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TEMA V. Cálculo de composição de betão 5.1. Introdução O problema da composição e fabricação de um betão reduz-se essencialmente à obtenção de um material que possua boa resistência, e eventualmente uma determinada impermeabilidade, com uma adequada trabalhabilidade e o menor preço de custo possível. Este objectivo consegue-se a partir de escolhas minuciosas das matérias-primas e das suas proporções. É de facto importante que na ocasião da betonagem o betão possua propriedades de consistência e plasticidade tais que lhe permitam não só, encher facilmente todos os cantos e ângulos da peça, tomando a forma que se deseje com o mínimo de custo de colocação e de acabamento, mas também o envolvimento perfeito das armaduras, sem segregação, mantendo por toda parte uma homogeneidade perfeita. Em geral, a resistência, a impermeabilidade e a trabalhabilidade aumentam com a dosagem de cimento, mas para a mesma dosagem de cimento, quando a resistência cresce, a trabalhabilidade diminui, e inversamente. Como por razões económicas e técnicas não se pode aumentar a dosagem de cimento além de certos limites estabelecidos pela experiência, a questão da escolha de um, betão reside num compromisso entre a resistência e a permeabilidade por um lado, e a trabalhabilidade por outro. As operações essenciais a fazer para se obter a composição de um betão consistem na determinação do arranjo granulométrico ideal do inerte e da dosagem de água, já que a dosagem de cimento é normalmente estabelecida à partida como um dado da composição. Inicialmente é preciso conhecer alguns elementos relacionados com a natureza e tipo da obra, meios de colocação e compactação do betão, armaduras e moldes, e exigências do caderno de encargos relativas à classe e tipo de betão desejado, bem como as condições ambientais previstas. Surgirão então como parâmetros fundamentais inerentes à definição da composição do betão, os seguintes: a) Dosagem do cimento (Kg/m3) e sua natureza; b) Composição do inerte (granulometria e máxima dimensão); c) Massas volúmicas dos componentes; d) Relação Água/Cimento; e) Volume de vazios; f) Trabalhabilidade. A composição deverá ser expressa em Kg/m3 de betão, e a quantidade de água de amassadura, atendendo a que há parcelas de água necessárias, quer para a hidratação do cimento, quer para molhagem do cimento e sua saturação, quer para a plasticidade da massa, deve ser referida como a que serve para molhar a superfície do inerte saturado mas com a superfície seca, supondo-se que o referido inerte não irá absorver qualquer fracção da água da amassadora. A quantidade de cada classe de inerte deve ser indicada pelo seu peso saturado, em Kg/m3 de betão, suposto devidamente compactado. O cimento é expresso também pelo peso, em Kg/m3 de betão e a quantidade de água em litros/m3. As quantidades de adjuvante são estabelecidas em percentagem do peso de cimento, e a relação Água/Cimento é expressa em litros de água por Kg de cimento. Quanto à quantidade de ar introduzido deliberadamente no betão, exprime-se em percentagem do volume deste, e o ar introduzido acidentalmente, em litros por m3, podendo exprimir-se também em percentagem do volume. Salientar que a granulometria é determinante no binómio Qualidade-Custo, devendo ser estudada por técnicos competentes, de maneira a obter-se um betão compacto, resistente e fácil de trabalhar, com o menor número de espaços vazios possível. Há no entanto que não olvidar que se o fim dos estudos granulométricos é procurar a maior compacidade compatível com a dosagem, há também que atender aos casos do Betão Armado, em que a influência das armaduras e dos moldes é condicionante – Efeito de Parede. 5.2. Fórmula fundamental do cálculo da composição do betão Como se sabe, o betão é composto por inertes, cimento, água e um certo volume de ar introduzido pelo próprio cimento e pelas partículas do inerte, em geral intercalado entre as partículas mais finas e que é difícil ou impossível de retirar por melhor que seja a compactação. Considerando a unidade de volume de betão facilmente se verifica que: Onde: i – a soma dos volumes dos inertes; e – o volume de água; c – volume de cimento; v – volume de ar. Os volumes do inerte e do cimento são dados pelos quocientes das usas massas I e C na unidade de volume do betão, pelas massas volúmicas respectivas δI e δC. Tomando para unidade de volume o m3 e para unidade de massa o Kg, a expressão anterior transforma-se em: Equação Fundamental para o cálculo da quantidade dos componentes por m3 do betão. O volume de vazios é uma quantidade difícil de conhecer, sendo seus valores médios, função apenas da máxima dimensão do inerte (Dmáx). Existe outra forma de definir a máxima dimensão do inerte, devida a Faury, de aplicação muito útil e é a seguinte: Sendo: d0 – abertura do primeiro peneiro, da série usada na análise granulométrica, que ainda deixa passar todo o material; d1 – maior abertura do peneiro no qual já se recolhem as maiores partículas; d2 – abertura do peneiro seguinte a d1; x – percentagem do peso das partículas retidas no peneiro d1; y - percentagem do peso das partículas que passaram através de d1 e ficaram retidas em d2. A máxima dimensão da classe do mais grosso é a máxima dimensão do inerte do betão. — Efeito de Parede A noção do efeito de parede resulta do facto de junto a uma superfície limite qualquer do betão, seja a armadura ou a face do molde, se verificar uma camada de partículas finas (argamassa) que só é possível à custa do empobrecimento da massa do interior betão em tais partículas. A parede ou superfície limite influi na compacidade, pois a quantidade de argamassa necessária para encher os espaços entre as partículas maiores do inerte e a parede é maior do que no interior da massa. Portanto, é preciso prever excesso de argamassa no betão sujeito a estas condições sendo tanto mais acusado quanto maior for a relação entre a superfície da peça e o seu volume. Temos pois três parâmetros que caracterizam o efeito de parede: D (máxima dimensão do inerte), R (raio médio do molde) e ρ (raio médio das armaduras), sendo: e A escolha de D é pois condicionada por R e ρ, para que o inerte grosso possa passar sem segregação entre as armaduras e a parede do molde, evitando a criação de “Chochos”. Portando, se R/D aumenta, a quantidade de inerte grosso aumentará e; se há moldes com muitas armaduras, é preciso pôr inerte mais fino. A experiência mostra que D deve ser inferior a R, no limite Para inerte rolado Para inerte britado Normalmente, e quando não há conhecimento directo de R, considera-se por segurança, para cálculo de composições de betões, o valor — Determinação da quantidade de água da amassadura A quantidade de água de amassadura para um betão é necessária não só para as reacções de hidratação do cimento, como também para conferir ao betão a trabalhabilidade desejada (embora seja desejável que a água estritamente necessária para a satisfazer a completa hidratação do cimento do betão seja a mesma que o lubrifica, não se hipotecando deste modo e por excesso de água, a sua resistência final pretendida): Pode ser obtida por diversas fórmulas, como as que a seguir são apresentadas. Fórmula de Faury Segundo esta fórmula admite-se numa primeira aproximação que o teor de água resulta da aplicação da mesma (FAURY), em que: i K 5 D i - volume de água e de ar contidos na unidade de volume do betão no momento em que começa a fazer a presa. D - dimensão máxima em mm dos elementos do agregado K - coeficiente numérico que depende a consistência do betão, da energia do apiloamento e da natureza dos agregados, varia entre 0,33 e 0,45. Fórmula de Feret Feret propõe a seguinte expresssão: A = 0,33 Pg + 0,09 Pm + 0,22 Pa + 0,23 Pc Em que: A - peso da água de amassadura Pg- peso da brita grossa Pm- peso da brita média Pa - peso da areia Pc - peso do cimentoRecomenda-se em qualquer dos casos, o controle efectivo da água utilizada para a trabalhabilidade desejada, já que, como se vai ver de seguida e por várias vezes anteriormente se salentou, a resistência do betão diminui com o aumento da quantidade de água de amassadura. Como ordem de grandeza indicam-se os seguintes valores do Quadro 7. Quadro 7 - Quantidade de água em litros/m3 a aplicar a vários tipos de betão Tipos de betões Quantidade de água de amassadura (litros/m3) Betões secos 130 a 150 Betões plásticos 150 a 185 Betões muito plásticos ou fluidos 185 a 220 1 Segundo Bolomey a resistência do betão aos 28 dias pode ser dada pela seguinte expressão R 28 K [ c/a -0,5] Em que: c - peso do cimento a - peso da água K- constante de valor igual a: K=Rn/2,7 (provetes cúbicos), K=Rn/3,8 (provetes cilindricos), sendo Rn a resistência aos 28 dias duma argamassa normal (400 Kg/cm2) No sentido de se poder efectuar uma determinação expedita de betões segundo a sua classe de resistência, juntam-se duas tabelas de referência (Quadro 8 e 9). Quadro 8 – Traços (volumes) dos Betões (AICCOPN) Materiais Classe do Betão B15 B20 B25 B30 B35 B40 CIMENTO 1 1 1 1 1 1 AREIA 2,5 2,5 2 1,5 1 1 BRITAS 3,5 3,5 3 2,5 2,5 2 Quadro 9 – Quantidades de Materiais por Classes de Betões Classse do Betão Quantidades de Materiais Cimento Areia Brita (5-15mm) Brita (5-15mm) Água Kg Kg m3 Kg m3 Kg m3 Litros B15 300 765 0,630 410 0,305 800 0,598 120 B20 310 740 0,617 410 0,306 820 0,612 115 B25 330 710 0,595 405 0,305 835 0,623 110 B30 400 630 0,520 412 0,300 845 0,630 115 B35 440 600 0,500 420 0,313 820 0,612 120 B40 470 555 0,467 425 0,318 800 0,598 130 5.3. Métodos de Cálculo da Composição do Betão TEMOS METODOS DE DOSIFICACION: Empíricos INGLÉS. ACI Apoiados em investigação experimental Racionais FAURY Grânulo métrico Práticos VALETTE Confecciona-se betão experimental no laboratório Os métodos mais usados para o cálculo da composição do betão são os seguintes: — Método das Misturas Sucessivas — Método das Curvas de Referência — Método das Misturas Sucessivas É um método expedito baseado na mistura de dois ou mais inertes num processo que termina quando se obtém a máxima compacidade entre os inertes baseado no ponto de máximo peso da mistura compactada. — Método das Curvas de Referência As curvas de referência tem efeito directo no estudo e composição do betão, a composição granulo métrica óptima é garantida pela curva de referência e as mais conhecidas e mais importantes são as de Fuller, Bolomey, Faury e Joisel. Nestes métodos parte-se do princípio que a curva granulométrica óptima é dada por uma certa curva, que já foi estabelecida experimentalmente por investigadores. Por outras palavras, a aproximação da curva real da mistura ao andamento de tal curva é o objectivo desejado, já que conduz à dosificação de um betão com a maior homogeneidade e compacidade possível, para o menor índice de vazios compatível com a trabalhabilidade pretendida para a aplicação em causa. As curvas mais conhecidas e mais importantes são as de Faury, sendo, sem dúvida, o investigador que estabeleceu um critério mais aperfeiçoado e ajustado às necessidades práticas e correntes da indústria do betão. — Curva de Referência de Faury A curva de referência é constituída por dois segmentos de recta num diagrama em que as ordenadas e as abcissas têm o significado habitual nas curvas granulométricas. As ordenadas têm uma escala linear; as abcissas, que vão de 0.0065mm até D, têm uma escala proporcional à raiz quinta das dimensões das partículas. Conhecida a ordenada PD/2 do ponto da abcissa D/2, ponto de encontro dos dois segmentos de recta, é fácil traçar a curva. A ordenada do ponto de abcissa D/2 é: O índice de vazios do betão, segundo Faury, pode-se determinar a partir da fórmula seguinte: Sendo o valor absoluto de matéria sólida no betão, igual a S, ou seja e, onde A, B, K e K’ são parâmetros que dependem da trabalhabilidade e da potência de compactação, cujos valores estão indicados nas tabela apresentadas a seguir: VALORES DA TRABALHABILIDADE Trabalhabilidade Meios de compactação Métodos de medição da Trabalhabilidade Graus Vêbê (s) Cone de Abrams (cm) Terra húmida Vibração muito potente e possível compressão (Pré-fabricação) > 30 --- Seca Vibração potente (Pré-fabricação) 30 a 10 --- Plástica Vibração média 10 a 2 0 a 4 Mole Apliloamento --- 4 a 15 Fluida Espalhamento e Compactação pelo peso próprio --- > 15 Exemplo de Aplicação 1. Calcular a composição de um betão com base nos seguintes dados: a) Análise granulométrica dos inertes Abertura da malha (mm) Material retido no peneiro (g) Brita 1 Brita 2 Areia 38,1 - - - 25,4 337.0 - - 19,1 671.8 - - 12,7 2135.4 112.1 - 9,52 1627.2 379.5 - 4,76 156.1 337.6 4.9 2,38 67.6 117.5 16.5 1,19 4.9 32.4 27.7 0,595 - 18.1 96.5 0,297 - 2.8 44.9 0,149 - - 7.6 0,075 - - 1.9 b) Massas volúmicas dos componentes: Britas, partículas saturadas com superfície seca: 2,70 kg/dm3 Areia, partículas saturadas com superfície seca: 2,60 kg/dm3 Cimento: 3,15 kg/dm3 c) Trabalhabilidade pretendida para o betão: suponhamos que se pretende que ele tenha um abaixamento do cone de Abrams de 8 a 10 cm (betão mole). Considere a dosagem de cimento igual a 300 kg/m3. Correcção do Exemplo de Aplicação CÁLCULO DA COMPOSIÇÃO DO BETÃO — Curva de Referência de Faury Passo 1. Determinação da máxima dimensão do betão Abertura da malha (mm) Material retido no peneiro (g) % Retida em cada peneiro % Ret. Acumulada em cada peneiro % Que passa em cada peneiro Brita 1 Brita 2 Areia Brita 1 Brita 2 Areia Brita 1 Brita 2 Areia Brita 1 Brita 2 Areia 38,1 - - - - - - - - - 100 100 100 25,4 337 - - 6,74 - - 6,74 - - 93,26 100 100 19,1 671,8 - - 13,44 - - 20,18 - - 79,82 100 100 12,7 2135,4 112,1 - 42,71 11,21 - 62,88 11,21 - 37,12 88,79 100 9,52 1627,2 379,5 - 32,54 37,95 - 95,43 49,16 - 4,57 50,84 100 4,76 156,1 337,6 4,9 3,12 33,76 2,45 98,55 82,92 2,45 1,45 17,08 97,55 2,38 67,6 117,5 16,5 1,35 11,75 8,25 99,90 94,67 10,7 0,10 5,33 89,30 1,19 4,9 32,4 27,7 0,10 3,24 13,85 100 97,91 24,55 0,00 2,09 75,45 0,595 - 18,1 96,5 - 1,81 48,25 - 99,72 72,8 0,00 0,28 27,20 0,297 - 2,8 44,9 - 0,28 22,45 - 100 95,25 0,00 0,00 4,75 0,149 - - 7,6 - - 3,8 - - 99,05 0,00 0,00 0,95 0,074 - - 1,9 - - 0,95 - - 100 0,00 0,00 0,00 - Determinação dos módulos de finura: Brita 1: Brita 2: Areia rolada: - Determinação das classes: Brita 1: ; Brita 2: ; Areia rolada: Dmax=25,4 mm Passo 2. Traçado da Curva de Referência com Cimento (CRFCC) D/2 = 12,7mm, A = 30, B = 2, R/D = 1 PD/2 = 62,51% Passo 3. Traçado da Curva de Referência sem Cimento (CRFSC) - Índice de Vazios: K = 0,37, K’= 0,003 I = 0,20575 = 205,75 l/m3 Nota: l/m3 l/m3 l/m3 litros litros - Percentagem de Cimento na totalidade de sólidos: Abcissas Ordenada (CRFCC) Retirados 12% de Cimento Restabelecimento da Percentagem [%] D=25,4 mm 100,00 88,00 100,00 D/2=12,7 mm 62,51 50,51 57,40 d = 0,0065 0,00 d= 0,297 22,5 10,5 11,9 Passo 4. Determinação das percentagens de mistura dos inertes (gráfico): oleObject2.bin image3.png image4.wmf ( ) y x d d d ´ - + = 2 1 0 D oleObject3.bin image5.wmf ABCD A V = = armaduras e molde do paredes das total Area betaode encher a Volume R oleObject4.bin image6.wmf P S = = abertura respectiva da Perimetro betao o penetra onde malha da aberta Area r oleObject5.bin image7.wmf 0,75 D R ou R 3 4 D >