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Após a Unificação da Alemanha em 1871, o novo Império Alemão precisava de um símbolo físico de sua unidade e poder. Antes, o parlamento se reunia em locais improvisados. O prédio foi encomendado para ser a sede oficial do legislativo e para mostrar ao mundo que a Alemanha agora era uma potência europeia centralizada.
INTRODUÇÃO
Ficha técnica — obra original
Edifício Reichstag (Parlamento Alemão)
Local Berlim, Alemanha
Arquiteto Paul Wallot
Período de construção 1884 – 1894
Estilo arquitetônico Neorrenascentista / Historicista
Função original Sede do parlamento do Império Alemão
Material predominante Pedra arenítica, estrutura metálica
Elemento marcante Grande cúpula central de vidro e ferro
HISTÓRIA
A trajetória do prédio foi marcada por tragédias que espelharam o destino do país no século XX. Em 1933, um incêndio criminoso devastou o interior do Reichstag, evento que Adolf Hitler instrumentalizou para suspender liberdades civis e consolidar o regime nazista. Durante o Terceiro Reich, o edifício foi deixado em relativo abandono político, culminando em sua destruição quase total em 1945, quando se tornou o alvo final e simbólico do Exército Vermelho na Batalha de Berlim. Após a Segunda Guerra, o Reichstag ficou isolado em Berlim Ocidental, à sombra do Muro, passando por uma restauração simplificada nos anos 60 que removeu sua cúpula original danificada, mas sem recuperar sua função legislativa plena.
Observação: segue definição de reabilitação segundo que foi passado em aula: conjunto de operações destinadas a tornar apto o edifício a novos usos, diferentes para o qual foi concebido
A grande transformação do Reichstag ocorreu após a Reunificação da Alemanha em 1990. Para marcar o retorno do Parlamento a Berlim, o arquiteto britânico Norman Foster liderou uma reconstrução revolucionária concluída em 1999. O conceito de restauração adotado foi o de preservar as "cicatrizes" da história, mantendo visíveis nas paredes internas tanto as marcas de tiros quanto os grafites feitos por soldados soviéticos em 1945. O toque final foi a criação de uma nova cúpula de vidro moderna e sustentável, que permite que os visitantes caminhem acima do plenário. Esse design moderno sobre a base histórica simboliza a transparência da democracia atual e a ideia de que o povo está, literalmente, acima de seus representantes.
resumo
O edifício sofreu vários
danos ao longo do século
XX.
Incêndio de 1933
O parlamento foi
gravemente danificado no
Reichstag Fire, evento que
marcou a ascensão do
regime nazista.
Segunda Guerra Mundial
Durante a World War II, o
edifício foi novamente
destruído por bombardeios e
combates.
Após a guerra, Berlim ficou
dividida e o prédio perdeu
sua função política.
Primeira reconstrução (anos 1960)
Entre 1961 e 1971, houve uma reforma liderada por Paul
Baumgarten, que removeu a antiga cúpula e simplificou o
edifício. Porém ele não voltou a funcionar como parlamento,
pois o governo estava em Bonn.
Grande restauração contemporânea
Após a reunificação alemã em 1990, decidiu-se devolver o parlamento a Berlim. Para isso foi
realizado um concurso internacional vencido pelo arquiteto Norman Foster.
Ficha técnica — restauração
Projeto de restauração Reforma e adaptação do Reichstag
Arquiteto Norman Foster
Período da obra 1995 – 1999
Função atual Sede do Parlamento Alemão (Bundestag)
Intervenção principal Nova cúpula de vidro
Conceito Transparência democrática
Principais intervenções após Norman Foster
- Construção de nova cúpula de vidro acessível ao público
-Reorganização interna para funcionamento parlamentar
-Preservação de marcas históricas do edifício
-Inclusão de tecnologias sustentáveis (ventilação natural e iluminação)
-A cúpula permite que os visitantes observem o plenário abaixo, simbolizando que o povo observa
o governo, reforçando a ideia de transparência democrática.
Relação com os princípios de Cesare Brandi
Os princípios de restauração de Cesare Brandi defendem que a restauração deve respeitar tanto o
valor histórico quanto o valor estético da obra.
No Reichstag, isso aparece de várias formas:
1. Reconhecimento da historicidade
Marcas da guerra e inscrições deixadas por soldados soviéticos foram mantidas no interior do
edifício.
Isso respeita a ideia de Brandi de que a obra deve preservar suas estratificações históricas.
2. Distinguibilidade da intervenção
A nova cúpula de vidro é claramente contemporânea, diferente da arquitetura original.
Segundo Brandi, a intervenção deve ser reconhecível, sem criar falsificação histórica.
3. Reintegração sem imitação
A cúpula original não foi reconstruída exatamente como era. Em vez disso, foi criada uma nova
solução arquitetônica.
Isso segue o princípio de evitar reconstruções estilísticas falsas.
Relação com a Carta de Veneza
Artigo 9º - A restauração é uma operação que deve ter caráter excepcional. Tem por objetivo conservar e revelar os valores estéticos e históricos do monumento e fundamenta-se no respeito ao material original e aos documentos autênticos. Termina onde começa a hipótese; no plano das reconstituições conjeturais, todo trabalho complementar reconhecido como indispensável por razões estéticas ou técnicas destacar-se-á da composição arquitetônica e deverá ostentar a marca do nosso tempo. A restauração será sempre precedida e acompanhada de um estudo arqueológico e histórico do monumento.
A Carta de Veneza afirma que as adições a um edifício histórico devem ser distinguíveis do conjunto original e ostentar a marca do nosso tempo.
-No Reichstag: Norman Foster não tentou imitar o estilo neorrenascentista de Paul Wallot. A cúpula de vidro e aço e as novas estruturas internas são claramente contemporâneas (estilo High-Tech).
-Relação: Isso respeita o Artigo 9º, que proíbe a falsificação histórica ("falso histórico"). Você olha para o prédio e sabe exatamente o que é do século XIX e o que é do século XX.
O Princípio da Distinguibilidade (Artigo 9º)
A Carta diz que as contribuições válidas de todas as épocas devem ser respeitadas, pois a unidade de estilo não é o objetivo da restauração.
-No Reichstag: Durante a limpeza das paredes, foram encontrados grafites a giz feitos por soldados soviéticos em 1945 e marcas de tiros. Foster decidiu mantê-los.
-Relação: Isso segue o Artigo 11º, que diz que a restauração não deve apagar as fases históricas de um monumento. Ao manter as "feridas" da guerra, a restauração tratou o edifício como um documento histórico vivo, e não apenas como uma obra de arte estética.
Relação com a Carta de Veneza
Artigo 11º - As contribuições válidas de todas as épocas para a edificação do monumento devem ser respeitadas, visto que a unidade de estilo não é a finalidade a alcançar no curso de uma restauração, a exibição de uma etapa subjacente só se justifica em circunstâncias excepcionais e quando o que se elimina é de pouco interesse e o material que é revelado é de grande valor histórico, arqueológico, ou estético, e seu estado de conservação é considerado satisfatório. O julgamento do valor dos elementos em causa e a decisão quanto ao que pode ser eliminado não podem depender somente do autor do projeto.
Artigo 12º - Os elementos destinados a substituir as partes faltantes devem integrar-se harmoniosamente ao conjunto, distinguindo-se, todavia, das partes originais a fim de que a restauração não falsifique o documento de arte e de história.
A Conservação das "Marcas do Tempo" (Artigos 11º e 12º)
Artigo 5º - A conservação dos monumentos é sempre favorecida por sua destinação a uma função útil à sociedade; tal destinação é portanto, desejável, mas não pode nem deve alterar à disposição ou a decoração dos edifícios. É somente dentro destes limites que se deve conceber e se pode autorizar as modificações exigidas pela evolução dos usos e costumes.
A Carta de Veneza favorece a conservação dos monumentos através da sua utilização para fins socialmente úteis.
No Reichstag: O prédio estava subutilizado durante a Guerra Fria. A restauração permitiu que ele voltasse à sua função original (Parlamento), masadaptado às necessidades modernas (sustentabilidade, acessibilidade e tecnologia).
Relação: O Artigo 5º permite modificações exigidas pela evolução dos usos, desde que não alterem a decoração e o arranjo do edifício. Foster "esvaziou" o interior degradado para criar um plenário moderno, mas manteve a casca externa intacta.
O Uso Social e a Função (Artigo 5º)
Artigo da Carta de Veneza Princípio de Cesare Brandi Aplicação Prática no Reichstag (Foster, 1999)
Art. 5º (Uso Social): O monumento é conservado através da sua utilidade social, sem alterar o arranjo ou decoração. Instância Funcional: A obra de arte tem uma função, mas a restauração deve priorizar a sua "instância estética e histórica". O prédio voltou a ser o Parlamento (uso social), mas a modernização interna (plenário) foi feita sem destruir a "casca" histórica de pedra.
Art. 9º (Marca Contemporânea): A restauração para onde começa a hipótese. O trabalho extra deve ter marca contemporânea. Não ao Falso Histórico: Repudia a reconstrução mimética. A restauração deve ser uma "atitude crítica", não uma cópia. A nova cúpula não tenta imitar a de 1894. Ela é assumidamente de vidro e aço, marcando o prédio como uma obra do século XX/XXI.
Art. 11º (Camadas Históricas): Devem ser respeitadas as contribuições de todas as épocas. A unidade de estilo não é o fim. Instância Histórica: O tempo deixa marcas na matéria que não devem ser apagadas, pois são testemunhos da história. O ponto alto: A preservação dos grafites russos e marcas de tiros. Apagá-los para "embelezar" seria destruir a instância histórica de Brandi.
Art. 12º (Integração Harmônica): Elementos de substituição devem se integrar, mas ser distinguíveis do original. A intervenção deve restabelecer a unidade do todo, mas ser reconhecível "à primeira vista" para não enganar o observador. A cúpula de vidro completa o volume do prédio (unidade), mas a diferença de material (pedra vs. vidro) torna a intervenção reconhecível e honesta.
Conceito e definição do termo reabilitação:
Reabilitaçao : conjunto de operaçoes destinadas a tornar apto o edificio a novos usos, diferente para o qual foi concebido
Relaçao com a reabilitação
O Reichstag é o exemplo máximo de reabilitação porque ele não foi apenas restaurado; ele foi reprogramado.
O Caso Reichstag: Originalmente (1894), o prédio era um Parlamento Imperial para uma monarquia. Na reabilitação de 1999, ele precisava ser um Parlamento Democrático Moderno.
A Mudança: O uso "parlamento" parece o mesmo, mas a forma de usar mudou completamente. Antes era um lugar de poder fechado e opaco; hoje é um espaço de visitação pública, transparência e alta tecnologia. Torná-lo "apto" exigiu demolir o interior antigo (que estava em ruínas e era funcionalmente obsoleto), para criar a atração que é atualmente
A Reabilitação e o Artigo 5º (Utilidade Social)
Relação: Reabilitar o Reichstag para o novo uso político da Alemanha reunificada foi o que garantiu a sua sobrevivência física. Sem um novo uso, ele continuaria sendo uma ruína da Guerra Fria.
IMPORTANTE
Diferença de antes e depois
História e Construção Original
"Arquiteto Alemão Paul Wallot, ganha em 1882 o concurso para projetar um prédio que pudesse abrigar a Câmara Legislativa da República de Weimar. Ele se torna assim o responsável pelo projeto do Reichstag."
Nota histórica: O texto na imagem menciona a República de Weimar, mas o concurso de 1882 e a construção original ocorreram durante o Império Alemão (II Reich).
Possuía uma cúpula no octógono central de 75 metros, fabricada em aço e vidro. Paul Wallot utilizou-se de técnica muito moderna para a época, em plena revolução industrial."
A Restauração Moderna (Norman Foster)
"Norman Foster, arquiteto inglês conhecido mundialmente pela sua ousadia de desenhar e pela sua preocupação com o meio ambiente. Formado em 1961, em 1962 já era um dos maiores arquitetos da Europa. Venceu o concurso para a reconstrução do Reichstag, desenhando um edifício energicamente eficiente, com qualidades ambientais no seu interior, com autoprodução de calor, a energia e redução de emissão de resíduo. Foster foi condecorado com a Ordem ao Mérito em 1997 e em 1999 recebeu o título de Barão, conhecido hoje mundialmente como Barão Foster de Tâmisa."
Conceitos de Transparência e Sustentabilidade
"Política Transparente e Renovada. Pode-se observar as decisões políticas por dentro da cúpula pois ela está localizada acima do plenário, coberta por vidro. No interior da cúpula foi disposto um cone invertido de espelhos em ângulos para refletir a luz do horizonte no interior do edifício. Atua também como importante componente do sistema de ventilação natural: o ar do interior do edifício sobe através dele pelo efeito chaminé."
"A sala do plenário fica iluminada naturalmente, essa iluminação é dada por meio de 360 espelhos que estão dispostos no cone. Existe uma tela que acompanha a trajetória do sol, evitando o aquecimento no interior da sala."
Conclusão
A restauração do Reichstag é considerada um exemplo importante de intervenção contemporânea
em patrimônio histórico. O projeto de Norman Foster conseguiu conciliar preservação e inovação,
respeitando a história do edifício e adaptando-o às necessidades políticas atuais. Além disso, a
intervenção dialoga diretamente com os princípios teóricos de Cesare Brandi e com as diretrizes
estabelecidas pela Carta de Veneza, principalmente no que diz respeito à distinção entre novo e
antigo, ao respeito às marcas históricas e à preservação da autenticidade da obra.
O projeto é também um modelo de reabilitação, ao tornar o edifício apto a novos usos democráticos e tecnológicos, diferentes da sua concepção original. Essa adaptação funcional, que une a leveza do vidro à solidez da pedra, transforma o monumento em um organismo vivo sem apagar sua memória.
FONTES
https://pt.slideshare.net/slideshow/reichstag-evandro-fabricio/32898647#9
http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Carta%20de%20Veneza%201964.pdf
https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.189/5946
https://www.scielo.br/j/anaismp/a/MpHsHfp3488xg38mVHsGDSv/?lang=pt
https://simplesmenteberlim.com/reichstag-predio-do-parlamento/
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