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BIPOLAR 
SEM MISTÉRIOS
Do diagnóstico a uma vida melhor
E D I Ç Ã O R E V I S A D A
© Dr. Renato Silva, 2025
Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, armazenada ou 
transmitida por quaisquer meios — eletrônicos, mecânicos, fotocópia, 
gravação ou outros — sem a permissão expressa do autor(a).
Título: Bipolar
Autor: Dr. Renato Silva
ISBN: 978-65-980014-2-1
1ª edição – São Paulo: Estabiliza, 2025.
Projeto gráfico, capa e diagramação: Gabriel Araújo
Impressão: Gráfica Serrano
Este livro é uma obra de divulgação voltada para o público em geral. As 
informações contidas nele foram baseadas em evidências científicas e/ou 
experiência clínica do autor, mas não substituem orientação profissional 
individualizada.
Impresso no Brasil.
Dedicado à Maria, minha mãe, 
que seu sofrimento não tenha sido em vão 
AVISO LEGAL
 Este livro tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Todas as 
histórias, personagens e eventos descritos são inteiramente fictícios, criados com o 
propósito de ilustrar variações, sintomas e condições associadas à bipolaridade. Qual-
quer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é mera coincidência e não impli-
ca qualquer relação com indivíduos ou casos concretos.
 As informações contidas neste livro não constituem, nem devem ser in-
terpretadas como, aconselhamento médico, psiquiátrico, psicológico, jurídico ou de 
qualquer outra natureza profissional. O conteúdo aqui apresentado não substitui 
diagnóstico, tratamento ou orientação de profissionais de saúde qualificados.
 O autor, os colaboradores e a editora não assumem qualquer responsabili-
dade por decisões tomadas com base neste material, nem por qualquer consequência 
direta ou indireta advinda do uso das informações aqui contidas. A leitura deste livro 
não estabelece qualquer tipo de relação médico-paciente entre o leitor e o autor.
 Se você ou alguém que conhece está enfrentando dificuldades emocionais 
ou psicológicas, recomenda-se buscar ajuda profissional qualificada imediatamente. 
Em caso de emergência psiquiátrica, entre em contato com serviços de saúde mental, 
profissionais médicos ou autoridades competentes.
 O autor e a editora não garantem a exatidão, integridade ou atualidade das 
informações apresentadas, nem se responsabilizam por interpretações incorretas ou 
uso inadequado deste conteúdo. O material pode refletir conceitos científicos, mé-
dicos e psiquiátricos vigentes na data da publicação, podendo estar sujeito a revisões 
futuras conforme avanços da ciência e da prática clínica.
 Ao prosseguir com a leitura, o leitor reconhece e concorda com os termos 
deste aviso legal, isentando o autor e a editora de quaisquer responsabilidades decor-
rentes do uso das informações aqui apresentadas.
Este livro foi escrito pensando sobretudo em quem convive com a bi-
polaridade – sejam pessoas diagnosticadas ou familiares que buscam en-
tender melhor a condição. Por isso, priorizei uma linguagem simples, o uso 
de analogias e exemplos do cotidiano, evitando sobrecarregar o texto com 
termos técnicos ou descrições excessivamente complexas. 
Embora me baseie em pesquisas sólidas e em experiência clínica, meu 
objetivo principal não é produzir um material estritamente acadêmico, 
mas facilitar a compreensão e acolher quem procura informação de forma 
mais acessível.
A essência deste livro é aproximar: trazer esperança e orientar quem 
convive com o transtorno bipolar, oferecendo informações embasadas de 
forma didática. Se em alguns momentos a explicação parecer “simplifica-
da” ou metafórica, é porque decidi colocar a acessibilidade do conteúdo 
em primeiro plano – ciente de que o conhecimento claro pode fazer toda a 
diferença em saúde mental.
A simplificação intencional que uso em algumas partes — como com-
parar neurotransmissores a “carteiros” ou recorrer a metáforas sobre o cé-
rebro — não deve ser encarada como falta de rigor científico. Pelo contrá-
rio: essa abordagem inclusiva permite que mais pessoas compreendam os 
fundamentos do transtorno bipolar e participem ativamente do próprio 
cuidado.
Desde que iniciei minha jornada, nada me motiva mais do que minha 
missão de descomplicar a ciência e a pesquisa, apresentando-as de forma 
amigável e compreensível a quem não tem formação na área. É esse propó-
sito que norteia todo o meu trabalho e dá sentido à minha caminhada pro-
fissional, pois acredito que informações de qualidade podem transformar 
profundamente a vida de quem convive com o transtorno. 
DESCOMPLICAR PARA TRANSFORMAR
L E I A A N T E S D E C O M E Ç A R
Por isso, dedico esforço a converter termos técnicos em exemplos reais 
do dia a dia, para que cada pessoa se sinta acolhida, compreenda o essen-
cial e possa tomar decisões mais seguras em relação ao próprio equilíbrio 
emocional.
 
Este livro foi pensado para quem não vive aninhado em publicações 
científicas ou tem o DSM como livro de cabeceira. Se você faz parte do 
time que aprecia cada detalhe estatístico, não se preocupe: na bibliografia 
final há referências sólidas, perfeitas para o(a) leitor(a) que quer mergulhar 
em metodologias científicas e p-values. Ainda assim, optei por explicações 
mais acessíveis para que toda pessoa possa compreender sem virar refém de 
“tecnicalidades” e jargões.
Sim, sei que os “puristas” podem torcer o nariz para analogias sim-
plificadas. Mas, em saúde mental, a realidade de quem sofre é bem mais 
urgente que a elegância dos termos médicos. A clareza faz toda a diferença. 
Toda afirmação aqui se apoia em estudos consistentes e em base científica 
sólida, então sinta-se à vontade para consultar as fontes que compõem a 
bibliografia, se desejar aprofundar (e, quem sabe, até se divertir com um 
pouco de estatística).
Lembro ainda que este livro não substitui uma avaliação profissional 
nem tem a pretensão de esgotar completamente todas as questões clínicas 
e técnicas do tema. É, antes de tudo, um guia para pessoas que desejam 
entender o que está acontecendo consigo ou com seus entes queridos, ser-
vindo de ponto de partida para um diálogo mais profundo com médicos, 
psicólogos e outros profissionais de saúde mental.
Meu objetivo não é apresentar um tratado acadêmico, mas sim ofe-
recer um caminho de entendimento prático e humanizado. No fim das 
contas, o foco está em acolher e ajudar quem lida com a bipolaridade a 
encontrar passos concretos rumo à estabilidade.
Como sempre digo: Conhecimento salva.
COMO LER ESSE LIVRO 
Este livro está organizado em seis grandes blocos de capítulos. Cada 
bloco aborda um aspecto diferente do Transtorno Bipolar (TB), desde suas 
origens até o manejo do dia a dia, passando pelas bases de equilíbrio e pelas 
abordagens terapêuticas.
Sempre que um capítulo for opcional ou destinado a um público es-
pecífico, deixei essa informação clara logo no início do texto. Isso significa 
que algumas seções podem interessar a determinadas pessoas e não neces-
sariamente a todas — você poderá decidir se deseja lê-las ou se prefere pular 
para outro tópico que seja mais relevante no seu momento.
Fique à vontade para escolher em que ordem deseja ler os blocos, con-
forme suas próprias necessidades e curiosidades.
S U M Á R I O
01 - A GENÉTICA E O AMBIENTE 19
02 - INÍCIO DOS SINTOMAS 36
CONSTRUINDO SUA BÚSSOLA DA VIDA 122
PRÓLOGO: TRANSFORMAR A DOR EM ALGO BONITO 13
01 - DEPRESSÃO 44
02 - MANIA, HIPOMANIA 63
03 - CARACTERÍSTICAS DO TRANSTORNO BIPOLAR 76
04 - MISTOS 87
05 - TIPOS DE TRANSTORNOS BIPOLAR 109
01 - RITMO BIOLÓGICO 127
02 - CICLO SONO-VIGÍLIA 138
03 - HÁBITOS E ROTINA 155
01 - ABORDAGENS TERAPÊUTICAS 180
02 - MEDIC. E NEUROMODULAÇÃO 188
01 - MONITORANDO SEU PROGRESSO 203
02 - PARA FAMILIARES 206
03 - PARA MULHERES 227
04 - COMORBIDADES 244
O RI G E N S
E P I S Ó D I O S
A B A S E D O E Q U I L Í B R I O
T R A T A M E N T O
E S P E C I A L
01 - CINCO CAUSAS MICROSCÓPICAS 261
02 - HISTÓRIA DO DIAGNÓSTICO 271
E X T R A
EPÍLOGO: ESPERANÇA E ESTABILIDADE 283
AGRADECIMENTO ESPECIAL 286
FICHA DE MEDICAMENTOS 287 
GLOSSÁRIO 323
BIBLIOGRAFIA 363
TRILHA DO TRATAMENTO 388
SOBRE O AUTOR 389
Muito antes de decidir que me tornaria um médico psiquiatra interes-
sado em bipolaridade, ainda na infância tive o primeiro contato com essa 
complexa condição. 
Minhas experiências relacionadas ao Transtorno Bipolar (TB) não 
vieram de livros – embora eu lesse muito quando garoto – ou da sala de 
aula, mas de dentro da minha casa. À época eu não sabia, mas minha mãe 
conviveu com o Transtorno Bipolar durante quase toda sua vida adulta, 
algo que só pude compreender muito tempo depois. 
Nossa família era simples. Meu pai era pedreiro, e minha mãe, dona de 
casa. Morávamos nos fundos do terreno da minha avó em uma cidade do 
interior de Minas Gerais, em uma casa de quatro cômodos que meu pai 
construíra com as próprias mãos. Eu estudava em uma escola pública do 
bairro. 
Não tínhamos televisão, apenas livros bíblicos, reflexo da forte religio-
sidade da minha família. Atribuo alguns hábitos que desenvolvi à minha 
criação religiosa, ainda que não fossem decisões deliberadamente ligadas a 
ela. Por exemplo, não experimentei álcool até os 24 anos de idade. Mesmo 
depois que minha família se afastou da igreja, quando eu tinha cerca de 14 
anos, alguns dos valores que aprendi continuaram fazendo parte da minha 
vida. Aquela era a realidade em que eu vivia, portanto, a base do que me 
T R A N S F O R M A R A D O R 
E M A LG O B O N I TO
P R Ó L O G O
14 • TRANSFORMAR A DOR EM ALGO BONITO
tornaria mais tarde. 
Minha infância é repleta de memórias agradáveis nas quais minha mãe 
é a protagonista – ela cozinhava, fazia rosquinhas cheirosas, cuidava da fa-
mília com carinho. Meus olhos de criança não percebiam os desafios que 
ela enfrentava. 
Quando eu tinha entre seis e sete anos, ocorreu o que acredito ter sido 
o primeiro surto psicótico que presenciei, sem compreender. Coincidiu 
com a época da invasão do Kuwait pelo Iraque, em 1990. Certo dia minha 
mãe disse ouvir aviões passando por cima da nossa casa. Ela acreditava que 
a guerra estava acontecendo ali na cidade. Na época, não tínhamos dinhei-
ro para ir ao médico nem entendimento para dimensionar a gravidade do 
episódio.
 O surto acabou passando espontaneamente, sem tratamento. Não me 
lembro desse evento. Tudo o que sei foi contado pelo meu pai muitos anos 
depois. 
Embora eu não tenha memória direta desse episódio, provavelmente 
foi minha primeira experiência com um episódio maníaco. É possível que 
esse incidente tenha influenciado minha futura escolha de carreira na área 
de saúde mental, mesmo tendo feito essa conexão só mais tarde. 
Desde quando tenho memória, sempre tive curiosidade pela área. 
Nunca pensei em fazer outra coisa da vida. Meu interesse não era nomi-
nalmente em saúde mental como um campo médico específico porque eu 
não tinha conhecimento de profissões nem nomes ligados ao tema, mas era 
fascinado e queria aprender tudo sobre como a mente humana funcionava 
e por que as pessoas se comportavam como se comportavam. 
Quando tinha cerca de 14 anos, costumava ir à biblioteca municipal 
para estudar livros de psicologia, inclusive Freud, mesmo entendendo pou-
co da parte técnica daquela leitura complicada para um adolescente. 
Por mais de uma década após o episódio em que presenciei os delírios 
da minha mãe, as oscilações de humor dela não se destacavam, pareciam va-
riações comuns a qualquer pessoa, parte de sua personalidade. Ocasional-
mente, ela comprava mais objetos do que deveria ou do que seria razoável, 
TRANSFORMAR A DOR EM ALGO BONITO • 15 
mas esses sintomas subclínicos não eram suficientemente evidentes para 
levar a um diagnóstico médico. 
O primeiro episódio de mania com sintomas psicóticos de minha mãe, 
que me lembro vividamente, aconteceu após meus vinte anos de idade. 
Eu tinha acabado de voltar de viagem. Ao entrar em casa, deparei-me com 
uma cena que jamais esquecerei. 
Ela estava agachada no chão, com os olhos arregalados e paralisados, 
como eu nunca tinha visto antes, expressando puro medo. Sua roupa es-
tava toda desalinhada, o cabelo bagunçado. Meu pai e meu irmão estavam 
ali, atônitos, olhando para ela sem saber o que fazer. 
Eu também não sabia, mas, de alguma forma, sentia que algo muito 
sério estava se desenrolando. A sensação de incompreensão misturada à 
impotência era desesperadora — e inesquecível.
Aproximei-me com cuidado. Ela começou a falar, mas suas frases não 
faziam sentido. Dizia que pessoas estavam ligando para nossa casa, amea-
çando matá-la e a toda a família. Falava de anjos que se comunicavam com 
ela, trazendo mensagens. Era um turbilhão de delírios perturbadores, per-
secutórios e místicos-religiosos. 
Fiquei atordoado. Era como se uma outra pessoa tivesse tomado seu 
lugar. Liguei para um psiquiatra e pedi um atendimento de urgência. Le-
vamos minha mãe ao consultório, onde o médico nos fez várias perguntas. 
Ela continuava falando coisas sem sentido. 
Numa posterior conversa privada, expliquei ao médico que nada da-
quilo condizia com a realidade. O psiquiatra receitou quetiapina 100 mg, 
um antipsicótico atípico que ajudaria minha mãe a dormir. No entanto, 
não fechou um diagnóstico. 
Como ela estava em um surto psicótico, era difícil determinar do que 
se tratava, qual a origem do problema. Poderia ser esquizofrenia, transtor-
no psicótico secundário a outra causa médica, TB em episódio maníaco, 
entre outras possibilidades. Há dezenas de variáveis que compõem um 
diagnóstico, e, naquele momento, ele não poderia afirmar com certeza qual 
era sua condição. 
16 • TRANSFORMAR A DOR EM ALGO BONITO
Com o medicamento, minha mãe passou a dormir um pouco melhor. 
No entanto, ela permaneceu em estado psicótico. Durante seus delírios, 
só confiava em mim. Como resultado, me tornei seu principal cuidador. 
Precisava estar com ela o tempo todo. 
Devido ao seu estado mental, ela dizia coisas absurdas e dolorosas com 
frequência. Não me lembro exatamente quanto tempo durou – pode ter 
sido um, dois, talvez três meses. Tenho dificuldade de recordar detalhes 
desse período, acredito que pelo impacto negativo que ele gerou em todos 
que acompanhávamos o sofrimento de alguém que amávamos tanto. 
Após esse período, minha mãe voltou ao seu estado anterior, aparen-
temente normal. No entanto, ainda ficou sem um diagnóstico definitivo 
naquela época. Minha mãe ainda passaria por cinco ou seis médicos dife-
rentes, ao longo de quase sete anos, até receber o diagnóstico. 
Ao chegar na idade de prestar vestibular, meu interesse natural por 
estudar a mente humana combinado ao episódio de minha mãe que pre-
senciei na infância levaram-me a optar pelo curso de Psicologia. Fiz um 
semestre. Ali, na universidade, tive meu primeiro contato com a área da 
saúde, aprofundando meu conhecimento sobre a atuação de médicos e psi-
cólogos. Descobri que eu poderia ser médico psiquiatra, trabalhando com 
saúde mental com uma abordagem ancorada na neurobiologia. Gostei da 
possibilidade. 
Decidi, então, tentar entrar em Medicina. Passei no primeiro vestibu-
lar que fiz e o único que eu poderia fazer por ser público, o da Universidade 
Federal. Na época, minha família não tinha condições de pagar para que eu 
morasse fora da nossa cidade. 
Depois de me formar em Medicina, fiz residência médica em Psiquia-
tria pela USP em Ribeirão Preto. Meu ingresso no curso de medicina foi 
motivado por um propósito claro: especializar-me em psiquiatria e, assim, 
retornar à minha verdadeira paixão – a área da saúde mental. 
Quem dera o sofrimento da minha mãe fosse isolado. Mas infelizmen-te essa história está longe de ser uma exceção. O TB afeta dezenas de mi-
lhões de pessoas em todo o mundo. 
A experiência que vivenciei em casa é muito mais comum do que se 
TRANSFORMAR A DOR EM ALGO BONITO • 17 
poderia imaginar; potencialmente se manifesta em qualquer família, a des-
peito de fronteiras sociais, econômicas e culturais. Minha missão de vida 
passou a ser ajudar pessoas que enfrentam desafios similares ao que minha 
família enfrentou. 
Tenho um desejo arraigado de contribuir, de alguma maneira, para 
diminuir um pouco do sofrimento que ocupa tantos anos da vida das pes-
soas com o TB e de seus familiares. 
Para aliviar a dor e o fardo que o transtorno leva para a vida das pessoas, 
é fundamental entender profundamente como ele funciona e afeta a vida 
de cada indivíduo. Um dos aspectos mais críticos é o diagnóstico correto 
e precoce. 
O estado da minha mãe passou anos sem um nome adequado, o que 
atrasou seu tratamento e prolongou seu sofrimento. Mas o diagnóstico é 
apenas o primeiro passo. O tratamento do TB deve ser abrangente e mul-
tifacetado. 
Embora os medicamentos sejam essenciais – e necessários por toda a 
vida –, não são suficientes por si. O tratamento eficaz envolve diversos pi-
lares: além da medicação apropriada, é crucial cuidar da alimentação, man-
ter atividade física como parte da rotina, regular o ritmo biológico e fazer 
terapia. 
Para a família, a educação sobre o tema é o que faz a diferença na quali-
dade do acolhimento e do convívio. Quando minha mãe teve seu primeiro 
episódio maníaco, ninguém em nossa casa entendeu o que estava aconte-
cendo. 
Agora sei o quanto é importante que os familiares compreendam o TB 
para poder oferecer apoio apropriado e reconhecer mudanças de compor-
tamento. 
O que atribui significado à minha escolha de vida é contribuir efeti-
vamente para que as pessoas com o transtorno se sintam compreendidas e 
apoiadas, não julgadas ou estigmatizadas. 
Minha experiência pessoal e profissional me mostrou que, com o en-
tendimento adequado e um tratamento correto, é possível melhorar sig-
18 • TRANSFORMAR A DOR EM ALGO BONITO
nificativamente a qualidade de vida das pessoas com TB e, consequente-
mente, de quem convive com elas. É um caminho desafiador, mas possível.
Com o conhecimento sólido, podemos mudar vidas — convertendo o 
sofrimento em compreensão e a dor em resiliência.
É isso que desejo compartilhar com você neste livro: um caminho para 
transformar a dor em algo bonito.
 19 
Imagine acordar em certa manhã e sentir a mente imersa em sensações 
quase impossíveis de traduzir: angústia repentina, irritabilidade com tudo 
e todos e um cansaço físico que surge sem explicação aparente. Sem um 
“raio-x” ou exame de sangue capaz de revelar o que acontece internamente, 
como dar o primeiro passo? Quando se trata de Transtorno Bipolar (TB), é 
comum querer pular etapas e pensar: “Por que não partir direto para o tra-
tamento?”. Afinal, quando a dor é grande, a vontade de aliviar é imediata.
Porém, pense no que acontece quando leva seu carro a uma oficina 
por conta de um ruído incomum. Você esperaria que o mecânico trocasse 
peças aleatoriamente antes de entender a origem do problema? Provavel-
mente não. Do mesmo modo, antes de qualquer intervenção no TB, é 
fundamental buscar as causas que o motivam. Se não investigarmos essas 
raízes, corremos o risco de intervir “no lugar errado”, o que pode compli-
car ainda mais a situação.
Por isso, neste livro, começaremos pelos fundamentos do TB. Enten-
der como tudo se desenvolve e quais fatores podem influenciá-lo traz vários 
benefícios: ajuda você a enxergar com mais clareza o que está acontecendo, 
dá segurança para lidar com as incertezas da bipolaridade e cria uma base 
sólida para discutir tratamentos de forma mais confiante. Em última aná-
lise, conhecer as origens do TB não apenas ilumina o passado, mas abre 
caminhos reais para cuidar do presente e construir um futuro mais estável.
Diferentemente de muitas doenças que aparecem em exames de ima-
ORIGENS 01
A GENÉTICA E O AMBIENTE
C A P Í T U L O 0 1
20 • ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE
gem ou de sangue, o TB não se revela nesses métodos de diagnóstico. Isso, 
porém, não o torna menos real ou importante. Entender o que leva a cada 
noite insone ou a cada período de desânimo desempenha um papel fun-
damental ao aliviar culpas e dissolver estigmas. Do mesmo modo que um 
problema cardíaco não desaparece com sermões, o TB não se resolve com 
julgamentos carregados de preconceito.
Por que, então, ainda existem tantas opiniões equivocadas sobre saúde 
mental? Parte da explicação recai na falta de conhecimento acerca das reais 
causas biológicas do TB e, por isso, muitas pessoas duvidam da sua legiti-
midade como condição médica. Contudo, suas origens são tão concretas 
quanto as do diabetes — apenas se manifestam de um modo que os testes 
convencionais não detectam.
Ainda assim, possivelmente, você já ouviu alguém dizer que o TB “não 
existe” ou que “é falta de ter uma ocupação”. Ou talvez “é falta de Deus?”. 
É provável que já tenha escutado frases assim mais vezes do que gostaria. 
Mais preocupante ainda: não é apenas o estigma social que precisa ser 
combatido. Muitas vezes, a própria pessoa com TB internaliza esses pre-
conceitos, duvida de si mesma e se culpa pelos próprios sintomas. Além 
dos desafios impostos pelo TB, a autoculpabilização se torna um peso des-
necessário, reforçado por comentários e julgamentos externos, que contri-
buem para um sofrimento ainda maior. 
Pensamentos como: “O que fiz de errado para estar sofrendo assim?” 
são comuns e levam muitos a buscar explicações em supostas falhas pesso-
ais. No entanto, o TB não surge de escolhas ou traços de caráter, mas sim 
de múltiplas causas neurobiológicas. Felizmente, existem tratamentos efi-
cazes que auxiliam no alívio dos sintomas e promovem maior estabilidade 
emocional.
O primeiro passo para um tratamento eficaz é justamente libertar-se 
dessa culpa ao compreender que você está lidando com uma condição mé-
dica real que necessita de cuidados adequados — não com uma falha de 
caráter a ser corrigida.
 ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE • 21 
CONHECER PARA ACEITAR, ENTENDER PARA AGIR
Imagine que você esteja com uma dor intensa no braço. Ao consultar 
o médico, ele explica que houve uma lesão muscular e que, com determi-
nado medicamento, levará cerca de três dias para melhorar. Embora a dor 
ainda exista, é um alívio saber exatamente o que está acontecendo e qual o 
caminho para a recuperação.
Com o TB, ocorre algo parecido. Quando entendemos o que se passa 
no cérebro, mesmo que os sintomas continuem presentes, a forma de lidar 
com eles muda completamente. Diferentemente das crianças, que muitas 
vezes seguem instruções sem questionar, nós, adultos, precisamos compre-
ender o “porquê” de cada passo. 
Se sabemos, por exemplo, que um determinado medicamento age 
sobre um mecanismo específico do cérebro ou que certas rotinas podem 
regular nosso ritmo biológico, o tratamento deixa de ser apenas um con-
junto de regras soltas e passa a fazer sentido. Quando algo faz sentido, 
nosso envolvimento cresce de forma natural — não é só seguir prescrições 
aleatórias, mas participar ativamente do próprio processo de recuperação, 
compreendendo cada etapa.
Nesse contexto, o tratamento deixa de ser uma imposição para se tor-
nar um aliado que escolhemos conscientemente, pois entendemos seu va-
lor na busca de estabilidade e equilíbrio emocional.
AS PRINCIPAIS CAUSAS 
Assim como uma orquestra precisa de vários instrumentos para criar 
música, o TB surge da interação de diferentes mecanismos. Não existe uma 
única causa, mas sim uma combinação de fatores que, juntos, contribuem 
para o desenvolvimento da condição. 
Cada um destes elementos, desde a influência dos genes até o funcio-
namento dos ritmos biológicos, tem seu papel no desenvolvimento do TB. 
Entender como estes mecanismos funcionam não só explicaa origem dos 
sintomas, mas também revela por que o tratamento precisa ser tão abran-
gente e personalizado.
22 • ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE
O SOLO QUE HERDAMOS
A afirmação de que a primeira causa do TB é a genética, costuma sus-
citar mais perguntas do que respostas: isso significa que passa de pai para 
filho como a cor dos olhos? É uma sentença definitiva? Existe um defeito 
nos genes? Nenhuma dessas suposições está correta.
Antes de abordarmos o assunto principal, vale esclarecer: o que são os 
genes?
Cada ser humano possui 23 pares de cromossomos em quase todas 
as células do corpo, e cada cromossomo é composto por diversos genes. 
Podemos imaginar cada cromossomo como um livro volumoso; nesse pa-
ralelo, os genes seriam os “capítulos” que trazem instruções sobre o funcio-
namento do organismo.
Dessa forma, cada gene orienta o corpo a regular suas funções, influen-
ciando características que vão desde a cor dos olhos até a textura do cabelo 
e, ao mesmo tempo, podendo aumentar ou diminuir a probabilidade da 
pessoa desenvolver TB ao longo da vida.
Assim, quando falamos em predisposição genética, referimo-nos ao 
fato de que alguns desses “capítulos” (genes) nos “livros” (cromossomos) 
contêm instruções que podem favorecer o desenvolvimento de TB. No en-
tanto, a genética não age sozinha: como veremos, ela se combina a diversos 
outros fatores, tanto internos quanto externos.
Ainda assim, o componente genético permanece notável.
COMPREENDENDO O QUE É HERDABILIDADE
Para compreender por que a genética é uma causa tão importante do 
TB, é essencial entender o conceito de herdabilidade. O TB apresenta o 
mais alto índice de herdabilidade entre os diagnósticos psiquiátricos mais 
conhecidos — entre 60% a 85%, um valor superior ao da esquizofrenia 
(73%), do transtorno de pânico (40%) e do transtorno de ansiedade gene-
ralizada (32%). 
 ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE • 23 
Mas o que exatamente significa ter “85% de herdabilidade”? Esse nú-
mero costuma gerar confusões. Certamente isso não quer dizer que 85% 
dos filhos de pessoas com TB desenvolvem o transtorno. Na verdade, a taxa 
de filhos que manifestam o TB ao longo da vida gira em torno de 10 a 15%.
O que herdabilidade realmente significa é: o quanto das variações nas 
características de alguém podem ser explicadas pelos genes herdados dos 
pais, em contraste com o que é fruto do ambiente.
Por exemplo, a cor dos olhos tem alta herdabilidade porque é quase 
totalmente determinada pelos genes que herdamos. Já a altura tem her-
dabilidade média, pois depende tanto dos genes quanto da alimentação, 
prática de esportes e outros fatores ambientais. O sotaque de alguém tem 
herdabilidade zero, porque não é determinado pelos genes, mas sim pelo 
ambiente em que a pessoa cresceu. 
COMO INTERPRETAR A HERDABILIDADE
IDENTIFICANDO OS GENES RESPONSÁVEIS
Depois de entender o conceito de herdabilidade, é comum surgir a 
curiosidade: se a genética é tão importante, qual seria o gene que causa o 
TB? Não daria para identificá-lo e, de alguma forma, “desativá-lo”? 
Diferentemente de algumas doenças em que um único gene é a peça-
-chave, o TB é resultado de interações entre múltiplos genes. Cada pessoa 
com TB traz uma combinação distinta como se fosse seu próprio “labirin-
to genético”.
Para dar uma ideia dessa diversidade, basta conhecer um estudo que 
analisou participantes de diversas origens (europeias, asiáticas, latino-ame-
ricanas e africanas) e identificou 298 “loci” relacionados ao risco de desen-
24 • ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE
volver TB. Se a palavra “loci” soa meio alienígena, encare-a como simples 
“endereços” no seu DNA: pontos onde variações podem aumentar ou re-
duzir a chance dos sintomas virem à tona ao longo da vida.
Essas variações nos ajudam a entender por que o TB não segue um pa-
drão simples de herança, como a cor dos olhos ou o tipo sanguíneo. Em vez 
disso, é como uma orquestra, em que vários genes trabalham em conjunto, 
cada um contribuindo um pouco para a melodia final.
E sabe quais são os “maiores suspeitos” nessa grande sinfonia genética? 
Eles atendem por nomes que mais parecem placas de carro: ANK3, CAC-
NA1C, SYNE1, ODZ4 e TRANK1. Esses genes aparecem repetidamente 
em diversas pesquisas, sugerindo que certas variantes neles podem, de fato, 
favorecer o surgimento dos sintomas.
No entanto, cada pessoa manifesta apenas parte dessas variações, e isso 
esclarece por que a bipolaridade pode se apresentar de maneiras tão dife-
rentes e por que as respostas aos tratamentos variam tanto. Não há um 
gene “vilão” capaz de ditar todo o quadro; são diversas combinações que 
fazem cada indivíduo reagir de um jeito único. Dessa forma, um remédio 
pode funcionar muito bem para alguém, mas praticamente não ter efeito 
em outra pessoa. Não se trata de falta de empenho ou “defeito pessoal”, 
parte da resposta está em como esse “labirinto” genético se organiza em 
cada caso.
Compreender essa diversidade genética alivia a culpa para quem en-
frenta o TB e para quem convive com a pessoa. É frustrante quando o alí-
vio não chega da forma esperada, mas lembrar que existem muitos fatores 
(inclusive genéticos) em jogo pode renovar a esperança e motivar novas 
buscas por auxílio. E o mais importante: perceber que não há um só cami-
nho de tratamento reforça a necessidade de apoio contínuo e persistência. 
É possível equilibrar os sintomas e criar um cotidiano mais saudável.
A TEORIA DO PÃO DE QUEIJO
Com toda essa diversidade genética, é natural que surja uma dúvida: 
“Minha genética está com defeito se tenho TB?” A resposta é não. Os ge-
 ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE • 25 
nes que predispõem alguém ao transtorno bipolar não são “quebrados” ou 
versões “falhas” de genes normais. Pelo contrário, são componentes cru-
ciais para a espécie humana, mantidos pela própria natureza ao longo do 
tempo.
Lembre-se de que um gene funciona como um capítulo de livro que 
fornece instruções. Do mesmo modo que uma mensagem de texto pode 
dizer “compre pão” ou “marque a reunião”, esses “comandos” genéticos 
orientam o corpo sobre como produzir proteínas, desenvolver tecidos ou 
organizar cartilagens. 
Para entender melhor como os genes podem estar alterados no TB, 
pense em um pão de queijo no forno: se ele assar na temperatura certa, fica 
delicioso; mas, se passar do ponto, o mesmo pão de queijo pode queimar o 
céu da sua boca. Note que a receita não se alterou — apenas a temperatura. 
Da mesma forma, na bipolaridade, não é a “receita” genética que está erra-
da, e sim o grau de expressão desses genes.
Imagine um gene cuja principal função seja associar diferentes ideias, 
normalmente contribuindo para a nossa criatividade. Contudo, se estiver 
“ativado” em intensidade mais alta do que o ideal, esse mesmo gene pode 
provocar aceleração excessiva do pensamento e levar à desorganização do 
fluxo de ideias. Outro exemplo é o gene que influencia o quanto presta-
mos atenção ao que as outras pessoas pensam. Em equilíbrio, ele nos torna 
sociáveis e extrovertidos; mas, se ativado em excesso, pode contribuir para 
paranoia e ciúme.
Além disso, há variações genéticas que influenciam diretamente nos-
sa tendência à ansiedade, a predisposição a sintomas psicóticos e a busca 
constante por novidades — aquele impulso que nos faz querer mudar de 
rumo a todo momento. Pesquisas já identificaram várias dessas alterações 
em pessoas com TB, incluindo algumas que influenciam diretamente o 
sucesso ou fracasso de um determinado tratamento farmacológico.
Porém, ainda não existe um exame de uso rotineiro que seja capaz de 
identificar de modo específico todas essas modificações genéticas na prática 
do consultório médico.
26 • ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE
DECIFRANDO AS CHANCES DE HERANÇA DO TB
Uma vez que cada pessoa pode ter uma “combinação genética” única 
no TB, é natural que surja a dúvida: “Se meu pai ou minha mãe tem bipo-
laridade, isso quer dizer que eu terei também?” ou “Será que todomundo 
na família corre o mesmo risco por causa de um único diagnóstico?”. São 
perguntas legítimas, sobretudo quando percebemos o papel marcante que 
a genética exerce no desenvolvimento do TB. 
Para buscar respostas, pesquisadores realizam levantamentos em gran-
des grupos de pessoas a fim de calcular com que frequência a bipolaridade 
aparece e de que forma esse risco aumenta quando há histórico familiar. 
Esses números não são fórmulas mágicas que preverão o futuro, mas per-
mitem visualizar um panorama geral e mostram que um risco maior não 
equivale a “sentença garantida”. O resultado prático é que podemos pres-
tar mais atenção aos sinais, procurar ajuda mais cedo e, acima de tudo, to-
mar decisões embasadas para proteger toda a família envolvida.
Uma dúvida recorrente é: quantas pessoas realmente têm TB? Se você 
estiver andando em uma cidade e cruzar com cem indivíduos, é provável 
que um deles tenha o transtorno, o que equivale a cerca de 1,2% da popula-
ção, quando consideramos especificamente o TB tipo 1 e tipo 2. Já quando 
englobamos todos os tipos de TB, o número chega a 4,5%.
Quando olhamos para famílias onde já existe o TB, o risco natural-
mente se eleva. Se você tem um parente de primeiro grau (pai, mãe ou ir-
mão) diagnosticado, suas chances de desenvolver a condição são de 10% a 
15%, o que representa um aumento de 5 a 10 vezes em relação a quem não 
tem parentes afetados. 
É importante ressaltar que não há diferença entre herdar o transtorno 
do pai ou da mãe: o risco permanece o mesmo. Embora circule a ideia de 
que, se o pai for bipolar, a probabilidade seja maior, estudos mais recentes 
mostram que isso é apenas um mito.
Porém, são os estudos com gêmeos que trazem algumas das descober-
tas mais marcantes. Em gêmeos fraternos (não idênticos), a chance fica em 
torno de 15% a 20%. Já nos gêmeos idênticos, esse número salta para 50% 
a 60%.
 ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE • 27 
Mas, se os gêmeos idênticos compartilham praticamente todo o mate-
rial genético, por que a taxa de risco para TB não chega a 100%? A resposta 
está na maneira como genes e ambiente se influenciam, mesmo crescendo 
na mesma família, cada gêmeo pode passar por experiências distintas que 
“ativam” ou “desativam” determinados genes. Em outras palavras, a heran-
ça genética cria um terreno mais fértil para que o TB se desenvolva, embora 
a semente só germine diante de circunstâncias que envolvem bem mais do 
que os genes.
Por outro lado, pesquisas com gêmeos idênticos adotados por famílias 
diferentes mostram que, apesar de rotinas e ambientes completamente dis-
tintos, o risco de desenvolver bipolaridade permanece muito semelhante, 
evidenciando que, embora o contexto de vida influencie, a genética ainda 
exerce um papel dominante.
E quando a pessoa diagnosticada com TB é um parente de segundo 
grau, como tios, sobrinhos, avós e netos? Nesse caso, o risco é 3 vezes maior 
que o basal para esses parentes de segundo grau. Já para parentes de terceiro 
grau (como primos ou bisavós), o aumento gira em torno de 1,6 vezes. 
Com isso, fica claro que, quanto mais próximo o parentesco, maior a 
probabilidade de TB — um achado que reforça o enorme peso da genética, 
justificando a atenção especial dada a esse tema.
O que fazer com todas essas informações? As estatísticas apenas indi-
cam possibilidades; não são um destino inevitável. No entanto, conhecer 
esses números nos mantém mais alertas e dispostos a procurar ajuda mais 
cedo. Essas informações também são extremamente úteis para o planeja-
mento familiar: não devem gerar medo ou impedir que alguém realize o 
sonho de ter filhos, mas, sim, embasar escolhas mais conscientes.
No meu caso, como mencionei no prólogo, minha mãe tem TB tipo 
1. Isso significa que qualquer filho meu herdará, no mínimo, um risco três 
vezes maior de desenvolver o transtorno ao longo da vida. Ainda assim, 
posso afirmar sem hesitar que o dia em que minha filha nasceu foi o mais 
extraordinário de toda a minha existência. Cada instante ao lado dela, dos 
primeiros sorrisos às descobertas diárias, transborda uma alegria que eu 
nem imaginava ser possível. É um amor tão profundo e transformador que 
28 • ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE
supera qualquer incerteza, e acompanhar seu crescimento tem sido a expe-
riência mais gratificante e feliz da minha vida.
E se a genética não está sob meu controle, sei que posso fazer muito 
em relação aos fatores que estão ao meu alcance — o ambiente em que 
ela vive, o afeto que recebe, as rotinas que adotamos. São esses elementos 
que, na prática, podem proteger e equilibrar a predisposição genética. Afi-
nal, entender que herdei um risco maior de desenvolver TB (e transmiti-lo 
adiante) não significa ficar de braços cruzados. Genética não é destino. 
Por isso, a seguir, vamos explorar justamente a outra metade dessa 
equação: os fatores ambientais e psicossociais que também influenciam — 
e muito — a manifestação dos sintomas.
FATORES EXTERNOS: O OUTRO LADO DA EQUAÇÃO
É tentador imaginar que tudo seja resolvido olhando apenas aqueles 
circuitos cerebrais e genes que herdamos. Mas a realidade nos lembra que 
vivemos imersos em um universo de eventos externos, relações sociais e 
hábitos cotidianos.
Mesmo existindo genes que aumentem o risco de TB, muitos fatores 
externos determinam se essas predisposições vão “despertar” ou não. O lu-
gar onde vivemos, nossas escolhas diárias e a maneira como lidamos com 
o estresse podem exercer forte impacto sobre a forma como os genes se 
expressam — e, portanto, sobre o nosso bem-estar.
A ciência chama essa interação entre genes e ambiente de epigenética. 
A epigenética é, em resumo, o estudo de como as condições do ambiente 
podem ativar ou silenciar partes do nosso DNA. É como um interruptor 
de luz: a ‘fiação’ já existe, mas as nossas escolhas e circunstâncias definem se 
a lâmpada fica acesa ou apagada.
Para ilustrar, pense no exemplo de quem tem histórico familiar de dia-
betes e ignora completamente cuidados com a alimentação: ao fazer isso, 
pode “ativar” genes que favorecem a doença. O mesmo vale para quem 
tem casos de câncer de pulmão na família e ainda assim decide fumar — o 
cigarro ativa uma vulnerabilidade bem sensível. 
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Ter predisposição genética não significa desenvolver TB. Em última 
análise, é essa interação entre genes e ambiente que determina se o quadro 
será desencadeado ou não. Pense na predisposição genética no TB como 
uma receita de família que pode ser transmitida através das gerações. Nem 
todos que recebem a receita se tornarão cozinheiros. Alguns podem nun-
ca chegar perto de uma cozinha. Outros podem cozinhar ocasionalmen-
te. Mesmo entre aqueles que cozinham regularmente, cada um dará seu 
próprio tempero, seu próprio ritmo, sua própria interpretação da receita 
original.
Não é possível alterar a genética já estabelecida “de fábrica”. Mas pode-
mos, até certo ponto, escolher o ambiente em que vivemos. O estresse que 
permitimos em nossas vidas, as horas de sono que priorizamos e os hábitos 
que cultivamos são decisões que representam diferentes formas de manejar 
esse ambiente.
Esse é o foco da nossa missão possível: criar um cenário mais favorável 
por meio de atitudes conscientes, usando estratégias que nos ajudem a li-
dar melhor com a nossa predisposição genética. 
Mas como, exatamente, esses fatores externos interagem com o cére-
bro? Para começar a responder essa pergunta, vamos abordar um dos ele-
mentos ambientais mais impactantes na “ativação” de uma vulnerabilida-
de inata: o estresse — especialmente quando aparece cedo na vida, sob a 
forma de traumas ou vivências difíceis na infância.
ESTRESSE E TRAUMA PRECOCES 
O cérebro em formação se assemelha a massa de modelar: ele incorpora 
experiências, traumas e aprendizados que vão criando marcas duradouras 
ao longo da vida. Esse fenômeno de adaptação contínua é o que chamamos 
de neuroplasticidade.
Para alguém que, ainda na infância,sofre abusos físicos, emocionais 
ou enfrenta a sensação diária de abandono, é como instalar um alarme in-
terno que se torna gradualmente mais sensível com cada experiência do-
lorosa — até o ponto de disparar ao menor sinal, mesmo sem perigo real.
30 • ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE
Biologicamente, esse “alarme” corresponde ao eixo hipotálamo-hipó-
fise-adrenal (HHA), responsável por gerenciar nossas respostas ao estresse, 
liberando hormônios que nos preparam para reagir a desafios. Em crianças 
expostas a abusos ou negligência, esse sistema se torna hiperreativo, dis-
parando “hormônios de alerta” com mais facilidade do que seria normal. 
Anos depois, esse mesmo cérebro, agora “superestimulado”, tende a reagir 
de forma intensa a situações que, talvez, passassem despercebidas para ou-
tras pessoas.
Chamamos esse processo de “sensibilização ao estresse”: exposições 
traumáticas na infância modificam o eixo HHA de modo duradouro, pre-
dispondo a episódios de humor (depressão, hipomania e mania) quando a 
pessoa enfrenta novos desafios. Infelizmente, muitos pacientes relatam, em 
consultório, vivências extremamente difíceis na infância, como brigas fre-
quentes entre os pais, negligência, ausência de rotina familiar ou até abuso 
psicológico e físico.
É importante reforçar, porém, que nem todas as pessoas com TB pas-
saram por traumas ou estresse precoce; é perfeitamente possível receber 
esse diagnóstico sem jamais ter enfrentado tais circunstâncias.
Quando analisamos o impacto de um histórico de violência ou negli-
gência, notamos que ele pode antecipar o surgimento do TB e agravar o 
seu curso. Sendo que, a pessoa pode apresentar mais episódios de alteração 
de humor, maior propensão a sintomas psicóticos e ideação suicida, como 
se o cérebro permanecesse em constante estado de alerta.
 Estressores crônicos, como problemas financeiros prolongados ou 
relacionamentos abusivos, costumam favorecer quadros depressivos, en-
quanto situações agudas – por exemplo, alterações repentinas na rotina de 
sono ou eventos intensos – podem disparar episódios de mania. É como 
se, de tanto ouvir o alarme de incêndio na infância, o cérebro já não distin-
guisse uma simples vela de aniversário de um prédio em chamas.
CORTISOL E ESTRESSE
Para entender melhor esse “alarme interno”, vale pensar no eixo hipo-
tálamo-hipófise-adrenal (HHA) como uma pequena fábrica. O hipotála-
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mo é o chefe que manda as ordens, a hipófise é o gerente que supervisiona 
o andamento, e as glândulas adrenais são os funcionários que produzem o 
produto final: o cortisol. 
Em condições normais, existe um mecanismo de “vai e volta”: quando 
o estoque de cortisol atinge um certo nível, o gerente e o chefe recebem o 
recado para reduzir o ritmo de produção. Porém, sob estresse crônico ou 
oscilações de humor mais graves, esse sistema pode ficar tão desregulado 
que o cortisol permanece em alta — como se o alarme de incêndio tocasse 
sem parar (ou, em alguns casos, ficasse baixo por estar “pifado” de tanto 
uso).
Também foram observadas variações de cortisol em familiares de pes-
soas com TB antes mesmo de qualquer sintoma aparecer, o que reflete 
como fatores genéticos e eventos estressantes podem se reforçar mutua-
mente. Isso faz pensar: seria o TB uma história de predisposição genética, 
em que o maestro já nasce com a partitura de estresse bagunçada? Ou exis-
tem fatores ambientais, como eventos de vida estressantes, que desafinam 
ainda mais esse processo? A resposta provavelmente é “um pouco de cada”.
Além disso, o TB costuma se ligar de perto à experiência de estressores 
de vida, como conflitos familiares ou sobrecarga de trabalho: esse estresse 
crônico alimenta ainda mais a disfunção do eixo HHA, intensificando as 
oscilações de humor.
Embora níveis de cortisol elevados no sangue sejam comuns nos episó-
dios de mania ou misto, na depressão bipolar nem sempre esse padrão está 
presente — por vezes há uma queda, indicando que o sistema pode estar 
exaurido. 
Com o passar dos anos, fica cada vez mais claro a ligação entre traumas 
infantis, resposta exagerada ao estresse crônico e TB. Em alguns casos, mes-
mo acontecimentos que deveriam ser positivos – como mudar de emprego 
ou de cidade – podem gerar perturbações intensas no humor. Por isso, ex-
periências adversas nos primeiros anos de vida têm papel determinante na 
suscetibilidade ao TB.
No fim das contas, fatores psicossociais — sobretudo traumas e estres-
se na infância — influenciam a formação de vulnerabilidades iniciais e o 
32 • ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE
desencadeamento de crises ao longo da vida. Reconhecer e tratar precoce-
mente esses eventos adversos pode atenuar a intensidade e a frequência das 
oscilações de humor, ajudando a alcançar uma maior estabilidade a quem 
convive com o TB.
Depois de entender como traumas precoces tornam nosso “alarme in-
terno” mais sensível, é hora de ver como certas substâncias também podem 
interferir no humor. Tudo faz parte desse mesmo cenário, onde cada fator 
— psicológico, social ou químico — pode colocar mais lenha na fogueira 
ou ajudar a controlá-la.
ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS
Agora imagine que, além de ter esse sistema de alarme hiperreativo, 
alguém despeje ainda mais combustível no circuito. Pois é justamente isso 
que acontece com o uso de substâncias psicoativas (drogas capazes de al-
terar o funcionamento do cérebro, afetando o humor, a percepção ou o 
comportamento). Álcool, maconha, cocaína e até medicamentos mal uti-
lizados bagunçam neurotransmissores e ritmos biológicos em um cérebro 
que já possui uma vulnerabilidade genética. 
Ao avaliar as substâncias que podem desencadear o início dos sinto-
mas e o agravamento do TB, a Cannabis aparece como foco de interesse. 
Há evidências claras de que o consumo frequente de maconha na juventu-
de aumenta a probabilidade de surgirem sintomas maníacos em fases pos-
teriores, atuando como um possível gatilho em indivíduos com predisposi-
ção. Álcool, tabaco (nicotina) e o uso indevido de sedativos também estão 
relacionados a um risco maior de TB.
Além de contribuir para desencadear o TB, o uso de substâncias psico-
ativas pode perdurar ao mesmo tempo em que os sintomas se desenrolam. 
Essa combinação – TB e dependência química – torna o tratamento mais 
difícil, pois a pessoa tende a ter mais recaídas, segue menos as orientações 
médicas e aumenta o risco de precisar de internação. 
Por exemplo, muita gente recorre ao álcool para tentar dormir melhor 
em fases de mania ou aliviar a tristeza na depressão. A curto prazo, pode 
 ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE • 33 
parecer que ajuda, mas é como apagar um fogo jogando mais combustível: 
no fim, a chama tende a crescer. O álcool irá acelerar as oscilações de humor 
e agravar sintomas, além de ter o potencial para criar outras complicações 
como deficiências nutricionais e danos ao fígado. 
Mas o que exatamente acontece no cérebro quando há consumo de 
substâncias como álcool ou drogas?
 Elas podem desencadear uma “tempestade interna” marcada por in-
flamação crônica e algo chamado estresse oxidativo, o que sobrecarrega o 
cérebro e amplifica fragilidades já existentes em quem convive com o TB. 
Se isso parece complicado, não se preocupe: no próximo capítulo, explica-
remos de forma simples como esses processos funcionam e por que são tão 
relevantes. 
Essas substâncias psicoativas também afetam a neuroquímica relacio-
nada à regulação do humor. Estimulantes como a cocaína ou mesmo anfe-
taminas utilizadas sem orientação médica “para melhorar a performance” 
elevam os níveis de dopamina e podem precipitar um episódio de mania.
É por isso que controlar o uso de substâncias psicoativas não é ape-
nas um detalhe: é essencial para evitar novos episódios ou impedir que um 
quadro já existente de TB se agrave.
Para quem tem predisposição genética — parentes de primeiro, segun-
do ou terceiro grau — manter distância de drogas (como álcool,maconha, 
cocaína, anfetaminas e afins) e nunca experimentá-las é prioridade absolu-
ta. É justamente aí que reside o valor de conhecer as origens da bipolarida-
de: podemos nos prevenir melhor e fazer escolhas mais conscientes sobre 
como lidar com os riscos que a genética traz.
ESTILO DE VIDA, DIETA E EXERCÍCIO: FATORES PROTETORES
Se os fatores anteriores lembram ventos que espalham as chamas, a trí-
ade “boa alimentação, atividade física e rotinas regulares” pode ser vista 
como o conjunto de barreiras que separam o fogo do resto da floresta. Não 
só reduzem a probabilidade de incêndio, como também ajudam a contê-lo, 
34 • ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE
caso surja algum foco mais intenso.
Devido à importância desses fatores protetores — como alimentação 
equilibrada, prática de exercícios e estabelecimento de uma rotina de sono 
— dedicamos alguns capítulos mais à frente para explorar como o estilo de 
vida pode auxiliar na regulação do humor e na prevenção de recaídas.
INTEGRANDO TUDO: CONSTRUINDO PONTES 
ENTRE BIOLOGIA E AMBIENTE
Todos esses fatores — traumas, substâncias, estilo de vida — não ope-
ram em compartimentos separados. A ciência mais recente adota um mo-
delo integrativo, onde a predisposição genética, as alterações neurobioló-
gicas e os estímulos externos interagem como engrenagens de um mesmo 
motor. Nesse contexto, o eixo “vulnerabilidade interna e estresse externo” 
segue sendo a pedra angular para compreender por que uma pessoa mani-
festa o TB e outra, com história de vida semelhante, aparentemente não.
Essa perspectiva reflete um ponto de vista evolutivo: cérebros sob pres-
são, submetidos a traumas ou rotina de vida caótica, se tornam mais rea-
tivos. 
Frequentemente, ao narrarem suas histórias de vida no consultório, 
os pacientes contam que, no início, a depressão era desencadeada por um 
problema externo bem definido — por exemplo, não passar no vestibular 
ou uma decepção amorosa. Com o tempo, porém, os episódios passam a 
surgir de forma cada vez mais espontânea, sem um “gatilho” evidente. É 
como se viessem do nada. Você imagina por que isso acontece?
A explicação está em um fenômeno chamado de sensibilização. No 
começo, são necessários grandes abalos para desencadear um episódio de-
pressivo; porém, após repetidas crises, até incidentes aparentemente ino-
fensivos podem reacender o quadro, como se o cérebro ficasse “hiperaler-
ta”. Para entender melhor, imagine que é como levar chutes repetidos no 
mesmo ponto da canela: se, no início, era preciso um golpe mais forte para 
machucar, com o passar do tempo essa região fica tão sensível que qual-
quer toque desencadeia uma dor intensa. 
 ORIGENS 01: A GENÉTICA E O AMBIENTE • 35 
POR QUE ESSE ENTENDIMENTO IMPORTA?
Reconhecer esses fatores não é simplesmente catalogar “vilões” e “mo-
cinhos” do TB, mas sim identificar onde podemos intervir. Para muitas 
pessoas, entender a base genética e ambiental do TB é o primeiro passo 
para abandonar culpas infundadas — ou a ilusão de que tudo depende 
apenas de força de vontade — e adotar medidas concretas de proteção. 
Cada boa escolha pode somar, atenuando vulnerabilidades e evitando que 
os episódios sejam tão frequentes ou intensos.
Afinal, a chave está em compreender que o TB não é definido por um 
“defeito” interno, mas por uma confluência de fatores que tanto podem 
atenuar quanto agravar as oscilações do humor. E, por mais desafiador que 
seja, há sempre brechas pelas quais podemos trabalhar de maneira preven-
tiva e terapêutica, na esperança de manter o fogo sob controle e preservar 
a floresta inteira.
Vale lembrar que cada fator descrito até aqui — genético e ambiental 
— converge para abrir caminho para as primeiras manifestações do TB. Se 
no início elas podem surgir de maneira sutil ou até confundir-se com ou-
tros diagnósticos, mais adiante tornam-se inegáveis. No próximo capítulo, 
vamos explorar justamente esse “início dos sintomas”, entendendo como 
o TB pode despontar em diferentes fases da vida, muitas vezes passando 
despercebida até que a história se revele por completo.
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