Prévia do material em texto
SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR Paulo Raposo Correia Março de 2025 Rio de Janeiro – RJ Uma visão bíblica sobre o assunto SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR PAULO RAPOSO CORREIA BLOG PARE! LEIA! REFLITA! PRATIQUE! www.pauloraposocorreia.com.br E-Book SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR por Paulo Raposo Correia © 2025 Paulo Raposo Correia Reservados todos os direitos desta obra. Proibida toda e qualquer reprodução por qualquer meio ou forma, sem a permissão expressa do autor. Capa: Paulo Raposo Correia Revisão e Editoração Eletrônica: Paulo Raposo Correia Dados para Catalogação Correia, Paulo Raposo SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR / Paulo Raposo Correia – Rio de Janeiro – RJ – Brasil, 2025 ISBN 978-65-01-36456-8 1.Bíblia 2.Cultura Bíblica 3.Título SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR Esta publicação é resultado de uma breve pesquisa de informações sobre este assunto, bem como é a exposição do meu próprio entendimento e vivência de longos anos, tudo isso para sua reflexão e aproveitamento. Sempre que necessário o texto será atualizado e a data da revisão mencionada. Se a leitura deste e-book lhe for útil, então se sinta desafiado(a) a compartilhar o link. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 5 | P á g i n a SUMÁRIO AGRADECIMENTOS ................................................................................... 9 QUE É ORAR? ........................................................................................... 10 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 11 1. JESUS E OS SEUS ENSINOS ............................................................... 15 2. DISCIPLINAS ESPIRITUAIS .................................................................. 19 2.1 COMUNHÃO COM DEUS. ....................................................................... 19 2.2 ORAÇÃO E JEJUM. ............................................................................... 19 2.3 ADORAÇÃO E LOUVOR. ........................................................................ 20 2.4 BÍBLIA. ............................................................................................... 20 3. UMA REFLEXÃO INICIAL ..................................................................... 21 3.1 CONCEPÇÕES E COMPORTAMENTOS ..................................................... 21 3.2 O QUE É ORAÇÃO? .............................................................................. 22 4. ORAÇÃO E COMUNHÃO COM DEUS .................................................. 25 5. POR QUE E POR QUEM ORAR? .......................................................... 27 5.1 ORAÇÃO DE CONFISSÃO ...................................................................... 27 5.2 ORAÇÃO DE ADORAÇÃO ...................................................................... 28 5.3 ORAÇÃO DE AGRADECIMENTO .............................................................. 34 5.4 ORAÇÃO DE INTERCESSÃO ................................................................... 36 5.5 ORAÇÃO DE PETIÇÃO .......................................................................... 42 5.6 ORAÇÃO DE IMPRECAÇÃO .................................................................... 47 6. ASPECTOS PRÁTICOS DA ORAÇÃO .................................................. 49 6.1 A COMUNICAÇÃO COM DEUS ................................................................ 49 6.2 A HORA E A DURAÇÃO DA ORAÇÃO ....................................................... 49 6.3 O LOCAL DA ORAÇÃO ........................................................................... 52 6.4 A POSTURA FÍSICA PARA A ORAÇÃO ...................................................... 53 6.5 A QUEM ORAR? ................................................................................... 55 6.6 A PARTICIPAÇÃO ................................................................................. 56 6.7 A ATITUDE AO ORAR ............................................................................ 57 6.8 O ENVOLVIMENTO E ENTREGA AO ORAR ................................................ 59 6.9 O CONTEÚDO DA ORAÇÃO ................................................................... 60 6.10 A ORAÇÃO EM PÚBLICO ..................................................................... 64 SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 6 | P á g i n a 7. ORAÇÃO – CERTEZAS E CONDIÇÕES ............................................... 67 7.1 A CERTEZA DE SER OUVIDO E CONTEMPLADO ....................................... 67 7.2 CONDIÇÕES CONDICIONANTES NA ORAÇÃO ........................................... 69 8. RESULTADOS DA ORAÇÃO ................................................................ 77 8.1 NA VIDA DE JESUS ............................................................................... 77 8.2 NA IGREJA PRIMITIVA ........................................................................... 79 8.3 NA VIDA DOS CRENTES ......................................................................... 82 9. ORAÇÕES DE JESUS ........................................................................... 89 9.1 ALGUMAS INSTRUÇÕES DE JESUS ......................................................... 89 9.2 A ORAÇÃO DO "PAI NOSSO" ................................................................ 93 9.3 A ORAÇÃO DE EXALTAÇÃO ................................................................. 115 9.4 A ORAÇÃO DA CONFIRMAÇÃO ............................................................. 116 9.5 A ORAÇÃO SACERDOTAL ................................................................... 116 9.6 A ORAÇÃO DA EXTREMA AGONIA ........................................................ 117 9.7 A ORAÇÃO DO PERDÃO ..................................................................... 118 9.8 A ORAÇÃO DO ABANDONO NA CRUZ .................................................... 118 10. A ORAÇÃO MOVE A MÃO DE DEUS? ............................................. 121 11. UM TESTEMUNHO IMPACTANTE .................................................... 127 12. QUANDO DEUS DIZ NÃO! ................................................................ 135 12.1 POR CAUSA DE QUEM ORA: ............................................................ 136 12.2 POR CAUSA DA SUA FORMA OU CONTEÚDO: .............................. 139 13. O ESPÍRITO SANTO E A ORAÇÃO .................................................. 143 13.1 A INTERCESSÃO DO ESPÍRITO ........................................................... 145 13.2 O ESPÍRITO SANTO COMO MESTRE E GUIA NA ORAÇÃO ..................... 147 13.3 A ORAÇÃO NO ESPÍRITO SANTO ....................................................... 148 14. O JEJUM BÍBLICO ............................................................................ 151 14.1 O QUE É JEJUAR? ............................................................................ 151 14.2 QUANDO SURGIU O JEJUM? .............................................................. 151 14.3 QUAL É O VERDADEIRO MOTIVO DO JEJUM?....................................... 152 14.4 DURAÇÃO, FREQUÊNCIA E ABRANGÊNCIA DO JEJUM? ........................ 153 14.5 QUAL A RELAÇÃO DE JESUS COM O JEJUM? ...................................... 154 14.6 QUAL A RELAÇÃO DA IGREJA COM O JEJUM? ..................................... 155 14.7 QUAL A POSIÇÃO DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL?................. 156 14.8 OUTRO “TIPO” DE JEJUM. ................................................................ 158 15. A ORAÇÃO DE JABEZ ...................................................................... 161 15.1 A ORAÇÃO ......................................................................................– O exercício da oração produz resultado mais rápido na alma, do que o exercício físico no corpo.”3 3 Tesouro de ilustrações (228). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 52 | P á g i n a Jorge Muller começou a orar por cinco amigos. Após 5 anos, 10 anos, 25 anos e 25 anos de oração, respectivamente, os quatro primeiros se renderam a Cristo, e continuou orando pelo quinto até a sua morte. Alguns meses após a sua morte, o quinto também se rendeu a Cristo. Por esse último ele orou 50 anos. Alguém poderá dizer: – Até quando oraremos? Não chega um momento em que devemos deixar as nossas orações e entregar o assunto a Deus? – Só há uma resposta, diz ele: orar até que a coisa pedida tenha sido conquistada ou até terdes o conhecimento de que o será.4 6.3 O local da oração Nos evangelhos e nos ensinos de Jesus encontramos os seguintes registros, ora como Instrução, ora como exemplo do Mestre: Dentro do teu quarto, portas fechadas, a sós: – Mateus 6.6 ( Instrução) “Cerradas as portas das humanas preocupações e as janelas dos cuidados temporais, abrimos as comportas da alma.” No monte, a sós: – Mateus 14.23 ( Exemplo) – Marcos 6.46 ( Exemplo) – Lucas 6.12 ( Exemplo) – Lucas 6.28 ( Exemplo) – Lucas 22.40 ( Exemplo) – Mateus 26.36 ( Exemplo) 4 Tesouro de ilustrações (226). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 53 | P á g i n a Em lugares desertos ou solitários: – Marcos 1.35 ( Exemplo) – Lucas 5.16 ( Exemplo) Em particular, mesmo estando os discípulos presentes: – Lucas 9.18 ( Exemplo) No Templo: – Atos 3.1 Junto do rio (“num lugar de oração”): – Atos 16.13, 16 Da mesma forma que não foi determinada uma hora específica para oração, também nenhum lugar específico foi determinado. Entretanto, observa-se na instrução de Jesus "dentro do teu quarto, portas fechadas" que o requisito maior é que seja num lugar tranquilo, para se ficar a sós com Deus. Temos exemplos de sobra na vida de Jesus quanto ao orar a sós e que devem ser seguidos por todos os cristãos que almejam uma comunhão íntima e um relacionamento pessoal com o Pai. 6.4 A postura física para a oração As posturas físicas mais frequentemente mencionadas nos Evangelhos e no restante das Escrituras, são: Ajoelhado (um sinal de humildade) Ajoelhar-se é uma das posturas mais comuns na oração, especialmente em momentos de arrependimento ou fervorosa súplica. – Lucas 22.41 ( Exemplo) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 54 | P á g i n a – Pedro: Atos 9.40 – Paulo: Atos 20.36 – Salomão: 1Reis 8.54 – Daniel: Daniel 6.10 – Esdras: Esdras 9.5-9 Prostrado sobre o rosto (um sinal de submissão) Prostrar-se é uma demonstração de reverência profunda e reconhecimento da autoridade e soberania divinas. – Mateus 26.39a ( Exemplo) – Marcos 14.35 ( Exemplo) – O leproso: Mateus 8.2 – Moisés e Arão: Números 14.5 – Josué: Josué 5.14 Erguendo os olhos ao céu (um sinal de direcionamento a Deus) – Marcos 6.41 ( Exemplo) – João 17.1 ( Exemplo) – João 11.41 ( Exemplo) – Mateus 14.19 ( Exemplo) – Lucas 9.16 ( Exemplo) Levantando as mãos (um sinal de direcionamento a Deus, mas, também de dependência e rendição) – Davi: Salmos 141.2 – Paulo: 1Timóteo 2.8 (encoraja os cristãos a orarem dessa forma) Outras posturas: De pé, uma postura normal em cultos públicos. Sentado (um sinal de reflexão). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 55 | P á g i n a Deitado, em situações especiais, tais como, de enfermidade, num leito de hospital etc. Parado. Se movendo. Etc. Um argumento a favor de que não há uma única postura física ao se orar é que Jesus, quando ensinou seus discípulos a orar, não deu qualquer atenção ou instrução específica quanto a este aspecto. Cremos, entretanto, que a postura mais apropriada para a oração a sós é a de joelhos, enquanto nas reuniões públicas a de pé, porém não se constituindo isso numa regra fixa e imutável como tantas outras mantidas pelas tradições humanas. A reverência deve nortear a nossa postura física, de modo compatível com os sentimentos internos do coração. Lembremos de que, na oração, muito mais importante do que a postura física é a postura espiritual. 6.5 A quem orar? A Deus – Lucas 6.12 ( Exemplo); Mateus 27.46 ( Exemplo) Ao Pai – João 17.1 ( Exemplo); Lucas 11.2 ( Instrução) A teu Pai que está em secreto – Mateus 6.6 ( Instrução) Ao Pai nosso que está nos céus – Mateus 6.9 ( Instrução) Ao Pai, Senhor do céu e da terra – Mateus 11.25 ( Exemplo) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 56 | P á g i n a Ao Pai, em nome de Jesus – João 15.16 ( Instrução); João 16.23-24 ( Instrução) A Cristo – João 14.13, 14 ( Instrução); Lucas 23.42 ( Exemplo) Outras orações no Novo Testamento exemplificam e confirmam a oração a Deus e a Cristo (At 1.24; 4.24; 7.59). Percebe-se que a oração deve ser dirigida a Deus, apresentado mais intimamente como Pai Celestial, dispensando toda a formalidade como que numa conversa de um filho com seu pai humano, contrastando com o Antigo Testamento (Gn 15.2; Hc 3.1-2). Entretanto, apesar de toda a franqueza e linguajar simples, deve ser mantido todo o respeito, temor e reverência àquele que é o Soberano Senhor do céu e da terra. Observa-se que este acesso ao Pai é franqueado, feito em nome de Jesus, que também se propõe a receber a oração dos filhos de Deus, pois também lhe foi dada toda autoridade no céu e na terra. A oração pode e deve ser dirigida a Deus (que é a verdadeira) ou, a falsa e equivocada, dirigida publicamente aos outros (usada como pretexto para pregar, ensinar, se exibir, contar vantagem, fofocar, mandar recado, criticar, contar história, pedir ajuda ao outro etc.). 6.6 A participação A oração pode ser: Em particular (individual) “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.” (Mt 6.6) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 57 | P á g i n a Em conjunto (pequeno grupo) “Tendo dito estas coisas, ajoelhando-se, orou com todos eles.” (At 20.36) Em igreja. “Pedro, pois, estava guardado no cárcere; mas havia oração incessante a Deus por parte da igreja a favor dele.” (At 12.5) 6.7 A atitude ao orar Orar, não para ser visto pelos homens. “E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens.” – Mateus 6.5a ( Instrução); Orar, não como fez o fariseu, exibindo-se e para a promoção pessoal. “O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho.” – Lucas 18.11 ( Instrução) Orar, como fez o publicano, com humildade, reconhecendo nossa condição miserável diante da majestade de Deus. “O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” – Lucas 18.13 ( Instrução). Orar, não de forma egoísta, focando apenas no interesse pessoal. “pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.” (Tg 4.3) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 58 | P á g i n a Orar de forma altruísta, como fez Ana, focando o interesse pessoal e o coletivo. “E fez um voto, dizendo: SENHOR dos Exércitos, se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mimte lembrares, e da tua serva te não esqueceres, e lhe deres um filho varão, ao SENHOR o darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha.” (1Sm 1.11) Orar buscando a graça divina, porém, mantendo uma vida piedosa, diante de Deus e dos homens, e solidária aos mais necessitados. “Morava em Cesaréia um homem de nome Cornélio, centurião da coorte chamada Italiana, piedoso e temente a Deus com toda a sua casa e que fazia muitas esmolas ao povo e, de contínuo, orava a Deus.” (At 10.1-2) Orar mantendo um coração puro. É inútil orar com a consciência pesada por pecados não confessados. Mas, bendito seja Deus, que nos dá a certeza do perdão imediato quando os confessamos! Assim, nossos corações não nos condenarão (1Jo 1.9; 3.20-22). “Se eu no coração contemplara a vaidade, o Senhor não me teria ouvido.” (Sl 66.18) Orar com temor e reverência a Deus e não decretando ou dando ordens a ele. "Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras." (Ec 5.2) Nossos assuntos devem ser expostos diante de Deus movidos pela necessidade de um coração sincero e humilde, aguardando a SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 59 | P á g i n a solicitude divina, não por causa dos nossos méritos, mas, apesar das nossas falhas. 6.8 O envolvimento e entrega ao orar a) Não orar com superficialidade, limitando-se apenas a mencionar ou comunicar a Deus os próprios desejos. c) Orar com Profundidade: Lutar com Deus até se obter dele a resposta, como fez Jacó. “Disse este: Deixa-me ir, pois já rompeu o dia. Respondeu Jacó: Não te deixarei ir se me não abençoares.” (Gn 32.26). Abrindo o coração diante do Pai Celeste, como fez Ana. “.... porém venho derramando a minha alma perante o SENHOR.” (1Sm 1.12-15). Intensamente, com imersão total, em tempos de aflição. “E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra.” (Jesus – Lc 22.44) “Pedro, pois, estava guardado no cárcere; mas havia oração incessante a Deus por parte da igreja a favor dele.” (At 12.5) Com fé. “e tudo quanto pedirdes em oração, crendo, recebereis.” (Mt 21.22) “Se, porém, algum de vocês necessita de sabedoria, peça a Deus, que a todos dá com generosidade e sem reprovações, e ela lhe será concedida. Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando, pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento.” (Tg 1.5-6 – NAA) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 60 | P á g i n a Ore continuamente e com perseverança. “Orai sem cessar.” (1Ts 5.17) “regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração, perseverantes;” (Rm 12.12) “Perseverai na oração, vigiando com ações de graças.” (Cl 4.2) 6.9 O Conteúdo da Oração a) Não usando de vãs repetições – Mt 6.7 ( Instrução) “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos.” O conteúdo da oração é espontâneo, livre de qualquer formalidade e expressões decoradas. Deve nascer ou emergir, de um coração sincero, que deseja expressar diante de Deus suas próprias necessidades, as de outros, bem como agradecer pelas dádivas recebidas e, ainda, adorar ao Pai na beleza da sua Santidade. Entenda- se como vãs repetições as repetições mecânicas de frases decoradas, com a intenção de se fazer ouvir pela quantidade. O mencionar de um assunto diante de Deus por repetidas vezes, em virtude da grande aflição que o problema tem trazido à nossa alma, não se constitui, de forma alguma, em vã repetição. Jesus mesmo, em momento de extrema agonia, recorreu ao Pai pelo mesmo assunto por três vezes: “... Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres.” (Mt 26.39) [1ª vez] “... Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade.” (Mt 26.42) [2ª vez] “Deixando-os novamente, foi orar pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras.” (Mt 26.44) [3ª vez]) ( Exemplo) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 61 | P á g i n a b) Sendo objetivo, porém, com moderação “Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças.” (Fp 4.6) Ao colocar diante de Deus nossas petições, precisamos ser objetivos explicitando aquilo de que necessitamos ou desejamos. Entretanto, será que é necessário expor, com todos os detalhes, o objeto da nossa petição? Ou, devemos confiar que Deus, na sua soberania e onisciência, sabe muito mais o que é melhor para nós e, inclusive, se tal petição deve ou não ser atendida? O ensino sobre especificar detalhes em oração é frequentemente associado ao pastor sul-coreano David (Paul) Yonggi Cho, autor do livro "A Quarta Dimensão", muito conhecido. Nesse livro, ele enfatiza a importância de ser específico nos pedidos a Deus, baseando-se na ideia de que a fé requer clareza e visualização. Paul Yonggi Cho compartilha uma experiência pessoal que também mencionou em seu outro livro “Oração – A Chave do Avivamento”. – Ajoelhei-me e orei: "– Pai, agora estou orando. Por favor, envia-me uma escrivaninha, uma cadeira e uma bicicleta”. Pus toda a minha fé no pedido e dei graças a Deus. A partir desse momento comecei a esperar a entrega dessas coisas. No relato, ele diz que estava orando por essas três coisas, mas, durante seis meses não recebia resposta. Deprimido e cansado de esperar ele começou a reclamar com Deus: "Senhor, pedi-lhe uma escrivaninha, uma cadeira e uma bicicleta vários meses atrás, e não me deste nenhuma destas coisas. Tu vês que estou pregando o evangelho para as pessoas pobres deste bairro pobre. Como posso pedir-lhes que exercitem a fé quando eu mesmo não posso praticá-la?” Foi nessa situação que ele diz ter sentido a presença de Deus, em espírito, e respondendo: “– Meu filho, ouvi sua oração muito tempo atrás. Exclamei abruptamente: – Então, onde SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 62 | P á g i n a estão minha escrivaninha, minha cadeira e minha bicicleta? Disse-me o espírito: – Sim, esse é o seu problema, o problema de todos os meus outros filhos. Imploram exigindo todo tipo de coisas, mas o fazem com termos tão vagos que não posso responder. Será que você não sabe que há dezenas de tipos de escrivaninhas, cadeiras e bicicletas? Mas você simplesmente pediu-me uma escrivaninha, uma cadeira e uma bicicleta. Não pediu uma escrivaninha específica, nem uma cadeira nem uma bicicleta, específicas." Ele percebeu que, em sua oração, não havia especificado o que estava pedindo. Então, ele passou a orar detalhando o que desejava ”uma escrivaninha de mogno das Filipinas, uma cadeira com rodinhas, e uma bicicleta com marchas de fabricação norte- americana.” Depois de orar especificando os detalhes, ele relata para a igreja que sua oração fora respondida, e esta reage com surpresa. “Depois do culto, enquanto saía, três rapazes seguiram-me e disseram: — Pastor, queremos ver suas coisas. Fiquei aterrado porque não tinha contado com a possibilidade de ter de mostrar minhas coisas. Todos os membros da igreja moravam em um dos bairros mais pobres e se percebessem que seu pastor lhes havia mentido, meu ministério ali estaria terminado. E os jovens não estavam dispostos a voltar atrás. Achava-me em uma terrível situação, e comecei a orar...” Resumindo a história. Os jovens insistiram em ver os três itens, foram à casa do pastor, porém os tais itens não estavam lá. Então, o pastor fez com eles a analogia da gravidez, dizendo que mesmo antes de nascer e serem vistos, eles já existiam.Da mesma forma, ele estava “grávido” daqueles três objetos. Eles riram muito e a notícia se espalhou pela comunidade, dando margem a muitas brincadeiras. O relato termina dizendo que algum tempo depois ele recebeu as três coisas, exatamente como especificado. Então, ele concluiu: “Trouxe para casa essas três coisas pelas quais tinha esperado tanto tempo, e isso mudou por completo minha maneira de orar. Até então tinha orado em termos vagos; mas desse dia em diante jamais orei em termos vagos. Se Deus respondesse às suas orações vagas, você jamais reconheceria seu SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 63 | P á g i n a pedido como sendo resposta de Deus. Você deve pedir definida e especificamente.” Portanto, ele usa essa experiência para incentivar os cristãos a apresentarem pedidos claros e específicos a Deus. Argumenta que Deus honra a fé clara e específica, e que apresentar detalhes pode demonstrar confiança e foco. Não temos aqui a pretensão de fazer qualquer juízo desse pastor. Entretanto, quanto ao relato dessa sua experiência podemos fazer algumas considerações: A Bíblia ensina e incentiva a sinceridade e confiança ao apresentar nossas necessidades a Deus. A ideia de, ao orar, especificar todos os detalhes daquilo que se deseja, não encontra fundamentação na Bíblia. As nossas petições precisam ser sempre acompanhadas e encerradas com a expressão “segundo a tua vontade”. A objetividade na petição deve ser equilibrada com o reconhecimento de que a vontade de Deus é soberana. A oração não é uma lista de compras, para o “supermercado da graça divina”, mas uma oportunidade de alinhar nossos desejos ao propósito divino. A oração não é apenas sobre "pedir e receber", mas sobre alinhar o coração à vontade de Deus e crescer no relacionamento com ele. Nesse relato do Paul Yonggi Cho é preciso ressaltar que, principalmente por causa da tal ideia de “gravidez”, sua petição ganhou proporções de divulgação tão elevadas, provavelmente ultrapassando os limites geográficos daquela comunidade, que pode gerar a dúvida se o atendimento se deveu mais por uma ação solidária humana ou a intervenção direta de Deus. Soa muito mais evidente, como resultado de uma ação milagrosa do Senhor, aquela petição SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 64 | P á g i n a atendida que foi feita no secreto de um quarto, no silêncio da alma na comunhão e conexão com Deus, sem nenhum alarde. 6.10 A Oração em público “...A minha casa será casa de oração...” (Lc 19.46) “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” (At 2.42) “Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos;” (At 4.31a) Você tem participado ativamente das reuniões de oração? Orar em público é um privilégio e uma responsabilidade. Aqui estão alguns conselhos valiosos para tornar sua oração pública mais condizente com os ensinamentos bíblicos, bem como, mais eficaz e edificante para todos os que a ouvem: Ore, não pregue. A oração não é o momento para corrigir, exortar ou ensinar os outros. Embora a oração deva ser feita segundo as Escrituras, e pode citá-la, não deve ser usada para explicá-la. Direcione seu coração a Deus, expressando suas necessidades e gratidão pela sua graça e bondade. Seja simples e claro. Não tente impressionar com palavras difíceis ou frases rebuscadas. Fale de forma acessível, para que todos, até mesmo as crianças, possam compreender. O poder da oração não está nas palavras, mas na sinceridade do coração. Dirija-se corretamente a Deus. Se sua oração é ao Pai, ore em nome de Jesus. Seja informal, mas não seja irreverente, pois ele é Pai, mas também é o Deus Altíssimo. Seja humilde e não ouse decretar coisas. Se está falando diretamente a Cristo, não conclua dizendo "em nome de Jesus", pois já está se dirigindo a ele. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 65 | P á g i n a Evite discursos ou meditações longas. Não misture palavras e expressões bíblicas que, às vezes, significam coisas diferentes, e não devem ser usadas fora do seu verdadeiro sentido. Simples “aparência” bíblica, ou espiritual, não basta. Deus já conhece sua Palavra. Use o momento da oração para apresentar pedidos, súplicas e ações de graças (Fp 4.6). Seja objetivo. Não repita as mesmas frases diversas vezes, apenas mudando as palavras. Isso pode tornar a oração cansativa para quem ouve e não agrada a Deus. Tenha um propósito definido. A oração pública deve focar na glória de Deus, na edificação da igreja, na salvação dos perdidos e na intercessão pelos necessitados. Assuntos pessoais devem ser tratados na oração particular (1Jo 5.14-15). Evite repetições excessivas. Não use constantemente expressões como "Ó Senhor", "Ó Deus", “Pai Santo”, “Meu Deus” a cada frase. O próprio Jesus nos dá um exemplo de oração reverente e equilibrada (Jo 17). Seja breve. Oração longa deve ser feita em particular. Em público, uma oração objetiva e sincera é mais eficaz e mantém a atenção dos ouvintes. Seja direto e natural. Evite rodeios e fale com compostura. Não ore para impressionar os outros ou preencher tempo, mas para se conectar genuinamente com Deus. Fale com clareza. Ore de maneira que todos possam ouvir e compreender, permitindo que os irmãos respondam com "amém". Mas lembre-se: não há necessidade de gritar, pois Deus não é surdo. Não seja indiscreto. Não use a oração para dar recados aos outros irmãos presentes, não faça insinuações. Isso desagrada a Deus, não coaduna com o espírito de graça e de amor. Há SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 66 | P á g i n a outras maneiras biblicamente estabelecidas para resolver certas questões ou divergências pessoais. Ore no Espírito e com um coração puro. A Bíblia nos exorta a orar "no Espírito Santo" (Jd 20), "levantando mãos santas" (1Tm 2.8) e com sinceridade de coração (2Tm 2.22). A oração pública reflete sua vida de oração particular. Se não buscamos a Deus em secreto, dificilmente oraremos com unção e autenticidade na igreja. A oração é como a respiração da alma e deve ser contínua para manter nossa vida espiritual saudável. Que suas orações sejam sempre sinceras, edificantes e cheias da presença de Deus! Que, quando nos reunirmos na igreja, nos departamentos, ou nas casas, que seja muito mais do que um evento social onde se revê os amigos e se faz um lanche; que seja um momento para verdadeira dedicação a oração. Que não sejamos como aqueles que só frequentam as reuniões de oração quando estão vivendo situações de crise, pessoal ou familiar. “A oração com ações de graças, sendo uma parte especial do culto religioso, é por Deus exigida de todos os homens; e, para que seja aceita, deve ser feita em o nome do Filho, pelo auxílio do seu Espírito, segundo a sua vontade, e isto com inteligência, reverência, humildade, fervor, fé, amor e perseverança. Se for vocal, deve ser proferida em uma língua conhecida dos circunstantes.” (A Confissão de Fé de Westminster – Cap. XXI, Item III) “A oração é o termômetro da espiritualidade da igreja local” (C. A. Swan) ❖ SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 67 | P á g i n a 7. ORAÇÃO – CERTEZAS E CONDIÇÕES 7.1 A Certeza de ser Ouvido e Contemplado Nos ensinos de Jesus encontramos as seguintes instruções: a) Ao orarmos, somos contemplados e recompensados pelo Pai. “...e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.” – Mateus 6.6 ( Instrução) b) Deus sabe de nossas necessidades. “... porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais.” – Mateus 6.8 ( Instrução) c) Pois todo o que pede recebe. “Por isso, vos digo: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e a quembate, abrir-se-lhe- á.” – Lucas 11.9-10 ( Instrução) (ver tb Mt 7.7-11; Jo 15.7) d) Pedi, em nome de Jesus, e recebereis. “E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.” – João 14.13-14 ( Instrução) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 68 | P á g i n a “Naquele dia, nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo- la concederá em meu nome. Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa.” – João 16.23-24 ( Instrução) e) Pedi, segundo a vontade de Deus. “E esta é a confiança que temos para com ele: que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que ele nos ouve quanto ao que lhe pedimos, estamos certos de que obtemos os pedidos que lhe temos feito.” – 1João 5.14-15 f) Pedi, em concordância com outros. “Em verdade também vos digo que, se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que, porventura, pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles.” – Mateus 18.19-20 ( Instrução) Percebe-se uma predisposição da parte de Deus em atender as necessidades dos seus. Jesus coloca isso de forma bem convincente: Se os homens, que por natureza são maus, sabem dar boas dádivas aos seus filhos, quanto mais o Pai celestial? "Ouvir a voz de Deus é o segredo da confiança de que ele ouvirá a minha.” SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 69 | P á g i n a 7.2 Condições condicionantes na oração Por mais gerais e aparentemente incondicionais que pareçam ser algumas promessas bíblicas, como a de Mateus 7.7-11, o fato é que há sim certas condições, a saber: a) Deus deve ser glorificado. “E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho.” – João 14.13 ( Instrução) A resposta à nossa oração deve redundar na glória de Deus. Uma oração de natureza egoísta jamais será incondicionalmente respondida, pois se um homem faz uma súplica egoísta não precisa esperar qualquer coisa da parte de Deus (Tg 4.3). b) É preciso estar em comunhão com Cristo e observar a sua palavra. “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito.” (Jo 15.7)( Instrução) “Amados, se o coração não nos acusar, temos confiança diante de Deus; e aquilo que pedimos dele recebemos, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos diante dele o que lhe é agradável.” (1Jo 3.21-22) “Eis que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem surdo o seu ouvido, para não poder ouvir. Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça.” (Is 59.1-2) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 70 | P á g i n a Para aquele que permanece em Cristo de maneira genuína, e não apenas na aparência, abre-se um horizonte de vida inteiramente novo, que envolve o emprego desse poderoso instrumento que se chama oração. Conforme a garantia dada pelo Senhor Jesus, a oração alcança a própria presença de Deus, extraindo recursos de seu poder infinito. O resultado disso é que grandes e poderosas coisas podem ser realizadas, tanto no desenvolvimento espiritual e íntimo do crente como na sua expressão externa ante o mundo, em seu serviço e em sua utilidade entre os homens. Tal crente se torna agente do Espírito Santo, o qual está no mundo para cumprir a obra de Cristo; e assim, em certo sentido, também está cumprindo aquela obra que Cristo veio realizar nesta terra. c) É preciso crer e não duvidar. “porque em verdade vos afirmo que, se alguém disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele.” – Marcos 11.23 ( Instrução) Temos aqui uma hipérbole, no tocante a acontecimentos físicos reais. O próprio Senhor Jesus não se propôs a mover literalmente um monte. Mas, no terreno espiritual, ele removeu muitos obstáculos gigantescos. É que Jesus não estabelecia limites ao poder da fé e da oração. Jesus não estava encorajando seus discípulos a fazerem tentativas de “ordens de poder”, à imitação dos mágicos. “Por isso, vos digo que tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco.” – Marcos 11.24 ( Instrução) Jesus agora amplia a declaração do versículo 23, transformando- a em um princípio espiritual universal que opera por meio da oração. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 71 | P á g i n a A “fé” mencionada aqui, assim como no versículo anterior, não se resume a uma crença superficial ou intelectual. Também não se trata de uma insistência obstinada, como se bastasse repetir para si mesmo: “Isso vai acontecer, isso vai acontecer, isso vai acontecer...”. A fé é uma relação com Deus no nível da alma (Hb 11.1). d) É preciso perdoar, para ser perdoado. “E, quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas. Mas, se não perdoardes, também vosso Pai celestial não vos perdoará as vossas ofensas.” – Marcos 11.25-26 ( Instrução) O espírito de ódio, o espírito de contenda e as relações equivocadas com os outros são forças que inibem o poder da oração. Como a oração opera no âmbito espiritual e moral, ela pode ser impedida pelas condições morais do ser humano. Esses ensinamentos deixam claro que nada no campo espiritual acontece de forma aleatória ou automática. O espírito de ódio e a incapacidade de perdoar interrompem o crescimento espiritual e anulam a eficácia da oração. Na vida espiritual, não existem bênçãos automáticas, como se fossem produtos adquiridos em um mercado. A declaração de Jesus de que aquele que não perdoa também não será perdoado deve ser entendida literalmente, sem ser suavizada por uma interpretação inadequada da “graça divina”. A graça, ao contrário, sustenta esse princípio, pois ela não contradiz, mas incorpora a necessidade de perdão. A graça divina nos transforma e não simplesmente nos declara bons sem que haja essa transformação. Nesse processo de renovação moral, o “espírito de perdão” é essencial, pois o amor de Deus é SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 72 | P á g i n a derramado em nossos corações. Aquele que odeia dificilmente pode ser considerado regenerado (1Jo 2.9). O espírito que se recusa a perdoar é incompatível com a conversão, a regeneração e a santificação, tornando o indivíduo distante das operações da graça divina. "Está havendo indiferença entre você e seu irmão? Lembre-se de duas coisas: se o erro foi seu, é sua responsabilidade procurá-lo; se foi dele, você tem a oportunidade de dar o primeiro passo. Só assim a reconciliação será possível." (Mt 5.23-24) e) É preciso orar sempre e nunca desanimar. “7 Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se- vos-á. 8 Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, abrir-se-lhe-á. 9 Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra?” (Mt 7.7-9) Segundo uma análise do texto grego de Mateus 7.7-8 feita por Kenneth S. Wuest5, temos: Existem duas palavras para “bater”, no grego: uma que se refere a um esmurramento violento, e a outra que significa um bater gentil. Esta última é a empregada aqui. Assim sendo, temos a tradução: “Continuai pedindo, e ser- vos-á dado; continuai buscando, e encontrareis; continuai a bater reverentemente, e ser-vos-á aberto; pois todo aquele que continua pedindo,continua recebendo, e todo aquele que continua buscando, continua encontrando, e a todo aquele que continua batendo reverentemente ser-lhe-á aberto.” As lições que aprendemos dessa tradução mais ampla são as seguintes: 5 Wuest, Kenneth S. – Jóias do Novo Testamento grego. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 73 | P á g i n a Primeiramente, aprendemos que as Escrituras ensinam que se não recebemos respostas imediatas às nossas orações, devemos perseverar em oração até que as recebamos, ou até que Deus nos mostre que nossa petição não está em conformidade com a sua vontade. Em segundo lugar, aprendemos que, em alguns casos, Deus precisa de tempo para responder às orações. Assim como ele leva um tempo para fazer desabrochar uma bela rosa, também trabalha pacientemente para transformar um coração endurecido, inclinando- o, com amor e graça, à fé no Senhor Jesus. Em terceiro lugar, o texto em foco nos ensina que enquanto continuamos orando, Deus continua operando a nosso favor. Muitas experiências cristãs insatisfatórias se devem a uma vida de oração insatisfatória. Finalmente, aprendemos que temos o direito de exigir6 de Deus que ele responda nossas orações, porém, que podemos continuar batendo reverentemente com a mão da fé.” “1 Disse-lhes Jesus uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer: 2 Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus, nem respeitava homem algum. 3 Havia também, naquela mesma cidade, uma viúva que vinha ter com ele, dizendo: Julga a minha causa contra o meu adversário. 4 Ele, por algum tempo, não a quis atender; mas, depois, disse consigo: Bem que eu não temo a Deus, nem respeito a homem algum; 6 Particularmente, não creio que temos esse direito de exigir alguma coisa de Deus. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 74 | P á g i n a 5 todavia, como esta viúva me importuna, julgarei a sua causa, para não suceder que, por fim, venha a molestar-me. 6 Então, disse o Senhor: Considerai no que diz este juiz iníquo. 7 Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê- los?” – Lucas 18.1-7 ( Instrução) Esta parábola da viúva persistente e o juiz injusto, oferece algumas lições valiosas sobre a oração e a confiança em Deus. Certamente a primeira e principal lição diz respeito a perseverança na oração. Jesus introduz a parábola com o ensinamento de que devemos orar sempre, sem desanimar (Lc 18.1). Isso nos ensina que a oração exige constância e perseverança, mesmo quando as respostas parecem demoradas. Deus valoriza uma fé que permanece firme em meio às dificuldades. A segunda direciona a confiança no caráter de Deus. A parábola apresenta um contraste entre o juiz injusto, que atende a viúva por insistência, e Deus, que é justo e amoroso. Se até um juiz corrupto acaba respondendo a uma súplica persistente, quanto mais Deus, que é bom e fiel, atenderá àqueles que clamam a ele dia e noite (Lc 18.7). A terceira deve acender a esperança para o fato de que a justiça de Deus virá no tempo certo, no kairós de Deus. A viúva busca justiça contra seu adversário, e a resposta do juiz é demorada. Isso reflete que, às vezes, as respostas de Deus não vêm no tempo que esperamos, mas ele é fiel e garantirá justiça no momento certo (Lc 18.7-8). A quarta apresenta a oração como expressão de fé. A persistência da viúva demonstra sua fé de que sua causa será atendida. Da mesma forma, a oração contínua é um ato de confiança SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 75 | P á g i n a de que Deus está ouvindo e agirá de acordo com sua soberana e perfeita vontade. A oração não é apenas pedir, mas também demonstrar fé na bondade e soberania de Deus. Enfim, a síntese é: Ore com perseverança, mesmo quando a resposta não for imediata. Confie no caráter de Deus, sabendo que ele é justo e cuida de seus filhos. Mantenha a fé viva por meio da oração constante, lembrando que ela é uma expressão de confiança em Deus. Lembre-se de que Deus sempre ouve os clamores dos aflitos e agirá em favor deles no tempo certo, de acordo com sua soberana vontade. f) Orar em nome de Jesus. “E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.” – João 14.13-14 ( Instrução) “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda.” – João 15.16 ( Instrução) “Naquele dia, nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome. Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa.” SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 76 | P á g i n a – João 16.23-24 ( Instrução) Apesar da predisposição do Pai em atender, os requisitos apresentados devem ser observados. ❖ Evan Roberts foi uma figura central no avivamento no País de Gales (1904- 1905). Ele era um jovem galês que, desde cedo, demonstrou uma profunda devoção a Deus e desejo por avivamento. Relatos indicam que ele orava intensamente por um avivamento desde a adolescência. Durante seus estudos, em uma escola bíblica em Newcastle Emlyn, ele participou de reuniões de oração lideradas por Seth Joshua, um pregador que já clamava por uma grande obra do Espírito Santo. Uma dessas reuniões teve um impacto profundo em Roberts, levando-o a uma experiência espiritual intensa que mudou sua vida e deu início ao movimento de avivamento. Depois disso, ele voltou à sua cidade natal, Loughor, e começou a pregar, atraindo multidões e despertando um fervor religioso. Sob a liderança de Roberts e outros evangelistas, o reavivamento se espalhou rapidamente por todo o País de Gales, resultando em um aumento significativo na frequência às igrejas, mudanças sociais e comportamentais, e relatos de transformações espirituais profundas entre as pessoas. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 77 | P á g i n a 8. RESULTADOS DA ORAÇÃO 8.1 Na vida de Jesus a) O céu se abriu e o Espírito Santo desceu. “E aconteceu que, ao ser todo o povo batizado, também o foi Jesus; e, estando ele a orar, o céu se abriu,” – Lucas 3.21 ( Exemplo) b) Jesus se transfigurou. “E aconteceu que, enquanto ele orava, a aparência do seu rosto se transfigurou e suas vestes resplandeceram de brancura.” – Lucas 9.29 ( Exemplo) c) Lázaro ressuscitou. “41 Tiraram, então, a pedra. E Jesus, levantando os olhos para o céu, disse: Pai, graças te dou porque me ouviste. 42 Aliás, eu sabia que sempre me ouves, mas assim falei por causa da multidão presente, para que creiam que tu me enviaste. 43 E, tendo dito isto, clamou em alta voz: Lázaro, vem para fora! 44 Saiu aquele que estivera morto, tendo os pés e as mãos ligados com ataduras e o rosto envolto num lenço. Então, lhes ordenou Jesus: Desatai-o e deixai-o ir.” SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 78 | P á g i n a – João 11.41-44 ( Exemplo) d) A primeira multiplicação dos pães. “Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu- os entre eles; e também igualmente os peixes, quanto queriam.” – João 6.11 ( Exemplo) (Os textos paralelos são Mt 14.19; Mc 6.41; Lc 9.16) Este milagre ocorreu em um local deserto perto de Betsaida. Jesus teve compaixão da multidão que o seguia e, ao perceber a necessidade de alimento, multiplicou os recursos disponíveis, isto é, 5 pães e 2 peixes. O número de homens alimentados: cerca de 5.000 (sem contar mulheres e crianças). E, ainda, sobrou 12 cestos cheios de pedaços de pãoe peixe. e) A segunda multiplicação dos pães. “36 tomou os sete pães e os peixes, e, dando graças, partiu, e deu aos discípulos, e estes, ao povo.” – Mateus 15.32 ( Exemplo) (O texto paralelo é Mc 7.6) Este segundo evento ocorreu em uma região desértica, após Jesus pregar para uma grande multidão durante três dias. Sentindo compaixão por eles, que estavam famintos, Jesus multiplicou os pães e peixes. O alimento inicial foi 7 pães e alguns peixinhos. O número de homens alimentados foi cerca de 4.000 (sem contar mulheres e crianças). E, ainda sobrou 7 cestos cheios de pedaços. Esses são apenas alguns dos muitos exemplos de resultados da oração, na vida de Jesus. Cremos que todos os feitos extraordinários operados por Jesus se devem à íntima comunhão que ele mantinha com o Pai, comprovada pelo fato de habitualmente dirigir-se a lugares solitários com o fim de orar. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 79 | P á g i n a 8.2 Na igreja primitiva Apresentamos na tabela abaixo os principais milagres, algumas manifestações sobrenaturais de Deus e respostas de oração registrados no livro de Atos e nas Epístolas, organizados (na medida do possível) em ordem cronológica: Ordem Milagre / Resposta de Oração Descrição Referência Bíblica 1 Pentecostes – Derramamento do Espírito O Espírito Santo foi derramado sobre os discípulos, capacitando- os para testemunhar com poder e realizar sinais. Atos 2.1-4 2 Pentecostes – Resultado da Pregação Naquele dia, aceitaram a Palavra pregada quase 3000 pessoas. Atos 2.41 3 Cura do paralítico na Porta do Templo Pedro e João curaram um homem aleijado, demonstrando o poder de Jesus e suscitando admiração na comunidade. Atos 3.1-10 4 Resultado da Pregação após a cura do paralítico Muitos aceitaram a Palavra subindo o número de homens a quase 5000. Atos 4.4 5 Pedro e João sendo libertos do cárcere contaram aos irmãos Os irmãos reunidos, tendo orado, o lugar tremeu e todos ficaram cheios do Espírito Santo. Atos 4.23-31 6 O juízo divino sobre Ananias e Safira Tendo eles mentido ao Espírito Santo, após a reprimenda de Pedro, expiraram. Atos 5.1-11 7 Sinais e Maravilhas na Igreja Primitiva Diversos milagres foram realizados pelos apóstolos, fortalecendo a fé dos crentes e confirmando a veracidade da mensagem do Evangelho. Atos 5.12-16 8 Libertação dos apóstolos da prisão Durante a prisão, um anjo do Senhor apareceu, abriu as portas do cárcere e os conduziu para fora, de forma sobrenatural. Atos 5.17-20 SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 80 | P á g i n a Ordem Milagre / Resposta de Oração Descrição Referência Bíblica 9 Pregação, sinais e prodígios em Samaria As multidões atendiam à pregação de Filipe e muitos milagres foram operados. Atos 8.4-8 10 A conversão de Saulo-Paulo Certamente o clamor dos irmãos subiu ao céu e o perseguidor da igreja foi alcançado de forma sobrenatural. Atos 9.1-19 11 Cura de Enéias Pedro curou Enéias, um homem paralítico, que foi restaurado à sua plena capacidade, servindo de testemunho para muitos. Atos 9.32-35 12 Ressurreição de Tabita (Dorcas) Pedro ressuscitou Tabita, uma discípula conhecida por suas boas obras, o que trouxe grande encorajamento e fé à comunidade cristã. Atos 9.36-42 13 Conversão de Cornélio Temos aqui a visão de Pedro, o derramamento do Espírito Santo, tudo isso em resposta a oração de Cornélio, segundo a vontade de Deus. Atos 10.1-48 14 Libertação de Pedro da prisão Durante a prisão, um anjo do Senhor apareceu, libertou Pedro das cadeias e o conduziu para fora da prisão, de forma sobrenatural. Atos 12.3-19 15 Cura do Homem Aleijado em Listra Paulo curou um homem que jamais andara, evidenciando a ação do poder de Deus através do Evangelho. Atos 14.8-10 16 Libertação da jovem possessa Indo Paulo para o lugar de oração expulsou o espírito de adivinhação da jovem, em nome e no poder de Jesus. Atos 16.16-18 17 Libertação na Prisão em Filipos Enquanto Paulo e Silas oravam e cantavam, um terremoto abriu as portas da prisão, resultando na conversão do carcereiro e de sua família. Atos 16.25-34 SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 81 | P á g i n a Ordem Milagre / Resposta de Oração Descrição Referência Bíblica 18 Derramamento do Espírito Santo, em Éfeso Com a imposição de mãos de Paulo, veio o Espírito santo sobre 12 homens que foram discípulos de João Batista. Atos 19.1-7 19 Milagres extraordinários e libertação Durante 2 anos, em Éfeso, o apóstolo Paulo foi usado por Deus para curar enfermos e expulsar espíritos malignos. Atos 19.10-12 20 Ressurreição de Êutico Após Êutico cair de uma janela durante um longo discurso de Paulo, ele foi trazido de volta à vida, demonstrando o cuidado e o poder de Deus. Atos 20.9-12 21 Paulo sobrevive ao naufrágio Paulo, sendo levado preso para Roma, sobrevive ao naufrágio e ao parecer dos soldados de matar os presos para que não fugissem. Atos 21.1-44 22 Cura dos Enfermos na Ilha de Malta Paulo, além de ser salvo da picada da víbora, curou o pai de Públio e outros enfermos na ilha de Malta, evidenciando a continuidade dos milagres como sinal do evangelho. Atos 28.8-10 Esta tabela reúne eventos que evidenciam tanto a manifestação direta do poder de Deus quanto as respostas às orações dos crentes, contribuindo para a compreensão da ação sobrenatural na história da igreja primitiva. Por outro lado, há que se ressaltar que a igreja primitiva, além de ter vivenciado muitos sinais, prodígios, curas e livramentos, também experimentou dias maus, perseguições, prisões e martírio – “Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará.” (Lc 6.24) Os momentos mais difíceis também fazem parte da caminhada da vida do cristão que precisa se lembrar que o Senhor jamais nos SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 82 | P á g i n a desamparará. Certas provações são permitidas por Deus e cumprem o propósito de nos moldar, fortalecer a nossa fé, nos aproximar mais do Senhor e, como no caso de Jó demostrar quem realmente é fiel. Os que mais sofreram, foram perseguidos, presos, açoitados e mortos de forma cruel, foram exatamente aqueles que andaram mais próximos de Cristo – os seus discípulos. Jesus os preveniu: "Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me." (Mt 16.24). Portanto, seja qual for a sua luta hoje, lembre-se de que estamos de passagem neste mundo. Nossa verdadeira vitória e glória não está aqui, mas na eternidade. “As batalhas que enfrentamos hoje são as sementes das vitórias que colheremos amanhã”. 8.3 Na vida dos crentes “Devemos permitir que Deus nos ensine que é tão natural para ele responder às orações, como é para nós o pedir.” Sabemos que Deus nos ama e quer o nosso bem, como um pai a seu filho, pois valemos mais do que todas as demais obras da sua criação. É Jesus que afirma: “Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?” (Mt 6.30; Lc 12.28) “Observai os corvos, os quais não semeiam, nem ceifam, não têm despensa nem celeiros; todavia, Deus os sustenta. Quanto mais valeis do que as aves!” (Lc 12.24) “Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?” (Mt 7.11; Lc 11.13) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 83 | P á g i n a Ao longo da história, pós igreja primitiva, nosso Deus tem cumprido suas promessas e respondido asorações dos seus servos. A seguir, apresentaremos alguns casos de resposta de oração. Poderíamos usar muitas histórias contadas em livros e revistas, porém, registraremos aqui casos verdadeiramente comprovados, vividos por mim e minha família, bem como, por amigos do nosso convívio e coparticipação na obra do Senhor. a) Um Deus provedor e cuidadoso Muitas têm sido as intervenções de Deus na minha vida. Creio que a maioria delas aconteceram sem que me fosse possível percebê- las. Foram livramentos, curas, portas abertas, oportunidades criadas, solução de problemas, situações favoráveis, iluminação na tomada de decisões. Enfim, bênçãos incontáveis no âmbito pessoal, familiar, eclesiástico e profissional. Em 02 de janeiro de 2021 me internei em um renomado hospital na zona sul do Rio de Janeiro. Já no quarto fui preparado pela equipe de enfermagem, com acesso colocado e tudo mais, para ser levado ao centro cirúrgico, para uma cirurgia por robótica. Estava ainda no leito hospitalar e acabara de chegar a maca. A equipe médica já estava a minha espera, mas não me levavam para lá. Já havia colocado a minha vida, bem como tudo e todos os que de alguma forma participariam do processo. Estava razoavelmente tranquilo, mas um pouco incomodado com a demora. Foi quando perguntei ao pessoal da enfermagem que me esclareceram. Havia ocorrido uma pane elétrica, os corredores estavam no escuro e abriam algumas portas dos quartos para entrar luz. Os elevadores também pararam de funcionar. Parece que os geradores de emergência não entraram ou houve algum outro problema por lá. Passado mais algum tempo a equipe médica suspendeu a cirurgia, porque não havia condições para tal. Fiquei imaginando: que livramento!!! E, se a pane elétrica tivesse ocorrido SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 84 | P á g i n a no meio da cirurgia? Em todo o tempo Deus é bom! Depois do livramento veio outra bênção. Com a dificuldade de agenda naquela unidade para a marcação de uma nova data mais próxima, o meu médico articulou com a direção a realização em outra unidade, que é mais nova e com equipamentos de robótica mais modernos. O meu plano não cobria aquele novo e ainda melhor hospital, entretanto, em função dos transtornos, tudo foi arranjado e, 9 dias depois, a cirurgia ocorreu, com sucesso. Glória a Deus! Em 1998 ocorreu a privatização do sistema TELEBRAS. A estatal do meu Estado, na qual eu trabalhava, tinha cerca de dez mil funcionários. Os novos donos queriam implementar muitas mudanças, de empresa estatal para empresa privada. Falava-se pelos corredores que o lema deles era: “– Não se muda a cultura de uma empresa mudando a cabeça (mentalidade) das pessoas, mas mudando as pessoas! Simples e cruel, assim. E, assim fizeram. Demissões e mais demissões, semanalmente. O clima era tenso e não me restava outra alternativa senão clamar a Deus. Passaram-se 3 anos e, no ano de 2001, estava chegando a minha vez. Com 27 anos de trabalho e 46 anos de idade, com uma família para sustentar e a falta de perspectiva de conseguir um novo emprego, até mesmo pela idade, era preciso buscar o amparo no Pai Celestial. Eu estava de férias, participando de um evento evangélico, quando o celular tocou. Era a minha chefe ! Cuidadosamente ela me alertou: – Não vou conseguir manter você na equipe, procure um outro setor na empresa. Na verdade, essa opção não estava disponível porque as demissões estavam ocorrendo em todos os setores da empresa. Não havia o que fazer, senão continuar clamando ao Senhor. Depois, fiquei sabendo que eu estava entre os primeiros, ou era o primeiro, a ser dispensado, devido ao meu tempo de empresa e salário, pois tinha exercido função gerencial por muitos anos, em outras áreas, e nesta nova área apenas integrava a equipe. Entretanto, houve uma reviravolta inacreditável, ainda durante as SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 85 | P á g i n a minhas férias. A nova direção resolveu centralizar a área de contratações e compras das 16 empresas do grupo no Rio de Janeiro. Minha gerente foi transferida para outra área e um novo gerente assumiu. Considerando a nova função e relevância do setor, agora com atuação ampliada, era necessário estruturar a equipe com funcionários mais experientes. Foi assim que, milagrosamente, de prioridade na lista de demissões, passei a ser prioridade para a composição da nova equipe. Toda a honra e toda a glória somente a Deus que sempre está no controle de todas as coisas. Foi assim, que me mantive por mais 8 anos na empresa, até o final de 2009. Alguns meses antes da minha saída, aconteceu algo que me marcou, pois entendi como palavra profética do Senhor. Numa exposição bíblica ao Conselho da minha igreja, o pastor visitante ressaltou o fato de que, o povo de Israel, no êxodo do Egito, não saiu de mãos vazias, pedindo e recebendo objetos de prata, de ouro e roupas, pois o Senhor moveu o coração dos egípcios para isso (Êx 12.35-36). E foi o que ocorreu comigo, nada de demissão pura e simples. A empresa anunciou um Plano de Incentivo a Aposentadoria, com remuneração extra e, entendendo que aquele era o momento certo preparado pelo Senhor, fiz a adesão e saí da empresa. Desde então, meu propósito tem sido o de dedicação máxima ao Senhor, à sua igreja, à expansão do Reino, à evangelização e edificação de vidas. Não poderia deixar de narrar mais uma, dentre as muitas bênçãos recebidas do Senhor. Em 2010, já aposentado, resolvemos em família comprar um novo apartamento, vendendo aquele onde morávamos. Procuramos e visitamos muitos apartamentos, sempre rogando a direção e ajuda do Senhor. Nenhum deles nos agradou e a procura já estava ficando cansativa. Não era muito comum em nossa igreja programar reuniões de vigília durante toda a noite. Entretanto, aconteceu uma delas. Mesmo tendo um apartamento para ver na manhã do dia seguinte, priorizamos a participação nesta vigília. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 86 | P á g i n a Chegamos em casa na manhã seguinte, descansamos muito pouco e partimos para ver o tal apartamento. O apartamento estava vazio, tinha sido muito bem equipado para a proprietária morar, entretanto, por questões particulares, resolveram vender. O imóvel agradou à família e fechamos o negócio. É onde estamos morando desde então. Glória a Deus que nos direciona, prepara o caminho e cuida de nós. Compartilho aqui o “meu pacto” com Deus: b) Um Deus salva e cura Fernando é um querido e muito estimado presbítero da nossa Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro. Português, mas vive no Brasil há 56 anos. É o quinto filho de 11 irmãos, tendo a mãe falecido quando ele tinha 10 anos de idade. Foi criado na Igreja Católica Romana, sendo orientado por seu pai e avó a temer a Deus e dar sempre graças ao Senhor, por tudo. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 87 | P á g i n a Aos quinze anos chegou ao Brasil, onde, mais tarde, formou uma família, com esposa e três filhos. Aos 36 anos, ele e sua família abraçaram a fé no Senhor Jesus Cristo. Uma vizinha os levou a conhecer a Jesus, na Igreja Presbiteriana do Rio, onde ele e sua esposa Fátima servem ao Senhor com muita dedicação. Aos 40 anos, ele começou a sentir dores no peito, que não lhe permitiam nem levantar os braços. Nesse tempo frequentavam uma reunião de oração da ADHONEP7, uma instituição interdenominacional, que reúne crentes de várias igrejas e denominações. Ele pediu oração aos irmãos pela cessação das dores que sentia. Também resolveu ir ao médico. Depois de fazer alguns exames, o médico relatou o diagnóstico de uma lesão no diafragma, isto é, câncer. A notícia foi um choque para sua vida, ficando um tanto quanto abalado com um diagnóstico inesperado como este. Entretanto, continuava frequentando as reuniões de oração e o povo de Deus intercedendo por ele.Foi a um oncologista, que pediu uma ressonância para ver qual seria o tamanho da lesão. No final do exame, o profissional que o realizou, adiantou que a ressonância é exame que mostra até um tumor do tamanho de uma cabeça de alfinete, mas nada mais existia no local objeto da pesquisa. Retornando ao médico, este constatou que a lesão tinha sumido!!! Ele assim conclui o seu testemunho de cura: “– Toda honra e toda glória sejam dadas ao Senhor! Ele cura as nossas enfermidades e cura a nossa alma e nos faz andar nele, sempre confiando que ele é fiel!” Tendo passado por tão significativa e milagrosa experiência, o querido casal Fernando e Fátima se tornaram crentes que levam a 7 ADHONEP: Associação de Homens de Negócio do Evangelho Pleno SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 88 | P á g i n a oração muito a sério. Têm sido uma bênção na igreja, principalmente no ministério do Encontro de Casais com Cristo. Deus salva, cura e usa na sua obra! c) Alguém orou “Um emocionante episódio ocorreu, certa vez, em uma rústica cabana na África. Uma missionária acordou subitamente, pois tivera um pressentimento de perigo iminente. A apreensão lhe levara à desconfiança de que estava para ser atacada por alguma fera. Era uma noite cálida e a janela permanecia aberta, penetrando pela mesma o clarão da lua; olhou em volta da cabana e nada indicava que houvesse algo errado. Todavia, ela continuou presa de um esquisito pânico, o que a levou a acordar o seu marido, e começaram a dialogar em voz baixa. Eis senão quando, ao olharem ao lado da cama, viram uma horrorosa cobra, cuja cabeça estava levantada, prestes a atacá-los com um bote. Rapidamente o missionário, esgueirando-se, apanhou a carabina e, com um certeiro tiro, atingiu a cobra na cabeça. Mas a nossa história não está completa. Um dia, quando uma amiga dos missionários estava encerando o assoalho de sua casa no Canadá, sentiu uma necessidade irresistível de orar por aqueles irmãos tão distantes, convencida de que eles estavam expostos a grave perigo. Ajoelhou-se, orou piedosamente, e, quando se levantou, a paz dominava o seu coração, certa de que o Senhor atendera à sua ardente súplica. Posteriormente, quando os missionários regressaram ao Canadá, para um período de férias, relataram à sua dedicada amiga o terrível drama vivido naquela noite. Comparando datas e horários, chegaram à conclusão de que as duas experiências pelas quais passaram haviam ocorrido precisamente no mesmo momento!” (Walter B. Knight) ❖ SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 89 | P á g i n a 9. ORAÇÕES DE JESUS 9.1 Algumas instruções de Jesus a) O modo hipócrita de orar (Mt 6.5) "E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa." O que ele diz sobre os hipócritas parece ótimo à primeira vista: "gostam de orar". Mas, infelizmente, não é da oração que eles gostam, nem do Deus a quem supostamente estão orando. Não, eles gostam de si mesmos e da oportunidade que a oração pública lhes dá de se exibirem. Neste exemplo de justiça "religiosa" ou prática piedosa, Jesus descreve dois homens orando (Lc 18.9-14). A diferença básica é entre a hipocrisia8 e a realidade. Ele põe em contraste o motivo das orações e as suas recompensas. Os fariseus buscavam o louvor dos homens, encontrando prazer no reconhecimento público. Oravam em pé nos locais mais visíveis das praças, desejando ser notados. Em Lucas 18.9- 14, vemos como sua vaidade e orgulho tornavam suas práticas insuportáveis. Suas orações, jejuns e atos de caridade não eram movidos por um desejo genuíno de crescimento espiritual, preocupação com o próximo ou amor a Deus, mas sim pela busca de 8 Hipocrisia: s. f. Manifestação de fingidas virtudes, sentimentos bons, devoção religiosa, compaixão etc.; fingimento, falsidade. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 90 | P á g i n a status e autopromoção. Sobre esses hipócritas, que iludiam as pessoas com sua falsa devoção, Jesus declarou: "sepulcros caiados" — belos por fora, mas por dentro cheios de morte e podridão (Mt 23.27). Naturalmente, a disciplina da oração regular é uma coisa boa; todos os judeus devotos oravam três vezes por dia, como Daniel (Dn 6.10). E não havia nada de errado em ficar de pé para orar, pois era a posição costumeira dos judeus para isto. Os judeus se punham de pé para orar, voltados de frente para o Templo de Jerusalém (1Rs 8.48; Dn 6.10) ou para o lugar mais santo (quando estavam no Templo)(1Sm 1.26; 1Rs 8.22 e Lc 18.11, 13). Nem estavam necessariamente errados quando oravam "nas sinagogas e nos cantos das praças", se sua motivação fosse sincera. Mas Jesus desmascarou as suas verdadeiras motivações, que eram somente atrair a atenção alheia, serem vistos pelos homens. Por trás da piedade, espreitava o seu orgulho. O que realmente desejavam era o aplauso. E o conseguiram: "Já receberam a recompensa". O farisaísmo religioso não está morto. É possível ir à igreja pelos mesmos motivos errados que levavam o fariseu à sinagoga: não para adorar a Deus, mas para obter uma reputação de piedade (alguns políticos seguem essa linha). A hipocrisia é muitas vezes tão acentuada nas igrejas que o mundo julga que todos os crentes são hipócritas. Conta-se a história de certo coronel que convidou um amigo para caminhar no seu pomar para provar as maçãs. Um dia, encontrando o amigo na rua, o coronel ficou um pouco irritado porque este desprezava os seus convites. Perguntou-lhe: "– É porque acha que as maçãs não são boas?" O amigo confessou que de fato tinha experimentado uma que caíra no lado de fora do muro e que era tão azeda que perdera todo o desejo de experimentar mais. Mas o dono do pomar respondeu que tinha andado mais de sessenta quilômetros a pé para buscar mudas de uma qualidade azedíssima para plantar ao SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 91 | P á g i n a redor e enganar os meninos que quisessem invadir o pomar. "– Mas as outras de dentro", disse o dono, "são muito mais doces e saborosas". Aqueles que julgam as igrejas pelos hipócritas, enganam-se da mesma maneira. Somente os que, no lado de dentro, experimentam os preceitos do Senhor, podem testificar que "são mais desejáveis do que o ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos" (Sl 19.10). b) O modo sincero de orar (Mt 6.6) "Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará." É evidente que Jesus não tinha a intenção de estabelecer o quarto como o lugar exclusivo para oração. Aquele que não tinha onde reclinar a cabeça, também, não tinha porta para fechar. O "quarto de oração" de Jesus era o monte (Mt 14.23; Mc 6.46; Lc 6.12; Lc 6.28; Lc 22.40 e Mt 26.36), os lugares desertos (Mc 1.35; Lc 5.16); o de Isaque era o campo (Gn 24.63); o de Elias, o quarto de dormir (Jz 17.19-22); o de Pedro, o eirado (At 10.9) e o de Paulo, junto do rio (At 16.13). Devemos fechar a porta para não sermos perturbados e distraídos, mas também para fugir aos olhos dos homens e para ficarmos a sós com Deus. "Orarás a teu Pai que está em secreto", ou então, "que está naquele lugar secreto". O lugar secreto da amizade íntima (Sl 25.14; 27.5; 31.20; 91.1). Nosso Pai está lá, à nossa espera. Nada destrói mais uma oração do que olhares furtivos para os espectadores humanos, como também nada enriquece mais do que o senso da presença de Deus. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 92 | P á g i n a c) O modo pagão de orar (Mt 6.7) "E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem quepelo seu muito falar serão ouvidos." A hipocrisia é um dos pecados que podem acontecer na oração. Há ainda algumas formas equivocadas na oração como as "vãs repetições", ou a falta de significado, a oração mecânica. O primeiro caso (hipocrisia) é a tolice dos fariseus, este segundo, a dos gentios ou pagãos. Os gentios, apesar de sua sinceridade ao orar, cometiam um erro ao recorrer a fórmulas repetitivas, tornando suas orações mecânicas e vazias de significado. A verdadeira oração é uma expressão autêntica do que há no íntimo de cada pessoa. É um diálogo sincero, uma conversa íntima e sem formalidades com Deus, que é Pai. A hipocrisia é um abuso do propósito da oração, desviando-a da glória de Deus para a glória do ego; a repetição mecânica é um abuso da própria natureza da oração, rebaixando-a de um real e pessoal acesso a Deus a uma mera recitação de palavras. Jesus não podia estar proibindo toda repetição, pois ele mesmo repetiu sua oração, notavelmente no Getsêmani, quando "foi orar pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras"(Mt 26.39, 42 e 44). O conteúdo da oração é espontâneo, livre de qualquer formalidade e expressões decoradas, conforme já abordado. Muitas rezas não têm mais valor do que as rodas usadas na Índia, sobre as quais estão escritas as orações e depois de giradas horas a fio para apresentá-las sem cessar a Deus! O mencionar de um assunto diante de Deus por repetidas vezes, em virtude da grande aflição que o problema tem trazido à nossa alma, não se constitui, de forma alguma, em vã repetição. Mas também é igualmente possível usar "palavras vazias" quando se emprega o "jargão religioso" enquanto a mente vagueia. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 93 | P á g i n a "Pelo seu muito falar...". Esta prática da oração era e é errada desde a base: Primeiro, porque pensavam que Deus considera o número das orações proferidas para aquilatar o valor da oração, e não o espírito e o coração de quem orava. Segundo, porque pensavam que o acúmulo de orações repetidas tinha o efeito de cansar os ouvidos de Deus, obrigando-o a responder. Essas ideias são características dos pagãos. Resumindo, o que Jesus proíbe que seu povo faça é qualquer espécie de oração com a boca, quando a mente não está participando. 9.2 A oração do "Pai Nosso" – Mateus 6.9-13 ( Instrução) (Ver tb Lc 11.1-4) Esta mui amada oração que nosso Senhor ensinou a seus discípulos, conhecida como a “Oração do Pai Nosso”, foi evidentemente dada em duas ocasiões distintas e sob diferentes circunstâncias, e com algumas variações. Primeiramente, no Sermão do Monte, quando Cristo advertia os seus discípulos contra a formalidade ostentosa na oração (comp. Mt 5.1 com 6.5-13; e, segunda vez, num indeterminado "certo lugar" em resposta ao pedido de um dos discípulos, "Senhor ensina-nos a orar" (Lc 11.1-4). Ela nos foi dada – aos seus discípulos e seguidores – para ilustrar o simples caminho pelo qual devemos nos aproximar de Deus. Trata-se de uma oração perfeita, pois contém adoração, confissão, petição, intercessão e ações de graças. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 94 | P á g i n a “Em sua linguagem há simplicidade, brevidade, clareza, nobreza. Em seu espírito vemos que Deus e sua glória estão em primeiro lugar, vindo depois nossas necessidades. Nela vemos um filho e seu Pai; um adorador e seu Deus; um súdito e seu Rei; um servo e seu Mestre; ...; um confidente e seu Confessor, um peregrino e seu Guia; uma ovelha e seu Pastor. Nesta oração há o espírito de adoração, reverência, desejo, entrega, dependência, arrependimento, perdão, humildade, debilidade e certeza.”9 (W. T. Bevan) COMPARAÇÃO DE MATEUS COM LUCAS MATEUS 6.9-13 LUCAS 11.1-4 Pai nosso que estás nos céus, Pai, Santificado seja o teu nome; Santificado seja o teu nome; Venha o teu reino, Venha o teu reino, Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; – O pão nosso de cada dia dá-nos hoje; O pão nosso cotidiano dá-nos de dia em dia; E perdoa-nos as nossas dívidas, Perdoa-nos os nossos pecados, Assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; Pois também nós perdoamos a todo o que nos deve. E não nos deixes cair em tentação; mas livra- nos do mal E não nos deixes cair em tentação; (Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre)(*) – (*) Essa doxologia não aparece nos manuscritos gregos mais antigos e melhores e, aqueles que a incluem, contém consideráveis variantes. Autoridades eminentes do texto creem que foi acrescentada mais tarde, provavelmente para que a oração fosse mais agradável ao culto público. Contudo, como a doxologia aparece na ARA10, ela não é antibíblica, pois suas ideias principais parecem ter sido claramente extraídas de uma oração de Davi registrada em 1Crônicas 29.11 - "Tua, Senhor, é a grandeza, o poder, a honra, a vitória e a majestade; ...". 9 Livro: Sendas de Luz, extraído de A SENDA DO CRISTÃO – nº 112 10 ARA – Almeida Revista e Atualizada SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 95 | P á g i n a “De uma feita, estava Jesus orando em certo lugar; quando terminou, um dos seus discípulos lhe pediu: Senhor, ensina- nos a orar como também João ensinou aos seus discípulos.” (Lc 11.1) Os filhos de Deus devem ser divinamente ensinados a orar, não apenas como orar (Lc 11.1). Esta oração, conforme originalmente dada, não especifica detalhadamente a doutrina completa da oração feita pela Igreja, embora contenha o seu germe. Mais tarde, no progresso da divina revelação, nosso Senhor deu a ordem em seu nome (Jo 16.23- 24). Nos dois registros desta oração podemos extrair muitas lições: “Portanto, vós orareis assim: Nesta oração que serve como modelo para elaborarmos nossas orações, Jesus nos dá o exemplo de como devemos nos dirigir a Deus. Tanto mais nos aproximaremos do ideal cristão de orar, quanto mais permitirmos que o próprio Espírito Santo possa gestar em nós cada palavra, cada frase e cada ideia. Embora seja possível orar em espírito, recitando “O Pai Nosso”, palavra por palavra, contudo supomos que Cristo não queria que os discípulos o repetissem rotineiramente, pois é impossível repetir o Pai Nosso diariamente sem a maioria cair em formalismo ou automatismo ou mesmo atribuir uma superstição às palavras que Jesus usou. Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; Reconhecimento da filiação divina e da sua soberania. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 96 | P á g i n a A primeira vez que Deus é chamado de "Pai" na Bíblia ocorre em Êxodo 4.22-23, quando Deus se refere a Israel como seu filho. Aqui, Deus revela seu relacionamento paternal com Israel como uma nação, destacando seu cuidado e autoridade sobre seu povo (ver tb Dt 32.6). No Antigo Testamento, Deus era visto como Pai principalmente no sentido coletivo, como Pai de Israel. Já no Novo Testamento, Jesus inova, aprofunda essa relação, ensinando que Deus é Pai de cada crente individualmente. Ele nos ensina a invocar a Deus como nosso Pai, do mesmo modo que ele o fazia. Nos Evangelhos, Deus é referido como Pai cerca de 181 vezes (versão ARA), da seguinte forma: Descrição Mateus Marcos Lucas João Total Deus=Pai 44 05 17 115 181 É significativa diferença de referências entre os dois extremos, Marcos e João. Isto porque cada Evangelho tem um público-alvo e uma ênfase teológica distinta. Marcos, escrito para os romanos, foca mais nas ações de Jesus do que em seus discursos, enfatizando Jesus como Servo (Mc 10.45). Por isso, há menos menções a Deus como Pai. João, escrito para os cristãos, tem um tom mais teológico e espiritual, enfatizando Jesus como o Filho de Deus e sua relação com o Pai (Jo 20.30-31). Pai, no aramaico, seria "Abba", "paizinho" (Mc 14.36; Rm 8.15; Gl 4.6), denotando, assim, uma íntima afeição,o que exclui a possibilidade de uma familiaridade superficial. Essa oração baseia-se no relacionamento de Deus como Pai de todos os que verdadeiramente creem no seu Filho (Jo 1.12-13), pois só eles podem dizer sinceramente, "Nosso Pai". Embora muitos, repitam essa oração, o Deus todo poderoso é o Criador de todos, mas Pai apenas dos redimidos por Cristo. Pela graça, fomos adotados na família de Deus e verdadeiramente amados (Gl 4.4-5). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 97 | P á g i n a A diferença essencial entre as orações dos fariseus, dos pagãos e dos cristãos jaz na espécie de Deus a quem oramos. Jesus nos instruiu que o chamássemos (literalmente) de "Pai nosso que estás nos céus". Isto implica: - Que ELE É PESSOAL. Ele é "ele" como eu sou "eu". Deus é exatamente tão pessoal quanto nós o somos, e até mais. - Que ELE É AMOROSO. Ele não é um pai que nos deixa aterrorizados com sua crueldade, nem um pai leviano, irresponsável; mas ele preenche o ideal da paternidade em seu cuidado amoroso por seus filhos. - Que ELE É PODEROSO. Ele não é apenas bom, mas também é grande. As palavras "nos céus" indicam não tanto o lugar de sua habitação como a autoridade e o poder que tem na qualidade de Criador e Governador de todas as coisas. Os israelitas foram ensinados a orar: "Olha desde a tua habitação, desde o céu..." (Dt 26.15). Na dedicação do templo, Salomão orou: "Ouve tu então nos céus..." (1Rs 8.39). Jesus na véspera do seu grande sacrifício na cruz, "levantando seus olhos ao céu", orou (Jo 17.1). Assim, ele combina AMOR PATERNAL com PODER CELESTIAL; e o que o seu amor ordena, o seu poder é capaz de realizar. Quando Jesus nos diz para chamarmos a Deus de "Pai nosso que estás nos céus", sua preocupação não é com o protocolo (ensinando a etiqueta correta para nos aproximarmos da divindade), mas com a verdade (para que nos aproximemos dele no devido estado de espírito). Sempre é bom, antes de orar, investir deliberadamente algum tempo lembrando-nos de quem ele é. Só então poderemos aproximar-nos de nosso amoroso Pai no céu com a devida humildade, devoção e confiança. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 98 | P á g i n a Quando nos tivermos dado ao trabalho de investir algum tempo orientando-nos na direção de Deus, lembrando-nos do que ele é: nosso Pai pessoal, amoroso e poderoso; então o conteúdo de nossas orações será radicalmente afetado de duas formas: – Primeiro, os interesses de Deus terão prioridade: "teu nome..., teu reino..., tua vontade". – Segundo, nossas próprias necessidades, embora colocadas em segundo plano, serão totalmente entregues a ele: "Dá-nos..., perdoa- nos..., não nos deixes cair..., livra-nos...". Percebe-se que a oração do Pai Nosso, nessas duas partes, coloca em primeiro lugar a glória de Deus e, depois, as necessidades do homem. Pode ser feito então um paralelo com os dez mandamentos, pois eles também estão divididos em duas partes e expressam a mesma prioridade: a primeira tábua esboça nossos deveres para com Deus, e a segunda, nossos deveres para com nosso próximo. "Santificado seja o teu nome" Quando a alma se eleva à presença de Deus, com atitude de adoração, ela reconhece a santidade absoluta de tudo o que Deus é e faz, e isso é o alicerce da oração e de nossas relações com Deus. É distingui-lo de todos os falsos deuses e ídolos feitos por mãos humanas, pois ele é o Criador e Soberano Governante do universo. O nome de Deus não é uma simples combinação das letras D, E, U e S. O nome representa a pessoa que o usa, o seu caráter e a sua atividade. O pensamento hebraico não distinguia claramente entre o nome e a pessoa. Portanto, o "nome" de Deus é o próprio Deus, como ele é em si mesmo e se tem revelado. Toda ofensa ao nome de Deus é uma ofensa ao próprio Deus, que proibia tomar o seu nome em vão. Seu nome já é "santo", porque é separado e exaltado acima de qualquer outro nome. Mas nós oramos para que ele seja "santificado", "tratado SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 99 | P á g i n a como santo", porque desejamos ardentemente que a devida honra lhe seja dada, isto é, àquele cujo nome o representa, em nossas próprias vidas, na igreja e no mundo. E, isso tem relação direta com a nossa própria santificação. O povo de Israel foi severamente advertido quando não deu a devida honra ao nome de Deus, prestando culto aos deuses pagãos como se eles pudessem ser comparados ao Deus vivo e verdadeiro. venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; Reconhecimento e submissão ao domínio divino sobre tudo e todos. " Venha o teu reino;" No sentido da petição, a oração deve colocar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua vinda do céu. Devemos orar e contribuir para que o seu Reino se estabeleça nos corações. O reino de Deus é o seu governo real, sobre tudo e sobre todos. É importante distinguir dois aspectos bíblicos sobre o Reino de Deus: • Primeiro, como ele já é santo, também já é Rei, reinando em soberania absoluta e exercendo o domínio universal, sobre a sua criação, isto é, sobre a natureza e a História. Este seu governo transcende todas as limitações de tempo e espaço às quais as criaturas humanas estão submetidas. • Segundo, quando Jesus veio, anunciou um aspecto novo e especial do governo real de Deus, envolvendo o seu relacionamento com os remidos por Cristo, os seus filhos adotivos, com todas as bênçãos da salvação e as exigências de submissão que o governo divino implica. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 100 | P á g i n a Portanto, temos em vista aqui o caráter presente e futuro (ou escatológico) do Reino de Deus. Orar para que o seu reino "venha" é orar para que ele cresça à medida que as pessoas se submetam a Jesus através do testemunho da Igreja, e que logo ele seja consumado com a volta de Jesus em glória para assumir o seu poder e o seu reino. Sobre o Reino de Deus, assim diz a Bíblia, referindo-se aos seus dois aspectos – o “já” e o “ainda não”: Descrição Referência Bíblica 1. Alguns o esperavam. Mc 15.43; Lc 23.51 2. Está próximo. Mt 3.2; 4.17; 10.7; Mc 1.15; Lc 10.9; 21.31 3. Parecia que haveria de manifestar-se imediatamente. Lc 19.11 4. Alguns não morreriam sem vê-lo chegar. Mc 9.1; Lc 9.27 5. É chegado. Mt 12.28; Lc 11.20 6. É na eternidade. Mt 8.11; Mc 14.25; Lc 22.18 Não virá com visível aparência. Lc 17.20 Está dentro de vós. Lc 17.21 Não é comida, nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo . Rm 14.17 Não consiste em palavra, mas em poder. 1Co 4.20 É tempo de guerra, os filhos do Pai estão aqui no território do inimigo. O que podemos esperar, a não ser que clamem, sem cessar: "Venha o teu reino". As orações do seu povo expressam o ardente desejo e anseio da vinda do seu reino. Veja Apocalipse 5.8; 8.3-4, que fala das orações dos santos, ajuntadas e guardadas nos céus até encher SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 101 | P á g i n a a medida, quando terão resposta e "os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor" (Ap 11.15). "Faça-se a tua vontade" A verdadeira oração aceita de antemão a vontade de Deus, conhecida ou não, revelada ou não. A descoberta da perfeita vontade de Deus não acontecerá mediante incursões da razão humana, afirmações da teologia elaborada pelo homem ou opiniões pessoais acerca de “como acho que Deus deve ou não fazer as coisas". A Bíblia, como revelação escrita e Palavra inspirada nos permite conhecer essa vontade de Deus, bem como através da oração e comunhão com o Pai. A vontade de Deus é "boa, agradável e perfeita" (Rm 12.2), pois é a vontade de "nosso Pai que está nos céus", que é infinito em conhecimento, em amor e em poder. Portanto, resistir-lhe é loucura; e discerni-la, desejá-la e fazê-la é sabedoria. Assim como o seu nome é santo e162 SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 7 | P á g i n a 15.2 O LIVRO DE B. WILKINSON ............................................................... 165 16. A ORAÇÃO DE JÓ ............................................................................. 183 17. O VOTO (PACTO) DE JACÓ ............................................................. 193 17.1 AS CIRCUNSTÂNCIAS DO PACTO ........................................................ 194 17.2 ALGUNS ASPECTOS DO PACTO ......................................................... 195 17.3 O PACTO DO CRISTÃO ...................................................................... 198 18. ORAÇÕES NA BÍBLIA ....................................................................... 201 CONCLUSÃO ........................................................................................... 203 ORAR É DIALOGAR DOCEMENTE COM DEUS ................................................... 208 BIBLIOGRAFIA ........................................................................................ 211 SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 9 | P á g i n a AGRADECIMENTOS Agradecimentos Ao nosso Deus Pai, Criador e Doador da vida, ao Deus Filho, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e ao Deus Espírito Santo que nos fez igreja e nos ilumina e capacita para toda boa obra. À minha amada esposa Elizabeth (Beth), por mais de 47 anos de convivência, formando uma família bendita do Senhor, compartilhando sonhos, planejando os rumos da família, criando nossos filhos, enfrentando desafios e trilhando juntos a fé cristã. Fomos mais do que agraciados pelo nosso bom Deus com os filhos amados que nos deu, Adolfo e Raquel, sendo a bênção ampliada com a chegada da amada nora, Silvana. Aos meus amados e saudosos pais, por me terem ensinado e encaminhado na vida e na fé evangélica; aos meus queridos irmãos e familiares pelo privilégio do convívio. À igreja onde cresci e me desenvolvi, bem como aos amigos e irmãos em Cristo que compartilharam comigo os meus primeiros passos na fé cristã até a juventude. A todos os meus professores e líderes e aos amigos que fiz na caminhada estudantil e profissional. Ao Seminário que me proporcionou a oportunidade de instrução teológica. À igreja que acolhe minha família, há mais de 31 anos, proporcionando-me o privilégio de atuar em várias áreas e ministérios. Soli Deo gloria! Que é Orar? A oração é o desejo sincero da alma, Que fica mudo ou é expresso E o movimento de uma chama oculta Que tremula no peito: A oração é o enunciado de um suspiro, O cair de uma lágrima, O volver os olhos úmidos para cima, Quando ninguém, senão Deus, está perto. A oração é a linguagem mais simples Que lábios infantis podem experimentar; A oração é o clamor mais sublime Que atinge a Majestade nas alturas: A oração é o hábito vital do crente, E a sua atmosfera nativa, E o seu lema às portas da morte, Pois ele entra no céu pela oração. ....................... Nenhuma oração é feita só no mundo: Pois o Espírito Santo intercede; E Jesus, no trono eterno, Intercede pelos pecadores. Ó, Tu, por meio de quem chegamos a Deus! Vida, Verdade e Caminho, Tu mesmo palmilhaste o caminho da oração, Senhor, ensina-nos como orar! (Montgomery) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 11 | P á g i n a INTRODUÇÃO Não é pouco o tempo e espaço que os púlpitos das igrejas, as classes de Escola Bíblica Dominical, as reuniões em Pequenos Grupos ou Células nos lares, os livros, as mídias mais modernas, dentre outros, dedicam a expor e incentivar uma disciplina devocional pessoal contemplando a leitura da Bíblia e a oração. É claro, ao lado de outras práticas verdadeiramente importantes como a Adoração e Louvor a Deus, a Evangelização, a Comunhão e o Serviço Cristão. Os especialistas na área da saúde humana não se cansam de alertar sobre a importância de se manter uma alta imunidade para prevenir doenças e manter boa disposição física. Da mesma forma, é preciso manter uma “alta imunidade espiritual” através da prática das disciplinas espirituais, além de se revestir de “toda a armadura de Deus” (Ef 6.10-18), pois os ataques dos três principais inimigos do crente e de Deus “o mundo, a carne e o diabo” (1Jo 2.15; Gl 5.17; 1Pe 5.8) são cada vez mais frequentes, intensos, agressivos e, por vezes, sutis. Oração, no sentido religioso, é a comunicação direta e pessoal com Deus. A palavra oração deriva do latim oratio, que significa "discurso" ou "fala". Esse termo, por sua vez, vem do verbo orare, que significa "falar", "suplicar" ou "pedir". Já a palavra reza também vem do latim, do verbo recitare, que significa "recitar" ou "ler em voz alta". No contexto religioso, reza se refere a orações estruturadas, muitas vezes memorizadas ou lidas. A diferença entre ambas pode ser vista em termos de espontaneidade e formalidade. Geralmente a oração é espontânea, personalizada, informal, enfim, uma “conversa” com SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 12 | P á g i n a Deus. Já a reza geralmente é memorizada, uma fórmula tradicional, formal, seguindo um padrão fixo, enfim, uma “recitação” para Deus (ex.: rezar o Pai Nosso, a Ave maria, o Rosário etc.). Ao percorrer as páginas dos Evangelhos encontramos muitas referências de Jesus à oração; ora aparecendo sob forma de instrução, ora sob a forma de execução prática, isto é, Jesus mesmo praticando a oração. De ambas as maneiras podemos tirar proveito e ao mesmo tempo comprovar que, ele não só ensinou, como também se manteve coerente com os seus ensinos, quando praticava a oração. No desenvolvimento deste estudo procuraremos ressaltar este aspecto, mencionando a ocorrência da instrução ou do exemplo. Certamente, algumas referências podem ter passado despercebidas, mas as mencionadas são suficientes para nos proporcionar uma visão abrangente do ensino de Jesus sobre a oração. Também não podemos deixar de mencionar neste estudo outros textos e ensinamentos bíblicos que nos ajudam a entender melhor este relevante tema da oração, afinal é na Bíblia que encontraremos os mais valiosos exemplos de oração. São excelentes experiências reais vividas por pessoas que caminharam com Deus na intimidade da fé, muitas vezes enfrentando situações críticas ou de crise. Este estudo é baseado na versão da Bíblia ALMEIDA REVISTA e ATUALIZADA (ARA) da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). ❖ "A oração é a respiração da alma. Sem ela, o espírito enfraquece, a fé definha e a comunhão com Deus se torna distante." SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 13 | P á g i n a Sinais Vitais da Fé Ler a Bíblia é como o pulsar do coração, Cada batida traz vida e direção. É o fluxo constante da divina verdade, Que alimenta a alma com eternidade. Orar é o sopro, a respiração, Um fôlego de vida em suave conexão. O diálogo da alma com o Criador, Inspirando esperança, exalando amor. Sem o pulso, o corpo enfraquece, Sem a Palavra, a fé desvanece. Sem o sopro, não há comunhão, Sem a oração, esfria o coração. Assim como os sinais vitais no viver, A Bíblia e a oração nos fazem crescer. Uma traz luz, a outra nos liga, Duas dádivas que o céu instiga. ❖ "Muita oração, muito poder, Pouca oração, pouco poder, Nenhuma oração, nenhum poder." SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 15 | P á g i n a 1. JESUS E OS SEUS ENSINOS Entre os vários títulos que Jesus recebeu, podemos encontrar o de "Mestre". Pela Bíblia sabemos que: 1°) Já aos doze anos de idade ele podia ser encontrado entre osele é Rei, também a sua vontade está sendo feita "no céu". O que Jesus nos incita a orar é que a vida na terra se aproxime o mais possível da vida no céu, pois a expressão "na terra como no céu" parece aplicar-se igualmente à santidade do nome de Deus, à propagação do seu reino e à consumação da sua vontade. Ninguém ouse querer forçar a mão de Deus para violar seus propósitos eternos! É comparativamente fácil repetir as palavras da oração do Pai Nosso como se fôssemos papagaios. Contudo fazer esta oração com sinceridade tem implicações revolucionárias, pois expressam as prioridades do cristão. Estamos constantemente sob pressão para nos conformarmos ao egocentrismo da cultura secular. Quando isto acontece, ficamos preocupados com o NOSSO PRÓPRIO PEQUENO NOME: gostamos de vê-lo gravado em relevo sobre os nossos papéis de carta, ou aparecendo nos cabeçalhos dos jornais, ou de defendê-lo quando é atacado. Também nos preocupa o NOSSO PRÓPRIO PEQUENO IMPÉRIO (liderando, chefiando, influenciando e manipulando pessoas para fomentarem o nosso ego), e a NOSSA SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 102 | P á g i n a PRÓPRIA VONTADE tola (sempre desejando as coisas a seu modo e se aborrecendo quando frustrada). Todavia, nossa prioridade máxima não está no nosso nome, no nosso reino ou na nossa vontade, mas em Deus. Fazer tais petições com integridade é um teste para sondar a realidade e a profundidade de nossa profissão de fé cristã. Nos céus, a vontade de Deus é realizada de forma perfeita e constante. Entretanto, na terra, o homem pecador a rejeitou. É por isso que precisamos orar para que Deus cumpra sua vontade aqui, operando por meio de nós. Jesus nos deixou o exemplo perfeito a ser seguido, tanto no buscar quanto no cumprir a vontade divina em todas as coisas. “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou.” (Jo 6.38). A oração deve sempre considerar a vontade divina e o seu reino como objetivos que certamente se realizarão na terra. Enfim, quando Jesus incluiu na oração modelo essas expressões – venha..., faça-se..., – queria nos ensinar a convidar ou até mesmo a rogar ao Pai, que é o governante do céu e da terra, cuja autoridade é completamente suprema no universo, que venha e estabeleça o seu governo nos corações dos homens sobre toda a terra, a fim de que a vontade de Deus seja feita na terra da mesma forma como é feita no céu. Infelizmente, essas expressões têm sido mecânica e levianamente repetidas por milhares de vezes, sem nenhuma intenção séria de que isto aconteça. De que forma o governo de Deus se estabelece nos corações? Pelo ouvir e crer no Evangelho. Em outras palavras, por meio de Evangelismo e Missões. "Rogai, pois, ao Senhor da Seara que mande trabalhadores para a sua seara". (Mt 9.38, Lc 10.2) A tarefa de levar o governo de Deus aos corações esbarra numa séria dificuldade, cuja solução depende de Deus: Há muito trabalho para poucos trabalhadores! SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 103 | P á g i n a Portanto, Jesus nos ensina a interceder diretamente pela expansão do Reino de Deus sobre a terra (através de Evangelismo e Missões) e pelos recursos necessários à realização desse objetivo. Além de rogar a Deus, precisamos agir. Sobre quem está a responsabilidade de expandir o Reino de Deus? Sobre os anjos? Não, mas individualmente sobre cada crente e coletivamente sobre a Igreja Local – “A eles foi revelado que, não para si mesmos, mas para vós outros, ministravam as coisas que, agora, vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho, coisas essas que anjos anelam perscrutar.” (1Pe 1.12). Então, indiretamente, ele deseja que intercedamos pelos obreiros e pela igreja local, para que cada qual cumpra a sua parte nessa honrada e desafiadora missão. É interessante observar a atuação soberana da igreja primitiva, funcionando como um verdadeiro quartel general de todas as operações de Evangelismo e Missões. Ela intercede intensamente, o Espírito Santo envia obreiros, os obreiros realizam grandes campanhas evangelísticas, muitas almas são salvas, novas igrejas locais são organizadas, os obreiros retornam, apresentam seus relatórios e, em seguida, um novo ciclo se inicia (Atos 13ss). Evangelização é a pregação do Evangelho para os não convertidos, de maneira clara e perfeitamente compreensível para eles, de tal maneira que possam entendê-la e aceitá-la. Em certa ocasião, ouvi de um líder da Missão Volantes por Cristo, a seguinte ilustração e advertências: “Conta-se que havia uma convenção de pescadores numa determinada cidade pesqueira. Centenas deles discutindo, a portas fechadas, os métodos e instrumentos de pesca. Enquanto isso, um leigo batia na porta, sem ser atendido, querendo avisar-lhes que ali perto havia um grande cardume. Enquanto estamos esperando o domingo para ganhar o mundo, o mundo, dia a SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 104 | P á g i n a dia, tenta ganhar as pessoas. Quando evangelizamos os crentes, na igreja, estamos atrofiando-a, porque estamos evangelizando os salvos e não os alimentando”. É claro que costuma haver não crentes nos cultos das igrejas e o evangelho precisa ser pregado para eles. Entretanto, não podemos perder de vista que “o campo é o mundo”. É inegável o valor das instituições evangélicas e que a maioria delas foram concebidas por um ardente desejo de servir melhor ao Senhor. Na verdade, muitas têm conseguido ótimos resultados. Precisamos encarar e conviver com a realidade que está diante de nós. Precisamos conhecer seus objetivos e, se válidos, acompanhar seus trabalhos e interceder por eles. Quem sabe se esta foi a forma de contornar as barreiras denominacionais que separam os irmãos? Finalizando, diria que precisamos vigiar os seguintes aspectos: 1°) As igrejas locais são as principais agências de Cristo sobre a terra e precisam contar, da parte dos seus membros, com o máximo empenho e dedicação. 2°) Como igreja local temos que ter em mente a visão do Reino de Deus e suas necessidades para não nos fecharmos egoisticamente em torno de nossos próprios "caprichos". 3°) O fato de sermos membros de uma igreja local nos torna responsáveis diretos pelo bom êxito da sua missão, o que não nos impede de ser usados particularmente, no reino de Deus. 4°) Não devemos agir como meros "torcedores" de determinadas instituições paraeclesiásticas, cultivando um orgulho excessivo por elas e permitindo que ocupem em nossas vidas um lugar de maior prioridade do que a igreja local. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 105 | P á g i n a 5°) No que depender de nós, envidar todos os esforços, em oração e ação, para que tanto a igreja local quanto as instituições trabalhem juntas na expansão e fortalecimento do Reino de Deus sobre a terra. Portanto, a intercessão é fundamental para o crescimento do Reino de Deus. o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; Reconhecimento que Deus é quem supre todas as nossas necessidades (Sustento Espiritual) Na segunda metade da oração do Pai Nosso, o pronome possessivo passa de "teu" para "nosso", quando passamos das coisas divinas para as nossas próprias. Tendo expressado nossa ardente preocupação com a sua glória, expressamos agora nossa humilde dependência da sua graça. Quando compreendemos verdadeiramente que o Deus a quem oramos é o Pai celeste e o grande Rei, colocamos nossas necessidades pessoais em lugar secundário, sem, contudo, eliminá-las. Deixar de mencioná-las na oração (alegando que não queremos aborrecer a Deus com tais trivialidades) é um grande erro, como também o seria deixar que elas dominassem nossas orações. Alguns comentaristas do passado não conseguiram crer que Jesus pretendesse que nosso primeiro pedido fosse literalmenteo pão, pão para o corpo. Parecia-lhes impróprio, especialmente depois dos três nobres pedidos iniciais pela glória de Deus, que pudéssemos descer tão abruptamente a uma preocupação tão mundana e material. Por isso alegorizavam a petição. Diziam que o pão a que ele se referia devia ser espiritual. É verdade que em outras oportunidades Jesus falou sobre o pão espiritual, sendo ele mesmo o pão da vida (Jo 6.22- 40), mas aqui parece que ele fala de pão no sentido literal, como símbolo de todas as coisas necessárias para a preservação desta vida, como o alimento, a saúde do corpo, o bom tempo, a casa, o lar, o SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 106 | P á g i n a cônjuge, os filhos, um bom governo e a paz e, provavelmente, deveríamos acrescentar que com o "pão" Jesus quis se referir às necessidades e não aos luxos da vida. O pedido para que Deus nos "dê" o nosso alimento não impede, é claro, que as pessoas ganhem a sua própria vida, que os agricultores tenham de arar, semear e colher a fim de fornecer os cereais básicos, nem nos isenta da ordem de nós mesmos alimentarmos os famintos (Mt 25.35). Pelo contrário, é uma expressão de dependência máxima de Deus, que normalmente usa meios humanos de produção e de distribuição, através dos quais ele realiza os seus propósitos. Portanto, aqui somos lembrados de que devemos buscar a Deus pelas nossas necessidades diárias. É de nossa responsabilidade a preparação para a vida, para prover o próprio sustento, moradia e tudo o mais. Isso através do estudo, da capacitação e do trabalho. Não faz sentido ficar de braços cruzados rogando a Deus e esperando que tudo vai cair do céu, como o maná, no deserto. Trabalhar pelo sustento é regra da vida, conforme o apóstolo Paulo enfatiza: “se alguém não quer trabalhar, também não coma.” (2Ts 3.10). Por outro lado, é preciso tomar cuidado para não achar que tudo depende apenas da nossa inteligência e da força do nosso braço. Enfim, quer as coisas andem bem, ou estejam complicadas, somos ensinados a recorrer e depender do Senhor, com toda a confiança! “E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades.” (Fp 4.19) e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; Reconhecimento da necessidade de perdoar para sermos perdoados (Pureza Espiritual). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 107 | P á g i n a O pecado original foi expiado por Cristo na cruz. Entretanto, é em oração que confessamos os pecados cometidos após a salvação e nos libertamos do fardo e da culpa deles (1Jo 1.8-10). A oração pode ser impedida quando a comunhão dos filhos com o seu Pai estiver interrompida por causa do pecado. Este versículo 12 é complementado pelo 15: “se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas.” (Mt 6.15). Somos muito gratos a Deus pelo seu tão grande perdão, em Cristo: “no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça,” (Ef 1.7). Também, ficamos aliviados com a continuada oferta divina de perdão: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1Jo 1.9). Entretanto, temos certa dificuldade para reconhecer os nossos erros e para perdoar os outros. Devemos perdoar e deixar para trás as falhas alheias, pois, se não o fizermos, não receberemos o perdão de Deus quando o buscarmos no futuro. O perdão genuíno é uma condição indispensável para vivermos em comunhão com Deus e experimentarmos sua graça. O perdão é tão indispensável à vida e à saúde da alma como o alimento para o corpo. O pecado é comparado a uma "dívida", porque exige uma penalidade. Mas quando Deus perdoa o pecado, ele cancela a penalidade e anula a acusação que há contra nós. A adição das palavras "como nós temos perdoado aos nossos devedores" está mais enfatizada nos versículos 14 e 15, que se seguem à oração e declaram que o nosso Pai nos perdoará se perdoarmos aos outros, mas não nos perdoará se nos recusarmos a perdoar aos outros. Isto certamente não significa que o perdão que concedemos aos outros garante-nos o direito de sermos perdoados. Antes, Deus perdoa somente o arrependido, e uma das principais evidências do verdadeiro arrependimento é um espírito perdoador. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 108 | P á g i n a Quando nossos olhos são abertos para vermos a enormidade de nossa ofensa cometida contra Deus, as injúrias dos outros contra nós parecem, comparativamente, muito insignificantes. Se, por outro lado, temos uma visão exagerada das ofensas dos outros, é uma prova de que diminuímos muito a nossa própria. A disparidade entre o tamanho das dívidas é o ponto principal da parábola do credor incompassivo (Mt 18.23-35). Sua conclusão é: "Perdoei-te aquela dívida toda...; não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?"(v.33). e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal Reconhecimento da fragilidade humana e dependência da proteção divina. Para que não entreis em tentação (Mt 6.13; Lc 11.4; Mt 26.41; Lc 22.46). Como? Aquele que está sempre em contato com o Senhor se torna mais sensível à percepção do pecado e suas manifestações, estando mais preparado para combatê-lo. Vejamos as variantes dessa expressão e o seu significado: Tradução Mt 6.13 Lc 11.4 Mt 26.41 Lc 22.46 ARA não nos deixes cair em tentação não nos deixes cair em tentação para que não entreis em tentação para que não entreis em tentação ARC não nos induzas à tentação não nos conduzas em tentação para que não entreis em tentação para que não entreis em tentação NVI não nos deixes cair em tentação não nos deixes cair em tentação para que não caiam em tentação para que vocês não caiam em tentação A Bíblia Viva não nos ponha em tentação não permita que sejamos tentados de outro modo a tentação vencerá vocês para não caírem quando forem tentados SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 109 | P á g i n a Os dois últimos pedidos deveriam talvez ser entendidos como os aspectos negativo e positivo de um único pedido. A versão ARA11 traduz os textos de Mateus 6.13 e Lucas 11.14 como "cair em tentação", isto é, entrar em tentação. Já a versão ARC12 traduz os mesmos textos como "induzas a tentação" e "conduzas em tentação", respectivamente. O termo “tentação” é ambíguo, no grego πειρασμός (peiramós), tal como nos idiomas modernos, podendo significar “tentação (sedução) ao pecado” ou apenas algum tipo de “teste” ou “provação” (Lc 8.13; 1Pe 4.12; 2Pe 2.9; Ap 3.10)(circunstâncias difíceis que fazem a pessoa ser vítima fácil do pecado). O termo grego mais empregado para provação é dokimion (dokimion) (Tg 1.3; 1.12). “Cair em tentação” é o mesmo que “entrar em tentação”. Qual o sentido de “induzir à tentação” ou “conduzir em tentação”? O sentido geral do pedido é claro, mas dois problemas se levantam: – Primeiro, a Bíblia diz que Deus não nos tenta (na realidade, não nos pode tentar) com o mal (Tg 1.13). Portanto, que sentido tem orar para que ele não faça o que já prometeu nunca fazer? Alguns respondem a esta pergunta interpretando "tentação" como "provação", com a explicação de que, embora Deus jamais nos induza ao pecado, ele prova nossa fé e caráter. Isto é possível. Jesus, então, estaria dizendo “não nos dirijas de tal modo que nos vejamos em situações nas quais sejamos tentados”. Assim sendo, a própria tentação não viria de Deus, mas são as circunstâncias que nos conduziriam à tentação que poderiam vir da parte dele. Seriam, assim, uma espécie de prova. Outra explicação parece que é entender "não nos deixes cair" à luz de suacorrelativa "mas livra-nos", e o "mal" deveria ser traduzido por "o maligno" (como em 13.19). Em outras 11 ARA – Almeida Revista e Atualizada 12 ARC – Almeida Revista e Corrigida SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 110 | P á g i n a palavras, é o Diabo que está sendo considerado, que tenta o povo de Deus a pecar, e do qual precisamos ser "livrados". Quando não estamos vigiando e orando podemos cair ou entrar em tentação (Mt 26.41). Vigiamos contra a tentação ao identificar as situações, companhias e influências que nos expõem a ela, evitando-as sempre que possível. Martinho Lutero (1483-1546), o reformador alemão, teria dito algo como: "Você não pode impedir que os pássaros voem sobre a sua cabeça, mas pode impedir que façam ninho em seus cabelos." O sentido da frase é que não podemos evitar certos pensamentos ou tentações, mas podemos decidir se permitimos que eles permaneçam e influenciem nossas ações. – O segundo problema refere-se ao fato de que a Bíblia diz serem a tentação e a provação duas coisas boas para nós: "Meus irmãos, tende por motivo de toda a alegria o passardes por várias provações" ou "tentações" (Tg 1.2). Se elas são benéficas, por que deveríamos orar para que não ficássemos expostos a elas? A resposta provável é que a oração é mais no sentido de podermos vencer a tentação do que de a evitarmos. Talvez pudéssemos parafrasear todo o pedido assim: "Não permitas que sejamos induzidos à tentação que nos possa derrotar, mas livra-nos do maligno". Assim, por trás dessas palavras que Jesus nos deu para orar, encontramos a implicação de que o Diabo é forte demais para nós, que somos fracos demais para enfrentá-lo, mas que o nosso Pai celeste nos livrará se o invocarmos: “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar.” (1Co 10.13) Quero um coração sensível, que perceba ao longe o perigo, que busque em Deus refúgio e abrigo, firme, atento e invencível. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 111 | P á g i n a Que ao soar da tentação, não se renda, não vacile, mas em oração vigie, com fé e determinação. Que o temor guie meus passos, como luz na escuridão, forte e pronto para a luta, sempre aos pés do Sumo Irmão. Enfim, é como alguém disse: Quando você não estiver ciente da tentação, ore: "não nos deixes cair em tentação"; e, quando você estiver ciente dela ore: "livra-nos do mal", e você será liberto. pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém!” Reconhecimento e exaltação da grandeza e majestade eternas divinas. Esse final da oração modelo, mais conhecido como a doxologia do Pai Nosso é um encerramento profundo e significativo que exalta a soberania, a autoridade e a majestade de Deus. Embora essa parte não esteja presente em algumas versões mais antigas do texto em Mateus 6.13, é amplamente utilizada em tradições cristãs e reflete a essência do louvor a Deus. Aqui estão algumas considerações: "pois teu é o reino" Essa expressão da soberania divina reconhece que o reino pertence exclusivamente a Deus. Ele é o Rei soberano sobre toda a criação, o governante eterno que dirige a história e cuida de seu povo. "Nos céus, estabeleceu o SENHOR o seu trono, e o seu reino domina sobre tudo." (Sl 103.19). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 112 | P á g i n a Jesus ensinou que o Reino de Deus é central em sua mensagem (Mt 4.17). Aqui, há uma reafirmação de que Deus é o dono e governante desse reino, e tudo o que foi pedido na oração (santificação do nome, vinda do reino e cumprimento da vontade de Deus) está subordinado à sua soberania. "o poder" No Novo Testamento, "poder" pode ser a tradução de diferentes formas gregas13, dependendo do contexto. Neste caso é: dύναμις (dýnamis) – Poder no sentido de força, capacidade, ou poder miraculoso. É frequentemente usado para descrever o poder de Deus e os milagres. (Exemplos: Mt 6.13; Lc 1.35; 5.17; 6.19; At 8.10; Rm 1.16, 20; 1Co 1.18; 15.56; 2Co 12.9; Ap 7.12; 12.10; 19.1). Exemplo: “dizendo: Amém! O louvor, e a glória, e a sabedoria, e as ações de graças, e a honra, e o poder, e a força sejam ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amém!” (Ap 7.12) Essa declaração exalta Deus como a fonte de todo poder, tanto no céu como na terra. Ele é aquele que tem autoridade e força para realizar tudo o que é necessário para o cumprimento de sua vontade. A menção ao poder é um lembrete de que Deus é plenamente capaz de atender às petições feitas anteriormente na oração. Ele tem poder para prover, perdoar e livrar do mal. 13 Outros termos gregos, são: eξουσία (exousía) – Poder no sentido de autoridade, direito ou jurisdição. (Ex.: Mt 28.18 – "Toda autoridade me foi dada no céu e na terra.") kράτος (krátos) – Poder no sentido de domínio, soberania, ou força governamental. (Ex.: Ef 6.10 – "Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder.") iσχύς (ischýs) – Poder no sentido de força física ou resistência. (Ex.: Mc 12.30 – "Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração... e com toda a tua força.") SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 113 | P á g i n a "e a glória" Ainda que Jesus, o Deus que se fez carne, tenha se esvaziado da sua glória e assumido a forma de servo (Fp 2.7), os seus discípulos puderam testemunhar: “... e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Jo 1.14) Deus é o centro da adoração e, ao declarar que a glória pertence a ele, reconhecemos que tudo o que for pedido e recebido, em oração, deve resultar em louvor e exaltação ao seu nome: "A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno." (2Pe 3.18b) Essa frase retira o foco do ser humano e coloca Deus como o centro de tudo. É um reconhecimento de que tudo existe para glorificar o Criador. Ninguém se atreva a usurpar essa glória de Deus, investindo ou incentivando admiradores da sua pessoa, pois ele mesmo diz: “Eu sou o SENHOR, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de escultura.” (Is 42.8). Que Deus nos ajude a redirecionar para Deus todo o elogio eventualmente recebido pois, se o Espírito Santo habita em nós, e nos concede dons, o mérito é de Deus e não nosso. "para sempre" Essa expressão enfatiza a natureza eterna de Deus. Seu reino, poder e glória não têm fim. Ele não é apenas um Deus presente em momentos específicos, mas é o Deus eterno, imutável e soberano em todos os tempos: "O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de equidade é o cetro do teu reino." (Sl 45.6) "Amém!" O “Amém” é uma palavra hebraica que significa "assim seja" ou "é verdade". É um selo final de concordância e fé na oração feita, uma demonstração de confiança plena de que Deus ouviu e atenderá conforme a sua vontade. "Porque quantas são as promessas de Deus, SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 114 | P á g i n a tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus, por nosso intermédio." (2Co 1.20) O encerramento da oração modelo é uma celebração da soberania, poder e glória eternos de Deus. Ele nos chama a uma vida de louvor e confiança, lembrando-nos de que tudo começa e termina em Deus, para sua glória e segundo a sua vontade. Esse final é um convite a viver com os olhos fixos no Reino eterno e a depender inteiramente do Deus Todo-Poderoso. Em outros textos, Jesus ensina a orar ao Pai, em seu nome. Por que isso não acontece na oração modelo do Pai Nosso? Há quem sugira a seguinte resposta: A oração do Pai Nosso (Mt 6.9-13; Lc 11.2- 4) foi ensinada por Jesus antes de sua crucificação e ressurreição, ou seja, antes da nova aliança ser plenamente estabelecida. Nesse período, os discípulosainda não compreendiam completamente a mediação de Cristo, pois ele ainda não havia cumprido sua obra redentora. Antes da cruz, os judeus oravam diretamente a Deus, seguindo o sistema do Antigo Testamento. Após a ressurreição, Jesus se torna o caminho definitivo para o Pai (Jo 14.6), e a oração passa a ser mediada por ele. Portanto, a oração do Pai Nosso ensina os princípios fundamentais da oração, mas a revelação progressiva culmina com Jesus ensinando que, após sua ressurreição, os discípulos devem orar ao Pai em seu nome. Isso reflete a mudança na relação entre Deus e os crentes, agora baseados na obra redentora de Cristo. Concluindo e “emoldurando” a oração modelo do Pai Nosso, podemos dizer que, ao fazer esta oração ou tomá-la como referência, você: Reconhece sua filiação divina (ou a paternidade de Deus) – Pai – proporcionada pela Obra Redentora de Jesus Cristo na cruz do Calvário e por você recebida pela fé; que cada pessoa (cristão) que também recebeu a Jesus como seu Salvador e Senhor é seu irmão e membro da família de Deus, aquele que SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 115 | P á g i n a está nos céus (a divindade do Pai) e exerce sua soberania e domínio sobre tudo e sobre todos. Reconhece, se submete a esse domínio divino e deseja que o reino e a vontade de Deus (que é boa, agradável e perfeita – Rm 12.2) se estabeleça nos corações, com a regeneração e habitação do Espírito Santo e, para tal, se dispõe a ser instrumento de Deus, testemunhando e vivendo a fé cristã. Reconhece suas limitações e dependência de Deus, aquele que pode suprir cada uma das nossas necessidades (Fp 4.19), a começar pelo “pão nosso de cada dia”. Reconhece a necessidade de perdoar, se comprometendo a não guardar ressentimentos ou amarguras, a demonstrar misericórdia perdoadora, ciente de que a misericórdia perdoadora recebida de Deus deve ser repassada para os nossos devedores como condição básica para recebermos o perdão divino quando caímos. Reconhece a fragilidade da natureza humana propensa a cair em tentação suscitada pela carne, o mundo e o Diabo e, assim, interromper a comunhão com Deus; e, que depende do cuidado e proteção divinos contra o mal acidental ou intencional. Reconhece e exalta ao Deus Criador e Salvador por sua grandeza, majestade, poder, domínio e glória, eternas. 9.3 A oração de exaltação – Mateus 11.25-26 ( Exemplo) (ver tb Lc 10.21) “Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.” SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 116 | P á g i n a Jesus agradecia a misericórdia de Deus em revelar as verdades eternas aos simples e humildes. Ele não rejeitava o intelecto, mas condenava o orgulho intelectual, que endurece o coração e impede a verdadeira compreensão espiritual. Sem a disposição humilde de aprender e se render a Deus, o Evangelho não encontra acesso ao coração humano. 9.4 A oração da confirmação – João 11.41-42 ( Exemplo) “... E Jesus, levantando os olhos para o céu, disse: Pai, graças te dou porque me ouviste. Aliás, eu sabia que sempre me ouves, mas assim falei por causa da multidão presente, para que creiam que tu me enviaste.” Jesus ergueu os olhos para o céu e orou antes de realizar o grande milagre da ressurreição de Lázaro. Sua intenção era de mostrar, testificar e confirmar diante de todos que o poder vem do Pai. E que o fato de ser ouvido pelo Pai comprovava que ele era o enviado do Pai. 9.5 A oração Sacerdotal – João 17.1-26 ( Exemplo) “Tendo Jesus falado estas coisas, levantou os olhos ao céu e disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti, ...” (Jo 17.1) “Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra.” (Jo 17.6) “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra;” (Jo 17.20) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 117 | P á g i n a A oração é sacerdotal porque Cristo intercede por si, pelos seus discípulos e pelos futuros crentes, podendo ser dividida em três partes: Versículos 1 a 5 – Jesus ora por si mesmo. Versículos 6 a 19 – Jesus pede pelos discípulos. Versículos 20 a 26 – Jesus intercede pelos futuros crentes. Não se trata apenas da oração mais extensa feita por Jesus e registrada pelo discípulo amado, mas também aquela em que se pode penetrar profundamente no coração do Filho Amado de Deus. Percebe-se que se trata de uma oração, pelas três fases mais importantes, que estavam para acontecer: 1ª) A consumação da obra que ele veio realizar, a redenção; "é chegada a hora"; 2ª) Pelo período subsequente, quando, pela instrumentalidade dos discípulos escolhidos o período da Igreja seria inaugurada; e, 3ª) Pela solidificação e expansão da sua Igreja. 9.6 A oração da extrema agonia – Mateus 26.39-44 ( Exemplo) (ver tb Mc 14.36-41) “39 Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres. 40 E, voltando para os discípulos, achou-os dormindo; e disse a Pedro: Então, nem uma hora pudestes vós vigiar comigo? 41 Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca. 42 Tornando a retirar-se, orou de novo, dizendo: Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 118 | P á g i n a 43 E, voltando, achou-os outra vez dormindo; porque os seus olhos estavam pesados. 44 Deixando-os novamente, foi orar pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras.” O valor da narrativa da agonia no jardim está na evidência que ela dá, de que ele sabia totalmente, o que a agonia da cruz significaria, quando a sua alma seria transformada em oferta pelo pecado (Is 53.10) – o Pai esconderia dele o seu rosto. Sabendo totalmente o que isto lhe custaria, ele voluntariamente pagou o preço. 9.7 A Oração do Perdão – Lucas 23.34 ( Exemplo) “Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Então, repartindo as vestes dele, lançaram sortes.” Num momento de extremo sofrimento o coração misericordioso do Filho de Deus se volta ao Pai, no sentido de interceder pelos pecadores que, na sua ignorância, faziam cumprir o plano de salvação, preparado antes da fundação do mundo. 9.8 A oração do abandono na cruz – Mateus 27.46; Marcos 15.34 || ( Exemplo) “Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46) “À hora nona, clamou Jesus em alta voz: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? Que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15.34) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 119 | P á g i n a Numa de suas mais tristes orações, Jesus substitui o vocativo preferido, Pai, pelo aramaico "Eloí" que significa "Deus meu". Ainda que isto seja paradoxal, reconhecemos que Jesus se identificou com os nossos pecados (cf 2Co 5.21; Gl 3.13), de modo que Cristo sofreu, por nós, a inevitável separação entre Deus e o pecado. ❖ As orações do Mestre revelam sua plena comunhão, submissão e exaltação ao Pai; e, sua plena identificação com nossa humanidade, ecoando as dores que nos afligem, as angústias que nos inquietam e as necessidades que nos tornam dependentes da graça divina.SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 121 | P á g i n a 10. A ORAÇÃO MOVE A MÃO DE DEUS? Deus é um ser perfeito, supremo, soberano, que age quando, onde e como quer. Não depende de ninguém e a ninguém deve satisfação dos seus atos, mas é fiel às suas alianças com os homens. A questão que se coloca na pergunta tema é se este ser tão maravilhosamente poderoso e autossuficiente admite realizar algo a pedido do ser humano através da oração. A este fenômeno da ação pontual de Deus em resposta a oração é que chamamos de “mover a mão de Deus”. Não confundir com “mudar a vontade de Deus”. Há crentes, inclusive pastores, que acreditam e ensinam que a oração não move a mão de Deus, ela simplesmente prepara o homem para agir ou para aceitar o que já está determinado pela soberana vontade de Deus. Soren Kierkegaard, filósofo e teólogo dinamarquês (1813-1855), geralmente considerado como o pai do existencialismo teria dito: “A função da oração não é influenciar Deus, mas especialmente mudar a natureza daquele que ora.” Será que é isso mesmo? Existiria um determinismo divino onde a Soberania de Deus já traçou todos os caminhos do homem e da história e nada mais resta a este senão ocupar seus dias de vida em um faz de conta que ora e Deus muda as circunstâncias? O leitor apressado e espiritualmente raso poderia concluir que a experiência de Neemias retrata exatamente essa ideia do determinismo divino. Diria ainda: “– Não há intervenção sobrenatural! Neemias orou por quatro meses, período em que se preparou para agir e fazer acontecer aquilo que já estava determinado por Deus! A oração de Neemias não moveu a mão de Deus; simplesmente moveu o espírito e a mão do homem!” E, acrescentaria: SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 122 | P á g i n a “..Deus é quem efetua em nós tanto o querer quanto o realizar, segundo a sua boa vontade.” (Fp 2.13). Ainda que alguém pudesse provar que toda a oração é “inoculada” por Deus no coração do homem para que ele (Deus) possa cumprir os seus propósitos, outros poderiam argumentar dizendo que, em certo sentido, Deus requer, em princípio, a participação humana, através da oração, para agir. Não queremos tratar aqui do que leva o crente a orar: se é a vontade ou a necessidade humanas ou se é a influência divina. Essa é outra questão por demais complexa para nós, simples mortais. A ressurreição da filha de Jairo por Jesus (Mc 5.21-43), por exemplo, ocorreu como consequência de Jairo ter ido a Jesus e suplicado sua intervenção, motivado: a)pelo seu desespero e pelo seu conhecimento do poder de Jesus? b) por influência direta de Deus no seu coração, para que Jesus fosse glorificado através do milagre realizado? c) por ambos os motivos? De fato, não sabemos exatamente o que dizer. Entretanto, o que importa é que ele foi a Jesus (oração) e Jesus “se moveu” e atendeu à sua súplica. Cyril J. Barber afirma que “a oração não apenas auxilia a colocar nossas vidas em conformidade com a vontade de Deus, como também nos prepara para receber a resposta. Na medida em que nos conscientizamos do propósito de Deus, frequentemente passamos a ver a parte que nos cabe dentro de seu plano.” É fato que a oração persistente afeta e influencia aquele que ora. Aumenta a comunhão com Deus, fortalece a alma e os propósitos de Deus gerados em nós. Entretanto, seu efeito não para por aí, mas transpõe os limites do ser humano e chega à presença do Deus dos céus, mobilizando todo o mundo espiritual: “Orou Eliseu e disse: SENHOR, peço-te que lhe abras os olhos para que veja. O SENHOR abriu os olhos do moço, e ele viu que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu. E, como desceram contra ele, orou Eliseu ao SENHOR e disse: Fere, peço-te, esta gente de cegueira. Feriu-a de cegueira, conforme a palavra de Eliseu.” (2Rs 6.17-18). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 123 | P á g i n a Não podemos aceitar qualquer tentativa de desqualificação da oração que só pode ser estratégia maligna para desmobilizar o povo de Deus. Quem sabe é fruto de um existencialismo filosófico que anda de mãos dadas com o ateísmo. O inferno vai continuar tremendo porque o povo de Deus vai continuar dobrando o seu joelho em oração a Deus, crendo nas infinitas possibilidades desse recurso disponibilizado por Deus. “A força da oração é maior do que qualquer possível combinação de poderes controlados pelo homem, pois a oração é o maior meio que o homem tem de recorrer aos recursos infinitos de Deus.” (J. Edgar Hoover). Quem não vê a mão de Deus agindo em cada ponto da narrativa do livro de Neemias é desprovido de qualquer visão espiritual. Também não verá a intervenção de Deus nos acontecimentos narrados no livro de Ester, no qual o nome de Deus não é mencionado uma só vez. Tal pessoa será capaz de se deparar com a narrativa do milagre da multiplicação dos pães (Mt 14.13-21) e dizer que Jesus, com sua capacidade de influenciar pessoas, agiu na psiquê daquela multidão e, assim, criou um estado mental de saciedade. Dirá, então, que não houve ali qualquer milagre. Não é sem motivo que as Escrituras mencionam: “Todos comeram e se fartaram; e dos pedaços que sobejaram recolheram ainda doze cestos cheios. E os que comeram foram cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças.” (vv.20-21). Neemias não tinha dúvida da ação do Senhor a seu favor e da sua causa (Ne 2.8b, 18a). O que dizer de Ana, quando na amargura da esterilidade do seu ventre e no desprezo da sua rival orou ao Senhor por um filho. O texto bíblico apresenta o resultado da sua oração: “Elcana coabitou com Ana, sua mulher, e, lembrando-se dela o SENHOR, ela concebeu e, passado o devido tempo, teve um filho, a que chamou Samuel, pois dizia: Do SENHOR o pedi.” (1Sm 1.19b-20). Quem pode negar a ação poderosa da mão de Deus em resposta à oração de Ana? Não apenas nesse relato, mas ao longo de toda a Bíblia, na história da humanidade e na vida daqueles SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 124 | P á g i n a que creem, vemos como a oração verdadeiramente move a mão de Deus. Ela traz à existência a intervenção do sobrenatural no natural. A participação de Elcana na concepção de Ana em nada diminui a grandeza do milagre operado por Deus como resposta de oração. Antes, reafirma o propósito de Deus de trabalhar em parceria com o homem, unindo o natural ao sobrenatural. Foi assim que o jovem que cedeu os cinco pães e dois peixes também participou do milagre da multiplicação dos pães. Quem acha que a participação humana, pregando ou orando, é irrelevante deve ler sobre o Atalaia em Ezequiel 33.1-9. A Bíblia tem registros lindos desse mover da mão de Deus: No caso do rei Ezequias: “Volta e dize a Ezequias, príncipe do meu povo: Assim diz o SENHOR, o Deus de Davi, teu pai: Ouvi a tua oração e vi as tuas lágrimas; eis que eu te curarei; ao terceiro dia, subirás à Casa do SENHOR.” (2Rs 20.5). No caso de Daniel: “No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, porque és mui amado; considera, pois, a coisa e entende a visão.” (Dn 9.23). “Então, me disse: Não temas, Daniel, porque, desde o primeiro dia em que aplicaste o coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, foram ouvidas as tuas palavras; e, por causa das tuas palavras, é que eu vim.” (Dn 10.12) A oração é recurso de Deus para provimento do homem, com sua garantia de eficácia (Antigo Testamento – 2Cr 7.14; Novo Testamento – Mt 7.7-11). O poder e a eficácia da oração são realidades inegáveis: “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados.” (Tg 5.14-15). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 125 | P á gi n a A oração é recomendada: “Orai sem cessar.” (1Ts 5.17) A oração que produz resultados tem seus requisitos e condicionantes (Jo 15.7; 1Jo 3.21-22; 5.14-15). A oração é o instrumento mais poderoso que existe sobre a terra. Deve ser usado permanentemente e de acordo com a vontade de Deus, que é “boa, agradável e perfeita” (Rm 12.2). Orações feitas apenas para satisfazer a nossa própria vontade são perigosas. Exemplo: Rei Ezequias (2Rs 20). A oração eficaz é a oração feita segundo a vontade de Deus e que satisfaz à premissa da parceria de sucesso: “EU QUERO e DEUS QUER!!” A oração move sim a mão de Deus!!! ❖ “Devemos orar como se tudo dependesse de Deus e agir como se tudo dependesse de nós. Só orar não! Só agir não!” SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 127 | P á g i n a 11. UM TESTEMUNHO IMPACTANTE “Meu nome é Rosemary Moreira Machado da Costa, natural do Rio de Janeiro. Tive uma infância normal. Fui ensinada desde cedo sobre a existência de Deus, em minha casa e na escola, onde estudei dos 6 até aos 16 anos. Tínhamos aula de religião uma vez por semana e fui apresentada ao Deus da religião, o Deus distante e punidor de pecados. Hoje conheço um Deus totalmente diferente, que se revelou a mim e com quem mantenho um estreito relacionamento. Na adolescência comecei a ter uns questionamentos: – Será que só vim a este mundo para nascer, crescer e morrer? E, depois da morte, como seria? Durante esse período da minha vida passamos por um problema com a minha irmã, que nos levou a um envolvimento com a Umbanda. Embora estivéssemos frequentando o centro de Umbanda, continuava cumprindo os ritos da antiga religião, no colégio e na igreja. Nessa época conheci um rapaz, namoramos e mais tarde nos casamos. A família dele também era envolvida com Umbanda e Candomblé. O irmão dele, assim como a minha irmã, era médium e incorporava entidades. Os dois também começaram a namorar e depois vieram a se casar. Se tornou comum para as nossas famílias fazer parte do mesmo terreiro; inicialmente, Umbanda, depois, passando para o Candomblé. Meu cunhado se tornou “pai de santo” do terreiro, e meu marido era a segunda pessoa na hierarquia, sendo ele quem fazia as obrigações, as matanças dos animais e chamava as entidades. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 128 | P á g i n a Embora tivéssemos casado por amor, nossa vida conjugal era totalmente destruída por discussões e traições. Várias vezes estivemos para nos separar, o que não ocorreu, pois Deus tinha um plano maior para nós. Ao contrário do relacionamento, a nossa situação financeira era maravilhosa, não havia nenhuma dificuldade. Se, por acaso, surgisse alguma, era só fazer um trabalho que logo se resolvia. Todavia, não me faltando nada na parte material, nada preenchia o vazio que eu sentia e que nem sabia explicar. Passados alguns anos, comecei a ter hemorragias, infecções no útero e ovários. Como sempre, ia ao médico e, depois, ao terreiro, me consultar e fazer trabalhos. Os exames, que antes estavam ruins, depois dos trabalhos ficavam bons; eu não sentia mais nada. Só tem um detalhe importante, todo trabalho tem um prazo de duração (ou validade) e precisa ser refeito. O tempo foi passando. Nós, além de lojas tínhamos, uma confecção que produzia e vendia para os grandes magazines do Rio de Janeiro. Um dia, aconteceu algo surpreendente. Eu era responsável pela fábrica, era horário de almoço dos funcionários, estava sozinha na mesa de corte, quando ouvi uma voz falar comigo: – Você não veio a este mundo para fazer o que está fazendo, seu caminho não é esse! Tomei um susto, olhei para os lados e não vi ninguém. Hoje eu sei que Deus pode usar as mais variadas maneiras para nos alcançar, mas, naquela época, não tinha a mínima noção de que o Senhor Deus e Rei do Universo iria falar comigo. Achei que devia ser algum espírito falando. Tomei a decisão de não ir mais ao centro, pois eu não concordava com a matança de animais. Eu gostava do esoterismo, acreditava em reencarnação, nas religiões orientais, Nova Era, Astrologia etc. Era dia de ir ao terreiro e eu, decidida que não voltaria mais lá, falei isso para o meu marido, só não expliquei o porquê. Discutimos muito, ele ficou aborrecidíssimo, mas eu nunca mais fui. Acontece que SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 129 | P á g i n a o prazo de duração do “trabalho”, em relação a minha saúde, estava acabando e precisava ser refeito, mas como fazer se eu não frequentava mais o terreiro? Então fui piorando novamente, até que um dia outro cunhado me convidou para ir a um centro kardecista que ele frequentava. Então, fui. Na primeira sessão já disseram que eu precisava fazer uma cirurgia invisível, pois o meu caso era urgente. Na semana seguinte, estava eu entrando num ambiente totalmente diferente do local do terreiro. Apenas uma luz azul fraquinha iluminava a sala, com algumas pessoas incorporadas e com jaleco branco. Havia uma maca na qual me deitei e ninguém se aproximou de mim, só as mãos estavam estendidas na minha direção. Então, um médium incorporando supostamente um médico alemão, me disse que o mal alojado dentro de mim estava saindo porque a energia dos animais que o meu marido sacrificava tinha se apoderado do meu corpo. Neste exato momento eu sentia mexerem dentro do meu abdome mesmo sem ninguém estar tocando em mim. Quando cheguei em casa fui trocar de roupa, então percebi que a minha barriga estava toda arranhada, embora ninguém tivesse encostado em mim. Neste momento fiquei preocupada. Chamei o meu marido e mostrei a ele que me perguntou o que eles tinham feito. Se eu não tivesse mostrado, ele iria pensar que eu tinha imaginado coisas, pois no dia seguinte, quando acordei, minha pele do abdome estava totalmente limpa, como se nada tivesse acontecido. Neste momento fiquei com medo. Vi que eu tinha mexido com coisas muito pesadas. Continuei frequentando aquele local, tomava passes, mas não melhorava. Lia os livros que indicavam, tinha até “um evangelho” e achava que estava no caminho certo. Lá se faziam muitas obras sociais, ajudando as pessoas. Entretanto, com as constantes infecções e hemorragias eu tinha piorado, as dores já não passavam, vivia com dor e tomando analgésico. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 130 | P á g i n a Voltei ao médico. Ele me pediu novos exames, fiz e os resultados foram diretamente para ele. Assim que recebeu os resultados ele me ligou pedindo para eu ir ao consultório, de encaixe, no fim do dia, pois precisava me ver com urgência. Naquele dia eu estava passando muito mal, mas tinha uma grande entrega para fazer, na fábrica. As costureiras foram almoçar e fiquei sozinha conferindo o corte. Ouvi novamente a voz falar comigo: – Você não veio ao mundo para fazer o que está fazendo, seu caminho não é esse! Diferentemente da outra vez eu respondi na mesma hora: – Poxa, eu estou num lugar que se faz o bem, se fala de Jesus; se esse não é o meu caminho então me mostra. Não ouvi mais nada! Não deu nem tempo de pensar muito sobre isso porque a minha irmã chegou me perguntando se eu estava bem porque estava meio esquisita. Respondi que estava com dor, meus exames estavam ruins e teria que ir ao médico no fim do dia. Ela, como se não tivesse ouvido o que eu falei, me chamou para ir a um grupo de oração que ela estava frequentando. (Ela tinha ido trabalhar numa faculdade, dando aula de física, o reitor era um pastor, falou de Jesus para ela, que se converteu e abandonou o centro). Eu respondi: – A última coisa que eu vou ser na vida é crente, gente maluca, fanática, alienada, ignorante, fala sempre a mesma coisa, não tem nada a ver comigo. Ela nem deu importância ao que eu falei,me entregou um papel com o endereço e disse: – Oração! É só Oração! Quando ela foi embora comecei a pensar na possibilidade de ir a tal reunião. Fui até o escritório falar com meu marido que se opôs totalmente me dizendo que nós éramos macumbeiros. Fomos ao médico. Como eu já sabia, os exames estavam ruins e eu teria que ser operada. Enquanto me trocava, meu marido e o médico ficaram acertando os detalhes da internação e cirurgia. Quando saímos do consultório, como eu havia insistido muito, fomos para a reunião de oração dos crentes, pois era no bairro ao lado de onde estávamos. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 131 | P á g i n a Ao chegar vi que o grupo estava reunido numa sala bem decorada, com três ambientes. Reparei que estavam todos falando de olhos fechados. Terminada a oração, abriram os olhos na mesma hora, a minha irmã me viu e pediu que orassem por mim. Fui para o centro da sala e vieram umas senhoras, que me rodearam. Uma delas colocou a mão exatamente onde eu sentia dor. Então o pastor me perguntou: – Você crê que Jesus pode te salvar e te curar? Naquele instante começou a passar um filme na minha mente. Lembrei das aulas de religião do colégio, dos milagres que Jesus tinha feito e de duas histórias que eu gostava muito: a do filho pródigo e a da mulher com fluxo de sangue. Lembrei que Jesus era Deus e se ele quisesse podia fazer um milagre em mim. O pastor repetiu a mesma pergunta: – Você crê que Jesus pode te salvar e te curar? Eu respondi que sim. – Eu creio! Então eles começaram orar por mim. Eu me senti como se estivesse no meio de uma fogueira. Era um calor que eu não sabia se vinha de dentro de mim ou de fora. Sentia meus órgãos sendo apertados, uma sensação muito estranha. Ao mesmo tempo sentia como se Deus estivesse me abraçando. Eu era como aquele jovem da história do filho pródigo, abraçado pelo pai quando voltou para casa. Mentalmente, eu me via na mata, na praia, na cachoeira e arriando as obrigações (trabalhos). Comecei a chorar, pedi perdão ao Senhor por eu ter cultuado outros deuses e esquecido do Deus verdadeiro. Vivenciava tudo isso em pensamento e disse para Jesus que ele tinha curado aquela mulher, que vivia com uma hemorragia e, se ele quisesse, podia me curar também. A oração terminou e outro pastor falou para mim se eu havia percebido que a dor que sentia quando cheguei não existia mais. Eu firmei os dois pés no chão, pois a dor não permitia que eu firmasse o pé esquerdo e percebi que não sentia mais dor. Então falei: – É, a dor foi embora! Meu marido, então disse: – Vocês crentes são armadores mesmo, já sei, hipnotizaram ela. Quero ver quando chegar em casa. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 132 | P á g i n a Eu nem me importei com a reação dele, pois estava em paz, feliz, sem dor, leve e me sentindo bem. No dia seguinte, meu sogro me levou a uma outra reunião dos crentes, pois umas senhoras ali já tinham orado por ele. O local era bem longe e o ambiente totalmente diferente daquele da noite anterior. Uma construção simples, piso de cimento, bancos de tábua de obra, pessoas simples que sequer sabiam ler, porém, a mesma presença que eu havia sentido com o outro grupo, no apartamento da zona sul, também senti neste lugar. Chorei muito, mentalmente pedindo perdão a Deus por tudo o que eu havia feito, cultuando outros deuses, e fui nomeando cada um deles. Terminado o período de oração daquele grupo, o meu sogro pediu para orarem por mim. Uma das irmãs crentes perguntou se eu ia fazer alguma cirurgia, pois ela me via entrando em um centro cirúrgico, mas Jesus mandava me dizer que eu estava curada. Meu marido se levantou do banco e disse: – Curada? Se o médico não tirar esse câncer não vai ser esse Jesus que vai tirar. Fomos para casa, eu passei o restante da sexta, o sábado e o domingo, me sentindo bem, sem dor. Na segunda-feira fomos para o hospital, me internei, comecei a preparação, para na quarta-feira, fazer a cirurgia. Encontrei na gaveta da mesinha de cabeceira um Novo Testamento distribuído pelo Gideões Internacionais, que li todo. Quanto mais eu lia, mais paz sentia. Eu, que temia morrer e deixar meus filhos, com 8 e 13 anos, já não estava mais com medo. Eu li no finalzinho do Evangelho de Mateus que Jesus estaria comigo até a consumação dos séculos. Se eu não estivesse mais aqui, estaria com ELE, na eternidade, e ELE cuidaria dos meus filhos. Isso me tranquilizou. No dia da cirurgia, o meu marido, que achava que eu ainda estava hipnotizada, quando entrei no centro cirúrgico, começou a chamar pelas entidades que ele cuidava, e nenhuma respondia. Entretanto, ele não parava de ouvir um cântico que cantaram na SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 133 | P á g i n a primeira reunião que fomos: O NOSSO GENERAL É CRISTO. Ele continuou chamando as entidades, mas elas não respondiam. Então, ele resolveu falar com o Deus que disseram para ele, na reunião, ser o DEUS do Impossível. Ele disse para Deus: – Eu não te conheço, conheço as entidades que eu cuido e me abandonaram, mas os crentes falaram que tu és o Deus do impossível. Então vou pedir o impossível. Se a minha mulher sair do centro cirúrgico curada, e não for cortada, eu vou passar a crer. Passou um tempinho, eu voltei para o quarto e, depois, o cirurgião puxou meu marido para conversar e perguntou o que ele tinha feito. Meu marido respondeu: – Você é que tem que falar o que fez. Tirou o útero, o ovário ou algum outro órgão? O médico respondeu: – Aconteceu algo muito estranho na sala. A equipe estava pronta, ela anestesiada, na hora que fui cortar não me deu vontade. Resolvi colocar o aparelho para ver por baixo o grau em que estava o câncer. Há 36 anos não existia a tecnologia de que dispomos hoje. Só que quando ele olhou ficou assustado, o câncer havia sumido! Na quinta-feira anterior estava lá, hoje não está mais. Fiz uma raspagem, mandei para o laboratório, mas não vai dar nada. Meu marido começou a chorar e disse para o Senhor: – A minha vida é tua, a minha palavra é uma só, de hoje em diante eu sou um soldado desse teu exército! A nossa vida foi mudada por esse Deus de misericórdia e graça que salva, cura, liberta e transforma, independentemente de nós! A nossa família passou a servir ao Deus único e verdadeiro que, através de Jesus, deu a sua vida por nós. Durante muitos anos, em nossa casa, realizamos uma reunião de oração evangelística, na qual muitas pessoas tiveram a oportunidade de conhecer a Jesus como seu Salvador, como nós tivemos um dia. Para o Senhor Jesus não existe impossível; o querer e o realizar está em suas mãos. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 134 | P á g i n a Não importa o quão difícil a situação possa parecer para nós, ELE tem todo o poder para agir de forma natural ou sobrenatural – ELE É DEUS! Aquele vazio que eu sentia foi preenchido pela sua maravilhosa presença. O questionamento da adolescente foi respondido. Hoje eu sei para qual finalidade eu fui criada, o caminho foi encontrado em Jesus que é o único caminho, a verdade e a vida. ELE é o mesmo ontem, hoje e o será para sempre! Fez e continua fazendo milagres por misericórdia. ELE faz o impossível para salvar o pecador porque o Senhor Deus é bom! ELE mudou a minha história e pode mudar a sua também! Ao Deus Eterno seja toda honra, glória e louvor, pelos séculos dos séculos! Amém!” ....................... Tendo vivido tão significativa e milagrosa experiência, o querido casal Rosemary (Merinha) e José Roberto (Zequinha), em 1990 se tornaram membros da nossa igreja. Foram uma bênção no ministério do Encontro de Casais com Cristo, inclusive como coordenadores, até o falecimento do Zequinha em 2008, sendo que ele foi diácono e presbítero. A Rosemary e seus filhos continuam sendo bênção na nossa igreja e emoutra igreja. Deus salva, cura e usa na sua obra! ❖ SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 135 | P á g i n a 12. QUANDO DEUS DIZ NÃO! “Tu, pois, não intercedas por este povo, nem levantes por ele clamor ou oração, nem me importunes, porque eu não te ouvirei.” (Jr 7.16) Certamente este é um tema pouco comum. O mais comum, didático, lógico e apropriado é abordar os assuntos de uma forma positiva, e não negativa. Isso já fizemos anteriormente e continuaremos a fazer. Entretanto, tratar de um assunto, explorando aquilo que não deve ser feito, tem grande proveito, pois nos manterá mais atentos e vigilantes, inibindo ações e hábitos equivocados. Algumas pessoas, novas convertidas ou mesmo cristãos mais antigos, sentem alguma dificuldade em orar. Acham que não sabem orar e que orar seria uma espécie de arte dominada por poucos. Entretanto, orar tem a simplicidade do ato de uma criança se dirigir aos pais e expressar alguma coisa; pedindo, agradecendo, ou simplesmente conversando. Em certa ocasião, Jesus, falando a respeito da oração, exemplificou usando a relação pais e filhos: “Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?” (Mt 7.11). Da mesma forma que, muitas vezes, um filho não tem noção do que está pedindo aos pais, nós cristãos, filhos de Deus, também não oramos convenientemente. Felizmente, o Espírito Santo que em nós habita, entra em cena e faz aquilo que somente ele é capaz de fazer: “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 136 | P á g i n a sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos.” (Rm 8.26-27; comp. Rm 8.34) Se, por um lado, orar é tão simples, por outro tem lá suas condicionantes e especificidades. Não foi sem razão que um dos seus discípulos pediu a Jesus que lhes ensinasse a orar, a exemplo de João Batista que havia ensinado aos seus discípulos (Lc 11.1). E, este, é o tipo de aprendizado que leva toda a vida. A cada dia precisamos melhorar nosso conhecimento e prática da oração, através de uma maior intimidade com Deus e com sua Palavra. Desenvolveremos este tema, destacando alguns aspectos negativos que dizem respeito à pessoa que ora e, outros, à forma ou conteúdo da oração que Deus não quer ouvir. Quem somos nós, simples mortais, para saber a oração que Deus quer ou não quer ouvir; que ele vai dizer – não? Partindo da premissa de que Deus se revelou através do seu Filho Unigênito – Jesus Cristo – e da sua Palavra Escrita – a Bíblia – podemos, então, examinar as Escrituras Sagradas e buscar ali tais respostas. Seguindo esta linha, veremos, a seguir, de que tipos de pessoas Deus não quer ouvir a oração e quais orações ele rejeita. O assunto é vasto e fascinante; assim sendo, nos limitaremos a apenas alguns casos. 12.1 Por causa de QUEM ora: Deus diz não a oração... a) Quando procede de um coração em rebeldia contra Deus (Jr 14.12) “Quando jejuarem, não ouvirei o seu clamor e, quando trouxerem holocaustos e ofertas de manjares, não me agradarei deles; antes, eu os consumirei pela espada, pela fome e pela peste.” SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 137 | P á g i n a Imagine você ouvir de Deus algo do tipo: – Não ore por fulano de tal porque eu não te ouvirei! Ou, – Não ore pela igreja tal porque eu não te ouvirei! Em certo momento da história do povo de Israel, o povo de Deus, Jeremias ouviu, da parte de Deus, algo assim, sem dúvida assustador (Jr 7.16). A razão da rejeição divina está claramente exposta: “Que é isso? Furtais e matais, cometeis adultério e jurais falsamente, queimais incenso a Baal e andais após outros deuses que não conheceis, e depois vindes, e vos pondes diante de mim nesta casa que se chama pelo meu nome, e dizeis: Estamos salvos; sim, só para continuardes a praticar estas abominações!” (Jr 7.9-10). Além de rejeitar a oração daquele povo rebelde, Deus proibiu Jeremias de interceder por ele. Tem membro de igreja evangélica vivendo uma vida dupla; praticando toda a sorte de pecado e achando que pode cultuar e orar a Deus, confiando na suposta proteção de um templo ou de uma igreja. “O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável” (Pv 28.9). Nosso Deus está com os ouvidos abertos para ouvir a confissão do mais vil pecador arrependido, como no caso do rei Acabe (1Rs 21.28-29), mas rejeita a oração e culto daqueles que banalizam e profanam o sagrado, andando de braços dados com o mundo e o pecado. b) Quando procede de um coração soberbo e orgulhoso (Lc 18.9-14) “O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano;” O jeito de ser de quem ora nunca está desatrelado daquilo que ele profere na sua oração. Deus sempre considera as duas coisas. Nesta parábola do fariseu e do publicano que subiram ao templo para orar, Jesus quis ensinar que aqueles que confiam no seu senso de justiça própria e nas suas obras, não são ouvidos por Deus. Aquele fariseu, zeloso da lei, orava de si para si mesmo (um círculo vicioso), SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 138 | P á g i n a como que para massagear o seu ego, exibindo suas qualidades e vangloriando-se das suas práticas religiosas (comp. Pv 27.2). Sua auto bajulação chega ao ponto de tributar gratidão a Deus por ser melhor do que os outros. Dizem que naquela época era comum se orar assim: “Bendito és tu, ó Senhor nosso Deus, rei do universo, que não me fizeste um gentio, …., um escravo, …., uma mulher, ….”. Certamente Deus não está disposto a ouvir orações de pessoas como esse fariseu. São orações que não chegam nem ao teto, quanto mais passar dele. c) Quando procede de um coração hipócrita (Mt 6.5) “E, quando orardes, não sereis como os hipócritas;…” O que Jesus diz sobre os hipócritas—aqueles que exibem virtudes fingidas, sentimentos artificiais e uma devoção apenas aparente—pode soar positivo à primeira vista: “gostam de orar”. No entanto, a realidade é bem diferente. Eles não amam a oração, tampouco o Deus a quem dizem dirigir-se. O que realmente apreciam é a própria imagem e a oportunidade de exibição que a oração pública lhes proporciona, transformando a espiritualidade em autopromoção. O farisaísmo religioso não ficou no passado. Ainda hoje, muitos frequentam igrejas movidos pelos mesmos interesses distorcidos que levavam os fariseus à sinagoga—não para adorar a Deus, mas para construir uma reputação de piedade. Infelizmente, essa hipocrisia dentro das igrejas prejudica a credibilidade dos cristãos diante da sociedade. Os hipócritas podem enganar a muitos, iludir os mais ingênuos e até confundir os sinceros, mas nunca enganarão a Deus. Ele sonda os corações e conhece a verdade por trás de cada aparência. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 139 | P á g i n a 12.2 Por causa da SUA FORMA ou CONTEÚDO: a) Quando há vãs repetições (Mt 6.7-8) “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos.” As “vãs repetições”, a falta de significado, a repetição mecânica são erros a serem evitados nas orações. A repetição mecânica é um abuso da própria natureza da oração, rebaixando-a de um real e pessoal acesso a Deus a uma mera recitação de palavras. O conteúdo da oração é espontâneo, livre de qualquer formalidade e expressões decoradas. Deve nascer ou emergir de um coraçãosincero, que deseja expressar diante de Deus suas próprias necessidades, as de outros, bem como agradecer pelas dádivas recebidas e, ainda, adorar ao Pai, na beleza da sua santidade. Entenda-se como “vãs repetições” as repetições autômatas de palavras que só venham dos lábios e não do pensamento ou do coração, com a intenção de se fazer ouvir pela quantidade. Dependendo da forma como é usada até a chamada oração do “Pai Nosso”, ensinada por Jesus, pode se tornar uma vã repetição. Mencionar repetidamente um assunto diante de Deus, movidos pela angústia profunda que ele nos causa, não é, de forma alguma, uma vã repetição. Pelo contrário, expressa um clamor sincero e perseverante. No entanto, também é possível cair no uso de “palavras vazias” quando a oração se torna um simples jargão religioso, repetido mecanicamente enquanto a mente vagueia, sem verdadeira conexão com Deus. b) Quando o propósito é equivocado (Tg 4.3) “pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.” SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 140 | P á g i n a Se o Filho de Deus se esvaziou da sua glória para viver como servo e para dar a sua vida para salvar o pecador, este pecador agora salvo, irá orar a Deus pedindo determinadas coisas e recursos para esbanjar nos prazeres efêmeros desta vida? Como pode uma nova criatura em Cristo fomentar sua ganância e investir na carnalidade? Não é pecado ser rico, nem buscar a prosperidade, o bem-estar e a boa saúde (3Jo 2). O que não se pode é colocar nisso o coração, tirando o foco da nossa verdadeira missão e propósito neste mundo. Sigamos a recomendação do nosso Mestre: “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” (Mt 6.33) c) Quando Deus já tenha determinado algo diferente (2Co 12.7-9) “Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza….” Quando Deus determinou, pela boca dos seus profetas, que Israel seria levado cativo para a Babilônia e ali ficaria por setenta anos (Jr 29.10; 2Cr 36.20-21), não havia mais abertura para Deus ouvir qualquer oração que alterasse essa sua soberana e explícita vontade. Quando o apóstolo Paulo rogou ao Senhor três vezes, para que Deus afastasse dele o espinho na carne e o Senhor não o quis atender, também não havia mais abertura para Deus ouvir qualquer oração que alterasse essa sua soberana e explícita vontade. Deus declarou que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu propósito (Rm 8.28). Quando estamos enfrentando determinadas adversidades, somos levados a rogar a Deus que abrevie esse tempo difícil, o que é natural. Entretanto, mais importante do que multiplicar as orações ou não entrar em desespero é ter paciência e aprender a descansar em Deus e em sua soberana vontade, que é boa, agradável SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 141 | P á g i n a e perfeita (Rm 12.2). Certamente isso não é tarefa fácil! Precisamos entender que, muitas vezes, Deus usa determinadas situações para nos aperfeiçoar, nos fazer amadurecer na fé, e, isso leva algum tempo. O vaso precisa estar nas mãos do oleiro até que esteja pronto. d) Quando visa o mal do outro (Lc 9.51-56) “… Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?” Diante da recusa dos samaritanos em hospedar a Jesus e sua comitiva em sua aldeia, Tiago e João concluíram, apressadamente, que era o caso de destruir a todos esses indivíduos insensíveis. A resposta de Jesus revela e reafirma a vontade divina de salvar, e não de destruir, as almas humanas. Diante de determinadas situações perversas, protagonizadas por pessoas de índole maligna, da sociedade ou até mesmo participantes dos arraiais evangélicos, podem até passar pela mente de alguém pensamentos semelhantes aos destes apóstolos. A oração que pede a Deus para “pesar sua mão” sobre alguém é do tipo que Deus não quer ouvir. Por maior que seja o mal praticado contra nós (ou contra outros), como cristãos, o que nos resta a fazer, em termos de oração, é entregar nossa causa nas mãos de Deus. É claro que, dependendo do caso, a justiça dos homens precisa ser envolvida. Enfim, poderíamos mencionar tantos outros casos, como, por exemplo, aquelas orações que dão ordens a Deus, ou que usam expressões desrespeitosas ou que não se submetem à sua vontade etc. O importante é que estejamos atentos a todos os aspectos que envolvem nosso ser, isto é, o que somos e o que sentimos quando buscamos a Deus em oração. Além disso, precisamos ter cuidado com o que proferimos em oração, para não cometermos os erros acima expostos. ❖ SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 143 | P á g i n a 13. O ESPÍRITO SANTO E A ORAÇÃO Já não é fácil entender a nós mesmos, nem tampouco entender o outro; quanto mais entender o mover do Espírito Santo, o mover do mundo espiritual e o que acontece quando oramos. Nesse nosso relacionamento com Deus, através da oração, há que se levar em conta sempre três aspectos relevantes: a) Como se chega à presença do Soberano Rei do Universo, para lhe falar algo? Ao contrário do que acontece com o acesso às pessoas muito importantes ou famosas do planeta, temos um Deus acessível para escutar o clamor das suas criaturas quando o fazem com humildade e contrição: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos.” (Is 57.15). “Deus, porém, ouviu a voz do menino (Ismael); e o Anjo de Deus chamou do céu a Agar e lhe disse: Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino, daí onde está.” (Gn 21.17) Entretanto, a intimidade com o Senhor não é um privilégio de todos: “A intimidade do SENHOR é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança.” (Sl 25.14; ver tb. Pv 3.32). Certamente isso não acontece por nosso mérito: “Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo.” (Ef 2.13) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 144 | P á g i n a b) Tendo o acesso franqueado a Deus, o que lhe dizer? Aqueles que foram feitos filhos de Deus (Jo 1.12-13), os regenerados pelo Espírito Santo, chegam à sua presença divina, diante do seu trono de graça, como um filho chega à presença do seu pai terreno. Com intimidade, simplicidade e reverência, abrimos o nosso coração diante do Pai Celestial. Confessamos nossos pecados, exaltamos o seu nome, agradecemos pelos seus feitos, suplicamos por nossas necessidades e intercedemos por outros e por outras causas. Simples assim! c) Tendo chegado à sua presença santa, tendo lhe dito algo, o que acontecerá? Às vezes acontece assim: “O SENHOR atendeu à voz de Elias; e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu.” (1Rs 17.22), “SENHOR, meu Deus, clamei a ti por socorro, e tu me saraste.” (Sl 30.2); outras, assim: “Visto que eu clamei, e eles não me ouviram, eles também clamaram, e eu não os ouvi, diz o SENHOR dos Exércitos.” (Zc 7.13). Ao longo da história humana Deus tem respondido orações com: SIM, NÃO e ESPERA. Independentemente do que irá acontecer, o apóstolo Paulo nos ensina: “Orai sem cessar.” (1Ts 5.17). Tiago acrescenta: “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo.” (Tg 5.16) Considerando que estaremos tratando aqui daquilo que acontece no mundo espiritual, enquanto ou quando oramos,principalmente do mover do Espírito Santo, vale relembrar algumas coisas a respeito da pessoa, da obra e do ministério do Espírito Santo: Quanto à sua obra na salvação: – Convencimento (Jo 16.8-11) – Regeneração (Tt 3.5) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 145 | P á g i n a – Habitação (1Co 6.19) – Batismo (1Co 12.13) – Selo (2Co 1.22; Ef 1.13; 4.30) Quanto à sua pessoa e ministério: – Ele fala (Mc 13.11; Jo 15.26; 16.13; 2Pe 1.21) – Ele tem mente, intelecto (Rm 8.27) – Ele tem emoções, pode ser entristecido (Ef 4.30) – Ele ensina (Lc 12.12; Jo 14.26; 16.12-15) – Ele guia, orienta (Rm 8.14) – Ele constitui líderes (At 20.28) – Ele comissiona (At 13.4) – Ele ordena, comanda (At 8.29; 10.19-20) – Ele sonda as profundezas de Deus e faz revelações aos homens (1Co 2.10-11) – Ele realiza coisas, conforme sua vontade (1Co 12.11) – Ele age no homem (Gn 6.3) – Ele pode ser resistido (At 7.51) – Ele intercede (Rm 8.26; Ef 6.18) Portanto, o Espírito Santo não é simplesmente uma força ativa de Deus ou uma influência que vem sobre a alma humana, como muitos pensam e a isso o reduzem. Ele é um ser pessoal; ele é Deus (At 5.3-4)! Como tal, vejamos o seu mover na oração. 13.1 A intercessão do Espírito (Rm 8.26-27) “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos (crentes).” (Rm 8.26-27) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 146 | P á g i n a Qual o crente que não almeja ter uma vida de oração eficaz? Por conta desse legítimo anseio cristão, não são poucos os livros escritos e os textos elaborados com a intenção de mostrar o caminho da oração eficaz. Qual o meu papel e qual o papel do Espírito Santo nisso? O texto bíblico acima nos revela duas importantes verdades a esse respeito. No que concerne a nós, crentes, o que há são limitações: fraqueza e não saber orar como convém. Felizmente, no lado divino, temos a ação intercessora do Espírito Santo, que habita em nós, nos assistindo, suprindo e compensando nossas limitações, pois ainda habitamos esse corpo corruptível, sujeito a debilidades morais e espirituais, enquanto ele vai nos moldando à imagem de Cristo. Nas nossas limitações, focamos quase sempre o livramento de males que nos afligem ou a obtenção de bens terrenos, porém o Espírito nos auxilia na direção de objetivos mais elevados e duradouros, bem como na concretização da vontade de Deus em nossas vidas. Isso nos assegura que Deus Pai, aquele que sonda os corações, reconhece o sentido da palavra não articulada (gemido ou suspiro) e realiza o que é melhor para os crentes (“santos”), segundo a sua vontade. Temos que admitir que há muitas situações e circunstâncias que nos envolvem, ou opções que se apresentam para nós que nos deixam atordoados e confusos, sem saber o que fazer ou o caminho a seguir. Nesses casos, primeiramente precisamos descansar no Senhor: “…porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais.” (Mt 6.8). Em segundo lugar, precisamos levar tudo diante de Deus, pois podemos contar com a intercessão do Espírito e confiar que ele “é poderoso para fazer infinitamente mais” (Ef 3.20). Então, podemos contar com a intercessão do Espírito Santo e com a de Jesus: “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles.” (Hb 7.25). O que não podemos admitir, em hipótese alguma, é o equívoco de muitos ao buscar e confiar na intercessão da “Virgem Maria e inumeráveis Santos (pessoas canonizadas pela igreja católica romana por uma obra SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 147 | P á g i n a admirável)”. Não há qualquer sustentação bíblica para a busca de intermediários entre o homem e Deus: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem,” (1Tm 2.5). Essa foi mais uma razão da reforma protestante que completou 500 anos no dia 31 de outubro de 2017. 13.2 O Espírito Santo como Mestre e Guia na oração (Jo 14.26; Jo 16.13) “mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito.” (Jo 14.26) “quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir.” (Jo 16.13) Jesus mesmo declarou que o Espírito Santo realiza, nos santos, uma obra especial de ensiná-los, todas as coisas, e guiá-los à toda a verdade. Além de contar com sua intercessão, devemos recorrer a ele como Mestre e Guia na oração. Sabemos que podemos e devemos orar a Palavra de Deus, isto é, usando as próprias verdades expressas na Bíblia. Com certeza nossa oração será enriquecida com tão excelentes palavras que, agradarão a Deus, porém, não devem se transformar em meras frases feitas, repetidas de forma mecânica. Antes, porém, tais expressões devem circular pelo nosso ser, passando pela nossa mente e coração, reforçando nosso entendimento e aquecendo nossas emoções e, só então, subir ao Pai Celestial. Além de orar as Escrituras, antes de tudo, é necessário orar em conformidade com as Escrituras, em conformidade com o ensino bíblico. Neste ponto, é o Espírito quem nos capacitará a orar. É ele quem nos conduzirá a assimilar e viver os ensinos bíblicos de modo a agradar a Deus, por meio de Cristo. É ele quem nos fará aprender com cada oração registrada na bíblia e com os seus ensinos. Quem não conhece bem a bíblia, corre o risco de se equivocar na oração. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 148 | P á g i n a 13.3 A oração no Espírito Santo (Jd 20; Ef 6.18) “Vós, porém, amados, edificando-vos na vossa fé santíssima, orando no Espírito Santo, guardai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna.” (Jd 20) “com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos” (Ef 6.18) Orar no Espírito é orar em plena comunhão com ele, é orar segundo a sua direção e unção. Tal oração não pode ser tão egoísta, focando apenas os próprios interesses, mas há de ser intercessória, buscando o bem do outro. Não se trata de algo que aconteça eventualmente, mas se desenvolve de forma contínua, em todo o tempo. Orar no Espírito é orar segundo a vontade de Deus e ela será feita. Há vários textos bíblicos que nos enchem de esperança quanto à eficácia da oração. Certamente há aspectos condicionantes a serem observados. “E esta é a confiança que temos para com ele: que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que ele nos ouve quanto ao que lhe pedimos, estamos certos de que obtemos os pedidos que lhe temos feito.” (1Jo 5.14, 15) “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito.” (Jo 15.7) “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda.” (Jo 15.16) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 149 | P á g i n a “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, abrir-se-lhe-á.” (Mt 7.7-8) “Em verdade também vos digo que, se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que, porventura, pedirem, ser-lhes- á concedida por meu Pai, que está nos céus.”Mestres de Israel, causando-lhes grande admiração (Lc 2.46-47). 2°) Durante todo o seu curto Ministério Público ele foi observado, questionado, odiado e perseguido pelos falsos mestres do povo. Esses, não podendo apanhá-lo em alguma falta e, não querendo se submeter à sua supremacia, só encontraram uma saída: calar a sua boca, crucificando-o. Entretanto, na sua morte ele falou mais alto. 3°) Os seus discípulos o chamavam habitualmente de Mestre (Pedro – Marcos 9.5). Entretanto, os de fora também o reconheciam como tal (Nicodemos – João 3.2). 4°) Ele próprio assumiu publicamente que era Mestre (Jo 13.13). Que tipo de Mestre era ele? Era um Mestre capaz de provocar as mais diferentes reações entre os do povo. Por que? Porque era superior a todos os outros. Porque tinha o que ensinar e sabia como ensinar. Porque tinha autoridade para ensinar (Mt 7.28-29). Porque se importava com as pessoas, sem discriminá-las (Mt 9.36-38). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 16 | P á g i n a O Mestre por excelência "Os pedagogos modernos estão cada vez mais se preocupando com métodos e técnicas de ensino, visando a uma formação mais ampla dos educandos para a realidade da vida. Várias escolas e sistemas educacionais têm surgido. Baseiam-se numa filosofia e psicologia de ensino que procura dar uma formação global ao educando. Procuram atender ao homem comum como um todo, e não seccionado em compartimentos. Apesar de todos os esforços, vemos a cada dia um mundo mais deseducado. Jesus foi e continua sendo chamado 'O Mestre por Excelência'. Ele não apenas transmitiu informações, mas vivenciou de tal forma os seus ensinos que deu uma formação, a mais completa possível, aos seus discípulos."1 (J. M. Price) Os seus ensinos ainda são atuais? Na época atual, com todas as transformações que a sociedade tem sofrido através dos tempos, como os ensinos de Jesus e o seu exemplo de conduta devem ser encarados? Uma bela biografia de um grande pensador? Uma discussão filosófica sobre as coisas da vida? Um modelo teórico e, portanto, inatingível? Uma proposta de vida apenas para aquela época e povo? ou, Um modelo prático para todas as épocas! Por que? Que base bíblica temos? “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.” (Jo 13.15; ver tb 1Jo 2.6; 1Pe 2.21 etc.) Sobre o que Jesus ensinou? Temas “materiais”: Pobreza, riqueza, padrões de vida, sociedade, guerra, política, direito, lei, inimigos, caráter, perdão, dívida, casamento, divórcio, família, verdade, mulher, criança, doença, propriedades, juízo, festa, prazeres da vida etc. 1 A Pedagogia de Jesus. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 17 | P á g i n a Temas “espirituais”: Oração, pecado, tentação, incredulidade, fé, céu, inferno, morte, Satanás, Espírito Santo, Vida Eterna, final dos tempos etc. Talvez fosse mais fácil relacionar os assuntos sobre os quais ele nada ensinou. Apesar de ele ter nos deixado esses ensinos registrados em sua Palavra, existem pelo menos dois fatores que nos dificultam a ter um maior domínio sobre eles: 1°) Os ensinos estão espalhados pelos evangelhos, carecendo, portanto, de uma catalogação por assunto. 2°) Há que se descobrir a essência do ensino, extraindo-se, em alguns casos, as circunstâncias peculiares à época e, em seguida, aplicar-se esta "essência" ou “espírito do ensino" às situações modernas. Exemplo: Lavar pés (Jo 13.12-17) era um costume da época. O objetivo de estudar esses temas ou assuntos é justamente detalhar esses ensinamentos, tornando sua compreensão e aplicação mais acessíveis. Não se trata de dogmatizar ou criar regras de comportamento. A única lei a que estamos sujeitos é a "Lei da Liberdade em Cristo". Entretanto, precisamos conhecer a posição divina quanto as coisas práticas da vida e deixar que o Espírito Santo nos faça lembrar delas e andar nelas (Jo 14.23-26). O assunto que vamos abordar aqui é ORAÇÃO. Se fosse perguntado aos crentes sobre a prioridade que a oração tem na vida cristã, por certo a resposta seria: – É uma das maiores ou a maior delas! No entanto, se a pergunta fosse: – Quem ora diariamente? Quantos responderiam positivamente? Por que? Você sabe a resposta! Portanto, este é um assunto vital para os crentes e para a igreja de Cristo que precisa ser levado a sério. "A oração é a respiração da alma". Nosso propósito é o de apresentar principalmente a posição de SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 18 | P á g i n a Jesus e das Escrituras Sagradas a respeito da oração, a fim de esclarecer dúvidas e despertar a atenção para a seriedade desse assunto. Resumindo: Jesus é o Mestre por excelência. O seu exemplo de vida deve ser seguido. Seus ensinos são sempre atuais. Ele ensinou sobre muitas coisas práticas da vida. Seus ensinos precisam ser catalogados por assunto e interpretados para melhor compreensão. Vamos estudar sobre a oração em vista de sua importância. “O diabo deseja acima de tudo evitar que o cristão ore. Ele nada teme de estudos sem oração, obras sem oração, religião sem oração. Ele ri de nosso mourejar, caçoa de nossa sabedoria; mas treme quando oramos.” (E. M. Bounds) ❖ SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 19 | P á g i n a 2. DISCIPLINAS ESPIRITUAIS “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente,” (Tt 2.11-12) Disciplinas espirituais são práticas devocionais pessoais, intencionais e constantes, com vistas a desenvolver a espiritualidade e profundidade no nosso relacionamento com Deus. Elas nos ajudam a compreender mais quem Deus é, e a estreitar nossa intimidade com ele no nosso dia a dia. Portanto, as disciplinas espirituais dizem respeito ao nosso “estilo de vida espiritual” que tem o potencial de contribuir favoravelmente (ou desfavoravelmente) para o equilíbrio e a estabilidade do nosso ser – espírito, alma e corpo. Será favorável se forem observados os seguintes aspectos, dentre outros: 2.1 Comunhão com Deus. Essa comunhão pressupõe relacionamento e dependência. A comunhão com Deus se inicia com a regeneração e habitação do Espírito Santo. Tudo isso em decorrência da Obra Redentora de Cristo na cruz do Calvário. Se Cristo realmente vive em nós, mantemos comunhão com ele – “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.” (Rm 8.16). 2.2 Oração e Jejum. Através da oração nós falamos e abrimos nosso coração diante do nosso Pai Celestial, em confissão de pecados e de gratidão, petição SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 20 | P á g i n a e intercessão. Sentimos a sua presença e sua participação no nosso cotidiano. Através do jejum nós afligimos nossas almas diante de Deus, impulsionados por situações graves, rogando a sua intervenção. 2.3 Adoração e Louvor. Desde o momento em que acordamos até o momento de ir dormir nossos pensamentos devem estar postos no Deus da nossa salvação, em atitude de adoração e louvor. Também é essencial dedicarmos algum tempo específico para louvarmos a Deus, cantando ou ouvindo cânticos de louvor e adoração ao Senhor. 2.4 Bíblia. É através da leitura, meditação e estudo da Palavra de Deus que nos apropriamos do conhecimento de Deus, da sua vontade, dos seus feitos e dos seus ensinamentos para o nosso andar diário. Enquanto examinamos a Palavra, Deus nos capacita a examinar nosso próprio coração, o que nos leva ao arrependimento e à confissão de pecados. Nunca devemos fazer separação entre a Palavra de Deus e a oração. A Palavra revela a vontade de Deus e aquilo que ele quer nos dar, e a oração entrega-se à vontade de Deus e ousa pedir com fé aquilo que Deus graciosamente quer nos dar.(Mt 18.19) “E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.” (Jo 14.13-14) “Amados, se o coração não nos acusar, temos confiança diante de Deus; e aquilo que pedimos dele recebemos, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos diante dele o que lhe é agradável.” (1Jo 3.21-22) Enfim, neste tópico temos visto como chegar à presença de Deus, o que lhe dizer e o que acontecerá. Pensando na ação do Espírito Santo, aproveitamos para relembrar a sua obra na salvação e aspectos relativos à sua pessoa e ministério. Finalmente, tratamos da intercessão do Espírito, da sua obra especial como Mestre e Guia na Oração e, o que significa orar no Espírito. Então, pelo conjunto da obra, pode-se perceber a relevância do Espírito Santo na oração. Ele é nosso intercessor, nosso mestre e guia; protagonista indispensável quando se trata de oração eficaz. Essas são verdades confortadoras e motivadoras para o caminhar na fé cristã. Ora, vem, Espírito Santo e ajuda-nos a orar, como convém! ❖ SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 151 | P á g i n a 14. O JEJUM BÍBLICO 14.1 O que é jejuar? Da palavra grega “nestis” (“não comendo” ou “ter o estômago vazio”) se derivam outras duas: “nesteuo”, “jejuar” e “nesteia” “jejum”. O verbo e o substantivo podem ter o significado mais geral de: “não comer”, “abster-se da comida”, ou “ficar sem comida”, “passar fome”. Estas palavras, no entanto, se empregam mais frequentemente no sentido de um ritual religioso. “Jejuar” é abster-se de qualquer tipo de comida, durante um período limitado. 14.2 Quando surgiu o jejum? Acredita-se que nas religiões pagãs do mundo antigo, era praticado por medo de demônios, e com a ideia de que o jejum era um meio eficaz para se preparar um encontro com a divindade, pois criava o tipo correto de abertura diante da influência divina. Em Israel, temos o registro no Antigo Testamento de que Moisés esteve com o Senhor quarenta dias e quarenta noites, nos quais não comeu nem bebeu (Êx 34.28). Entretanto, o jejum, como um rito religioso, aparece pela primeira vez, associado ao rito da purificação, quando era requerido do povo o “afligir a sua alma” no dia da expiação (Lv 16.29, 31; 23.27, 32; Nm 29.7; Is 58.3; Sl 35.13). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 152 | P á g i n a “Quanto a mim, porém, estando eles enfermos, as minhas vestes eram pano de saco; eu afligia a minha alma com jejum e em oração me reclinava sobre o peito,” (Sl 35.13) 14.3 Qual é o verdadeiro motivo do jejum? As formas e os propósitos do jejum são numerosos. O jejum se praticava em Israel como preparação para uma conversa com Deus (Êx 34.28; Dt 9.9; Dn 9.3). a) Era praticado pelo indivíduo, quando se sentia oprimido por grandes dificuldades (2Sm 12.16-23; 1Rs 21.27; Sl 35.13; 69.10; 109.21- 27). “Mas tu, SENHOR Deus, age por mim, por amor do teu nome; livra-me, porque é grande a tua misericórdia. Porque estou aflito e necessitado e, dentro de mim, sinto ferido o coração. De tanto jejuar, os joelhos me vacilam, e de magreza vai mirrando a minha carne.” (Sl 109.21-22, 24) b) Era praticado pela nação em perigos iminentes de guerra e destruição (Jz 20.26; 2Cr 20.3; Et 4.16; Jn 3.4-10); porque o campo estava assolado (Jl 1 e 2); para obter sucesso no retorno dos exilados (Ed 8.21-23); como rito de expiação de pecados (Ne 9.1); e, finalmente, em conexão com o juízo de Deus já determinado e que não seria interrompido (Jr 14.11-12). O jejum e a oração estão constantemente juntos (Jr 14.11-12; Ne 1.4; Ed 8.21, 23). “Tendo eu ouvido estas palavras, assentei-me, e chorei, e lamentei por alguns dias; e estive jejuando e orando perante o Deus dos céus.” (Ne 1.4) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 153 | P á g i n a 14.4 Duração, frequência e abrangência do jejum? O jejum judaico era praticado desde a manhã até à tarde (Jz 20.26; 1Sm 14.24; 2Sm 1.12), embora Ester 4.16 mencione um jejum de três dias. “Então, todos os filhos de Israel, todo o povo, subiram, e vieram a Betel, e choraram, e estiveram ali perante o SENHOR, e jejuaram aquele dia até à tarde; e, perante o SENHOR, ofereceram holocaustos e ofertas pacíficas.” (Jz 20.26) A lei israelita ordenava o jejum tão-somente no dia da expiação, no sétimo mês (Lv 16.29-31; 23.27-32; Nm 29.7). Depois da destruição de Jerusalém (587aC), foram determinados quatro períodos de observação de jejum como dias de lembrança (Zc 7.3-5; 8.19). No decorrer do tempo, o significado mais profundo do jejum, como expressão do humilhar-se diante de Deus, foi perdido por Israel. Veio a ser considerado uma realização piedosa, com o fim de obter uma justiça à base de obras de auto retidão. A luta dos profetas contra esta descaracterização e esvaziamento do conceito não logrou êxito (Is 58.3-7; Jr 14.12). Até aos tempos de Jesus, os que eram sérios quanto à religião, especialmente os fariseus, receberam a obrigação de observarem dois dias de jejuns a cada semana (Lc 18.12). Os discípulos de João Batista tinham uma regra semelhante (Mc 2.18). “jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho.” (Lc 18.12) Quanto à abrangência, encontramos o jejum parcial e total: a) No jejum praticado desde a manhã até à tarde o alimento deveria ser suprimido (Jz 20.26; 1Sm 14.24; 2Sm 1.12). Não fica clara a necessidade de supressão da água. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 154 | P á g i n a b) Ester 4.16 menciona um jejum total (sem comer e sem beber) de 3 dias. c) Daniel jejuou por 3 semanas ou 21 dias (Dn 10.2-3). O registro bíblico sugere um jejum parcial: “Manjar desejável não comi, nem carne, nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi com óleo algum, até que passaram as três semanas inteiras.” Provavelmente ele adotou aquela “dieta vegetariana” com legumes e água como no tempo em que ingressou na corte babilônica (Dn 1.12). d) Moisés jejuou de forma total (sem comer e sem beber) por 40 dias e 40 noites (Êx 34.28; Dt 9.9). Certamente ele foi sobrenaturalmente sustentado por Deus. e) Jesus jejuou 40 dias e 40 noites antes de iniciar seu ministério público: “E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.” (Mt 4.2). Como não é mencionado no texto bíblico que ele teve sede, alguns deduzem que ele pode ter bebido água, caracterizando assim um jejum parcial. Outros preferem interpretar como tendo sido um jejum total, à semelhança de Moisés, pois Jesus não era menor do que aquele; e, também, foi sobrenaturalmente sustentado por Deus. Portanto, percebe-se que não há um padrão definido de duração, de frequência e de abrangência. Sem dúvida, o mais importante é a dedicação desse tempo de privação de prazeres gastronômicos, de “mortificação da carne”, para devoção e estreitamento da comunhão com Deus, com ou sem a motivação de uma situação difícil. 14.5 Qual a relação de Jesus com o jejum? a) O exemplo pessoal O próprio Senhor Jesus jejuou 40 dias e 40 noites antes de iniciar seu ministério público: “E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.” (Mt 4.2). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 155 | P á g i n a b) O momento certo de jejuar Quando questionado sobre a razão dos seus discípulos não estarem praticando o jejum, Jesus respondeu-lhes: “Podem, porventura, jejuar os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Durante o tempo em que estiver presente o noivo, não podem jejuar. Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo; e, nesse tempo, jejuarão.” (Mc 2.18-20). Nesta fala Jesus mostraa insensatez da prática do jejum enquanto ele estivesse com os discípulos. A presença do Messias, das boas novas da salvação que independem das boas obras – tudo isso significa alegria, que é algo incompatível com o jejum judaico. Entretanto, o jejum futuro não foi descartado. c) A condenação do “jejum ostentação” No sermão do monte, Jesus não condena o jejum propriamente dito, mas, sim, somente o jejuar com ostentação e hipocrisia (Mt 6.16- 18). O jejum não deve ser realizado diante dos olhos dos homens, para aparentar uma super espiritualidade e piedade, mas diante de Deus que vive em segredo e vê o que está no lugar secreto. d) A busca de autoridade e poder espirituais Conforme as palavras de Jesus em Mateus 17.21, há certas condições de possessão demoníaca das quais o homem só pode ser liberto “por meio da oração e jejuns”. Deve-se observar que este versículo não se encontra em muitos manuscritos e que no seu paralelo, em Marcos 9.29, apenas se menciona a oração. 14.6 Qual a relação da igreja com o jejum? Na igreja primitiva, a oração era apoiada pelo jejum (At 13.2, 3; 14.23). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 156 | P á g i n a “E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (At 14.23) Talvez, a ausência do assunto nas epístolas do Novo Testamento, exceto as autobiografias de Paulo (2Co 6.5 e 11.27), levam alguns a concluir que a ideia de que o jejum tem valor em si mesmo tenha sido abandonada pela igreja cristã, que retinha a prática do jejum a fim de demonstrar que suas orações eram sinceras. Não há dúvida do valor de aplicar-se ao jejum, principalmente associado à oração. Deve-se apenas tomar o cuidado para não deslocar a procedência do poder espiritual de Deus, para o rito do jejum – de Deus, para o homem! 14.7 Qual a posição da Igreja Presbiteriana do Brasil? De uma forma bem sintética e objetiva podemos responder a esta pergunta citando dois de seus documentos: No Catecismo Maior de Westminster, a pergunta 108 diz: “108. Quais são os deveres exigidos no segundo mandamento? Os deveres exigidos no segundo mandamento são – o receber, observar e guardar, puros e inalterados, todo o culto e todas as ordenanças religiosas que Deus instituiu na sua Palavra, especialmente a oração e ações de graças em nome de Cristo; a leitura, a prédica, e o ouvir da Palavra; a administração e a recepção dos sacramentos; o governo e a disciplina da igreja; o ministério e a sua manutenção; o jejum religioso, o jurar em nome de Deus e o fazer os votos a Ele; bem como o desaprovar, detestar e opor-nos a todo o culto falso, e, segundo a posição e vocação de um, o remover tal culto e todos os símbolos de idolatria.” No documento “Princípios de Liturgia” da IPB: SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 157 | P á g i n a “CAPÍTULO XI – JEJUM E AÇÕES DE GRAÇA Art.24 – Sem o propósito de santificar de maneira particular qualquer outro dia que não seja o dia do Senhor, em casos muito excepcionais de calamidades públicas, como guerras, epidemias, terremotos etc., é recomendável a observância de dia de jejum ou, cessadas tais calamidades, de ações de graças. Art.25 – Os jejuns e ações de graças poderão ser observados pelo indivíduo ou família, Igrejas ou Concílios.” A exposição é bem clara e, particularmente em momentos como este que o mundo está vivendo se aplica perfeitamente o previsto nos artigos 24 e 25 acima transcritos. Em momentos críticos os líderes do povo se levantam para uma santa convocação de jejum e oração, pela nação. “se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra.” (2Cr 7.14) O rei Ezequias promoveu um reavivamento espiritual do povo de Judá, resultando em arrependimento e um retorno à Lei do Senhor; orou e Deus lhe deu a vitória sobre os Assírios (2Cr 29 a 32). O rei Josias promoveu uma grande reforma espiritual em Judá, que incluiu a restauração do culto ao Senhor e a renovação da aliança com Deus, o que é condição básica para a ação divina em resposta a oração. (2Cr 34 e 35). Daniel orou e intercedeu pelo povo de Deus, e, em resposta, eles retornaram a Jerusalém (Dn 9). Esdras orou, e o culto ao Senhor foi restaurado com grandes bênçãos e manifestação do poder divino (Ed 9). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 158 | P á g i n a Neemias orou pelo povo, a Aliança foi ratificada, os muros de Jerusalém foram reconstruídos, e Judá foi restaurada (Ne 9). 14.8 Outro “tipo” de jejum. Jejum sexual “Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio. Digo isso como concessão, e não como mandamento.” (1Co 7.5-6 NVI) Em certos momentos da vida de um casal acontecem situações difíceis e aflitivas, como as de enfermidade na família, de desemprego, de catástrofes, dentre outras, quando não há nem clima nem espaço para um relacionamento conjugal (sexual) normal. Talvez, pensando nisso, o apóstolo tenha se referido a esse “certo período de privação”, para se dedicar à oração, quando ocorrer o mútuo consentimento. Entretanto, ele orienta claramente a não se fazer privação unilateral e, mesmo quando ocorrer a privação mútua, o bom senso e a sensatez devem prevalecer sempre, para se evitar riscos e tentações. Finalmente, feita essa breve abordagem sobre o jejum bíblico, vale lembrar a advertência do profeta Isaías que estabelece o contraste entre a Verdadeira e a Falsa Adoração (Isaías 58). Ele é instado por Deus a clamar a plenos pulmões contra a transgressão do povo de Israel, que não se importando com o seu estado vil, buscava rotineira e mecanicamente a Deus, através das suas práticas religiosas, inclusive observando o jejum de um dia. Talvez, não tendo a exata noção da gravidade do seu estado espiritual decaído e da inutilidade e esterilidade dessas práticas religiosas sem o respaldo de uma vida santa, ainda ousavam reclamar que o Senhor não estava correspondendo e respondendo aos seus atos sacrificiais. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 159 | P á g i n a Que o Senhor nos ajude a viver uma vida santa, coerente com os ensinos bíblicos e aderente a vontade de Deus. Vida marcada pela prática da justiça e da misericórdia, jamais ancorada equivocadamente em práticas ritualistas vazias e elementos sacralizados pela religiosidade popular. Que o nosso momento de jejum seja sincero, autêntico e potencializador da nossa comunhão e intimidade com Deus! ❖ “Na Europa, nos Estados Unidos, na África ou no Brasil a igreja vitoriosa, será aquela que for encontrada de joelhos; não só congregada aos domingos ou quartas-feiras, mas dispersa nas casas, no trabalho, na escola, pois onde houver um crente entregue a oração ali estará o emblema da vitória.” SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 161 | P á g i n a 15. A ORAÇÃO DE JABEZ Seguem três das muitas versões ou traduções desta oração: “9 Foi Jabez mais ilustre do que seus irmãos; sua mãe chamou- lhe Jabez, dizendo: Porque com dores o dei à luz. 10 Jabez invocou o Deus de Israel, dizendo: Oh! Tomara que me abençoes e me alargues as fronteiras, que seja comigo a tua mão e me preserves do mal, de modo que não me sobrevenha aflição! E Deus lhe concedeu o que lhe tinha pedido.” (1Cr 4.9-10) (ARA)14 “9 Jabez foi mais ilustre do que seus irmãos; a sua mãe deu-lhe o nome de Jabez, dizendo: "Porque com dores o dei à luz." 10 Jabezinvocou o Deus de Israel, dizendo: Oh! Quem dera me abençoasses e expandisses o meu território! Que a tua mão esteja comigo! Preserva-me do mal, para que não me sobrevenha aflição! E Deus lhe concedeu o que ele tinha pedido.” (1Cr 4.9-10) (NAA)15 “9 Jabez foi o homem mais respeitado de sua família. Sua mãe lhe deu o nome de Jabez, dizendo: "Com muitas dores o dei à luz". 10 Jabez orou ao Deus de Israel: "Ah, abençoa-me e aumenta as minhas terras! Que a tua mão esteja comigo, guardando-me de males e livrando-me de dores". E Deus atendeu ao seu pedido.” (1Cr 4.9-10) (NVI)16 14 ARA – Almeida Revista e Atualizada. 15 NAA – Nova Almeida Atualizada. 16 NVI – Nova Versão Internacional SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 162 | P á g i n a A oração de Jabez, registrada em 1Crônicas 4.9-10, é um trecho breve e singular em meio às longas genealogias de 1Crônicas. Ela ganhou notoriedade especialmente após a popularização do livro "A Oração de Jabez", do Dr. Bruce H. Wilkinson, que apresentou essa oração como um modelo de petição a Deus. Contudo, a oração merece uma análise cuidadosa, tanto para compreender seu contexto bíblico quanto para avaliar os ensinamentos associados a ela. O referido livro "A Oração de Jabez", de Bruce Wilkinson, publicado nos Estados Unidos, no ano 2000 (The Prayer of Jabez), tem recebido tanto elogios, quanto críticas, desde então. É o que veremos mais adiante. 15.1 A oração Quanto a oração em si, a partir do registro bíblico podemos observar o seguinte: a) Contexto Histórico e Literário A oração está inserida nas genealogias dos descendentes de Judá. Jabez é destacado como o mais ilustre dos seus irmãos, ou o mais respeitado da sua família, destacando-se no meio de um relato predominantemente genealógico. O nome "Jabez" significa "dor ou tristeza", o que reflete a circunstância de seu nascimento. b) Estrutura da Oração A oração de Jabez pode ser dividida em quatro pedidos principais: 1º) “Oh! Tomara que me abençoes” ou "Ah, abençoa-me”: Jabez busca a bênção divina, não como algo merecido, mas como um ato da graça de Deus. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 163 | P á g i n a 2º) "E me alargues as fronteiras" ou “e aumenta as minhas terras!”: Este pedido pode ser entendido como uma busca por prosperidade, aumento de território ou influência, possivelmente ligada ao contexto agrícola ou tribal de sua época. 3º) "Que seja comigo a tua mão": Ele clama pela presença e direção contínua de Deus em sua vida. 4º) "E me preserves do mal, de modo que não me sobrevenha aflição": Jabez deseja ser protegido do mal e de dores futuras, refletindo seu desejo de viver uma vida longe das dificuldades. A narrativa conclui com o resultado obtido: “E Deus lhe concedeu o que lhe tinha pedido.” c) Lições importantes Jabez recorre àquele que pode conceder todas as bênçãos, direção e proteção. Ele não confia em suas próprias habilidades, mas invoca o "Deus de Israel", mostra assim sua dependência e submissão ao Altíssimo. Ele demonstra confiança na graça divina e não hesita em pedir ousadamente a Deus, acreditando no caráter bondoso e misericordioso do Senhor. No registro bíblico há somente um relato sobre Jabez, o de 1Crônicas 4.9-10 – talvez a mais curta entre as biografias bíblicas – do qual podemos extrair quatro informações sobre ele: (i) Seu parto foi doloroso, trazendo muito sofrimento a sua mãe, daí ela lhe ter dado esse nome “Jabez” que significa “dor ou sofrimento”; SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 164 | P á g i n a (ii) Ele tinha irmãos e foi mais ilustre (nobre, respeitado) do que eles, nada sendo dito quanto a razão disso; (iii) Ele invocou o Deus de Israel, explicitando diante do Senhor os grandes anseios da sua alma: a bênção divina, a prosperidade, a presença de Deus em sua vida livrando-o do mal, para que tenha uma vida isenta de aflição; (iv) Ele foi atendido por Deus naquilo que havia pedido. Qualquer coisa que se diga sobre Jabez, diferente ou além do que está expresso no referido registro bíblico, pode não passar de especulação, dedução ou ilação! Não há qualquer outra menção a ele em todo o Antigo e Novo Testamentos! d) Aplicações Práticas e Princípios A oração de Jabez, quando interpretada corretamente, nos ensinam alguns princípios importantes: Orar com ousadia: Assim como Jabez, podemos buscar a Deus com confiança, sabendo que ele ouve as nossas petições e tem todo o poder para nos atender, segundo a sua soberana vontade. Submissão à vontade de Deus: É válido pedir as bênçãos de Deus e tudo aquilo de que necessitamos, entretanto, isso deve estar alinhado com o propósito divino, não com um desejo egoísta. Clamar pela presença de Deus: Assim como Jabez pediu pela "mão de Deus", devemos depender de sua direção e cuidado em todas as áreas da nossa vida. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 165 | P á g i n a Buscar proteção: Pedir a Deus que nos livre do mal e das aflições é um reflexo de nosso reconhecimento da fragilidade humana e da necessidade de sua intervenção. Enfim, quando lida à luz do contexto bíblico e teológico, a oração nos ensina a buscar a Deus com humildade e submissão à sua soberana vontade. 15.2 O livro de B. Wilkinson 14.2.1 Quanto ao autor Bruce Wilkinson é um pastor e autor americano, amplamente conhecido por suas obras motivacionais e voltadas ao crescimento espiritual, como “A Oração de Jabez”. Ele possui formação teológica, incluindo doutorado, e tem um histórico sólido em ensino bíblico e ministério. Fundou o Walk Thru the Bible Ministries, uma organização que oferece programas e recursos para ajudar as pessoas a entenderem a Bíblia. Isso demonstra um caráter empreendedor e um desejo de disseminar o conhecimento bíblico de forma prática e acessível. Analisando o texto de “A Oração de Jabez” e o estilo de Bruce Wilkinson, podemos fazer algumas deduções sobre sua personalidade, temperamento e visão de mundo, embora isso possa não refletir completamente a verdade. (i) Inquietação com o status quo: Wilkinson demonstra um desejo evidente de incentivar os leitores a saírem de uma vida espiritual medíocre ou rotineira. Sua ênfase em "expandir territórios", buscar grandes bênçãos e evitar SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 166 | P á g i n a limitações pode sugerir que ele mesmo é alguém que se incomoda com a monotonia e busca impacto, crescimento e propósito em larga escala. (ii) Possível hiperatividade, entusiasmo e inquietação; parece se incomodar com a monotonia da rotina. Num turismo marítimo no Mediterrâneo diz ter se sentido solitário, chegando ao “fundo do poço” (pg.40). Além de relacional mostra ser uma pessoa muito ativa, com grande energia e visão expansiva. Ele parece alguém focado em ação e resultados. (iii) Parece avesso à passividade espiritual, e se propõe a encorajar ousadia espiritual e a busca por bênçãos maiores. (iv) Sente a necessidade de resultados visíveis e tangíveis – como bênçãos materiais e expansão de influência. O livro revela um pensamento visionário e otimista. Wilkinson parece crer que Deus tem planos grandiosos para cada pessoa, o que reflete uma personalidade positiva, esperançosa e orientada por grandes ideias. 14.2.2 Quanto ao livro Já expressamos que o autor é um homem de Deus, capacitado, visionário e dedicado na obra do Senhor. É uma tarefa difícil analisarmos pessoas com quem convivemos e suas intenções naquilo que faz, quanto mais difícil se torna quando não as conhecemos. Portanto, nem pensar em fazer qualquer juízo de valor sobre o autor. Com muita humildade, nos atreveremos apenas a tecer alguns comentários sobre o que ele escreveu, principalmente com o propósito de aprofundar a discussão e conferir a basebíblica. Desde já quero me desculpar com o autor se, em algum texto, o tradutor para o português não refletiu corretamente a sua ideia e intenção, dando margem as minhas ressalvas e divergências. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 167 | P á g i n a Já tinha lido esse livro pouco tempo depois de ter sido publicado no Brasil e o li outra vez agora, pois tem relação com o assunto que estamos tratando aqui. Sem dúvida, trata-se de um livro bem elaborado, de fácil leitura, didático, repleto de ilustrações, empolgante e de fácil assimilação. Entretanto, ouso compará-lo a um saboroso peixe, com algumas espinhas e um molho exótico. Começaremos as considerações pelo “molho exótico” que é o estilo do livro; depois veremos as “espinhas do peixe” que diz respeito a Jabez e a interpretação e uso da sua oração; e, por fim, trataremos da “carne do peixe” que são os quatro aspectos importantes para uma vida plena e frutífera, em Cristo. a) O estilo do livro (o molho exótico) O livro pode ser visto como apresentando algumas características, um tanto quanto sensacionalistas, típicas de autores de best-sellers de autoajuda, mas aplicado à esfera espiritual e com uma visão de "ajuda do alto". Então vejamos: Fórmula Simples e Atraente Wilkinson apresenta a oração de Jabez como uma fórmula direta e acessível, quem sabe mística e mágica, um achado extraordinário, para alcançar grandes bênçãos e sucesso espiritual. Isso é característico da literatura de autoajuda, que muitas vezes simplifica soluções complexas para torná-las atraentes a um público amplo. Por exemplo: Comecemos pelo prefácio que anuncia entusiasticamente uma certa “oração ousada” com garantia de ser atendida por Deus! Uma oração forte e poderosa! Uma espécie de mantra! SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 168 | P á g i n a “PREFACIO Caro leitor, Quero ensinar-lhe como fazer uma oração ousada à qual Deus sempre atende. Ela é breve - uma frase composta de quatro partes - meio escondida na Bíblia, mas creio que ela contém a chave para uma vida extraordinariamente favorecida por Deus.” (pg.7) Uma promessa fantástica! “Quero prepará-lo para receber respostas impressionantes, vindas de Deus, como algo constante em sua vida.” (pg.12) Eu adotei! “Na manhã seguinte, fiz a oração de Jabez, repetindo palavra por palavra. Na outra manhã, a mesma coisa. No dia seguinte, idem. Trinta anos se passaram e não parei de fazê-la.” (pg.11) Outros adotaram, experimente você também! “- Bruce, ouvi você falar sobre a mensagem de Jabez há quinze anos e, desde então, não parei de fazer aquela oração. A mudança foi tão dramática que eu simplesmente não parei.” (pg.17) Siga os passos! Repita diariamente! “Ao repetir aqueles passos, você colocará em ação um ciclo de bênçãos que vai multiplicar tudo aquilo que Deus é capaz de fazer em e através de você.” (pg.91) “Quero desafiá-lo a fazer da oração de Jabez parte integrante de seu dia a dia. ...... Faça a oração de Jabez todas as manhãs e registre um diário, marcando num calendário ou num quadro que você separou especificamente para este propósito.” (pg.95) A ideia de que recitar diariamente a curta oração de Jabez resultará em bênçãos extraordinárias pode ser vista como uma redução excessiva da complexidade da espiritualidade bíblica, aproximando-a de um "passo-a-passo" típico de livros motivacionais. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 169 | P á g i n a O resultado será tão extraordinário que você vai precisar dar um tempo. “Se você é como alguns que usam a oração de Jabez, dentre os quais me incluo, então verá momentos em sua vida nos quais se sentirá tão abençoado que vai parar de orar pedindo mais, pelo menos por algum tempo.” (pg.92) Promessa de Resultados Tangíveis Livros de autoajuda frequentemente prometem mudanças mensuráveis e transformações rápidas. Da mesma forma, Wilkinson sugere que orar como Jabez pode levar a: Expansão de territórios (interpretada como aumento de influência, oportunidades e prosperidade); Proteção contra o mal e fortalecimento espiritual; Realização pessoal e cumprimento de propósitos. Essa ênfase em resultados concretos e benefícios imediatos, muitas vezes associados ao crescimento material ou profissional, reflete o estilo dos autores de autoajuda que buscam atrair leitores com promessas práticas e "palpáveis". Linguagem Inspiradora e Motivacional Wilkinson usa uma linguagem envolvente e motivacional para apresentar Jabez como um exemplo ideal de como qualquer pessoa pode alcançar uma vida plena e abençoada. Essa abordagem é comum na autoajuda, que busca estimular o leitor com frases e conceitos positivos, mas às vezes evita aprofundar a complexidade das dificuldades humanas e da relação com Deus. Adaptação ao Contexto Contemporâneo O livro conecta a oração de Jabez – originalmente situada num contexto bíblico e histórico específico – a situações modernas, como SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 170 | P á g i n a trabalho, finanças, relacionamentos e ministérios pessoais. Essa aplicação prática e personalizada é característica de livros de autoajuda que transformam conceitos antigos ou filosóficos em ferramentas práticas para o público atual. Resumo Crítico: Ao estruturar o livro como um método que funciona, se aplicado com regularidade e fé, ele aproxima sua proposta de uma fórmula prática, característica da autoajuda contemporânea. Embora a oração de Jabez seja inspiradora para muitos, Wilkinson apresenta elementos que o alinham com o estilo sensacionalista de best-sellers de autoajuda, incluindo simplificação, promessas tangíveis e aplicação moderna. A abordagem pragmática e a ênfase em resultados rápidos podem levar a uma interpretação superficial da espiritualidade bíblica e criar expectativas que não refletem necessariamente a experiência cristã como um todo. b) A interpretação (as espinhas do peixe) A escolha do homem Jabez: A escolha de um personagem bíblico pouco conhecido, como Jabez, e a construção de uma narrativa de impacto em torno de sua curta menção e oração (apenas dois versículos) podem ser vistas com certa desconfiança ou, até mesmo, como uma abordagem sensacionalista. Jesus nada falou sobre ele, nem os apóstolos e os escritores do Novo Testamento. Em toda instrução e ensino doutrinário do Novo Testamento ele não é mencionado, nem mesmo na galeria dos heróis da fé (Hb 11). Extrapolações especulativas: Wilkinson infere aspectos da vida, fé e impacto de Jabez que não estão descritos no texto bíblico, apresentando-o como um modelo universal para sucesso espiritual. Isso pode ser percebido como uma SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 171 | P á g i n a tentativa de criar uma história cativante, mesmo que fundamentada em suposições. Vejamos alguns exemplos de interpretações especulativas ou suposições sobre Jabez que não encontram fundamentação bíblica, porém podem induzir o leitor ao que se pretende ensinar ou propor: “Jabez queria ser e fazer mais para Deus e, como podemos concluir a partir do final do versículo 10, Deus lhe concedeu o pedido”. (pg.10) “A partir do contexto e dos resultados da oração de Jabez, podemos ver que havia mais em seu pedido do que um simples desejo de possuir mais terras. Ele queria mais influência, maior responsabilidade e mais oportunidades para deixar uma marca para o Deus de Israel.” (pg.33) Refutação: Não, o texto bíblico não faz qualquer menção a isso. Não há informações para que se faça esse tipo de afirmação. “Imagine passar a infância suportando a gozação dos meninos mais fortes, lembrar diariamente que sua chegada não foi bem-vinda e sentir vergonha por ter um nome esquisito.”(pg.22) Refutação: Não, o texto bíblico não faz qualquer alusão a uma rejeição de Jabezpor ocasião do seu nascimento. Aliás, era comum partos com dor, sendo que em certos casos, como o de Jabez, o sofrimento era bem maior. E, não é por isso que uma mãe rejeitará seu filho amado. “Lá no fundo de minha mente imagino Jabez ... . Oprimido pelo peso da tristeza de seu passado e da melancolia de seu presente, a única coisa que ele consegue ver diante de si é a impossibilidade - um final nada feliz.” (pg.24) Refutação: Não, o texto bíblico não faz qualquer alusão a Jabez ter tido um passado triste, um presente melancólico e um futuro improvável ou sombrio. “Observe que Jabez não começou sua oração pedindo que a mão de Deus estivesse sobre ele. .... Mas quando suas fronteiras começaram a se alargar e SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 172 | P á g i n a tarefas proporcionais ao tamanho do reino de Deus começaram a se colocar diante dele, Jabez sabia que precisava de uma mão divina - e rápido! Ele poderia ter desistido ou tentado continuar por esforço próprio. Em vez disso, ele orou.” (pg.53) Refutação: O autor segmenta a oração em quatro petições, o que é fato; porém, como se cada petição correspondesse a um momento ou a uma etapa distinta da vida de Jabez, sendo que o atendimento da petição e o desenrolar daquela etapa alterasse a situação de tal maneira que demandava ou determinava a necessidade da petição seguinte. Essa estratégia de Wilkinson pode ser vista como muito conveniente para o seu propósito geral com o livro; entretanto, o texto bíblico registra uma única oração com quatro petições. A supervalorização de uma simples oração: “Se você me perguntasse qual foi a frase que mais mexeu com a minha vida, eu diria que, depois da oração que fiz quando fui salvo, o clamor de um arrematador chamado Jabez - lembrado não pelo que fez, mas pela forma como orou e o que aconteceu depois - foi algo revolucionário para mim.” (pg.11) A exaltação que Wilkinson faz a essa oração comum, proferida por um ilustre desconhecido, é impressionante. Ele a expõe como um novo produto, como se fosse um novo medicamento capaz de curar uma doença até então incurável. Segundo os especialistas de marketing a primeira estratégia é a criação da identidade de marca forte. Sugerem eles: “Crie uma narrativa que destaque o impacto único do produto. Mostre como ele resolve um problema real.” Nas páginas deste livro encontramos algumas expressões ou rótulos que sugerem e contribuem para a divulgação e fixação dessa identidade de marca forte: “Orações de Jabez” (pg.77) “Compromissos de Jabez” (pg.40) “Experiência de Jabez” (pgs.42, 83) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 173 | P á g i n a “Pegadas de Jabez” (pg.90) “Bênção(s) de Jabez” (pgs.16, 26, 93) “Mensagem de Jabez” (pg.16) “Milagre de Jabez” (pg.100) Afirmações controversas: “A razão pela qual homens e mulheres de fé se destacam do resto é que eles pensam e oram de maneira diferente daqueles que o cercam.” (pg.20) Refutação: Entendo que não é apenas “pensar e orar diferente” que promove esse destaque. O assunto é muito mais complexo! Existem muitos outros fatores, como, por exemplo, o chamado de Deus, a unção e impulsionamento do Espírito Santo etc. – “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” (Fp 2.13) “Ao clamarmos pela bênção de Deus, não estamos pedindo aquilo que poderíamos conseguir pelo nosso próprio esforço.” (pg.25) “Você não precisa de Deus para dar pequenos passos.” (pg.48) Refutação: Esta afirmação é um pouco forte. Se o Espírito de Deus está em nós e opera em nós será sempre muito difícil distinguir até onde vai a ação do homem e onde começa a ação de Deus. Prefiro clamar pela bênção de Deus em todo o tempo e por todas as coisas, por mínimas que possam parecer, a confiar na força do meu intelecto e do meu braço. “Sem a tentação, nós não pecaríamos.” (pg.73) Refutação: Além das tentações, há outros fatores que, segundo a Bíblia, contribuem para que o ser humano peque. Esses fatores estão relacionados à natureza humana, às condições do mundo em que vivemos e à atuação de forças espirituais. Nascemos com uma natureza inclinada ao pecado (Rm 5.12; Sl 51.5). Essa inclinação, chamada de "carne" ou "velha natureza", é interna e gera desejos SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 174 | P á g i n a contrários à vontade de Deus (Gl 5.16-17). Mesmo sem uma tentação externa, a natureza pecaminosa pode levar ao pecado. Muitas vezes, mesmo conhecendo o que é certo, escolhemos fazer o errado (Rm 7.19). A falta de conhecimento da vontade de Deus ou da sua Palavra também nos leva ao pecado (Os 4.6). Pecamos não apenas por causa das tentações externas, mas também por fatores internos (como nossa natureza pecaminosa e nossas escolhas), pelo ambiente ao nosso redor e pela influência espiritual. A solução bíblica para vencer o pecado está na renovação da mente (Rm 12.2), no andar pelo Espírito (Gl 5.16) e na dependência da graça de Deus (Ef 2.8-9). Jabez certamente cria e agiu de acordo com o que tinha em seu coração. Dali em diante sua vida foi poupada da dor e do sofrimento que o mal traz. (pg.80) Refutação: Em que pese o fato de Deus ter atendido ao seu pedido, é difícil imaginar que Jabez tenha ficado isento de dor e sofrimento. Não há como viver neste mundo sem dor e sofrimento, quer por situações que nos atingem diretamente, quer por situações que atingem ao nosso próximo. Nem Jesus prometeu imunidade de dor e sofrimento para os seus seguidores: “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (Jo 16.33b) “Compartilho esta história porque ela é bem pessoal e, pelo menos para mim, é uma evidência chocante do que a graça de Deus e a oração de Jabez podem fazer.” (pg.98) “Apenas olhando aquilo que está acontecendo, posso lhe garantir que Deus ainda responde àqueles que tem um coração leal e fazem a oração de Jabez.” (pg.99) Refutação: Nos parece demasiadamente ousado e sem fundamentação bíblica afirmar que a oração de Jabez é aquele ingrediente adicional e milagroso, garantidor da resposta de Deus e capaz de produzir resultados extraordinários. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 175 | P á g i n a c) Quatro aspectos importantes (a carne do peixe) Dispensando o “molho exótico” e colocando de lado as “espinhas do peixe”, temos diante de nós uma suculenta e saborosa “carne de peixe” para consumir! Descolando o livro de Wilkinson do contexto de Jabez, vejamos agora os quatro aspectos importantes e aplicáveis ao cristão que almeja ter uma vida abundante, em Cristo, e comprometida com a missão: A BÊNÇÃO DE DEUS “Oh! Tomara que me abençoes” Não há nada de errado em pedir a bênção de Deus para a nossa vida. Jesus mesmo nos ensinou e incentivou a isso: “pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa.” (Jo 16.24); “Pedi, e dar-se-vos-á;” (Lc 11.9). O errado é o alinhamento com a Teologia da Prosperidade, cuja doutrina enfatiza que Deus deseja abençoar os fiéis com riqueza, saúde e sucesso. É o foco apenas nas coisas efêmeras e materiais desta vida, de forma egoísta, buscando apenas o que é de interesse pessoal: “pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.” (Tg 4.3). Pedir a bênção de Deus é lícito e necessário; é reconhecer o poder e soberania divinos em face da limitação humana; é reconhecê- lo como um Pai amoroso que se importa conosco. Tenhamos a convicção de que Deus não raciona respostas a orações como se lhe faltasse habilidade de gerar, prover, curar ou produzir. INVESTIMENTO E CRESCIMENTO “E me alargues as fronteiras,” Não há nada de errado em pedir a Deus o crescimento na esfera pessoal e profissional, ou sucesso nos empreendimentos e negócios. Entretanto, mais nobre ainda é rogar a Deus por: crescimento SENHOR,ENSINA-NOS A ORAR 176 | P á g i n a espiritual; melhor entendimento da sua palavra; mais sabedoria para discernir a sua vontade; mais oportunidade para alcançar outras pessoas para Cristo; para ensinar, aconselhar e edificar vidas; para expandir o ministério e investir mais no crescimento do Reino de Deus. Quando fazemos estes pedidos com sinceridade e perseverança, desejando ter mais influência e responsabilidade na igreja e no Reino, com o propósito de honrar e glorificar a Deus, o Senhor, em sua fidelidade e de acordo com a sua vontade, irá colocar oportunidades e pessoas em nosso caminho. Quando estes pedidos começarem a ser atendidos e os novos desafios estiverem diante de nós, precisaremos reconhecer nisso a intervenção divina, e confiar que não estaremos sozinhos, pois poderemos contar com a orientação e força do Senhor. Deus há de intervir e nos honrar quando resolvemos deixar a nossa zona de conforto para investir e crescer, colocando as prioridades dele acima das nossas. A PARCERIA COM DEUS “Que seja comigo a tua mão” Agora sim, cabe aqui aquela ideia de que esses quatro aspectos estão interligados, de tal modo que o primeiro mobiliza o segundo, que por sua vez mobiliza o terceiro, que mobiliza o quarto. Quando somos contemplados com a bênção de Deus em nossa vida, sendo verdadeiros crentes, desejaremos compartilhar e levar isso adiante, por exemplo, como fez a mulher samaritana. Então, rogamos a Deus por crescimento e expansão e ele também nos atende. Diante de novas situações desafiadoras, geradas pelo crescimento profissional ou empresarial ou eclesiástico, é comum ficar amedrontado, se sentindo incapaz de dar conta e, quem sabe, se SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 177 | P á g i n a questionar se deveria ter pedido a Deus essa “ampliação de fronteiras”. Foi mais ou menos isso que aconteceu com Pedro, quando viu Jesus andando sobre as águas e indo em sua direção. Aparentemente cheio de coragem, ele pede algo desafiador: “Senhor, manda-me ir ter contigo, por sobre as águas.” (Mt 14.29). Depois, ficou amedrontado: “Reparando, porém, na força do vento, teve medo; e, começando a submergir, gritou: Salva-me, Senhor!” (Mt 14.30). Então, é nessas horas que precisamos clamar pela presença e intervenção do Senhor: “E, prontamente, Jesus, estendendo a mão, tomou-o e lhe disse: Homem de pequena fé, por que duvidaste?” (Mt 14.31) “Que seja comigo a tua mão”. A expressão bíblica "a mão do Senhor estava com eles" aparece em diversos contextos nas Escrituras e carrega um significado profundo, relacionado à atuação direta e poderosa de Deus em favor ou sobre um grupo ou indivíduo, por exemplo: É sinal da presença e da aprovação divinas. É Deus agindo de forma ativa, direcionando, protegendo ou abençoando. É uma indicação de que Deus está apoiando e capacitando aquela pessoa ou grupo para cumprir sua vontade. É um sinal da manifestação do poder soberano de Deus, que intervém nas situações humanas, seja para abençoar ou para exercer juízo. Essa mão representa a autoridade divina em ação no mundo. É a capacitação para tarefas difíceis. Em Ezequiel 37.1 a expressão indica que Ezequiel foi capacitado sobrenaturalmente por Deus para receber e proclamar a visão do vale de ossos secos: "Veio sobre mim a mão do Senhor..." SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 178 | P á g i n a “A mão do Senhor estava com eles, e muitos, crendo, se converteram ao Senhor.” (At 11.21) – É a garantia da realização de algo que vai além da capacidade humana. “Chegou a Jerusalém, segundo a boa mão do seu Deus sobre ele.” (Ed 7.9) – Esdras reconhece que o sucesso de sua viagem e de sua missão não dependia apenas de esforço humano, mas da proteção e provisão de Deus. “para que todos vejam e saibam, considerem e juntamente entendam que a mão do SENHOR fez isso, e o Santo de Israel o criou.” (Is 41.20) – Quando as coisas acontecem é insensatez não reconhecer a intervenção divina. E, na grande comissão do fazer discípulos de todas as nações, desafio esse humanamente inatingível, Jesus promete aquela parceria indispensável: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt 28.20b) A PROTEÇÃO DE DEUS “E me preserves do mal,” Vamos relembrar e atualizar aquele encadeamento dos quatro aspectos. Quando somos contemplados com a bênção de Deus em nossa vida, então, rogamos a Deus por crescimento e expansão e ele também nos atende. Diante de novas situações desafiadoras geradas pelo crescimento profissional ou empresarial ou eclesiástico ocorrendo o temor e se sentindo incapaz de dar conta, recorre-se, então, ao suporte e apoio divino: “Que seja comigo a tua mão”. Por fim, chegamos a esse último e importante aspecto. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 179 | P á g i n a As nossas fronteiras foram expandidas e a “mão do Senhor” está conosco, isso significa que avançamos, conquistamos mais territórios para Deus. Então, passamos a lidar com algumas condições perigosas. Na perspectiva bíblica, os três principais inimigos do homem são: 1º) A Carne (nossa natureza pecaminosa) Refere-se à inclinação humana ao pecado, herdada desde a queda de Adão e Eva (Rm 7.18-20; Gl 5.17). Nossa própria natureza nos leva a desejos contrários à vontade de Deus, tornando necessário o domínio do Espírito Santo para vencê-la (Rm 8.13). 2º) O Mundo (o sistema oposto a Deus) O "mundo" não se refere à criação de Deus, mas ao sistema de valores, influências e ideologias contrárias à verdade divina (1Jo 2.15- 17; Tg 4.4). Ele nos atrai com prazeres momentâneos, status e riquezas, afastando-nos da dependência de Deus. Além disso, nele atuam forças que se opõem a Deus e a realização de sua vontade neste mundo. 3. O Diabo (o adversário espiritual) Satanás é descrito como aquele que engana, acusa e busca afastar as pessoas de Deus (1Pe 5.8; Jo 10.10). Ele age por meio de tentações, enganos e oposições espirituais, tentando desviar os crentes do caminho da fé. Para vencer esses inimigos, a Bíblia nos ensina a andar no Espírito (Gl 5.16), renovar a mente pela Palavra (Rm 12.2) e resistir ao Diabo firmados na fé (Tg 4.7). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 180 | P á g i n a O inimigo interno (a carne) Uma vez superados, o medo inicial e a sensação de incapacidade diante desse novo cenário de mais responsabilidades e desafios, sendo sustentados e amparados pela boa mão de Deus, e diante de êxitos e novas realizações, há um risco sutil e perigoso: a inclinação à arrogância. Podemos ser tentados a atribuir o “sucesso”, seja material ou espiritual, exclusivamente às nossas habilidades e esforços, relaxando na dependência de Deus. Esse é o caminho certo para o fracasso! O inimigo externo (o mundo) Relembremos aqui a conhecida máxima de que a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade e no sentido contrário17. Quando se trata da expansão do Evangelho e do Reino de Deus na terra, essa verdade se torna não apenas teórica, mas plenamente verificável. Basta observar na própria Bíblia a intensa perseguição enfrentada por Jesus e, posteriormente, pelos apóstolos e pelos primeiros líderes cristãos. Além disso, é fundamental destacar a implacável sedução do mundo, cujo poder de distração e influência pode desviar um líder de sua missão ou até levá-lo à queda — seja por questões éticas, morais ou espirituais. O inimigo espiritual (o Diabo) Satanás é aquele que, como o ladrão, veio para roubar, matar e destruir (Jo 10.10). Ele tentou Jesus no deserto e o fará com os seus seguidores: “Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar;” (1Pe 5.8). João diz que o mundo jaz no maligno, sob sua forte influência(1Jo 5.19). Assim, quando a luz avança sobre as trevas, quanto mais penetramos em novos territórios para Cristo, mais precisaremos da proteção do Senhor contra os ataques do Diabo. Precisamos não 17 Terceira Lei de Newton. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 181 | P á g i n a descuidar e tomar toda a armadura de Deus (Ef 6.13-18), “embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno.” (Ef 6.16). d) Uma comparação e considerações finais ORAÇÃO DO PAI NOSSO ORAÇÃO DE JABEZ Mateus 6.9-13 1Crônicas 4.9-10 Pai nosso que estás nos céus, – Santificado seja o teu nome; – Venha o teu reino, – Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; – O pão nosso de cada dia dá-nos hoje; Oh! Tomara que me abençoes – E me alargues as fronteiras, E perdoa-nos as nossas dívidas, – Assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; – E não nos deixes cair em tentação; mas livra- nos do mal Que seja comigo a tua mão e me preserves do mal, de modo que não me sobrevenha aflição! (Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre)(*) – Ao comparar a oração modelo de Jesus com a oração de Jabez verificamos que há poucos aspectos em comum. Estranhamos a ênfase que Wilkinson dá a oração de Jabez que não se encaixa na estrutura da oração modelo de Jesus! Aliás, o livro pouco fala sobre o que Jesus ensinou sobre a oração. Enfim, vejo o estilo do livro como uma abordagem que pretende apresentar entusiasticamente caminhos e soluções fantásticas para aqueles crentes que convivem com dúvidas, incertezas e sofrimento, ou seja, aqueles que ainda não foram contemplados com aquela vida abundante, empoderada, repleta de milagres e manifestações espirituais que esperavam alcançar quando entraram para a igreja cristã. O autor se expressa e parece seguir aquela mesma linha de sucesso e enorme venda dos livros de autoajuda, só que naquela outra SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 182 | P á g i n a versão de livros e pregações de “ajuda do alto”. O livro é classificado como um best-seller e menciona palestras com auditórios superlotados. Afinal, o apelo para se experimentar uma vida cristã plena e próspera, bem como a proposta subliminar de um caminho para se tornar melhor do que os demais crentes, tem o potencial de alcançar multidões, principalmente se isso depender apenas de uma fórmula “mágica” de oração. “Você terá um assento na primeira fila de um grande espetáculo: Uma vida cheia de milagres.” (pg. 48). “Bem-vindo ao rol de honra de Deus” (pg. 83). É essencial ter discernimento para diferenciar entre ser grandemente usado por Deus e a ambição pessoal de ser reconhecido pelos outros como alguém muito importante. Além da questão do estilo, vimos que há algumas afirmações um tanto quanto radicais que carecem de fundamentação bíblica. Por fim, pudemos abordar quatro aspectos, “inspirados” na oração de Jabez, que descolados dela apresentam uma interessante realidade que poderá ser vivida por muitos cristãos que ousarem viver uma vida cristã mais dedicada, proativa, frutífera e plena. O propósito da análise e comentários sobre este livro deve ser visto como pedagógico, seguindo o exemplo dos irmãos de Bereia (At 17.11), separando o joio, do trigo, naquilo que ouvimos e lemos. “Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.” (At 17.11) ❖ SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 183 | P á g i n a 16. A ORAÇÃO DE JÓ “Mudou o SENHOR a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o SENHOR deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra.” (Jó 42.10) De certa forma, a oração de Jó, acima referida, pode ser vista como um contraponto a oração de Jabez. Jabez foi atendido e prosperou quando orou a Deus “por si mesmo”. Por outro lado, Jó foi atendido e prosperou quando intercedia “pelos seus amigos”, diz o texto bíblico. Ninguém ouse querer eleger esta oração de Jó como plataforma para especular uma fórmula mágica de sucesso, do tipo – Ore pelos amigos que Deus vai te fazer prosperar!? O que está expresso em Jó 42.10 é o resultado da intercessão de Jó pelos seus amigos. Entretanto, nos cinco primeiros versículos deste capítulo 42 há uma oração de Jó que nos traz alguns ensinamentos. “1 Então, respondeu Jó ao SENHOR: 2 Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. 3 Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade, falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia. 4 Escuta-me, pois, havias dito, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás. 5 Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem. 6 Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza.” (Jó 42) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 184 | P á g i n a Jó mantém uma relação autêntica e exemplar com Deus, mesmo em meio a um sofrimento incompreensível. Apesar das perdas devastadoras (de família, de saúde e de bens), dos sofrimentos e angústias, ele nunca renuncia sua fé, mas dialoga com Deus de maneira sincera – expressando suas dúvidas, queixas e clamor por respostas. Sua vida foi marcada tanto pela profunda fé quanto pela fragilidade humana. Ele se mostra diante de Deus, sem disfarces, buscando compreensão e justiça, mas sempre reafirmando sua confiança na soberania divina. “ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles, pela sua justiça, salvariam apenas a sua própria vida, diz o SENHOR Deus.” (Ez 14.14) A Bíblia menciona e destaca a integridade de caráter e a fidelidade a Deus de alguns de seus personagens. Imagine o próprio Deus destacando a justiça e retidão, como no caso desses três: Noé, Daniel e Jó. No caso de Jó encontramos um maravilhoso e exclusivo duplo destaque. Primeiramente na narração: “Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal.” (Jó 1.1). Depois, pelo próprio Deus, na sua pergunta a Satanás: “Perguntou ainda o SENHOR a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal.” (Jó 1.8; ver tb Jó 2.3). Essa dupla referência ressalta não só a integridade moral e a retidão de Jó, mas também sua profunda reverência e compromisso com Deus, mesmo diante de adversidades extremas. Ao abordarmos um assunto como “oração”, tendo em mente aquele a quem nos dirigimos – Deus, o Todo Poderoso – como nosso amoroso Pai Celestial e, considerando que haverá empenho para se viver uma vida cristã com integridade e fidelidade a Deus, mesmo assim, precisamos lembrar que nada disso nos isentará de passar por SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 185 | P á g i n a provações, com curta ou longa duração. Basta olhar e refletir um pouco sobre o que Noé, Daniel e Jó passaram. A inclusão do caso de Jó, neste estudo, cumpre o propósito de promover uma maior reflexão quanto ao enfrentamento de adversidades, o que é comum nesta caminhada e passagem terrenas, e é quando todos se voltam mais para Deus e para buscar o socorro divino, em oração. O livro provoca a reflexão sobre uma antiga e sempre atual pergunta: “Por que sofrem os justos, se Deus é um Deus de amor e misericórdia?”. O fato é que precisamos nos submeter à soberania de Deus. Numa macrovisão, o livro de Jó narra: 1. A situação inicial de Jó (Jó 1.1-5). 2. As propostas de Satanás, as permissões de Deus e a calamidade resultante na vida de Jó (Jó 1.6 – 2.6). 3. O embate entre Jó e sua esposa (Jó 2.7-10). 4. O silêncio de desolação dos amigos de Jó (Jó 2.11-13). 5. Os diálogos/discursosde Jó e de seus amigos (Jó 3.1 – 37.24). 6. Os diálogos entre Deus e Jó (Jó 38.1 – 41.34). 7. A oração (de arrependimento) de Jó (Jó 42.1-6). 8. A resposta de Deus aos amigos de Jó (Jó 42.7-9). 9. A restauração de Jó (Jó 42.10-17). Os três amigos de Jó – Elifaz, Bildade e Zofar – se equivocaram e foram reprovados por Deus porque se fixaram no mesmo conceito, que se tornou uma acusação: “Todo o sofrimento é consequência do pecado cometido.”(Jó 42.7). O quarto amigo, Eliú, ficou de fora da condenação divina porque fundamentou os seus discursos em outras perspectivas: 1º) Confrontou Jó por sua autojustificação e sua pretensão de ser mais justo do que Deus (Jó 32.2); 2º) Rechaçou os outros três amigos de Jó, por tê-lo condenado (Jó 32.3) e não ter falado de Deus o que era correto (Jó 42.7). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 186 | P á g i n a Quando Deus rompe o seu silêncio e fala diretamente a Jó, a partir do capítulo 38, Jó não tem o que retrucar; ele guarda silêncio (Jó 40.3-5). A essência da resposta de Deus a Jó reside na revelação da infinita sabedoria e soberania divinas, contrastando com a limitada compreensão humana. Em sua resposta, Deus não oferece uma explicação direta sobre o sofrimento de Jó ou uma solução para seu dilema, mas, através de uma série de perguntas retóricas e descrições da ordem da criação, enfatiza os seguintes pontos: a) A grandeza da criação: Deus desafia Jó a explicar a origem e o funcionamento do universo – desde a fundação da terra (Jó 38.4-7) até os mistérios do mar, das estações e dos fenômenos naturais (Jó 38.22-30). Essa exposição demonstra que a complexidade e a magnitude do mundo natural estão além do alcance do entendimento humano. b) A Soberania de Deus: Ao questionar "Onde você estava quando eu fundava a terra?" (Jó 38.4) e ao descrever criaturas poderosas como o Leviatã (Jó 41), Deus deixa claro que ele é o único que detém o controle absoluto sobre toda a criação. Nada ocorre sem o seu conhecimento e permissão, colocando o poder humano em perspectiva. c) A limitação humana: Deus evidencia que, enquanto o homem pode ter algum conhecimento prático do mundo, ele não é capaz de compreender os propósitos e os mistérios do Criador. Jó é convidado a reconhecer a sua própria finitude e a imensidão do universo que Deus criou, e que, por isso, não está em posição de julgar ou questionar os desígnios divinos. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 187 | P á g i n a d) O convite à humildade e à confiança: Ao revelar os detalhes intricados da natureza e dos seres vivos, Deus não apenas reafirma seu poder, mas também convida Jó (e, por extensão, o leitor) a uma postura de humildade e reverência. A mensagem é que, mesmo diante do sofrimento, a confiança em Deus deve prevalecer, pois o entendimento humano é limitado diante do incomensurável plano divino. Por fim, chegamos à resposta de Jó, a sua oração de arrependimento, que contém Adoração, Confissão e Petição. “1 Então, respondeu Jó ao SENHOR: 2 Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado.” Jó se rende ao poder e soberania divinos e que ele tem planos e desígnios para todos, pois ele governa e dirige a história. “3 Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade, falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia.” Jó confessa sua insensatez, falando do que não entendia, e é o que ousamos fazer muitas vezes por achar que os nossos planos têm precedência sobre os planos de Deus. 4 Escuta-me, pois, havias dito, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás. 5 Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem. 6 Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza.” Jó, arrependido e quebrantado faz a sua petição “escuta-me” e ensina-me aquilo que eu te perguntar. No versículo 5 ele faz a mais sublime confissão. Ele então declara o quanto aquela dolorosa experiência trouxe-lhe um resultado extraordinário, uma nova e SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 188 | P á g i n a elevada visão do Senhor! Portanto, é nas mais intensas provações que podemos experimentar a mais significativa visão de Deus. Nas provações mais intensas, quando a alma se vê cercada pela dor e pela incerteza, é nesse aperto que Deus se revela de maneira mais profunda e transformadora. Além de Jó, o apóstolo Paulo também experimentou intensas provações, desde perseguições e prisões até naufrágios, mas em cada uma dessas situações difíceis, ele encontrou momentos de revelação e fortalecimento espiritual. Em suas cartas, Paulo menciona como, mesmo em meio à fraqueza, o poder de Deus se manifestava em sua vida (2Co 12.9-10). Assim, seus desafios foram instrumentos que o conduziram a uma visão mais clara da graça e do poder de Deus, transformando a sua fraqueza em força e testemunho. “Em toda a angústia deles, foi ele angustiado, e o Anjo da sua presença os salvou; pelo seu amor e pela sua compaixão, ele os remiu, os tomou e os conduziu todos os dias da antiguidade.” (Is 63.9) Vejamos alguns exemplos do amparo divino em tempos de provação e angústia: Num tempo de corrupção generalizada da raça humana e da iminência da destruição do dilúvio, Deus se manifestou a Noé (Gn 6.11-13). Em meio à fuga e aflição, Hagar é encontrada por um anjo que a conforta e anuncia promessas para seus descendentes (Gn 16.7-12). No momento crítico em que Abraão se dispôs a sacrificar Isaque, um anjo do Senhor o detém, confirmando a aliança divina (Gn 22.11-18). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 189 | P á g i n a No momento crítico de crise entre Jacó e seu sogro Labão, Deus o orienta a retornar à terra dos seus pais (Gn 31.1-3). No momento de extrema aflição do povo de Israel, no Egito, o Anjo do Senhor aparece a Moisés numa sarça ardente e o chama para libertá-los da escravidão (Êx 3.1-22) Em todos os momentos críticos da jornada de Israel rumo a Canaã, o Senhor esteve presente com Moisés e Josué, suprindo água e alimento, conduzindo nas rebeliões do povo e dando vitória nas batalhas. Diante do enorme desafio da conquista de Jericó, o príncipe do exército do Senhor se apresenta a Josué para fortalecê- lo (Js 5.13-15). Enquanto trabalhava discretamente, Gideão é surpreendido pela visita de um anjo que o chama para libertar Israel da opressão dos midianitas (Jz 6.11-24). Temeroso e muito abalado Elias foge de Jezabel que decretou sua morte. O anjo do Senhor o sustenta e orienta (1Rs 19.1-18). Durante um tempo de profunda angústia e oração pela nação no exílio, Daniel recebe a visita do anjo Gabriel, que esclarece a visão das setenta semanas (Dn 9.20-27). No momento de profunda angústia, enquanto se preparava para a crucificação, Jesus é fortalecido por um anjo que aparece a ele (Lc 22.43). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 190 | P á g i n a Durante a perseguição, enquanto Pedro está preso, um anjo do Senhor irrompe na cela, conduzindo-o para a liberdade de forma milagrosa (At 5.19; 12.5-11). ................... Transcorria o ano de 1988 quando fomos drasticamente surpreendidos com a notícia de que a minha querida mãe Elvira fora diagnosticada com câncer. Mulher de oração, dedicada ao testemunho cristão, não perdia a oportunidade de levar uma palavra de salvação, de conforto e de conselho às pessoas com quem se relacionava. Mulher simples, mas sábia, que nunca se preocupou com cargos, títulos e projeção pessoal. Agindo sempre no anonimato, com muito amor e mansidão deixou um rastro característico de mulher virtuosa: esposa fiel, parceira e incansável nas batalhas da vida; mãe dedicada, caprichosa e atenciosa; sogra imparcial e agregadora; avó carinhosa e chameguenta; uma verdadeiracidadã dos céus empenhada em doar sua vida pela causa do Mestre – Jesus Cristo; sempre conselheira e pacificadora. Mulher cristã evangélica que se enquadra na recomendação de Tiago 3.13 -“Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras.” Em que pese sua vida piedosa, essa devastadora, dolorosa e letal enfermidade a alcançou. Houve uma mobilização geral de oração, na família, na igreja local e em outras igrejas. Pessoalmente eu me entreguei a jejuns e orações, principalmente de madrugada e prostrado, rosto no chão. Foi um tempo precioso de comunhão e intimidade com o Senhor. Os recursos da medicina foram buscados, porém, naquela época, eram muito menores do que os disponíveis atualmente. Para nós foi extremamente doloroso perceber seu estado se agravando a cada dia. Finalmente, em 1990, o Senhor a tomou para si. Em nada isso abalou a nossa fé e confiança em Deus e no seu poder. A sua vontade se consumou e nós a aceitamos! SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 191 | P á g i n a Muito nos confortou e ainda conforta o fato de Deus nos ter concedido a bênção do seu convívio durante tantos anos. Principalmente quando consideramos que, quando ela tinha cerca de 15 anos, morava na ilha de São Miguel – Açores (Portugal), contraiu uma pneumonia grave que não passava. Soube-se que um rapaz conhecido da família, também teve uma pneumonia e acabou falecendo. A apreensão era grande porque os recursos daquela época (1944) e naquele lugar, eram muito limitados. Entretanto, aprouve a Deus curá-la, preservando-a, permitindo que uns seis anos depois se casasse e emigrasse para o Brasil, onde a família se estabeleceu e cresceu. Há em nós aquele permanente sentimento de gratidão a Deus por nos ter dado pais que nos ensinaram no caminho do Senhor e nos deixaram o exemplo de tê-lo amado e servido com intensidade e integridade. Soli Deo gloria! A Deus toda a glória e honra; ontem, hoje e sempre! ❖ SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 193 | P á g i n a 17. O VOTO (PACTO) DE JACÓ “Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta jornada que empreendo, e me der pão para comer e roupa que me vista, de maneira que eu volte em paz para a casa de meu pai, então, o SENHOR será o meu Deus; e a pedra, que erigi por coluna, será a Casa de Deus; e, de tudo quanto me concederes, certamente eu te darei o dízimo.” (Gn 28.20-22) Há muito tempo atrás, conversando com um casal que eu estava evangelizando, eles contaram algo inusitado. Disseram que tanto eles, como algumas pessoas de suas relações (não cristãos), estavam trabalhando como taxistas e fizeram uma espécie de voto a Deus de dar o dízimo, se tivessem sucesso na profissão. Logo me veio à mente o pacto ou voto de Jacó. Sem dúvida, trata-se de uma visão estranha do dízimo, já que Deus quer que, antes de tudo, entreguemos as nossas vidas a ele; sendo, nossos dízimos e ofertas, consequência natural daquele que é o passo mais importante. De certa forma é comum e normalmente oportuno, nós mesmos ou os pregadores e professores da Palavra de Deus, mencionarmos exemplos de personagens bíblicos ou de situações por eles vividas, para aplicação na igreja, ou no cotidiano dos cristãos. Por vezes, nós cristãos, nascidos de novo, podemos ser desafiados, quando enfrentando dificuldades financeiras, desemprego, dentre outras, emocionalmente abalados, a seguir o exemplo de Jacó e fazermos, com Deus, este mesmo pacto. Entretanto, é preciso tomar certo cuidado com esse pacto ou voto de Jacó, como veremos adiante. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 194 | P á g i n a 17.1 As circunstâncias do pacto Em que circunstâncias Jacó disse isso? Quando o patriarca fez esse pacto ou voto ou promessa, ele vivenciava uma crise existencial inimaginável. Ameaçado de morte, pelo seu irmão Esaú a quem enganara. Estava fugindo e deixando para trás tudo o que tinha: sua casa, sua parentela, seus amigos, seu povo e tudo aquilo a que havia se apegado e que fazia parte integrante de sua vida até aquele momento. Olhando para frente, sua situação estava longe de ser confortável. A viagem seria extremamente longa (Gn 28.6, 10): de Berseba a Betel, cerca de 120Km (26 horas de caminhada); e, de Betel a Padã-Arã (Harã), cerca de 860 Km (175 horas de caminhada). Os perigos da viagem, o desconforto e os desafios de sobreviver eram bem reais, e o futuro incerto. Assim, partindo de Berseba no auge da sua aflição, ele chegou à cidade de Luz. Ali ele teve um sonho e o Senhor falou com ele e lhe fez promessas (Gn 28.12-17). Tão forte foi o impacto daquele momento, que ele deu o nome de Betel (que significa “casa de Deus”), àquela cidade. Foi nestas circunstâncias que Jacó, então, fez o seu voto. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 195 | P á g i n a 17.2 Alguns aspectos do pacto a) O estabelecimento de condições (Se……, então…..) Na gramática portuguesa: Se – conjunção subordinativa condicional: exprime sentido de condição. Então – Conjunção coordenativa conclusiva: indica relação de conclusão. Na matemática: Conectivos Lógicos: Se -> Então Que poderia ilustrar o pacto, como abaixo: b) A petulância de Jacó Jacó nasceu quando seu pai Isaque tinha 60 anos (Gn 25.26) e seu avô Abraão 160 anos (Gn 21.5). Abraão viveu 175 anos (Gn 25.7), sendo os seus últimos 15 anos, os 15 primeiros da vida de Jacó. Embora muito idoso, Abraão foi contemporâneo de Jacó, e o seu impactante legado deve ter influenciado sua vida. Afinal, Abraão creu SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 196 | P á g i n a no Senhor (Gn 15.6), fez uma aliança com Deus e dele recebeu promessas (Gn 15.7-21), que foi renovada e incluiu a mudança do seu nome e a sua descendência (Gn 17). Apesar de alguns tropeços, Abraão desfrutou de comunhão com Deus, foi um profeta (Gn 20.7), foi um intercessor (Gn 20.17), foi um dizimista (Gn 14.20), foi fiel ao Senhor (Gn 26.5), foi chamado o pai da fé (Rm 4.11; Gl 3.6-7), tendo recebido grande destaque na “Galeria dos Heróis da Fé” (Hb 11.8-19). Isaque, pai de Jacó, não teve um currículo tão extenso quanto o de seu pai Abraão. Também teve lá os seus tropeços, como qualquer outro ser humano. Mas, por 20 anos orou por sua esposa Rebeca e esta concebeu (Gn 25.19-21, 26); o Senhor aparecia e falava com ele (Gn 26.2-5; 26.24); o Senhor o abençoava e o fazia prosperar (Gn 26.12-14); foi um pacificador, sempre indo adiante, ao invés de ficar e lutar por seus direitos (Gn 15.16-22); foi um cavador de poços (Gn 26.18-22) e foi um edificador de altares ao Senhor (Gn 26.25). Apesar de Jacó ter recebido um legado tão especial quanto esse, ficamos um tanto quanto chocados com o registro de suas palavras: “então, o SENHOR será o meu Deus;”. Se poderia vir a ser seu Deus é porque ainda não era! Ele não escondia de ninguém que o Deus era do seu pai e não dele (Gn 27.20; 32.9). O que dizer da vida pregressa de Jacó, além dessa triste nota? Certa vez ouvi falar de algo como a Síndrome da Terceira Geração. Não é que eu acredite nela ou que ela seja verdadeira e regra geral. Faço aqui apenas uma menção despretensiosa. Se não me falha a memória é mais ou menos assim: a primeira geração é totalmente comprometida com Deus e sua igreja; a segunda geração, nem tanto; e, então, a terceira geração tende a se desviar dos caminhos do Senhor. Estaria Jacó vivendo essa síndrome? Sua vida e vivência familiar havia sido um tanto quanto complicada. Já no ventre materno “lutava” com seu irmão gêmeo Esaú (Gn 25.22). Era um homem pacato e caseiro, protegido da mãe, já que seu irmão Esaú era o preferidodo pai (Gn 25.27-28). Quão prejudicial SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 197 | P á g i n a para a formação de filhos é essa predileção paternal e maternal! Seu primeiro ato, no teatro da vida, foi a sua “artimanha” para comprar o direito de primogenitura do seu irmão (Gn 25.29-34; ver Hb 12.16-17). No segundo ato ardiloso, para enganar o pai Isaque, a roteirista foi a sua mãe Rebeca e ele o protagonista (Gn 27). Isso porque Isaque não escondia sua predileção por Esaú e pretendia dar-lhe a bênção do primogênito (Gn 27.2-4), desconsiderando o episódio da venda daquele direito. Por outro lado, a mãe poderia estar se valendo da resposta que recebera do Senhor, antes do nascimento dos gêmeos: “Respondeu-lhe o SENHOR: Duas nações há no teu ventre, dois povos, nascidos de ti, se dividirão: um povo será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço.” (Gn 25.23; Ml 1.2-3). Ela permanecia de prontidão, quando um dia ouviu o seu marido passar as instruções para Esaú (Gn 27.5) e tratou de colocar seu plano em ação. Plano esse que já deveria estar pronto há algum tempo. Quanta astúcia, imaginação e criatividade de Rebeca para fazer Jacó se passar por Esaú e apropriar-se da bênção da primogenitura! Quanto cuidado com os detalhes! Quanta tensão e emoção no desenrolar do ato (Gn 27.18-40); mentalmente, quase dá para ouvir aquela música de suspense, de fundo. Foi dessa forma que a crise familiar se instalou (Gn 27.41). Entretanto, não faltava criatividade a Rebeca para traçar planos (Gn 27.42-45) e enrolar seu marido (Gn 27.46). Esta é a síntese da desastrosa vida pregressa de Jacó. Agora, fora da tutela da mãe, um tanto quanto despreparado para conduzir sua vida, ele mostra sua petulância e atrevimento ao impor condições a Deus, em vez de se submeter ao Senhor. Ele entristece o Senhor ao mostrar-se ser do tipo que quer ver, para crer: “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram.” (Jo 20.29). Mas Deus tinha um propósito específico na vida de Jacó (Gn 25.23; Rm 9.11-13). Não é o caso aqui de entrarmos em detalhes sobre sua vida posterior. Basta lembrar que ele passará por muitas provações e aflições, será sustentado por Deus e acabará tendo um encontro SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 198 | P á g i n a pessoal com Deus e seu nome será mudado de Jacó, para Israel (Gn 32.22-30). As alianças do Antigo Testamento eram condicionais e estabelecidas por Deus (Dt 11.26-28). Numa época assim, o homem propor um pacto com Deus era sinal de petulância. 17.3 O pacto do cristão Se, como cristãos, tivéssemos que aproveitar alguma coisa do pacto de Jacó, para formularmos o pacto do cristão, creio que poderíamos expressá-lo reestruturando as frases, trocando condição por causa, mais ou menos nesses termos: “Porque tu, Senhor, és o meu Deus, que me compraste com o precioso sangue do teu Filho Jesus. E, creio que tu, Senhor, me conduzirás em paz e segurança. E, serei por ti sustentado, com pão para comer e roupa que me vista. Pois tu, Senhor, estarás comigo durante toda a minha peregrinação neste mundo. Então, eu te darei o dízimo de tudo o que me concederes, incondicionalmente. Pois é de minha responsabilidade que a Casa do Senhor seja edificada e sustentada.” Na gramática portuguesa: Porque – conjunção subordinativa causal: exprime sentido de causa. Então – Conjunção coordenativa conclusiva: indica relação de conclusão. Então, vejamos: Porque tu, Senhor, és o meu Deus, que me compraste com o precioso sangue do teu Filho Jesus. A certeza de que o Senhor é o meu Deus, é sim o fator preponderante para todo o meu agir. Ele sempre será Deus, SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 199 | P á g i n a independentemente do que eu pense ou faça. Ele não precisa provar para quem quer que seja ou fazer algo mais, para que alguém o possa chamar de “meu Deus”. Ele já fez tudo! Ele entregou seu Filho, nos comprando por precioso preço. E, creio que tu, Senhor, me conduzirás em paz e segurança. Os desafios da vida cotidiana são muitos e, por vezes, imprevisíveis. Há muitos elementos e situações que fogem ao nosso controle, pois dependem de terceiros. Porém, isso não pode ser motivo de intranquilidade e de apreensão. Deus está no controle de tudo! Basta a nós, seus filhos, confiarmos nele; descansarmos nele e na força do seu poder! E, serei por ti sustentado, com pão para comer e roupa que me vista. A presença do Senhor junto aos seus remidos é a garantia do seu cuidado e sustento: “Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” (Mt 6.31, 33) Pois tu, Senhor, estarás comigo durante toda a minha peregrinação neste mundo. Aquele que pertence ao Senhor pode tranquilizar seu coração, pois Jesus prometeu estar conosco: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt 28.20b) Então, eu te darei o dízimo de tudo o que me concederes, incondicionalmente. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 200 | P á g i n a A questão central aqui é que a pessoa salva por Cristo não tem o direito de estabelecer ou impor qualquer condição prévia para, só então, responder graciosamente, após ter recebido a “bênção pactuada com Deus”. Na verdade, a pessoa remida por Cristo já recebeu o que há de mais precioso – a Vida Eterna. Desta forma, a vida presente não é mais sua. Assim, tudo o que tem, por Deus concedido, deve ser usado com sabedoria. Este não dará quando receber, porém dará na medida das suas posses, porque já recebeu uma tão grande salvação. Pois é de minha responsabilidade que a Casa do Senhor seja edificada e sustentada. Ainda que o dízimo não seja uma doutrina explícita para a igreja, o povo da Nova Aliança, fica claro nas epístolas do NT que os membros da igreja devem sustentá-la com os seus recursos. E, como fazer isso? Em termos práticos, há pelo menos duas formas: 1ª)Calcula-se o custo total de operação, manutenção e investimento da igreja e se faz um rateio do valor por todos os seus membros, proporcional: “…na medida de suas posses e mesmo acima delas,” (2Co 8.3). 2ª)A partir do valor total arrecadado com dízimos e ofertas, são estabelecidas as condições de operação, manutenção e investimento da igreja. Essa segunda opção parece ser a mais usada pelas igrejas. Não é o caso aqui de tratarmos da doutrina neotestamentária da contribuição, mas, apenas lembrar que é nossa responsabilidade e privilégio sustentar financeiramente e moralmente a igreja de Cristo, sem estabelecer qualquer condição. ❖ SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 201 | P á g i n a 18. ORAÇÕES NA BÍBLIA Há registros na bíblia de muitas pessoas que oraram, mas não “do que” oraram. Apresentamos, abaixo, algumas dessas orações que foram “transcritas” na bíblia: Descrição Texto bíblico Tipo Oração de Jacó Gênesis 32.9-12 Petição Oração de Moisés Deuteronômio 9.25-29 Petição Oração de Manoá Juízes 13.8 Petição Oração e voto de Ana 1Samuel 1.10-13 Petição Oração e cântico de Ana 1Samuel 2.1-10 Agradecimento e Adoração Oração e consulta de Davi (em Queila) 1Samuel 23.10-12 Petição A oração de Davi (na Casa do Senhor) 2Samuel 7.18-29 1Crônicas 17.16-27 Agradecimento, Adoração e Petição Oração de Salomão (particular) 1Reis 3.3-9 Petição (sonho) Oração de Salomão (pública) 1Reis 8.22-61 2Cr 6.12-42 Adoração, Petição e Intercessão Orações de Eliseu 2Reis 6.17, 18 Petição Oração de Ezequias (livramento) 2Reis 19.15-19 Isaías 37.15-20 Adoração e Petição Oração de Ezequias (cura) 2Reis 20.2-3 Isaías 38.2-3 Petição Oração de Jabez 1Crônicas❖ “A Oração e a leitura da Bíblia são como as duas asas de um pássaro; sem elas o pássaro não voa e o crente não cresce espiritualmente, não avança na fé e não se sustenta diante das adversidades da vida." SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 21 | P á g i n a 3. UMA REFLEXÃO INICIAL A concepção que temos sobre as coisas que nos cercam determina o nosso comportamento. Partindo deste princípio, podemos afirmar que "a concepção que temos sobre a atuação de Deus e a oração determina a nossa vida de oração." 3.1 Concepções e Comportamentos Vejamos as duas principais concepções e comportamentos sobre a oração: 1°) A CONCEPÇÃO DE DELEGAÇÃO Raciocínio: Agora me tornei um filho de Deus. Deus conhece todas as minhas necessidades (Mt 6.8). Porque ele me ama, certamente não me deixará em falta (Sl 23), afinal, Paulo diz que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Rom 8.28). Além do mais, eu não somente amo a Deus, como tenho feito conforme diz o salmista: "Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele e o mais ele fará" (Sl 37.5). Comportamento: Como a responsabilidade pelo meu bem-estar é de Deus, vou vivendo o melhor que posso e nem preciso importunar a Deus toda hora com meus pedidos, pois ele já disse que me ajudará. Quando a situação apertar para o meu lado, aí sim orarei com insistência. CUIDADO! SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 22 | P á g i n a 2°) A CONCEPÇÃO DE CORRESPONSABILIDADE Raciocínio: Todas as promessas que Deus fez quanto a me ajudar são verdadeiras, porém estão condicionadas a que eu apresente a ele as minhas necessidades, em oração. Comportamento: Eu faço as coisas como se tudo dependesse de mim e, ao mesmo tempo, oro como se tudo dependesse de Deus. O quadro que melhor ilustra esta concepção é o de Êxodo 17.8-13: O exército de Israel guerreava contra os amalequitas, mas era a mão de Moisés levantada, simbolizando a ação divina, que o fazia prevalecer contra o inimigo. Nesta concepção a oração funciona como uma chave, que abre “portas espirituais”, concedendo acesso aos recursos divinos; ou liga/aciona “dispositivos espirituais” que fazem o sobrenatural acontecer na esfera humana! 3.2 O que é oração? Seria possível definir ou resumir com apenas uma frase o que é a oração? Não parece muito provável, mas há algumas frases e ideias interessantes. Também há outras que procuram nos exortar ou estimular a orar. Por exemplo: “A oração é a fusão do desejo finito com a vontade infinita de Deus.” "A oração é o canal aberto por meio do qual Deus opera a sua vontade." “A oração é a chave nas mãos da fé que pode abrir o celeiro do Céu, onde estão os inesgotáveis recursos divinos para as nossas vidas.” .................... Alguém disse.... SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 23 | P á g i n a Nossa carne não deseja orar. Nossa natureza humana decaída se inclinará para muitas coisas, menos para oração. Por isso precisamos ser insistentemente exortados a nos colocar de joelhos. Ouvir o que grandes homens de oração disseram a respeito disso é uma forma de receber essa exortação. “Eu posso fazer mais que orar, depois de ter orado, mas eu não posso fazer mais que orar, até que tenha orado!” (John Bunyan) “Quando agimos, colhemos os frutos do nosso trabalho, mas, quando oramos, colhemos os frutos do trabalho de Deus.” (Hans Von Staden) “Não há nada que nos faça amar tanto uma pessoa quanto orar por ela.” (Willian Law) “Sempre que Deus deseja realizar algo, ele convoca seu povo para orar.” (Charles Spurgeon) “Quando trabalhamos, nós trabalhamos; quando oramos, Deus trabalha.” (Hudson Taylor) “Eu preferiria ensinar um homem a orar, a dez homens a pregar.” (Charles Spurgeon) “A maior preocupação do diabo é afastar os cristãos da oração. Ele não teme os estudos, nem o trabalho e nem a religião daqueles que não oram. Ele ri de nossa labuta, zomba de nossa sabedoria, mas treme quando nós oramos.” (Samuel Chadwick) “O homem que mobiliza a igreja cristã para orar estará dando a maior contribuição para a história da evangelização do mundo.” (Andrew Murray) “Os homens podem desdenhar nossos apelos, rejeitar nossa mensagem, opor-se a nossos argumentos, desprezar-nos, mas nada podem fazer contra nossas orações.” (Sidlow Baxter) “Nunca pedi coisa alguma em oração sem um dia, afinal, recebê-la de alguma maneira, de alguma forma.” (Charles Muller) "Deus nada faz a não ser em resposta à oração." (John Wesley) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 24 | P á g i n a “Na oração, é melhor ter um coração sem palavras do que palavras sem um coração.” (John Bunyan) Aqueles que deixaram a mais profunda marca nesta terra amaldiçoada pelo pecado foram homens e mulheres de oração. Você descobrirá que a oração é a força poderosa que tem movido não somente a mão de Deus, mas também o homem. Ó Senhor Jesus, quebra esta barreira em nós! E, mais: "A oração é um instrumento poderoso, não para fazer com que a vontade do homem seja feita no céu, mas para realizar a vontade de Deus na terra." (Robert Law) "Orar é invadir o impossível." (Jack Hayford) "Orar não é vencer a relutância de Deus; é tomar posse da sua mais perfeita boa vontade" (Warren Wiersbe) “A fé é onipotente só quando está de joelhos." (Autor desconhecido) ................... Após a conversão de Paulo, o Senhor chamou a Ananias e lhe disse: “Então, o Senhor lhe ordenou: Dispõe-te, e vai à rua que se chama Direita, e, na casa de Judas, procura por Saulo, apelidado de Tarso; pois ele está orando” (Atos 9.11). Esse foi o primeiro clamor do recém- convertido, uma voz que ecoaria ao longo de toda a sua vida. ❖ SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 25 | P á g i n a 4. ORAÇÃO E COMUNHÃO COM DEUS Atentemos para esses "flashes" da vida de oração de Jesus: Mateus 14.23 - "subiu ao monte, a fim de orar sozinho". Marcos 6.46 - "subiu ao monte para orar". Lucas 6.12 - "Retirou-se para o monte a fim de orar, e passou a noite orando a Deus" (antes da escolha dos doze). Lucas 9.18 - "estando ele orando em particular". Lucas 9.28 - "subiu ao monte com o propósito de orar" (na transfiguração). Lucas 11.1 - "de uma feita estava Jesus orando em certo lugar". Lucas 5.16 - "Ele porém se retirava para lugares solitários, e orava". A habitualidade com que Jesus se retirava para lugares solitários, com o propósito de orar, evidência a sua necessidade e prazer em conversar com o Pai, a sós. “Koinonia”, palavra grega traduzida por comunhão, tem um significado muito mais profundo do que se possa imaginar, ou definir. Significa, também, participação, associação, sociedade, fraternidade; sempre usada no sentido religioso. Significa trazermos Deus para as nossas coisas, isto é, termos as nossas coisas em comum com ele. O Pai, o Filho e o Espírito Santo compartilham todos da mesma vida e natureza, desfrutam de comunhão entre si e desejam que os SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 26 | P á g i n a filhos de Deus participem dessa comunhão (Jo 17.21). A comunhão com Deus é a maneira mais frutífera da oração. Não são as generalidades vagas e indefinidas, como "ó Deus, abençoa", mas sim o conversar os nossos assuntos com Deus. Exemplo: Jesus; o servo de Abraão (Gn 24.11-14); Davi (Sl 10; Sl 26); Daniel (Dn 6.10) etc. A comunhão com Deus é como uma via de mão dupla: Deus em Nós Nós em Deus. Deus em nós é a presença do Espírito Santo nos revelando algo da parte de Deus e nos capacitando para o serviço. Nós em Deus, significa projetar nossas vidas em Deus, isto é, penetrar nos seus mistérios e grandeza e, ao mesmo tempo, reconhecer os seus feitos a nosso favor, adorá-lo e render-lhe graças. ❖ “A oração é o colírio de Deus para os olhos da4.10 Petição Oração de Josafá (livramento) 2Crônicas 20.5-12 Adoração e Petição Oração de Ezequias (perdão) 2Crônicas 30.18-19 Intercessão Oração de Esdras (em Jerusalém) Esdras 9.6-15 Confissão Oração de Neemias (em Susã) Neemias 2.4-11 Adoração, Confissão, Intercessão, Petição Oração de Neemias (em Jerusalém) Neemias 4.4-5 Imprecação Oração de Jó Jó 42.1-6 Adoração, Confissão e Petição Oração de Jeremias Jeremias 32.16-25 Adoração e Petição SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 202 | P á g i n a Descrição Texto bíblico Tipo Oração de Daniel Daniel 9.3-19 Confissão, Intercessão, Petição, Adoração Oração de Jonas (no peixe) Jonas 2.1-9 Petição, Confissão e Agradecimento Oração de Jonas (questionamento) Jonas 4.1-3) Petição (questionamento) Oração Modelo (Pai Nosso) Mateus 6.9-13 Adoração e Petição Oração de Jesus (Sacerdotal) João 17 Intercessão Oração de Jesus (no Getsêmani) Mateus 26.42 Petição Oração de Jesus (na cruz – 1ª) Lucas 23.34 Intercessão Oração de Jesus (na cruz – 2ª) Mateus 27.46 Marcos 15.34 Petição Oração de Jesus (na cruz – 2ª) Lucas 23.46 Petição Oração dos irmãos (igreja) Atos 4.23-31 Adoração, Petição e Intercessão “Um crente sonhou, certa vez, que estava visitando uma bela cidade, quando entrou em uma majestosa catedral, para usufruir alguns momentos de meditação. Ficou deslumbrado com a suntuosidade do templo, mas notou apenas a presença de uns poucos fiéis. Continuando na sua contemplação, observou na cúpula da igreja um velho diabo, dormindo, fato para o qual não encontrou explicação. Prosseguindo na sua excursão, dirigiu-se a uma pequena aldeia, onde foi logo atraído pelos cânticos provindos de uma modesta capela de madeira. Nela ingressou e verificou que um número apreciável de homens e mulheres orava, cantava e proclamava "aleluias", e logo percebeu que se tratava de uma reunião de reavivamento. Ao inspecionar o rústico teto de toros da capelinha, descobriu, não sem crescente surpresa, que ali estavam espalhados, em trepidantes movimentos, legiões de jovens e ativos diabos. Dirigiu-se, então, ao que parecia ser o chefe daquela corte, e perguntou, intrigado, a razão dos episódios diferentes que contemplara nos dois templos. Ele explicou: – É muito simples. A catedral é frequentada por crentes tradicionais, frios, e basta mesmo um diabo velho para tomar conta deles. Aqui na capela temos crentes dinâmicos, fervorosos, que oram e cantam, e, por isso, a nossa atuação deve ser correspondente à deles!” (Gelkie & Cowper)(extraído) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 203 | P á g i n a CONCLUSÃO Por que poucos cristãos têm o hábito de orar? Não têm certeza de que Deus os atenderia? Ainda não tiveram uma prova real? Estão tão bem na vida que não sentem necessidade de orar? Creem que Deus lhes concede tudo o que precisam sem ter que ficar lhe incomodando? Não sentem força; estão tão cansados que mal começam a orar e já estão dormindo? Lembremos que: A oração é um ato de Submissão a Deus e a sua vontade: Somos frágeis e incapazes de enfrentar, por nós mesmos, todos os desafios e adversidades desta vida. Os perigos e dificuldades são reais e inúmeros. No entanto, temos um Deus Todo-Poderoso e um Pai amoroso que nos estende sua ajuda. Essa ajuda é acessível por meio da oração, mas só pode ser plenamente recebida quando o coração crente se encontra em submissão a Cristo, reconhecendo-o como Salvador e Senhor. Toda oração deve estar fundamentada na fé. Por isso, devemos pedir crendo, pois esse simples ato já demonstra submissão a Cristo e confiança em seu poder para realizar aquilo que lhe pedimos, conforme a sua vontade. A oração é, antes de tudo, um ato de SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 204 | P á g i n a humildade e dependência, pelo qual nos colocamos sob os cuidados de Deus, reconhecendo que somos limitados e que somente ele pode suprir nossas necessidades. A oração tem uma dinâmica própria: pedir e receber. É um exercício de entrega a Deus, no qual apresentamos nossos anseios e necessidades, aguardando sua resposta com fé e esperança. No entanto, nem sempre a resposta será um “sim”. Muitas vezes, Deus responde com um “não” ou um “espere”, pois, em nossa submissão, aprendemos que a vontade dele é mais importante do que a realização de nossos próprios desejos. Portanto, a oração não deve ser vista apenas como um meio para obter aquilo que queremos, mas como um campo de aprendizado, onde crescemos no conhecimento de Deus e de sua vontade. Embora a Bíblia assegure que podemos receber grandes bênçãos através da oração, o maior benefício está na comunhão que desenvolvemos com o Senhor, confiando plenamente em sua perfeita e soberana vontade. A oração é um ato de Comunhão e Adoração: A oração é também uma expressão de adoração, seja no âmbito individual ou coletivo. A oração do crente deve ser feita "no Espírito" (Ef 6.18), e essa expressão revela tanto a atitude de reverência quanto a comunhão íntima com o Senhor. Mais do que um simples ato de súplica, a oração incorpora os elementos essenciais da adoração, como a confiança plena em Deus, a submissão à sua vontade, a exaltação de sua pessoa e o louvor por suas maravilhas entre os homens. Quando a oração ultrapassa o mero ato de pedir e se torna uma expressão sincera de devoção, ela assume sua verdadeira essência como ato de adoração. Nesse estado, a oração não apenas nos aproxima de Deus, mas também nos ensina sobre ele, moldando-nos segundo a sua vontade. Assim, à medida que nos rendemos em SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 205 | P á g i n a oração, somos transformados conforme a imagem de Cristo, permitindo que a vontade divina se cumpra em nós. A oração é um ato Transformador: A oração se fundamenta no poder criador de Deus para transformar as circunstâncias. Essa mudança não vem do homem, mas do próprio Deus. Ao orarmos, entregamos a ele a ordem presente das coisas, permitindo que sua vontade opere transformação. Muitas vezes, essa mudança começa em nós mesmos, exigindo, antes de tudo, nossa renovação moral. Uma vez transformados, podemos nos tornar instrumentos ativos na modificação das situações ao nosso redor. Além disso, a oração pode influenciar as circunstâncias externas e até gerar mudanças na atitude de outras pessoas, alterando o curso dos acontecimentos. Quando a oração é um verdadeiro exercício da alma, ela nos coloca sob a influência do poder criador de Deus, tornando-nos mais sensíveis à sua vontade, às necessidades do próximo e às nossas próprias carências. Isso também reduz nossos anseios por coisas meramente materiais, elevando o tom espiritual de nossas vidas. Quando utilizada corretamente, a oração não apenas expressa petições, mas se torna uma forma genuína de adoração, refletida em uma vida de serviço a Deus. Além disso, ela gera receptividade entre as pessoas, sendo assim um meio pelo qual muitas orações são respondidas – muitas vezes, sem a necessidade de qualquer milagre visível, mas por meio da ação divina nos corações e nas circunstâncias. A oração é um ato de Auxílio Mútuo O apóstolo Paulo exorta os crentes à prática da intercessão mútua, destacando a importância de orarmos uns pelos outros. Jesus também afirmou que, quando dois ou três concordam em oração, Deus responde ao pedido coletivo (Mt 18.19). Além disso, nenhum SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 206 | P á g i n a crente é tão maduro, forte ou autossuficiente a ponto de não precisar do apoio e das orações de seus irmãos na fé. A intercessão fortalece a comunhão, edifica a igreja e expressa a dependência mútua do corpo de Cristo. Nenhum crente está isolado na batalha espiritual, pois a vitória pertence ao corpo de Cristo como um todo. Como diz o ditadopopular: "Ninguém é uma ilha." A guerra espiritual é vencida coletivamente, e nenhum cristão pode alcançar a plena vitória sem compartilhá-la com seus irmãos na fé, assim como também participa das conquistas dos demais. A glorificação final, tanto de Cristo, o Cabeça, quanto da Igreja, seu corpo, ocorre de forma conjunta (Ef 1.23; 2.6). O crescimento espiritual não se dá de maneira isolada, mas no contexto da edificação mútua de todos os membros do corpo de Cristo (Ef 4.16). Dessa forma, a oração deve envolver toda a comunidade de fé, beneficiando não apenas quem ora, mas também fortalecendo os demais crentes na caminhada cristã. “Quando a intercessão mútua toma o lugar da acusação mútua são vencidas muitas dificuldades entre os irmãos.” (Pv 16.28; 26.20) A oração é um ato Contínuo: “Orai sem cessar.” (1Ts 5.17). Este é o ensino do apóstolo Paulo, ratificando o ensino de Jesus sobre ser perseverante (Lc 18.1-8). Lembremos, ainda que Jesus enfatizou a paternidade de Deus, como um Pai amoroso e generoso, que cuida dos seus filhos. Enfim: Não seja orgulhoso, arrogante, presunçoso, achando que a sua inteligência e capacidade, a força do seu braço, a sua boa condição financeira são suficientes para garantir seu bem-estar, paz de espírito, SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 207 | P á g i n a prosperidade e total sucesso na caminhada terrena. “Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará.” (Sl 37.5). “Descansa no Senhor e espera nele...” (Sl 37.7). O próprio Senhor Jesus, sendo Deus, nos deixou o exemplo mais elevado de uma vida de oração. Compreenda a importância de manter uma disciplina diária de leitura da Bíblia e de oração, reconhecendo que, na vida cristã, o dever e o prazer não são opostos, mas caminham juntos. Tenha fé, creia, ore e espere a resposta de Deus para as suas orações. Não use vãs repetições, não seja formal, dirija-se a Deus com temor e tremor, mas como um Pai Celestial. Perdoe para ser perdoado e ouvido. Os grandes homens e mulheres da bíblia e da história desenvolveram profunda intimidade e comunhão com Deus através da oração. Ore por sua vida e família, pela igreja de Cristo e sua liderança, pelo Reino de Deus e o estabelecimento da sua vontade aqui na terra, pela nação, interceda pelos outros. Faça da oração o item de maior prioridade no seu dia a dia, na sua vida! Que assim Deus nos ajude! “Que o Senhor esteja à tua frente, para te mostrar o caminho certo; Que o Senhor esteja ao teu lado, para te abraçar e te proteger; Que o Senhor esteja atrás de ti, para evitar que homens maus te armem ciladas; Que o Senhor esteja junto de ti, para te amparar quando caíres; Que o Senhor esteja dentro de ti, para te consolar quando estiveres triste; Que o Senhor esteja acima de ti, para te abençoar. Assim te abençoe e te proteja o misericordioso Deus Pai, Filho e Espírito Santo, que te envia agora para transformares o mundo, em nome de Jesus. Amém!” ❖ SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 208 | P á g i n a Orar é dialogar docemente com Deus Angustiados, refugiamo-nos no templo da oração. Cerradas as portas das humanas preocupações e as janelas dos cuidados temporais, abrimos as comportas d'alma. Sobre o altar da humilhação, imolamos nosso ser. Com as lágrimas que marejam nossos olhos, libamos sofridas preces que evolam suave e dulcidamente ao trono da graça. À semelhança dos mais finos incensos, rompem os ares, rasgam a atmosfera. Ousadamente, acomodam-se no coração de Deus. Unem-se Criador e criatura. Entre ambos, sedimenta-se um íntimo e doce colóquio. Um colóquio? Informal. íntimo. Ouve-nos o Senhor. Abrimos-lhe nossos corações. Contamos-lhe nossos problemas. Participamos-lhe nossas apreensões. Confessamos-lhe nossos delitos. Patenteia-se ante o seu imensurável amor todo o nosso ser. Desnudados, permeia-nos sua misericórdia que vai de geração a geração. Deus não se enfada. Pacientemente, decodifica nossos gemidos. Entende-nos, mesmo quando tartamudeamos. Embora não encontremos palavras adequadas para expressar-lhe nossas carências, supre-as bondosamente, amorosamente. A oração leva-nos a participar da natureza do Eterno. Pequenos, compartilhamos sua grandeza. Fracos, em nós se aperfeiçoa seu poder. Distantes, aproxima-nos seu amor. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 209 | P á g i n a Emudecidos, incita-nos seu Espírito a falar insondáveis mistérios. Quando tristes, tange as cordas de nossas almas que desabrocham em cânticos de esperança. Tão simples mover o coração de Deus. Tão complicados, às vezes, nos tornamos. No afã de sermos ouvidos, pronunciamos longos e rebuscados discursos. Escolhemos palavras; sufocamos os anseios d'alma. Estilizamos nossas orações, como se estas tivessem que passar pelo crivo de severos críticos literários. Forçamos a semântica dos termos. Tornam-se estes ocos, pois incapazes de retratar nossa real condição. Monologamos. O que ouvimos? A voz de Deus? Não! O eco de nossa própria voz. A ressonância de uma postura hipócrita que veda nossa comunhão com o Senhor. Aconselha Santo Agostinho: “Quando oras, necessitas piedade, não verbosidade”. Lembremo-nos de que somos pó. Curvemo-nos ante o Senhor. Sua magnanimidade erguer-nos-á. Conversemos com o Senhor, ainda que seja tarde e o dia já declina. Conversemos com o Senhor, ainda que nos restem poucas esperanças. Conversemos com o Senhor, ainda que perseguidos e cerceados pelo inimigo. Conversemos com o Senhor, ainda que estejamos no vale da sombra e morte. Abraham Lincoln, consternado, confessa: “Tenho sido impulsionado a me ajoelhar, muitas vezes, pela convicção esmagadora de que não tinha mais outro caminho a seguir”. Quão grande será o nosso espanto, quando nossas orações se transformarem em um doce diálogo. Cultivemo-lo com a fé. Reguemo-lo com a esperança. Nutramo-lo com o amor. Veremos ser o Eterno o melhor dos amigos, o mais fiel dos confidentes, o mais veraz dos companheiros. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 210 | P á g i n a Reconheceremos serem inúteis nossos artifícios, insuficientes nossas palavras, frágeis nossos argumentos. Falará mais alto nosso quebrantado espírito. Nossa dor será mais eloquente. Nossa aflição alcançará os ouvidos do Pai celestial. Como Abade Pierre, entenderemos que a coisa mais gloriosa e sublime não é a salvação, mas a comunhão com aquele que nos salvou. Orar é dialogar docemente com Deus. É sentir o seu inexcedível toque. Conscientizemo-nos de que, em nosso relacionamento com o Senhor, todo o artifício é dispensável. Discursos? Monólogos? Não passam de veleidades descartadas pela fé, suprimidas pela esperança. Imitemos o patriarca Abraão. Mantinha um relacionamento tão profundo, tão informal com o Senhor, que foi chamado “amigo de Deus”. Cultivemos nossa amizade com o Senhor, por intermédio da oração. (Claudionor de Andrade) (extraído) ❖ SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 211 | P á g i n a BIBLIOGRAFIA 01. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada). 02. A Bíblia Anotada (MC – Editora Mundo Cristão). 03. Bíblia Online – SBB. 04. Bíblia de Estudo da Fé Reformada (R. C. Sproul – Editor geral)(Ed. Fiel – 2020). 05. Bíblia de Estudo de Genebra – Ed. Cultura Cristã / Sociedade Bíblica do Brasil. 06. Bíblia Sagrada – Nova Versão Internacional (NVI). 07. R. N. Champlin, Ph. D. – Enciclopédia de Bíblia, Teologia & Filosofia (Ed. Hagnos). 08. R. N. Champlin, Ph. D. – O Novo Testamento Interpretado – Versículo por versículo – MILENIUM Distribuidora Cultural Ltda. 09. Price, J. M. – A Pedagogia de Jesus 10. McNair, S. E. – A Bíblia explicada. 11. Moulton, Harold K. – The Analytical Greek Lexicon Revised. 12. DicionárioInternacional de Teologia do Novo Testamento. 13. Almeida, Natanael de Barros – Tesouro de Ilustrações – Edições Vida Nova. 14. Wuest, Kenneth S. – Joias do Novo Testamento grego. 15. Wilkinson, Bruce H. – A oração de Jabez – Ed. Mundo Cristão (2001) 16. O Catecismo Maior de Westminster – Ed. Cultura Cristã. 17. Manual Presbiteriano – IPB – Ed. Cultura Cristã. 18. Almeida, Natanael de Barros – Tesouro de Ilustrações – Ed. Vida Nova. 19. Internet / ChatGPT / IA. A luta entre a carne e o espírito é uma realidade constante na vida cristã. Jesus advertiu seus discípulos: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26.41). Paulo reforça essa verdade ao afirmar que a carne luta contra o espírito e o espírito contra a carne, pois são opostos entre si (Gl 5.17). Essa batalha interna busca nos afastar da dependência de Deus e da oração, nos conduzindo a uma vida controlada pelos desejos humanos em vez de pela vontade divina. Somente por meio da vigilância e da comunhão constante com o Senhor, através da oração, podemos vencer essa guerra espiritual e permanecer firmes na fé. Primeira Edição MAR/2025fé.” SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 27 | P á g i n a 5. POR QUE E POR QUEM ORAR? Qual o propósito da oração? Podemos responder a esta pergunta considerando as cinco principais razões da oração, conforme Jesus e o ensino bíblico. A oração pode ser de: Confissão, Adoração, Agradecimento, Intercessão, Petição e Imprecação (descartada no Novo Testamento). Neste estudo, vamos analisar os tipos de oração, focando o seu conteúdo, o que é expresso em palavras. 5.1 Oração de Confissão O verbo confessar, quando usado no contexto da fé cristã, tem dupla conotação: 1ª) Reconhecendo e admitindo ações e condutas erradas: contar, declarar espontaneamente, os pecados a Deus, a fim de obter dele o perdão. 2ª) Recebendo a mensagem do Evangelho, sendo regenerado pelo Espírito Santo: declarar sua fé em Deus e na obra redentora de Cristo. Ambas as confissões podem ser feitas diante de Deus e dos homens. A oração de confissão de fé acontece quando nos dirigimos a Deus e afirmamos ou declaramos nossa crença e fé nele como único Deus poderoso, vivo e verdadeiro e em Jesus Cristo, Salvador e Senhor das nossas vidas. “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 28 | P á g i n a teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação.” (Rm 10.9-10) A oração de confissão de pecados acontece quando nos chegamos para Deus, no início da caminhada cristã, e precisa acontecer ao longo dessa caminhada, pois estamos sujeitos a pecar, embora não vivamos mais na prática contumaz do pecado (1Jo 3.9). É como diz as Escrituras: “Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei. Disse: confessarei ao SENHOR as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado.” (Sl 32.5). “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia.” (Pv 28.13). “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1Jo 1.9). Confessamos a Deus os pecados cometidos (por comissão – pensamentos, palavras e ações; ou, por omissão), para que obtenhamos o seu perdão e, assim, possamos nos aproximar dele. 5.2 Oração de Adoração (Exaltação, Louvor, Glorificação) Num sentido geral, adoração é a forma mais significativa de expressar apreço, homenagem, honra e glória a poderes superiores; sejam eles seres humanos, anjos ou Deus. Numa visão cristã, somente caberia aqui, como alvo e objeto de adoração, uma divindade, um ser supremo, no caso, Deus – “... Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.” (Mt 4.10). Esse também seria objeto de devoção, temor, reverência, veneração e culto. Os patriarcas adoravam construindo altares e oferecendo sacrifícios (Gn 12.7-8; 13.4). a) A oração de adoração é o ato de adorar, venerar. É a forma mais elevada da oração. É a alma deleitando-se em Deus e rendendo-lhe verdadeiro culto, pelo que ele é, e pelo que ele tem feito a nosso favor, em Cristo. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 29 | P á g i n a Encontramos as seguintes referências de Jesus à adoração: Deus é o único objeto de nossa adoração (Mt 4.10; Lc 4.8). A adoração só tem valor quando a nossa vida está de acordo com os preceitos divinos (Mt 15.7-9; Mc 7.7). Deus procura os verdadeiros adoradores que o adorem em espírito (não com expressões externas) e em verdade (com sinceridade) (Jo 4.20-24). Adorar a Deus é prostrar-se submisso diante dele, cultuá-lo, dedicar-lhe amor extremo, devoção e veneração como o ser mais sublime do universo (Gn 24.26; Êx 34.8; 1Sm 1.3; Mt 8.2; 9.18; 15.25). Exaltar a Deus é colocá-lo em lugar alto, elevá-lo, erguê-lo, exalçar e levantar seu ser acima de qualquer outro. b) A oração de adoração é o ato de louvar ou elogiar. Um dos poucos, talvez o único pronunciamento de Jesus a respeito do louvor acha-se em Mateus 21.16: “...Da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor?”. Jesus traz à tona a mesma ideia do Salmo 8.2. É na inocência e espontaneidade daqueles que são considerados insignificantes para o mundo que Deus encontra o perfeito louvor. Seria “louvor” e “agradecimento” termos sinônimos? Certamente que não, apesar de nem sempre percebermos a diferença sutil entre eles. Vamos arriscar uma explicação, usando o seguinte exemplo de Lucas 18.35-43. Bartimeu era cego, portanto não dispunha de um dos mais importantes sentidos, a visão. Um dia Jesus operou um milagre na sua vida e então passou a ter seus olhos funcionando normalmente. Pois bem, consideremos agora duas perguntas. 1ª) O SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 30 | P á g i n a que ele recebeu? A visão. Então ele tem motivo para agradecer a Deus por esta bênção. 2ª) Por que ele recebeu a visão? Por causa do poder e da misericórdia de Deus. Então ele tem motivo para louvar a Deus pelo seu poder e misericórdia. Em outras palavras, nós agradecemos a bênção (o efeito) e louvamos a Deus pelos seus atributos (a causa), no caso, a sua misericórdia. O livro dos Salmos é um tesouro de orações e louvores concedido por Deus. Nele, o crente encontra conforto, bênção e ânimo para todas as experiências e circunstâncias da vida. É nos Salmos que iremos encontrar as mais variadas expressões de louvor: Salmos 21.13 – “louvamos o teu poder”. Salmos 56.10 – “cuja palavra eu louvo”. Salmos 59.16 – “louvarei com alegria a tua misericórdia”. Salmos 117.1-2 – “Louvai.... porque mui grande é a sua misericórdia para conosco, e a fidelidade do Senhor subsiste para sempre”. Salmos 119.164 – “Sete vezes no dia eu te louvo pela justiça dos teus juízos”. Salmos 145.4 – “Uma geração louvará a outra geração as tuas obras”. Salmos 150.2 – “Louvai-o pelos seus poderosos feitos, louvai-o consoante a sua muita grandeza” (não os feitos, mas pelos feitos). E, ainda: Lucas 19.37 – “... a louvar a Deus em alta voz, por todos os milagres que tinham visto”. A motivação do louvor encontra-se nos atributos de Deus! Todas as coisas que conhecemos, as conhecemos por seus atributos, e a descrição de qualquer objeto é a descrição de “alguns” dos seus SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 31 | P á g i n a atributos. Quando queremos tornar conhecido um velho amigo já falecido, por exemplo, dizemos: Fulano de tal era honesto, trabalhador, bom marido e pai, não tinha vícios etc. Tudo isso são atributos e é pelos atributos que conhecemos e distinguimos pessoas e objetos. Deus não é um atributo, nem um conjunto de atributos. Deus é um ser pessoal cuja natureza se manifesta de diferentes maneiras, através das quais podemos então afirmar que é assim e assim. Compreenderemos melhor a essência de um ser, à medida que formos conhecendo e nos relacionando com seus diferentes atributos. Louvar a Deus é, portanto, enaltecê-lo pelos seus atributos. Obviamente, ninguém precisa fazer um curso de teologia para descobrir os atributos de Deus. Aliás, teologia (ciência de Deus) se aprende mais à medida que nos relacionamos, na prática, com ele, através do Espírito Santo! Louvar a Deus é expressar o reconhecimento da sua grandeza, dos seus méritos, dos seus atributos incomparáveis e inigualáveis: Onipotência, Onipresença, Onisciência, Eternidade, Amor, Perfeição, Santidade, Verdade, Justiça, Fidelidade, Misericórdia etc. (1Cr 16.4; Dt 10.21; 26.16). Glorificar a Deus é atribuir-lhe glória eterna e celestial e a ninguém mais (Sl 18.49; 22.23; Jo 21.19; Rm 1.21). Nós adoramos, exaltamos, louvamos e glorificamos a Deus por quem ele é e por seu poder de fazer: “Disse-lhe mais: Eu sou o Deus Todo-Poderoso;...” (Gn 35.11). O ser e o fazer estãointimamente relacionados e são inseparáveis. Definir é indicar o significado preciso de; estabelecer com precisão; determinar; fixar os limites, delimitar, demarcar; interpretar claramente; dar as qualidades distintivas de; retratar. Conceituar é avaliar, atribuir qualidade ou juízo de valor. Não podemos definir quem é Deus, apenas conceituá-lo. Na verdade ele é o que é independentemente do que se pensa dele: “Disse Deus a SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 32 | P á g i n a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós outros.” (Êx 3.14). Entretanto, para nós simples mortais podermos conhecer, pelo menos um pouco de quem ele é, ele precisou se manifestar a nós através de seus grandes e incomparáveis feitos. Faraó não acreditava que o Deus dos hebreus fosse superior aos seus deuses; por isso Deus precisou usar o seu “poder de fazer” e enviou as dez pragas como sentença de juízo contra os deuses do Egito (Êx 12.12). Então, Moisés pôde expressar o sentimento de todos: “Ó SENHOR, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu, glorificado em santidade, terrível em feitos gloriosos, que operas maravilhas?” (Êx 15.11); assim como também Jetro, seu sogro: “agora, sei que o SENHOR é maior que todos os deuses, porque livrou este povo de debaixo da mão dos egípcios,” (Êx 18.11). Da mesma forma, nós seres humanos, temos nosso caráter, isto é, aquele conjunto de traços psicológicos e morais que caracterizam cada indivíduo; porém, no nosso agir e fazer cotidianos, manifestamos aos outros o que realmente somos, o que se convencionou denominar de reputação, isto é, conceito que os outros formam a nosso respeito. Portanto, na oração de adoração, nós adoramos, exaltamos, louvamos e glorificamos a Deus por quem ele é: “Tributai ao SENHOR a glória devida ao seu nome; ....; adorai o SENHOR na beleza da sua santidade.” (1Cr 16.29; ver tb Sl 96.9); e, pelos seus poderosos feitos: “Louvai-o pelos seus poderosos feitos; louvai-o consoante a sua muita grandeza.” (Sl 150.2; ver tb Sl 59.16; 138.2; Is 25.1) Adoração: Só a Deus (Mt 4.10). Fruto de um compromisso de vida (Mt 15.7-9). “Em espírito” (não exatamente com expressões externas) e “em verdade” (com sinceridade) (Jo 4.20-24). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 33 | P á g i n a TEXTOS PARA SUA INSPIRAÇÃO “Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do SENHOR, que nos criou.” (Sl 95.6) “Adorai o SENHOR na beleza da sua santidade; tremei diante dele, todas as terras.” (Sl 96.9) “Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.” (Ap 4.11) “Só tu és SENHOR, tu fizeste o céu, o céu dos céus e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto há neles; e tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus te adora.” (Ne 9.6) “Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só tu és santo; por isso, todas as nações virão e adorarão diante de ti, porque os teus atos de justiça se fizeram manifestos.” (Ap 15.4) “Quanto a mim, exultarei para sempre; salmodiarei louvores ao Deus de Jacó.” (Sl 75.9) “Oh! Tributai louvores ao Deus dos céus, porque a sua misericórdia dura para sempre.” (Sl 136.26) “Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus; e em toda a terra esplenda a tua glória.” (Sl 57.5) “Aleluia! Louva, ó minha alma, ao SENHOR. Louvarei ao SENHOR durante a minha vida; cantarei louvores ao meu Deus, enquanto eu viver.” (Sl 146.1-2) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 34 | P á g i n a “Ao Deus único e sábio seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém!” (Rm 16.27) A Deus, supremo Benfeitor, Anjos e homens deem louvor; A Deus o Filho, a Deus o Pai, E a Deus Espírito, glória dai. Amém. (Hinário Novo Cântico – nº 6) 5.3 Oração de Agradecimento (Ações de Graças) Agradecimento ou ações de graças são palavras ou outras manifestações que denotam gratidão. O apóstolo Paulo recomenda: “Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco.” (1Ts 5.18). Ele não diz “por tudo”, mas “em tudo”, isto é, em todas as situações; tanto em tempos de tranquilidade, como em tempos de provações e dificuldades. Não com hipocrisia ou fazendo por fazer; mas crendo firmemente e reconhecendo que Deus tem um propósito abençoador em tudo o que nos acontece: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Rm 8.28). Na oração de agradecimento ou ações de graças, nós demonstramos nosso apreço e reconhecimento a Deus pelo que ele fez por nós. Não devemos engrossar as estatísticas dos que recebem bênçãos de Deus, como aqueles nove dos dez leprosos, que não voltaram para agradecer (Lc 17.17). Precisamos ser zelosos e cuidadosos, reconhecendo que as bênçãos recebidas não foram por mero acaso, nem devido aos nossos méritos pessoais ou, tão somente, seriam o resultado das nossas habilidades e competência. Não sejamos filhos ingratos! Antes, porém, sejamos obedientes à instrução bíblica: “Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 35 | P á g i n a chamados em um só corpo; e sede agradecidos.” (Cl 3.15). Enfim, sejamos agradecidos a Deus pelas bênçãos recebidas, como o ar que respiramos, o alimento, as vestes e, principalmente, pelas bênçãos espirituais, mas, também, pelas provações. Jesus Cristo nos deixou o grande exemplo de ações de graças: Pelo alimento (Mt 15.36; Mc 8.6; Jo 6.11, 23). Pela revelação de Deus aos homens (Mt 11.25; Lc 10.21). Pela manifestação da graça de Deus, simbolizadas no pão e no vinho (Mt 26.27; Mc 14.23; Lc 22.17,19). Pela resposta de Deus, sentida antecipadamente pela fé (Jo 11.41). O agradecimento a Deus implica numa percepção prévia do provimento de Deus a nosso favor, a favor de outrem ou a favor do seu Reino. A menos que tenhamos uma compreensão correta dessa verdade, não encontraremos motivação para agradecer a Deus! (Tg 1.17; Cl 4.2). Trata-se de um ato de culto, devoção, ordenado por Deus (Sl 50.14; Fp 4.6; 1Ts 5.18 - "Em tudo"; Ef 5.20 - "por tudo"; At 5.41; 16.25). 1Ts 5.18 - "Em tudo dai graças, porque está é a vontade de Deus em Cristo para convosco". Na vontade de Deus a nosso respeito muitas coisas estão incluídas. Entre elas figura o nosso senso de gratidão. Essa atitude faz- nos lembrar nossa posição de dependência dele; faz-nos recordar a sua bondade para conosco, o que leva nossos espíritos a entrarem em harmonia com ele, reconhecendo que ele é o grande Benfeitor da humanidade, aquele a quem devemos toda a vida e sustento. Nesse reconhecimento, porém, devemos envolver-nos com "vidas agradecidas", e não meramente com externas "ações de graça". Nossas próprias vidas diárias, pois, deveriam ser uma forma de agradecimento. Em face de toda bondade e de todos os benefícios divinos, deveríamos dedicar nossas vidas a nosso Pai! O exemplo de SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 36 | P á g i n a Jesus: “Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer;” (Jo 17.4) "Em Cristo Jesus" – É na pessoa de Cristo que nos são conferidas todas as bênçãos espirituais (Ef 1.3), pelo que ele mesmo é a razão, a fonte e inspiração de toda a nossa gratidão (1Pe 4.12-13). Se alguém precisar de inspiração, pode encontrar em muitos Salmos. Há lá uma frase muito marcante: "Rendei graças ao Senhor, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre" (Sl 106.1; 107.1; 118.1; 136.1-26). 5.4 Oração de Intercessão Para canalizar na direção de outros os recursos divinos! Interceder é pedir, rogar por outremou por alguma coisa. A oração a favor de outros, pelas suas necessidades, deve ter precedência sobre a oração por nós mesmos, mostrando assim nossa maturidade cristã. Crianças mostram sua imaturidade quando querem todos os brinquedos para si. Crentes imaturos demonstram essa mesma falta de crescimento espiritual quando somente pensam em si e nos seus. Não orar por outros pode ser considerado até um pecado contra Deus: “Quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o SENHOR, deixando de orar por vós; antes, vos ensinarei o caminho bom e direito.” (1Sm 12.23). Vale lembrar que Jó foi abençoado quando orava pelos seus amigos (e que amigos?!): “Mudou o SENHOR a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o SENHOR deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra.” (Jó 42.10). E, Jesus lança um desafio ainda maior: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem;” (Mt 5.44). Portanto, somos instruídos a interceder por todos, inclusive pelas autoridades e governantes: “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 37 | P á g i n a autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito.” (2Tm 2.1-2). Para sermos mais práticos e eficazes no cumprimento da instrução bíblica, é interessante manter uma lista ou caderneta de oração que nos ajude a lembrar daquilo e daqueles por quem devemos orar. No caso da intercessão, podemos organizar nossas anotações da seguinte forma: – Pela Igreja e Reino de Deus: Para canalizar os recursos divinos na direção do seu Reino aqui na terra. • Pelas Igrejas Locais e Congregações (Liderança, Membros e Atuação). • Pela igreja perseguida. • Pela unção espiritual sobre os mensageiros de Deus (Pastores, Missionários, Pregadores, Professores e Escritores). • Pelas Instituições Paraeclesiásticas (Missionárias, de Ensino, de Assistência Social etc.). • Pelos Projetos / Programas Especiais. • Pela ampla tradução, impressão, distribuição, exposição (pregação e ensino), leitura, entendimento e prática da Bíblia, a Palavra de Deus. • Pela propagação do Evangelho e a salvação dos não alcançados. • Pela santificação dos remidos do Senhor. • Por verdadeiros adoradores que adorem ao Pai em espírito e em verdade. • Pelo serviço contínuo e incansável dos servos de Deus em favor de todos, principalmente dos domésticos na fé. – Pelo nosso Próximo: Na Família, na Vizinhança, na Igreja, na Escola, no Trabalho etc. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 38 | P á g i n a • Salvação: para que recebam a Jesus como Salvador e Senhor de suas vidas. • Sustento: Para que obtenham o necessário à sua subsistência. • Proteção: para que sejam guardados do mal (acidental ou intencional). • Santificação: para que vivam uma vida santa diante de Deus e dos homens. • Cura: para que sejam curados do corpo, da mente e das emoções. – Pela Nação e Instituições: Para que cumpram a sua missão de desenvolvimento, administração pública e cuidado dos cidadãos. • Pela Nação: Em nível Federal, Estadual e Municipal. • Por Liberdade, Justiça, Bem-estar e Paz no Mundo. • Pelo quarteto da vulnerabilidade: VIÚVAS, ÓRFÃOS, ESTRANGEIROS e POBRES (Zc 7.10; Êx 22.21-22). • Pelos Encarcerados. • Pelas instituições que cuidam de pessoas enfermas ou necessitadas. • Pelas empresas e instituições que empregam pessoas. – Pelas Autoridades constituídas: Para que exerçam suas respectivas funções com sabedoria, competência, probidade, lisura e honestidade. • Familiares: Pais, Responsáveis. • Eclesiásticas: Pastores, Presbíteros, Diáconos. • Empresariais: Lideranças. • Governamentais: Civis e Militares. Executivo: Presidente, Ministros, Governadores, Prefeitos, Secretários etc. Legislativo: Senadores, Deputados Federais e Estaduais, Vereadores. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 39 | P á g i n a Judiciário: Ministros, Desembargadores, Juízes etc. Forças Armadas, Polícias, Forças de Segurança. Sobre intercessão, Jesus ainda nos ensina e apresenta outros motivos: Para se manterem firmes “Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos.” (Lc 22.32) A característica mais comum entre aqueles que estão desfalecendo na fé é ter deixado de orar. Não encontram mais motivação para isso. Os canais entre eles e Deus estão fechados. Através da intercessão de outrem Deus pode influenciar essa vida, criando situações através das quais a sua fé possa ser fortalecida. Para serem guardados do mal “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal.” (Jo 17.15) Vivemos em um mundo no qual somos diariamente confrontados com todo tipo de mal, maldade e violência que ameaçam nossas vidas, nossos princípios e valores, bem como os nossos bens. Há o mal natural, acidental e o intencional. Sem dúvida necessitamos da intervenção e proteção divinas. Para serem santificados “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.” (Jo 17.17) A intercessão é uma forma nobre de oração. Jesus nos deu esse exemplo. Ele é o intercessor por excelência. Neste capítulo 17 de João temos o início, na terra, do exercício da função de intercessor que ele SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 40 | P á g i n a exerce no céu, desde que subiu para junto do Pai. No Tabernáculo, o altar do incenso encontra-se exatamente em frente do véu, que separava o Santo Lugar, do Santo dos Santos. Ali eram queimadas ervas aromáticas continuamente (Êx 30.8). O incenso queimado nesse altar áureo, simboliza a intercessão contínua de Jesus Cristo pelos seus remidos. Notemos os textos referentes a Jesus – Ele é: Intercessor qualificado (Rm 8.33-34) - "o qual está à direita de Deus, e também intercedendo por nós" Intercessor permanente (Hb 7.25) - "vivendo sempre para interceder por eles". Intercessor compassivo (Hb 9.24) - "para comparecer, agora, por nós, diante de Deus". O Espírito Santo é também um intercessor que habita em nós (Rm 8.26-27). Seria válido concluir que a intercessão é uma responsabilidade exclusiva de Jesus Cristo e do Espírito? De forma alguma! Podemos enfatizar que se estas duas pessoas da trindade se dedicam a este mister, nós devemos nos dedicar muito mais. a) Exemplos de Intercessão: Epafras, conservo de Paulo e chamado por Paulo de "fiel ministro" (Cl 1.7) nos dá o exemplo de uma grande abnegação na oração pelos crentes de Colossos (Cl 4.12). Como o provável organizador daquela igreja, ministrou-lhes a Palavra e nos dá um exemplo de serviço sacerdotal mediante a oração. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 41 | P á g i n a Entretanto, um exemplo impressionante de intercessão pode ser visto na vida de Paulo, o apóstolo. Ele faz questão de dizer aos destinatários de suas cartas que não deixava de interceder por eles. Isto era mencionado preferencialmente no início da carta. Vejamos: Pelos crentes em Roma (Rm 1.9-10) "incessantemente faço menção de vós em todas as minhas orações". Pelos crentes em Corinto (1Co 1.4) "sempre dou graças a Deus a vosso respeito". Pelos crentes em Éfeso (Ef 1.16-17) "fazendo menção de vós nas minhas orações". Pelos crentes em Filipos (Fp 1.4) "fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, em todas as minhas orações". Pelos crentes em Colossos (Cl 1.3) "damos sempre graças a Deus,..., quando oramos por vós". Pelos crentes em Tessalônica (1Ts 1.2) "mencionando-vos em nossas orações, e sem cessar". Por Timóteo (2Tm 1.3) "porque sem cessar me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia". Por Filemom (Fm 4) "lembrando-me semprede ti nas minhas orações". Paulo tinha o importante hábito de interceder e de dar graças a Deus por todos aqueles irmãos. Muitas vezes também manifestava o desejo de que orassem por ele (Cl 4.3; Fp 1.19). SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 42 | P á g i n a Na verdade, as necessidades das pessoas são muitas e estão diante de nós. Resta-nos sensibilizar-nos e levá-las a Deus, em oração. b) Por quem interceder? Pelo nosso próximo (Lc 22.32; Tg 5.16). Pelos que nos perseguem ou caluniam (Mt 5.44; Lc 23.34; Lc 6.28). Temos em Estêvão um nobre exemplo dessa intercessão (At 7.60). Todas as pessoas, sem qualquer distinção, devem ser alvo das nossas orações, para que os recursos divinos sejam canalizados na direção de suas vidas, suprindo as suas necessidades. O apóstolo Paulo ratifica a instrução de Jesus, ressaltando alguns casos especiais, isto é, as autoridades constituídas: "Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graça, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda a piedade e respeito. Isto é bom e aceitável diante de Deus nosso Salvador,” (1Tm 2.1-3). Aqueles que estão investidos de autoridade têm poder de tomar decisões que afetam muitas vidas. Portanto, devemos interceder por eles, para que Deus os use na tomada de decisões acertadas. Exemplo de autoridades: pais, patrões, juízes, governantes, políticos etc.). 5.5 Oração de Petição (Súplica, Clamor, Invocação) Para canalizar em nossa direção os recursos divinos! SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 43 | P á g i n a A oração de petição ou súplica ou clamor ou invocação consiste em cada um apresentar a Deus as suas próprias necessidades. A súplica caracteriza-se por uma forma de pedir com humildade e insistência. Clamar é uma forma mais intensa de pedir: com veemência, implorar, rogar. A invocação é o ato de chamar, pedindo socorro. “Ouve, SENHOR, a minha súplica, e cheguem a ti os meus clamores. Não me ocultes o rosto no dia da minha angústia; inclina-me os ouvidos; no dia em que eu clamar, dá-te pressa em acudir-me.” (Sl 102.1-2). Às vezes, a petição tem o propósito de obter o esclarecimento divino quanto a determinada situação (Jr 32.16-25), ou para se conhecer a sua vontade (1Sm 23.10-12), ou, até mesmo, para se questionar a atitude de Deus (Jn 4.1-3). É através da oração de petição que rogamos a Deus que os seus infinitos recursos sejam canalizados para a nossa vida, suprindo-nos nas nossas fraquezas e limitações naturais e dotando-nos de força e capacidade superiores. Somos instruídos biblicamente a compartilhar e transferir para Deus as nossas preocupações e ansiedades: “lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.” (1Pe 5.7); “Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças.” (Fp 4.6). Somos desafiados por Deus a invocá-lo: “Invoca-me, e te responderei; anunciar-te-ei coisas grandes e ocultas, que não sabes.” (Jr 33.3). Também somos incentivados por Jesus a recorrer ao nosso Pai Celeste, na certeza de que seremos ouvidos: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, abrir-se-lhe-á.” (Mt 7.7-8). Em termos práticos, o que devemos pedir a Deus (entre outras coisas)? SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 44 | P á g i n a • Vitória Espiritual: para que eu alcance vitória sobre as tentações e sobre as investidas do maligno. • Santificação: para que eu viva uma vida santa diante de Deus e dos homens. • Testemunho Cristão: para que eu seja um instrumento nas mãos de Deus levando a mensagem de salvação a outras pessoas. • Necessidades Fisiológicas: para que eu obtenha todas as coisas necessárias à manutenção da vida do corpo, da mente e das emoções (saúde, moradia, roupa, alimento, água, ar etc.). • Necessidade de Proteção: para que eu seja guardado do mal (acidental ou intencional). • Necessidade de Cura: para que eu seja curado do corpo, da mente e das emoções. • Necessidades Profissionais e Financeiras: bom emprego, bom ambiente de trabalho, realização profissional, independência financeira. • Necessidades Familiares e Sociais: cônjuge segundo a vontade de Deus, harmonia conjugal, família ajustada, parentes amigáveis, amigos verdadeiros, vizinhos tranquilos etc. • Necessidades Pessoais: Sabedoria, Paz, Equilíbrio, Realização, Sentimento de Utilidade etc. Sobre petição, Jesus ainda nos ensina e apresenta outros motivos: Para não entrar em tentação (Mt 6.13; Lc 11.4; Mt 26.41; Lc 22.46) Isso trataremos adiante, no tópico sobre as orações de Jesus. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 45 | P á g i n a Para obter vitória sobre as forças malignas “Mas esta casta não se expele senão por meio de oração e jejum.” (Mt 17.21) “Respondeu-lhes: Esta casta não pode sair senão por meio de oração e jejum.” (Mc 9.29) Em Marcos 9.29 Jesus está ensinando haver vários níveis de poder espiritual entre os demônios. A experiência mostra que a maioria deles pode ser expelida pela palavra de ordem do servo de Deus, na autoridade de Jesus. Outros, porém, são mais difíceis. Jesus ensina aqui que a solução vem através da oração e jejum, isto é, de um maior preparo espiritual. Clarita Villanueva, jovem de 18 anos, foi apanhada nas ruas da cidade de Manilha (Filipinas) por vagabundagem e levada para a prisão de Bilibid. Ela sofria perturbações supostamente de origem diabólica. O que ocorreu na cadeia foi noticiado, de forma sensacional, pelos jornais, em primeira página, durante alguns dias de maio de 1953. Na cadeia, ela deixou uma banca com cerca de 100 examinadores, entre os quais juízes, policiais e médicos, perplexos com o fato de estar sendo mordida por seres invisíveis. Ela estava bem, quando, de repente, suas expressões faciais eram de angústia e terror, gritava e lutava, batendo nos braços e ombros, como se estivesse afastando “a coisa”. Disse que os fantasmas eram em número de dois – um alto, de olhar mau, escuro e envolto em preto; e o outro baixo e angelical, com cabelos brancos, sendo este último o responsável pelo maior número de dentadas. Marcas de dentes, molhadas de saliva, confirmavam os lugares das mordidas. Todas as testemunhas afirmaram que, durante todo o tempo, ela não fora capaz de morder a si mesma. Espíritas, feiticeiros, procuravam solver o enigma, após terem os médicos falhado em dar explicações convincentes; porém, também sem sucesso. Foi ouvido um assustador programa de rádio, onde colocaram no ar durante 45 minutos, uma entrevista com o SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 46 | P á g i n a médico responsável, bem como, toda a confusão no momento da possessão de Clarita, que o Rev. Lester Sumrall e o Pr. Roberto McAlister resolveram entrar em contato com aquela jovem. Já tinham orado a noite toda e sentido que essa era a vontade de Deus. Por intermédio do gabinete do prefeito, eles conseguiram marcar uma entrevista com o médico responsável por Clarita. Este médico, arrasado e amedrontado, confessou-lhes que, nos seus 38 anos de prática médica, jamais aceitara a teoria da existência, no universo, de uma força não material, mas que este fato mudara a sua filosofia de vida. Os três poderes do universo: Positivo (Deus), Neutro (Homem) e Negativo (Diabo). O poder positivo (Deus) é que neutraliza o poder negativo (Diabo) e impede a destruição do mundo. Marcaram para o dia seguinte a oração pela moça. Ficaram em oração e jejum. Quando os pastores chegaram, a moça reagiu (em inglês) gritando para que se retirassem. Todos se ajoelharame o Rev. Lester ordenou-lhes que deixassem a moça e eles partiram. Os demônios voltaram. Ele perguntou o porquê. Eles falaram: ‘Ela é impura e temos o direito de habitar nela’. O Rev. Lester citou o caso de Maria Madalena e ordenou que se retirassem; então, foram. Orou com ela para que pedisse perdão pelos seus pecados. Voltaram, outra vez. Por que? Eles responderam: ´É só o senhor que deseja que partamos’. Ordenou-lhes e eles partiram. Em seguida, ensinou-a a orar pedindo proteção a Deus. Foram embora e disseram-lhe que se os demônios voltassem, ela deveria ordenar que partissem em nome de Jesus. Desfecho: à noite, quando voltaram, travou-se intensa luta, mas ela clamou a Deus e foi definitivamente libertada. O tempo passou, ela se casou, teve dois filhos e estava vivendo uma vida normal. Na cidade houve um grande avivamento.2 Para obter perdão de pecados (Mt 6.12; Lc 11.4a) 2 Ilustração: Clarita, a moça endemoniada na cidade de Manilha, Filipinas (Livro: Possessão de demônios - Robert McAlister) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 47 | P á g i n a Isso trataremos adiante, no tópico sobre as orações de Jesus. Para obter tudo aquilo de que necessitamos “Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa.” (Jo 16.24) “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje;” (Mt 6.11) “Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças.” (Fp 4.6) Porque somos humanos e imperfeitos necessitamos de muitas coisas (Jo 16.24). Porque somos limitados em força e poder precisamos de alguém superior, capaz de fazer chegar até nós tudo aquilo de que necessitamos. Devemos pedir pelas coisas mais difíceis, mas, também, por aquelas que aparentemente estão garantidas (Mt 6.11). Percebe-se nitidamente nestes versículos que, através da oração, os infinitos recursos de Deus são canalizados na direção do servo de Deus, suprindo-o nas suas fraquezas e limitações naturais e dotando- o de força e capacidade superiores. 5.6 Oração de Imprecação A oração imprecatória – aquela que suplica o castigo divino para o outro – não soa bem aos ouvidos cristãos. Entretanto, em muitos Salmos e textos do Antigo Testamento (AT) há um tom de imprecação. Diante da maldade, da opressão, da violência, ou da injustiça, eles não só clamavam ao Senhor por suas vidas, mas também pediam a Deus que fizesse cair sobre os seus inimigos os piores males, que a justiça divina fosse imediatamente executada. Assim, se unem numa mesma oração, as súplicas mais ardentes e as mais violentas imprecações (Sl 58.6-11; 83.9-18; 109.6-19; 137.7-9). De fato, na época do AT, naquele SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 48 | P á g i n a contexto, prevalecia no âmbito do povo de Israel o conceito de que a obediência a Deus e aos seus mandamentos, deveria ser recompensada na vida presente, com longevidade e prosperidade; enquanto os transgressores da lei mosaica (judeus) e os ímpios (pagãos) deveriam receber o seu justo castigo o quanto antes, para que ficasse evidente que há um Deus vivo e presente, retribuindo a cada um conforme as suas ações (Sl 7.9; 37.28; 75.10; 58.11). Diante de determinadas situações perversas, protagonizadas por pessoas de índole maligna, da sociedade ou até mesmo participantes dos arraiais evangélicos, podem até passar pela mente, pensamentos de imprecação. Entretanto, a oração que pede a Deus para “pesar sua mão” sobre alguém é estranha ao cristão e indevida. Por maior que seja o mal praticado contra nós (ou contra outros), como cristãos, o que nos resta a fazer, em termos de oração, é entregar nossa causa nas mãos de Deus: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem;” (Mt 5.44) ❖ "Para se ter um viver cristão dinâmico, são necessárias duas coisas: visão espiritual e um forte anseio, ambos gerados no aposento da oração. SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 49 | P á g i n a 6. ASPECTOS PRÁTICOS DA ORAÇÃO 6.1 A comunicação com Deus Ninguém desconhece o fato de que a oração é um instrumento através do qual nos comunicamos com Deus. Nós, seres humanos, temos essa capacidade de comunicação vertical – com Deus, e horizontal – com os seres humanos e animais. Como podemos nos comunicar com Deus? INSTRUMENTO FORMA Com a boca: - Falando (Oração) - Cantando (Hinos) - Emitindo sons (riso, choro etc.) Com a mente: - Com pensamentos Com o corpo: - Através de gestos, de ações, das emoções etc. Com a vida: - Pelo conjunto da obra 6.2 A hora e a duração da oração De madrugada – Marcos 1.35 ( Exemplo) À tarde – Mateus 14.23; 26.36-39 ( Exemplo) Uma noite toda – Lucas 6.12 ( Exemplo) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 50 | P á g i n a Pelos exemplos deixados pelo Senhor, percebe-se claramente que não há uma hora específica, nem uma duração determinada para oração. Entretanto, é boa prática, reservar alguns momentos específicos para a oração, para não sermos envolvidos pelos afazeres cotidianos. No Antigo Testamento, há o registro de que Daniel tinha o hábito de orar três vezes ao dia, com regularidade e disciplina, como parte de sua devoção a Deus. Ele orava em horários específicos, abrindo as janelas de seu quarto em direção a Jerusalém, mesmo durante o exílio na Babilônia (Dn 6.10). E o salmista declara: “De manhã, SENHOR, ouves a minha voz; de manhã te apresento a minha oração e fico esperando.” (Sl 5.3) No Novo Testamento, percebe-se que os judeus seguiam um padrão diário de oração em horários específicos, geralmente associados ao templo ou à tradição. Os horários principais são: Terceira hora (9h da manhã)(At 2.15) Sexta hora (12h ou meio-dia) (At 10.9) Nona hora (15h, ou 3h da tarde) (At 3.1) Em determinadas situações desafiadoras do cotidiano pode ser necessária aquela “conexão rápida” com Deus, do tipo: – Senhor, ajuda-me! Melhor ainda é manter uma conexão permanente com o Senhor, ou seja: uma vida de oração; a dependência contínua de Deus, em cada passo e em cada momento (Exemplo: Enoque – Gn 5.22-24; Jesus – Mc 1.35). “Orando em todo o tempo, no Espírito” (Ef 6.18) SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR 51 | P á g i n a Em qualquer momento, principalmente antes de qualquer realização ou tomada de decisão, a vontade do Pai deve ser consultada em oração e a orientação da sua Palavra sempre acatada. Jesus passou a noite orando e quando amanheceu escolheu os doze discípulos (Lc 6.12-13). Durante aqueles momentos de sua maior aflição, antes da sua crucificação, ele se afastou para orar (Lc 22.41). “Certa jovem, amante de esporte e dada a excursões e competições de natação, procurou um dia o pastor de sua igreja e lhe declarou que não sentia nenhum poder especial como resultado da oração. Parecia-lhe que o exercício físico era de valor, pois sentia o corpo forte e disposto, depois de exercitar-se, mas nada lucrava em orar. – Pratica o esporte diariamente? Perguntou o pastor. – Seis dias por semana. Foi a resposta. – E quanto tempo por dia? – Cerca de 2 horas. – E ora diariamente? Um pouco embaraçada, a jovem respondeu: – Nem todos os dias. – E quando ora, quanto tempo leva? – Varia. Às vezes, menos de um minuto. Outras vezes, levo quase 5 minutos em oração. – Suponhamos que você fosse uma menina fraca no físico; você poderia tornar-se forte, fazendo exercícios de 1 a 5 minutos, de quando em quando? – Compreendo. Um pouco de exercício físico não me daria forças, e, assim, não me tornaria forte espiritualmente, sem bastante exercício. O pastor aconselhou-a a orar diariamente. Passado algum tempo, a moça disse ao pastor: