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TEORIA DA ARQUITETURA E DA CIDADE Anna Carolina Manfroi Galinatti O movimento moderno na arquitetura e na cidade Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Sintetizar o movimento moderno. � Reconhecer os grandes mestres da arquitetura moderna. � Definir o urbanismo modernista. Introdução As obras do movimento moderno têm relevância em todos os conti- nentes do mundo. Englobando características únicas e rompendo com tradições projetuais muito enraizadas, o Modernismo invadiu o século XX trazendo uma nova forma de enxergar não só a arquitetura, mas também o urbanismo e a própria forma de se viver nas cidades. Neste capítulo, você vai estudar o movimento moderno, vendo suas principais características e identificando as razões pelas quais ele é o principal movimento da arquitetura no século XX. Além disso, vai ver exemplos de arquitetos, edificações e cidades que se fundamentaram sob essas bases e ler sobre o legado desses arquitetos, que atravessa gerações. 1 O movimento moderno Não é tarefa simples apontar um local ou período em que se iniciou o mo- vimento moderno. Kenneth Frampton (1997, p. ix) pondera que tal marco inicial pode ser colocado inclusive na Renascença, quando Claude Perrault questionou a validade universal das proporções vitruvianas. No entanto, é comum chamarmos de arquitetura de movimento moderno aquela produção arquitetônica produzida nas primeiras décadas do século XX. Embora não seja possível afirmar quando e se o movimento moderno acabou, alguns autores aceitam a proposta de Charles Jencks de colocar o dia 16 de março de 1972, às 15h, como data oficial para o fim do Modernismo, dia e hora em que o conjunto Pruitt-Igoe foi demolido. O conjunto habitacional Pruitt-Igoe foi projetado e construído em 1955 pelo arquiteto Minoru Yamasaki na cidade de Saint Louis, Missouri, nos Estados Unidos, como uma tentativa de abrigar a população mais pobre da cidade em um novo conjunto edificado. Ao longo dos quase 20 anos em que foi habitado, o conjunto foi tomado pela violência e acabou se tornando um dos alvos preferidos dos críticos da arquitetura moderna. Devido aos problemas sociais agravados pelo conjunto, decidiu-se pela demolição dos edifícios, que ocorreu em 1972. Fonte: Ficheiro... (2009, documento on-line). O movimento moderno na arquitetura e na cidade2 A arquitetura moderna pode ser colocada em um contínuo histórico com a produção arquitetônica preconizada pela Escola de Belas Artes francesa, que, no século XIX, explicitou métodos de projeto baseados na composição de elementos em um esquema diagramático inicial com as estratégias principais do projeto para, posteriormente, desenvolver as características principais do projeto, responsáveis por guiar o desenvolvimento da obra arquitetônica (GON- ZAGA, 2017). Sobre essa composição eram aplicados elementos decorativos que transmitiam o caráter daquela edificação, independentemente do estilo que seria aplicado. Por exemplo, um banco poderia ser projetado em estilo dórico, mais robusto, enquanto uma estação de trens poderia ser projetada em estilo gótico, com as estruturas mais delgadas. Alan Colquhoun defende que o processo de composição se tornou, na Escola de Belas Artes, um meio por meio do qual era possível escrever regras e desenho comum a todos os estilos (COLQUHOUN, 1991). É justamente a possibilidade de criar composições adequadas a todo e qualquer estilo criada na Escola de Belas Artes, no século XIX, que permitiu o surgimento de uma arquitetura que se dizia, inicialmente, livre de estilos e decorações, com a intenção inicial de negar os procedimentos e a estética do passado em favor de novos valores funcionais e construtivos. Mahfuz (1995) defende que a mudança de paradigma entre a arquitetura acadêmica — aquela da Escola de Belas Artes — e a moderna se dá pelo surgimento da possibilidade da organização livre das partes no Modernismo, obedecendo apenas ao desejo do arquiteto, ao contrário da arquitetura do século XIX, que obedecia a um conjunto estabelecido de regras compositivas. Isso revelou uma nova arquitetura, que seria livre dos estilos pré-estabelecidos que conferiam o valor das obras arquitetônicas até o início do século XX. Um dos mestres indiscutíveis da arquitetura moderna, o suíço Le Corbu- sier, demonstra a posição da arquitetura moderna em um contínuo histórico ao afirmar, no texto que acompanhava seu projeto para a Liga das Nações, como “uma proposição alternativa, empregando os mesmos elementos de composição” (BANHAM, 1960, p. 37). 3O movimento moderno na arquitetura e na cidade O mesmo Le Corbusier que admite o uso de ferramentas de projeto aca- dêmicas é, justamente, um dos responsáveis por um dos textos que podem ser considerado seminais no movimento moderno. No ano de 1927, o arquiteto publica na revista L’Esprit Nouveau, em parceria com seu primo Pierre Jean- neret, os cinco pontos da arquitetura moderna, que você pode ver no Quadro 1. Fonte: Adaptado de Maciel (2002). Pilotis Libera o edifício do solo e torna público o uso desse espaço antes ocupado, permitindo, inclusive, a circulação de automóveis. Terraço jardim Transforma as coberturas em terraços habitáveis, em contraposição aos telhados inclinados das construções tradicionais. Planta livre Resultado direto da independência entre estruturas e vedações, possibilita maior diversidade dos espaços internos, bem como mais flexibilidade na sua articulação. Fachada livre Também permitida pela separação entre estrutura e vedação, possibilita a máxima abertura das paredes externas em vidro, em contraposição às maciças alvenarias que outrora recebiam todos os esforços estruturais dos edifícios. Janela em fita Ou fenêtre en longueur, também consequência da independência entre estrutura e vedações, é um tipo de abertura longilínea que corta toda a extensão do edifício, permitindo iluminação mais uniforme e vistas panorâmicas do exterior. Quadro 1. Os cinco pontos da arquitetura moderna As cinco características elencadas por Le Corbusier na década de 1920 seriam largamente utilizadas e adaptadas ao longo da primeira metade do século XX ao redor do mundo. Um dos exemplos mais conhecidos de adoção total da teoria corbusiana é a Villa Savoye, projetada por ele em uma cidade próxima a Paris, em 1928. Na Figura 1, você pode ver como a casa obedece a todos os preceitos. O movimento moderno na arquitetura e na cidade4 Figura 1. Villa Savoye, Le Corbusier. Fonte: Ching (2019, p. 723). (a) (b) Em 1932, o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), Estados Unidos, organizou uma exposição chamada Arquitetura Moderna: Exposição Internacional, a qual definiria as bases para a categorização do que veio a se convencionar como a estética do movimento moderno. Acompanhava a exposição um livro escrito por Philip Johnson e Henry Russell Hitchcock inti- tulado O Estilo Internacional, no qual eram analisadas as obras dos arquitetos das primeiras décadas daquele século em busca de um denominador comum capaz de configurar um movimento cultural mundial. Johnson e Hitchcock resumiam o novo estilo da seguinte maneira: Há antes de tudo um novo conceito de arquitetura como volume em vez de massa. Em segundo lugar, a regularidade em vez da simetria axial serve como principal meio para a ordenação do projeto. Esses dois princípios, com um terceiro que condena a decoração aplicada arbitrariamente, marcam as produções do Estilo Internacional (CURTIS, 2008, p. 239). 5O movimento moderno na arquitetura e na cidade Na exposição de 1932 os curadores se esforçaram em apresentar exemplos dessa nova arquitetura produzidos ao redor do mundo, desde os já então canô- nicos, como a Villa Savoye, até produções mais obscuras, como os edifícios produzidos no leste europeu. Embora fosse menos panfletária do que o manifesto corbusiano publicado na década anterior, o texto de Johnson e Hitchcock não tinha a funçãode apenas informar sobre a produção de uma nova arquitetura. Ao elencar os exemplos escolhidos e apresentá-los em situação de igualdade ao redor do mundo, o MoMA colocou aquela arquitetura moderna como a representante do que havia de mais contemporâneo e adequado. Portanto, a exposição teve um forte efeito sobre a nova geração de arquitetos, que encontrou na arquitetura moderna um norte para o qual apontar a produção. O resultado desses esforços anteriores à Segunda Guerra Mundial foi a presença e dominação incontestável da arquitetura moderna dos anos 1930 aos anos 1970, quando o novo estilo se tornou verdadeiramente internacional e difundido, recebendo características locais por onde passasse. Agora que você conhece as origens e principais conceitos da arquitetura moderna, vamos explorar algumas das figuras mais importantes desse período, destacando tanto suas obras quanto seus escritos. 2 Grandes mestres da arquitetura moderna O movimento moderno, como você já sabe, iniciou-se no começo do século XX, tendo seu auge na metade daquele século. Durante esse período, pode- mos destacar diversos profissionais que traçaram o caminho para que outras gerações de arquitetos pudessem inovar e transformar as paisagens urbanas de todo o mundo. A seguir, você conhecerá alguns dos personagens mais relevantes do pe- ríodo, iniciando com Le Corbusier e Mies van der Rohe, passando por Walter Gropius, responsável pela mais importante escola de arquitetura do período, a Bauhaus, e Frank Lloyd Wright, um americano que desenvolveu sua versão da arquitetura moderna na mesma época. O movimento moderno na arquitetura e na cidade6 Le Corbusier Charles Edouard Jeanneret nasceu em La Chaux-de-Fonds, na Suíça, em 1887. A cidade era conhecida por suas fábricas de relógio, ofício para o qual foi treinado. Em 1917, ele se muda para Paris, onde é apresentado por Amédée Ozenfant à vanguarda pós-cubista, o que viria a influenciar a sua produção posterior. Nos anos 1920 ele assume a alcunha de Le Corbusier e inicia a publicação da revista L’Esprit Nouveau junto com Ozenfant, o que permitiria espalhar suas ideias sobre arquitetura mesmo sem os contratos que levariam seus projetos adiante (CURTIS, 2008). Ao longo da década de 1920, Le Corbusier produziu uma série de casas nos arredores de Paris que sedimentaria a sua importância como um dos vanguardistas da nova arquitetura. Entre essas casas estão a casa atelier feita para Ozenfant, em 1923, e a casa La Roche, projetos nos quais Le Corbusier “desenvolveu uma técnica de retirada das coisas de seus contextos habituais e estabelecimento de novas vibrações e significados para elas” (CURTIS, 2008, p. 172). Exemplos são o uso de sheds industriais em ambientes domésticos e paredes caiadas e terraços mediterrâneos em Paris. Na Figura 2, você pode ver o interior da casa Ozenfant, em um desenho de Francis Ching (2013). Figura 2. Casa Ozenfant, Le Corbusier. Fonte: Ching (2013, p. 167). 7O movimento moderno na arquitetura e na cidade Uma de suas obras mais influentes é a Villa Savoye, em Poissy, que você já pode explorar anteriormente. Esse projeto foi o ápice do período das casas brancas de Le Corbusier, finalizando o período de defesa de uma nova ar- quitetura que, nos anos 1930, já havia sido sedimentada ao redor do mundo. Nas décadas seguintes, Le Corbusier se dedicou aos estudos de ocupação urbana que se espalhariam como parte dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM), que você verá em mais detalhes a seguir. Após a Segunda Guerra Mundial, ele se dedicou a novas explorações formais, aproximando-se do Movimento Brutalista. Segundo William Curtis (2008, p. 417), Le Corbusier produziu, entre 1945 e sua morte, em 1965, “uma série de obras-primas complexas, cada uma delas caracterizada por uma rica combinação de velhos temas e de novas formas de expressão, por um toque de primitivismo e pela inserção proposital de associações com o passado”. Entre essas obras, cabe destacar o conjunto de unidades de habitação que ele produziu como um esforço para a reconstrução da Europa no pós-guerra. Na Figura 3, você pode ver a unidade de habitação de Marselha, França, construída em 1950. Figura 3. Unidade de habitação de Marselha, Le Corbusier. Fonte: Panerai, Castex e Depaule (2013, p. 146). O movimento moderno na arquitetura e na cidade8 Mies van der Rohe Ludwig Mies van der Rohe nasceu em Aachen, na Alemanha, em 1886, e iniciou sua carreira como assistente de Peter Behrens, pioneiro da arquitetura moderna na Alemanha. Após o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1919, a obra de Mies tornou-se cada vez mais alinhada com as vanguardas mo- dernas europeias, caracterizando, segundo Kenneth Frampton (1997, p. 196) “um modo de construção branco, prismático e de cobertura horizontal”. O destaque miesiano é o projeto do edifício de apartamentos no Weissenhof- siedlung, em Stuttgart, Alemanha, que pode ser visto na Figura 4. Figura 4. Edifício de apartamentos no Weissenhofsiedlung, Mies van der Rohe. Fonte: Ching (2019, p. 730). 9O movimento moderno na arquitetura e na cidade Entretanto, foi na virada da década de 1920 para 1930 que Mies produziu aquela que é considerada por muitos a sua obra prima: o Pavilhão Alemão em Barcelona, uma composição centrífuga horizontal articulada por planos e colunas independentes. Na Figura 5, você pode ver o exterior do edifício e detalhe do interior, com o mobiliário projetado especificamente para o espaço, as poltronas Barcelona. Figura 5. Pavilhão Alemão e poltronas Barcelona, Mies van der Rohe. Fonte: Ching (2019, p. 735). Em 1937, em meio ao governo nazista na Alemanha, o arquiteto se desloca para os Estados Unidos, onde inicia uma nova fase em sua carreira. Logo após sua mudança, Mies projeta o Instituto de Tecnologia de Illinois, em Chicago, um campus universitário composto por diversos edifícios prismáticos com quatro pavimentos. Um dos projetos mais celebrados da etapa americana da obra de Mies é uma pequena casa projetada na cidade de Plano, em Illinois. Com 23 × 9 metros, essa casa está “erguida acima 1,5m acima do solo, sobre colunas de viga I externas, separadas por uma distância de 6,7 metros entre si” (FRAMPTON, 1997, p. 285). O resultado formal é um volume de vidro puro que Frampton (1997) considera a síntese da frase de Mies “quase nada”. O movimento moderno na arquitetura e na cidade10 Walter Gropius Walter Gropius nasceu em Berlim, em 1883, e estudou em Munique e Berlim, onde trabalhou com Peter Behrens — que também empregou Mies van der Rohe — em 1907. Com o fim da Primeira Guerra Mundial e a derrota alemã, surgiu na Alemanha uma oportunidade de materializar a tentativa de refor- mular a educação artística no país, um desejo que, segundo Frampton (1997), acompanhava os alemães desde a virada do século. Em 1919, Gropius é nomeado diretor da recém fundada Bauhaus, uma escola de artes, design e arquitetura que se tornaria uma das mais importantes referências para o ensino de projeto no século XX. Entre os professores da Bauhaus, podemos destacar Paul Klee, Wassily Kandinsky entre outros dos mais relevantes nomes da arte moderna. O edifício da Bauhaus na cidade de Dessau foi projetado por Gropius entre 1925 e 1926 em uma articulação de volumes com diferentes tratamentos de fachada, cada qual adaptado a uma função específica, ligados por passarelas. Veja na Figura 6 uma imagem com o pavilhão dos ateliers em primeiro plano e o volume residencial ao fundo. Figura 6. Edifício da Bauhaus, Walter Gropius. Fonte: Cinematographer/Shutterstock.com. 11O movimento moderno na arquitetura e na cidade Frank Lloyd Wright Frank Lloyd Wright nasceu no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos, em 1867, e teve sua formação muito influenciada pelo trabalho com Louis Sullivan, um dos mais importantes arquitetos do final do século XIX, que desenvolveu, em Chicago, os primeiros arranha céus. Na última década daquele século e início do séculoXX, Wright projetou uma série de casas nos subúrbios de Chicago nas quais desenvolveu uma linguagem arquitetônica própria. As chamadas “casas da pradaria” foram marcadas, segundo Fazio, Moffett e Wodehouse, (2011, p. 478), pela: [...] busca por uma expressão regional adequada para as casas norte-ameri- canas, especialmente no Meio-Oeste. Inspirando-se nas suaves colinas dos prados, projetou casas horizontalizadas que pareciam estar organicamente amarradas à paisagem. Entre as casas da pradaria, o exemplo mais importante foi a Casa Robie, na qual é possível ver o esforço de Wright em transmitir a horizontalidade da paisagem local nas longas janelas e lajes em balanço. Na Figura 7, você pode ver a Casa Robie, projetada por Frank Lloyd Wright em 1909. Figura 7. Casa Robie, Frank Lloyd Wright. Fonte: Ching (2019, p. 697). O movimento moderno na arquitetura e na cidade12 A partir da década de 1930, superadas as experimentações iniciais de Wright acerca da arquitetura moderna, o americano produziu algumas de suas obras mais importantes. Entre elas está a casa da Cascata, projetada para a família Kaufmann nas montanhas à oeste da Pensilvânia. Nesta casa, Wright tomou partido do terreno para criar uma série de patamares com varandas abertas para a paisagem. O nome dado para a edificação, “Casa da Cascata”, se deve ao fato desta estar locada sobre uma formação rochosa pela qual passa um córrego. Wri- ght utilizou esta característica a seu favor, como explicam Fazio, Moffett e Wodehouse (2001, p. 516): Para ver a cascata, é preciso ir ao exterior, sob a casa, onde a água e a edifica- ção podem ser vistas juntas na imagem clássica pretendida por Wright; antes da construção, ele chegou a fazer um desenho em perspectiva deste ponto específico para avaliar o efeito. Veja na Figura 8 a inserção precisa da casa no entorno: Figura 8. Casa da Cascata, Frank Lloyd Wright. Fonte: Fazio, Moffett e Wodehouse (2011, p. 517). 13O movimento moderno na arquitetura e na cidade Por último, cabe destacar uma das últimas obras de Wright, o Museu Guggenheim, em Nova York, projetado pouco antes de sua morte. O projeto se localiza na Quinta Avenida, em frente ao Central Park, em um terreno que ocupa toda a face do quarteirão virada para o parque. Veja na Figura 9 uma foto do museu. Figura 9. Museu Guggenheim, Frank Lloyd Wright. Fonte: Fazio, Moffett e Wodehouse (2011, p. 518). Trata-se de uma investigação inovadora tanto formal quanto de museografia. O edifício conta com uma base na qual pousam dois cilindros, um mais baixo e outro espiralado que é coberto por uma grande zenital. A espiral é vazada internamente, revelando um grande átrio para o qual se abrem as galerias, cujas paredes curvas abrigam as obras de arte. Na Figura 10 você pode ver como esse espaço se revela internamente O movimento moderno na arquitetura e na cidade14 Figura 10. Interior do Museu Guggenheim, Frank Lloyd Wright. Fonte: ItzaVU/Shutterstock.com. 3 O urbanismo modernista Até agora vimos os principais personagens da arquitetura moderna e os princi- pais edifícios projetados por cada um deles. No entanto, uma das mais impor- tantes e controversas contribuições do Modernismo foram as experimentações em escala urbana propostas na primeira metade do século XX. Em 1922, Le Corbusier propôs uma cidade para responder aos problemas da reurbanização pós-Primeira Guerra Mundial. A proposta de Le Corbusier era baseada em Paris e deveria abrigar três milhões de habitantes ao redor de um centro com 40 torres residenciais com 180 metros cada, que abrigariam, segundo William Curtis (2008), os banqueiros, burocratas e administradores. Os demais habitantes morariam em edifícios mais baixos, espalhados pela cidade, com uma implantação bucólica, semelhante a um parque. O tráfego de veículos automotores seria separado do de pedestres através do uso de pilotis; na verdade, todo o tapete verde da cidade seria mantido livre através da elevação do primeiro pavimento dos prédios. A rua tradicional era abolida (CURTIS, 2008, p. 247). 15O movimento moderno na arquitetura e na cidade A abolição das ruas corredor das tradicionais cidades europeias foi um dos principais temas do urbanismo moderno, como uma resposta técnica aos problemas da superpopulação urbana no período pós-Revolução Industrial. Le Corbusier atribuía à alta densidade e à pouca ventilação dos centros urbanos uma parcela considerável das doenças do século XIX. Na mesma época em que Le Corbusier planejava sua cidade para três milhões de habitantes, o alemão Ludwig Karl Hilberseimer, que lecionava na Bauhaus, divulgou um projeto em resposta ao suíço. Trata-se da Hochhausstadt, ou cidade dos arranha céus, na qual os habitantes viveriam e trabalhariam em grandes blocos verticais, limitando os deslocamentos a subidas e descidas dentro do mesmo bloco. Na Figura 11, você pode ver uma perspectiva do projeto de Hilberseimer. Figura 11. Hochhausstadt, Ludwig Karl Hilberseimer. Fonte: Art Institute of Chicago ([20--?], documento on-line). O movimento moderno na arquitetura e na cidade16 Em 1928, foi criado um grupo internacional de arquitetos de diversos países, incluindo Le Corbusier e Walter Gropius, para discutir os rumos da arquitetura moderna. Os CIAMs, ou Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, surgiram com o objetivo de discutir o inter-relacionamento entre arquitetura e planejamento urbano (CURTIS, 2008). Foi, no entanto, no quarto encontro do grupo, realizado a bordo do navio SS Patris, que navegou entre Marse- lha e Atenas, que foi forjado o documento seminal do urbanismo moderno: a Carta de Atenas. A maioria das cidades estudadas oferece hoje a imagem do caos. Essas cidades não correspondem de modo algum a sua destinação que seria satisfazer as necessidades primordiais, biológicas e psicológicas da população. […] Para realizar essa grande tarefa é indispensável utilizar os recursos da técnica moderna (CURTIS, 2008, p. 255). Esse documento propôs uma série de estratégias e medidas que deviam ser adotadas nos projetos tanto para novas cidades quanto para renovações urbanas. O documento de 1933 aponta, segundo Kenneth Frampton (1997), 109 propostas para corrigir a situação identificada como caótica pelos redatores. Tais propostas eram divididas em cinco categorias principais: moradia, lazer, trabalho, transporte e edifícios históricos. No nono encontro do CIAM, realizado em Aix-en-Provence em 1953, um grupo de jovens arquitetos liderados por Alison e Peter Smithson e Aldo van Eyck desafiou as categorias funcionalistas da Carta de Atenas, moradia, trabalho, lazer e transporte, apresentando uma situação urbana mais complexa, na qual buscavam “uma relação mais precisa entre a forma física e a necessi- dade sociopsicológica” (FRAMPTON, 1997, p. 330) dos habitantes da cidade. Esse grupo, que ficou conhecido como Team X (time dez), organizou o décimo e último encontro do CIAM, realizado em 1959, que marcou uma virada nos valores arquitetônicos e urbanísticos europeus, deixando para trás algumas das teorias dos primeiros mestres da arquitetura moderna. Como você pode ver, o urbanismo moderno surgiu para responder aos problemas de saúde das cidades europeias do início do século XX, que so- friam com a superpopulação e a falta de infraestrutura. Nesse sentido, as soluções encontradas pelos arquitetos daquele período pareciam bastante razoáveis. No entanto, os exemplos construídos desse urbanismo provaram ser insuficientemente complexos para abrigar a totalidade das experiências e necessidades humanas. 17O movimento moderno na arquitetura e na cidade ART INSTITUTE OF CHICAGO. Highrise City (Hochhausstadt): Perspective View – North- -South Street. [20--?]. Disponível em: https://www.artic.edu/artworks/101044/highrise- -city-hochhausstadt-perspective-view-north-south-street. Acesso em: 10 mar. 2020. BANHAM, R. Theory and design in the first machine age. New York: Praeger, 1960. CHING, F. D. K. Arquitetura:forma, espaço e ordem. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2013. CHING, F. D. K.; JARZOMBEK, M.; PRAKASH, V. 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 19O movimento moderno na arquitetura e na cidade