Prévia do material em texto
Introdução à Terapia ABA - Análise do Comportamento Aplicada 2 3 Conteúdo 4 Sumário O que é o ABA?......................................................................................................................5 Intervenção no TEA............................................................................................................... 6 TEA: definição, causas e níveis de suporte........................................................................ 9 Conceitos iniciais da Análise do Comportamento........................................................... 12 Aprendizagem por consequências: reforço...................................................................... 14 Aprendizagem por consequências: Punição.................................................................... 18 Análise Funcional................................................................................................................ 20 Esquemas de reforçamento................................................................................................ 23 VB- MAPP..............................................................................................................................26 Operantes verbais................................................................................................................29 Habilidades Acadêmicas..................................................................................................... 37 Habilidades de brincar.........................................................................................................40 Redução de Comportamentos- Problema......................................................................... 43 Generalização.......................................................................................................................45 Referências...........................................................................................................................47 5 O que é o ABA? O ABA (Applied Behavior Analysis) é uma ciência constituinte da Análise do Comportamento, responsável pelas aplicações de princípios comportamentais a problemas socialmente relevantes (BAER; WOLF; RISLEY, 1968; MORRIS, 2009). A Análise do Comportamento pode ser compreendida como um campo de estudo, uma disciplina e uma prática constituídas pela filosofia do Behaviorismo Radical e por duas ciências, uma básica e uma ciência aplicada, a ABA- Applied Behavior Analysis. Desde sua oficialização em 1968 (MORRIS et al., 2013), a ABA vem produzindo aplicações bem-sucedidas em diversas áreas e organizações (escolas, hospitais, empresas, gerenciamento de organizações, negócios, gerenciamento de pessoal, aconselhamento, violência infantil, terapia conjugal, segurança no trânsito) e com diversas populações (crianças com desenvolvimento típico e com desenvolvimento atípico, adolescentes, adultos com ou sem deficiência e pessoas idosas, com ou sem doenças crônicas associadas). Carvalho Neto (2002, p. 16) define a ABA como: […] o campo de intervenção planejada dos analistas do comportamento. Nela, estariam assentadas as práticas profissionais mais tradicionalmente identificadas como psicológicas, como o trabalho na clínica, escola, saúde pública, organização e onde mais houver comportamento a ser explicado e mudado […]. Dessa forma, ABA é uma ciência com consistência teórica e metodológica, cujos estudiosos envolvidos empenham-se, continuamente, em prover evidências de que seus procedimentos são efetivos. Os tratamentos fundamentados na ciência da ABA são individualizados, com base na função do comportamento e em evidências, e com constante avaliação e reavaliação de dados e resultados. Para o autismo tem alcançado resultados extraordinários registrados na literatura, contribuindo para a evolução do indivíduo, melhoria da qualidade de vida, sendo dessa forma uma intervenção embasada em conceitos teóricos, filosóficos e experimentais de alto grau de complexidade. 6 Intervenção no TEA Diversos estudos científicos mostram que quanto mais precocemente a criança com TEA for encaminhada e avaliada de forma adequada, melhores poderão ser suas oportunidades de intervenção e de desenvolvimento. A intervenção precoce é fator fundamental na evolução de crianças com TEA (transtorno do espectro autista). Este fato está diretamente relacionado à neuroplasticidade ao longo da primeira infância. Portanto, quanto mais precoce a intervenção, melhores os resultados para a criança e para sua família (KASARI et al., 2006; KELLEY et al., 2006). A avaliação e a intervenção deve ser preferencialmente multiprofissional e interdisciplinar, em que fonoaudiólogo, psicólogo, médico, terapeuta ocupacional, psicopedagogo, professor/pedagogo e outros profissionais possam atuar conjuntamente. O diagnóstico formal (ou laudo médico) é emitido por profissionais médicos, geralmente neuropediatra e psiquiatra infantil. Os profissionais terapeutas e educadores são elementos essenciais na condução deste processo e responsáveis por avaliações específicas em suas respectivas áreas. A literatura científica nacional e internacional também destacou a importância do respaldo de uma abordagem interdisciplinar colaborativa, que envolva uma equipe de profissionais, tais como fonoaudiólogos, psicólogos, pedagogos e terapeutas ocupacionais (BRITO et al., 2013; BRITO, 2007; ROBERTS, 2004). A identificação inicial do transtorno do espectro autista (TEA) é essencialmente clínica, possibilitando, ao mesmo tempo, a implementação de intervenções articuladas e planejadas, acontecendo de forma integrada e contando com a participação dos diferentes profissionais.A partir da identificação de sinais, tendo sido o diagnóstico estabelecido ou apenas havendo a suspeita de TEA, é ideal iniciar o processo de intervenção propriamente dito. Para isso, é imprescindível que cada terapeuta ou professor, realizem conjuntamente com a família investigações cuidadosas sobre a criança em seus diferentes contextos de vida (em casa, na escola e outros). Esta parceria entre os que já convivem com a pessoa com TEA e os Bug u Bug u 7 profissionais é indispensável para compreender as necessidades de todos, especialmente da criança com TEA. Não é recomendável que a intervenção fique restrita ao contexto de terapia e ou a situações escolares. O contexto familiar é o principal pilar da intervenção. Existem diversas áreas que podem trabalhar multidisciplinarmente com objetivos comuns, sendo elas: Fonoaudiologia: um dos principais sinais de autismo é o atraso na fala e a dificuldade na comunicação. O objetivo da terapia fonoaudiológica é ampliar o uso de estratégias verbais e não verbais para comunicação funcional e efetiva; Psicologia Comportamental: a presença de comportamentos inapropriados é outro fator comum nos quadros de TEA. O objetivo principal da terapia comportamental é ensinar comportamentos mais apropriados que possam substituir as crises, gritos, e outros comportamentos que afetam o desenvolvimento da criança e a qualidade de vida de toda a família. Além disso, é fundamental a orientação parental sobre conceitos do comportamento. Brasil (2014, p. 69) aponta, inclusive, que as intervenções psicológicas, associadas ao trabalho de outros profissionais, trazem “ganho funcional e de autonomia, principalmente nos aspectos comunicacionais e de linguagem, aspectos da interação social e no desempenho de atividades da vida prática”; Fisioterapia: dificuldades motoras costumam estar presentes no autismo. O objetivo da fisioterapia pediátrica nesses casos é auxiliar no processo de desenvolvimento motor e trazer independência e funcionalidade para a vida da criança; Psicopedagogia: dificuldades relacionadas aos processos de aprendizagem também podem estar presentes em crianças com TEA. Além disso, é comum reconhecerem e ordenarem com facilidade letras e números, porém, sem o uso funcional desse conhecimento. O objetivo da terapia psicopedagógica é desenvolver a compreensão do uso da linguagem escrita, assim como outroshabilidades de forma funcional em diferentes contextos. Também ocorre nesse processo a passagem gradual do reforçamento arbitrário, utilizado na terapia, para reforçadores mais sociais e naturais, que são os que deverão manter a resposta em ambiente natural. Se na terapia a criança responde sob esquema de reforçamento contínuo, isto é, após cada resposta ela ganha um brinquedo, um vídeo ou uma guloseima, o terapeuta deve planejar a retirada gradual deste reforçamento e a substituição por reforçadores naturais e sociais que se assemelham mais ao ambiente natural. O terapeuta associa elogios e outros reforçadores sociais aos reforçadores artificiais usados, assim, os reforços sociais vão ganhando força na manutenção do responder. Algumas estratégias de ensino com base na ABA que podem ajudar a promover a generalização e reduzir os comportamentos restritos e repetitivos incluem: Ensinar a habilidade em diferentes ambientes, utilizar diferentes pessoas como modelos, ensinar a habilidade em diferentes momentos do dia, variar as tarefas para a habilidade e ensinar habilidades gerais. Referências Sella, A. C., & Ribeiro, D. M. (Organizadoras). (2018). Análise do comportamento aplicada ao transtorno do espectro autista. Curitiba: Appris Editora. Matos, Maria Amélia. Análise funcional do comportamento. Estudos de Psicologia (Campinas) [online]. 1999, v. 16, n. 3. 46 SILVA, Fábio José Antonio da. O brincar nas crianças autistas. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 5, 8 de fevereiro de 2022. ALMEIDA, Lorena Laissa., MENESES, Samara Jesus Costa., LIMA, Thaís Bastos da Silva., FERREIRA, André Luiz. Contribuição da análise do comportamento para a redução de comportamento-problema. Espectro - Revista Brasileira de Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, v.1, n.1, p. 57-76, out. 2022. ASSUMPÇÃO JUNIOR, Francisco Baptista e KUCZYNSKI, Evelyn. Autismo: conceito e diagnóstico. Análise do comportamento aplicada ao transtorno do espectro autista. Tradução Curitiba: Appris, 2018 Fernandes, Fernanda Dreux Miranda e Amato, Cibelle Albuquerque de la Higuera. Análise de Comportamento Aplicada e Distúrbios do Espectro do Autismo: revisão de literatura. CoDAS. 2013, v. 25, n. 3, pp. 289-296. Disponível em: . Epub 19 Jul 2013. ISSN 2317-1782. GOULART, Paulo; ASSIS, Grauben José Alves de. Estudos sobre autismo em análise do comportamento: aspectos metodológicos. Rev. bras. ter. comport. cogn. São Paulo , v. 4, n. 2, p. 151-165, dez. 2002. BRITO, Maria Claudia. www.saberautismo.com.br/blog GOMES, C. G. Aprendizagem relacional, comportamento simbólico e ensino de leitura a pessoas com Transtornos do Espectro do Autismo. 199f. 2011. Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil, 2011. ASSOCIAÇÃO DE PSIQUIATRIA AMERICANA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM- 5. Porto Alegre, RS: Artmed, 2014 ASSOCIAÇÃO DE PSIQUIATRIA AMERICANA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais- texto revisado. 4. ed. Porto Alegre, RS: Artes Médicas, 2000 47pré-requisitos para o desenvolvimento da leitura, linguagem escrita, interpretação de texto, raciocínio matemático, aritmético, entre outras habilidades; 8 Terapia alimentar: algumas crianças dentro do espectro autista apresentam seletividade alimentar (sensorial, orgânica e/ou comportamental), que pode afetar o estado nutricional da criança ou mesmo a rotina alimentar da família. O objetivo da terapia alimentar é estimular a aproximação gradual com alimentos e aos poucos inseri-los na rotina alimentar da criança; Terapia Ocupacional: dificuldades nas atividades de vida diária (amarrar tênis, ir ao banheiro, escovar os dentes, etc) e de integração sensorial podem estar presentes no TEA. Por isso, o objetivo da terapia ocupacional é trabalhar de forma lúdica todas essas atividades que afetam o desempenho funcional da rotina da criança. 9 TEA: definição, causas e níveis de suporte O Autismo é um transtorno complexo do desenvolvimento que envolve atrasos e comprometimentos nas áreas de interação social e linguagem incluindo uma ampla gama de sintomas emocionais, cognitivos, motores e sensoriais (GREENSPAN; WIEDER, 2006). É uma condição que afeta indivíduos de todas as raças e culturas; apresenta ampla gama de funcionamento. Uma condição permanente que pode se manifestar sob diversas formas ao longo dos anos (PLIMLEY, 2007), com variação notável na expressão dos sintomas e com suas características comportamentais alterando-se durante seu curso e desenvolvimento (KLIN, 2006). Isso lhe permite diferentes apresentações e combinações sintomatológicas (GREENSPAN; WIEDER, 2006). Até o momento sabe-se que o autismo ocorre devido a fatores genéticos, o que acontece na grande maioria dos casos, e a fatores ambientais. Existe uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Mutações genéticas desempenham um papel significativo no surgimento do autismo. Sabe-se que nesses casos, o autismo ocorre devido a alguma falha no processo de desenvolvimento cerebral, logo no início da formação do feto. Alguns fatores ambientais podem ser exposição a substâncias, toxinas e infecções durante a gestação. Na primeira década de 2000, foi publicado o DSM-IV-TR (APA, 2002), o qual descreve três domínios característicos do autismo: déficits na interação social, déficits na comunicação e padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento, interesses e atividades. Em 2013, com a publicação do DSM-V, os três domínios característicos no DSM-IV-TR tornaram-se dois: (1) Deficiências sociais e de comunicação e (2) Interesses restritos, fixos e intensos e comportamentos repetitivos. De acordo com o DSM-V: Transtornos do Espectro do Autismo deve preencher os critérios a, b e c abaixo: 10 a. Déficits clinicamente significativos e persistentes na comunicação social e nas interações sociais, manifestadas de todas as maneiras seguintes: • Déficits expressivos na comunicação não verbal e verbal usadas para interação social; • Falta de reciprocidade social; • Incapacidade para desenvolver e manter relacionamentos de amizade apropriados para o estágio de desenvolvimento. b. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e atividades, manifestados por pelo menos duas das maneiras a seguir: • Comportamentos motores ou verbais estereotipados, ou comportamentos sensoriais incomuns; • excessiva adesão/aderência a rotinas e padrões ritualizados de comportamento; • Interesses restritos, fixos e intensos. c. Os sintomas devem estar presentes no início da infância, mas podem não se manifestar completamente até que as demandas sociais excedam o limite de suas capacidades. Dessa forma, constitui-se como um conceito heterogêneo que inclui múltiplos sintomas, com variadas manifestações clínicas e uma ampla gama de níveis de desenvolvimento e funcionamento (KAMP-BECKER et al., 2010). Usa-se o termo “espectro” para designar as diferenças e singularidades dentro dessa condição, por conta da diversidade de sintomas e níveis que as pessoas apresentam, fazendo com que o autismo de cada pessoa seja único. 11 Os níveis de suporte do TEA são divididos do menor ao maior suporte requerido, sendo eles (DSM-5; APA, 2013): Nível 1- Requer suporte. Sem suporte local o déficit social ocasiona prejuízos. Dificuldades em iniciar relações sociais e claros exemplos de respostas atípicas e sem sucesso no relacionamento social. Observa-se interesse diminuído pelas relações sociais. Rituais e comportamentos repetitivos interferem significativamente no funcionamento em vários contextos. Resiste às tentativas de interrupção dos rituais e ao redirecionamento de seus interesses fixos. Nível 2- Requer grande suporte. Graves déficits em comunicação social verbal e não verbal que aparecem sempre, mesmo com suportes, em locais limitados. Observam-se respostas reduzidas ou anormais ao contato social com outras pessoas. Preocupações ou interesses fixos frequentes, óbvios a um espectador casual, e que interferem em vários contextos. Desconforto e frustração visíveis quando rotinas são interrompidas, o que dificulta o redirecionamento dos interesses restritos. Nível 3- Requer suporte intenso. Graves déficits em comunicação verbal e não verbal ocasionando graves prejuízos no funcionamento social; interações sociais muito limitadas e mínima resposta social ao contato com outras pessoas. Preocupações, rituais imutáveis e comportamentos repetitivos que interferem muito no funcionamento de outras esferas. Intenso desconforto quando rituais ou rotinas são interrompidas, com grande dificuldade no redirecionamento dos interesses ou de se dirigir para outros rapidamente. 12 Conceitos iniciais da Análise do Comportamento A Psicologia é composta por várias “psicologias”. Alguns nomes são usados para designar as diferenças entre as psicologias: abordagens, correntes, teorias, entre outras. Certamente você já ouviu falar de algumas delas: psicanálise, psicologia cognitiva, psicologia sócio-histórica e análise do comportamento. Essas diferenças dizem respeito à caracterização dos fenômenos que estudam e aos métodos que são utilizados para estudá-los. Neste curso iremos estudar a forma como os analistas do comportamento estudam e explicam o comportamento humano. Essa linha teórica utiliza de um conjunto de pressupostos e orientações em uma proposta epistemológica específica, o behaviorismo radical. Essa proposta foi introduzida pelo psicólogo estadunidense B. F. Skinner (1904-1990) e posteriormente aprimorada pela comunidade dos analistas do comportamento. Alguns dos pressupostos do behaviorismo radical são: Determinismo: o comportamento não ocorre ao acaso, ele é determinado; Interacionismo: não se avalia apenas o comportamento, mas também os antecedentes (o que acontece antes do comportamento) e os consequentes (o que acontece depois do comportamento); Externalismo: não se busca causas internas para se explicar os comportamentos avaliados; Contextualismo: todo comportamento deve ser analisado a partir do contexto em que é emitido. Sendo assim, o comportamento é caracterizado por essa filosofia como um objeto de estudo complexo e multideterminado, sujeito à influência de variáveis filogenéticas, ontogenéticas e culturais, e que pode apresentar elementos públicos e privados. 13 Compreende-se o comportamento como uma relação ou interação entre eventos ambientais, denominados estímulos, e atividades de um organismo, denominadas respostas. Os analistas do comportamento usam a palavra “estímulo” para se referir aos aspectos do ambiente funcionalmente relacionados com as respostas, quer ocorram antes ou depois delas. Já o termo resposta refere-se às ações dos organismos. De acordo com Skinner “Os homens agem sobre o mundo, e o modificam, e são, por sua vez, modificados pelas consequências de sua ação”. Essa “ação sobre o mundo” inclui consequências que produzimos no mundo físico, no ambiente, mas também consequências produzidas no mundo social, no comportamento de outras pessoas. Assim, a análise do comportamento busca identificar essasrelações funcionais entre aspectos do ambiente e aspectos do comportamento das pessoas, identificando variáveis que afetam a forma e frequência do comportamento. Se queremos saber por que alguém faz algo, não podemos tomar esse próprio fazer como a explicação, pois ele é justamente o que estamos buscando explicar. As relações funcionais precisam ser descritas empiricamente, por meio de métodos experimentais que permitam verificar com clareza os efeitos de variáveis ambientais sobre o comportamento do indivíduo (COOPER et al., 2007; JOHNSTON; PENNYPACKER, 2009; SIDMAN, 1960). A aplicação da análise do comportamento se dá por meio de métodos claramente descritos, cientificamente validados e aplicáveis a contextos socialmente relevantes, seguindo padrões éticos rigorosos. 14 Aprendizagem por consequências: reforço A ação sobre o mundo do indivíduo inclui consequências que foram produzidas pelo comportamento do indivíduo que sob certas condições, ocasiona uma mudança na probabilidade de emissão futura desse comportamento. A seleção operante refere-se à seleção de respostas que são correlacionadas com consequências que aumentam ou diminuem a probabilidade desse comportamento acontecer novamente e mudanças no padrão de resposta podem ocorrer de um momento para o próximo ou durante a vida de uma pessoa (FISHER et al., 2011, p. 7). Assim, o contato com as consequências produzidas pelo comportamento emitido pelo indivíduo, sob certas condições, ocasiona uma mudança na probabilidade de emissão futura desse comportamento naquelas condições ambientais. Quando nos referimos aos comportamentos operantes, consideramos comportamentos que modificam o ambiente; e essas modificações no ambiente, por sua vez, modificam o comportamento subsequente. Por exemplo, a emissão de uma resposta de balbuciar do bebê diante da mãe produz consequências (atenção e elogios) que controlam (isto é, tornam a ocorrência de uma resposta mais ou menos provável) a ocorrência da resposta em uma ocasião futura. A resposta foi emitida pelo organismo (balbuciar), sob certas condições, e produziu um efeito no ambiente que pode retroagir no organismo, alterando a probabilidade de o comportamento ocorrer novamente (SKINNER, 1953). Denomina-se essa análise de análise de contingências que possibilita, ao analista do comportamento, identificar os elementos envolvidos em uma situação e verificar se há ou não relação de dependência entre eles (DE SOUZA, 2001a). No exemplo acima do balbuciar do bebê, a resposta (R) de balbuciar ocorre na presença da mãe (estímulo ambiental- S) e tem como consequência (C) a atenção da mãe: S: R – C S: Estímulo ou antecedente- Presença da mãe 15 R: Resposta- Balbuciar C: Consequências- Atenção da mãe/ elogios A essa relação chamamos de Tríplice Contingência. Souza (2001a, p. 85) define a tarefa de um analista do comportamento em identificar as contingências que estão operando (ou inferir quais as que podem ou devem ter operado), quando se deparar com determinados comportamentos ou processos comportamentais em andamento, bem como propor, criar e estabelecer relações de contingência para o desenvolvimento de certos processos comportamentais. Para a Análise do Comportamento, uma contingência deve ser descrita na forma de afirmação “se…, então….”. “Se” refere- se a algum aspecto do comportamento ou do ambiente e “então” especifica o evento ambiental consequente. “Se a mãe está presente, então o bebê balbucia para ganhar atenção e elogios”. As consequências para o comportamento estão presentes no ambiente natural e os organismos podem mudar seus ambientes fazendo coisas. Pensando no exemplo a seguir, temos uma criança esperando os pais lhe prepararem o prato de comida para o almoço, a criança vê no prato um brócolis e começa a chorar e fazer birra até que os pais retirem o brócolis do prato. Ao chorar a criança produz alterações no ambiente que provocam a consequência da retirada de um estímulo aversivo (o brócolis no prato). S: R- C S: Estímulo ou antecedente- Ver o brócolis no prato do almoço R: Resposta- Chorar e fazer birra C: Consequência- Retirada do brócolis do prato “Se a criança chorar e fazer birra, então ela se livra de comer o brócolis”. As consequências que aumentam a probabilidade de um comportamento ocorrer novamente são denominadas de reforço. Um comportamento com a probabilidade de ocorrer no futuro pode ser mantido por reforço positivo ou reforço negativo (MOREIRA; 16 MEDEIROS, 2007). Assim, pensando nos dois exemplos acima, o primeiro foi reforçado pela atenção recebida da mãe e o segundo pela retirada do estímulo aversivo (brócolis) do prato da criança. S: R- C Presença da mãe: Balbuciar - Receber atenção/ elogios R+ Denominamos esse processo de Reforçamento Positivo (R+) quando ocorre a inserção de um estímulo, a consequência “receber atenção/elogios” aumenta a probabilidade de o comportamento “balbuciar” acontecer novamente nas mesmas condições. S: R- C Estímulo aversivo no prato: Chorar - Retirada do estímulo aversivo R- Podemos entender o processo acima como Reforçamento Negativo (R-) pela retirada de um estímulo aversivo que aumenta a probabilidade da resposta (chorar) acontecer de novo. Matos (1989) destaca que o reforçamento seria uma das formas de selecionar comportamentos, isto é, de fortalecê-los e aumentar a probabilidade de sua ocorrência. 17 Aprendizagem por consequências: Punição Segundo Skinner, a punição ocorre quando, após a realização de um comportamento, é oferecida uma consequência que pode ser a apresentação de um estímulo aversivo (desagradável) ou a retirada de alguma coisa que a pessoa valoriza (um reforçador). A punição refere-se a qualquer coisa que tende a enfraquecer o comportamento emitido. Em geral, o objetivo da punição é fazer com que esse comportamento deixe de ocorrer. E, geralmente, o efeito imediato dela é a supressão temporária do comportamento, ou seja, o comportamento deixa de ocorrer apenas temporariamente. A supressão do comportamento é o que motiva, em geral, a pessoa que forneceu a punição a continuar a punir o comportamento. A punição também pode ser empregada com a remoção de reforçadores positivos, segue os exemplos a seguir: Patrões descontam uma determinada quantia do salário dos trabalhadores, quando os mesmos faltam o serviço devido a um imprevisto; S: R-C S: Antecedente- Ocorrência de um imprevisto R: Resposta- Faltar ao trabalho C: Consequência: É descontado determinada quantia do salário Ocorrência de um imprevisto: Faltar ao trabalho- Desconto do salário P- A contingência vigente é de Punição Negativa (P-) pela retirada de um estímulo reforçador (o salário no valor integral.) Ao contrário dessa situação, a punição também pode ser aplicada com a apresentação de estímulos aversivos, como o castigo, tortura, violência verbal (SIDMAN, 2001): 18 S: R- C S: Antecedente- Criança brinca de bola perto de um vaso R: Resposta- Chuta a bola no vaso C: Consequência- Pai xinga, briga, humilha a criança Criança brinca de bola perto de um vaso: Chuta a bola no vaso - Xingamentos, briga, humilhação por parte do pai P+ A contingência vigente é a de punição positiva (P+) pela inserção de violência verbal (xingamentos, briga, humilhação) por parte do pai. Assim, a punição pode ocorrer com a remoção de reforçadores positivos ou com a apresentação de estímulos aversivos (SIDMAN, 2001). A tendência comportamental de apresentar o comportamento punido se mantém a mesma. Isso implica que a pessoa não aprende de fato a ter comportamentos alternativos e nem está mais propensa a se comportar de forma tida como “adequada” ou requerida, e um tempo após a interrupção da punição o comportamento volta com a mesma intensidade. Usualmente os indivíduos não gostam de ser punidos e esse método produz subprodutos emocionais negativos como ansiedade, raiva contra o agente punitivo, tristeza, desmotivação, medo. Mesmo assim este método de controle é largamente utilizado na aprendizagem, nos governos, nas escolas, na religião. Como alternativa,é possível utilizar um método de ensino que se baseie majoritariamente em recompensar comportamentos adequados, ao invés de punir os inadequados. Quando um comportamento adequado aumenta de frequência, a probabilidade de agir de forma inadequada diminui, uma vez que com frequência eles são incompatíveis. Dessa forma, em intervenções baseada em ABA a punição não é um método de controle empregado visto que produz subprodutos emocionais negativos e que não é efetiva no ensino de novos comportamentos. 19 Análise Funcional Uma análise funcional nada mais é do que uma ‘explicação’ de um evento pela descrição de suas relações com outros eventos. Ela leva em conta aspectos do ambiente e a função que o comportamento tem naquele ambiente. É uma análise do valor adaptativo desse comportamento em relação a seu meio ambiente. O comportamento é governado e modificado por associações adquiridas por experiência, e mantidas por sua utilidade biológica (por sua função de sobrevivência e valor adaptativo), como um produto inevitável de uma herança genética e de eventos ambientais ocorrendo durante a vida de uma pessoa. Entender a função significa que comportamentos evoluem porque de alguma maneira representam um mecanismo de lidar com o ambiente. Assim, por exemplo, um comportamento estranho jamais é dito ‘patológico’, pelo analista comportamental; se ele ocorre é porque de alguma maneira ele é funcional, tem um valor de sobrevivência. Expressando a adaptabilidade desse organismo ao ambiente em que vive, todo comportamento resulta de um processo de seleção pelas consequências, filogeneticamente temos uma sensibilidade inata ao efeito destas consequências, dessa forma o comportamento é modificado pelas consequências buscando a melhor adaptação. Para se realizar uma análise funcional deve-se coletar informações em relação aos antecedentes e as consequências contingentes da ocorrência de um comportamento. Imagine um exemplo, uma criança que não come há algumas horas, no mercado com a mãe passa o corredor de doces e pede um doce para a mãe. Sua primeira tentativa fazendo um pedido verbal de um doce não foi reforçada, pois a mãe não pegou o doce. A criança passa a pedir o doce gritando, a mãe ainda diz que não irá pegar o doce. A criança então, se joga no chão, grita, chora, tira o sapato e a mãe coloca o doce no carrinho. Quais foram os antecedentes do comportamento da criança? Está no mercado, sem comer há algumas horas, no corredor dos doces na presença da mãe. Bug u 20 Quais foram as respostas emitidas pela criança? Ela tentou inicialmente pedir o doce através de um pedido, porém não teve consequências reforçadoras, ela tentou gritar, porém não teve consequências reforçadoras, e então variando o comportamento ela se jogou no chão, grita, chora e assim a mãe coloca o doce no carrinho. Quais foram as consequências? A criança ganhou o doce. S: R- C S: Antecedente: Estar no corredor dos doces, sem comer há algumas horas R: Resposta: Pedir um doce C: Consequência: Não ganhar um doce P- S: R- C S: Antecedente: Estar no corredor dos doces, sem comer há algumas horas R: Resposta: Chorar C: Consequência: Não ganhar um doce P- S: R- C S: Antecedente: Estar no corredor dos doces, sem comer há algumas horas R: Resposta: Chorar, gritar e se jogar no chão C: Consequência: Ganhar um doce R+ Podemos dizer então após uma análise funcional que a função do comportamento da criança se jogar no chão, gritar, chorar é ganhar o doce. O que mantém esse comportamento ocorrendo é a produção da 21 consequência desejada (ganhar um doce) O processo comportamental envolvido é o Reforço Positivo R +. Identificar as relações entre o indivíduo e o ambiente é observar o comportamento e identificar que tipo de consequências ele produz. Ao encontrar os determinantes de um comportamento é possível predizer sua ocorrência em eventos futuros e controlar a sua ocorrência, aumentando ou diminuindo a probabilidade de ele ocorrer novamente. Analisar a função de comportamento é um recurso importante para entender em que circunstâncias as pessoas fazem o que fazem, pensam o que pensam e sentem o que sentem. Realizar análises funcionais de comportamentos não adaptativos é importantíssimo para modelar um novo comportamento mais funcional. No exemplo citado, caso a mão não comprasse o doce a criança poderia variar seu comportamento de gritar, chorar, se jogar no chão para comportamentos mais extremos como jogar os produtos da prateleira no chão, tirar a roupa, se bater. Dessa forma, uma análise funcional pode fornecer informações importantes para a instalação de um outro repertório comportamental mais adequado com função de ganhar um doce, por exemplo negociar com a mãe, pedir educadamente, apontar, esperar chegar em casa. 22 Esquemas de reforçamento O controle do comportamento pelas consequências que ele produz constitui o elemento fundamental que caracteriza o operante. Os comportamentos operantes são mantidos através de Esquemas de Reforçamento. O Reforço é a consequência responsável por aumentar a frequência de um determinado comportamento e mantê-lo no repertório comportamental do indivíduo. Nem todo comportamento tem consequências consistentes e imediatas, por exemplo fazer uma ligação a um amigo pode ser reforçado por ser atendido e conseguir falar com o amigo, no entanto também podem acontecer ocasiões em que ele não irá atender e o reforço de falar com o amigo não acontecerá. Assim, é de extrema importância entender os efeitos dos Esquemas de Reforçamento. Existem esquemas diferentes: o Contínuo e o Intermitente. O Esquema de Reforçamento Contínuo (CRF) ocorre quando a resposta emitida pelo organismo sempre é seguida pelo reforço. Exemplo: toda vez que o botão do controle da TV é apertado, ela liga. S: R- C S: Antecedente- Estar sentado no sofá com o controle na mão R: Resposta- Apertar o botão C: Consequência- Tv ligar O reforço contínuo é extremamente eficaz na modelagem de um novo comportamento. A modelagem de um comportamento consiste no reforço de cada resposta emitida que seja próxima àquela desejada, até que de fato a resposta em questão seja emitida e reforçada, instalando-se então no repertório comportamental do organismo. No entanto, apesar de ser o esquema mais indicado para aprendizado de novos comportamentos, o Reforçamento Contínuo também é mais Bug u Bug u 23 fácil de entrar em extinção, já que o organismo perceberá facilmente a ausência do reforço, aumentará a emissão de respostas no início (aumento da frequência), mudará a topografia da resposta (tentará de outras maneiras) e emitirá respostas emocionais (raiva, frustração, ansiedade), mas se após essas tentativas o reforço não aparecer, o comportamento será extinto. Já o Esquema de Reforçamento Intermitente não disponibiliza o reforço a cada resposta, mas sim de maneira intermitente. Esse esquema de reforçamento intermitente pode variar no número de respostas emitidas para gerar um reforço, ou no tempo entre as respostas. Há quatro diferentes tipos de Reforçamento Intermitente. Sendo eles: Razão Fixa, Razão Variável, Intervalo Fixo e Intervalo Variável. Razão Fixa (FR): O número de respostas exigido para cada reforço é sempre o mesmo. Exemplo: A cada cinco respostas, um reforço: A cada cinco “vistos” no caderno pela professora, a criança ganha 1 adesivo. Razão Variável (VR): O número de respostas exigido para cada reforço varia. Exemplo: A cada vinte e duas respostas, um reforço. A cada quinze respostas, um reforço. A cada dez respostas, um reforço. Um pescador pode movimentar a vara dez vezes e pescar o peixe na primeira tentativa, porém na segunda tentativa ele pode precisar movimentar a vara dezessete vezes para pescar o peixe. Intervalo Fixo (FI): O tempo decorrido desde o último reforçamento é sempre o mesmo. Exemplo: A cada 24h, um reforço. A cada 30 dias, um reforço. A cada 30 dias os trabalhadores recebem o salário. Intervalo Variável (VI): O tempo decorrido desde o último reforçamento varia. Exemplo: A cada oito minutos, um reforço.A cada quatro minutos, um reforço. A cada doze minutos, um reforço. Durante um filme um sujeito prefere as cenas que aparecem determinado ator, no filme as cenas do ator aparecem intermitentemente em intervalos variados, reforçando a resposta do sujeito permanecer assistindo até o final. Os Esquemas de Reforçamento Intermitente são mais eficazes para manutenção do comportamento, ou seja, são mais difíceis de serem extintos. Pelo fato de serem facilmente manipulados enquanto Bug u Bug u 24 quantidade de respostas e tempo, fazendo com que o organismo já tenha aprendido que o “reforço nem sempre vem”, tentando mais e mais vezes se comportar para alcançar o reforço. No entanto, após diversas tentativas de se comportar e não receber o reforço, dizemos que o comportamento está passando por um processo de extinção. O conceito de extinção descreve quando uma classe de respostas operantes deixa de produzir os reforços que vinha produzindo. Keller e Schoenfeld (pp.70, 71,1968) referem-se à extinção: “Operantes condicionados são extintos rompendo-se a relação entre o ato e o efeito. À medida que respostas sucessivas deixam de produzir reforço, a recorrência da resposta torna-se menos provável. (...) A força de um operante condicionado pode ser reduzida pela não apresentação do reforço”. Skinner (1953), de forma bastante semelhante, afirma: Naquilo que é chamado ‘extinção operante’, uma resposta torna-se cada vez menos freqüente quando o reforçamento não mais acontece. (p.69) Assim, na extinção o enfraquecimento da resposta, ou seja a diminuição da frequência ou taxa das respostas de uma determinada classe, é produzida pela ruptura da relação entre resposta e reforço. 25 VB- MAPP O VB-MAPP, Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program, (SUNDBERG, 2008) é uma avaliação comportamental de linguagem para crianças com TEA e outros atrasos no desenvolvimento. Seu foco está na função do comportamento verbal e nas habilidades relacionadas. Teve a primeira edição publicada no ano de 2008, e se baseou nos operantes verbais descritos por B. F. Skinner (1957) e nos procedimentos de ensino da ABA, por Mark Sundberg. O VB-MAPP é constituído por um Guia de Aplicação e um Protocolo (cada cliente precisa possuir o seu próprio protocolo). O Guia é composto de cinco elementos: (1) avaliação dos marcos do desenvolvimento; (2) avaliação das barreiras; (3) avaliação de transição; (4) análise de tarefas e rastreamento de habilidades; (5) objetivos do Plano de Ensino Individualizado (PEI) e colocação curricular. O Guia e o Protocolo definem 170 marcos do desenvolvimento relacionados à linguagem em específico, e à aprendizagem, em geral. Esses marcos são sequenciados ao longo de três níveis do desenvolvimento: 0-18 meses; 18-30 meses e 30-48 meses. O objetivo maior da avaliação dos marcos do desenvolvimento é conseguir uma amostra representativa das habilidades verbais da criança e de outras habilidades relacionadas. Essa seção do VB-MAPP é a que costuma ser mais conhecida e utilizada para prover uma imagem geral do quadro de desenvolvimento da criança. As áreas de avaliação dos marcos do desenvolvimento (1) no primeiro nível (0-18 meses) são: mandos, tatos, responder como ouvinte, habilidades viso-perceptuais e de correspondência com o modelo, brincar independente, comportamento e brincar social, imitação motora, ecóicos e comportamento verbal espontâneo. No nível 2 (18-30 meses), Bug u Bug u 26 excluem-se as vocalizações espontâneas e acrescentam-se o responder como ouvinte pela função, características e classe, intraverbais, rotinas de sala de aula e habilidades de grupo, e estrutura linguística. No terceiro nível (30-48 meses), saem imitação e ecóico e acrescentam-se leitura, escrita e matemática A avaliação das barreiras (2) examina 24 barreiras que costumam impedir ou dificultar a aprendizagem de crianças com TEA ou outros atrasos no desenvolvimento. Essas barreiras incluem problemas de comportamento, fuga ou esquiva de demandas instrucionais, dependência de dicas, déficit em habilidades de escaneamento visual, falha em fazer discriminações condicionais, falha em generalizar, operações motivacionais fracas ou atípicas, demandas que enfraquecem as operações motivacionais da criança, dependência de reforçadores consumíveis ou tangíveis, autoestimulação, problemas de articulação, comportamento obsessivo-compulsivo, comportamento hiperativo, falha em estabelecer contato visual e em prestar atenção em pessoas. Identificando e descrevendo as principais barreiras, o avaliador terá dados que ajudarão no processo de decisão acerca das intervenções a serem utilizadas para superar tais barreiras e facilitar a aprendizagem. A avaliação da transição (3) contém 18 itens que auxiliam no monitoramento do progresso da criança indicando se foram adquiridas as habilidades necessárias para o aprendizado em um ambiente educacional menos restritivo. A análise de tarefas e rastreamento de habilidades (4) apresenta uma subdivisão das habilidades já avaliadas e, portanto, consegue fornecer um suporte mais robusto àqueles que buscam orientação para a formulação de um currículo de aprendizagem e de linguagem. Os objetivos do Plano de Ensino Individualizado (PEI) e colocação curricular (5) refere-se aos quatro componentes anteriores e provê diretrizes para o programador de ensino fazer suas escolhas de objetivos de forma balanceada, levando em consideração cada uma das áreas avaliadas. Bug u Bug u Bug u 27 Os resultados providos por uma avaliação feita com o VB-MAPP só serão significativos se realizados por profissionais treinados em sua administração, o aplicador precisa ter um bom conhecimento das possíveis relações funcionais que existem entre o comportamento do falante e seu ambiente. A aplicação desse teste não consiste apenas em utilizar o protocolo e coletar dados de forma ateórica, sendo necessário conhecer os determinantes de cada operante verbal para que se arranje o ambiente de forma a administrar essa avaliação e fazer sua interpretação de forma fidedigna. Operantes verbais O desenvolvimento da linguagem e a capacidade de se comunicar funcionalmente, permite que a criança desenvolva comportamentos 28 adaptativos, como pedir itens desejados, expressar sentimentos, desempenhar comportamentos sociais e acadêmicos, além da resolução eficiente de problemas. Por conta disso, atrasos de linguagem, comuns em diagnósticos de TEA, podem acarretar o desenvolvimento de inúmeros comportamentos-problema que podem ir de birras frequentes a autolesões graves (SUNDBERG; MICHAEL, 2001). A inabilidade de expressar necessidades de forma vocal, leva a criança a desenvolver outras formas de ter acesso a objetos, locais e ações de outros que ela deseja. A criança interessada em ter acesso a um brinquedo favorito, por exemplo, pode chorar na presença do brinquedo. Se os indivíduos ao seu redor proporcionarem à criança acesso ao brinquedo, ela acaba aprendendo a se comunicar por intermédio do choro através do reforçamento da resposta de chorar. Assim, quanto mais tempo a criança passa sem aprender a se comunicar funcionalmente, mais comportamentos-problema podem desenvolver-se. Acarretando em diversos outros problemas como agressividade, exclusão social, dificuldades no manejo. No caso do TEA, uma das características que define o transtorno é o comprometimento na comunicação que, frequentemente, manifesta-se por meio do atraso ou da ausência de linguagem falada (MESQUITA; PEGORARO, 2013). Especificamente, observam-se dificuldades em utilizar a fala para fazer pedidos, expressar necessidades, descrever objetos, responder perguntas e iniciar e manter conversas com outros, o que pode desencadear comportamentos-problema como descrito acima. Na maioria dos casos, existe um déficit de comunicação que dificulta a integração do indivíduo em seu ambiente social e acadêmico. Assim, tratamentos comportamentais sempre incluem o ensino de comunicação funcional (EIKESETH et al., 2007; ELDEVIK et al., 2006; HOWARD et al.2005; MCEACHIN; SMITH; LOVAAS, 1993; SALLOWS; GRAUPNER, 2005). Para a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), a linguagem é vista como comportamento operante entendida como 29 qualquer outro comportamento, sendo modelada e mantida pelas consequências do ambiente. Skinner usou o termo comportamento verbal para se referir a todos os tipos de comportamentos considerados comunicativos. Comportamento verbal é visto como um comportamento influenciado pelas mesmas variáveis ambientais que influenciam todos os outros comportamentos (SKINNER, 1957). Durante o aprendizado, crianças emitem sons, incluindo choro, que produzem efeitos sobre o ambiente, já que pais ou cuidadores reagem a esses sons. O comportamento verbal é uma forma de comportamento social que não requer suporte ambiental, e é aprendido e mantido por meio da interação com o outro (o ouvinte). Indivíduos considerados verbais são aqueles que se comportam tanto como falante (quem fala) quanto como ouvinte (quem ouve). O comportamento verbal também pode ser definido como aquele comportamento cuja consequência reforçadora foi mediada por um ouvinte que aprendeu a responder especificamente a esse comportamento do falante (SKINNER, 1957). É importante especificar que comportamento verbal não é necessariamente sinônimo de comportamento vocal, e vice-versa. A fala, a escrita, sistema de figuras, sinais, gestos podem todos ser considerados comportamento verbal já que produzem o mesmo efeito sobre o ambiente (CATANIA, 2006). No entanto, existem falas ou vocalizações que não são necessariamente verbais, como estereotipias vocais que ocorrem como forma de autoestimulação e não como uma forma de comunicação com o ouvinte (LOVE et al., 2012). No livro Comportamento Verbal (1957), Skinner propõe uma abordagem teórica das funções da linguagem e identifica, assim, os operantes verbais. Ele propôs um sistema de classificação para descrever algumas das contingências mais frequentemente envolvidas na emissão do comportamento verbal e cada uma delas foi chamada de um operante verbal (Santos, Santos & Marchezini-Cunha, 2012). Para o ensino do comportamento verbal em intervenções em terapia ABA, estudamos os operantes verbais definidos a partir das variáveis antecedentes, do tipo de resposta envolvida e da consequência que segue a resposta. Bug u Bug u 30 O primeiro operante verbal descrito por Skinner (1957) é o Mando. A palavra mando deriva de “comando” e descreve as respostas verbais utilizadas por alguém para pedir itens, informações, além de dar instruções, ordens e conselhos. O Mando é uma resposta verbal que acontece sob a influência de uma necessidade ou privação (fome, sede, falta de um brinquedo favorito). Em um exemplo mais específico, quando a criança está com sede e diz “água”, ela especifica a consequência para sua resposta e o comportamento do adulto: entregar um copo de água para a criança Esse operante verbal pode ocorrer de diferentes formas, por exemplo, a criança que chora porque, no passado, a mãe a pegou no colo, emite um mando (choro) que especifica a consequência: o comportamento da mãe (pegar no colo). A criança não necessariamente está ciente do motivo de seu choro. Ela chora, porque, no passado, o choro produziu essa consequência reforçadora. O Mando é o primeiro operante verbal que os humanos desenvolvem (BIJOU, 1993) e é muito importante para o desenvolvimento da fala. Inicialmente, o mando apresenta-se na forma de choro até ser substituído por gestos, sons e finalmente palavras. Pessoas com linguagem limitada aprendem muito cedo a emitir mandos que, apesar de promoverem o acesso a reforçadores, podem não ser apropriados, como agressões físicas e comportamentos autolesivos, porque, no passado, esses comportamentos produziram algo desejado ou reforçador (TIGER; HANLEY; BRUZEK, 2008). Mandos são as formas de comunicação mais motivadoras porque a pessoa que faz o pedido é reforçada pela obtenção de algo em troca (qualquer coisa que tenha sido pedida), por isso os mandos são naturalmente reforçadores. Os mandos são usualmente a primeira forma de linguagem a ser ensinada na intervenção, uma vez que o mando produz um reforço imediato e específico. O mando beneficia o falante. Eles são uma forma potente de começar a ensinar linguagem porque eles fazem com que as necessidades e os desejos da criança sejam satisfeitos. Este é o motivo pelo qual o ensino do mando é considerado de fundamental importância no ensino de Bug u 31 Comportamento Verbal. Os mandos são o ponto de partida da intervenção. Um Ecóico é uma imitação vocal. É a repetição precisa do que foi ouvido, usualmente de imediato. Um exemplo poderia ser a tendência a dizer “bolha” porque alguém acabou de dizer “bolha”. O comportamento Ecóico é observado quando alguém repete sons, palavras ou frases ditas por uma outra pessoa. Por exemplo, a criança que diz “mamãe” após sua mãe dizer “mamãe” emitiu um Ecóico; o comportamento da mãe constitui a variável antecedente verbal e a consequência que tipicamente segue o Ecóico envolve reforçadores não específicos como expressões faciais (mãe sorrir), bater palmas, dizer “muito bem”. Procedimentos de aproximação à resposta (modelagem) podem ser utilizados para desenvolver o repertório de ecoico em crianças com poucas ou nenhuma vocalização (LOVAAS et al., 1973). O terapeuta pode iniciar o treino de Ecóico aceitando qualquer aproximação que a criança consiga fazer e treinar melhores vocalizações até que a criança consiga emitir o Ecóico completo da palavra. Por exemplo, a terapeuta diz “água” e fornece elogio se a melhor resposta criança for “áh.” Em seguida, o terapeuta passa a exigir respostas mais difíceis, por exemplo, “ág”, depois “ága”, “águ”, e, por fim, “água”. Outro operante verbal, o Tato, é observado quando alguém dá nomes ou descreve as características físicas e funcionais de objetos e fenômenos no ambiente; essas características podem apresentar-se em diferentes modalidades: visuais, olfativas, gustativas e táteis. Um exemplo de Tato é a resposta da criança de dizer “maçã” quando a mãe lhe mostra uma maçã. Tatos podem ser simples quando envolvem o nome de objetos (mesa, suco, carro) e se tornam mais complexos quando envolvem adjetivos, preposições, advérbios e categorias relacionados ao objeto em questão. Um exemplo, a criança que escuta o barulho de um carro pode emitir o Tato “carro”. (tato múltiplo; MIGUEL et al., 2005). Tatos são definidos como comportamentos que ocorrem na presença de variáveis não verbais (objetos) porque foram reforçados por consequências não específicas. Quando você nomeia e identifica Bug u Bug u 32 objetos, ações, propriedades você está “tateando”. Para ensinar a nomear, você deve usar um simples procedimento de transferência de Ecóico para Tato, fazendo primeiro a criança ecoar a palavra que é dita. Se a criança aprender a dizer a palavra “bicicleta” por imitação dizendo “bicicleta”, então será possível ensinar a criança a dizer “bicicleta” na presença de uma bicicleta através do uso de um procedimento de transferência de controle de estímulo. Depois de algumas tentativas deste tipo, o terapeuta ABA pode dizer: “O que é isso? ”, e apontar para a bicicleta e a criança irá aprender a dizer bicicleta sem a dica ecóica. O comportamento Intraverbal refere-se a respostas verbais a outras palavras ou frases, ou seja, respostas a estímulos verbais. Responder perguntas, fazer comentários durante conversas, completar frases e músicas, podem ser considerados exemplos de comportamento Intraverbal. A maioria das nossas interações comunicativas incluem comportamentos intraverbais (SUNDBERG; SUNDBERG, 2011). Um exemplo de comportamento intraverbal é dizer “10 anos” em resposta a “Quantos anos você tem?” ou dizer, “Eu adoro pizza” ao comentário “Eu fui a uma pizzaria ontem.” O repertório Intraverbal em crianças é muito simples no início, como completar sons que animais fazem (“A vaca faz…muuu”) e palavras que descrevem atividades simples (“Você escova seus…dentes”), e se torna mais complexoconforme a criança aprende (“O que você come no café da manhã ou o que você bebe no café da manhã?”) (SUNDBERG; SUNDBERG, 2011). O Intraverbal garante que a criança possa responder perguntas, fazer comentários sobre a fala dos outros e falar sobre objetos que não estejam fisicamente presentes (SUNDBERG, 2007). O primeiro passo no ensino de comportamento verbal é a condução de uma avaliação de habilidades para identificar o repertório inicial da criança, ou seja, o que ela já sabe e não sabe fazer. A avaliação de habilidades é uma etapa essencial para o preparo de um programa de intervenção individualizado às necessidades de cada criança. Durante o preparo do plano de intervenção, é importante focar primeiramente em habilidades verbais básicas para que se possa formar uma base sólida Bug u Bug u 33 para o desenvolvimento de habilidades mais complexas (BARBERA, 2007; LAFRANCE; MIGUEL, 2014;). Comportamentos simples, tais como ecóicos ou imitação vocal de duas ou três sílabas são essenciais para o ensino de tatos e conversações simples (intraverbais). A avaliação de habilidades é um instrumento essencial para o delineamento de um programa de intervenção individualizado às necessidades de cada criança. Em seguida, é importante definir o tipo ou a modalidade do comportamento comunicativo que será ensinado. Existem três possibilidades: vocal, sinais e o uso de figuras e aparelhos de comunicação alternativa. Todas essas possibilidades possuem vantagens e desvantagens; a escolha da modalidade vai depender do repertório inicial da criança, das suas limitações, assim como do ambiente em que ela vive (CARR; MIGUEL, 2013). A fala é, com certeza, a primeira escolha nos planos de intervenção; pois, além de poder ser compreendida extensamente pela comunidade verbal, é também socialmente aceita e flexível (MIRENDA, 2003). Língua de sinais é uma outra alternativa, caso o desenvolvimento da fala seja inviável ou muito difícil de estabelecer. A vantagem de utilizar a língua de sinais é a portabilidade, ou seja, a criança pode utilizá-la em qualquer lugar e contexto; no entanto o sucesso dessa forma depende de que a comunidade na qual a criança está inserida compreenda e responda apropriadamente aos sinais. Também é necessário que a criança apresente um dos pré-requisitos para o uso de linguagem de sinais, que é a imitação motora. Se a criança tem dificuldades em imitar movimentos diversos ou problemas de destreza motora, a língua de sinais não é recomendada (TINCANI et al., no prelo). O modo de comunicação alternativa mais utilizado para o ensino de crianças com TEA é um tipo de sistema de comunicação simbólica por meio de troca de figuras ou, em inglês, Picture Exchange Communication System (PECS - BONDY; FROST, 1994). Nesse sistema, crianças aprendem a selecionar e trocar figuras pelos objetos que elas representam. Ao contrário da língua de sinais, essas respostas são geralmente de fácil entendimento pela comunidade já que incluem figuras. Independente da modalidade a ser ensinada, intervenções Bug u Bug u 34 analítico-comportamentais focam no ensino de cada operante verbal, pois a aquisição de uma determinada palavra em um não significa que a criança também adquiriu a mesma palavra em um outro. Para crianças com repertórios de comportamentos verbais básicos (repete apenas sons e palavras de poucas sílabas, emite poucos mandos e tatos de apenas uma palavra), as diferentes respostas precisam ser ensinadas separadamente. Portanto é importante que o plano de intervenção para crianças com TEA e outros atrasos do desenvolvimento tenha em vista todas as variáveis e condições que possam, eventualmente, influenciar a emissão do comportamento (FINN; MIGUEL; AHEARN, 2012; PETURSDOTTIR; CARR; MICHAEL, 2005). É importante que o plano de intervenção contenha programas que foquem em todos os operantes até que a criança demonstre transferência entre os operantes verbais. O sucesso de uma intervenção depende não somente da experiência e conhecimentos do terapeuta, mas também de um bom planejamento das habilidades a serem trabalhadas e a da identificação da melhor maneira para ensiná-las. É importante que as habilidades a serem ensinadas possam ser empregadas no dia a dia da criança, de maneira funcional e adaptativa. Isso pode acarretar em um aumento das chances dessas respostas entrarem em contato com as consequências reforçadoras no ambiente natural da criança e assim serem emitidas mais frequentemente. Como qualquer outro comportamento, operantes verbais são ensinados de forma a minimizar os erros durante a aprendizagem, para que a criança goste de aprender (TOUCHETTE; HOWARD, 1984). Assim, terapeutas criam as condições necessárias para que o operante verbal ocorra, incluindo dicas para a sua ocorrência e consequências reforçadoras para a sua aquisição. O terapeuta deve manter um comportamento positivo e motivador para a criança. Para isso, é importante que o terapeuta se correlacione com reforçadores para que a criança se motive a estar na presença do terapeuta e a seguir suas instruções (BARBERA, 2007). De princípio, o terapeuta pode utilizar o reforçamento sem requerer esforço algum da criança; em seguida 35 comportamentos simples, que a criança consiga fazer facilmente, podem ser reforçados para que ela entenda a relação entre seguir instruções do terapeuta e assim receber o reforço. Para aumentar a chance de sucesso durante programas de ensino estruturados e demandas em contexto natural, é importante que a instrução seja sempre simples e direta. Para isso, o terapeuta deve usar linguagem simples e adequada ao nível de compreensão da criança. Por exemplo, é muito provável que crianças com repertórios de falante e de ouvinte limitados não consigam seguir a instrução “Paulo, vamos ficar de pé para a gente ir brincar”. Uma instrução mais apropriada seria “Fique de pé". ” Dessa forma, apresentar instruções curtas e em forma de demanda. É importante também que o terapeuta se direcione para a criança, fale claramente em alto tom e dê a instrução somente uma vez. Repetir muitas vezes a instrução vai ensinar a criança que ela não precisa escutar e obedecer assim que alguém lhe pedir para fazer algo. O ensino do comportamento verbal é, sem dúvida, de grande importância na intervenção de crianças com TEA e deve ser iniciado o mais cedo e com a maior intensidade possível. É importante salientar que, se a criança emitir comportamento-problema com ou sem vocalizações, ela não pode receber o brinquedo, pois não somente a vocalização, mas também o comportamento-problema, pode estar sendo reforçado e assim a criança vai aprender que esses comportamentos indesejáveis resultam no acesso aos itens que deseja. Habilidades Acadêmicas Aprender a ler é um processo complexo, que envolve uma série de comportamentos interdependentes (HANNA et al., 2010). O Transtorno do Espectro Autista afeta a sequência e a qualidade do desenvolvimento infantil. Pessoas com TEA podem apresentar interesses restritos, fixos e intensos e comportamentos repetitivos, assim como dificuldades importantes na comunicação e na interação 36 social (DSM-5; APA, 2014). Interagir socialmente e se comunicar com outras pessoas depende de vários aspectos, entre eles da capacidade dos indivíduos de compartilhar não só objetos concretos, visíveis e palpáveis, mas também e principalmente, da capacidade de compartilhar símbolos sociais, presentes na fala, na leitura, na escrita, em regras, em normas e em valores (DE ROSE; BORTOLOTI, 2007). Especificamente em relação à aprendizagem de habilidades de leitura, há dados que indicam que pessoas com TEA podem apresentar dificuldades importantes nesse processo. Nation e colaboradores (2006) afirmaram que há duas perspectivas diferentes na literatura a respeito da aprendizagem de leitura por pessoas com TEA: a primeira considera que o repertório pobre de habilidades de linguagem, típico do quadro, coloca esses indivíduos em grande risco de fracasso na aprendizagem desse conteúdo. A segunda descreve, em diversosestudos de caso, sucessos no ensino de leitura a pessoas com TEA, embora os pesquisadores salientam a necessidade de se ter cuidado com a generalização dos resultados de estudos de caso com essa população pela ampla variabilidade no repertório de habilidades cognitivas e de linguagem observada entre as pessoas com TEA. Apesar dos estudos que apontaram dificuldades na aprendizagem de habilidades de leitura por pessoas com TEA e limitações na qualidade da leitura daquelas que aprendem a ler, estudos que investigaram procedimentos planejados para o ensino de leitura com essa população ainda são escassos e, segundo O'Connor e Klein (2004), isso ocorre, provavelmente, porque os comprometimentos clássicos do transtorno, relacionados à comunicação, à interação social e aos comportamentos restritos e repetitivos, são vistos como prioritários no desenvolvimento de pesquisas na área. 37 O ensino das habilidades acadêmicas pode ser organizado em etapas, partindo dos mais simples para os mais complexos. Procedimentos planejados para o ensino de leitura para pessoas com TEA devem considerar estratégias que favoreçam tanto a leitura oral quanto a leitura com compreensão. A leitura oral fluente pode ser definida como leitura combinatória (HANNA et al., 2010; MUELLER; OLMI; SAUNDERS, 2000; SAUNDERS et al., 2003), que consiste na habilidade de ler qualquer palavra sob controle de unidades intra palavras (DE ROSE; DE SOUZA ; HANNA, 1996) e/ou intra sílabas (MUELLER et al., 2000); assim, procedimentos que enfoquem o ensino de sílabas podem favorecer a aprendizagem desse aspecto da leitura (ALVES et al., 2007; BARROS, 2007; DE SOUZA et al., 2009; HÜBNER; MATOS, 1993). A leitura com compreensão pode ser identificada quando o aprendiz relaciona o que lê com aspectos do mundo e de sua experiência prévia com eles (SIDMAN, 1994). Para avaliação se essa habilidade foi realmente aprendida um aprendiz deve relacionar corretamente figuras às palavras impressas correspondentes, assim como o inverso, e a aprendizagem desses comportamentos ocorre de maneira indireta, derivada de relações entre estímulos (palavra ditada-palavra impressa; palavra ditada-figura) ou entre estímulos e respostas (nomeação de palavra impressa; nomeação de figura) previamente aprendidas. Quando esses estímulos (figuras e palavras) tornam-se equivalentes, ou seja, quando passam a fazer parte de uma mesma classe, pode-se dizer que o indivíduo compreende o que lê (SIDMAN, 1994). Dessa maneira, procedimentos de ensino fundamentados no paradigma da equivalência de estímulos podem engendrar a aprendizagem de leitura com compreensão (DE ROSE et al., 1989; DE ROSE et al., 1996; MELCHIORI; DE SOUZA; DE ROSE, 2000; SIDMAN, 1971). Gomes (2015) descreveu uma rota de ensino de habilidades de leitura para pessoas com TEA, que parte de comportamentos simples para os mais complexos, com o objetivo final de ensinar leitura oral e leitura com compreensão. A autora sugere seis etapas para o ensino de leitura: 1. Bug u Bug u Bug u 38 Requisitos; 2. Habilidades rudimentares; 3. Sílabas simples; 4. Programa informatizado; 5. Leitura oral; e 6. Interpretação. Habilidades de brincar A infância é uma fase única, em que a criança adquire aprendizagens essenciais para seu desenvolvimento ao longo de toda a vida. Nessa fase tão importante e fundamental, o brincar é imprescindível, assim como todo o conhecimento que se adquire através dele. Pela brincadeira a criança percebe a si mesma, o outro e o mundo que a cerca e desenvolve habilidades que são pré-requisitos para a Bug u 39 aprendizagem de outras mais complexas. O brincar ocorre de forma natural para crianças com desenvolvimento típico, porém, crianças no espectro autista apresentam déficits em diferentes habilidades que fazem com que o brincar seja algo a ser ensinado, assim como outros comportamentos na intervenção ABA. O autismo é definido como um transtorno invasivo do desenvolvimento, identificado pelo surgimento antes dos três anos de idade e pelo tipo característico de funcionamento anormal em todas as três áreas de interação social, comunicação e comportamento restrito e repetitivo (CID 10, 1993 p. 247). Assim, o ato de brincar também é afetado pelas características gerais do transtorno, uma vez que a criança autista apresenta padrões de comportamento, interesses e atividades restritos, repetitivos e estereotipados, que dificultam a interação com o outro e seus padrões de brincadeira. A interação com o outro e o brincar compartilhado são muito afetados visto que muitas vezes a criança com autismo apresenta mais interesse nos objetos do que nas pessoas. Tornando as brincadeiras solitárias e repetitivas, com manipulações e movimentos estereotipados de brinquedos ou mesmo objetos diversos e vistos pelas pessoas próximas como algo sem sentido e sem intenção lúdica. Geralmente o interesse é focado em objetos que podem ser manipulados por longos períodos. A criança pode utilizar os brinquedos/objetos de forma repetitiva e estereotipada, se interessar mais por partes do brinquedo do que por ele todo, entre outras possibilidades. Segundo Strain (1990), diferentemente de uma criança com desenvolvimento típico que adquirirá um repertório social no seu dia a dia, uma criança com diagnóstico de autismo necessitará de um planejamento ambiental no qual haja maior probabilidade dessa aprendizagem ocorrer. Para crianças com dificuldade de interação social se engajam em brincadeiras, faz-se necessária uma intervenção direta. O brincar consiste em um repertório bastante complexo, que é edificado em cima de muitos comportamentos-base. O treino do brincar estimula o desenvolvimento de habilidades novas, principalmente habilidades Bug u Bug u Bug u 40 verbais e sociais, mas, além destas, podemos estimular até habilidades acadêmicas durante alguns tipos de brincadeiras. Em intervenções que envolvam o brincar, são necessárias estratégias a fim de que possamos atingir a criança através da sua maneira de brincar e de seus interesses, podendo, assim, ampliar seu repertório comportamental, mostrando a ela as funções adequadas de cada objeto ou brinquedo. Outra contribuição importante da aquisição das habilidades de brincar consiste na redução dos comportamentos auto-estimulatórios e outros comportamentos inadequados socialmente. Esses comportamentos podem ocorrer por função de gerar um prazer físico que deveria estar sendo gerado pelo brincar, a criança que não desenvolveu habilidades de brincar social e de linguagem, acaba mantendo uma forma mais primitiva de diversão e produção de prazer, que são denominadas estereotipias. Em crianças autistas há o comprometimento de muitas funções, como o brincar simbólico, que se caracteriza por recriar as vivências da criança por meio da fantasia. No brincar funcional, a criança é capaz de dar função adequada a um ou mais objetos e brinquedos que envolvem a brincadeira, como fazer um carrinho andar em uma pista (e não virá-lo para rodar suas rodinhas), chutar uma bola, colocar um telefone de brinquedo no ouvido etc. A brincadeira da criança autista está marcada por atividades repetitivas, estereotipadas e sem diversidade, ao aprender a brincar de diversas formas, estas crianças poderão participar mais dos momentos de recreio e momentos livres na escola, no parquinho do prédio, em festas de aniversário. Outra categoria de brincadeiras bastante difícil para a criança com autismo é o brincar de faz-de-conta ou brincadeira de imaginação. Crianças com autismo têm dificuldades de fantasiar pelo atraso e déficit nas habilidades verbais e sociais. Além disso, estas crianças tendem a não prestar muita atenção em outras pessoas, ou seja, no comportamento dos adultos, de personagens de desenhos. Na brincadeira de faz-de-conta a criança imita alguém fazendo comida, ninando um bebê; consertando algo com as ferramentas, entre outros. Bug u 41 Para o brincar de faz-de-conta, a imitação é uma habilidade pré-requisito. Se a resposta de imitação ainda não foi adquirida, será precisomodelar a resposta, ou seja, reforçar aproximações sucessivas até chegar à forma final da resposta. Durante o treino do brincar, o adulto deve dar o modelo de como manipular os brinquedos e o que falar e fazer em uma brincadeira de faz-de-conta. Também será necessário dar ajuda motora para a criança manipular os brinquedos e verbal para falar coisas adequadas ao contexto. Pelo alto custo da resposta desses comportamentos, este treino precisa de reforçadores poderosos para manter a atenção e o engajamento da criança com autismo. Segundo Miguel (2005), o uso de consequências positivas é utilizado inicialmente, entretanto o objetivo é que, com o tempo as consequências naturais produzidas pelo próprio comportamento sejam suficientemente poderosas para manter a criança aprendendo, por exemplo ao aprender a brincar, a criança autista entra em contato com as consequências de fazer amigos, brincar junto com outras crianças, frequentar diversos ambientes sem que haja constrangimentos a família e a própria criança. Redução de Comportamentos- Problema Indivíduos com o diagnóstico de TEA tendem a ter comportamentos considerados comumente como problemáticos ou inadequados, sendo alguns deles estereotipias vocais, SIB (Self-Injurious Behavior), heteroagressão e agressividade. Caso esses comportamentos ocorram Bug u 42 com frequência, demandam intervenções baseadas em evidências para reduzir a frequência, produzindo qualidade de vida para o indivíduo e sua família. O excesso desses comportamentos inadequados, como comportamentos agressivos e automutilação, pode tornar muito desafiador lidar com a criança com transtorno do espectro do autismo, até mesmo para os profissionais treinados. De acordo com Horner et al., 2002, foi observado que os comportamentos disfuncionais mais comuns de crianças com TEA incluem acessos de raiva (76%), agressão (56%), estereotipia (14%) e automutilação (11%). Os comportamentos problemáticos podem ocasionar riscos e consequências específicas. Para tais comportamentos devem ser aplicadas intervenções de acordo com os excessos e déficits comportamentais necessários, após criteriosa avaliação. O planejamento de intervenções e procedimentos que podem ser implementados para a redução dos comportamentos inadequado consiste, inicialmente, na observação de variáveis ambientais para a coleta de dados e planejamento em equipe multidisciplinar de supostas intervenções, como treinamento com pais, treinamento de comunicação funcional e reforço não contingente, entre outros (Martin & Pear, 2018). A família, os profissionais da clínica e a escola precisam ser parceiros e realizar a mesma intervenção, para ocorrer a redução dos comportamentos inadequados, a equipe responsável pelo caso precisa ensinar todos os envolvidos a realizar cada passo para que seja possível identificar a função do comportamento e conduzir o manejo sem reforçar o comportamento problemático. De acordo com Iwata et al., (1994), os comportamentos-problema podem ocorrer diante de diversas variáveis antecedentes, mantendo-se com a função de fuga de demanda, acesso a itens, reforçamento automático e atenção. Esses comportamentos colocam em risco a saúde dos indivíduos e dos seus responsáveis. Martin & Pear (2018) ressalta que as topografias, isto é, as “formas” dos comportamentos, podem não dizer nada sobre sua causa e a análise funcional é essencial para avaliar e identificar as variáveis controladoras do comportamento. Quando uma criança emite o comportamento de morder (forma) isso Bug u Bug u 43 não significa que ela está com fome ou é agressiva, ao realizar uma análise funcional podemos identificar quais as variáveis que controlam o comportamento, e os dados da análise podem nos mostrar que o ato de morder pode ser com função de mando ou um comportamento mantido por atenção, por exemplo. A análise funcional é a manipulação dos eventos ambientais para identificar os eventos antecedentes ou de que forma as consequências controlam determinado comportamento-problema, caso haja o reforçamento do comportamento torna-se mais provável a sua ocorrência num futuro e em condições semelhantes. Se as causas de excessos e déficits comportamentais podem ser identificadas por meio da análise funcional, elas norteiam a implementação de um tratamento eficaz, que pode ser concentrado principalmente na ampliação do repertório para redução dos comportamentos inadequados. Isto envolve arranjar para que o indivíduo com espectro autista tenha diversas e repetidas oportunidades para aprender e praticar outras habilidades adequadas com reforçamento positivo de alta magnitude, em alternativa dos comportamentos inadequados que devem deixar de ser reforçados para que sua frequência diminua até a extinção. Uma série de métodos analítico-comportamentais são utilizados para fortalecer habilidades adequadas existentes, formar aquelas ainda não desenvolvidas e extinguir do repertório os comportamentos inadequados. Generalização Generalização é o termo técnico utilizado para descrever quando um comportamento passa a ocorrer não só na presença do estímulo no qual foi ensinado, mas também na presença de estímulos que diferem de alguma maneira do original. A generalização é uma parte muito importante para o aumento do repertório comportamental, porque mostra que a pessoa pode manter as habilidades ensinadas em Bug u Bug u 44 diversos contextos. Durante toda a intervenção multidisciplinar no tratamento do Transtorno do Espectro do Autismo, a equipe deve se preocupar com a generalização das habilidades aprendidas em contextos terapêuticos para ambientes menos estruturados e mais naturais, como a casa, escola, restaurantes, parques, viagens. Afinal, o objetivo não é que a criança consiga se comunicar, socializar, brincar e executar atividades acadêmicas apenas na clínica. O foco principal da intervenção deve ser garantir a emissão de novas habilidades aprendidas nos contextos naturais da vida da criança. As habilidades de generalização e discriminação de estímulos vão sendo refinadas no decorrer do desenvolvimento: as crianças com desenvolvimento típico generalizam facilmente entre ambientes, emitem respostas novas em ambientes diferentes daquele no qual a resposta foi treinada; e também entre pessoas, emitem a resposta nova para outras pessoas além da pessoa que treinou aquela resposta. Em crianças autistas a generalização das habilidades aprendidas em contextos terapêuticos para outros contextos, estímulos e pessoas não é automaticamente garantida e nem fácil de ser alcançada. Elas têm dificuldade de emitir uma resposta aprendida com um determinado estímulo, num determinado local e com uma determinada pessoa, frente a outro estímulo, em outro local e com outra pessoa. Um exemplo, pode acontecer de a criança conseguir discriminar cores de peças de lego nas sessões de terapia individualizada; mas não conseguir discriminar cores de roupas quando alguém pede para ela pegar a blusa azul em casa. Dessa forma, é fundamental que a equipe de intervenção sistematicamente planeje a generalização. O objetivo é a terapia imitar contextos e situações naturais. Um dos grandes desafios para as crianças com autismo é exatamente o de transferir o comportamento aprendido e praticado no ambiente terapêutico para a “vida real”. Cabe ao analista do comportamento integrar toda a equipe de profissionais e familiares, reunindo-os periodicamente para dar orientações que visam a generalização das habilidades aprendidas em terapia; investigar novas demandas de atuação; e traçar metas em comum para que todos Bug u 45 atuem de forma coesa. Um comportamento só passa a ser autônomo e se manter ao longo do tempo se ele ocorrer em contextos diversos e frente a estímulos diversos. Na intervenção ABA para o autismo, é importante pensar em como as estratégias de ensino podem ser generalizadas para o dia a dia da criança. Isso significa que as habilidades aprendidas em uma situação devem ser transferidas para outras situações, de modo que a criança possa utilizar essas