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Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa 2025 l Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia n° 79/2025 – versão 1 Este Guia expressa o entendimento da Anvisa sobre as melhores práticas com relação a procedimentos, rotinas e métodos considerados adequados ao cumprimento de requisitos técnicos ou administrativos exigidos pelos marcos legislativo e regulatório da Agência.1 Trata-se de instrumento regulatório não normativo, de caráter recomendatório e não vinculante, sendo, portanto, possível o uso de abordagens alternativas às proposições aqui dispostas, desde que compatíveis com os requisitos relacionados ao caso concreto. A inobservância ao conteúdo deste documento não caracteriza infração sanitária, nem constitui motivo para indeferimento de petições, desde que atendidos os requisitos exigidos pela legislação. As recomendações contidas neste Guia produzem efeitos a partir da data de sua publicação no Portal da Anvisa e ficam sujeitas ao recebimento de sugestões da sociedade por meio de formulário eletrônico, disponível em http://pesquisa.anvisa.gov.br/index.php/985463?lang=pt-BR. As contribuições2 recebidas serão avaliadas e poderão subsidiar a revisão do Guia e a consequente publicação de uma nova versão do documento. Independentemente da decisão da área, será publicada análise geral das contribuições e racional que justifique a revisão ou não do Guia. 1Portaria nº 162, de 12 de março de 2021, que dispõe sobre as diretrizes e os procedimentos para melhoria da qualidade regulatória na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 2A fim de garantir maior transparência ao processo de elaboração dos instrumentos regulatórios editados pela Anvisa, esclarecemos que os nomes dos responsáveis pelas contribuições (pessoas físicas e jurídicas) são considerados informações públicas e serão disponibilizados de forma irrestrita nos relatórios e outros documentos gerados a partir dos resultados deste Guia. Já o e-mail e o CPF dos participantes, considerados informações sigilosas, terão seu acesso restrito aos agentes públicos legalmente autorizados e às pessoas a que se referem tais informações, conforme preconiza o artigo 31, §1º, inciso I da Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011. Outras informações que venham a ser consideradas sigilosas pelos participantes poderão ser apensadas em campo específico no formulário eletrônico. Copyright©2025. Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. A reprodução parcial ou total deste documento por qualquer meio é totalmente livre, desde que citada adequadamente a fonte. A reprodução para qualquer finalidade comercial está proibida. Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação VIGENTE A PARTIR DE 16/04/2025 Início do período de contribuições: 17/04/2025 Fim do período de contribuições: 13/10/2025 http://portal.anvisa.gov.br/guias#/ http://portal.anvisa.gov.br/guias#/ http://pesquisa.anvisa.gov.br/index.php/985463?lang=pt-BR http://antigo.anvisa.gov.br/legislacao#/visualizar/446270 SUMÁRIO 1. ESCOPO .................................................................................................. 5 2. INTRODUÇÃO ......................................................................................... 5 3. BASE LEGAL .......................................................................................... 8 4. ASPECTOS PRÁTICOS RELACIONADOS À REALIZAÇÃO DO ESTUDO DE DEGRADAÇÃO FORÇADA ........................................................ 8 4.1. Quando realizar e quando repetir o estudo de degradação .................................................8 4.2. Quem deve realizar o estudo de degradação forçada ......................................................... 10 4.3. Informações prévias ..................................................................................................................... 10 4.4. Requisitos dos materiais a serem testados ........................................................................... 11 4.5. Condução do estudo de degradação forçada ....................................................................... 13 4.6. Parâmetros de degradação (endpoints) .................................................................................. 15 5. REQUISITOS QUANTO AO MÉTODO DE ANÁLISE ............................ 18 6. REQUISITOS QUANTO ÀS ESPECIFICAÇÕES E REPORTE DE RESULTADOS ................................................................................................ 19 7. INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS DOS ESTUDOS DE DEGRADAÇÃO FORÇADA ............................................................................ 21 7.1. Avaliação de cromatogramas e obtenção de resultados ................................................... 21 7.2. Balanço de massas ....................................................................................................................... 23 7.3. Análise crítica dos resultados ................................................................................................... 27 8. DOCUMENTAÇÃO A SER ENVIADA PARA A ANVISA SOBRE ESTUDOS DE DEGRADAÇÃO FORÇADA .................................................... 29 9. PROCEDIMENTOS PARA IDENTIFICAÇÃO E QUALIFICAÇÃO DE PRODUTOS DE DEGRADAÇÃO.................................................................... 31 9.1. Procedimentos para identificação de produtos de degradação ....................................... 32 9.2. Procedimentos para qualificação de produtos de degradação ........................................ 32 9.2.1. Uso de compêndios oficiais para qualificação de produtos de degradação ............ 33 9.2.2. Qualificação de produtos de degradação por estudos de comparabilidade ............ 34 9.2.3. Metabólitos, dados de literatura e estudos de toxicidade ............................................. 35 10. RECOMENDAÇÕES PARA PRODUTOS PARA OS QUAIS A NORMA NÃO É APLICÁVEL ........................................................................................ 35 10.1. Medicamentos em desenvolvimento clínico .......................................................................... 35 10.2. Medicamentos contendo IFA obtidos por fermentação ...................................................... 36 10.3. Medicamentos contendo IFA sintético em associação ....................................................... 37 10.4. Medicamentos contendo IFAs enquadrados no inciso IV do Art. 3º da RESOLUÇÃO ANVISA nº 964, de 2025 ............................................................................................................................. 37 10.5. Medicamentos contendo IFAV ................................................................................................... 40 11. CONCLUSÃO ........................................................................................ 42 12. LISTA DE ABREVIAÇÕES E SIGLAS ................................................... 43 13. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................... 45 Anexo I - Avaliação de impacto da variabilidade analítica nos cálculos de balanço de massas via cálculos de propagação de erros .......................... 48 1. ESCOPO Este Guia tem o objetivo de expor a opinião da Agência e demonstrar o melhor entendimento para o cumprimento da RESOLUÇÃO ANVISA nº 964, de 20 de fevereiro de 2025 [1], denomina neste guia como “Resolução”, no que se refere à realização de estudos de degradação forçada em medicamentos e aos procedimentos para a notificação,recomenda-se que as amostras sejam, inicialmente, submetidas a condições de degradação em concentração e quantidade que permita uma posterior diluição para preparo conforme cada um dos métodos. Para cada uma das condições avaliadas, recomenda-se tabelar os resultados de cada produto de degradação, do total de produtos de degradação encontrados e da porcentagem de degradação do(s) IFA(s). Os resultados obtidos serão utilizados para fins de cálculos de balanço de massas, conforme descrito a seguir. 23 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 7.2. Balanço de massas Conforme definido na Resolução, o balanço de massas é o processo de soma do teor e dos níveis de produtos de degradação em uma amostra estressada para verificar quão perto estes somam 100% do valor inicial (amostra não estressada), considerando a margem de variabilidade experimental [25]. Este conceito, que está baseado na lei da conservação da massa, é um guia científico útil para a avaliação dos dados, mas nem sempre pode ser atingido. Assim, o foco da análise não deve ser direcionado exclusivamente para a obtenção de resultados próximos de 100%, devendo, também, avaliar a confirmação da seletividade do método, a investigação completa das vias de degradação e, se necessário, a identificação de produtos de degradação que possam servir de indicadores para avaliar a extensão da degradação por meio de uma via específica [26]. Entre outras razões, a avaliação do balanço de massas é útil para: 1) demonstrar que não são formados produtos de degradação significativos (e potencialmente tóxicos) que não estão sendo detectados; 2) auxiliar na demonstração do poder indicativo de estabilidade do método, ao indicar que quedas de teor são acompanhadas de aumento proporcional dos níveis de produtos de degradação; 3) entender melhor as diferentes vias de degradação do IFA [26]. O balanço de massas pode ser calculado e expresso de diferentes maneiras. A forma de cálculo selecionada deve ser documentada e cientificamente justificada [27]. A seguir são apresentadas algumas formas de cálculo de balanço de massas. Para fins de exemplo de cálculo, considere o seguinte exemplo hipotético: • Teor do IFA na amostra não degradada (Ti): 97,2% • Somatório de produtos de degradação na amostra não degradada (PDi): 0,3% • Teor do IFA na amostra após degradação (TD): 80,6% • Somatório de produtos de degradação na amostra após degradação (PDD): 5,7% 1) Balanço de massas simples (não corrigido) O balanço de massa simples (BM) é calculado pela adição do teor do IFA na amostra após degradação ao somatório de produtos de degradação na amostra após degradação [27]. Matematicamente, pode ser expresso por: BM = TD + PDD No exemplo citado, o valor calculado seria 80,6% + 5,7% = 86,3%. Embora seja facilmente calculado, por não levar em consideração o teor do IFA na amostra inicial, o balanço de massas simples pode levar a interpretações errôneas sobre os resultados obtidos, especialmente nos casos em que o teor do IFA na amostra se distancia do resultado teórico esperado (100%). 2) Balanço de massas absoluto O balanço de massa absoluto (BMA) é calculado corrigindo-se o valor de balanço de massas simples pelo valor de teor do IFA na amostra inicial (não degradada) [27]. Matematicamente, pode ser expresso por: 24 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 BMA = (TD + PDD)/ (Ti + PDi) No exemplo citado, o valor calculado seria (80,6% + 5,7%)/(97,2% + 0,3%) = 88,5%. Os valores de balanço de massas absolutos são, em geral, mais próximos de 100%. Embora seja a fórmula mais usualmente utilizada, é necessário cautela na intepretação, pois o uso de critérios absolutos, tais como “valores acima de X% são aceitáveis” podem gerar erros de interpretação, especialmente nos casos em que a queda de teor é menor e os produtos de degradação não são detectados. 3) Deficiência absoluta de balanço de massas A deficiência absoluta de balanço de massas (DABM) é calculada pela diferença entre o balanço de massas absoluto e os 100% [27]. Matematicamente, pode ser expressa por: DABM = 100 - (TD + PDD)/ (Ti+ PDi) No exemplo citado, o valor calculado seria 100% - (80,6% + 5,7%)/(97,2%+0,3%) = 11,5%. A deficiência absoluta de balanço de massas permite uma avaliação mais adequada da distância entre os valores obtidos na prática e o valor de balanço de massas esperado na teoria (100%). Assim, como no caso do balanço de massas absoluto, é necessário cautela na intepretação, pois o uso de critérios absolutos, tais como “valores abaixo de X% são aceitáveis” podem gerar erros de interpretação, especialmente nos casos em que a queda de teor é menor e os produtos de degradação não são detectados. 4) Balanço de massas relativo O balanço de massa relativo (BMR) é calculado pela relação percentual entre o aumento de produtos de degradação e a queda de teor [27]. Matematicamente, pode ser expresso por: BMR = 100 x (PDD - PDi)/ (Ti - TD) No exemplo citado, o valor calculado seria 100 x (5,7 – 0,3)/ (97,2 – 80,6)= 32,5%. Os valores de balanço de massas relativo são, em geral, mais distantes de 100% e permitem uma visão mais realista da capacidade do método de detectar os produtos de degradação. 5) Deficiência relativa de balanço de massas A deficiência relativa de balanço de massas (DRBM) é calculada pela diferença entre o balanço de massas relativo e os 100% [27]. Matematicamente, pode ser expressa por: DRBM = 100 – [100 x (PDD - PDi)/ (Ti - TD)] No exemplo citado, o valor calculado seria 100% - [100 x (5,7 – 0,3)/ (97,2 – 80,6)] = 67,5%. Nos casos em que uma degradação mais pronunciada é observada, a deficiência relativa de balanço de massas permite uma avaliação mais adequada da distância entre os valores 25 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 obtidos na prática e o valor do balanço de massas esperado na teoria (100%). Além disso, permite estimar quantos % dos produtos de degradação esperados não estão sendo detectados pelo método. No exemplo citado, por exemplo, pode-se dizer que 67,5% do que o método de produtos de degradação deveria detectar não está sendo detectado, indicando, inequivocamente, que a situação específica requer uma análise aprofundada. Nos casos em que a degradação observada é muito pequena (da ordem de 1 ou 2%), os resultados de balanço de massas relativo e deficiência relativa de balanço de massas estão sujeitos a maiores distorções e podem não representar adequadamente a situação real observada no estudo. Independente da fórmula selecionada pela empresa, espera-se que, para o cálculo do balanço de massas, os valores de teor e de níveis de produtos de degradação utilizados no cálculo sejam aqueles obtidos com os métodos que serão efetivamente empregados nos estudos de estabilidade. Ainda que o método de produtos de degradação seja capaz de mensurar o teor do IFA, se esse método não for utilizado para a quantificação do IFA nos estudos de estabilidade, o valor de teor obtido por esse método no estudo de degradação forçada não deve ser utilizado no cálculo. Caso a empresa utilize métodos diferentes para quantificação de teor e de produtos de degradação, recomenda-se que as mesmas amostras sejam avaliadas pelos dois métodos. Neste caso, os valores de teor utilizados para o cálculo de balanço de massas serão os extraídos do método de teor, e não os calculados pelo método de produtos de degradação. Nesta situação específica(quando são utilização métodos diferentes), o uso dos dados obtidos no estudo de degradação forçada para cálculos de teor pode dificultar ou até mesmo impossibilitar qualquer discussão relacionada à diferença entre resultados de teor e produtos de degradação. Ainda, resultados obtidos dessa maneira impedem que se obtenha conclusões assertivas sobre o poder indicativo de estabilidade do conjunto de métodos utilizados. A avaliação da necessidade de cálculo de balanço de massas deve ser realizada para cada condição de degradação estudada. Quando não for observada queda significativa de teor NEM aumento significativo nos produtos de degradação, o cálculo de balanço de massas não traz informações relevantes e não é necessário. Quando for observada queda significativa de teor OU aumento significativo nos produtos de degradação, o cálculo de balanço de massas deve ser realizado. As variações significativas descritas anteriormente são entendidas como aquelas que se sobressaem à variabilidade experimental esperada. Em geral, a variabilidade experimental esperada é descrita pelo parâmetro de desvio-padrão relativo, que é definido na elaboração do protocolo de validação analítica. Deve-se ter cuidado para que a variabilidade experimental não seja avaliada incorretamente (subestimada ou superestimada), de modo a comprometer a avaliação dos resultados dos estudos de degradação forçada. Por exemplo, em cenário em que a variabilidade analítica é subestimada, pequenas variações entre o teor da amostra inicial e da amostra degradada podem vir a ser contabilizadas como desvios de balanço de massa (em especial, desvio relativo de balanço de massas), que serão de difícil compressão pela empresa. Por outro lado, em um cenário onde a variabilidade analítica é superestimada, degradações importantes podem ser ignoradas e comprovação do poder indicativo de estabilidade do método pode ser comprometida. Isso ocorre especialmente nos casos em que a empresa não detecta degradações significativas em nenhuma das condições de degradação testadas. Neste caso, recomenda-se fortemente que, além da variabilidade experimental estimada, os parâmetros de degradação e as condições gerais de realização do estudo sejam revisados. 26 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Quando for observado um balanço de massa positivo ou negativo que se sobressaia à variação do método, a empresa deverá apresentar racional técnico-científico detalhado para os resultados obtidos. O racional técnico-científico é construído a partir de um processo de investigação das possíveis causas do desvio de balanço de massas observadas. Causas possíveis de desbalanço de massas são apresentadas na Figura 2. Figura 2 – Causas de desbalanço de massas. As categorias principais são indicadas nas caixas e os fatores contribuintes para cada categoria são indicados nas linhas de conexão (Adaptado de [28] por [27]). A depender das causas identificadas no processo de investigação dos desvios de balanço de massas observadas, é recomendável que seja realizada uma avaliação crítica sobre a adequabilidade de se justificar tecnicamente o resultado obtido ou de promover alterações no método. Por exemplo, é racional que se justifique tecnicamente uma situação em que o balanço de massas não foi obtido devido a degradações secundárias verificadas para o IFA, desde que o produto de degradação principal da via de degradação específica possa ser identificado e quantificado. Por outro lado, se for verificado que nenhum dos produtos de degradação de uma determinada via pode ser detectado devido a uma perda de cromóforo, é racional que um método mais adequado para detecção e quantificação dos produtos de degradação seja selecionado. Quando disponíveis, os resultados dos estudos de estabilidade podem ser utilizados para auxiliar nas discussões relacionadas a desvios de balanço de massas. Neste caso, pode- se avaliar o aumento do(s) produto(s) de degradação quantificado(s) no estudo de estabilidade frente à redução do teor do IFA observada no mesmo estudo. Química não compreendida Baixa recuperação do produto de degradação Diferença de fator de resposta Problemas relacionados à cromatografia/ ao método Outros artefatos analíticos Insolubilidade Instabilidade ou perda mecânica durante a preparação da amostra Extração incompleta Volatilidade Resposta do detector ao produto de degradação é maior que a do IFA Resposta do detector ao produto de degradação é menor que a do IFA Produtos de degradação são quantificados/ integrados de maneira inadequada por causa de condições cromatográficas ruins (ex. alargamento de pico) Muitos produtos de degradação em baixo nível (abaixo do limite de detecção) Produtos de degradação com eluição tardia/ que não eluem Coeluição do IFA com os produtos de degradação Coeluição de picos com diferentes fatores de resposta O conhecimento das vias de degradação ajuda a antecipar produtos de degradação que podem não ser observáveis pelo método Mudança de massa não esperada durante a degradação (ex. reação com excipientes) Instabilidade do produto de degradação em solução Reações ou estequiometria desconhecidas Desbalanço de massas O detector não detecta o produto de degradação (ex. perda de grupo cromóforo) Degradação na coluna Impurezas estranhas (ex. impurezas de excipientes e lixiviáveis) Variações de teor 27 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 No que se refere às considerações sobre os impactos da variabilidade experimental no cálculo de balanço de massas, entende-se que o principal foco da avaliação dos resultados deva ser garantir a especificidade do ensaio, a investigação completa das rotas de degradação e, se necessário, o uso dos produtos de degradação identificados, como indicadores da extensão de degradação via mecanismos específicos, conforme descrito anteriormente. Quando as justificativas apresentadas para desvios de balanços de massas forem exclusivamente baseadas na variabilidade do método, recomenda-se que o racional utilizado nesta avaliação seja apresentado. Um exemplo de avaliação de impacto da variabilidade analítica (desvio padrão relativo) nos cálculos de balanço de massas, por meio de avaliação de propagação de erros, é apresentado no Anexo I. Independente da abordagem utilizada, deve-se cuidar para que a variabilidade experimental não seja superestimada e para que a justificativa não seja utilizada inadvertidamente. Destaca-se que embora estejam disponíveis na literatura diretivas gerais para a investigação de desvios de balanço de massas, o racional a ser apresentado deve ser específico para o produto objeto de análise. Neste contexto, os conhecimentos sobre os mecanismos de degradação do IFA, obtidos na etapa de avaliação teórica prévia, são ferramentas muito úteis para justificar eventuais desvios de balanço de massas. Justificativas genéricas, que descrevem as causas gerais de desbalanço de massas, mas não se aprofundem sobre as causas específicas identificadas para o caso concreto não são consideradas adequadas. 7.3. Análise crítica dos resultados A partir da análise dos resultados, espera-se que a empresa: a. identifique as principais vias de degradação para o(s) IFA(s); b. defina os principais produtos de degradação que devem ser monitorados nos estudos de estabilidade; c. avalie se o método analítico proposto é adequado para a detecção dos possíveis produtos de degradação do IFA; d. avalie os fatores que podem interferir de alguma forma na estabilidade do medicamentoe definir as estratégias para mitigação dos riscos de formação de produtos de degradação durante a fabricação e o armazenamento do produto; e. compare os resultados encontrados no estudo com resultados dos estudos de estabilidade do produto disponíveis, a fim se os produtos de degradação reais foram identificados adequadamente e se o método se mostrou adequado para quantificação dos principais produtos de degradação observados A identificação das principais vias de degradação e a definição dos produtos de degradação que serão monitorados ocorre por meio da definição do perfil de degradação potencial do medicamento. Para auxiliar na compreensão sobre o perfil de degradação do medicamento, considerar os exemplos a seguir: Exemplo 1: considere o produto hipotético X, para o qual todas as condições de degradação foram testadas no IFA e no produto acabado. Quando exposto à degradação ácida, o medicamento gera os produtos de degradação A e B (portanto, o perfil de degradação ácida deste produto é A+B). Quando exposto à degradação térmica, são gerados os produtos C e D (portanto, o perfil de degradação térmica deste produto é C+D). Suponha que as demais condições de estresse não geram nenhum produto de degradação. Então, o perfil de degradação potencial deste produto é A+B+C+D. 28 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Exemplo 2: considere o produto hipotético Y, na forma farmacêutica sólida, para o qual todas as condições de degradação foram testadas no IFA e as condições de degradação em fase sólida foram testadas no produto acabado. Quando exposto à degradação oxidativa, o IFA gera o produto de degradação 1 (portanto, o perfil de degradação oxidativa deste IFA é 1). Quando exposto a condição de degradação fotolítica, o medicamento gera os produtos 2 e 3 (portanto, o perfil de degradação fotolítica deste produto é 2 e 3). Suponha que as demais condições de estresse não geram nenhum produto de degradação. Então, o perfil de degradação potencial deste produto é 1 + 2 + 3. Observa- se que, nos casos em que o estudo de degradação em fase líquida não é realizado para o produto acabado, os produtos de degradação observados para o IFA devem ser considerados como parte do perfil de degradação potencial do medicamento. Além do estabelecimento do perfil de degradação do medicamento, a avaliação crítica inclui a conclusão sobre o poder indicativo de estabilidade do método. Para tanto, além das devidas comprovações relacionadas ao balanço de massas (ver item 7.2. Balanço de massas), é necessário que a seletividade e a capacidade de detecção da metodologia sejam demonstradas. No exemplo 1, é necessário que o método de análise (ou o conjunto de métodos utilizados) seja seletivo e capaz de detectar os produtos A, B, C e D. No exemplo 2, é necessário que o método de análise (ou o conjunto de métodos utilizados) seja seletivo e capaz de detectar os produtos 1, 2 e 3. Ainda, ao final da análise crítica, espera-se uma avaliação sobre as condições às quais o produto é particularmente sensível, considerando, entre outros fatores, o processo de fabricação proposto e a influência dos excipientes na rota de degradação. No exemplo 1, o produto é sensível ao aquecimento e a pH ácido. Portanto, o aquecimento do produto e o uso de pH ácido para a formulação devem ser avaliados com cautela. Já no exemplo 2, nota-se sensibilidade à oxidação e à fotólise. Neste caso, pode ser necessária uma reavaliação da formulação (por exemplo, a adição de antioxidantes à formulação pode ser considerada) e o uso de embalagens com maior potencial fotoprotetor e com menor permeabilidade ao oxigênio. Também é necessária uma avaliação crítica do processo produtivo e dos controles necessários durante a fabricação do medicamento. No exemplo 2 é possível avaliar a necessidade de uso de nitrogênio em determinadas etapas do processo produtivo ou a necessidade manipulação em condições de iluminação específica. No que se refere à sensibilidade do produto, é importante comparar os resultados obtidos para o IFA e para o medicamento com os dados prévios de literatura, de modo a verificar a condução adequada do estudo e discutir os impactos da formulação proposta na estabilidade do IFA estudado. Por exemplo, quando descrito na pesquisa bibliográfica que o IFA objeto de avaliação é altamente fotossensível, caso a empresa não identifique essa fotossensibilidade nos estudos realizados para o IFA e para o produto acabado, é necessário que haja uma discussão sobre os fatores que podem estar protegendo o IFA da degradação. Aspectos relacionados às condições nas quais a sensibilidade foi identificada, às características específicas da matéria-prima utilizada e aos componentes da formulação, entre outros, podem auxiliar na compreensão dessas diferenças. Quando os resultados dos estudos de estabilidade já estiverem disponíveis, é possível revisitar o relatório do estudo de degradação forçada para estabelecer o perfil de degradação real do medicamento. Para o exemplo 1, considerando que o método comprovadamente detectava os produtos de degradação A, B, C e D, e supondo que no estudo de estabilidade apenas os produtos de degradação A e C tenham sido detectados, é possível estabelecer que o perfil de degradação real do produto é A+C. Observa-se que o método foi desenvolvido e validado para o pior cenário possível, que seria o possível 29 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 aparecimento de todos os produtos de degradação (o que não necessariamente ocorre na estabilidade). É importante ressaltar que o correto estabelecimento do perfil de degradação potencial é fundamental para o desenvolvimento de métodos indicativos de estabilidade, e passa não somente pela correta realização do estudo de degradação forçada, mas pela avaliação teórica prévia das possíveis rotas de degradação do IFA e do produto. Outra avaliação importante que pode ser realizada quando os resultados dos estudos de estabilidade já estiverem disponíveis é a avaliação do aumento de produto(s) de degradação nos casos em que ocorre redução do teor do IFA, consideradas as variações analíticas inerentes. Nos casos em que os métodos foram adequadamente desenvolvidos, é esperado que, nos estudos de estabilidade, a queda de teor do IFA seja acompanhada de aumento proporcional de produtos de degradação. Da mesma forma, não se espera que os produtos de degradação aumentem de maneira significativa sem que ocorra queda no teor do ativo. Reduções de teor do IFA nos estudos de estabilidade desacompanhadas de aumento de produtos de degradação podem indicar que alguma via de degradação do medicamento não está sendo adequadamente monitorada. Neste caso, pode ser necessário reavaliar o estudo de degradação forçada para verificar os resultados obtidos, avaliar as condições testadas e identificar possíveis vias de degradação não monitoradas por meio de estudos mais aprofundados. Nos casos em que há formação de produtos de degradação sem a queda correspondente do teor, uma análise mais aprofundada sobre itens como, por exemplo, a seletividade do método de teor e a perda de peso do produto (no caso de medicamento de base líquida) pode ser necessária. 8. DOCUMENTAÇÃO A SER ENVIADA PARA A ANVISA SOBRE ESTUDOS DE DEGRADAÇÃO FORÇADA Para cumprimento integral da Resolução, recomenda-se enviar à Anvisa o relatório do estudo de degradação forçada ou resumo em formato CTD contemplando, minimamente, as seguintes informações: a. resumo das informações prévias; b. resumo das condições de realização do estudo e indicação do(s) método(s) de análise aplicável(is); c. resumo dos resultadosexperimentais obtidos, incluindo cromatogramas representativos, avaliação de pureza de pico e resultados de balanço de massas; d. resumo da análise crítica dos resultados, e e. justificativas aplicáveis. Ainda que não enviadas à Anvisa, as informações completas relacionadas ao estudo de degradação forçada devem estar disponíveis na empresa e ser apresentadas à Anvisa nos casos em que esclarecimentos adicionais forem solicitados. No que se refere às condições de degradação, recomenda-se indicar os parâmetros de degradação (agente degradante, concentração, temperatura e tempo), incluindo, minimamente: i. os parâmetros que resultaram em degradação satisfatória para cada condição em que houve degradação significativa; ii. os parâmetros máximos utilizados quando não foi possível obter degradação significativa, e iii. as justificativas técnicas e referências para os parâmetros máximos selecionados; Para facilitar a visualização, recomenda-se que os resultados sejam apresentados na forma de tabela em que seja possível comparar a porcentagem de degradação do(s) 30 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 IFA(s), a porcentagem de aumento de produtos de degradação e os resultados dos cálculos de balanço de massas para cada uma das amostras testadas. Quanto aos cromatogramas representativos, recomenda-se enviar os cromatogramas do(s) IFA(s) isolado(s), do produto e do placebo, se aplicável, de cada uma das condições de degradação que resultaram em uma porcentagem adequada de degradação ou, se não foi possível obter degradação em alguma(s) condição(ões), da amostra que foi exposta aos parâmetros máximos utilizados. No caso das associações em dose fixa, recomenda- se incluir, também, os cromatogramas dos ativos associados e na formulação. Recomenda-se enviar cada cromatograma em duas escalas. Uma que mostre completamente o pico principal (sugere-se uma escala fixada em 125% da altura do maior pico na amostra de referência) e outra que demonstre claramente os picos menores (sugere-se uma escala fixada em 5% da altura da escala anterior). Recomenda-se, ainda, que os cromatogramas contenham, pelo menos, os dados de tempo de retenção, área, resolução, eficiência da coluna (n° de pratos teóricos) e assimetria para cada pico, além dos dados de pureza de pico do(s) IFA(s) e de outros picos de interesse. Cromatogramas sobrepostos (overlay) para cada condição de degradação testada podem ser enviados em substituição aos cromatogramas isolados desde que a sobreposição não prejudique a visualização das informações relevantes. Na análise crítica, espera-se que seja apresentada discussão sobre os resultados de balanço de massas, sobre o perfil de degradação potencial do IFA, sobre o poder indicativo de estabilidade do método e sobre as condições especificas às quais o medicamento é sensível, conforme discutido na seção 7.3. Análise crítica dos resultados. As justificativas aplicáveis irão variar com o delineamento do estudo, conforme previsto na Resolução. Recomenda-se que todas as justificativas referentes aos estudos de degradação forçada sejam incluídas em uma mesma seção do relatório do estudo de degradação forçada ou incluídas em um único documento, em separado, de modo a evitar que informações importantes se percam e dirimir dúvidas no momento da análise técnica. Para protocolo da documentação, a empresa deverá enviar a documentação relacionada aos estudos de degradação forçada no item específico do checklist do assunto de petição, disponível no site da Anvisa ou na seção específica definida no Guia 24/2019 e suas atualizações [29]. Independente da forma de protocolo, todas as informações necessárias devem ser contempladas. Quando informações específicas (por exemplo, informações prévias) já estiverem apresentadas em outra seção da petição, não é necessário apresentar as informações novamente. Neste caso, recomenda-se a inclusão de um documento breve no item correspondente do checklist ou na seção correspondente do CTD ou, ainda, na seção regional do CTD descrevendo: a) a localização de cada um dos documentos, e b) as justificativas técnicas aplicáveis compiladas. Para petições pós-registro, quanto for necessária a adequação do produto em decorrência de uma mudança pós-registro ou quando um novo estudo de degradação forçada for necessário, a documentação comprobatória referente ao estudo de degradação forçada deve ser anexada aos documentos de instrução da petição. A ausência da documentação na petição inicial, sem justificativa, pode ensejar no indeferimento da petição por insuficiência de documentação técnica, conforme previsto na RDC 204/2005 [6]. Nos casos em que a Anvisa solicitar a realização do estudo de degradação forçada, a adequação deverá ser realizada mediante protocolo de petição com assunto específico, que somente deve ser utilizado se a adequação for realizada por solicitação da Anvisa. Se 31 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 ela for decorrente de uma mudança pós-registro, não é necessário protocolar o assunto. Para esta petição, os documentos requeridos são: a. Formulário(s) de petição devidamente preenchido(s); b. Comprovante de isenção do pagamento da Taxa de Fiscalização de Vigilância Sanitária - GRU Isenta; c. Descrição da situação atual do produto e do método de análise, indicando se alguma alteração pós-registro foi necessária para a adequação e precisa ser analisada em conjunto; d. Estudos do perfil de degradação forçada, conforme requisitos da Resolução; e. Estudos de estabilidade acelerado e de longa duração que demonstrem cumprimento do Art. 18 da Resolução. Os estudos a serem apresentados (acelerado, longa duração e/ou acompanhamento) serão discutidos com a empresa no caso específico, levando em consideração os motivos que levaram a Anvisa a solicitar a adequação. f. Dados de identificação dos produtos de degradação que superem os limites descritos no Anexo 1 da Resolução. g. Dados de qualificação dos produtos de degradação que superem os limites descritos no Anexo 1 da Resolução ou que se enquadrem no Art. 18, § 5º da Resolução. 9. PROCEDIMENTOS PARA IDENTIFICAÇÃO E QUALIFICAÇÃO DE PRODUTOS DE DEGRADAÇÃO O aparecimento de determinado produto de degradação no estudo de degradação forçada, por si só, não enseja a necessidade de identificá-lo ou qualificá-lo. A empresa fica obrigada a fazê-lo dependendo dos resultados obtidos nos estudos de estabilidade formais e das especificações propostas para controle do produto na liberação e nos estudos de estabilidade. As especificações propostas e os resultados dos estudos de estabilidade formais devem ser avaliados conforme Tabela apresentada no Anexo I da Resolução. As informações contidas na Tabela são universais para todas as concentrações e formas farmacêuticas. Uma etapa relevante para determinação da necessidade ou não de identificação e qualificação dos produtos de degradação é a determinação da dose máxima diária do medicamento. A avaliação de produtos de degradação está relacionada com a avaliação de segurança do produto e, conforme pode ser verificada na Tabela, quanto maior a dose máxima diária estabelecida para o produto, menores os limites de notificação, identificação e qualificação. Isso porque, quanto maior a quantidade de medicamento administrada, maior será a quantidade de produtos de degradação administrada concomitantemente. Neste contexto, para medicamentos novos ou inovadores, é recomendável que a dose máxima diária do medicamento esteja claramente descrita no texto de bula do produto, conforme orientações da Resolução que trata da elaboração debula de medicamentos [30] e suas atualizações. Para medicamentos genéricos e similares, que devem ter seus textos de bula harmonizados com os textos de bula dos medicamentos de referência [30], nos casos em que a dose máxima não estiver claramente descrita, recomenda-se avaliação prévia criteriosa quanto à posologia do medicamento. Quando diversas doses forem recomendadas, a estratégia de pior caso (maior dose máxima diária) é a recomendada para o cálculo dos limites de produtos de degradação, a menos que haja um racional técnico-científico robusto para o uso de outro tipo de abordagem. 32 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Para medicamento de uso tópico, a dose máxima, embora difícil, não é impossível de ser estimada (ver, por exemplo, a revisão elaborada por [31]). Procedimentos devidamente justificados e bem embasados podem ser aceitos. Outra opção, que pode ser utilizada como modelo do tipo "pior caso" seria considerar como dose máxima diária a utilização de todo o conteúdo da maior apresentação e maior concentração disponível do produto. Nos casos em que a dose máxima diária do medicamento é expressa por peso ou superfície corporal, dados populacionais (por exemplo, dados do IBGE ou tabelas padronizadas da OMS) são recomendadas para fins de cálculo de dose máxima. A estratégia de uso de peso médio adulto de 50 kg, utilizada no guia ICH Q3C [32] não é recomendada no cenário de cálculo de dose máxima para fins de avalição de limites de produtos de degradação. Isso porque os cálculos propostos nos guias são diferentes. No cenário de avaliação de PDE (limites máximos permitidos), a avaliação do limite da impureza é realizada de modo direto e quanto menor o peso proposto, menor o limite permitido. Assim, neste contexto, o uso de um peso baixo, de 50 kg, é uma abordagem conservadora. Por outro lado, para o cálculo de limites de produtos de degradação, a avaliação do limite permitido é realizada de modo direto e inversamente proporcional à dose máxima do IFA. Neste contexto, quanto menor o peso proposto, maior o limite permitido. Neste segundo cenário, o uso de um peso baixo, de 50 kg, é uma abordagem permissiva. Considerando a abordagem de uso de dados do IBGE, os valores recomendados para uso são os maiores valores medianos de altura e peso. Os dados mais recentes disponíveis para adultos, por exemplo, correspondem a 173 cm de altura e 72,7 kg de peso1 [33]. 9.1. Procedimentos para identificação de produtos de degradação A identificação dos produtos de degradação deve ser realizada nas situações previstas na Resolução de produtos de degradação. São métodos de identificação de um produto de degradação considerados aceitáveis: a. injeção de um padrão caracterizado ou farmacopeico de uma substância que tenha o mesmo tempo de retenção e o mesmo espectro de UV no método indicativo de estabilidade;0 b. um mecanismo de degradação proposto que leve a uma estrutura confirmada com uma técnica espectroscópica de caracterização (espectros de massas, de RMN, infravermelho); c. caracterização conclusiva, realizada com pelo menos duas técnicas espectroscópicas diferentes (espectros de massas, de RMN, infravermelho). 9.2. Procedimentos para qualificação de produtos de degradação A qualificação de um produto de degradação é uma ferramenta para estabelecer a segurança biológica e a avaliação de dados que atestam a segurança de uma impureza individual ou de um determinado perfil de impurezas especificado A qualificação dos produtos de degradação deve ser realizada nas situações previstas na Resolução. Quando a empresa optar por adotar abordagens analíticas para a qualificação das impurezas, previstas nos incisos II e V do Art. 19 da Resolução, recomenda-se seguir as orientações descritas a seguir, nos subitens 9.2.1 e 9.2.2. 1 Estes dados deverão ser atualizados a partir da divulgação das informações coletadas por meio do Censo mais recente. 33 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 No caso de avaliação de segurança para qualificação de impurezas é recomendado observar as orientações do subitem 9.2.3 e do Guia específico sobre o tema, publicado pela GESEF. 9.2.1. Uso de compêndios oficiais para qualificação de produtos de degradação O inciso II do Art. 19 da Resolução considera qualificados os limites de aceitação propostos quando presentes em compêndios oficiais. Os compêndios aceitos pela Anvisa estão definidos na Resolução nº 511/2021 [34]. Conforme previsto na Resolução, este tipo de qualificação se aplica aos casos algum dos compêndios oficiais listados disponibiliza a monografia do produto objeto de análise (mesmo produto) na mesma forma farmacêutica, para a mesma via de administração proposta. Para tanto, o requerente deverá apresentar breve justificativa na petição de registro ou pós-registro para a utilização de tais limites, considerando as características de uso do produto, incluindo a forma farmacêutica e a via de administração proposta. As especificações descritas na monografia do produto acabado devem ser adotadas integralmente pela empresa. Pode ser aceita a inclusão de testes além dos especificados na monografia e a restrição dos limites propostos para os testes elencados na monografia. Recomenda-se a apresentação da cópia da monografia vigente na íntegra. Entende-se que impurezas advindas inicialmente do IFA, mas que também são esperadas no produto acabado em limites superiores aos limites de identificação e controle sugeridos pelos guias internacionais, estarão descritas na monografia do produto acabado. A qualificação de impurezas, incluindo produtos de degradação, presentes no produto acabado, com base em dados compendiais, é avaliada em conjunto com a análise de qualidade, de modo que tais dados devem compor a petição inicial de registro ou pós-registro do produto, não sendo necessário o envio do aditamento específico de qualificação de impurezas. Também conforme previsto na Resolução, a qualificação de produto de degradação que estiver de acordo com monografia vigente em compêndio oficial, referente ao IFA presente no medicamento objeto de análise ou referente a medicamento em forma farmacêutica diferente da proposta para registro ou em via de administração diferente da proposta para uso dependerá da apresentação de justificativa técnica acompanhada, se necessário, de dados experimentais adicionais, que demonstrem que os limites de qualificação propostos não resultam em incremento de risco para o paciente. No que se refere ao IFA, é importante esclarecer que a monografia do insumo se aplica apenas a ele, dado que outros fatores, que não só a entidade química em si, podem influenciar na formação de impurezas. A presença de impurezas, resíduos de catalisadores e solventes, a interação com os excipientes e o impacto das etapas posteriores da produção, dentre outros fatores, podem afetar a formação de impurezas no produto acabado. Da mesma forma, diferenças na rota de síntese podem ser de relevância no perfil de degradação, principalmente no caso de moléculas complexas com grande número de grupos funcionais. No que se refere a alterações de formas farmacêuticas, as alterações de processo produtivo e excipientes também podem impactar significativamente o perfil de degradação do produto. A via de administração é um item de relevância maior quando da avaliação da segurança do medicamento, uma vez que impurezas administradas por vias diferentes podem apresentar maior ou menor toxicidade, a depender de fatores toxicocinéticos tais como absorção, biodisponibilidade e efeito de primeira passagem. Assim, recomenda-se que essesfatores sejam levados em consideração na justificativa técnica apresentada. 34 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Nos casos em que a qualificação de produtos de degradação com base na monografia do IFA ou monografia de um medicamento em forma farmacêutica diferente da proposta para registro ou em via de administração for justificada apenas por dados de qualidade, os dados devem compor a petição inicial de registro ou pós-registro do produto, não sendo necessário o envio do aditamento específico de qualificação de impurezas. Quando a justificativa envolver a apresentação de dados de segurança adicionais (por exemplo, avaliação de fatores toxicocinéticos, no caso de diferentes vias de administração), o aditamento de qualificação de impurezas, contendo todos os dados de segurança disponíveis e o racional da empresa deverá ser protocolado. 9.2.2. Qualificação de produtos de degradação por estudos de comparabilidade Conforme estabelecido na Resolução, para medicamentos genéricos e similares, é possível qualificar os limites de produtos de degradação por meio da comparação da quantidade observada e do limite de aceitação proposto para um produto de degradação com os observados para um medicamento comparador que tenha sido previamente aprovado se adequado previamente aos requisitos da Resolução. Essa via de qualificação de produtos de degradação tem o objetivo de reduzir a necessidade de se realizar estudos em animais. No entanto, devido à implementação relativamente recente do requerimento de notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação (a partir de 2015 para registro e a partir de 2017 para pós-registro), nem todos os medicamentos registrados podem ser eleitos como medicamentos comparadores. Neste contexto, a primeira etapa para a verificação da possibilidade de uso desta via de qualificação é a verificação da existência de um medicamento comparador adequado. O medicamento comparador pode ser o medicamento de referência ou medicamento genérico ou similar ao produto objeto de análise. Independente do produto escolhido, o medicamento comparador deve ter sido aprovado previamente pela Anvisa e se adequado previamente aos requisitos da Resolução ou aos requisitos das normas a que se refere o art. 25 da Resolução, o que significa dizer que produto deve ter solicitado o registro ou mudança pós-registro que requeira adequação à RDC 53/2015 ou a RESOLUÇÃO ANVISA 964/2025 após os prazos de vigência estabelecidos na RDC 53/2015 [35]. A petição em que aconteceu a adequação deve ter sido analisada pela Agência. As informações sobre as petições protocoladas para cada produto e deferidas podem ser consultadas no Diário Oficial da União. Caso não haja medicamento (de referência, genérico ou similar) que se enquadre na situação descrita, esta via de qualificação de produtos de degradação não pode ser usada para o produto. Nos casos em que essa via de qualificação for aplicável, a avaliação levará em conta fatores como a similaridade de perfil de degradação entre os medicamentos comparados, e os limites e concentrações das impurezas que foram aprovados no registro do medicamento comparador em relação aos solicitados pelo medicamento comparado. Nesse caso, não é necessário o envio do aditamento de qualificação de impurezas e produtos de degradação. Para o estudo analítico comparativo, o perfil analítico do medicamento sob análise deve ser comparado ao perfil analítico do medicamento comparador usando um mesmo método analítico validado e comprovadamente indicativo de estabilidade (por exemplo, estudo comparativo de perfis cromatográficos, via HPLC). É recomendável que as amostras utilizadas nos estudos comparativos possuam “idade” semelhante para que a comparação seja significativa. O produto de degradação poderá ser considerado qualificado se a quantidade de produto de degradação identificada no medicamento sob análise for similar aos níveis observados no medicamento comparador e não for superior aos limites aprovados pela 35 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Anvisa. Os limites do produto de degradação que está sendo qualificado devem ser ajustados com base nos limites de degradação observados no medicamento comparador [36, 37, 5]. Conforme esclarecido na Resolução, o limite máximo proposto para o produto de degradação qualificado no medicamento sob análise não poderá ser superior ao limite aprovado para o medicamento comparador. Considerando que não se espera que a empresa detentora do registro possua conhecimento da especificação aprovada para o medicamento comparador, caberá à Anvisa, durante a análise técnica da petição, verificar se as especificações propostas estão de acordo com os limites previamente aprovados. Caso o limite proposto pela empresa seja superior ao aprovado, conforme estabelecido na Resolução, será solicitado à empresa restrição do limite proposto, quando possível, ou qualificação dos produtos de degradação por meio de outro procedimento previsto na Resolução. A fim de facilitar a análise, recomenda-se que os resultados dos estudos realizados com o medicamento comparador sejam apresentados. 9.2.3. Metabólitos, dados de literatura e estudos de toxicidade Mais informações sobre esses procedimentos para qualificação de impurezas podem ser encontradas no documento “Perguntas e Respostas: Fluxo de análise de qualificação de impurezas e produtos de degradação de medicamentos classificados como sintéticos e semissintéticos” [38]. /10/2017 10. RECOMENDAÇÕES PARA PRODUTOS PARA OS QUAIS A NORMA NÃO É APLICÁVEL 10.1. Medicamentos em desenvolvimento clínico A RESOLUÇÃO ANVISA 964/2025 não se aplica para medicamentos em etapas de desenvolvimento clínico. No entanto, a RDC 9/2015 [39], que dispõe sobre o Regulamento para a realização de ensaios clínicos com medicamentos no Brasil, menciona a necessidade de uso de métodos indicativos de estabilidade. Dessa forma, o cumprimento da RESOLUÇÃO ANVISA 964/2025 pode ser dividido em duas partes: a. cumprimento das especificações dispostas no Anexo I (limites de notificação, identificação, qualificação), e b. cumprimento dos requisitos relacionados ao desenvolvimento de método analítico indicativo de estabilidade, que envolve a realização dos estudos de degradação forçada. Para medicamentos na fase de registro, é indispensável o cumprimento das duas partes, que estão associadas à demonstração de eficácia, segurança e qualidade, fundamentais ao registro. Para um produto em investigação, que será submetido a um ensaio clínico, é desejável que se tenha uma confirmação em grau razoável da eficácia e segurança, para assegurar a segurança dos sujeitos de pesquisa, porém é plausível considerar que alguns atributos de qualidade ainda não estejam definidos de maneira conclusiva. Por isso, o cumprimento da primeira parte da RESOLUÇÃO ANVISA 964/2025 pode não ser totalmente atendido, desde que seja demonstrado que o produto pode ser administrado com segurança aos sujeitos. Entretanto, se o produto sob investigação não for submetido a estudo de estabilidade com método analítico adequado, haverá dificuldade em determinar, nas etapas seguintes, quais são, de fato, os atributos de qualidade fundamentais do medicamento. Mais especificamente, se o método utilizado no estudo de estabilidade do produto sob investigação não for indicativo 36 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 de estabilidade para produtos de degradação, não serápossível definir o perfil de degradação do medicamento, e disso surgirão dois problemas: a. a segurança aos sujeitos de pesquisa não poderá ser confirmada, visto que não é confirmada a identidade, qualidade e pureza do medicamento em investigação, e b. após o estudo, no momento do registro, poderá não haver dados suficientes para definição das especificações de produtos de degradação (por exemplo, caso determinado produto de degradação esteja acima do limite de qualificação, não será possível saber se o mesmo ocorreu com o produto no ensaio clínico). Neste contexto, embora o completo cumprimento dos atributos da RESOLUÇÃO ANVISA 964/2025 possa não ser aplicável aos produtos objetos de ensaios clínicos, recomenda-se que a aplicabilidade de conceitos semelhantes aos desta norma seja avaliada pela área responsável pela avaliação de ensaios clínicos em cada estágio do desenvolvimento do medicamento. 10.2. Medicamentos contendo IFA obtidos por fermentação Os medicamentos contendo IFA obtidos por fermentação e seus derivados semissintéticos estão isentos de cumprimento do disposto na Resolução. Conforme descrito no item anterior, a não aplicabilidade da Resolução aos medicamentos contendo os IFA elencados está associada aos limites determinados no Anexo I. Isso porque o processo de fermentação, quando comparado com o processo de síntese, é mais variável e menos controlável, de modo que o perfil de impurezas de um IFA cujo processo de fabricação envolve a fermentação pode ser mais complexo e menos previsível do que o de um produto obtido puramente por via sintética. O entendimento técnico é de que a comprovação do poder indicativo de estabilidade do método ainda precisa ser comprovada para esses medicamentos, de modo que o estudo de degradação forçada seja realizado para esses medicamentos, com o objetivo de comprovar a seletividade e o poder indicativo do método. Quanto à definição das especificações, para antibióticos obtidos por vias fermentativas, sugerimos consultar o documento “Guideline on setting specifications for related impurities in antibiotics” [40]. É importante ressaltar que a obtenção do IFA por via fermentativa não deve ser usada como justificativa única para o estabelecimento de especificações demasiado alargadas. Da mesma forma, é importante que haja uma compreensão adequada das etapas de síntese e purificação após a fermentação, visto que, quanto mais etapas sintéticas/ de purificação forem realizadas, mais puro será o IFA final. Como exemplo, o Guia da Agência Europeia de Medicamento (EMA), que foi citado anteriormente e recomenda-se ser seguido, orienta que limites idênticos aos estabelecidos na Resolução sejam adotados para IFAs semissintéticos. Conforme mencionado no guia, “etapas de purificação e etapas subsequentes de síntese tornam possível a obtenção de substâncias ativas com baixos níveis de impurezas. Em muitos casos, o “material de partida” designado para as etapas de síntese é um composto bem caracterizado e de boa pureza (por exemplo, 6-APA e 7-ACA)”. No caso de medicamentos à base de IFAs que podem ser obtidos por vias fermentativas ou sintéticas, como a amoxicilina, a Resolução se aplicará ao medicamento se o IFA for obtido pela via sintética. Para o IFA obtido por via fermentativa, recomenda-se seguir a estratégia descrita anteriormente. 37 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 10.3. Medicamentos contendo IFA sintético em associação Conforme definido no §2° do Art. 2°, no caso de medicamentos que tem vários ativos, alguns dos quais são isentos de cumprimento da Resolução, os conceitos da Resolução devem ser seguidos para todos os IFAs aos quais ela se aplica. Por exemplo, considere um medicamento à base de diclofenaco sódico associado a vitaminas e minerais: a Resolução se aplica integralmente ao diclofenaco sódico. Para as vitaminas e minerais, a Resolução, em especial os limites estabelecidos no Anexo I, não se aplicam. No entanto, conforme descrito anteriormente, será necessário demonstrar o poder indicativo de estabilidade do método para esses IFAs, para fins de cumprimento das Resoluções que tratam de validação analítica e estabilidade. 10.4. Medicamentos contendo IFAs enquadrados no inciso IV do Art. 3º da RESOLUÇÃO ANVISA nº 964, de 2025 Os medicamentos contendo IFAs enquadrados no inciso IV do Art. 3º da RDC nº XX, de XXX, são enquadrados, em sua maioria, como medicamentos específicos, conforme estabelecido na RDC 24/2011 [41] ou medicamentos de baixo risco, notificados conforme a RDC 576/2021 [42]. Para esses medicamentos, a empresa deverá quantificar, nos estudos de estabilidade, todos os produtos de degradação listados na(s) monografia(s) farmacopeica(s) de produto acabado e do IFA, ainda que os métodos farmacopeicos não sejam os empregados no controle de qualidade do medicamento. Nos casos em que não houver monografia farmacopeica para o medicamento ou para o IFA e nos casos em que a(s) monografia(s) não incluir(em) o teste de substâncias relacionadas, o medicamento deve ser exposto a condições de degradação em ampla faixa de pH, de oxidação, de calor e de luz para comprovação da seletividade, durante a validação de metodologia analítica (ou verificação da adequabilidade do método farmacopeico) do método de teor, conforme previsto na RDC 166/2017 [43]. Após comprovação da seletividade do método e a obtenção dos resultados de estabilidade, a seguinte análise é recomendada: a. se a variação de teor do IFA nos estudos de estabilidade do medicamento for inferior às variações obtidas na precisão intermediária do método analítico, nenhum teste adicional é necessário, e b. se a variação de teor do IFA na estabilidade for superior à variação da precisão intermediária, a empresa deverá apresentar dados de literatura com a identificação das principais vias de degradação e dos principais produtos de degradação do IFA, sendo que: i. se o produto de degradação identificado na literatura não possuir toxicidade relevante, a empresa deverá apresentar justificativa técnica correlacionando o teor de IFA obtido ao final do estudo de estabilidade e a eficácia do medicamento e, sendo comprovado que o teor de IFA ao final do estudo de estabilidade ainda é elevado o suficiente para manter a eficácia do medicamento, nenhum teste adicional é necessário, e ii. se nenhum dado sobre a degradação do IFA estiver disponível ou os dados da literatura indicarem que o(s) produto(s) de degradação é(são) tóxico(s), a empresa deverá qualificar o(s) produto(s) de degradação, estabelecer os limites aceitáveis e quantificar o(s) produto(s) de degradação nos estudos de estabilidade subsequentes. GERÊNCIA GERAL DE MEDICAMENTOS E PRODUTOS BIOLÓGICOS 38 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Para o estabelecimento dos limites de produtos de degradação deve-se observar o seguinte: o dos limites de produtos de degradação deve-se observar o seguinte: a. quando a monografia farmacopeica se referir ao produto acabado, recomenda- se que o limite a ser estabelecido seja idêntico ao fixado na monografia farmacopeica. Se houver limites diferentes fixados em diferentes monografias de farmacopeias reconhecidas pelas Anvisa, recomenda-se que o valor mais crítico seja adotado; b. caso o produto de degradação esteja listado apenas na monografia do IFA, é recomendável que a especificação de produtos de degradação do medicamento seja estabelecida pela empresa a partir de um racional que considere a quantidade de IFA adicionada ao medicamento; c. nos casos em produtos de degradação tóxicos forem identificados na literatura, as especificaçõesdevem ser definidas com base nos dados de toxicidade disponíveis para a substância que está sendo monitorada, e d. nos casos em que nenhum dado de literatura prévio estiver disponível, as especificações devem ser estabelecidas com base na qualificação do produto de degradação. É importante lembrar que, na mesma linha dos medicamentos aos quais a Resolução se aplica, para medicamentos abordados nessa seção, as impurezas de síntese do IFA não precisam ser incluídas na especificação do medicamento. Para medicamentos da categoria específicos ou notificados de baixo risco que contenham drogas ou derivados vegetais como IFA, recomenda-se observar, também, as orientações estabelecidas na seção 10.5 deste guia, que trata dos medicamentos contendo IFA vegetal (IFAV). Destaca-se que, conforme definição de derivado vegetal constante nas RDC 24/2011 [41] e 26/2014 [44], os fitofármacos não estão compreendidos nessa seção. As informações descritas acima estão sumarizadas na Figura 3. 39 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Figura 3. Fluxograma para avalição de produtos de degradação em medicamentos específicos, de baixo risco (sujeitos a e de notificação simplificada) e contendo IFA(s) atípicos Há monografia farmacopeica para o medicamento ou IFA? Há produto de degradação listado na monografia? Monitorar o(s) produto(s) de degradação listado(s) conforme especificação farmacopeica do medicamento ou definir específicação conforme o teor do IFA no medicamento. Há na literatura algum produto de degradação descrito como tóxico? Monitorar o(s) produto(s) de degradação descrito(s) na literatura e alinhar a especificação com os limites de segurança estabelecidos na literatura. Nenhum teste adicional é necessário A variação de teor do IFA nas amostras estressadas durante a validação do método analítico foi inferior aos limites estabelecidos na precisão intermediária? Nenhum teste adicional é necessário O teor do IFA ao final do estudo é inferior ao necessário para manter a eficácia do medicamento, ou não há dados sobre a degradação do IFA ou, ainda, foi identificado na literatura produto de degradação descrito como tóxico? Monitorar o(s) produto(s) de degradação descrito(s) na literatura e alinhar a especificação com os limites de segurança estabelecidos na literatura. Nenhum teste adicional é necessário. Sim Não Sim Sim Sim Não Não Não Não Sim 10.5. Medicamentos contendo IFAV A necessidade de avaliação de produtos de degradação em fitoterápicos é avaliada caso a caso, conforme propostas descritas nos fluxogramas das Figuras 4 e 5 e detalhadas a seguir. Devido à complexidade existente na matriz vegetal, em geral, deve-se avaliar produtos de degradação que tenham relevância toxicológica, como as agliconas em IFAV contendo glicosídeos hidroxiantracênicos [45]. Para medicamentos contendo IFAV, quando houver produtos de degradação listados em monografia farmacopeia para a droga, o derivado ou para o produto acabado, estes devem ser quantificados nos estudos de estabilidade, ainda que a empresa não adote os métodos da farmacopeia para fins de controle de qualidade do IFAV ou do medicamento. Quando a monografia farmacopeica se referir ao produto acabado, o limite a ser estabelecido deve ser o fixado na monografia farmacopeica. Nos casos em que o produto de degradação estiver listado na monografia da droga ou do derivado, a especificação para o produto acabado deve ser estabelecida pela empresa e o racional para definição da especificação deve ser apresentado, considerando-se a quantidade de IFAV adicionada ao medicamento. Se houver limites diferentes fixados em monografias diferentes, o valor mais crítico deve ser adotado. Para as espécies vegetais que não possuem monografia farmacopeica, nem para o produto acabado, nem para a droga ou para o derivado vegetal, a empresa deverá verificar na literatura se há relatos de produtos de degradação descritos para a espécie que coloquem em risco a segurança de uso do produto utilizado. Neste caso, quando houver documentos recentes contendo revisões abrangentes sobre a espécie e seus constituintes, por exemplo, os “Assessment report” publicados pela EMA/HMPC, essas revisões podem ser apresentadas para cumprimento desse requisito. Nos casos em que não houver nenhum dado de literatura sobre a espécie, a empresa deverá realizar investigação sobre os principais constituintes fitoquímicos presentes e verificar a presença de compostos de relevância toxicológica, conforme dados prévios de literatura técnico-científica. No caso da existência de produtos descritos como de relevância toxicológica, suas especificações devem ser definidas com base nos dados de toxicidade disponíveis para a substância ou classe de substâncias descritas e devem ser monitorados nos estudos de estabilidade. As informações descritas acima estão sumarizadas nas Figuras 4 e 5. 41 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Figura 4. Proposta para avaliação da necessidade de quantificação de produtos de degradação nos casos em que há monografia farmacopeica (produtos contendo IFAV) Há monografia farmacopeica para o medicamento? Há produtos de degradação listado na monografia? Monitorar o produto de degradação listado. O limite do produto de degradação no medicamento deve estar de acordo com a especificação farmacopeica Há na literatura algum produto de degradação descrito como tóxico e identificado para a espécie? Monitorar o produto de degradação descrito. O limite do produto de degradação no medicamento deve estar de acordo com o limite de segurança do produto de degradação descrito na literatura Nenhuma ação é necessária Sim Sim Não Sim Não 42 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Figura 5. Proposta para avaliação da necessidade de quantificação de produtos de degradação nos casos em que é realizada busca na literatura (produtos contendo IFAV) Para medicamentos dinamizados contendo tintura-mãe em concentração igual ou superior a 1/10000, é recomendável adotar o mesmo procedimento descrito anteriormente para o IFAV. Para os medicamentos dinamizados de concentração inferior a 1/10000, não é necessária avaliação de produtos de degradação. OS RÊNCIA GERAL DE MEDICAMENTOS E PRODUTOS BIOLÓGICOS Assunto: RDC 53/2015 e Guia 4/2015 Edio 2.1 de 04/10/2017 11. CONCLUSÃO O controle adequado dos produtos de degradação em medicamentos é fundamental para garantia da qualidade, da segurança e, em alguma medida, da eficácia desses produtos. Assim sendo, espera-se que as orientações dispostas nesse guia sejam úteis para garantir o adequado cumprimento da RESOLUÇÃO ANVISA 964/2025 e, em última análise, do disposto na Lei 6.360/1976, que determina que o medicamento deve possuir a pureza e inocuidade necessárias (Art. 16, inciso II, [4]) Há monografia farmacopeica para o medicamento? Há monografia farmacopeica para a droga ou derivado? Monitorar o produto de degradação listado. O limite do produto de degradação no medicamento deve ser estabelecido de acordo com o teor do IFAV no medicamento Há na literatura algum produto de degradação descrito como tóxico e identificado para a espécie? Monitorar a substância ou classe descrita na literatura. O limite do produto de degradação no medicamento deve estar de acordo com o limite de segurança do produto de degradação descrito na literaturaHá dado de literatura sobre produto de degradação com potencial tóxico? Monitorar o produto de degradação descrito. O limite do produto de degradação no medicamento deve estar de acordo com o limite de segurança do produto de degradação descrito na literatura Nenhuma ação é necessária Não Sim Não Não Sim Sim Não 43 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 12. LISTA DE ABREVIAÇÕES E SIGLAS 6-APA Ácido 6-aminopenicilânico 7-ACA Ácido 7-aminocefalosporínico Anvisa Agência Nacional de Vigilância Sanitária AIBN Azobisisobutironitrila ACVA Ácido 4,4'-Azobis(4-cianovalérico) Art. Artigo BM Balanço de massas simples BMA Balanço de massas absoluto BMR Balanço de massas relativo CNLD Chemiluminescent nitrogen detector (Detector quimioluminescente de nitrogênio) CTD Common technical document (Documento técnico comum) GRU Guia de recolhimento da união DABM Deficiência absoluta de balanço de massas DAD Diiode Array Detector (detector de arranjo de diodos) DIFA Dossiê de insumo farmacêutico ativo DOU Diário Oficial da União DRBM Deficiência relativa de balanço de massas EMA European Medicines Agency ELSD Evaporative light scattering detector (Detector de dispersão evaporativa de luz) FDA U.S. Food and Drug Administration GESEF Gerência de Avaliação de Segurança e Eficácia HPLC High performance liquid chromatography (Cromatografia líquida de alta eficiência) HPMC Committee on Herbal Medicinal Products (European Medicines Agency) IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica ICH International Council for Harmonisation of Technical Requirements For Pharmaceuticals for Human Use (Conselho Internacional para Harmonização de Requisitos Técnicos para Medicamentos de Uso Humano IFA Insumo farmacêutico ativo IFAV Insumo farmacêutico ativo vegetal IFDC International Forced Degradation Community MS Mass spectrometry (espectrometria de massas) NMP N-metil-pirrolidona OMS Organização Mundial da Saúde RDC Resolução de Diretoria Colegiada 44 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 RID Refractive index detector (detector por índice de refração) RMN Ressonância Magnética Nuclear UV Ultravioleta 45 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 13. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [1] Anvisa, “Estabelece os critérios para a realização dos Estudos de Degradação Forçada em medicamentos contendo insumos farmacêuticos ativos sintéticos e semissintéticos e define os parâmetros para a notificação, identificação e qualificação de produtos de...,” RESOLUÇÃO ANVISA n° 964, de 20 de fevereiro de 2025, 2025. [2] ICH, “Impurities in New Drug Products,” Q3B(R2), 2006. [3] J. M. Campbell, C. Foti, C. Wang, N. Adams, L. R. Allain, G. Araujo, R. Azevedo, J. R. Franca, S. R. Hicks, S. Hostyn, Jansen, P. J, D. Kotoni, A. Kuemmell, S. Marden, G. Rullo, A. C. O. Santos, G. W. Sluggett, T. Zelesky e S. W. Baertschi, “Assessing the relevance of solution phase stress testing of solid dosage form drug products: a cross- industry benchmarking study,” Journal of Pharmaceutical Sciences, vol. 111 , nº 2, pp. 298-305, 2022. [4] BRASIL, “Dispõe sobre a Vigilância Sanitária a que ficam sujeitos os Medicamentos, as Drogas, os Insumos Farmacêuticos e Correlatos, Cosméticos, Saneantes e Outros Produtos, e dá outras Providências,” Lei n° 6.360, de 23 de setembro de 1976, 1976. [5] EMA, “Recommendation on the Assessment of the quality of medicinal products containing existing/ known active substances,” EMA/CHMP/CVMP/QWP/450653/2006, 2009. [6] Anvisa, “Regulamenta o procedimento de petições submetidas à análise pelos setores técnicos da ANVISA e revoga a RDC nº 349, de 3 de dezembro de 2003,” RDC n° 204, de 6 de julho de 2005, 2005. [7] ICH, “Stability testing: photostability testing of new drug substances and products,” Q1B, 1996. [8] Anvisa, “Estabelece os critérios para a realização de Estudos de Estabilidade de insumos farmacêuticos ativos e medicamentos, exceto biológicos, e dá outras providências.,” Resolução - RDC nº 318, de 6 de novembro de 2019, 2019. [9] P. Harmon e G. Boccardi, “Oxidative susceptibility testing,” em Pharmaceutical Stress Testing, Informa Health Care, 2011. [10] OMS, “WHO Expert Commitee on Specifications for Pharmaceutical Preparations – Thirty-ninth Report,” WHO Technical Report Series 929, 2005. [11] S. Klick, P. J. Muijselaar, J. Waterval, T. Eichinger, C. Korn, T. K. Gerding, A. J. Debets, C. Sänger-van de Griend, C. van den Beld, S. G. W e G. J. De Jong, “Toward a Generic Approach for Stress Testing of Drug Substances and Drug Products,” Pharmaceutical Technology, 2005. [12] T. Zelesky, S. W. Baertschi, C. Foti, L. R. Allain, S. Hostyn, J. R. Franca, Y. Li, S. Marden, S. Mohan, U. M, Z. Huang, N. Adams, J. M. Campbell, P. J. Jansen, D. Kotoni e C. Laue, “Pharmaceutical Forced Degradation (Stress Testing) Endpoints: A Scientific Rationale and Industry Perspective,” Journal of pharmaceutical sciences, vol. 112, nº 12, pp. 2948-2964, 2023. [13] P. Harmon e G. Boccardi, “Oxidative susceptibility testing,” em Pharmaceutical Stress Testing: Predicting, 2ª ed., CRC Press, 2011, pp. 168-191. [14] D. W. Reynolds, M. Galvani, S. R. Hicks, B. J. Joshi, S. A. Kennedy-Gabb, M. H. Kleinman e P. Z. Parmar, “The use of N-methylpyrrolidone as a cosolvent and oxidant in pharmaceutical stress testing.,” Journal of pharmaceutical sciences, vol. 2, pp. 761-776, 2012. 46 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 [15] S. Betigeri, A. Thakur e K. Raghavan, “Use of 2, 2′-azobis (2-amidinopropane) dihydrochloride as a reagent tool for evaluation of oxidative stability of drugs,” Pharmaceutical research, vol. 22, pp. 310-317, 2005. [16] M. Dion, W. Y. J. D. Bregante, W. Chan, N. Andersen, A. Hilderbrand, D. Leiske e C. M. Salisbury, “he Use of a 2, 2'-Azobis (2-Amidinopropane) dihydrochloride stress model as an indicator of oxidation susceptibility for monoclonal antibodies,” Journal of pharmaceutical sciences, vol. 107, nº 2, pp. 550-558, 2018. [17] E. D. Nelson, P. A. Harmon, R. C. Szymanik, M. G. Teresk, L. Li, R. A. Seburg e R. R. A. , “Evaluation of solution oxygenation requirements for azonitrile-based oxidative forced degradation studies of pharmaceutical compounds,” Journal of pharmaceutical sciences, vol. 95, nº 7, pp. 1527-1539, 2006. [18] E. D. Nelson, G. M. Thompson, Y. Yao, H. M. Flanagan e P. A. Harmon, “Solvent effects on the AIBN forced degradation of cumene: Implications for forced degradation practices,” Journal of pharmaceutical sciences, vol. 98, nº 3, pp. 959-969, 2009. [19] M. A. Watkins, S. Pitzenberger e P. A. 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Huang, “Liquid Chromatographic Peak Purity Assessments in Forced Degradation Studies: An Industry Perspective,” LCGC International, pp. 22-31, 2024. [23] FDA, “Establishing Impurity Acceptance Criteria as Part of Specifications for NDAs, ANDAs, and BLAs Based on Clinical Relevance,” MAPP 5017.2, nº Rev. 1, 2020. [24] Anvisa, “Guia de Estudos de Estabilidade,” Guia n°28/2019, versão 1, 2019. [25] ICH, “Stability testing of new druf substances and products,” Q1A(R2), 2003. [26] M. A. Nussbaum, P. J. Jansen e S. W. Baertschi, “Role of "Mass Balance" in Pharmaceutical Stress Testing,” em Pharmaceutical Stress Testing, Informa Health Care, 2011. [27] S. Marden, J. M. Campbell, N. Adams, R. Coelho, C. Foti, J. R. Franca, S. Hostyn, Z. Huang, M. Ultramari, T. Zelesky e S. W. Baertschi, “Mass Balance in Pharmaceutical Stress Testing: A Review of Principles and Practical Applications,” The AAPS Journal, vol. 26, nº 5, 2024. [28] S. W. Baertschi, P. B. W. C. S. H. Hyzer e M. A. Nussbaum, “Assessing mass balance in pharmaceutical drug products: New insights into an old topic.,” Trends in Analytical Chemistry, vol. 49, 2013. [29] Anvisa, “Guia para organização do documento técnico comum (CTD) para o registro e pós-registro de medicamentos,” Guia 24/2019, versão 1, 2019. [30] Anvisa, “Estabelece regras para elaboração, harmonização, atualização, publicação e disponibilização de bulas de medicamentos para pacientes e para profissionais de saúde,” RDC nº 47, de 08 de setembro de 2009 , 2009. 47 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 [31] R. K. Chang, A. Raw, R. Lionberger e L. Yu, “Generic development of topical dermatologic products: formulation development, process development, and testing of topical dermatologic products.,” The AAPS journal, vol. 15, nº 1, pp. 41-52, 2013. [32] ICH, “Impurities: guideline for residual solvents,” Q3C(R9), 2024. [33] IBGE, “Estimativas populacionais das medianas de altura e peso de crianças, adolescentes e adultos, por sexo, situação do domicílio e idade,” 2008. [34] Anvisa, “Dispõe sobre a admissibilidade de códigos farmacêuticos estrangeiros,” RDC nº 511, de 27 de maio de 2021, 2021. [35] Anvisa, “Estabelece parâmetros para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação em medicamentos com substâncias ativas sintéticas e semissintéticas, classificados como novos, genéricos e similares, e dá outras providências.,” Resolução de Diretoria Colegiada - RDC nº 53, de 4 de dezembro de 2015, 2015. [36] OMS, “Annex 6 - Guidelines on submission of documentation for a multisource (generic) finished pharmaceutical product: quality part,” WHO Technical Report Series No. 986, 2014. [37] FDA, “Guidance for Industry - ANDAs: Impurities in Drug,” 2010. [38] Anvisa, “Perguntas e Respostas: Fluxo de análise de qualificação de impurezas e produtos de degradação de medicamentos classificados como sintéticos e semissintéticos,” 1ª Edição, 2019. [39] Anvisa, “Dispõe sobre o Regulamento para a realização de ensaios clínicos com medicamentos no Brasil,” Resolução da Diretoria Colegiada - RDC nº 9, de 20 de fevereiro de 2015, 2015. [40] EMA, “Guideline on setting specifications for related impurities in antibiotics,” 2012. [41] Anvisa, “Dispõe sobre o registro de medicamentos específicos,” Resolução da Diretoria Colegiada - RDC nº 24, de 14 de junho de 2011, 2011. [42] Anvisa, “Dispõe sobre a notificação de medicamentos de baixo risco,” Resolução RDC nº 576, de 11 de novembro de 2021, 2021. [43] Anvisa, “Dispõe sobre a validação de métodos analíticose dá outras providências,” Resolulção RDC nº 166, de 24 de julho de 2017, 2017. [44] Anvisa, “Dispõe sobre o registro de medicamentos fitoterápicos e o registro e a notificação de produtos tradicionais fitoterápicos,” Resolulção - RDC nº 26, de 13 de maio de 2014, 2014. [45] EMA, “Guideline on specifications: test procedures and acceptance criteria for herbal substances, herbal preparations and herbal medicinal products/traditional herbal medicinal products,” EMA/CPMP/QWP/2820/00 Rev. 2/ EMA/CVMP/815/00 Rev. 2/ EMA/HMPC/162241/2005 Rev. 2, 2011. [46] D. O. Toginho Filho e A. C. Andrello, Catálogo de Experimentos do Laboratório Integrado de Física Geral, Londrina: Universidade Estadual de Londrina, 2009. [47] IFDC, “Evaluating Mass Balance,” ANVISA Workshop, 16 May 2022, 2022. [48] E. D. Nelson, P. A. S. R. C. Harmon, M. G. Teresk, L. Li, R. A. Seburg e R. A. Reed, “Evaluation of solution oxygenation requirements for azonitrile-based oxidative forced degradation studies of pharmaceutical compounds,” Journal of pharmaceutical sciences, pp. 1527-1539., 2006. 48 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Anexo I - Avaliação de impacto da variabilidade analítica nos cálculos de balanço de massas via cálculos de propagação de erros Para a avaliação do impacto da variabilidade analítica nos cálculos de balanço de massas, recomenda-se que os valores de precisão intermediária sejam utilizados como referência. A avaliação apresentada a seguir considera que: • Para as somas e subtrações (𝑅 = 𝑎 ± 𝑏), a variança da resposta (𝜎𝑅) pode ser calculada pela seguinte equação [46]: (𝜎𝑅) 2 = (𝜎𝑎)2 + (𝜎𝑏) 2 Onde, (𝜎𝑎)2 e (𝜎𝑏) 2 são as varianças de cada um dos parâmetros da equação. • Para as multiplicações e divisões (𝑅 = 𝑎 × 𝑏 ou 𝑅 = 𝑎 𝑏⁄ , a variança da resposta (𝜎𝑅) pode ser calculada pela seguinte equação [46]: ( 𝜎𝑅 𝑅 ) 2 = ( 𝜎𝑎 𝑎 ) 2 + ( 𝜎𝑏 𝑏 ) 2 • Onde, 𝜎𝑎 e 𝜎𝑏 são os desvios padrão-relativos de cada termo da equação. Para aplicação das equações descritas acima, é necessário que os valores de desvio padrão relativo sejam convertidos em desvio-padrão. Tomando o exemplo descrito no item 7.2 deste guia, se considerarmos um desvio padrão relativo de ±2% para o método de teor e de ±10% para o método de determinação de produtos de degradação, as medidas podem descritas da seguinte forma: • Teor do IFA na amostra não degradada (Ti): 97,2% ± 1,9% • Somatório de produtos de degradação na amostra não degradada (PDi): 0,30% ± 0,03% • Teor do IFA na amostra após degradação (TD): 80,6% ± 1,6% • Somatório de produtos de degradação na amostra após degradação (PDD): 5,7%± 0,6% Aplicado as equações descritas anteriormente, os valores de balanço de massas corrigidos pela variação analítica serão: • BM: 86,3% ± 2,2% • BMA: 88,5% ± 2,9% • DAMB: 11,5% ± 2,9% • BMR: 32,5% ± 3,3% • DRBM: 67,5% ± 3,3% Intervalos de confiança, com 95,4% de certeza (α=0,954) são obtidos quando a média se encontra no intervalo de ±2σ [46]: Assim, os intervalos de confiança (IC) calculados para os balanços de massas indicados acima serão: 49 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 • IC BM: (81,9% - 90,7) • IC BMA: (82,7% - 94,3%) • IC DAMB: (5,7% - 17,3%) • IC BMR: (25,9% - 39,1%) • IC DRBM: (60,9% - 74,1) É esperado que o intervalo de confiança do valor de balanço de massa (absoluto ou relativo) passe pelo 100%. Por outro lado, espera-se que os intervalos de confiança dos desvios de balanço de massas (absoluto ou relativo) passem pelo zero. É importante observaridentificação e qualificação de produtos de degradação. Este Guia abrange os seguintes temas: • Aspectos práticos relacionados à realização do estudo de degradação forçada; • Requisitos quanto aos métodos de análise; • Requisitos quanto às especificações e reporte de resultados; • Interpretação dos resultados dos estudos de degradação forçada; • Documentação a ser enviada para a Anvisa sobre perfil de degradação; • Procedimentos para identificação de produtos de degradação; • Procedimentos para qualificação de produtos de degradação, e • Recomendações para tratamento de produtos para os quais a Resolução não se aplica ou se aplica parcialmente. As definições adotadas neste guia são as mesmas utilizada no Art. 4° da RESOLUÇÃO ANVISA 964/2025 [1]. Cabe destacar que o Capítulo III da RESOLUÇÃO ANVISA 964/2025 [1] é o instrumento regulatório de internalização das informações de caráter mandatório estabelecidas no Guia ICH Q3B [2]. As recomendações adicionais estabelecidas na referência citadas estão incorporadas neste Guia, em especial nas seções 6 e 9. Os demais capítulos da RESOLUÇÃO ANVISA 964/2025 [1], em especial o capítulo II, trazem informações estabelecidas em outros Guias ICH ou em outras fontes bibliográficas sobre o desenvolvimento de métodos analíticos indicativos de estabilidade e sobre a melhores práticas para a condução dos estudos de degradação forçada. Da mesma forma, as informações de caráter mandatórios estão incorporadas no texto normativo, ao passo que as recomendações acerca do tema são apresentadas neste Guia. 2. INTRODUÇÃO Conforme definido na RESOLUÇÃO ANVISA 964/2025 [1], o perfil de degradação é a descrição dos produtos de degradação observados no insumo farmacêutico ativo (IFA) ou no produto acabado [1, 2]. Os produtos de degradação, por sua vez, são definidos como impurezas resultantes de alterações químicas do IFA que surgem durante a fabricação e/ou armazenamento do medicamento pelo efeito de fatores como luz, temperatura, pH e água, ou pela reação com um excipiente e/ou com a embalagem primária [1, 2]. O perfil de degradação de um medicamento contempla os produtos de degradação observados no produto acabado [1, 2]. O perfil de degradação de maior interesse sanitário é aquele que inclui os produtos de degradação gerados nas condições às quais o medicamento é exposto ao longo da sua vida útil e corresponde ao obtido após a exposição do medicamento às condições de estabilidade de longa duração propostas para o produto, pelo tempo equivalente ao prazo de validade proposto. Para efeito deste guia, este perfil de degradação, de interesse sanitário, será definido como “perfil de degradação real” e contempla os produtos de degradação relevantes. Conforme definição da Resolução, produtos de degradação relevantes são aqueles observados nos testes realizados no controle de qualidade ou nos estudos de estabilidade 6 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 em concentrações superiores ao limite de notificação definido no Anexo I da Resolução. Também são produtos de degradação relevante os produtos de degradação incluído nas especificações do medicamento, mesmo que, nos estudos de estabilidade, sejam formados em níveis inferiores aos limites de notificação definidos no Anexo I da Resolução [1, 3]. Em estudos bem desenvolvidos, o perfil de degradação real está contido no perfil de degradação obtido no estudo de estabilidade acelerado. O perfil de degradação obtido a partir deste estudo, que é, primariamente, preditivo da estabilidade do medicamento, pode ser relevante em situações especiais, como nos casos de concessão de prazo de validade provisório. A validade dos resultados obtidos nos estudos de estabilidade acelerado e de longa duração e, em consequência, dos perfis de degradação obtidos nesses estudos, é diretamente dependente da qualidade dos métodos analíticos utilizados. Um método analítico indicativo de estabilidade para produtos de degradação é aquele capaz de detectar e quantificar todos os produtos de degradação relevantes do perfil de degradação real. Porém, na prática laboratorial, o desenvolvimento do método analítico ocorre antes da realização dos estudos de estabilidade, de modo que não é possível utilizar as amostras do tempo final do estudo de estabilidade de longa duração para desenvolver o método do estudo. Da mesma forma, o uso de amostras nas quais a degradação foi pouco significativa pode dificultar a identificação de produtos de degradação que, ainda que estejam em níveis baixos, sejam produtos de degradação relevantes para a segurança do paciente. A ausência de comprovação de que o método utilizado no estudo de estabilidade é indicativo de estabilidade pode resultar nos seguintes problemas durante a avaliação dos resultados dos estudos: a. caso seja observada uma ligeira redução no resultado de teor sem observação de produtos de degradação, não é possível saber se a ligeira redução se deve a uma variação intrínseca da análise ou se houve, de fato, degradação do IFA, com a geração de um produto de degradação que não está sendo detectado, e b. caso não seja observada variação de teor, não é possível saber se realmente não houve degradação do IFA ou se não há separação efetiva entre o pico do IFA e de seus produtos de degradação. Por estes motivos, é necessário que haja evidências de que o método é indicativo de estabilidade antes do início do estudo de estabilidade, a fim de garantir que o método analítico é adequado e assegurar a confiabilidade dos resultados dos estudos de estabilidade. Assim, o estudo de degradação forçada é realizado, com o objetivo de causar deliberadamente a degradação em maior escala do IFA ou medicamento, por meio da exposição da amostra, por um curto período, a condições de estresse mais vigorosas que aquela praticada no estudo de estabilidade de longa duração. O estudo de degradação forçada é, portanto, a ferramenta utilizada para o desenvolvimento de método indicativo de estabilidade. No entanto, é importante observar que, uma vez que o perfil de degradação depende das condições de estresse às quais se expõe o produto, o perfil obtido na degradação forçada não será igual aos obtidos nos estudos de estabilidade. Daí a necessidade da realização de degradação forçada em diversas condições, a fim de gerar, na medida do possível, todos os eventuais produtos de degradação relevantes, que poderão aparecer nos estudos de estabilidade de longa duração. Na prática, percebe-se que geralmente aparecem mais produtos de degradação no estudo de degradação forçada do que nos estudos de 7 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 estabilidade. Portanto, o perfil do estudo de degradação forçada (denominado “perfil de degradação potencial”) é, em geral, maior que o perfil de degradação real. O perfil de degradação potencial pode ser diferente do real tanto qualitativamente (compostos diferentes) quanto quantitativamente (concentrações diferentes). Do ponto de vista qualitativo, para estudos de degradação forçada bem desenhados, espera-se que o perfil de degradação real esteja contido no perfil de degradação potencial, conforme demonstrado na Figura 1. Os perfis de degradação obtidos nos estudos de estabilidade acelerado e de longa duração também podem ser qualitativa e quantitativamente diferentes. Figura 1. Relação entre perfil de degradação potencial, obtido no estudo de degradação forçada, o perfil de degradação obtido no estudo de estabilidade acelerado e o perfil de degradação real, obtido no estudo de estabilidade de longa duração. Além da comprovação doque a contribuição relativa da variabilidade do teor para o cálculo de balanço de massas é maior quando o nível de degradação é baixo. Neste contexto, ainda que limites de degradação não sejam obrigatórios, o uso de amostras mais degradadas (por exemplo, na faixa de 5 a 20%), é considerado mais adequado para as investigações de desvios de balanço de massas [28], desde que, para atingir esses níveis de degradação não se faça necessário lançar mão de condições de degradação demasiadamente intensas. 50 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025poder indicativo de estabilidade do método analítico, o estudo de degradação forçada possui objetivos adicionais, que não devem ser desconsiderados quando da sua realização. O primeiro desses objetivos é a detecção de condições às quais o IFA ou o medicamento são particularmente sensíveis. A identificação dessas condições visa auxiliar o desenvolvimento farmacotécnico de produtos mais estáveis, visto que suscetibilidades relevantes podem ser tratadas por meio de uso de excipientes (por exemplo, antioxidantes) e embalagens mais adequados (por exemplo, embalagens primárias fotoprotetoras). Da mesma forma, essas informações são úteis na definição de cuidados específicos que devem ser tomados durante a manipulação e a conservação do medicamento (por exemplo, não expor o medicamento à luz, a altas temperaturas ou, ainda, à umidade excessiva), a fim de evitar a degradação do produto. Neste contexto, pode-se dizer que as informações obtidas dos estudos de degradação são fundamentais para o desenvolvimento de produtos seguros e com qualidade. Outro objetivo do estudo é a determinação, quando possível, dos principais produtos de degradação para uma determinada rota de degradação (por exemplo, de produtos que são típicos da degradação por calor, luz ou oxidação) para facilitar investigações de possíveis desvios da qualidade de produtos que venham a ocorrer ao longo do ciclo de vida do medicamento. Perfil de degradação potencial (degradação forçada) Perfil de degradação da estabilidade acelerada Perfil de degradação real (estabilidade de longa duração) 8 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Para atendimento da Resolução, é solicitada a apresentação do estudo de degradação forçada. Os estudos de degradação forçada são aplicáveis aos métodos de quantificação do teor do IFA e de quantificação de produtos de degradação no medicamento, utilizados nos estudos de estabilidade. A seguir são apresentadas discussões detalhadas que abrangem desde aspectos práticos relacionados à realização do estudo de degradação forçada até sugestões de formas de envio da documentação à Anvisa. Exemplos de justificativas já pacificadas pela área técnica como aceitáveis ou não aceitáveis também são incluídas no texto. Destaca-se que, embora expresse as opiniões técnicas da Agência sobre a melhor forma de cumprimento da Resolução, este documento possui caráter sugestivo. Outras abordagens podem ser aceitas, desde que possuam embasamento científico e que cumpram os requisitos preconizados na Resolução. Além de determinar a realização dos estudos de degradação forçada, a Resolução estabelece os limites para notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação. Os limites, descritos no Anexo I da Resolução, estão harmonizados com a principal referência internacional que versa sobre o tema [2] e têm por principal objetivo garantir a segurança e a qualidade dos medicamentos. Embora presentes em quantidades pequenas, os produtos de degradação podem possuir toxicidade relevante e resultar em efeitos indesejados para o paciente. Neste contexto, o objetivo primário do cumprimento dos requisitos estabelecidos na Resolução é garantir que o medicamento seja seguro, conforme estabelecido no inciso II, Art. 16 da Lei 6.360/1976 [4]. É preciso relembrar que as impurezas, incluindo os produtos de degradação, quando presentes no medicamento, representam um risco adicional desnecessário para o paciente. Neste contexto, o desenvolvimento do produto (incluindo, entre outros fatores, aspectos de formulação, processo e material de embalagem) deve visar à manutenção dos níveis mais baixos possíveis de impurezas [5]. 3. BASE LEGAL RESOLUÇÃO ANVISA nº 964, de 20 de fevereiro de 2025, publicada no DOU de 24 de fevereiro de 2025 [1]. 4. ASPECTOS PRÁTICOS RELACIONADOS À REALIZAÇÃO DO ESTUDO DE DEGRADAÇÃO FORÇADA 4.1. Quando realizar e quando repetir o estudo de degradação Conforme previsto no Art. 2° da Resolução, o estudo de degradação forçada é aplicável a medicamentos contendo IFA sintético e/ou semissintético em sua composição, inclusive quando associado a outros IFAs Para os casos em que o estudo é aplicável, o estudo de degradação forçada deve ser realizado para: a. registro de medicamentos; b. inclusões de novas concentrações; c. alterações pós-registro em que é necessária a adequação do produto (Art. 23 da Resolução, e d. casos em que a Anvisa solicitar a adequação do produto (Art. 23, §3° da Resolução). 9 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 O estudo de degradação forçada deve ser repetido: a. nas alterações pós-registro previstas nos incisos II e III do Art.22 da Resolução, e b. nos casos em que houver mudança do método analítico utilizado para realização dos estudos de estabilidade (Parágrafo único do Art. 22 da Resolução); É importante diferenciar claramente os casos que há necessidade de adequar os produtos que ainda não apresentaram o estudo de degradação forçada dos casos em que o estudo precisa ser repetido. Para os produtos em que o estudo de degradação forçada adequado aos termos desta Resolução (ou da RDC 53/2015) já foi apresentado previamente, seja no registro, seja em pós-registro de adequação, o estudo precisa ser repetido nos casos em que houver probabilidade de: a) alteração significativa do perfil de degradação do medicamento (casos previstos nos incisos II e III do Art. 22 da Resolução), ou b) mudança na capacidade de detecção do método (casos previsto no Parágrafo único do Art. 22 da Resolução). Quando o estudo de degradação forçada ainda não foi apresentado, a adequação do produto é necessária (casos previstos no Art. 23). Em alguns casos, a depender do conhecimento científico disponível, é possível justificar a ausência do estudo de degradação forçada (por exemplo, inclusão de nova concentração), da avaliação de amostras específicas (por exemplo, avaliação dos IFAs associados, para associação em dose fixa) ou de condições de degradação específicas (por exemplo, tipos de reação de oxidação que devem ser realizados). Independente do caso, a possibilidade de apresentar justificativas depende da qualidade das informações prévias disponíveis sobre o perfil de degradação e sobre o método, como também sobre a possibilidade de alteração do perfil de degradação potencial conhecido. Ressalta-se, portanto, que, se já existir um perfil de degradação potencial adequado, a empresa não precisa realizar novos estudos experimentais. Nesses casos, a empresa deverá apresentar justificativa técnica para a não execução dos testes, incluindo os motivos pelos quais considera que o perfil de degradação potencial é adequado. Estes motivos devem ser baseados em critérios técnico-científicos. A omissão completa do relatório de degradação forçada nas petições em que esse documento é requerido ou, ainda, a apresentação parcial do documento, sem a apresentação das justificativas técnicas, não é recomendada e pode ensejar no indeferimento da petição objeto de análise, nos termos do parágrafo único do Art. 2º da RDC 204/2005 [6]. Observe-se que o fato de um método estar descrito em monografia oficial, mesmo que em farmacopeia aceita pela Anvisa, não é considerada comprovação suficiente de que ele é indicativo de estabilidade e que o poder indicativo de estabilidade do método deve ser avaliado para o produto específico. Quanto à realização do estudo por risco sanitário, prevista no Art. 23, §3° da Resolução, esta poderá ser solicitada mesmo que não haja nenhuma mudança pós-registro em aberto para o produto. Exemplos de situações em que a solicitação pode ocorrer incluem:a. relatos de eventos adversos associados a um medicamento significativamente maiores que outros medicamentos de igual IFA, forma farmacêutica e concentração, que possam de alguma forma estar ligados à formação de produtos de degradação ou à redução no teor do IFA, e b. identificação, com critérios técnicos e científicos, de alta probabilidade de formação de um produto de degradação de toxicidade potencial mais elevada que o IFA, estando ou não associada a uma formulação específica, que possa colocar em dúvida a relação benefício/risco do medicamento. 10 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Em qualquer caso, os motivos que levaram a Anvisa a solicitar a adequação serão apresentados e debatidos com a(s) empresa(s), e será estabelecido um prazo razoável e factível para a adequação do produto. 4.2. Quem deve realizar o estudo de degradação forçada De um modo geral, o estudo de degradação forçada é realizado pelo fabricante do medicamento, porém, não há impedimento legal para terceirização do estudo. Quando ocorrer terceirização, é responsabilidade da empresa fabricante do medicamento obter o conhecimento e discutir acerca do produto que está sendo desenvolvido ou que faz parte do seu portfólio. Além disso, as normas vigentes quanto à terceirização, incluindo análises de controle de qualidade, se aplicável, devem ser cumpridas. Adicionalmente, o fabricante do medicamento deve se certificar de que: a) os estudos realizados pelo terceiro cumprem a Resolução; b) o mesmo método de análise é usado pelo fabricante do medicamento (ou pela empresa responsável pelos estudos de estabilidade, se aplicável) e pelo terceiro, e c) os dados de validação do método e/ou adequação do sistema do terceiro e do fabricante demonstrem que o método apresenta o mesmo desempenho, evidenciando tecnicamente, por exemplo, por meio da demonstração de que não há grandes diferenças no tempo de retenção, na eficiência da coluna e em outros parâmetros que podem impactar a seletividade, o potencial indicativo de estabilidade do método e capacidade de detecção e quantificação. Para medicamentos importados, não se considera necessário que o importador repita o estudo de degradação forçada desde que: a) os estudos realizados pelo fabricante do medicamento cumpram a Resolução; b) nos casos em que o estudo de estabilidade de acompanhamento seja realizado pelo importador, o mesmo método de análise seja usado pelo fabricante do medicamento e pelo importador, e c) os dados de validação do método e/ou adequação do sistema do importador e do fabricante do medicamento demonstrem que não há grandes diferenças no tempo de retenção, nas intensidades dos sinais, na eficiência da coluna e em outros parâmetros que podem impactar a seletividade e o potencial indicativo de estabilidade do método. O cumprimento do item “c” descrito nos parágrafos anteriores está condicionado à correta definição de testes necessário para avaliação de adequação do sistema. Por exemplo, para métodos em que a sensibilidade é crítica, é recomendável incluir soluções de verificação da relação sinal/ruído. Já para métodos em que a resolução é crítica ou que tem como característica uma variação muito grande dos tempos de retenção, é importante incluir soluções de verificação da resolução entre o ativo e o produto de degradação mais próximo, ou entre dois produtos de degradação muito próximos. 4.3. Informações prévias Antes de iniciar a parte prática do estudo de degradação forçada, deve-se realizar uma pesquisa sobre o(s) IFA(s) e os excipientes utilizados na formulação. São fontes bibliográficas recomendadas para a pesquisa: a. Dossiê do Insumo Farmacêutico Ativo (DIFA), em especial as partes referentes ao perfil de impurezas e ao estudo de degradação forçada, realizado pelo fabricante do IFA; b. Literatura científica, em especial artigos que mencionem o desenvolvimento de métodos indicativos de estabilidade para o(s) IFA(s) envolvido(s), impurezas clinicamente relevantes e incompatibilidade com determinados excipientes, e 11 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 c. Compêndios oficiais. Também podem ser utilizadas para a pesquisa informações técnicas de propriedade da empresa, resultados de estudos anteriores nos quais a degradação do IFA já tenha sido estudada, conhecimentos aprofundados de química orgânica e análises preditivas realizadas em softwares (análises in silico) que auxiliem na avaliação das prováveis rotas de degradação do IFA. No levantamento de informações, recomenda-se: a. identificar grupos funcionais do(s) IFA(s) mais suscetíveis a degradação ou interação com excipientes (por exemplo, ésteres ou aminas); b. identificar vias de degradação mais prováveis para o(s) IFA(s); c. avaliar se existem excipientes que devem ser evitados por potencial de interação química com o IFA; d. identificar se já há produtos de degradação do IFA descritos em literatura; e. avaliar quais seriam os produtos de degradação teoricamente possíveis, considerando as reações mais comuns dos grupos funcionais do(s) IFA(s); f. discutir se é provável que o grupo cromóforo ou outro grupo funcional responsável pela detecção do IFA seja degradado, formando impurezas que possam não ser eficientemente detectadas pelo método proposto; g. discutir se é provável que os produtos de degradação formados sejam detectados em comprimento de onda diverso do comprimento de onda de detecção do IFA ou possuam propriedades químicas que requeiram a detecção por metodologia específica. h. avaliar a possibilidade de formação de produtos de degradação com alerta estrutural para toxicidade e/ou mutagenicidade; i. identificar se há impurezas de síntese, que não precisam ser quantificadas no método, mas devem ser separadas de maneira eficiente de produtos de degradação; j. avaliar a adequabilidade do método analítico proposto para a detecção dos possíveis produtos de degradação do IFA, e k. avaliar os excipientes da formulação quanto a potenciais interações químicas com o(s) IFA(s). Nos casos em que a avaliação já tenha sido realizada (por exemplo, no caso de desenvolvimento de medicamentos novos em que o IFA foi desenvolvido pelo fabricante do medicamento ou nos casos em que foi realizada pesquisa extensa sobre o IFA para desenvolvimento do medicamento), o levantamento das informações prévias não precisa ser repetido. Nessas situações, recomenda-se que a empresa informe claramente, na petição objeto de análise, onde as informações prévias estão localizadas (por exemplo, na seção de impurezas do IFA, na seção de desenvolvimento do medicamento etc.). 4.4. Requisitos dos materiais a serem testados Conforme determina a Resolução, o estudo de degradação forçada deve ser realizado em ao menos um lote do produto (que pode ser em escala laboratorial, piloto ou industrial). O estudo deve ser feito no medicamento, no IFA isolado e, se aplicável, nos IFAs associados. O(s) lote(s) do medicamento deve(m) ser representativo(s) do produto que se pretende registrar quanto ao perfil de degradação. Se houver qualquer diferença em relação ao produto que se pretende registrar, especialmente no que se refere a alterações quantitativas da formulação, essa deve ser discutida, de modo a demonstrar que a alteração não impacta no perfil de degradação do medicamento. Diferenças qualitativas e quantitativas significativas entre a formulação objeto de avaliação e a formulação utilizada 12 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 no estudo não são recomendadas. No entanto, quando for possível demonstrar que as alterações qualitativas e quantitativas não impactam no perfil de degradação do medicamento, poderá ser apresentada justificativa técnica para a execução do estudo em formulação quali e quantitativamente diferente da formulação objeto de análise. Este mesmo racional se aplica a alterações de excipientes. Mudanças de formulação que envolvem alterações qualitativas de excipientes ou alterações nas quais as proporções IFA/excipientes sejam significativamente alteradas, em geral, requerem realização de novo estudo de degradação forçada, a menos que seja tecnicamente comprovado que as alterações realizadas não impactam no perfil de degradação potencial. Embora não seja usualmente esperado, alterações quantitativas mais significativas (por exemplo, reduções drásticas no conteúdo de antioxidante da formulação) podem resultar em mudanças nas conclusões sobre o perfil de degradação potencial do medicamento e devem ser investigadas. Especificamente no que se refere às alterações de excipiente, quando a empresa optar não realizar um novo estudo, é recomendável que seja apresenta uma justificativa técnico-científica, na qual a empresa explique por que não considera que as alterações não impactarão de modo significativo no perfil de degradação potencial do produto. Um racional semelhante ao descrito no parágrafo anterior pode ser usado para avaliação da necessidade de realização do estudo de degradação forçada em diferentes concentrações de um mesmo produto, conforme descrito no § 1º do Art. 8° da Resolução. Exemplos de situações em que não se espera a realização de um perfil de degradação para cada concentração do medicamento incluem os casos de formulações completamente proporcionais (por exemplo, comprimidos e cápsulas, para os quais as diferentes concentrações resultam de compressão ou encapsulamento de diferentes quantidades de um mesmo bulk) ou formulações que se diferenciem exclusivamente pelo corante utilizado. Quando as concentrações não forem completamente proporcionais, é esperado que seja apresentado um racional para justificar a concentração selecionada para realização do estudo, conforme previsto no § 2º do Art. 8° da Resolução. Em alguns casos, essa justificativa pode estar relacionada à maior presença de IFA na formulação. Em outros, a presença de um excipiente com potencial impacto na degradação do IFA (por exemplo, excipiente higroscópico ou com alta concentração de peróxidos) pode justificar a realização do estudo na condição em que a concentração do excipiente seja maior. Nas situações em que não for possível determinar qual é o caso mais crítico a ser avaliado, recomenda-se que sejam avaliadas ao menos a maior a menor proporção IFA/excipiente. Na mesma, espera-se que a empresa avalie a necessidade de realizar novo estudo de degradação forçada quando diferentes rotas de síntese e/ou diferentes fabricantes de IFA são utilizados. Conforme previsto no parágrafo único do Art. 7° da Resolução, a justificativa deve ser sustentada por análise de risco tecnicamente embasada. Nestes casos, é importante avaliar o impacto da mudança de rota de síntese ou de fabricante de IFA no perfil de impurezas do IFA e o consequente impacto da alteração do perfil de impurezas no perfil de degradação potencial do medicamento. Por exemplo, deve-se avaliar o impacto de catalizadores usados na rota de síntese e não eliminados durante as etapas de purificação na formação de diferentes produtos de degradação. Recomenda-se que o estudo de degradação forçada seja realizado com os diferentes fabricantes de IFA/diferentes rotas de síntese do IFA sempre que a empresa evidenciar que há risco significativo de mudança do perfil de degradação do medicamento, em decorrência da mudança no IFA. Embora seja recomendado que o estudo no IFA e no medicamento sejam realizados em paralelo (ao mesmo tempo), esse não é um requisito obrigatório. Destaca-se, no entanto, 13 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 que a realização dos estudos em separado não exime a empresa de realizar uma avaliação crítica comparando os perfis de degradação forçada do IFA e do produto. É possível avaliar criticamente testes feitos em momentos diferentes e até mesmo por empresas diferentes (por exemplo, comparar o perfil de degradação do IFA feito antes com o do medicamento feito depois), desde que sejam utilizados os mesmos métodos e que as condições de degradação estejam muito bem definidas. A avaliação se torna mais fácil quando é feita com testes realizados em paralelo. É importante destacar que a avaliação descrita aqui se refere aos testes realizados para a avaliação do medicamento. Como regra geral, o aproveitamento de um estudo de degradação forçada do IFA isolado enviado em um DIFA não é recomendado. Em situações específicas, os dados gerados pelo fabricante do IFA podem ser utilizados quando: a) os mesmos métodos analíticos (ou métodos analíticos muito semelhantes) de teor do IFA e de quantificação produtos de degradação sejam empregados para o IFA e para o produto acabado, ou b) a empresa demonstre que as condições de realização do estudo de degradação forçada pela fabricante do IFA, a qualidade dos resultados obtidos e o nível de comparabilidade entre os métodos propostos para análise do IFA e do medicamento não impactam na avaliação do poder indicativo de estabilidade do(s) método(s) de análise do medicamento. Em ambos os casos descritos, de modo geral, não se espera que os estudos de degradação forçada do IFA sejam considerados suficientes para eximir a empresa de realizar os estudos de degradação forçada no medicamento. Quando o estudo de degradação forçada não está vinculado diretamente à comprovação da seletividade do método, na validação de metodologia analítica, não é obrigatória a utilização de padrões de referência (Substância Química de Referência Farmacopeica ou Substância Química de Referência Caracterizada) para a realização do estudo. Em contrapartida, se o estudo de degradação forçada também for utilizado para cumprimento da norma vigente de validação, isto é, se o estudo for utilizado como parte da avaliação de seletividade do método, deve ser cumprido o disposto na norma de validação analítica vigente quanto à utilização de substâncias químicas de referência. 4.5. Condução do estudo de degradação forçada Para medicamentos contendo IFA isolado, é requerido que o estudo seja realizado no IFA e no medicamento, nas mesmas condições experimentais (com mesmos parâmetros de degradação, mesmo tratamento de amostras, mesmos métodos analíticos etc.). Embora não seja requerido pela Resolução, o estudo do placebo, nas mesmas condições experimentais, também é recomendado porque permite à empresa excluir da avaliação eventuais produtos de degradação que sejam originários da matriz (ver item “7. INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS DOS ESTUDOS DE DEGRADAÇÃO FORÇADA” para mais informações). Para medicamentos contendo IFAs associados, é requerido que o estudo seja realizado nos IFAs isolados, nos IFAs associados e no medicamento, nas mesmas condições experimentais. Quando houver dados que evidenciem que os IFAs associados não interagem entre si por via química ou física ou, ainda, quando a formulação proposta para registro promover separação física completa entre os IFAs, o estudo de degradação dos IFAs em associação poderá ser dispensado. Nesses casos, recomenda-se que sejam apresentados os dados disponíveis (por exemplo, estudos prévios, dados robustos de 14 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de28/03/2025 literatura) que demonstram a ausência de interação físico-química entre os IFAs ou justificativa técnica capaz de demonstrar que a forma farmacêutica do produto não permite o contato entre os IFAs (por exemplo, grânulos separados em cápsulas). O delineamento do estudo de degradação forçada depende do IFA e da forma farmacêutica que estão sendo utilizados. Da mesma forma, as concentrações dos agentes degradantes, o tempo de exposição e as demais condições experimentais do estudo podem variar, a depender do material que está sendo testado. De modo geral, o estudo de degradação forçada deverá contemplar, minimamente, as seguintes condições experimentais no IFA e no produto acabado: I. Estudos em fase líquida: a. Degradação ácida, utilizando-se uma solução tampão em pH abaixo de 7,0 ou um ácido mineral (por exemplo, ácido clorídrico (HCl)); b. Degradação alcalina, utilizando-se uma solução tampão em pH acima de 7,0 ou um hidróxido de metal alcalino (por exemplo, hidróxido de sódio (NaOH)), e c. Oxidação, incluindo a auto-oxidação (por exemplo, usando iniciadores radicalares como azobisisobutironitrila (AIBN) e ácido 4,4'-azobis(4-cianovalérico) (ACVA)), a peroxidação (por exemplo, usando peróxido de hidrogênio (H2O2)) e oxidação catalisada por metais de transição (por exemplo, Fe+2 e Cu+2); II. Estudos em fase original a. Degradação térmica (seca), por aquecimento moderado sem aumento de umidade no ambiente, sem dissolver o produto; b. Degradação térmica úmida; por aquecimento moderado com aumento de umidade no ambiente, sem dissolver o produto, e c. Degradação fotolítica, por exposição das amostras à luz nas regiões do ultravioleta e do visível (conforme parâmetros estabelecidos no Guia ICH Q1B e na RDC 318/2019 [7, 8]), variando a quantidade de lux hora e/ou watt hora por metro quadrado. Conforme estabelecido na Resolução, os estudos em fase líquida do produto acabado podem ser dispensados para medicamentos de forma farmacêutica sólida desde que os estudos realizados com o IFA, em fase líquida e em fase original, e o com o medicamento, em fase original, sejam adequados para comprovar o poder indicativo de estabilidade do método. Essa justificativa se aplica tanto para medicamentos que são administrados em fase sólida (por exemplo, comprimidos, cápsulas duras etc.), como para medicamentos que são acondicionados em fase sólida, mas administrados em fase líquida antes do uso (por exemplo, pós liofilizados para solução injetável, comprimidos efervescentes etc.). A aceitação da justificativa descrita no parágrafo anterior está baseada em dados de literatura que demonstraram que, para medicamentos sólidos, os produtos de degradação relevantes podem ser obtidos adequadamente por meio da avaliação conjunta dos dados de degradação forçada do IFA (em fase líquida e original) e do medicamento (em fase original) [3].Como os dados de literatura disponíveis se restringem a formas farmacêuticas sólidas, não se considera adequado extrapolar a justificativa técnica para outras formas farmacêuticas (por exemplo, semissólidos e líquidos), a menos que dados adicionais sejam apresentados. Além das justificativas gerais sobre a não aplicabilidade dos estudos em fase líquida para medicamentos em formas farmacêuticas sólidas, é possível justificar a não realização de alguma das condições de degradação forçada, em razão das características inerentes à 15 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 amostra, das propriedades físico-químicas do medicamento, do tipo de medicamento, dos resultados de estudos anteriores ou de outras considerações científicas. Considera-se que não é possível aplicar uma condição de degradação quando esta causa na amostra uma alteração que resulta em total inviabilidade técnica de realização da análise que não pode ser contornada. Em geral, a argumentação de que em condição de armazenamento e/ou de uso do produto não ocorre o referido estresse não é aceita como justificativa técnica para a não execução de determinada condição de degradação. Por exemplo, não se considera adequado justificar a não realização do estudo de degradação fotolítica com base na justificativa de que o produto será armazenado em embalagem fotoprotetora. Também se considera que não é aplicável a realização de uma condição de degradação quando: a. o produto exposto a esta condição não gera produtos de degradação relevantes ou outras informações importantes, visto que a exposição à condição resulta em mudança de estado físico e altera completamente os mecanismos de reação da mistura. Em geral, essa opção de não aplicabilidade pode ser usada para justificar a não realização de algumas condições no produto e no placebo, mas não deve ser generalizada; b. no caso de já haver sido realizado estudo de degradação forçada e ser necessário realizar um novo estudo, conforme Seção “3.1 Quando realizar e quanto repetir o estudo de degradação”, algumas condições podem não ser aplicáveis mediante justificativa e com o devido embasamento teórico de que não será gerado novo perfil de degradação. Outras justificativas técnicas podem ser aceitas, desde que possuam o devido embasamento científico. Quanto aos estudos de oxidação, é esperado que o estudo seja realizado em condições que permitam simular diferentes mecanismos de degradação oxidativa, de modo gerar o um perfil de degradação potencial adequado. Uma estratégia considerada adequada é a que prevê a realização dos estudos em três condições: peróxido de hidrogênio (simulações de reações nucleofílicas) + iniciador radicalar (simulação de reações radicalares) + metais de transição (simulação de reações que ocorrem por transferência de elétrons) [9]. Conforme previsto no § 4º do Art. 10, nos casos em que as três condições de oxidação não forem testadas, a empresa poderá apresentar justificativas técnicas para as condições de oxidação selecionadas para avaliação. Essas justificativas podem incluir informações prévias (dados de literatura, informações obtidas de ferramentas in silico, racional teórico fundamentado etc.) que demonstrem que a oxidação do IFA por determinado mecanismo de reação não é esperada ou, ainda, dados de estudos prévios, realizados em fase de desenvolvimento, que demonstrem em quais condições de degradação oxidativa o IFA é susceptível à degradação. 4.6. Parâmetros de degradação (endpoints) As condições específicas utilizadas para degradação da amostra (parâmetros) deverão ser ajustadas com base no IFA específico e no tipo de forma farmacêutica a ser estudada. Esses parâmetros devem ser variados para que se atinja uma redução significativa da intensidade do pico principal (queda de teor do IFA), idealmente sem ocorrer geração de 16 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 produtos de degradação não relevantes para o estabelecimento do perfil de degradação potencial do IFA. De um modo geral, espera-se que parâmetros de degradação moderados e cientificamente justificados sejam testados. Os parâmetros selecionados devem ser intensos o suficiente para promover degradações efetivas do IFA que seriam possíveis de acontecer ao longo do prazo de validade do medicamento. No entanto, parâmetros demasiadamente intensos, que promovem degradações não realísticas do IFA, devem ser evitados. Quando não for observada degradação significativa do IFA após sua avaliação em condições de degradação com parâmetros moderados, a amostra testada pode ser considerada estável para a via de degradação que está sendo estudada e essa conclusão deve ser descrita na documentação enviada à Anvisa. Embora não haja umapadronização específica sobre os parâmetros (endpoints) a serem usados nos estudos de degradação forçada, dados de literatura (ex: [10, 11, 12]) podem ser utilizados para justificar os endpoints propostos. Não se espera que determinado endpoint seja considerado “melhor”, visto que diferentes conjuntos de parâmetros selecionados podem gerar resultados adequados [12]. Por outro lado, por se tratar de uma avaliação científica, é sempre recomendado ajustar o delineamento experimental de acordo com o material que está sendo testado. A experiência adquirida pelas indústrias e pela academia são essenciais para refinar as condições experimentais caso a caso. Como descrito anteriormente, os parâmetros do estudo devem ser variados para que a degradação aceitável seja atingida em cada condição ou até que se verifique a estabilidade do IFA isolado ou na formulação. Para estudos em fase líquida, os seguintes parâmetros podem ser variados, a critério da empresa e com base no racional por ela estabelecido: a. Tempo de exposição; b. Temperatura, e c. Concentração do agente degradante. Nas reações de oxidação iniciadas por peróxidos, não se recomenda que sejam realizadas variações de temperatura, visto que o aumento de temperatura resulta em clivagem do agente degradante, com formação de radicais livres e degradação do IFA por mecanismos de reação diferentes dos propostos para esse tipo de estudo, com frequente formação de produtos de degradação não relevantes [13]. Para a avaliação da auto-oxidação, os compostos azo (AIBN, ACVA e outros) frequentemente são utilizados como iniciadores radicalares. Nestas reações, os seguintes cuidados são recomendados: a. as concentrações do iniciador radicalar e do IFA devem ser adequadamente balanceadas e os solventes devem ser adequadamente selecionados. Isso porque, a geração do radical alcóxi pode levar a uma degradação excessiva do IFA e gerar um perfil de degradação irreal para o produto; b. a pressurização da reação pode ser avaliada, mas nem sempre é necessária; c. a necessidade de controle do pH da reação deve avaliada, em especial se o IFA possuir grupo amina, e d. a temperatura da reação deve ser controlada em um faixa que seja suficiente para gerar radicais metila (C·), mas evitar a geração de radicais peróxidos (geralmente temperaturas em torno de 40°C são recomendadas) [9, 12] 17 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Como alternativa ao uso de peróxidos e iniciadores radicalares, a literatura descreve o sistema N-metil-pirrolidona (NMP) – água – ar – calor. Embora seja menos estudado, as informações disponíveis indicam se tratar de um sistema com boa capacidade de predição e com potencial para superar dificuldades práticas encontradas durante a execução de outras técnicas de degradação forçada por oxidação, incluindo o uso de peróxidos e iniciadores radicalares [14]. Outras referências que podem ser consultadas quanto à realização dos estudos de auto-oxidação incluem os trabalhos de Betigeri, Thakur e Raghavan [15], Dion et al. [16], Nelson et. al [17, 18], Watkins, Pitzenberger e Harmon [19], Werber et al. [20] e Zelesky et al. [12]. Quanto à oxidação iniciada por metais de transição, devido à característica catalisadora ou promotora desses íons metálicos, não se considera relevante a variação em sua concentração ou na temperatura da amostra. É recomendável que o teste seja feito apenas em uma condição padronizada. Caso não haja degradação após um curto período (em geral 1 a 3 dias), o IFA ou produto pode ser considerado estável para essa via de degradação [12, 13]. Caso a amostra não seja solúvel em água, se a empresa optar por utilizar solventes orgânicos para a diluição da amostra antes da degradação, recomenda-se uma avaliação criteriosa sobre a possibilidade de o solvente selecionado reagir com o produto, gerando produtos não compatíveis com condições reais. No que se refere ao uso de solventes orgânicos após a exposição ao agente degradante, na preparação da amostra que será submetida a análise, recomenda-se verificar sua miscibilidade na solução resultante do processo de exposição/neutralização. Deve-se notar que alguns solventes miscíveis em água, como acetonitrila, podem não o ser em soluções alcalinas ou salinas concentradas. Quanto às condições de preparo da amostra, recomenda-se que estudo de degradação do IFA, realizado paralelamente ao estudo do medicamento, seja usado para verificar se, ao final da preparação das amostras, não há precipitação do IFA ou de algum produto de degradação. Caso a amostra do IFA resulte em uma solução límpida em todas as condições de degradação, pode-se inferir que as condições de preparação da amostra estão adequadas. Para os estudos em solução, também é importante que seja observada a concentração final do agente degradante, após diluição, antes da degradação. A adição de quantidade muito pequena do agente degradante, ainda que concentrado, a uma quantidade muito grande da amostra pode resultar em solução muito diluída, que não promoverá degradação adequada da amostra. Por exemplo, a adição de 1 mL de uma solução de NaOH 1N a 9 mL de amostra resulta em uma solução cuja concentração do agente degradante é 0,1 N. Se a quantidade da amostra é aumentada para 99 mL, a concentração do agente degradante é reduzida para 0,01N. Problemas semelhantes podem ocorrer se a solução do IFA ou do medicamento foi muito diluída antes da adição do agente degradante. Para estudos de degradação térmica, recomenda-se que sejam utilizados temperaturas e tempos de exposição que possuam equivalência cinética com os estudos de estabilidade acelerados e de longa duração. Uma discussão detalhada sobre tempos e temperaturas com equivalência cinética aos estudos de estabilidade de longa duração, incluindo a zona IVb pode ser encontrada no trabalho de Zelesky et al. [12]. Destaca-se que a sugestão de aplicação da equivalência cinética nos estudos de degradação forçada não tem o objetivo 18 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 de prever o prazo de validade em um curto período. Ao contrário, a proposta é garantir condições de degradação térmica adequadas para a avaliação dos produtos de degradação significativos sem expor o produto a condições excessivas de degradação. No que se refere à umidade, em razão da zona climática brasileira, estudos com umidade igual ou superior a 75% são recomendados. Quanto aos estudos de fotólise, condições de degradação minimamente equivalentes a duas vezes as condições dos estudos de fotoestabilidade previstas pelo Guia ICH Q1B e pela RDC 318/2019 [7, 8] são recomendadas. Os estudos devem contemplar exposição à luz ultravioleta e à luz visível, conforme orientações do guia ICH Q1B e da RDC 318/2019 [7, 8]. Nos casos em que a exposição às duas fontes de luz não for simultânea, a mesma amostra deve ser submetida às duas fontes de luz. 5. REQUISITOS QUANTO AO MÉTODO DE ANÁLISE A técnica de análise recomendada para desenvolvimento de métodos de avaliação de produtos de degradação é Cromatografia Líquida de Alta Eficiência com Detector de Arranjo de Fotodiodo (HPLC-DAD). Depois de desenvolvido e validado em DAD, o método pode ser utilizado em equipamento com detector UV de comprimento de onda fixo ou de comprimento de onda variável. Outros detectores (como MS, RID, ELSD e CLND) e técnicas (como termogravimetria e eletroforese capilar) podem desempenhar um papel auxiliar importante, particularmente na investigação de grandes diferenças no fator resposta. Para avaliação da qualidade e eficiência da separação cromatográfica do método, recomendam-seos seguintes parâmetros: a. Resolução; b. Pureza do pico; c. Assimetria; d. Eficiência da coluna (n° de pratos teóricos), e e. Intensidade do sinal. É relevante que seja avaliada a pureza de pico do(s) IFA(s) e de outros picos de interesse, tais como picos atribuídos a impurezas e produtos de degradação utilizados no cálculo do teor do IFA e os picos atribuídos a metabólitos ativos. Não é recomendado avaliar a pureza de pico (teste de peak purity) em amostras degradadas nas quais a intensidade do pico estiver acima do limite máximo de quantificação. A diluição da amostra estressada pode ser utilizada como alternativa, desde que seja verificado que a razão de diluição proposta não resultará em diluição significativa dos produtos de degradação observados e que as informações obtidas são, de fato, adequadas para avaliação da ausência de coeluição. Nos casos em que a diluição descrita anteriormente não for possível e em outros casos nos quais não for possível demonstrar a pureza cromatográfica por meio do teste de pureza de pico (por exemplo, outros tipos de detecção forem utilizados), a empresa deverá assegurar que não há coeluição, por meio do uso de técnicas analíticas adequadas. Por exemplo, um método cromatográfico ortogonal (com seletividade completamente diferente) que avalie o número e a intensidade dos picos nos dois métodos pode ser utilizado. Para análises por HPLC, a alteração completa da seletividade para o desenvolvimento de métodos ortogonais costuma ser realizada por meio de alteração do modificador orgânico ou da fase estacionária [21, 22]. Não é esperado pela Agência que o 19 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 uso dessas técnicas seja frequentemente necessário. A avaliação de pureza cromatográfica por outros meios pode ser necessária particularmente quando forem usados detectores que não dispõem da ferramenta peak purity. O objetivo do teste de pureza de pico é assegurar que não há coeluição de algum produto de degradação com o IFA, o que acarretaria a não-detecção deste produto de degradação. A justificativa de balanço de massas dentro dos limites esperados, de modo isolado, não é considerada adequada para excluir a necessidade de se realizar o teste de pureza de pico. Isso porque um balanço de massas dentro de uma faixa aceitável pode ser obtido em situações nas quais ocorre coeluição, principalmente considerando a provável semelhança estrutural entre o produto de degradação e o IFA. Essa situação é mais relevante ainda para os métodos que preveem a utilização de método de quantificação por normalização de área, que consideram também o pico do IFA para quantificação dos produtos de degradação. O entendimento é de que as duas avaliações (pureza de pico e balanço de massas) são complementares. Ainda sobre a pureza de pico, é recomendável que a empresa faça uma avaliação crítica dos resultados obtidos, a fim de identificar eventuais resultados falsos positivos ou falsos negativos. Uma discussão aprofundada sobre a avaliação dos testes de pureza nos estudos de degradação forçada, incluindo a intepretação dos resultados, pode ser encontrada no trabalho publicado por Mariller et al. [22] Quando a empresa optar por utilizar métodos diferentes para quantificação de teor e produtos de degradação, o estudo de degradação forçada deverá ser conduzido para ambos os métodos. Nesses casos, recomenda-se que as mesmas amostras sejam testadas em ambos os métodos (ver o item 7. INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS DOS ESTUDOS DE DEGRADAÇÃO FORÇADA). Destaca-se que o teste de teor não está isento da comprovação da seletividade do método, conforme requisitos da normativa de validação analítica vigente. Da mesma forma, quando esse método é utilizado para fins de estabilidade, é requisitada comprovação de que se trata de um método indicativo de estabilidade, conforme requisitos da normativa de estabilidade vigente. Portanto, será necessário comprovar que o método é capaz de detectar mudanças na concentração do ativo (seletividade), exigindo, em geral, a condução do estudo de degradação forçada. 6. REQUISITOS QUANTO ÀS ESPECIFICAÇÕES E REPORTE DE RESULTADOS Para determinação inicial das especificações, sugere-se seguir o Art. 18 da RESOLUÇÃO ANVISA 964/2025 como base, conforme segue: a. definir a especificação para produtos de degradação desconhecidos como menor que o limite de identificação; b. definir a especificação para produtos de degradação identificados (isto é, para os quais foi determinada uma estrutura química) sem alertas estruturais como menor que o limite de qualificação, e c. definir a especificação para produtos de degradação identificados com alertas estruturais como menor que o limite determinado após estudo de toxicidade. Quando não houver preocupações de segurança quanto aos produtos de degradação gerados, a orientação é de que o critério de aceitação para os produtos de degradação totais seja baseado nos dados gerados nos lotes de desenvolvimento nos quais foi utilizado o processo de fabricação proposto ou nos lotes piloto, sendo aceitável uma variação que permita lidar com as variações de fabricação e analíticas convencionais e com as 20 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 características de estabilidade do medicamento. No que se refere ao processo de fabricação, embora variações sejam esperadas, variações lote a lote significativas nos níveis de produtos de degradação podem indicar que o processo de fabricação do medicamento não está adequadamente controlado e validado [2]. Uma abordagem aceitável para definição de produtos de degradação totais, excluindo metabólitos ativos, é que o total não exceda a soma dos critérios de aceitação individuais de produtos de degradação especificados (identificados e não identificados). É recomendável que o critério de aceitação para metabólito ativo seja considerado separadamente. É recomendável, também, que seja verificado se a especificação de produtos de degradação totais proposta, incluindo os metabólitos ativos, não excede os limites que podem comprometer o teor/potência do medicamento ao longo do prazo de validade [23]. Sempre que necessário, especificações de liberação mais restritivas que as especificações de estabilidade podem ser estabelecidas para o medicamento [8]. Quando esse procedimento for adotado, é importante observar que as especificações de estabilidade (geralmente menos restritivas) não devem superar os limites estabelecidos no Anexo I da Resolução, a menos que dados de qualificação dos produtos de degradação sejam utilizados para justificar os limites propostos. Para mais informações sobre esse tema, recomendamos a leitura da Resolução e do Guia que tratam sobre estudos de estabilidade [8, 24]. Para os produtos para os quais a Resolução é aplicável, não se recomenda a adoção de especificação para produtos de degradação desconhecidos acima dos limites de identificação estabelecidos na Resolução, ainda que limites maiores estejam estabelecidos em compêndios oficiais reconhecidos pela Anvisa. Caso o desenvolvimento de uma especificação desse tipo seja essencial para o produto, recomenda-se o envio de justificativa técnica completa, incluindo referências adicionais, além do compêndio oficial, que demonstrem a manutenção da segurança do produto. Como regra, a adoção de limites superiores aos estabelecidos na Resolução não é recomendada e limites de produtos de degradação acima dos limites de qualificação previstos na norma devem ser justificados com base em estudos de segurança, conforme previsto no Art. 18 da Resolução. No entanto, situações específicas excepcionaispodem ser discutidas, com base no caso concreto e na relação benefício/risco do medicamento. Para esses casos, recomenda-se que a discussão seja realizada com a área técnica previamente à submissão da petição objeto de análise. Ressalta-se que qualquer justificativa técnica a ser proposta deve apresentar embasamento técnico-científico robusto. Além do disposto anteriormente, a definição das especificações deve levar em consideração a possível existência de produtos de degradação potencialmente tóxicos, conforme estabelecido no §5° do Art. 18 da Resolução. Estão incluídas aqui as substâncias com alertas para mutagenicidade/genotoxicidade e os compostos para os quais existam preocupações toxicológicas particulares, tais como os potenciais disruptores endócrinos e imunogênicos, que possuem essa ação mesmo em níveis considerados baixos. Tais potenciais podem ser inferidos, por exemplo, a partir de dados de estudos exploratórios (in vitro, in vivo) disponíveis na literatura técnico-científica. Quando estes produtos de degradação estiverem presentes, seus limites (e, consequentemente, as especificações de liberação e estabilidade) deverão ser estabelecidos com base na avaliação da segurança biológica. 21 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 Em casos específicos, é possível solicitar que o teste de produtos de degradação não faça parte da especificação de liberação do produto. Para este caso, recomenda-se enviar justificativa baseada não apenas em dados teóricos, mas, também, com dados históricos que demonstrem que não são formados produtos de degradação durante o processo de produção, contemplando a avaliação de vários lotes de produção. Em geral, os resultados dos três lotes submetidos ao registro não são considerados suficientes para esse tipo de solicitação. Além deve incluir a avaliação de vários lotes de produção é recomendável que os dados sejam subsidiados por uma validação robusta de processo produtivo. É recomendado que a especificação de produtos de degradação do medicamento inclua: a. cada produto de degradação identificado, se aplicável; b. cada produto de degradação não identificado, se aplicável; c. qualquer produto de degradação não especificado, com critério de aceitação igual ao limite de identificação, e d. produtos de degradação totais [2]. No que se refere ao reporte dos resultados, produtos de degradação acima do limite de notificação devem ter seus resultados declarados. Na especificação, estes produtos podem ser referidos como “desconhecidos” (unidentified). No entanto, nos resultados, recomenda-se que os produtos sejam designados de forma que possam ser reconhecidos e acompanhados durante o estudo de estabilidade e na liberação do produto. Quando sua estrutura não for conhecida, sugere-se designá-los pelos tempos de retenção relativos. Sempre que possível, sugere-se registrar todos os produtos de degradação encontrados, com seus resultados individuais. É obrigatória a especificação individual dos produtos de degradação cujos resultados estejam acima do limite de identificação. Alternativamente, quando houver muitos produtos de degradação, pode ser descrito o maior resultado, porém todos os produtos de degradação acima do limite de notificação devem fazer parte do cálculo total de produtos de degradação. Impurezas que não são produtos de degradação (por exemplo, impurezas de síntese do IFA, impurezas de excipientes), podem ser excluídas do cálculo de produtos de degradação totais do medicamento, desde que justificado [2]. Orienta-se que os resultados quantitativos dos produtos de degradação sejam apresentados numericamente e não em termos gerais, tais como “conforme”, “de acordo com o limite”, etc. Para valores abaixo de 1,0%, o recomendável é que os resultados sejam reportados até o número de casas aplicável ao limite de notificação (por exemplo, 0,06%). Para valores acima de 1,0% recomenda-se que sejam reportados com uma casa decimal (por exemplo, 1,3%). É recomendável que os resultados sejam de acordo com as regras de arredondamento convencionais [2]. 7. INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS DOS ESTUDOS DE DEGRADAÇÃO FORÇADA 7.1. Avaliação de cromatogramas e obtenção de resultados Os dados dos estudos de degradação forçada do medicamento devem ser avaliados em conjunto com os dados dos estudos de degradação forçada do IFA e, quando aplicável, do placebo. Os cromatogramas de cada condição de degradação do medicamento, do IFA e do placebo, se aplicável, devem ser comparados. No caso das associações em dose 22 Guia para realização dos estudos de degradação forçada em medicamentos e para a notificação, identificação e qualificação de produtos de degradação Guia nº 79/2025 – versão 1, de 28/03/2025 fixa, recomenda-se que sejam também incluídos na comparação o(s) cromatograma(s) dos IFAs associados e da formulação completa. Quando o estudo do placebo for realizado, os picos presentes no cromatograma do placebo podem ser desconsiderados no cromatograma do produto, desde que não apareçam picos no mesmo tempo de retenção no(s) cromatograma(s) do(s) IFA) e os tamanhos dos picos nas amostras do placebo e do produto sejam de tamanhos equivalentes. Variações na ordem de ±20% em geral, são consideradas aceitáveis. Recomenda-se a apresentação de justificativa técnica para descartar picos com variação muito elevada entre o placebo e o medicamento. Nos casos nos quais o estudo do placebo não for realizado, não é aceita a justificativa de exclusão de picos sob a alegação de que se trata de picos de placebo. É importante esclarecer que a ausência de apresentação dos dados de degradação forçada do placebo pode dificultar a avaliação do estudo, principalmente se (1) existem picos do placebo e/ou se (2) aparecem produtos de degradação na formulação que não aparecem no fármaco. Além dos picos presentes no placebo, podem ser desconsiderados picos que resultem em uma porcentagem do total de área que não seja relevante para o resultado. Recomenda- se que seja usado como limite de integração o limite de notificação, conforme no Anexo I da Resolução. A empresa pode utilizar outro limite, desde que devidamente justificado. Cada um dos picos não desconsiderados no cromatograma da condição de degradação que está sendo avaliada deve ter sua área quantificada. Inicialmente, cada pico pode ser quantificado pela porcentagem que sua área representa em relação à soma de todas as áreas, ou por comparação da área deste pico com a de um padrão do IFA injetado em concentração menor que na amostra. Caso seja necessário trabalhar com uma amostra na qual o IFA esteja em concentração acima do seu limite superior de quantificação, é possível utilizar um volume de injeção menor ou diluir a amostra a fim de avaliar a porcentagem de degradação do IFA. Neste caso, a amostra não diluída deve ser injetada nas condições do método para avaliar a porcentagem de impurezas. Uma alternativa à diluição, neste caso, seria utilizar outro método que seja comprovadamente indicativo de estabilidade para teor para analisar a mesma amostra degradada e, assim, avaliar a porcentagem de degradação do IFA. A determinação da porcentagem de degradação do(s) IFA(s) na(s) matéria-prima(s) ou no medicamento é calculada por meio da comparação com as amostras não degradadas do IFA ou do medicamento, respectivamente. Nos casos em que forem utilizados dois métodos diferentes para quantificação de teor e produtos de degradação, a orientação é que as mesmas amostras estressadas sejam avaliadas por meio dos dois métodos. Isso porque, quando o estudo é realizado em separado, a variável “amostra” pode dificultar ou até mesmo impossibilitar qualquer discussão relacionada à diferença entre resultados de teor e produtos de degradação. Nestas situações,