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Foto: Festa de Nossa Senhora da Saúde. Santa Maria da Boa Vista, Fulgêncio. ggg Apresentação p. 7 “As pegadas deixadas na beira do rio” ou na “ribeira” / Ou “o percurso” ou “Por entre veredas” p. 11 Petrolina p. 13 Santa Maria da Boa Vista p. 20 Lagoa Grande p. 26 Orocó p. 31 Cabrobó p. 34 O Sumidouro - Processo de laboratório p. 37 ÍNDICEj j As cenas ribeirinhas p. 46 O Encourado p. 47 O Redemoinho p. 51 O Encantado p. 55 O Pequenino p. 59 As Cenas Ribeirinhas ou de como se enunciam as poéticas populares Elson de Assis Rabelo p. 63 O Tombador Antonio Veronaldo p. 67 Índice de Imagens p. 70 Ficha técnica e agradecimentos p. 71 7 Rio que se abre, corpo que se afunda em redemoinhos de criação. R 8 De que bases gestuais o ator do Sertão do São Fran- cisco pode dispor para desenvolver o seu traba- lho de composição de personagens? Quais as formas contemporâneas de se representar a tradição, considerando os diversos processos de combinações indenitárias implícitas nas manifesta- ções populares ribeirinhas do Reisado, do São Gonçalo, do Capim Lêlê e do Samba de Véio? Partindo desses ques- tionamentos, o primeiro projeto de pesquisa da Cia Biruta, Cenas Ribeiri- nhas, teve como proposta principal in- vestigar as matrizes da cultura popular ribeirinha para elaboração de material de composição de personagens e cenas por meio da observação de manifesta- ções recorrentes nesse recorte cultural e geográfico. O estudo sobre essas prá- ticas populares de dança e festas agre- gadas às relações sociais do cotidiano das comunidades, suas circunstâncias históricas e sociais, buscou identificar signos visuais, sonoros e corporais para elaboração de uma poética cênica para o grupo e, dessa forma, oferecer ao ator/pesquisador ribeirinho e ser- tanejo uma possibilidade de criação referenciada em elementos de sua identidade cultural. O projeto foi idealizado em 2012 onde fizemos um mapeamento das manifestações culturais de comuni- dade ribeirinhas do médio São Fran- cisco com a colaboração de amigos e lideranças comunitárias dos municí- pios de Petrolina, Lagoa Grande, Santa Maria da Boa Vista, Orocó e Cabrobó. Com a aprovação no edital Funcultura 2012/2103 demos início em janeiro de 2014 à etapa fundamental do processo - as visitas de campo às comunidades, a fim de observar as práticas popu- lares tradicionais de danças e festas, como reisado, São Gonçalo, samba de reis, capim lêlê, festas de novenários, festas de caboclos, e pega de boi. As visitas por ordem cronológica acon- teceram nas vilas, distritos e comuni- dades: Fulgêncio (St.Mªda Boa Vista), Comunidade Quilombola do Lambedor (Lagoa Grande), Coripós (St.Mªda Boa Vista), Ilha do Massangano (Petrolina), Território Quilombola Águas do Velho Chico (Orocó), Projeto de Irrigação N1 (Petrolina) e Ilha de Assunção/Povo Truká (Cabrobó). Voltamos nosso olhar e sensibilida- de para a elementos de nossa identida- de sertaneja e ribeirinha e nesse pro- cesso nos deparamos com situações familiares e outras que se apresenta- vam a nós estranhas. Perscrutamos rastros das ancestralidades, conhece- mos muitas histórias que ajudaram nos conhecer também e com essa ba- gagem de pesquisadores na memória da mente do corpo fomos para sala de trabalho e fizemos laboratórios de in- 9 vestigação corporal a partir das matri- zes gestuais das danças e de estímulos sonoros e imagéticos que permeavam aquelas vivencias, seus festejos, os comportamentos, as formas de andar, de sorrir, de se organizar, os cheiros, os sons e as paisagens. Assim, busca- mos criar poéticas do corpo de ator e atriz e da dramaturgia de cena para a criação do que chamamos exercício cênico, as “Cenas Ribeirinhas” repre- sentada por Cristiane Crispim, Juliene Moura, Marcos Aurélio e Paulo Junior, que apresentam no corpo, na voz e nos seus elementos de cena metáforas ins- piradas, na festa, no corpo, na fé, nos ritos, na luta e na comunhão dos povos tradicionais ribeirinhos. Cenas Ribeirinhas veio em todo seu processo alimentar uma necessi- dade dos atores e atrizes do grupo do domínio da movimentação e do gesto, cobrando uma postura artista/criador de representações em que utiliza o seu corpo como principal instrumento téc- nico. Porém, o exercício de criação não foi apenas no campo da atuação, mas também de direção, encenação e orien- tação dos processos de laboratórios, lugares em que o ator e diretor do gru- po Antonio Veronaldo se experimen- tou no processo, vindo complementar com o olhar de espectador a concep- ção estética do trabalho desenvolvido pelos atores. Contamos com a importante cola- boração de profissionais que somaram suas pesquisas à do grupo, enrique- cendo as nossas perspectivas em rela- ção ao trabalho. Na orientação teórica tivemos o Prof.Dr. Elson Rabelo da Uni- vasf - Universidade Federal do Vale do São Francisco, trazendo o debate sobre conceitos em torno da pesquisa antro- pológica e da cultura popular; na pre- paração de corpo do Prof. Dr. Érico José da UFBA – Universidade Federal da Bahia, onde trabalhamos o corpo-más- cara e sua potência expressiva para representação; e na preparação de voz a cantora, rabequeira, atriz e pesquisa- dora Renata Rosa, formada em Fono- audiologia pela USP – Universidade de São Paulo, onde o grupo desenvolveu princípios da relação orgânica entre o movimento, a respiração, a produção de voz e o canto. A vivência afetiva promovida pela pesquisa ampliou perspectivas de repertório criativo transformando o nosso olhar sobre o outro e sobre o eu-corpo do ator, subjetivo e híbri- do, oferecendo materiais tanto para a criação quando para o treinamento de ator/atriz carregados de signifi- cados que emergiram do movimento de distanciamento e aproximação da nossa cultura. Compreendemos nes- se percurso que a cultura popular se apresenta como fonte tanto em sua forma com em seu conteúdo, ou seja, na estética, na poética, na técnica e na temática - onde uma rica concatena- ção de símbolos e fazeres de danças, cantos, trabalhos, revelando caminhos para elaboração de uma identidade en- quanto moradores da ribeira e artistas de teatro. 10 Com todo o trajeto desenvolvido na pesquisa e diante de todos os estí- mulos, corporais, sonoros, imagéticos e verbais que tivemos contato, neste momento temos apenas um rastro do percurso em nosso corpo-memória- -criação de artistas do fazer teatral e essas pegadas são norteadora, indi- cadores que guardam a potência da curiosidade e da profusão de questio- namentos. A pesquisa em si não acaba, é mais abrangente do que o que foi possível apresentar com o resultado das cenas, infindáveis caminhos exis- tem pela frente e “redemoinhos” se formam em nossos sumidouros emer- gindo identidades pulsantes, que se re- lacionam com o movimento simbólico da vida e da morte. Temos enquanto grupo a consciência que morreremos e nasceremos muitas vezes ainda nesse terreno que começou a ser areado por esta vivência. Em resumo, apresentamos aqui o mapeamento geográfico e afetivo des- sa nossa imersão de quase dois anos em elementos de nossas tradições e da nossa ancestralidade a fim de criar po- éticas e estética que se revelaram para nós nas festas, nos corpos, nas crenças, nas pisadas, nos ritos, nas lutas e na comunhão de povos com o rio e seus mistérios. Abriram-se veredas e veias por entre gentes, terras, ar, águas do médio São Francisco e agora seguimos compreendendo mais as identidades que nos circundam e nos constituem como pessoas e artistas. p Cristiane Crispim Coordenadora e atriz-pesquisadora no projeto Cenas Ribeirinhas 11 “As pegadas deixadas na beira do rio” ou na “ribeira” / Ou “o percurso” ou “Por entre veredas” H 12 “Sou rio que corta a terra e abre veredas...” Iniciamos nosso percurso com as visitas de campo às comunidades ribeirinhas. Essa primeira e fundamental etapa contri- buiu para o mapeamento e registrode manifestações das culturas populares que acontecem dentro do recorte do Médio São Francisco, afim de que nós, atores e atrizes da Cia Biruta redirecionássemos o nosso olhar para o diálogo entre nosso trabalho de composição e as matrizes das culturas a que pertencemos. Cada rastro encontrado na beira do rio nos contava uma história e muitas delas nos acompanharam até os exercícios cênicos, partilhamos um pouco das imagens e das paisa- gens que nosso “olhos-pés-água” percorreram. 13 Petrolina e 14 01 15 02 16 03 17 04 18 05 19 06 20 Santa Maria da Boa Vista b 21 07 22 08 23 09 24 10 25 11 26 Lagoa Grande m 27 12 28 13 29 14 30 15 31 Orocó f 32 16 33 17 34 Cabrobó r 35 18 36 19 37 O Sumidouro e 38 Processos de laboratórios e preparação corporal Ao fim das visitas de campo tínhamos como material sensível memórias não só das danças e cantos, mas das histórias, cheiros, sons, paisagens, comportamentos, saberes e fazeres que circundavam todas essas práticas populares que tivemos contato. Elas apresentavam particularidades ao mesmo tempo que se atravessavam tecendo histórias em comum em que nos reconhecíamos gerando significados afetivos para princípios e técnicas teatrais que antes referenciávamos apenas a práticas distantes de nossa cultura. No nosso percurso fomos desafiados a concatenar símbolos para fazer que revelásse- mos no labor da sala, essas significações sobre a técnicas que fomos aperfeiçoando com o parâmetro das vivencias. A partir da convergência entre a tradição popular e a tradição teatral encontrada na Antropologia Teatral sobre a qual temos sido forjados enquanto grupo de teatro, construímos métodos para um treino que fizesse nosso corpo rio corrente e terra fértil e também nos fizesse tambor, fogo e poeira e assim, depois de encontrada uma gramática própria, significativa para nós, começamos a elaborar nossa poética e todo rio percorrido se fazia redemoinho nos sumidouros de nossas inquietações. 39 20 40 21 41 22 42 O rio que corre no corpo U 43 Exercício cênico Ao fim desse processo, quatro cenas foram elaboradas pelos quatro atores-pesquisadores com a colaboração do diretor- -pesquisador Antonio Veronaldo nas dramaturgias e orientação de laboratórios de criação e corpo. E dele a costura das ce- nas, assinando assim a direção e encenação do trabalho. As “Cenas Ribeirinhas” se apresenta hoje como um exercício cênico da pesquisa desenvolvida nesses últimos três anos, onde o processo de ampliar o repertório sensível para criar poéticas do corpo de ator e atriz e da dramaturgia de cena, foi tão importante que o resultado que buscou conter na dramaturgia de cena e nas energias modeladas dos atores-pesquisadores as forças do corpo brincante, da festa, dos ritos, da luta e da comunhão dos povos tradicionais ribeirinhos. 44 23 45 24 46 As Cenas Ribeirinhas X X 47 Encourado s 48 25 49 26 50 Ator-pesquisador, Marcos Aurélio Soares A construção da cena parte do universo que permeia a vida do vaqueiro sertanejo, entre aboios, galopes e pegas de boi as histórias aparecem baseadas na visita que fizemos ao distrito de Jutaí no município de Lagoa Grande na 54ª Festa dos Vaqueiros. A pega do boi no mato é o auge da Festa, e é também uma das imagens mais fortes para a construção gestual da cena que se utiliza do sobe e desce do corpo do vaqueiro durante a cavalgada como um compasso rítmico do corpo do ator, juntamente com o ritmo e gestos observados nas danças do São Gonçalo, Capim Lelê e Reisado, este último é realizado na comunidade do Lambedor. Estabeleceu-se a energia da terra, ou aquela que se enraíza e ganha força com o contato com o solo, como a condutora de toda a encenação. Um clima místico envolve a cena onde não se sabe o que realmente se vê e o que se imagina e é no eixo entre esses paralelos que se es- tabelece todo o jogo cênico 51 Redemoinho e 52 27 53 28 54 Atriz-pesquisadora, Cristiane Crispim A cena congrega o universo místico, sincrético e feminino que une as expressões de resistência e de festa das comunida- des que vivenciamos. Fazendo uma relação entre a espiritualidade (ar) – dança (água) – luta (terra), para perceber como elementos dialogam no corpo de atriz, construindo novos significados. Buscou-se nas energias do ar, da água e da terra e do encontro delas, qualidades para compor a movimentação e o ritmo da cena, que foi atravessada de várias danças e dos contextos socioculturais como a realidade dos atingidos por barragens. A presença do feminino se deu pela observação de que em grande parte das comunidades que visitamos elas são a principal força que unia as pessoas em torno da ação de resistência que é manter um grupo de tradição popular. A cena apresenta como símbolo dessa força de resistência a mulher mística que faz rezas e prenúncios, bem como entoa cantos e dança em seus terreiros, convergindo a alegria e a luta em uma só expressão. 55 O Encantado j 56 29 57 30 58 Ator-pesquisador, Paulo Junior O personagem corporificado em cena trata-se de um ser encantado e vem representar o misticismo e encantamento que existe nas manifestações populares. Ao mesmo em que esse ser lida com mistérios metafísicos, toca os prazeres terrenos da sensibilidade humana, comendo, bebendo, fumando e brincando. Os elementos de cena e sua dramaturgia recorrem ao estimulo desses sentidos, os sons, os gostos e os cheiros – perfume de alfazemas, rapadura, o cachimbo, o toque do maracá, tudo isso traz a atmosfera do ritual que se confunde com as festas. Na cena optou-se por não colocar texto verbal, permitin- do que as imagens fossem criadas somente por tais elementos e pelo corpo do ator através da investigação do grupo sobre o ritmo das danças em junção com as forças da terra e do ar. 59 O Pequenino f 60 31 61 32 62 Atriz-pesquisadora – Juliene Moura A cena, como as anteriores, é atravessada por emáticas comuns encontradas de diversas formas em cada comunidade. A força, a fé, alegria e os mistérios que todas as manifestações trazem com elas e os exercícios de sala fortaleceram a busca pela compreensão das energias encontradas nos elementos da natureza. A criança e o espirito alegre e curioso conduz a cena, pois se observou a forte participação delas nas manifestações culturais estudas, assim como o ato de contar histórias passando a tradição de geração a geração foi o grande mote da dramaturgia representada pela atriz. 63 As Cenas Ribeirinhas ou de como se enunciam as poéticas populares H O espetáculo é o início de uma transformação social necessária e não um momento de equilíbrio e repouso. O fim é o começo! Augusto Boal. Teatro do oprimido. 65 Talvez soe como uma referên- cia óbvia que a citação de Augusto Boal surja no começo deste texto. Ainda ecoam suas palavras, ditas em momentos-chave da história do teatro brasileiro, nos anos 1960 e 1970: “todo teatro é necessariamente político”. Na esteira de Bertolt Brecht e das bandeiras de luta latinoamericanas, urgia, segundo Boal, uma produção cultural profundamente contextua- lizada nas questões sociais advindas de nossa formação histórica e todavia candentes para a atualidade. Talvez por isso, a ênfase radical na política tenha se tornado o alvo da crítica a algumas daquelas posturas teóricas, quando se entendia que o “povo” frequentemente era considerado o interlocutor estético do produtor teatral, mas nem sempre podia comparecer, a partir de suas con- dições sociais e de seus próprios uni- versos simbólicos, aos compromissos da emancipação social. Sem dúvida, essas questões passa- ram pela concepção, pesquisa e mon- tagem das Cenas Ribeirinhas trazidas a público pela Companhia Biruta de Teatro, neste ano de 2016. Desde o interesse etnográfico pelas culturas populares até a definição do processo criativo dos atores, seus textos e per- sonagens,e todo um esforço de falar ao tempo presente, a filiação a certa tradi- ção do teatro engajado é assumida. Certamente, há dois riscos, aqui: o da folclorização e o da panfletagem. Este, como foi dito, tenderia a se apro- priar das práticas populares em nome de um objetivo maior, supostamente mais nobre, de desalienação e de en- gajamento. Aquele vê o povo absolu- tamente “de fora”, sem ponderar suas questões sociais: o dado folclórico até serve para informar e renovar a lin- guagem estética da arte elitista, mas o povo continua sendo pensado como instância imutável e alheia à sensibili- dade dos palcos e dos espaços consa- grados da arte. O projeto das Cenas Ribeirinhas procurou escapar a esses riscos pela via da Antropologia Teatral e a partir de uma vivência respeitosa e aten- ta junto aos grupos e comunidades tradicionais desta porção do rio São Francisco no sertão pernambucano. Surpreendentemente, as paisagens e, sobretudo, os sujeitos sociais encon- trados pelos atores depõem contra muitos estereótipos: de sertaneja e sertanejo, de pernambucano, de Nor- deste, porque muito dos seus contex- tos rituais e criativos ainda passam ao largo da produção cultural legitimada no Brasil. Depois de dedicada pesquisa, acompanhada de entrevistas e fotogra- fias, o que fazer com um material con- sistente que foi visto, ouvido e elabo- 66 rado junto a comunidades tradicionais de agricultores, pescadores, artesãos? Boal, novamente, diria: “Usamos o cor- po, fisionomias, objetos, distâncias e cores, que nos obrigam a ampliar nos- sa visão sinalética”. O resultado, ainda por ser mais amplamente mostrado aos diferentes públicos, é, portanto, provocativo, multissensorial, com uma proposital economia de recursos cê- nicos – como figurino e cenário –, que leva a apostar, com certa ousadia, que as atrizes e os atores irão vetorizar a energia criadora. Das atrizes e atores, aliás, é que vêm o esforço de falar como povo sem caricaturar o povo, de falar tanto ao povo quanto ao público tido como so- fisticado e distinto. O povo, as classes populares, a gente trabalhadora ou mesmo malandra, como muitos sa- bemos, ainda é um enigma, político e estético, e transpor sua linguagem à cena não é tarefa das mais fáceis. Nas poéticas populares, explodem não só os elementos para a denúncia social, como os gritos de dor e protesto, mas também os gozos festivos, os passos bem marcados, as memórias dos cor- pos, de suas fazeres e júbilos, os seus feitiços e encantamentos. O que a Companhia Biruta nos apresenta, portanto, é um trabalho de- licado de aprendizado com o outro, de experimentação de sua sensibilidade e de compreensão de que os grupos populares articulam e demandam sua própria enunciação, para aqueles que sabem ouvi-los. p Elson de Assis Rabelo Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco 67 O Tombador E 68 Tentamos traduzir no corpo, na voz, no gesto e no olhar um univer- so em volta de um rio, esse rio que é nossa casa. Nosso maior objetivo na pesquisa cenas ribeirinhas é dar a ver no nosso trabalho teatral o mundo abstrato em volta do encantado rio são francisco, com suas cores, cantos, chei- ros e mistérios. Foi visitando os povos ribeirinhos, ouvindo e vivenciando seus cantos, danças, histórias, promo- vendo encontros e se encontrando em um mergulho ou outro nas águas do velho chico, que fomos descobrindo formas e práticas que poderiam dire- cionar nosso gestual e energia cênicos. A partir das inquietações, dos obs- táculos, das trepidações que nos tiram do lugar de conforto, pudemos buscar a compreensão para transformar em exercícios de treinamentos e proces- sos criativos para o grupo nossas me- mórias imagéticas, Sonoras e físicas, forjando um novo caminho de descobertas no que querí- amos seguir, para compor ou recompor um corpo vivo e fluido, mas com potên- cia, força e energia para nossa cena te- atral. Assim, demos início ao tecer de rede, buscando transfigurar o encanta- do em ato, e nesse momento, ao encon- tro, à dedicação e à entrega do grupo para o ardor do oficio de fazer, desfazer ou refazer o seu próprio caminho em poéticas desse ator/atriz da ribeira. Ainda não concluímos, mas isso é com tempo e persistência, persistência essa que o nosso povo - os barqueiros, pes- cadores, agricultores, sambadores, va- queiros e contadores de histórias, que lutam e resistem, tanto nos ensinam. Vejo que o resultado demostrado em cenas ribeirinhas foi maior que um encontro estético ou técnico ou cêni- co, o que alcançamos foi uma mistura de corpos, historias, sagrado, profa- no, mistérios e encantamentos que se transformou em exícios físicos, vocais e de dramaturgias, coisas fundamen- tais para nosso oficio teatral. Também fica a certeza do objetivo encontrado ou trazido pelo o rio: o de se reconhe- cer ribeirinho e viver o encontro com nossas identidades, com tudo que o rio nos traz, e de que podemos retribuir esses presentes em oferta na forma de arte do fazer teatral. p Antonio Veronaldo Diretor e encenador jjj k ÍNDICE DE IMAGENS k Imagem 1 - Festa de Cosme das Águas e Rei Sutão. Ilha do Massangano, Petrolina. Créditos: Cristine Crispim. Imagem 2 - Festa de Cosme das Águas e Rei Sutão. Ilha do Massangano, Petrolina. Créditos: Cristiane Crispim. Imagem 3 - Samba de Veio. Ilha do Massangano, Workshop Cenas Ribeirinhas, Petrolina. Créditos: Rubens Henrique. Imagem 4 - Samba de Veio. Ilha do Massangano, Pe- trolina. Crédito: Rubens Henrique. Imagem 5 -São Gonçalo. Bairro N1, Petrolina. Crédi- tos: Cristiane Crispim. Imagem 6 - São Gonçalo. Bairro N1, Petrolina. Crédi- tos: Cristiane Crispim. Imagem 7 - Festa de Nossa Srª da Saúde. Fulgêncio, Santa Maria da Boa Vista. Créditos: Uriel Bezerra. Imagem 8 - Festa de Nossa Srª da Saúde. Fulgêncio, Santa Maria da Boa Vista. Créditos: Uriel Bezerra. Imagem 9 - (Dona Heloísa)Capim lelê. Coripós, Santa Maria da Boa Vita. Créditos: Cristiane Crispim. Imagem 10 - (Daniel)Capim Wlelê. Coripós. Santa Ma- ria da Boa Vista. Créditos: Robério Brasileiro. Imagem 11 - Capim Lelê. Coripós, Santa Maria da Boa Vista. Créditos: Cristiane Crispim. Imagem 12 - (Família Pereira Borges)Reisado e São Gonçalo. Lambedor, Lagoa Grande. Créditos: Cristiane Crispim. Imagem 13 - Reisado e São Gonçalo. Lambedor. Lagoa Grande. Créditos: Antônio Veronaldo. Imagem 14 - Festa do vaqueiro. Jutaí, Lagoa Grande. Créditos: Cristiane Crispim. Imagem 15 - Festa do vaqueiro. Jutaí. Lagoa Grande. Créditos: Cristiane Crispim. Imagem 16 - Reisado. Fazenda da Mata de São José, Orocó. Créditos: Cristiane Crispim. Imagem 17 - Reisado. Fazenda da Mata São José, Oro- có. Créditos: Robério Brasileiro. Imagem 18 - Toré. Ilha de Assunção, Cabrobó. Crédi- tos: Cristiane Crispim. Imagem 19 - Toré. Ilha de Assunção, Cabrobó. Crédi- tos: Cristiane Crispim. Imagem 20 - Oficina de preparação de elenco. Oficina de máscaras com Érico José. Créditos: Robério Brasi- leiro. Imagem 21 - Preparação de elenco. Oficina de másca- ras com Érico José. Créditos: Robério Brasileiro. Imagem 22 - Preparação de elenco. Oficina o impulso da voz e do corpo com Renata Rosa. Créditos: Robério Brasileiro. Imagem 23 - Ensaios. Créditos: Robério Brasileiro. Imagem 24 - Ensaios. Créditos: Robério Brasileiro. Imagem 25 - O Encourado. Apresentação de Cena Ri- beirinha. Créditos: Rubens Henrique. Imagem 26 - O Encourado. Apresentação de Cena Ri- beirinha. Créditos: Rubens Henrique. Imagem 27 - O Redemoinho. Apresentação de Cena Ribeirinha. Créditos: Rubens Henrique. Imagem 28 - O Redemoinho. Apresentação de Cena Ribeirinha. Créditos: Rubens Henrique. Imagem 29 - O Encantado. Apresentação de Cena Ribei- rinha. Créditos: Rubens Henrique. Imagem 30 - O Encantado. Apresentação de Cena Ribei- rinha. Créditos: Rubens Henrique. Imagem 31 - O Pequenino. Apresentação de Cena Ri- beirinha. Créditos: Rubens Henrique. Imagem 32 - O Pequenino. Apresentaçãode Cena Ribei- rinha. Créditos: Rubens Henrique. Fichatécnica Cenas Ribeirinhas Direção e encenação: Antonio Veronaldo Atores-pesquisadores: Cristiane Crispim, Juliente Moura, Marcos Aurélio e Paulo Junior Preparação de elenco: Antonio Veronaldo, Erico José e Renata Rosa Coordenação e produção da pesquisa: Cristiane Crispim Orientação: Prof. Dr. Elson Rabelo (Univasf) Criação de logo: Coelho Assis Imagens: Robério Brasileiro e Uriel Bezerra Publicação Edição: Cristiane Crispim Edição gráfica: Uriel Bezerra Agradecimentos: Aos amigos e parceiros Alfredo Neto, Nailton Alves, ONG Acari, Jailson Lima, Chagas Sales, Elizamar Lima, fundamentais nessa trajetória de descobertas; ao Sesc-Petrolina pelo apoio na realização da Mostra de Resultados Cenas Ribeirinhas; à Prefeitura municipal de Petrolina e Prefeitura Municipal de Lagoa Grande pelo apoio cultural na articulação e na concessão de espaços e a todas/os as/os moradoras/es das co- munidades tradicionais visitadas que nos acolheram com tanto carinho e respeito, a todas/os nossa admiração pela força e pela resistência. Realização Parceria Incentivo Diretoria de Arte, Cultura e Ações Comunitárias Direção: Prof. Edson Macalini Equipe Administrativa: Heloisa Helena Mafra Thiê Gomes dos Santos Produção Cultural: Débora Viana Gestão Digital da Informação: Jonathas Plínio Santana Criação Gráfica: Jean Cordeiro Comunicação: Mayane Santos