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UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Disciplina: Bioquímica Clínica - ARA 0189 Docente: Rafael Silva Tema: Funções hepáticas e enzimas do fígado Discentes: Alexia Carreiro Gomes - 202407372597 Anna Carolina Felix De Souza - 202601509284 Deyse Giane V. Ribeiro - 202407387081 Fernanda Medeiros da Silva 202508225026 Lara Valéria Guedes Passos 202502407531 Marcela Martins Guimarães - 202503718164 Tatiana Maria A. V. Gonçalves - 202108512338 2026 Volta Redonda / RJ SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO .........................................................................................................................3 2. DESENVOLVIMENTO .............................................................................................................5 3. CASO CLINICO .....................................................................................................................20 4. CONCLUSÃO.........................................................................................................................23 5.REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA............................................................................................23 1. INTRODUÇÃO O fígado é o maior órgão interno do corpo humano, representando uma parte significativa do nosso peso total — em média, ele pesa cerca de 1,5 kg. Ele é uma estrutura extremamente complexa que realiza funções vitais tão específicas que, mesmo com toda a tecnologia médica atual, ainda não conseguimos criar máquinas que substituam tudo o que ele faz. Estrategicamente posicionado no nosso sistema de circulação, o fígado possui uma característica única: ele recebe sangue de duas fontes diferentes. Cerca de 20% do sangue que chega até ele é rico em oxigênio, vindo diretamente do coração pela artéria hepática para mantê-lo vivo, já os outros 80% vêm da veia porta, trazendo o sangue que acabou de passar pelo sistema digestivo. Isso faz do fígado uma espécie de "alfândega" do corpo, pois ele filtra tudo o que foi absorvido pelo intestino, decidindo quais nutrientes ou substâncias podem seguir viagem para o resto do organismo. Figura 1 Na prática, o fígado funciona como uma usina multiuso: ele desintoxica o sangue, produz proteínas essenciais como a albumina e os fatores de coagulação, além de processar medicamentos e restos de células velhas. Ele também é o nosso grande estoque de energia, armazenando vitaminas, gordura e fabricando glicose quando ficamos muito tempo sem comer. Para organizar todo esse trabalho, o fígado é dividido microscopicamente em unidades funcionais chamadas ácinos. Essa organização é fundamental para entender como as doenças afetam o órgão, pois as células são distribuídas em três zonas principais, de acordo com a proximidade da chegada do sangue. Os hepatócitos da zona 1, são os primeiros a receber o sangue vindo das áreas portais. Como são os mais bem irrigados e oxigenados, eles são mais resistentes, possuem maior capacidade de se regenerar e têm mais enzimas para o metabolismo que utiliza oxigênio. Já os hepatócitos da zona 2, possuem um padrão intermediário. Por fim, na zona 3, as células ficam mais distantes da entrada de sangue e mais perto das veias centrais. Por receberem menos oxigênio e nutrientes, elas são as mais sensíveis a lesões e têm menor poder de recuperação, focando em um metabolismo mais químico. Essa divisão explica por que certas doenças ou falta de circulação atingem partes específicas do fígado de formas diferentes. Para que todas essas reações químicas nas diferentes zonas aconteçam, o fígado conta com as enzimas, como as aminotransferases (AST e ALT), que ajudam a processar proteínas. O ponto chave é que essas enzimas devem morar dentro das células. Se o fígado sofre uma lesão em qualquer uma dessas zonas, as células se rompem e "derramam" as enzimas no sangue. É por isso que níveis elevados desses componentes no exame de sangue servem como um sinal de alerta. Além dessas operárias, o fígado ainda conta com células de defesa (Kupffer) e de suporte (Ito), garantindo que essa gigantesca central de processamento continue protegendo o equilíbrio do seu corpo. As células de Kupffer ficam dentro dos sinusoides hepáticos e sua função principal é "limpar" o sangue que vem do intestino, fagocitando (comendo) bactérias, detritos celulares e toxinas, agindo como a primeira linha de defesa imunológica do órgão. Como o fígado desempenha papéis variados, a medicina utiliza um conjunto de testes para avaliar diferentes aspectos de sua saúde, já que não existe um exame único para medir tudo. A dosagem de ALT e AST é fundamental para identificar lesões diretas nas células hepáticas, como ocorre em casos de hepatites ou uso de medicamentos. Já para avaliar o fluxo da bile e possíveis obstruções, como pedras na vesícula, os médicos analisam as enzimas Fosfatase Alcalina e GGT, além dos níveis de bilirrubinas, que quando elevados podem causar o amarelamento da pele e dos olhos. Por fim, a capacidade de fabricação do fígado é medida através da Albumina e do Tempo de Protrombina (TAP), que verifica se o órgão ainda consegue produzir as proteínas necessárias para a coagulação do sangue. Todo esse sistema trabalha em conjunto para garantir que essa gigantesca central de processamento mantenha o equilíbrio e a proteção do corpo humano. 2. DESENVOLVIMENTO Uma avaliação hepática completa não se baseia em um único marcador, mas sim no equilíbrio entre enzimas que indicam lesão celular e proteínas que refletem a função de síntese do fígado, os exames laboratoriais se conectam para formar o diagnóstico clínico. Vamos abordar alguns dos principais exames laboratoriais solicitados, para uma avaliação completa de um quadro hepático, que são: Alanina Aminotransferase (TGP), Albumina, Aspartato Aminotransferase (TGO), Bilirrubinas (Total, Direta e Indireta), Fosfatase Alcalina (FA), Gama-Glutamil Transferase (Gama GT), Hepatite + Colestase lesão hepática e Tempo de Protrombina (TAP/RNI). 2.1 Alanina Aminotransferase (ALT) A alanina aminotransferase (ALT) ou (TGP) transaminase Glutâmico-Pirúvica é uma enzima encontrada predominante fígado, mas também em outros tecidos (em menores concentração) como rins, coração e células musculares. O fígado desempenha um papel bioquímico central e crítico no metabolismo, digestão, desintoxicação e eliminação de substâncias do corpo. As principais causas de TGP elevado são: doenças hepáticas (Hepatite viral, cirrose, hemocromatose) , esteatose hepática (fígado gorduroso) comum em pessoas com obesidade, diabetes ou consumo de álcool excessivo. É normal o fígado ter gordura, no entanto se o índice chegar a 5% ou mais o quadro deve ser tratado o mais brevemente possível. A estatose hepática pode provocar, se não tratada a médio ou longo prazo, uma inflamação capaz de evoluir. Nesses casos, o fígado não só aumenta de tamanho, como também adquire um aspecto amarelo. O exame de sangue para dosagem de ALT geralmente faz parte de um painel hepático e de um painel metabólico completo para avaliar possíveis danos ao fígado. Ele também está envolvido na síntese hormonal, produzindo os hormônios fator de crescimento semelhante à insulina 1 (IGF-1), angiotensinogênio, hepcidina, trombopoietina, eritropoietina e o pró-hormônio 25-OH vitamina D. Muitas dessas funções hepáticas podem ser avaliadas por procedimentos laboratoriais para obter informações sobre a integridade do fígado. Para coletar o sangue usar o tubo seco (vermelho) ou gel separador ( amarelo). 2.2 AST Aspartato Aminotransferase (TGO) O TGO (Transaminase Glutâmico-Oxalacética), também amplamente conhecido pela sigla AST (Aspartato Aminotransferase), é uma enzima fundamental para o metabolismo e um dos principais marcadores laboratoriais de lesão celular. Diferente do TGP (ALT), que é mais específico para o fígado, o TGO é encontrado em concentrações significativas em vários tecidos do corpo, incluindo o músculo cardíaco (coração), os músculos esqueléticos, os rins, o cérebro e os glóbulos vermelhos,além do próprio fígado. Essa distribuição ampla significa que a elevação isolada do TGO no sangue nem sempre indica um problema hepático; ela pode ocorrer após um infarto do miocárdio, lesões musculares graves ou até mesmo exercícios físicos intensos realizados nas 24 horas anteriores à coleta. Para a realização do exame de TGO, o laboratório precisa obter o soro do paciente, que é a parte líquida do sangue que permanece após a coagulação e a centrifugação da amostra. Para garantir a integridade da amostra e evitar que anticoagulantes interfiram na reação química que mede a atividade da enzima, são utilizados tubos específicos de coleta, que se caracterizam por não possuírem aditivos ou por conterem apenas um ativador de coágulo. As cores padrão das tampas desses tubos no Brasil, seguindo as diretrizes da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), são a vermelha e a amarela. O tubo de tampa vermelha é tradicionalmente um tubo "seco", sem aditivos químicos ou com apenas um ativador de coágulo nas paredes para acelerar o processo. Já o tubo de tampa amarela também é um tubo seco com ativador de coágulo, mas possui uma vantagem técnica: um gel separador no fundo que, após a centrifugação, cria uma barreira física entre o soro e o coágulo de células, garantindo maior estabilidade para a amostra e facilitando sua manipulação no laboratório. Por outro lado, o tubo de tampa roxa, que contém o anticoagulante EDTA e é amplamente utilizado na hematologia para o hemograma, não deve ser utilizado para a coleta de TGO. O EDTA pode interferir na análise enzimática e fornecer resultados falsamente baixos. Embora o jejum rigoroso não seja obrigatório para o TGO isolado, uma abstinência de 3 a 8 horas é frequentemente recomendada para evitar a interferência da lipemia (excesso de gordura no sangue após refeições) e também porque o TGO costuma ser solicitado junto com outros exames que exigem jejum. 2.3 Bilirrubina A bilirrubina é um produto gerado a partir da degradação das hemácias. Quando essas células completam cerca de 120 dias de vida, são destruídas, liberando hemoglobina, que posteriormente é degradada e convertida em bilirrubina (LABORATÓRIO SÃO GERÔNIMO, s.d.). Esse processo ocorre principalmente no baço e consiste na quebra da hemoglobina, que gera heme e globina, a globina é a parte proteica da hemoglobina, sendo partida em aminoácidos e sendo absorvida pelo corpo. Já o grupo heme, rico em ferro e fundamental para o transporte de oxigênio, libera ferro e é convertido em biliverdina, o ferro é reaproveitado e é levado à medula para a produção de novas hemácias, já o anel heme é convertido em biliverdina, que posteriormente se transforma em bilirrubina indireta através de reações enzimáticas. A importância clínica da bilirrubina está relacionada a sua utilização como marcador laboratorial para avaliação da função hepática e das alterações no metabolismo das hemácias. Doenças como hepatite, cirrose, obstrução biliar (cálculos biliares), anemia hemolítica ou síndrome de Gilbert podem estar associadas ao aumento de bilirrubina no sangue. O metabolismo da bilirrubina começa com a degradação das hemácias, que vivem cerca de 120 dias. Quando envelhecem, essas células são destruídas principalmente no baço, fígado e medula óssea, liberando hemoglobina. A hemoglobina é dividida em globina e heme. A globina é transformada em aminoácidos e reaproveitada pelo organismo. Já o heme é convertido em biliverdina e depois em bilirrubina indireta por meio de reações enzimáticas. A bilirrubina indireta não se dissolve em água, então ela é transportada no sangue ligada à albumina até o fígado. No fígado, ela é captada pelos hepatócitos e passa por um processo chamado conjugação, tornando-se bilirrubina direta, que é solúvel em água. Depois disso, a bilirrubina é eliminada pela bile e segue até o intestino. Lá, ela é transformada por bactérias e eliminada principalmente nas fezes, dando a coloração característica, e uma pequena parte é eliminada pela urina, dando sua coloração amarelada devido ao pigmento urobilina. A bilirrubina indireta é uma forma insolúvel em água, produzida durante a degradação da hemoglobina. Por não ser solúvel, ela é transportada pelo sangue ligada à albumina até o fígado. No fígado, sofre um processo chamado conjugação, no qual, com a ação da enzima UDP-glucuroniltransferase, é transformada em bilirrubina direta, que é solúvel em água. A bilirrubina direta é a forma solúvel em água, formada a partir da conjugação da bilirrubina indireta no fígado. Esse processo ocorre nos hepatócitos, onde a enzima UDP-glucuroniltransferase adiciona ácido glicurônico à bilirrubina indireta, tornando-a hidrossolúvel. Após essa transformação, a bilirrubina direta é transportada para os canalículos biliares e eliminada junto à bile em direção ao intestino. No intestino, ela pode ser metabolizada por bactérias e posteriormente excretada nas fezes. Alterações nos níveis de bilirrubina direta podem indicar problemas hepáticos ou obstruções nas vias biliares. A bilirrubina total corresponde à soma das frações de bilirrubina presentes no sangue, incluindo a bilirrubina indireta (não conjugada) e a bilirrubina direta (conjugada). Sua dosagem é utilizada na prática clínica como um importante indicador da função hepática e do metabolismo das hemácias. 1. Alterações e patologias Quando se há elevação dos níveis de bilirrubina, o termo clínico é hiperbilirrubinemia, e seus sintomas mais visíveis são a coloração amarelada na pele, esclera e mucosas, bem como urina escura e fezes pálidas. A grande produção de bilirrubina indica alguma disfunção hepática, destruição excessiva de hemácias ou indica a presença de obstrução nas vias biliares. Entretanto, é importante reiterar que se trata de uma consequência de doenças subjacentes, não causando patologias diretamente, e sim servindo como sintoma para investigação de sua causa. Aumento da bilirrubina indireta: Anemias hemolíticas: caracterizam-se pela destruição acelerada das hemácias, como ocorre na anemia falciforme, talassemias e anemia hemolítica autoimune, aumentando a produção de bilirrubina indireta. Reações transfusionais: a incompatibilidade sanguínea pode causar lise das hemácias transfundidas, elevando os níveis de bilirrubina não conjugada. Hemorragias internas ou grandes hematomas: a degradação do sangue extravasado leva à liberação excessiva de hemoglobina, contribuindo para o aumento da bilirrubina indireta. Aumento da bilirrubina direta: · Hepatites virais (agudas ou crônicas): causam inflamação do fígado, prejudicando a capacidade de processar e excretar a bilirrubina. · Hepatite alcoólica: decorrente do consumo excessivo de álcool, leva à inflamação e lesão das células hepáticas. · Reações a medicamentos: certos fármacos podem causar toxicidade hepática, comprometendo o funcionamento do fígado. · Neoplasias hepáticas: tumores no fígado podem interferir na metabolização e excreção da bilirrubina. · Cirrose: caracteriza-se pela substituição do tecido hepático normal por fibrose e nódulos, prejudicando a função do órgão. · Hepatite autoimune: ocorre quando o sistema imunológico ataca as células do fígado, causando inflamação e disfunção hepática. Valores de referência: (A variar dependendo do laboratório) Bilirrubina direta Inferior a 0,20 mg/dL Bilirrubina indireta Inferior a 1,10 mg/dL Bilirrubina total 0,2 a 1,2 mg/dL 2.4 Fosfatase Alcalina (FA) A Fosfatase Alcalina (FAL) é uma enzima encontrada principalmente no fígado, ossos, rins e intestinos. O exame de Fosfatase Alcalina mede a quantidade dessa enzima no sangue e, é utilizado para avaliar a função hepática, óssea e, em alguns casos, problemas renais e gastrointestinais. A medição dessa enzima é útil para detectar condições como doenças hepáticas, problemas ósseos e distúrbios metabólicos. A fosfatase alcalina presente no fígado é encontrada em células do ducto biliar, onde atua no transporte da bile até ao intestino para a digestãode lipídeos. Nos ossos a enzima é produzida por células denominadas osteoblastos, que são responsáveis pela formação de tecido ósseo novo e que refazem continuamente a estrutura dos mesmos. Portanto, devido a sua importante função, sua quantificação é utilizada em rotinas de triagem, diagnóstico e no acompanhamento de distúrbios hepáticos e ósseos. A dosagem da fosfatase alcalina no sangue serve para avaliar o funcionamento do fígado e dos canais biliares. Seu aumento pode indicar lesão hepática canalicular (colestase, hepatite, obstrução das vias biliares por cálculo). Também pode estar aumentada quando as células dos ossos estão com aumento de atividade, como depois de uma fratura, durante o crescimento e em doenças dos ossos. Pode também estar elevada durante a gravidez e no hiperparatireoidismo. Fosfatase alcalina alta é indício de problemas com obstruções nas vias biliares, cirrose, hepatite, além de doenças ósseas e tumores que afetam tanto o fígado quanto os ossos. Por outro lado, a fosfatase alcalina baixa pode estar associada a problemas como desnutrição, doença celíaca e hipotireoidismo, entre outras. Embora as alterações nos níveis de fosfatase alcalina indiquem problemas, há casos em que um aumento da enzima é normal e até esperado. Crianças e adolescentes podem ter mudanças associadas ao crescimento ósseo, assim como gestantes costumam ter níveis mais elevados em função da atividade da placenta. No entanto, os valores de referência podem variar conforme o laboratório e o método de análise. Além disso, o intervalo considerado normal depende da idade e do sexo do paciente. Pode ter mudanças de nível sem apresentar sintomas claros ou vir acompanhada de quadros de icterícia, fadiga, vômitos e fraturas frequentes. Na prática clínica, a FA, juntamente com a gama-glutamiltransferase (GGT ou Gama GT), a aspartato aminotransferase (AST ou TGO) e a alanina aminotransferase (ALT ou TGP) são utilizadas para investigação das doenças do fígado e das vias biliares. Como a FA está presente em diferentes tecidos do corpo, elevações isoladas nem sempre significam doenças do fígado. Entretanto, quando FA e GGT estão aumentadas simultaneamente provavelmente as alterações são relacionadas ao fígado. 2.5 Gama-Glutamil Transferase (Gama GT) Gama GT, GGT (Gama Glutamil Transferase são termos diferentes, mas que se referem ao mesmo fator. Trata-se de uma enzima encontrada em diferentes órgãos do corpo humano, presente no pâncreas, coração e fígado. Quando elevada gera comprometimento de alguns órgãos causando pancreatite, infarto e cirrose. Porém a principal fonte dessa enzima é o fígado. Encontramos a Gama GT nas células das vias biliares. Por isso, quando acontece algum tipo de problema com elas, ocorre a elevação desta enzima na corrente sanguínea. É por isso que a Gama GT é um dos exames importantes para avaliação de doenças hepáticas. A função desse exame é monitorar a saúde do fígado. A alteração dessa enzima, com elevação na corrente sanguínea, acende o sinal de alerta para a possibilidade de doenças no órgão. Essa enzima pode ser encontrada em grandes quantidades em outros órgãos, o exame de Gama GT acaba não sendo muito específico de forma isolada. Por isso acaba sendo realizado junto com o exame de dosagem das outras enzimas do fígado a fosfatase alcalina e as transaminases (TGO e TGP). Quando estas enzimas estão alteradas há um forte indicativo de problemas no fígado. O valor de Gama Glutamil transferase alto normalmente indica presença de um problema no fígado com: hepatite viral crônica, diminuição da circulação sanguínea para o fígado, tumor hepático, cirrose, consumo excessivo de álcool ou drogas, esteatose hepática (gordura no fígado), obstrução das vias biliares (tumores , cálculo no colédoco), colangite esclerosante primária ou colangite biliar primária, toxicidade hepática por uso de medicamentos. O médico clínico geral ou hepatologista pode pedir para o paciente fazer essa análise entre os sues exames de rotina, a fim de monitorar a saúde do fígado e o seu funcionamento. É recomendado realizar o exame de Gama GT quando a pessoa apresenta alguns sintomas que sugerem doenças no fígado como exemplo: icterícia, urina escura, perda de apetite, fadiga, fraqueza, coceira pelo corpo, náuseas e vômitos, inchaço ou dor abdominal, fezes claras ou esbranquiçadas. Pacientes que estão fazendo tratamento para alcoolismo também costumam realizar o exame de Gama GT com maior frequência, porque quando há uso frequente de bebidas alcoólicas, a tendencia é que a enzima se mostre elevada. Por meio desse exame pode se verificar se o paciente está seguindo o tratamento. Como o exame Gama GT é feito? A realização é bem simples, consiste na análise laboratorial de uma amostra de sangue. É feita essa coleta do paciente devidamente preparado. Coletar de 3 a 5ml de sangue total em tubo com ativador de coágulo (tubo seco – vermelho) após a completa retração do coágulo centrifugar a amostra e transferir o soro para um novo tubo de transporte. Acondicionar a amostra conforme as orientações especificas do exame. Volume mínimo de 0,55 ml. Tubo com gel separador – amarelo coletar de 3 a 5ml de sangue total em tubo com ativador de coágulo. Homogeneizar imediatamente após coleta e manter o tubo em repouso verticalmente para a completa retração do coágulo em temperatura ambiente para evitar hemólise. Após centrifugar a amostra para obtenção do soro (sobrenadante) e acondicionar corretamente conforme estabelecido para o exame. Volume de 0,55ml. Todas as amostras devem ser acondicionadas e transportadas ao laboratório em até 8 dias da coleta, desde que refrigeradas entre 2 a 8ºC em recipiente isotérmico, higienizável e impermeável, evitando o contato direto dos tubos com o gelo reciclável. A preparação é fator importantíssimo para não alterar o resultado. É preciso fazer jejum de 3 ,4 a 8 horas de acordo com o protocolo exigido, já que os níveis de GGT podem diminuir após refeições, e se abster de bebidas alcoólicas de 24 a 72 horas antes do exame. Os medicamentos utilizados devem ser informados, já que algumas substâncias, até mesmo suplementos alimentares podem alterar a Gama GT. Sempre confirme o tempo de jejum com o laboratório onde o exame será realizado pois as orientações podem variar. 2.6 Hepatite + Colestase lesão hepática A avaliação da função e da integridade hepática na bioquímica clínica baseia-se na detecção de substâncias liberadas na corrente sanguínea em decorrência de dano celular ou interrupção do fluxo biliar. Nisso, destacam-se dois principais padrões de lesão hepática: o padrão hepatocelular, predominante nas hepatites, e o padrão colestático. Hepatite: A hepatite é definida como um processo inflamatório do fígado, podendo ter origem viral, alcoólica, medicamentosa, tóxica ou autoimune. Independentemente da causa, o mecanismo fisiopatológico central envolve a lesão dos hepatócitos, resultando em alterações na permeabilidade da membrana celular ou necrose, como consequente, a liberação de enzimas intracelulares para a circulação. Nas hepatites virais (A, B, C, D e E), o dano hepático não ocorre diretamente pela ação do vírus, mas principalmente pela resposta imune do hospedeiro. Linfócitos T citotóxicos reconhecem antígenos virais expressos na superfície dos hepatócitos infectados, promovendo sua destruição por mecanismos citotóxicos, o que leva à necrose celular e liberação de enzimas hepáticas. Na hepatite alcoólica, o metabolismo do etanol no fígado gera compostos altamente reativos, como o acetaldeído, além de espécies reativas de oxigênio, promovendo estresse oxidativo. Esse processo danifica estruturas celulares, incluindo membranas e mitocôndrias, levando à esteatose hepática e inflamação. Do ponto de vista bioquímico, observa-se frequentemente uma relação AST/ALT superior ao normal, o que se justifica pelo maior comprometimento mitocondrial (onde parte da AST está localizada) e pela deficiência de vitamina B6, necessária para a atividade da ALT. Já na hepatite medicamentosa,como no caso do paracetamol em doses elevadas, ocorre a saturação das vias hepáticas, levando à formação de metabólitos reativos, que se ligam a proteínas celulares e induzem dano oxidativo e morte celular. Do ponto de vista laboratorial, a principal característica da lesão hepatocelular é a elevação acentuada das aminotransferases. A alanina aminotransferase (ALT) é considerada mais específica para o fígado, enquanto a aspartato aminotransferase (AST), embora sensível, também está presente em outros tecidos, como músculo e coração. Em casos de hepatite aguda, essas enzimas podem atingir níveis superiores a 10 a 20 vezes o limite superior da normalidade, refletindo intensa lesão hepatocelular. 2.6 Colestase A colestase consiste em uma síndrome clínica e bioquímica caracterizada pela redução ou interrupção do fluxo biliar, podendo ocorrer em nível intra-hepático ou extra-hepático. Na colestase intra-hepática, há comprometimento na secreção da bile pelos hepatócitos ou nos pequenos ductos biliares, enquanto na forma extra-hepática ocorre obstrução mecânica dos ductos biliares principais, como em casos de cálculos ou neoplasias. A interrupção do fluxo biliar leva ao acúmulo de substâncias normalmente excretadas pela bile, como bilirrubina conjugada e sais biliares. Esse acúmulo tem impacto direto na fisiologia hepática e sistêmica, resultando em manifestações clínicas e alterações laboratoriais. Do ponto de vista bioquímico, a colestase é marcada pela elevação de enzimas associadas às membranas dos ductos biliares. A fosfatase alcalina (FA) apresenta aumento devido à indução de sua síntese em resposta ao acúmulo de ácidos biliares. Já a gama-glutamiltransferase (GGT) é um marcador altamente sensível de doença hepatobiliar, sendo especialmente útil para confirmar a origem hepática da elevação da FA, diferenciando-a de causas ósseas. Além disso, observa-se frequentemente elevação da bilirrubina conjugada, uma vez que sua excreção pela bile está comprometida. Clinicamente, isso se manifesta como icterícia, colúria e, em casos de obstrução completa, acolia fecal. Embora os padrões hepatocelular e colestático sejam didaticamente distintos, na prática clínica é comum a ocorrência de quadros mistos. Uma colestase prolongada pode levar a lesão secundária dos hepatócitos, resultando também em elevação de AST e ALT. Da mesma forma, processos inflamatórios intensos, como hepatites graves, podem causar edema e compressão dos ductos biliares, levando a componentes colestáticos. A interpretação dos exames laboratoriais deve, portanto, ser realizada de forma integrada, considerando o padrão das enzimas hepáticas em conjunto com o quadro clínico do paciente. 2.7. Avaliação da função hepática Além dos marcadores de lesão, a avaliação da função hepática inclui a análise da capacidade de síntese do fígado. A redução na produção de proteínas como a albumina e fatores de coagulação, evidenciada pelo aumento do tempo de protrombina, indica comprometimento funcional. A disfunção hepática pode gerar repercussões sistêmicas importantes. A incapacidade de converter amônia em ureia leva ao acúmulo dessa substância no sangue, podendo causar encefalopatia hepática. Alterações hemodinâmicas associadas à doença hepática podem resultar em síndrome hepatorrenal. Além disso, a diminuição da síntese de fatores de coagulação favorece quadros de coagulopatia e sangramentos. Entre os principais sinais e sintomas associados às alterações hepáticas destacam-se a icterícia, decorrente do acúmulo de bilirrubina nos tecidos; a colúria, relacionada à excreção urinária de bilirrubina conjugada; a acolia fecal, resultante da ausência de bile no intestino; e o prurido, causado pelo depósito de sais biliares na pele. 3. Caso Clínico CASO CLINICO- CIRROSE HEPÁTICA EM PACIENTE JOVEM Doente do sexo masculino de 25 anos de idade, sem antecedentes pessoais relevantes, nomeadamente hábitos alcoólicos ou toxicofílicos. O doente recorreu ao Serviço de Urgência por um quadro clínico de febre e tosse com expectoração muco-purulenta com uma semana de evolução. À entrada encontrava-se febril, hemodinamicamente estável e apresentada do murmúrio vesicular na base do hemitórax direito. Analiticamente destacava-se: Aumento das interrupções inflamatórias Trombocitopenia com plaquetas de 65 000 Prolongamento do tempo de protrombina com INR de 1,94 Função renal sem alterações. Ast (TGO) :116 u/l valor de referência: 15-39 u/l Alt (TGP): 96 u/l valor de referência: 8-37 u/l Bilirrubina total: 1,3 mg/dl valor de referência: 0-1 mg/dl Albumina: 1,6 mg/dl valor de referência: 3,4-5,0 mg/dl Na radiografia de tórax apresentou condensação na base do hemitórax direito. O paciente foi internado no Serviço de Pneumologia com a possibilidade diagnóstica de pneumonia hipoxemiante. Iniciou antibioterapia empírica e houve necessidade de ventilação não invasiva por insuficiência respiratória parcial, com melhoria do quadro. Durante o internamento, por apresentar epigastralgias e vómitos, realizou endoscopia digestiva alta, que revelou no terço distal do esófago, variz grande sem manchas vermelhas ou ponto de rotura e mucosa do fundo e corpo com padrão em mosaico Paralelamente, reforça-se o agravamento clínico com aumento do volume abdominal e edema marcado dos membros inferiores. Realizou ecografia abdominal, que revelou fígado pequeno de ecoestrutura heterogênea, compatível com cirrose, esplenomegalia de 17 cm e ascite em moderada quantidade. O paciente foi transferido para o Serviço de Gastrenterologia com a hipótese diagnóstica de doença hepática crônica (DHC) descompensada ( Child Pugh C; MELD 14), tendo sido submetida a paracentese diagnóstica, que excluiu peritonite bacteriana espontânea e revelou um gradiente de albumina soro-ascite > 1,1 g/dL, compatível com portal de hipertensão. Da investigação etiológica do quadro de DHC, salientava-se sorologias negativas para os vírus da hepatite A, B, C, citomegalovírus, Epstein-Barr, Herpes simplex 1 e 2 e imunodeficiência humana adquirida 1 e 2, cinética do ferro e função tiroidiana sem alterações, alfa 1 antitripsina e alfa fetoproteína dentro dos valores de referência, autoimunidade (ANA, anti-DNA, AMA, ASMA, anti-LKM) negativa e imunoglobulinas sem alterações. Devido à idade e sintomatologia doentia, foi também dosado o nível sérico de Ceruloplasmina: 3 mg/Dl (baixo) valor de referência: 22-58 mg/dl Doseamento urinário de cobre em 24 horas: 4,4 μmol valor de referência: C. Foi transmitido o rastreio aos familiares de primeiro grau, nomeadamente à mãe do doente, que não apresentou mutações, ao irmão mais velho, que revelou ser portador heterozigótico para a mutação c.3402delC e ao irmão mais novo, que revelou ser portador heterozigótico para a mutação c.3694A>C. Não foi possível realizar o rastreio ao pai do doente, uma vez que faleceu por neoplasia do pulmão aos 40 anos. De salientar que ambos os irmãos não apresentaram clínica sugestiva de DW. O doente já cumpriu um ano de acompanhamento na consulta de Hepatologia, encontrando-se assintomático. Observação: A Doença de Wilson é uma entidade rara, autossômica recessiva, em que ocorre uma diminuição da excreção biliar de cobre, resultando em seu acúmulono fígado, cérebro, rim e córnea. A apresentação clínica desta entidade inclui um espectro alargado de manifestações, entre as quais se incluem a doença hepática crónica descompensada, como ocorreu no caso clínico descrito. 4. Conclusão A compreensão da complexidade funcional do fígado, conforme explorada neste trabalho, revela que a avaliação da saúde hepática transcende a simples observação de valores isolados. A divisão histológica em zonas e a diversidade de tipos celulares, como os hepatócitos e as células de Kupffer, justificam a necessidade de um painel de exames abrangente, capaz de diferenciar processos de necrose celular (AST e ALT) de quadros de colestase (FA e GGT). O estudo detalhado dos marcadores bioquímicos demonstrou que, enquanto a ALT se firma como um indicador sensível e específico de dano hepatocelular, outros parâmetros como a albumina e o tempo de protrombina (TAP/RNI) são vitais para medir a real capacidade de síntese e reserva funcional do órgão. A análise da bilirrubina, por sua vez, atua como um elo entre o metabolismo hematológico e a eficiência da excreção biliar. O caso clínico de Doença de Wilson apresentado reforça a importância da investigação etiológica minuciosa. Ele ilustra como uma patologia rara pode se manifestar inicialmente através de alterações comuns nos exames de rotina (como a elevação de transaminases e queda da albumina), mas que apenas a integração desses dados com exames específicos (ceruloplasmina e cobre urinário) e sinais clínicos (anéis de Kayser-Fleischer) permite o diagnóstico preciso e o tratamento adequado. Em última análise, conclui-se que o diagnóstico em hepatologia é um exercício de integração. O laboratório clínico fornece as peças de um quebra-cabeça que, quando interpretadas à luz da fisiopatologia, permitem não apenas identificar a presença de uma lesão, mas compreender sua origem, gravidade e o prognóstico para o paciente, garantindo uma intervenção terapêutica segura e eficaz. 5. Referência Bibliográfica · AMERICAN ASSOCIATION FOR THE STUDY OF LIVER DISEASES. Bilirubin Pathways and Pitfalls: From Processing to Pathology. 2025. Disponível em: https://www.aasld.org/liver-fellow-network/core-series/back-basics/bilirubin-pathways-and-pitfalls-processing-pathology. Acesso em: 19 abr. 2026. · AMERICAN LIVER FOUNDATION. Hepatite. Disponível em: https://liverfoundation.org/pt/sobre-seu-figado/fatos-sobre-doencas-do-figado/hepatite/. Acesso em: 29 mar. 2026. · BIOTECNICA. Relevância clínica da quantificação de fosfatase alcalina. Disponível em: https://biotecnica.ind.br/relevancia-clinica-da-quantificacao-de-fosfatase-alcalina/. Acesso em: 19 abr. 2026. · CIÊNCIA NEWS. Metabolismo das bilirrubinas. Disponível em: https://www.ciencianews.com.br/arquivos/ACET/IMAGENS/biblioteca-digital/bioquimica-clinica/bioquimica-clinica/3-Metabolismo-das-bilirrubi.pdf. Acesso em: 19 abr. 2026. · CURVELO, Lilian. Alteração da Gama GT: o que devo saber. 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