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PERÍCIA TOXICOLÓGICA, MATEMÁTICA- FINANCEIRA, VEICULAR E BALÍSTICA FORENSE TEMAS DE APRENDIZAGEM 1. FUNDAMENTOS DA TOXICOCINÉTICA: ABSORÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DE TOXINAS; METABOLISMO E EXCREÇÃO ► 2. TOXICODINÂMICA: MECANISMOS DE AÇÃO TÓXICA E IDENTIFICAÇÃO DE CONTAMINANTES ► 3. TÉCNICAS DE ANÁLISE TOXICOLÓGICA: ENTENDENDO OS CUIDADOS COM A AMOSTRA BIOLÓGICA E SUAS INVESTIGAÇÕES LABORATORIAIS ► 4. CONCEITOS BÁSICOS DE MATEMÁTICA FINANCEIRA: CONCEITOS; JUROS SIMPLES E COMPOSTOS; ANÁLISE DE INVESTIMENTOS ► 5. APLICAÇÕES DA MATEMÁTICA FINANCEIRA EM PERÍCIA: CÁLCULOS DE DANOS ECONÔMICOS E VALORAÇÃO PATRIMONIAL; FERRAMENTAS ESTATÍSTICAS PARA ANÁLISE FINANCEIRA ► 6. PERÍCIA VEICULAR – INSPEÇÃO E IDENTIFICAÇÃO: INSPEÇÃO DE VEÍCULOS; IDENTIFICAÇÃO DE ADULTERAÇÕES ► 7. ANÁLISE E RECONSTITUIÇÃO DE ACIDENTES: ANÁLISE DE ACIDENTES DE TRÂNSITO; MÉTODOS DE RECONSTRUÇÃO DE ACIDENTES ► 8. FUNDAMENTOS DA BALÍSTICA FORENSE: ESTUDO DE ARMAS DE FOGO E MUNIÇÕES; BALÍSTICA INTERNA, EXTERNA E TERMINAL ► 9. ANÁLISE BALÍSTICA E TECNOLOGIAS AVANÇADAS: ANÁLISE DE BALÍSTICAS EM LOCAIS DE CRIMES; ► TEMA DE APRENDIZAGEM FUNDAMENTOS DA TOXICOCINÉTICA: ABSORÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DE TOXINAS; METABOLISMO E EXCREÇÃO Giovanna Mizrahi Carcereri AUTOR MINHAS METAS INICIE SUA JORNADA Apesar de ser matéria pouco conhecida entre aqueles que não possuem familiaridade com a toxicologia, a toxicocinética desempenha papel fundamental em nosso cotidiano. Isso porque é uma das matérias responsáveis por garantir a proteção da vida humana em situações relacionadas à avaliação da segurança das mais diversas substâncias em nosso dia a dia. Conhecer o conceito de toxicocinética.► Familiarizar-se com os princípios básicos da toxicocinética.► Compreender como as substâncias tóxicas são absorvidas pelo corpo.► Analisar a forma de distribuição de substâncias tóxicas pelo corpo humano em seus diversos tecidos. ► Entender como substâncias tóxicas são metabolizadas.► Entender como o corpo humano elimina as substâncias tóxicas.► Investigar a relação entre a toxicocinética e o ambiente profissional.► Apenas com a correta análise toxicocinética é possível estabelecer qual a prescrição correta de determinado medicamento, ou mesmo analisar a segurança relacionada a produtos de limpeza. Dados relacionados à toxicocinética embasam decisões relativas ao estabelecimento de dosagens adequadas, à identificação de possíveis efeitos colaterais de substâncias e à análise do correto atendimento de seus padrões de segurança. Além disso, conhecimentos de toxicocinética servem para embasar investigações acerca de poluentes ambientais, possíveis casos de envenenamento ou mesmo em relação a exposições acidentais a quaisquer substâncias tóxicas. Em resumo, o estudo da toxicocinética possui relação direta com a nossa segurança quando do contato com substâncias potencialmente danosas. Você já havia parado pra pensar em como a toxicologia tem função essencial na garantia de nossa saúde? PLAY NO CONHECIMENTO Neste podcast, você será guiado através da análise de fatores que podem interferir no processo toxicocinéticos, fazendo com que uma mesma substância produza efeitos diferentes em indivíduos distintos. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://w.soundcloud.com/player/?url=https%3A//api.soundcloud.com/tracks/1961385707&color=%23ff5500&auto_play=false&hide_related=true&show_comments=false&show_user=false&show_reposts=false&show_teaser=false&sharing=false&show_artwork=false&show_playcount=false VAMOS RECORDAR A toxicocinética é um dos grupos que compõem uma área maior, chamada toxicologia. No vídeo a seguir, são retomados pontos importantes sobre o contexto histórico e as áreas de atuação da toxicologia: Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://www.youtube.com/watch?v=MyFgqkMoS6s DESENVOLVA SEU POTENCIAL ENTENDENDO A TOXICOCINÉTICA As substâncias estranhas ao organismo humano, incluindo produtos químicos sintéticos, medicamentos, aditivos alimentares, drogas, entre outros, são chamados na toxicologia de xenobióticos. A toxicocinética, por sua vez, é a área da toxicologia que irá estudar a absorção, a distribuição, a biotransformação e a excreção de um xenobiótico em nosso organismo (Klaassen; Watkins III, 2012, p. 108). VOCÊ SABE RESPONDER? Qual a origem da palavra xenobiótico? O prefixo xeno tem sua origem no grego e significa “estranho”. Um xenobiótico, portanto, é uma substância que normalmente não é produzida por determinado sistema biológico, podendo causar a ele alguma espécie de dano. É comum ouvirmos falar que o que diferencia um remédio de um veneno é apenas a sua dosagem e, nesse contexto, os estudos relacionados à toxicocinética serão responsáveis por descrever a quantificação segura a ser utilizada de determinada substância e determinar, em função do tempo, como ocorrerão seus processos cinéticos. Para tanto, a toxicocinética utiliza-se de modelos e da descrição matemática acerca da forma de absorção, distribuição, metabolização e excreção de cada substância potencialmente tóxica no organismo. Ademais, para além da simples toxicidade do produto, a nocividade de determinada substância pode variar conforme as condições e o período de exposição àquela substância. Conforme Ribas (2020, p. 10), tais exposições podem ser classificadas das seguintes maneiras: EXPOSIÇÃO CRÔNICA Está presente em mais de 10% do período de vida da pessoa, ocorrendo de forma repetida e constante por um longo período de tempo. EXPOSIÇÃO SUBCRÔNICA Possui curta duração, inferior ao período de 10% da vida do ser, mas é caracterizada por uma exposição diária e repetitiva (como uma intoxicação medicamentosa). EXPOSIÇÃO AGUDA É a exposição que acontece em um único evento, mas com uma quantidade expressiva da substância nociva. É comumente observada em acidentes. Observa-se, portanto, que, ainda que o indivíduo seja exposto a uma substância de toxicidade não letal, se essa exposição acontecer por um período elevado, ela poderá ser nociva à saúde. Interessante pontuar que um exemplo de exposição crônica à substância nociva foi justamente o que inspirou a criação do famoso personagem Chapeleiro Maluco no clássico filme Alice no país das maravilhas. Antigamente, os chapéus de época eram considerados sinônimo de status e poder, contudo, os profissionais que confeccionavam tais chapéus eram constantemente expostos ao mercúrio utilizado no processo de feltragem. Por ser um agente tóxico com afinidade com o sistema nervoso central, o contato com o mercúrio acabava por deixar sequelas em parte dos chapeleiros da época, que eram chamados, por muitos, de malucos. Figura 1 – Chapeleiro Maluco Fonte: https://commons.wikimedia.org/. Acesso em: 21 ago. 2024. Descrição da imagem: desenho de um senhor de cabelos brancos, com gravata borboleta, paletó verde e cartola também verde, em cima de uma cadeira, servindo três xícaras de chá com um mesmo bule, que possui três bicos. Em cima da mesa, existem outros utensílios de um chá da tarde, como pires, chaleiras, bandejas e açucareiro. Fim da descrição. ABSORÇÃO A absorção é o primeiro dos movimentos do xenobiótico no organismo, referindo-se à passagem da substância de seu local de contato para a corrente sanguínea. Comumente, a exposição ao agente tóxico ocorre pelo trato gastrointestinal, pelos https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Alice_in_Wonderland_(1951)_-_Mad_Hatter.png pulmões ou pela pele, podendo ocorrer também pela via intramuscular, intravenosa ou subcutânea. APROFUNDANDO Quando a exposição ao xenobiótico se dá diretamente pela via intravenosa, não existirá a absorção, na medida em que a substância alcança diretamente a circulação sanguínea. Essa via de administração pode ser utilizada para determinadas medicações,de mercado financeiro e economistas ou contadores, o que não é verdade, afinal, a Matemática Financeira também se faz presente em nosso dia a dia, desde tarefas simples até as mais complexas, como é a natureza da Matemática como um todo. Nesse sentido, vamos aprender conceitos de juros simples e compostos, taxas de juros e principais indicativos da análise de investimentos, além de conhecer algumas situações práticas envolvendo a aplicabilidade da Matemática Financeira no dia a dia, como situações envolvendo empréstimos e financiamentos, investimentos, orçamentos pessoais, compras de imóveis e veículos, planejamento de aposentadoria e outros que ilustram que essa área do conhecimento não somente faz parte do nosso dia a dia, como é extremamente importante para o bom exercício da cidadania e, no caso das perícias forenses, para o bom exercício da profissão. Por fim, serão expostos alguns conceitos e exemplos sobre como a Matemática Financeira também faz parte do universo e contexto forense, sendo essencial para o dia a dia dos peritos. Por isso, ressalta-se que não é incomum encontrar o termo “Matemática Forense” como forma de nomenclatura para a intersecção dessas duas áreas do conhecimento, como será exposto no transcorrer deste tema. Mesmo com a existência de programas de Inteligência Artificial e softwares que facilitam o dia a dia de peritos em cálculos, é importante ressaltar que compreender a lógica por trás de cada operação é essencial para o exercício consciente da profissão. PLAY NO CONHECIMENTO No nosso podcast, exploramos a Educação Financeira, que envolve a aplicação da Matemática Financeira no contexto pessoal e profissional. A Educação Financeira é fundamental para profissionais de finanças e para qualquer pessoa que deseja tomar decisões conscientes e administrar suas finanças de maneira eficaz. Confira! Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://w.soundcloud.com/player/?url=https%3A//api.soundcloud.com/tracks/1961386991&color=%23ff5500&auto_play=false&hide_related=true&show_comments=false&show_user=false&show_reposts=false&show_teaser=false&sharing=false&show_artwork=false&show_playcount=false VAMOS RECORDAR Neste vídeo, são explicados alguns exemplos de como a Matemática Financeira é aplicada no dia a dia. Quando conseguimos compreender como uma área do conhecimento é aplicável e presente em nosso cotidiano, conseguimos entender melhor sua importância. A partir desse momento, o conhecimento sistematizado passa a integrar o conhecimento intuitivo, principalmente em atividades multidisciplinares como a do perito forense. Acesse: Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://www.youtube.com/watch?v=mT2ZDiwScpA DESENVOLVA SEU POTENCIAL MATEMÁTICA FINANCEIRA, O QUE É, AFINAL? Primeiramente, temos de entender o que é Matemática Financeira. Partindo do conceito formulado pelo especialista Assaf Neto, "A Matemática Financeira é o "estudo do dinheiro no tempo ao longo do tempo" (Assaf Neto 1998, p. 13). Ou seja, é a área do estudo das análises sobre rendimentos e aspectos temporais do dinheiro, além das relações entre quantias monetárias expressas em datas diferentes. Nesse sentido, a Matemática Financeira está presente em diversas operações financeiras que trabalham com a relação entre o dinheiro e sua evolução no transcorrer do tempo, como empréstimos, financiamentos, investimentos e cálculos relacionados a valores monetários, ajudando a entender como o dinheiro se comporta ao longo do tempo, considerado fatores como juros, inflação e retorno sobre o investimento. Ao contrário do que muita gente pode imaginar, a Matemática Financeira é uma área do conhecimento antiga, que remonta às primeiras civilizações da humanidade. É claro que hoje existem ferramentas e fórmulas muito mais complexas, além de profissionais totalmente dedicados ao estudo e aplicação da matemática financeira, sendo comum que as grandes metrópoles sempre tenham uma área das cidades conhecidas como centros do mercado financeiro, a exemplo de Wall Street, em Nova York, e mesmo a Rua Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. No entanto, a Matemática Financeira remonta à antiguidade, principalmente quando o ser humano passou a conhecer e aplicar o conceito de juros em sua economia. A Matemática Financeira e suas aplicações remontam a tempos anteriores a Cristo. A própria Bíblia Sagrada traz referências de juros e de aplicações financeiras. O conceito de juros é antigo de acordo com os registros históricos. Essa conceituação apareceu quando o homem percebeu a relação entre o tempo e o dinheiro e seus reflexos na vida das pessoas e povos. (Rosetti Jr.; Schimiguel, 2009, P. 3 O que podemos perceber, portanto, é que a Matemática Financeira não só evoluiu com as sociedades, mas permitiu que as próprias sociedades se organizassem, afinal, ao poder trabalhar a relação do dinheiro e sua evolução no transcorrer do tempo, o ser humano passa a pensar a economia de forma mais ampla, e não apenas enxergar ela em operações básicas e corriqueiras de subsistência. Por esse motivo, as cidades passam a se desenvolver, permitindo que as relações públicas e privadas sejam mais complexas e que governos e empresas tenham condições de atuar tendo uma expectativa em relação com o dinheiro de acordo com o futuro, e não somente com trocas imediatas, possibilitando o desenvolvimento de novas construções, empregos, relações entre grupos diferentes, investimentos em descobertas de novas terras, entre diversos outros exemplos que partem a partir do desenvolvimento da economia, que decorre justamente do desenvolvimento da Matemática Financeira. JUROS SIMPLES E COMPOSTOS Dentro do escopo da Matemática Financeira, o conceito de juros é um dos elementos que mais permeia o senso comum, principalmente dos brasileiros, afinal, eles estão presentes principalmente nas compras parceladas de bens móveis e imóveis, desde que o país passou pelo Plano Real na década de 1990, em que cartões de créditos e crediários passam a possibilitar essa modalidade de compra às grandes massas. nem todos os juros são abusivos, mas, muitas vezes, necessários Geralmente, as pessoas têm a tendência de ver os juros de forma negativa, como se fosse uma abusividade por parte dos credores. No entanto, eles são essenciais para o bom funcionamento da economia e correção de valores futuros, ou seja, nem todos os juros são abusivos, mas, muitas vezes, necessários. Nesse sentido, o autor Passanezi (2008, p. 179) defende que, “na verdade, a valoração do amanhã tem um preço que decorre, sobretudo, das escolhas que fazemos, uma vez que o presente foge, o passado é irrecobrável, e o futuro, incerto”. Ou seja, os juros são uma forma de adequar os valores, em um espaço de tempo, em troca de alguns benefícios de usufruto no presente, por meio de uma taxa percentual que sempre se refere a uma unidade de tempo, como ano, semestre, trimestre, mês etc. Na prática, você compra um carro e paga parcelado por ele e, ao pagar em parcelas, estará ao final pagando mais caro do que se tivesse o comprado à vista devido aos juros. No entanto, esses juros servem para corrigir o valor utilizado para comprar o carro devido à sua evolução no tempo e o seu próprio usufruto, ou seja, a possibilidade de utilizar o veículo sem ainda ter pagado por todo o seu valor. Por isso, em um universo onde não existissem juros, facilmente as economias iriam colapsar. É importante ressaltar, no entanto, que existem duas formas de juros mais praticadas no mercado, e que é importante diferenciar: os juros simples e os juros compostos, como veremos a seguir. JUROS SIMPLES Os Juros simples são uma forma de calcular os juros sobre um capital inicial, onde os juros são acumulados apenas sobre o valor principal(capital) e não sobre os juros acumulados ao longo do tempo. Em outras palavras, os juros não são reinvestidos, ou seja, não geram "juros sobre juros" e por isso são chamados de simples, já que o seu cálculo partirá sempre de um mesmo referencial inicial. A definição trazida por Puccini para os juros simples é: Os juros de cada período são sempre calculados em função do capital inicial (principal) aplicado. Os juros do período não são somados ao capital para o cálculo de novos juros nos períodos seguintes. Os juros não são capitalizados e, consequentemente, não rendem juros. Assim, apenas o principal é que rende juros. A fórmula dos juros simples se configura da seguinte forma: Juros = valor presente x Taxa x Tempo de aplicação, ou seja: J = P x i x n Aplicando em uma situação hipotética como forma de exemplo, podemos trazer a situação em que alguém toma um empréstimo de R$ 350,00 a uma taxa de juros de 2% ao mês. Depois de seis meses tomado o empréstimo, a situação estaria da seguinte forma: juros = 350 x 0,02 x 6; o que trará um valor de R$ 42,00 de juros (Cecierj, 2014). Um dos exemplos da aplicabilidade dos juros simples no dia a dia seria principalmente em compras feitas no cartão de crédito de curto prazo, em que um parcelamento a partir de algum prazo para adimplemento passa a exigir o juro simples para corrigir o valor inicial, sendo possível encontrar em crediários de lojas, parcelamentos de eletrodomésticos, roupas etc. Basicamente, o juro simples funcionará como uma correção do valor inicial, e não como uma forma de investimento lucrativo. JUROS COMPOSTOS Juros compostos são uma forma de calcular os juros em que os juros acumulados em cada período são reinvestidos, ou seja, geram novos juros nos períodos subsequentes. Diferentemente dos juros simples, nos juros compostos, os juros são calculados sobre o valor principal e sobre os juros acumulados anteriormente, o que resulta em um crescimento exponencial do valor total ao longo do tempo. É importante ressaltar que essa modalidade de juros traz uma dinâmica completamente diferente para os cálculos em relação aos juros simples, uma vez que não apenas irá corrigir o valor inicial, mas irá aumentar de forma muito mais significativa o valor final no transcorrer do tempo, como veremos em sua fórmula adiante. Quem pontua a diferença sobre os juros simples são Brealey e Myers (1998, p. 41), ao explicarem que “existe uma importante diferença entre juro composto e juro simples. Quando o dinheiro é investido a juro composto, os juros vencidos são reinvestidos para obter mais juros nos períodos seguintes. Em contrapartida, a oportunidade de ganhar juros sobre juros não existe num investimento que proporcione apenas juros simples”. O cálculo dos Juros Compostos se dá pela fórmula: "M = C (1 + i)t", em que “M” representa o montante (final da operação), “C” o capital (primeiro valor investido), “i” a taxa de juros aplicada e “t” o tempo em que o capital ficará aplicado. A grande questão é que o juro composto é calculado em cima do valor anterior, e não em cima do valor inicial. Ou seja, é calculado a partir da atualização do capital. Por exemplo: se você aplica R$ 100 com juros compostos de 10% ao mês, os 10% serão calculados em cima dos R$ 100, gerando R$ 10 de juros e um montante de R$ 110. No próximo mês, os 10 % serão calculados em cima do valor atual do montante, ou seja, 10 % de R$ 110, gerando juros de R$ 11,00, e, assim, sucessivamente. Podemos destacar que, no dia a dia, os juros compostos prevalecem, tanto em compras de cartão de crédito voltadas para o médio e longo prazo, como compras de bens de maior valor e em financiamentos imobiliários e de automóveis. Por serem mais complexos, também geram maiores discussões e são motivos de grande estudo por parte de advogados, contadores e especialistas em investimentos. ANÁLISES DE INVESTIMENTOS A análise de investimentos é o processo de avaliar diferentes opções de investimento para determinar quais oferecem o melhor potencial de retorno, levando em consideração fatores como risco, retorno esperado, horizonte de tempo e objetivos financeiros, sendo fundamental para tomar decisões informadas sobre onde e como investir recursos financeiros. A análise de investimentos pode ser aplicada a uma variedade de ativos, incluindo ações, títulos, imóveis, fundos mútuos, entre outros, existindo alguns indicativos importantes oriundos dela que frequentemente devem ser avaliados pelos analistas. Serão explicados com mais detalhes, a seguir: análise de dados, valor presente líquido (VPL) e taxa interna de retorno (TIR). ANÁLISE DE DADOS O conceito de análise de dados existe, essencialmente, para definir que qualquer investimento pode ser analisado sob a perspectiva do lucro ou do prejuízo que gerou no transcorrer do tempo. Para que a análise de dados seja feita, existe uma série de técnicas de análises existentes, que irão variar conforme o objetivo final da própria análise. Em uma, todo investimento passa por uma análise de dados e nenhum é “neutro”, ou seja, ou irá gerar ou saldo positivo ou negativo. Nesse sentido, todo negócio passa por uma análise de dados, seja um carrinho de pipoqueiro, um mercadinho, uma loja de roupas etc. (Cecierj, 2014). VALOR PRESENTE LÍQUIDO – VPL O Valor Presente Líquido (VPL) é uma métrica financeira utilizada para avaliar a viabilidade e a rentabilidade de um investimento ou projeto, por meio da diferença entre o valor presente das entradas de caixa (receitas) e o valor presente das saídas de caixa (custos ou despesas), descontados a uma taxa de desconto apropriada. O VPL é uma forma de medir o valor atual de fluxos de caixa futuros, considerando o valor do dinheiro no tempo, sendo uma fórmula matemática para se calcular todos os movimentos do fluxo de caixa, comparados ao investimento inicial. O cálculo pode ser realizado por calculadoras e softwares, partindo da fórmula: VPL = FC0 + FC1/(1+i)^(j+1) + FC2/(1+i)^(j+2), e assim sucessivamente, ou seja, nela, consideramos o fluxo de caixa (FC), o tempo do investimento (j) e a taxa de desconto (i) (Silva, 2005). TAXA INTERNA DE RETORNO – TIR A Taxa Interna de Retorno (TIR) é utilizada para avaliar a rentabilidade de um investimento ou projeto, descontando o Valor Presente Líquido (VPL) de todos os fluxos de caixa futuros de um projeto para que seja igual a zero, sendo a taxa de retorno esperada que um projeto ou investimento gera com base nos fluxos de caixa previstos. O cálculo exato da TIR geralmente necessita do uso de softwares ou calculadoras financeiras, uma vez que a equação não pode ser resolvida de forma algébrica simples. Nesse sentido, a TIR é a taxa de juros que iguala, em determinado tempo, o valor presente das entradas (recebimentos) com o das saídas (pagamento) previstos de caixa (Cecierj, 2014). Saber entender a análise de dados por meio de VPL e TIR é importante para que o profissional tenha uma noção concreta e visão geral ampla sobre a viabilidade e sustentabilidade, por isso, não se espera necessariamente que seja um exímio matemático e saiba fazer essas operações sem utilizar um programa ou calculadora, mas, para que, principalmente, saiba entender os cenários de forma crítica ao se deparar com gráficos apontando esses indicativos, compreendendo o cenário e as nuances que o cercam para saber se determinado negócio deve ser mantido ou desincentivado. MATEMÁTICA FINANCEIRA E A MATEMÁTICA FORENSE Depois de entender e analisar os conceitos básicos que permeiam a Matemática Financeira, é compreensível perguntar: em que momento e contexto todos esses conceitos se entrelaçam com o contexto forense? Afinal, ao pensarmos de forma intuitiva, é muito fácil relacionar as perícias forenses às análises biológicas e análises de crimes, mas onde é que os cálculos se encontram dentro do contexto forense? Nesse sentido, existem diversos conceitos matemáticos do universo da Matemática Financeira queestão diretamente relacionados, principalmente, às perícias judiciais , em que os conflitos não só podem ser resolvidos por meio de fórmulas e conceitos como os que foram vistos até este momento. Na prática, há um encontro entre o Direito e a Matemática, sendo possível encontrar essa intersecção descrita como “Matemática Forense”, em que conflitos envolvendo uma batida de carro ou um dano material, por exemplo, não são resolvidas com argumentos jurídicos, mas, sim, com o suporte dos cálculos oriundos da Matemática Financeira, o que será detalhado conceitualmente nos temas posteriores. Nesse sentido, ressalta-se que a Matemática Financeira é uma ferramenta crucial em processos judiciais, especialmente quando é necessário calcular valores reais, como indenizações, correções monetárias, juros ou atualizações de valores ao longo do tempo. Por isso, fórmulas e conceitos vistos ao longo deste tema são utilizados em situações concretas no contexto dos litígios judiciais. Por exemplo, quando uma dívida é antiga e precisa ser atualizada, a Matemática Financeira ajuda a determinar o valor presente dessa dívida considerando tanto os juros devidos quanto a correção monetária. Ou também quando a matemática financeira é utilizada para aplicar índices de correção monetária (como o IPCA, INPC, ou IGP-M) sobre valores devidos, a fim de preservar o poder de compra ao longo do tempo, cálculos de juros, descontos e antecipações, entre outros. Nesses casos, a Matemática Financeira é utilizada especialmente para tornar os valores certos e líquidos, buscando, principalmente, tornar os valores justos dentro das discussões judiciais (Puccini, 2003). a Matemática Financeira é uma ferramenta crucial em processos judiciais EM FOCO Acesse seu ambiente virtual de aprendizagem e confira a aula referente a este tema. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. NOVOS DESAFIOS Prezado estudante, em seu dia a dia profissional, os cálculos não serão somente muito importantes, mas fundamentais para cumprir funções específicas com relação, principalmente, às perícias forenses. Nesse sentido, conhecer a Matemática Financeira não é essencial, uma vez que não se trata de conhecimento assessório, mas, sim, primordial para a boa execução de suas funções. Por isso, conhecer conceitos como https://player.vimeo.com/video/1003338608?h=b68cf37b24 juros simples e compostos, análises de investimentos e a própria conceituação da Matemática Financeira é elemento-chave da atividade forense. Na prática, problemas relacionados aos valores de danos materiais que compõem boa parte dos desafios da atividade forense partem dos conceitos da Matemática Financeira. Saber ler os cenários referentes aos cálculos é fundamental. Mesmo que existam calculadoras e ferramentas que auxiliem a concluir essas tarefas, saber executar as operações de forma consciente e entendendo a lógica por trás delas é o que diferencia um bom profissional daquele que apenas repete rotinas mecânicas e está mais sujeito ao erro. O que o profissional precisa, portanto, é conhecer os elementos básicos da Matemática Financeira, a fim de conciliá-la de forma harmônica ao conhecimento jurídico e científico que compõem a função de um perito, profissional encarregado de grandes responsabilidades e que, por isso, precisa de uma formação multidisciplinar que exige fundamentação teórica alta qualidade e dedicação de sua parte. REFERÊNCIAS ASSAF NETO, A. Matemática financeira e suas aplicações. São Paulo: Atlas, 1998. BREALEY, R. A.; MYERS, S. C. Princípios de finanças empresariais. 5. ed. Lisboa: McGraw-Hill, 1998. CECIERJ. Matemática Financeira. [S. l: s. n.], 2014. Disponível em: https://canal.cecierj.edu.br/. Acesso em: 31 jul. 2024. ROSETTI Jr., H.; SCHIMIGUEL, J. Educação matemática financeira: conhecimentos financeiros para a cidadania e inclusão. Inter Science Place, ano 2, n. 9, set./out. 2009. SILVA, A. A. F. Discussão sobre os critérios de avaliação econômica: Valor Presente Líquido (VPL), Valor Anual Equivalente (VAE) e Valor Esperado da Terra. Revista Árvore, v. 29, n. 6, p. 931-936, dez. 2005. PASSANEZI, P. M. S. O valor do amanhã: ensaio sobre a natureza dos juros. Rev. Econ. Contemp., v. 12, n.1, p. 179-181, 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/. Acesso em: 31 jul. 2024. PUCCINI, A. de L. Matemática financeira objetiva e aplicada. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2003. https://canal.cecierj.edu.br/072020/c663ce030499ec51563b7273799dcd9e.pdf https://www.scielo.br/j/rec/a/vTYHkWHCxNCdyqrTwBn8BqK/?format=pdf&lang=pt TEMA DE APRENDIZAGEM APLICAÇÕES DA MATEMÁTICA FINANCEIRA EM PERÍCIA: CÁLCULOS DE DANOS ECONÔMICOS E VALORAÇÃO PATRIMONIAL; FERRAMENTAS ESTATÍSTICAS PARA ANÁLISE FINANCEIRA André Gessi Rogal Wuicik AUTOR MINHAS METAS INICIE SUA JORNADA Estudante, você já parou para pensar como a Matemática Financeira se aplica no contexto das perícias? Geralmente, ao se pensar em Matemática Financeira, associa-se essa área do conhecimento estritamente à sua aplicabilidade no universo dos economistas, investimentos em bolsas de valores, dentro do contexto de clientes bancários, entre demais possibilidades que geralmente estão associadas ao uso do dinheiro. Compreender como a Matemática Financeira se aplica na prática forense.► Saber em que contexto os cálculos são utilizados.► Entender em qual momento processual a Matemática Forense se aplica.► Identificar o conceito de dano material.► Entender a diferença de dano material e dano moral.► Compreender a aplicabilidade dos juros nos cálculos forenses.► Entender os motivos que justificam a aplicação dos juros em cálculos envolvendo perdas e danos. ► No entanto, a Matemática Financeira não só é aplicável dentro do contexto do Direito, como também é uma das principais ferramentas para que as perícias contábeis possam ser realizadas, não funcionando apenas como um acessório, mas como estrutura basilar a fim de produzir cálculos de danos econômicos e valoração patrimonial, por exemplo. Via de regra, as perícias de danos econômicos são investigações detalhadas realizadas para avaliar e quantificar prejuízos financeiros em diversas situações, como disputas comerciais, processos judiciais, sinistros de seguros, entre outros. Nesse sentido, como avaliar um dano decorrente de um prejuízo? Se uma pessoa perde um carro em um acidente e deve ser indenizada por isso, como teremos a exata noção de qual valor seria justo a fim de trazer uma indenização para satisfazer esse dano? Como visto, a Matemática Financeira não trata apenas de cálculos sobre os valores, mas, sim, de cálculos justificados por meio da decorrência do tempo, isto é, estudando a evolução do dinheiro ao longo de um período, atualizando um valor inicial com base na decorrência do tempo e em uma taxa de juros. Nesse exemplo hipotético, a indenização de um dano por perder um carro em um acidente também deve considerar esses fatores. Da mesma forma, um dano só pode ser calculado levando em consideração a decorrência do tempo diante do prejuízo causado. Sendo assim, os cálculos oriundos da Matemática Financeira e os seus conceitos básicos é que irão conseguir encontrar o real valor de um dano. Cada perícia de danos econômicos é única e pode variar dependendo das especificidades do caso e das exigências das partes envolvidas, por isso, a precisão e a objetividade são cruciais para assegurar que os resultados sejam confiáveis e aceitos por todas as partes interessadas, sendo estes resultados oriundos de cálculos embasados na Matemática Financeira. Por isso, neste tema de aprendizagem, aprenderemos sobre a perícia contábil e os principais tipos de danos e quais as fórmulas e ferramentas utilizadas para encontrar os seus valores dentro do contexto de litígios judiciais. PLAY NO CONHECIMENTO Em nosso podcast, trouxemos a conceituação de responsabilidade civil, queé um dos conceitos centrais do Direito Civil e que irá nortear as situações envolvendo perícias e laudos contábeis. Compreender esse conceito será importante para entender como as indenizações se configuram dentro dos casos concretos, em conformidade com os cálculos judiciais. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://w.soundcloud.com/player/?url=https%3A//api.soundcloud.com/tracks/1961387427&color=%23ff5500&auto_play=false&hide_related=true&show_comments=false&show_user=false&show_reposts=false&show_teaser=false&sharing=false&show_artwork=false&show_playcount=false VAMOS RECORDAR O NBC TP 01 – Norma Brasileira de Contabilidade – é a norma técnica que estabelece as regras e procedimentos utilizados pelos peritos contábeis para a realização de perícias contábeis dentro da esfera judicial, extrajudicial por meio de exame, vistoria, investigação e outros, trazendo todas as diretrizes formais para a atuação dos profissionais do setor. O documento serve de consulta e sua leitura também é primordial para fundar uma base sólida a todos que trabalham de forma direta ou indireta com os cálculos judiciais. Acesse aqui. DESENVOLVA SEU POTENCIAL DEFINIÇÃO DE PERÍCIA CONTÁBIL Neste momento, passamos a pensar em uma relação direta envolvendo a aplicação da Matemática Financeira dentro do universo das perícias judiciais. Em linhas gerais, podemos afirmar que as perícias são utilizadas em ações judiciais quando é necessário obter uma análise técnica ou especializada sobre determinados fatos que são relevantes para o julgamento do caso. Normalmente, esse tipo de instrumento é chamado de “perícia contábil”. https://cfc.org.br/wp-content/uploads/2016/02/NBC_TP_01.pdf A perícia contábil no Direito Civil é um procedimento técnico que visa esclarecer questões financeiras, patrimoniais ou econômicas em disputas judiciais, sendo realizado por um perito contador, que deve ser um profissional habilitado e registrado no Conselho Regional de Contabilidade (CRC). A perícia contábil, portanto, é uma ferramenta essencial para a resolução de litígios no Direito, proporcionando uma análise técnica e imparcial de questões complexas que exigem conhecimentos especializados em contabilidade e finanças. De acordo com as Normas Brasileiras de Contabilidade – NBC TP 01 – Norma Técnica de Perícia Contábil –, a definição de perícia contábil é: A perícia contábil constitui o conjunto de procedimentos técnicos e científicos destinados a levar à instância decisória elementos de prova necessários a subsidiar à justa solução do litígio, mediante laudo pericial contábil e/ou parecer pericial contábil, em conformidade com as normas jurídicas e profissionais, e a legislação específica no que for pertinente. CFC, 2020, P.1 Dessa forma, as perícias contábeis são aplicadas em diferentes contextos dentro do Direito , como, por exemplo, em disputas contratuais, ações de indenização por danos materiais e morais, em revisões contratuais, divórcios e sucessões, bem como em diversas outras circunstâncias em que valores tenham de ser apurados a fim de precificar de forma justa determinada situação, além de atualizar a evolução do dinheiro durante o tempo em que se arrastou o litígio, utilizando de conceitos da Matemática Financeira, principalmente como a aplicabilidade dos juros, por exemplo. O laudo pericial contábil, por sua vez, somente pode ser elaborado por contador que esteja devidamente registrado e habilitado em Conselho Regional de Contabilidade, conforme Decreto-Lei nº 9.295/46. O Laudo Pericial Contábil é um documento escrito, no qual o perito-contador deve registrar, de forma abrangente, o conteúdo da perícia e particularizar os aspectos e as minudências que envolvam o seu objeto e as buscas de elementos de prova necessários para a conclusão do seu trabalho. É importante ressaltar que o laudo pericial e os seus cálculos trazem um importante elemento dentro do processo judicial, mas não pode ser utilizado de forma isolada, isto é: será analisado em conjunto com outros elementos e provas que estejam nos autos a fim de fundamentar a decisão judicial em determinada disputa. Da mesma forma, o laudo pericial também pode ser utilizado em fase de liquidação de sentença, isto é, quando uma sentença judicial é ilíquida e não traz um valor determinado, sendo necessário um cálculo para discutir o valor que determinada parte deve pagar à outra quando o mérito já foi decidido (Código de Processo Civil, Capítulo XIV, do Título I, nos artigos 509 a 512) (Brasil, 2015). PERDAS E DANOS Após definido o conceito de perícia contábil e compreendida a função do perito judicial, é importante entender o conceito das chamadas “perdas e danos”. Em síntese, trata-se de um conceito utilizado para definir as compensações financeiras que uma parte lesada tem direito a receber de outra parte que causou o prejuízo, visando, assim, restaurar a situação da parte lesada ao estado em que estaria se o dano não tivesse ocorrido. O Código Civil – Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 – irá definir as perdas e danos da seguinte maneira: Das Perdas e Danos Salvo as exceções expressamente previstas em lei, as perdas e danos devidas ao credor abrangem, além do que ele efetivamente perdeu, o que razoavelmente deixou de lucrar. Brasil, 2002, Art. 402 Sendo assim, subdividindo-se dentro da ideia de perdas e danos, temos os seguintes conceitos: Nesse sentido, a fim de quantificar e comprovar perdas e danos dentro de cada uma dessas modalidades citadas, é necessária a realização de perícias técnicas, como a perícia contábil, para calcular o valor exato dos prejuízos. Como visto anteriormente, o laudo pericial serve como uma prova técnica no processo judicial, auxiliando o juiz na tomada de decisão sobre o montante da indenização devida e, mesmo que não funcione de forma isolada como prova irrefutável, é em grande parte o principal elemento probatório para definir determinado prejuízo. danos materiais;● danos morais;● danos emergentes;● lucros cessantes.● DANOS MATERIAIS E DANOS MORAIS A ideia de dano material e, principalmente, dano moral permeiam não somente o universo do Direito e das perícias, mas o próprio senso comum. É muito comum ouvirmos no dia a dia, quando se tem algum prejuízo ou dissabor, que irá pedir “indenização por danos morais” devido ao ocorrido. Em parte, esse raciocínio está correto, mas a definição dos danos materiais e morais é bem delimitada e não se atém a qualquer ocorrido ou subjetividade, como veremos agora. Sobre os danos materiais, podemos defini-los como os prejuízos econômicos causados a bens tangíveis e mensuráveis, como, por exemplo, ligados à perda ou deterioração de patrimônio e propriedades como veículos, objetos pessoais, ou qualquer outro bem físico. A reparação dos danos materiais visa compensar a vítima pelos prejuízos sofridos, restaurando seu patrimônio ao estado anterior ao dano, sendo definida no Código Civil: Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes. [...] Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo. Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem. Brasil, 2002, Art. 186; 187; 927 Em síntese, pode-se dizer que os danos materiais tratam de prejuízos acerca de bens que podem ser reparados mediante compensação financeira , visando restabelecer a situação patrimonial da vítima, seja compensando-acom um bem de mesmo valor ou pagando por um valor em dinheiro. Em todos os casos, o valor deste bem também pode ser definido e atualizado mediante perícia contábil. Sobre os danos morais, são os prejuízos não materiais que afetam a integridade psicológica, emocional ou moral de uma pessoa, como, por exemplo, situações que tragam sofrimento, angústia, humilhação ou qualquer outra forma de dor emocional ou psicológica. O dano moral envolve a lesão nos sentimentos que determina dor, o sofrimento físico, a inquietude espiritual, o agravo às afeições legítimas, e, em geral, toda classe de padecimentos insusceptíveis de apreciação pecuniária (Diniz, 1999). Como podemos perceber, o mesmo Art.186 do Código Civil abrange o conceito dos danos morais e a necessidade da reparação por eles. A reparação por danos morais visa compensar a vítima pelo sofrimento e restaurar, na medida do possível, sua dignidade e bem-estar emocional . O juiz, ao analisar o caso envolvendo pedido por danos morais, irá verificar a gravidade do dano e a sua repercussão social, a fim de evitar que qualquer dissabor cotidiano não se configure dano moral, mas, sim, situações concretas e consideráveis, como o atraso ou a perda de um voo, por exemplo, em que alguém tenha dificuldades em um aeroporto ao ponto de passar por situações constrangedoras decorrentes desse atraso. DANOS EMERGENTES E LUCROS CESSANTES Dentro da ideia de dano material, estão inseridos os conceitos de danos emergentes e lucros cessantes (TJDF, 2022). É importante compreender que ambos compõem e têm influência direta no cálculo das perdas e danos, sendo duas das variáveis utilizadas nas perícias contábeis. Os danos emergentes são os prejuízos efetivos e imediatos que uma pessoa sofre em decorrência de um ato ilícito ou de um descumprimento contratual , sendo as perdas reais e concretas que impactam o patrimônio da vítima de forma direta, tendo características marcantes como a imediatidade e a relação direta com o ato que ocasionou o dano. Colocando em um exemplo prático, podemos colocar a situação hipotética de uma caminhonete que traz uma grande televisão na sua bagagem. Um carro que bate nessa caminhonete, supondo que seja o único culpado nesse acidente, será obrigado a indenizar seu dono pelo estrago feito no veículo e também na televisão, ou seja, em sua carga. Esses prejuízos imediatos e que só ocorreram devido à batida, são os chamados danos emergentes. INDICAÇÃO DE LIVRO Os lucros cessantes, por sua vez, são os ganhos que uma pessoa ou empresa deixa de obter em decorrência de um ato ilícito ou de um descumprimento contratual. Diferentemente dos danos emergentes, que são perdas imediatas e mensuráveis, os lucros cessantes representam uma perda futura e hipotética de receita ou lucro que a vítima razoavelmente teria auferido se o evento danoso não tivesse ocorrido. Nesse sentido, menciona o Código Civil: Das Perdas e Danos Salvo as exceções expressamente previstas em lei, as perdas e danos devidas ao credor abrangem, além do que ele efetivamente perdeu, o que razoavelmente deixou de lucrar. Brasil, 2012, Art. 402 Vamos utilizar do mesmo exemplo anterior, de uma caminhonete carregando um televisor, ou, nesse caso, vários equipamentos eletrônicos que seriam vendidos de uma SOBRE O LIVRO: O livro Introdução ao Direito Civil, de Orlando Gomes, é um clássico que serve de introdução não somente a advogados e profissionais da área do Direito, mas a todos aqueles que trabalham diretamente com negócios jurídicos e o direito das coisas propriamente dito. Nesse sentido, é uma boa recomendação para peritos. loja de eletrodomésticos e estavam sendo entregues para um comprador, que, inclusive, já havia pagado pelos produtos, e estavam em rota de entrega. O cálculo pericial, dessa vez, não iria considerar somente o prejuízo dos veículos e da mercadoria atingida, mas o lucro que essa empresa deixou de ter porque teve o seu negócio afetado pelo acidente. Esse seria um caso de perda de oportunidade de negócio, mas poderia ocorrer devido a situações envolvendo interrupção de atividades comerciais, contratos cancelados, paralisação de produções etc. O CÁLCULO DA PERÍCIA CONTÁBIL Agora, é possível compreender como os cálculos contábeis são feitos a partir da perspectiva das perdas e danos, tendo em vista um contexto global de tudo o que envolve questões dessa natureza. Funcionaria, portanto, da seguinte forma (Docusign, 2023): IDENTIFICAÇÃO DOS DANOS EMERGENTES Calcular todos os custos das questões imediatas e que possuem relação de causa e efeito direta com a situação, levando também em conta o custo de reparos e contratação de serviços especializados, entre outros tipos de gastos possíveis. CALCULAR OS LUCROS CESSANTES Verificar quais ganhos teriam sido recebidos caso a situação não tivesse ocorrido. Atenção: o cálculo da estimativa de lucros futuros irá considerar situações encaminhadas e com bases em registros financeiros, e não meras situações hipotéticas. INCLUIR DANOS MORAIS Caso haja situações de prejuízo emocional decorridas da situação, cabe uma quantificação, mesmo que subjetiva, destas, a ser colocada na relação. SOMA DOS VALORES Por fim, a soma de todos esses valores será o resultado final das perdas e danos, sendo este o valor final a ser pleiteado em eventual disputa judicial ou servindo de base para acordo extrajudicial. E como são feitos os cálculos dos juros nessa relação? Nesses casos, é importante levar em consideração a correção monetária, bem como os próprios juros estabelecidos em lei nos casos de danos morais e materiais. É importante ressaltar que não se trata da mesma coisa, e que podem ocorrer de forma cumulada. A correção monetária é um mecanismo utilizado para ajustar valores financeiros ao longo do tempo, compensando a perda de poder de compra causada pela inflação, sendo a própria inflação o principal incidente desse cálculo. Para os danos materiais, temos a incidência da correção a partir do efetivo prejuízo, conforme o Enunciado 43 da Súmula do STJ – Incide correção monetária sobre dívida a partir da data do efetivo prejuízo. Por outro lado, quando a questão posta envolve danos morais, a correção monetária do valor da indenização do dano moral incide a partir da data do arbitramento. No caso dos juros aplicados dentro do contexto das perdas e danos, consideramos os juros moratórios. Juros moratórios decorrem do inadimplemento do débito e incidem a partir da mora, isto é, do atraso no pagamento, podendo ser convencionados pelas partes, e quando não o forem, a taxa será aquela prevista no artigo 406 do Código Civil. Em suma: os juros moratórios penalizam pelo atraso do pagamento, não se confundindo com a correção monetária. Parte da doutrina e da jurisprudência entende que a taxa indicada no artigo 406 do Código Civil é aquela mencionada no artigo 161, § 1º do Código Tributário Nacional, ou seja, 1% ao mês, mas o Superior Tribunal de Justiça sustenta que a taxa a ser adotada para os juros legais deve ser calculada por meio do Selic – Sistema Especial de Liquidação e de Custódia –, que pode ser aplicada de forma simples ou composta, dependendo da situação (Widholzer, 2015). Nesse sentido, os juros moratórios incidem a partir do evento danoso, consoante art. 398 do CC e Súmula 54 do STJ, quando não se tratar de uma obrigação contratual, como um acidente de trânsito, por exemplo. Já quando se tratar de obrigação contratual, haverá duas possibilidades, sendo no caso de obrigação líquida: incidem a partir do vencimento; e no caso de obrigação ilíquida: incidem a partir da citação (Widholzer, 2015). A perícia contábil desempenha um papel no sistema jurídico, especialmente no que se refere à resolução de litígios que envolvem questões financeiras e patrimoniais. Através de uma análise técnica e imparcial, o perito contador fornece informações essenciais para a tomada de decisões judiciais , contribuindo para que as disputassejam resolvidas de forma justa e embasada em dados precisos. A aplicação da Matemática Financeira e a elaboração de laudos periciais são importantes para garantir que todos os aspectos financeiros sejam devidamente avaliados, proporcionando um suporte técnico robusto ao processo judicial. EM FOCO Acesse seu ambiente virtual de aprendizagem e confira a aula referente a este tema. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://player.vimeo.com/video/1003338626?h=c65588c83a NOVOS DESAFIOS Como visto, as perícias agregam de forma harmônica o universo da Matemática Financeira com o Direito. São dois pilares de uma estrutura que não funcionam de forma isolada, sendo impossível dissociar um do outro. Nesse sentido, dentro do universo profissional, o perito deverá ter a capacidade de encontrar as perdas e danos no caso concreto, sabendo identificar todas as nuances de um prejuízo material e moral, já que todos esses detalhes irão compor o cálculo pericial. Não se trata de uma fórmula pronta a ser aplicada em um software, mas um situação em que, incrivelmente, a subjetividade tem a capacidade de influenciar de forma direta na Matemática. Como visto, a atividade pericial é regulamentada por órgão de classe e obedece questões formais bem delimitadas, não permitindo cálculos feitos conforme a vontade e fórmula do operador, mas, sim, dentro dos limites da lei. Por outro lado, de nada adianta o entendimento jurídico sem que se tenha um conhecimento sólido de Matemática Financeira, uma vez que os juros decorrentes da inflação e os juros moratórios, sendo estes embasados na Selic, serão variáveis necessárias para compor um cálculo pericial. Dessa forma, todas as questões vistas na Matemática Financeira, como o tempo de evolução do dinheiro, bem como os juros, podendo ser simples ou compostos, conforme cada situação, estarão presentes dentro do contexto judicial, sendo o resultado desse trabalho o laudo pericial, que possui importância enorme nos processos e é determinante para a decisão judicial ou, até mesmo, acordos extrajudiciais. REFERÊNCIAS BRASIL. Decreto-Lei n.º 9.295, de 27 de maio de 1946. Cria o Conselho Federal de Contabilidade e define as atribuições do contador e do guarda-livros. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/. Acesso em: 14 jul. 2024. BRASIL. Lei n.º 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/. Acesso em: 14 jul. 2024. BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 139, n. 8, p. 1-74, 11 jan. 2002. CFC – CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Norma Brasileira de Contabilidade – NBC TP 01 – 1 (R1), de 19 de março de 2020. Brasília: CFC, 2020. DINIZ, M. H. Curso de Direito Civil Brasileiro: responsabilidade civil. v. 7. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 1999. DOCUSIGN. Como calcular perdas e danos? Confira o passo a passo. Docusign, 16, jul. 2023. Disponível em: https://www.docusign.com/. Acesso em: 14 jul. 2024. TJDF – TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL. Dano emergente x lucros cessantes. c2017. Disponível em: https://www.tjdft.jus.br/. Acesso em: 14 jul. 2024. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del9295.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm https://www.docusign.com/pt-br/blog/como-calcular-perdas-e-danos https://www.tjdft.jus.br/institucional/imprensa/campanhas-e-produtos/direito-facil/edicao-semanal/dano-emergente-x-lucros-cessantes#:~:text=O%20dano%20emergente%20%C3%A9%20o WIDHOLZER, V. Juros: espécies e controvérsias. Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro, 2015. Disponível em: https://www.emerj.tjrj.jus.br/. Acesso em: 2 ago. 2024. https://www.emerj.tjrj.jus.br/paginas/trabalhos_conclusao/1semestre2015/pdf/VictorJosephWidhlozerVarandadosSantos.pdf TEMA DE APRENDIZAGEM PERÍCIA VEICULAR – INSPEÇÃO E IDENTIFICAÇÃO: INSPEÇÃO DE VEÍCULOS; IDENTIFICAÇÃO DE ADULTERAÇÕES André Gessi Rogal Wuicik AUTOR MINHAS METAS INICIE SUA JORNADA Estudante, você já parou para pensar sobre a responsabilidade que envolve o trabalho de um perito em uma perícia veicular? Muito mais do que um trabalho de rotina para examinar veículos automotores, esse é um trabalho muito importante que visa à segurança da população no trânsito, bem como a detecção de irregularidades e mesmo crimes graves decorrentes do uso de veículos adulterados. Em linhas gerais, a perícia veicular trata, principalmente, da avaliação detalhada de veículos para detectar adulterações, identificar irregularidades e garantir a Saber os fundamentos e métodos principais da perícia veicular.► Entender o significado do número de chassi.► Compreender a diferença entre peças originais e paralelas.► Entender a substituição de motores.► Identificar as principais formas de adulteração.► Conhecer os principais pontos de identificação em prováveis adulterações.► Identificar carros com perda total (PT) que continuam em circulação.► conformidade com as normas e leis vigentes, seja em âmbito público como em disputas judiciais privadas entre particulares. Esse processo pode ser dividido em duas partes principais: inspeção de veículos em vistorias externas e vistorias internas. A inspeção de veículos na parte externa visa buscar informações nos vidros, placas e documentos do carro, que trazem consigo uma série de informações de fábrica que visam garantir que os veículos estão em situação regular e com informações conferidas até mesmo em uma análise rápida por parte de um fiscal de trânsito, por exemplo. Já a identificação em vistorias internas é ainda mais detalhada na busca de possíveis adulterações, visando prevenir fraudes e crimes que, em geral, envolvem a adulteração do número de chassi e o número do motor. Não bastasse esses dois fatos serem irregulares, geralmente, fazem parte de uma rede de crimes ainda mais graves, como, por exemplo, ocultação de veículos que são objeto de furto e que são utilizados em assaltos e ações ainda mais violentas. Nesse sentido, a identificação de irregularidades serve para coibir não apenas um delito, mas uma série de outros que seriam decorrentes da utilização de um veículo adulterado. A atividade do perito é de extrema importância e responsabilidade social, uma vez que terá impacto direto na segurança do trânsito e na segurança pública como um todo, sendo uma área de estudo que exige, por parte do perito, técnica, atenção e obediência a procedimentos e detalhes específicos a fim de que sua função seja cumprida de maneira eficiente. PLAY NO CONHECIMENTO Em nosso podcast, trouxemos detalhes e informações sobre a diferença entre peças originais e peças paralelas de veículos. Por parte do perito veicular, entender a diferença é fundamental para conseguir apurar informações básicas sobre identificação e segurança e, principalmente, identificar peças falsificadas que, diferentemente das paralelas, configuram uma irregularidade. Também trouxemos o que a lei trata sobre o assunto e delimitamos quais peças podem ser substituídas em um veículo automotor. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://w.soundcloud.com/player/?url=https%3A//api.soundcloud.com/tracks/1961388015&color=%23ff5500&auto_play=false&hide_related=true&show_comments=false&show_user=false&show_reposts=false&show_teaser=false&sharing=false&show_artwork=false&show_playcount=false VAMOS RECORDAR Um dos grandes desafios para os peritos veiculares são os “carrinhos elétricos”, que, muitas vezes, são importados como brinquedos, sem emplacamento e numeração, e rodam de forma irregular nas vias brasileiras. Nesta reportagem, advogados tiram dúvidas sobre o que a legislação diz sobre esse tipo de veículo e sua circulação no Brasil, sendo um fato importantea ser notado pelos peritos veiculares como um todo: disponível aqui. DESENVOLVA SEU POTENCIAL VEÍCULOS: LEGISLAÇÃO E INSPEÇÃO Como ponto de partida para entender as perícias veiculares e possíveis adulterações e infrações às leis, é necessário entender o que é considerado um veículo propriamente dito. https://www.uol.com.br/carros/noticias/redacao/2023/06/07/carro-ou-brinquedo-influencer-viraliza-com-veiculo-que-nao-poderia-rodar.htm Ao contrário do que o senso comum pode apontar, a palavra “veículo” possui uma definição e delimitação técnica, não sendo uma palavra para se referir a qualquer ferramenta de locomoção. Essa definição é de suma importância, pois fugir do que está descrito nela e em suas devidas regulamentações sobre o que é permitido em cada categoria pode justamente ocasionar em um ato ilícito. Nesse sentido, no Brasil, "veículos" referem-se a diversos tipos de meios de transporte motorizados e não motorizados, que estão descritos no Artigo nº 96 do Código de Trânsito Brasileiro (Brasil, 1997): Os veículos classificam-se em: I – quanto à tração: a) automotor; b) (revogada); c) de propulsão humana; d) de tração animal; e) reboque ou semirreboque” Além da divisão pela classificação, os veículos também são divididos pela espécie, podendo ser veículos de passageiros, como automóvel, motocicleta, ônibus e micro- ônibus, bonde, ou mesmo bicicleta, ciclomotor, charrete etc. Existem também os veículos de carga, como motoneta, motocicleta, caminhonete, caminhão, carro de mão etc. Existirão também veículos na categoria misto, como camioneta, utilitários, bem como veículos de tração, de competição, de coleção e categoria especial. Há também a divisão por categoria, considerando veículos oficiais, de representação diplomática, particulares, de aluguel e de aprendizagem. As classificações sobre veículos existem justamente para delimitar as funcionalidades e o que a lei permite para cada classificação, uma vez que cada categoria tem regulamentações específicas quanto a registro, licenciamento, emplacamento, tributação e uso das vias públicas (Detran/PR, 2021). A atividade pericial nos veículos, por sua vez, poderá ser feita em âmbito público, quando o Estado busca fazer valer a legislação e garantir a segurança nas vias, bem como em conflitos entre particulares, em disputas cíveis. No caso da fiscalização pelo Estado, as vistorias feitas pelos agentes públicos têm a finalidade de averiguar as exigências da Legislação de Trânsito, na seguinte ordem: Código de Trânsito Brasileiro, outras Leis Federais, atos presidenciais, portarias do Denatran e resoluções do Contran, Leis Estaduais, além de portarias, informativos e ordens de serviço do Detran de cada estado. Nesse caso, a vistoria pode ser feita por servidores do Detran, Policiais Civis, Militares e Federais, agentes municipais de trânsito, despachantes de trânsito e emplacadores credenciados ao Detran e empresas jurídicas de Direito Público ou Privado habilitadas para tal função (Detran/PR, 2021). A vistoria veicular em disputas judiciais, nas chamadas perícias veiculares forenses, se embasará no Artigo 145 do Código de Processo Civil Brasileiro: “quando a prova do fato depender de conhecimento técnico ou científico, o juiz será assistido por perito, segundo o disposto no Artigo 421” (Brasil, 2015). A perícia em veículos automotores deve ser desenvolvida sob a responsabilidade exclusiva de engenheiros mecânicos legalmente habilitados pelos Conselhos Regionais de Engenharia e Agronomia (Crea), de acordo com a Lei Federal 5194, de 21/12/1966, resoluções do Confea e Lei Federal 12.378 de 31/12/ 2010, e nas diretrizes da Resolução nº 218, de 29/06/1973, Artigo 12. Elas podem ser judiciais, ou seja, determinadas pelo juízo, ou feitas por iniciativa dos próprios interessados. Gomes et al. (2021) discorrem sobre o laudo em disputas judiciais: O profissional nomeado deverá desenvolver um laudo técnico, apresentando ao juízo solicitante, em tempo hábil, suas conclusões. Esse documento deverá responder às suscitações elaboradas pelas partes do litígio processual, incluindo-se os anexos necessários para a elucidação dos pontos controvertidos. Nos termos do art. 473, inciso III, do CPC, o laudo pericial deverá apresentar a indicação do método utilizado para o exame efetuada, esclarecendo e demonstrando ser o procedimento predominantemente aceito pelos especialistas da área do conhecimento do qual se originou. Gomes Et Al., 2021, P. 4 A perícia veicular é de extrema importância em diversas situações e, portanto, desempenha um papel crucial na segurança, legalidade, e sustentabilidade do uso de veículos, além de fornecer informações essenciais para diversos processos administrativos, judiciais e de mercado. EU INDICO O Código Brasileiro de Trânsito é a principal base que regulamenta o trânsito de veículos em todo o país, sendo sua leitura e consulta fundamentais para a atividade de um perito veicular, elucidando os principais questionamentos sobre o tema em muitos casos práticos. INSPEÇÃO VEICULAR EXTERNA A inspeção veicular externa é uma avaliação visual e técnica do estado de um veículo, focando em sua aparência exterior e componentes visíveis , sendo uma inspeção fundamental para assegurar a segurança e a conformidade com as regulamentações de trânsito, seja por meio de situações mais fáceis de identificar, bem como em pontos estratégicos, que exigem maior atenção por parte do perito. O ponto de partida para a inspeção veicular externa começa pela placa veicular. A Resolução 45/1998 Contran estabelece o Sistema de Placas de Identificação de Veículos, disciplinados pelos Arts. 115 e 221 do CTB, em que ficaram estabelecidas placas com 3 (três) letras e 4 (quatro) números, formando a sequência alfanumérica. No entanto, atualmente, a Resolução 780/2019 Contran estabelece o modelo de placa Mercosul com 4 (quatro) letras e 3 (três) números, como, por exemplo: “BRA1D23” (Detran/PR, 2021). As placas veiculares do Mercosul foram introduzidas para unificar o padrão de identificação de veículos entre os países membros do Mercosul, que inclui Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela, visando à redução de fraudes e integração entre os países. As antigas placas de identificação nacionais possuíam como principais sistemas de segurança o lacre numerado e a tarja de identificação, sendo que, no modelo Mercosul, esses mecanismos passaram a ser substituídos pelo QR Code no canto superior esquerdo, logo abaixo da logo do Mercosul. Mecanismos e aplicativos de leitura do código são utilizados para obter informações sobre o veículos e possíveis fraudes, sendo o principal elemento a ser conferido em uma vistoria veicular (Detran/PR, 2021). Figura 1 – Padrão de placas Mercosul em carros e motos Fonte: https://seeklogo.com/. Acesso em: 26 ago. 2024. Descrição da imagem: a imagem apresenta duas placas, uma na parte superior, de formato retangular. Nela, está escrito "Brasil", https://seeklogo.com/vector-logo/447871/placa-mercosul-brasil#google_vignette centralizado na parte superior. No canto esquerdo, está a bandeira do Brasil. Abaixo, estão as letras "CSB19O7". Abaixo, do lado esquerdo, está escrito BR. A segunda placa está abaixo desta, em formato quadrado, e tem as mesmas informações da anterior. Fim da descrição. A inspeção dos vidros também é outro aspecto importante na vistoria externa, sendo que a Resolução 24/89 do Contran, no Art. 2º §1, regulamenta que a codificação VIS, que contém o número de série do veículo, seja gravada em um dos para-brisas e em um dos vidros traseiros, quando existentes, e pelo menos dois vidros de cada lado do veículo, quando existentes, excetuados os quebra-ventos. Nesse sentido, a numeração auxilia na detecção de fraudes e veículos adulterados, sendo que a ausência do número do chassi no vidro é uma infração grave, estando sujeita a multa e retenção do veículo (Gomes et al., 2021). Por fim, o documento do veículo(CRV/CRLV) traz informações essenciais para a vistoria e pode servir para checar as informações, trazendo dados como placa, espécie e tipo, modelo, marca e cor do veículo. A diferença entre o CRV e o CRLV é que este último é de porte obrigatório, já o CRV é o documento de transferência e só deve ser utilizado quando o veículo for vendido ou sofrer alguma modificação relevante (Zul, 2024). Vale ressaltar que, atualmente, ambos os documentos são fornecidos pelo formato digital no Detran de cada estado, mas podem continuar sendo impressos caso assim queira o proprietário do veículo. INSPEÇÃO VEICULAR INTERNA A inspeção veicular interna é uma avaliação detalhada dos componentes e sistemas internos de um veículo para garantir a confiabilidade de informações adicionais à vistoria externa ou de informações que podem ser encontradas externamente, mas precisam de validação para auferir a autenticidade do veículo e ausência de possíveis fraudes. Nesse sentido, é importante ressaltar a numeração de chassi. A numeração de chassi, também conhecida como VIN (Vehicle Identification Number, em inglês), é um código único de identificação atribuído a cada veículo fabricado, colocada na peça estrutural chamada monobloco nos carros, sendo que nem todos possuem a estrutura de carroceria e chassi. Acabou ganhando esse nome e se tornando expressão de uso popular. Esse número é essencial para a identificação precisa e legal de um veículo, regulamentado pela norma 6066 – NBR 3-6066 de 1989: O número de identificação do veículo (VIN) é composto por 17 dígitos divididos em três seções, sendo: I. a primeira, o identificador internacional do fabricante (WMI) Word Manufacturer Identifier; II. a segunda, a seção descritiva do veículo (VDS) Vehicle Descriptor Section; e III. a terceira, a seção indicadora do veículo (VIS) Vehicle Indicator Section. ABNT, 2002, P. 3 Sobre as mencionadas sessões do chassi, explica-se que os seus três primeiros dígitos representam a sessão de identificação de origem e fabricação do veículo, a segunda sessão, do 4º ao 9º dígito, corresponde às características gerais do veículo, enquanto os dígitos restantes correspondem à terceira sessão, que traz informações sobre o veículo em si, distinguindo-o dos mesmos de modelo igual, por exemplo (Detran/PR, 2021). Em vistorias veiculares, o chassi pode ser localizado em: A numeração de chassi é uma ferramenta para a identificação e rastreamento de veículos, desempenhando um papel importante na segurança, conformidade e manutenção de registros veiculares. Nesse sentido, o número pode ser utilizado para consulta em base de dados de seguradoras, órgãos de trânsito e fabricantes, por exemplo (Gomes et al., 2021). Nas últimas décadas, a numeração do motor passou a funcionar como outro elemento importante de segurança para veículos. Em 2006, por meio da regulamentação da Resolução Contran nº 166/1996, o número do motor passou a contar como elemento essencial à identidade do veículo . gravação no para-brisa lado direito inferior;● gravação no vidro traseiro, lado direito inferior;● etiqueta na coluna da porta, lado direito;● etiqueta no assoalho, sob o assento do condutor;● etiqueta no compartimento do motor;● gravação na longarina do chassi, lado direito, na aba inferior externa;● gravação nos vidros laterais, lado direito e lado esquerdo.● Em 26 de junho de 2008, foi publicada a Resolução Contran nº 282/08, que estabeleceu critérios ainda mais rígidos para a vistoria e regularização dos motores, trazendo a obrigatoriedade da verificação da compatibilidade do número do motor com o número cadastrado na base nacional de dados, base estadual e documento CRV apresentado no momento da vistoria (Detran/PR, 2021). A numeração do motor é para a identificação e rastreamento de motores, desempenhando um papel importante na segurança, conformidade e manutenção de registros veiculares, servindo, por exemplo, para identificar motores clonados ou substituídos ilegalmente, verificar a originalidade do motor e a conformidade com as exigências de fábrica, bem como uso de serviços on-line e bases de dados de fabricantes e departamentos de trânsito para verificar o histórico do motor (Detran/PR, 2021). Todos esses dados e numerações obtidas por meio das análises veiculares internas e externas são primordiais para detectar fraudes, sendo que qualquer discrepância em numerações de chassi ou motores podem denunciar o uso de veículos fruto de furtos, roubos e que podem ser utilizados para a prática de novos crimes. Dessa forma, criou- se na legislação brasileira diversas formas e padronizações que visam à identificação fácil por parte do perito veicular, não necessitando de grandes ferramentas para fazê- lo, mas sendo possível identificar fraudes com uma análise detida de informações pontuais e que devem ser de fácil visibilidade para uma vistoria, sendo que a própria dificultação em ter acesso a essas informações configura crime. Todas essas medidas visam frear o alto número de crimes envolvendo veículos que ainda ocorrem no Brasil. Em 2023, foram registrados 133.838 roubos e 220. 904 furtos de veículos em todo o país, conforme o Anuário de Segurança Pública de 2024. Nesse sentido, se formos considerar tanto os furtos quanto os roubos, o país registra mais de mil ocorrências por dia, instaurando um problema crônico na segurança pública da sociedade (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2024). O trabalho dos peritos veiculares, portanto, representa uma forma de frear esses números, atuando de forma rigorosa em fiscalizações, impedindo fraudes que encobrem crimes graves como os citados. A análise detalhada e a inspeção rigorosa de veículos, tanto interna quanto externamente, são fundamentais para garantir a conformidade com as regulamentações vigentes e proteger a sociedade contra fraudes e crimes associados a veículos. A legislação brasileira, ao estabelecer normas claras e procedimentos de verificação, capacita os profissionais a identificarem irregularidades com precisão, contribuindo significativamente para a redução de crimes como furtos e roubos de veículos. O trabalho dos peritos, ao aplicar essas normas com rigor, não apenas assegura a legalidade, mas também reforça a segurança pública, desempenhando um papel crucial na prevenção e resolução de crimes. Assim, a inspeção veicular torna-se um elemento essencial na proteção da sociedade e na promoção da justiça. EM FOCO Acesse seu ambiente virtual de aprendizagem e confira a aula referente a este tema. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. NOVOS DESAFIOS No ambiente profissional, o perito veicular deverá estar capacitado para interpretar as informações coletadas durante as vistorias externas e internas, com o objetivo de identificar possíveis irregularidades que possam indicar situações muito mais complexas do que um simples descuido ou problema pontual por parte do proprietário do veículo. https://player.vimeo.com/video/1003338687?h=d1e860834f Por exemplo, um veículo com numeração ausente nos vidros pode levantar suspeitas. Em alguns casos, pode tratar-se de um condutor de boa-fé que, após substituir um vidro quebrado, não se atentou para a necessidade de regularização. No entanto, a situação pode ser muito mais grave, revelando-se, em uma vistoria interna, que o veículo possui peças adulteradas, motor irregular ou até que se trata de um carro considerado como “perda total” circulando ilegalmente. Essas análises detalhadas podem, ainda, desvendar crimes mais graves, como redes de furto de veículos, roubo de peças originais, desmanches ilegais ou veículos adulterados utilizados em crimes maiores, como assaltos e sequestros. Nesse contexto, a atuação do perito veicular é crucial, não apenas para resolver casos isolados, mas, também, para interromper cadeias de crimes, fornecendo informações essenciaispara investigações e decisões judiciais. Essa conexão entre a teoria aprendida e a prática aplicada no mercado de trabalho é fundamental. A formação acadêmica dos estudantes deve preparar futuros profissionais para enfrentar essas realidades, utilizando o conhecimento adquirido para atuar de forma eficaz e ética no mercado, contribuindo para a segurança e a justiça em nossa sociedade. REFERÊNCIAS ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6066: Veículos rodoviários automotores – Número de identificação de veículos (VIN): Referências. Rio de Janeiro: ABNT, 2002. BRASIL. Código de Trânsito Brasileiro. Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/. Acesso em: 20 jul. 2024. BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Institui o Código de Processo Civil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 17 mar. 2015. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/. Acesso em: 20 jul. 2024. DETRAN/PR. Identificação veicular. 4. ed. Curitiba: Escola Pública de Trânsito, 2021. FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2024. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/. Acesso em: 31 jul. 2024. GOMES, P. H. et al. Metodologia para Perícias em Veículos. [S. l.: s. n.], 2021. Disponível em: https://ibape-nacional.com.br/. Acesso em: 20 jul. 2024. ZUL. Qual a diferença entre CRLV e CRV? c2024. Disponível em: https://www.zuldigital.com.br/. Acesso em: 20 jul. 2024. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9503compilado.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l13105.htm https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2024/07/anuario-2024.pdf https://ibape-nacional.com.br/biblioteca/wp-content/uploads/2021/11/60-METODOLODIA-PARA-PER%C3%8DCIAS-EM-VE%C3%8DCULOS.pdf https://www.zuldigital.com.br/blog/diferenca-crlv-crv/#:~:text=A%20principal%20diferen%C3%A7a%20entre%20eles TEMA DE APRENDIZAGEM ANÁLISE E RECONSTITUIÇÃO DE ACIDENTES: ANÁLISE DE ACIDENTES DE TRÂNSITO; MÉTODOS DE RECONSTRUÇÃO DE ACIDENTES André Gessi Rogal Wuicik AUTOR MINHAS METAS INICIE SUA JORNADA Estudante, em seu dia a dia de trabalho, saber analisar e conhecer os métodos para a reconstituição de acidentes de trânsito constitui processo essencial para entender as causas e dinâmicas dos acidentes, sendo uma das principais responsabilidades do perito dentro do contexto veicular e, até mesmo, forense. Nesse sentido, o seu trabalho também terá fundamental importância no momento de identificar responsabilidades e propor medidas de prevenção, sabendo identificar as causas de problemas decorrentes de acidentes e produzindo conhecimento para que o Compreender a definição de trânsito.► Entender o que são acidentes de trânsito.► Compreender as principais causas de acidentes no Brasil.► Conhecer os tipos mais comuns de acidentes de trânsito.► Entender os tipos de perícia veicular.► Compreender os elementos da perícia veicular.► Analisar as informações necessárias para a perícia veicular.► trânsito como um todo se torne um ambiente mais seguro. Na prática, o trabalho do perito será de suma importância na coleta de dados, no momento de obter informações sobre o local do acidente, testemunhas e registros como fotos, vídeos e dados dos veículos e agentes envolvidos. Da mesma forma, o perito atua na reconstrução da dinâmica do acidente, determinando, a partir dos dados coletados, a sequência de eventos que levaram ao acidente, obtendo informações como velocidades, trajetórias etc. Por fim, o perito é responsável por identificar as causas, ponderando questões como condições da via, falhas mecânicas e dos condutores, avaliando estatísticas e padrões para identificar comportamentos de risco e sugerir intervenções em políticas públicas na segurança de trânsito. Como visto, é um trabalho complexo e que possui grande relevância para o contexto social, que atua tanto na base da pirâmide, em um cenário isolado de acidentes específicos, como no cenário amplo, levantando dados que podem auxiliar na promoção de medidas que irão impactar toda a coletividade. Todos esses aspectos serão explicados a partir de agora, ao longo deste tema de aprendizagem, comentando especialmente sobre os tipos de acidentes de trânsito e formas de análises de acidentes e reconstituição dos cenários, sendo estas a base do trabalho dos peritos em acidentes veiculares. PLAY NO CONHECIMENTO Em nosso podcast, trouxemos algumas dicas de segurança aplicáveis para o dia a dia dos motoristas, que não deixam de ser úteis também para a perícia, afinal, os acidentes costumam ocorrer justamente pelo não cumprimento dessas recomendações, que ajudam também o perito a entender a dinâmica dos principais acidentes de trânsito. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://w.soundcloud.com/player/?url=https%3A//api.soundcloud.com/tracks/1961388275&color=%23ff5500&auto_play=false&hide_related=true&show_comments=false&show_user=false&show_reposts=false&show_teaser=false&sharing=false&show_artwork=false&show_playcount=false VAMOS RECORDAR A reportagem a seguir mostra um preocupante panorama sobre os acidentes de trânsito no Brasil: o país está observando um número crescente de mortes no trânsito, enquanto não cumpre a meta global de redução de acidentes. Essa reportagem é importante para que os peritos entendam o cenário de dificuldade que o país tem em seu trânsito e como o seu trabalho poderá colaborar para sanar esse problema de política pública no Brasil. Acesse aqui. DESENVOLVA SEU POTENCIAL TRÂNSITO E ACIDENTES DE TRÂNSITO Começamos este tema buscando entender primeiramente qual é a conceituação de trânsito antes mesmo da própria concepção de acidentes de trânsito, a fim de compreender quais eventos se enquadram dentro desta categoria, bem como compreender de forma técnica e crítica a forma com que os autores irão tratar o tema. https://www.brasildefato.com.br/2023/08/03/mortes-no-transito-aumentam-e-brasil-nao-cumpre-meta-global-de-reducao-de-acidentes Primeiramente, o Código Brasileiro de Trânsito (CTB) – Lei n. 9.503, de 23 de setembro de 1997 –, definiu o trânsito como “a utilização das vias por pessoas, veículos e animais, isolados ou em grupos, conduzidos ou não, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga e descarga” (Brasil, 1997, on-line). Já dentro da bibliografia especializada de estudiosos do tema, como Rozestraten (1988, p. 4), o trânsito é “o conjunto de deslocamentos de pessoas e veículos nas vias públicas, dentro de um sistema convencional de normas, que tem por fim assegurar a integridade de seus participantes”, pontua. Dessa forma, passamos a entender o trânsito como o movimento de veículos, pessoas e animais em vias públicas, como ruas, avenidas, rodovias e estradas, abrangendo a circulação e interação entre carros, motos, bicicletas, pedestres e outros meios de transporte, regulado por leis, sinais e infraestrutura. Como visto, o trânsito envolve diversos agentes, e não apenas os carros e veículos automotores. Nesse sentido, podemos entender que os acidentes de trânsito também possuem essa complexidade, não se resumindo aos choques entre veículos e falhas técnicas, mas possuindo forte influência do comportamento humano, como defendem os autores, ao conceituar o que são acidentes de trânsito: Todavia, considerando que trânsito envolve pessoas e seus comportamentos, suas decisões, seus valores, seus princípios, suas personalidades e tudo mais afeto aos seres humanos, não podemos nos contentar com uma definição frugal de acidente como sendo algo casual ou fortuito, até porque, quando assim procedemos, deixamos de considerar as pessoas como elementos ativos no processo. Bem; Perovano; Machado, 2019, P. 24 Sendo assim, define-se acidente de trânsito como os eventos ocorridos entre veículos e pessoas ou animais,durante a utilização das vias públicas, onde podem existir a ocorrência de fatos naturais, associados entre si ou com a ação humana, ou mesmo omissão dos agentes, reforçando a responsabilidade dos envolvidos no trânsito, que ocasionam em dano ao patrimônio móvel ou imóvel, lesão ou morte. PRINCIPAIS CAUSAS E TIPOS DE ACIDENTES DE TRÂNSITO O Brasil possui um preocupante cenário no que diz respeito aos acidentes de trânsito , possuindo números expressivos no que se refere ao número de acidentes, especialmente os que envolvem falha humana e responsabilidade direta dos condutores, como visto na conceituação do tema anterior. Dados da Polícia Rodoviária Federal sobre as principais causas de acidente no ano de 2023 apontam para as seguintes ocorrências (Azevedo; 2023): 1. Reação tardia ou ineficiente do condutor. 2. Ausência de reação do condutor. 3. Acessar a via sem observar a presença dos outros veículos. 4. Condutor deixou de manter distância do veículo da frente. 5. Velocidade incompatível. 6. Manobra de mudança de faixa. 7. Ingestão de álcool pelo condutor. 8. Demais falhas mecânicas ou elétricas. 9. Transitar na contramão. 10. Condutor dormindo. O que podemos observar nessas ocorrências é que a regra que se mostra é que os acidentes ocorrem principalmente pelas más condutas dos motoristas, e não por falhas técnicas. Nesse sentido, as políticas públicas de segurança no trânsito devem avançar, principalmente com a ideia de proporcionar maior educação no trânsito e, no que diz respeito ao trabalho do perito em acidentes, identificar as causas dos acidentes levando em consideração o comportamento dos condutores dentro da realidade brasileira. É importante, portanto, entender quais são os principais acidentes que ocorrem dentro dessas ocorrências, que serão justamente o objeto de estudo do perito veicular em suas análises técnicas: ATROPELAMENTO DE PESSOA OU ANIMAL Atropelamento refere-se a um incidente em que um veículo colide com uma pessoa ou um animal, causando lesões ou morte, sendo muitas vezes grave e envolvendo várias implicações legais, sociais e de saúde pública. ABALROAMENTO LATERAL O abalroamento lateral é um tipo de colisão entre veículos em que um veículo atinge a lateral de outro, podendo ocorrer em diferentes situações de trânsito e, dependendo da velocidade e do ângulo de impacto, pode resultar em danos significativos aos veículos e lesões graves para os ocupantes. ABALROAMENTO TRANSVERSAL O abalroamento transversal, também conhecido como colisão em "T" ou impacto lateral, é um tipo de acidente em que a frente de um veículo atinge a lateral de outro, formando um ângulo perpendicular ou próximo disso. Esse tipo de colisão é particularmente perigoso, pois a lateral dos veículos geralmente oferece menos proteção em comparação à frente ou à traseira. ACIDENTE COMPLEXO Acidente que ocorre quando há uma sucessão de acidentes em sequência, como, por exemplo, um abalroamento transversal seguido de um tombamento. COLISÃO TRASEIRA Acidente de trânsito em que um veículo atinge a parte traseira do veículo à sua frente, que pode variar de um pequeno choque a impactos mais graves, dependendo da velocidade dos veículos envolvidos e das condições no momento do acidente. COLISÃO FRONTAL A colisão frontal é um dos tipos mais perigosos de acidentes de trânsito, ocorrendo quando dois veículos colidem diretamente de frente. Devido à alta energia envolvida, especialmente em colisões de alta velocidade, os danos materiais e as lesões pessoais tendem a ser graves ou fatais. CAPOTAMENTO Acidente em que um veículo vira sobre seu próprio eixo, rolando lateralmente ou longitudinalmente até parar, sendo particularmente perigoso devido à alta probabilidade de lesões graves ou fatais para os ocupantes, além do potencial para causar múltiplos impactos durante o processo. ENGAVETAMENTO O engavetamento é um tipo de acidente de trânsito em que três ou mais veículos colidem em sequência, formando uma "pilha" ou "fileira" de veículos danificados (Bem; Perovano; Machado, 2019). Além desses acidentes, podemos pontuar outros como o incêndio, queda de passageiro, queda de objeto, queda de moto, queda de bicicleta e o tombamento, isto é, quando se perde a estabilidade, caindo de lado ou de cabeça para baixo, sem necessariamente completar uma rotação completa, como no capotamento. ANÁLISE DE ACIDENTES DE TRÂNSITO Ao se falar em análises e reconstituição de acidentes de trânsito , existem alguns pontos que devem ser objeto de muita atenção por parte dos peritos, já que configuram elementos essenciais para a perícia veicular. A análise e reconstituição de acidentes de trânsito são processos que buscam, principalmente, entender as causas dos acidentes, avaliar as responsabilidades e fornecer informações, como a coleta e interpretação de dados para recriar as circunstâncias do acidente e identificar fatores contribuintes. Nesse sentido, destaca-se que os principais tipos de perícias em acidentes de trânsito são o exame pericial em local de acidente de trânsito, o exame pericial de levantamento em local de acidente de trânsito, o exame pericial complementar em local de acidente de trânsito, o exame pericial em veículos participantes de acidente de trânsito, o exame pericial mecânico em veículos participantes de acidente de trânsito, o exame pericial em tacógrafos e o exame pericial em veículos supostamente envolvidos em acidente de trânsito (Negrini Neto; Kleinubing, 2006). Sobre cada um deles, podemos enumerar: EXAME PERICIAL EM LOCAL DE ACIDENTE DE TRÂNSITO Realizado no local com vítima de lesão ou morte. EXAME PERICIAL DE LEVANTAMENTO EM LOCAL DE ACIDENTE DE TRÂNSITO Realizado buscando constatar informações iniciais no local com vítima de lesão ou morte. EXAME PERICIAL COMPLEMENTAR EM LOCAL DE ACIDENTE DE TRÂNSITO Visa a informações complementares no local do sinistro. EXAME PERICIAL MECÂNICO EM VEÍCULOS PARTICIPANTES DE ACIDENTE DE TRÂNSITO O trabalho do perito consiste, portanto, principalmente em isolar o local do acidente de forma adequada, colher evidências e produzir seu laudo, mas, antes disso, as autoridades policiais locais devem tomar as providências legais no local do acidente para que a situação ocorra dentro do que prevê o processo legal, bem como solicitar o atendimento médico. Sobre isso, explica Kenya Regina Marques Campos: Antes de o Perito Criminal chegar ao local, colher os vestígios e produzir o seu laudo, uma primeira anotação já é produzida: o Registro de Evento de Defesa Social, o REDS, feito pela Polícia Militar. [...] No atendimento no local, o policial militar constará no documento já mencionado o seu serviço prestado e anotações referentes aos envolvidos, aos bens patrimoniais e ocorrências de Inspeção nos veículos envolvendo acidentes com vítimas de lesão ou morte. EXAME PERICIAL EM TACÓGRAFOS Análise em aparelhos, disco-diagrama de tacógrafos e instalações do veículo. EXAME PERICIAL EM VEÍCULOS SUPOSTAMENTE ENVOLVIDOS EM ACIDENTE DE TRÂNSITO Realizado em veículos suspeitos de envolvimento no acidente de forma direta ou indireta. relevância. É de sua competência também preservar e isolar o local, como disposto no inciso I do artigo 6º e artigo 169 do Código de Processo Penal. Campos, 2015, P. 225 Na produção das perícias, existirão exames essenciais e indispensáveis para a produção de laudos em acidentes de trânsito , considerando as etapas antes mencionadas nos tipos de perícia destacados por Negrini Neto e Kleinubing (2006). Primeiramente, destaca-se a necessidade de isolar o local do acidente de forma adequada, ou seja, isolando o tráfego no local e sinalizando de forma clara a equipe que prestará o atendimento no entorno do acidente. Na fase de constatação de um local de acidente, devem ser observadas questões como identificação dos veículos, observando detalhes como placas e número de chassi; caracterização dos veículos, como modelo e cor; vestígios presentesou mesmo para algumas drogas como o cloridrato de cocaína (Martinis et al., 2018, p. 61). A absorção pelo trato gastrointestinal, também chamada de absorção oral, é a observada pelos líquidos e alimentos, e está presente em muitas das situações de tentativa de suicídio, na ingestão de drogas ou de medicamentos por indivíduos dependentes. Importante ressaltar, contudo, que nem sempre a absorção pela via oral se dará de maneira voluntária, podendo ocorrer também de forma acidental, com a ingestão de água ou alimentos contaminados. INDICAÇÃO DE FILME ERIN BROCKOVICH – UMA MULHER DE TALENTO O filme Erin Brockovich – uma mulher de talento – é baseado em fatos reais e conta a história de uma mãe de três filhos que começa a trabalhar em um escritório de advocacia. Em um de seus casos, Erin descobre que a contaminação tóxica de água por uma empresa está espalhando doenças entre os moradores de uma pequena cidade localizada na Califórnia. A história narrada no filme exemplifica como se dá a absorção de substâncias tóxicas pela via gastrointestinal de maneira não intencional. Outra gama bastante relevante de xenobióticos é absorvida pelo corpo humano através dos pulmões. Trata-se não apenas de gases e vapores, mas também de aerossóis e outros materiais particulados que possuem especial relevância em relação ao perigo que podem acarretar ao nosso organismo (Oga et al., 2014, p. 30). Isso porque o sistema respiratório é, de todos, o que possui a maior área no corpo humano, favorecendo a distribuição da substância lesiva (Ribas, 2020, p. 11.). A pele, por sua vez, é uma barreira bastante relevante no momento de impedir com que boa parte das substâncias tóxicas entre em contato com a corrente sanguínea. Contudo, alguns toxicantes ainda são capazes de penetrá-la. A absorção pela via dérmica costuma ocorrer especialmente quando há aumento da hidratação da pele, aumentando a permeabilidade e favorecendo a absorção, ou quando a temperatura do ambiente está elevada, com o consequente aumento do fluxo sanguíneo capilar e aumento da absorção cutânea (Martinis et al., 2018, p. 59-60). Sobre o procedimento de absorção, explica Ribas (2020, p. 14): [...] para haver a absorção, o tóxico tem que ter como característica a lipossolubilidade. Ou seja, quanto mais lipossolúvel, melhor é a sua absorção. E, claro, o tamanho da molécula também influi, pois moléculas grandes também são impedidas ou têm uma dificuldade maior de absorção. Um outro caráter de grande importância da absorção é o pH, tanto o pH da molécula quanto do estômago/intestino. Essa importância se deve ao fato de que pré-requisito para absorção é a lipossolubilidade, ou seja, quanto mais lipossolúvel for ou estiver a molécula, maior e mais facilmente se dá sua absorção. Em termos de estrutura química, dizemos que, se ela estiver em uma fase ionizada, ela não conseguirá ser absorvida devido à alta hidrossolubilidade, diferente de quando ela está na fase não ionizada (também chamada de molecular), que condiciona a molécula a um estadiamento lipossolúvel e, portanto, a uma aptidão para a absorção. É possível perceber, portanto, que os xenobióticos adentram o organismo humano não por vias especiais, mas pelos mesmos processos utilizados por nutrientes. Uma vez dentro da corrente sanguínea, a absorção estará completa, dando início ao processo de distribuição. DISTRIBUIÇÃO Na distribuição, a substância tóxica que já foi absorvida irá movimentar-se pelo corpo humano, deixando a área de absorção em direção às demais partes do organismo. Trata-se do movimento de deslocamento do xenobiótico que costuma ocorrer pelo sangue ou pela linfa. Nesse contexto, por ter sua velocidade relacionada com a irrigação, o deslocamento tende a ocorrer mais rapidamente em tecidos como coração, cérebro e fígado (que recebem maior circulação de fluidos) e mais lentamente em órgãos como ossos, unhas ou dentes. Ainda, sobre o processo de distribuição no corpo humano, narram Martinis et al. (2018, p. 60): A maioria dos compostos pode ser transportada dos seus locais de absorção para os de ação ou eliminação através da corrente circulatória. Alguns xenobióticos estão somente dissolvidos na água do plasma, porém outros podem estar associados aos componentes do plasma, como albumina, globulinas, lipoproteínas e eritrócitos. Uma vez que a fração não ligada do xenobiótico é que pode produzir efeito, a ligação aos componentes do sangue altera a distribuição. Uma vez que somente a fração livre pode ser distribuída, e lembrando que ocorre equilíbrio dinâmico entre as formas livre e ligada, ressalta-se que o complexo formado entre xenobiótico e proteínas funciona como reservatório dinâmico, uma vez que, se o composto livre se distribui ou é eliminado, mais composto é liberado. Observa-se, portanto, que a distribuição acontecerá por meio de proteínas presentes no plasma, podendo ter como destino sítios de ação nos quais o efeito tóxico será produzido, sítios de armazenamento (como fígado, rins, ossos, cérebro), ou órgãos nos quais ocorrerá a etapa seguinte de metabolização ou biotransformação. Figura 2 – Distribuição do xenobiótico Fonte: adaptada de Oga et al. (2014). Descrição da imagem: organograma em que constam no topo, à esquerda, os dizeres “Introdução do xenobiótico na circulação” e, após, uma flecha para baixo, um quadrado dividido em três colunas. A primeira coluna indica, na primeira linha e abaixo da flecha, “Plasma xenobiótico ligado às proteínas” e possui abaixo uma flecha em dois sentidos ligando tal dizer a “Xenobiótico livre”. Abaixo, consta o dizer “eliminação” e, após, nova flecha indicando para baixo, a expressão “Fora do organismo”. A segunda coluna possui, na primeira linha, o dizer “Líquido interstical xenobiótico ligado às proteínas”, e possui abaixo uma flecha em dois sentidos ligando tal dizer a “Xenobiótico livre”. A terceira coluna possui, na primeira linha, a expressão “Células-alvo do xenobiótico ligado às proteínas” ligada em uma flecha, em ambos os sentidos, a “Xenobiótico livre” e, depois de mais uma flecha em ambos os sentidos, a expressão “Complexo xenobiótico-alvo”. Já fora do quadrado principal, a expressão “Complexo xenobiótico-alvo” é ligada por uma flecha apontando para baixo a um quadro que diz “Intensidade do efeito tóxico”. Fim da descrição. BIOTRANSFORMAÇÃO A biotransformação, também chamada de metabolização, refere-se às alterações químicas suportadas pelo xenobiótico dentro do organismo (Klaassen; Watkins III, 2012, p. 72). As mesmas características físico-químicas que facilitam que um xenobiótico seja bem absorvido (como sua lipofilicidade), são as responsáveis por dificultar sua eliminação. Dessa forma, para que a substância tóxica seja eliminada de nosso corpo, é necessário que ela seja modificada quimicamente, tornando-a hidrossolúvel e facilitando sua excreção (Martinis et al., 2018, p. 62). Esse processo metabólico facilita a redução do desencadeamento de uma resposta tóxica ao organismo, a redução do tempo do agente nocivo no corpo humano e a diminuição da quantidade da substância tóxica no tecido (Martinis et al., 2018, p. 62). APROFUNDANDO Não necessariamente a biotransformação suportada pelo xenobiótico irá transformá-lo em um composto menos tóxico, podendo, em alguns casos, inclusive, aumentar sua reatividade. Como exemplo, Klaassen e Watkins III (2012, p. 193) citam o caso do tetracloreto de carbono (CCl4) que, quando metabolizado pelo citocromo P450, é convertido em um radical livre conhecido como triclorometila, que é altamente reativo e pode causar danos oxidativos. O processo suportado será chamado, então, de bioativação. A metabolização costuma envolver, principalmente, o fígado como órgão responsável pelas modificações químicas necessárias ao xenobiótico tóxico, contudo, outros órgãos, como intestino, rins, pulmões, testículos e placentas também podem auxiliar no processo de biotransformação. Para que a biotransformaçãonos veículos; operacionalidade do sistema de sinalização; irregularidades em lâmpadas e faróis, bem como em para-brisa, pneus e demais assessórios. Sobre as vítimas, devem ser observadas questões como sexo, características físicas, idade presumível; posicionamento das vítimas, descrevendo se estão deitadas em decúbito dorsal, ventral, lateral esquerdo ou direito, sentadas ou em suspensão; posicionamento dos membros inferiores e superiores: distendidos ou fletidos, entreabertos ou unidos; estado de conservação dos cadáveres, isto é, flacidez ou rigidez muscular; descrição e localização das lesões; e existência de secreção na boca, nas narinas, nos ouvidos ou a partir de ferimentos. INDICAÇÃO DE LIVRO Já para a conclusão do exame pericial, são essenciais detalhes como (Negrini Neto; Kleinubing, 2006, p. 83): SOBRE O LIVRO: O livro Veículos Automotores: identificação, inspeção, vistoria, avaliação, perícia e recall é uma boa leitura complementar para aqueles que possuem interesse em ampliar seu conhecimento e aprofundar-se em minúcias sobre a perícia veicular, com dicas práticas para profissionais do setor. Determinação das interações veiculares, devendo ser representadas em figuras esquemáticas. Determinação do sítio da colisão. Determinação dos posicionamentos dinâmicos (trajetórias) dos veículos nas fases de pré-colisão, colisão e pós-colisão. Análise das condições de funcionamento dos sistemas mecânicos de freio, direção e suspensão, além de outros sistemas mecânicos de interesse. Análise do estado de ligado/desligado das lâmpadas dos faróis na iminência da fratura. Análise da compatibilidade das avarias. Análise qualitativa e quantitativa da velocidade dos veículos. Por fim, na fase de avaliação do exame pericial , são feitos testes estáticos e dinâmicos de funcionamento dos sistemas de freio, direção e suspensão, além de outros sistemas mecânicos de correlatos. Também são feitas análises metalográficas, macrográficas e/ou micrográficas e das fraturas em componentes fraturados com potencial para causar o evento, além de maior análise quantitativa de velocidade. Vale destacar que, com base nos dados coletados, também é possível que especialistas utilizem softwares de simulação ou façam uma recriação física no local do acidente para entender melhor a dinâmica do evento. A análise pericial de acidentes de trânsito é um processo detalhado e multifacetado que vai além da simples observação dos danos visíveis . Envolve a aplicação de técnicas avançadas e o uso de tecnologia para reconstruir eventos, entender as causas e atribuir responsabilidades. Essa investigação minuciosa não apenas esclarece os fatores que levaram ao acidente, mas também contribui para a criação de políticas públicas mais eficazes, aprimora a segurança no trânsito e promove a conscientização entre os motoristas. O papel do perito é essencial, tanto na prevenção de novos acidentes quanto na busca por justiça e responsabilização no contexto do trânsito brasileiro. Análise da evitabilidade do acidente. Análises metalográficas, macrográficas e/ou micrográficas e das fraturas em componentes veiculares fraturados com potencial para causar o evento. Análise de instalações, aparelhos e discos diagrama de tacógrafo. Análise sistêmica das causas técnicas do evento. EM FOCO Acesse seu ambiente virtual de aprendizagem e confira a aula referente a este tema. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. NOVOS DESAFIOS Como visto até aqui, a perícia veicular é um trabalho que exige muito preparo por parte do profissional , uma vez que ele será responsável por um processo utilizado para entender como um acidente ocorreu, principalmente em casos de trânsito ou situações que envolvam danos materiais ou físicos, sendo uma prática importante para ajudar a determinar as causas e responsabilidades do evento. https://player.vimeo.com/video/1003338710?h=c2956f93b2 Nesse sentido, é uma atividade de grande responsabilidade, pois analisa todo o encadeamento de fatos que levaram um acidente a ocorrer , ou, até mesmo, situações que anteviram um sinistro, o que a torna uma ação minuciosa, em que qualquer desatenção poderá comprometer toda a análise. Portanto, em seu dia a dia, o perito deverá estar preparado para coletar informações sobre as evidências disponíveis, como fotos, vídeos, testemunhos, e registros de dados do veículo, condições do local do acidente, incluindo a iluminação, a visibilidade, as condições meteorológicas e o estado da via. O resultado dessas informações consistirá em um relatório detalhado que descreve as causas prováveis do acidente e suas nuances. Por fim, o relatório pode ser usado em investigações policiais, julgamentos e para a tomada de decisões judiciais. Também vale destacar que essa atividade possui grande importância social, uma vez que, como visto até aqui, a coleta e análise de dados também irá permitir uma análise global sobre os acidentes, auxiliando não apenas em casos isolados, mas na prevenção de acidentes e criação de políticas públicas para segurança no trânsito. REFERÊNCIAS AZEVEDO, L. Reação tardia ou ineficiente do condutor é a principal causa de acidentes em 2023. Brasil 61, 10 jan. 2024. Disponível em: https://brasil61.com/. Acesso em: 11 ago. 2024. BRASIL. Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997. Institui o Código de Trânsito Brasileiro. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 24 set. 1997. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/. Acesso em: 27 ago. 2024. BEM, L. S.; PEROVANO, D.; MACHADO, R. A. Segurança pública e trânsito. Curitiba: Intersaberes, 2019. E-book. Disponível em: https://plataforma.bvirtual.com.br. Acesso em: 10 ago. 2024. CAMPOS, K. R. M. Processo de produção do laudo pericial de acidentes de trânsito sob a ótica da integração das forças policiais. 2015. 111 p. Monografia (Especialização em Estudos de Criminalidade e Segurança Pública) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2015. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/. Acesso em: 20 ago. 2024. NEGRINI NETO, O.; KLEINUBING, R. Dinâmica dos Acidentes de Trânsito: análises, reconstruções e prevenção. 2. ed. Campinas: Millennium, 2006. ROZESTRATEN, R. J. A. Psicologia do trânsito: conceitos e processos básicos São Paulo: EPU, 1988. https://brasil61.com/n/reacao-tardia-ou-ineficiente-do-condutor-e-a-principal-causa-de-acidentes-em-2023-bras2410596 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9503compilado.htm https://plataforma.bvirtual.com.br/ https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/55065/1/CRISP_KENYA%20REGINA%20MARQUES%20CAMPOS.pdf TEMA DE APRENDIZAGEM FUNDAMENTOS DA BALÍSTICA FORENSE: ESTUDO DE ARMAS DE FOGO E MUNIÇÕES; BALÍSTICA INTERNA, EXTERNA E TERMINAL André Gessi Rogal Wuicik AUTOR MINHAS METAS INICIE SUA JORNADA Estudante, você já parou para pensar que a balística forense é uma das áreas mais importantes da perícia forense e que muitos crimes podem ser solucionados devido aos dados provenientes dela? De breve, podemos definir a balística forense como a área do conhecimento que consiste no estudo das armas de fogo e nos efeitos de seus disparos. Sendo assim, a balística forense é uma área da criminalística que desempenha um papel crucial na investigação de crimes que envolvem o uso de armas de fogo, que, Entender o conceito de balística.► Saber as diferenças entre balística interna e externa.► Identificar características internas de armas de fogo.► Identificar os efeitos dos disparos de armas de fogo em agentes externos.► Conhecer os tipos de tiros e suas distâncias.► Conhecer os tipos de projéteis.► Conhecer os tipos de armas de fogo.► com base em fundamentos técnicos e teóricos, permite trazer uma série de detalhes importantíssimos para a resolução de casos envolvendo o uso desse tipo de armamento. Na prática, a balística forense poderá ajudar a identificar a armaespecífica que foi utilizada em um crime, comparando as marcas deixadas com as características de uma arma suspeita, ou seja, acaba sendo de extrema pertinência também para a reconstituição de cenas de crimes, já que essa análise também irá ajudar a determinar a trajetória dos projéteis, a distância dos disparos e a provável localização de um atirador suspeito. Dessa forma, as análises provenientes da balística forense fornecem dados concretos que podem guiar investigações e fornecer evidências para acusação ou defesa em processos judiciais, sendo de grande apoio para a justiça criminal, pois fornece métodos científicos para a análise de crimes envolvendo armas de fogo, ajudando a garantir que as investigações sejam conduzidas de maneira precisa e justa. Por isso, ao longo deste tema de aprendizagem, iremos aprender diversos conceitos da balística forense, como os mecanismos e funcionamentos de armas de fogo, seus tipos, as formas de analisar a trajetória de um projétil expelido, bem como os efeitos desses disparos, como as perfurações, lesões internas e externas, entre outras nuances que terão impacto direto nas investigações criminais. Com base nos conteúdos apresentados na sequência, você, estudante, terá condições de compreender os fundamentos básicos da balística forense e entender os contextos em que ela se aplica no dia a dia prático da perícia forense. PLAY NO CONHECIMENTO Em nosso podcast, preparamos um conteúdo explicando como a balística auxilia em investigações policiais, bem como os impactos que traz dentro do processo judicial. Compreender estes aspectos fará o estudante ter uma visão abrangente do tema, para além dos aspectos referentes às técnicas da balística, no efeito que essas técnicas trazem para outras questões judiciais. Não deixe de conferir! Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://w.soundcloud.com/player/?url=https%3A//api.soundcloud.com/tracks/1961388631&color=%23ff5500&auto_play=false&hide_related=true&show_comments=false&show_user=false&show_reposts=false&show_teaser=false&sharing=false&show_artwork=false&show_playcount=false VAMOS RECORDAR O vídeo a seguir traz diversos exemplos de tipos de calibres e munições encontrados nas investigações de balística forense. Como será abordado adiante, muitas das análises da balística partem justamente do estudo do impacto das munições nos alvos, o que torna esse tema de grande interesse por parte do perito forense. Acesse: Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://www.youtube.com/watch?v=R4JoJeDhxzU DESENVOLVA SEU POTENCIAL O CONCEITO DE BALÍSTICA Para dar início aos estudos deste tema, é importante ter o conceito de balística bem definido e delimitado, já que outras áreas abordadas irão partir justamente dos princípios da balística. Nesse sentido, vamos adotar a definição de Eduardo Vinícius da Silva Cauneto, que partirá de conceitos da Engenharia Mecânica na Perícia Criminal para definir que a Balística é uma parte da “Física/Química relacionada à Criminalística, a qual estuda as armas de fogo, suas munições, a trajetória e percurso do projétil, entre tantas outras coisas que auxiliam na elucidação dos crimes” (Cauneto, 2018, p. 5). Ou seja: se por um lado o estudo da Física se aplica ao movimento dos corpos das mais diversas formas possíveis, como, por um exemplo, um objeto em queda livre, a balística se concentra no estudo dos movimentos provenientes de disparos de armas de fogo, como o movimento e o impacto dos projéteis. Nesse sentido, a balística irá se subdividir em três áreas de estudo principais: BALÍSTICA INTERIOR Área que estuda os processos e fenômenos que ocorrem dentro de uma arma de fogo desde o momento em que o gatilho é puxado até o instante em que o projétil sai do cano, analisando aspectos como: combustão de pólvora, pressão interna, aceleração do projétil ao longo do cano e o recuo da arma, ou seja, a reação da arma ao disparo à medida que o projétil e os gases são expulsos do ano. Nas palavras de Eraldo Rabello, “é todo objeto concebido e executado com a finalidade específica ou predominante de ser utilizado pelo homem para o ataque ou defesa” (Rabello, 1995). BALÍSTICA EXTERIOR Área da balística que estuda o comportamento de um projétil após ele sair do cano da arma até o momento em que atinge o alvo, analisando fatores que influenciam a trajetória e a precisão do projétil durante o voo, como a trajetória do projétil, os efeitos da gravidade no projétil, resistência do ar, vento, permitindo que peritos prevejam e expliquem o comportamento de projéteis durante o intervalo entre a saída do cano até o momento de impacto em determinado alvo (Senasp, 2012). BALÍSTICA TERMINAL Área da balística que estuda o comportamento e os efeitos de um projétil ao atingir seu alvo, seja ele um corpo humano, ou algum objeto, como um carro, ou uma construção, bem como qualquer outra superfície. Nesse sentido, irá analisar aspectos como a penetração do projétil dentro do alvo, a expansão, referindo-se a projéteis programados para expandir dentro dos alvos (balas expansivas) e fragmentação, bem como o comportamento desses aspectos em diferentes materiais, como vidro, madeira, metais, corpo humano etc. (Senasp, 2012). Dentro do universo da balística, existe a chamada balística forense, que será a área do conhecimento responsável por analisar o uso das armas de fogo dentro do aspecto legal, ou seja, no uso de armas de fogo em prováveis crimes, na esfera penal, como em questões de responsabilidade civil, na esfera cível. Ou seja, é aquela parte do conhecimento criminalístico e médico legal que tem por objeto especial o estudo das armas de fogo, das munições e dos fenômenos e efeitos próprios dos tiros dessas armas no interesse da justiça (Rabello, 1995). No contexto da perícia forense, o foco dos estudos se concentra justamente na Balística Forense, em que os aspectos aprendidos dentro do estudo da balística externa, interna e terminal serão empregados para auxiliar a compreender as nuances de possíveis crimes e prejuízos, que servirão tanto em fase processual quanto investigatória e reconstituição de cenas de crimes. A balística forense é uma área de estudo mais antiga do que parece, remontando às primeiras décadas do século XIX, em que estudiosos na Europa analisavam projéteis no corpo das vítimas e faziam relação com os modelos de armas de fogo existentes, conseguindo solucionar crimes e auxiliando em processos judiciais a partir dessas informações. Foi o caso de Henry Goddard (Inglaterra) e Paulo Jeserich (Alemanha), por exemplo. Na virada do século XX, a balística forense seguiu evoluindo em conformidade com o surgimento de novas armas de fogo, sendo uma das principais áreas da criminalística (Senasp, 2012). ARMAS DE FOGO Como visto, a balística está intrinsecamente ligada aos aspectos técnicos das armas de fogo, portanto, o estudo sobre esse tipo de ferramenta é essencial para o trabalho do perito forense. Nesse sentido, há uma definição técnica para o que seriam “armas”, especialmente para entender quais armas fazem parte do contexto e são objetos de estudo da balística forense. Basicamente, podemos afirmar que as armas não se limitam às armas de fogo. Por isso, as armas podem ser compreendidas como todo instrumento, máquina ou meio utilizado pelo homem para ofender ou defender-se (Senasp, 2012). Ou seja, são todos os instrumentos utilizados para atacar ou se defender de algum agressor, considerando também o uso esportivo, como tiro ao alvo e caça. Especificamente no caso da balística forense, as armas estudadas são as chamadas “perfuro-contundentes”. Elas possuem o propósito de causar perfuração, que seria a capacidade de penetrar os projéteis nas superfícies , além do propósito de causar contusão,uma vez que, simultaneamente à perfuração, essas armas causam dano através de uma força de impacto, gerando contusões, esmagamento de tecidos ou fraturas. É nesse contexto que se encaixam as armas de fogo, que serão o foco de estudo da balística forense, mas também é importante ressaltar que também existem outras armas que ocupam essa categoria, sem que necessariamente sejam armas de fogo, como lanças, por exemplo (Senasp, 2012). Para delimitar ainda mais o raciocínio, podemos afirmar que a balística forense se ocupa a entender as dinâmicas das armas de fogo, que fazem parte do escopo das armas perfuro-contundentes. Sobre as armas de fogo e seu entendimento no Brasil, podemos defini-las da seguinte maneira, conforme o Decreto nº 10.030 de 2019: Arma de fogo: arma que arremessa projéteis empregando a força expansiva dos gases, gerados pela combustão de um propelente confinado em uma câmara, normalmente solidária a um cano, que tem a função de dar continuidade à combustão do propelente, além de direção e estabilidade ao projétil. Brasil, 2019 Nesse sentido, as armas de fogo podem ser classificadas de várias maneiras , incluindo o tamanho, o mecanismo de funcionamento, a forma de carregamento, o tipo de munição e o uso pretendido. A seguir, analisaremos os tipos de armas de fogo conforme a perspectiva da balística forense. TIPOS DE ARMAS DE FOGO Existem diversas formas de categorizar uma arma de fogo, dentre elas, uma referente à “alma” da arma, ou seja, a parte interna do cano de uma arma de fogo, por onde passa o projétil ao ser disparado. Dessa forma, existirão as armas de alma lisa e as armas de alma raiada. As armas de alma lisa remetem às primeiras armas de fogo inventadas, cujo cano possuía longo comprimento, como os canhões, por exemplo. Conforme a tecnologia e o estudo da física das armas passou a evoluir, bem como o tamanho dos canos passou a ficar menor, passou-se a se entender que seria melhor que o interior da arma tivesse seu interior raiado, evitando trajetórias imprecisas do projétil. As raias seriam, portanto, “sulcos feitos na parte interna (alma) dos canos ou tubos das armas de fogo, geralmente de forma helicoidal, que têm a finalidade de propiciar o movimento de rotação dos projéteis, ou granadas, que lhes garante estabilidade na trajetória” (Brasil, 2019). Outra forma de classificar as armas de fogo se dá conforme seu sistema de carregamento, sendo que este se divide entre o carregamento de antecarga e o carregamento de retrocarga. O carregamento de antecarga é um método em que a munição (pólvora e projétil) é introduzida pela boca do cano da arma, como, por exemplo, nos canhões antigos e mosquetes, que foram armas comuns em guerras do século XIX. Já nos modelos de retrocarga, a munição é introduzida pela parte traseira do cano, na chamada culatra, selando a câmara e preparando a arma para o disparo. Esse tipo de carregamento é muito mais ágil, proporcionando maior vedação e potência, sendo que rifles, pistolas e revólveres modernos usam esse formato de carregamento (Senasp, 2012). As armas de fogo também se dividem pelo sistema de inflamação, podendo ser por meio de um pavio (mecha), faísca (atrito), percussão, ou elétrico, sendo que as armas atuais acabam se utilizando desse último método, enquanto os outros se restringem aos modelos históricos e em desuso na atualidade. Outra importante forma de classificar as armas de fogo está no que se refere ao seu funcionamento, podendo ser de tiro unitário, de repetição, semiautomáticas e automáticas. Em detalhes, veremos como cada uma se comporta: ARMAS DE TIRO UNITÁRIO Armas que permitem disparar um único projétil por vez, exigindo uma ação manual para recarregar ou preparar a arma para o próximo disparo, sendo que esse modelo é caracterizado por seu mecanismo de funcionamento que limita o número de tiros consecutivos, sendo necessária uma intervenção para recarregar a arma após cada disparo (Senasp, 2012). ARMAS DE REPETIÇÃO São armas em que o atirador, após a realização de cada disparo, precisa realizar uma ação sobre o gatilho, a fim de preparar para o disparo seguinte. Ou seja: em vez de carregar tiro a tiro, há um movimento de gatilho que aciona o carregamento do disparo seguinte, como nos revólveres (Brasil, 2019). ARMAS SEMIAUTOMÁTICAS Segundo o Decreto nº 3665, art. 3º, inciso XXIII, anexo, são armas “que realizam, automaticamente, todas as operações de funcionamento, com exceção do disparo, o qual, para ocorrer, requer, a cada disparo, um novo acionamento do gatilho” (Brasil, 2019). Ou seja, a alimentação da câmara é feita utilizando a energia do disparo anterior, sendo que os disparos também ocorrem a cada pressão da tecla do gatilho, como nas armas de repetição. ARMAS AUTOMÁTICAS Conforme o Decreto nº 3665, art. 3º, inciso X, anexo, são armas “em que o carregamento, o disparo e todas as operações de funcionamento ocorrem continuamente enquanto o gatilho estiver sendo acionado (é aquela que dá rajadas)” (Brasil, 2019). Um exemplo claro desse tipo de arma são as metralhadoras e submetralhadoras. Além disso, podemos dividir as armas pelo tamanho e portabilidade que proporcionam ao atirador. As chamadas armas não portáteis são aquelas que só podem ser utilizadas em um espaço físico predeterminado, como as peças de artilharia. Já as chamadas armas de porte são projetadas para serem transportadas facilmente por uma pessoa, sendo menores e mais leves, permitindo que sejam carregadas em um coldre ou em uma bolsa, como pistolas e revólveres. Já as armas portáteis são armas que podem ser transportadas e usadas por uma pessoa, mas não necessariamente são projetadas para o mesmo nível de portabilidade e discrição que as armas de porte, tendo como exemplos os rifles e espingardas (Brasil, 2019). MUNIÇÃO E BALÍSTICA DE EFEITOS Outro ponto muito importante e que deve ser objeto de atenção por parte dos estudos referentes à balística forense diz respeito às munições, ou seja, o cartucho, popularmente chamado de “bala”, que é disparado da arma em direção ao alvo ou direção estabelecida. Esse objeto é dividido da seguinte forma: 1. projétil; 2. estojo; 3. propelente; 4. espoleta. O projétil é a parte do cartucho que será lançada através do cano, sendo a ponta desse conjunto. O estojo é o corpo que engloba todos esses elementos. Já a carga/propelente e espoleta são os elementos que fazem a “bala” disparar, após um processo interno de combustão (TJAM, 2012). Nesse sentido, existem diversos tipos de projéteis, todos com impactos diferentes nos alvos: ogival, canto-vivo, semicanto-vivo, cone truncado, semi-ogiva, ponta oca etc. Os impactos dos projéteis nos alvos e suas respectivas feridas são conhecidas na balística forense como feridas perfurocontusas. Por sua vez, o alvo atingido e perfurado é denominado orifício de entrada (Rabello, 1995). Os impactos no orifício de entrada serão delimitados conforme a distância de um tiro, separados da seguinte forma: TIRO ENCOSTADO Ocorre quando uma arma de fogo é disparada com o cano encostado diretamente na superfície do alvo, podendo, inclusive, ser diretamente no corpo de uma pessoa. Os gases penetram junto com o projétil e, ao encontrarem uma zona rígida, retornam, não gerando zona de esfumaçamento (Tocchetto, 2011). TIRO A CURTA DISTÂNCIA É o disparo efetuado a uma pequena distância entre o cano da arma e o alvo, mas sem o cano da arma estar encostado diretamente no alvo, chamado popularmente de “tiro à queima roupa”. Ocorre queimadura de pelos, cabelos e pele, devido à alta temperatura dos gases (Tocchetto, 2011). TITO A LONGA DISTÂNCIA Ocorre em disparos em que o alvo está a uma distância considerável do atirador. O orifício de entrada do projétil costuma ser menor do que o seu diâmetro, sem outros efeitos secundários marcantes (Tocchetto, 2011). A análise dos tiros e suas distâncias é uma área complexa de estudo dentro da balística forense, uma vezque serão analisados elementos como a gravidade, a resistência do ar, o tipo de projétil utilizado, entre outras variáveis, que irão envolver conhecimentos de Física e Química para compreender a reação que cada caso concreto envolve. A balística, como vimos, é um campo que abrange desde os processos internos de uma arma de fogo até os efeitos finais dos projéteis nos alvos. Dentro do universo da perícia criminal, a balística forense se destaca como uma ferramenta fundamental para a investigação de crimes envolvendo armas de fogo. Ao compreender os conceitos e as subdivisões da balística – interior, exterior e terminal –, os peritos são capazes de reconstruir com precisão eventos críticos, oferecer suporte técnico nas fases investigatória e processual, e, assim, contribuir para a elucidação de crimes e para a aplicação da justiça. Ao longo dos anos, a balística forense evoluiu em paralelo com o desenvolvimento das armas de fogo, sendo uma área do conhecimento que exige uma profunda compreensão de princípios físicos e químicos. Essa ciência não só auxilia na identificação de armas e munições envolvidas em crimes, mas que também oferece informações sobre a dinâmica dos disparos e os impactos que eles provocam, tornando-se indispensável para a investigação criminal moderna. Portanto, o estudo da balística é não apenas um campo técnico, mas uma disciplina que integra Ciência e Justiça, revelando-se essencial para a compreensão dos mecanismos envolvidos em crimes com armas de fogo e para a responsabilização adequada dentro do sistema legal. EM FOCO Acesse seu ambiente virtual de aprendizagem e confira a aula referente a este tema. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. NOVOS DESAFIOS Como visto, a balística forense é uma área do conhecimento complexa, que envolve o uso de diversos conhecimentos e tem a multidisciplinaridade como uma de suas principais características. https://player.vimeo.com/video/1003338729?h=49a27fafe3 No dia a dia profissional, o perito forense que atuar no segmento da balística deverá estar preparado para analisar e interpretar evidências e informações referentes ao uso de armas de fogo, conferindo questões sobre tipos de armas específicas usadas em um crime, comparando as marcas deixadas no projétil e no estojo da munição com aqueles recuperados da cena do crime, por exemplo, entre outros. O trabalho do perito pode responder questões pontuais, bem como auxiliar na reconstrução completa de uma cena de crime, analisando a trajetória dos projéteis para determinar a posição do atirador e da vítima no momento do disparo e fornecendo uma visão detalhada de como os disparos ocorreram, por exemplo. Para realizar tais funções, a perícia balística utiliza conhecimentos típicos da Engenharia Mecânica e, até mesmo, da Química, já que os efeitos de um disparo podem ser complexos e ter desdobramentos importantes, sendo importante explicar que os disparos de armas de fogo podem ter relações diretas e indiretas com infrações penais, bem como envolver vários agentes em uma situação para além de um único atirador e um único alvo, tornando a ação do perito ainda mais complexa. Dessa forma, é necessário realizar uma preparação técnica e prática minuciosa, uma vez que a análise dos eventos envolvendo disparos de armas de fogo podem ter grande impacto em investigações e processos judiciais, o que torna a atividade da perícia balística de grande relevância, ao mesmo tempo que de alta responsabilidade por parte do profissional dedicado à sua aplicação no dia a dia profissional. REFERÊNCIAS BRASIL. Decreto 3.665/2000. Dá nova redação ao Regulamento para a Fiscalização de Produtos Controlados (R-105). Brasília: Subchefia para Assuntos Jurídicos da Casa Civil, 2000. BRASIL. Decreto 10.030/2019. Aprova o regulamento de produtos controlados. Brasília: Subchefia para Assuntos Jurídicos da Casa Civil, 2019. CAUNETO, E. V. da S. Introduzindo conhecimentos da Engenharia Mecânica na perícia criminal: balística. 2018. 38 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Engenharia Mecânica) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Ponta Grossa, 2018. Disponível em: https://repositorio.utfpr.edu.br/. Acesso em: 27 ago. 2024. RABELLO, E. Balística Forense. 3. ed. Porto Alegre: Sagra Luzatto, 1995. SENASP – SECRETARIA NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA. Identificação de armas de fogo. Ensino a Distância, Brasília, DF, 2012. Disponível em: https://pdfcoffee.com/. Acesso em: 30 ago. 2024. TJAM – TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO AMAZONAS. Manual de armamento e manuseio seguro de armas de fogo. Manaus, AM, 2012. Disponível em: https://www.tjam.jus.br/. Acesso em: 18 ago. 2024. TOCCHETTO, D. Balística Forense: aspectos técnicos e jurídicos. 6. ed. Campinas: Millennium, 2011. https://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/16405/1/PG_DAMEC_2018_1_5.pdf https://pdfcoffee.com/curso-identificaao-de-armas-senasp-completo-pdf-free.html https://www.tjam.jus.br/phocadownloadpap/manuseio_seguro_arma_fogo-mar_2012.pdf TEMA DE APRENDIZAGEM ANÁLISE BALÍSTICA E TECNOLOGIAS AVANÇADAS: ANÁLISE DE BALÍSTICAS EM LOCAIS DE CRIMES; TECNOLOGIAS PARA ANÁLISE DE PROJÉTEIS E TRAJETÓRIAS André Gessi Rogal Wuicik AUTOR MINHAS METAS INICIE SUA JORNADA Estudante, até aqui, vimos conceitos importantes sobre a balística, mas você já parou para pensar quais são os efeitos visíveis dos disparos e como eles se relacionam com as investigações forenses? Neste capítulo, vamos estudar em maiores detalhes justamente essas questões, visualizando como a balística forense inclui o estudo de marcas específicas deixadas pelo projétil e pela arma, como estrias e impressões, permitindo a identificação da arma usada em um crime, associando o projétil ou a cápsula encontrada no local do crime a Aprender o que é local do crime.► Compreender a importância de isolar o local do crime.► Conhecer os tipos de locais em cenas de crime.► Aprender o que é papiloscopia.► Aprender o conceito de trajeto de projétil.► Aprender o conceito de trajetória de projéteis.► Conhecer as tecnologias da papiloscopia.► uma arma específica, o que pode ser determinante para uma investigação ou resultado de um julgamento judicial. Esse tipo de análise é fundamental em investigações criminais, ajudando a reconstituir o que aconteceu durante um tiroteio ou homicídio . Portanto iremos estudar, primeiramente, a importância do isolamento e preservação do local do crime, prática fundamental para o sucesso de qualquer investigação criminal e para garantir que os responsáveis pelos crimes sejam devidamente identificados e processados, bem como evitar que pessoas inocentes sejam envolvidas em um delito que não cometeram. Em sequência, serão abordadas questões como a coleta de vestígios, ponto de contato dos projéteis, local de saída de projéteis, análise do ângulo para estipular trajetória , entre outras questões que irão explicar como se desenrolam as consequências de um disparo de arma de fogo e como esses elementos estão intrinsecamente ligados com o sucesso de uma investigação forense. Dessa forma, também abordaremos quais ferramentas auxiliam esse processo de identificação e análise, bem como as tecnologias que surgem no setor a fim de tornar esse processo cada vez mais assertivo. Ao final deste tema, o estudante terá o conhecimento necessário para saber como garantir a integridade de uma investigação, bem como a forma de obter formas confiáveis para uma investigação forense e produção de provas úteis ao processo judicial. PLAY NO CONHECIMENTO Em nosso podcast, preparamos uma série de situações que ilustram como a balística forense auxilia em investigações e processos judiciais, sendo uma área do conhecimento que exige grande conhecimento técnico, mas, também, muita aplicabilidade prática nos casos concretos. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recursoutilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://w.soundcloud.com/player/?url=https%3A//api.soundcloud.com/tracks/1961388895&color=%23ff5500&auto_play=false&hide_related=true&show_comments=false&show_user=false&show_reposts=false&show_teaser=false&sharing=false&show_artwork=false&show_playcount=false VAMOS RECORDAR Neste vídeo, é contada a história do minucioso trabalho de perícia realizado pelo perito Wilton Rego, responsável por ajudar de forma fundamental a prender Francisco das Chagas, o maior serial killer do Brasil, que resolveu confessar os crimes após o trabalho realizado pelo perito, o que demonstra que a observância aos detalhes é indispensável nesse tipo de trabalho. Acesse: Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://www.youtube.com/watch?v=CSPON8okIhY DESENVOLVA SEU POTENCIAL ISOLAMENTO E PRESERVAÇÃO DO LOCAL DO CRIME Um dos pontos centrais sobre a análise balística irá partir do isolamento e preservação do local do crime. Basicamente, esta é a etapa inicial de toda a análise dos fatos, sendo fundamental que não ocorram interrupções ou manipulações no espaço de atuação do perito responsável pela ocorrência. Nesse sentido, é importante ressaltar que a própria legislação estipula a obrigatoriedade de isolar o local do crime, que, basicamente, é justamente a cena em que ocorreu o delito. No artigo 6º do Código de Processo Penal – CPP –, é descrito que será responsabilidade da autoridade policial dirigir-se ao local, providenciando para que não se altere o estado e conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais; bem como apreender os instrumentos e todos os objetos que tiverem relação com o fato após liberados pelos peritos criminais; e colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias. Dessa forma, se faz obrigatório o exame de corpo de delito que, basicamente, é a análise sobre o conjunto de vestígios materiais deixados em um local de crime, conforme o Art. 158 do CPP: “quando a infração deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado”. Quando não for possível o exame de corpo de delito devido à falta de materialidade de vestígios, este é substituído pelas provas testemunhais. Esse exame seria a análise do bem protegido pelo Estado, como a vida ou o patrimônio, por exemplo, sendo que, quando ofendido, a ofensa desse bem deve ser materializada pelo laudo de exame de corpo de delito. Nesse sentido, Antônio Carlos Lipinski aponta que intervenções no local de crime podem interferir em todos estes processos, que são essenciais para o bom andamento da investigação e processo judicial: Após o evento, pessoas que ali estiveram, de forma intencional ou não, podem acabar deixando outros materiais tais como, fios de cabelos, líquidos orgânicos e impressões digitais. Estes elementos podem interferir nos exames de DNA e posteriormente induzir a falsos positivos ou falsos negativos. A simples manipulação de objetos, louças, roupas etc. podem contaminar a cena. Por muitas vezes, acaba-se relacionando materiais de terceiros que ali estiveram, mas não tiveram relação com o crime. A contaminação também pode ocorrer mesmo com a utilização de luvas, uma vez que materiais do local serão transportados entre outros objetos. Lipinski, 2020, P. 16 A preservação da cena do crime é o ponto de partida da investigação, e se ela for contaminada, então toda uma investigação poderá ser contaminada e induzir ao erro. No local do crime, pode haver evidências cruciais, como impressões digitais, resíduos de pólvora e projéteis, manchas de sangue, fibras ou outros vestígios que podem ligar um suspeito ao crime. Qualquer interferência, como tocar, mover objetos ou, até mesmo, a simples presença de pessoas, pode contaminar ou destruir essas evidências. Da mesma forma, a cena do crime, muitas vezes, fornece pistas sobre a sequência de eventos que ocorreram, como a posição dos corpos, das armas, dos objetos e até das portas e janelas, o que pode ajudar a entender o que aconteceu. Se o local for alterado, essa reconstrução pode ser comprometida. Recentemente, destaca-se a criação da Lei 13.964/2019 com alteração no Código de Processo Penal, chamada de cadeia de custódia, que define o processo utilizado para rastrear, documentar e armazenar evidências, desde o momento em que são coletadas até o momento em que podem ser completamente descartadas, especialmente na apreensão de vestígios, como armas de fogo em locais de crime, por exemplo. Esse procedimento garante que as provas permaneçam intactas e inalteradas, garantindo sua integridade e autenticidade (Lopes Jr., 2021). TIPOS DE LOCAIS DE CRIME Os locais de crimes podem ser classificados de várias maneiras, dependendo da natureza do crime, do tipo de ambiente e do papel que o local desempenha na investigação. Dessa forma, cada tipo de local de crime exige abordagens específicas de preservação, coleta de evidências e análise para garantir que todas as informações relevantes sejam obtidas e utilizadas corretamente na investigação. Vamos ver, portanto, como são os locais de crime conforme os principais delitos existentes: CENA DE CRIME DE HOMICÍDIO O crime de homicídio é definido como o ato de matar outra pessoa. Trata-se de uma das formas mais graves de crime contra a vida e é tratado com grande rigor pela legislação. Dependendo das circunstâncias em que ocorre, o homicídio pode ser classificado de diferentes maneiras: doloso, quando há intenção de matar; e culposo, quando não há intenção de matar. O importante, em todos os casos, é encontrar os detalhes que podem ter motivado o homicídio, em que tanto tomadas fotográficas do local da morte quanto depoimentos respondam questões como: “quem? Quando? Como? Onde? Por quê?”. Por exemplo: a coloração das lesões pode revelar quando alguém foi agredido, detalhando o dia em que o crime ocorreu (Lipinski, 2020). LOCAL DE CRIME DE FURTO OU ROUBO Nas cenas de crimes envolvendo furto ou roubo, é necessário prestar atenção justamente nos obstáculos violados, como, por exemplo: uma porta que foi arrombada, um vidro que foi quebrado, um portão que foi destruído etc. Corroborando com esses elementos, se faz necessária a coleta de impressões papiloscópicas e material biológico para exame de DNA. Nos casos de roubo, há também o uso da violência, sendo que lesões e sangue são elementos imprescindíveis para comprovar tal violência, o que irá impactar diretamente na denúncia ao Ministério Público e o tempo de pena pelo delito (Lipinski, 2020). LOCAL DE CRIME DE TRÂNSITO Em acidentes de trânsito, para além das questões relatadas sobre coleta de materiais biológicos e fotográficos com relação às vítimas, é necessário observar questões referentes aos veículos e à pista. Marcas de frenagem, derrapagem ou arraste são fundamentais para determinar a velocidade dos veículos e se houve tentativa de evitar a colisão. Óleo, combustível ou fluido de freio derramado podem indicar falhas mecânicas ou o local exato do impacto. Fragmentos de vidro, peças de veículos ou qualquer outro objeto que possa ter se soltado durante o acidente devem ser coletados e armazenados como evidências (Lipinski, 2020). LOCAL DE CRIME DE INCÊNDIO Nos crimes de incêndio, a análise é mais desafiadora, uma vez que os corpos e os locais, geralmente, estão todos destruídos. Nesse sentido, no que se refere ao local de crime, é importante observar a deficiação, a fim de entender quais equipamentos podem causar sobrecarga de energia, o tipo de construção, se seria de alvenaria ou madeira, se foram encontrados vestígios de combustíveis e substâncias utilizados para ampliar o incêndio etc. Por fim, busca-se encontrar os focos do incêndio, ou seja, por onde ele começou e a partir de onde se alastrou (Lipinski, 2020).ACIDENTE DE TRABALHO Nesse caso, o perito irá verificar, principalmente, se o local de trabalho era regular, e se os trabalhadores envolvidos utilizavam os equipamentos de segurança exigidos pela legislação, a fim de entender se, de fato, aconteceu um acidente ou um homicídio em local de trabalho. Também verifica-se se o ambiente estava energizado, aterrado, ou tinha demais influências físicas que poderiam acarretar acidentes (Lipinski, 2020). O que podemos concluir é que o perito que for verificar a cena de crime irá verificar principalmente os detalhes e as nuances que as informações obtidas no local podem lhe fornecer. Em um primeiro momento, detalhes podem parecer meros preciosismos, mas são justamente esses detalhes que irão fornecer as características de um crime, auxiliando a descobrir quando ele ocorreu, sua motivação, o tempo em que ocorreu, entre outras situações fundamentais para a investigação forense e o processo judicial. Ao final, o laudo pericial, seguirá as seguintes etapas: No laboratório, serão processadas as impressões digitais por meio de técnicas de papiloscopia, assunto do tópico a seguir. identificação do local crime e individualização e isolamento do cômodo do ocorrido; ● coleta e acondicionamento das impressões encontradas, se possível, por meio físico ou digital (fotografias); ● descarte de objetos que não tenham interesse para a investigação (Lipinski, 2020). ● PAPILOSCOPIA Um dos temas mais importantes no que se refere à identificação de suspeitos, vítimas e coleta de vestígios, sem dúvida, é a papiloscopia. A papiloscopia é a ciência que estuda as impressões digitais e outras características das papilas dérmicas presentes nas extremidades dos dedos, nas palmas das mãos e nas plantas dos pés. Ressalta-se que as impressões são únicas para cada indivíduo, tornando-se uma ferramenta essencial para identificação pessoal, especialmente em investigações criminais . Nesse sentido, Almeida Júnior (2017) define a papiloscopia da seguinte forma, e define a vantagens de seu uso em investigações: A papiloscopia é a ciência de identificação humana por meio das papilas dérmicas dos dedos, da palma das mãos e da superfície plantar dos pés, usada para fins civis ou legais [4]. O estudo papiloscópico baseia-se na coleta, classificação e confronto das impressões papilares coletadas com impressões previamente registradas. Esse estudo é reconhecido pela legislação brasileira e tem como características favoráveis o baixo custo, a praticidade e a agilidade quando comparado aos demais métodos de identificação primários. A identificação papiloscópica de um cadáver é chamada necropapiloscopia. Almeida Júnior, 2017, P. 49 No Brasil, a papiloscopia está incorporada a um sistema informatizado, em que as impressões papiloscópicas são classificadas e armazenadas em um banco de dados próprio de cada estado do país, sendo utilizado por outros órgãos, como o Departamento Nacional de Trânsito (Detran) e a Justiça Eleitoral, por meio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) (Lipinski, 2020). A classificação de identificação pode ser positiva, quando as impressões conferem com as do indivíduo; excludente, quando não conferem; sendo que por meio dos fragmentos papilares é possível identificar a autoria de um delito ou de uma vítima, por exemplo. Inicialmente, a busca e comparação de digitais era feita manualmente pelo perito por meio da análise de uma ficha física. A partir dos anos 1970, começou a ser usado o Sistema Automatizado de Identificação de Impressão Digital (Automated Fingerprint Identification Sistem – Afis), que também é utilizado no Brasil. Esse sistema fornece um banco de dados sobre o qual realizar sua busca e análise. Com a evolução da tecnologia, o Afis passou a trabalhar sozinho nos algoritmos de análise dos dados armazenados, sem a necessidade de intervenção humana. Atualmente, estão sendo feitas tentativas para desenvolver a adequação dos sistemas Afis para permitir avaliar as impressões digitais quantitativa e qualitativamente e filtrar as impressões digitais de baixa qualidade que não produzem resultados fiáveis. Dessa forma, o sistema poderá otimizar a sua pesquisa dentro da base de dados disponibilizada, poupando tempo, esforço e dinheiro (Almeida Júnior, 2017). TRAJETÓRIA E TRAJETOS Dois conceitos importantes na balística forense no que diz respeito ao estudo de projéteis dizem respeito à trajetória e trajeto de um projétil. O trajeto de um projétil é o percurso que o projétil tem no interior de um corpo. No contexto da balística forense, o trajeto do projétil é analisado para entender melhor o movimento do projétil através do corpo de uma vítima ou por meio de objetos na cena do crime, determinando a direção e o comportamento do projétil após o disparo. Nesse sentido, são analisados o ângulo de entrada quando penetra o corpo; a profundidade dessa penetração; a direção ou desvio interno, quando há desvios internos nos tecidos, órgãos ou ossos; e o ponto de saída (Swan; Swan, 1991). INDICAÇÃO DE LIVRO A trajetória de um projétil é o caminho que ele percorre desde o momento em que é disparado até atingir seu alvo ou parar devido à ação de forças como a gravidade ou o impacto com um obstáculo (Almeida Júnior, 2017). No contexto da balística forense, entender a trajetória de um projétil é essencial para reconstituir eventos em cenas de crime, determinar a posição do atirador e o ângulo do disparo e analisar as circunstâncias do crime. Para analisar a trajetória de um projétil, é necessário considerar os seguintes elementos no cálculo (Almeida Júnior, 2017): SOBRE O LIVRO: O livro Um Estudo Sobre o Movimento dos Projéteis Balísticos e sua Trajetória, de Otaviano Almeida Júnior, traz as fórmulas necessárias para o cálculo de trajetórias de projéteis e conceitos avançados da Física, sendo uma ótima recomendação para quem quer se aprofundar nos atributos técnicos da disciplina. origem, ou seja, o ponto em que o projétil deixa o cano; velocidade inicial; plano horizontal, que passa pela origem; linha de tiro, determinada pelo prolongamento do eixo do cano da arma; linha de projeção, reta tangente à trajetória de tiro; O cálculo da trajetória de um projétil é complexo, envolvendo o uso de diversos equipamentos e tecnologias avançadas para calcular e simular o caminho percorrido pelo projétil desde o disparo até o impacto, levando em consideração as variáveis apresentadas anteriormente. Os equipamentos que auxiliam nessa tarefa podem ser a Estação Total, o Scanner 3D, o sistema de laser balístico e softwares de simulação balística. A análise balística forense depende crucialmente do isolamento e preservação rigorosa do local do crime, como visto. Cada detalhe no local pode fornecer pistas valiosas que determinam o sucesso da investigação e, por isso, qualquer contaminação da cena pode comprometer toda a análise subsequente. A legislação, com a introdução da cadeia de custódia pela Lei 13.964/2019, reforça a importância de processos rigorosos na coleta e preservação de evidências, alcance máximo; altura máxima; ponto de queda, em que o projeto retorna ao plano horizontal em que foi disparado; ângulo de projeção de tiro, ângulo agudo que a reta tangente faz com o plano horizontal. assegurando que a integridade e autenticidade das provas sejam mantidas até o momento de seu descarte. Assim, o trabalho pericial vai muito além da simples observação. Ele requer um entendimento aprofundado das implicações de cada vestígio deixado no local do crime, além da aplicação de técnicas específicas para garantir que todas as evidências sejam preservadas de forma adequada. Esse cuidado minucioso é essencial não apenas para esclarecer os fatos, mas também para assegurar a justiça, garantindo que as investigações possam levar a conclusões precisas e confiáveis sobre o ocorrido. EM FOCO Acesse seu ambiente virtual de aprendizagem e confira a aula referentea este tema. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. NOVOS DESAFIOS Como visto, a balística forense é uma atividade complexa, que envolve um trabalho minucioso envolvendo a ação humana, desde a fase inicial, sobre o isolamento do local de crime, até ações sofisticadas e com o uso de aparato tecnológico, como no cálculo da trajetória de projéteis. https://player.vimeo.com/video/1003338746?h=939cece890 Nesse sentido, é importante que o profissional que se dedicar à perícia forense entenda que cada uma dessas atividades e elementos são indissociáveis para o bom exercício de seu trabalho, já que, como ressaltado neste tema, cada elemento, por menor que possa parecer, fará a diferença ao final de uma investigação ou de um processo judicial. Portanto, será exigido desse profissional um bom conhecimento de campo e prática, sabendo como agir em um local de crime de forma técnica, a fim de não contaminar evidências, e até mesmo de relacionamento humano, já que tratar com as testemunhas será essencial para compreender as nuances de um determinado ocorrido e buscar informações complementares para a posterior análise científica. Os avanços tecnológicos também são inegáveis, sendo importante conhecer os softwares e novidades no setor, que auxiliam em atividades já antigas, como a papiloscopia, aperfeiçoando-a, ou em situações extremamente difíceis, como os cálculos de trajetos e trajetórias de projéteis, sendo que o perito deve estar sempre atento às ferramentas que podem tornar seu trabalho mais assertivo e certeiro. Por fim, a perícia forense é uma atividade que irá exigir, no dia a dia profissional, qualidades específicas no aspecto humano, ao saber agir em um local de crime, bem como alto conhecimento técnico, no tratamento das evidências recolhidas, exigindo constante estudo e aperfeiçoamento. REFERÊNCIAS ALMEIDA JÚNIOR, O. de. Um estudo sobre o movimento dos projéteis balísticos e sua trajetória. 1. ed. São Paulo: Blücher, 2017. BRASIL. Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 13 out. 1941. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/. Acesso em: 25 ago. 2024. LIPINSKI, A. C. Perícias criminais. 1. ed. São Paulo: Contentus, 2020. LOPES Jr., A. Direito processual penal. 18. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2021. SWAN, K. G.; SWAN, R. C. Princípios de balística aplicáveis ao tratamento das feridas por armas de fogo. Clínica Cirúrgica da América do Norte, v. 2, 1991. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689.htmocorra, são necessários dois tipos de reação. Na chamada reação de Fase I, ocorrem reações catabólicas que adicionam grupos ou expõem grupos reativos no composto precursor, através de processos de oxidação, redução e hidrólise. Os produtos resultantes das reações da Fase I servem como substratos para as reações da Fase II. Essa segunda fase consiste, principalmente, em reações de conjugação com cofatores endógenos, que adicionam grupos que tornam os produtos da Fase II hidrossolúveis, possibilitando a excreção (Martinis et al., 2018, p. 61). INDICAÇÃO DE LIVRO SOBRE O LIVRO: Pela leitura do livro Fundamentos em Toxicologia, escrito por Seizi Oga, Márcia Maria de A. Camargo e José Antonio de O. Batistuzzo, você poderá aprofundar seus estudos no processo de biotransformação de xenobióticos no organismo EXCREÇÃO O processo de eliminação da substância acontece simultaneamente à metabolização e à distribuição do composto pelo corpo humano. A excreção é, portanto, o momento no qual a substância hidrossolúvel será expulsa do organismo, podendo ocorrer por várias vias, como fezes, urina, saliva, suor, ar exalado e, até mesmo, lágrimas. A excreção urinária utiliza os rins como meio de filtrar o sangue, excretando substâncias polares e hidrossolúveis. Já a excreção fecal é relacionada à parte não absorvida dos agentes químicos pela via oral. Figura 3 – Excreção pelo trato digestivo. humano, analisando melhor como funcionam as reações de Fase I e de Fase II, até ser alcançada uma estrutura química ideal para a eliminação da substância. Fonte: https://br.freepik.com/. Acesso em: 21 ago. 2024. Descrição da imagem: imagem mostrando, em segundo plano, uma silhueta masculina com as mãos apoiadas sobre a barriga. Em primeiro plano, um desenho com parte do aparelho digestivo é sobreposto a tal silhueta, passando a ideia de apresentar quais órgãos encontram-se dentro do corpo daquele homem. Fim da descrição. Nas fezes, podem ser encontrados, além dos agentes tóxicos não absorvidos, produtos resultantes da biotransformação de várias substâncias provenientes do fígado, via sistema biliar. A bile possui importante papel na prevenção de intoxicação por substâncias tóxicas. Isso porque, quando tais substâncias são absorvidas no trato gastrointestinal, passam pelo fígado antes de atingirem a circulação sistêmica (Martinis et al., 2018, p. 61). No fígado, ocorre um processo chamado de "primeira passagem" ou "eliminação pré- sistêmica", no qual parte das substâncias metabolizadas fica armazenada na vesícula biliar, sendo posteriormente liberada no intestino em conjunto com a bile (Oga et al., https://br.freepik.com/fotos-gratis/colagem-de-problema-medico-com-sangue-nas-fezes_78913489.htm#query=excreç&%20amp;atilde;o&position=0&from_view=search&track=ais&uuid=1ac14928-a81e-40fa-9b2f-2097f5b89eb3#position=0&query=excreção 2014, p. 39). Uma vez no intestino, os xenobióticos e seus metabólitos podem sair do corpo por meio das fezes. INDICAÇÃO DE LIVRO Ademais, uma terceira via de excreção de bastante relevância é o ar exalado. Por meio dele, os pulmões eliminam gases e outros compostos voláteis utilizando-se da difusão simples. Sobre o assunto, explicam Martinis et al. (2018, p. 64): A capacidade de transferência do composto para o ar será proporcional à sua concentração no sangue. De maneira inversa à absorção, as substâncias que possuírem baixa solubilidade no sangue terão a excreção limitada pela perfusão sanguínea, enquanto as substâncias com alta solubilidade terão a excreção limitada pela ventilação. Os compostos voláteis com alta lipossolubilidade, por permanecerem depositados no tecido gorduroso, poderão ser eliminados pelo ar exalado em tempo muito posterior à exposição, pela baixa perfusão do tecido de armazenamento. SOBRE O LIVRO: O livro Toxicologia Forense, organizado por Daniel Junqueira Dorta, Mauricio Yonamine, José Luiz da Costa e Bruno Spinosa de Martinis, traz, em seu terceiro capítulo, a descrição completa dos fundamentos da termocinética, com especial destaque à rota de excreção dos xenobióticos por nosso organismo. Agentes tóxicos podem, ainda, ser excretados do organismo por intermédio do suor, da saliva, das lágrimas ou do leite. É importante ressaltar que quando a excreção ocorrer através do leite, ela poderá, inclusive, levar à intoxicação da criança amamentada ou daqueles que vierem a ingerir o leite da vaca e seus derivados que tenham sofrido contaminação. PENSANDO JUNTOS Você já parou para pensar nos processos por trás dos testes de detecção de drogas? Muitos desses métodos se baseiam em amostras biológicas, como urina, saliva e até mesmo o ar exalado, porque essas são vias de excreção das substâncias ilegais e contêm vestígios que permitem a verificação da presença dessas substâncias no organismo. Após consumir uma droga, o corpo as metaboliza e elimina resíduos através das vias de excreção. Portanto, ao analisar essas amostras, os testes podem detectar traços das substâncias, ajudando na identificação do uso de drogas. Observa-se, portanto, que conhecimentos em toxicocinética são necessários para a compreensão dos efeitos tóxicos de uma substância no organismo e do procedimento realizado pelo corpo humano entre sua absorção e excreção. Por meio de estudos aprofundados nessa área, é possível desenvolver estratégias mais eficazes para prevenir e mitigar os riscos associados à exposição a xenobióticos, promovendo, assim, a saúde pública e a segurança ambiental. EM FOCO Estudante, para expandir seus conhecimentos sobre o assunto abordado, gostaríamos de lhe indicar a aula que preparamos especialmente para você. Acreditamos que essa aula irá complementar e aprofundar ainda mais o seu entendimento sobre o tema. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. NOVOS DESAFIOS Como vimos até aqui, a toxicocinética tem como fundamentos a absorção, a distribuição, a biotransformação e a excreção de xenobióticos em nosso organismo. A compreensão de tais fundamentos é essencial para a correta interpretação de https://player.vimeo.com/video/1003338761?h=36617fc51d resultados de análises toxicológicas, além de permitir a identificação das rotas de exposição, concentração e eliminação de agentes intoxicantes. Exploramos quais as formas de exposição a xenobióticos, que podem ser por extensos períodos de tempo ou em apenas um episódio, e aprofundamos a análise de cada uma das principais formas de absorção de substâncias tóxicas pelo nosso organismo. Foi salientado que essa absorção pode ou não ser intencional, bem como ponderados os meios de distribuição da substância tóxica após seu contato com a corrente sanguínea. Num segundo momento, estudou-se o processo de biotransformação das substâncias e suas principais rotas de excreção. Por meio da correta combinação de tais conhecimentos, avança-se na possibilidade de determinação da causa da intoxicação de determinado indivíduo, além da possibilidade de se fornecer evidências em investigações criminais relacionadas a envenenamento, overdose ou outros crimes relacionados a drogas e produtos químicos. Ademais, com as informações aqui levantadas, você poderá auxiliar na educação do público em geral sobre os riscos associados ao uso de drogas, substâncias tóxicas e produtos químicos. Contamos com você! REFERÊNCIAS KLAASSEN, C. D.; WATKINS III, J. B. Fundamentos em Toxicologia de Casarett e Doull (Lange). Porto Alegre: Grupo A, 2012. MARTINIS, B. S. de; DORTA, D. J.; COSTA, J. L. da. Toxicologia forense. São Paulo: Blücher, 2018. OGA, S.; CAMARGO, M. M. de A.; BATISTUZZO, J. A. de O. Fundamentos de toxicologia. 4. ed. São Paulo: Atheneu, 2014. RIBAS, J. L. C. Toxicologia. 1. ed. São Paulo: Contentus, 2020. TEMA DE APRENDIZAGEM TOXICODINÂMICA: MECANISMOS DE AÇÃO TÓXICA E IDENTIFICAÇÃO DE CONTAMINANTESGiovanna Mizrahi Carcereri AUTOR MINHAS METAS INICIE SUA JORNADA O estudo da toxicodinâmica oferece uma visão ampla sobre como substâncias presentes em nosso cotidiano podem influenciar diretamente nossa saúde. Ao compreendermos os mecanismos pelos quais os produtos químicos interagem com nossos corpos, podemos entender melhor sobre os riscos potenciais e os efeitos que essas substâncias podem ter em nossa saúde em curto e longo prazos. Desde medicamentos que tomamos regularmente até os produtos de limpeza que utilizamos em nossas casas, a toxicodinâmica nos permite entender como esses elementos impactam nossos sistemas biológicos. Entender o conceito de toxicodinâmica.► Investigar as ações das toxinas nos sistemas biológicos.► Analisar a toxicidade de substâncias.► Identificar possíveis formas de exposição a substâncias tóxicas.► Conscientizar sobre os riscos associados à exposição a toxinas.► Avaliar os efeitos de substâncias tóxicas no organismo humano.► Entender as estratégias de mitigação dos efeitos tóxicos de substâncias.► A partir desses conhecimentos, o estudo da matéria nos oferece a oportunidade de tomar decisões informadas sobre o que consumimos e como nos expomos a diferentes substâncias em nosso dia a dia. Nossas escolhas serão, assim, mais conscientes e capazes de promover não apenas nossa própria saúde, mas também a saúde coletiva e o bem-estar do meio ambiente. Você costuma refletir sobre as substâncias que ingere? PLAY NO CONHECIMENTO Neste podcast, você será convidado a explorar as diferenças entre a toxicocinética e a toxicodinâmica, entendendo o que as tornam áreas distintas dentro da toxicologia. Após escutar o conteúdo, você estará apto a compreender quais conteúdos se relacionam diretamente com cada uma dessas matérias. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://w.soundcloud.com/player/?url=https%3A//api.soundcloud.com/tracks/1961386219&color=%23ff5500&auto_play=false&hide_related=true&show_comments=false&show_user=false&show_reposts=false&show_teaser=false&sharing=false&show_artwork=false&show_playcount=false VAMOS RECORDAR A toxicodinâmica está diretamente relacionada com as propriedades químicas das substâncias. No vídeo a seguir, são retomadas as rotulagens visuais utilizadas para indicar a classificação de produtos químicos potencialmente danosos: Clique aqui para acessar DESENVOLVA SEU POTENCIAL O QUE É TOXICODINÂMICA? A toxicodinâmica compõe, ao lado da toxicocinética, uma área maior, chamada toxicologia. Nesse contexto, podemos dizer que a toxicodinâmica se refere ao estudo dos processos pelos quais uma substância química afeta as funções bioquímicas e https://www.youtube.com/watch?v=s0698JS6oNk fisiológicas dos organismos vivos, investigando os mecanismos de ação envolvidos na toxicidade dessas substâncias (Oga et al., 2014, p. 42.) . É importante ressaltar que uma substância tóxica pode manifestar seus efeitos de maneira abrangente em todo o organismo, influenciar um tecido específico, comprometer um órgão determinado ou até mesmo mirar em uma célula ou molécula particular. Caberá à toxicodinâmica, assim, estudar os efeitos nocivos causados pelas substâncias em cada um desses meios, estabelecendo formas de restabelecer o adequado funcionamento do organismo contaminado. Nas palavras de Martinis et al. (2018): Uma vez que o agente tóxico ou seu metabólito alcança o seu alvo em concentração adequada, desencadeará alterações moleculares, bioquímicas ou fisiológicas que serão responsáveis por seu efeito tóxico (dano). A progressão do dano pode ser interceptada por mecanismos de reparo que agem em nível molecular, celular e tecidual. Contudo, o mecanismo de reparo pode falhar ou não ser ativado e, com isso, a toxicidade ser expressa. Alvo é o termo frequentemente usado para designar o sítio ou local do organismo com o qual o agente tóxico interage e apresenta a resposta biológica. Pode estar relacionado a uma molécula (DNA, proteína etc.), um receptor ou um órgão (cérebro, fígado, rim etc.). Nesse contexto, a toxicodinâmica é o estudo dos mecanismos de ação tóxica das substâncias químicas nos organismos vivos, incluindo sua reação e ligação com constituintes celulares-alvo. Observa-se, portanto, que a toxicodinâmica está relacionada com a quantidade do elemento tóxico que se encontra disponível em determinado meio, sendo capaz de produzir uma ação tóxica que acarrete efeitos nocivos advindos dessa intoxicação. Assim, a partir do estudo da toxicodinâmica, nos é permitido: AGENTES TÓXICOS De início, é importante ressaltar que agentes tóxicos não são substâncias restritas a laboratórios . Cotidianamente, são diversos esses tipos de agentes com os quais temos contato, seja no meio físico, químico, bioquímico ou farmacológico. Não raramente, o uso indevido de drogas recreativas, como álcool, tabaco e drogas ilícitas, pode representar riscos significativos para a saúde. Figura 1 – Drogas devem ter seu consumo evitado para não ocasionar danos à saúde avaliar os riscos da exposição a determinado agente tóxico;● estabelecer procedimentos preventivos para que essa exposição não cause efeitos danosos; ● estudar estratégias de tratamento para exposições inevitáveis;● desenvolver produtos menos tóxicos a organismos biológicos.● Fonte: https://br.freepik.com/. Acesso em: 21 ago. 2024. Descrição da imagem: desenho contendo um círculo vermelho com uma risca no meio, comumente utilizado em sinalização de trânsito para demonstrar ações proibidas, apresentando, em seu interior, diversos tipos de substâncias associadas a drogas lícitas e ilícitas como cigarros, garrafas de bebidas, isqueiros e seringa. Fim da descrição. https://br.freepik.com/vetores-gratis/composicao-sem-drogas_9398268.htm#fromView=search&page=1&position=3&uuid=7f7cc6c9-4733-477e-b8fb-b523aba9fc78 Da mesma forma, medicamentos prescritos podem conter substâncias potencialmente nocivas se usados de forma inadequada ou em doses excessivas. INDICAÇÃO DE FILME O ENFERMEIRO DA NOITE O filme O enfermeiro da noite é baseado no livro de suspense homônimo de Charles Graeber (Eddie Redmayne), no qual é narrada a história de perseguição a Charlie Cullen, profissional apontado como um dos assassinos em série mais perigosos de todos os tempos. A partir do ponto de vista da enfermeira Amy, o filme percorre as etapas da investigação dos casos de diversos pacientes internados em um mesmo hospital que, repentinamente, vieram a óbito, até concluir-se pela real causa das mortes. A história narrada permitirá ao aluno a compreensão de como a incorreta definição de características toxicodinâmicas de substâncias pode ser letal. É importante ponderar, ainda, que a exposição de muitas pessoas aos agentes tóxicos ocorre justamente no ambiente de trabalho, especialmente em ambientes que lidam com produtos químicos, materiais perigosos ou processos de fabricação que liberam substâncias prejudiciais. Esse é o caso, por exemplo, de trabalhadores em fábricas, laboratórios ou setores agrícolas que estão expostos a substâncias químicas tóxicas durante suas atividades diárias. A exposição ocupacional a agentes tóxicos pode ocorrer por meio da inalação de vapores ou poeiras, contato direto com a pele ou ingestão acidental de substâncias contaminadas (Ribas, 2020). Nesse contexto, é essencial estabelecer procedimentos claros para o armazenamento e manuseio seguro de substâncias perigosas, visando reduzir o risco de exposição acidental. Com a adoção de medidas de segurança adequadas e o fornecimento de treinamento para proteger os trabalhadores, os riscos a esses trabalhadores são consideravelmente reduzidos e, para a análise da melhor forma de definição dessas medidas, analisaremos na sequência os mecanismos de ação tóxica das substâncias nocivas. MECANISMOS DE AÇÃO TÓXICA São chamados mecanismos de ação tóxica os processospelos quais as substâncias tóxicas produzem efeitos adversos no corpo humano, alterando as condições fisiológicas das células . Trata-se de uma série de eventos encadeados, que se iniciam com a exposição à substância nociva e culminam com a manifestação do efeito tóxico no organismo. Sobre o assunto, explicam Klaassen et al. (2012, p. 32.): Primeiramente, o toxicante é liberado para o órgão-alvo ou alvos (etapa 1), interagindo com moléculas-alvo endógenas (etapa 2a) ou alterando o ambiente (etapa 2b), desencadeando perturbações na função e/ou na estrutura celular (etapa 3), as quais iniciam os mecanismos de reparo em nível molecular, celular e/ou em nível tecidual (etapa 4). Quando as perturbações induzidas pelo toxicante excedem a capacidade reparadora ou quando o reparo não funciona, a toxicidade ocorre. Necrose tecidual, câncer e fibrose são exemplos de toxicidade quimicamente induzida que seguem esse curso de quarta etapa. Ácidos fortes, bases e oxidantes, como ácido clorídrico, ácido sulfúrico, hidróxido de sódio, fenol e soluções de hipoclorito concentradas podem ser considerados tóxicos, causando irritação ou corrosão quando em contato com a pele humana. Figura 2 – Queimadura por contato com agentes tóxicos Fonte: https://br.freepik.com/. Acesso em: 21 ago. 2024. Descrição da imagem: a imagem mostra o corpo de uma pessoa a partir de seu pescoço, vestindo camiseta listrada e com os braços esticados para a frente. As mãos da pessoa estão em primeiro plano e se seguram, indicando a sensação de dor em uma mancha de aspecto avermelhado localizada no dorso de uma delas. Fim da descrição. Ademais, se inalados, esses mesmos agentes são capazes de atingir as vias aéreas, causando-as lesões celulares diretas e resultando em necrose, edema ou aumento de secreções. https://br.freepik.com/fotos-gratis/secao-mid-de-mulher-jovem-tendo-dor-em-mao-contra-experiencia-cinza_2982685.htm#fromView=search&page=4&position=1&uuid=ceff9a2b-be95-49b3-aa83-759e932b377e APROFUNDANDO O cloro e o fosgênio são exemplos de gases cuja inalação pode ser tóxica ao sistema respiratório. Isso porque, ao entrar em contato com a água, tanto o cloro quanto o fosgênio reagem produzindo ácido clorídrico, ocasionando danos cáusticos. Esses agentes, notoriamente, foram empregados conjuntamente durante a Primeira Guerra Mundial, dada sua densidade superior à do ar, o que facilitava sua rápida disseminação pelas trincheiras, compelindo os soldados a deixá-las. Esses fatos, emblemáticos do uso militar dessas substâncias, evidenciam seu potencial devastador em ambientes de conflito (Martinis et al., 2018). Há, ainda, a possibilidade de agentes tóxicos exercerem seus efeitos em alvos mais específicos, como lipídeos de membrana, proteínas ou mesmo DNA. Isso porque, embora alguns compostos exerçam seus efeitos nocivos indistintamente sobre quaisquer superfícies de contato, existem outros mais seletivos em seu modo de ação. Essa seletividade é justamente o que torna possível que apenas determinados fatores sejam combatidos por um xenobiótico, enquanto outros passam ilesos por sua ação. A título de exemplo, explicam Oga et al. (2014): Na agricultura, por exemplo, usam-se praguicidas seletivos para combater certos fungos e insetos, sem causar danos significativos às outras espécies vivas. Ademais, a toxicidade seletiva de certos inseticidas, usados em forma de spray, reside no fato de os insetos absorverem maior quantidade do agente do que o homem, pela sua maior área de superfície de contato em relação à massa corporal. Outra amostra cotidiana da toxicidade seletiva é relacionada à área médica, uma vez que os antibióticos exercem a seletividade que possuem justamente sobre microrganismos causadores de doenças. As penicilinas e as cefalosporinas, por exemplo, atuam especificamente nas estruturas das paredes celulares presentes nas bactérias e ausentes nas células animais. Figura 3 – Os antibióticos foram uma verdadeira revolução na medicina e atuam com a toxicidade seletiva Fonte: https://br.freepik.com/. Acesso em: 21 ago. 2024. https://br.freepik.com/fotos-gratis/farmaceutico-ajudando-a-mulher-na-escolha-do-medicamento_26676266.htm#fromView=search&page=1&position=12&uuid=3d8c7857-26ee-4b36-8707-bbb177f2c2ef Descrição da imagem: a imagem mostra uma cliente em uma farmácia recebendo orientações do farmacêutico para a compra de seus remédios. Fim da descrição. Quando estamos diante de uma situação de seletividade, a indução do efeito tóxico irá ocorrer através da interação do agente com as biomoléculas no local alvo que, consequentemente, dão origem a mecanismos específicos de ação tóxica. São exemplos de tais mecanismos a peroxidação lipídica, a inibição enzimática, a fosforilação oxidativa e a desregulação cálcica. INDICAÇÃO DE LIVRO SOBRE O LIVRO: Por meio da leitura do livro Toxicologia Forense, organizado por Daniel Junqueira Dorta, Mauricio Yonamine, José Luiz da Costa e Bruno Spinosa de Martinis, é possível aprofundar os conhecimentos em cada um dos mecanismos específicos de ação tóxica listados anteriormente. Em tal livro, as respostas químicas existentes na peroxidação lipídica, na inibição enzimática, na fosforilação oxidativa O REPARO MOLECULAR INADEQUADO Chama-se reparo molecular o processo intracelular estudado na toxicodinâmica que visa a correção de danos causados ao nosso organismo por substâncias tóxicas (Klaasen et al., 2012). A capacidade de reparo molecular desempenha um papel fundamental na resposta do organismo à toxicidade, ajudando a minimizar os efeitos prejudiciais das substâncias tóxicas e influenciando a gravidade dos danos causados. Trata-se, portanto, de uma estratégia vital de defesa celular contra os danos induzidos por toxinas, desempenhando um papel crucial na preservação da integridade do organismo frente a agentes agressores. Caso após o dano ocorram falhas no reparo molecular esperado, será manifestada a toxicidade. Figura 4 – Distribuição do xenobiótico e na desregulação cálcica são exemplificadas, permitindo o entendimento das diferenças e das semelhanças entre cada uma delas. Fonte: adaptada de Martinis et al. (2018). Descrição da imagem: organograma constando no topo e no centro a expressão “Agente tóxico” e, após uma flecha para baixo, um quadrado indicando “Alcance do tecido alvo”. Deste quadro, saem duas flechas em diagonais opostas, sendo uma para o quadro “Interação com a molécula alvo” e o outro “alteração do ambiente biológico”. Esses quadros encontram-se ligados por uma flecha que parte de “interação com a molécula alvo” para “alteração do ambiente biológico”. De cada um desses quadros, sai uma flecha na diagonal para baixo indicando novo quadro dizendo “disfunção celular”. Abaixo da “disfunção celular” vem novo quadro ligado a ele por uma flecha, agora dizendo “Dano” e, à direita do quadro “dano”, também indicado por uma flecha, o quadro “toxicidade”. Por fim, há um quadro indicando “falhas no reparo”, que possui uma flecha apontando para a flecha que liga “dano” e “toxicidade”. Fim da descrição. São diversas as maneiras pelas quais esse reparo pode acontecer. Algumas mudanças químicas, como a oxidação de grupos tióis em proteínas e a metilação do DNA, podem ser facilmente revertidas. A eliminação hidrolítica de unidades danificadas da molécula e a substituição por uma unidade recém-sintetizada são eventos frequentes em DNA quimicamente alterado e lipídios peroxidados. Ademais, em certos casos, a molécula danificada é completamente degradada e posteriormente ressintetizada (Klaasen et al., 2012). INDICAÇÃO DE LIVRO SOBRE O LIVRO: Para saber mais sobre os mecanismos de reparo utilizados em nosso organismo, recomenda-se a leitura do livro Fundamentos em Toxicologia de Casarett e Doull, de autoria de Klaassen e Watkins III. No referido livro, os principais desses A falha no processo de reparo geralmente ocorre quando o dano excede as capacidades dos mecanismos de reparo,ou quando as enzimas ou cofatores necessários estão esgotados (Klaasen et al., 2012). Em algumas ocasiões, a lesão causada pelo agente tóxico interfere diretamente no próprio processo de reparo. Além disso, certos tipos de danos tóxicos são irremediáveis, como no caso em que xenobióticos estão ligados covalentemente a proteínas (Klaasen et al., 2012). As consequências dessa falha poderão ocorrer em diversos níveis (molecular, celular ou tecidual) e manifestar-se de maneiras distintas. Algumas dessas maneiras encontram- se exemplificadas a seguir: NECROSE TECIDUAL A necrose tecidual é uma forma de manifestação da toxicidade que pode ocorrer quando os mecanismos de reparo celular são ineficientes e a lesão celular progride. Essa progressão poderá ser freada pela apoptose, juntamente com a proliferação celular. FIBROSE É uma falha no reparo do tecido lesionado caracterizada pela acumulação excessiva da matriz extracelular com ocorrência de mudanças na sua mecanismos são explicados não apenas com palavras, mas, também, com o auxílio de ilustrações. composição. título item 3 Pode ser causada pela transformação de células normais em células cancerosas não barradas por mecanismos de reparo. Sua evolução pode ser seguida por falhas na apoptose e proliferação celular descontrolada. Com a manifestação da toxicidade, torna-se necessário a busca por um antídoto ao seu efeito, que servirá como forma de neutralização do agente tóxico através da quelação, a administração de anticorpos específicos ou através de medicamentos que sejam antagonistas ao agente tóxico. EM FOCO Confira a aula referente a este tema. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. NOVOS DESAFIOS A compreensão dos conceitos essenciais da toxicodinâmica não só aprofunda nossa percepção sobre os efeitos das substâncias tóxicas no corpo, mas também aponta para direções futuras na pesquisa e na prática de profissionais da área. Entender como os agentes tóxicos interagem com os sistemas biológicos é crucial para avançar na https://player.vimeo.com/video/1003338782?h=d56c0b99f1 prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças relacionadas à exposição a essas substâncias nocivas. Além disso, o desenvolvimento de biomarcadores e testes diagnósticos mais precisos, baseados em conhecimentos toxicodinâmicos, pode permitir uma detecção precoce e intervenções mais rápidas, diminuindo a letalidade das intoxicações. À medida que avançamos para o futuro, a toxicodinâmica continuará desempenhando um papel vital na proteção da saúde humana e na promoção da segurança ambiental. Ao traduzirmos os avanços na compreensão dos mecanismos de ação tóxica em políticas de saúde pública, podemos garantir um futuro mais saudável e sustentável para as próximas gerações. REFERÊNCIAS KLAASSEN, C. D.; WATKINS III, J. B. Fundamentos em Toxicologia de Casarett e Doull (Lange). Porto Alegre: Grupo A, 2012. MARTINIS, B. S. de; DORTA, D. J.; COSTA, J. L. da. Toxicologia forense. São Paulo: Blücher, 2018. OGA, S.; CAMARGO, M. M. de A.; BATISTUZZO, J. A. de O. Fundamentos de toxicologia. 4. ed. São Paulo: Atheneu, 2014. RIBAS, J. L. C. Toxicologia. 1. ed. São Paulo: Contentus, 2020. TEMA DE APRENDIZAGEM TÉCNICAS DE ANÁLISE TOXICOLÓGICA: ENTENDENDO OS CUIDADOS COM A AMOSTRA BIOLÓGICA E SUAS INVESTIGAÇÕES LABORATORIAIS Giovanna Mizrahi Carcereri AUTOR MINHAS METAS INICIE SUA JORNADA A análise toxicológica desempenha um papel crucial no contexto pericial, fornecendo evidências que servem como ponto de partida para investigações judiciais. Por meio da detecção e identificação de substâncias tóxicas em amostras biológicas, os peritos responsáveis poderão determinar se uma pessoa foi exposta a substâncias prejudiciais, Discutir a forma de coleta de amostras biológicas para detecção de substâncias tóxicas. ► Analisar a forma de manipulação de amostras para análise toxicológica.► Explorar métodos de análise de substâncias tóxicas em contexto forense.► Compreender os critérios utilizados para garantir confiabilidade para análises toxicológicas. ► Entender o funcionamento de um laboratório de toxicologia forense.► Promover a compreensão da importância da correta análise toxicológica.► Analisar as diferentes técnicas utilizadas nos laboratórios de perícia toxicológica. ► facilitando, consequentemente, o estabelecimento de conexões entre suspeitos, vítimas e cenas de crime. Você já havia refletido acerca da importância da análise toxicológica para a fundamentação de decisões judiciais? É por meio da correta análise de substâncias biológicas que é possível a determinação da causa de mortes suspeitas. Isso porque, ao identificar a presença de substâncias tóxicas no corpo de uma vítima, é possível concluir se a morte em análise foi causada por envenenamento, overdose de drogas ou outras circunstâncias relacionadas à toxicidade. Dessa forma, conhecimentos laboratoriais em toxicologia, acompanhados da correta análise de materiais biológicos, são de extrema relevância para que a elucidação de crimes e mortes suspeitas possa ser realizada. PLAY NO CONHECIMENTO Neste podcast você será guiado através da análise dos tipos mais comuns de amostras biológicas utilizadas em contexto forense, quais sejam, a urina e o sangue. É a partir desses tipos de amostras que a maioria das análises toxicológicas laboratoriais relacionadas à investigação de crimes ou outras substâncias suspeitas podem ser realizadas. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://w.soundcloud.com/player/?url=https%3A//api.soundcloud.com/tracks/1961386575&color=%23ff5500&auto_play=false&hide_related=true&show_comments=false&show_user=false&show_reposts=false&show_teaser=false&sharing=false&show_artwork=false&show_playcount=false VAMOS RECORDAR A análise toxicológica pode ser uma das análises necessárias a ser realizada por um perito criminal, mas você se lembra de todos os contextos em que o trabalho de um perito criminal pode ser necessário? No vídeo a seguir, são retomados pontos importantes sobre o trabalho desse profissional. Acesse: Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. https://www.youtube.com/watch?v=hD3tEktYdQk DESENVOLVA SEU POTENCIAL TOXICOLOGIA FORENSE, O QUE É? A Toxicologia é uma área complexa, com diversas ramificações, e seus fundamentos podem ser aplicados em diferentes áreas do conhecimento. Uma delas é a toxicologia forense, que terá como foco, principalmente, a investigação criminal, onde se busca identificar e quantificar substâncias tóxicas presentes em amostras biológicas, como sangue, urina, tecidos, cabelo e saliva, para auxiliar em investigações legais. Nesse sentido, a toxicologia forense é de grande auxílio para descobrir as nuances de certos crimes, em investigações que envolvem casos de envenenamento, abuso de substâncias químicas entorpecentes, homicídios, acidentes domésticos, entre outros. Imagine que, por exemplo, um corpo é encontrado misteriosamente sem vida, sem sinais aparentes de agressão ou tentativa de roubo, com a vítima desacordada ao chão. Antigamente, casos como esse se transformavam em um verdadeiro mistério para descobrir a causa da morte e as condições de um possível crime, mas, graças à toxicologia forense, situações como essa podem ser facilmente descobertas, quando se identifica que, naquele caso concreto, houve um envenenamento, abuso de medicações, uso de drogas etc. O desenvolvimento da toxicologia forense cresceu tanto nas últimas décadas ao ponto de que sua aplicação atualmente já não se restringe aos homicídios, mas mesmo em investigações envolvendo agentes vivos. Se, por um lado, a investigação em agentes mortos traz causas sobre a morte, a análise em agentesvivos pode identificar nuances de crimes tentados ou consumados, que irão afetar diretamente o processo judicial: Sendo assim, a toxicologia forense tem por finalidade detectar e quantificar substâncias tóxicas, estando incluída no âmbito da toxicologia analítica. Até o século XX, a toxicologia forense restringia-se a identificar a origem tóxica de determinado crime, já atualmente, essa ciência atua em perícias, tanto no indivíduo vivo, para rastrear drogas de abuso e caracterizar um estado de toxicodependência, quanto no cadáver, para detectar overdose, reação anafilática a drogas. Castelari Et Al., 2018, P. 23 Para tanto, a toxicologia forense irá trabalhar especialmente na análise de órgãos colhidos em autópsias, fluidos biológicos como, por exemplo, o sangue, sêmen, secreções diversas, entre outros, tanto nos indivíduos vivos como nos que já se encontram mortos. Seu trabalho consiste principalmente entre a Toxicologia Regulatória, que trata da criação e do cumprimento da legislação do setor por meio de análises técnicas e científicas, quanto da toxicologia aplicada na prática de identificação de substâncias químicas causadoras de morte ou injúria (Castelari, 2018). O que se percebe, portanto, é que além de servir para trazer respostas às circunstâncias de mortes e delitos, a toxicologia forense também impacta de forma relevante o processo judicial . Uma vez utilizada como suporte em investigações e mesmo em fase de julgamentos, os resultados obtidos fornecem evidências científicas aos tribunais, com depoimentos de especialistas sobre os resultados científicos e apontando sua relevância para o caso concreto, podendo, inclusive, mudar completamente o resultado de um julgamento. As análises toxicológicas são de fundamental importância quando se pretende estabelecer o nexo causal entre um determinado evento e o evento tóxico. As análises toxicológicas servirão para justificar a condenação em diferentes áreas da Justiça, como a criminal, cível, esportiva ou trabalhista, conforme seu respectivo código (Oga; Camargo; Batistuzzo, 2021). Ou seja: o Código de Processo Penal e Código Penal irão tipificar o crime envolvendo as substâncias químicas, enquanto a CLT – Consolidação das Leis do Trabalho – irá analisar e tipificar a presença e uso das substâncias químicas nas relações de trabalho, enquanto o Código Civil e o de Processo Civil se deterão diante dos negócios jurídicos, e assim sucessivamente. O USO DE DROGAS E FÁRMACOS NO CONTEXTO FORENSE Nas últimas décadas, o Brasil tem se preocupado em adequar sua legislação ao cenário do tráfico e uso de drogas, sendo esse um dos principais desafios no âmbito da saúde e segurança pública no país. Por isso, tem criado legislações que buscam coibir essa prática, o que já está tipificado no Código Penal e de Processo Penal, sendo que a lei 11.343/2006, conhecida como Lei Antitóxicos, estabelece a necessidade de perícia nos chamados “crimes de vestígios”, em que o laudo pericial é emitido pelo órgão de polícia para atestar a materialidade do delito (Brasil, 2006). Além disso, a lei 13.840/2019, conhecida popularmente como “Nova Lei de Drogas”, enrijeceu diversas medidas do Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas, aumentando as penas para os crimes de tráfico de drogas e favorecendo a internação involuntária. No que diz respeito às perícias, é importante destacar que, para se adequar à legislação, é necessária a comprovação do delito via prova pericial, preservando o local do delito e as amostras para análise posterior, como mencionado no Código de Processo Penal - CPP (Brasil, 2019; Brasil, 2016). Art. 169. Para o efeito de exame do local onde houver sido praticada a infração, a autoridade policial providenciará imediatamente para que não se altere o estado das coisas até a chegada dos peritos, que deverão instruir seus laudos com fotografias, desenhos ou esquemas elucidativos. Art. 170. Nas perícias de laboratório, os peritos guardarão material suficiente para a eventualidade de nova perícia. Sempre que conveniente, os laudos serão ilustrados com provas fotográficas ou microfotográficas, desenhos ou esquemas. Brasil, 1941 Nesse sentido, a Anvisa distingue a definição e diferença entre drogas e entorpecentes, sendo importante pontuar uma vez que, no uso popular, ambos são tratados como sinônimos. Droga é a substância ou matéria-prima que tenha finalidade medicamentosa ou sanitária, como um medicamento de farmácia comum, por exemplo, sendo comum encontrarmos farmácias que se autodefinem como drogarias, apesar de um termo em desuso. Já o entorpecente é a substância que pode determinar dependência física ou psíquica relacionada como tal nas listas aprovadas pela Convenção Única sobre Entorpecentes, ou seja, as drogas como substâncias recreativas e nocivas. Mesmo assim, ambas podem causar dependência e influenciam o exame toxicológico. No entanto, o principal desafio que as forças policiais e os peritos têm encontrado é de reconhecer os efeitos das chamadas “Novas Substâncias Psicoativas” (NSPs), bem como de fármacos cada vez mais potentes, com efeitos colaterais de difícil detecção, exigindo atualizações constantes por parte dos analistas (Chasin, Lima, 2008). Nesse sentido, a fim de criar uma padronização do conhecimento, as substâncias analisadas por peritos e forças policiais são principalmente a maconha, crack e cocaína, anfetaminas como o ecstasy, opiáceos como heroína ou morfina, além das próprias NSPs e o próprio álcool, sendo importante conhecer os principais efeitos toxicológicos no organismo e por onde são detectáveis (Carvalho; Lima, 2012): ÁLCOOL O álcool é considerado uma droga lícita e psicotrópica, ou seja, que age principalmente no sistema nervoso central. Ele irá agir no sistema nervoso ocasionando distúrbios neurológicos, alterações de memória, podendo agir também no sistema cardiovascular, provocando arritmias cardíacas agudas, aumento da pressão arterial (o que pode ocasionar infarto), além de agir no sistema gastrointestinal, provocando gastrite, úlceras, cirrose, hepatite, etc. Neste sentido, o álcool pode ser medido em perícias pelo sangue, fluídos orais, urina, etc. O etanol proveniente das bebidas é uma molécula pequena que atinge de forma fácil todos os órgãos e tecidos, sendo que causa efeitos em praticamente todo o corpo. COCAÍNA A cocaína pode ser inalada, injetada ou fumada. Popularmente, esta droga é inalada, sendo que ultrapassa a mucosa do nariz até chegar aos vasos sanguíneos, sendo impulsionada pelo coração até o cérebro. Desta forma, a cocaína e as anfetaminas agem interferindo na comunicação entre os neurônios, trazendo a sensação de euforia, agitação, suor, taquicardia, etc. Os sistemas orgânicos mais afetados são o coração e as artérias, o cérebro e os pulmões. A substância pode ser identificada na urina e no sangue, bem como em salivas e secreções. MACONHA A substância tetrahidrocanabinol, chamada de THC, é uma das propriedades psicoativas da maconha. Esta substância está ativa nas plantas fêmeas que dão origem às flores da maconha, tendo o STF especificado em 2024 a quantidade máxima de 40g ou seis plantas fêmeas de maconha como parâmetro para diferenciar usuários de traficantes. Já a planta macho possui pouca quantidade da substância e é usada para outros fins. A maconha é metabolizada no fígado, sendo lipossolúvel e armazenada no tecido adiposo, o que prolonga ainda mais o seu efeito. Consumida por meio do fumo, seu efeito é rápido, sendo cerca de dez minutos, sendo que, depois da primeira hora, os efeitos já começam a reduzir. Mesmo assim, como sua liberação dos tecidos adiposos é lenta, é possível encontrar vestígios em exames de urina semanas após seu uso, sendo possível ser detectada pela queratina (pelos, cabelos), observando que se dissipa mais rapidamente no sangue, o que a torna mais difícil de ser detectada por esta via em fumantes eventuais, a não ser em usuários frequentes. Seusprincipais efeitos no sistema nervoso são o leve estado de euforia, relaxamento, risos, sendo os olhos avermelhados e boca seca outros efeitos mais visíveis no corpo. CRACK O crack é fumado e o seu processo de absorção pelo corpo é muito rápido, sendo praticamente instantâneo, partindo dos pulmões para o cérebro. Como comparação, em dez a quinze segundos os primeiros efeitos do crack já ocorrem, enquanto os efeitos após cheirar o “pó” de cocaína, de dez a quinze minutos. A droga tem efeitos principalmente na área do cérebro responsável pela satisfação após um desejo (como por exemplo beber água após estar com muita sede), prejudicando o sistema nervoso e cardiovascular, além do pulmão, coração e sistema digestivo. Sua principal forma de detecção é pelo exame de pelos e cabelos, sendo possível o identificar em períodos longos, no chamado “Exame Toxicológico de Larga Janela de Detecção”. NSPs São substâncias sintéticas produzidas em laboratórios, que podem imitar efeitos de drogas diversas, com LSD, ecstasy, cocaína e maconha, sendo que no período de 2009 a 2021, foram reportadas a identificação de 1.124 novas substâncias, o que torna muito difícil precisar o efeito que cada uma destas substâncias traz ao organismo. Por isso, grupos de estudo têm sido promovidos por universidades, peritos e polícias do Brasil a fim de desenvolver estratégias de identificação química destes ativos no organismo (Dias, 2023). INVESTIGAÇÃO POST MORTEM Uma das principais atividades da Toxicologia Forense será sua aplicação na investigação médico-legal, nas chamadas análises post mortem, ou seja, análises pós- morte. Dessa forma, a análise médico legal serve para propósitos principalmente relacionados à determinação de causas e circunstâncias de mortes e ferimentos, além de outros aspectos biológicos que possam ter implicações legais. Dentro das análises post mortem, diversas nuances de um fato podem ser investigadas, como, por exemplo: a determinação da causa da morte, a estimativa do tempo de morte, a identificação de corpos, análises de ferimentos e traumas, identificação de toxinas e substâncias que, como visto, podem servir como provas em processos judiciais e impactam de forma relevante no processo. No contexto das análises médico legais, o sangue será o principal espécime a ser coletado, o que não exclui que outras substâncias também possam ser utilizadas em uma perícia, levando em consideração o que está disponível dentro do caso concreto: Em análises toxicológicas post mortem, muitos são os espécimes que podem ser coletados por ocasião de uma necropsia. O analista deve selecioná-los de acordo com o histórico do caso e as circunstâncias do evento. [...] O sangue é o espécime mais comumente utilizado na quantificação de análises post mortem, pois a interpretação de resultados tem como base os níveis sanguíneos ou extrapolados para esse fluido. Oga; Camargo; Batistuzzo, 2021, P. 771 No entanto, haverá casos em que a coleta de sangue não será possível, especialmente em situações de corpos em estado de putrefação avançada e corpos carbonizados. Em situações como essas, deverão ser feitas coletas de materiais alternativos, como o humor vítreo, encontrado nos olhos, fazendo sua correlação com o sangue, sendo de fácil coleta e amplamente utilizado em perícias no Brasil já desde a década de 1960. Também é possível a utilização de amostras de tecidos para confirmação de resultados ,e pelos corpóreos e cabelos, da mesma forma, em especial em casos de análises toxicológicas de drogas. INDICAÇÃO DE FILME O SILÊNCIO DOS INOCENTES Um dos filmes clássicos do cinema contemporâneo a dar espaço para o trabalho de perícias forenses é O Silêncio dos Inocentes. Nele, uma jovem investigadora busca por um serial killer que remove partes da pele de suas vítimas, sendo que os corpos são encontrados em diferentes circunstâncias e analisados pelos peritos que auxiliam na busca por pistas. É o filme que popularizou a figura de Hannibal Lecter no cinema. LABORATÓRIO PARA ANÁLISES TOXICOLÓGICAS FORENSES Depois que a coleta do material é feita, é necessário que receba o tratamento adequado em um laboratório de toxicologia forense. Será nesse ambiente que será possível a detecção e identificação das substâncias tóxicas, bem como a interpretação de seus resultados, dando o devido suporte às investigações criminais e processos judiciais. Nesse sentido, existe uma série de procedimentos técnicos desde o momento em que o material chega ao laboratório. Primeiramente, as amostras passam por um período de isolamento e concentração. A partir daí, podem ser feitos procedimentos de hidrólise, remoção de proteínas e lipídios, além de extrações diversas. Na sequência, o material recebe a triagem e o tratamento. Os toxicologistas iniciam as análises com alguma técnica de triagem, com a finalidade de detectar os compostos de interesse forense. Geralmente, aplica-se técnica de imunoensaio, mas métodos cromatográficos também são muito usados para triagem toxicológica. Em caso de resultado positivo nos exames de triagem, deve-se utilizar uma técnica confirmatória, para fins de identificar definitivamente o analito detectado e/ou quantificá-lo, utilizando-se comumente técnicas cromatográficas como a CG-EM e a cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas sequencial. CL-EM/EM) (Brasil, 2023, P. 24 A partir desse momento, haverá técnicas específicas visando à triagem e à confirmação, podendo-se destacar, principalmente (Brasil, 2023): IMUNOENSAIO Técnica realizada para detectar e quantificar substâncias específicas, como hormônios, proteínas, anticorpos e antígenos, em amostras biológicas, se baseando na especificidade das reações antígeno-anticorpo, onde um anticorpo específico é utilizado para reconhecer e se ligar a um antígeno alvo. São amplamente utilizados em diversas áreas para além da toxicologia forense, incluindo diagnóstico clínico, pesquisa biomédica e controle de qualidade em indústrias farmacêuticas e alimentícias (Brasil, 2023). CROMATOGRAFIA EM FASE GASOSA Técnica analítica utilizada para separar e analisar compostos voláteis em uma amostra, sendo muito recomendada para a análise de pequenas moléculas voláteis, como fármacos, drogas de abuso e substâncias voláteis como o próprio etanol, o que a torna eficaz no contexto forense. Também é amplamente utilizada além da toxicologia forense em química analítica, bioquímica, controle de qualidade e diversas outras áreas da ciência e da indústria (Brasil, 2023). CROMATOGRAFIA LÍQUIDA ACOPLADA À ESPECTROMETRIA DE MASSAS Técnica poderosa que combina as capacidades de separação da cromatografia líquida (LC) com as capacidades de detecção e identificação da espectrometria de massas (MS), o que irá permitir a análise de uma ampla variedade de compostos com alta sensibilidade e especificidade, detectando, em detalhes, drogas, toxinas em sangue, urina e saliva, além de situações de envenenamento (Brasil, 2023). Posteriormente, é chegado o momento de realizar a interpretação dos achados, ou seja, obter as respostas que os exames das amostras trazem sobre o caso em questão. Um dos maiores desafios na toxicologia reside justamente no contexto médico-legal, onde a análise tenta relacionar os resultados analíticos com o verdadeiro estado fisiológico no momento da morte. Como visto, após a morte, as condições físicas e químicas do corpo mudam gradativamente, resultando em alterações de pH, ruptura de membrana celular, produção de substâncias, liberação de enzimas e migração de medicamentos. À medida que o processo de decomposição avança, a condição corporal torna-se cada vez mais diferente daquela observada no momento da morte, dificultando a interpretação dos dados das análises toxicológicas. INDICAÇÃO DE LIVRO SOBRE O LIVRO: O livro A Perícia Médico-Legal Aplicada à Área Criminal traz um panorama interessante sobre o trabalho pericial, sendo uma obra acessível erecomendada aos peritos forenses, bem como a qualquer interessado pelo tema. Além de Justamente por esse motivo, é desejável que o perito e médicos legistas realizem a retirada das amostras nas regiões do corpo recomendadas, a fim de não dificultar ainda mais a análise laboratorial, especialmente quando forem amostras de sangue no caso das análises post mortem. Nesse sentido, é importante ressaltar que muitas análises são comprometidas não pela falta de qualidade do material retirado devido à condições desfavoráveis envolvendo o estado de composição ou intempéries do tempo, por exemplo, mas, sim, da própria falta de cuidado dos profissionais que farão a retirada dos materiais, sendo que essa etapa não se trata de um mera atividade de rotina protocolar, mas exige destreza e método adequado (Brasil, 2023). ressaltar o impacto que essa atividade tem na esfera judicial, aborda também alguns temas relacionados à Criminologia. EM FOCO Acesse seu ambiente virtual de aprendizagem e confira a aula referente a este tema. Clique aqui para acessar Conteúdo de áudio/vídeo não patrocinado. Este recurso utilizará seu pacote de dados (ou wifi) para ser exibido. NOVOS DESAFIOS Como visto, a toxicologia forense é uma área do conhecimento que possui uma vasta aplicabilidade, sendo que o perito forense desempenha um papel vital no sistema de justiça, aplicando conhecimentos científicos e técnicos para esclarecer fatos e fornecer evidências objetivas em investigações criminais e civis. https://player.vimeo.com/video/1003338586?h=0d07018154 Uma perícia toxicológica forense não se trata apenas de um acessório no processo ou uma informação extra para facilitar a análise de algum delito. Pelo contrário, muitas vezes, a resolução de um caso irá depender totalmente de uma perícia bem feita do ponto de vista técnico e dentro do tempo adequado. Nesse sentido, o perito deve estar preparado para atuar no âmbito da investigação criminal, fornecendo análises baseadas em métodos científicos, o que contribui para a objetividade das investigações na análise de substâncias químicas no corpo para detectar drogas e toxinas. Da mesma forma, a atuação da perícia toxicológica terá importância na elaboração de exames detalhados que documentam análises e conclusões, servindo como evidências fundamentais em processos judiciais, além de não ser descartada sua participação como testemunhas especialistas em processos e juris, explicando suas análises técnicas e científicas de maneira compreensível para juízes, jurados e advogados, ajudando a formar uma base sólida para decisões judiciais, sendo que a precisão e a credibilidade de suas análises são fundamentais para a integridade do sistema judicial. Como visto, os desafios são de grande importância e determinantes, muito maiores do que o observado no senso comum e no imaginário popular, em que as perícias toxicológicas nem sempre são retratadas com a real importância que possuem, tratadas, na maioria das vezes, como simples adereços das investigações policiais. No dia a dia, a responsabilidade é alta e complexa, tanto no momento da retirada de material quanto nas análises laboratoriais, em um contexto em que novas substâncias são desenvolvidas e exigem, por parte do profissional perito, constante aperfeiçoamento, concentração e diligência. REFERÊNCIAS BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 13 out. 1941. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/. Acesso em: 31 jul. 2024. BRASIL. Fundamentos de toxicologia forense, análise toxicológica de etanol em sangue, alcoolemia e outros solventes orgânicos voláteis. [S. l.: s. n.], 2023. Disponível em: https://transpor.senad.ufsc.br/. Acesso em: 31 jul. 2024. BRASIL. Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas – Sisnad; prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelece normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas; define crimes e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 24 ago. 2006. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/. Acesso em: 31 jul. 2024. BRASIL. Presidência da República. Lei nº 13.840, de 5 de junho de 2019. Altera as Leis nº 11.343, de 23 de agosto de 2006, para dispor sobre o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas e as condições de atenção aos usuários ou dependentes de drogas e para tratar do financiamento das políticas sobre drogas, nº 7.560, de 19 de dezembro de 1986, nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997, nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, nº 8.315, de 23 de dezembro de 1991, nº 8.706, de 14 de setembro de 1993, nº 8.069, de 13 de julho de 1990, e nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 6 jun. 2019. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/. Acesso em: 31 jul. 2024. https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-3689-3-outubro-1941-322206-publicacaooriginal-1-pe.html https://transpor.senad.ufsc.br/TraNSPor_M5_Material%20complementar_Reoferta.pdf https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11343.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Lei/L13840.htm BRASIL. Presidência da República. Projeto de Lei n. 176, de abril de 2016. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/. Acesso em: 31 jul. 2024. CARVALHO, A.; LIMA, D. Matrizes Biológicas para Análise de Cocaína. Belo Horizonte: Faculdade de Farmácia da UFMG, 2012. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/. Acesso em: 31 jul. 2024. CASTELARI, G. M. et al. Toxicologia forense: ciência multidisciplinar que abrange o estudo das causas de mortes por intoxicação e os materiais biológicos utilizados para esse fim, que direcionam a investigação médico-legal e a emissão do laudo toxicológico. Rev. 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Geralmente, ao se utilizar do termo “financeiro” em alguma coisa, logo Entender o conceito de juros.► Entender a diferença entre juros simples e compostos.► Compreender o conceito de matemática financeira.► Entender a aplicabilidade da matemática financeira.► Conhecer os principais elementos da matemática financeira.► Entender o que são investimentos.► Compreender a análise de investimentos.► pensamos que se trata de uma área do conhecimento restrita aos especialistas