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Sponholz 40-52 parte 2

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Do ponto de vista construtivista, o investigador (...) vai consi 
derar cada declaração mais como uma versao, que conta uma 
história. Nem toda versáo tem a mesma validade (...). Deca 
rações não discutidas reivindicam validade, ou seja, elas são 
avaliadas como corretas de acordo com as medidas do pata 
mar do conhecimento atual (na linguagem da lógica da argu 
mentação como "verdadeiras"). A característica principal da 
averiguação é, portanto, (..) consenso. (Haller, 1993, 144f.) 
Weischenberg (1992a, 167) completa que objetividade não é uma 
questão de verdade ou aproximaç�o da realidade, mas sim de 
credibilidade, confiança ou utilidade. 
A função do jornalista não seria mais conhecer a realidade, mas 
Sim fornecer uma interpretação conveniente da realidade. Sua medi 
da nãoé mais a verdade, mas sim se esta interpretação pode ser útil 
para as pessoas (cf. Schönhagen, 1998, 250). Homogeneidade ou 
variedade daquilo que se titula como saber passa a ser socialmente 
reguladoe não através do conhecimento, comno na perspectiva realis 
ta (Neuberger, 1996, 187). 
Seé verdade o que a sociedade reconhece como tal, então a verdade 
é ou o conjunto de todas as afirmações possíveis ou tudo aquilo com o 
que a sociedade concorda (consenso). No primeiro caso, todas as fon 
tes que a sociedade entende como `competentes" ou "aceitáveis (de 
acordo com as regras sociais), devem ser ouvidas. Todo "conhecinmen 
t¡", ou melhor, todas as "verdades" são igualmente legitimas. Não hà 
diferença entre o tcor de realidade das diferentes versões. 
No segundo caso, passa a ser verdade tudo aquilo que todos ou 
pelo menos a maioria acredita que é. As consequências para O jornd lismo säo claras: como não se pode conhecer a realidade, todas as 
afirmaçoes são válidas. Conscquentemente, não se poderia mus taar 
em manipulação na mídia. 
A primera possibilidade parte do pressuposto de que todas as declaraçoes säo igualmente verdadeiras, até mesmo quando elas se contradizem, o que na realidade não é possível. Dårante a tentat1va de golpe em abril de 2002, o presidente venezuelano Hugo Chávez 
40 
se encontrava ou na Venezuela ou em Cuba. Não é possível que Hugo 
Chávez tenha estado em ambos os países n mesmo momento. Ambas 
as afirmações não podem ser verdadeiras, independente da posição 
política do jornalista ou do veículo para o qual trabalha. A outra 
possibilidade é que ambas sejam falsas (cf. também Sokal, 1997). 
Com a segunda alternativa � verdadeiroéaquilo que todos pensam 
que oé-a busca da realidade se torna supérfluaea sociedade é conde 
nada a ficar no mesmo patamar de conhecimento. Para a maior parte 
dos norte-americanos brancos no século XIX, as pessoas negras vitimas 
de linchamento eram "de fato" sequestradores de mulheres brancas, 
como foi divulgado, embora não houvesse indícios ou provas para isto 
(cf. Mindich, 1998, 118). Esta hipótese, no entanto, era falsa, Como 
Ida Wells mostrou (cf. pluralismo ou fairness neste capítulo). 
Apesar das críticas, o construtivismo apresenta uma contribuição 
imprescindível para entender o problema da objetividade. Ele revela 
a condição de construção da realidade pelos meios de comunicação, 
mostrando claramente porque a teoria de espelhamento é equivoca 
da. Evidentemente a realidade midiática não é igual à realidade pri 
mária, mas sim uma representação desta. Isto não significa, no en 
tanto, que não é possível haver uma correlação entre ambos os tipos 
de realidade. 
2.10 Posição "realista" 
Para os defensores desta concepção, o que está no centro das dis 
cussões éa relação entre as realidades midiática e social. Ao contrário 
dos construtivistas radicais, eles afirmam que é possível ter acesso à 
realidade. Se jornalistas podem conhecer a realidade social, também 
é possível estabelecer uma correlação entre esta e a realidade que estes 
profissionais produzem. Mais do que isso: o grau de concordância 
entre ambas pode ser medido. 
Para medir a "objetividade" da mídia, cles se valem de "indicadores 
de realidade". Estes podem ser utilizados como "medidas de objetivi 
dade" em comparações intra e extramidiáticas (Donsbach, 1990. 21). 
41 
Em comparações intramidiáticas, pode-se observar tanto comna 
rações entre veículos e meios quanto Comparações dentro de um mecs 
veículo. Compara-sc, por exemplo, a cobertura jornalística de ur 
mesmo acontecimento em dois Jornais irerentes ou entre os iornaic 
eaTV. No caso das comparaçöcs dentro do mesmo veículo, trata.ce 
dos chamados cstudos de sincronização. Neste tipo de estudo. com 
para-se a linha editorial do veículo (através dos seus editoriais) c 
as notícias produzidas sobreo tema na tentativa de diagnosticar uma 
possível correlação entre as posiçõcs políticas apresentadas em ambos 
os formatos (cf., por exemplo, Schönbach, 1977). 
A validade de comparações intramidiáticas em mensurar a con 
cordância entre as realidades midiática e social é, no entanto, discu 
tível. Nestes estudos, mede-se consonância ou dissonância midiática 
e não adequação à realidade. Se as notícias de diferentes veículos tra 
zem as mesmas informações, isto pode advir, por exemplo, do fato de 
a busca de informação ser limitada politicamente (no caso de ditadu 
ras) ou por fatores de produção jornalística (todas se baseiam, por 
exemplo, na mesma fonte e não podem ser averiguadas com um se 
gundo informante). 
A comparação entre coberturas jornalísticas só têm validade para 
apontar diferenças com relação ao que de fato aconteceu se houverem 
dissonâncias no caso de informações no nível factual. Se dois jornais 
ou o jornal e a TV trazem informações desencontradas sobre o que. 
COn quem, quando e onde de um mesmo acontecimento, pode-se 
cluir de que pelo menos uma parte da notícia não é objetiva. lais 
comparações só são válidas neste nível. 
Sc notícias diferentes sobre um mesmo acontecimento aprescu 
tam versões diferentes sobre como e por que, isto não é necessara 
mente umn problema de objetividade, uma veZ que rcspostas a Cstas 
questQes não podem podem ser clasificadas na escala falsoBcorreto. O fato 
de um jornal tender para a esquerda ou para a direita, noticiar de 
torma pOSItiva ou negativa (cf. Westerstahl, 1983) não diz nada so 
bre o teor de realidade do seu noticiário. 
42 
A alternativa a estes estudos seriam as comparações extramidiáticas, 
também denominadas de análises de input e output. Neste caso, pro 
cura-se observar contradições entre as realidades midiática e 
extramidiática, seja csta advinda de vivências pessoais ou de outros 
tipos de realidade secundária, mas não-midiática, como, por exem 
plo, estatísticas e pareceres de experts (cf. Donsbach 1990, 21). No 
primeiro caso, compara-se por exemplo a experiência de pessoas que 
participaram diretamente de um comício com a das que o vivenciaram 
pela TV (ct. Donsbach, 1993). 
Um exemplo de estudos de comparação extramidiática conduzi 
dos com base em dados estatísticos foi a análise de conteúdo realiza 
da pelo Medien Tenor Institut em 1996. Neste estudo, o instituto 
comparao número de crimes de extrema-esquerda e pela extrema 
direita cometidos na Alemanha segundo o relatório da 
Bundesverfassungsschutz (serviço nacional de inteligência alemão) 
com os temas das notícias sobre estes crimes em jornais, revistas e 
programas de TV. Os autores do estudo chegam à conclusão de que 
os meios de comunicação analisados tematizam mais frequentemen 
te crimes de extrema direita, enquanto as estatísticas do relatório 
mostra que o número de crimes cometidos pela extrema esquerda 
seja maior (Medien Tenor, 1996). 
O estudo de Donsbach (1999a) combina estatísticas econômicas 
com prognose de experts, que valem como indicadores extramidiáticos 
de realidade para analisar o teor de realidade da cobertura jornalística 
de cconomia durante as cleições parlamentares alem�s de 1998. Nes 
tas campanhas eleitorais, temas econômicos, sobretudo sobre o mer 
cado de trabalho, foram tematizados de forma intensiva. Donsbach(1999a) chegou à conclusão que a mídia mostrou, sobretudo, uma 
tendéncia negativa no desenvolvimento do mercado de trabalho, 
embora a prognose dos experts tosse mais positiva. Prognoses foram 
apresentadas ao lado de dados estatísticos para mostrar que o desem 
prego nos anos 90 - periodo em que o pas toi governado pelo 
chanceler Helmut Kohl (1982-1998)- havia reduzido e que um 
crescimento cconomico estava por vIr: 
43 
Este noticiário não cspellhou nccessariamente o estado real da 
cconomia. A desCrição fíúncbre do mercado de trabalho aba. 
teu as prognoses ligeiramente otimistas sobre o desenvolvi. 
mento daquele e as apresentações positivas do estado e do 
desenvolvimento da situação econômica. Com isso, a mídia 
desacoplou a conexão causal entre ambos. (Donsbach, 1999a. 
73. grifo de L.S.) 
Donsbach observou ainda que as causas do desemprego não fo 
ram tematizadas em praticamente nenhuma matéria sobre o merca 
do de trabalho. Dentro deste quadro, pôde-se concluir que o candi 
dato da oposição na época, Gerhard Schröder, saiu beneficiado. 
Tais "comparações de realidade já foram criticadas duramente 
(cf., sobretudo, Schultz, 1990). A primeira crítica a ser feita é que, 
para medir "objetividade", é preciso ter claramente definido o que se 
entende como tal: 
A validade das chamadas medidas de objetividade depende de 
como se define a tarefa por meio da quala mídia deve retratar 
a realidade (..) Cada uma destas chamadas medidas é válida e 
legítima dentro dos limites de dois aspectos: Primeiro, o pes 
quisador deve deixar claro de qual norma político-comunicati 
va e democrática ele parte (...). Segundo, é necessário avaliar 
até que ponto os critérios internos e externos podem ser utili 
zados dentro da temática específica dos conteúdos midiáticos 
(a ser analisada). (Donsbach, 1990, 24-25) 
Na falta de uma definição clara, objetividade é associada a noções 
que nao tem necessariamente ou qualquer ligação com o problema 
da corrclação entre as realidades midiática e social. Em muitos casos, 
pressupQe-se implicitamente uma "teoria do espelho". 
4 Se o cenáno económico que Donsbah apresenta como "rea' realmente correspondeu 
realidade ou se o candidato itado foi de fato beneticiado pela coberura jornalísica sao 
qucstoes que nao pode) ser discuidas aqui. O que se clconra no cenro das atençöes aqui 
sao os DSTUDCDtOS de mesuraçá0 de una conCordàucia cnre as realidade midiáuca e 
social, bem cono sua validadc. 
Como consequência desta postura implícita, acaba-se por ignorar 
o status da mídia como instância mediadora entre a realidade e o seu 
público ao exigir que a realidade midiática se iguale à primária, que 
Ihe serve como base. Vivenciar um comício ao vivo não é e nem pode 
ser o mesmo que assisti-lo pela TV. Portanto, o que se mede com este 
tipo de comparação não é o grau de correlação entre ambas as reali 
dades, mas sim as diferenças de percepção em uma vivência direta e 
outra secundária. 
No caso do estudo conduzido pelo Medien Tenor Institut, obser 
va-se nitidamente que a falta de uma definiçáo intersubjetiva os im 
pede de analisar de fato a relação entre as realidades midiática e soci 
al. A mídia pode noticiar intensivamente sobre criminalidade, mas 
não vai conseguir espelhar a complexidade deste problema. O co 
nhecimento produzido pelo jornalista é marcado pelas mesmas ca 
racterísticas básicas do conhecimento humano. Todo e qualquer co 
nhecimento - inclusive o produzido pela mídia � deve ser tratado 
como seletivo, perspectivo e construtivo (Bentele, 1982, 124). � 
impossível conhecer a realidade como um todo. Por isso, seleção é 
uma estratégia humana de conhecimento. 
No estudo deste instituto, mensurou-se os critérios de relevância 
utilizados na cobertura jornalística. (cf. relevância neste capítulo). 
Estes critérios não podem ser justificados com relação ao seu teor de 
realidade. Eles se baseiam na questão sobre o que é importante e não 
sobre o que é real (cf. Neuberger, 1996, 89). Para tornar isto claro: o 
fato de a mídia alem� noticiar mais sobre extremistas de direita não 
significa nem que os crimes desteS não exiStam nem que não haja 
extremistas de esquerda. 
Além disso, enquanto a concordância de uma declaraç�o (descri 
tiva) com a realidade pode ser verificada independente de um único 
sujeito (cf. capítulo 3), é discutível se pode-se definir o que é impor 
tante de maneira intersubjetiva. 
Outro problema que esta postura implícita de uma teoria do es 
pelho traz consigo é a ideia de que a realidade midiática não retrata 
fielmente a realidade social, mas outras tentativas de reconstrução 
45 
desta o fazem. Quando se compara dados estatísticos com a realidade 
primeiros espelham a realidade 
midiática, pressupõe-se que $ 
Winfried Schulz argumenta com raz�o que estatísticas também sa 
construcões da realidade (Schulz, I990, 25). Por que estas teriam 
um teor de verdade maior do que a realidade midiática? Seriam elae 
por acasO menos influenciadas por interesses, limites ou possibilida 
des de conhecer a realidade do que a produção jornalística? E por qué 
a realidade midiática deveria ser igual a clas? 
As conexões entre dados econômicos diferentes traçadas por experts 
não precisam ser espelhadas pela mídia (c. Klammer, 1999), já que 
verdade. Além disso, é estes profissionais também não possuem a 
altamente discutível se é possível falar-se sobre a posição dos experts. 
Neste grupo, também há diferentes posições e estas fontes podem 
fornecer explicações diferentes. 
Estatísticas podem ser instrumentos importantes para aproximar 
se da realidade e revelar muitas coisas, mas dados também são so 
mente instrumentos que jornalistas utilizam para testar suas hipóte 
ses. Eles não são a priori a realidade primária. Um índice de desem 
prego não é o desemprego em si. 
Uma comparação entre estatísticas (como representação fiel da 
realidade) e a realidade midiática só tem sentido se estes dados fun 
cionarem como a realidade primária a ser apresentada pela mídia. 
Concretamente falando, uma notícia sobre o índice de desenmprego 
Corresponde à realidade social se noticiar sobre este índice correta 
mente, mas esta correspondência OCorre neste caso em uma notiCU 
sobre o indice, e não sobre o desemprego em si. Neste caso, uma 
comparação é possível e faz sentido. 
Além disso, em análises tanto incra quano extrammidiáicas, un 
comparação só é válida se permanecer no nível facual, uma vez que 
causs e consequénGas näo sao, via de regra, passíveis de serem 
verificadas, ultrapassando o limite das possibilidades de estabelecer 
uma concordáncia com a realidade. Esta esá limitada a declaraçoes 
do tipo descritivo (c. Searle, 2004, 58: Popper, 2000, 53: Rokeach. 
1968, 113). 
46 
Neste caso, é possível mensurar a adequação da realidade midiática 
à social. Se o menino dependente de drogas descrito na reportagem 
existe', se os tais diários foram realmente escritos por Hitler, isto 
pode ser averiguado. 
As condições imprescindíveis para a cientificidade de tais compa 
rações s�o: a) uma clara posição com relação ao processo de conheci 
mento (por exemplo, é possível conhecer a realidade?); b) a conside 
ração das suas características inerentes (seleção, perspectividade, cons 
trução); c) um conceito preciso e intersubjetivo de objetividade e d) 
uma definição explícita do que consiste na realidade primária no caSO 
a ser analisado. 
Além disso, como estes estudos se concentram pratIcamente so 
com o problema da objetividade textual, ou seja, com a representa 
ção da realidade pela mídia, eles só contribuem limitada e indireta 
mente para entender o problema da objetividade jornalística, ou seja, 
da busca do jornalista pela realidade. 
2.11 A objetividade pragmática 
Esta definição de objetividade foi desenvolvida pelo jornalista ca 
nadense Stephen Ward em uma tentativa de reocupar o termo. Como 
Ward (2004, 4) escreve, a noção tradicional, baseada na separação de 
fatos e valores, nãoé nem sustentável nem praticável. Desta forma, 
Ward segue uma determinada tendência na discussão sobre objetivi 
dade no contexto cultural norte-americano. 
Nos anos 70 e 80, os estudoS norte-americanos sobre o tema se 
concentravam no (ab)uso político e econômico do termo (cf. por 
exemplo Schudson, 1977; Tuchmann, 1973, 1977: Schiller, 1981: 
mais tarde no Canadá, Hackett e Zhao, 199). 
5 Acx-iornalista Janct Cooke, que trabalhava para o jornal lWshington lost, ganhou o prestigiado 
prêmio Pulitzer em 1981 com uma reportagem sobre um garoO de oito anos, que seria 
dependente de heroína. Diante da repercussao da notÍcia e da busca policial pelo menino, 
a repórter admiiu que o garoto nunca exIsiu e ton obrigada a devolver o prêmio pela matéria 
Jimnys World (cf. Paterson e Urbanski, 2006). 
6 Em 1983, a revista alemå Stern anunciou ter encontrado diários de Hitler. Duas semanas 
mais tarde, comprovou-se a falsidade dos diários (ct. Stuttgarter Zeitung, 19.04.2003) 
47 
Em seguida, observa-se a fase na qual tenta-se definir este concei 
to poliss�mico e a ènfase cai sobre as diversas noções de objetividade 
e as diferenças entre elas. Um dos exemplos paradigmáticos deste 
momento é o estudo de Mindich (1998). 
A tendência atual é de tentar redefinir objetividade, problema 
que se tornou ainda mais relevante com o desempenho da mídia 
americana na cobertura sobre a Guerra do Iraque. Antes da guerra, 
em março de 2003, o então presidente norte-americano George 
Walker Bush afirmou que o governo iraquiano de Saddamn Hussein 
tentou comprar urânio (material necessário para a produção de ar 
mas nucleares) de um país africano. 
Em julho de 2003 o governo norte-americano acabou por reco 
nhecer que a declaração de Bu_h não correspondia à realidade 
(Greenberg, 2003). Seguiu-se uma série de "informações" sobre ar 
mas de destruição em massa que o governo Iraquiarno supostamente 
possuiria e sobre uma também suposta ligação de Saddam Hussein 
com o grupo terrorista Al-Qaeda. O primeiro-ministro britânico Tony 
Blair também contribuiu para esta discussão ao afirmar que Hussein 
poderia produzir tais armas em 45 minutos. 
Partindo destes acontecimentos, a renomada revista Columbia 
lournalism Review dedicou um número especial ao problema da ob 
jetividade. Nela, os autores perguntam se jornalistas podem den0 
minar uma mentira como tal. Greenberg (2003) supõe que as no 
ções de objetividade dos jornalistas os levaram auma postura pass1va 
e, com isso, à propagação de informações falsas. Uma crítica seme 
Ihante já havia sido formulada por Bennett (2003). 
Ryan (2006), por sua vez, vê no desrespeito dos jornalistas às 
regras clássicas de objetividade as razões para o fracasso da mída 
americana em informar o público sobre as razões da guerra. 
Ward (2004) não se refere à Guerra do Iraquc, mas tenta concre 
tamente atender à reivindicação de Greenberg (2003) de redetinir 
objetividade. Esta significa para Ward (2004, 280) umn método 
holístico, falível e contextualizado de testar interpretações. Sua defl 
nição pragmáica difere das concepções clássicas por não tratar opini 
48 
ões como uma barreira para a objetividade. A interpretação do jorna 
lista é vista como uma tarefa legítima e indispensável. 
Estes profissionais também não devem comportar-se passivamente nviso 
e tomar a iniciativa de investigar. "Objetividade pragmática é um com 
promisso apaixonado com uma investigação desapaixonada , define Ward 
(2004, 282). Neutralidade é substituída por desinteresse, o que sign1 
tica que a paixão pela busca da verdade não deve ser subordinada a 
outras. Neste contexto, Ward identifica um ponto em comum entre a 
sua objetividade pragmática e o racionalismo crítico de Karl Popper. 
O autor canadense distingue entre objetividade ontológica, 
epistemológica e procedual. A primeira. se concentra com a diterença 
entre realidade e aparência, entre "objetivo" e 'subjetivo". 
A objetividade epistemológica trata dos standards, da averiguação 
rigorosa de hipóteses sobre a realidade. Neste sentido uma hipótese 
pode ser epistemologicamente objetiva, ou seja, comprovada depois 
de uma averiguação cuidadosa, e mesmo assim ser falsa. 
A objetividade procedual envolve a tomada de decisões justas (fair). 
Neste tipo de objetividade, não se trata de correspondência 
realidade, mas sim de fairness. Isto se deve ao fato de Ward retratar 
objetividade não só do ponto de vista jornalístico, mas sim como 
uma norma de várias áreas, como, por exemplo, o direito e a ciência 
(Ward, 2004, 281). 
Com a 
ser constatada através de A objetividade de um julgamento pode 
standards empíricos, de coerência e de acordo com o debate racional. 
Os standards empíricos pertencemà esfera da objetividade ontológica. 
Através destes standards, concretamente, da averiguação empírica, 
procura-se saber se uma declaração corresponde à realidade No cen 
tro da questão encontra-se portanto a teoria da verdade como corres 
pondéncia (cf. Popper, 1984, 44). 
(Os standards de coerência, por sua vez, partem de um outro con 
ceito de verdade e correspondemà objetividade epistemológica. Tais 
standards referem-se à interpretação lógica. Esta não pode ou não 
deve contradizer experiências anteriores e/ou os modelos de interpre 
tação escolhidos. 
49 
Já os standards do debate racional correspondem à regra de fairmes. 
Concretamente, Ward explica-os da seguinte forma: "E importante 
que todas as vozes racionais no debate recebam um tratamento res 
peitoso e justo, que o processo de debate seja inclusivo e que as hie 
rarquias de poder não distorçam a deliberação" (Ward, 2004, 285). 
Segundo Ward (2004, 289), para entender a busca do jornalismo 
pela realidade, é preciso considerar que aquele produz 
esfera da informação", o sistema 
tempo é produzido por uma 
midiáico de troca de informações. Isto significa que o jornalismo 
tanto media informações sobre a realidade quanto fornece a matéria 
prima para as discussões públicas, que por sua vez forma a realidade: 
e ao mesmo 
Jornalismo é a expressão cultural organizada de um fato bioló 
gico: que todas as criaturas t¿m necessidade de informação. 
Biologicamente, seres humanos têm uma fome epistemológica 
por informações novas e acuradas sobre o seu meio ambiente. 
O desenvolvimento de sociedades dependentes de informação 
tem fortalecido esta necessidade biológica. O segundo fato (..) 
(do jornalismo, L.S.) é o da geração de informação e opinião 
que se torna parte de um sistema de discussão social de 
termina a política pública. Notícias não são só fatos para indi 
víduos. São material para as políticas dos cidadãos. (Ward, 
2004, 289) 
50 
que 
Embora haja pontos comuns entre a concepção defendida neste 
trabalho ea objetividade pragmática de Ward, há outros em qu 
ambas as perspectivas se contradizem. 
Em primeiro lugar, Ward não se concentra nas características �o 
jornalismo como tipo de conhecimento, e por isso não são tiradas as 
Consequéncias geradas por esta especificidade. O problema da obje tividade no jornalismo e na ciência é essencialmente diferente do Justiça e do direito. Em um processo judicial, não se trata neCessa amente de "um método de testar interpretaçóes , mas sim de julgar. Por desconsiderar o jornalismo como um processo de conneC mento, Ward associa aspectos ontológicos e epistemológicos com fairness (o que cle chama de objetividade procedual). Apresentar opi 
nióes opostas de forma justa e respcitosa é importante, mas não tem 
necessariamente a ver com a busca da verdade e não tem nada a ver 
com adequaç�o de uma declaração à realidade. Na mlhor das hipó 
teses fairnes pode ser um instrumento da objetividade epistemológica, 
mas nãoé o único c nem mesmo suficiente, como já discutido. 
Ward acaba por cair na armadilha de querer fazer de "objetivida 
de' uma palavra mágica, como ocorre tanto no senso comum quanto 
também em muitos estudos nas ciências da comunicação. Esta pala 
vra mágica deve resolver todosos problemas do jornalismo. Por isso, 
cste princípio deve resolver não somente o problema epistemológico 
da mediação da realidade, como também as funções sociais de articu 
lação e integração. 
Objetividade refere-se à tarefa do jornalismo de mediar informa 
ções adequadas à realidade sobreo meio ambiente natural e social. As 
demais funções - apresentar opiniões diversas e promover o debate 
político eo diálogo � não podem ser resolvidas por ser resolvidas por este princípio. 
Tais funções também não envolvem necessariamente uma questão de 
verdade. Agir e decidir se distinguem de conhecer e não se baseiam 
somente neste. A força motriz das discussões públicas não são neces 
sariamente fatos, mas sim juízos de valor. 
Estes não podem ser avaliados segundo o seu teor de realidade. 
Em janeiro deste ano, o jornal Die Welt titulou uma matéria sobre 
um estudo sobre migrantes na Alemanha da seguinte forma: Turcos 
recusam-se friamente a se integrar" (ct. Solms-Laubach, 2009). Esta 
declaração não pode ser averiguada empírica e intersubjetivamente. 
Trata-se de um julgamento, de um juízo de valor. 
Além disso, juízos de valor podem basear-se em declarações des 
critivas ou serem justificados por estas, ainda que já tenha sido de 
monstrado quc são falsas. Embora haja provas claras das mais diver 
sas fontes, ainda há atores na esfera pública que negam a existência 
do holocausto. 
Outro problema neste conceito de objetividade � o da objetivida 
de epistemológica. sta parte de uma teoria da coerència, segundo a 
qual a verdade pode ser conhecida através de experiências anteriores 
51 
elou consideraçócs metafísicas. Com isso, Ward contradiz racionalisno critico de Popper. Segundo o filósofo austríaco austríac0, a verda 
de de uma frasc não depende de outras. Um sistema de frases pode até não conter contradiçõcs, mas nem por isso é verdadeiro (cf. Popper, 1994. 9). A aproximação da realidade Cxige verificação empírica e não cocrência. 
Além disso, uma concordância de um novo conteúdo com aquil, 
que já se sabc não é um indicador de adequação à realidade, mas 
algo inerente ao processo de conhecimento (cf. cap. 3). 
Sim 
A objetividade pragmática difere do conceito epistemológico de. 
fendido aqui porque abrange não somente o problema da media 
ção da realidade. Como resultado, fairness passa a ser vista como ob ietividade. Além diso, esta noção parte do princípio de que adequa 
ção à realidade pode ser alcançada por meio de testes de coerência. 
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