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S729i Souza, Elnivan Moreira de. Inovação e negócios criativos [recurso eletrônico] : inovação / Elnivan Moreira de Souza. -- Fortaleza : Universidade de Fortaleza, [2021]. 19 p. -- ( Percurso de Aprendizagem ; 3) 1. Inovação e Criatividade. 2. Administração. I. Título. II. Série. CDU 65.01:159.928 Este Material de Leitura, produzido em agosto de 2021 © Universidade de Fortaleza, está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0. Para visualizar uma cópia desta licença, visite https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/. INOVAÇÃO Sumário Sumário clicável Inovação na Empresa1. Inovação e competitividade2. 4 Voltar ao sum ário Neste Percurso de Aprendizagem, apresentamos o conceito de Inovação e apontamos os mecanismos que permitem sua difusão, tanto nos processos gerenciais quanto nos aspectos mercadológicos. Explicamos os principais tipos de inovação: de processo, de produto e organizacionais. Discutimos, ainda, a respeito das Fontes de Inovação associadas ao contexto brasileiro mediante o uso de dados de Pesquisa de Inovação Tecnológica (PINTEC), que é realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E, por fim, explicamos como a integração entre as Capacidades Tecnológicas e a Estratégia Competitiva pode viabilizar o processo de inovação nas empresas. Seja bem-vindo(a) ao Percurso de Aprendizagem 3 da disciplina Inovação e Negócios Criativos. Olá 5 Voltar ao sum ário Inovação na Empresa1. As empresas industriais recorrem a diferentes fontes de informações e conhecimentos para inovar, podendo ter origem interna e externa. As principais fontes internas de inovação são as atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D), as melhorias incrementais obtidas por meio do aprendizado contínuo e da experiência acumulada, a engenharia reversa, os programas de qualidade e de treinamento interno. Além disso, a capacidade técnica e a gestão da informação são basilares para que a empresa inove a partir de seus recursos internos (TIGRE, 2019). Já as fontes externas abrangem um número maior de possibilidades de natureza formal e/ou informal. As formas mais simples de obter informações tecnológicas são as consultas à Internet, a compra de livros e revistas especializados, a participação em cursos de especialização, as visitas a congressos, exposições e feiras, a participação em redes temáticas (formais ou informais) e o intercâmbio de informações com fornecedores e clientes (TIGRE, 2019). Fontes formais de aquisição externa incluem a compra de tecnologia introduzida em bens de capital, a contratação de consultores externos, a cooperação com universidades e centros de P&D, a participação em projetos conjuntos de pesquisa e contratos formais de transferência de tecnologia de produtos, processos, marcas e patentes. Os fluxos externos de informação são importantes para fomentar o processo de inovação, principalmente nas empresas de pequeno e médio porte, em que as atividades formais de P&D são infrequentes (TIGRE, 2019). O acesso à tecnologia depende também da infraestrutura conhecida como Tecnologia Industrial Básica (TIB). Isso inclui regulamentos (obrigatórios) e normas (voluntárias); certificação por entidade independente que comprove a adequação do produto e do processo aos parâmetros químicos e físicos convencionais e laboratórios de metrologia para assegurar a confiabilidade e a credibilidade das mensurações na produção (TIGRE, 2019). A Tecnologia Industrial Básica (TIB) é essencial para empresas exportadoras que atuam em mercados exigentes e mais regulados e quanto à segurança, qualidade e respeito às questões ambientais. O sistema de propriedade intelectual permite proteção a invenções, a modelos de utilização, a design original e marcas. O valor de uma determinada tecnologia geralmente depende da possibilidade de o inovador manter controle monopolista sobre ela em um período de tempo suficiente para obter retorno sobre o investimento em P&D. A proteção se dá por meio de segredo industrial, patentes ou copyrights (TIGRE, 2019). Para melhor contextualizar o processo de aquisição de tecnologia, observamos as fontes de tecnologia mais utilizadas na indústria brasileira. A Pesquisa de Inovação Tecnológica (PINTEC) do IBGE indica que as fontes de inovação consideradas mais importantes no 6 Voltar ao sum ário Brasil são a aquisição de máquinas e equipamentos, treinamento e software. As grandes empresas diversificam mais suas fontes de tecnologia, incluindo P&D e aquisição de tecnologia externa via licenciamento. Observa-se também o crescimento das fontes abertas de conhecimento, pois a informação pode ser partilhada por inúmeros usuários sem danos ao conteúdo. Inovação e Difusão Tecnológica A fronteira entre inovação em novos produtos e processos e sua ampla difusão no mercado não é claramente delimitada, pois são fenômenos fundamentalmente complementares. Quando uma inovação radical é inicialmente introduzida na indústria, seus impactos econômicos são limitados, pois há necessidade de testá-la no mercado e fazer adaptações. Em diversos casos é necessária a criação de nova infraestrutura, de inovações complementares e até mesmo de “ambientar” os consumidores para que a inovação se difunda de forma efetiva. A difusão de uma tecnologia no mercado estimula seu aperfeiçoamento e energiza o processo de inovação. Estudos a respeito da difusão de inovações são importantes para avaliar trajetórias tecnológicas e realizar exercícios de prospecção, buscando identificar tendências e antecipar oportunidades. Instituições públicas e privadas vêm recorrendo frequentemente a esses instrumentos no intuito de antecipar necessidades de investimentos, conhecimentos técnico-científicos, novas capacitações e demais ativos intangíveis necessários para introduzir inovações no mercado (TIGRE, 2019). O futuro não é uma mera repetição ampliada do passado, pois a mudança tecnológica altera trajetórias estabelecidas, criando e destruindo produtos, empresas e empregos. Nessa perspectiva, é necessário analisar os impactos potenciais das inovações mais radicais, aferir se elas ocorrerão de forma lenta ou rápida e formular estratégias (públicas e privadas) para usufruir dos benefícios e minimizar os riscos das inovações. Conceitos de Mudança Tecnológica Rogers e Shoemaker (1971) definem inovação como uma ideia, uma prática ou um objeto percebido como novo pelo indivíduo. Essa interpretação, por seu alcance, é coerente com o conceito de Schumpeter, pois não associa necessariamente a inovação ao conhecimento tecnológico. Sequer ela precisa ser nova para os competidores ou para o país. Na prática, muitas inovações são frutos da experimentação prática ou da combinação criativa de tecnologias existentes, buscando criar valor para um negócio, bem, produto ou serviço. Isso inclui o desenvolvimento de novos produtos e processos, as atividades de criação de um novo mercado, a exploração de uma nova fonte de suprimentos e a alteração dos métodos de organização da produção. Esse conceito abrangente de inovação é útil para abordar a gestão tecnológica e organizacional, pois está diretamente focado na melhoria das condições de competitividade das organizações. As pesquisas sobre inovação vêm permitindo realizar comparações entre países, direcionando políticas industriais e tecnológicas. No Brasil, desde 2000, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publica estatísticas sobre inovação com base nas metodologias da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por meio da Pesquisa de Inovação Tecnológica (PINTEC), que monitora três tipos de inovação: a) produtos; b) processos; e c) mudanças organizacionais. As informações coletadas abordam os estágios inovativos das empresas, os tipos de atividades desenvolvidas,os impactos alcançados e os obstáculos e incentivos à inovação. 7 Voltar ao sum ário De acordo com a PINTEC, “produto tecnologicamente novo é aquele cujas características fundamentais diferem significativamente de todos os produtos previamente produzidos pela empresa”. Inclui também o aperfeiçoamento tecnológico de produto existente, cujo desempenho foi substancialmente aprimorado por meio da utilização de novos componentes ou matérias-primas e subsistemas de melhor desempenho (OCDE, 2005). Dessa definição são excluídas as mudanças puramente estéticas ou de estilo e a comercialização de produtos novos integralmente desenvolvidos e produzidos por outra empresa. Já as inovações de processos referem-se a “formas de operação tecnologicamente novas ou substancialmente aprimoradas, obtidas pela introdução de novas tecnologias de produção assim como de métodos novos ou substancialmente aprimorados de manuseio e entrega de produtos” (OCDE, 2005). Os resultados das inovações de processos devem alterar significativamente o nível de qualidade do produto e/ou reduzir custos de produção e prazos de entrega. São excluídas as mudanças rotineiras, que não causem impactos significativos em aumento de desempenho, ou redução de custos, nos processos produtivos existentes, e aquelas puramente administrativas ou organizacionais. As inovações de processo geralmente estão associadas a novos investimentos para a produção de bens ou serviços (OCDE, 2005). Uma nova planta industrial, via de regra, incorpora equipamentos e processos inovadores, o que torna a modernização de uma indústria dependente da velocidade de seu crescimento. Países em rápido desenvolvimento industrial, como a China, têm a oportunidade de introduzir tecnologias no estado da arte. Nos setores industriais maduros ou em indústrias localizadas em países (ou regiões) estagnados, as empresas tendem a inovar de forma incremental, de forma a preservar o capital fixo existente (TIGRE, 2019). O baixo crescimento da demanda leva as empresas a aproveitar o vintage capital já amortizado, uma estratégia que pode excluí-las do mercado no longo prazo. As inovações organizacionais, por sua vez, referem-se a mudanças que ocorrem na estrutura gerencial da empresa, na especialização dos trabalhadores, no relacionamento com fornecedores e clientes, nas múltiplas técnicas de organização dos processos de negócios e na forma de articulação entre suas diferentes áreas. Segundo o modelo proposto por Abernathy e Utterback (1975), as atividades de inovação inicialmente se aplicam em produtos, enquanto a preocupação com o processo de produção surge à medida que sua aceitação no mercado evolui (Figura 1). Os novos produtos, via de regra, são caros e instáveis, porém, se bem-sucedidos, passam a ser imitados por concorrentes, realocando a competição da diferenciação para os preços. Nessa fase do ciclo de vida do produto, os esforços das fábricas se concentram no aprimoramento dos processos produtivos, buscando aumento de escala, redução de custos e melhoria na qualidade. 8 Voltar ao sum ário Figura 1 - Inovação em produtos e processos Ta xa d e in ov aç ão Fase inicial Inovação de produto Inovação de processo Fase de transição Fase madura Fonte: Adaptado de Abernathy e Utterback (1975) por EAD Unifor (2021) A difusão tecnológica pode ser entendida como o processo pelo qual uma inovação é comunicada por meio de diversos canais, através do tempo, entre os integrantes de um sistema social (ROGERS; SCHOEMAKER, 1971). Os processos de inovação e difusão, entretanto, não podem ser tratados de forma separada, pois a difusão realimenta o processo de inovação, demonstrando a necessidade de adaptação do produto às demandas dos usuários. Quando uma inovação se difunde no mercado é possível identificar oportunidades para introduzir inovações complementares, descobrir problemas relacionados ao uso, testar a qualidade e obter outras informações úteis para aprimorar o produto e reposicionar novas versões no mercado. A capacidade técnica para aperfeiçoar e adaptar um novo produto ou processo aos requisitos especificados pelos usuários, setores, regiões ou países é fundamental para um processo de difusão tecnológica bem- sucedido. Tipos de Inovação As mudanças tecnológicas são comumente diferenciadas pelo seu grau de inovação e pela extensão das mudanças em relação ao padrão anterior. O Quadro 1 apresenta a variedade de inovações identificadas na atividade econômica e classificadas segundo os seus impactos (FREEMAN; SOETE, 1997). 9 Voltar ao sum ário Quadro 1 – Classificação das Mudanças Tecnológicas Tipo de Mudança Características Incremental Radical Novo Sistema Tecnológico Novo Paradigma Tecnológica Melhoramentos e modificações cotidianas em produtos e processos. Saltos descontínuos na tecnologia de p rodutos e processos, promovendo mudanças sociais e econômicas. Mudanças abrangentes afetando mais de um setor e dando origem a n ovos setores e atividades econômicas. Mudanças que afetam toda a economia envolvendo mudanças técnicas e organizacionais, alterando produtos e processos criando novas indústrias e estabelecendo trajetórias de inovações por várias décadas. Fonte: Adaptado de Freeman e Soete (1997) por EAD Unifor (2021) O nível básico das mudanças tecnológicas é representado pelas inovações incrementais. Elas abrangem melhorias feitas no desenho ou no nível de qualidade dos produtos, aperfeiçoamentos em processos e layout, novas práticas de compra e/ou venda, novos arranjos organizacionais e logísticos. As inovações incrementais ocorrem de forma contínua independentemente do tipo de indústria, embora possam variar conforme o setor, país ou região em decorrência da pressão da demanda, oportunidades, fatores socioculturais e trajetórias tecnológicas (FREEMAN; SOETE, 1997). Elas não se originam necessariamente de atividades de P&D, sendo frequentemente resultado do processo de aprendizado interno e experiência acumulada. A inovação tecnológica é considerada radical quando rompe as trajetórias e o padrão existentes, inaugurando uma nova rota tecnológica. A inovação radical geralmente tem sua origem em atividades de P&D e tem um caráter descontínuo no espaço, tempo e setores da atividade econômica (TIGRE, 2019). A descontinuidade pode ser caracterizada pelo clássico exemplo de Schumpeter: “Muitas carroças enfileiradas não formam um trem.” Ou seja, a inovação radical rompe os limites da inovação incremental, dando origem a novas trajetórias tecnológicas. As inovações radicais são definidas também como “disruptivas”. A Figura 2 exemplifica as diferentes trajetórias para o caso de inovações em processos. 10 Voltar ao sum ário Figura 2 – Trajetória Tecnológica de Inovações Incrementais e Radicais P R O D U T IV ID A D E TEMPO Inovação Incremental Inovação Radical Fonte: Adaptado de Tigre (2019) por EAD Unifor (2021) Nesta sequência evolutiva, o estágio seguinte é o das mudanças no sistema tecnológico, no qual um grupo de setores (ou único setor) é transformado pelo surgimento de um novo campo tecnológico. Tais inovações são acompanhadas de mudanças organizacionais, tanto nas empresas como em sua relação com o mercado. Os materiais sintéticos de origem petroquímica, como plásticos e elastômeros desenvolvidos a partir da segunda metade do século XX, por exemplo, deram origem a novos materiais de uso generalizado na indústria. (TIGRE, 2019). As mudanças no paradigma técnico-econômico, por sua vez, envolvem inovações não apenas na tecnologia como também nas esferas social e econômica da qual fazem parte. Essas revoluções não ocorrem com frequência, mas sua influência é significativa e duradoura. Um paradigma não é apenas técnico, pois necessita de transformações organizacionais e institucionais para se consolidar. Uma mudança de paradigma engloba várias camadas de inovações radicais e incrementais, afetando diversos setores da economia. Os longos ciclos dedesenvolvimento são atribuídos a intercâmbios sucessivos de paradigma tecnológico, como, por exemplo, a máquina a vapor, a eletricidade e as tecnologias da informação. Essas inovações constituíram, em diferentes momentos históricos, os principais fatores que compreendiam as bases das transformações tecnológicas e econômicas do mundo. Segundo Tigre (2019), para constituir um fator- chave de um novo paradigma, uma nova tecnologia deve apresentar as seguintes condições: 11 Voltar ao sum ário Custos baixos com tendências declinantes Somente grandes reduções de custos podem motivar mudanças de comportamento nos agentes econômicos. Oferta aparentemente ilimitada Os fatores-chave não podem ser escassos, pois precisam estar disponíveis de forma abundante e sustentável em longo prazo. Por exemplo, a ausência de sustentabilidade econômica e ambiental dos combustíveis fósseis inviabilizou o paradigma das inovações intensivas em energia. Em contrapartida, a microeletrônica e a Internet praticamente não dependem de materiais e de energia. O principal insumo desse novo paradigma é o conhecimento, um recurso que aparentemente é inesgotável. Potencial de difusão em muitos setores e processos Um fator-chave não pode ter uso restrito a poucos setores específicos, mas ser universalmente aplicável. A Internet constitui uma mudança de paradigma, pois vem revolucionando as formas de interação e criando novas áreas de atividade econômica. Possibilidade de integrar diferentes tecnologias A combinação de tecnologias desenvolvidas de forma independente pode resultar em novos paradigmas. O conceito de Indústria 4.0, por exemplo, integra pelo menos nove inovações radicais diferentes, resultando em saltos qualitativos e quantitativos em função da geração de sinergias que não ocorreriam caso tais tecnologias continuassem a ser aplicadas de forma isolada. Fonte de Inovação das Empresas Brasileiras No Brasil, a fonte de inovação considerada mais importante pelas empresas que responderam a PINTEC é a aquisição de máquinas e equipamentos, com cerca de 50% dos gastos das empresas com inovação. Entretanto, o maior desafio é utilizar, de forma eficiente, a tecnologia incorporada aos equipamentos, de modo a aumentar a produtividade e gerar inovações em produtos e processos. A segunda fonte mais importante de inovação apontada pelas empresas é o treinamento de pessoal, tendo em vista que após a aquisição dos equipamentos é necessário treinar a mão de obra. Este ranking permanece o mesmo desde a primeira pesquisa (ver Quadro 2). 12 Voltar ao sum ário Quadro 2 – Grau de Importância das Atividades de Inovação nas Empresas do Brasil Atividade Inovativa Aquisição de máquinas e equipamentos Treinamento Projeto industrial e outras preparações técnicas Atividades internas de P&D Introdução de inovações tecnológicas no me rcado Aquisição de out ros conhecimentos externos Aquisição externa de P&D Aquisição de softwa re 2000 2003 2005 2008 2011 2014 1 1 1 1 1 1 2 2 2 2 2 2 3 3 3 3 5 5 4 4 5 6 6 6 5 5 4 4 4 4 6 6 7 7 7 7 7 7 8 8 8 8 - - 6 5 3 3 Ranking (1 é o mais importante) Fonte: Adaptado de PINTEC/IBGE (2000; 2003; 2005; 2008; 2011; 2014) por EAD Unifor (2021) A principal diferença encontrada na edição da PINTEC de 2014 em relação às pesquisas anteriores foi o terceiro lugar atribuído à aquisição de software. Ferramentas de produtividade e processos codificados em programas de computador se tornaram basilares para a inovação. A computação em nuvem, especificamente, expandiu o acesso ao conhecimento ao permitir a utilização de aplicativos e serviços especializados a custos menores. A nuvem permite compartilhar softwares e equipamentos na medida em que dispensa a instalação de programas e arquivos de dados. Percebe-se um crescimento das fontes abertas de conhecimento, como, por exemplo, a engenharia reversa e o software livre. A informação e o conhecimento, enquanto um bem não rival, podem ser compartilhados por diversas pessoas sem perda de conteúdo. Empresas de pequeno e médio porte, via de regra, recorrem a fontes gratuitas de conhecimentos para a obtenção de informações e tecnologias. A difusão da banda larga e das redes de troca de conhecimentos vem facilitando o acesso a informações tecnológicas, permitindo o intercâmbio de informações entre fornecedores, clientes, colaboradores, universidades e centros de pesquisa. O processo de democratização do acesso ao conhecimento, entretanto, é detido pela baixa capacitação técnica de diversas empresas para decodificar e colocar em prática as informações disponíveis. Sem uma base sólida de conhecimentos, as informações não têm valor prático para as organizações (TIGRE, 2019). Por isso, a educação e o aprendizado contínuo exercem um papel fundamental para o desenvolvimento de inovações. Quanto mais livre o acesso às informações e mais capacitados forem os colaboradores, maior será o potencial de disseminação do conhecimento. A respeito das atividades internas de pesquisa e desenvolvimento (P&D), embora tenham perdido importância, continuam crescendo. De 2000 a 2014 ocorreu um aumento de 0,6% para 0,89% nos gastos de P&D em relação à receita líquida total. Esses gastos estão cada 13 Voltar ao sum ário vez mais concentrados em grandes empresas, que respondem hoje por mais de 80% dos gastos totais em P&D no Brasil, contra 75% em 2000. O país dispõe de empresas de impacto mundial, como Embraer, Petrobrás, WEG, Natura, TOTVS, entre outras, que são multinacionais e investem agressivamente em P&D. Os investimentos em P&D no Brasil representam 1,16% do PIB, dos quais aproximadamente 60% são realizados em universidades e instituições de pesquisa públicas. Esse percentual é superior ao de outros países latino-americanos, mas inferior ao de países avançados, que superam os 3% do PIB. Nesses países, os gastos das empresas privadas em P&D atingem 70%, o que indica uma maior aplicação prática do P&D. Outras fontes de inovação importantes para as empresas são os contratos com universidades e centros de P&D, participação em projetos conjuntos de pesquisa, contratação de consultores externos e contratos de transferência de tecnologia de produtos, processos, marcas e patentes. Verifica-se, de um modo geral, que as empresas estão mudando sua forma de inovar, recorrendo com maior frequência às fontes externas de conhecimentos. A difusão das redes de relacionamento e da banda larga vem facilitando o acesso a informações tecnológicas, possibilitando a troca de conhecimentos entre clientes, fornecedores, colaboradores, universidades e centros de pesquisa. O processo de democratização do acesso ao conhecimento, entretanto, é detido pela baixa capacitação técnica de diversas empresas para decodificar e pôr em prática as informações disponíveis. Sem conhecimento, a informação não tem valor e, à medida que a capacitação técnica dos agentes econômicos evolui, empresas ganham novas habilidades para inovar a partir do estoque de conhecimento codificado disponível no cyber espaço. Isto justifica o segundo lugar atribuído às atividades de treinamento no ranking da PINTEC. Da mesma forma, quanto mais livre o acesso a informações, maior será o potencial de disseminação do conhecimento. Por ser um bem não rival, a informação pode ser compartilhada por inúmeros usuários sem perda de conteúdo. Quanto aos problemas e obstáculos enfrentados pelas empresas brasileiras para inovar, destacam-se os custos e riscos econômicos, a falta de pessoal qualificado, o acesso à informação e a disponibilidade de infraestrutura tecnológica. Mais de 80% das empresas industriais pesquisadas pela PINTEC apontam que os riscos da inovação são excessivos e que envolvem custos elevados. A ausência de pessoal qualificado vem a seguir, mas perdeu posições entre os obstáculos na última edição da pesquisa em função da recessão. Destacam-se ainda como barreiras à inovação a carência de fontes de financiamento, a rigidez organizacionale a ausência de informações sobre tecnologias. Devido a sua natureza intangível, as atividades de inovação deparam com dificuldades de obter recursos financeiros no mercado, pela ausência de garantias reais. A maioria das empresas utiliza recursos próprios ou busca apoio em agências do governo que têm como incentivo financiar atividades inovativas de maior incerteza e risco. A última edição da PINTEC apontou que os recursos próprios representam 84% das fontes de financiamento utilizadas pelas empresas para realizar atividades de inovação. O principal objetivo dos esforços tecnológicos das empresas brasileiras é seguir a dinâmica competitiva por meio do lançamento de novos produtos ou adaptação de produtos existentes às necessidades do mercado, às normas técnicas internacionais e aos padrões de qualidade. No entanto, a demanda por tecnologias de processos e mudanças organizacionais indica a necessidade de reduzir custos de produção, de 14 Voltar ao sum ário viabilizar soluções para problemas ambientais e incentivar o aumento da produtividade do trabalho (TIGRE, 2019). Outro fato revelado pelas edições da PINTEC é que o registro de propriedade intelectual perdeu importância relativa no país, pois apenas 7,2% das empresas que inovaram depositaram pedidos de patentes em 2008 (último ano que essa informação foi levantada) contra 8,1% em 2000. Na edição de 2014 foi reintroduzida a questão dos métodos de proteção, porém não mais considerando os métodos formais (registro de desenho industrial, patentes, marcas e direitos de autor), mas apenas os métodos estratégicos (ou não formais) como segredo industrial, complexidade no desenho do produto e tempo de liderança sobre os competidores. O principal método de proteção estratégica, utilizado por 10,7% das empresas inovadoras, foi o segredo industrial, seguido do tempo de liderança, com 6,5%, e da complexidade do desenho, com 5,7%. Pode-se inferir que a maior parte das empresas não se preocupa com a proteção formal ou informal de suas tecnologias, provavelmente pelo fato de suas inovações não serem exclusivas e a competição ser baseada em preços (liderança em custos). 15 Voltar ao sum ário Inovação e Competitividade2. Dentre a diversidade de questões que influenciam o comércio internacional, a inovação tecnológica se apresenta como essencial para a competitividade. Apesar de sua limitação para explicar, isoladamente, o sucesso de um país em determinadas indústrias, a relação entre inovação e competitividade internacional é largamente comprovada na literatura, mediante cruzamento de indicadores agregados de desempenho tecnológico (TIGRE, 2019). Para formuladores de política e empreendedores, uma questão importante é entender como se articula a relação entre o modelo de especialização de um país e sua demanda por tecnologia. Países especializados no setor primário são comumente considerados menos dinâmicos tecnologicamente do que aqueles que são especializados em produtos manufaturados (TIGRE, 2019). Contudo, a difusão de novas tecnologias no setor primário da economia vem gradativamente modificando essa relação. A aplicação de novas técnicas de produção e de distribuição de commodities agrícolas e minerais manifesta- se cada vez mais importante para sustentar a competitividade das empresas que atuam na exploração de recursos naturais. As necessidades tecnológicas das empresas exportadoras é outro tema proeminente. Empresas exportadoras demandam não apenas inovações em produtos e processos, mas também tecnologias industriais básicas que garantam qualidade e adequação ao padrão internacional. O uso de ferramentas como certificação, metrologia, padrões técnicos e informação tecnológica vem se revelando eficaz para atender necessidades específicas de importadores, evitando, assim, barreiras técnicas e sanitárias ao comércio. O processo de globalização tem levado a uma relativa harmonização das regras comerciais e das barreiras tarifárias e não tarifárias. Acordos bilaterais e multilaterais estão incorporando temas relacionados com a economia do conhecimento, como tecnologia, propriedade intelectual e comércio eletrônico. Em uma economia baseada em informação e conhecimento, o desempenho exportador de um país não depende apenas das vantagens competitivas naturais e de menores custos relativos de produção, mas da sua capacidade de construir vantagens competitivas dinâmicas a partir da inovação tecnológica. Empresas inovadoras desenvolvem um monopólio exportador em seu país de origem, criando assimetrias no acesso à tecnologia capazes de entregar competitividade internacional. Fatores macroeconômicos, a exemplo da taxa de câmbio e dos salários, isoladamente, não são suficientes para explicar as mudanças na competitividade em longo prazo. Países que se desenvolveram nas últimas décadas mostram que a mudança estrutural está associada à entrada em indústrias dinâmicas e intensivas em conhecimento. Países produtores de bens e serviços de menor valor agregado, embora possam se beneficiar de períodos de aumento da demanda mundial, têm um potencial limitado de crescimento no longo prazo, caso não participem da cadeia produtiva a montante, que inclui elevado conteúdo tecnológico. Esses países precisam desenvolver a infraestrutura 16 Voltar ao sum ário tecnológica para inovar em processos e adaptar os produtos às constantes e crescentes exigências dos mercados. Isso inclui não apenas laboratórios de certificação e ensaio, como também capacidade desenvolver tecnologias próprias como forma de complementar as tecnologias obtidas do exterior. Do ponto de vista das negociações internacionais, os países mais desenvolvidos pressionam pela assinatura de acordos para aumentar o prazo de proteção e a abrangência da propriedade intelectual, incluindo copyrights e patentes. Tais exigências, entretanto, precisam ser confrontadas com as necessidades de difusão de novas tecnologias a um custo viável para os produtores. Integração entre Capacitação Tecnológica e Estratégia Competitiva A tecnologia compreende um aspecto do planejamento estratégico que precisa ser cotejado com padrões de competição que caracterizam os mercados de atuação das empresas. A partir de uma perspectiva dinâmica, o desempenho comercial e a eficiência produtiva de uma empresa emergem da capacidade acumulada, do aprendizado contínuo e do acesso a ativos complementares. As decisões estratégicas são tomadas, via de regra, em função das observações quanto às forças e fraquezas internas, das ameaças e oportunidades externas, do nível de intensidade da concorrência e das características do ambiente macroeconômico. As áreas de capacitação de uma empresa podem ser classificadas, de forma genérica, em quatro funções básicas. Cada setor ou segmento da indústria tem características organizacionais próprias que precisam ser relacionadas com aspectos particulares dessas funções (TIGRE, 2019): Desenvolvimento tecnológico Compreende os esforços das empresas para desenvolver e incorporar novas tecnologias, incluindo atividades de pesquisa e desenvolvimento de produtos e processos, aquisição de tecnologia, obtenção de licenças de fabricação, acesso a informações codificadas, aprendizado interno contínuo e cooperação com outros agentes. Produção Refere-se ao conjunto de recursos utilizados na atividade de manufatura, podendo contemplar tanto os equipamentos e instalações como os métodos de controle de qualidade e de organização da produção. As tecnologias de produção podem ser obtidas por meio da compra de bens de capital, contudo, sua adaptação ao contexto interno requer um esforço tecnológico individualizado. Marketing Inclui atividades de promoção, publicidade, vendas e serviços pós-venda. Gestão Envolve tarefas administrativas típicas, incluindo a gestão de recursos humanos, o planejamento estratégico, a administração financeira e o suporte à tomada de decisão. 17 Voltar ao sum ário A capacidade representa oestoque de recursos de todos os tipos – humanos, materiais, informacionais, entre outros, além de intangíveis como marcas e patentes de propriedade da empresa. As capacidades estão em constante mudança, são revigoradas pela inclusão de novos conhecimentos e pelo abandono de capacidades que se tornaram obsoletas. Sua evolução depende de acesso a informações, aprendizado dinâmico, esforços de treinamento, cooperação com outras empresas e instituições, além de investimentos em P&D. A intensidade desses esforços depende das escolhas feitas pelas empresas em função de suas estratégias competitivas. A estratégia empresarial e tecnológica deve ser baseada em fatos. Isso depende basicamente da própria capacidade acumulada, do tempo de preparação e maturação exigido por cada estratégia, do potencial financeiro e das economias e deseconomias dinâmicas existentes. Diversas organizações confiam na superioridade tecnológica de um produto sem medir adequadamente o padrão de competição e a necessidade de capacitação e financiamento. Algumas empresas adotam estratégias de negócios sem realizar uma avaliação adequada dos custos que terão no futuro. Os padrões de concorrência são impactados pelas características estruturais do ambiente competitivo da empresa. Isso inclui o mercado de atuação ou setor e as características do sistema econômico. No aspecto setorial, é preciso avaliar a rivalidade entre as empresas e o grau de concorrência, as escalas de produção, o ritmo de inovações e a natureza das vantagens competitivas. Dentro de um setor podem existir nichos de mercado que as empresas podem utilizar para fugir da concorrência das empresas líderes do setor. Nesses nichos, a empresa pode se concentrar em grupos específicos de consumidores, a partir de critérios como: classe de renda, região geográfica, grupos com necessidades especiais, faixa de idade, nível de capacitação e escolaridade. Para cada um desses segmentos precisa haver uma adequação em nível de preços e produtos. Em relação ao ambiente econômico, é necessário considerar tanto as questões conjunturais (taxa de câmbio, juros, oportunidades sazonais etc.) quanto os fatores institucionais como o funcionamento do sistema jurídico, a disponibilidade de infraestrutura, os incentivos e a política industrial de recursos financeiros e humanos e demais características vinculadas ao ambiente. A competitividade é, portanto, função do ajuste das estratégias individuais das empresas ao padrão de concorrência vigente no mercado específico. Em cada mercado predomina um padrão de concorrência que é definido por meio da interação entre as estruturas e as condutas predominantes no setor. São competitivas as empresas que, constantemente, adotam estratégias adequadas ao padrão de concorrência setorial. A formulação da estratégia depende de dois insumos principais: primeiro, da percepção das forças e fraquezas internas à empresa em termos de capacitação produtiva e técnica. Segundo, da análise do ambiente setorial, nacional e internacional e de como as mudanças nesse ambiente podem afetar as ameaças e as oportunidades enfrentadas pela empresa. A tecnologia contempla toda a organização, sendo aplicada não só ao desenvolvimento de produtos, mas também à produção, logística de distribuição e marketing. O desenvolvimento em cada uma dessas áreas pode influenciar a direção que a empresa irá seguir. 18 Voltar ao sum ário Resumo Neste Percurso de Aprendizagem, buscamos explicar como ocorre o processo inovativo na empresa e sua relação com o conceito de competitividade. Para tanto, abordamos como ocorre a inovação na empresa, demonstrando como ocorre a difusão tecnológica, apresentando os tipos de inovações e discutindo as fontes de inovação das empresas brasileiras. Adicionalmente, tratamos sobre inovação e competitividade, explicando as possibilidades de integração entre a capacidade tecnológica e a estratégia competitiva. Dessa forma, foi possível ampliar o escopo de compreensão do aluno a respeito da relação entre inovação e competitividade. RESUMO DO PERCURSO DE APRENDIZAGEMRESUMO DO PERCURSO DE APRENDIZAGEM 19 Voltar ao sum ário REFERÊNCIAS ABERNATHY, W., UTTERBACK, J. A Dynamic Model of Process and Product Innovation. Omega. vol. 3, n. 6, p. 639–656, 1975. FREEMAN, C., SOETE L. The Economics of Industrial Innovation. 3ª ed. Cambridge: The MIT Press; 1997. IBGE (2014). Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica – PINTEC, Relatórios Metodológicos, Rio de Janeiro. OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Manual de Oslo: Proposta de Diretrizes para Coleta e Interpretação de Dados sobre Inovação Tecnológica. Paris, OCDE, 2005. ROGERS E, SCHOEMAKER F. Communication of Innovations: A Cross Cultural Approach. New York: Free Press; 1971. TIGRE, P. B. Gestão da inovação: uma abordagem estratégica, organizacional e de gestão de conhecimento. 3ª ed. Elsevier Brasil, 2019. COORDENAÇÃO DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Coordenação Geral Andrea Chagas Alves de Almeida Supervisão de Planejamento EAD Ana Flávia Beviláqua Melo Supervisão de Recursos EAD Francisco Weslley Lima Analista Educacional - Pedagógico Lara Meneses Saldanha Nepomuceno Analista Educacional - Mídias Emanoel Alves Cavalcante Projeto Instrucional Ana Lucia Do Nascimento Maria Mirislene Vasconcelos Revisão Gramatical Janaína de Mesquita Bezerra José Ferreira Silva Bastos UNIVERSIDADE DE FORTALEZA (UNIFOR) Presidência Lenise Queiroz Rocha Vice-Presidência Manoela Queiroz Bacelar Reitoria Fátima Maria Fernandes Veras Vice-Reitoria de Ensino de Graduação e Pós-Graduação Maria Clara Cavalcante Bugarim Vice-Reitoria de Pesquisa José Milton de Sousa Filho Vice-Reitoria de Extensão Randal Martins Pompeu Vice-Reitoria de Administração José Maria Gondim Felismino Júnior Diretoria de Comunicação e Marketing Ana Leopoldina M. Quezado V. Vale Diretoria de Planejamento Marcelo Nogueira Magalhães Diretoria de Tecnologia José Eurico de Vasconcelos Filho Diretoria do Centro de Ciências da Comunicação e Gestão Danielle Batista Coimbra Diretoria do Centro de Ciências da Saúde Lia Maria Brasil de Souza Barroso Diretoria do Centro de Ciências Jurídicas Katherinne de Macêdo Maciel Mihaliuc Diretoria do Centro de Ciências Tecnológicas Jackson Sávio de Vasconcelos Silva AUTOR ELNIVAN MOREIRA DE SOUZA Doutor em Administração de Empresas pela Universidade de Fortaleza - UNIFOR (2015-2019), com estágio no exterior (doutorado sanduíche) na Simon Fraser University (Canadá, 2018). Mestre em Administração de Empresas pela Universidade Estadual do Ceará - UECE (2012-2014). Especialista em Marketing (2007-2009) e Graduado em Administração de Empresas (2001- 2006) pela Universidade Federal do Ceará - UFC. Tem experiência na área de Administração, com ênfase em Empreendedorismo, Inovação, Estratégia e Tecnologias de Apoio à Gestão. Seus tópicos de pesquisa são Capacidade Dinâmica (Gerencial e Cognitiva), Modelo de Negócios, E-business e Indústria 4.0. RESPONSABILIDADE TÉCNICA Identidade Visual / Arte Francisco Cristiano Lopes de Sousa Paulo Renato Mendes Almeida Editoração / Diagramação Emanoel Alves Cavalcante Rafael Oliveira de Souza Rebeka Melo Peres Régis da Silva Pereira Produção de Áudio e Vídeo José Moreira de Sousa Pedro Henrique de Moura Mendes Programação / Implementação Renan Alves Diniz Thais Rozas Teixeira