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A LEI DO SARAVÁ 
Mandamentos do Sagrado no Trato com os 
Vivos e os Mortos 
 
 
 
 
 
 
 
AUGUSTO VASCONCELOS NETO 
(Pai Cobra-Cega de Xangô) 
 
 
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Sumário 
 
A Lei do Saravá ..........................................................11 
Parte I: Dos Universais.........................................11 
Capítulo 1: Lei Universal .....................................11 
Parte II: Das Almas...................................................15 
Capítulo 1: Dos Espíritos e Eguns...................15 
Parte III: Dos Objetos ...........................................23 
Capítulo 1: Relíquias e Ferramentas de 
Culto ...................................................................................23 
Parte IV: Dos Agrados..............................................29 
Capítulo 1: Ofertas e Devoções .........................29 
Parte V: Dos Pedidos ................................................33 
Capítulo 1: Como Pedir ao Santo .......................33 
Parte VI: Dos Desagravos ......................................37 
Capítulo 1: O que Oferecer e o que Evitar 37 
Conclusão: "A Lei Escondida e o Saravá 
de Israel" .....................................................................41 
Encerramento Final .....................................................47 
 
 
 
4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
5 
 
Prefácio 
 
A Lei do Saravá não precisa de 
defensores, pois é a própria voz do mundo 
invisível que a sustenta. Não há canto da 
terra onde ela não se faça ouvir, mesmo que 
de forma velada. Não há cultura, credo ou 
filosofia que possa ignorá-la sem sofrer 
suas consequências. Quer saibam, quer 
ignorem, ela atua. Quer aceitem, quer 
rejeitem, ela está. A Lei do Saravá não 
depende da vontade humana, porque está 
inscrita no código eterno do espírito. 
Todo aquele que já sentiu o vento 
inexplicável que atravessa os campos de sua 
alma conhece a Lei do Saravá. É a lei do 
respeito ao sagrado, da reverência às almas, 
dos pactos feitos entre os vivos e os 
mortos. É a regra que governa o trato com 
as coisas invisíveis, o relacionamento com 
6 
 
os espíritos guardiões, com as entidades de 
luz e mesmo com os espíritos errantes que 
vagueiam nas sombras. 
Essa lei não é nova. Antes de ser 
nomeada, já regia a relação entre o visível 
e o invisível. Os antigos cananeus, que 
adoravam El-Shadai, Yaveh, Asherah e Baal, 
seguiam-na sem saber. Mesmo quando 
misturaram suas crenças para unificar um 
povo disperso, os filhos de Abraão — o "Pai 
dos Raham" — reconheciam as regras que 
mantinham o equilíbrio entre a vida e a 
morte. Na Babilônia, ao copiar cosmogonias 
como a Epopéia de Gilgamesh, e no Egito, ao 
absorver os rituais de purificação do Livro 
dos Mortos, os povos antigos se aproximavam, 
ainda que de forma indireta, da essência da 
Lei do Saravá. 
Porque a verdade é esta: o espírito não 
suporta a desordem. Tudo o que é sagrado 
exige reverência, e tudo o que exige 
reverência exige ordem. “Vela quebrada não 
7 
 
presta.” Porque o que ilumina deve ser 
inteiro. “Boa Cruz é a talhada em galho de 
Guiné.” Porque o espírito vive mais no 
simples do que no suntuoso. Assim é a Lei 
do Saravá: direta, clara, irrefutável. 
Se você busca entender os mistérios 
insondáveis, não espere razões humanas. 
Como já dizia Tertuliano: Credo quia 
absurdum est. Creio porque é absurdo. Essa 
lei não é para os que precisam de provas; é 
para os que têm fé. Não é para os que 
questionam o sagrado; é para os que o 
respeitam. 
Este livro foi escrito para ser mais 
que um manual; é um chamado à consciência. 
As sentenças aqui registradas não são meras 
palavras. São verdades eternas que ecoam no 
dia a dia, nas vozes do povo, nas 
experiências dos que lidam com a fé e com 
as agruras da vida. Cada capítulo, cada 
parágrafo, cada inciso é um lembrete de que 
8 
 
a Lei do Saravá é a única lei que, no fim, 
governa todas as outras. 
A Lei do Saravá é a lógica da vida 
diante da morte. É a mão estendida que resta 
enquanto todas as outras se retiram. É a 
força que nos guia no momento da passagem, 
quando somem os amigos e apenas os espíritos 
de verdade permanecem. 
Este livro, como o Didaquê, o Talmude 
ou o Código de Direito Canônico, é ao mesmo 
tempo legalista e místico. É um código para 
os que desejam andar em retidão no mundo 
visível e invisível. Que cada sentença aqui 
escrita seja para você uma luz, um escudo e 
uma arma contra as trevas da ignorância 
espiritual. 
Aqui está a Lei do Saravá: a lei 
eterna, a lei inquebrantável, a lei que 
está. Que você a leia, que você a entenda e 
que, sobretudo, a pratique. Porque o 
9 
 
espírito não se engana, e a ordem espiritual 
não espera. 
Saravá! 
 
Augusto Vasconcelos Neto 
 (Pai Cobra-Cega de Xangô) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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A Lei do Saravá 
Parte I: Dos Universais 
Capítulo 1: Lei Universal 
 
1. "Tudo é Saravá." 
o Nada é profano, tudo é sagrado em 
potência. 
O que é visto como mundano carrega 
a centelha do divino. Cabe ao olhar 
atento revelar o sagrado oculto. 
o O Saravá é a cola do visível com o 
invisível. 
É no Saravá que as forças do céu e 
da terra se encontram. Ele une o 
espírito à matéria, o invisível ao 
real. A Lei do Saravá atua em todo 
lugar, quer queiram, quer não, 
quer saibam ou ignorem. 
 
12 
 
2. "Toda oração é uma chave, mas nem 
toda chave abre todas as portas." 
o Reze, mas saiba o que pede e para 
quem pede. 
A oração é um contrato. Quem ora 
deve saber o endereço do pedido, 
pois não há chave que abra porta 
errada. Alguns dentre nós conseguem 
abrir portas que teriam todos os 
motivos do mundo para permanecerem 
para sempre fechadas. 
 
3. "Quem é de fé, caminha; quem não é, 
rasteja." 
o A força da crença move mundos, mas 
a dúvida enterra caminhos. 
A fé é um bastão firme no terreno 
incerto. A dúvida, um abismo que 
engole passos hesitantes. 
 
 
 
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Parte II: Das Almas 
Capítulo 1: Dos Espíritos e Eguns 
1. "Tudo é Egun." 
o Todo espírito foi corpo. 
Nada que vive escapa da carne. 
Até os mais elevados começaram 
no pó e retornaram ao pó. Orixá 
é Egun, catiço é Egun, Exu é 
Egun e Pombogira é Egun. 
o Não há espírito sem memória. 
Cada Egun traz a marca de sua 
existência terrena. Memória é a 
argila que molda o espírito. 
 
2. "Os Eguns não são iguais." 
o Uns vagam, outros guardam, 
outros atacam. 
Os que vagam são perdidos; os 
16 
 
que guardam, são aliados; os que 
atacam, trazem lições amargas. 
Alguns são mais velhos, outros 
antigos, outros antiguíssimos. 
Uns tem poder, outros tem reino, 
outros domínios e outros não tem 
nada. Egun não tem nada a 
perder. 
o Respeite o Egun que protege; 
fuja do que devora. 
A mão amiga merece louvor. O 
punho cerrado exige distância. 
 
3. "Todo Egun é obsessor." 
o Até mesmo o espírito bom quer 
algo em troca. 
Não há dádiva sem preço. Todo 
auxílio vem com a marca da 
reciprocidade. Todos eles se 
alimentam do nosso axé, seja por 
obsessão, seja por incorporação, 
possessão ou influência. 
17 
 
4. "Axé não se cria, apenas se 
transfere." 
o Toda força vem de um ponto e vai 
para outro. 
O Axé é uma corrente. Ele flui 
de mãos cheias para mãos vazias, 
mas nunca é destruído. Energia 
que foi, só volta se você mesmo 
a furtar de alguém. 
 
5. "Há Eguns divinizados." 
o Alguns mortos alcançam o que os 
vivos nunca tocarão. 
Na morte, certos espíritos 
ascendem ao que os homens só 
podem sonhar. Tornam-se eternos 
e sagrados. A maior religião do 
mundo, o cristianismo, é uma 
religião de Egun. Jesus, o maior 
de todos os Eguns. Chegouao 
lugar de Deus, Louvado seja! 
18 
 
6. "O Deus do Antigo Testamento é mais 
que um Egun." 
o Jeová não é espírito qualquer; é 
poder bruto. 
Jeová não age como os homens. 
Ele é vontade absoluta, força 
que não se submete ao tempo. Há 
almas coletivas, que se associam 
criando um conglomerado de 
almas. Todo Israel estava no 
Monte Sinai ao receber a Lei, 
até as almas dos que ainda não 
haviam nascido. São como uma 
miríade de almas, que se fundem 
em algo até hoje incompreensível 
e misterioso. 
 
7. "A idolatria incomoda, pois revela o 
avesso do véu." 
o Quem adora imagens talvez adore 
o que há por trás delas. 
A imagem é uma janela para o 
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invisível. Quem adora as 
imagens, adora aquilo que está 
por trás delas. Quem a teme, 
teme o que ela reflete. A 
questão é: o que há por trás do 
véu? Na hora terça, quando Jesus 
sucumbiu na cruz, se rasgou o 
véu do templo. Por quanto se 
rasgou o véu do Templo de 
Jerusalém, no lugar da shekinah 
( a Glória Divina) estava 
Asherah, a esposa de Yaveh. 
 
8. "Sem sangue não há sacrifício." 
o É o sangue que alimenta a 
eternidade. 
O sangue é a moeda de troca com 
o divino. Ele sela pactos e 
perpetua a conexão entre mundos. 
Sem o corte e a degolação de um 
animal, não há expiação, não há 
oblação, não há purificação, não 
20 
 
há oferta, não há entrega, não 
há justiça. 
 
9. "É vida por vida." 
o Todo sacrifício é troca. 
O universo exige equilíbrio. O 
que é dado deve ser recebido, e 
o que é tomado deve ser 
retribuído. A vida de um animal 
substitui a nossa vida. Seu 
sangue é derramado em lugar de 
nosso sangue. O animal morre por 
causa de nossas falhas. 
 
10. "O ser humano foi o primeiro 
ebó." 
 Adão e Eva: as oferendas primordiais. 
Na criação, o ser humano tornou-se o 
primeiro sacrifício. A vida do homem 
é o tributo à eternidade. 
21 
 
 Por justiça, quem deveria morrer 
éramos nós. Nosso sangue é exigido. 
Mas a mãe de todas as feiticeiras, a 
Grande-Mãe, deu seus próprios filhos 
em nosso lugar. Além de bagas, favas, 
sementes e folhas, a Natureza nos 
proveu de uma infinidade de animais 
de duas e quatro patas ou mesmo pata 
alguma. 
 
 
 
 
 
 
22 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
23 
 
 
Parte III: Dos Objetos 
Capítulo 1: Relíquias e Ferramentas 
de Culto 
 
1. "Vela quebrada não presta." 
o A luz que ilumina deve ser 
inteira. 
A chama que ilumina deve estar 
completa, sem rachaduras ou 
falhas. A vela é a ponte entre o 
mundo material e o espiritual, e 
sua integridade reflete a força 
do pedido. 
 
 
24 
 
2. "Rosário bom é o feito com lágrimas 
de Nossa Senhora." 
o A fé verdadeira nasce da dor. 
O rosário que carrega o peso do 
sofrimento é mais forte. 
Lágrimas purificam e transformam 
a dor em devoção, criando uma 
corrente de poder entre o 
suplicante e o divino. 
o Lágrimas de Nossa-Senhora é um 
tipo de conta. 
 
3. "Boa Cruz é a talhada em galho de 
Guiné." 
o O santo de madeira vive mais do 
que o de mármore. 
A madeira respira, carrega a 
força da natureza, enquanto o 
mármore é frio e estático. A 
cruz viva guarda a essência das 
raízes, a ligação com o chão e 
com o céu. 
25 
 
 
4. "Patuá bom é patuá no bolso." 
o Proteção sem uso é desperdício. 
Um patuá guardado e esquecido 
perde sua força. Ele deve 
acompanhar seu dono, proteger no 
dia a dia e estar sempre ao 
alcance para cumprir seu 
propósito. 
 
5. "Bom incenso é o caseiro." 
o O que é feito com suas mãos 
carrega seu espírito. 
Incenso feito por suas próprias 
mãos tem mais poder, pois nele 
estão a sua intenção e o seu 
Axé. Cada erva escolhida, cada 
fio enrolado carrega sua 
essência e propósito. 
 
26 
 
6. "Pinga boa é a doce." 
o Santo não bebe fel; bebe festa. 
A bebida oferecida ao santo deve 
trazer alegria, não amargura. O 
álcool doce celebra, aquece e 
honra as entidades que 
participam do culto. 
 
7. "Azeite bom é o da consagração." 
o O que unge, eleva. 
O azeite consagrado tem o poder 
de transformar o ordinário em 
sagrado. Ele unge, purifica e 
sela pactos, abrindo caminhos 
para a luz e para o divino. 
 
 
 
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28 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
29 
 
 
Parte IV: Dos Agrados 
Capítulo 1: Ofertas e Devoções 
 
1. "Santo come o que a gente come." 
o Não ofereça o que não gostaria 
de receber. 
As entidades não aceitam 
migalhas nem desprezo. Oferecer 
comida ou bebida ao santo é uma 
extensão da própria fé, e deve 
ser feito com respeito e 
cuidado. Assim como você, o 
santo também aprecia o que é 
preparado com carinho. 
 
 
30 
 
2. "Mirim gosta de pinga com mel." 
o Espíritos pequenos gostam de 
coisas doces e fortes. 
Os espíritos mirins são 
travessos, leves e brincalhões. 
Doces e bebidas suaves com um 
toque de força atraem sua 
atenção, pois refletem a doçura 
e a energia que carregam. 
 
3. "Maria Quitéria come bolinho de 
inhame com carne e pimenta." 
o Quem sabe a comida do santo, 
conhece o seu coração. 
Cada entidade tem seu gosto e 
sua essência. Ao conhecer e 
preparar o prato favorito de um 
santo, você se conecta 
diretamente à sua energia, 
falando com ele na linguagem do 
coração. 
31 
 
 
4. "Santo ainda gosta de vela." 
o A chama da fé nunca se apaga. 
A vela é o símbolo universal da 
devoção. Sua luz corta a 
escuridão, guia os espíritos e 
aquece os corações. Acender uma 
vela é um ato simples, mas 
poderoso, que nunca perde sua 
força. 
 
5. "Para Pai Joaquim de Angola, 'Café 
bom é café de preto.' " 
o Ofereça o simples, mas faça-o 
com amor. 
Pai Joaquim é uma entidade 
humilde, que valoriza a essência 
sobre a ostentação. O café 
simples, forte e quente é um 
símbolo de acolhimento, de força 
e de resistência. O amor 
32 
 
transforma o ordinário no 
extraordinário. 
 
6. "Todo santo gosta de coisa boa. 
'Porcaria non quiero' (D. 
Esmeralda)." 
o A força está no capricho, não no 
luxo. 
As entidades não pedem riqueza, 
mas exigem cuidado. Não é o 
valor material que importa, mas 
o zelo, o capricho e a intenção. 
Oferecer algo de qualquer jeito 
é desprezar a força que se 
busca. 
 
 
 
33 
 
 
Parte V: Dos Pedidos 
Capítulo 1: Como Pedir ao Santo 
 
1. "Cuida bem do que pedes, vai que um 
anjo torto passa e escuta." 
o O mundo espiritual ouve mais do 
que diz. 
As palavras lançadas em prece 
têm força. Não se engane ao 
pensar que tudo pode ser dito ao 
vento. Os santos, os espíritos e 
até os anjos tortos escutam, e o 
que você pede pode vir de formas 
inesperadas. Escolha bem suas 
palavras, pois o invisível tem 
ouvidos atentos. 
 
34 
 
2. "Não peça o que é tua obrigação 
fazer." 
o Trabalho é oferta; preguiça é 
desrespeito. 
Os santos e espíritos ajudam, 
mas não fazem o trabalho que te 
cabe. Pedir por aquilo que você 
mesmo deve construir é ignorar a 
força do esforço e da 
responsabilidade. Ofereça sua 
dedicação antes de estender as 
mãos em súplica. 
 
3. "Se não sabes o que pedir, peça o que 
o Santo quer." 
o A vontade do espírito é sempre 
mais sábia. 
Nem sempre sabemos o que é 
melhor para nós. Deixe que o 
espírito guie seu desejo e peça 
aquilo que ele achar mais justo. 
35 
 
A sabedoria deles vai além da 
nossa compreensão terrena. 
 
4. "Peça dinheiro a Seu Zé." 
o Dinheiro é coisa de malandro. 
Seu Zé Pilintra, o protetor dos 
caminhos tortuosos e das noites 
de alegria, entende as 
necessidades materiais. Com ele, 
o pedido de prosperidade tem 
chances de ecoar, mas cuidado: o 
dinheiro vem com 
responsabilidade. 
 
5. "Peça sabedoria a Pai Joaquim." 
o O velho ensina o que os livros 
não contam. 
Pai Joaquim de Angola é o 
guardião da sabedoria ancestral. 
Ele oferece ensinamentos que não 
36 
 
se encontram nas páginas dos 
livros, mas nos segredos do 
coração e da experiência. Pedir 
sabedoriaa ele é buscar a 
verdade que mora no silêncio do 
espírito. 
 
6. "Peça caminho a Seu Lucifér." 
o Nem toda luz é clara; nem toda 
sombra é escura. 
Seu Lucifér, o portador da luz e 
senhor dos caminhos inesperados, 
conhece as rotas entre o claro e 
o escuro. Quando você se perde, 
ele é o guia que aponta a 
direção, mesmo que o caminho 
pareça sombrio. O pedido deve 
vir com coragem e respeito. 
 
 
37 
 
 
Parte VI: Dos Desagravos 
Capítulo 1: O que Oferecer e o que 
Evitar 
 
1. "Todo santo tem interesses. Não há 
bem ou mal desinteressado." 
o Até o espírito mais puro tem 
suas preferências. 
Os santos, tal como os homens, 
têm desejos e afinidades. Nada 
no universo espiritual acontece 
sem troca ou intenção. O bem e o 
mal não são absolutos; ambos 
respondem a interesses. Ofereça 
o que se alinha ao coração do 
santo, e o retorno será 
proporcional à sua entrega. 
38 
 
2. "Santo usa seu corpo, o templo do 
espírito." 
o Trate seu corpo como morada 
sagrada. 
Seu corpo é a casa onde os 
espíritos podem entrar e operar. 
Mantê-lo limpo, forte e digno é 
um ato de respeito não apenas a 
si mesmo, mas às forças 
invisíveis que o rodeiam. Um 
corpo profanado repele as boas 
energias e atrai o caos. 
 
3. "Santo gosta de insistentes. Peça 
uma, duas, três vezes ou mais." 
o Perseverança é fé em movimento. 
A graça não chega à porta de 
quem desiste na primeira 
tentativa. Rezar uma vez é um 
sussurro; rezar várias vezes é 
um grito que atravessa o véu. 
39 
 
Insistir é mostrar que a fé é 
maior que a dúvida. 
 
4. "Há santo que gosta de pedidos 
chorados, temperados com lágrimas." 
o Algumas graças nascem da dor. 
O lamento sincero é uma prece 
que toca as fibras mais 
profundas do espírito. As 
lágrimas são oferendas líquidas, 
puras e carregadas de verdade. 
Quando a dor é honesta, o santo 
escuta com mais atenção. 
 
5. "Há santo que não suporta o choro." 
o Nem todo espírito aprecia 
lamentos. 
Enquanto alguns santos respondem 
ao pranto, outros preferem a 
serenidade. O choro excessivo 
40 
 
pode ser visto como fraqueza ou 
desequilíbrio. Antes de se 
lançar em lamentos, entenda a 
natureza daquele a quem você se 
dirige. 
 
 
 
 
 
 
 
 
41 
 
Conclusão: "A Lei Escondida 
e o Saravá de Israel" 
 
1. O Povo de Muitos Deuses 
"Onde há mistura, há riqueza; onde há 
pureza, há esterilidade." 
Israel não nasceu como um povo unido e 
tampouco monoteísta. Suas tribos carregavam 
diferentes deuses e práticas, moldadas pelo 
contexto geográfico e histórico. Antes de 
Javé, os altares de Israel queimavam incenso 
a Baal, ofereciam sacrifícios a Ishtar, 
dançavam em honra a Dagon, reverenciavam El-
Shadai e pediam proteção a Asherah. Cada um 
desses deuses representava uma faceta de sua 
existência. 
42 
 
Aforismo: 
"Não se constrói um templo de pedra sem a 
argamassa das tradições." 
História: 
Conta-se que, durante a construção de 
uma casa de oração em Samaria, um ancião 
insistiu em usar uma pedra antiga encontrada 
nas ruínas de um templo dedicado a Baal. 
Quando questionado, respondeu: “Esta pedra 
já viu sacrifícios e promessas. Que mal fará 
se ouvir nossas orações agora? O deus pode 
mudar, mas a pedra permanece.” 
O sincretismo estava no DNA de Israel. 
Eles transformaram deuses estrangeiros em 
aliados políticos e espirituais. Abraão, o 
"Pai dos Raham", era um símbolo desse 
processo: um patriarca adotado para 
legitimar terras e alianças. Judá trouxe 
Javé, um deus árabe, e uniu-o a El-Shadai, 
o antigo deus cananeu, criando uma divindade 
43 
 
única que atendesse aos interesses 
territoriais e religiosos. 
 
2. As Leis Copiadas e os Textos Sagrados 
"Toda sabedoria tem pai e mãe, mas a fé a 
torna filha nossa." 
As leis do Levítico, que muitos 
acreditam ser revelações divinas, são, na 
verdade, heranças culturais. Elas refletem 
práticas já estabelecidas nos templos 
egípcios, como as regras do "Livro dos 
Mortos" sobre purificação e rituais. Mais 
tarde, os hebreus beberam da sabedoria 
babilônica, transformando cosmogonias como 
a "Epopeia de Gilgamesh" no Gênesis. 
Aforismo: 
"O que chamamos de revelação é, muitas 
vezes, o eco de uma tradição esquecida." 
 
44 
 
Caso: 
Na Babilônia, durante o exílio, os 
hebreus ouviram os sacerdotes recitarem um 
poema sobre um dilúvio enviado pelos deuses 
para limpar a terra. Inspirados, adaptaram 
a história para contar a saga de Noé. Mas 
diferentemente de Utnapishtim, que recebeu 
a imortalidade, Noé foi recompensado com a 
promessa de um arco-íris. 
Sob a influência persa, Israel 
consolidou sua teologia em textos 
organizados. Foi no reinado de Josias que o 
núcleo da Bíblia foi compilado, mas o que 
parecia pureza era, na verdade, o resultado 
de múltiplas influências. O saravá do 
passado ressoava em cada página: 
sacrifícios, cânticos e leis que uniam o 
Egito, a Babilônia e Canaã em um só altar. 
 
 
45 
 
3. Rituais e o Saravá de Israel 
"Não existe rito sem empréstimo; não 
existe fé sem mistura." 
Os rituais descritos no Levítico 
revelam práticas universais que 
atravessaram fronteiras culturais. Em 
Levítico 14, por exemplo, a purificação de 
um leproso envolve o uso de sangue, azeite 
e ervas — elementos que ecoam os fundamentos 
de uma iniciação de filho-de-santo (Yawo) 
no candomblé. 
Aforismo: 
"Todo ritual é um diálogo com o passado." 
História: 
Certa vez, um sacerdote moderno, ao ler 
Levítico, exclamou: “Isso aqui é a receita 
da avó de minha avó! Ela dizia que o óleo 
curava, o sangue protegia e o fogo 
purificava. E agora está escrito como lei 
sagrada.” A surpresa deu lugar ao respeito, 
46 
 
pois as tradições atravessam oceanos e 
gerações. 
Assim, o que muitos consideram único 
em Israel é, na verdade, universal. Eles 
cantavam seus salmos como os babilônios 
recitavam seus poemas e ofereciam 
sacrifícios como os egípcios ungiam seus 
mortos. A luz de Javé era alimentada pelo 
azeite de muitas lâmpadas. 
 
4. O Saravá como Lei Universal 
"A verdade não está na pureza, mas na 
aceitação da mistura." 
Israel nos ensina que toda fé nasce da 
fusão. Javé, no fim das contas, é tanto 
cananeu quanto árabe; tanto um deus do 
deserto quanto um deus da cidade. O Gênesis 
é um espelho das cosmogonias babilônicas, e 
o Levítico carrega o aroma dos templos 
egípcios. 
47 
 
Aforismo: 
"Quem busca uma só raiz nunca verá a 
árvore inteira." 
Reflexão: 
Assim como o saravá une o que é visível 
e invisível, Israel uniu culturas em uma 
teologia viva. Não há vergonha na mistura, 
pois é ela que dá força ao tronco e cor às 
folhas. A Bíblia, como todos os livros 
sagrados, é um altar de muitos tijolos: 
egípcios, babilônicos, cananeus e hebreus. 
 
Encerramento Final 
Que essa lição permaneça: a fé 
verdadeira não teme a origem. Não importa 
se ela veio do Egito, da Babilônia ou de 
Canaã. O que importa é o que fazemos dela. 
E se Israel conseguiu transformar um saravá 
de influências em algo divino, também nós 
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podemos honrar nossa mistura, nossos muitos 
deuses e nossas tradições. 
"Toda fé é mistura. Todo altar é encontro. 
Todo caminho é união de passos antigos." 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Bibliografia Sugerida 
 
 BRASIL. Didaquê: o ensinamento dos 
doze apóstolos. Tradução de João 
Antônio da Silva. São Paulo: Paulus, 
2015. 
 IGREJA CATÓLICA. Código de Direito 
Canônico. Tradução de Ivo Storniolo. 
São Paulo: Loyola, 1983. 
 TALMUDE. O Talmude: ensinamentos dos 
sábios judeus. Seleção e tradução de 
Moisés Rabinovitch. Rio de Janeiro: 
Imago, 1992. 
 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 
Tradução de J. Herculano Pires. São 
Paulo: Editora Lake, 2009. 
 CONFÚCIO. I Ching: O Livro das 
Mutações. Tradução de Richard Wilhelm 
e Cary F. Baynes. São Paulo: 
Pensamento, 2012. 
50 
 
 SAINT GERMAIN. Os Quatro Livros dasLeis Espirituais. Tradução de José 
Domingos. Rio de Janeiro: Rocco, 
2000. 
 MANU. O Código de Manu. Tradução e 
comentários de Georges Dumézil. São 
Paulo: Editora Hedra, 2014. 
	A Lei do Saravá
	Parte I: Dos Universais
	Capítulo 1: Lei Universal
	Parte II: Das Almas
	Capítulo 1: Dos Espíritos e Eguns
	Parte III: Dos Objetos
	Capítulo 1: Relíquias e Ferramentas de Culto
	Parte IV: Dos Agrados
	Capítulo 1: Ofertas e Devoções
	Parte V: Dos Pedidos
	Capítulo 1: Como Pedir ao Santo
	Parte VI: Dos Desagravos
	Capítulo 1: O que Oferecer e o que Evitar
	Conclusão: "A Lei Escondida e o Saravá de Israel"
	1. O Povo de Muitos Deuses
	2. As Leis Copiadas e os Textos Sagrados
	3. Rituais e o Saravá de Israel
	4. O Saravá como Lei Universal
	Encerramento Final

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