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Artigo de fluxo contínuo DIÁLOGOS e DIVERSIDADE ISSN: 2764-0795 A INCLUSÃO DO SUJEITO SURDO NO MERCADO DE TRABALHO: UMA REVISÃO DA LITERATURA THE INCLUSION OF THE DEAF SUBJECT IN THE WORK MARKET: A LITERATURE REVIEW Alini Mariot1 https://orcid.org/0000-0002-0651-4614 alinimariot@hotmail.com Resumo: Este artigo teve como objetivo compreender a inclusão do sujeito surdo no mercado de trabalho. Para responder ao objetivo, realizou-se uma revisão da literatura nas bases de dados Scielo e Capes a partir das palavras-chave leis de inclusão para o trabalho; inclusão nas organizações e surdez. Aplicando-se os critérios de inclusão abordar políticas públicas de inclusão no mercado de trabalho e abordar a inclusão de pessoas surdas no mercado de trabalho e os critérios de exclusão abordar políticas públicas voltadas à inclusão escolar; debater a inclusão de pessoas com deficiência intelectual no mercado de trabalho; debater a inclusão de pessoas com deficiência física no mercado de trabalho; caracterizar-se como trabalho de revisão de literatura; discutir políticas públicas de inclusão de outros países, que não o Brasil; ou debater a inclusão de pessoas surdas no mercado de trabalho em outros países que não o Brasil. Assim, foram selecionados 6 artigos. A análise dos artigos selecionados mostrou que a luta pela inclusão das pessoas com deficiência/surdas no mercado de trabalho é um movimento histórico e que vem avançando a passos lentos. Ademais, verificou-se que, para além da lei de cotas, seria importante que fossem oferecidas possibilidades de formação mais adequadas para as pessoas com deficiência para que estejam mais bem preparadas para se inserirem no mercado de trabalho e que as empresas e os gestores se preparassem também para receber esse público de forma adequada. Palavras-chave: Políticas Públicas de Inclusão. Leis de Inclusão para trabalho. Surdez. Abstract: This article aimed to understand the inclusion of the deaf subject in the job market. To respond to the objective, a literature review was carried out in the Scielo and Capes databases based on the keywords inclusion laws for work; inclusion in organizations and deafness. Applying the inclusion criteria address public policies for inclusion in the labor market and address the inclusion of deaf people in the labor market and the exclusion criteria address public policies aimed at school inclusion; debate the inclusion of people with intellectual disabilities in the labor market; discuss the inclusion of people with physical disabilities in the labor market; be characterized as a literature review work; discuss public policies for inclusion in countries other than Brazil; or debate the inclusion of deaf people in the labor market in countries other than Brazil. Thus, 6 articles were selected. The analysis of the selected articles showed that the struggle for the inclusion of people with disabilities/deaf people in the labor market is a historical movement that has been advancing slowly. Furthermore, it was found that, in addition to the quota law, it would be important to offer more adequate training possibilities for people with disabilities that they are better prepared to enter the labor market and that companies and managers also prepare to receive this public in an adequate way. Keywords: Public Inclusion Policies. Inclusion Laws for work. Deafness. em Diversidade Cultural e Inclusão Social pela Universidade Feevale e Mestre em Ciências Exatas pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Interprete/tradutora de Libras na Universidade Federal do Rio Grande (FURG). 1 Submissão: 11 de setembro de 2022 Aceite: 08 de dezembro de 2022 Publicação: 14 de dezembro de 2022INTRODUÇÃO A inclusão de todos e de todas é permeada pelas políticas públicas e vem crescendo no período contemporâneo. Isso porque estão sendo abertos espaços que visam garantir a inclusão social como um todo e promovidas ações afirmativas que visam diminuir um tratamento de desvantagem social para algumas classes consideradas minorias, como é caso das pessoas com alguma necessidade específica que estão sendo inseridas no mercado de trabalho através das cotas. A reserva de vagas para mercado de trabalho dá-se pela lei de cotas (art. 93 da Lei 8.213/91), a qual estabelece que empresas com cem ou mais empregados devem preencher dois a cinco porcento de seus cargos com pessoas com deficiência. A reserva de vagas depende, assim, do número total de empregados que a empresa possui, ou seja, a empresa que atende esses requisitos é "obrigada" a contratar pessoas com deficiência e, se não fizer, será multada. As deficiências são inúmeras e incluem tanto deficiências físicas quanto intelectuais. que não fica claro na lei é como a inclusão deve ser realizada. No caso das deficiências físicas, temos a Lei 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas e critérios de acessibilidade para pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida. Essa mesma acessibilidade, contudo, não está garantida para as pessoas com deficiência ou dificuldade intelectual tampouco para o sujeito surdo, o qual até tem direito a um intérprete na escola e em eventos, mas, no dia a dia, precisa encontrar suas próprias soluções para comunicar-se com os ouvintes. Foi nesse contexto que se desenvolveu este artigo, que teve como objetivo compreender como se dá processo de inclusão do sujeito surdo no mercado de trabalho no Brasil. Para tanto, realizou-se uma revisão da literatura, com vistas a identificar trabalhos já desenvolvidos sobre tema e estabelecer o estado da arte. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Para desenvolver este trabalho, que se caracteriza como uma revisão da literatura, realizaram-se os seguintes procedimentos: escolha das bases de dados; definição dos termos de busca; busca dos trabalhos; estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão; seleção dos artigos e revisão e análise dos artigos selecionados. As bases de dados de dados escolhidas foram a plataforma Scielo e Portal Capes. Os termos de busca foram: políticas públicas de inclusão em empresas; inclusão de pessoa com deficiência no mercado de trabalho e surdez. Os critérios de inclusão, por sua vez, foram: abordar políticas públicas de inclusão no mercado de trabalho; abordar a inclusão de pessoas surdas no mercado de trabalho. Já os critérios de exclusão foram: abordar políticas públicas voltadas à inclusão escolar; debater a inclusão de pessoas com deficiência intelectual no mercado de trabalho; debater a inclusão de pessoas com deficiência física no mercado de trabalho; caracterizar-se como trabalho de revisão de literatura; discutir políticas públicas de inclusão de outros países, que não Brasil; ou debater a inclusão de pessoas surdas no mercado de trabalho em outros países que não Brasil. 2 Diálogos e Diversidade, Jacobina Bahia Brasil, V. 2, n. e15123, p. 01-10, 2022.Buscando-se os três termos estabelecidos na plataforma Scielo e utilizando-se como filtro apenas recorte temporal últimos dez anos (2012 a 2022), não foi encontrado nenhum trabalho. Fez-se, então, uma nova busca, excluindo a palavra surdez. Dessa forma, foram localizados 9 trabalhos. Aplicando-se os critérios de inclusão e de exclusão, chegou-se a três artigos, os quais são apresentados no Quadro 2 a seguir. Quadro 2- Artigos obtidos a partir da base de dados Scielo LIMA, Laís Batista de; JURDI, Andrea Perosa Saigh. Empregabilidade de pessoas com deficiência no município de Santos/SP: mapeamento de políticas públicas e práticas institucionais. 2014 NEVES-SILVA, Priscila; PRAIS, Fabiana Gomes; SILVEIRA, Andréa Maria. Inclusão da pessoa com deficiência no mercado de trabalho em Belo Horizonte, Brasil: cenário e perspectiva. 2015 COUTINHO, Kátia Soares; RODRIGUES, Graciela Fagundes; PASSERINO, Liliana Maria. Trabalho de Colaboradores com Deficiência nas Empresas: com a Voz os Gestores de Recursos Humanos 2017 Fonte: elaborado pela autora (2022) Fazendo-se a mesma busca no Portal da Capes, utilizando os três termos e o recorte temporal de 10 anos, foram localizados 12 trabalhos. Aplicando-se os critérios de inclusão e de exclusão, chegou-se também os três artigos. Esses três artigos são apresentados no Quadro 3, que segue. Quadro 3 Artigo selecionados a partir do Portal da CAPES DIAS, Fernanda Elisa; KUHN, Nuvea; LAMB, Catia Regina Zuge. Análise das oportunidades e desafios profissionais dos surdos em seu ambiente de trabalho: um estudo nos municípios de Santa Rosa e Horizontina/RS, 2019 BORGES, Rosângela Lopes; ALMEIDA, Jones Reis de; SIQUEIRA, Tainá de Sousa; FERNANDES SOBRINHO, Marcos. Inserção e permanência de surdos no mundo do trabalho: estudo exploratório em empresas de um município do centro-oeste goiano, 2020 JORGE, Camila; SALIBA, Graciane Rafisa. A inserção do surdo no mercado de trabalho, frente às políticas públicas de inclusão. 2021 Fonte: elaborado pela autora (2022) Selecionados os trabalhos, procedeu-se à leitura, análise e interpretação de cada um deles. Para tanto, extraíram-se deles, inicialmente, informações, tais como a) objetivos da pesquisa; b) método (amostra, instrumentos); e c) resultados obtidos com a pesquisa. E, na sequência, discutiram-se os dados encontrados, como pode ser visto na seção que segue. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Nesta seção, apresentam-se e discutem-se os resultados encontrados para revisão da literatura realizada. Para tanto, em um primeiro momento, apresenta-se um quadro com a síntese dos artigos selecionados, contemplando, além do título e do nome dos autores, os objetivos, a metodologia e os principais resultados, como pode ser visualizado no Quadro 4. 3 Diálogos e Diversidade, Jacobina Bahia Brasil, V. 2, n. e15123, p. 01-10, 2022.Quadro 4 Apresentação dos trabalhos encontrados Fonte Título/autor Objetivos Método Resultados Scielo Empregabilidade de pessoas Identificar e analisar as Realização de Os resultados encontrados mostraram com deficiência no município práticas institucionais e visitas/entrevistas nas que não há políticas específicas no de Santos/SP: mapeamento políticas públicas instituições que atendem município de Santos/SP voltadas à de políticas públicas e existentes no município esse público e desenvolver inserção de PcDs no universo do práticas institucionais de Santos voltadas à atividades relacionadas à trabalho e que, apesar dos esforços de LIMA, Laís Batista de; empregabilidade da inserção de PcD no algumas poucas instituições da cidade JURDI, Andrea Perosa pessoa com deficiência. mercado competitivo de para capacitar esse público, ainda não Saigh trabalho. Aplicação da há um parâmetro da metodologia entrevista adotada que oriente seus projetos de semiestruturada. empregabilidade. Scielo Inclusão da pessoa com Compreender as Entrevistas com atores Concluiu-se que a elaboração de leis não deficiência no mercado de principais barreiras que importantes no processo é suficiente para a inclusão no mercado trabalho em Belo impedem este processo de inclusão; e grupos de trabalho e que governos devem Horizonte, Brasil: cenário e foi realizada uma focais com pessoas com implementar políticas públicas que perspectiva. pesquisa qualitativa no deficiência e seus auxiliem nesse processo. NEVES-SILVA, Priscila; município de Belo familiares. PRAIS, Fabiana Gomes; Horizonte. SILVEIRA, Andréa Maria Scielo 0 Trabalho de Descrever as Estudo de caso Os resultados revelam que a Colaboradores com representações de (multicasos), constituição de preconceitos em relação Deficiência nas Empresas: gerentes de RH sobre o desenvolvido a partir de à pessoa com deficiência contribui para com a Voz os Gestores de trabalho da pessoa com observações não que ela seja percebida como a Recursos Humanos deficiência. participantes e entrevistas responsável pelas limitações advindas COUTINHO, Kátia Soares; semiestruturadas com sete dessa condição. RODRIGUES, Graciela gerentes de RH de Fagundes; PASSERINO, empresas brasileiras de Liliana Maria grande porte. Portal A inserção do surdo no Analisar os desafios que Pesquisa bibliográfica e A dificuldade de comunicação entre as CAPES mercado de trabalho, o surdo enfrenta ao documental, pelo pessoas com deficiência auditiva e os frente às políticas públicas ingressar no mercado de método dedutivo, a ouvintes é clarividente, e incrementa a de inclusão trabalho, mesmo após as pesquisa se propor a discriminação e obstaculiza o ingresso JORGE, Camila; SALIBA, leis específicas que analisar a legislação. dos surdos no mercado de trabalho, Graciane Rafisa legitimam o direito da faltando projetos que consigam PcD ao trabalho. dissolver essas questões. Portal Análise das oportunidades Analisar a perspectiva Pesquisa aplicada, Concluíram que possuem as mesmas CAPES e desafios profissionais dos surdos em relação às qualitativa e descritiva, condições de promoções e crescimento dos surdos em seu oportunidades, por meio de uma oportunizados aos demais ambiente de trabalho: um possibilidades de amostragem não colaboradores, no entanto, estudo nos municípios de crescimento, probabilística por acreditam que suas empresas ainda Santa Rosa e ascensão, e aos desafios acessibilidade, utilizando precisam se adaptar à sua condição de Horizontina/RS vivenciados no contexto um questionário PcD. DIAS, Fernanda Elisa; organizacional em que estruturado junto a 30 KUHN, Nuvea; LAMB, Catia trabalham atualmente. participantes surdos. Regina Zuge Portal Inserção e permanência de Identificar quais as Pesquisa bibliográfica Ficou evidente que existem barreiras CAPES surdos no mundo do dificuldades que os sobre esse assunto e, na antes e após a inclusão do surdo no trabalho: estudo surdos encontram para sequência, pesquisa mercado de trabalho, pois esses exploratório em empresas se inserirem no mundo exploratória em seis indivíduos não recebem o auxílio e de um município do do trabalho. empresas de um município orientação necessários para a sua centro-oeste goiano do Centro-Oeste do estado inserção e permanência nessa empresa. BORGES, Rosângela Lopes; de Goiás. Durante a visita ALMEIDA, Jones Reis de; foi aplicado um SIQUEIRA, Tainá de Sousa; questionário. FERNANDES SOBRINHO, Marcos Fonte: elaborado pela autora (2022) 4 Diálogos e Diversidade, Jacobina Bahia Brasil, V. 2, n. e15123, p. 01-10, 2022.Analisando-se os artigos selecionados com vistas a compreender como se dá processo de inclusão do sujeito surdo no mercado de trabalho no Brasil, verificou-se que muitas são as causas por que essa inclusão ainda precisam ser muito debatida. Lima e Jurdi (2014), em seu trabalho sobre a "Empregabilidade de Pessoas com Deficiência no Município de Santos/ SP: Mapeamento de Políticas Públicas e Práticas Institucionais", constataram que, por exemplo, apesar dos avanços em relação aos direitos e às legislações direcionados às pessoas com deficiência, a participação delas de uma forma ativa ainda se mostra distante do esperado, especialmente no que diz respeito ao trabalho, que é muito importante para que o indivíduo se sinta parte da sociedade. Por meio de visitas feitas a instituições que declararam que incluem pessoas com deficiência no mercado de trabalho, as autoras puderam mapear metodologias utilizadas para realizar essa inclusão. Os resultados encontrados pelas pesquisadoras: mostraram que não há políticas específicas no município de Santos/SP voltadas para a inserção de pessoas com deficiência no universo do trabalho e que, apesar dos esforços de algumas poucas instituições da cidade para capacitar esse público, ainda não há um parâmetro da metodologia adotada que oriente seus projetos de empregabilidade, tendo cada instituição sua forma singular de trabalhar, dificultando a garantia de um atendimento eficaz e de qualidade, que vise a plena inclusão do sujeito (LIMA; JURDI, 2014, p. 513). As autoras chamaram a atenção também para a necessidade de discutir formas de aumentar e qualificar a participação de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Nesse sentido, citaram Garcia e Maia (2012), para quem um dos aspectos que precisa ser melhor discutido é a capacitação das pessoas com deficiência. Lima e Jurdi (2014), identificaram, ainda, por meio das entrevistas realizadas, que muitos profissionais desconheciam os direitos das pessoas com deficiência. Referiram que esse desconhecimento e a falta de políticas públicas para essas pessoas pode alimentar assistencialismo. Neves-Silva, Praise e Silveira (2015) refletem, em sua pesquisa, sobre a questão do protagonismo da pessoa com deficiência e como as esferas políticas estão sendo marcadas no espaço escolar desde o início da trajetória de inclusão do sujeito. As autoras ressaltam que o caminho para de fato incluir é longo. Quando sujeito chega ao mercado de trabalho, ele já vem de uma educação que, por vezes, não deu conta de incluí-lo e de garantir seu direito à aprendizagem. Assim, acaba indo para o mercado de trabalho em que, por falta de políticas afirmativas e de órgãos fiscalizadores nos setores de Recursos Humanos (RH) das empresas para a incorporação de projetos mais inclusivos, que possam propiciar a inclusão de colaboradores com deficiência e a permanência deles no emprego, não conseguem se manter. Dessa forma, é gerada ainda mais exclusão, pois não basta incluir sujeito, é necessário dar condições para que ele aprenda em sua caminhada escolar e chegue preparado ao mercado de trabalho para desenvolver suas funções de modo a crescer e produzir, não apenas para cumprir números de cotas. Por meio das entrevistas realizadas pelos pesquisadores com os sujeitos incluídos na empresa em estudo, foi constatado que existem muitas variáveis envolvidas no processo de inclusão, como: despreparo do RH para receber um trabalhador com deficiência, a falta de preparo/estudo formal do trabalhador com deficiência, excesso de proteção familiar e o medo do sujeito com deficiência de perder os auxílios. 5 Diálogos e Diversidade, Jacobina Bahia Brasil, V. 2, n. e15123, p. 01-10, 2022.Ficou evidente também, na pesquisa, que a história vem trazendo a questão de um "descrédito" nas pessoas com algum tipo de deficiência. Essa história, contudo, vem mostrando algumas fases novas com a criação de políticas públicas que dão empregabilidade e que fomentam a inclusão. Isso é importante, porque, nas palavras dos autores, trabalho [...] é meio pelo qual ser humano se constitui como sujeito, capaz de produzir e sentir-se útil à sociedade" (NEVES-SILVA; PRAISE; SILVEIRA, 2015). Sendo assim, trabalho necessita ser inclusivo, para que os sujeitos com deficiência tenham a capacidade de produzir e se sentir útil socialmente. Mas, para que isso possa acontecer, é necessária uma rede de apoio e são necessárias escolas que pensem na emancipação desse sujeito, para que ele esteja melhor preparado quando ingressar no mercado de trabalho. Coutinho, Rodrigues e Passerino (2017), em sua pesquisa, iniciaram refletindo sobre as mudanças culturais. Elas referem que trabalho é extremamente importante para a formação da identidade dos sujeitos COO seres sociais. Colocaram também que as organizações estão buscando incorporar mais diversidade em seus quadros de funcionários, pressionadas pelos dispositivos legais brasileiros e pela fiscalização. As autoras concordam que com a lei de cotas muitas empresas tiveram que se adaptar a uma nova realidade, mas que ainda existe algumas lacunas, pois o sistema cobra produção e nem sempre esses sujeitos que necessitam de inclusão têm os treinamentos adequados, para serem inseridos no mercado de trabalho e para trazerem resultados no que tange à produção. Consoante as autoras, apesar dos esforços que estão sendo feitos, enquanto o percentual de empregabilidade das pessoas com deficiência (PCD) no mercado formal em países desenvolvidos gira entre 30% e 45%, no Brasil este indicador fica em torno de apenas 2% (MENDONÇA, 2010). Este panorama apresenta-se mais inquietante se verificarmos a taxa de empregos formais no Brasil, a partir da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), ano base 2015, que revela 47.657.552 trabalhadores sem deficiência ao lado de um quantitativo de 403.255 trabalhadores com deficiência. Verifica-se, que a taxa de PCD com emprego formal aproxima-se a 1% segundo a Rais (2015). (COUTINHO; RODRIGUES; PASSERINO, 2017, p. 262). Levando em conta, todavia, dados de 2013, 2014 e 2015, as autoras perceberam um pequeno aumento a cada ano no número de trabalhadores com deficiência com vínculo empregatício formal, mas as pessoas com deficiência auditiva representam apenas 19,68% do total de PcDs empregadas. Por meio de entrevistas com sete gestoras de recursos humanos de empresas do Rio Grande do Sul, do setor privado e de grande porte, com mais de 200 funcionários, comprometidas com processo de inclusão, independentemente da lei de cotas, as pesquisadoras verificaram que essas gestoras encontravam-se diante de um grande desafio: atender a lei de cotas e incluir pessoas com deficiência na empresa em um contexto em que essas pessoas, muitas vezes, não possuem estudo ou preparo para ocupar determinadas funções. Além do despreparo, as gestoras também referiam como dificuldades para preencher as cotas excesso de proteção familiar, o medo de perder o BPC, a carência generalizada de meios de transporte acessíveis, a presença de preconceito e a falta de atitudes inclusivas e de acolhimento" (COUTINHO; RODRIGUES; PASSERINO, 2017, p. 275). Outro aspecto levantado pelas gestoras diz respeito à necessidade de buscarem articulação com o Sistema S, para a qualificação das pessoas com deficiência com vistas à 6 Diálogos e Diversidade, Jacobina Bahia Brasil, V. 2, n. e15123, p. 01-10, 2022.inserção no mercado de trabalho. Essa qualificação, segundo as pesquisadoras, deve ir além da formação técnica, ela deve incluir "atividades de autocuidado, uso de ferramentas do ambiente, utilização de transporte coletivo, comportamentos na empresa, interações interpessoais". Isso porque, de acordo com as gestoras, a contratação de pessoas com deficiência é uma determinação legal, mas sua permanência na empresa e as possibilidades de ela avançar e contribuir para desenvolvimento da empresa "dependerá de um desenvolvimento da empresa dependerá de um trabalho estruturado de inclusão, acompanhamento e avaliação" (COUTINHO; RODRIGUES; PASSERINO, 2017, p. 275). As pesquisadoras concluíram o artigo dizendo que as pessoas com deficiência estão sendo empregadas em função da lei de cotas. Elas entendem, entretanto, que seria melhor se esse tipo de legislação não existisse, "uma vez que todos nós temos o direito de acesso à saúde, à educação e, inclusive, ao trabalho, que é meio pelo qual ser humano se constitui como sujeito, capaz de produzir e sentir-se útil à sociedade" (COUTINHO; RODRIGUES; PASSERINO, 2017, p. 275) e a pessoa com deficiência não é responsável pelas limitações que possui em decorrência de sua condição. Dias, Kuhn, Lamb e Zuge (2019), por sua vez, realizaram um estudo sobre a análise das oportunidades e dos desafios profissionais dos surdos em seu ambiente de trabalho. A investigação foi realizada nos municípios de Santa Rosa e Horizontina/RS. Os autores iniciaram suas reflexões trazendo a longa trajetória de lutas por uma inclusão que acolha e dê o mínimo de oportunidades para as pessoas com deficiência. Através de entrevistas com sujeitos surdos, a pesquisa evidenciou que muitas das funções desempenhadas pelos eles ainda estão direcionadas ao setor operacional. De acordo com as autoras, praticamente nenhuma pessoa surda assume ou assumiu cargos considerados importantes, embora, nas palavras delas, "a Lei de Cotas [tenha proporcionado] ao surdo a inserção social e laboral, desencadeando a convivência e relacionamento com os ouvintes dentro das organizações" (DIAS; KUHN; LAMB; ZUGE, 2019, p. 73). Promover essa convivência é extremante importante para uma gestão da diversidade, mas não se trata apenas de socializar ou de inserir o sujeito por meio de uma normativa, é preciso possibilitar que possam se desenvolver no trabalho. Nesse sentido, algumas das empresas nas quais os participantes da pesquisa trabalham têm oferecido subsídios, uma vez que 63% responderam que com frequência são contratados intérpretes de Libras para reuniões ou para capacitações. Além disso, as empresas também estão estimulando aprendizado de Libras por meio do oferecimento de cursos para colaboradores ouvintes" (DIAS; KUHN; LAMB; ZUGE, 2019, p. 73). Apesar disso, as autoras finalizaram artigo dizendo que a inserção do sujeito surdo no mercado de trabalho ainda está vinculada à lei de cotas. Chamaram a atenção também para a necessidade de processos de seleção mais democráticos e igualitários para que seja possível avaliar as capacidades profissionais dos surdos, assim como ocorre com os ouvintes. A inserção dos sujeitos surdos e sua permanência no ambiente de trabalho foram investigadas por Borges, de Almeida, Siqueira e Fernandes Sobrinho (2020). Os autores buscaram responder algumas dúvidas sobre como funciona, na prática, a inserção desse sujeito no mercado de trabalho, refletindo sobre as barreiras comunicacionais que deixam, muitas vezes, lacunas entre surdos e ouvintes. Em sua pesquisa, evidenciaram a falta de preparo das instituições para receber as pessoas deficientes e, quando se trata do sujeito surdo, isso é ainda mais grave, por causa da questão linguística. 7 Diálogos e Diversidade, Jacobina Bahia Brasil, V. 2, n. e15123, p. 01-10, 2022.Os autores ressaltaram que existem normativas que reconhecem a língua da comunidade surda e legislações que incluem esse sujeito, mas sua permanência no mercado de trabalho está deixando espaços que necessitam ser preenchidos, como uma melhor preparação da empresa e dos colegas de trabalhos, para se construir uma cultura inclusiva e que emancipe os sujeitos incluídos. Segundo os autores, "por meio da entrevista com os surdos, foi possível constatar os desafios e dificuldades encontrados em seu cotidiano, mas não por serem incapazes de realizar algo, muito pelo contrário, pela falta de apoio por parte dos ouvintes" (BORGES; DE ALMEIDA; SIQUEIRA; FERNANDES SOBRINHO, 2020, p. 22). Os entrevistados referiram também que aprenderam dentro da empresa somente porque, quando chegaram à empresa, já havia surdos trabalhando lá, que lhes ensinaram como realizar as tarefas a serem desenvolvidas. Além disso, os pesquisadores concluíram que as empresas em que os participantes da pesquisa atuam não estão preparadas para receber funcionários surdos e elas só os contratam para preencher as cotas. E, muitas vezes, as empresas não conseguem preencher as cotas, porque os salários oferecidos são equivalentes ao benefício de invalidez a que o sujeito tem direito. Fazendo um percurso semelhante ao de Borges, de Almeida, Siqueira e Fernandes Sobrinho (2020), Jorge e Rafisa (2021) visaram entender os desafios que o sujeito surdo enfrenta no momento em que vai ingressar no mercado de trabalho. As autoras ressaltam que, apesar de toda legislação vigente, que legitima o direito da pessoa com deficiência ao trabalho, grande parte das empresas apenas admite surdos para cumprir a legislação, sem ofertas de capacitação ou uso de ferramentas de acessibilidade para sua permanência no emprego. Na pesquisa das autoras, ficou evidente a dificuldade na comunicação entre as pessoas com deficiência auditiva e os ouvintes, que se torna um obstáculo para a emancipação dos surdos e para sua entrada e permanência no mercado de trabalho. Nas palavras delas, "a obrigatoriedade legal imposta pelas cotas não modifica a educação e pensamento social" (JORGE; RAFISA, 2021, p. 04), ou seja, mesmo havendo uma lei para essas contratações, despreparo das empresas ainda continua sendo um obstáculo para a permanência dos surdos nas empresas. Para modificar esse quadro, as pesquisadoras acreditam que seja necessário que o Poder Público invista na capacitação de profissionais especializados em inclusão escolar, com vista a oferecer uma formação mais qualificada aos surdos. Sugerem, ainda, que Estado realize parcerias público-privadas para ampliar a participação do surdo no mercado de trabalho. CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise dos trabalhos selecionados mostrou que a luta pela inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho é um movimento histórico que vem avançando a passos lentos. Fato é que a inclusão perpassa pela educação, a qual é o grande pilar que vai dar sustentação para sujeito que possui alguma deficiência se preparar para mercado de trabalho. Já a inclusão, seja ela na educação ou, depois, no mercado de trabalho, está diretamente relacionada às políticas públicas atuais. Hoje, infelizmente, a pessoa que possui deficiência acaba sendo incluída apenas para cumprir a legislação, como mostraram claramente as pesquisas realizadas nos trabalhos analisados. Desse modo, fica uma imensa lacuna na 8 Diálogos e Diversidade, Jacobina Bahia Brasil, V. 2, n. e15123, p. 01-10, 2022.emancipação do sujeito com deficiência, pois ele acaba, muitas vezes, sendo apenas parcialmente incluído, pois não lhe são oferecidas as condições necessárias para que possa se desenvolver. Outro ponto importante a ser destacado, além do grande fardo histórico que as pessoas com deficiência carregam, é a questão da obrigatoriedade da lei de cotas, pois todos os trabalhos chegaram à conclusão de que a lei de cotas é importante para a inserção no mercado de trabalho, mas ela não é suficiente. Para que a pessoa com deficiência possa realmente desempenhar uma função em uma empresa são necessários programas dentro das empresas para acolhê-los. Além disso, os gestores também precisam estar preparados para lidar com as pessoas com deficiência em seus setores. Entrevistas realizadas ressaltaram, por exemplo, que o sujeito surdo não se sente capaz de evoluir em suas funções dentro da empresa ou de ocupar um cargo de liderança, por causa da falta de uma gestão da diversidade e de políticas públicas equitativas e não apenas inclusivas. REFERÊNCIAS BORGES, R. L.; DE ALMEIDA, J. R.; SIQUEIRA, T. de S.; FERNANDES SOBRINHO, M. Inserção e permanência de surdos no mundo do trabalho: estudo exploratório em empresas de um município do centro-oeste goiano. Revista Educação, Artes e Inclusão, Florianópolis, V. 16, n. 1, p. 193-215, 2020. DOI: 10.5965/1984317816012020193. Disponível em: https://www.revistas.udesc.br/index.php/arteinclusao/article/view/14429.Acesso em: 21 ago. 2022. COUTINHO, Katia; RODRIGUES, Graciela; PASSERINO, Liliana. Trabalho de Colaboradores com Deficiência nas Empresas: com a Voz os Gestores de Recursos Humanos. 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