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Está de costas. Ele está lutando, rápido, letal, do jeito que sempre é, e por um instante eu tenho certeza de que ele vai vencer, de que tudo vai ficar em pé porque ele está ali, porque ele sempre está. Até que eu vejo o homem atrás dele. A arma sobe. Eu sei o que vai ocorrer antes de acontecer. Meu coração bate frenético. Eu tento me mover. Fecho os olhos e espero a dor do impacto, mas ela não vem. Quando abro os olhos de novo, ele está caído no chão. Não. Não. Não. Tem sangue demais, ajoelho ao lado dele, desesperada. Isso não pode acontecer, ele tenta dizer alguma coisa, mas eu não escuto. Tento gritar, que ele não pode morrer. Mas é tarde demais... Então um grito de dor sai da minha garganta cortando o ar. Acordo com um puxão do meu próprio corpo, arfando, buscando o ar que não entra nos meus pulmões.. A porta do meu quarto abre imediatamente, com um Lorenzo com a arma em punho. A dor no ombro explode porque meu instinto tenta me levantar de uma vez, e eu mordo a língua para não soltar um som alto. A garganta arde, o peito sobe e desce rápido demais, e por alguns segundos eu não entendo nada. — Paola — diz, parecendo perceber que não é uma ameaça, sou apenas eu. Ele guarda a arma, e entra no quarto. A TV ainda está ligada. Grey’s, ainda rodando. Fecho os olhos com força e tento controlar a respiração. Devagar. Uma, duas, três… na ilusão de que dar ordem ao próprio corpo fosse o suficiente para ele obedecer. O observo um pouco, ele está sem o terno agora, a camisa aberta no colarinho, o cabelo um pouco bagunçado, revelando o rastro de seus dedos em um gesto repetitivo. Ele para a poucos passos da cama, avalia meu rosto, meu corpo, a forma como eu seguro o lençol com a mão esquerda, empunhando o tecido como uma arma. — Você está tentando acordar toda a casa? — pergunta, num tom baixo, sarcástico o suficiente para fingir normalidade. Minha garganta está seca demais para responder com a mesma rapidez. — Não é da sua conta — digo por fim, a voz rouca. Lorenzo olha para a televisão. — Grey’s Anatomy? Eu devia me preocupar? — É só pra distrair — respondo, dando de ombros. Ele me encara por um instante que dura demais. — Eu ouvi você, achei que tinha alguém aqui. Eu sinto o meu estômago revirar. — Você ouviu o quê? — provoco, fingindo que nada aconteceu. Lorenzo não compra. — Você acordou assustada, deu um grito. Vim ver se você tinha caído da cama ou se estava tentando fazer alguma coisa idiota.