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V Encontro Nacional da Anppas 
4 a 7 de outubro de 2010 
Florianópolis - SC – Brasil 
Sociologia Rural e Etnociências: 
Convergências e Diálogos Interdisciplinares 
Igor Simoni Homem de Carvalho (Unicamp) 
Biólogo, Mestre em Política e Gestão Ambiental, 
Doutorando em Ambiente e Sociedade 
pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) 
igorshc@yahoo.com 
Sonia Maria Pessoa Pereira Bergamasco (Unicamp) 
PhD, Professora Titular da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) 
e Professora Permanente do Nepam 
sonia@feagri.unicamp.br 
Resumo 
A sociologia rural, um dos mais antigos ramos da sociologia, tem em sua origem e 
desenvolvimento a contribuição de diversas áreas do conhecimento. As “etnociências” – 
compreendidas aqui como o conjunto das ciências naturais acrescidas do prefixo etno: 
etnobiologia, etnoecologia, etnobotânica – também remontam a interações entre diferentes 
disciplinas. O objetivo deste trabalho é identificar convergências e diálogos potenciais entre estes 
dois campos de estudo, por meio da revisão de trabalhos diversos e de artigos em periódicos 
especializados. Foram encontradas referências, em ambas as áreas, a: seu caráter 
interdisciplinar; origem e desenvolvimento associados a situações de crise; relações com a 
questão ambiental; objeto de estudo semelhante, o campesinato e os povos indígenas; e o 
engajamento de muitos pesquisadores em prol de mudanças sociais. Outras possibilidades de 
diálogos residem nos temas: território/paisagem, assistência técnica e extensão rural, gênero. Foi 
identificado ainda um potencial pouco aproveitado de diálogo entre pesquisadores das áreas em 
questão. O trabalho sugere uma aproximação entre os campos de pesquisa analisados, como 
possibilidade de prática interdisciplinar em benefício do avanço em diversos temas ligados a 
questão rural, ambiental e das relações sociedade-natureza. 
Palavras-chave 
Interdisciplinaridade; sociologia rural; etnociências; etnobiologia; etnoecologia; etnobotânica. 
 
2 
Introdução 
A interdisciplinaridade no ensino e na pesquisa científica já é considerada um imperativo ou, pelo 
menos, uma tendência. Disciplinas de origens distintas são, cada vez mais, confrontadas em torno 
de temas comuns, ou escaladas para a construção conjunta de metodologias inovadoras. Muitas 
são as situações e possibilidades de se produzir pesquisa e teorias sobre temas multifacetados e 
multidimensionais. Ignacy Sachs (2009:297), por exemplo, acredita numa “transdisciplinaridade 
ativa na cabeça de cada pesquisador”, enquanto Ferreira et al. (2010) consideram que a 
interdisciplinaridade não deva ser tarefa individual, mas, sim, contar com profissionais de 
diferentes áreas do conhecimento. 
Buller (2008) contesta a noção de que a interdisciplinaridade enfraqueça a disciplinaridade; pelo 
contrário, sua força residiria exatamente na habilidade de estabelecer conexões e relativizar 
objetos e sistemas de conhecimento. A interdisciplinaridade é considerada, por Morillo et al. 
(2003), como a melhor maneira de desenvolver tópicos de pesquisa prática já que a sinergia entre 
disciplinas tradicionais tem-se mostrado bastante frutífera. Tais autores salientam que as 
abordagens que integram diferentes disciplinas são requeridas por boa parte dos problemas da 
sociedade, dentre os quais se destaca o ambiental. Floriani (2000:37) defende o diálogo de 
saberes como “projeto fundante de um novo praticar conhecimento sobre a natureza, a sociedade 
e suas confluências e divergências”, convocando as ciências sociais e naturais para tentar 
“desatar muitos nós que nos prendem a visões e a práticas limitadas de relacionamento entre os 
seres humanos em sociedade e com a natureza”. 
Este trabalho tem, como objetivo, identificar convergências e diálogos possíveis entre dois 
campos de estudo: a sociologia rural e as etnociências1. Este esforço insere-se no contexto da 
pesquisa de doutorado do primeiro autor, na qual se investiga a conservação da biodiversidade 
em uma comunidade rural – no caso, um assentamento agroextrativista do Cerrado norte-mineiro, 
onde vivem agricultores de diferentes origens, incluindo habitantes tradicionais da região, dotados 
de conhecimentos profundos sobre seu ambiente. A discussão que se pretende travar na tese 
terá, como referências teórico-metodológicas, a sociologia rural e as etnociências – daí o desafio 
interdisciplinar proposto. 
Foi realizada uma revisão de parte da literatura disponível em sociologia rural e etnociências, em 
especial de trabalhos que buscam definir e delimitar seus escopos de pesquisa e atuação, 
valendo mencionar o livro organizado por José de Souza Martins (1986), os trabalhos do 
etnoecólogo Victor Toledo e artigos em periódicos especializados. A busca privilegiou trabalhos de 
cunho teórico, que tratam da origem, desenvolvimento e perspectivas relacionadas à sociologia 
 
 
1 Esclarecemos, mais adiante, o que chamamos de “etnociências”. 
 
3 
rural e às etnociências – notadamente, etnobiologia, etnoecologia e etnobotânica. A busca de 
artigos foi realizada via sistema VPN (rede virtual privada) da Universidade Estadual de Campinas 
(Unicamp). As principais revistas e os volumes aos quais tivemos acesso foram: Journal of 
Ethnobiology, volumes 1-27 (1981 a 2007); Ethnobotany Research & Applications, volumes 1-8 
(2003 a 2010); e Rural Sociology, volumes 62-75 (1997 a 2010). 
Sociologia rural: origens e atualidade 
Lefebvre (1986ª; 1986b), em texto originalmente publicado em 1949, nos remete ao século XVIII 
para identificar as origens da sociologia rural. Naquele momento, nascia o predomínio da indústria 
e da cidade sobre a agricultura e o campo, levando à “descoberta” da realidade camponesa. Tal 
realidade, dominante ao longo da maior parte da história da humanidade, entrava então em crise, 
e desaparecia em relação às suas formas tradicionais. Solari também sustenta que a origem e o 
desenvolvimento da sociologia rural, assim como da sociologia geral, se vincula a situações de 
crise. No caso rural, a crise apresentava duas dimensões: a migração do campo pra cidade e a 
urbanização do meio rural. Freudenburg (2006:22, fig.1) nota que a Rural Sociology Society (RSS) 
foi fundada logo após as primeiras décadas de queda brusca do número absoluto de empregos 
rurais nos Estados Unidos. Assim, a sociologia rural “nasceu e desenvolveu-se aguçada pelas 
necessidades e pelos problemas propostos pelas transformações sociais” (SOLARI, 1971 apud 
MARTINS, 1986, p.24). 
A sociologia rural é um ramo ou segmento da sociologia, provavelmente dos mais antigos 
(ANDERSON, 1986; LEFEBVRE, 1986a; SOLARI, 1971 apud MARTINS, 1986). Ela trata das 
relações entre a gente rural e dos fatores que influem na organização dessas relações, buscando 
compreender costumes e tradições que distinguem a vida rural de outros modos de vida 
(LEONARD & CLIFFORD, 1971). A sociologia rural se vale das teorias e métodos da sociologia 
geral, que, por sua vez, se enriquece através das experiências particulares da realidade social 
rural (JOLLIVET, 2001 apud FERREIRA, 2002). Alguns marcos de seu desenvolvimento inicial 
são a publicação do Systematic Source Book in Rural Sociology por Sorokin, Zimmerman e 
Galpin, em 1930, e a fundação da Rural Sociology Society, em 1937 (ANDERSON, 1986; 
FREUDENBURG, 2006). 
Diversos autores afirmam o caráter interdisciplinar da sociologia rural. Lefebvre (1986b) atribui a 
historiadores e geógrafos o início do estudo da realidade camponesa, que tornou-se objeto da 
ciência a partir do momento em que apresentou problemas práticos, alvos de diferentes campos 
de estudo. Para Jollivet (1998), sendo o meio rural um campo de investigação para todas as 
ciências, seu estudo não poderia nunca constituir uma disciplina autônoma. Dessa forma, a4 
sociologia rural seria um campo de estudo interdisciplinar, integrador das dimensões social, 
histórica e geográfica do meio rural. Já autores como Beaulieu (2005) e Krannich (2008) 
consideram a sociologia rural uma disciplina, mas que sempre valorizou orientações teóricas e 
abordagens metodológicas diversas. Estes autores destacam a necessidade de se construir 
“pontes” que liguem a sociologia rural a outras disciplinas e entidades com objetivos semelhantes, 
ampliando sua ênfase em ensino e pesquisa interdisciplinar. Segundo Mendras (1958 apud 
JOLLIVET, 1998), o sociólogo rural deve conhecer métodos e técnicas de todas as outras ciências 
sociais, a não ser que conte com a colaboração de uma equipe de diversos especialistas. Para 
Freudenburg (2006), a RSS tem a tradição de ultrapassar as fronteiras disciplinares, 
demonstrando o vigor das colaborações interdisciplinares e potencializando insights em todas as 
disciplinas envolvidas. 
O progressivo avanço do modelo urbano-industrial fomentou a crença no “inexorável fim do rural”, 
e até mesmo a sociologia rural passou a ser questionada como disciplina, já que “parecia evocar, 
como seu objeto, (...) um fenômeno anacrônico diante da integração da agricultura à indústria, do 
fim do campesinato e da urbanização crescente do campo” (FERREIRA, 2002, pp.28-29). Ao 
ponto que, durante boa parte do século XX, as duas grande potências político-econômicas, 
Estados Unidos e União Soviética, “propuseram a desaparição do campesinato como via para 
realizar o desenvolvimento rural e (...) desencadearam inúmeros processos de destruição da 
natureza” (TOLEDO, 1992). Este modelo produtivista tem se afundado em crises, como a da 
superprodução e, mais recentemente, a ambiental (WANDERLEY, 2000). 
Nas décadas recentes, entretanto, iniciou-se um processo de “redescoberta” do rural, que emerge 
como base potencial para se repensar a sociedade contemporânea, em especial as relações 
desta com os recursos naturais. Em países de capitalismo avançado, muitas foram as 
transformações do meio rural nas décadas recentes. Neste “renascimento”, o rural torna-se cada 
vez mais diversificado e pluriativo, onde existem tensões e conflitos, refletidas nos interesses 
distintos entre, por exemplo, a destinação do espaço rural para produção, consumo ou 
preservação ambiental (WANDERLEY, 2000; FERREIRA, 2002). 
Veiga (2006) identifica duas hipóteses principais sobre o destino da ruralidade: a de sua completa 
urbanização, formulada por Henri Lefebvre; e a do renascimento rural, formulada por Bernard 
Kayser. Ambas teriam, contudo, centralidade na "comunidade camponesa". Anderson (1986) 
acrescenta ainda que o estudo da comunidade, onde reside o modo de vida tipicamente 
camponês, sempre foi central na sociologia rural. Ferreira (2002) considera que o debate 
desenvolvido pela sociologia rural vem evidenciando o valor do conhecimento e modo de vida 
camponês, relacionado principalmente a sua capacidade de implementar estratégias de vida sob 
condições adversas, com um mínimo de recursos materiais disponíveis. 
 
5 
Toledo (1996) reconhece o tema do campesinato como um dos maiores geradores de reflexões, 
controvérsias e publicações nas ciências sociais contemporâneas. Entretanto, o autor considera 
que as relações dos camponeses com o mundo natural foi, historicamente, negligenciada: a 
questão ecológica tem permanecido fora do interesse de campesinólogos notáveis, como Shanin; 
e a revista The Journal of Peasant Studies só incluiu contribuições nesta linha esporadicamente. 
Na medida em que se agrava a crise ecológica, as ciências sociais progressivamente se 
aproximam das temáticas ambientais. Diversos campos ou sub-disciplinas já buscam estabelecer 
estas conexões: ecologia política, sociologia ambiental, economia ecológica... (ver, p.ex., 
GIDDENS, 1991; MARTELL, 1994). Freudenburg (2006) e Krannich (2008) destacam a liderança 
intelectual da RSS no tema do meio ambiente e dos recursos naturais, defendendo que a própria 
sociologia ambiental e dos recursos naturais nasceram dentro da sociologia rural, lembrando que 
a RSS abrigou este campo emergente em 1964, gestando o grupo que deu origem ao Natural 
Resources Research Group (NRRG) nos Estados Unidos. 
Anderson (1986) destaca a contribuição da sociologia rural, desde o início de seu 
desenvolvimento, aos temas ligados à ecologia, sinalizando para um grande potencial ainda a ser 
explorado nesta área. O francês Bruno Jean (2002) também defende uma aproximação entre as 
ciências naturais e sociais, que permita o estabelecimento de abordagens interdisciplinares no 
tema específico dos territórios rurais. Autoras brasileiras, como Maria Nazareth Wanderley (2000), 
Ângela Ferreira (2002) e Delma Pessanha Neves (2009b), fazem coro sobre a importância da 
questão ecológica para a sociologia rural. Esta importância se torna ainda mais evidente quando 
verificamos que impactos ambientais, como perda de biodiversidade, erosão de solos e secagem 
de corpos d’água, se manifestam mais intensamente no meio rural. 
Diversos autores destacam o engajamento político da sociologia rural, tanto ao longo de sua 
história quanto como perspectiva futura. A promoção do bem-estar das populações e 
comunidades rurais seria uma missão histórica da sociologia rural; contudo, os sociólogos rurais 
devem buscar, cada vez mais, transformar suas pesquisas em ações práticas e políticas públicas 
que as beneficiem diretamente (ANDERSON, 1986; FREUDENBURG, 2006; KRANNICH, 2008; 
STEELE, 2009). 
Um outro tema cada vez mais recorrente na sociologia rural diz respeito ao conceito de território, 
originalmente ligado à geografia. Tal conceito apresenta uma variedade de dimensões, as quais 
Haesbaert (2006) sintetiza em três: 1) política, referida às relações jurídicas ou de poder; 2) 
simbólico-cultural, que concebe o território como produto da apropriação e valorização simbólica 
de determinado grupo social; e 3) econômica, na qual o território se apresenta como fonte de 
recursos e é incorporado no embate entre classes e categorias sociais. O método “terroir”, 
desenvolvido pelos geógrafos Gilles Sautter e Paul Pélissier, cujo objetivo é conhecer o meio rural 
 
6 
tendo a dimensão espacial como elemento norteador, permite uma sistematização baseada numa 
cartografia detalhada do sistema agrícola e de suas representações e na coleta de dados 
susceptíveis de serem quantificados (BERGAMASCO et al., 1997). Tal método tem sido cada vez 
mais utilizado em trabalhos ligados à sociologia rural (p.ex., BERGAMASCO et al., 1997; 
FLORIANI et al., 2008). 
Segundo Leonard & Clifford (1971), a comunidade rural vive em um espaço mais ou menos 
reconhecido, mantendo certa identificação com o lugar, o que não significa que os limites do grupo 
existam no espaço, nem que sua base esteja determinada por fatores físicos. O território inclui, 
ainda, dinâmicas diversas: expansão ou retração de seus limites e áreas de influência, interações 
sociais e mudanças demográficas, nos padrões de vida, nas formas de uso da terra, nos papéis 
sociais etc. Wanderley (2000) chega a cunhar o termo “agricultores territoriais” para definir os 
atores sociais polivalentes e pluriativos do meio rural. Jean (2002) atesta para a necessidade de 
novas tipologias dos territórios rurais, de novas metodologias, enfim, de uma evolução teórica que 
seja capaz de compreender os processos históricos de diversificação sócio-espacial do rural. 
Ferreira (2002), ao listar características e tendências em comum nas diferentes análises do rural 
contemporâneo, menciona a visão do meio rural como paisagem a ser manejada e preservada, 
“concebida como condensação de espaço-tempo-cultura e referência simbólica para os que a têm 
como quadro do cotidiano e para os que dela se apropriam como espaço de lazer”. Cita ainda o 
“ressurgimento” da noção de paisagem cultural proposto, que têmbalizado idéias e políticas de 
“incentivo a uma agricultura mais ecológica, a uma multiplicidade de usos do meio rural e à 
revalorização da diversidade socioambiental e cultural entre as regiões”. O conceito de paisagem 
(landscape) parece ser cada vez mais familiar aos sociólogos rurais, como nota-se, por exemplo, 
nos trabalhos de Friedland (2002) e Sharp & Adua (2009), enriquecendo os estudos e análise que 
tratam da organização dos habitantes rurais e suas atividades no espaço físico. 
As etnociências 
Optamos por usar, assim como Roué (1997), a denominação “etnociências” para os campos de 
estudo ligados às ciências naturais acrescidos do prefixo etno: etnoecologia, etnobiologia, 
etnobotânica, etnozoologia, etnofarmacologia etc. De todo modo, os termos originalmente usados 
pelos autores estudados são mantidos nas citações, ao mesmo tempo em que não discutiremos 
aqui suas diferenças. As etnociências seriam, então, as áreas de pesquisa que se propõem a 
estudar as categorias semânticas de “fora” do saber científico ocidental, a partir do 
reconhecimento dos saberes das populações rurais e do interesse pelas múltiplas interações 
destas populações com os elementos que compõem o ambiente que habitam (ROUÉ, 1997). 
 
7 
Dados sobre a utilização de plantas e animais pelos povos primitivos já são coletados desde as 
primeiras viagens dos povos europeus pelo mundo (CASTETTER, 1944; DE TAPIA, 1990; 
SILLITOE, 2006), mas a primeira tentativa de apresentar um trabalho sistemático sobre o tema 
parece ser de Palmer, em 1870. Já Powers, em 1874, tentou delimitar o campo no artigo 
“Aboriginal Botany”, termo que usou para abranger todas as formas do mundo vegetal usadas 
pelos indígenas para medicação, alimentação, fabricação de utilitários, ornamentos etc. (Castetter, 
1944). Para Clément (1998), o termo “etnobiologia” apareceu pela primeira vez nos EUA com o 
próprio Edward Castetter, em 1935. Logo, todos estes trabalhos estimularam um considerável 
interesse, resultando em tantos outros, como, por exemplo, de Matthews (1822,1886) e Havard 
(1884, 1895, 1896) (CASTETTER, 1944). O termo “etnobotânica” também passou a ser utilizado 
somente no início do século XX (DE TAPIA, 1990). 
O apoio governamental às pesquisas botânicas no oeste dos EUA, possibilitando o contato com 
os povos nativos e seus métodos de exploração da flora e fauna local, contribuiu para o interesse 
nos produtos animais e vegetais usados pelos nativos (CASTETTER, 1944). A etnobiologia teria 
surgido, portanto, em um contexto onde os ocidentais não estavam interessados propriamente no 
conhecimento dos “selvagens”, mas sim na potencial utilidade econômica de seus produtos de 
origem vegetal ou animal (CLÉMENT, 1998). Hunn (2007) também concorda que a etnobiologia, 
em sua fase inicial, era essencialmente utilitária. 
Clément (1998) define a etnobiologia como o estudo do conhecimento biológico dos povos não-
ocidentais. O autor nega que ela seja o estudo de todas as relações que os humanos estabelecem 
com os seres vivos, contrariando a definição da International Society of Ethnobiology (ISE, 2010): 
“Ethnobiology is the scientific study of dynamic relationships among peoples, biota, and 
environments”. 
A mera adição do prefixo “etno” a uma palavra associada às ciências naturais tem acontecido com 
cada vez mais freqüência, e sinaliza para a inclusão de cada vez mais novos e frutíferos tópicos 
sob o escopo da etnobiologia. Isto talvez reflita uma característica específica do desenvolvimento 
científico de hoje – a divisão e recombinação de elementos de campos diversos (WEBER, 1986). 
A própria definição da ISE salienta o caráter multidisciplinar da etnobiologia: “Ethnobiology is a 
multidisciplinary field, including representatives from archaeology, geography, systematics, 
population biology, ecology, mathematical biology, cultural anthropology, ethnography, 
pharmacology, nutrition, conservation, and sustainable development” (ISE, 2010). 
Originalmente, o interesse pelas etnociências provinha de biólogos, botânicos, zoólogos, ecólogos 
e agrônomos, ou seja, cientistas naturais que buscavam informações sobre formas de 
conhecimento de fora da ciência ocidental (SILLITOE, 2006). Por outro lado, a antropologia teve 
grande importância no desenvolvimento da etnobiologia, desde o momento no qual antropólogos 
 
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passaram a se interessar por aspectos biológicos relevantes aos estudos das sociedades pré-
históricas, históricas e contemporâneas (WEBER, 1986; SILLITOE, 2006; HUNN, 2007). De Tapia 
(1990) salienta que a importância de aspectos ecológicos da interação entre grupos humanos e 
vegetação já era reconhecida desde a primeira metade do século XX, porém somente durante os 
anos 1960 que, com o impacto da ecologia cultural na antropologia norte-americana, essa 
importância foi reforçada. A pesquisa etnobiológica poderia mesmo ser descrita como o trabalho 
fundado sobre a biologia e a antropologia, objetivando investigar as relações entre os organismos 
vivos e a cultura humana (WEBER, 1986). Por outro lado, De Tapia (1990) salienta que grande 
parte dos etnobotânicos foram (e, provavelmente, ainda são) treinados como biólogos, não como 
antropólogos. 
Toledo (2000) também ressalta o caráter interdisciplinar da etnoecologia: “Ethnoecology can be 
defined as an interdisciplinary approach exploring how nature is seen by human groups through a 
screen of beliefs and knowledge, and how humans in terms of their images use and/or manage 
natural resources”. A tarefa do etnoecólogo consistiria em: explorar como os produtores rurais 
codificam (corpus) e utilizam (praxis) seu espaço produtivo, que está formado de recursos 
naturais; e a confrontação de ambos aspectos com a análise do observador. Os conceitos de 
corpus e praxis seriam, respectivamente, o repertório total de símbolos, conceitos e percepções 
sobre a natureza, e o conjunto de operações práticas através do qual se realiza a apropriação 
material da natureza (TOLEDO, 1996). 
Segundo Sillitoe (2006), a etnobiologia, junto à ecologia humana e à pesquisa sobre os sistemas 
agrícolas, demonstraram o profundo conhecimento dos camponeses sobre seus ambientes, 
derrubando o mito do “camponês ignorante” e contribuindo para mudanças nas práticas de 
assistência técnica aos mesmos. Conforme aponta Alcorn (1994 apud TOLEDO, 2000), a 
conservação de ecossistemas faz parte de um processo social, econômico e político, e dessa 
forma os estudos etnocientíficos devem se valer de abordagens que vão além das interações de 
comunidades humanas com o ambiente “natural”. Já em 1940, Maldonado-Koerdell (apud DE 
TAPIA, 1990) enfatizava a necessidade de estudos etnobiológicos que superassem a 
classificação de dados em termos da nomenclatura cientifica ocidental, em prol do estudo de 
elementos biológicos como função do grupo humano, associado à complexidade cultural da qual é 
parte. De Tapia (1990) avalia que, a partir dos anos 1970, etnobotânicos passaram a ter, como 
prática, a imersão nas comunidades indígenas, valendo-se de abordagens etnográficas e 
transcendendo a mera observação de fenômenos biológicos, incluindo aspectos relevantes da 
vida social, dos sistemas de crenças e da organização política e econômica. 
Etnocientistas defendem a aplicabilidade de suas pesquisas na conservação e manejo de 
ecossistemas, bem como na valorização das culturas historicamente oprimidas pela 
“ocidentalização” do mundo (p.ex., TOLEDO, 2000). Hunn (2007) destaca que, em sua fase atual, 
 
9 
a etnobiologia enfatiza os direitos das populações indígenas sobre seu conhecimento tradicional. 
McClatchey & Thomas (2003), no editorial de lançamento do periódico Ethnobotany Research and 
Applications, colocam que as pesquisas etnobotânicas devem ser comprometidas com benefícios 
práticos para as comunidades locais. De Tapia (1990) também ressalta a politização e consciênciasocial dos etnobotânicos mexicanos, que buscam gerar benefícios diretos às comunidades e 
setores da sociedade que compartilham seu conhecimento, fortalecendo sua luta contra a 
opressão e a homogeneização cultural. Para Sillitoe (2006), o engajamento da etnobiologia requer 
o enfrentamento de temas políticos, considerando visões alternativas sobre desenvolvimento e 
relação homem-natureza. Tal desafio consiste, principalmente, em possibilitar que as 
comunidades locais determinem seus próprios destinos, de acordo com seus conhecimentos e 
valores. 
Sociologia rural e etnociências: convergências e diálogos possíveis 
Foram encontradas diversas convergências entre sociologia rural e etnociências, aqui organizadas 
em cinco tópicos principais: 
 
Origem e perspectiva interdisciplinar; 
 
Origem e desenvolvimento associados a situações de crise; 
 
Relações com a questão ambiental; 
 
Objeto de estudo semelhante; 
 
Engajamento de muitos pesquisadores em prol de mudanças na sociedade. 
Tais convergências apontam para possibilidades concretas de estabelecimento de diálogos 
interdisciplinares. Outros temas, como o uso dos conceitos de território e paisagem, a 
possibilidade de contribuição para a assistência técnica e extensão rural, e as discussões em 
torno da questão de gênero, são também identificados como diálogos potenciais, e sobre eles 
fazemos algumas considerações. 
O primeiro aspecto que chamou atenção nos trabalhos revisados é a origem interdisciplinar de 
ambos os campos de estudo. Diversos autores, tanto da sociologia rural (p.ex., LEFEBVRE, 
1986b; JOLLIVET, 1998; BEAULIEU, 2005) quanto das etnociências (p.ex., WEBER, 1986; 
TOLEDO, 2000; SILLITOE, 2006) destacam contribuições de diferentes disciplinas que 
possibilitaram o surgimento e o desenvolvimento de suas áreas de pesquisa. O debate atual 
parece evocar ainda mais a perspectiva e a necessidade de se ampliar estes diálogos, não só 
entre disciplinas, mas também com saberes de fora da ciência ocidental – o que poderia ser 
chamado de transdisciplinaridade. 
 
10 
Por outro lado, não foram encontradas citações de autores da sociologia rural nos trabalhos em 
etnociências, e vice-versa. A International Society of Ethnobiology, ao declarar seu caráter 
interdisciplinar, lista diversos campos de estudo que contribuem com a etnobiologia, porém não 
mencionam a sociologia (ver página 7). Também não foi encontrada nenhuma referência às 
etnociências nos editoriais da Rural Sociology, que tanto destacam seu caráter interdisciplinar 
(p.ex., BEAULIEU, 2005; FREUDENBURG, 2006; KRANNICH, 2008). Naturalmente, tais 
omissões não se configuram em ausência completa de diálogo, que poderia ser encontrado em 
uma revisão mais rigorosa; de todo modo, parece existir um grande potencial, ainda pouco 
aproveitado, de aproximação entre pesquisadores dos diferentes campos de estudo. 
Teóricos da sociologia rural sustentam que o surgimento e o desenvolvimento deste campo de 
estudo se vinculam a situações de crise (p.ex., LEFEBVRE, 1986; SOLARI, 1971 apud MARTINS, 
1986). Nos artigos das etnociências, não foi encontrada associação tão explícita; talvez, uma 
revisão mais rigorosa revele algum debate sobre isso. Não é difícil relacionar, contudo, as 
diversas crises pelas quais temos passado – ecológica, dos alimentos, energética, do modelo 
urbano-industrial... – à necessidade de pesquisas e trabalhos onde as etnociências possam 
contribuir. Toledo (2006) menciona a “crise civilizatória do século XXI”, além da “crise 
epistemológica” que estaria sendo introduzida pela realidade social e natural, colocando em 
cheque os modelos de conhecimento e desenvolvimento ocidentais. Para ele, estes modelos são 
responsáveis por acelerar também a crise ecológica, cuja solução ou amenização passaria pelo 
protagonismo de camponeses e das culturas tradicionais. Estas ainda dominam boa parte dos 
espaços rurais do planeta, em especial nos países economicamente mais pobres, e seus 
conhecimentos e modos de vida seriam de extrema importância na busca por caminhos 
alternativos (Toledo, 1992; 2006). 
A influência do debate ambiental também se apresenta como um ponto de aproximação entre as 
etnociências e a sociologia rural. Diversos são os sociólogos rurais que destacam a historicidade e 
a emergência desse tema no âmbito de seu campo de estudo (p.ex, ANDERSON, 1986; 
WANDERLEY, 2000; JEAN, 2002; FREUDENBURG, 2006; KRANNICH, 2008; NEVES, 2009b). 
Do outro lado, é notável a relação dos estudos etnocientíficos com as questões ambientais, 
valendo mencionar aqui a análise de Quansah (2004), ao atestar que a ligação entre seres 
humanos e biodiversidade tem sido considerada a chave na conciliação entre melhorias na 
qualidade de vida local e no uso sustentável dos recursos naturais. O sucesso de tal aliança 
depende diretamente do reconhecimento e valorização do saber local, e do protagonismo das 
comunidades nas iniciativas de desenvolvimento e conservação. Já Toledo (2000) sustenta que 
os estudos acumulados, desde a década de 1960, por pesquisadores ligados a biologia da 
conservação, antropologia, etnobiologia e etnoecologia, convergem a um principio comum: a 
 
11 
biodiversidade do planeta só será efetivamente preservada por meio da preservação das culturas, 
e vice-versa. 
A sociologia rural e as etnociências têm em comum o objeto de estudo principal: sociedades, 
povos, populações ou comunidades habitantes das zonas rurais do planeta, chamadas 
agricultores tradicionais, indígenas, aborígenes, de acordo com o autor, a disciplina ou a escola. 
Aqui, temos usado o conceito de campesinato com o intuito de abranger todas estas categorias, 
sem a pretensão de aprofundar no extenso debate acerca do tópico, mas identificando, desde já, 
um diálogo potencial entre as etnociências e a sociologia rural. 
Wanderley (1999) utiliza a contribuição de renomados estudiosos do tema, como Lamarche, 
Mendras, Jollivet, Tepicht, Chayanov e Antonio Cândido para debater as raízes do campesinato 
brasileiro. Alguns traços característicos das sociedades camponesas seriam: relativa autonomia 
social e econômica face à sociedade global; importância estrutural dos grupos domésticos; e a 
especificidade de suas culturas e seus sistemas de produção (MENDRAS, 1976 apud 
WANDERLEY, 1999). O mundo camponês abriga grande complexidade e diversidade, mas 
possui um modo de organização de produção e de vida social segundo valores referenciais, 
elaborados também pela convivência em espaços de interculturalidades (LEFEBVRE, 1986b; 
NEVES, 2009b). Pode-se afirmar que os camponeses são “poliprodutores, integrados ao jogo de 
forças sociais do mundo contemporâneo”. Sua produção guarda a especificidade da utilização de 
mão-de-obra familiar, e da família como gestora dos meios de produção alocados (NEVES, 
2009a). Anderson (1986) revela, ainda, o antigo interesse da sociologia rural (desde os anos 
1930) em tópicos como grupos étnicos e sociedades regionais. 
A etnobiologia e a etnobotânica se valem, predominantemente, dos termos “tradicional” ou 
“indígena” para se referirem às sociedades, povos e comunidades com as quais trabalham. 
Clément (1998) destaca a contribuição da etnobiologia nas mudanças de atitude para com os 
povos não-ocidentais, se referindo aos preconceitos históricos que vitimaram seus sistemas de 
crenças e valores, conhecimentos e organização política, social e econômica. Parece periférico, 
entretanto, uma discussão conceitual mais profunda sobre o uso destes termos, no âmbito das 
etnociências. Uma exceção talvez seja Toledo (2000), que procura definir com maior rigor os 
sujeitos de seu trabalho. Aos povos indígenas, o autor atribui características como: presença 
milenar em determinado território; estratégias de uso múltiplo dos recursos disponíveis nos 
ecossistemas que habitam; idioma, religião, valores morais e crençasespecíficas. Ao mesmo 
tempo, Toledo nota que grande parte dos povos considerados indígenas podem também ser 
considerados camponeses, e que as fronteiras que definem um ou outro modo de vida são fluidas 
e dinâmicas. 
 
12 
Outra convergência notada entre nossos objetos de análise é o engajamento (ao menos, no 
discurso) em prol de mudanças na sociedade, especialmente no que concerne a melhorias na 
vida das sociedades e comunidades indígenas e camponesas. Citamos autores da sociologia rural 
(ANDERSON, 1986; FREUDENBURG, 2006; KRANNICH, 2008; STEELE, 2009) e das 
etnociências (DE TAPIA, 1990; TOLEDO, 1996; McCLATCHEY & THOMAS, 2003; SILLITOE, 
2006) que atribuem, a si e a seus colegas, o comprometimento em tornar suas pesquisas úteis 
àqueles que se encontram em situação desprivilegiada na sociedade. Interessa-nos aqui a análise 
de Edelman (1999), que, ao discutir a relação entre pesquisadores e ativistas dos movimentos 
sociais rurais, enfatiza as inevitáveis tensões e as potenciais sinergias. Tais tensões são oriundas, 
muitas vezes, das expectativas de ambas as partes: dos ativistas, de que a pesquisa sirva 
imediatamente à sua luta; e dos pesquisadores, que esperam dos participantes de sua pesquisa o 
pronto atendimento a suas demandas. O autor argumenta ainda que a separação entre ativistas e 
pesquisadores vem de uma suposta (e irreal) distinção entre “fazer” e “pensar”, sugerindo que 
ambos os lados devam assumir sua parte, tanto na geração de conhecimento quanto na luta por 
mudança social. 
De Tapia (1990) salienta que os objetivos de seu campo de pesquisa variam de acordo com os 
contextos nacionais, e destaca o trabalho de Hernandez X. (1970), “Exploración etnobotánica y su 
metodología”, como um marco na etnobotânica latino-americana, pois, nele, o agricultor do 
“terceiro mundo” é retratado de uma maneira completamente diferente de estudos anteriores, 
mostrando-o muito mais sofisticado em conhecimento, experiência e observação da natureza do 
que os agricultores das nações industrializadas. Tal colocação nos leva à seguinte reflexão: 
haveriam diferenças significativas entre a sociologia rural e as etnociências praticadas nos países 
de capitalismo avançado, daquelas praticadas por pesquisadores dos países menos 
industrializados? Não identificamos, nos trabalhos revisados para este ensaio, elementos que 
embasem um aprofundamento satisfatório em tal reflexão; de todo modo, chama-nos a atenção a 
postura do etnoecólogo mexicano Victor Toledo, que assume tons mais “panfletários” em favor 
dos indígenas e camponeses – o que, em nossa opinião, não compromete a excelência de seu 
trabalho. 
A organização espacial dos habitantes da zona rural tem despertado grande interesse por parte 
da sociologia rural, como mostram os trabalhos de Bergamasco et al. (1997) e Ferreira (2002). 
Referências aos “territórios” e às “paisagens” são encontradas com certa facilidade nos trabalhos 
desta área do conhecimento, o que evidencia diálogos profícuos com a geografia e indica 
potenciais diálogos com as ciências naturais. Nos trabalhos em etnobiologia e etnobotânica 
revisados, não foram encontradas referências significativas a este tema; na etnoecologia de 
Toledo (1992; 1996), entretanto, observamos o uso tanto do conceito de território quanto de 
paisagem. 
 
13 
Vale notar, contudo, que as ciências ecológicas tem utilizado, de forma consistente, o conceito de 
paisagem, resultando inclusive na sub-disciplina ecologia de paisagens (ver, p.ex., NAVEH & 
LIEBERMAN, 1994; e DRAMSTAD et al, 1996). Os etnocientistas, pela proximidade com ecólogos 
(afinal, grande parte compartilha a mesma formação original, a biologia), contam aí com 
colaboradores próximos para a utilização de mapas e geoprocessamento como ferramentas em 
suas pesquisas. Ademais, têm sido realizados estudos focados na percepção e apropriação de 
comunidades indígenas sobre seus territórios e sua inserção na paisagem (ver, p.ex., CORREIA, 
2007; e BAVARESCO, 2009). Estes trabalhos vêm utilizando termos como etnomapeamento e 
etnocartografia, apontando para o desenvolvimento de mais uma “etnociência” com múltiplas 
possibilidades de pontes interdisciplinares – inclusive com a sociologia rural. 
Outro diálogo possível (e desejável) entre sociologia rural e etnociências diz respeito ao sistema 
de assistência técnica e extensão rural (ATER), no senso defendido por autores de ambos os 
campos, a saber, de traduzir pesquisas e estudos em ações práticas e políticas públicas. Leonard 
& Clifford (1971, p.12) são enfáticos ao postular que “existe um reconhecimento geral sobre a 
necessidade de se levar em conta os valores, os problemas e os desejos das pessoas com quem 
queremos trabalhar nos programas de melhoramento (agrícola). É essencial que essas pessoas 
participem ativamente na determinação dos fins e dos meios que os programas adotam.” Os 
autores lembram ainda que, quando se tenta forçar comunidades camponesas a mudarem suas 
práticas agrícolas, em geral elas resistem. Dessa forma, o sociólogo rural poderia contribuir com 
um trabalho diferenciado de ATER, relacionando-se e familiarizando-se com os sistemas de 
comunicação, normas e as distintas facetas da vida dos grupos rurais. Anderson (1986) destaca 
ainda que uma área de pesquisa bem desenvolvida na sociologia rural é o estudo da participação 
social; de fato, as metodologias ditas “participativas” vêm ocupando um lugar de destaque em 
pesquisas e trabalhos que objetivam beneficiar as comunidades pesquisadas. Alguns exemplos 
destas metodologias e de seus resultados são apresentados no livro compilado por Friis-Hansen 
& Sthapit (2000, apud Meilleur, 2003). A valorização do conhecimento local promovida pelas 
etnociências demonstra a contribuição potencial de suas pesquisas em prol de uma ATER mais 
adequada às especificidades ecológicas e culturais. 
Finalmente, os trabalhos revisados revelaram um outro tema em comum, a questão de gênero, 
que tem sido cada vez mais destacada na sociologia rural, como pode ser observado, por 
exemplo, no volume da Rural Sociology especialmente dedicado ao tema (v.67, n.2, junho/2002). 
Na etnobiologia, este tema parece emergente, como destacam Pfeiffer & Butz (2005). Este seria 
mais um diálogo potencial entre os dois campos, com proveito ao desenvolvimento teórico e 
metodológico. 
 
14 
Considerações Finais 
Foram encontradas, nos trabalhos revisados, questões em comum entre a sociologia rural e as 
etnociências. Uma das mais evidentes é a afirmação de apoio aos seus “objetos de estudo”, feita 
por diversos pesquisadores de ambos os campos de estudo. Tal compromisso torna-se mesmo 
desejável, uma vez que, cada vez mais, se evidencia o potencial da contribuição das populações 
e comunidades rurais – especialmente as indígenas e as ditas “tradicionais” – à construção de 
uma sociedade sustentável. Vale lembrar que “objeto de estudo” é uma expressão cada vez mais 
questionada, em especial quando se referem a sujeitos, que, no caso dos campos de estudo em 
análise, ocupam lugar de destaque: são o foco de análise, os informantes, os detentores de 
conhecimentos valiosos e, ao mesmo tempo, os que devem ser beneficiados pelas pesquisas. 
Seria prudente, contudo, admitir que estes “benefícios” não acontecem facilmente, e que muitas 
vezes encontram-se mais na intenção dos pesquisadores do que na vida dos camponeses. 
Valendo-se de um conceito de campesinato que inclua os povos indígenas, podemos dizer que o 
camponês reside central tanto para a sociologia rural quanto para as etnociências. Outra 
convergência evidente é a origem interdisciplinar dos campos de estudo em questão, e também a 
perspectiva de aprofundamento interdisciplinar, visando até mesmo atingir a transdisciplinaridade. 
Esta busca incorpora, no fazer científico, códigos de fora da ciência ocidental. Cabe até mesmo a 
pergunta: teriam a sociologiarural e as etnociências uma certa origem transdisciplinar, já que, 
cada uma, a seu modo, sempre buscou compreender categorias semânticas e conhecimentos 
externos à ciência ocidental? 
A interdisciplinaridade não pode ser pré-ordenada ou pré-construída, nem pode abrir mão de uma 
base disciplinar sólida. Na verdade, ela tem sido descoberta, praticada e desenvolvida por meio 
da voluntariedade de pesquisadores e cientistas (Buller, 2008). Afinal, como afirma Freudenburg 
(2006), as fronteiras disciplinares são criadas de acordo com o interesse e a conveniência 
analítica, e não por meio de inspiração divina. Ou, como a citação quase poética de Floriani 
(2000:37), 
a construção de um conhecimento interdisciplinar exige imaginação e prática, 
além de remeter-se concretamente aos desafios que a sociedade lança aos seres 
humanos (homens e mulheres) em permanente diálogo com a natureza. Uma 
agenda socioambiental exigirá o concurso desse diálogo interdisciplinar, no qual 
as ciências da vida, da natureza e da sociedade buscarão novas alianças. 
É importante ressaltar que as propostas interdisciplinares não sugerem aquilo que poderíamos 
chamar de “o descarte de Descartes”. As tecno-ciências não só possibilitaram chegarmos até 
aqui, como serão fundamentais nas necessárias construções futuras. O debate deve se fazer 
muito mais sobre “pra quê” e “pra quem” o conhecimento está sendo produzido. O que deve ser 
 
15 
superado não é a ciência newtoniana-cartesiana, mas sim o discurso da neutralidade científica, 
que, em geral, beneficia os sistemas de conhecimento e poder dominantes. 
A sociologia rural e as etnociências apresentam grande potencial de diálogo, e podem atuar em 
conjunto na construção de propostas interdisciplinares de pesquisa no meio rural, voltadas, 
especialmente, ao estudo das múltiplas relações sociedade-ambiente. Existem nítidas afinidades 
teóricas, práticas, metodológicas e, até mesmo, ideológicas, que nos levariam a apostar em uma 
crescente atuação favorável ao protagonismo camponês e às lutas de comunidades rurais, povos 
tradicionais e minorias étnicas em prol de alternativas políticas e sócio-econômicas contra a 
opressão do sistema capitalista e desenvolvimentista – sistema esse que, claramente, 
desfavorece modos de vida distintos do modelo urbano e consumista. 
A questão do compromisso das pesquisas e de seus pesquisadores com os objetos de estudo 
deve ser também melhor debatida, buscando responder a questões que dizem respeito à 
qualidade da pesquisa que está sendo realizada, e à utilidade da mesma no atendimento dos 
objetivos práticos aos quais se propõem. Outras questões a serem debatidas dizem respeito às 
metodologias empregadas: sendo elas supostamente interdisciplinares e participativas, devem 
obedecer a normas pré-estabelecidas, ou integrar um processo de construção permanente? 
Devem ser realizadas por equipes, ou será possível a formação de pesquisadores que dêem 
conta da realização de abordagens em diferentes campos do conhecimento?... Sem a pretensão 
de esgotar as possibilidades do debate, este trabalho busca, acima de tudo, fomentar as reflexões 
acerca do tema proposto. 
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