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1 A LEI DO SARAVÁ Mandamentos do Sagrado no Trato com os Vivos e os Mortos AUGUSTO VASCONCELOS NETO (Pai Cobra-Cega de Xangô) 2 3 Sumário A Lei do Saravá ..........................................................11 Parte I: Dos Universais.........................................11 Capítulo 1: Lei Universal .....................................11 Parte II: Das Almas...................................................15 Capítulo 1: Dos Espíritos e Eguns...................15 Parte III: Dos Objetos ...........................................23 Capítulo 1: Relíquias e Ferramentas de Culto ...................................................................................23 Parte IV: Dos Agrados..............................................29 Capítulo 1: Ofertas e Devoções .........................29 Parte V: Dos Pedidos ................................................33 Capítulo 1: Como Pedir ao Santo .......................33 Parte VI: Dos Desagravos ......................................37 Capítulo 1: O que Oferecer e o que Evitar 37 Conclusão: "A Lei Escondida e o Saravá de Israel" .....................................................................41 Encerramento Final .....................................................47 4 5 Prefácio A Lei do Saravá não precisa de defensores, pois é a própria voz do mundo invisível que a sustenta. Não há canto da terra onde ela não se faça ouvir, mesmo que de forma velada. Não há cultura, credo ou filosofia que possa ignorá-la sem sofrer suas consequências. Quer saibam, quer ignorem, ela atua. Quer aceitem, quer rejeitem, ela está. A Lei do Saravá não depende da vontade humana, porque está inscrita no código eterno do espírito. Todo aquele que já sentiu o vento inexplicável que atravessa os campos de sua alma conhece a Lei do Saravá. É a lei do respeito ao sagrado, da reverência às almas, dos pactos feitos entre os vivos e os mortos. É a regra que governa o trato com as coisas invisíveis, o relacionamento com 6 os espíritos guardiões, com as entidades de luz e mesmo com os espíritos errantes que vagueiam nas sombras. Essa lei não é nova. Antes de ser nomeada, já regia a relação entre o visível e o invisível. Os antigos cananeus, que adoravam El-Shadai, Yaveh, Asherah e Baal, seguiam-na sem saber. Mesmo quando misturaram suas crenças para unificar um povo disperso, os filhos de Abraão — o "Pai dos Raham" — reconheciam as regras que mantinham o equilíbrio entre a vida e a morte. Na Babilônia, ao copiar cosmogonias como a Epopéia de Gilgamesh, e no Egito, ao absorver os rituais de purificação do Livro dos Mortos, os povos antigos se aproximavam, ainda que de forma indireta, da essência da Lei do Saravá. Porque a verdade é esta: o espírito não suporta a desordem. Tudo o que é sagrado exige reverência, e tudo o que exige reverência exige ordem. “Vela quebrada não 7 presta.” Porque o que ilumina deve ser inteiro. “Boa Cruz é a talhada em galho de Guiné.” Porque o espírito vive mais no simples do que no suntuoso. Assim é a Lei do Saravá: direta, clara, irrefutável. Se você busca entender os mistérios insondáveis, não espere razões humanas. Como já dizia Tertuliano: Credo quia absurdum est. Creio porque é absurdo. Essa lei não é para os que precisam de provas; é para os que têm fé. Não é para os que questionam o sagrado; é para os que o respeitam. Este livro foi escrito para ser mais que um manual; é um chamado à consciência. As sentenças aqui registradas não são meras palavras. São verdades eternas que ecoam no dia a dia, nas vozes do povo, nas experiências dos que lidam com a fé e com as agruras da vida. Cada capítulo, cada parágrafo, cada inciso é um lembrete de que 8 a Lei do Saravá é a única lei que, no fim, governa todas as outras. A Lei do Saravá é a lógica da vida diante da morte. É a mão estendida que resta enquanto todas as outras se retiram. É a força que nos guia no momento da passagem, quando somem os amigos e apenas os espíritos de verdade permanecem. Este livro, como o Didaquê, o Talmude ou o Código de Direito Canônico, é ao mesmo tempo legalista e místico. É um código para os que desejam andar em retidão no mundo visível e invisível. Que cada sentença aqui escrita seja para você uma luz, um escudo e uma arma contra as trevas da ignorância espiritual. Aqui está a Lei do Saravá: a lei eterna, a lei inquebrantável, a lei que está. Que você a leia, que você a entenda e que, sobretudo, a pratique. Porque o 9 espírito não se engana, e a ordem espiritual não espera. Saravá! Augusto Vasconcelos Neto (Pai Cobra-Cega de Xangô) 10 11 A Lei do Saravá Parte I: Dos Universais Capítulo 1: Lei Universal 1. "Tudo é Saravá." o Nada é profano, tudo é sagrado em potência. O que é visto como mundano carrega a centelha do divino. Cabe ao olhar atento revelar o sagrado oculto. o O Saravá é a cola do visível com o invisível. É no Saravá que as forças do céu e da terra se encontram. Ele une o espírito à matéria, o invisível ao real. A Lei do Saravá atua em todo lugar, quer queiram, quer não, quer saibam ou ignorem. 12 2. "Toda oração é uma chave, mas nem toda chave abre todas as portas." o Reze, mas saiba o que pede e para quem pede. A oração é um contrato. Quem ora deve saber o endereço do pedido, pois não há chave que abra porta errada. Alguns dentre nós conseguem abrir portas que teriam todos os motivos do mundo para permanecerem para sempre fechadas. 3. "Quem é de fé, caminha; quem não é, rasteja." o A força da crença move mundos, mas a dúvida enterra caminhos. A fé é um bastão firme no terreno incerto. A dúvida, um abismo que engole passos hesitantes. 13 14 15 Parte II: Das Almas Capítulo 1: Dos Espíritos e Eguns 1. "Tudo é Egun." o Todo espírito foi corpo. Nada que vive escapa da carne. Até os mais elevados começaram no pó e retornaram ao pó. Orixá é Egun, catiço é Egun, Exu é Egun e Pombogira é Egun. o Não há espírito sem memória. Cada Egun traz a marca de sua existência terrena. Memória é a argila que molda o espírito. 2. "Os Eguns não são iguais." o Uns vagam, outros guardam, outros atacam. Os que vagam são perdidos; os 16 que guardam, são aliados; os que atacam, trazem lições amargas. Alguns são mais velhos, outros antigos, outros antiguíssimos. Uns tem poder, outros tem reino, outros domínios e outros não tem nada. Egun não tem nada a perder. o Respeite o Egun que protege; fuja do que devora. A mão amiga merece louvor. O punho cerrado exige distância. 3. "Todo Egun é obsessor." o Até mesmo o espírito bom quer algo em troca. Não há dádiva sem preço. Todo auxílio vem com a marca da reciprocidade. Todos eles se alimentam do nosso axé, seja por obsessão, seja por incorporação, possessão ou influência. 17 4. "Axé não se cria, apenas se transfere." o Toda força vem de um ponto e vai para outro. O Axé é uma corrente. Ele flui de mãos cheias para mãos vazias, mas nunca é destruído. Energia que foi, só volta se você mesmo a furtar de alguém. 5. "Há Eguns divinizados." o Alguns mortos alcançam o que os vivos nunca tocarão. Na morte, certos espíritos ascendem ao que os homens só podem sonhar. Tornam-se eternos e sagrados. A maior religião do mundo, o cristianismo, é uma religião de Egun. Jesus, o maior de todos os Eguns. Chegouao lugar de Deus, Louvado seja! 18 6. "O Deus do Antigo Testamento é mais que um Egun." o Jeová não é espírito qualquer; é poder bruto. Jeová não age como os homens. Ele é vontade absoluta, força que não se submete ao tempo. Há almas coletivas, que se associam criando um conglomerado de almas. Todo Israel estava no Monte Sinai ao receber a Lei, até as almas dos que ainda não haviam nascido. São como uma miríade de almas, que se fundem em algo até hoje incompreensível e misterioso. 7. "A idolatria incomoda, pois revela o avesso do véu." o Quem adora imagens talvez adore o que há por trás delas. A imagem é uma janela para o 19 invisível. Quem adora as imagens, adora aquilo que está por trás delas. Quem a teme, teme o que ela reflete. A questão é: o que há por trás do véu? Na hora terça, quando Jesus sucumbiu na cruz, se rasgou o véu do templo. Por quanto se rasgou o véu do Templo de Jerusalém, no lugar da shekinah ( a Glória Divina) estava Asherah, a esposa de Yaveh. 8. "Sem sangue não há sacrifício." o É o sangue que alimenta a eternidade. O sangue é a moeda de troca com o divino. Ele sela pactos e perpetua a conexão entre mundos. Sem o corte e a degolação de um animal, não há expiação, não há oblação, não há purificação, não 20 há oferta, não há entrega, não há justiça. 9. "É vida por vida." o Todo sacrifício é troca. O universo exige equilíbrio. O que é dado deve ser recebido, e o que é tomado deve ser retribuído. A vida de um animal substitui a nossa vida. Seu sangue é derramado em lugar de nosso sangue. O animal morre por causa de nossas falhas. 10. "O ser humano foi o primeiro ebó." Adão e Eva: as oferendas primordiais. Na criação, o ser humano tornou-se o primeiro sacrifício. A vida do homem é o tributo à eternidade. 21 Por justiça, quem deveria morrer éramos nós. Nosso sangue é exigido. Mas a mãe de todas as feiticeiras, a Grande-Mãe, deu seus próprios filhos em nosso lugar. Além de bagas, favas, sementes e folhas, a Natureza nos proveu de uma infinidade de animais de duas e quatro patas ou mesmo pata alguma. 22 23 Parte III: Dos Objetos Capítulo 1: Relíquias e Ferramentas de Culto 1. "Vela quebrada não presta." o A luz que ilumina deve ser inteira. A chama que ilumina deve estar completa, sem rachaduras ou falhas. A vela é a ponte entre o mundo material e o espiritual, e sua integridade reflete a força do pedido. 24 2. "Rosário bom é o feito com lágrimas de Nossa Senhora." o A fé verdadeira nasce da dor. O rosário que carrega o peso do sofrimento é mais forte. Lágrimas purificam e transformam a dor em devoção, criando uma corrente de poder entre o suplicante e o divino. o Lágrimas de Nossa-Senhora é um tipo de conta. 3. "Boa Cruz é a talhada em galho de Guiné." o O santo de madeira vive mais do que o de mármore. A madeira respira, carrega a força da natureza, enquanto o mármore é frio e estático. A cruz viva guarda a essência das raízes, a ligação com o chão e com o céu. 25 4. "Patuá bom é patuá no bolso." o Proteção sem uso é desperdício. Um patuá guardado e esquecido perde sua força. Ele deve acompanhar seu dono, proteger no dia a dia e estar sempre ao alcance para cumprir seu propósito. 5. "Bom incenso é o caseiro." o O que é feito com suas mãos carrega seu espírito. Incenso feito por suas próprias mãos tem mais poder, pois nele estão a sua intenção e o seu Axé. Cada erva escolhida, cada fio enrolado carrega sua essência e propósito. 26 6. "Pinga boa é a doce." o Santo não bebe fel; bebe festa. A bebida oferecida ao santo deve trazer alegria, não amargura. O álcool doce celebra, aquece e honra as entidades que participam do culto. 7. "Azeite bom é o da consagração." o O que unge, eleva. O azeite consagrado tem o poder de transformar o ordinário em sagrado. Ele unge, purifica e sela pactos, abrindo caminhos para a luz e para o divino. 27 28 29 Parte IV: Dos Agrados Capítulo 1: Ofertas e Devoções 1. "Santo come o que a gente come." o Não ofereça o que não gostaria de receber. As entidades não aceitam migalhas nem desprezo. Oferecer comida ou bebida ao santo é uma extensão da própria fé, e deve ser feito com respeito e cuidado. Assim como você, o santo também aprecia o que é preparado com carinho. 30 2. "Mirim gosta de pinga com mel." o Espíritos pequenos gostam de coisas doces e fortes. Os espíritos mirins são travessos, leves e brincalhões. Doces e bebidas suaves com um toque de força atraem sua atenção, pois refletem a doçura e a energia que carregam. 3. "Maria Quitéria come bolinho de inhame com carne e pimenta." o Quem sabe a comida do santo, conhece o seu coração. Cada entidade tem seu gosto e sua essência. Ao conhecer e preparar o prato favorito de um santo, você se conecta diretamente à sua energia, falando com ele na linguagem do coração. 31 4. "Santo ainda gosta de vela." o A chama da fé nunca se apaga. A vela é o símbolo universal da devoção. Sua luz corta a escuridão, guia os espíritos e aquece os corações. Acender uma vela é um ato simples, mas poderoso, que nunca perde sua força. 5. "Para Pai Joaquim de Angola, 'Café bom é café de preto.' " o Ofereça o simples, mas faça-o com amor. Pai Joaquim é uma entidade humilde, que valoriza a essência sobre a ostentação. O café simples, forte e quente é um símbolo de acolhimento, de força e de resistência. O amor 32 transforma o ordinário no extraordinário. 6. "Todo santo gosta de coisa boa. 'Porcaria non quiero' (D. Esmeralda)." o A força está no capricho, não no luxo. As entidades não pedem riqueza, mas exigem cuidado. Não é o valor material que importa, mas o zelo, o capricho e a intenção. Oferecer algo de qualquer jeito é desprezar a força que se busca. 33 Parte V: Dos Pedidos Capítulo 1: Como Pedir ao Santo 1. "Cuida bem do que pedes, vai que um anjo torto passa e escuta." o O mundo espiritual ouve mais do que diz. As palavras lançadas em prece têm força. Não se engane ao pensar que tudo pode ser dito ao vento. Os santos, os espíritos e até os anjos tortos escutam, e o que você pede pode vir de formas inesperadas. Escolha bem suas palavras, pois o invisível tem ouvidos atentos. 34 2. "Não peça o que é tua obrigação fazer." o Trabalho é oferta; preguiça é desrespeito. Os santos e espíritos ajudam, mas não fazem o trabalho que te cabe. Pedir por aquilo que você mesmo deve construir é ignorar a força do esforço e da responsabilidade. Ofereça sua dedicação antes de estender as mãos em súplica. 3. "Se não sabes o que pedir, peça o que o Santo quer." o A vontade do espírito é sempre mais sábia. Nem sempre sabemos o que é melhor para nós. Deixe que o espírito guie seu desejo e peça aquilo que ele achar mais justo. 35 A sabedoria deles vai além da nossa compreensão terrena. 4. "Peça dinheiro a Seu Zé." o Dinheiro é coisa de malandro. Seu Zé Pilintra, o protetor dos caminhos tortuosos e das noites de alegria, entende as necessidades materiais. Com ele, o pedido de prosperidade tem chances de ecoar, mas cuidado: o dinheiro vem com responsabilidade. 5. "Peça sabedoria a Pai Joaquim." o O velho ensina o que os livros não contam. Pai Joaquim de Angola é o guardião da sabedoria ancestral. Ele oferece ensinamentos que não 36 se encontram nas páginas dos livros, mas nos segredos do coração e da experiência. Pedir sabedoriaa ele é buscar a verdade que mora no silêncio do espírito. 6. "Peça caminho a Seu Lucifér." o Nem toda luz é clara; nem toda sombra é escura. Seu Lucifér, o portador da luz e senhor dos caminhos inesperados, conhece as rotas entre o claro e o escuro. Quando você se perde, ele é o guia que aponta a direção, mesmo que o caminho pareça sombrio. O pedido deve vir com coragem e respeito. 37 Parte VI: Dos Desagravos Capítulo 1: O que Oferecer e o que Evitar 1. "Todo santo tem interesses. Não há bem ou mal desinteressado." o Até o espírito mais puro tem suas preferências. Os santos, tal como os homens, têm desejos e afinidades. Nada no universo espiritual acontece sem troca ou intenção. O bem e o mal não são absolutos; ambos respondem a interesses. Ofereça o que se alinha ao coração do santo, e o retorno será proporcional à sua entrega. 38 2. "Santo usa seu corpo, o templo do espírito." o Trate seu corpo como morada sagrada. Seu corpo é a casa onde os espíritos podem entrar e operar. Mantê-lo limpo, forte e digno é um ato de respeito não apenas a si mesmo, mas às forças invisíveis que o rodeiam. Um corpo profanado repele as boas energias e atrai o caos. 3. "Santo gosta de insistentes. Peça uma, duas, três vezes ou mais." o Perseverança é fé em movimento. A graça não chega à porta de quem desiste na primeira tentativa. Rezar uma vez é um sussurro; rezar várias vezes é um grito que atravessa o véu. 39 Insistir é mostrar que a fé é maior que a dúvida. 4. "Há santo que gosta de pedidos chorados, temperados com lágrimas." o Algumas graças nascem da dor. O lamento sincero é uma prece que toca as fibras mais profundas do espírito. As lágrimas são oferendas líquidas, puras e carregadas de verdade. Quando a dor é honesta, o santo escuta com mais atenção. 5. "Há santo que não suporta o choro." o Nem todo espírito aprecia lamentos. Enquanto alguns santos respondem ao pranto, outros preferem a serenidade. O choro excessivo 40 pode ser visto como fraqueza ou desequilíbrio. Antes de se lançar em lamentos, entenda a natureza daquele a quem você se dirige. 41 Conclusão: "A Lei Escondida e o Saravá de Israel" 1. O Povo de Muitos Deuses "Onde há mistura, há riqueza; onde há pureza, há esterilidade." Israel não nasceu como um povo unido e tampouco monoteísta. Suas tribos carregavam diferentes deuses e práticas, moldadas pelo contexto geográfico e histórico. Antes de Javé, os altares de Israel queimavam incenso a Baal, ofereciam sacrifícios a Ishtar, dançavam em honra a Dagon, reverenciavam El- Shadai e pediam proteção a Asherah. Cada um desses deuses representava uma faceta de sua existência. 42 Aforismo: "Não se constrói um templo de pedra sem a argamassa das tradições." História: Conta-se que, durante a construção de uma casa de oração em Samaria, um ancião insistiu em usar uma pedra antiga encontrada nas ruínas de um templo dedicado a Baal. Quando questionado, respondeu: “Esta pedra já viu sacrifícios e promessas. Que mal fará se ouvir nossas orações agora? O deus pode mudar, mas a pedra permanece.” O sincretismo estava no DNA de Israel. Eles transformaram deuses estrangeiros em aliados políticos e espirituais. Abraão, o "Pai dos Raham", era um símbolo desse processo: um patriarca adotado para legitimar terras e alianças. Judá trouxe Javé, um deus árabe, e uniu-o a El-Shadai, o antigo deus cananeu, criando uma divindade 43 única que atendesse aos interesses territoriais e religiosos. 2. As Leis Copiadas e os Textos Sagrados "Toda sabedoria tem pai e mãe, mas a fé a torna filha nossa." As leis do Levítico, que muitos acreditam ser revelações divinas, são, na verdade, heranças culturais. Elas refletem práticas já estabelecidas nos templos egípcios, como as regras do "Livro dos Mortos" sobre purificação e rituais. Mais tarde, os hebreus beberam da sabedoria babilônica, transformando cosmogonias como a "Epopeia de Gilgamesh" no Gênesis. Aforismo: "O que chamamos de revelação é, muitas vezes, o eco de uma tradição esquecida." 44 Caso: Na Babilônia, durante o exílio, os hebreus ouviram os sacerdotes recitarem um poema sobre um dilúvio enviado pelos deuses para limpar a terra. Inspirados, adaptaram a história para contar a saga de Noé. Mas diferentemente de Utnapishtim, que recebeu a imortalidade, Noé foi recompensado com a promessa de um arco-íris. Sob a influência persa, Israel consolidou sua teologia em textos organizados. Foi no reinado de Josias que o núcleo da Bíblia foi compilado, mas o que parecia pureza era, na verdade, o resultado de múltiplas influências. O saravá do passado ressoava em cada página: sacrifícios, cânticos e leis que uniam o Egito, a Babilônia e Canaã em um só altar. 45 3. Rituais e o Saravá de Israel "Não existe rito sem empréstimo; não existe fé sem mistura." Os rituais descritos no Levítico revelam práticas universais que atravessaram fronteiras culturais. Em Levítico 14, por exemplo, a purificação de um leproso envolve o uso de sangue, azeite e ervas — elementos que ecoam os fundamentos de uma iniciação de filho-de-santo (Yawo) no candomblé. Aforismo: "Todo ritual é um diálogo com o passado." História: Certa vez, um sacerdote moderno, ao ler Levítico, exclamou: “Isso aqui é a receita da avó de minha avó! Ela dizia que o óleo curava, o sangue protegia e o fogo purificava. E agora está escrito como lei sagrada.” A surpresa deu lugar ao respeito, 46 pois as tradições atravessam oceanos e gerações. Assim, o que muitos consideram único em Israel é, na verdade, universal. Eles cantavam seus salmos como os babilônios recitavam seus poemas e ofereciam sacrifícios como os egípcios ungiam seus mortos. A luz de Javé era alimentada pelo azeite de muitas lâmpadas. 4. O Saravá como Lei Universal "A verdade não está na pureza, mas na aceitação da mistura." Israel nos ensina que toda fé nasce da fusão. Javé, no fim das contas, é tanto cananeu quanto árabe; tanto um deus do deserto quanto um deus da cidade. O Gênesis é um espelho das cosmogonias babilônicas, e o Levítico carrega o aroma dos templos egípcios. 47 Aforismo: "Quem busca uma só raiz nunca verá a árvore inteira." Reflexão: Assim como o saravá une o que é visível e invisível, Israel uniu culturas em uma teologia viva. Não há vergonha na mistura, pois é ela que dá força ao tronco e cor às folhas. A Bíblia, como todos os livros sagrados, é um altar de muitos tijolos: egípcios, babilônicos, cananeus e hebreus. Encerramento Final Que essa lição permaneça: a fé verdadeira não teme a origem. Não importa se ela veio do Egito, da Babilônia ou de Canaã. O que importa é o que fazemos dela. E se Israel conseguiu transformar um saravá de influências em algo divino, também nós 48 podemos honrar nossa mistura, nossos muitos deuses e nossas tradições. "Toda fé é mistura. Todo altar é encontro. Todo caminho é união de passos antigos." 49 Bibliografia Sugerida BRASIL. Didaquê: o ensinamento dos doze apóstolos. Tradução de João Antônio da Silva. São Paulo: Paulus, 2015. IGREJA CATÓLICA. Código de Direito Canônico. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Loyola, 1983. TALMUDE. O Talmude: ensinamentos dos sábios judeus. Seleção e tradução de Moisés Rabinovitch. Rio de Janeiro: Imago, 1992. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de J. Herculano Pires. São Paulo: Editora Lake, 2009. CONFÚCIO. I Ching: O Livro das Mutações. Tradução de Richard Wilhelm e Cary F. Baynes. São Paulo: Pensamento, 2012. 50 SAINT GERMAIN. Os Quatro Livros dasLeis Espirituais. Tradução de José Domingos. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. MANU. O Código de Manu. Tradução e comentários de Georges Dumézil. São Paulo: Editora Hedra, 2014. A Lei do Saravá Parte I: Dos Universais Capítulo 1: Lei Universal Parte II: Das Almas Capítulo 1: Dos Espíritos e Eguns Parte III: Dos Objetos Capítulo 1: Relíquias e Ferramentas de Culto Parte IV: Dos Agrados Capítulo 1: Ofertas e Devoções Parte V: Dos Pedidos Capítulo 1: Como Pedir ao Santo Parte VI: Dos Desagravos Capítulo 1: O que Oferecer e o que Evitar Conclusão: "A Lei Escondida e o Saravá de Israel" 1. O Povo de Muitos Deuses 2. As Leis Copiadas e os Textos Sagrados 3. Rituais e o Saravá de Israel 4. O Saravá como Lei Universal Encerramento Final