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Mente Afiada Extra - Ano 4, Nº 29 - Março, 2026 EXTRA R$ 14,90 ALEGRIA, ALEGRIA, MEDO, MEDO, FOME, FOME, SONO...SONO... Tudo isso é Tudo isso é controlado pela controlado pela nossa mente!nossa mente! MUITO MUITO ALÉM ALÉM DO QIDO QI A inteligênciaA inteligência pode ser pode ser compreendidacompreendida de diferentesde diferentes maneirasmaneiras ENTENDA MELHOR O SEU CEREBRO Saiba mais sobre as funções que promovem o conhecimento e a capacidade de transformação desse órgão complexo Piscamos e já estamos no mês de março! É engraçado como algumas vezes o tempo parece passar tão rá- pido, outras tão devagar... Bom, essa percepção é causada pelo nosso cére- bro: geralmente, o tempo passa mais rápido quando estamos entretidos, fazendo o que gostamos ou com pes- soas que amamos. A todo momento o cérebro está liberando substâncias e colocando cada região do órgão para funcionar, causando sensações diver- sas – e esse funcionamento pode afe- tar o corpo todo, já que somos uma coisa só, interligada. Não é incrível a complexidade desse órgão vital? Para continuarmos falando sobre a mente e tudo o que acontece nela, é importante saber mais sobre a estru- tura do cérebro, e é disso que vamos falar nesta edição. Boa leitura! A Redação Roberta Lourenço rudzhan/Freepik Ines249 OO cérebro humano é o ór- gão responsável pelo controle de todas as nos- sas funções vitais. Contudo não é fácil para apenas um componente do cor- po lidar com todas essas responsabilidades. É por isso que o sistema nervoso conta com diversos componentes que o auxiliam neste processo de gerenciamento das atividades. Veja a seguir como atuam em harmonia esses vastos procedimentos e entenda, de uma maneira simples e didática, como ocor- re o funcionamento cerebral - desde suas mi- De A a Z: conheça algumas partes do sistema nervoso e entenda o papel de cada uma Uma jornada PELA MENTE Ines249 Córtex cerebral: camada fina de subs- tância cinzenta que reveste a massa branca do encéfalo. É uma das partes mais rele- vantes do sistema nervoso central. Nes- se local, as informações obtidas por todo o corpo são processadas e interpretadas. Hipocampo: estrutura curvada presen- te no sistema límbico fundamental na for- mação da memória de curto e longo prazo. Hipotálamo: área fundamental do siste- ma nervoso responsável pelo gerenciamen- to de diversas sensações do corpo humano relacionadas à sua homeostase (equilíbrio). Entre os sentimentos controlados pelo hi- potálamo estão: sede, fome e sono. Hipófise: essa pequena glândula – loca- lizada na região central do cérebro – tem múltiplas funções no organismo. A principal delas é referente à regulação de alguns hor- mônios, como do crescimento e da tireoide. Lobo frontal: é uma das áreas em que o cérebro se subdivide. O lobo frontal inclui algumas regiões importantes da cognição humana, como a faixa motora e os campos oculares frontais. Entre as funções mais im- portantes contidas nesse local, estão a exe- cução dos movimentos, a produção da fala e o desenvolvimento do raciocínio lógico. Lobo occipital: diferente dos outros lo- bos, este possui a maioria de suas funções voltadas à visão. Sendo assim, quando ocorrem danos nessa área da mente, as lesões quase sempre provocam perda ou déficit visual. croestruturas até quais transtornos impactam a mente e maneiras de controlá-los, seja por meio de medicamentos ou terapias alterna- tivas. Confira: Amígdala: região do cérebro com o forma- to de uma amêndoa posicionada na porção anterior do lobo temporal. Exerce função im- portante na regulação dos sentimentos, prin- cipalmente o medo. Além de se relacionar com essa sensação, está associada ao ar- mazenamento e à classificação de memórias. Área de Broca: região localizada no lobo frontal do hemisfério esquerdo e responsá- vel (conjuntamente associada a outras es- truturas) pela articulação da fala. Leva esse nome em homenagem ao cientista que iden- tificou as propriedades dessa área, o médi- co francês Paul Broca. Área de Wernicke: está posicionada na parte superior do lobo temporal esquerdo do encéfalo. Trabalha conjuntamente com a área de Broca e tem por função a identifica- ção de palavras para realizar a articulação da fala. Recebe esse nome devido ao estudio- so que a identificou, o neurologista alemão Karl Wernicke. Bulbo ou medula oblonga: estrutura lo- calizada no tronco cerebral que participa de funções automáticas do organismo, como respiração, digestão e frequência cardíaca. Cerebelo: porção que fica entre o cérebro e o tronco cerebral. É o elemento responsá- vel pela coordenação motora e o equilíbrio do corpo humano. Ines249 FOTOS logika600/ Shutterstock Images Lobo parietal: localizado posteriormente ao lobo frontal, superiormente ao lobo tem- poral e anterior ao occipital. Essa região tem por responsabilidade a reunião das funções de recepção, interpretação e integração dos impulsos sensoriais primários recebidos pelo tálamo. Lobo temporal: pode ser identificado nas regiões laterais do cérebro. Essa estru- tura abriga as funções relacionadas à audi- ção, às emoções e à memória. Locus ceruleus: núcleo da formação reti- cular do tronco cerebral humano. Tem impor- tante função em elementos do organismo, como na regulação do ciclo sono-vigília, es- tresse, ansiedade e pânico. Foi descoberto em 1786 pelo cientista francês Félix Vicq- -d’Azyr. O nome Locus ceruleus deriva do la- tim e significa “mancha azul”, devido à sua coloração azulada observada microscopica- mente. Medula espinhal: é o fio condutor que liga os comandos cerebrais ao corpo. Na mesma medida, é responsável também por transmitir as sensações corporais ao siste- ma nervoso. É, praticamente, uma estrada entre ambas as estruturas. Neocórtex: é o nome dado a uma das áreas do cérebro catalogadas pelo neurocien- tista estadunidense Paul Maclean. Segundo o especialista, o sistema nervoso se divide em três partes: reptiliano, límbico e neocór- tex. Cada uma dessas regiões possui uma função específica no desenvolvimento huma- no. O neocórtex seria, então, o local respon- sável pelos pensamentos mais complexos, pela razão e consciência humana. Neurônio: é a principal célula do sistema nervoso central. Sua estrutura contém um corpo celular com núcleo, citoplasma, dendri- tos e axônio. Os neurônios têm a habilidade de realizar conexões entre si a partir do mo- mento que recebem impulsos do organismo que os abriga. Sistema límbico: composto de diversas estruturas, como a amígdala, o tálamo, o hi- potálamo e o hipocampo, tem por função gerenciar e adequar estímulos emocionais. Re- laciona-se com outros elementos da mente, como a memória, atenção e personalidade. Tálamo: essa região cerebral atua como um elemento retransmissor de informações, além de participar da recepção e integração dos impulsos nervosos. Tronco cerebral: porção do organismo lo- calizada entre a medula espinhal e o encé- falo que contém a medula oblonga, a ponte de Varólio e o mesencéfalo. Ines249 Ines249 OO s neurotransmissores e os hormô- nios são substâncias produzidas pelo organismo que participam de várias funções no sistema nervoso. Neurotransmissor é toda substância que age como um mensageiro químico, ou seja, trans- porta e estimula os sinais entre os neurônios. Assim, um hormônio pode ser um neurotrans- missor, mas nem todo neurotransmissor é um hormônio, já que este é produzido por glându- las endócrinas, como a hipófise. Você já deve ter ouvido falar de serotonina e endorfina, por exemplo, bastante citados quando o assunto é sensação de bem-estar. Os neurotransmissores e os hormônios cau- sam sensações, mas também equilibram as funções do organismo e comandam diversos órgãos. Conheça alguns! Acetilcolina: neurotransmissor responsá- vel por diversas funções no organismo huma- no. Entre elas estão: a comunicação entre os neurônios na formação de memórias e o au- xílio nos processos de contração muscular. Adrenalinae noradrenalina (também cha- mados de epinefrina e norepinefrina, res- pectivamente): ambas caracterizadas como catecolaminas, são neurotransmissores que possuem efeitos similares relacionados à ex- citação e inibição de alguns elementos do sis- tema nervoso periférico. Entre eles, estão a estimulação respiratória e o aumento da ativi- dade psicomotora e cardíaca. A principal dife- rença entre esses dois elementos é que eles exercem influências diferentes sobre seus re- ceptores bioquímicos. Cortisol: no organismo humano, apresenta papel importante em diversos processos bio- lógicos, como metabolismo energético, manu- tenção da pressão sanguínea e regulação de funções associadas à memória e ao estres- se. Ele é conhecido como o “hormônio do es- tresse” porque é mais liberado em situações de ansiedade, irritação ou preocupação extre- ma, por exemplo. Em excesso, pode provocar sintomas como fadiga, perda de massa mus- cular, hipertensão e hiperglicemia. Por outro lado, ele exerce funções importantes, como participar do metabolismo de proteínas e agir contra inflamações. Dopamina: esse neurotransmissor atua principalmente no sistema de motivação e recompensa da mente humana. Além disso, funciona como um importante elemento do hu- mor e da cognição. Age conjuntamente com a adrenalina e a noradrenalina. Endorfina: liberada principalmente após a prática de exercícios físicos, a endorfina é um hormônio que age como um analgésico natural, provocando sensação de conforto e melhorando o humor. Gastrina: hormônio que regula o aumento da liberação de ácido clorídrico no estômago para os processos digestivos. GH: essa é a sigla em inglês da palavra Growth Hormone, que significa hormônio do crescimento. Produzida pela hipófise (peque- na glândula com a aparência de um amen- doim localizada na parte inferior do cérebro) Ines249 esse hormônio tem papel importante no de- senvolvimento do organismo. Atua em todo o corpo, ocasionando o aumento celular, e, por consequência, dos tecidos que o envol- vem. A deficiência de GH pode promover um quadro chamado de nanismo. Já o excesso dessa substância pode resultar em um trans- torno chamado de agromegalia e gigantismo. Grelina: o nome desse hormônio deriva do termo ghre, correspondente em inglês à pala- vra grow, traduzida como crescer. A associa- ção a esse bioquímico acontece pelo fato de uma das suas principais funções ser a subs- tância que induz o aumento da secreção do hormônio do crescimento (GH). Além disso, a grelina também tem papel decisivo no estí- mulo ao aumento do apetite e outras funções do organismo. Histamina: sintetizada e liberada por dife- rentes células humanas, é um potente media- dor de numerosas reações fisiológicas. Dentre as principais funções dessa substância, estão a vasodilatação e broncoconstrição, respos- tas comuns em momentos que o organismo é atingido, por exemplo, por uma alergia. Hormônio luteinizante: substância que possui papel ativo no processo reprodutivo humano. No corpo feminino, a ação do lutei- nizante participa da indução do processo de ovulação. Já no organismo masculino, se re- laciona à produção de testosterona. FOTOS GarryKillian/Shutterstock Images Insulina: hormônio secretado pelo pâncre- as, responsável pela absorção de glicemia pelo organismo. Leptina: substância que contribui no contro- le do metabolismo energético. Atua também no comportamento de fome de muitos seres vivos, além de participar de algumas mudan- ças no organismo, como o período da puber- dade, tendo em vista que ela possui relação com os bioquímicos liberadores do hormônio de crescimento (GH). Ocitocina: moléculas neuro-hormonais com atuação principal durante as etapas de parto e amamentação. Já quando atua como neu- rotransmissor, a ocitocina auxilia a estabele- cer vínculos sociais, como afeto, confiança e empatia. Serotonina: neurotransmissor cujas prin- cipais atividades são a regulação da fome e do apetite sexual. Está fortemente ligada ao transtorno depressivo, tendo em vista que, durante a doença, esse elemento bioquími- co é transmitido de maneira menos efetiva. Testosterona: é o principal hormônio sexual masculino. Essa substância atua fortemente no desenvolvimento de tecidos reprodutores do sexo masculino, entre eles os testículos e o pênis. Além disso, tem papel importante no aumento de massa muscular e surgimen- to de pelagem. Ines249 Conheça os processos cerebrais envolvidos na obtenção de conhecimento Funções COGNITIVAS Ines249 AA s funções cognitivas são todas aque- las envolvidas no processo de aqui- sição de conhecimento e troca de informações. Cada uma delas mo- biliza diversas regiões do cérebro e é possí- vel aperfeiçoá-las com atividades diárias que as exercitem e mantendo bons hábitos. Já o envelhecimento e algumas doenças, como o Alzheimer, prejudicam algumas funções cog- nitivas, como a memória. Entenda melhor cada uma delas! Criatividade: criar envolve interesse, reper- tório, pensamento e, consequentemente, alí- vio por uma solução, além de um complexo processo cerebral que passa por diversas ati- vidades. “O cérebro vai recebendo estímulos em áreas diversificadas, que se comunicam como num sistema de rede”, afirma a terapeu- ta Celeste Carneiro. Isso porque tomar uma atitude inovadora começa com a busca por informações, realizada na área occipital do cérebro, passa pela procura por memórias vá- lidas, presentes no sistema límbico, e termina na ideia final, que é uma união de todas es- sas etapas. A criatividade, que é a capacida- de de encontrar diferentes soluções, é vista nos mais diversos cenários como uma quali- dade para o indivíduo. Apesar de não se ter uma fórmula pronta para desenvolver a fun- ção, buscar informações, passar a tratar pro- blemas do dia a dia como oportunidades de se fazer melhor e de forma única, podem ser soluções para os que buscam inovar cons- tantemente. Linguagem: seja ao conversar com alguém no seu dia a dia ou ao ler e escrever um texto, a linguagem é utilizada como um meio de se aprender, trocar informações e realizar uma re- lação comunicativa. A função cognitiva, que na antiguidade era realizada por meio de símbo- los, evoluiu e hoje é constituída por sistemas complexos de sons e palavras. Apesar de ser um campo único do conhecimento, a lingua- gem também é um exercício mental que en- volve outras funções cerebrais. Por exemplo, para que uma nova palavra seja aprendida, a memória precisa ser ativada em conjunto com a língua para consolidá-la no cérebro. Memória: um dos aspectos cognitivos mais importantes, a memória é um elemen- to valioso para a aprendizagem, tanto em seu processo de aquisição como em sua manu- tenção e consolidação ao longo do tempo. Ao realizar diversas atividades, das mais simples (como funções domésticas) às mais comple- xas (buscar uma solução para um proble- ma lógico), a memória se coloca em ação e busca padrões e informações disponíveis na mente para conseguir tomar a melhor decisão possível. “Assim, quanto mais você exercita sua memória, maiores serão as chances das suas capacidades serem aprimoradas e, con- sequentemente, você se tornar uma pessoa mais competente”, afirma a psicóloga e pro- fessora Maria Teresa Volpato. Isso porque o lobo temporal (área cerebral responsável por armazenar eventos passados), o hipocampo (seleciona e armazena fatos importantes) e a amígdala (realiza a comunicação cerebral que memoriza sons, cheiros e sabores) são ativados e a pessoa remonta a informações passadas para construir e consolidar novas. Raciocínio: “Seja qual for o pensamento usado para examinarmos as informações e os dados que temos, chegamos a uma con- clusão como se ela fosse a mais próxima do Ines249 acerto. Se a resposta decorre dos dados ana- lisados, usamos o raciocínio para formar no- vos conhecimentos”, aponta a pedagoga Sueli Adestro. O córtex frontal, além de ser encarre- gado por outras faculdades mentais, também é responsávelpor esta capacidade cognitiva que é uma das operações mais realizadas no dia a dia, pois envolve o ato de se pensar e pon- derar e é relevante para que se escolha algo. Foco e concentração: definidos por muitos como a mesma coisa, o foco e a concentra- ção apresentam diferenças fundamentais. O primeiro é caracterizado pelo filtro de elemen- tos específicos, enquanto o segundo é defini- do como a capacidade de deter a atenção por um período contínuo e constante em alguma atividade. Entretanto, ambos são importantes e se complementam durante o processo de aprendizagem. Ao estudar para um vestibular, por exemplo, o foco e a concentração em um problema complexo podem ser a chave para solucioná-lo e não enfrentar complicações fu- turas. Por serem ativadas principalmente no córtex pré-frontal e no lobo parietal (áreas res- ponsáveis pelo pensamento crítico e lógica), as duas funções são consideradas valiosas na realização de tarefas diárias. Contudo, como aponta a neuropsicóloga Tacianny do Vale, um contraponto é que podem ser influenciados e prejudicados por diversos estímulos. “Tanto o ambiente social quanto o estado afetivo e a motivação podem gerar muita desatenção. Portanto, o foco e a concentração podem va- riar muito de acordo com o contexto que o in- divíduo se encontra”. FOTOS Kirasolly/ Shutterstock Images Ines249 Você sabia que o cérebro é flexível e mutável? É por isso que é sempre possível adotar novos hábitos e aprender coisas novas! Em constante MUDANÇA Ines249 OO s neurônios consistem na unidade básica do sistema nervoso. São eles os responsáveis em receber, processar e enviar informações a outras células, através de sinais elétricos ou substâncias químicas. Aos 17 anos, estima- -se que, de toda nossa capacidade intelectu- al (ou seja, a capacidade de troca de informações entre os neurônios), apenas 30% seja inata, vinda da herança genética. Os 70% restantes teriam se constituído por meio de experiências e aprendizados adquiridos ao longo dos anos de vida. Isso só é possível graças a uma das maiores habilidades do corpo humano: a neuroplasticidade. A plasticidade cerebral é a capacida- de que o sistema nervoso central possui de modificar suas propriedades mor- fológicas e funcionais em resposta às experiências do indivíduo. Ela permite a criação e o fortalecimento das sinapses — as ligações feitas pelas bilhões de cé- lulas neurais que possuímos. Com isso, pode-se, inclusive, moldar nosso intelecto da maneira que quisermos! Ines249 SEMPRE PRESENTE Esse processo é mais intenso em nossos primeiros anos, mas ocorre durante toda a vida. Aprender a dar os primeiros passos ou decorar um novo caminho para chegar ao tra- balho só é possível graças a essa destreza do cérebro. “O sistema nervoso modifica-se continuamente, já que a plasticidade está as- sociada a cada estímulo sensorial (olfato, tato e audição, por exemplo) e à atividade motora (como equilíbrio e coordenação) que o indi- víduo é exposto”, explica a psicóloga cogniti- vo-comportamental e neurocientista Renata Alves Paes. Isso significa que, apesar da idade avan- çada, qualquer pessoa pode desenvolver seu cérebro. É como se a ideia de que se está velho demais para aprender determinadas coisas caísse por terra. Para tal, é neces- sário apenas botar a cuca para trabalhar, com treinamentos de repetição e tarefas específicas, por exemplo. “A estimulação deve ser criativa e com aspecto motivacio- nal intenso, já que algo monótono não es- timula o cérebro”, assegura Renata. “Indivíduos resilientes conseguem resolver problemas de forma mais adequada, são mais habilidosos em suas ações e lidam com as adversidades sem ressaltar os aspectos negativos” Renata Alves Paes, psicóloga cognitivo- comportamental e neurocientista Ines249 RUMO À SUPERAÇÃO Um dos aspectos fortalecidos pela plas- ticidade é conhecido como resiliência. O ter- mo é oriundo da física e se refere ao nível de resistência à pressão que um material pode sofrer sem que perca suas características e, assim, possa voltar ao seu estado original. Na psicologia, o conceito pode ser definido como a capacidade das pessoas responde- rem às frustrações diárias, ou seja, é a ap- tidão de recuperação emocional frente às adversidades. “Indivíduos resilientes conse- guem resolver problemas de forma mais ade- quada, são mais habilidosos em suas ações e lidam com as adversidades sem ressaltar ou destacar os aspectos negativos da situa- ção”, descreve a psicóloga. Como a neuroplasticidade está associa- da à criação e ao fortalecimento de cone- xões neurais, e ao consequente processo de transformação e adaptação, fica fácil en- tender a ligação entre os dois termos. Sabe aquele velho ditado que diz que só sabemos fazer boas escolhas se tivermos experiência, e que essa bagagem só é adquirida ao fa- zermos más escolhas? Troque escolhas por momentos e tudo fará sentido! Só consegui- remos ter momentos positivos se soubermos, com a experiência, superar os acontecimen- tos negativos. Imagine você se deparando com um gran- de problema que lhe cause incômodo. A resi- liência permite que, ao encontrá-lo em uma segunda ocasião, a solução para essa ques- tão seja encontrada mais facilmente. “Cada comportamento novo ou fortalecido é como se ficasse ‘gravado’. Assim, cada vez que estiver em situações semelhantes, estas conexões serão estabelecidas com maior velocidade e de forma muito natural”, exemplifica Renata. Tudo graças àquela capacidade de adap- tação de seu cérebro: a plasticidade. Ines249 FOTOS BIBADASH/ Shutterstock Images Se você chegou até aqui e percebeu que (ainda) não tem essa capacidade de superação, fique tranquilo! A resi- liência é uma habilidade construída com o tempo, e você pode começar a mudar esse panorama quando quiser. “O primeiro passo é a autopercepção. Comece a observar como você age no seu dia a dia, tome consciência de seus comportamentos. Esteja aberto para ouvir, sentir e identificar as respos- tas. São um treino e um aprendizado constantes”, garante a especialista em autoconhecimento e inteligência com- portamental Heloísa Capelas. A pro- fissional garante que, ao fazer isso, é possível atingir a consciência e a acei- tação das imperfeições de cada um. Outro ponto importante para essa “transformação” passa pela mudan- ça de postura em relação às adversi- dades, não se fazendo de impotente frente aos obstáculos. “Mudar o foco é preciso, e isso, muitas vezes, envol- ve sair da posição de vítima para as- sumir a responsabilidade pelos acon- tecimentos”, alerta Heloísa. Para a psicóloga Renata Alves Paes, um ser resiliente “não busca um culpado pe- los seus problemas, embora perceba que outras pessoas contribuíram para a situação”. TORNANDO-SE RESILIENTE Ines249 Já foi o tempo em que tirar 10 em todas as provas era sinal de inteligência — hoje, é mais complexo definir quem é inteligente O que é INTELIGÊNCIA? Ines249 CC hamar alguém de inteligente pare- ce ser um elogio relativamente ba- nal. Mas já parou para pensar o que exatamente você quis dizer com isso? Seria a pessoa da sua sala de aula que desenvolve os melhores projetos? Uma pro- fessora que articula muito bem suas ideias sobre assuntos como política e economia? Ou aquele cara que decora todos os livros que lê? Pois é, esse atributo vai muito da perspectiva de quem vê. As tantas possibili- dades ilustram que descobrir o que torna uma pessoa mais inteligente do que a outra esbarra, logo de cara, numa questão de con- ceito. DEFINIÇÃO COMPLICADA Na verdade, até hoje não se chegou a um verdadeiro consenso a respeito do que signi- fica inteligência. “Trata-se de uma caracterís- tica que engloba a capacidade de resolução de problemas de forma criativa e organizada, mesmo quando as situações-problema são modificadas”, descreve o neuropsicólogo Fábio Roesler. É exatamente por englobar tantas características que ocorre esse verdadeiro nó conceitual.O neurologista Custódio Michailowsky re- lata que são dois pontos de vista de definição. “O primei- ro define a inteligência como um conjunto de habilidades de entender ideias complexas, de se adaptar com eficiência ao ambiente e superar obs- táculos com o pensamento. Já o segundo conceito a descreve como a capacidade de raciocinar, planejar, resolver problemas, pen- sar de forma abstrata, compreender ideias complexas, aprender corretamente rápido e utilizar esse aprendizado quando necessá- rio”, resume. MUITO ALÉM DO QI Quase um sinônimo de escala de geniali- dade, o teste de QI (Quociente de Inteligên- cia) se consolidou no início do século 20. É uma avaliação que correlaciona memória ope- racional, processamento intelectual, compre- ensão verbal, percepção, entre outros fatores cognitivos. Ainda que tenha predominado como forma de se medir a inteligência por muito tempo, houve um momento em que os especialistas começaram a se questionar se realmente ter um intelecto afiado era, de fato, a mesma coi- sa que ser inteligente. Assim, entre as correntes que surgiram ampliando esse conceito, está a teoria das Ines249 FOTOS buffaloboy/ Shutterstock Images UMA NOVA PERSPECTIVA? Um conceito bastante trabalhado recentemente é o de inteligência so- cial. Esse termo lida com a questão de que a inteligência dos seres hu- manos está totalmente vinculada ao convívio social. O autor americano Daniel Goleman, que já havia publicado a obra Inte- ligência Emocional, trabalhou com esse outro tema no livro Inteligên- cia Social – o Poder das Relações Humanas. A proposta do psicólogo, baseada no campo da neurociência social, é relatar o quanto situações de amor, altruísmo, empatia e com- preensão liberam substâncias neu- roquímicas que auxiliam as intera- ções sociais e consolidam modelos de sociabilidade e compartilhamen- to de informações — justamente a inteligência social. inteligências múltiplas, desenvolvida no iní- cio da década de 1980 pelo psicólogo norte- -americano Howard Gardner. “Esse conceito compreende: inteligência corporal-cinestési- ca, intrapessoal, interpessoal, lógico-matemá- tica, linguística, musical, especial, naturalista e talvez a existencial, mas há controvérsias quanto a essa última”, aponta o neurologista. Ou seja, conforme as teorias de Gardner, um jogador de futebol teria inteligência corpo- ral; um violinista, a inteligência musical, pro- jetistas e arquitetos, a espacial; e por aí vai. Cada um é inteligente conforme suas habili- dades e especialidades. GUERRA DOS SEXOS? Ainda que a teoria de Gardner e outras que também surgiram tenham ampliado as discussões, um assunto vira e mexe causa polêmica: a questão sexista. Quem é mais inteligente: o homem ou a mulher? É verdade que as mulheres têm mais habilidade na área das ciências humanas, e os homens, nas exa- tas? Segundo os especialistas, é melhor dei- xarmos esse tipo de preconceito bem longe. “Eu diria que nossa sociedade, de uns oi- tenta anos para cá, deixou de ser machista e sexista”, destaca Custódio “É claro que o cérebro feminino é diferente do masculino, e que há interferência dos hormônios. Mas, acima de tudo, a inteligência sofre influência, metade da genética da pessoa, e a outra me- tade vem de questões que envolvem o meio ambiente”. Com os devidos estímulos, todo mundo pode ser inteligente e seguir o cami- nho que bem entender. COORDENADORA DE REVISTAS DIGITAIS Hérica Rodrigues (herica.rodrigues@astral.com.br) REDAÇÃO Ana Carvalho (ana.carvalho@astral.com.br), Ana Kubata (anabeatriz.kubata@astral.com.br), Fernanda Villas Bôas (fernanda.villasboas@astral.com.br) e Gabrielle Aguiar (gabrielle.aguiar@astral.com.br) DESIGN Angela Soares (angela.soares@astral.com.br) e Roberta Lourenço (roberta.lourenco@astral.com.br) Conteúdo produzido e publicado originalmente na revista: Mente Curiosa - Ano 5, Nº 100 - 2021 DIREÇÃO João Carlos de Almeida e Pedro José Chiquito CONTATO atatendimento@astral.com.br ENDEREÇO Rua Joaquim Anacleto Bueno, 1-70, Setor M83 - Jardim Contorno, Bauru - SP - CEP: 17047-281 ©2026 EDITORA ALTO ASTRAL LTDA. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. PROIBIDA A REPRODUÇÃO. Ano 4, Nº 29 - Março, 2026 Ines249 UMA PAIXÃO INESPERADA, UMA MORTE SUSPEITA E A INEXPLICÁVEL CONEXÃO ENTRE DUAS IRMÃS. Quando sua irmã caçula morre, a empresária Emily se vê obrigada a pausar sua vida profissional para se isolar com a única sobrinha e o cunhado na fazenda da família. E lá, enquanto tenta reconstituir as últimas semanas de vida de Evelyn, Emily se aproxima do cunhado André e do jardineiro Juan, em uma investigação cheia de surpresas e desejo. Com a descoberta do diário de Evelyn escondido na casa de bonecas, Emily confronta o próprio passado, descobre o presente e reescreve seu futuro! Já disponível na Ines249 Capa Editorial e Índice Uma jornada pela mente Neurotransmissores e hormônios Funções cognitivas Em constante mudança O que é inteligência?