiação ionizante no tecido humano e a estimativa de duração de cada processo. 115 Figura 4.6 - Quadro representativo dos diversos processos envolvidos na interação da radiação ionizante com as células do tecido humano, e o tempo estimado para sua ocorrência. Dos danos celulares, os mais importantes são os relacionados à molécula do DNA. As lesões podem ser quebras simples e duplas da molécula, ligações cruzadas (entre DNA-DNA, entre DNA-proteínas), alterações nos açúcares ou em bases (substituições ou deleções). Alguns tipos de alterações que podem ser induzidas por radiação ionizante são ilustrados na Figura 4.7. Figura 4.7 - Alguns tipos de alterações no cromossoma que podem ser induzidos por radiação ionizante. 116 As aberrações cromossômicas são o resultado de danos no DNA, principalmente devido às quebras duplas, gerando os dicêntricos ou os anéis, conforme ilustra a Figura 4.8. As células danificadas podem morrer ao tentar se dividir, ou conseguir realizar reparos mediados por enzimas. Se o reparo é eficiente e em tempo curto, o DNA pode voltar à sua composição original, sem consequências posteriores. Num reparo propenso a erros, pode dar origem a mutações na sequência de bases ou rearranjos mais grosseiros, podendo levar à morte reprodutiva da célula ou a alterações no material genético das células sobreviventes, com consequências a longo prazo. Figura 4.8 - Tipos de aberrações cromossomiais que podem ser induzidos pela radiação ionizante. 4.2.3. Mutações As mutações, nas células somáticas (do corpo) ou germinativas (das gônadas) podem ser classificadas em 3 grupos: a. Mutações pontuais (alterações na sequência de bases do DNA); b. Aberrações cromossomiais estruturais (quebra nos cromossomos); e c. Aberrações cromossomiais numéricas (aumento ou diminuição no número de cromossomos). 4.2.4. Modificação celular pela radiação Observando-se o ciclo celular e as fases do ciclo mitótico, é compreensível que a célula não apresente a mesma resposta à radiação, devido à interferência dos diversos tipos de interação da radiação nos diferentes cenários de vida da célula. As situações de maior complexidade ou que exigem acoplamentos finos de parâmetros físico-químicos ou biológicos, devem ser mais vulneráveis às modificações induzidas pela radiação. Isto significa que, num tecido onde as células componentes vivem aleatoriamente diferentes fases, as consequências das interações de uma mesma radiação, podem ser diferentes em locais diferentes do mesmo tecido. Assim, quando se fala num determinado efeito biológico induzido por radiações, está embutida uma avaliação estatística da situação. METÁFASEREJUNÇÃOQUEBRA EM G1 REPLICAÇÃO FRAGMENTO ACÊNTRICO ANEL COM FRAGMENTO ACÊNTRICO DICÊNTRICO COM FRAGMENTO ACÊNTRICO TRICÊNTRICO COM FRAGMENTO ACÊNTRICO TIPO DE ABERRAÇÃO 117 As mudanças na molécula de DNA podem resultar num processo conhecido como transformação neoplásica. A célula modificada, mantendo sua capacidade reprodutiva, potencialmente, pode dar origem a um câncer. O aparecimento de células modificadas, pode induzir o sistema imunológico a eliminá-las ou bloqueá-las. Entretanto, as células sobreviventes, acabam por se adaptar, devido a modificações estimuladas por substância promotora. A multiplicação deste tipo de célula dá origem a um tumor, num estágio denominado de progressão. Após período de latência, se as células persistirem na reprodução, superando as dificuldades de divisão celular, os possíveis desvios de percurso devido a diferenciações e mecanismos de defesa do organismo, originam o tumor cancerígeno. 4.2.5. Morte celular Quando a dose de radiação é elevada (vários Gy), muitas células de tecido atingidas podem não suportar as transformações e morrem, após tentativas de se dividir. O aumento da taxa de perda pode às vezes ser compensado com o aumento da taxa de reposição. Neste caso, haverá um período de transição, onde a função do tecido ou órgão foi parcialmente comprometida e posteriormente reposta. A perda de células em quantidade considerável, pode causar prejuízos detectáveis no funcionamento do tecido ou órgão. A severidade do dano caracteriza o denominado efeito determinístico, uma vez que o limiar de dose que as células do tecido suportam, foi ultrapassado. As células mais radiosensíveis são as integrantes do ovário, dos testículos, da medula óssea e do cristalino. 4.2.6. Curvas de sobrevivência Utilizando radiações de alto e baixo LET, com altas e baixas taxas de dose, pode- se obter o percentual de sobrevivência de células de um tecido ou órgão. Os pontos experimentais podem ser ajustados matematicamente e, as diversas expressões obtidas são denominadas de curvas de sobrevivência. A Figura 4.9 mostra que, para o mesmo valor da dose de radiação, as radiações de alto LET (alfa, nêutrons, íons pesados) resultam em menor percentual de sobrevivência que as de baixo LET (elétrons, beta, fótons). Figura 4.9 - Curvas de sobrevivência para células de mamíferos. 118 4.2.7. Detrimento O conceito de detrimento, utilizado em proteção radiológica envolve a combinação da probabilidade de ocorrência, severidade (gravidade) e tempo de manifestação de um determinado dano. Ele é a estimativa do prejuízo total que eventualmente seria experimentado por um grupo ou pessoa expostos à radiação, inclusive seus descendentes. 4.2.8. Risco de efeito biológico induzido pela radiação ionizante O conceito de risco é muito amplo, pois pode estar associado simplesmente à probabilidade de ocorrência de determinado efeito biológico de qualquer tipo, induzido pela radiação ionizante ou, frequentemente, probabilidade de efeitos sérios ou letais, particularmente a morte por câncer. Em segurança de reatores, pode significar simplesmente uma expectativa matemática da magnitude de consequências indesejáveis. Uma discussão detalhada, bem como o cálculo dos diversos tipos de riscos de efeitos biológicos induzidos pelas radiações ionizantes é feito no Anexo C da publicação 60 da ICRP. O risco total R pode ser obtido aproximadamente como sendo a soma dos riscos de cada efeito induzido pi, 𝑅 = ∑𝑝𝑖 𝑖 = 𝐹 onde F é denominado, frequentemente, o fator ou coeficiente de risco, correspondente à probabilidade para um efeito fatal, por exemplo, um câncer, estimado em 10.000 pessoas por sievert. O detrimento G à saúde de um indivíduo é obtido pela expressão, 𝐺 = 𝑅 = 𝐹.𝐸 onde E = dose efetiva = dose equivalente de corpo inteiro HE = HWB. Na Tabela 4.2, são dados alguns valores, em ordem de grandeza, dos riscos de danos à saúde produzidos pelas radiações ionizantes. Tabela 4.2 - Riscos de danos à saúde. Dano à saúde Dose Efetiva (mSv) Risco (%) Efeito clínico imediato >1000 ~100 Efeito pré-natal 1 0,05 Câncer 1 0,005 Efeito hereditário 1 0,0005 119 4.2.9. Detectabilidade epidemiológica É comum as pessoas atribuírem certos tipos de efeitos em uma pessoa, ou grupo de pessoas, à radiação ionizante devido ao temor difundido que delas possuem ou muitas vezes incrementado ambiguamente pelos meios de comunicação. Entretanto, para se fazer uma atribuição com certo grau de confiabilidade, é preciso que o número de pessoas atingidas com certos valores de dose de radiação, ultrapasse valores mínimos para cada tipo de ocorrência, para se poder afirmar, em termos epidemiológicos, a possibilidade de ocorrência. Estes valores de dose absorvida ou dose efetiva recebida, e o número requerido para a garantia de ocorrência de determinado tipo de efeito é denominado de Detectabilidade Epidemiológica. Há que ressalvar situações de singularidade em que pequenos valores de dose podem induzir efeitos biológicos indesejáveis e até letais como o câncer em uma pessoa, conforme definição de efeitos estocásticos. Em termos de população e indução epidemiológica do efeito, isto requer estatisticamente um tamanho da amostra em função do tipo de efeito. Assim, na Tabela 4.3, são indicados os valores do número de pessoas necessárias para a observação experimental da ocorrência de câncer na tireoide de crianças em função da dose absorvida e da constatação de efeito hereditário em função da dose efetiva. Tabela 4.3 - Detectabilidade epidemiológica de efeitos biológicos. Detectabilidade epidemiológica Câncer na tireoide em crianças Efeito hereditário Dose Absorvida (mGy) Número de crianças (N) Dose efetiva (mSv) Número de pessoas (N) 1 10.000 1 >1.000.000.000.000 10 1.000 10 >10.000.000.000 100 100 100 >100.000.000 1.000 >1.000.000 4.3. ETAPAS DA PRODUÇÃO DO EFEITO BIOLÓGICO PELA RADIAÇÃO 4.3.1. Efeitos físicos Quando uma pessoa é exposta à radiação ionizante, nos locais atingidos aparecem muitos elétrons e íons livres, radicais produzidos na quebra das ligações químicas e energia cinética adicional decorrentes da transferência de energia da radiação ao material do tecido, por colisão. Uma significativa fração desta energia produz excitação de átomos e moléculas, que pode ser dissipada, no processo de de-excitação, sob a forma de fótons. Para radiações, do tipo raios X e gama, estes efeitos ocorrem de uma maneira mais distribuída devido ao seu grande poder de penetração e modo de interação. Para radiação beta, os efeitos são mais superficiais, podendo chegar a vários milímetros, dependendo da energia da radiação. Já as radiações alfa não conseguem penetrar nem um décimo de milímetro na pele de uma pessoa. Seus efeitos provocados por exposições externas são pouco relevantes. Porém, no caso de inalação ou ingestão de radionuclídeos alfa- 120 emissores, elas podem danificar seriamente células de alguns órgãos ou tecidos, pelo fato de serem emitidas em estreito contato ou no seu interior. Esta fase física tem uma duração da ordem de 10 -13 segundos. Esta energia adicional transferida pela radiação para uma certa quantidade de massa de tecido atingido, permite definir algumas grandezas radiológicas como, Dose Absorvida e Kerma. A relação entre a parte da energia absorvida e a massa do tecido é denominada de Dose Absorvida, enquanto que a relação entre a quantidade de energia cinética adicional e a massa de tecido define o Kerma (ver definição mais exata no Capítulo 7). Se o material irradiado for o ar, e se a radiação for fótons X ou gama, a relação entre a carga adicional, de mesmo sinal, e a massa permite definir a Exposição. Esta grandeza só é definida para o ar e para fótons. Ela pode ser relacionada com as demais grandezas mediante fatores de conversão que levam em conta a energia necessária para criar um par de íons e a influência da diferença de composição química no processo de transferência e absorção de energia. 4.3.2. Efeitos químicos Como os átomos e moléculas atingidos pela radiação estão dentro de células, que possuem um metabolismo e uma grande variedade de substâncias, a tendência seria a neutralização gradual dos íons e radicais, no decorrer do tempo, ou seja a busca do equilíbrio químico. Esta fase fisicoquímica dura cerca de 10-10 segundos, e nela, os radicais livres, íons e os agentes oxidantes podem atacar moléculas importantes da célula, inclusive as substâncias que compõem o cromossomo. Algumas substâncias, como a água, H2O, ao serem ionizadas podem sofrer radiólise: radiação => eOHOH 22 onde H2O + é o íon positivo e e - o íon negativo. O íon positivo forma o radical hidroxil ao se dissociar na forma: OHHOH2 O íon negativo, que é o elétron, ataca uma molécula neutra de água, dissociando- a e formando o radical hidrogênio: OHHOHeOH 22 Os radicais hidrogênio e hidroxil podem ser formados também com a dissociação da água, numa excitação: OHHOHOH 22 Além disso, os elétrons livres podem polarizar as moléculas próximas de água, formando um elétron-hidratado (e - ag) de vida relativamente longa. Os radicais H •, OH• e estes elétrons se difundem e reagem com as biomoléculas, podendo danificá-las. No rastro das radiações de alto LET a densidade de radicais é grande e ocorrem muitas recombinações, tais como: 121 OHOHH 2 2HHH 22OHOHOH O rendimento de H2 e da água oxigenada H2O2 na água pura é pequeno, devido à reação de recombinação de H com OH . Mas dentro da célula ou em presença de oxigênio, o H se combina para formar o radical peroxil, que se combina com outro para formar o peróxido de hidrogênio H2O2, 22 HOOH 22222 OOHHOHO Os radicais e o peróxido de hidrogênio podem reduzir ou oxidar as moléculas biológicas. Reações típicas são: MH + Ho MH2 0 MH + OH0 MHOH0 MH + H0 M0 + H2 MH + OH0 M0 + H2O 4.3.3. Efeitos biológicos Esta fase varia de dezenas de minutos até dezenas de anos, dependendo dos sintomas. As alterações químicas provocadas pela radiação podem afetar uma célula de várias maneiras, resultando em: morte prematura, impedimento ou retardo de divisão celular ou modificação permanente que é passada para as células de gerações posteriores. A reação de um indivíduo à exposição de radiação depende de diversos fatores como: Quantidade total de radiação recebida; Quantidade total de radiação recebida anteriormente pelo organismo, sem recuperação; Textura orgânica individual; Dano físico recebido simultaneamente com a dose de radiação (queimadura, por exemplo); Intervalo de tempo durante o qual a quantidade total de radiação foi recebida. É bom salientar que o efeito biológico constitui a resposta natural de um organismo, ou parte dele, a um agente agressor ou modificador. O surgimento destes efeitos não significa uma doença. 122 Quando a quantidade de efeitos biológicos é pequena, o organismo pode se recuperar, sem que a pessoa perceba. Por exemplo, numa exposição à radiação X ou gama, pode ocorrer uma redução de leucócitos,hemácias e plaquetas e, após algumas semanas, tudo retornar aos níveis anteriores de contagem destes elementos no sangue. Isto significa que houve a irradiação, ocorreram efeitos biológicos sob a forma de morte celular e, posteriormente, os elementos figurados do sangue foram repostos por efeitos biológicos reparadores, operados pelo tecido hematopoiético. 4.3.4. Efeitos orgânicos - Doenças Quando a quantidade ou a frequência de efeitos biológicos produzidos pela radiação começa a desequilibrar o organismo humano ou o funcionamento de um órgão, surgem sintomas clínicos denunciadores da incapacidade do organismo de superar ou reparar tais danos, que são as doenças. Assim, o aparecimento de um tumor cancerígeno radioinduzido, significa já quase o final de uma história de danos, reparos e propagação, de vários anos após o período de irradiação. A ocorrência de leucemia nos japoneses, vítimas das bombas de Hiroshima e Nagasaki, teve um máximo de ocorrência cinco anos após. As queimaduras originárias de manipulação de fontes de 192Ir, em acidente com irradiadores de gamagrafia, aparecem horas após. Porém, os efeitos orgânicos mais dramáticos, como a redução de tecido, ou possível perda dos dedos, podem levar até 6 meses para acontecer. As fases descritas anteriormente podem ser ilustradas pela Figura 4.10. Figura 4.10 - Fases do efeito biológico produzido pela radiação ionizante. 123 4.4. RADIOSSENSIBILIDADE DOS TECIDOS 4.4.1. Efetividade biológica relativa - RBE A influência da qualidade de radiação nos sistemas biológicos pode ser quantificada utilizando a Efetividade Biológica Relativa, Relative Biological Effectiveness (RBE). Para um dado tipo de radiação A e supondo constantes todas as variáveis físicas e biológicas, exceto o tipo de radiação, a RBE é definida pela relação adimensional: radiaçãoA referência Dose Dose ARBE )( onde Dosereferência é a dose da radiação de referência necessária para produzir um específico nível de resposta e Doseradiação A é a dose da radiação A necessária para produzir igual resposta. Nesta definição, a radiação usada como referência, nem sempre é bem estabelecida. Em muitos experimentos, utilizou-se a radiação X, filtrada, de 250 kVp. A relação parece clara, como definição, mas a dificuldade está em estabelecer o que significa um específico nível de resposta. Para superar possíveis indeterminações, utiliza-se a razão entre as inclinações das partes que podem ser consideradas lineares, das curvas de Dose x Efeito, para as radiações em estudo A e de referência. Esta razão, presumivelmente, poderá representar o valor máximo de RBE, ou seja, a RBEM. Para propósitos de proteção radiológica, a RBE é considerada como sendo função da qualidade da radiação, expressa em termos da Transferência Linear de Energia (LET). Em muitos sistemas a RBE aumenta com o LET até cerca de 100 keV μm-1 e depois diminui. A rigor, a RBE para uma determinada radiação não é somente dependente do LET, mas também da dose, da taxa de dose, do fracionamento da dose e até da idade da pessoa exposta. Seu valor só é reprodutível para um determinado sistema biológico, tipo de radiação e o conjunto de circunstâncias experimentais. Seus valores dependem então da natureza e condição do material biológico, do estado fisiológico, temperatura, concentração de oxigênio, condições de nutrição e estágio do ciclo celular. A magnitude do efeito e tipo de resposta com a dose também influenciam, pois as curvas de resposta nem sempre são semelhantes e regulares; assim, depende do intervalo de dose em que são comparadas. A Tabela 4.4 fornece alguns valores médios da relação entre RBE e LET, na água. Tabela 4.4 - Valores médios do LET e RBE para a água (ICRP-ICRU,1963). LET médio na Água keV μm-1 RBE ≤ 3,5 3,5 a 7,0 7,0 a 23 23 a 53 53 a 175 1 1 a 2 2 a 5 5 a 10 10 a 20 124 4.4.2. Transferência linear de energia - LET O conceito de transferência linear de energia (Linear Energy Transfer) - LET - provém da simplificação do Poder de Freamento de Colisão Linear (Linear Collision Stopping Power), como sendo a perda média de energia, por colisão, de uma partícula carregada por unidade de comprimento. O poder de freamento (stopping power) expressa o efeito do meio material na partícula, enquanto que o LET expressa o efeito da partícula no meio, normalmente o tecido humano. Para entender o significado do LET é preciso observar como as partículas carregadas interagem com o meio material. Por exemplo, um elétron, quer gerado após interação de um fóton X ou gama com a matéria, uma radiação beta ou uma partícula proveniente de um acelerador linear, interage basicamente com o campo elétrico de sua carga, influenciado pela sua massa. Numa visão simples de uma colisão, parece se comportar como o choque de duas esferas rígidas num mero evento mecânico. Entretanto, sob o ponto de vista físico, o elétron interage com vários elétrons atômicos ao mesmo tempo e, na interação com o elétron mais próximo, eles se afastam sem se tocar, devido ao aumento da repulsão de seus campos elétricos quando a distância entre eles é muito pequena. Neste evento, pode haver transferência ou conversão de energia, resultando em excitação ou ionização do átomo, emissão de radiação de freamento (bremsstrahlung) e mudança de direção da partícula. Como num material existem muitos elétrons, quando um elétron nele incide, haverá uma série de colisões sequenciais, com correspondentes transferências de energia e mudanças de direção. A energia inicial do elétron incidente vai sendo gradativamente transferida para o material, numa trajetória com a forma de linha quebrada. Supondo, então, que uma certa quantidade média de energia dE foi transferida entre um ponto A de referência e um ponto B de avaliação final, após várias colisões, a relação entre a energia dE, média, e a distância dx entre os pontos A e B é denominada de LET. Quando se fala em energia localmente cedida pela partícula, está implícito que o percurso da partícula carregada é menor do que o seu alcance (range) no meio material. Na definição do dE/dx, a partir da perda média de energia no espaço percorrido, existe ainda uma dificuldade não explicitada: é como acompanhar o elétron incidente se, após a primeira colisão, podem sair dois elétrons com energias muito próximas, cada um gerando uma sequência semelhante de colisões dentro do material. Assim, não contabilizando as perdas de energia pelas partículas secundárias de alta energia (raios δ), o LET recebe a denominação de Transferência Linear de Energia Irrestrito, denotado por L, uma vez que não se fixou um valor de energia de corte no processo de degradação. Além disso, acompanhando o percurso de uma partícula carregada num meio material e o processo de transferência de sua energia, percebe-se que ela não possui um valor fixo de LET. Após cada interação, o valor da energia da partícula é diferente e o valor de dE/dx depende deste valor. O que é chamado de LET constitui um valor médio obtido de um espectro largo de valores (ver Figura 4.11). Assim, a separação de radiações de baixo e alto LET é muito arbitrária, embora de utilidade prática. Outra observação importante é que o termo Linear nada tem a ver com uma trajetória retilínea. Ele significa simplesmente que é a estimativa mais simples que se faz de dE/dx, supondo que ele possa ser calculado por um desenvolvimento em série de Taylor, onde se escolheu o seu valor até o segundo termo, ou seja, o termo linear. 125 Figura 4.11 - Visualizaçãodo processo de transferência de energia (dE) por uma partícula carregada (elétron) em função da distância percorrida (dx) num meio material. Por outro lado, o fator de qualidade Q da radiação como função do LET, com seus valores médios estabelecidos pela ICRP podem constituir guias administrativos de importância prática, mas não de utilidade científica, pois muitas incertezas e aproximações foram embutidas. É por isso que a ICRP, em seu lugar, estabeleceu um fator de peso wR, obtido de uma revisão de uma grande variedade de tipos de exposição e informações biológicas. Consequentemente, com a introdução do wR foi necessário a definição do Dose Equivalente (Equivalent Dose), em substituição ao Equivalente de Dose (Dose Equivalent). 4.4.3. Radiações de baixo LET As radiações consideradas de baixo LET são: raios X, raios γ, β + e β -. Como se sabe, o LET só é definido para radiações constituídas por partículas carregadas. A inclusão dos raios X e da radiação γ se deve ao fato de que, após a primeira interação com a matéria, aparecem elétrons por efeito fotoelétrico, por espalhamento Compton ou por formação de pares. Por isso, tais radiações são também denominadas de indiretamente ionizantes. Os elétrons Auger são também considerados radiações de baixo LET, mas podem apresentar valores de RBE maiores que os demais elétrons. Entretanto, se o radionuclídeo que os emite não penetrar na célula, os elétrons Auger são incapazes de produzir efeitos biológicos, devido ao seu pequeno alcance. Para os que penetram na célula, mas não se incorporam ao DNA, o RBE é de 1,5 a 8. Para os que se incorporam no DNA como o 125I, o RBE de seus elétrons Auger fica na faixa de 20 a 40. 4.4.4. Indução de câncer pelas radiações de baixo LET Para fins de proteção radiológica, as doses (e taxas de doses), normalmente têm valores muito baixos, da ordem de mGy ou dezenas de mGy. Para estes valores de dose, não existem estudos epidemiológicos suficientes para estabelecer, com segurança, o formato da curva dose-resposta, ou a existência de um limiar. Como a maioria das informações sobre carcinogênese radioinduzida foi obtida com doses acima de 0,1 Gy e 126 com taxas de doses muito altas, fazem-se extrapolações das curvas de dose-resposta, para a região de doses baixas. Dentre as fórmulas matemáticas para explicitar tais hipóteses, a mais utilizada é a linear-quadrática (E = αD + βD2). A denominação linear-quadrática é matematicamente incorreta, pois, se for linear não pode ser quadrática. Entretanto, ela é muito usada, devido ao fato de que, para doses baixas, o efeito é proporcional à dose, ou seja, responde linearmente e, para doses elevadas, o efeito aumenta com o quadrado da dose. O comportamento dos efeitos biológicos que resultam em tumores cancerosos é descrito, matematicamente, da seguinte forma: a. Para valores de dose muito baixos, por não se ter dados experimentais inequívocos, supõe-se que a probabilidade de incidência de câncer seja proporcional à dose absorvida; b. Na região de doses elevadas, com dados obtidos das vítimas de Hiroshima e Nagasaki, acidentes radiológicos e experiências em laboratório, a probabilidade de incidência de câncer varia, na maioria dos casos, com o quadrado da dose; e c. Para doses muito elevadas, a probabilidade de indução de câncer decresce devido a alta frequência de morte celular, que impede a evolução para um câncer. Assim, a relação entre a dose e a probabilidade de indução de câncer é considerada linear, para radiações de baixo LET, quando os valores de dose estão abaixo dos limites recomendados pela ICRP. 4.4.5. Radiações de alto LET As radiações consideradas de alto LET são aquelas que possuem um alto poder de ionização e uma alta taxa de transferência de energia num meio material. Para o mesmo valor da dose absorvida, são as que induzem maiores danos biológicos. Partículas alfa, íons pesados, fragmentos de fissão e nêutrons são classificados como radiações de alto LET. As partículas carregadas interagem com os átomos situados defronte à linha de incidência e também nas proximidades, devido a ação da sua carga elétrica e sua massa. São denominadas de radiações diretamente ionizantes. As radiações denominadas de indiretamente ionizantes só são percebidas pelo material, após a primeira ionização, quando liberam elétrons; caso contrário, atravessam o material sem interagir. 4.4.6. Indução de câncer pelas radiações de alto LET Para as radiações de alto LET, o fracionamento da dose produz o mesmo efeito ou até o aumenta. Este fenômeno é denominado de efeito reverso da taxa de dose, conforme mostra a Figura 4.12. As radiações de alto LET causam mais danos por unidade de dose que as de baixo LET. Para efeito de morte celular, o RBE é de 2 a 3. Para efeitos determinísticos, geralmente não excede a 10. 127 Figura 4.12 - Formas de curvas dose-resposta, para radiações de baixo e alto LET, para indução de efeitos estocásticos. 4.4.7. Fator de eficiência da dose e da taxa de dose - DDREF A ICRP julga que quando se obtém coeficientes de probabilidade de indução de câncer num dado órgão, obtidos com altas doses e altas taxas de dose de radiações de baixo LET, para aplicá-los em estimativas com baixas doses ou baixas taxas de dose, deve-se utilizar um fator de redução, o DDREF (Dose and Dose Rate Effectiveness Factor). Este fator não se aplica para dados obtidos com radiações de alto LET. 4.4.8. O fator de redução DDREF Para fins de proteção radiológica, a ICRP (60) recomenda a inclusão de um fator de redução (DDREF) nos coeficientes de cálculo da probabilidade de indução de câncer devido a doses baixas (< 0,2 Gy) e baixas taxas de dose (<0,19 Gy/h) de radiações de baixo LET. Devido à variedade de tipos de tumor, nos diversos tecidos ou órgãos, e considerando que os valores atribuídos ao DDREF dependem dos intervalos de valores de dose e taxa de dose estudados, alguns organismos internacionais, como a NCRP e UNSCEAR, sugeriram o uso de um valor entre 2 e 10, após a revisão dos dados experimentais disponíveis. Por exemplo, para o 60Co, a redução de expectativa de vida devido a tumores, com exposições únicas, fracionadas e contínuas, o DDREF = 5. A ICRP recomenda, para propósitos de proteção radiológica, um valor conservativo e arbitrário de DDREF = 2. 4.4.9. Obtenção do DDREF O fator de redução DDREF é obtido, matematicamente, da curva de resposta Probabilidade de Indução de Câncer versus Dose Absorvida, para o sistema biológico estudado, e nas faixas de dose e de taxa de dose de interesse. Assim, considerando uma curva de resposta conforme mostra a Figura 4.13, o DDREF é obtido pela expressão: 1 LDDREF 128 onde αL é a inclinação da reta de ajuste dos dados experimentais dos pontos de altas doses ou altas taxas de dose (DDREF tem valores altos) e α1 é a inclinação da reta de ajuste dos dados experimentais dos pontos (poucos pontos) de baixas doses ou baixas taxas de dose (DDREF com valor próximo de 1). Figura 4.13 - Curva de resposta: probabilidade de indução de câncer versus dose absorvida, do tipo Linear-Quadrática, p = D + D2. 4.5. CLASSIFICAÇÃO DOS EFEITOS BIOLÓGICOS 4.5.1. Denominação dos efeitos biológicos Os efeitos radioinduzidos podem receber denominações em função do valor da dose e forma de resposta, em função do tempo de manifestação e do nível orgânico atingido. Assim, em função da dose e forma de resposta, são classificados em estocásticos e determinísticos; em termos do tempo de manifestação, em imediatose tardios; em função do nível de dano, em somáticos e genéticos (hereditários). 4.5.2. Efeitos estocásticos São efeitos em que a probabilidade de ocorrência é proporcional à dose de radiação recebida, sem a existência de limiar. Isto significa que doses pequenas, abaixo dos limites estabelecidos por normas e recomendações de proteção radiológica, podem induzir tais efeitos. Entre estes efeitos, destaca-se o câncer. A probabilidade de ocorrência de um câncer radioinduzido depende do número de clones de células modificadas no tecido ou órgão, uma vez que depende da sobrevivência de pelo menos um deles para garantir a progressão. O período de aparecimento (detecção) do câncer após a exposição pode chegar até 40 anos. No caso da leucemia, a frequência passa por um máximo entre 5 e 7 anos, com período de latência de 2 anos. Na Figura 4.14 é apresentada uma estimativa do tempo de latência para o aparecimento de câncer após exposição. 129 Figura 4.14 - Tempo de latência para aparecimento de câncer após irradiação. 4.5.3. Efeitos determinísticos São efeitos causados por irradiação total ou localizada de um tecido, causando um grau de morte celular não compensado pela reposição ou reparo, com prejuízos detectáveis no funcionamento do tecido ou órgão. Existe um limiar de dose, abaixo do qual a perda de células é insuficiente para prejudicar o tecido ou órgão de um modo detectável. Isto significa que os efeitos determinísticos são produzidos por doses elevadas, acima do limiar, onde a severidade ou gravidade do dano aumenta com a dose aplicada. A probabilidade de efeito determinístico, assim definido, é considerada nula para valores de dose abaixo do limiar, e 100%, acima. Além da severidade, os efeitos determinísticos variam com a frequência em que um dado efeito, definido como condição patológica reconhecível, aumentando em função da dose, em uma população de indivíduos com diferentes susceptibilidades (curvas a, b e c), conforme ilustra a Figura 4.15. 130 Figura 4.15 - Relações típicas entre dose e gravidade do dano (severidade), para efeitos determinísticos numa população. Exemplos de efeitos determinísticos na pele são: eritema e descamação seca para dose entre 3 e 5 Gy, com sintomas aparecendo após 3 semanas; descamação úmida acima de 20 Gy, com bolhas após 4 semanas; necrose para dose acima 50 Gy, após 3 semanas. Na Tabela 4.5 são apresentados os limiares de dose para efeitos como esterilidade temporária ou permanente, opacidade das lentes, catarata, e depressão do tecido hematopoiético, para exposições única e fracionada. 4.5.4. Efeitos somáticos Surgem do dano nas células do corpo e o efeito aparece na própria pessoa irradiada. Dependem da dose absorvida, da taxa de absorção da energia da radiação, da região e da área do corpo irradiada. 4.5.5. Efeitos genéticos ou hereditários São efeitos que surgem no descendente da pessoa irradiada, como resultado do dano produzido pela radiação em células dos órgãos reprodutores, as gônadas. Têm caráter cumulativo e independe da taxa de absorção da dose. 131 Tabela 4.5 - Limiares de dose para efeitos determinísticos nas gônadas, cristalino e medula óssea. TECIDO E EFEITO LIMIAR DE DOSE Dose Equivalente Total recebida em uma única exposição (Sv) Dose Equivalente Total recebida numa exposição fracionada ou prolongada (Sv) Taxa de Dose Anual recebida em exposições fracionadas ou prolongadas por muitos anos (Sv) Gônadas - esterilidade temporária - esterilidade 0,15 3,5 - 6,0 ND ND 0,40 2,00 Ovários - esterilidade 2,5 - 6,0 6 > 0,2 Cristalino - opacidade detectável - catarata 0,5 - 2,0 5,0 5 > 8 > 0,1 > 0,15 Medula óssea - depressão de hematopoiese 0,5 ND > 0,4 4.5.6. Efeitos imediatos e tardios Os primeiros efeitos biológicos causados pela radiação, que ocorrem num período de poucas horas até algumas semanas após a exposição, são denominados de efeitos imediatos, como por exemplo, a radiodermite. Os que aparecem depois de anos ou mesmo décadas, são chamados de efeitos retardados ou tardios, como por exemplo, o câncer. Se as doses forem muito altas, predominam os efeitos imediatos, e as lesões serão severas ou até letais. Para doses intermediárias, predominam os efeitos imediatos com grau de severidade menor, e não necessariamente permanentes. Poderá haver, entretanto, uma probabilidade grande de lesões severas a longo prazo. Para doses baixas, não haverá efeitos imediatos, mas há possibilidade de lesões a longo prazo. Os efeitos retardados, principalmente o câncer, complicam bastante a implantação de critérios de segurança no trabalho com radiações ionizantes. Não é possível, por enquanto, usar critérios clínicos porque, quando aparecem os sintomas, o grau de dano causado já pode ser severo, irreparável e até letal. Em princípio, é possível ter um critério biológico e espera-se algum dia ser possível identificar uma mudança biológica no ser humano que corresponda a uma mudança abaixo do grau de lesão. Por enquanto, utilizam- se hipóteses estabelecidas sobre critérios físicos, extrapolações matemáticas e comportamentos estatísticos. 4.6. REVERSIBILIDADE, TRANSMISSIVIDADE E FATORES DE INFLUÊNCIA 4.6.1. Reversibilidade A célula possui muitos mecanismos de reparo, uma vez que, durante sua vida, sofre danos provenientes de substâncias químicas, variação da concentração iônica no processo de troca de nutrientes e dejetos junto à membrana celular, danos físicos produzidos por variações térmicas e radiações. Mesmos danos mais profundos, produzidos no DNA, podem ser reparados ou compensados, dependendo do tempo e das condições disponíveis. Assim, um tecido atingido por uma dose de radiação única e de 132 baixo valor, tem muitas condições de recuperar sua integridade, mesmo que nele haja um certo percentual de morte de suas células. Em condições normais, ele repõe as células e retoma o seu ritmo de operação. Nestas condições, pode-se dizer que o dano foi reversível. Entretanto, para efeito de segurança, em proteção radiológica, considera-se que o efeito biológico produzido por radiação ionizante é de caráter cumulativo, ou seja, despreza- se o reparo do dano. 4.6.2. Transmissividade Outra questão importante é que o dano biológico produzido numa pessoa não se transmite. O que pode eventualmente ser transmitido é um efeito de doses elevadas que, lesando significativamente as células reprodutivas, pode resultar num descendente portador de defeito genético. Não há relação nenhuma entre a parte irradiada numa pessoa e o local de aparecimento do defeito no organismo do filho. Uma pessoa danificada pela radiação, mesmo exibindo sintomas da síndrome de irradiação aguda, pode ser manuseada, medicada e transportada como um doente qualquer, pois sua doença não pega. O cuidado que se deve ter no tratamento destas pessoas, é o dos médicos, enfermeiros, demais pessoas e instalações de não contaminá- las por vírus ou bactérias por eles portados, uma vez que, a resistência imunológica dos pacientes está muito baixa. As pessoas que sofreram contaminação, interna ou externa, com radionuclídeos é que precisam ser manuseadas com cuidado, pois tais radionuclídeos podem estar presentes no suor, na excreta e muco das vítimas. Por exemplo, as vítimas do acidente com o 137Cs, em 1987 em Goiânia, tiveram que ficar isoladas e, durante o tratamento especial, os técnicos tiveram que usar macacões, luvas, máscarase sapatilhas para não se contaminar radioativamente e não contaminar biologicamente os enfermos. 4.6.3. Fatores de influência 4.6.3.1. Idade Pessoas que recebem a mesma dose de radiação não apresentam os mesmos danos e nem sempre respondem em tempos semelhantes. A relação dose-resposta é o resultado estatístico obtido de vários experimentos, in vivo, in vitro e em acidentes com radiação. Existem alguns fatores que modificam a resposta ou o efeito biológico, como por exemplo, a idade, o sexo e o estado físico. O indivíduo é mais vulnerável à radiação quando criança ou quando idoso. Na infância, os órgãos, o metabolismo, as proporções ainda não se estabeleceram definitivamente e, assim, alguns efeitos biológicos podem ter resposta com intensidade ou tempo diferentes de um adulto. Por exemplo, com relação ao tempo de retenção de um radionuclídeo como o 137Cs, na forma de cloreto de césio, a meia-vida efetiva na criança é cerca de 55 dias, enquanto que, num adulto é de 110 dias. Isto significa, por um lado, queo 137Cs teve menos tempo para irradiar os órgãos internos, o que resultaria numa expectativa de menor dose de radiação. Por outro lado, como o processo de multiplicação celular é muito significativo nesta fase da vida do indivíduo, as células são mais sensíveis à radiação, morrendo em maior quantidade, mesmo que a reposição ocorra com uma taxa maior. Além disso, os órgãos estão mais próximos, facilitando o aumento da dose num órgão, quando existe outro com maior incidência de contaminação. No caso do idoso, o processo 133 de reposição ou reparo celular é de pouca eficiência e a resistência imunológica é menor que a de um adulto normal. 4.6.3.2. Sexo As mulheres são mais sensíveis e devem ser mais protegidas contra a radiação que os homens. Isto porque possuem órgãos reprodutores internos e os seios são constituídos de tecidos muito sensíveis à radiação. Além disso, existe o período de gestação, onde o feto apresenta a fase mais vulnerável à radiação e a mãe tem seu organismo bastante modificado em forma, composição hormonal e química. Além destes fatores, normalmente a mulher possui concentração dos elementos químicos em menor quantidade que os homens, organismo mais delicado e complexo, ciclos e modificações hormonais mais frequentes e intensas. 4.6.3.3. Estado físico O estado físico do irradiado influencia bastante na resposta do indivíduo à radiação. Se uma pessoa é forte, resistente, bem alimentada, sua resposta aos possíveis danos da radiação será atenuada quando comparada à uma pessoa fraca, subalimentada e com deficiência imunológica. Isto é esperado em relação a qualquer agente agressor, interno ou externo. A avaliação do estado físico é importante quando da tomada de decisão para o tratamento de radioterapia de uma pessoa com câncer, pois, em alguns casos, o tratamento poderia resultar num agravamento do quadro clínico. Um fato notável é a composição dos efeitos danosos da radiação com outros fatores agressivos ao organismo, como por exemplo, o fumo. Dentre os males causados pelo fumo, destaca-se o câncer nas vias respiratórias. Assim, a diferença entre a frequência de incidência, por exemplo, de câncer no pulmão em trabalhadores de minas de exploração de urânio, fumantes e não fumantes, pode atingir quase um fator dez, para o mesmo valor de dose absorvida, conforme mostra a Figura 4.16. 2 4 6 8 10 12 300 600 900 1200 1500 1800 2100 14 0 0 Figura 4.16 - Variação da incidência do câncer de pulmão em trabalhadores de minas de urânio, fumantes e não fumantes. 134 4.7. EFEITOS BIOLÓGICOS PRÉ-NATAIS Para uma melhor compreensão dos efeitos pré-natais induzidos pelas radiações ionizantes, a evolução de um feto é descrita simplificadamente na Tabela 4.6, onde o período de avaliação é de semanas. Tabela 4.6 - Evolução das características do feto em função do tempo. Semanas Situação Semanas Situação 1 Início do ciclo menstrual que resulta na gravidez 22 Pelos visíveis 4 Formação do embrião 23 Feto mexendo 5 Sistema circulatório e coração em formação, primórdios do sistema nervoso central 24 21 cm, 650 g 6 Membros superiores e inferiores brotando 25 Ganho de peso 7 Embrião com 8 mm, formação da face 26 Ganho de peso 8 13 mm, dedos e orelhas visíveis 27 Olhos começam a abrir 9 18 mm 28 ~1 kg 10 30 mm 29 Sistema nervoso central mais ou menos desenvolvido 11 50 mm, formação do estômago, bexiga, massa encefálica, coluna 30 Implantação placentária, feto de cabeça para baixo 12 61 mm, face, unhas e dedos se desenvolvendo 31 Formação do fêmur e endurecimento ósseo 13 Bexiga estufando, pele se desenvolvendo 32 Contrações uterinas 14 Estímulo cardíaco 33 Ganho de peso 15 Sexo fetal definido 34 Feto com ~2 kg 16 Ossificação fetal 35 Pulmões endurecendo 17 Movimentação 36 Contrações uterinas 18 Diferenciação sexual 37 Feto maduro, ganho de peso 200 a 250 g/semana 19 Sistemas circulatório, digestivo e urinário funcionando 38 Contrações uterinas 20 500 g, movimentação 39 Fim da gestação, dilatação do colo uterino 21 Soluço fetal 40 Parto Para fins de Proteção Radiológica, a publicação Nº 89 da ICRP, de 2001) estabelece os valores de referência para as dimensões, massas, conteúdo de todas as fases do corpo humano, desde a fase embrionária até a adulta. Os efeitos biológicos pré-natais induzidos pela radiação ionizante podem ser avaliados em duas situações: a) os induzidos por radionuclídeos ingeridos ou inalados pela mãe e transferidos ao embrião ou feto; b) os induzidos pela radiação externa, durante o período de gravidez. No relatório da UNSCEAR de 1986, denominado Genetic and Somatic Effects of Ionizing Radiation, foram avaliados dados de experimentos com animais e das pessoas expostas em Hiroshima e Nagasaki, e enfocados, principalmente, os temas: 135 a) efeitos letais no embrião; b) mal-formações e outras alterações estruturais e no crescimento; c) retardo mental; d) indução de doenças, incluindo a leucemia; e e) efeitos hereditários. Na publicação Nº 60 da ICRP, de 1990, a questão da irradiação do feto, durante o período de gestação foi estudada onde os valores das probabilidades de indução de efeitos por radiações de baixo LET foram determinados. Eles são resumidos na Tabela 4.7. Tabela 4.7 - Valores das probabilidades de indução de efeitos biológicos induzidos por radiações de baixo LET no feto. Probabilidade de efeitos - Radiação de baixo LET Efeito População Período de exposição (semanas) Modo de exposição Probabilidade Redução do QI Feto 8 a 15 de gestação Doses elevadas Altas taxas de dose 30 pontos no QI Sv-1 Retardo Mental Severo Feto 8 a 15 de gestação Doses elevadas Altas taxas de dose 40x10-2 a 1 Sv A Publicação No.88 da ICRP de 2001, intitulada: “Dose to the Embryo and Fetus from Intake of Radionuclides by the Mother”, apresenta um estudo aprofundado sobre a questão, levando em conta a transferência de radionuclídeos pela placenta, distribuição e retenção no tecido fetal. São apresentados os modelos Biocinéticos e Dosimétricos para o cálculo das doses no embrião, no feto e recém-nascido resultantes da ingestão ou inalação de radionuclídeos pela mãe, antes ou durante a gravidez. São exibidas as tabelas para cada radionuclídeo, órgão ou sistema do corpo humano. Para a avaliação das doses, foram considerados três períodos: o período depré- implantação, com duração de 0 a 8 dias; o período embrionário de organogênese, com duração de 9 a 56 dias e; o período fetal de crescimento, com duração de 57 a 266 dias. Tabela 4.8 - Risco de efeitos biológicos pré-natais, deletérios à saúde humana, induzidos pela radiação ionizante. Exposição Pré-natal (semanas) Risco de efeito Até 3 Não resulta em efeitos estocásticos ou deletérios após nascimento 4-14 Má-formação e efeitos determinísticos (0,1 a 0,5 Gy) 8 a 25 Sistema nervoso central muito sensível à radiação D>100 mGy, inicia o decréscimo do QI 8 a 15 Alta probabilidade de retardo mental severo 16 a 25 Menor sensibilidade do sistema nervoso central. 136 4.8. USO DE EFEITOS BIOLÓGICOS NA TERAPIA 4.8.1. Radioterapia O fato de radiações penetrantes, do tipo raios X e gama, induzirem danos em profundidades diferentes do organismo humano e, com isso, causar a morte de células, pode ser utilizado para a terapia do câncer. Assim, tumores profundos podem ser destruídos ou regredidos sob a ação de feixes de radiação gama adequadamente aplicados. Como a intensidade do feixe decai exponencialmente com a espessura de tecido penetrado, a dose e a correspondente quantidade de dano produzido, são maiores na superfície de entrada do que no ponto de localização do tumor. Isto irradiaria, com maior dose, os tecidos de entrada e intermediário, desnecessariamente. Para minimizar isso, focaliza-se sempre o tumor, e aplica-se o feixe de radiação em diferentes direções, movendo o irradiador ou o paciente, de modo que a dose induza à morte as células do tumor e o tecido sadio irradiado seja naturalmente reposto. O uso de raios X é semelhante, com a diferença que se pode variar o poder de penetração da radiação e a intensidade de feixe. Para tumores localizados em certas regiões do corpo é preferível utilizar fontes de radiação gama aplicadas diretamente sobre eles, numa técnica conhecida como Braquiterapia. Dependendo da situação, podem-se embutir fontes perto do local afetado, como as antigas agulhas de 226Ra e as sementes de 137Cs, 60Co e 192Ir, ou irradiar o tumor com uma fonte próxima, por meio de um aplicador. 4.8.2. Aplicações oftalmológicas e dermatológicas Em alguns tratamentos pós-cirúrgicos, pode ser utilizado um aplicador do tipo oftalmológico ou dermatológico, contendo um radioisótopo emissor beta puro, do tipo 90Sr, cujas radiações causam dano superficial devido à baixa penetração da radiação. Isto pode danificar um pouco a lente dos olhos ou a pele da pessoa, mas, em compensação, o efeito de cauterização resultante pode acelerar a cicatrização, evitar a hemorragia ou a formação de quelóides (cicatrizes indesejáveis), respectivamente. 4.8.3. Aplicação de radiofármacos Na obtenção de imagens de órgãos, tecidos e sistemas do corpo humano, podem ser utilizados feixes externos de raios X ou as radiações gama emitidas por radioisótopos neles incorporados, utilizando radiofármacos apropriados. Nestes exames de radiodiagnóstico, o tempo de exposição varia de fração de segundos até algumas horas. O dano causado depende da dose absorvida, que é acumulativa, mas de valor muito menor quando comparada com as aplicadas em radioterapia. Na Figura 4.17 tem-se uma ilustração dos principais radiofármacos utilizados e seus respectivos órgãos ou tecidos de incorporação preferencial. 137 Figura 4.17 - Incorporação preferencial de radioisótopos nos tecidos e órgãos do corpo humano, em função do tipo de composto químico utilizado, para produção de imagens em gama-câmaras para diagnóstico em Medicina Nuclear. 4.9. SÍNDROME DE IRRADIAÇÃO AGUDA 4.9 1. Exposições acidentais com altas doses A exposição com feixes externos de radiação e, em alguns casos, com contaminação interna por radionuclídeos, pode resultar em valores elevados de dose absorvida, envolvendo partes do corpo ou todo o corpo. Estas exposições ocorrem em situações de acidente, envolvendo fontes radioativas de alta atividade ou feixes de radiação intensos produzidos por geradores de radiação ionizante, como aceleradores de partícula, reatores e máquinas de raios X. Como resultado destas exposições o organismo humano desenvolve reações biológicas que podem se manifestar sob a forma de sintomas indicativos de alterações profundas provocadas pela radiação, conhecidos como Síndrome de Irradiação Aguda ou, como denominam algumas pessoas, Síndrome de Radiação Aguda. Na análise microscópica do organismo humano, percebe-se que muitas células tiveram, entre outros danos, seus cromossomos atingidos e, algumas células exibem aberrações cromossomiais. Estas aberrações cromossomiais podem ser observadas com auxílio de um microscópio óptico depois de devido procedimento de cultura biológica, separação e tratamento do material amostrado para análise, por exemplo, o sangue. O cromossomo normal tem a forma de um “X”. As formas mais características de aberrações produzidas são os denominados cromossomos dicêntricos e em forma de anel. Os dicêntricos são formados pela emenda aleatória de dois cromossomos mutilados pela 138 radiação, cada um contribuindo com um centro. Os anéis aparecem quando um mesmo cromossomo é cortado nas duas extremidades, e elas se ligam formando um anel. A frequência relativa de dicêntricos e anéis depende da dose, da energia da radiação e do tipo de radiação. Na Figura 4.18 são apresentadas curvas que expressam a variação do número de aberrações com o tipo e energia da radiação. Figura 4.18 - Frequência de cromossomos dicêntricos para células submetidas à radiação gama do 60Co e a nêutrons de várias energias. 4.9.2. Exposição externa localizada As lesões mais severas produzidas por exposições localizadas e de altas doses são, resumidamente: a. Lesões na pele - eritema precoce 3 < D < 10 Gy - epiderme seca 10 < D < 15 Gy - epiderme exudativa 15 < D < 25 Gy - queda de pelos e cabelos - radiodermite - necrose D > 25 Gy b. Lesões no olho - ocorre para D > 2 Gy - catarata D> 5 Gy 139 c. Lesões nas gônadas - Homem -esterilidade temporária D > 0,15 Gy - esterilidade definitiva 3,5< D > 6 Gy - Mulher - alterações provisórias na fecundidade D > 2,5 Gy - esterilidade 3 < D < 6 Gy d. Lesão no Feto - efeitos em função da dose e idade do feto 4.9.3. Exposição de corpo inteiro de um adulto Quando uma pessoa é exposta à radiação gama em corpo inteiro, ou no caso ignorado, considerado como tal, os valores limiares de dose absorvida para o caso de 1% de Morbidez e Mortalidade são apresentados na Tabela 4.9, conforme a publicação 103 da ICRP de 2007. A morbidez pode ser definida como o número de doenças produzidas em determinado órgão, tecido ou sistema de uma pessoa quando submetida a uma determinada causa. Pode significar também a taxa de portadores de determinada doença, em relação à população total estudada em determinado local e momento. O valor de 1% de morbidez e mortalidade significa uma em 100 pessoas expostas. Tabela 4.9 - Limiares estimados de doses absorvidas agudas gama para 1% de morbidez e mortalidade, após exposição de corpo inteiro de uma pessoa. (ICRP 103, 2007). Efeito Órgão/Tecido Tempo de Desenvolvimento Dose Absorvida (Gy) MORBIDADE 1% de incidência Esterilidade temporária Testículos 3-9 semanas ~ 0,1 Esterilidade permanente Testícuos 3 semanas ~ 6 Esterilidade permanente Ovários < 1 semana ~ 3 Depressão do sangue Medulaóssea 3-7 semanas ~ 0,5 Avermelhamento da pele Pele (grande área) 1-4 semanas < 3 a 6 Queimadura da pele Pele (grande área) 2-3 semanas 5 a 10 Perda temporária de cabelo Pele 2-3 semanas ~ 4 Catarata Olho Vários anos ~ 1,5 MORTALIDADE 1% de incidência Síndrome da medula óssea vemelha Sem tratamento médico Medula óssea 30-60 dias ~ 1 Com tratamento médico Medula óssea 30-60 dias ~ 2 a 3 Síndrome gastrointestinal Sem tratamento médico Intestino delgado 6-9 dias ~ 6 Com tratamento médico Intestino delgado 6-9 dias > 6 Pneumonite Pulmão 1-7 meses 6 140 4.9.4. Sindrome de irradiação aguda O conjunto e a sucessão de sintomas que aparecem em vítimas de acidentes envolvendo doses elevadas de radiação é denominado de Síndrome de Irradiação Aguda. Os sistemas envolvidos são o circulatório, particularmente o tecido hematopoiético, o gastrointestinal e o sistema nervoso central. A Tabela 4.10 mostra, de modo simplificado, os sintomas associados a diferentes valores de dose elevadas. Tabela 4.10 - Síndrome de irradiação aguda. FORMA DOSE ABSORVIDA (Gray) SINTOMAS Infra-clínica < 1 Ausência de sintomas, na maioria dos indivíduos Reações leves generalizadas 1 a 2 Astenia, náuseas e vômitos de 3 a 6 horas após a exposição. Efeitos desaparecendo em 24 horas Síndrome Hematopoiética Leve 2 a 4 Depressão da função medular (linfopenia, leucopenia, trombopenia, anemia). Máximo em 3 semanas após a exposição e voltando ao normal em 4 a 6 meses. Síndrome Hematopoiética Grave 4 a 6 Depressão severa da função medular Síndrome do Sistema Gastrointestinal 6 a 7 Diarreia, vômitos, hemorragias Síndrome Pulmonar 7 a 10 Insuficiência respiratória aguda Síndrome do Sistema Nervoso Central >10 Coma e morte. Horas após a exposição. A dose letal média fica entre 4 e 4,5 Gy. Isto significa que, de 100 pessoas irradiadas com esta dose, metade morre. Na Tabela 4.11 são apresentados a chance de sobrevivência, o tempo de manifestação e os sintomas. Tabela 4.11 - Sintomas de doença resultantes da exposição aguda à radiação ionizante, em função do tempo. TEMPO DE MANIFESTAÇÃO (semanas) SOBREVIVÊNCIA PROVÁVEL 1 - 3 Gy POSSÍVEL 4 - 7 Gy IMPROVÁVEL > 8 Gy 1 Fase latente, nenhum sintoma definido Náusea, vômito Náusea, vômito, diarreia, garganta inflamada, úlcera, febre, emagrecimento rápido, morte 2 Depilação, perda de apetite, indisposição, garganta dolorida, diarreia, emagrecimento, morte. 3 Depilação, perda de apetite, indisposição 4 Garganta dolorida, diarreia, emagrecimento moderado 141 A Tabela 4.12 apresenta, em ordem aproximada de gravidade crescente, os sintomas e sinais no estágio prodrômico e síndrome da irradiação aguda. Tabela 4.12 - Sintomas e sinais no estágio prodrômico e síndrome de irradiação aguda em ordem aproximada de crescente gravidade. Anorexia (perda de apetite) Náusea Vômito Debilidade e fadiga Prostração Diarreia Conjuntivite Eritema (vermelhidão cutânea) Choque (falência aguda da circulação periférica) Oliguria (redução da excreção urinária) Ataxia (perda da coordenação dos movimentos) Desorientação Coma (alteração grave da vigilidade - encéfalo) Morte Para se ter uma compreensão mais significativa destes eventos sintomáticos, em termos de dose absorvida e tempo de manifestação, a Figura 4.19 mostra o comportamento médio das pessoas, em termos probabilísticos, quando expostas a altas doses de radiação ionizante. minutos horas dias semanas 2 1530 2 2 24 4 43 3 35 5 25 10 0,5 1,5 5126 6 Tempo após a exposição precoce Fase Fase crítica D os e (G y) Sintomas iniciais (Prodrômica) Risco de dano fatal na ausência de tratamento G ra vi da de Figura 4.19 - Evolução média de pessoas irradiadas em relação ao tempo e em função da dose. 142 Na Figura 4.19 os sintomas são caracterizados por três parâmetros: a dose absorvida, a gravidade (severidade) do dano e o tempo de manifestação após a exposição. Assim, por exemplo, para um indivíduo exposto a uma dose de 5 Gy, sua fase Prodrômica se inicia quase 15 minutos após a exposição e desaparece em torno de 8 horas. Sua fase crítica é esperada após 3,5 dias, devendo-se ter um cuidado extremo com ele após 3 semanas, quando o indivíduo corre sério risco de morrer. Em decorrência do acidente de Chernobyl, 1986, várias pessoas foram fortemente irradiadas, principalmente as ligadas ao atendimento da situação de emergência. Na Tabela 4.13, são mostrados alguns dados das pessoas que foram atendidas nos hospitais de Moscou e de Kiev. Na Figura 4.20 é mostrado o número de casos por 100.000 pessoas de câncer na tireoide na Bielorrússia, induzidos em crianças, adolescentes e adultos. Tabela 4.13 - Pessoas com síndrome de irradiação aguda irradiadas durante o acidente nuclear de Chernobyl. Dose (Gy) Pacientes tratados em Falecimentos Sobreviventes Moscou Kiev Média 0,8 – 2,1 23 18 0 (0%) 41 Moderada 2,2 – 4,1 44 6 1 (2%) 49 Severa 4,2 – 6,4 21 1 7 (32%) 15 Muito severa 6,5 - 16 20 1 20 (95%) 1 Total 0,8 - 16 108 26 28 106 Figura 4.20 - Indução de câncer na tireoide na Bielorrússia devido ao acidente nuclear em Chernobyl, em 1986. 0 2 4 6 8 10 12 19 86 19 87 19 88 19 89 19 90 19 91 19 92 19 93 19 94 19 95 19 96 19 97 19 98 19 99 20 00 20 01 20 02 Período Ca so s p or 10 0 0 00 pe ss oa s Crianças (0-14) Adolescentes (15-18) Adultos (19-34) 143 4.9.5. Dose letal para componentes da fauna e flora Os organismos vivos apresentam uma resistência diferenciada em relação aos efeitos biológicos das radiações ionizantes. Em geral, quanto maior a sua complexidade orgânica, estrutural e neurológica menor sua resistência. Quanto mais simplificado for o organismo, maior a sua resistência. Na Figura 4.21 são apresentadas as faixas aproximadas de dose aguda letal para vários grupos taxonômicos conforme a publicação das Nações Unidas, UNSCEAR de 2008, Anexo E, p.273. Pelos valores apresentados pode-se compreender as razões das doses elevadas de radiação para atingir propósitos no tratamento de alimentos como esterilizar ou matar insetos e larvas, reduzir população de fungos e micróbios patogênicos. Figura 4.21 - Faixas aproximadas de Dose Aguda Letal para vários grupos taxonômicos (UNSCEAR, 2008). 1 10 100 1.000 10.000 Mamíferos Pássaros Plantas superiores Peixes Anfíbios Répteis Crustáceos Insetos Musgos, liquens, algas Bactérias Protozoários Moluscos Vírus DOSE AGUDA LETAL (Gy) 144 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNSCEAR, Genetic and Somatics Effects of Ionizing Radiation, Report of the United Nations Scientific Committees on the Effects of Atomic Radiations, 1986. http://www.unscear.org/unscear/en/publications UNSCEAR, Sources, Effects and Risks of Ionizing Radiation, Report of the United Nations Scientific Committees on the Effects of Atomic Radiations, Annexes, United Nations Publications - New York, 2008. http://www.unscear.org/unscear/en/publications/ ICRP 60, Recommendations of ICRP, Annals of ICRP, Bethesda, 1990. ICRP 88, Dose to the Embryo and Fetus from Intake of Radionuclides by the Mother, Annals of ICRP, Bethesda, 2001.