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CADA BEBÊ, UM UNIVERSO DE DESCOBERTAS: AS PARTICULARIDADES, AS 
INTERAÇÕES E O ACOLHIMENTO NO BERÇÁRIO 
Autora: Martha Wilian Vicente de Almeida 
Resumo 
O berçário constitui um espaço de cuidado, acolhimento, interação e 
aprendizagem, no qual os bebês vivenciam experiências que contribuem para seu 
desenvolvimento integral. Cada criança apresenta características próprias, interesses, 
necessidades afetivas, formas de comunicação e ritmos de desenvolvimento que 
precisam ser considerados na organização do trabalho pedagógico. Este artigo tem 
como objetivo refletir sobre a importância de reconhecer as particularidades dos 
bebês, respeitar seus processos de adaptação, favorecer suas interações sociais e 
valorizar suas iniciativas no cotidiano da creche. A discussão fundamenta-se nas 
orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e nas contribuições da 
abordagem Pikler, especialmente no que se refere ao movimento livre, à atividade 
autônoma, à qualidade das relações afetivas e à observação atenta das 
manifestações infantis. Também são consideradas as contribuições de pesquisas 
acadêmicas recentes sobre autonomia e movimento livre na Educação Infantil. 
Defende-se que uma prática pedagógica de qualidade deve articular cuidado e 
educação, garantindo condições de segurança, vínculos afetivos, exploração do 
ambiente e participação dos bebês, respeitando suas possibilidades e seu tempo de 
desenvolvimento. 
Palavras-chave: Educação Infantil; berçário; bebês; acolhimento; autonomia; 
abordagem Pikler. 
1. Introdução 
O cotidiano do berçário revela que os bebês, embora compartilhem o mesmo 
ambiente e participem de uma rotina coletiva, apresentam diferentes maneiras de 
conhecer, explorar e interagir com o mundo. Enquanto algumas crianças demonstram 
curiosidade diante de materiais novos, outras preferem observá-los antes de se 
aproximar. Algumas procuram frequentemente a presença do adulto, enquanto outras 
demonstram interesse crescente pelos espaços, objetos e movimentos dos colegas. 
Essas diferenças fazem parte da singularidade de cada criança e precisam ser 
consideradas no planejamento das experiências pedagógicas. O bebê não deve ser 
compreendido apenas como alguém que recebe cuidados, mas como sujeito ativo, 
que comunica necessidades, manifesta preferências, estabelece vínculos e participa 
das experiências desde os primeiros meses de vida. 
Na prática cotidiana da creche, reconhecer essa participação exige um olhar 
atento às diferentes formas de comunicação infantil. O choro, o sorriso, o movimento 
das mãos, o direcionamento do olhar, as vocalizações e as tentativas de aproximação 
são manifestações que podem ajudar o educador a compreender os interesses e as 
necessidades de cada bebê. 
Nesse contexto, acolher significa mais do que receber a criança na instituição. 
Significa construir relações de confiança, oferecer segurança emocional e física e 
organizar um ambiente no qual ela possa explorar, interagir e participar de acordo com 
suas possibilidades. 
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece as interações e as 
brincadeiras como eixos estruturantes das práticas pedagógicas na Educação Infantil, 
reconhecendo os bebês como sujeitos de direitos e participantes de seu processo de 
aprendizagem e desenvolvimento (BRASIL, 2017). 
Em diálogo com essas orientações, a abordagem Pikler contribui para a 
reflexão sobre o respeito à individualidade, a importância dos vínculos afetivos, a 
liberdade de movimento e a valorização da atividade autônoma dos bebês. Tais 
princípios oferecem subsídios para pensar em práticas que não antecipem 
desnecessariamente as ações infantis, mas proporcionem condições adequadas para 
que as crianças descubram suas possibilidades e construam conhecimentos por meio 
de suas próprias experiências (FALK, 2022; KELLETER; CARVALHO, 2025). 
Diante dessas considerações, este artigo propõe uma reflexão sobre as 
particularidades dos bebês, os processos de adaptação, as interações sociais e a 
importância de observar e valorizar suas iniciativas. Busca-se contribuir para uma 
prática pedagógica sensível, intencional e comprometida com o desenvolvimento 
integral na creche. 
2. Cada bebê tem sua maneira de descobrir o mundo 
O desenvolvimento dos bebês envolve diferentes dimensões, como a corporal, 
a afetiva, a cognitiva, a comunicativa e a social. Essas dimensões estão interligadas 
e se manifestam nas experiências cotidianas, nas relações com os adultos, na 
exploração dos objetos e nas descobertas realizadas no ambiente. 
Embora existam referências gerais para compreender o desenvolvimento 
infantil, não se deve esperar que todos os bebês apresentem os mesmos interesses 
ou realizem as mesmas ações no mesmo momento. Cada criança possui uma 
trajetória própria, influenciada por suas experiências, condições de vida, relações e 
características individuais. 
Em uma proposta de exploração de objetos, por exemplo, um bebê pode 
demonstrar interesse em segurar e soltar um material, enquanto outro observa 
atentamente seus movimentos. Uma terceira criança pode aproximar-se 
gradualmente e experimentar o objeto depois de acompanhar as ações dos colegas. 
Essas diferentes formas de participação precisam ser reconhecidas como 
manifestações legítimas de interesse e exploração. Observar também pode fazer 
parte do processo de participação, assim como repetir uma ação pode demonstrar 
curiosidade sobre seus efeitos. 
A abordagem Pikler oferece contribuições importantes para essa compreensão 
ao valorizar a atividade autônoma da criança e o respeito às suas iniciativas. Em vez 
de conduzir continuamente os movimentos dos bebês, o adulto deve organizar 
condições seguras para que eles possam experimentar suas possibilidades corporais 
e explorar o ambiente de acordo com suas capacidades (FALK, 2022). 
Isso não significa deixar a criança sem acompanhamento. A autonomia infantil 
depende da presença de um adulto responsável, atento e disponível, que assegure a 
proteção necessária e ofereça apoio quando a situação exigir. 
Kelleter e Carvalho (2025), ao investigarem o movimento livre e o 
desenvolvimento da autonomia dos bebês na creche, destacam a importância das 
possibilidades de exploração dos espaços, dos mobiliários e dos objetos, bem como 
das interações entre as próprias crianças. A pesquisa reforça a relevância de 
ambientes organizados intencionalmente para favorecer a iniciativa e a participação 
dos bebês. 
Assim, reconhecer a individualidade significa compreender que uma mesma 
proposta pode produzir experiências diferentes. Cabe ao educador observar essas 
diferenças e utilizá-las como referência para planejar intervenções adequadas, sem 
estabelecer comparações desnecessárias ou exigir respostas uniformes. 
3. A adaptação: construir confiança para pertencer 
A entrada na creche representa uma mudança significativa na vida do bebê e 
de sua família. A criança passa a conviver com novos adultos, outros bebês, diferentes 
espaços, sons, cheiros e formas de organização da rotina. 
Esse processo pode despertar curiosidade, mas também insegurança. Alguns 
bebês demonstram tranquilidade diante do novo ambiente, enquanto outros 
manifestam desconforto por meio do choro, da busca pelo colo, da necessidade de 
maior proximidade com o educador ou de alterações momentâneas em seus hábitos. 
Essas reações precisam ser acolhidas e compreendidas como possíveis 
formas de comunicação. O choro, por exemplo, pode expressar saudade, cansaço, 
fome, desconforto ou necessidade de segurança. Por isso, é importante que o adulto 
procure compreender o contexto da manifestação, em vez de tratá-la simplesmente 
como um comportamento que precisa ser interrompido. 
A construção da confiança acontece gradualmente. A presença de adultos 
conhecidos, a previsibilidade dos cuidados, a atenção aos sinais do bebê e a 
organização de uma rotina acolhedora podem contribuirpara que a criança se 
familiarize com o ambiente e desenvolva segurança nas relações. 
Os princípios da abordagem Pikler ajudam a compreender a importância dos 
momentos de cuidado nessa construção. A alimentação, a higiene, a troca de roupas 
e a preparação para o descanso não são apenas tarefas a serem cumpridas. São 
situações de interação nas quais o adulto pode conversar com o bebê, antecipar o 
que fará, observar suas reações e respeitar suas manifestações (FALK, 2022). 
A parceria com a família também é fundamental. Conhecer os hábitos da 
criança, suas preferências, suas formas de comunicação e as estratégias que 
costumam proporcionar conforto contribui para uma acolhida mais individualizada. 
A BNCC (BRASIL, 2017) reconhece a importância de articular as experiências 
da instituição educativa com as vivências familiares e comunitárias. Essa articulação 
favorece a continuidade dos cuidados e a construção de relações de confiança entre 
família e equipe pedagógica. 
É importante compreender que a adaptação não deve ser avaliada apenas pela 
diminuição do choro ou pela rapidez com que o bebê começa a brincar. A construção 
de vínculos, a exploração progressiva do ambiente e a manifestação de segurança 
também são aspectos relevantes. 
Acolher, portanto, significa reconhecer que cada criança necessita de 
condições e tempos diferentes para estabelecer relações de confiança e sentir-se 
pertencente ao espaço coletivo. 
4. Interações e socialização: os primeiros encontros com o outro 
A socialização dos bebês começa nas experiências cotidianas de convivência. 
Mesmo antes de utilizarem palavras, eles observam rostos, acompanham 
movimentos, respondem a vocalizações, sorriem, aproximam-se de outras crianças e 
demonstram curiosidade diante das ações dos colegas. 
Essas manifestações constituem oportunidades iniciais de interação e 
participação social. A convivência no berçário permite que os bebês vivenciem 
diferentes formas de contato com outras pessoas e ampliem progressivamente suas 
experiências relacionais. 
O educador pode favorecer essas interações por meio da organização de 
ambientes seguros, da disponibilização de materiais apropriados e da criação de 
situações nas quais as crianças tenham liberdade para se aproximar, observar e 
explorar. 
Entretanto, é necessário compreender que a socialização não significa exigir 
que todos os bebês interajam da mesma maneira ou participem simultaneamente das 
mesmas atividades. Algumas crianças procuram os colegas com frequência, enquanto 
outras demonstram maior interesse em observar ou explorar individualmente antes de 
se aproximar. 
O respeito a essas diferenças não impede a intervenção pedagógica. Ao 
contrário, permite que o adulto acompanhe as interações de forma sensível, 
oferecendo apoio quando necessário e protegendo a integridade física e emocional 
das crianças. 
Quando dois bebês demonstram interesse pelo mesmo brinquedo, por 
exemplo, o educador pode observar suas manifestações e intervir para garantir a 
segurança, disponibilizando alternativas ou ajudando a reorganizar a situação. Essa 
mediação deve considerar a idade e as possibilidades de compreensão das crianças, 
sem exigir delas comportamentos sociais que ainda estão em processo de construção. 
Kelleter e Carvalho (2025) identificam as interações entre os pares como uma 
dimensão relevante das experiências dos bebês em ambientes que valorizam o 
movimento livre. Isso contribui para compreender que as relações sociais também se 
constroem por meio da exploração compartilhada de espaços, materiais e situações 
cotidianas. 
A BNCC, por sua vez, destaca no campo de experiências “O eu, o outro e o 
nós” a importância das relações com adultos e outras crianças para a construção da 
identidade, do pertencimento e da convivência (BRASIL, 2017). 
Desse modo, socializar no berçário significa oferecer oportunidades para que 
os bebês estabeleçam relações significativas, expressem seus interesses e vivenciem 
a presença do outro com o acompanhamento atento do educador. 
5. A autonomia e a importância das escolhas dos bebês 
A autonomia na primeira infância precisa ser compreendida de acordo com as 
possibilidades de cada etapa do desenvolvimento. No berçário, ela não corresponde 
à independência plena nem à ausência de intervenção adulta. Refere-se, sobretudo, 
às oportunidades para que o bebê manifeste iniciativas, faça pequenas escolhas e 
participe ativamente das experiências, dentro de condições seguras e adequadas à 
sua idade. 
A abordagem Pikler atribui importância à atividade autônoma e à liberdade de 
movimento, considerando que os bebês podem descobrir suas possibilidades por 
meio de ações realizadas por iniciativa própria. Para isso, precisam de um ambiente 
preparado, de tempo para explorar e de adultos que acompanhem suas experiências 
sem conduzir desnecessariamente cada movimento (FALK, 2022). 
Kelleter e Carvalho (2025) também discutem a autonomia como possibilidade 
de realizar ações por iniciativa própria, ressaltando a importância do movimento livre 
e da exploração do ambiente para as aprendizagens dos bebês. 
Na prática pedagógica, as escolhas infantis nem sempre são expressas 
verbalmente. Elas podem aparecer quando a criança estende os braços em direção a 
um objeto, repete determinada ação, aproxima-se de um espaço ou demonstra 
interesse por um material específico. 
O educador precisa observar essas manifestações e considerá-las na 
organização das propostas. Se vários bebês demonstram interesse por objetos 
sonoros, por exemplo, essa observação pode orientar a preparação de uma 
experiência com materiais seguros que produzam diferentes sons. Durante a 
exploração, cada criança poderá investigar os objetos conforme suas possibilidades, 
enquanto o adulto acompanha suas ações. 
É importante ressaltar que a iniciativa infantil não elimina a intencionalidade 
pedagógica. O professor continua responsável pelo planejamento, pela escolha dos 
materiais, pela organização do ambiente e pela garantia de condições de segurança. 
O que se modifica é a compreensão de que o bebê também participa da 
construção da experiência. Em vez de determinar previamente todos os movimentos 
e resultados, o educador cria condições para que a criança explore, experimente e 
manifeste seus interesses. 
Essa perspectiva contribui para uma prática que reconhece o bebê como sujeito 
ativo, respeita suas possibilidades e valoriza a aprendizagem construída nas 
experiências cotidianas. 
6. A observação como fundamento do planejamento pedagógico 
A observação é uma ferramenta essencial para compreender os bebês e 
organizar experiências coerentes com suas necessidades e interesses. Observar não 
significa apenas acompanhar o que acontece na sala, mas procurar identificar como 
cada criança participa, quais materiais despertam sua curiosidade, como expressa 
desconforto e de que maneira se relaciona com adultos e colegas. 
Um bebê que permanece observando uma brincadeira, por exemplo, não deve 
ser automaticamente considerado desinteressado. É necessário compreender se ele 
está acompanhando as ações dos colegas, se precisa de mais tempo para se 
aproximar ou se demonstra preferência por outra experiência. 
Da mesma forma, quando uma criança repete diversas vezes uma ação com 
determinado objeto, o educador pode reconhecer nessa repetição uma oportunidade 
de investigação e aprendizagem. 
Essas observações precisam orientar o planejamento. Ao identificar interesses 
recorrentes, o professor pode reorganizar os espaços, selecionar outros materiais ou 
retomar experiências que favoreçam novas descobertas. 
A abordagem Pikler contribui para essa reflexão ao valorizar a atividade 
autônoma dos bebês e a atenção do adulto às suas iniciativas. A observação permite 
que a intervenção pedagógica seja mais adequada às necessidades da criança, 
evitando que o educador antecipe constantementesuas ações ou interrompa 
desnecessariamente suas explorações (FALK, 2022). 
Os registros pedagógicos também são importantes nesse processo. Anotações 
descritivas, fotografias autorizadas e outros registros pertinentes podem ajudar a 
acompanhar as experiências, identificar interesses e refletir sobre as decisões 
tomadas. 
É necessário, porém, que esses registros descrevam situações observáveis, 
evitando interpretações apressadas ou comparações entre crianças. Em vez de 
afirmar que um bebê é pouco participativo, por exemplo, é mais informativo registrar 
em quais situações ele se aproxima dos materiais, por quanto tempo observa e quais 
manifestações apresenta. 
A partir dessas informações, o educador pode discutir com a equipe estratégias 
para ampliar as oportunidades de participação, respeitando as particularidades de 
cada criança. 
A observação, portanto, não é uma atividade separada do planejamento. Ela 
constitui um processo contínuo de reflexão que ajuda o professor a conhecer os bebês 
e a construir práticas pedagógicas mais sensíveis e intencionais. 
7. A BNCC e os direitos de aprendizagem dos bebês 
A Base Nacional Comum Curricular estabelece seis direitos de aprendizagem 
e desenvolvimento para a Educação Infantil: conviver, brincar, participar, explorar, 
expressar e conhecer-se (BRASIL, 2017). Esses direitos orientam a organização de 
experiências que reconheçam a criança como sujeito ativo e participante da vida 
coletiva. 
No berçário, tais direitos podem ser observados nas situações cotidianas de 
cuidado, brincadeira e interação. 
Conviver significa ter oportunidades de estabelecer relações com adultos e 
outras crianças, construir vínculos e vivenciar diferentes formas de interação. 
Brincar envolve explorar objetos, sons, movimentos e espaços, 
experimentando possibilidades e construindo aprendizagens por meio das 
experiências lúdicas. 
Participar significa ter suas iniciativas e manifestações consideradas na 
organização das experiências, respeitando as possibilidades de cada bebê. 
Explorar corresponde a investigar materiais, espaços e objetos por meio dos 
sentidos e dos movimentos, em condições adequadas de segurança. 
Expressar envolve comunicar sensações, emoções, interesses e necessidades 
por meio do olhar, do choro, dos gestos, das vocalizações e de outras formas de 
comunicação. 
Conhecer-se refere-se à construção progressiva de percepções sobre si, sobre 
o próprio corpo e sobre as relações estabelecidas com as pessoas e o ambiente. 
A BNCC também organiza as experiências da Educação Infantil em cinco 
campos de experiências: “O eu, o outro e o nós”; “Corpo, gestos e movimentos”; 
“Traços, sons, cores e formas”; “Escuta, fala, pensamento e imaginação”; e “Espaços, 
tempos, quantidades, relações e transformações”. 
Esses campos não devem ser compreendidos como conteúdos isolados. Uma 
brincadeira com tecidos, por exemplo, pode envolver movimentos corporais, 
exploração de texturas, interação com outras crianças, comunicação de preferências 
e investigação das propriedades dos materiais. 
A abordagem Pikler contribui para a concretização desses princípios ao 
destacar a importância das relações afetivas, do movimento livre e da atividade 
autônoma. Entretanto, é necessário reconhecer que a BNCC e a abordagem Pikler 
são referências de naturezas diferentes: a primeira estabelece orientações 
curriculares nacionais, enquanto a segunda oferece fundamentos para compreender 
e organizar o cuidado e a educação dos bebês. 
O diálogo entre essas referências permite desenvolver práticas pedagógicas 
que articulem intencionalidade educativa, respeito à individualidade e valorização das 
experiências infantis. 
8. Cuidar e educar: o valor das experiências cotidianas 
No berçário, cuidar e educar são dimensões inseparáveis. A alimentação, a 
higiene, o descanso, a brincadeira e as interações fazem parte de um cotidiano no 
qual os bebês estabelecem relações, comunicam necessidades e vivenciam 
experiências significativas. 
Durante a troca, por exemplo, o adulto pode conversar com a criança, explicar 
o que fará, observar suas reações e permitir que ela participe conforme suas 
possibilidades. Na alimentação, deve considerar os sinais de fome e saciedade, 
respeitando as orientações de saúde, segurança e nutrição aplicáveis à criança. Nos 
momentos de brincadeira, pode acompanhar a exploração sem interromper 
desnecessariamente as iniciativas infantis. 
Essas situações exigem atenção às necessidades individuais e à organização 
coletiva da rotina. Respeitar o ritmo do bebê não significa ignorar os cuidados 
necessários ou deixar de estabelecer uma organização previsível, mas buscar 
equilíbrio entre as necessidades da criança e as responsabilidades da instituição. 
A qualidade da relação estabelecida durante os cuidados é um aspecto 
relevante da abordagem Pikler. A disponibilidade do adulto, a atenção às 
manifestações do bebê e a realização respeitosa das ações cotidianas favorecem a 
construção de vínculos de confiança (FALK, 2022). 
Essa compreensão também reforça a importância da formação continuada dos 
profissionais e do diálogo entre os integrantes da equipe. Compartilhar observações, 
refletir sobre situações vivenciadas e discutir estratégias de acolhimento contribui para 
a construção de práticas mais coerentes. 
A parceria com as famílias complementa esse trabalho. A troca de informações 
sobre hábitos, preferências e formas de comunicação permite compreender melhor as 
crianças e organizar cuidados que considerem suas necessidades. 
Portanto, a qualidade do trabalho no berçário não depende apenas das 
atividades planejadas, mas também da maneira como os adultos organizam os 
espaços, realizam os cuidados, interpretam as manifestações infantis e constroem 
relações cotidianas. 
9. Considerações finais 
Reconhecer as particularidades dos bebês constitui um compromisso 
fundamental da prática pedagógica na creche. Cada criança apresenta formas 
próprias de comunicar necessidades, demonstrar interesses, estabelecer vínculos e 
explorar o mundo. Essas manifestações precisam ser consideradas na organização 
das experiências e nas decisões tomadas pelos educadores. 
A discussão desenvolvida neste artigo evidencia a importância do acolhimento, 
da observação e do respeito às iniciativas infantis. O processo de adaptação exige a 
construção gradual de relações de confiança; a socialização depende de 
oportunidades significativas de interação; e a autonomia pode ser favorecida quando 
os bebês encontram ambientes seguros para explorar e agir por iniciativa própria. 
A BNCC oferece referências importantes para a garantia dos direitos de 
aprendizagem e desenvolvimento, enquanto a abordagem Pikler contribui para 
compreender a relevância da atividade autônoma, do movimento livre e das relações 
afetivas no cotidiano do berçário (BRASIL, 2017; FALK, 2022). 
A pesquisa de Kelleter e Carvalho (2025) amplia essa discussão ao evidenciar 
a relevância da exploração dos espaços e objetos e das interações entre os bebês 
para a compreensão do movimento livre e da autonomia na creche. 
Essas contribuições reforçam que respeitar a individualidade não significa 
abandonar a intencionalidade pedagógica. Significa planejar com responsabilidade, 
observar com atenção e intervir de maneira adequada, reconhecendo que as crianças 
participam das experiências de formas diferentes. 
Na prática cotidiana, muitas aprendizagens aparecem em manifestações 
discretas: no bebê que começa a explorar um espaço antes evitado, na criança que 
observa um colega e depois se aproxima ou na iniciativa de repetir uma ação para 
descobrir seus efeitos. Perceber essas situações exige disponibilidade para observar 
e compreender que o desenvolvimento infantil não se resume à realização de tarefas 
previamente determinadas. 
Como professora, compreendo que o berçário nos convida a valorizaras 
pequenas descobertas e a reconhecer que cada bebê tem sua maneira de participar 
do mundo. Nosso papel é oferecer condições para que essas experiências aconteçam 
com segurança, acolhimento e respeito. 
Acolher um bebê é reconhecer que ele já se comunica, escolhe, explora e 
estabelece relações, mesmo antes de utilizar palavras. Cabe ao educador observar 
essas manifestações, respeitar suas possibilidades e construir um ambiente no qual 
cada criança possa ser reconhecida em sua singularidade. 
Referências 
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 
DF: Ministério da Educação, 2017. Disponível em: 
https://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_20dez_site.pdf. Acesso em: 
17 out. 2026. 
FALK, Judit (org.). Abordagem Pikler: educação infantil. 3. ed. São Paulo: 
Omnisciência, 2022. 
KELLETER, Rafael Ferreira; CARVALHO, Rodrigo Saballa de. Movimento livre 
e desenvolvimento da autonomia dos bebês na creche: contribuições da Abordagem 
Pikler. Série-Estudos, Campo Grande, v. 30, n. 68, p. 109–129, 2025. DOI: 
https://doi.org/10.20435/serieestudos.v30i68.2022. Disponível em: https://serie-
estudos.ucdb.br/serie-estudos/article/view/2022. Acesso em: 17 out. 2026. 
 
 
 
 
https://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_20dez_site.pdf
https://doi.org/10.20435/serieestudos.v30i68.2022
https://serie-estudos.ucdb.br/serie-estudos/article/view/2022
https://serie-estudos.ucdb.br/serie-estudos/article/view/2022

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