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SER O AMADO DE DEUS Um convite para a principal questão da vida espiritual Henri Nouwen Muitas pessoas fazem sua avaliação pessoal como que dependentes de circunstâncias ou das opiniões externas. Henri Nouwen contrapõe esse modelo de vida com o espírito libertador do evangelho: a verdade sobre nossa vida vem única e tão somente de Deus. Eu gostaria de tentar transmitir a você um pouco daquilo que significa levar uma vida espiritual. Esse é um conceito grandioso. Por isso quero que leia com o coração e se certifique com precisão se alguma coisa que vou mencionar se vincula com sua própria experiência. Não se trata de reconhecer o que está certo ou errado. O importante é que você possa estabelecer uma ligação interior entre o que eu digo e aquilo que você vivencia. Caso isso aconteça, algo poderá crescer em você, possivelmente bem diferente daquilo que cresceu em mim – mas, apesar disso, será algo precioso. Iniciaria falando com prazer e simplificadamente sobre nossa vida. Peço que você me siga, se possível, com o coração. Imagine uma longa linha traçada sobre um papel: isto aqui é minha vida. Aqui, no começo, deveria constar o número 1932; aí eu nasci. Quanto tempo eu devo ainda me conceder? OK, digamos 2010; isso é o bastante. Este número eu escrevo no fim desta linha. Isso, portanto, é minha pequena vida, minha pequena cronologia, meu tempo. Isso é tudo o que eu tenho – não é muito. Talvez sua linha se inicie depois ou antes, mas ela também não será muito mais comprida. A sua e a minha pequena vida são pequenas vidas. E elas passam muito, muito rápido. Eu tenho agora 60 anos e já posso quase que vislumbrar o outro lado. Sempre exercitei meu pensamento com uma pequena brincadeira, me perguntando se poderia duplicar minha idade a cada fase. Quando tinha 20, pensava: "ainda chego até os 40". Quando tinha 40, pensava nos 80 – mas agora não posso mais continuar nessa brincadeira. Não há mais tanta margem. Uma das perguntas que temos enquanto vivemos nossa pequena vida, é muito simples: Penso que há três respostas sobre isso, que sempre gostamos de mencionar aqui: 1 – Eu sou aquilo que eu faço. Pense em como é importante para nós o que nós fazemos. A gente se sente bem em fazer algo: "eu tenho vida, eu vivo!" Quando você faz algo de que se sente orgulhoso, você diz: "Veja isto aqui! Fui eu que fiz!" Se eu escrevo um livro e ele é publicado, eu digo: "Vejam isto! Este é meu livro! Eu realizei algo!" E eu me sinto bem em minha própria pele. Quando as pessoas envelhecem elas dizem: "você talvez possa pensar que eu não realizei muitas coisas, mas olhe só estes troféus! Veja, eu fui um jogador de futebol, um jogador de tênis, um mestre aqui ou ali. Veja o que eu realizei em minha vida!" A gente fica feliz, porque essas realizações nos dão um sentimento de bem-estar. Entretanto assim que a gente constate que não se pode mais realizar tantas coisas, ou quando as pessoas não nos valorizam tanto mais pelo que se faz, a gente logo se sente mal, deprimido, pessimista. E então, de repente, descobre-se como a gente é ou era dependente daquilo que se faz. Uma outra resposta é: 2 – Eu sou o que os outros dizem a meu respeito. Será que isso atinge também a mim ou a você? É impressionante como nós somos sensíveis àquilo que as pessoas dizem ou escrevem a nosso respeito. Quando alguém nos diz durante o café da manhã: "Você é tolo" ou "o que você faz aí não vale a pena!", isso nos persegue e "fica mordendo" durante o dia todo: "Por que ele disse isso?" A gente se sente mal o dia todo quando alguém fala algo negativo. Aí a gente se sente realmente um tolo e incapaz. Isso nos machuca e não nos larga mais. 1 Certa vez, quando eu falava a muitas pessoas e todos pareciam achar bom o que eu dizia, alguém se levantou e disse: "eu acho que o senhor não fala coisa com coisa! Isso tudo é besteira!" Essa foi a única coisa desse dia que depois eu guardei na lembrança. Esse sujeito!... Eu estava tão zangado com ele que teria vontade de fazer alguma coisa contra ele. Eu tinha medo que, no final, todos iriam dizer isso que ele falou. Você e eu, nós somos muito, muito sensíveis em relação àquilo que as pessoas dizem sobre nós. Nós somos extremamente preocupados com a nossa reputação. O que as pessoas dizem sobre nós nos faz estremecer e nos atinge bem no meio do coração. A terceira resposta que nós temos: O que é que eu tenho? Talvez uma boa casa, uma família da qual eu tenho orgulho; pai e mãe são legais. Tenho bons amigos. Tenho dinheiro. Ou eu tenho uma enormidade de relacionamentos. Tenho coisas bonitas. Tudo isso me dá um sentimento de bem-estar porque posso agir por mim mesmo. Em tendo alguma coisa, isso me dá liberdade e independência. Porém, tão logo a gente perde essas coisas, percebe-se de repente, como no fundo se era dependente daquilo e de como é doloroso não ter mais tudo aquilo. Quando um amigo falece, quando se perde a casa, quando a família adoece, quando se perde dinheiro ou o emprego, então começam os problemas. A gente começa repentinamente a pensar de modo depreciativo de si mesmo. De fato, as coisas acontecem assim: vivemos muitas vezes como se fôssemos o que fazemos, ou o que as pessoas dizem sobre nós, ou como se fôssemos o que nós temos. Por um momento imagine mais uma vez aquela linha de vida sobre o papel. As pessoas ficam orgulhosas de você. Você realiza muitas coisas boas. E você é proprietário de muitas coisas: tudo isso lhe dá entusiasmo, faz você se sentir bem. Porém, tão logo as pessoas comecem a falar contra você, ou quando você perde alguma coisa desse bom patrimônio, ou quando começa sentir-se inútil, então você cai ou sente-se mal. Enquanto existir paz nesses três conceitos, você sente que "esse é um bom dia", e se então acontece alguma coisa, então "será um dia ruim". Sem notar, desenvolve-se disso um modelo de vida. Toda a nossa vida é determinada por esses três parâmetros. Quando estamos em cima, ficamos entusiasmados; se estamos em baixo nos sentimos deprimidos; nosso dia a dia ocorre como uma linha zigue-zague, que se sobrepõe à linha reta de nossa vida: hoje sinto que tenho uma quantidade de coisas fantástica, as pessoas falam bem sobre mim e faço algo com sentido. Amanhã talvez isso seja diferente e, naturalmente, eu me sinto mal. Gostaria que você olhasse para dentro de si; sinta e entenda que sua vida muitas vezes consiste desses altos e baixos; e nisso flui uma grande parte de nossa energia no esforço de se manter bem acima da linha. Pessoas como médicos, assistentes sociais, psicólogos ou conselheiros prestam ajuda para que você consiga permanecer acima da linha – essa acaba sendo sua missão. Eles ajudam a manter a boa impressão a seu respeito. Dizem a você: "OK, isso pode ser ruim, mas amanhã pode voltar a ser melhor". "Isso ou aquilo não tem muito a ver, pois então vamos arranjar algo de útil para você fazer". "Você perdeu um amigo? Mas ainda há outras pessoas para ficar com você! As pessoas falam mal de você? Mas outras pessoas certamente saberão te apreciar!" A missão deles é nos animar. Eles tentam nos manter sempre acima da linha. Sabe o que no fundo isso significa? Eles nos ajudam a sobreviver. Gostaria que você guardasse esta palavra na memória: sobreviver! Sobreviver significa ficar acima da linha. Muitas coisas que conceituamos e qualificamos como "viver" é, na realidade, "sobreviver"; ficar acima da linha, ficar em cima. O que acontece entretanto quando se chega ao final da linha da vida? O que importa ao chegar ao fim está numa declaração que soa bem simples: quando se está morto, está morto! Tudo acabou; encerrou, sumiu, já passou. A gente jaz na terra, se decompõe e some. Quando se morre, a gente está morto. Isso significa: não se pode fazer mais nada, ninguém mais fala sobre nós, nada mais se possui. Tudo aquilo que nos era importante, a gente perdeu. De repente, quando você pensa sobre isso, torna-seevidente que toda sua identidade, sua idéia sobre essa questão de quem você é, depende totalmente de circunstâncias externas sobre as quais você não tem nenhum controle. 2 Você diz: "eu sou o que eu faço" – mas você não tem isso sob o seu domínio! Muitas vezes você é usado para servir e é útil – mas então, de repente, a situação do mercado muda e você perde seu local de trabalho. Você não pode fazer nada. Você diz: "eu sou o que dizem sobre mim!" As pessoas podem dizer coisas agradáveis ou vulgares, mas você não as tem sob o seu controle. Você diz: "eu sou o que eu tenho" – mas você não tem domínio total sobre o que você tem. Em algum dia pode acontecer uma tormenta, um desastre ou uma guerra, e você perde tudo. Quando você diz "eu sou o que eu faço; o que os outros dizem de mim e o que eu possuo", então toda sua identidade, sua idéia sobre quem você é, depende do mundo, lhe é afirmado de fora, do mundo. E quando você morre não sobra nada, porque você foi aquilo que você recebeu de fora. Toda a sua vida foi uma tentativa de sobreviver – e no fim você inevitavelmente fracassa de qualquer modo. Raciocine por alguns momentos sobre o assunto: você consegue reconhecer que em sua vida acontece algo semelhante? Algo de tudo isso chega a atingir também a você? É mesmo assim, que seu desânimo e seu entusiasmo dependem de coisas que você não pode influenciar? Que o modo como você de forma fundamental se sente, depende de coisas que você não tem nas mãos? Que toda sua identidade depende da realidade externa? Se isso fosse assim, então seria enormemente trágico! Quero, com muito gosto, dizer a você algo bem simples: o evangelho, Jesus, Deus diz: "isso está errado! Isso não é verdade! Esse modelo de pensar é uma grande, grande mentira. Mesmo que você faça de conta que isso seja verdade; mesmo que você viva assim, como se fosse verdade – é uma grande mentira!" Às vezes você precisa ter contato com essa mentira, para começar a descobrir quem você realmente é. Quem é você, se não aquilo que faz? Quem é você, senão aquilo que as pessoas dizem a seu respeito? Quem é você, senão aquilo que você possui? O evangelho – mas também a tradição espiritual – é aqui sobremaneiramente claro: o centro da mensagem cristã é muito simples: você é o amado de Deus! Você é o amado! Isso permanece como realidade bem acima dos dados ou de estar acima ou abaixo de sua linha de vida. amado com os altos e os baixos Quero que você comece a ver como você pode descobrir e reivindicar essa verdade para si. Que você possa dizer: "eu quero agarrar para mim mesmo essa verdade, que eu sou o amado de Deus." Pense durante um momento em Jesus. Quando Jesus foi batizado, ele saiu das águas e uma voz disse: "Este é o meu Filho querido, que me dá muita alegria!" Tu és o amado de Deus! E essa voz acompanhava e dirigia tudo o que Jesus dizia e fazia. Onde quer que fosse, onde quer que falasse, ele sabia que lá estava a voz que o denominava "amado". As pessoas o amavam e odiavam, elas o aplaudiram e o crucificaram, eles cuspiam nele e lhe davam tapinhas nas costas. Em tudo o que acontecia, ele sempre dizia: "eu sou o amado". Essa é a verdade – não importa o que se diga ou se faça. Isso lhe possibilitava viver sua vida com toda fidelidade diante de Deus. Sempre, a todo momento, agarrar-se a essa verdade; sempre, outra vez, escutar a voz que diz: "você é meu amado, você me dá muita alegria!" O que é oração? Orar significa ouvir a voz que me chama "amado". Essa voz diz: "tu és minha filha amada. Tu és o meu filho amado." Jesus escutava essa voz. Você se lembra de que o mesmo espírito que sobreveio a Jesus no Jordão o levou ao deserto para que fosse tentado? E como foi tentado por Satanás? Quando este disse: "Demonstra que tu és o amado! Transforma pedras em pão! Mostra que sabes algo! Salta do pináculo do templo, para que todos te aclamem e os anjos possam te suster! Para que as pessoas te honrem e fiquem eufóricas a teu respeito. Ajoelha-te diante de mim e eu te recompensarei grandemente, para que tenhas grandes posses. Demonstra que tu mereces ser amado! Demonstra ao fazer algo. Demonstra tendo boa fama. Demonstra tendo grandes posses. "E Jesus disse: "Não! Não, não, não! Porque eu não sou nada disso. Eu sou o amado! É esse que eu sou. E eu sou o amado antes mesmo de eu fazer algo, antes de as pessoas falarem de mim, antes de eu ter a posse de qualquer coisa." 3 Quero que você dê esse grande salto interior, da mesma forma que Jesus disse sobre si mesmo. Ele quer que você diga a mesma coisa a seu próprio respeito. Jesus quer que você saiba que é tão amado por Deus como ele o foi. Jesus diz: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. E vos amei tanto como o Pai amou a mim." Tanto para você como para mim a questão central da vida, sobre a qual se baseia toda a nossa liberdade, é: "você crê que é o amado?"Ou você diz: "eu sou uma pessoa insignificante que precisa demonstrar que está OK." Você crê que é ilimitadamente amado por Deus, ou você diz: "Bem, eu devo estar seguro de que as pessoas falem bem de mim, caso contrário, não consigo nada na vida!" Você crê que é muito amado estando sempre enraizado profunda – e seguramente no amor de Deus – seja lá o que for que as pessoas digam, ou o que se faça ou se possua? Essa é a fonte de onde vem sua liberdade – é dali que ela realmente vem. É isso que torna possível você se levantar e confiar que pode modificar o mundo – porque você não depende mais das influências deste mundo. É precisamente isto que o mundo quer: que você tenha o sentimento de que é preciso provar que você é precioso. E quanto mais o mundo no qual você vive o aprisionar nessa idéia, tanto menos livre você será. Quanto mais dinheiro você precisar ganhar, quanto mais coisas precisar fazer, quanto mais tempo precisar doar, tanto mais esgotado você ficará – e você não estará realmente livre. Por favor, escute com atenção durante um momento. Quero que você escute a voz que o chama de amado. Eu tomo algumas palavras da Bíblia que talvez você já tenha ouvido. Escute bem e permita que essas palavras cheguem ao seu coração: "Tu és minha filha amada/Tu és meu filho amado. Eu te amo com um amor eterno. Eu te vi antes de teres nascido – eu já te amava. Ainda antes que pudesses falar e antes que tua mãe pudesse tocar-te, eu te chamei. Eu te formei nas profundezas da terra. Eu te formei no corpo de tua mãe. Tu és meu e eu sou teu. Tu és aquele que pertence a mim e eu quero pertencer a ti. No meu abraço tu estás seguro, independente do que possa acontecer. Tu és precioso a meus olhos. Tu és tão precioso como a luz em meus olhos. Tu és minha criança, tu és meu filho, tu és minha filha. Tu pertences a mim e sempre fazes parte de meus pensamentos. Tu estás sempre em meu coração. Eu nunca, jamais te deixarei só. Eu perseverarei na verdade de que tu és meu amado, e eu estou contigo por onde quer que andares e o que quer que tu fizeres." Se essas frases são só pensamentos, que apenas estão em sua cabeça, então isso não o levará muito longe. Será uma doce e romântica representação que não causa muito efeito. Mas se isso repentinamente o atingir bem no meio do coração, quando você experimentar de vez, bem no centro do seu interior, que é isso mesmo que você é, então isso transforma tudo. Tudo se modifica ao seu redor. Toda sua vida se tornará a vida de alguém amado. A sua vida toda se tornará uma vida em que tudo a seu redor começa a falar uma nova linguagem. Se tão somente você ouviu e ainda se permite ouvir. Gostaria apenas de dizer tudo isso de modo bem simples, já que se trata de coisas as mais difíceis com que você e eu entramos em contato. Porque a voz que diz essas coisas para a gente não é muita poderosa. Você conhece a história de Elias? Ele queria ouvir a voz de Deus, mas Deus não esteve presente na tormenta, nem no terremoto; ele não esteve no fogo – ele falava com uma voz baixinha e suave. A voz que te chama deamado não grita com você. É uma voz muito suave. Ela ecoa ao lado das vozes fortes desse mundo, que nos chamam constantemente: "busque a sua afirmação! dê provas! dê provas! Por isso é tão difícil permanecermos em contato com essa verdade. Mas é o que precisamos! Quero te mostrar que o que acabei de dizer é muito, muito importante para o seu bem-estar mental e espiritual; porque você tem um coração que foi criado com um desejo de ser amado sem limites. Uma pessoa poderia jamais satisfazer a esse desejo. Apenas aquele que criou esse coração pode satisfazer esse anseio. Agostinho disse: "meu coração está inquieto até que descanse em ti." Nossos corações são inquietos. Nunca, jamais estão satisfeitos com o amor que o mundo pode oferecer. 4 Isso nos leva a um ponto muito mais delicado que quero abordar brevemente: o amor humano, o amor de pai e mãe, o amor do namorado, o amor do cônjuge, o amor do professor, o amor da igreja: esse amor sempre é imperfeito – e por isso ele também pode estar sempre ferindo. Pense em seus pais. Você os amou? Sim, você os amou. Mas você também os feriu. Pense nos professores de sua escola. Você os amou? Sim, você os amou. Mas você também os feriu. Pense em seus filhos. Você os ama? Sim, você os ama. Mas você também permite que eles sofram. Pense em sua igreja. A igreja o ama? Sim, ela te ama. Mas tudo isso também pode acontecer de forma bem difícil. Cada vez que você tiver contato com o amor humano, você também terá contato com feridas. Alguma vez você parou para pensar no que aconteceu quando era criança? Você diz: "era maravilhoso, mas o meu pai... pois é, ele na verdade tentava me amar, mas ele era muito autoritário. Ele não me compreendia. Minha mãe me amava, sem dúvida, mas ela era muito medrosa e sempre tão super-protetora. Por isso eu não era realmente livre." Você descobrirá que o amor em sua vida nunca foi particularmente perfeito. E quando você amar alguém outro, você descobrirá que se pode amar as pessoas – mas algum dia elas nos dizem que as coisas que a gente fez não foram assim tão boas. Algum dia a gente vai ouvir: "Sim, mas você não me amou de um jeito certo." Quando se é pai, mãe ou parceiro, no fim seremos criticados porque não amamos o suficiente. Assim é neste mundo. É um mundo no qual somos pobres e imperfeitos amantes. E constantemente precisamos lutar contra a tentação de estar deprimidos, desiludidos, aborrecidos, cheios de rancor e de pensamentos de vingança por causa disso. Queremos modificar essa situação. Sempre queremos achar um a quem de fato poderemos amar; um parceiro, amado, amigo. Mas não conseguimos. Nós queremos amor, mas ele nos escapa. E às vezes queremos tanto que nosso amor se torna violento antes mesmo que o notemos. Nós dizemos: "Me ame! Me ame! Me ame!" E antes que se dê conta, a gente está estrangulando a garganta do outro. E se o outro diz que desse jeito ele não pode me amar, então nós dizemos: "Mas eu sou tão só! Preciso de alguém que me ame!" Vemos toda sorte de violência na TV – às vezes tenho o sentimento de que essa violência seja amor decepcionado, reprimido, ferido, amor irado, aborrecido: "eu sou tão só! Eu quero que você me ame! Mas por que você não me ama de um jeito melhor?" E dos beijos resultam então, mordidas. De um terno olhar surge um olhar desconfiado. Um escutar transforma-se em espreitar. E uma entrega transforma-se em violação. Antes que se torne consciente, sobra apenas dominação, quando no fundo se queria amor. Porque nosso coração quer ser amado incondicionalmente. Mas quando esperamos que outras pessoas nos amem de tal maneira como só Deus pode fazer, nós nos tornamos "diabólicos". Nos tornamos como diabos, coagindo as pessoas ao amor. E essa coação destrói o amor. Por isso Jesus veio. Para nos ensinar a não-violência. Como? Ao deixar que percebamos que o amor de nosso pai, nossa mãe, nosso irmão e nossa irmã é meramente um pequeno, limitado e fraco reflexo daquele amor ilimitado que já existia muito antes de nosso nascimento, e ainda existirá para muito além do nosso tempo. Só é possível viver neste mundo quando não se espera de pessoas aquilo que só Deus pode dar. Só é possível ser um pacificador quando se está feliz com o amor limitado deste mundo. Mas só é possível ser feliz com o amor limitado deste mundo quando de qualquer modo se aperceber – porque nos foi revelado – que existe de fato o amor incondicional pelo qual nosso coração anseia. E que ele ficará diretamente no centro do nosso ser, se tão somente se estiver disposto a ouvi-lo. Quando tão simplesmente se ficar atento e não correr a esmo para encontrá-lo em qualquer lugar onde não se pode o achar. É um ato inacreditável de fé o dizer: "Eu sou o amado, e por isso quero estar pronto a te perdoar porque você me ama – e nisso me fere. E quero ser grato por seu amor – mesmo que seja pouco". Você sabe o quanto é difícil para nós perdoar – especialmente porque somos tão carentes. Conversei com muitas pessoas a respeito de suas vidas, sobre suas experiências de não terem sido amadas adequadamente. Esperamos através dessa elaboração conseguir compreensão e cicatrização das nossas feridas, e isso é muito importante. Mas mesmo obtendo muito entendimento, isso não nos levará à morada da paz, se não chegarmos, além do 5 entendimento, à aceitação profunda e íntima da verdade de que somos os Amados de Deus. A partir desta posição é que poderemos viver. Se você me ofende e eu me sinto magoado, então desejo é te repelir e pagar na mesma moeda. Mas se me conscientizar de que sou amado e crer nisso, posso reagir bem diferente – e pouco a pouco, você também. Este é o poderoso segredo do amor de Deus: Jesus quer que a voz que ele ouviu se torne também a voz que você ouça: "Você é meu amado! Você pode descansar na minha alegria!" Para finalizar, ainda algo muito simples: se você crer que isso é verdade, que isso é aquilo que você realmente é: amado... então você pode viver sua vida a partir dessa verdade. E pouco a pouco essa verdade romperá o ciclo de sobe e desce, para cima e para baixo, baseado em realizações exteriores. Assim você não será mais dependente de sua utilidade momentânea, das vozes a seu respeito ou daquilo que possui. Uma vez decidido a iniciar um viver com a verdade de ser amado, isso se expande, cria círculos de abrangência e atinge justamente os altos e baixos de sua vida. E tudo o que acontece, então se transforma. Todas as desilusões de sua vida não ameaçam mais sua identidade, mas sim proporcionam oportunidades de dizer "sim" para aquele que pergunta: "você também me ama?" Próximo do final da vida, Jesus perguntou a Pedro: "Pedro, filho de João, você me ama mais do que os outros? Pedro, você me ama?" E então uma terceira vez: "Você me ama?" De repente vemos Deus, que durante toda a eternidade tem dito: "eu te amo com infinito amor", perguntar a você e a mim: "você também me ama?" Quando você ouvir essa pergunta, de repente reconhecerá que todas as experiências de sua vida – tanto as dolorosas como as felizes – são experiências que lhe dão a possibilidade de responder: "Sim! Sim, eu também te amo!" Este é o segredo de Deus: ele nos ama, mas quer uma resposta. Deus nos ama, mas ele diz: "eu sou um amante ciumento, eu quero que você também me ame de todo o coração, com toda a sua vida, com todo o seu ser. Você me ama? Eu, Deus, desejo que você diga sim." E se você perder alguém, pode no meio da sua dor sempre ainda dizer "sim"? Se muitas pessoas falam contra você, você então dirá: "Sim, Senhor, eu quero amar-te justamente agora, quando me sinto tão rejeitado"? Quando algum dia perder a saúde, poderá dizer de toda maneira: "é doloroso, é horrível, eu não quero isso, mas eu quero dizer – que também nisso há uma possibilidade para mim de dizer 'sim' para ti, que me amaste tanto"? E, de repente, esta vida que até aqui era um alinhamento de altos e baixos, uma luta contínua pela sobrevivência, torna-se realmente vida.Viver em direção ao lugar onde se possa de fato dizer "sim" de verdade – e que este sim não continue por mais tempo significando o fim de tudo. Jesus não disse a seus discípulos: "vocês não sabiam que eu deveria sofrer para ser glorificado? Não sabiam que todas as coisas que aconteceram em minha vida – e que acontecerão em sua vida também – são caminhos para pedir a vocês o 'sim' por meu amor? Para que vocês e eu possamos ser um? Para que vocês e eu possamos viver a mais perfeita comunhão, pela qual o coração de vocês tanto anseia." Este é o sentido da vida; é isto o que importa: uma breve oportunidade para nós dizermos "sim" para esse amor..! (trad. Érico Kepler) 6