Prévia do material em texto
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ FACULDADE DE EDUCAÇÃO DE ITAPIPOCA LICENCIATURA EM CIÊNCIAS SOCIAIS DISCIPLINA - SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO PROFESSOR - ARTUR DE FREITAS PIRES ACADÊMICOS: GABRIEL BRAGA ARAÚJO, KARINE LARA BARROSO DA SILVA, MARIA EDUARDA ALEIXO DIAS, RITA JOSÉ DA SILVA, SABRINA BARROSO TABOSA O CENTRO CEARENSE DE IDIOMAS (CCI) COMO POLÍTICA PÚBLICA: ENSINO DE IDIOMAS, ACESSO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL NO ESTADO DO CEARÁ (CE) ITAPIPOCA - CE 2026 1. INTRODUÇÃO O artigo a seguir apresenta um projeto cujo tema central é analisar os impactos que os estudos de línguas estrangeiras podem ocasionar na realidade dos alunos do ensino médio de escolas públicas. A instituição escolhida para realizar essa análise é o Centro Cearense de Idiomas (CCI), que atualmente conta com 23 unidades distribuídas pelo estado do Ceará, localizadas em Aracati, Baturité, Benfica, Camocim, Cascavel, Caucaia, Conjunto Ceará, Crateús, Crato, Horizonte, Iguatu, Jóquei, Juazeiro do Norte, Kennedy, Maracanaú, Maranguape, Papicu, Paracuru, Quixadá, Russas, Sul e Tianguá. No entanto, a unidade que será abordada neste artigo é a localizada na cidade de Itapipoca. O CCI foi criado originalmente em março de 2018 pelo governo do Estado do Ceará, sob a gestão do então governador Camilo Santana e da Secretaria da Educação. Essa iniciativa visava principalmente fortalecer e enriquecer o currículo do ensino médio das redes públicas no que diz respeito ao aprendizado de uma língua estrangeira. No entanto, atualmente, as instituições estão começando a abrir suas matrículas para outros públicos, como estudantes universitários, embora o foco permaneça nos alunos de escolas públicas. Atualmente, são ofertadas três línguas estrangeiras: inglês e espanhol, com duração de até três anos, divididos em seis módulos semestrais, e francês, com duração de um ano e meio, dividido em três módulos semestrais. Quando falamos da unidade localizada em Itapipoca, podemos destacar uma diferença muito interessante, que no caso seria, que ao contrário das outras unidades que ficam localizadas dentro de shoppings, o CCI de Itapipoca tem um local próprio pra si, visto que a instituição está sediada no espaço onde fora uma escola, o que aumenta bastante a quantidade de matrículas disponíveis e também facilita a organização de eventos diversos. Devido ao fato da unidade itapipoquense ter um local para si, o espaço geográfico é bem maior, contando com uma quadra, que normalmente é utilizada para a realização de eventos, salas de aulas, uma sala para realizar reuniões, coordenação, uma cantina, um espaço comum para os alunos interagirem e também um espaço referente à portaria e recepção, onde o funcionário responsável regulamenta a entrada mediante os crachás dos alunos, pais e funcionários do lugar. Os responsáveis pela administração dessa instituição são a Diretora Analice Albuquerque e o Coordenador Naftali Teixeira de Araújo, que estão trabalhando na instituição desde 2018, o ano em que ela foi oficialmente aberta na cidade de Itapipoca. Com essa análise sobre a instituição, o referido artigo tem o intuito de compreender os impactos do aprendizado de línguas estrangeiras na vida dos alunos, observar as metodologias que são utilizadas nesse processo de aprendizagem, analisar as relações entre os docentes e os discentes e também compreender a importância do Centro Cearense de Idiomas enquanto política educacional para a criação de estudos emancipatórios dos discentes. Os dados utilizados na produção da pesquisa foram coletados por meio de uma observação de campo, com o intuito de analisar o ambiente e também por meio de entrevistas feitas com os professores de cada língua estrangeira ofertadas pelo curso, o coordenador, bem como a diretora, para ter uma ideia de como percebem todas essas questões levantadas. O presente artigo traz à tona as informações que foram coletadas usando esses métodos, e abarca uma compreensão mais ampla sobre como o aprendizado de línguas estrangeiras pode incidir diretamente na vida pessoal, acadêmica e também nas oportunidades de trabalho que os alunos de escola pública podem ter. 2. METODOLOGIA A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo de abordagem qualitativa, sendo submetida a uma perspectiva analítico-descritiva, conforme os pressupostos metodológicos de Minayo (2012). A opção pela pesquisa qualitativa justifica-se pela necessidade de compreender o impacto social, cultural e pedagógico do ensino de línguas, a partir das vivências dos profissionais que atuam nesta instituição. Quanto aos objetivos, trata-se de uma pesquisa descritiva, visto que visa detalhar os impactos da implementação de uma política pública linguística na vida dos discentes. O estudo foi realizado no Centro Cearense de Idiomas (CCI), localizado na cidade de Itapipoca. A escolha desta instituição justifica-se pelo fato de o CCI representar uma das principais políticas públicas de ensino linguístico e democratização do acesso a línguas estrangeiras para estudantes matriculados na rede pública de ensino do estado. A seleção dos participantes ocorreu de forma intencional, recrutando os profissionais que atuam diretamente na gestão pedagógica, administrativa e docente da instituição. A amostra foi constituída por 5 entrevistados, sendo eles 2 gestores e 3 professores. Os entrevistados do corpo gestor foram a Diretora Geral da instituição, que possui graduação em Pedagogia e Letras, especialista, mestre e doutoranda em Ciências da Educação, e o Coordenador Pedagógico, graduado em Letras-Inglês e mestre em Tecnologias Emergentes na Educação. Ambos os profissionais exercem sua função na instituição há 8 anos, desde a sua implementação em 2018. Do corpo docente foram convidados 3 professores de línguas estrangeiras, a primeira entrevistada atua no ensino de Francês e Inglês, o segundo entrevistado edifica suas práticas na disciplina de Inglês e o terceiro leciona as disciplinas de Espanhol. A coleta de dados de campo concretizou-se a partir da inserção dos pesquisadores na realidade do Centro Cearense de Idiomas (CCI) do campus de Itapipoca. As entrevistas foram realizadas de modo presencial e individual no período de 17 a 24 de abril de 2026, utilizando um roteiro de perguntas semiestruturado que funcionou como um guia flexível, permitindo, assim, que os participantes tivessem a liberdade para expandir suas narrativas para além das questões formais. Para a captação dos depoimentos, foram utilizados celulares integrados a microfones, o que assegurou o registro nítido das falas e evitou a perda de conteúdos durante as gravações. A transcrição literal e fidedigna do material gravado constituiu o corpus textual que foi submetida à técnica de Análise de Conteúdo, fundamentada nos parâmetros teóricos e operacionais propostos por Bardin (2016). O processo analítico foi estruturado de modo rigoroso a partir de três fases sistemáticas. A primeira foi constituída por uma pré-análise com a realização da leitura flutuante de todo o material gerado a partir das transcrições, permitindo o contato inicial e a organização dos discursos em alinhamento com a análise do tema da pesquisa. O segundo passo envolveu a exploração do material, etapa na qual os textos foram sistematicamente submetidos a operações de codificação, sendo recortados em unidades de significado que capturavam a essência empírica dos discursos. Por fim, realizou-se a seleção dos dados mais importantes das entrevistas, na qual as unidades de registro foram agrupadas por semelhança temática, originando os temas que serão discutidos neste estudo. A partir desse propósito, depoimentos revelam uma profunda conexão entre as opções metodológicas e a transformação da realidade dos discentes. Os relatos descrevem práticas pedagógicas que rompem com o modelo de ensinotradicional, caracterizado por uma hierarquia entre professor e aluno, como o uso de gamificação que tem como público alvo os adolescentes, simulações realistas e abordagens artísticas. Sob a perspectiva da gestão, as entrevistas capturaram o histórico da instituição e a consolidação dessa política pública, pontuando sua criação em 2018 para o fortalecimento do currículo no Ensino Médio e sua posterior expansão, em 2025, para o público geral. 3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA O presente estudo se fundamenta em quatro eixos articulados, que permitem compreender o Centro Cearense de Idiomas (CCI) - especificamente na sua unidade de Itapipoca - enquanto política pública de ensino de línguas estrangeiras para os alunos de escolas públicas. O primeiro eixo trata do ensino de línguas como prática social e emancipatória; o segundo, das metodologias ativas e da aprendizagem significativa; o terceiro, de praxeologias docentes e das relações de poder; e o quarto, das políticas públicas e do acesso equitativo. 3.1. ENSINO DE LÍNGUAS COMO PRÁTICA SOCIAL E EMANCIPATÓRIA: O aprendizado de línguas estrangeiras em contextos de escolarização pública, não se restringe à aquisição de competências comunicativas. De acordo com Kramsch (2013), a língua estrangeira funciona como “símbolo de outros horizontes culturais” para jovens em processo de construção identitária, constituindo-se em ferramenta de projeção de possíveis futuros. No entanto, essa projeção não ocorre de forma neutra: aos estudantes de classes sociais modestas, que pode haver “um sentimento de inferioridade ou uma incerteza sobre a sua própria cultura”, diante da cultura-alvo hegemônica (Kramsch, 2013, p. 362). Neste sentido, a instituição que media o ensino de idiomas assume papel decisivo na forma como essa tensão é administrada - seja reforçando hierarquias, ou seja, promovendo uma mediação crítica. Essa perspectiva se encontra nos estudos sobre educação linguística, pois em conformidade com Bell (1997, apud Tonelli et al,. 2024), a educação para a justiça social objetiva permitir que indivíduos desenvolvam “ferramentas analíticas críticas necessárias para entender as características estruturais da opressão e de sua própria socialização dentro de sistemas opressores”. No contexto tupiniquim, onde o acesso ao ensino de línguas adicionais é historicamente concentrada nas redes privadas, a oferta pública de cursos de idiomas se configura como via potencial de equidade (Tonelli et al., 2024). A criação do CCI em 2018, sob a gestão do governo do Estado do Ceará, a insere nessa lógica de expansão do acesso. A unidade de Itapipoca, especificamente, ao dispor de espaço físico próprio - diferentemente das unidades instaladas em shoppings - amplia não apenas a capacidade de matrículas, mas com a possibilidade de constituição de um território educativo autônomo, com quadra, salas de aula, cantina e espaços de convivência. Essa materialidade espacial favorece a construção de uma comunidade de aprendizagem que transcende a mera frequência das aulas, potencializando o que Martins (2022) denomina crescimento intelectual, físico, emocional e sociocultural dos aprendizes. 3.2. METODOLOGIAS ATIVAS E APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA: A eficácia do ensino de línguas estrangeiras depende não apenas do acesso, mas das metodologias mobilizadas. As metodologias ativas, consoante ao alinhamento por Mota e Rosa (2018, apud Brito; Diniz, 2022), rompem com a lógica transmissiva tradicional, fracionando a responsabilidade do processo de aprendizagem entre professor e aluno e promovendo a autonomia e a autoaprendizagem. Nessa perspectiva, o aluno deixa de ser mero receptor para tornar-se protagonista, exercendo agência sobre seu percurso formativo. A teoria sociocultural de Vygotsky (1981, 1998) fundamenta essa postura ao evidenciar que a aprendizagem ocorre na Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), mediada pela interação com pares e pelo ‘’scaffolding’’ oferecido pelo professor. A transição da "regulação pelo outro" para a "autorregulação" passa necessariamente pela prática social da língua em contextos de interação autêntica (Lantolf; Appel, 1994; Figueiredo, 2019). Swain (1985) reitera que a ação de aprender uma língua estrangeira é mais eficaz quando a língua aprendida é utilizada de forma interativa, em contextos que simulem usos reais. A multimodalidade, por sua vez, potencializa esse processo. Mayer (2001), em sua Teoria Cognitiva de Aprendizagem Multimídia, postula que o processamento da informação ocorre em dois canais - visual e verbal - e que a apresentação simultânea de palavras e imagens gera aprendizagem mais profunda do que a exposição verbal isolada. Em contextos de escassez de recursos tecnológicos, como o das escolas públicas brasileiras, a criatividade na mobilização de recursos multimodais torna-se ainda mais relevante (Monteiro, 2021). Os cursos do CCI apresentam estrutura modular (seis semestres para inglês e espanhol; três para francês), o que pressupõe progressão gradativa e possibilidade de revisão contínua — elementos compatíveis com uma prática de scaffolding sistematizada. A questão que se coloca, para este estudo, é: os professores do Centro Cearense de Itapipoca do campus de Itapipoca mobilizam metodologias que efetivam o protagonismo estudantil? A resposta a essa pergunta será construída a partir dos relatos dos docentes e gestores entrevistados, que mediam indiretamente a experiência dos aprendizes. 3.3. PRAXEOLOGIAS DOCENTES E RELAÇÕES DE PODER: A análise das práticas pedagógicas no CCI exige um conceito que supere a dicotomia teoria-prática. A noção de praxiologia docente, desenvolvida por Freitas e Avelar (2021), designa "a fusão indissociável entre as epistemologias dos professores - seus saberes, crenças, referenciais teóricos incorporados - e suas ações pedagógicas situadas". Trata-se de reconhecer que o professor não aplica teoria, mas constrói saber na e pela ação, em movimento dialético que informa e transforma tanto o saber quanto o fazer (Pessoa; Silva; Freitas, 2021). No ensino de línguas, essa perspectiva é particularmente relevante, porque os docentes frequentemente atuam sem formação específica para determinados contextos (Tonelli; Ferreira; Belo-Cordeiro, 2017), construindo colaborativamente seus saberes no cotidiano escolar. Essas praxeologias emergem como "esforços que visam viabilizar aos estudantes da rede pública o acesso à língua com vistas a ampliar possibilidades de justiça social" (Tonelli et al., 2024), mesmo diante de condições adversas. O uso recorrente do pronome "a gente" nos relatos de professores, conforme observado em estudos análogos (Costa, 2022), indica uma praxiologia colaborativa que rompe com o individualismo pedagógico e sugere um posicionamento político de construção coletiva. Paralelamente, a perspectiva descolonial no ensino de línguas questiona a lógica que subalterniza professores e alunos não-nativos. Kumaravadivelu (2016) propõe a "gramática da colonialidade" como estrutura estratégica para desvincular os professores do "pensamento hegemônico" e do “native speakerism’’ — ideologia que coloca falantes nativos como modelos únicos de competência linguística e cultural (Holliday, 2006). O ato de preparar materiais didáticos contextualizados, que se afastem da lógica colonial e atendam aos objetivos de ensino dentro dos contextos específicos e locais, constitui prática emancipatória (Kumaravadivelu, 2016). No Brasil, onde o PNLD não alcança as escolas particulares e cursos livres, a tendência à adoção de livros didáticos importados reforça essa lógica hegemônica (Tilio, 2008), tornando ainda mais urgente a reflexão sobre a autoria docente. A equipe gestora e os professores de Itapipoca atuam desde 2018 - ou seja, construíram suas praxeologias no próprio território. As entrevistas com esses atores permitem mapear:(a) quais saberes mobilizam; (b) como percebem sua relação com os alunos; (c) se desenvolvem materiais próprios ou dependem de recursos importados; (d) como compreendem seu papel político-social na formação de jovens de escola pública. Nesse contexto, vale ressaltar que as pesquisas em contextos escolares frequentemente deparam-se com a impossibilidade de acesso direto aos estudantes menores de idade, seja por restrições éticas formais, seja por decisões institucionais dos adultos que administram a escola (Glass; Martínez-Miranda; Dittmar, 2021). Nesses casos, a experiência do aluno é necessariamente mediada pelos relatos dos professores e gestores, o que configura uma limitação epistemológica inerente ao próprio campo de pesquisa em educação. A presente investigação, portanto, assume essa condição como parte de seu desenho metodológico, buscando nas praxeologias docentes e gestoras os vestígios indiretos da experiência estudantil. 3.4. POLÍTICAS PÚBLICAS E ACESSO EQUITATIVO: A inserção do ensino de línguas estrangeiras no currículo da educação básica pública brasileira ocorre de modo facultativo e desigual. Conforme Ávila (2019) e Tonelli et al. (2022), a oferta de inglês no ensino médio da rede pública depende fundamentalmente de iniciativas locais, muitas vezes sem diretrizes curriculares nacionais específicas nem formação docente adequada. Nesse cenário, as praxeologias docentes tornam-se "espaços de manobra" (Glass; Martínez-Miranda; Dittmar, 2021) para contornar restrições sistêmicas, embora esse esforço individual não substitua transformações estruturais. A criação do CCI pelo governo do Estado do Ceará representa uma tentativa de institucionalizar o acesso, configurando-se como política pública de inclusão linguística. No entanto, a efetividade dessa política depende de sua materialização concreta: estrutura física, recursos didáticos, formação de professores, continuidade das ações entre gestões. A unidade de Itapipoca, com seu espaço físico próprio e amplo - quadra para eventos, salas de aula, espaço de convivência e cantina - materializa de forma privilegiada essa política, diferenciando-se das unidades em shoppings, onde o espaço compacto limita a constituição de comunidade educativa. A discussão sobre Educação 4.0, embora voltada à inovação tecnológica, coloca em pauta competências demandadas pelo século XXI: pensamento crítico, criatividade, colaboração, comunicação em múltiplas línguas (World Economic Forum, 2016). A questão que se impõe é: políticas como o CCI preparam os alunos para essas demandas ou restringem-se a uma noção instrumentalista de língua como mera habilidade técnica? A resposta a essa indagação, que atravessa os eixos aqui apresentados, será construída a partir da análise dos dados coletados na unidade de Itapipoca. 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO O aprendizado de idiomas revela uma multiplicidade de dimensões durante o processo de troca entre discentes, docentes e a língua que está sendo estudada. Ao estabelecer o encontro com uma língua estrangeira, o indivíduo adentra um território não habitual, coincidindo com costumes, expressões, brincadeiras, gírias, e relatos típicos de uma outra sociedade, que, no primeiro momento, lhe parece alheia a sua. Questiona-se, portanto, sob qual (is) motivação (ões) o aprendizado de idiomas se fundamenta, considerando a necessidade de dedicação empreendida pelo indivíduo para alcançar a fluência em uma língua estrangeira. As entrevistas realizadas no Centro Cearense de Idiomas (CCI), quando postas em análise mediante a perspectiva de Kramsch (2009), reiteram o posicionamento de que o aprendizado não deriva de uma razão imutável e unilateral, de modo que é justamente através do contato com o “diferente” que “alunos de línguas aprendem quem são por meio do seu encontro com o Outro”. No decorrer da investigação, mapeamos os pontos mais recorrentes abordados no discurso dos entrevistados, de maneira que conseguimos compreender a importância do aprendizado de idiomas sob três perspectivas centrais: a) como fator que favorece no mercado de trabalho; b) como ponte para a criação de conexões interpessoais; c) como fator de desenvolvimento sócio emocional dos educandos. O ato de aprender uma segunda ou terceira língua (L2 e L3), para além da “língua materna”, atua como um componente intrínseco à transformação da realidade social, tanto para quem objetiva uma ascensão profissional quanto para aqueles que, indiretamente, se veem transformados pelo contato com uma nova cultura. Para além dos benefícios adquiridos, sustentam-se aspectos fundamentais que personalizam a experiência do aprendizado de maneira individualizada, onde cada aluno pode se reconhecer e construir uma identidade de “falante global”, sem suprimir suas próprias raízes culturais, pois a metodologia abordada na instituição compreende a necessidade de colocar o discente como protagonista do processo de ensino e aprendizagem, ao passo que descentraliza concepções hegemônicas de cultura. 4.1. O MERCADO DE TRABALHO EM FOCO: O debate acerca da preponderância do mercado de trabalho sobre a vida dos indivíduos atinge também segmentos basilares da sociedade, como a educação, exigindo cada vez mais o desenvolvimento de competências e habilidades específicas para acompanhar as transformações nos modos de produção. Questionamos o corpo docente do CCI, através de uma abordagem direta, sobre suas percepções acerca de como o aprendizado de línguas estrangeiras pode influenciar a vida dos alunos e as respostas apontaram para um elemento em comum: na contemporaneidade um profissional bilíngue tende a receber mais destaque e, consequentemente, mais oportunidades de emprego. A professora Flora Maria, da disciplina de francês, aponta: “Nós sabemos que hoje em dia saber um outro idioma não é mais um pequeno diferencial. Muitas empresas exigem até isso, né? Tem empresas que exigem até um terceiro ou quarto idioma. Então, é de suma importância que hoje um aluno que está saindo do ensino médio, que pretende cursar um curso superior ou até mesmo que esteja já se formando, entenda que para ter o seu currículo mais valorizado e mais oportunidades, ele precisa saber uma outra língua”. Sob essa perspectiva, a aquisição da proficiência idiomática se estabelece como um critério de legitimação das competências profissionais do indivíduo, de modo a reforçar o seu diferencial competitivo perante os demais concorrentes no ambiente de trabalho. Em consonância com a fala da docente, o professor Paulo Orlando, da disciplina de inglês, cita: “eu tenho um foco muito direcionado nas minhas aulas que eu acredito que nós temos que estudar para uma ‘‘validade’’. Então, sempre eu gosto de perguntar nas minhas aulas “o que foi que te trouxe até aqui?” [...] Então eu sempre coloco os alunos nesse lugar de experiência. Então a experiência de estar nesse curso, o foco que você dá, vai te levar ao mercado de trabalho naquilo que você almeja. Então, a prioridade é para que eu estou estudando essa língua? O que ela vai me trazer de benefício além do prazer?”. A fala do professor evidencia a necessidade de situar o aprendizado com um foco direcionado a fim de materializar o objetivo a ser alcançado pelo estudante, considerando seus interesses pessoais, sejam eles na área de tecnologia da informação, música, teatro, ou uma simples “afinidade”, pois a primazia do CCI é ser um canal de construção de conhecimentos coletivos. 4.2. A AFETIVIDADE COMO OBJETO DE CONEXÃO: Observa-se ainda que a forma como as relações interpessoais se estabelecem no Centro Cearense de Idiomas de Itapipoca evidenciam a preocupação da instituição em descentralizar a lógica tradicional de ensino e diluir essa “hierarquia” coletivamente. A motivação é um componente essencial no emprego dos recursos individuais para alcançar determinadoobjetivo (Sales e Ribeiro, 2025), e para estabelecer uma troca recíproca em um ambiente de aprendizagem, estudos apontam a necessidade de criar laços afetivos entre educadores e educandos. Os docentes entrevistados reforçam como a aprendizagem gramatical contextualizada com a realidade social dos discentes é imprescindível para a aquisição efetiva de vocabulário, proposição válida para os três idiomas amparados pelo Centro Cearense de Idiomas. Questionamos os entrevistados sobre o tipo de metodologia empregada em suas aulas, de modo a traçar semelhanças e diferenças ao comparar as falas de cada um. O professor Paulo Orlando destaca: “Eu sempre gostei de tratar as aulas quebrando a quarta parede. O que é essa quarta parede? Eu saí do lugar que eu venho. Eu sempre digo, ‘meus alunos, venham mais à vontade’, ‘venham mais preparados para uma aula onde você vai se movimentar’, onde você vai usar a língua como ela é: em movimento”. A partir de um exemplo construído durante uma aula sobre “Simple Past”, o docente descreve a dinâmica trabalhada com a turma: “Falar de passado é falar de memórias. Eu montei uma exposição de fotografias de pessoas aqui do CCI, que eu pedi. Cada um me trouxe um porta-retrato e eu sentei o aluno com a luzinha mais baixa, coloquei uma música de fundo e ele ficou assistindo aquelas fotografias e tinha que escolher uma fotografia e contar qual ‘‘background’’, o que ‘tá’ por trás daquela fotografia e porque ela te tocou para falar do Simple Past (passado simples)”. Em consonância com a abordagem do profissional de língua inglesa, o docente Savini Campos, que leciona no curso de espanhol, reitera a necessidade de haver uma flexibilidade de acordo com a receptividade da turma: “Eu prefiro metodologias um pouco mais ativas [...] Então, o que é que eu percebo? Quando a turma é mais de adultos, as metodologias ativas, principalmente a gamificação, que eu gosto muito de usar, têm uma recepção um pouco diferente. [...] Os adolescentes são mais ativos em relação ao processo de jogo, de brincar, de se movimentar ‘né’, de sair do conforto ali, o adolescente ele já tem uma perspectiva um pouco mais abrangente ali de participação. Então eu me adaptei bastante a depender da turma”. Nota-se que o perfil etário incide sobre a forma como o caminho da aprendizagem será traçado, porém não impede a real conexão com o idioma que está sendo trabalhado. 4.3. IDENTIDADE E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL: Durante o momento da coleta de dados, reunimos pontos nos relatos dos docentes e gestores que sustentam a afirmação de que o aprendizado de idiomas age como um fator de transformação da realidade social ao incidir diretamente sobre a maneira como os educandos, e, dialeticamente, os educadores, se percebem dentro do processo de aprendizagem. Questionados acerca de momentos que marcaram sua trajetória dentro do CCI, os educadores revelam experiências que evidenciam a relação com a afirmação supracitada. A professora Flora Maria destaca um dos grandes marcos em sua vivência: “nos momentos de formatura, quando os alunos concluem o curso e a gente vê no o brilho no olhar deles de gratidão de terem conseguido finalizar [...] falar que foi uma caminhada não muito fácil, mas que trouxe muitos aprendizados, que eles vão sempre lembrar da gente enquanto professores, que eles vão sempre ter-nos em seus corações. Eu acho que isso é bem gratificante e nos motiva a continuar”. Em seguida, o docente Paulo Orlando complementa: “Eu tenho um aluno que saiu daqui no semestre passado. Ele conseguiu uma bolsa e "tá’’ trabalhando em Fortaleza. E ele mandou uma mensagem muito bonita para mim dizendo que se não fosse a minha insistência, a minha perseverança e a minha forma de “do olho no olho”, ele não teria chegado onde ele chegou, porque ele teve vontade de desistir várias vezes. Mas quando ele lembrava das palavras positivas e dos contatos que nós tínhamos, isso fez com que ele crescesse”. Por fim, o professor Savini Campos nos relata uma experiência mais recente: “essa é uma aluna do primeiro semestre, mas ela já é uma aluna adulta, tem a vida dela, enfim [...] Ela falou assim: ‘Professor, eu sempre tive medo de ir pra Espanha porque eu não sabia falar nada. E aí, como é que eu ia? Mas agora eu aprendi um pouquinho. A partir das aulas que a gente teve, do conhecimento que a gente adquiriu, eu comprei minha passagem e agora em julho eu vou pra Espanha’. Eu fiquei muito feliz por ela, não só por ela realizar essa possibilidade, né? Esse sonho dela aí. Mas de alguma forma por eu ter ajudado ela a tomar essa coragem”. Dessa maneira, podemos perceber, mediante os recortes escolhidos para a apresentação do presente trabalho, que a relação estabelecida dentro do CCI estende-se para além do simples vínculo institucional, adentrando significativamente no âmbito emocional e humanístico daqueles que frequentam o espaço. Muito mais do que uma política de acesso e democratização do ensino de línguas estrangeiras, o Centro Cearense de Idiomas (CCI) contribui para a formação de identidades autênticas, a conexão de laços de parceria, admiração e companheirismo, além de garantir o apoio durante todo o processo de qualificação discente. 5. CONCLUSÃO O estudo demonstrou que o aprendizado de línguas estrangeiras constitui um fator transformador na trajetória dos estudantes do ensino médio da rede pública. A pesquisa desenvolvida no Centro Cearense de Idiomas (CCI) de Itapipoca revelou que dominar um novo idioma transcende a mera aquisição de competências linguísticas: configura-se como um catalisador de desenvolvimento pessoal, acadêmico e profissional. Os dados coletados indicam que os docentes reconhecem as línguas estrangeiras como instrumentos de ampliação de oportunidades — seja no acesso ao mercado de trabalho, ao ensino superior ou a programas de intercâmbio. Adicionalmente, o contato com diferentes idiomas promove a valorização de culturas diversas, estimula habilidades comunicativas, fortalece a autoconfiança e expande a percepção de mundo dos jovens. Destaca-se, ainda, o papel estratégico do CCI na democratização do acesso ao ensino de idiomas. Ao oferecer gratuitamente uma formação que, em outras circunstâncias, demandaria recursos financeiros significativos em cursos particulares, a instituição atua como vetor de equidade educacional. Essa iniciativa contribui para a mitigação de desigualdades e para a formação de cidadãos mais aptos a enfrentar os desafios de uma sociedade globalizada. Assim, investir no ensino de línguas estrangeiras é, por extensão, investir no futuro dos estudantes — ampliando suas fronteiras acadêmicas, profissionais e sociais. Espera-se que este estudo fortaleça a valorização de programas como o CCI e inspire a juventude a adotar o aprendizado de novos idiomas como instrumento de crescimento pessoal e transformação social. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SILVA, Carolina Morais Ribeiro da; FIGUEIREDO, Francisco José Quaresma de. Metodologias ativas no ensino de línguas: a aprendizagem por interação em meio remoto. ALFA: Revista de Linguística, São Paulo, v. 67, n. 1, e274, 2024. DOI: https://doi.org/10.1590/1981-5794-e17721. Disponível em: https://www.scielo.br/j/alfa/a/Hm848QBzd7khg59gmzSN5KD/. Acesso em: 25 mai. 2026. OLIVEIRA, Tássia de; FERREIRA, Priscila Fabiane Farias. Uma proposta decolonial de unidade didática para o ensino de inglês no contexto escolar. Investigações em Ensino de Ciências, Florianópolis, v. 30, n. 2, e2025002, 2025. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ides/a/7CTdSxznQCzx94fwRNkxtmM/. Acesso em: 25 mai. 2026. MONTEIRO, Mariana de Souza. O uso de um ambiente imersivo para promover aprendizagem de vocabulário de inglês como língua estrangeira. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, v. 63, n. 1, e20240001, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/tl/a/xVHZ5bVYkzs4fTkKnffX8FF/.Acesso em: 25 mai. 2026. KRAMSCH, Claire. Culture in foreign language teaching. Iranian Journal of Language Teaching Research, Urmia, v. 1, n. 1, p. 57-78, 2013. ISSN: 2322-1291. Disponível em: https://eric.ed.gov/?id=EJ1127430. Acesso em: 25 mai. 2026. (Tradução publicada em: Bakhtiniana, São Paulo, v. 12, n. 3, p. 5-20, 2017. DOI: https://doi.org/10.1590/2176-4573-2017v123p5). Disponível em: https://www.scielo.br/j/bak/a/8B3QB3FB5Nv7KFZRmrXrS5H/. Acesso em: 25 mai. 2026. SILVA, Ana de Cássia; PEREIRA, Cíntia Beatriz; DELGADO, Heide Otilia Kober. Educação 4.0: desenvolvendo competências para a era digital. Revista de Letras da UFPel, Pelotas, v. 35, n. 2, p. 1-20, 2025. Disponível em: https://periodicos.ufpel.edu.br/index.php/rle/article/view/29657. Acesso em: 25 mai. 2026. BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016. MINAYO, Maria Cecília de Souza. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 31. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. 7. ANEXOS - FOTOS TIRADAS PELA EQUIPE (PRESENTES NAS ENTREVISTAS) - ENTRE OS DIAS: 17/04/2026 A 24/04/2026 - ESTÃO PRESENTES: GABRIEL, KARINE, MARIA EDUARDA, RITA, SABRINA, FLORA MARIA, PAULO ORLANDO, SAVINI CAMPOS, ANALICE ALBUQUERQUE E NAFTALI TEIXEIRA: ENTRADA ÁREA COLETIVA DO CENTRO CEARENSE DE IDIOMAS (CCI):