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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde Ana Karoliny Alves Ferreira Luane Veloso Moura Yuri Gabriel Correa da Silva OS CONFLITOS PELO USO DA ÁGUA Belo Horizonte 2025 Ana Karoliny Alves Ferreira Luane Veloso Moura Yuri Gabriel Correa da Silva OS CONFLITOS PELO USO DA ÁGUA Trabalho apresentado ao Curso de Gestão Ambiental de Recursos Hídricos, como requisito parcial para cumprimento das atividades acadêmicas, abordando os conflitos pelo uso da água. Orientador: Prof. Gilmar Bastos Santos. Belo Horizonte 2025 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................4 2 DESENVOLVIMENTO......................................................................................................................5 2.1 Crise hídrica..................................................................................................................................... 5 2.2 Planejamento setorial divergente....................................................................................................6 2.3 Normas divergentes .........................................................................................................................9 3 CONCLUSÃO................................................................................................................................... 11 REFERÊNCIAS................................................................................................................................... 12 1 INTRODUÇÃO De acordo com Mauro (2014), cerca de 71% da superfície terrestre é coberta por água, mas 97,5% é salgada. Dos 2,5% de água doce, cerca de 75% está congelada nas regiões polares. Apenas uma pequena fração corresponde a rios, lagos e águas subterrâneas. São muitos os países, cerca de oitenta (80), com problemas críticos que tendem a se transformar em conflitos pela baixa disponibilidade hídrica. Enquanto isso, dez (10) países, entre os quais o Brasil, possuem em seus territórios 60% do total da água doce. Mesmo nos países que possuem muita disponibilidade hídrica, existe consumo desigual. Torna-se evidente que, nessas condições da distribuição hídrica na superfície do planeta, surgem disputas e interesses por territórios onde haja disponibilidade hídrica e recarga de aquíferos. Nesses casos, a água se transforma em importante fonte de poder, com controle econômico e social. (Mauro, 2014). Para Amorim et. al (2016), os três principais tipos de conflitos pela água são: por escassez ou má qualidade, por planejamentos setoriais divergentes (planejamento de um setor impactando outro) e por legislações divergentes (conflitos entre leis federais, estaduais e municipais). Esses tipos de conflitos mostram que a gestão da água envolve múltiplos interesses e decisões que nem sempre caminham de forma integrada. Quando a disponibilidade é limitada e os setores atuam sem coordenação, as disputas tendem a se intensificar. A justificativa deste trabalho está na necessidade de entender como a distribuição limitada da água doce e sua concentração em poucos países influenciam o surgimento de conflitos relacionados ao uso desse recurso. Mesmo em regiões com grande disponibilidade hídrica, como no Brasil, o acesso é desigual e existem pressões sobre rios, lagos e aquíferos. Além disso, os conflitos não ocorrem apenas por escassez, mas também devido a planejamentos de setores que interferem uns nos outros e pela presença de normas divergentes entre diferentes níveis de governo, o que dificulta a gestão. Dessa forma, estudar essas situações é importante para compreender os fatores que levam aos conflitos pela água e como eles se relacionam com a organização e o uso desse recurso. 2 DESENVOLVIMENTO 2.1 Crise hídrica A crise hídrica no Brasil envolve não apenas a disponibilidade física da água, mas também questões relacionadas à qualidade, à gestão e aos conflitos pelo uso desse recurso essencial. Estudos analisados ilustram como esses fatores se manifestam de maneira distinta entre áreas rurais e urbanas, evidenciando a complexidade da segurança hídrica no país. Um estudo realizado por Vieira et al. (2020), investiga a qualidade da água superficial e subterrânea em uma área rural antropizada da Mata Atlântica, no município de Igarassu, Pernambuco. Os autores constataram que, apesar da existência de mananciais capazes de suprir a demanda local, a qualidade da água é fortemente afetada pela ação humana. Parâmetros físico-químicos avaliados no estudo apresentaram desconformidades em relação aos padrões recomendados para água destinada ao consumo humano, especialmente durante o período chuvoso. Esse resultado dialoga com a perspectiva da ANA, que estabelece diretrizes de monitoramento, enquadramento e classificação dos corpos hídricos, reforçando que o atendimento aos padrões de potabilidade e a manutenção dos usos múltiplos dependem de controle, fiscalização e gestão integrada. Por outro lado, o estudo de Gesualdo et al. (2019) analisa a segurança hídrica da região metropolitana de São Paulo, mostrando a vulnerabilidade do abastecimento urbano diante das mudanças climáticas e do aumento da variabilidade hidrológica. A pesquisa demonstra que eventos de seca e precipitações extremas devem se intensificar nas próximas décadas, impactando diretamente a capacidade de captação e distribuição de água na bacia Jaguari, uma das principais fontes de abastecimento da região. Esse cenário reforça princípios estabelecidos pela Política Nacional de Recursos Hídricos e operacionalizados pela ANA, como a necessidade de garantir a disponibilidade de água em padrões de qualidade e quantidade adequadas, além da priorização do uso para consumo humano e dessedentação de animais em situações de escassez — diretriz essencial em momentos críticos. Ao relacionar os dois estudos, torna-se evidente que a insegurança hídrica no Brasil assume formas distintas conforme a região. Em áreas rurais, a principal limitação está associada à deterioração da qualidade da água devido à poluição difusa, ao uso inadequado do solo e à falta de infraestrutura de tratamento. Já em grandes centros urbanos, o problema se concentra na estabilidade do abastecimento, diretamente condicionada pelo clima, pela pressão demográfica e pelas limitações da infraestrutura existente. Assim, a disponibilidade natural de água não garante, por si só, o acesso seguro ao recurso: é possível ter volume, mas não qualidade; é possível ter mananciais, mas não regularidade. Essas situações geram e intensificam conflitos pelo uso da água, um fenômeno crescente no Brasil e amplamente monitorado pela ANA. Os conflitos podem ocorrer entre setores produtivos (como agricultura irrigada, indústria e geração de energia), entre municípios que compartilham a mesma bacia hidrográfica ou entre comunidades que dependem de mananciais vulneráveis. Em muitos casos, esses conflitos se agravam quando a oferta diminui ou a qualidade se deteriora, ampliando as disputas pelo uso prioritário. A ANA, por meio dos instrumentos de gestão — tais como outorga de direito de uso, enquadramento de corpos d’água e planos de recursos hídricos — atua para mediar interesses e garantir que o uso da água seja equilibrado, sustentável e orientado pelos princípios legais. Em síntese, os desafios hídricos brasileiros são estruturais e multifatoriais, exigindo ações combinadas de monitoramento, proteção de mananciais, saneamento básico, planejamento e resolução de conflitos. A gestão integrada preconizada pela ANA e pela Política Nacionalde Recursos Hídricos se mostra indispensável para assegurar que a água seja não apenas abundante, mas também segura, disponível e equitativamente distribuída. Somente com investimentos contínuos e políticas articuladas será possível garantir a segurança hídrica no campo e nas cidades, preservando esse recurso vital para as gerações atuais e futuras. 2.2 Planejamento setorial divergente A água é fundamental para a vida e para o desenvolvimento social e econômico, e deveria ser acessível a todos de maneira justa. No entanto, na prática, diferentes setores fazem uso desse recurso de forma desigual, frequentemente priorizando interesses econômicos e produtivos em detrimento das necessidades humanas e da proteção do meio ambiente. Essa falta de alinhamento resulta no que chamamos de planejamento setorial divergente, onde cada setor utiliza e planeja o uso da água de forma isolada, com objetivos próprios e sem uma articulação integrada, o que acaba gerando conflitos socioambientais. Os conflitos surgem à medida que a demanda por água aumenta. Nesse sentido, Setti e outros afirmam que, "à medida que o seu uso se amplia e passam a surgir conflitos é necessário maior atenção para a proteção dos recursos hídricos visando ao seu aproveitamento racional" (SETTI et al., 2001, apud DI MAURO et al., 2014). Isso mostra que o problema não vem só da escassez física da água, mas também da competição entre setores que têm usos diferentes e, muitas vezes, incompatíveis para o mesmo recurso (DI MAURO et al., 2014). O primeiro artigo que analisamos ilustra essa questão ao falar de como setores economicamente fortes, como a agricultura intensiva, a agroindústria, clubes e condomínios, conseguem obter mais outorgas de água do que o necessário para a coletividade, resultando em desigualdade no acesso. No Triângulo Mineiro, por exemplo, vemos que "os mais fortes, social e economicamente, acumulam as vitórias" na competição por essas outorgas (DI MAURO et al., 2014), o que evidencia o conflito entre o desenvolvimento econômico e o interesse social. Além da disputa desigual pelo acesso aos recursos hídricos, os impactos do planejamento setorial divergente também se manifestam na qualidade da água, afetando diretamente o abastecimento humano. Isso pode ser observado de forma clara no rio Cauca, na Colômbia, onde o avanço das atividades agroindustriais a montante da área urbana compromete seriamente o tratamento e o consumo público. A Figura 1 ilustra essa situação ao mostrar que o índice de qualidade da água já é bastante baixo no ponto de captação para a estação de tratamento de água potável, e sofre uma queda ainda mais acentuada ao longo do trecho posterior ao perímetro urbano, revelando degradação progressiva do corpo hídrico causada principalmente pelo despejo de contaminantes agrícolas e esgoto doméstico sem tratamento adequado. Figura 1 – Índice de Qualidade da Água ao longo do rio Cauca (1993–2002) Fonte: Adaptado de Di Mauro et al. (2014). A tendência apresentada evidencia uma dinâmica típica de conflito pelo uso da água: o setor agrícola, altamente dependente de insumos químicos, exerce forte pressão sobre o recurso hídrico, gerando prejuízos diretos ao setor de abastecimento público. O declínio abrupto da qualidade da água após atravessar a zona urbana reforça como os efeitos negativos da degradação hídrica se propagam espacialmente, ampliando tensões entre usuários e setores distintos. Dessa forma, a imagem fortalece o entendimento de que os conflitos não se limitam apenas à quantidade de água disponível, mas também ao comprometimento da qualidade necessária para fins de consumo humano, uma vez que atividades produtivas intensivas tendem a prevalecer sobre a sustentabilidade ambiental e social. Já o segundo artigo complementa essa análise ao mostrar que muitos dos conflitos pelo uso da água têm origem na falta de planejamento e na escassez de informações confiáveis que sustentem uma gestão pública eficiente. Os autores afirmam que "a maioria dos conflitos pelo uso da água decorre da falta de planejamento e gestão de recursos hídricos, a qual está intimamente ligada à inexistência de informações que associam as vazões já outorgadas com a disponibilidade hídrica" (MOREIRA et al., 2012). Portanto, os conflitos não surgem apenas pela falta de água, mas também pela incapacidade das instituições em regular adequadamente a distribuição desse recurso (MOREIRA et al., 2012). Essa situação fica ainda mais complicada quando o Estado concede outorgas acima do limite permitido. Um exemplo disso é a bacia do rio do Sono, onde "observa-se que em 8,9% dos segmentos de cursos d’água da bacia já foram outorgadas vazões superiores à vazão máxima permissível" (MOREIRA et al., 2012). O mesmo artigo reconhece que esses excessos acontecem pela falta de ferramentas adequadas para gerenciar as outorgas emitidas, o que contribui para os conflitos e a degradação da disponibilidade hídrica (MOREIRA et al., 2012). Assim, o planejamento setorial divergente reflete a competição desigual entre setores com diferentes pesos econômicos e políticos, gerando conflitos no uso da água que poderiam ser evitados com um planejamento integrado, um controle efetivo das outorgas, um monitoramento dos usuários e políticas públicas que busquem equidade social e sustentabilidade ecológica. Para superar esses conflitos, é preciso que a gestão de recursos hídricos deixe de lado interesses isolados e adote uma abordagem mais sistêmica, participativa e atenta ao território, garantindo que o uso da água seja justo e ambientalmente seguro tanto para as gerações atuais quanto para as futuras 2.3 Normas divergentes A gestão dos recursos hídricos no Brasil é marcada por sobreposições normativas complexas entre União, Estados e municípios. Embora a Lei Federal n.º 9.433/1997 tenha estabelecido diretrizes robustas para a Política Nacional de Recursos Hídricos, sua implementação ocorre em um contexto fragmentado em que diferentes níveis de governo produzem normas que não se articulam plenamente. Como destacam Rossi e Santos (2018, p. 152), os conflitos de uso da água no Brasil revelam tensões políticas e institucionais que ultrapassam a mera disputa pela disponibilidade hídrica, refletindo contradições estruturais na gestão. O estudo “Conflito e Regulação das Águas no Brasil – a experiência do Salitre” evidencia de forma clara como essa fragmentação normativa se materializa na prática. Segundo as autoras Rossi e Santos(2018, p. 153)., a bacia do rio Salitre, situada no semiárido baiano, exemplifica a dificuldade de conciliar regras federais, estaduais e municipais no manejo do recurso, uma vez que a região é historicamente marcada pela escassez de água e pela pressão de múltiplos usuários. Ainda que a legislação federal estabeleça princípios gerais, como a descentralização e o uso múltiplo, esses princípios muitas vezes não se traduzem de forma efetiva nos níveis subnacionais. A outorga de direito de uso da água é um dos instrumentos onde a divergência normativa fica mais evidente. Conforme apontam Rossi e Santos (2018, p. 158), existem casos de superposição de outorgas, concessões sem coordenação entre os entes e autorizações locais que não se alinham ao sistema estadual, o que demonstra a incapacidade do aparato regulatório de assegurar um controle coerente sobre o uso do recurso. Essa realidade reforça que os planos municipais de uso do solo, as regras estaduais de outorga e as diretrizes federais frequentemente operam de maneira desconectada. Essa desarticulação normativa também aprofunda conflitos socioambientais entre diferentes grupos de usuários. As autoras mostram que grandes irrigantes, agricultores familiares, comunidades tradicionais e assentamentos experimentam impactos desiguais decorrentes daregulação fragmentada. Em muitos casos, políticas municipais voltadas ao fomento agrícola entram em choque com mecanismos estaduais de gestão, enquanto a legislação federal não garante mecanismos eficazes de integração e mediação. A experiência do Salitre confirma que a governança hídrica no Brasil enfrenta desafios que não se limitam à disponibilidade física da água, mas incluem a própria fragmentação normativa. A regulação frequentemente situa-se a serviço dos interesses econômicos de maior escala, o que compromete a equidade no acesso e a efetividade dos instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos. Assim, a divergência entre normas federais, estaduais e municipais enfraquece a gestão integrada e participativa prevista em lei. 3 CONCLUSÃO A análise da situação hídrica no Brasil e no mundo demonstra que a crise da água não resulta apenas de escassez física, mas sobretudo da forma desigual como o recurso é distribuído, utilizado e gerido. Mesmo sendo um país privilegiado em termos de volume de água doce, o Brasil enfrenta desafios significativos relacionados à qualidade dos mananciais, ao acesso desigual entre regiões e à incapacidade de garantir segurança hídrica de maneira contínua e sustentável. Os conflitos pelo uso da água, que se intensificam em diversas bacias hidrográficas brasileiras, evidenciam que o recurso deixou de ser apenas um bem natural para se tornar também um elemento estratégico e político. Disputas entre setores produtivos, comunidades, estados e municípios mostram que a gestão fragmentada e a sobreposição de normas dificultam a aplicação dos instrumentos previstos na Política Nacional de Recursos Hídricos e enfraquecem a capacidade de prevenção e resolução de conflitos. Essa realidade reforça a necessidade de uma governança hídrica integrada, transparente e baseada em critérios técnicos, que considere tanto os limites ambientais quanto as demandas sociais. As diferenças entre os contextos rural e urbano também revelam a complexidade do problema. Em áreas rurais, a degradação ambiental e a falta de tratamento adequado comprometem a qualidade da água; nas cidades, a pressão demográfica e a variabilidade climática colocam em risco a regularidade do abastecimento. Esses fatores mostram que a segurança hídrica depende não apenas da disponibilidade natural, mas do cuidado contínuo com os recursos, da proteção dos ecossistemas e da eficiência na gestão Nesse cenário, o fortalecimento da atuação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) é fundamental. O órgão desempenha papel estratégico ao orientar normas, monitorar mananciais, regular usos e promover práticas de gestão integradas entre União, estados e municípios. Avançar na integração institucional, ampliar o monitoramento, garantir participação social e priorizar o uso sustentável da água são medidas indispensáveis para reduzir desigualdades, prevenir conflitos e assegurar que o recurso cumpra sua função essencial para a vida e para o desenvolvimento. Assim, assegurar água em condições adequadas de uso, tanto no meio rural quanto nas áreas urbanas, depende de uma atuação coordenada que concilie proteção ambiental, uso equilibrado e interesse coletivo, permitindo que esse recurso vital sustente as necessidades presentes sem comprometer o futuro. REFERÊNCIAS AMORIM, Alcides Leite de; RIBEIRO, Márcia Maria Rios; BRAGA, Cybelle Frazão Costa. Conflitos em bacias hidrográficas compartilhadas: o caso da bacia do rio Piranhas-Açu/PB-RN. Revista Brasileira de Recursos Hídricos, Porto Alegre, v. 21, n. 1, p. 36-45, jan./mar. 2016. DI MAURO, Cláudio Antonio. Conflitos pelo uso da água. Caderno Prudentino de Geografia, Presidente Prudente, n. 36, v. especial, p. 81-105, 2014. GESUALDO, G. C. et al. Assessing water security in the São Paulo metropolitan region under projected climate change. Hydrology and Earth System Sciences, v. 23, p. 4955–4977, 2019. Disponível em: https://hess.copernicus.org/articles/23/4955/2019/. Acesso em: 3 dez. 2025. MOREIRA, Gustavo Henrique; RODRIGUEZ, Dálcio; LOPES, José Edson; et al. Índices para identificação de conflitos pelo uso da água: proposição metodológica e estudo de caso. Revista Brasileira de Recursos Hídricos, Porto Alegre, v. 17, n. 3, p. 7–15, 2012. ROSSI, Renata Alvarez; SANTOS, Elisabete. Conflito e Regulação das Águas no Brasil – a experiência do Salitre. Caderno CRH, v. 31, n. 82, p. 151–167, 2018. DOI: 10.9771/ccrh.v31i82.20195. VIEIRA, F. I. et al. Water security assessment of groundwater quality in an anthropized rural area from the Atlantic Forest Biome in Brazil. Water, v. 12, n. 3, p. 623, 2020. Disponível em: https://www.mdpi.com/2073-4441/12/3/623. Acesso em: 3 dez. 2025. 3 CONCLUSÃO A análise da situação hídrica no Brasil e no mundo demonstra que a crise da água não resulta apenas de escassez física, mas sobretudo da forma desigual como o recurso é distribuído, utilizado e gerido. Mesmo sendo um país privilegiado em termos de volume de água doce, o Brasil enfrenta desafios significativos relacionados à qualidade dos mananciais, ao acesso desigual entre regiões e à incapacidade de garantir segurança hídrica de maneira contínua e sustentável. Os conflitos pelo uso da água, que se intensificam em diversas bacias hidrográficas brasileiras, evidenciam que o recurso deixou de ser apenas um bem natural para se tornar também um elemento estratégico e político. Disputas entre setores produtivos, comunidades, estados e municípios mostram que a gestão fragmentada e a sobreposição de normas dificultam a aplicação dos instrumentos previstos na Política Nacional de Recursos Hídricos e enfraquecem a capacidade de prevenção e resolução de conflitos. Essa realidade reforça a necessidade de uma governança hídrica integrada, transparente e baseada em critérios técnicos, que considere tanto os limites ambientais quanto as demandas sociais. As diferenças entre os contextos rural e urbano também revelam a complexidade do problema. Em áreas rurais, a degradação ambiental e a falta de tratamento adequado comprometem a qualidade da água; nas cidades, a pressão demográfica e a variabilidade climática colocam em risco a regularidade do abastecimento. Esses fatores mostram que a segurança hídrica depende não apenas da disponibilidade natural, mas do cuidado contínuo com os recursos, da proteção dos ecossistemas e da eficiência na gestão Nesse cenário, o fortalecimento da atuação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) é fundamental. O órgão desempenha papel estratégico ao orientar normas, monitorar mananciais, regular usos e promover práticas de gestão integradas entre União, estados e municípios. Avançar na integração institucional, ampliar o monitoramento, garantir participação social e priorizar o uso sustentável da água são medidas indispensáveis para reduzir desigualdades, prevenir conflitos e assegurar que o recurso cumpra sua função essencial para a vida e para o desenvolvimento. Assim, assegurar água em condições adequadas de uso, tanto no meio rural quanto nas áreas urbanas, depende de uma atuação coordenada que concilie proteção ambiental, uso equilibrado e interesse coletivo, permitindo que esse recurso vital sustente as necessidades presentes sem comprometer o futuro. REFERÊNCIAS