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RAN_01_Judicialização 
A judicialização é um fenômeno mundial por meio do qual questões políticas, sociais e morais 
são resolvidas por intermédio do Poder Judiciário, e não pelas instâncias políticas tradicionais, 
como o Congresso Nacional e o Poder Executivo. Dessa forma, ela envolve uma transferência de 
poder para juízes e tribunais. O fenômeno tem causas múltiplas, entre elas a 
constitucionalização abrangente. Na Constituição, foram incluídas inúmeras matérias que antes 
eram deixadas para o processo político majoritário e para a legislação ordinária. 
Constitucionalizar uma matéria significa transformar Política em Direito. Assim, na medida em 
que uma questão – seja um direito individual, uma prestação estatal ou um fim público – é 
disciplinada em uma norma constitucional, ela se transforma em uma pretensão jurídica, que 
pode ser formulada sob a forma de ação judicial, como no caso da saúde (BARROSO, 2009). No 
âmbito da saúde, a judicialização pode envolver tanto o setor privado quanto o setor público. 
No setor privado, beneficiários de planos e seguros de saúde, clínicas, hospitais e médicos 
particulares recorrem ao Judiciário para resolver conflitos, sobretudo contratuais relacionados 
a preço, qualidade, carência, oferta de serviços e produtos, descumprimento de obrigações, 
entre outros. As manchetes na imprensa, assim como os artigos científicos e produtos 
acadêmicos, geralmente referem-se à judicialização no setor público, onde as demandas são 
direcionadas contra o Estado, para a aquisição de medicamentos, cirurgias, procedimentos, 
insumos e serviços de saúde (FERRAZ, 2018). Apesar do reconhecimento constitucional do 
direito à saúde em 1988 e de sua consolidação e detalhamento, em 1990, por meio das “Leis 
Orgânicas da Saúde”, a judicialização só aumentou significativamente no Brasil no final da 
década de 1990, e praticamente explodiu na década 2000, continuando a crescer e atingindo 
hoje centenas de milhares de ações judiciais espalhadas pelo Brasil. As causas desse significativo 
crescimento não são claras. Acredita-se que seja uma combinação de fatores que incluem a 
ampliação de direitos dos cidadãos e do seu acesso ao Judiciário, particularidades da área da 
saúde, como o avanço tecnológico e o elevado preço das tecnologias em saúde, ineficiência do 
sistema de saúde no atendimento das necessidades dos usuários e a mudança de jurisprudência 
sobre o direito à saúde, ocorrida no final da década de 1990, dando início ao “Direito a tudo”. 
Até meados da década de 1990, o Judiciário entendia que o direito constitucional à saúde era 
uma norma meramente “programática”, isto é, um objetivo genérico a ser alcançado pelo 
Estado; não criava obrigações específicas ao estado nem direitos individuais dos cidadãos que 
pudessem ser exigidos na Justiça. Em 1997, isso começou a mudar, e o direito à saúde passou a 
 
 
 
ser visto como uma “consequência constitucional indissociável do direito à vida”, criando um 
dilema entre proteger a vida das pessoas e um “interesse financeiro secundário do Estado”, no 
qual deve sempre prevalecer a proteção da vida e da saúde (FERRAZ, 2018; FERRAZ, 2019). Não 
há dúvidas quanto ao mérito desse novo entendimento jurisprudencial, pois a ideia de que o 
direito à saúde era uma norma programática foi superada. No entanto, a interpretação 
extremamente expansiva conferida ao direito à saúde foi muito além. Ao considerar a limitação 
de recursos como “interesse financeiro e secundário do Estado”, ou seja, irrelevante diante da 
saúde e da vida, proclamouse um “direito a tudo”. Sendo assim, essa interpretação 
exacerbadamente expansiva se contrapôs não apenas à limitação de recursos, mas a qualquer 
outra razão invocada pelo Estado para não fornecer o medicamento pleiteado, tais como a falta 
de evidências científicas que comprovem a eficácia, a segurança e a ausência de aprovação 
regulatória (tratamento sem registro na Anvisa ou “off-label”) (FERRAZ, 2019).

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