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Heilbromer (1996) - Cap 2 A história do Pensamento Economico
24 pág.

História Contemporânea Universidade Federal do PampaUniversidade Federal do Pampa

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## Resumo: A Revolução Econômica e o Surgimento do Pensamento Econômico ModernoO trecho extraído da obra de Robert Heilbroner, "A História do Pensamento Econômico", aborda a complexa trajetória da humanidade na resolução do problema da sobrevivência coletiva, destacando a transição das sociedades tradicionais para o sistema de mercado moderno. Desde os primórdios, o ser humano enfrentou o desafio de garantir sua existência não como indivíduo isolado, mas como parte de um grupo social. Essa cooperação social, embora essencial, sempre esteve em tensão com a natureza egocêntrica do homem, o que dificultou a organização econômica e social. Nas sociedades primitivas, a sobrevivência dependia da cooperação imposta pelo ambiente hostil, como no caso dos esquimós, ou pela rede de obrigações sociais baseadas em parentesco e reciprocidade, como descrito entre os bosquímanos africanos. Contudo, à medida que as sociedades se desenvolveram, especialmente nas comunidades modernas, essa coesão social tornou-se mais frágil, pois a maioria das pessoas não estava diretamente envolvida na produção material, tornando a manutenção da ordem social uma tarefa complexa e sujeita a riscos de colapso.Historicamente, o homem encontrou três formas principais para garantir a continuidade social e econômica: a tradição, a imposição autoritária e, finalmente, o sistema de mercado. As duas primeiras formas — tradição e autoridade — baseavam-se em regras rígidas e imutáveis, como a herança de ocupações no antigo Egito ou o controle estatal e político na União Soviética. Essas formas não exigiam o surgimento de economistas, pois a organização social e econômica era clara e estável dentro desses parâmetros. A terceira solução, o sistema de mercado, representou uma revolução conceitual e prática, pois propunha que cada indivíduo agisse segundo seu interesse próprio, guiado pelo lucro, e que essa busca individual coordenasse a sociedade como um todo. Essa ideia, embora simples na formulação, era paradoxal e exigia uma nova compreensão da ordem social, pois não era evidente que a soma dos interesses individuais levaria à harmonia social. O surgimento dos economistas está ligado justamente à necessidade de explicar e justificar essa nova forma de organização social, que só começou a ser aceita e compreendida a partir do século XVIII.O texto também destaca que o sistema de mercado não surgiu de forma espontânea ou pacífica, mas foi resultado de uma longa e dolorosa transformação social, econômica e política que se estendeu por vários séculos. No passado, a ideia de lucro pelo lucro era estranha e até condenada moralmente, especialmente pela Igreja, que via o comércio e a usura como pecados. A vida econômica estava profundamente entrelaçada com a vida social e religiosa, e o trabalho era uma obrigação ligada à tradição, não um meio para a acumulação de riqueza. A comercialização da terra, do trabalho e do capital — os agentes básicos da produção — só começou a se consolidar com a dissolução do feudalismo, a centralização política e o surgimento das monarquias nacionais, que incentivaram a exploração, o comércio e a aventura. Esse processo envolveu a expropriação das terras comuns, a transformação dos camponeses em proletários e a resistência feroz das guildas e das classes tradicionais contra as inovações tecnológicas e comerciais. A revolução econômica foi, portanto, uma ruptura profunda com o passado, marcada por conflitos sociais, revoltas e uma mudança gradual na mentalidade, que passou a valorizar o lucro, o trabalho assalariado e a mobilidade social.### Principais conceitos e argumentos- **Cooperação social e sobrevivência:** O homem depende da cooperação para sobreviver, mas sua natureza egocêntrica e a complexidade das sociedades modernas tornam essa cooperação difícil de manter.- **Tradição e autoridade:** Por séculos, a organização econômica baseou-se em regras tradicionais ou na imposição autoritária, que garantiam a continuidade social sem a necessidade de uma ciência econômica.- **Sistema de mercado:** A terceira solução para a sobrevivência social, baseada na liberdade individual e na busca do lucro, que exige uma nova compreensão da ordem social e o surgimento dos economistas.- **Resistência à mudança:** A transição para o sistema de mercado foi marcada por forte resistência das classes tradicionais, guildas e autoridades religiosas, que viam o lucro e a inovação como ameaças à ordem estabelecida.- **Comercialização dos fatores de produção:** A terra, o trabalho e o capital só passaram a ser vistos como mercadorias e agentes econômicos abstratos com o advento do capitalismo, rompendo com a visão feudal e tradicional.- **Mudanças políticas e culturais:** O fortalecimento das monarquias nacionais, o espírito de aventura e exploração, o Renascimento, a Reforma Protestante e o avanço técnico-científico foram fundamentais para a consolidação do sistema de mercado.- **Transformação social:** A expropriação das terras comuns e a criação do proletariado foram processos dolorosos que acompanharam a revolução econômica, alterando profundamente a estrutura social.### Exemplos relevantes- A feira na França de 1305, onde o comércio ainda era rudimentar, com dificuldades de cálculo e pouca padronização.- A multiplicidade de medidas e moedas na Alemanha do século XVI, que dificultava o comércio.- O julgamento de Robert Keayne em Boston, acusado de lucro excessivo, ilustrando a moralidade negativa em relação ao lucro na época.- A resistência das guildas têxteis francesas às inovações, como o uso de botões e tecidos estampados, que resultou em punições severas.- O processo de "fechamento" das terras comuns na Inglaterra, que expulsou camponeses e criou uma classe de proletários agrícolas, gerando revoltas e miséria.- A importância das grandes explorações marítimas patrocinadas por monarquias, que trouxeram riquezas e estimularam o espírito capitalista.### Implicações e conclusõesA obra de Heilbroner mostra que o sistema de mercado, base do capitalismo moderno, não é uma condição natural ou inevitável da humanidade, mas uma construção histórica complexa e recente. A ideia de que o lucro e o interesse individual poderiam organizar a sociedade foi uma revolução intelectual e social que exigiu o rompimento com tradições milenares, a superação de resistências culturais e religiosas e a transformação profunda das relações sociais e econômicas. O surgimento dos economistas está diretamente ligado a essa nova realidade, pois eles precisaram explicar como a busca individual pelo lucro poderia, paradoxalmente, garantir a ordem e a prosperidade coletiva. A revolução econômica, portanto, não foi apenas uma mudança técnica ou econômica, mas uma transformação cultural, política e social que moldou o mundo moderno.---### Destaques- A sobrevivência humana depende da cooperação social, mas a natureza egocêntrica do homem e a complexidade das sociedades modernas dificultam essa cooperação.- Por séculos, a organização econômica baseou-se em tradição e autoridade, sem a necessidade de uma ciência econômica.- O sistema de mercado, baseado na liberdade individual e na busca do lucro, representou uma revolução social e intelectual que exigiu o surgimento dos economistas.- A comercialização da terra, do trabalho e do capital foi um processo doloroso, marcado por resistência das classes tradicionais e profundas transformações sociais.- Mudanças políticas, culturais e técnicas, como o fortalecimento das monarquias, o Renascimento e as grandes explorações, foram fundamentais para a consolidação do capitalismo moderno.

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