Logo Passei Direto
Buscar

Revista Redemoinho_ultima versão_2018 (1)

Ferramentas de estudo

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Foto: Festa de Nossa Senhora da Saúde. Santa Maria da Boa Vista, Fulgêncio. 
ggg
Apresentação 
 p. 7
“As pegadas deixadas na beira do rio” ou na “ribeira” 
/ Ou “o percurso” ou “Por entre veredas”
 p. 11
Petrolina
p. 13
Santa Maria da Boa Vista
p. 20
Lagoa Grande
p. 26
Orocó
p. 31
Cabrobó
p. 34
O Sumidouro - Processo de laboratório
 p. 37
ÍNDICEj j
As cenas ribeirinhas
 p. 46
O Encourado 
p. 47
O Redemoinho 
p. 51
O Encantado 
p. 55
O Pequenino 
p. 59
As Cenas Ribeirinhas ou de como se enunciam as poéticas populares
Elson de Assis Rabelo
p. 63
O Tombador
Antonio Veronaldo
p. 67
Índice de Imagens 
p. 70
Ficha técnica e agradecimentos
 p. 71
7
Rio que se abre, corpo que se afunda em redemoinhos de criação.
R
8
De que bases gestuais o ator 
do Sertão do São Fran-
cisco pode dispor para 
desenvolver o seu traba-
lho de composição de personagens? 
Quais as formas contemporâneas de se 
representar a tradição, considerando 
os diversos processos de combinações 
indenitárias implícitas nas manifesta-
ções populares ribeirinhas do Reisado, 
do São Gonçalo, do Capim Lêlê e do 
Samba de Véio? Partindo desses ques-
tionamentos, o primeiro projeto de 
pesquisa da Cia Biruta, Cenas Ribeiri-
nhas, teve como proposta principal in-
vestigar as matrizes da cultura popular 
ribeirinha para elaboração de material 
de composição de personagens e cenas 
por meio da observação de manifesta-
ções recorrentes nesse recorte cultural 
e geográfico. O estudo sobre essas prá-
ticas populares de dança e festas agre-
gadas às relações sociais do cotidiano 
das comunidades, suas circunstâncias 
históricas e sociais, buscou identificar 
signos visuais, sonoros e corporais 
para elaboração de uma poética cênica 
para o grupo e, dessa forma, oferecer 
ao ator/pesquisador ribeirinho e ser-
tanejo uma possibilidade de criação 
referenciada em elementos de sua 
identidade cultural. 
O projeto foi idealizado em 2012 
onde fizemos um mapeamento das 
manifestações culturais de comuni-
dade ribeirinhas do médio São Fran-
cisco com a colaboração de amigos e 
lideranças comunitárias dos municí-
pios de Petrolina, Lagoa Grande, Santa 
Maria da Boa Vista, Orocó e Cabrobó. 
Com a aprovação no edital Funcultura 
2012/2103 demos início em janeiro de 
2014 à etapa fundamental do processo 
- as visitas de campo às comunidades, 
a fim de observar as práticas popu-
lares tradicionais de danças e festas, 
como reisado, São Gonçalo, samba de 
reis, capim lêlê, festas de novenários, 
festas de caboclos, e pega de boi. As 
visitas por ordem cronológica acon-
teceram nas vilas, distritos e comuni-
dades: Fulgêncio (St.Mªda Boa Vista), 
Comunidade Quilombola do Lambedor 
(Lagoa Grande), Coripós (St.Mªda Boa 
Vista), Ilha do Massangano (Petrolina), 
Território Quilombola Águas do Velho 
Chico (Orocó), Projeto de Irrigação N1 
(Petrolina) e Ilha de Assunção/Povo 
Truká (Cabrobó). 
Voltamos nosso olhar e sensibilida-
de para a elementos de nossa identida-
de sertaneja e ribeirinha e nesse pro-
cesso nos deparamos com situações 
familiares e outras que se apresenta-
vam a nós estranhas. Perscrutamos 
rastros das ancestralidades, conhece-
mos muitas histórias que ajudaram 
nos conhecer também e com essa ba-
gagem de pesquisadores na memória 
da mente do corpo fomos para sala de 
trabalho e fizemos laboratórios de in-
9
vestigação corporal a partir das matri-
zes gestuais das danças e de estímulos 
sonoros e imagéticos que permeavam 
aquelas vivencias, seus festejos, os 
comportamentos, as formas de andar, 
de sorrir, de se organizar, os cheiros, 
os sons e as paisagens. Assim, busca-
mos criar poéticas do corpo de ator e 
atriz e da dramaturgia de cena para a 
criação do que chamamos exercício 
cênico, as “Cenas Ribeirinhas” repre-
sentada por Cristiane Crispim, Juliene 
Moura, Marcos Aurélio e Paulo Junior, 
que apresentam no corpo, na voz e nos 
seus elementos de cena metáforas ins-
piradas, na festa, no corpo, na fé, nos 
ritos, na luta e na comunhão dos povos 
tradicionais ribeirinhos. 
Cenas Ribeirinhas veio em todo 
seu processo alimentar uma necessi-
dade dos atores e atrizes do grupo do 
domínio da movimentação e do gesto, 
cobrando uma postura artista/criador 
de representações em que utiliza o seu 
corpo como principal instrumento téc-
nico. Porém, o exercício de criação não 
foi apenas no campo da atuação, mas 
também de direção, encenação e orien-
tação dos processos de laboratórios, 
lugares em que o ator e diretor do gru-
po Antonio Veronaldo se experimen-
tou no processo, vindo complementar 
com o olhar de espectador a concep-
ção estética do trabalho desenvolvido 
pelos atores. 
 Contamos com a importante cola-
boração de profissionais que somaram 
suas pesquisas à do grupo, enrique-
cendo as nossas perspectivas em rela-
ção ao trabalho. Na orientação teórica 
tivemos o Prof.Dr. Elson Rabelo da Uni-
vasf - Universidade Federal do Vale do 
São Francisco, trazendo o debate sobre 
conceitos em torno da pesquisa antro-
pológica e da cultura popular; na pre-
paração de corpo do Prof. Dr. Érico José 
da UFBA – Universidade Federal da 
Bahia, onde trabalhamos o corpo-más-
cara e sua potência expressiva para 
representação; e na preparação de voz 
a cantora, rabequeira, atriz e pesquisa-
dora Renata Rosa, formada em Fono-
audiologia pela USP – Universidade de 
São Paulo, onde o grupo desenvolveu 
princípios da relação orgânica entre o 
movimento, a respiração, a produção 
de voz e o canto. 
A vivência afetiva promovida pela 
pesquisa ampliou perspectivas de 
repertório criativo transformando o 
nosso olhar sobre o outro e sobre o 
eu-corpo do ator, subjetivo e híbri-
do, oferecendo materiais tanto para 
a criação quando para o treinamento 
de ator/atriz carregados de signifi-
cados que emergiram do movimento 
de distanciamento e aproximação da 
nossa cultura. Compreendemos nes-
se percurso que a cultura popular se 
apresenta como fonte tanto em sua 
forma com em seu conteúdo, ou seja, 
na estética, na poética, na técnica e na 
temática - onde uma rica concatena-
ção de símbolos e fazeres de danças, 
cantos, trabalhos, revelando caminhos 
para elaboração de uma identidade en-
quanto moradores da ribeira e artistas 
de teatro. 
10
 Com todo o trajeto desenvolvido 
na pesquisa e diante de todos os estí-
mulos, corporais, sonoros, imagéticos 
e verbais que tivemos contato, neste 
momento temos apenas um rastro do 
percurso em nosso corpo-memória-
-criação de artistas do fazer teatral e 
essas pegadas são norteadora, indi-
cadores que guardam a potência da 
curiosidade e da profusão de questio-
namentos. A pesquisa em si não acaba, 
é mais abrangente do que o que foi 
possível apresentar com o resultado 
das cenas, infindáveis caminhos exis-
tem pela frente e “redemoinhos” se 
formam em nossos sumidouros emer-
gindo identidades pulsantes, que se re-
lacionam com o movimento simbólico 
da vida e da morte. Temos enquanto 
grupo a consciência que morreremos e 
nasceremos muitas vezes ainda nesse 
terreno que começou a ser areado por 
esta vivência. 
Em resumo, apresentamos aqui o 
mapeamento geográfico e afetivo des-
sa nossa imersão de quase dois anos 
em elementos de nossas tradições e da 
nossa ancestralidade a fim de criar po-
éticas e estética que se revelaram para 
nós nas festas, nos corpos, nas crenças, 
nas pisadas, nos ritos, nas lutas e na 
comunhão de povos com o rio e seus 
mistérios. Abriram-se veredas e veias 
por entre gentes, terras, ar, águas do 
médio São Francisco e agora seguimos 
compreendendo mais as identidades 
que nos circundam e nos constituem 
como pessoas e artistas. 
p
Cristiane Crispim
Coordenadora e atriz-pesquisadora no 
projeto Cenas Ribeirinhas
11
“As pegadas deixadas na beira do rio” ou na “ribeira” / Ou “o percurso” ou “Por entre veredas”
H
12
“Sou rio que corta a terra e abre veredas...”
Iniciamos nosso percurso com as visitas de campo às comunidades ribeirinhas. Essa primeira e fundamental etapa contri-
buiu para o mapeamento e registrode manifestações das culturas populares que acontecem dentro do recorte do Médio 
São Francisco, afim de que nós, atores e atrizes da Cia Biruta redirecionássemos o nosso olhar para o diálogo entre nosso 
trabalho de composição e as matrizes das culturas a que pertencemos. Cada rastro encontrado na beira do rio nos contava 
uma história e muitas delas nos acompanharam até os exercícios cênicos, partilhamos um pouco das imagens e das paisa-
gens que nosso “olhos-pés-água” percorreram.
13
Petrolina
e
14
01
15
02
16
03
17
04
18
05
19
06
20
Santa Maria da Boa Vista
b
21
07
22
08
23
09
24
10
25
11
26
Lagoa Grande
m
27
12
28
13
29
14
30
15
31
Orocó
f
32
16
33
17
34
Cabrobó
r
35
18
36
19
37
O Sumidouro
e
38
Processos de laboratórios e preparação corporal
Ao fim das visitas de campo tínhamos como material sensível memórias não só das danças e cantos, mas das histórias, 
cheiros, sons, paisagens, comportamentos, saberes e fazeres que circundavam todas essas práticas populares que tivemos 
contato. Elas apresentavam particularidades ao mesmo tempo que se atravessavam tecendo histórias em comum em que 
nos reconhecíamos gerando significados afetivos para princípios e técnicas teatrais que antes referenciávamos apenas a 
práticas distantes de nossa cultura. No nosso percurso fomos desafiados a concatenar símbolos para fazer que revelásse-
mos no labor da sala, essas significações sobre a técnicas que fomos aperfeiçoando com o parâmetro das vivencias. A partir 
da convergência entre a tradição popular e a tradição teatral encontrada na Antropologia Teatral sobre a qual temos sido 
forjados enquanto grupo de teatro, construímos métodos para um treino que fizesse nosso corpo rio corrente e terra fértil 
e também nos fizesse tambor, fogo e poeira e assim, depois de encontrada uma gramática própria, significativa para nós, 
começamos a elaborar nossa poética e todo rio percorrido se fazia redemoinho nos sumidouros de nossas inquietações. 
39
20
40
21
41
22
42
O rio que corre no corpo
U
43
Exercício cênico 
Ao fim desse processo, quatro cenas foram elaboradas pelos quatro atores-pesquisadores com a colaboração do diretor-
-pesquisador Antonio Veronaldo nas dramaturgias e orientação de laboratórios de criação e corpo. E dele a costura das ce-
nas, assinando assim a direção e encenação do trabalho. As “Cenas Ribeirinhas” se apresenta hoje como um exercício cênico 
da pesquisa desenvolvida nesses últimos três anos, onde o processo de ampliar o repertório sensível para criar poéticas do 
corpo de ator e atriz e da dramaturgia de cena, foi tão importante que o resultado que buscou conter na dramaturgia de cena 
e nas energias modeladas dos atores-pesquisadores as forças do corpo brincante, da festa, dos ritos, da luta e da comunhão 
dos povos tradicionais ribeirinhos.
44
23
45
24
46
As Cenas Ribeirinhas
X
X
47
Encourado
s
48
25
49
26
50
Ator-pesquisador, Marcos Aurélio Soares
A construção da cena parte do universo que permeia a vida do vaqueiro sertanejo, entre aboios, galopes e pegas de boi as histórias 
aparecem baseadas na visita que fizemos ao distrito de Jutaí no município de Lagoa Grande na 54ª Festa dos Vaqueiros. A pega do 
boi no mato é o auge da Festa, e é também uma das imagens mais fortes para a construção gestual da cena que se utiliza do sobe e 
desce do corpo do vaqueiro durante a cavalgada como um compasso rítmico do corpo do ator, juntamente com o ritmo e gestos 
observados nas danças do São Gonçalo, Capim Lelê e Reisado, este último é realizado na comunidade do Lambedor. Estabeleceu-se 
a energia da terra, ou aquela que se enraíza e ganha força com o contato com o solo, como a condutora de toda a encenação. Um 
clima místico envolve a cena onde não se sabe o que realmente se vê e o que se imagina e é no eixo entre esses paralelos que se es-
tabelece todo o jogo cênico 
51
Redemoinho
e
52
27
53
28
54
Atriz-pesquisadora, Cristiane Crispim
A cena congrega o universo místico, sincrético e feminino que une as expressões de resistência e de festa das comunida-
des que vivenciamos. Fazendo uma relação entre a espiritualidade (ar) – dança (água) – luta (terra), para perceber como 
elementos dialogam no corpo de atriz, construindo novos significados. Buscou-se nas energias do ar, da água e da terra e 
do encontro delas, qualidades para compor a movimentação e o ritmo da cena, que foi atravessada de várias danças e dos 
contextos socioculturais como a realidade dos atingidos por barragens. A presença do feminino se deu pela observação de 
que em grande parte das comunidades que visitamos elas são a principal força que unia as pessoas em torno da ação de 
resistência que é manter um grupo de tradição popular. A cena apresenta como símbolo dessa força de resistência a mulher 
mística que faz rezas e prenúncios, bem como entoa cantos e dança em seus terreiros, convergindo a alegria e a luta em uma 
só expressão. 
55
O Encantado
j
56
29
57
30
58
Ator-pesquisador, Paulo Junior
O personagem corporificado em cena trata-se de um ser encantado e vem representar o misticismo e encantamento que 
existe nas manifestações populares. Ao mesmo em que esse ser lida com mistérios metafísicos, toca os prazeres terrenos 
da sensibilidade humana, comendo, bebendo, fumando e brincando. Os elementos de cena e sua dramaturgia recorrem ao 
estimulo desses sentidos, os sons, os gostos e os cheiros – perfume de alfazemas, rapadura, o cachimbo, o toque do maracá, 
tudo isso traz a atmosfera do ritual que se confunde com as festas. Na cena optou-se por não colocar texto verbal, permitin-
do que as imagens fossem criadas somente por tais elementos e pelo corpo do ator através da investigação do grupo sobre 
o ritmo das danças em junção com as forças da terra e do ar. 
59
O Pequenino
f
60
31
61
32
62
Atriz-pesquisadora – Juliene Moura 
A cena, como as anteriores, é atravessada por emáticas comuns encontradas de diversas formas em cada comunidade. 
A força, a fé, alegria e os mistérios que todas as manifestações trazem com elas e os exercícios de sala fortaleceram a 
busca pela compreensão das energias encontradas nos elementos da natureza. A criança e o espirito alegre e curioso 
conduz a cena, pois se observou a forte participação delas nas manifestações culturais estudas, assim como o ato de 
contar histórias passando a tradição de geração a geração foi o grande mote da dramaturgia representada pela atriz. 
63
As Cenas Ribeirinhas ou de como se enunciam as poéticas populares
H
O espetáculo é o início de uma transformação social necessária e não um momento de equilíbrio e repouso. 
O fim é o começo!
Augusto Boal. Teatro do oprimido.
65
 
Talvez soe como uma referên-
cia óbvia que a citação de Augusto 
Boal surja no começo deste texto. 
Ainda ecoam suas palavras, ditas em 
momentos-chave da história do teatro 
brasileiro, nos anos 1960 e 1970: “todo 
teatro é necessariamente político”.
Na esteira de Bertolt Brecht e das 
bandeiras de luta latinoamericanas, 
urgia, segundo Boal, uma produção 
cultural profundamente contextua-
lizada nas questões sociais advindas 
de nossa formação histórica e todavia 
candentes para a atualidade. Talvez por 
isso, a ênfase radical na política tenha 
se tornado o alvo da crítica a algumas 
daquelas posturas teóricas, quando se 
entendia que o “povo” frequentemente 
era considerado o interlocutor estético 
do produtor teatral, mas nem sempre 
podia comparecer, a partir de suas con-
dições sociais e de seus próprios uni-
versos simbólicos, aos compromissos 
da emancipação social. 
Sem dúvida, essas questões passa-
ram pela concepção, pesquisa e mon-
tagem das Cenas Ribeirinhas trazidas 
a público pela Companhia Biruta de 
Teatro, neste ano de 2016. Desde o 
interesse etnográfico pelas culturas 
populares até a definição do processo 
criativo dos atores, seus textos e per-
sonagens,e todo um esforço de falar ao 
tempo presente, a filiação a certa tradi-
ção do teatro engajado é assumida.
Certamente, há dois riscos, aqui: 
o da folclorização e o da panfletagem. 
Este, como foi dito, tenderia a se apro-
priar das práticas populares em nome 
de um objetivo maior, supostamente 
mais nobre, de desalienação e de en-
gajamento. Aquele vê o povo absolu-
tamente “de fora”, sem ponderar suas 
questões sociais: o dado folclórico até 
serve para informar e renovar a lin-
guagem estética da arte elitista, mas 
o povo continua sendo pensado como 
instância imutável e alheia à sensibili-
dade dos palcos e dos espaços consa-
grados da arte.
O projeto das Cenas Ribeirinhas 
procurou escapar a esses riscos pela 
via da Antropologia Teatral e a partir 
de uma vivência respeitosa e aten-
ta junto aos grupos e comunidades 
tradicionais desta porção do rio São 
Francisco no sertão pernambucano. 
Surpreendentemente, as paisagens e, 
sobretudo, os sujeitos sociais encon-
trados pelos atores depõem contra 
muitos estereótipos: de sertaneja e 
sertanejo, de pernambucano, de Nor-
deste, porque muito dos seus contex-
tos rituais e criativos ainda passam ao 
largo da produção cultural legitimada 
no Brasil.
Depois de dedicada pesquisa, 
acompanhada de entrevistas e fotogra-
fias, o que fazer com um material con-
sistente que foi visto, ouvido e elabo-
66
rado junto a comunidades tradicionais 
de agricultores, pescadores, artesãos? 
Boal, novamente, diria: “Usamos o cor-
po, fisionomias, objetos, distâncias e 
cores, que nos obrigam a ampliar nos-
sa visão sinalética”. O resultado, ainda 
por ser mais amplamente mostrado 
aos diferentes públicos, é, portanto, 
provocativo, multissensorial, com uma 
proposital economia de recursos cê-
nicos – como figurino e cenário –, que 
leva a apostar, com certa ousadia, que 
as atrizes e os atores irão vetorizar a 
energia criadora.
Das atrizes e atores, aliás, é que 
vêm o esforço de falar como povo sem 
caricaturar o povo, de falar tanto ao 
povo quanto ao público tido como so-
fisticado e distinto. O povo, as classes 
populares, a gente trabalhadora ou 
mesmo malandra, como muitos sa-
bemos, ainda é um enigma, político e 
estético, e transpor sua linguagem à 
cena não é tarefa das mais fáceis. Nas 
poéticas populares, explodem não só 
os elementos para a denúncia social, 
como os gritos de dor e protesto, mas 
também os gozos festivos, os passos 
bem marcados, as memórias dos cor-
pos, de suas fazeres e júbilos, os seus 
feitiços e encantamentos.
O que a Companhia Biruta nos 
apresenta, portanto, é um trabalho de-
licado de aprendizado com o outro, de 
experimentação de sua sensibilidade 
e de compreensão de que os grupos 
populares articulam e demandam sua 
própria enunciação, para aqueles que 
sabem ouvi-los. 
p
Elson de Assis Rabelo 
Professor da Universidade Federal 
do Vale do São Francisco
67
O Tombador
E
68
Tentamos traduzir no corpo, na 
voz, no gesto e no olhar um univer-
so em volta de um rio, esse rio que 
é nossa casa. Nosso maior objetivo 
na pesquisa cenas ribeirinhas é dar a 
ver no nosso trabalho teatral o mundo 
abstrato em volta do encantado rio são 
francisco, com suas cores, cantos, chei-
ros e mistérios. Foi visitando os povos 
ribeirinhos, ouvindo e vivenciando 
seus cantos, danças, histórias, promo-
vendo encontros e se encontrando em 
um mergulho ou outro nas águas do 
velho chico, que fomos descobrindo 
formas e práticas que poderiam dire-
cionar nosso gestual e energia cênicos.
A partir das inquietações, dos obs-
táculos, das trepidações que nos tiram 
do lugar de conforto, pudemos buscar 
a compreensão para transformar em 
exercícios de treinamentos e proces-
sos criativos para o grupo nossas me-
mórias imagéticas,
Sonoras e físicas, forjando um novo 
caminho de descobertas no que querí-
amos seguir, para compor ou recompor 
um corpo vivo e fluido, mas com potên-
cia, força e energia para nossa cena te-
atral. Assim, demos início ao tecer de 
rede, buscando transfigurar o encanta-
do em ato, e nesse momento, ao encon-
tro, à dedicação e à entrega do grupo 
para o ardor do oficio de fazer, desfazer 
ou refazer o seu próprio caminho em 
poéticas desse ator/atriz da ribeira. 
Ainda não concluímos, mas isso é com 
tempo e persistência, persistência essa 
que o nosso povo - os barqueiros, pes-
cadores, agricultores, sambadores, va-
queiros e contadores de histórias, que 
lutam e resistem, tanto nos ensinam.
Vejo que o resultado demostrado 
em cenas ribeirinhas foi maior que um 
encontro estético ou técnico ou cêni-
co, o que alcançamos foi uma mistura 
de corpos, historias, sagrado, profa-
no, mistérios e encantamentos que se 
transformou em exícios físicos, vocais 
e de dramaturgias, coisas fundamen-
tais para nosso oficio teatral. Também 
fica a certeza do objetivo encontrado 
ou trazido pelo o rio: o de se reconhe-
cer ribeirinho e viver o encontro com 
nossas identidades, com tudo que o rio 
nos traz, e de que podemos retribuir 
esses presentes em oferta na forma de 
arte do fazer teatral.
p
Antonio Veronaldo
Diretor e encenador
jjj
k ÍNDICE DE IMAGENS k
Imagem 1 - Festa de Cosme das Águas e Rei Sutão. 
Ilha do Massangano, Petrolina. Créditos: Cristine 
Crispim.
Imagem 2 - Festa de Cosme das Águas e Rei Sutão. 
Ilha do Massangano, Petrolina. Créditos: Cristiane 
Crispim.
Imagem 3 - Samba de Veio. Ilha do Massangano, 
Workshop Cenas Ribeirinhas, Petrolina. Créditos: 
Rubens Henrique.
Imagem 4 - Samba de Veio. Ilha do Massangano, Pe-
trolina. Crédito: Rubens Henrique.
Imagem 5 -São Gonçalo. Bairro N1, Petrolina. Crédi-
tos: Cristiane Crispim.
Imagem 6 - São Gonçalo. Bairro N1, Petrolina. Crédi-
tos: Cristiane Crispim.
Imagem 7 - Festa de Nossa Srª da Saúde. Fulgêncio, 
Santa Maria da Boa Vista. Créditos: Uriel Bezerra.
Imagem 8 - Festa de Nossa Srª da Saúde. Fulgêncio, 
Santa Maria da Boa Vista. Créditos: Uriel Bezerra.
Imagem 9 - (Dona Heloísa)Capim lelê. Coripós, Santa 
Maria da Boa Vita. Créditos: Cristiane Crispim.
Imagem 10 - (Daniel)Capim Wlelê. Coripós. Santa Ma-
ria da Boa Vista. Créditos: Robério Brasileiro.
Imagem 11 - Capim Lelê. Coripós, Santa Maria da Boa 
Vista. Créditos: Cristiane Crispim.
Imagem 12 - (Família Pereira Borges)Reisado e São 
Gonçalo. Lambedor, Lagoa Grande. Créditos: Cristiane 
Crispim.
Imagem 13 - Reisado e São Gonçalo. Lambedor. Lagoa 
Grande. Créditos: Antônio Veronaldo.
Imagem 14 - Festa do vaqueiro. Jutaí, Lagoa Grande. 
Créditos: Cristiane Crispim.
Imagem 15 - Festa do vaqueiro. Jutaí. Lagoa Grande. 
Créditos: Cristiane Crispim.
Imagem 16 - Reisado. Fazenda da Mata de São José, 
Orocó. Créditos: Cristiane Crispim.
Imagem 17 - Reisado. Fazenda da Mata São José, Oro-
có. Créditos: Robério Brasileiro.
Imagem 18 - Toré. Ilha de Assunção, Cabrobó. Crédi-
tos: Cristiane Crispim.
Imagem 19 - Toré. Ilha de Assunção, Cabrobó. Crédi-
tos: Cristiane Crispim.
Imagem 20 - Oficina de preparação de elenco. Oficina 
de máscaras com Érico José. Créditos: Robério Brasi-
leiro.
Imagem 21 - Preparação de elenco. Oficina de másca-
ras com Érico José. Créditos: Robério Brasileiro.
Imagem 22 - Preparação de elenco. Oficina o impulso 
da voz e do corpo com Renata Rosa. Créditos: Robério 
Brasileiro.
Imagem 23 - Ensaios. Créditos: Robério Brasileiro.
Imagem 24 - Ensaios. Créditos: Robério Brasileiro.
Imagem 25 - O Encourado. Apresentação de Cena Ri-
beirinha. Créditos: Rubens Henrique.
Imagem 26 - O Encourado. Apresentação de Cena Ri-
beirinha. Créditos: Rubens Henrique.
Imagem 27 - O Redemoinho. Apresentação de Cena 
Ribeirinha. Créditos: Rubens Henrique.
Imagem 28 - O Redemoinho. Apresentação de Cena 
Ribeirinha. Créditos: Rubens Henrique.
Imagem 29 - O Encantado. Apresentação de Cena Ribei-
rinha. Créditos: Rubens Henrique.
Imagem 30 - O Encantado. Apresentação de Cena Ribei-
rinha. Créditos: Rubens Henrique.
Imagem 31 - O Pequenino. Apresentação de Cena Ri-
beirinha. Créditos: Rubens Henrique.
Imagem 32 - O Pequenino. Apresentaçãode Cena Ribei-
rinha. Créditos: Rubens Henrique.
Fichatécnica 
Cenas Ribeirinhas
Direção e encenação: Antonio Veronaldo
Atores-pesquisadores: Cristiane Crispim, Juliente Moura,
Marcos Aurélio e Paulo Junior
Preparação de elenco: Antonio Veronaldo, Erico José e Renata Rosa
Coordenação e produção da pesquisa: Cristiane Crispim
Orientação: Prof. Dr. Elson Rabelo (Univasf)
Criação de logo: Coelho Assis
Imagens: Robério Brasileiro e Uriel Bezerra
Publicação
Edição: Cristiane Crispim 
Edição gráfica: Uriel Bezerra
Agradecimentos:
Aos amigos e parceiros Alfredo Neto, Nailton Alves, ONG Acari, Jailson Lima, Chagas Sales, Elizamar Lima, fundamentais nessa trajetória de 
descobertas; ao Sesc-Petrolina pelo apoio na realização da Mostra de Resultados Cenas Ribeirinhas; à Prefeitura municipal de Petrolina e 
Prefeitura Municipal de Lagoa Grande pelo apoio cultural na articulação e na concessão de espaços e a todas/os as/os moradoras/es das co-
munidades tradicionais visitadas que nos acolheram com tanto carinho e respeito, a todas/os nossa admiração pela força e pela resistência.
Realização Parceria Incentivo
Diretoria de Arte, Cultura e Ações Comunitárias
Direção: Prof. Edson Macalini
Equipe Administrativa: Heloisa Helena Mafra
Thiê Gomes dos Santos
Produção Cultural: Débora Viana
Gestão Digital da Informação: Jonathas Plínio Santana
Criação Gráfica: Jean Cordeiro
Comunicação: Mayane Santos

Mais conteúdos dessa disciplina