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EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO TEMAS EMERGENTES E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS Organizadores Iuri da Cruz Oliveira Francisco Gilson Gabriel Maia Diagramação: Marcelo Alves Capa: Gabrielle do Carmo A Editora Fi segue orientação da política de distribuição e compartilhamento da Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt_BR Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) E24 Educação em transformação: temas emergentes e desafios contemporâneos [recurso eletrônico] / Iuri da Cruz Oliveira e Francisco Gilson Gabriel Maia (orgs.). – Cachoeirinha : Fi, 2025. 183p. ISBN 978-65-5272-169-3 DOI 10.22350/9786552721693 Disponível em: http://www.editorafi.org 1. Educação – Fundamentos da Educação. I. Oliveira, Iuri da Cruz. II. Maia, Francisco Gilson Gabriel. CDU 37.01/.09 Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto – CRB 10/1023 O padrão ortográfico e o sistema de citações e referências bibliográficas são prerrogativas de cada autor. Da mesma forma, o conteúdo de cada capítulo é de inteira e exclusiva responsabilidade de seu respectivo autor. https://creativecommons.org https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt_BR https://www.abecbrasil.org.br/novo/ SUMÁRIO Prefácio 9 Reginaldo de Oliveira Nunes Apresentação 13 Iuri da Cruz Oliveira Francisco Gilson Gabriel Maia 1 15 Educar em tempos de incerteza: a escola no século XXI Iuri da Cruz Oliveira Alan Lucas de Oliveira Lima Antônio Oliveira de Sousa Gleisiane Barbosa dos Santos Rosimeiri de Oliveira Nunes Rosana de Oliveira Nunes Neto Maria do Socorro Pereira Costa Lima 2 29 Tecnologia, IA e humanização: paradoxos da sala de aula digital Francisco Gilson Gabriel Maia Kely Alinny Bezerra Mota Silva Adriana Melo Soares Savi Rosimeiri de Oliveira Nunes Karina José da Silva Tays Cristina Souza Santina Rodrigues Santana 3 45 Educação antirracista, decolonial e inclusiva: para quem é o conhecimento? Iuri da Cruz Oliveira Francisco Gilson Gabriel Maia Edson Omar da Silva Antonia Pereira de Sousa Alan Lucas de Oliveira Lima Josiane Araújo Oliveira Batista Gustavo Vasconcelos Santos 4 61 Aprendizagem ativa e currículos flexíveis: a escola como campo de criação Ludimilla Ronqui Suzi Maria da Silva Samuel Wesley Leonço da Costa Cristiano Santos Tamandaré Kathelly da Silva Alves Monteiro José Ricardo Martins de Lima Karla Monise de Souza Silva 5 77 Cuidar para ensinar: saúde mental de professores e estudantes Huthysonn Gomes Lima Antonia Pereira de Sousa Alcielda Carvalho dos Santos Rosimeiri de Oliveira Nunes Lilian de Sena Marinho Camila Luana Castro Lima Ferreira Adriana Melo Soares Savi 6 93 Educação ambiental crítica e os desafios da sustentabilidade Maria do Socorro Pereira Costa Lima Huthysonn Gomes Lima Samuel Wesley Leonço da Costa Ludimilla Ronqui Maria Mabelle Pereira Costa Paiva Edson Omar da Silva Aluísio Marques da Fonseca Celso Costa Santos Júnior 7 109 Avaliação na contemporaneidade: diagnóstico, caminho ou sentença? Iuri da Cruz Oliveira Suzi Maria da Silva Glaucia Maria Melo Soares José Juliano Maia de Sousa Maria Iraneide Marcelino de Freitas Rosana de Oliveira Nunes Neto Marco Antonio Soares Savi 8 125 Gestão democrática e resistência na educação pública Cristiano Santos Tamandaré José Ricardo Martins de Lima Josiane Araújo Oliveira Batista Maria Giselia Lopes Maciel Camila Luana Castro Lima Ferreira Iuri da Cruz Oliveira Francisco Gilson Gabriel Maia 9 141 Juventudes e cultura digital: conectando saberes e gerações Francisco Gilson Gabriel Maia Santina Rodrigues Santana Kely Alinny Bezerra Mota Silva Alan Lucas Oliveira Lima Kathelly da Silva Alves Monteiro José Ricardo Martins de Lima Tays Cristina Souza Marco Antonio Soares Savi 10 157 Formação docente o os novos saberes da profissão Iuri da Cruz Oliveira Francisco Gilson Gabriel Maia Gustavo Vasconcelos Santos Mara Romênia Silva Negreiros Rosana de Oliveira Nunes Neto Santina Rodrigues Santana Dos Organizadores 173 Dos Autores 175 PREFÁCIO Reginaldo de Oliveira Nunes 1 Escrever e ler sobre a educação é, antes de tudo, um ato de amor e compromisso com a vida. A educação libertadora não se constrói com receitas prontas, muito menos com neutralidades técnicas, mas sim, pelo diálogo, encontro com o outro, ato de ouvir e desejo de transformar o mundo em um lugar mais justo, digno e humano. O livro “Educação em Transformação: temas emergentes e desafios contemporâneos”, organizado pelos professores Iuri da Cruz Oliveira e Francisco Gilson Gabriel Maia e que, envolve escritos de diversos autores, é um convite para atravessar as fronteiras do pensamento educacional, acolhendo as dores do presente e cultivando a esperança do que ainda pode ser e mudar. Atualmente, vivemos em tempos incertos, em que o mundo parece ser desafiado em sua condição de habitável. Esses tempos incertos são marcados por crises ambientais, políticas, tecnológicas e existenciais, que colocam a escola diante de questões que são urgentes. No livro, essas questões são apresentadas e discutidas, fazendo com que os leitores possam ter acesso a reflexões importantes da contemporaneidade. Assim, o capítulo I, nos mostra que a escola não pode ser indiferente a essas transformações, precisando se tornar um espaço crítico da realidade e de reinvenção da esperança. No capítulo II, somos convidados a fazer uma reflexão sobre os paradoxos da sala de aula 1 Instituto de Ciências Exatas e da Natureza. Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro- Brasileira, CE, Brasil. 10 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos digital, onde a inteligência artificial, tecnologias e algoritmos convivem com a necessidade profunda de afeto, escuta e presença. Aqui, mais do que ter medo da máquina, é preciso urgente humanizar os processos e politizar as escolhas pedagógicas. Outra questão importante é se perguntar para quem é o conhecimento na escola que queremos e que precisamos. No capítulo III, os autores chamam a atenção para um olhar antirracista, decolonial e inclusivo, pois não há neutralidade possível quando o currículo silencia vozes e apaga identidades. A escola libertadora é aquela que rompe com as lógicas da exclusão e afirma os saberes dos povos, das periferias, dos corpos historicamente subalternizados. A formação de sujeitos criadores, e não apenas repetidores de conteúdos, está em discussão no capítulo IV, que tem como objetivo propor currículos flexíveis e aprendizagem ativa como percursos de transformação na escola. A criatividade pedagógica é, portanto, um ato político de resistência ao tédio, à padronização e à alienação. Contudo, não se faz educação sem o cuidado. Nesse sentido, o capítulo V toca em uma das feridas mais expostas do presente, principalmente depois de um período pandêmico em que passamos, que é o sofrimento psíquico de professores e estudantes. Falar de saúde mental na escola é reconhecer que não há aprendizagem possível onde há exaustão, medo e solidão. Cuidar para ensinar é também resistir ao desumano. O capítulo VI chama a atenção para uma educação ambiental crítica, não como conteúdo de uma disciplina isolada, mas como compromisso ético com a vida na Terra. A escola deve ser um jardim de ideias e uma trincheira de luta em prol da sobrevivência coletiva. No capítulo VII, a discussão sobre avaliação nos desafia a romper com a lógica da punição e do rótulo. Avaliar, na perspectiva crítica, é Reginaldo de Oliveira Nunes • 11 acompanhar, escutar, dialogar, não classificar ou excluir. É fazer da avaliação um processo que educa. No/ Por que certos saberes são valorizados e outros não? Descolonização exige... • Revisar autores, materiais, linguagens e metodologias. • Ação política e pedagógica. Objetivo da descolonização • Diversificar saberes. • Reconhecer epistemologias plurais. • Valorizar culturas afro-brasileiras, indígenas e periféricas. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). Segundo Quigano (2000), a “colonialidade do poder” se expressa nas escolas ao eternizar a cultura dominante como universal. A educação precisa estabelecer diálogos com narrativas subalternas, trazendo as 48 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos vozes historicamente silenciadas e rompendo com a estrutura de poder epistêmico que legitima somente algumas formas de saber. Estabelecer esse movimento, implica repensar os critérios de seleção de conteúdos. É preciso incluir narrativas africanas, saberes tradicionais indígenas e produções culturais periféricas à reestruturação profunda do currículo. No Brasil, a Lei 10.639/03 abriu caminho para isso, no entanto, ações concretas ainda estão longe do ideal. A escola precisa assumir que saberes negros e indígenas são centrais para a compreensão da pluralidade cultural do nosso país. Para que isso ocorra, os professores devem ser formados para atuação em um currículo decolonial, exigindo um olhar crítico, formação continuada e posicionamento político. Não é suficiente a distribuição de uma lista de autores, se faz necessário ensinar a questionar hegemonias, a problematizar padrões de conhecimento e a valorizar as diversas experiências. Além disso, a descolonização é um processo contínuo e dialógico. Não se limita a um semestre ou a um bloco temático, devendo permear toda a prática escolar, desde a forma de avaliação até os espaços de convivência. A sociedade precisa se envolver nesse processo, dialogando com estudantes, famílias e grupos representativos de outras culturas. Relevar a centralidade dos saberes coloniais é também confrontar a própria missão da escola no século XXI. Mais do que formar sujeitos bem sucedidos no mercado, a escola possui a responsabilidade de formar sujeitos críticos, éticos e conscientes de sua história, considerando que a produção de conhecimento não é neutra, mas atravessada por relações de poder. Segundo Guerreiro Ferreira et al. (2024), a descolonização curricular emerge como um compromisso ético e político. Ela nos convoca a reconhecer os currículos não apenas como seleções de conteúdos, mas como espaços de disputa simbólica, nos quais se decide quem importa, quem é lembrado, quem é ouvido e quem permanece invisível. Tornar o Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 49 currículo antirracista é romper com a neutralidade aparente da educação e assumir que todo projeto pedagógico está imerso em visões de mundo, e que estas precisam ser revistas à luz da justiça social. Descolonizar, portanto, não significa apenas “acrescentar” conteúdos afro-brasileiros e indígenas aos livros didáticos ou às comemorações escolares. Significa, mais profundamente, reconstruir as bases do próprio processo educativo, trazendo para o centro do debate autores, vivências, perspectivas e linguagens que foram sistematicamente silenciadas. Significa ampliar os espaços de aprendizagem para além da sala de aula, valorizando os saberes das comunidades, das culturas populares, dos territórios ancestrais. Também se trata de formar estudantes críticos, conscientes de sua história e capazes de atuar como sujeitos transformadores. Um currículo descolonial e antirracista deve ser uma ferramenta de emancipação, intelectual, cultural e política, estimulando práticas pedagógicas que combatam estereótipos, promovam a diversidade e resgatem memórias coletivas. Nesse sentido, a descolonização do currículo não é um ponto de chegada, mas um processo contínuo, que exige escuta, coragem e compromisso com uma educação verdadeiramente democrática. Para descolonização do currículo é preciso inspirar educadoras e educadores a construir coletivamente experiências pedagógicas mais inclusivas, humanas e comprometidas com a dignidade de todos os povos que formam o Brasil. Educação antirracista: rompendo com estruturas raciais no cotidiano escolar Falar em educação antirracista é, antes de tudo, reconhecer que a escola é um espaço vivo, feito de encontros, histórias e identidades 50 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos múltiplas. É admitir que, para garantir uma educação verdadeiramente de qualidade, não basta ensinar conteúdos: é preciso transformar relações, escutar vozes silenciadas e criar ambientes onde todas as pessoas possam ser respeitadas em sua plenitude. Nesse sentido, a educação torna-se uma poderosa ferramenta de reparação histórica e de construção de uma sociedade mais justa, diversa e plural (Couto; Risso, 2023). A promoção de uma educação antirracista não é uma tarefa pontual nem um conteúdo a ser ensinado em datas comemorativas. Ela exige compromisso contínuo, formação crítica de educadores(as), envolvimento das famílias e ações concretas que desfaçam as estruturas de desigualdade que ainda persistem no cotidiano escolar. Envolve compreender que raça, etnia, gênero e classe atravessam as experiências de alunos(as) e professores(as), influenciando seu lugar no mundo e sua relação com o saber. Nesse processo, segundo Couto e Risso (2023), torna-se urgente olhar para as histórias e culturas marginalizadas não como acréscimos ao currículo, mas como parte legítima do conhecimento humano. Valorizar as contribuições dos povos africanos, afro-brasileiros, indígenas, e de outras comunidades historicamente oprimidas, é também reafirmar o direito à memória, ao pertencimento e ao orgulho de ser quem se é. Ao fazer isso, a escola não apenas educa para a cidadania, ela forma sujeitos conscientes, críticos e preparados para atuar na transformação da sociedade. A educação antirracista é essencialmente política. Não é apenas falar sobre racismo, mas confrontá-lo onde ele se manifesta, no currículo, nos silêncios, nas interações, nas decisões administrativas. Trata-se de construir um cotidiano escolar que reconheça a diversidade enquanto princípio e não como exceção (Quadro 2). Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 51 Quadro 2 – Contribuições para uma educação antirracista na escola. Autor (a) Obra (s) Ideias Centrais Nilma Lino Gomes “Educação para a Igualdade Racial: reflexões e práticas” / “O movimento negro educador”. Defende a descolonização do currículo, a valorização das identidades negras e a formação docente antirracista. Destaca a importância de políticas afirmativas e do combate ao racismo institucional. Kabengele Munanga “Rediscutindo a mestiçagem no Brasil” / “Superando o racismo na escola”. Critica o mito da democracia racial e aponta como a escola perpetua o racismo por meio do apagamento das culturas africanas e afro-brasileiras. Defende a valorização da diversidade étnico-racial. Cida Bento “O pacto da branquitude”. Aponta como o racismo é mantido por pactos inconscientes e práticas institucionais. Defende uma educação crítica que enfrente o privilégio branco e promova equidade. Djamila Ribeiro “Quem tem medo do feminismo negro?” / “Pequeno manual antirracista”. Propõe uma educação que enfrente as estruturas racistas e machistas. Defende o letramento racial e a inserção de autoras negras nos currículos escolares. Silvio Almeida “Racismo estrutural” Explica o racismo como estrutura social, não apenas como comportamento individual. Destaca o papel da escola como espaço de reprodução e também de resistência ao racismo. Joice Berth “O que é empoderamento?” Discute o empoderamento negro na educação, a valorização da autoestima e da identidadenegra desde a infância e a urgência de políticas públicas antirracistas. Luiza Bairros Textos sobre políticas públicas e relações raciais. Atuou na construção de políticas de igualdade racial. Defendeu a inclusão do debate racial nos currículos escolares e a responsabilização do Estado no combate ao racismo. Leila Gonzalez “Por um feminismo afro- latino americano”. Propôs o conceito de “amefricanidade”. Enfatizou o papel da escola na construção da identidade negra e na superação do racismo. Seu pensamento é base para políticas educacionais atuais. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). 52 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Por intermédio de estudos, como os de Munanga e Gomes (2011) e o recente relatório sobre práticas antirracistas radicais, sabemos que a escola pode ser um espaço de reprodução de racismo ou, ao contrário, um local de resistência epistêmica. A educação antirracista exige que desconstruamos o mito da neutralidade e enfrentemos de forma consciente as narrativas que legitimam a supremacia branca. De forma prática, significa a revisão de materiais didáticos, priorizando autores negros em diferentes áreas, instituindo rodas de conversa sobre raça, celebrando datas como o Dia da Consciência negra com profundidade pedagógica e visibilizando referências negras em toda a grade escolar. Sobre esse aspecto, Rocha e Pereira (2021), aponta que “é necessária a releitura da visão de educação, desestabilizando essa realidade”. A inclusão de professores negros no corpo docente também é essencial, não apenas como estratégia de representatividade, mas por sua contribuição epistemológica e ética para o coletivo escolar. A presença combate a naturalização do padrão branco e enriquece o repertório cultural de todos. O antirracismo requer ainda escutar e acolher os estudantes que sofrem racismo. Não basta medidas pontuais, é preciso implementar protocolos de proteção, canais de denúncia e ações pedagógicas preventivas que tratem o racismo como violência institucional. Nesse sentido, a educação antirracista é inseparável de uma formação docente continuada. Professores precisam de ferramentas teóricas e práticas visando identificar, enfrentar e promover a justiça racial. A escola deve se comprometer com jornadas, supervisões, parcerias com movimentos antirracistas e pesquisa-ação. Portanto, assumir uma postura antirracista no ambiente educacional é mais do que combater o preconceito: é ensinar a conviver Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 53 com a diferença, é reconhecer as potencialidades de cada sujeito, é construir coletivamente uma nova forma de viver, aprender e partilhar o mundo. Como educadores(as), somos chamados(as) a plantar sementes de esperança, empatia e dignidade. E esse caminho começa dentro da escola, quando decidimos não mais tolerar o silêncio diante da exclusão. O pensamento decolonial na educação: diálogos entre Freire, Fanon e Cabral O pensamento decolonial, articulado por Quijano (2000) e outros, oferece bases teóricas para questionar a universalização eurocêntrica do saber. Na educação, ele aponta caminhos para uma práxis mais democrática, diversa e radicalmente transformadora. Paulo Freire, embora não use o termo “decolonial”, dialogou de forma intensa com esse campo. A partir de sua experiência com Cabral e Fanon (1978), Freire incorpora nas Cartas à Guiné-Bissau a perspectiva de “reafricanização” das mentalidades, compreendendo que a libertação exige antes de uma libertação cultural e epistemológica. A conexão entre pedagogia libertadora e pensamento decolonial se manifesta na valorização dos “temas geradores”, que são conteúdos que emergem da realidade dos educandos, significativo para eles e que permitem a problematização conjunta do mundo. É um método que tem como objetivo romper com imposições e abrir espaços para a agência dos sujeitos. Fanon, por sua vez, traz reflexões importantes sobre como a consciência colonizada internaliza estereótipos, reforçando a urgência de uma educação que reconstrói identidades. A pedagogia anticolonial convida a questionar os padrões estéticos, culturais e linguísticos impostos pelo chamado “colonizador”. Já Amílcar Cabral, lembra-nos que a educação de uma população colonizada deve se basear em sua 54 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos própria cultura, ao citar que “toda a educação portuguesa deprecia a cultura do africano...”. Seu legado ilumina a necessidade da criação e espaços educativos que valorizem a alteridade e a autonomia cultural. Essa convergência entre os autores, estimula uma educação que não replique estruturas coloniais, mas que as reconstrua a partir de práticas contextuais, conscientes de sua trajetória e comprometidas com a emancipação dos sujeitos. Inclusão radical: além da acessibilidade física O processo de inclusão no contexto escolar é frequentemente reduzido à adequação de espaços físicos e materiais para estudantes com deficiência. Embora as adaptações se façam necessárias, elas são insuficientes se não acompanhadas por uma revisão curricular, práticas pedagógicas diferenciadas e compreensão dos estudantes como sujeitos plenos (Quadro 3). Quadro 3 – Principais aspectos da inclusão no ambiente escolar. Aspecto Descrição Objetivo Principal Legal e Normativo Fundado em leis como a LDB (Lei 9.394/96), Lei Brasileira de Inclusão (13.146/2015) e Decreto 7.611/2011. Garantir o direito à educação de todos, com ênfase em estudantes com deficiência, transtornos e altas habilidades. Acessibilidade Envolve acesso físico (rampas, elevadores), comunicacional (libras, braile) e pedagógica (materiais adaptados) Garantir a participação plena dos estudantes em todas as atividades escolares. Formação Docente Capacitação contínua de professores sobre inclusão, práticas pedagógicas diferenciadas e respeito à diversidade. Promover práticas inclusivas, sensíveis às necessidades dos alunos. Currículo Flexível Adaptação dos conteúdos, objetivos e avaliações, respeitando o ritmo e as características de cada estudante. Valorizar diferentes formas de aprender e ensinar, promovendo equidade. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 55 Atendimento Educacional Especializado (AEE) Serviço de apoio complementar, oferecido preferencialmente no contraturno escolar. Oferecer suporte individualizado para o desenvolvimento da autonomia e aprendizagem. Combate ao Preconceito Ações de conscientização sobre capacitismo, racismo, lgbrfobia e demais formas de exclusão. Construir uma cultura escolar acolhedora e diversa. Participação da Família Envolvimento ativo da família no processo educacional e nas decisões pedagógicas. Fortalecer o vínculo entre escola e família para o sucesso da inclusão. Gestão Escolar Inclusiva Planejamento institucional com foco na diversidade, formação da equipe gestora e construção de políticas internas. Garantir que toda a escola funcione de forma articulada e comprometida com a inclusão. Avaliação Inclusiva Avaliação adaptada às possibilidades e avanços do aluno, valorizando o progresso individual. Reconhecer e valorizar trajetórias de aprendizagem diferenciadas. Clima Escolar Acolhedor Relações respeitosas, empatia e construção de vínculos entre professores, alunos e comunidade. Promover o pertencimento, autoestima e bem-estar no ambiente escolar. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). O processo de inclusão radical implica repensar o currículo, as formas de avaliação, os ritmos de aprendizagem, as interações em sala de aula, bem como as relações entre os pares. Configura-se como uma justiça educacional que deve considerar gênero, raça, etnia, sexualidade, classe, condição de deficiência,entre outras marcas identitárias. Além disso, essa abordagem exige a formação continuada de docentes, para promover conhecimentos sobre educação especial, libras, tecnologias assistivas, cultura surda, neurodiversidade, feminismos, corporalidades e sexualidades diversas. Essa formação precisa ser interseccional. A inclusão radical é uma luta política e ética, pois não basta inserir, é preciso transformar. Significar garantir que todos os estudantes sintam-se pertencentes e valorizados por quem são. 56 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos É reconhecer que o conhecimento é plural e que cada sujeito traz consigo saberes únicos ao coletivo. As práticas colaborativas, avaliativas diversificadas e espaços sensíveis às diferenças fazem parte dessa reconceitualização. Professores precisam trabalhar em equipes, estabelecer diálogos com especialistas, famílias e, sobretudo, com os próprios estudantes. Ao promover a inclusão radical, a escola se coloca como sociedade em miniatura, um lugar de respeito, justiça e comunhão, mostrando que o conhecimento é para todos e que todos têm algo a ensinar e aprender. Educação Intercultural e Avaliação Inclusiva: caminhos para comunidades plurais e decoloniais A escola plural dialoga com as culturas presentes em sua comunidade. Ela escuta, incorpora e valoriza práticas negras, indígenas, quilombolas, periféricas, entre outras. Os diálogos interculturais constituem um princípio ético para uma educação que reconhece a diversidade como riqueza. Esses diálogos ocorrem por meio de festas, celebrações, literaturas, saberes populares, línguas, narrativas orais, atividades artísticas e parcerias com comunidades. Não se trata apenas da extinção de estereótipos, mas da promoção de trocas simbólicas que reconhecem o outro como interlocutor de potência. Como mostra o Projeto “Enegrecendo o Brasil”, desenvolvido com crianças do ensino fundamental, a pesquisa coletiva sobre mulheres negras e a inclusão de produções familiares e comunitárias contribuem para a construção de uma identidade afirmativa. A sala de aula intercultural também é espaço de ensino- aprendizagem mútuo, onde professores e estudantes aprendem uns com os outros. Nessa perspectiva, o saber não tem dono, mas se constrói coletivamente, em um processo vivo e plural. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 57 A escola plural e intercultural ensina primeiro respeito — respeito à história, à cultura, à linguagem, ao corpo, à experiência do outro. Esse respeito é fundamento para uma convivência democrática e para a construção de uma sociedade justa. Avaliar moralidades tradicionais — provas padronizadas, testes objetivos, rankings — é insuficiente e injusto para uma educação antirracista, decolonial e inclusiva. Precisamos de avaliação que seja formativa, diversificada e que reconheça múltiplas inteligências. Avaliar é compreender processos, trajetórias e potencialidades. Deve incluir autoavaliação, avaliação entre pares, portfolios, projetos coletivos, portfólios e relatos reflexivos. Essa avaliação é parte integrante da pedagogia libertadora de Freire e da decolonialidade, pois devolve agência ao sujeito. Além disso, a avaliação deve considerar critérios culturais diferenciados. Nem todo conhecimento pode ser reconhecido por um teste objetivo. Saber fazer rede, contar histórias, cuidar e participar socialmente são capacidades profundas que merecem espaço. Professores precisam de formação para avaliar com justiça e sensibilidade cultural. Precisam aprender a ler contextos, escutar narrativas, construir critérios coletivamente e evitar avaliações que reproduzam exclusão. Finalmente, essa avaliação se conecta com a justiça social: ela ajuda a revelar desigualdades, a refletir sobre processos escolares, e a fortalecer trajetórias de estudantes tradicionalmente excluídos. Avaliar na perspectiva decolonial e inclusiva é afirmar que todos têm direito ao ensino e ao reconhecimento. 58 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Referências CABRAL, A. Unidade e luta: a arma da teoria. In: Cartas à Guiné-Bissau. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. COUTO, S. M. S.; RISSO, L. C. Por uma educação antirracista: plano de ação para inserção da Lei 10639/03 no cotidiano escolar. Boletim Paulista de Geogra�a, v. 1, n. 111, p. 243–263, 2023. Disponível em: https://publicacoes.agb.org.br/boletim-paulista/ article/view/3074. Acesso em: 2 ago. 2025. FREIRE, P. Cartas à Guiné-Bissau. São Paulo: Paz e Terra, 1977. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 23. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994. GUERREIRO FERREIRA, M.; SILVA, J. F. da; FERREIRA FEITOSA, S. Descolonizando o Currículo: reflexões a partir da contribuição de Enrique Dussel para a construção de um currículo antirracista. Revista Cocar, n. 24, 2024. Disponível em: https://periodicos.uepa.br/index.php/cocar/article/view/8295. Acesso em: 2 ago. 2025. MUNANGA, K. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: desa�o à identidade nacional. Rio de Janeiro: Pallas, 1998. MUNANGA, K; GOMES, N. L. Direitos humanos, diversidade e poder. Campinas: Papirus, 2011. OLIVEIRA, K. L. S.; PIGNATA OLIVEIRA, G. K. A. A educação freiriana pelas lentes do anticolonialismo e dos estudos pós-coloniais e decoloniais. Reflexão e Ação, Erechim, v. 30, n. 1, 2024. PIZARRO DE SOUZA, M. et al. Decolonialidade e educação antirracista: intersecções e aproximações. Revista Em Favor de Igualdade Racial, v. 5, n. 3, p. 88–98, 2022. QUIJANO, A. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. Nepantla, v. 1, n. 3, p. 533–580, 2000. ROCHA, M. L.; PEREIRA, A. Educação antirracista crítica e freireana. Revista Brasileira de Educação Básica, 2021. https://publicacoes.agb.org.br/boletim-paulista/article/view/3074 https://publicacoes.agb.org.br/boletim-paulista/article/view/3074 https://periodicos.uepa.br/index.php/cocar/article/view/8295 Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 59 SANTOS, A. N. S.; FELIPPE, J. N. O.; BARCELLOS JÚNIOR, W.; NEVES, C. R.; SANTI, W. S.; SOUSA, T. S. R.; SOUZA, F. R.; SANTANA, E. C.; SILVA, L. D.; MACHADO, J. H. R.; CASTRO, H. G. A.; OLIVEIRA, C. R.; TRINDADE, K. C.; SILVA, B. A.; CLARO, A. G. F. Descolonizando os currículos – O protagonismo negro na transformação do conhecimento e dos currículos no processo de descolonização educacional brasileira. Observtatório de La Economía Latinoamericana, v. 22, n. 11, p. e7980, 2024. Disponível em: https://ojs.observatoriolatinoamericano.com/ojs/index.php/ olel/article/view/7980. Acesso em: 2 ago. 2025. SELWYN, N. Education and technology: key issues and debates. 2. ed. London: Bloomsbury Academic, 2016. TURNOWSKI, C. W. Interculturalidad crítica y pensamiento decolonial. Quito: Abya- Yala, 2009. ZUBOFF, S. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019. https://ojs.observatoriolatinoamericano.com/ojs/index.php/olel/article/view/7980 https://ojs.observatoriolatinoamericano.com/ojs/index.php/olel/article/view/7980 4 APRENDIZAGEM ATIVA E CURRÍCULOS FLEXÍVEIS: A ESCOLA COMO CAMPO DE CRIAÇÃO Ludimilla Ronqui Suzi Maria da Silva Samuel Wesley Leonço da Costa Cristiano Santos Tamandaré Kathelly da Silva Alves Monteiro José Ricardo Martins de Lima Karla Monise de Souza Silva Apresentação O capítulo descreve as metodologias ativas e os projetos interdisciplinares como ferramentas para a construção de um currículo dinâmico e culturalmente situado. Em diálogo com as competências da BNCC, a escola é vista como um espaço de criação e inovação, onde o currículo não é imposto, mas construído de forma coletiva. Nesse sentido, o texto traz caminhos para tornar a aprendizagem mais significativa e conectada com as demandas sociais contemporâneas.A crise do modelo tradicional e a urgência de reimaginar a escola Nos dias atuais, a escola enfrenta uma crise estrutural que vai além das questões materiais ou pedagógicas. O modelo tradicional, centrado na transmissão de conteúdo e na autoridade do professor como único detentor do saber, revela-se insuficiente diante das demandas de um mundo em constante transformação. Sabe aquela ideia de que o currículo é rígido, que os conhecimentos estão muito separados e que os estudantes precisam ficar passivos? Isso não combina nada com o desafio de criar pessoas que sejam autônomas, críticas e criativas (Freire, 1996). 62 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos A escola, ao longo do tempo, vem se adaptando às transformações sociais, culturais e tecnológicas que marcam a história da humanidade. No entanto, mesmo diante de tantas inovações, do livro impresso à inteligência artificial, o modelo tradicional de ensino ainda resiste, sustentado por práticas centradas na transmissão de conteúdo e na padronização das experiências de aprendizagem. A inserção de novas tecnologias, embora essencial, nem sempre rompe com a lógica conservadora que estrutura a educação formal. Muitas vezes, modernizam-se os instrumentos, mas não se transformam os sentidos (Marihama; Garcia, 2025). Neste cenário, cresce a necessidade de repensar a escola não apenas como espaço de instrução, mas como território de escuta, criação e pertencimento. Reimaginar a escola significa, acima de tudo, assumir o compromisso com uma educação que promova autonomia, diálogo e inclusão, e que considere as múltiplas formas de ser, aprender e ensinar. Mais do que equipar salas com dispositivos digitais, é preciso colocar em debate o que, por que e para quem se ensina. Segundo Marihama e Garcia (2025), a verdadeira inovação educacional nasce da escuta ativa da comunidade escolar, da valorização da experiência docente, da conexão entre teoria e prática, e da ousadia de desafiar estruturas excludentes. É nesse movimento de reconstrução crítica que a escola pode, de fato, se tornar um espaço transformador, onde a modernização esteja a serviço da dignidade, da equidade e do desenvolvimento integral de todos os sujeitos que nela habitam. Já há tempo, autores como Bauman (2001) falavam sobre uma “modernidade líquida”, onde tudo está meio que mudando o tempo todo, as estruturas fixas dão lugar a relações mais fluidas e imprevisíveis. Então, a escola precisa se reinventar para fazer sentido na vida dos alunos de verdade. Continuar investindo em um modelo que só manda Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 63 memorizar e repetir acaba não só desmotivando quem aprende, mas também retira a relevância da própria escola. Por outro lado, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as Diretrizes Curriculares Nacionais apontam que é preciso focar no desenvolvimento por competências, ou seja, ter uma abordagem mais ativa na aprendizagem. Mas, na realidade, colocar isso em prática ainda encontra resistência, principalmente em lugares onde há desigualdade social e poucos recursos (Sacristán, 2017). O maior problema é quando a escola e a rotina dos estudantes parecem muito distantes um do outro. Quando o conteúdo do ensino não tem nenhuma conexão com o dia a dia dos alunos, aprender se torna algo mecânico e sem sentido. Como sugeriu Apple (2018), precisamos olhar para o currículo como algo que pode ser usado para disputar ideias, construindo-o com a voz de quem vive a escola e conhece sua realidade. Por isso, repensar o modelo tradicional também é uma chance de questionar qual é a verdadeira função social da escola (Quadro 1). Quadro 1 – Autores que propõem o repensar do modelo tradicional de educação. Autor (a) Obra (s) Ideia Central Paulo Freire Pedagogia do Oprimido; Educação como prática da liberdade. Criticou o modelo “bancário” de educação. Defendeu uma educação libertadora, dialógica e centrada no sujeito. José Pacheco Educar na Esperança e na Alegria; Idealizador da Escola da Ponte (Portugal). Defende a personalização da aprendizagem, fim das séries e turmas fixas. Valoriza projetos e autonomia dos estudantes. Seymour Papert A Máquina das Crianças. Criador do construcionismo. Propõe uso da tecnologia para aprender fazendo, rompendo com o ensino passivo. Philippe Perrenoud Dez Novas Competências para Ensinar. Crítica o ensino centrado no conteúdo e defende a formação por competências e a mediação ativa do professor. 64 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Edgar Morin Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. Propõe uma educação transdisciplinar, que uma ciência, ética e consciência planetária. Bell Hooks Ensinando a Transgredir. Defende uma pedagogia engajada, afetiva, crítica e libertadora, com foco na escuta e no respeito às diferenças. Antônio Nóvoa Diversos textos sobre formação docente. Questiona o modelo centrado no professor transmissor. Defende práticas colaborativas e escolas como comunidades de aprendizagem. Fernando Hernández Cultura Visual e Práticas Educativas; Currículo, Território em Disputa. Propõe um currículo aberto, ligado à vida dos estudantes. Defende práticas baseadas em projetos e investigação. Boaventura de Sousa Santos A Universidade no Século XXI; A Crítica da Razão Indolente. Propõe uma “ecologia de saberes” combatendo o epistemicídio no currículo tradicional. Valoriza saberes populares e não- hegemônicos. Maria Teresa Esteban Textos sobre avaliação, inclusão e práticas pedagógicas. Critica práticas avaliativas excludentes e defende uma escola inclusiva, democrática e aberta à diversidade. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). A educação não pode ser vista apenas como preparação para o mercado, mas como formação plena do ser humano. Reduzi-la a um instrumento de qualificação para o trabalho é esvaziar sua potência transformadora e limitar os horizontes do que significa aprender e ensinar. A escola não deve funcionar apenas como uma engrenagem na máquina da produtividade; ela precisa ser espaço de construção de sentido, de escuta, de convivência e de desenvolvimento integral. Formar seres humanos vai muito além de transmitir conteúdos técnicos ou desenvolver habilidades demandadas pelo mundo corporativo. É também, e sobretudo, cultivar valores como empatia, responsabilidade, solidariedade, pensamento crítico e respeito às diferenças. É possibilitar que cada pessoa reconheça sua voz, Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 65 compreenda sua história e atue no mundo com consciência, sensibilidade e liberdade. A educação precisa acolher os sonhos, os medos, as identidades e os contextos diversos dos estudantes. Precisa inspirar o desejo de conhecer não apenas para competir, mas para compreender, dialogar e transformar. Isso exige uma prática pedagógica que veja o outro como sujeito e não como recurso. Que enxergue a aprendizagem como um processo de construção coletiva e não como um simples acúmulo de competências. Nesse sentido, a escola tem um papel profundamente humano: contribuir para que cada estudante possa florescer em sua totalidade, intelectualmente, emocionalmente, socialmente e eticamente. E essa missão é, antes de tudo, um ato de esperança no futuro e de fé na potência de cada ser humano. Isso exige uma nova ética do cuidado, do respeito à diversidade e da escuta ativa (Quadro 2). Quadro 2 – Síntese das principais críticas ao modelo tradicional e alternativas propostas. Críticas ao Modelo Tradicional • Ênfase excessiva na memorização e repetição. • Avaliação padronizada que não considera as trajetórias individuais. • Currículo engessado e eurocêntrico. • Desvalorização de saberes não acadêmicos. • Relação vertical entreprofessor e aluno. Alternativas Propostas • Aprendizagem por projetos, experiências e resolução de problemas. • Valorização da escuta, da autonomia e do protagonismo estudantil. • Integração entre áreas do saber. • Formação docente contínua e crítica. • Inclusão, diversidade e justiça social como princípios da prática pedagógica. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). 66 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Reimaginar a escola é, portanto, um projeto político e pedagógico. Trata-se de criar espaços que possibilitem experiências de autoria, colaboração e criatividade, onde a aprendizagem não é um fim em si mesma, mas um meio para a emancipação humana. Fundamentos das metodologias ativas: da teoria à prática Em um mundo em constante transformação, a educação precisa acompanhar os novos tempos, revendo práticas tradicionais e assumindo o compromisso de formar sujeitos críticos, autônomos e colaborativos. Nesse cenário, as metodologias ativas emergem como uma resposta potente aos desafios do ensino contemporâneo, ao reposicionarem o estudante como protagonista de sua própria aprendizagem. Diferente dos modelos centrados exclusivamente na figura do professor como transmissor de conhecimento, as metodologias ativas propõem uma mudança de perspectiva: aprender passa a ser um processo vivido, experimentado e refletido em diálogo com o mundo real (Moreira et al., 2024). Mais do que uma técnica, trata-se de uma filosofia educacional que valoriza o pensamento crítico, a resolução de problemas, a aprendizagem por meio de projetos, experiências e colaboração entre pares. A sala de aula se torna um espaço de investigação, troca e construção coletiva de saberes, em que teoria e prática se entrelaçam para dar sentido ao conhecimento. Embora amplamente debatidas na atualidade, as metodologias ativas, segundo Moreira et al. (2024) não são uma invenção recente. Suas raízes remontam à Antiguidade, com Sócrates e seu método de questionamentos, e foram fortemente impulsionadas no século XX por educadores como John Dewey, Jean Piaget e Lev Vygotsky, cujas Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 67 contribuições sobre o papel da experiência, do desenvolvimento cognitivo e da interação social permanecem como pilares fundamentais dessa abordagem. Assim, ao apostar em estratégias que promovem o envolvimento dos estudantes com o conteúdo de forma significativa, as metodologias ativas reafirmam uma concepção de educação comprometida com o desenvolvimento integral do ser humano e com a construção de uma sociedade mais crítica e participativa. As metodologias ativas de aprendizagem têm ganhado destaque como alternativas ao ensino tradicional. Fundamentadas em teorias construtivistas e socioconstrutivistas, elas colocam o estudante no centro do processo de ensino-aprendizagem, valorizando sua participação ativa, reflexiva e colaborativa (Moran; Masetto; Behrens, 2013). Entre as abordagens mais utilizadas estão a aprendizagem baseada em projetos (ABP), a aprendizagem baseada em problemas (PBL), as salas de aula invertidas (flipped classroom), sequências didáticas integradas, entre outras (Quadro 3). Quadro 3 – Principais metodologias ativas utilizadas na Educação. Metodologia Característica Objetivo Educacional Papel do Professor Papel do Aluno Sala de Aula Invertida O aluno estuda o conteúdo em casa (vídeos, textos) e usa o tempo em sala para resolver problemas e debater. Promover aprendizagem ativa e aprofundamento em sala. Mediador e facilitador de discussões. Protagonista do próprio aprendizado. Aprendizagem baseada em projetos (ABP) Alunos desenvolvem projetos para resolver problemas reais ou complexos. Desenvolver habilidades como colaboração, autonomia e resolução de problemas. Orientador, ajuda no planejamento e no foco. Investigador, construtor do conhecimento. 68 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL) Alunos resolvem problemas desafiadores e abertos, geralmente em grupo. Estimular pensamento crítico, pesquisa e trabalho colaborativo. Tutor, guia a investigação. Pesquisador, questionador, solucionador. Rotação por Estações A turma se divide em grupos que passam por diferentes estações de aprendizagem. Proporcionar variedade de atividades e modos de aprender. Organizador do espaço e das atividades. Participante ativo em diferentes tipos de tarefas. Ensino Híbrido Combina ensino presencial com atividades online, com integração pedagógica. Aproveitar recursos digitais e flexibilizar o ensino. Designer de experiências de aprendizagem. Gestor de seu tempo e percurso de estudo. Gamificação Uso de elementos de jogos (missões, pontos, ranking) em contextos educacionais. Aumentar engajamento e motivação dos alunos. Criador de desafios e narrativa educativa. Jogador ativo e cooperativo. Aprendizagem por Pares Estudantes ensinam uns aos outros, revisando conteúdos e solucionando dúvidas. Consolidar aprendizagem pela explicação e escuta ativa. Facilitar das interações. Colaborador, explicador e ouvinte. Estudo de Caso Análise detalhada de uma situação real ou fictícia, com base em dados e tomada de decisão. Desenvolver pensamento crítico e argumentação. Provocador de reflexões. Analista, argumentador e decisor. Fonte: Elaborada pelos autores (2025). Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 69 Todas essas práticas partem da ideia de que o conhecimento se constrói a partir da experiência, da investigação e da interação social (Vygotsky, 2001). A implementação de metodologias ativas demanda uma mudança profunda na cultura escolar. Isso envolve desde a formação docente até a reorganização dos tempos e espaços escolares. Como destaca Bacich e Moran (2018), não se trata apenas de inserir novas técnicas, mas de transformar as relações pedagógicas e o sentido da escola. Estudos recentes têm mostrado impactos positivos das metodologias ativas sobre a motivação, a autonomia e o desempenho dos estudantes (Mitre; Gomez; Urraza, 2020). No entanto, também apontam que sua eficácia depende do contexto, da intencionalidade pedagógica e do suporte institucional. Outro ponto relevante é que as metodologias ativas favorecem o desenvolvimento de competências socioemocionais, como a empatia, a resiliência e a cooperação. Essas habilidades são essenciais para a vida em sociedade e para os desafios do século XXI (Delors et al., 2010). Portanto, a adoção de metodologias ativas na educação não pode ser vista como uma tendência momentânea ou apenas uma inovação tecnológica a ser testada. Trata-se, na verdade, de uma resposta profunda e necessária diante das transformações sociais, culturais e econômicas que atravessam o nosso tempo. Em um mundo cada vez mais complexo, interconectado e em constante mudança, formar sujeitos autônomos, críticos e capazes de aprender continuamente se tornou um desafio central da educação. As metodologias ativas, ao priorizarem o protagonismo dos estudantes e o desenvolvimento de competências diversas, cognitivas, sociais e emocionais, caminham na direção de uma formação que ultrapassa os limites dos conteúdos curriculares e se alinha a uma 70 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos educação com sentido, que dialoga com a vida real. Elas permitem que o processo de aprendizagem esteja enraizado na experiência, no diálogo, na colaboração e na construção compartilhada do saber. Mais do que preparar para provas ou aprovações, essas metodologias preparam para a vida: incentivam a curiosidade, a responsabilidade, a tomada de decisões e a resiliência diantede desafios. Ao adotá-las, educadores reconhecem que ensinar é mais do que transmitir informações; é mediar vivências que transformam. Assim, as metodologias ativas se consolidam como uma prática pedagógica ética e humanizadora, alinhada ao compromisso de formar cidadãos preparados para lidar com os dilemas do presente e para construir, de forma crítica e criativa, os caminhos do futuro. Currículos flexíveis e aprendizagem significativa A flexibilização curricular surge como resposta à rigidez das estruturas tradicionais que pouco dialogam com os interesses, contextos e ritmos dos estudantes. Currículos engessados muitas vezes limitam o potencial criativo e crítico dos sujeitos da aprendizagem. Como defendem Sacristán (2017) e Pacheco (2019), um currículo deve ser entendido como construção social, situada historicamente e aberta à transformação. A aprendizagem significativa, nos termos de Ausubel (2003), ocorre quando o novo conhecimento se articula com estruturas cognitivas pré- existentes, fazendo sentido para quem aprende. Um currículo flexível favorece essas conexões ao permitir que o estudante participe ativamente da seleção e organização dos conteúdos. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 71 Experiências de flexibilização curricular têm crescido em diversas redes de ensino no Brasil, especialmente após a implementação da BNCC, que prevê a parte diversificada do currículo e os itinerários formativos no Ensino Médio. Contudo, como apontam Silva e Veiga- Neto (2021), ainda há desafios na construção de propostas que efetivamente considerem a diversidade dos sujeitos e territórios. Flexibilizar não significa desorganizar ou relativizar a qualidade do ensino, mas adaptar a escola às múltiplas realidades e às singularidades dos estudantes. Um currículo aberto pode integrar temas geradores, projetos interdisciplinares, práticas de investigação e vivências comunitárias, aproximando o saber escolar da vida. A construção de currículos flexíveis exige escuta ativa e diálogo permanente entre gestores, professores, estudantes e comunidade. Trata-se de um processo coletivo, em que todos são chamados a contribuir com suas experiências, culturas e conhecimentos. Por fim, currículos flexíveis potencializam aprendizagens mais humanas, contextualizadas e democráticas. Ao permitir múltiplos caminhos e modos de aprender, abrem espaço para que a escola seja um território de criação e não de reprodução mecânica de saberes. Protagonismo Juvenil e o Professor como Designer de Experiências: caminhos para uma educação centrada na autoria discente A centralidade do estudante nas propostas de aprendizagem ativa e currículos flexíveis implica o reconhecimento de sua autoria e protagonismo. Não se trata de delegar responsabilidades aos jovens, mas de criar condições para que possam se expressar, tomar decisões e construir conhecimento de forma colaborativa e crítica (Moll, 2010). O protagonismo juvenil rompe com a lógica bancária da educação denunciada por Freire (1996), substituindo a passividade pelo 72 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos engajamento. Projetos de intervenção social, clubes de ciências, iniciativas culturais e produção de mídias são exemplos de práticas pedagógicas que reconhecem e fortalecem a autoria discente. A pesquisa como princípio educativo, defendida por Demo (2015), é fundamental nesse processo. Estudantes autores são também pesquisadores de sua realidade, produtores de sentido e agentes transformadores de seu contexto. O protagonismo, nesse sentido, não é apenas escolar, mas social. O uso das tecnologias digitais também amplia os espaços de autoria. Plataformas, blogs, vídeos e redes sociais podem ser utilizados pedagogicamente para que os estudantes expressem suas ideias, compartilhem saberes e se conectem com outras comunidades de aprendizagem (Lemos, 2020). No entanto, para que a autoria discente seja efetiva, é necessário garantir autonomia com responsabilidade, liberdade com orientação. Cabe ao professor mediar esses processos com escuta sensível, planejamento flexível e abertura ao imprevisível que acompanha todo ato criativo. Promover o protagonismo discente é afirmar que a escola não pertence apenas aos adultos. É reconhecê-la como espaço legítimo de escuta e participação das juventudes, capazes de reinventar a escola desde dentro, a partir de suas experiências, afetos e utopias. A mudança de paradigma pedagógico exige também uma nova compreensão do papel docente. O professor deixa de ser exclusivamente transmissor de conteúdos e passa a atuar como designer de experiências educativas, ou seja, como alguém que planeja, organiza e media situações desafiadoras e significativas de aprendizagem (Valente; Almeida, 2022). Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 73 Esse novo papel demanda habilidades complexas, que vão desde o domínio de conteúdos e tecnologias até a sensibilidade para ler o contexto, adaptar estratégias e mobilizar recursos diversos. É um trabalho criativo, ético e profundamente relacional. Autores como Tardif (2014) destacam que o saber docente é construído na prática e com a prática. Não se trata de aplicar receitas prontas, mas de desenvolver repertórios para lidar com a complexidade e a imprevisibilidade do cotidiano escolar. A formação inicial e continuada precisa acompanhar essa transformação. Isso implica rever os currículos dos cursos de licenciatura, fortalecer as práticas de estágio, investir na formação colaborativa e ampliar os espaços de experimentação e reflexão crítica sobre as práticas pedagógicas. A docência como design pedagógico envolve também coragem para errar, reaprender e reconstruir. É um ofício que se alimenta da curiosidade, do diálogo e da escuta, muito mais do que do controle ou da repetição. Ao assumir-se como criador de experiências educativas, o professor afirma sua centralidade no processo formativo, não como autoridade autoritária, mas como referência ética, estética e política para os estudantes. Desafios e possibilidades para a reinvenção da escola A construção de uma escola que integre aprendizagem ativa e currículos flexíveis enfrenta diversos obstáculos. Entre eles, destacam- se a cultura escolar conservadora, a falta de políticas públicas coerentes, a precarização das condições de trabalho docente e a pressão por resultados padronizados (Oliveira, 2022). 74 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Mudar a escola é também enfrentar estruturas históricas de desigualdade, racismo, capacitismo e colonialidade que ainda marcam profundamente o sistema educacional. Como alerta Santos (2019), não se pode pensar inovação pedagógica sem justiça social. A escola que queremos reinventar precisa ser antirracista, inclusiva e decolonial. Há também desafios práticos: falta de tempo para planejamento coletivo, ausência de infraestrutura, formação docente insuficiente e resistência de parte da comunidade escolar. No entanto, experiências bem-sucedidas em redes municipais e projetos inovadores em escolas públicas mostram que, mesmo com recursos limitados, é possível transformar práticas. As possibilidades surgem quando se aposta no diálogo, na colaboração e na escuta. A construção de projetos integradores, a valorização da interdisciplinaridade e o envolvimento das famílias e comunidades são caminhos concretos para a mudança. O investimento em políticas públicas estruturantes, que garantam formação, condições de trabalho e autonomia pedagógica, é essencial para sustentar práticas inovadoras. Sem suporte institucional, a inovação tende a se restringir a iniciativas pontuais e não se consolida. Reinventar a escola é muito mais do que implementar mudanças pontuais no currículo ou na infraestrutura.Trata-se de um compromisso coletivo, contínuo e profundamente humano. É entender que a escola não existe isolada do mundo, mas sim inserida em um contexto social, cultural e político. Educar, nesse sentido, é assumir uma postura consciente e transformadora, é um ato político no melhor sentido da palavra: o de participar ativamente da construção de uma sociedade mais justa e significativa para todos. A escola, portanto, não pode ser vista como um espaço neutro, onde apenas se repassam conteúdos. Ela é, ou pode ser, um território fértil de Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 75 resistência às desigualdades, de acolhimento às diversidades e de criação de novos modos de pensar e viver. Reinventar a escola é, antes de tudo, escutar seus sujeitos (estudantes, professores, famílias), e permitir que nela se produzam sentidos, vínculos e futuros possíveis. É sonhar, mas também agir, com coragem e sensibilidade, para que a educação seja cada vez mais viva, relevante e transformadora. Referências APPLE, M. W. Currículo e poder: questões contemporâneas. Porto Alegre: Artmed, 2018. AUSUBEL, D. Aquisição e retenção de conhecimentos: uma perspectiva cognitiva. Lisboa: Plátano, 2003. BACICH, L.; MORAN, J. M. Metodologias ativas para uma educação inovadora. Porto Alegre: Penso, 2018. BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. DELORS, J. et al. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez/UNESCO, 2010. DEMO, P. Educar pela pesquisa. Campinas: Autores Associados, 2015. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996. LEMOS, A. Cibercultura crítica. Salvador: Edufba, 2020. MARIHAMA, D.; GARCIA, C. D. Modernização, inovação e transformação: três chaves para reimaginar a escola. Revista Samanyonga, v. 4, n. 1, jan./jun., 2025. Disponível em: http://www.revista-samayonga.ao/index.php/inicio/article/view/87. Acesso em: 2 ago. 2025. MITRE, S.; GOMEZ, M.; URRAZA, C. Aprendizaje activo: evidencias e impactos. Buenos Aires: Fundación Santillana, 2020. MOLL, J. Juventudes e escola: um novo pacto. Brasília: MEC/SECADI, 2010. http://www.revista-samayonga.ao/index.php/inicio/article/view/87 76 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos MORAN, J. M.; MASETTO, M.; BEHRENS, M. Novas tecnologias e mediação pedagógica. Campinas: Papirus, 2013. MOREIRA, M. A. L.; ZANELATO, F. L. S.; CALLEGARI, M. C.; GREGÓRIO, M. M.; BASSINI, M.; LIMA, S. A.; SANTOS, S. M. A. V. Metodologias ativas na educação: desa�os e oportunidades para o docente na transformação do ensino. Cuadernos de Educación y Desarrollo, v. 16, n. 10, p. e5943, 2024. Disponível em: https://ojs.cuadernoseducacion.com/ojs/index.php/ced/article/view/5943. Acesso em: 2 ago. 2025. OLIVEIRA, D. A. Trabalho docente na educação básica: intensi�cação e precarização. São Paulo: Cortez, 2022. PACHECO, J. A. Currículo: teoria e história. São Paulo: Cortez, 2019. SACRISTÁN, J. G. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre: Artmed, 2017. SANTOS, B. S. O �m do império cognitivo. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. SILVA, T. T. ; VEIGA-NETO, A. Políticas de currículo: ensino médio e BNCC. Belo Horizonte: Autêntica, 2021. TARDIF, M. Saberes docentes e formação pro�ssional. Petrópolis: Vozes, 2014. VALENTE, J. A.; ALMEIDA, M. E.. O professor designer de experiências. Campinas: Papirus, 2022. VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. https://ojs.cuadernoseducacion.com/ojs/index.php/ced/article/view/5943 5 CUIDAR PARA ENSINAR: SAÚDE MENTAL DE PROFESSORES E ESTUDANTES Huthysonn Gomes Lima Antonia Pereira de Sousa Alcielda Carvalho dos Santos Rosimeiri de Oliveira Nunes Lilian de Sena Marinho Camila Luana Castro Lima Ferreira Adriana Melo Soares Savi Apresentação Neste capítulo, são discutidos os impactos do adoecimento docente e as consequências emocionais da pandemia na comunidade escolar. Apresenta-se a urgência de uma escola acolhedora que priorize o cuidado com a saúde mental de todos os seus membros. A reflexão busca promover práticas pedagógicas que valorizem o bem-estar e o suporte emocional, reconhecendo que ensinar e aprender dependem de ambientes saudáveis e humanos. A crise do cuidado na educação: uma urgência silenciada A escola é, por natureza, um espaço de encontros. É ali que vidas se entrelaçam diariamente, em uma convivência intensa entre docentes, estudantes, gestores, funcionários e famílias. Esse convívio cotidiano vai muito além da mera transmissão de conteúdos: trata-se de um cenário onde emoções, conflitos, expectativas e afetos se cruzam constantemente. É nesse contexto, permeado por singularidades e diversidades, que o cuidado se impõe como elemento estruturante da prática educativa. 78 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Mais do que um conceito abstrato, o cuidado na escola manifesta- se na escuta atenta, na acolhida das diferenças, no respeito às trajetórias individuais e na valorização da dignidade de cada pessoa. Cuidar, nesse sentido, é agir com empatia e responsabilidade diante das múltiplas situações que emergem no cotidiano escolar, desde um estudante que enfrenta dificuldades emocionais, até a mediação de conflitos entre colegas ou o apoio a uma família em situação de vulnerabilidade. Tais ações exigem da comunidade escolar não apenas formação técnica, mas sobretudo sensibilidade humana, ética e compromisso coletivo (Herbes; Weber, 2025). A educação humanizada reconhece que ensinar é, antes de tudo, um ato relacional. Não se trata apenas de planejar conteúdos e cumprir currículos, mas de criar vínculos, estabelecer relações de confiança e garantir que cada sujeito seja visto e tratado como único e valioso. Quando o cuidado está no centro da ação pedagógica, a escola se torna um espaço de pertencimento, onde aprender é também sentir-se acolhido, compreendido e respeitado. Segundo Herbes e Weber (2025), o ambiente escolar é marcado por uma diversidade ampla de faixas etárias, contextos culturais, identidades de gênero, crenças e modos de ser. Essa pluralidade exige um olhar atento e uma postura aberta, capaz de transformar a convivência em oportunidade de aprendizado mútuo. O cuidado, nesse cenário, se revela como uma prática ética indispensável, que permite lidar com os desafios da diferença de forma respeitosa e construtiva. Por tudo isso, refletir sobre o cuidado na educação é também refletir sobre a própria essência do ato de educar. A humanização das relações escolares não é uma tarefa secundária, mas parte fundamental da construção de uma escola justa, democrática e transformadora. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 79 Hoje em dia, a educação enfrenta uma crise séria quando se trata de cuidar tanto dos professores quanto dos alunos. Essa situação reflete um momento em que pressões econômicas, políticas e sociais desvalorizam o trabalho de ensinar e tornam as condições de aprendizagem mais difíceis. A pandemia de Covid-19 mostrou e aumentou ainda mais desses problemas, deixando que é urgente repensar as práticas escolares, colocando o cuidado no centro, como uma base essencial para manter a escola como um espaço de crescimento humano e social. A crise do cuidado manifesta-se em múltiplas dimensões. Para os professores, a sobrecarga de trabalho, a falta de reconhecimento e o contexto de desvalorização profissional impactam diretamente sua saúde mental, gerando adoecimentos como ansiedade, depressão e síndrome de burnout (Cunha; Lima, 2020; Fundação Carlos Chagas, 2021). Para os estudantes, o ambiente escolar tradicional, marcado por exigências excessivas e pouca escuta, contribui para quadros crescentes de sofrimento psíquico (OPAS, 2021; OMS, 2022). O conceito de cuidado, desenvolvido por Joan Tronto(2015), amplia a compreensão para além do simples ato de ajudar, incorporando dimensões éticas, políticas e sociais. Na escola, o cuidado envolve a criação de ambientes que promovam o bem-estar integral, respeitando as singularidades e promovendo vínculos de solidariedade e empatia. No entanto, o modelo educacional vigente prioriza a eficiência, o rendimento e a padronização, relegando o cuidado a um segundo plano. Isso reproduz uma lógica neoliberal que reduz o educar a um processo técnico e instrumental, desconsiderando as dimensões afetivas e relacionais (Dardot; Laval, 2016). É imprescindível, portanto, que o cuidado seja resgatado como eixo central das políticas e práticas educativas. Isso implica uma mudança 80 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos de paradigma que reconheça a escola como espaço de convivência humana, aprendizado coletivo e promoção da saúde mental. Essa transformação demanda investimento em formação docente que inclua temas como escuta sensível, mediação de conflitos e estratégias de autocuidado. Também requer a articulação entre educação e saúde, com a garantia de equipes multiprofissionais nas instituições escolares. A saúde mental, nesse contexto, não pode ser vista como um problema individual, mas como um fenômeno coletivo, que exige respostas estruturais e políticas (Cunha; Lima, 2020; OMS, 2022). Além disso, o reconhecimento das desigualdades e das múltiplas formas de opressão presentes na escola é fundamental para construir práticas de cuidado verdadeiramente inclusivas e transformadoras (Collares; Moysés, 2017). A escola que cuida é aquela que acolhe as diferenças, valoriza os afetos e promove o protagonismo de todos os seus sujeitos, contribuindo para a construção de uma cultura de paz e respeito mútuo. Por fim, cabe destacar que cuidar para ensinar é também um ato político que resiste às pressões do mercado e reafirma a educação como um direito humano fundamental. É urgente, portanto, que educadores, gestores e formuladores de políticas públicas assumam o compromisso de transformar a escola em um espaço de cuidado efetivo e permanente. Professores em exaustão: a doença invisível da docência O fenômeno do adoecimento mental entre professores tem sido caracterizado como uma “doença invisível”, dada a dificuldade em ser diagnosticado e compreendido (Quadro 1). O desgaste emocional e físico decorrente das condições precárias, do excesso de demandas e da falta de apoio institucional configuram fatores determinantes para a Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 81 síndrome de burnout, depressão e ansiedade entre os docentes (Maslach; Leiter, 2016; Cunha; Lima, 2020). Quadro 1 – Principais doenças que afetam a saúde mental dos professores. Doença / Transtorno Causas Principais Sintomas Comuns Impacto da Atuação Síndrome de Burnout Excesso de trabalho, sobrecarga emocional, falta de reconhecimento. Cansaço extremo, irritabilidade, insônia, desmotivação. Queda no desempenho, afastamento do trabalho, conflitos em sala. Depressão Estresse crônico, pressão por resultados, isolamento social. Tristeza persistente, alterações no sono e apetite. Dificuldade de planejamento, falta de energia, afastamento emocional. Ansiedade Generalizada Insegurança profissional, excesso de demandas, pressão por resultados. Preocupação constante, taquicardia, tensão muscular, dificuldade de foco. Dificuldade de concentração, medo de avaliação, nervosismo em sala. Transtorno do Pânico Estresse intenso, situações traumáticas, ambiente escolar hostil. Crises súbitas de medo, falta de ar, sensação de morte iminente. Medo de estar em sala, evasão, autossabotagem. TEPT (Estresse Pós-Traumático) Experiências traumáticas (violência escolar, assédio, ameaças). Flashbacks, insônia, hipervigilância, evitação de situações semelhantes. Dificuldade em retornar a rotina, retraimento, sensação de insegurança. Transtornos Psicossomáticos Pressão psicológica prolongada e não elaborada. Dores físicas sem causa orgânica (cabeça, estômago, musculares). Afastamentos frequentes, sofrimento silencioso. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). A literatura aponta que o trabalho docente é permeado por tensões e paradoxos que afetam a saúde mental. A dedicação integral, a responsabilidade por resultados e a exposição a situações conflituosas elevam o risco de exaustão emocional (Antunes; Zuin, 2021). 82 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Ademais, o fenômeno do burnout é caracterizado por três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal. Professores com burnout tendem a apresentar sentimentos de incompetência, distanciamento dos alunos e dos colegas e desgaste intenso (Maslach; Leiter, 2016). Estudos no contexto brasileiro revelam que a precarização do trabalho docente, associada à desvalorização social, agrava esses quadros. A falta de políticas efetivas de suporte e a escassez de formação específica sobre saúde mental são desafios persistentes (Fundação Carlos Chagas, 2021). A pandemia de Covid-19 exacerbou essas condições, com a necessidade de adaptação rápida ao ensino remoto, isolamento social e insegurança, aumentando a carga psicológica dos professores (Cunha; Lima, 2020). Além disso, o contexto educacional marcado por constantes reformas e avaliações externas reforça a pressão por resultados e a competitividade, contribuindo para a sensação de insegurança e vulnerabilidade (Cury, 2020). A relação professor-aluno, muitas vezes central para o sentido do trabalho docente, pode ser fragilizada pelo adoecimento, impactando negativamente o processo de ensino-aprendizagem (Tardif, 2014). A escuta sensível e o apoio institucional são apontados como estratégias essenciais para o enfrentamento do adoecimento mental docente. Espaços de diálogo, supervisão e redes de apoio fortalecem o vínculo e possibilitam o compartilhamento de experiências (Antunes; Zuin, 2021). É fundamental que as políticas públicas garantam condições adequadas de trabalho, formação continuada e acesso a serviços de saúde mental para professores. Mais do que uma questão individual, o Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 83 adoecimento docente reflete problemas estruturais do sistema educacional e do mercado de trabalho, demandando respostas coletivas e políticas. Nesse sentido, repensar o trabalho docente implica valorizar o profissional, reconhecer suas contribuições e garantir ambientes escolares saudáveis e acolhedores. A saúde mental dos professores é, portanto, um indicador crucial para a qualidade da educação e para a promoção de uma escola democrática e inclusiva. Estudantes sob pressão: sofrimentos silenciados na escola A saúde mental dos estudantes tem sido amplamente negligenciada pelas políticas educacionais e pelas práticas escolares. As exigências cada vez maiores por desempenho, associadas à rigidez dos currículos e à escassez de espaços de escuta e acolhimento, têm contribuído para o crescimento de quadros de ansiedade, depressão e sofrimento psíquico entre crianças e adolescentes (Quadro 2). Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2021), os transtornos mentais são a principal causa de incapacidade nessa faixa etária, demandando ações urgentes e efetivas. Quadro 2 – Principais doenças que afetam a saúde mental dos estudantes. Doença / Transtorno Causas Principais Sintomas Comuns Impacto na Vida Escolar Ansiedade Pressão por desempenho, medo de reprovação, excesso de atividades. Preocupação constante, sudorese, taquicardia, dificuldade de concentração. Baixo rendimento, esquecimento, medo de provas e apresentações. DepressãoProblemas familiares, bullying, isolamento, autoestima baixa. Tristeza persistente, apatia, alteração no sono e apetite, desmotivação. Falta de interesse, evasão escolar, notas baixas, comportamento retraído. 84 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) Fatores genéticos e neuroquímicos. Desatenção, impulsividade, agitação motora, esquecimento. Dificuldade de seguir instruções, realizar tarefas, mater o foco. Transtorno de Ansiedade Social (Fobia Social) Medo de ser julgado, experiências de rejeição ou humilhação. Evita situações sociais, nervosismo extremo, rubor facial. Evita apresentações, interações com colegas e professores, isolamento. Transtorno do Pânico Situações de estresse intenso ou inesperado. Crises súbitas de medo intenso, falta de ar, sensação de morte iminente. Ausência nas aulas, medo de estar em ambientes escolares. Transtornos Alimentares (Anorexia, Bulimia, Compulsão) Pressão estética, bullying, redes sociais, baixa autoestima. Alterações no peso, alimentação compulsiva ou restritiva, distorção da autoimagem. Dificuldade de concentração, fraqueza física, isolamento, desatenção. Transtornos Psicossomáticos Estresse escolar e familiar mal gerenciado. Dores de cabeça, estômago, tensão muscular, sem causa médica aparente. Queixas físicas recorrentes, faltas frequentes, queda no rendimento. Estresse Escolar Carga excessiva de estudos, competição, conflitos interpessoais. Irritabilidade, insônia, exaustão, falta de motivação. Dificuldade de aprendizado, desinteresse, cansaço crônico. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). A escola, em sua configuração tradicional, prioriza a normatização e o controle, muitas vezes ignorando as complexidades emocionais dos estudantes. O modelo disciplinar, baseado em hierarquias rígidas e avaliações padronizadas, pouco espaço deixa para o desenvolvimento da autonomia, da expressão emocional e da escuta ativa. Isso contribui para a reprodução de um ambiente escolar que silencia e marginaliza o sofrimento subjetivo. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 85 A pandemia de Covid-19 evidenciou e agravou esse cenário. O isolamento social, a perda de vínculos afetivos, a insegurança alimentar e a incerteza em relação ao futuro foram fatores que impactaram severamente a saúde mental de estudantes em todo o mundo. Pesquisa realizada pelo Instituto Ayrton Senna (2022) revelou que mais de 70% dos estudantes brasileiros apresentaram queda nos níveis de motivação e engajamento escolar no retorno às aulas presenciais. Além disso, os marcadores sociais da diferença — como gênero, raça, classe e deficiência — atravessam e intensificam as experiências de sofrimento. Estudantes negros, indígenas, LGBTQIA+ e com deficiência são particularmente vulneráveis à exclusão e à violência simbólica e institucional no ambiente escolar. Isso revela a urgência de políticas interseccionais que reconheçam as múltiplas formas de opressão que operam na escola. O bullying, a discriminação e a invisibilização de identidades são formas recorrentes de violência escolar que afetam diretamente a saúde emocional dos estudantes. Estudos como os de Abramovay e Rua (2020) mostram que o ambiente escolar pode ser tanto um fator de proteção quanto de risco para o desenvolvimento emocional, dependendo de como as relações são construídas e mediadas pelos adultos. Outro ponto crítico diz respeito à medicalização da infância e da adolescência. Em vez de escutar e compreender os sinais de sofrimento, a escola muitas vezes recorre à rotulação e ao encaminhamento médico como estratégia de contenção. Conforme apontam Garcia e Moreira (2019), a escola precisa superar o paradigma da normalização e abrir-se ao acolhimento das singularidades. A escuta ativa e o diálogo são elementos centrais para a construção de uma cultura escolar de cuidado. Isso significa criar espaços onde os estudantes possam falar de suas angústias, dúvidas e inseguranças sem 86 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos medo de julgamento ou punição. Tais espaços devem estar articulados a práticas pedagógicas que valorizem a expressão criativa, o trabalho colaborativo e o respeito às diversidades. É fundamental, portanto, investir em políticas institucionais de saúde mental que incluam a presença de psicólogos escolares, formação continuada dos educadores em temas relacionados ao bem-estar emocional e integração da saúde mental nos projetos político- pedagógicos. A Lei 13.935/2019, que prevê a inserção de psicólogos e assistentes sociais nas escolas públicas, é um passo importante nesse sentido, embora ainda pouco implementada. A dimensão emocional da aprendizagem deve ser reconhecida como constitutiva do processo educativo. Não se trata apenas de ensinar conteúdos, mas de formar sujeitos críticos, sensíveis e capazes de lidar com os desafios da existência. Como argumenta Damásio (2012), não há cognição sem emoção — o cérebro aprende em interação com os afetos. É também urgente revisar os currículos escolares para que contemplem temas como saúde mental, empatia, resolução de conflitos, educação emocional e cidadania. Isso não deve ser uma atividade pontual ou extracurricular, mas um eixo transversal que perpassa toda a vida escolar. A cultura do desempenho precisa ser questionada. A ênfase na competitividade e na produtividade transforma a escola em um espaço de tensão constante, o que pode gerar quadros de ansiedade de performance e síndrome do impostor entre os estudantes. Criar uma cultura do erro, da experimentação e da aprendizagem processual é um caminho para humanizar as práticas educativas. Por fim, é imprescindível que os estudantes sejam protagonistas na construção de uma escola mais saudável. Escutá-los, envolvê-los nos Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 87 processos decisórios e valorizar suas experiências são ações que fortalecem o sentimento de pertencimento e promovem o cuidado mútuo. Políticas de cuidado e educação emocional: caminhos para a escola que acolhe A construção de uma escola que acolhe requer a formulação e implementação de políticas públicas intersetoriais voltadas à promoção da saúde mental. Isso implica integrar os campos da educação, da saúde e da assistência social, de forma a garantir o suporte necessário aos estudantes e profissionais da educação. O cuidado, nesse sentido, deve ser entendido como eixo estruturante das práticas pedagógicas e da gestão escolar. Uma política educacional que incorpore o cuidado como princípio não pode prescindir da formação inicial e continuada dos professores para lidar com questões emocionais e relacionais no cotidiano escolar. Segundo Antunes e Zuin (2021), é urgente que os cursos de licenciatura incluam em seus currículos conteúdos sobre saúde mental, escuta sensível, empatia e mediação de conflitos. Sem isso, os docentes permanecem despreparados para atuar em contextos de sofrimento psíquico. A educação emocional precisa ser compreendida como um direito e uma necessidade de todos os sujeitos escolares. Desenvolver competências socioemocionais não é um modismo pedagógico, mas uma resposta às demandas contemporâneas de convivência, bem-estar e cidadania. Como afirmam Goleman e Senge (2014), a inteligência emocional é fundamental para o sucesso acadêmico e para o desenvolvimento integral dos estudantes. Contudo, é preciso cuidado para que a educação emocional não se transforme em uma ferramenta de regulação comportamental ou de 88 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos responsabilização individual. O risco da captura neoliberal desses discursos,como analisam Rauter e Silva (2020), está na substituição das causas estruturais do sofrimento por soluções moralizantes centradas no autocontrole. Por isso, é necessário manter um olhar crítico e contextualizado. A gestão escolar também desempenha papel estratégico na criação de uma cultura institucional de cuidado. A promoção de um ambiente organizacional saudável, baseado na escuta, no diálogo e na valorização dos profissionais, repercute positivamente na saúde coletiva da comunidade escolar. Iniciativas como rodas de conversa, espaços de cuidado coletivo e tempo reservado para planejamento colaborativo são práticas que fortalecem o vínculo e a confiança entre os membros da escola. A presença de equipes multiprofissionais nas escolas é outro aspecto fundamental. Psicólogos, assistentes sociais, orientadores educacionais e outros profissionais devem compor os quadros permanentes das instituições, atuando em parceria com os professores e gestores. A implementação efetiva da Lei 13.935/2019 representa um passo decisivo nesse sentido, mas ainda encontra muitos entraves políticos e orçamentários. A escola que acolhe também precisa articular-se com a comunidade. Parcerias com serviços de saúde mental, centros culturais, coletivos juvenis e organizações não-governamentais ampliam a rede de apoio aos estudantes e favorecem a construção de uma escola viva, permeável às experiências sociais e afetivas de seus sujeitos. A territorialização das políticas educacionais é, portanto, uma estratégia potente de cuidado. É igualmente importante repensar os espaços físicos da escola. Ambientes agradáveis, arejados, com cores, arte e natureza, contribuem Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 89 para o bem-estar emocional. Como aponta Santos (2020), a arquitetura escolar pode ser aliada do cuidado quando propicia encontros, movimentos, refúgios e liberdade. A estética também educa e acolhe. As avaliações escolares, por sua vez, devem ser revistas à luz de uma pedagogia do cuidado. A ênfase em testes padronizados e ranqueamentos não apenas exclui, mas também adoece. Avaliar deve ser um ato formativo, que reconheça o processo, a singularidade e o contexto dos sujeitos. Nesse aspecto, a escuta e o feedback qualitativo são ferramentas mais eficazes do que a simples atribuição de notas. A participação estudantil nos processos decisórios da escola é outro eixo fundamental. Estudantes que têm voz ativa sentem-se mais pertencentes e valorizados, o que fortalece sua autoestima e reduz situações de sofrimento. Como demonstram os estudos de Rios e Ferreira (2022), o protagonismo juvenil tem impacto direto na saúde emocional e na qualidade da convivência escolar. A produção de indicadores qualitativos de bem-estar escolar pode auxiliar na formulação de políticas mais sensíveis e eficazes. Mapear sentimentos, relações, desafios e potências permite à escola atuar preventivamente e de forma integrada. Ferramentas como questionários de clima escolar, assembleias pedagógicas e grupos focais são alternativas viáveis e participativas. Finalmente, é imprescindível resgatar o papel ético da educação como prática de liberdade, como ensinava Paulo Freire. Cuidar, no contexto escolar, é um ato político, que se opõe à lógica da exclusão e da padronização. A escola que acolhe é aquela que reconhece as múltiplas formas de ser e existir, que legitima os afetos e que constrói, cotidianamente, uma cultura de paz, solidariedade e respeito mútuo. Construir uma educação que cuida é, portanto, um projeto coletivo e contínuo. Requer compromisso, investimento, formação, escuta e 90 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos coragem. Mas é também a única via possível para garantir o direito de ensinar e aprender em condições dignas e humanas. Referências ABRAMOVAY, M.; RUA, M. Bullying escolar: o que dizem os adolescentes. Brasília: UNESCO, 2020. ANTUNES, R.; ZUIN, A. A saúde mental dos professores: trabalho e adoecimento docente no século XXI. São Paulo: Cortez, 2021. APPLE, M. W. O conhecimento o�cial: democracia e educação numa era conservadora. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2018. BRASIL. Lei nº 13.935, de 11 de dezembro de 2019. Dispõe sobre a prestação de serviços de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica. Diário O�cial da União: seção 1, Brasília, DF, 12 dez. 2019. COLLARES, C. A. L.; MOYSÉS, M. A. A inclusão escolar de alunos com necessidades educativas especiais. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. CUNHA, M. I.; LIMA, M. E. C. Trabalho docente e saúde mental: reflexões e desa�os contemporâneos. Educação & Sociedade, v. 41, 2020. CURY, C. R. J. Educação e políticas públicas no Brasil: uma década de retrocessos. Revista Brasileira de Educação, v. 25, 2020. DAMÁSIO, A. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. FUNDAÇÃO CARLOS CHAGAS. Condições de trabalho e saúde mental dos professores no Brasil. São Paulo, 2021. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 91 GARCIA, M. C.; MOREIRA, A. L. A medicalização da educação: uma análise crítica. São Paulo: Cortez, 2019. GOLEMAN, D.; SENGE, P. Inteligência emocional e a educação: competências para a vida. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. HERBES, N. E.; WEBER, E. E. O cuidado nos intermeios escolares. Revista Unitas, v. 12, n. 1, 2024. Disponível em: https://revista.fuv.edu.br/index.php/unitas/article/view/ 2900. Acesso em: 2 ago. 2025. INSTITUTO AYRTON SENNA. Relatório de Impacto Socioemocional no Retorno às Aulas Presenciais. São Paulo, 2022. MASLACH, C.; LEITER, M. P. The truth about burnout. San Francisco: Jossey-Bass, 2016. OPAS – ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Saúde mental de adolescentes e jovens. Brasília, 2021. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All. Geneva: WHO, 2022. RAUTER, C.; SILVA, T. T. Da educação emocional ao neoliberalismo afetivo: crítica a uma pedagogia do autocontrole. Educação & Sociedade, v. 41, 2020. RIOS, R. C.; FERREIRA, L. L. Juventudes e participação: sentidos da escuta ativa na escola. Revista Brasileira de Educação, v. 27, 2022. SANTOS, B. S. A cruel pedagogia do vírus. São Paulo: Boitempo, 2020. TARDIF, M. Saberes docentes e formação pro�ssional. Petrópolis: Vozes, 2014. TRONTO, J. Moral boundaries: a political argument for an ethic of care. Nova Iorque: Routledge, 2015. https://revista.fuv.edu.br/index.php/unitas/article/view/2900 https://revista.fuv.edu.br/index.php/unitas/article/view/2900 6 EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA E OS DESAFIOS DA SUSTENTABILIDADE Maria do Socorro Pereira Costa Lima Huthysonn Gomes Lima Samuel Wesley Leonço da Costa Ludimilla Ronqui Maria Mabelle Pereira Costa Paiva Edson Omar da Silva Aluísio Marques da Fonseca Celso Costa Santos Júnior Apresentação Este capítulo posiciona a escola como um espaço fundamental para a formação ecológica e a conscientização ambiental, articulando a educação à luta por justiça ambiental e à sobrevivência do planeta. Frente aos desafios da crise climática e da degradação dos recursos naturais, o texto propõe abordagens pedagógicas críticas que incentivem a responsabilidade coletiva e a ação transformadora em prol da sustentabilidade. Fundamentos da Educação Ambiental Crítica Vivemos um tempo de crises múltiplas e interligadas: socioambientais, éticas, econômicas, culturais e políticas. Essas crises não surgem de forma espontânea, mas são consequências diretas de um modelo de sociedade baseado na exploração ilimitada da natureza e na intensificaçãoprocesso democrático, a escola se constrói coletivamente. Portanto, no capítulo VIII, a ênfase na gestão democrática e na resistência na educação pública nos recorda que a luta por políticas educacionais justas, pela valorização docente e pela escuta das comunidades escolares é parte fundamental do projeto educativo. As juventudes, tão presentes e, ao mesmo tempo, tantas vezes ignoradas, aparecem no capítulo IX, que trata da cultura digital e das novas linguagens. Entender os jovens é também compreender seus códigos, seus mundos, seus potenciais. É, sobretudo, escutá-los como protagonistas de suas trajetórias. Por fim, o capítulo X nos devolve a questão de fundo: a formação docente. Não pode haver transformação na educação sem a presença do professor que pensa, que questiona, que aprende com sua prática e com a dos outros. Programas como o PIBID e Residência Pedagógica são sementes dessa reconstrução permanente do ser professor, que se faz no chão da escola, na experiência, na humildade e no compromisso com o inédito viável. Por tudo isso convido vocês leitores a desfrutar de cada página desse livro, que é um ato pedagógico de esperança. Uma convocação a que sejamos autores e autoras do nosso tempo, sem ceder ao fatalismo nem à acomodação. Que cada página aqui lida seja um convite a ensinar e aprender com alegria, com coragem e com o desejo profundo de que a educação continue sendo o mais bonito ato de rebeldia contra as injustiças e o mais nobre gesto de fé na humanidade. Boa leitura! APRESENTAÇÃO Iuri da Cruz Oliveira 1 Francisco Gilson Gabriel Maia 2 Estamos sob o impacto de transformações que atravessam a vida social em todas as suas dimensões: das tecnologias que redesenham o modo de ser e comunicar, às crises ecológicas que clamam por um novo pacto civilizatório; das rupturas políticas que tensionam a democracia, às mudanças culturais que desafiam o viver em coletividade. Nesse cenário, por vezes inquietante, a educação não pode permanecer imóvel. Ela é convocada, com urgência e esperança, a se reconstruir como um aparato institucional, prática social viva, contextualizada, dialógica e profundamente humana. Mais do que conteúdos empilhados ou metas estatísticas, o que se espera da escola hoje é que ela seja capaz de formar sujeitos críticos, éticos e solidários, capazes de intervir no mundo e de se reinventar com ele. A educação precisa escutar o tempo presente com sensibilidade e coragem, acolher suas inquietações e ressignificar seus caminhos. Este livro nasce da vontade de refletir sobre as fronteiras que a educação precisa atravessar, fronteiras epistemológicas, culturais, éticas e pedagógicas, para que continue sendo espaço de vida e de transformação. As novas demandas que se impõem, como a emergência climática, a equidade racial e de gênero, a valorização das juventudes e das identidades plurais, o avanço das inteligências artificiais e o cuidado com a saúde mental, não são modismos ou tendências transitórias. São 1 Secretaria de Educação do Estado do Ceará, Ceará, Brasil 2 Secretaria Municipal de Educação de Horizonte, Ceará, Brasil 14 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos vozes da contemporaneidade que exigem uma escuta ativa e uma prática pedagógica renovada. A escola precisa se desnudar das velhas certezas e abrir-se ao diálogo com o mundo real e seus conflitos. Isso exige coragem política, revisão curricular, reinvenção metodológica e, sobretudo, uma formação docente crítica e comprometida com a justiça social. Os capítulos deste livro tratam de temas que, embora muitas vezes negligenciados, são estruturantes para uma educação do presente com vistas ao futuro. Não se trata de uma lista de soluções ou receitas de boas práticas, mas um convite ao pensamento inquieto, à investigação crítica e ao exercício da imaginação pedagógica. Aqui, buscamos entrelaçar teoria e prática, pesquisa e experiência, palavra e ação, como deve ser todo processo verdadeiramente educativo. Dirige-se a todos que ainda acreditam que educar é um ato político, estético e afetivo. Aos professores que ousam cultivar esperança em meio ao desencanto.Aos gestores que entendem a escola como um território de criação. Aos estudantes, pesquisadores e militantes que fazem da educação um campo de luta e de amorosidade. Cada tema aqui descrito é um chamado a romper silêncios, a deslocar certezas, a construir coletivamente outras formas de ensinar e de aprender. Se estas páginas puderem provocar reflexão, diálogo e compromisso, já terão cumprido seu papel. Que possam nutrir práticas libertadoras e renovar o pacto com uma educação pública, democrática e insurgente, que não se limite a ensinar o mundo como ele é, mas que ouse sonhá-lo como ele pode vir a ser. Desfrutem ao máximo cada página desse livro. 1 EDUCAR EM TEMPOS DE INCERTEZA: A ESCOLA NO SÉCULO XXI Iuri da Cruz Oliveira Alan Lucas de Oliveira Lima Antônio Oliveira de Sousa Gleisiane Barbosa dos Santos Rosimeiri de Oliveira Nunes Rosana de Oliveira Nunes Neto Maria do Socorro Pereira Costa Lima Apresentação O capítulo traz uma análise sobre os desafios educacionais em um mundo repleto de incertezas. Diante de crises ambientais, tecnológicas, de saúde e políticas, a educação do século atual deve passar por uma renovação. Ela não pode apenas repassar informações, mas desenvolver indivíduos críticos, aptos a entender e mudar o mundo ao seu redor. Ao investigar as dificuldades atuais, as reflexões propostas sugerem alternativas viáveis para uma educação que se dedique à vida, à democracia e à criação de futuros mais equitativos e sustentáveis. Introdução: A educação em tempos turbulentos Nos encontramos em um período marcado por transformações profundas e contínuas, em que a sociedade parece se romper por múltiplos aspectos: climáticos, tecnológicos, sanitários, políticos e éticos (Quadro 1). Segundo Souza, Franco e Costa (2016), frente as alterações ocasionadas pelas tecnologias ao longo do tempo na humanidade, e os impactos causados na reconfiguração do processo de ensino e aprendizagem, os papéis dos envolvidos na educação foram revistos e, em certos casos, transformados, como por exemplo, o papel discente. 16 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Nesse cenário, educar tornou-se um desafio ainda mais complexo e essencial. A escola, enquanto espaço social privilegiado para o encontro, o debate e a formação humana, se vê diante da urgência de repensar seu papel no século XXI. As formas tradicionais de ensinar e aprender já não dão conta de responder aos novos dilemas que emergem cotidianamente. Segundo Lenharo (2021), a escola é um ambiente especial para a formação de conhecimentos e que deve ser tratada com respeito, mostrando o valor de atender a todos os estudantes, valorizando práticas interativas e inclusivas que favoreçam a conexão entre os membros da comunidade escolar. Quadro 1: As Múltiplas Bordas do Rompimento do Tecido Social. Dimensão Descrição Impactos na sociedade e na educação Climática Refere-se à intensificação das mudanças climáticas, como aquecimento global, eventos extremos (secas, enchentes, incêndios). Ameaça à segurança alimentar, à saúde pública e a sustentabilidade; exige reconfiguração curricular e compromisso com a educação ambiental crítica. Tecnológica Avanços acelerados em IA, automação, big data, redes sociais e EdTechs. Geração de desigualdades digitais; transformação das relações de trabalho e do papel da escola; necessidade de letramento digital e reflexão ética sobre o uso da tecnologia. Sanitária Referências às pandemias, como a da COVID-19, e seus efeitos duradouros. Revela fragilidades dos sistemas de saúde e educação; impacta o bem-estar mental e emocional; impulsionadas desigualdades humanas. No centro dessa realidade encontra-se o modo de produção capitalista, que transforma o mundo natural e os próprios seres humanos em mercadorias, subjugando a vida à lógica do lucro. Nesse 94 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos cenário, pensar uma educação ambiental crítica torna-se não apenas urgente, mas profundamente necessário para que possamos enfrentar, de maneira consciente e transformadora, os conflitos ambientais e sociais que marcam nosso tempo, especialmente na América Latina, território historicamente impactado pela colonialidade, pela dependência econômica e pela expropriação dos povos e dos bens naturais (Costa; Loureiro, 2024). Segundo Costa e Loureiro (2024), a educação ambiental, quando pautada em uma perspectiva crítica, humanizada e emancipatória, não se limita a práticas pontuais de preservação ou consumo consciente. Ela propõe, antes de tudo, um repensar radical das relações entre sociedade e natureza, convidando educadores, educandos e comunidades a desvelarem as estruturas que geram desigualdade ambiental, injustiça social e destruição ecológica. Trata-se de compreender que os problemas ambientais não são apenas ecológicos ou técnicos, mas sociais, históricos e políticos, enraizados em relações desiguais de poder, território e saber. Isso exige da educação um compromisso com a denúncia da alienação e da coisificação da vida, mas também com o anúncio de alternativas possíveis, baseadas na solidariedade, na equidade e no respeito à diversidade dos modos de vida. A partir do referencial teórico crítico latino-americano, autores como Enrique Dussel, Maristela Svampa, Carlos Frederico Loureiro e outros nos ajudam a compreender que a educação ambiental deve se insurgir contra a lógica dominante da produção e do consumo, propondo uma práxis que articule saber, ética e transformação social. Essa educação não apenas transmite conteúdos: ela forma sujeitos históricos capazes de interpretar criticamente o mundo, agir sobre ele e participar da construção de outros futuros. O currículo, nessa perspectiva, deixa de ser um espaço neutro e passa a ser campo de Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 95 disputa, onde se tensionam projetos de sociedade, modos de produzir conhecimento e formas de existir no planeta. A educação ambiental crítica, portanto, precisa estar enraizada nas realidades concretas dos territórios, reconhecendo os conflitos ambientais vividos por comunidades tradicionais, povos originários, camponeses e populações periféricas. Esses grupos, muitas vezes marginalizados pelas políticas públicas e pelo discurso hegemônico, não apenas sofrem os impactos socioambientais, mas também produzem saberes potentes, experiências de resistência e formas sustentáveis de relação com a terra, com a água e com a vida. Escutá-los e aprender com eles é também um ato educativo e político. Assim, inaugurar um debate sobre educação ambiental crítica é, antes de tudo, afirmar a centralidade do cuidado, da justiça e da liberdade na formação humana. É romper com a fragmentação do conhecimento e com a naturalização das desigualdades, construindo um horizonte educativo que não reproduz a ordem vigente, mas que contribui para transformá-la. A educação ambiental, em sua vertente crítica, transcende a simples transmissão de informações sobre o meio ambiente. Trata-se de um campo que visa promover uma consciência socioambiental capaz de questionar as relações de poder, os modelos de desenvolvimento e as desigualdades socioambientais que estruturam a sociedade contemporânea (Loureiro, 2012). Essa abordagem não se limita ao conteúdo escolar, mas busca articular a formação de sujeitos ecológicos, capazes de agir com responsabilidade e compromisso social. Segundo Gadotti (2009), educar ambientalmente é promover a formação de uma cidadania planetária, orientada para a justiça ambiental, a equidade e a solidariedade intergeracional. 96 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Autores como Freire (1979) e Gadotti (2000) são fundamentais para compreender as bases epistemológicas dessa vertente crítica. Freire defende uma educação problematizadora, na qual o educando é agente da própria formação, dialogando com o mundo para transformá-lo. Aplicada à educação ambiental, essa perspectiva leva à necessidade de uma leitura crítica da realidade socioambiental. Em um mundo atravessado por mudanças climáticas, degradação dos ecossistemas e desigualdades sociais, a educação ambiental crítica ganha relevo ao propor uma abordagem inter e transdisciplinar, que integra saberes locais e científicos, articulando conhecimento e ação (Carvalho, 2017). Ao contrário das abordagens conservacionistas ou comportamentais, que frequentemente responsabilizam o indivíduo isoladamente pelos impactos ambientais, a perspectiva crítica insere as questões ecológicas em contextos históricos, econômicos e culturais. Isso permite compreender, por exemplo, que o consumo exacerbado e a exploração dos recursos naturais são efeitos de um modelo de desenvolvimento capitalista insustentável. A crítica ao modelo dominante de desenvolvimento é, portanto, central na educação ambiental crítica. Leff (2010) argumenta que é preciso superar a racionalidade instrumental e tecnocrática para construir uma racionalidade ambiental, baseada em outros valores, como a reciprocidade, o cuidado e a vida. Nesse processo, o papel da escola é fundamental, mas deve ser repensado. A escola não pode ser um espaço de mera transmissão de saberes, mas sim de problematização das práticas cotidianas e das contradições da sociedade (Sauhã, 2021). A educação ambiental deve ser atravessada pela dimensão ética e política da sustentabilidade (Quadro 1). Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 97 Quadro 1 – Dimensões Ética e Política na Educação Ambiental para a Sustentabilidade. Aspectos Explicação Exemplos Práticos Educação Ambiental Processo educativo que visa a conscientização e a formação de atitudes e práticas voltadas à proteção do meio ambiente e uso sustentável dos recursos naturais. Aulas, oficinas, projetos sobre reciclagem, conservação, etc. Dimensão Ética Refere-se aos valores morais e princípios que orientam o comportamento humano em relação ao meio ambiente, como respeito, responsabilidade e justiça intergeracional. Incentivar o respeito à natureza, responsabilidade no consumo e solidariedade com futuras gerações. Dimensão Política Envolve a participação cidadã, a tomada de decisões coletivas e o engajamento em políticas públicas que garantam a sustentabilidade ambiental, social e econômica. Mobilizações comunitárias, debates sobre leis ambientais, participação em conselho e fóruns. Sustentabilidade Princípio que busca o equilíbrio entre desenvolvimento econômico, justiça social e conservação ambiental para garantir a qualidade de vida presente e futura. Projetos de desenvolvimento sustentável, uso racional de recursos naturais, economia circular. Interligação entre as dimensões A ética orienta o comportamento individual e coletivo, enquanto a política estrutura as ações e normas para implementação da sustentabilidade. Ambas são essenciais para a efetividade da educação ambiental. Programas escolares que estimulam não só o conhecimento ambiental, mas também o engajamento social e político. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). Além disso, é essencial considerar os territórios e as diversidades culturais. A educação ambiental crítica reconhece os saberes dos povos originários, das comunidades tradicionais e das populações marginalizadas, valorizando suas formas de relação com a natureza e suas lutas por justiça socioambiental (Porto-Gonçalves, 2006). Essa abordagemtambém se conecta com a educação popular e com os movimentos sociais, reconhecendo que o conhecimento se constrói na relação dialógica entre teoria e prática, entre educadores e educandos, entre sujeitos e territórios. 98 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Portanto, os fundamentos da educação ambiental crítica apontam para a urgência de repensar os sentidos da educação em tempos de crise civilizatória. Mais do que formar consumidores conscientes, trata-se de formar sujeitos coletivos capazes de agir politicamente em defesa da vida e da sustentabilidade. Sustentabilidade em disputa: entre o discurso e a prática Falar em sustentabilidade, nos dias de hoje, é quase inevitável. A palavra ganhou espaço nos discursos institucionais, nos debates públicos, nas campanhas de marketing e até nas decisões do dia a dia. No entanto, nem sempre seu uso vem acompanhado de um entendimento profundo sobre o que ela realmente representa. Em muitos casos, a sustentabilidade é fragmentada, reduzida a gestos simbólicos ou associada a vantagens imediatas, como prestígio, diferenciação ou retorno financeiro. Assim, perde-se de vista sua essência: o compromisso com a vida em todas as suas formas e com as condições que a tornam possível (Dalmago; Dalmago, 2021). Mais do que uma ideia elegante ou uma meta institucional, a sustentabilidade é uma necessidade concreta. É o esforço por manter um equilíbrio entre o que o planeta pode oferecer e o que a humanidade demanda para viver com dignidade. Essa busca não pode se apoiar apenas na retórica ou em práticas pontuais; exige propósito claro, intencionalidade genuína e, sobretudo, uma revisão profunda dos nossos valores, comportamentos e modos de existência. De acordo com Dalmago e Dalmago (2021), não se trata apenas de preservar recursos naturais ou calcular impactos ambientais, embora isso também seja importante. Trata-se de colocar a vida no centro das nossas decisões: a vida humana e a de todas as outras espécies que Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 99 compartilham este planeta. Afinal, a natureza tem sua própria lógica de funcionamento e é autossustentável. É a espécie humana que, ao romper os limites naturais com seu modo de produção e consumo, coloca em risco sua própria permanência na Terra. Nesse contexto, a sustentabilidade precisa ser compreendida como um princípio inclusivo, que valoriza a diversidade, respeita os ciclos naturais e reconhece a interdependência entre sociedade e natureza. Ela nos convoca a enxergar além dos números e das metas e a repensar profundamente nossa relação com o mundo e uns com os outros. Essa mudança requer uma evolução de consciência, uma abertura para novas formas de pensar, de agir e de sentir. Exige que sejamos capazes de conectar saberes, integrar dimensões distintas do conhecimento e, sobretudo, agir com coerência e responsabilidade. O conceito de sustentabilidade, embora amplamente utilizado, não é neutro nem unívoco (Quadro 2). Trata-se de um conceito em disputa, que pode ser apropriado tanto por discursos hegemônicos quanto por práticas emancipatórias. É preciso, portanto, problematizar os sentidos atribuídos à sustentabilidade no contexto educacional. Quadro 2 – Principais conceitos de sustentabilidade na concepção dos autores. Autor (a) Conceito Dimensão Enfatizada Ignacy Sachs Sustentabilidade como integração entre crescimento econômico, equidade social e proteção ambiental; propõe o ecodesenvolvimento. Ambiental, Social e Econômica. Enrique Leff Enfatiza a necessidade de ruptura com racionalidade econômica dominante e valorização dos saberes tradicionais e locais. Ambiental, Cultural e Política. Marina Silva Defende a sustentabilidade como um compromisso ético entre justiça social, conservação ambiental e participação cidadã. Ética, Ambiental e Social. Leonardo Boff Sustentabilidade é um valor ético e espiritual, fundamentado no cuidado com a vida, a Terra e as futuras gerações. Ética, Ambiental e Espiritual. 100 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos José Eli da Veiga Sustentabilidade deve ser vista como um novo valor político e institucional, superando o uso genérico do termo. Política e Institucional. Fritjof Capra Sustentabilidade exige uma visão sistêmica da vida, considerando as inter-relações ecológicas, sociais e econômicas. Ambiental e Sistêmica. Vandana Shiva Sustentabilidade está ligada à autonomia alimentar, valorização da agroecologia e respeito aos conhecimentos indígenas e locais. Ambiental, Cultural e Política. Ricardo Abramovay Sustentabilidade envolve repensar os padrões de consumo e produção, promovendo inovação social e justiça ambiental. Econômica, Social e Ambiental. Elinor Ostrom Sustentabilidade depende da gestão comunitária e democrática dos recursos naturais, com participação ativa das comunidades. Política, Social e Comunitária. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). A abordagem dominante da sustentabilidade está muitas vezes atrelada à lógica do desenvolvimento sustentável, difundida por organismos internacionais e adotada por corporações e governos. Essa visão tenta conciliar crescimento econômico, preservação ambiental e inclusão social, mas frequentemente ignora as contradições do sistema capitalista (Acselrad, 2009). Na prática, essa concepção "verde" do capitalismo tem servido para mascarar processos de destruição ambiental, desigualdade e colonialismo ambiental. Megaempreendimentos sustentáveis, certificações ecológicas e selos verdes não significam necessariamente mudanças estruturais. Ao mesmo tempo, movimentos sociais, comunidades tradicionais e populações periféricas constroem práticas de sustentabilidade que desafiam a lógica do capital. Essas práticas estão baseadas na reciprocidade, no cuidado com os bens comuns, na autogestão e na defesa dos territórios (Shiva, 2011). Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 101 A educação ambiental crítica deve, portanto, explicitar e tensionar essas diferentes perspectivas de sustentabilidade. Como apontam Capra e Luisi (2014), uma visão sistêmica da vida exige repensar os paradigmas dominantes, adotando princípios ecológicos, colaborativos e solidários. No âmbito escolar, isso significa construir currículos que problematizem os impactos socioambientais da sociedade de consumo, que estimulem a leitura crítica da mídia e das práticas institucionais, e que promovam experiências educativas transformadoras. Exemplos de educação ambiental transformadora podem ser encontrados em hortas escolares comunitárias, projetos de agroecologia urbana, iniciativas de economia solidária e campanhas por justiça climática. Esses projetos dão concretude à ideia de sustentabilidade como prática contra-hegemônica. Torna-se evidente que a sustentação de discursos sem práticas coerentes resulta em educação ambiental superficial. É preciso, portanto, que educadores assumam uma postura crítica frente à mercantilização da natureza e adotem estratégias pedagógicas integradas à realidade vivida pelos educandos. Somente assim será possível formar consciências ecológicas que compreendam a sustentabilidade como uma construção histórica, coletiva e situada, em oposição ao uso retórico do termo em documentos institucionais ou programas corporativos. A escola como espaço de resistência e práxis ecológica A escola, tradicionalmente vista como reprodutora de saberes e normas sociais, pode tornar-se um potente espaço de resistência e práxis ecológica se for resignificada a partir de uma perspectiva crítica. 102 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos A educação ambiental crítica propõe essa transformação ao posicionar a escola como agente ativo na construçãode alternativas sustentáveis. Transformar a escola em espaço de resistência significa desafiar a lógica conteudista e fragmentada do currículo e promover práticas pedagógicas interdisciplinares e contextualizadas. Isso implica romper com a dicotomia entre natureza e cultura, entre teoria e prática, entre escola e comunidade (Guimarães, 2017). Uma escola comprometida com a sustentabilidade precisa ouvir os saberes locais, valorizar a diversidade biocultural e incorporar os conflitos socioambientais em seu cotidiano pedagógico. A práxis ecológica surge nesse contexto como a ação-reflexão-ação orientada pela justiça ambiental e pela ética do cuidado (Freire, 1996). Os projetos escolares podem integrar hortas agroecológicas, gestão participativa de resíduos, captação e reuso de água, e outras iniciativas que mobilizem a comunidade escolar em prol da sustentabilidade. Tais práticas são oportunidades de aprendizagem significativa, diálogo e transformação social. Para tanto, o papel do professor precisa ser ressignificado. O educador ambiental crítico não é apenas um transmissor de informações, mas um mediador dialógico, um facilitador de processos coletivos de construção do conhecimento e de ação política (Loureiro, 2020). A formação docente, por sua vez, deve contemplar a educação ambiental crítica de maneira transversal e permanente. Isso inclui uma abordagem interdisciplinar e a inserção de temas como justiça ambiental, ecologia política e saberes tradicionais nos cursos de licenciatura e programas de formação continuada. A gestão escolar também deve se alinhar aos princípios da sustentabilidade crítica, promovendo uma cultura institucional Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 103 democrática, participativa e ecologicamente engajada. A construção coletiva do projeto político-pedagógico é central nesse processo. Além disso, é fundamental repensar os espaços físicos e simbólicos da escola. Um ambiente escolar sustentável vai além da estética verde; trata-se de criar condições materiais e relacionais que favoreçam a convivência, o bem-estar e o engajamento ecológico. A escola, nesse sentido, não se limita ao espaço físico. Ela se estende ao território, à comunidade, às redes de colaboração e resistência. É nesse ecossistema ampliado que a educação ambiental crítica pode florescer como práxis transformadora. Portanto, ao assumir seu papel como espaço de resistência, a escola contribui para a formação de sujeitos ecológicos críticos, capazes de enfrentar os desafios da crise socioambiental com criatividade, solidariedade e consciência política. Políticas públicas, justiça ambiental e os caminhos para uma sustentabilidade transformadora A consolidação de uma educação ambiental crítica exige o fortalecimento de políticas públicas que reconheçam a complexidade e a urgência da crise ecológica. Tais políticas devem ir além de diretrizes formais, incorporando perspectivas de justiça ambiental e protagonismo social na formulação e implementação das ações. O Brasil conta com instrumentos importantes como a Política Nacional de Educação Ambiental (Lei nº 9.795/1999), mas sua efetivação tem sido limitada por disputas políticas, descontinuidade administrativa e ausência de financiamento adequado. Além disso, muitos programas são reduzidos a campanhas pontuais e descoladas da realidade das comunidades. 104 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos A justiça ambiental deve ser o norte das políticas públicas. Isso significa garantir o direito de todos os grupos sociais, especialmente os historicamente marginalizados, a um ambiente saudável e seguro. Significa também reconhecer e enfrentar os impactos desiguais da degradação ambiental sobre populações negras, indígenas e periféricas (Silva, 2018). As políticas públicas devem apoiar práticas educativas transformadoras e não apenas a inserção da temática ambiental nos currículos de forma despolitizada. É necessário fomentar projetos territoriais, fortalecer os movimentos socioambientais e assegurar a participação ativa das comunidades nas decisões. O Estado, nesse sentido, não pode ser neutro. Deve atuar como agente promotor da equidade e da sustentabilidade, rompendo com a lógica de submissão aos interesses do mercado. A regulação ambiental, a reforma agrária e o reconhecimento dos direitos dos povos originários são dimensões essenciais desse compromisso. A educação ambiental crítica também deve influenciar os processos de avaliação e financiamento da educação. Critérios como participação comunitária, relevância socioambiental e promoção de práticas sustentáveis precisam ser incorporados aos mecanismos de avaliação institucional e financiamento escolar. Internacionalmente, documentos como a Agenda 2030 da ONU oferecem uma oportunidade para ampliar a discussão sobre sustentabilidade, mas precisam ser reinterpretados criticamente à luz das realidades locais. O risco da adesão superficial aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é a reprodução de um discurso vazio de mudança. A pesquisa acadêmica desempenha papel fundamental na produção de conhecimento crítico sobre educação ambiental. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 105 Universidades públicas e centros de pesquisa devem manter seu compromisso com a formação de educadores ambientais críticos e com a construção de alternativas sustentáveis enraizadas nos territórios. Por fim, uma sustentabilidade transformadora não pode ser alcançada sem o enfrentamento das causas estruturais da crise ecológica. Isso inclui o combate à desigualdade, ao racismo ambiental, ao patriarcado e ao extrativismo predatório. A sustentabilidade não pode ser uma fachada; precisa ser um projeto civilizatório alternativo. Portanto, as políticas públicas de educação ambiental devem ser instrumentos de transformação social, e não de manutenção do status quo. Devem contribuir para a construção de uma sociedade justa, democrática e ecologicamente solidária. A educação ambiental crítica, quando articulada a políticas públicas verdadeiramente emancipadoras, desponta como uma das mais promissoras estratégias para repensarmos a forma como habitamos o mundo. Ela não se limita a ensinar práticas de reciclagem ou a estimular ações pontuais de preservação, ainda que essas também tenham seu valor. Vai além: convida à reflexão profunda sobre os modelos econômicos, sociais e culturais que sustentam as desigualdades e impulsionam a degradação ambiental. Ao colocar em debate as relações de poder, o consumo desenfreado, a exploração dos recursos naturais e as injustiças socioambientais, essa perspectiva educativa se propõe a formar sujeitos críticos, conscientes e comprometidos com a transformação da realidade. É nesse entrelaçamento com políticas públicas inclusivas e participativas que a educação ambiental crítica ganha força e sentido. Quando o Estado assume seu papel de garantidor de direitos e de promotor de justiça social e ambiental, abre-se espaço para ações concretas que impactam positivamente o cotidiano das comunidades. A 106 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos escola, nesse cenário, torna-se território de resistência e criação, onde a sustentabilidade é compreendida não como um privilégio de poucos, mas como um direito de todos. Falar em educação ambiental crítica é, portanto, falar de coragem — a coragem de questionar o óbvio, de desnaturalizar injustiças, de se opor às estruturas que colocam o lucro acima da vida. É também falar de esperança — não de uma esperança ingênua, mas de uma esperança ativa, que acredita na potência das pessoas, na força das coletividades e na possibilidade real de outro mundo possível. E, acima de tudo, é falar de justiça, ambiental, social, econômica eintergeracional. Assim, ao promover o diálogo entre conhecimento, sensibilidade e ação política, a educação ambiental crítica amplia nossa capacidade de imaginar e construir futuros sustentáveis. E faz isso a partir do chão da realidade, sem receitas prontas, mas com escuta, afeto e compromisso. É nesse caminho, feito de desafios, mas também de possibilidades, que podemos caminhar com justiça, coragem e esperança rumo a uma sociedade mais humana e verdadeiramente sustentável. Referências ACSELRAD, H. Sustentabilidade e justiça ambiental: uma introdução. In: LIMA, G. M. (org.). Justiça ambiental e cidadania. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2009. CAPRA, F.; LUISI, P. L. A visão sistêmica da vida: uma nova concepção cientí�ca para a compreensão dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 2014. CARVALHO, I. C. M. Educação ambiental crítica: raízes e flores. Revista Pesquisa Qualitativa, v. 5, n. 9, p. 37-52, 2017. COSTA, C. A.; LOUREIRO, C. F. Educação Ambiental crítica e conflitos ambientais: reflexões à luz da América Latina. E-Curriculum, v. 22, 2024. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-387620240001002 88&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 2 ago. 2025. http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-38762024000100288&lng=pt&nrm=iso http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-38762024000100288&lng=pt&nrm=iso Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 107 DALMAGO, G. A.; DALMAGO, G. A. C. Sustentabilidade: Reflexões sobre uso do termo e evolução de conceitos. 2021. Disponível em: https://www.sidalc.net/search/Record/ dig-infoteca-e-doc-1131564/Description. Acesso em: 2 ago. 2025. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. GADOTTI, M. Educação e sustentabilidade: uma perspectiva planetária. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2009. GUIMARÃES, M. Educação ambiental crítica. In: DIAS, G. F. Educação ambiental: princípios e práticas. São Paulo: Gaia, 2017. LEFF, E. Racionalidade ambiental: a reapropriação social da natureza. São Paulo: Cortez, 2010. LOUREIRO, C. F. B. Educação ambiental crítica: dialogando com uma trajetória. Currículo sem Fronteiras, v. 12, n. 2, p. 16-37, 2012. LOUREIRO, C. F. B. Formação de educadores ambientais: desa�os e perspectivas. São Paulo: Cortez, 2020. PORTO-GONÇALVES, C. W. A globalização da natureza e a natureza da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. 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Propõe a construção de processos avaliativos mais formativos, dialógicos e que valorizem o desenvolvimento integral dos estudantes. Ao refletir sobre o papel da avaliação na educação atual, o texto aponta para metodologias que potencializem a aprendizagem e a autonomia. Reconfigurações conceituais da avaliação: entre rupturas e permanências Refletir sobre a avaliação da aprendizagem é, antes de tudo, refletir sobre o papel da escola na formação humana e sobre como o processo educativo é compreendido por aqueles que o constroem cotidianamente. Segundo Silva (2024), embora por muito tempo tenha sido tratada como uma simples verificação de resultados, a avaliação possui um papel estratégico e profundamente pedagógico. Seu desenvolvimento, ao longo da história da educação brasileira, revela importantes mudanças nas diretrizes legais e nas concepções educacionais que orientam a prática docente. 110 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos As Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) deixam clara essa trajetória. A LDB de 1961 menciona a avaliação de forma restrita, priorizando os aspectos quantitativos. Mais tarde, a LDB de 1971 reconhece a necessidade de valorizar os aspectos qualitativos, ainda que de modo tímido. O grande avanço ocorre, de fato, com a LDB nº 9.394/1996, ao enfatizar que a avaliação deve ser contínua e cumulativa, com predominância do qualitativo sobre o quantitativo, rompendo com a lógica pontual e punitiva que por muito tempo marcou as práticas avaliativas (Silva, 2024). Nesse cenário, a crítica à concepção tradicional de avaliação torna- se inevitável. Para Luckesi (2011), essa abordagem reducionista falha ao se apoiar em instrumentos que não revelam com precisão a realidade que se busca compreender. A experiência do próprio autor, ao recordar suas aulas de música, mostra que o conhecimento teórico avaliado não traduzia a real competência esperada, o fazer musical. Avaliou-se, portanto, o que era possível mensurar, e não aquilo que era pedagógica e significativamente relevante. Ainda segundo Luckesi (2011), a prática avaliativa amplamente adotada no ensino básico e superior se concentra em classificar os sujeitos, muitas vezes rotulando-os de forma definitiva. Essa lógica, enraizada em um modelo educacional liberal-conservador, transforma a avaliação em instrumento de poder e disciplina, em vez de colocá-la a serviço da aprendizagem e do desenvolvimento humano. Em vez de diagnosticar para intervir e melhorar, avalia-se para julgar e enquadrar. Libâneo (2009) também contribui para esse debate ao defender que a avaliação vai muito além de provas e boletins. Para o autor, ela deve ser entendida como um processo multidimensional, sustentado por valores éticos e concepções de sociedade e sujeito. A avaliação escolar, segundo ele, cumpre funções pedagógico-didáticas, diagnósticas e de Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 111 controle, sendo essencial para nortear decisões e ajustes ao longo do percurso de ensino-aprendizagem. Complementando essa visão crítica, Hoffmann (2014) propõe uma abordagem mediadora, fundamentada no respeito à diversidade e no compromisso com a inclusão. Avaliar, nessa perspectiva, é acolher o estudante em suas particularidades, planejar com base em suas necessidades e criar condições reais para que todos aprendam, em tempos e ritmos próprios. Ser avaliador, portanto, exige sensibilidade, escuta e presença. Diante disso, repensar a avaliação da aprendizagem torna-se um exercício necessário e urgente na prática docente contemporânea. Mais do que verificar acertos e erros, avaliar é compreender os caminhos percorridos pelos estudantes, reconhecer suas conquistas e desafios, e construir, junto a eles, novas possibilidades. Ao romper com a lógica classificatória, abrimos espaço para uma educação mais justa, democrática e transformadora. Nas últimas décadas, a avaliação educacional tem sido alvo de intensos debates, tanto na academia quanto nas políticas públicas. Longe de ser um instrumento neutro ou meramente técnico, a avaliação é uma prática social carregada de sentidos, valores e disputas. A contemporaneidade exige a superação de modelos tradicionais e classificatórios, que reduzem a avaliação a um julgamento final, e impõe o desafio de compreender sua complexidade como processo dialógico, formativo e emancipador(Hoffmann, 2014). A ideia de avaliação como sentença ainda predomina em muitas práticas escolares. Nessa perspectiva, avaliar é sinônimo de medir, de classificar, de aprovar ou reprovar. Essa concepção está enraizada na lógica meritocrática e tecnicista que molda historicamente a escola moderna, influenciada por modelos positivistas e produtivistas. No 112 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos entanto, essa visão vem sendo amplamente criticada por educadores e pesquisadores comprometidos com a formação integral dos sujeitos (Luckesi, 2011). Luckesi (2011) argumenta que a avaliação deve deixar de ser um ato de poder e controle para se tornar um ato de amor e compromisso com a aprendizagem. Avaliar é acompanhar o processo educativo, identificar potencialidades, compreender dificuldades e propor caminhos. É uma prática que deve respeitar o ritmo e a singularidade dos educandos, promovendo a autonomia e a autorreflexão (Quadro 1). Quadro 1 – Concepções de Avaliação da Aprendizagem segundo autores contemporâneos. Autor (a) Concepção de Avaliação Palavras-chave Jussara Hoffmann Defende uma avaliação formativa, diagnóstica e dialógica, que valoriza os processos de aprendizagem e não apenas os resultados finais. Avaliação formativa, mediação, escuta, protagonismo. Cipriano Luckesi Crítica a avaliação classificatória e propõe uma abordagem qualitativa, voltada para o crescimento do sujeito. Avaliar é ajudar a aprender. Avaliação diagnóstica, superação do fracasso escolar. Francisco Imbernón Destaca que a avaliação deve ser contextualizada, ligada à prática docente e coerente com os objetivos formativos da educação. Prática reflexiva, coerência pedagógica. Luiz Carlos de Freitas Aponta que a avaliação deve ser compreendida como parte do processo pedagógico e alerta para os riscos da avaliação externa padronizada. Processos pedagógicos, crítica à meritocracia. Vera Candau A avaliação deve considerar a diversidade cultural dos estudantes e promover a justiça socia, sendo crítica à homogeneização. Inclusão, diversidade, equidade. Neusa Serra Avaliação como processo contínuo, que deve ser registrado, refletido e replanejado em função das necessidades dos alunos. Registro, replanejamento, acompanhamento. Rosa Maria Moraes Avaliação deve promover autorregulação da aprendizagem, levando o aluno a compreender seus avanços e dificuldades. Metacognição, protagonismo estudantil. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 113 Pedro Demo Destaca a avaliação como pesquisa, defendendo uma prática investigativa voltada para a construção do conhecimento com base em evidências. Avaliação investigativa, criticidade, autonomia. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). A perspectiva formativa da avaliação tem ganhado espaço nos debates contemporâneos. Segundo Perrenoud (1999), a avaliação formativa contribui para que o aluno compreenda o que aprendeu, o que precisa melhorar e como pode fazê-lo. Trata-se de uma avaliação que informa, orienta e transforma, integrando-se ao processo de ensino- aprendizagem. Entretanto, essa abordagem não é isenta de desafios. Um dos principais obstáculos é a coexistência de lógicas contraditórias no interior das escolas: de um lado, a exigência de resultados, provas padronizadas e rankings; de outro, a tentativa de construir práticas avaliativas mais humanas e significativas. Essa tensão revela os limites das mudanças superficiais e a necessidade de transformações estruturais no sistema educacional (Bonamino, 2021). Além disso, é preciso considerar o impacto das tecnologias digitais na reconfiguração da avaliação. Plataformas adaptativas, algoritmos de correção automática e bancos de dados de desempenho trazem novas possibilidades, mas também novos riscos. Como alerta Selwyn (2020), a avaliação digital pode reforçar a vigilância, a padronização e a desumanização do processo educativo, se não for conduzida com criticidade. Nesse contexto, a avaliação precisa ser repensada não apenas em seus métodos, mas em seus fundamentos éticos e políticos. Avaliar é um ato pedagógico e político, que implica escolhas, concepções de sujeito, de conhecimento e de sociedade. Como afirma Esteban (2002), a avaliação nunca é neutra: ela revela o projeto educativo que está em jogo. 114 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos A ressignificação da avaliação na contemporaneidade passa, portanto, por uma ruptura com o paradigma punitivo e por uma aposta em práticas avaliativas dialógicas, contextualizadas e emancipadoras. Isso exige o envolvimento de toda a comunidade escolar e a valorização da escuta, do diálogo e da coautoria dos processos avaliativos. Cabe ainda destacar que a avaliação deve ser vista como parte integrante do currículo, e não como momento isolado ou etapa final. Ela deve dialogar com os objetivos formativos da escola e estar em consonância com as metodologias adotadas. Avaliar é aprender e ensinar ao mesmo tempo, num movimento contínuo e recursivo (Gonçalves, 2017). Portanto, as reconfigurações conceituais da avaliação educacional apontam para a necessidade de superar práticas excludentes e classificatórias, construindo uma cultura avaliativa democrática, inclusiva e formativa. Esse é um caminho possível, mas que exige coragem, formação e compromisso ético por parte dos educadores e das instituições. Avaliação formativa e emancipação: práticas possíveis e limites reais A avaliação formativa tem sido compreendida como uma alternativa potente à lógica classificatória e excludente predominante na maioria das escolas. Essa forma de avaliar, centrada no processo de aprendizagem e no desenvolvimento das competências e habilidades dos estudantes, almeja ser um instrumento de mediação pedagógica e não de julgamento final. De acordo com Vasconcellos (2012), a avaliação formativa exige uma mudança de postura docente, uma vez que rompe com a ideia de avaliação como veredito. A avaliação formativa vem ganhando destaque como uma abordagem essencial para compreender e apoiar o processo de Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 115 aprendizagem de forma contínua e significativa. Longe de ser apenas um momento isolado de verificação de conteúdos, ela se apresenta como parte integrante do cotidiano escolar, acontecendo desde os primeiros contatos com um novo tema até a conclusão das atividades propostas. O seu papel vai muito além da atribuição de notas: trata-se de uma ferramenta pedagógica poderosa, que auxilia tanto professores quanto estudantes a enxergarem com clareza os avanços, as dificuldades e os caminhos possíveis para a superação dos desafios que surgem no percurso educativo (Monge, 2025). Quando aplicada com intencionalidade, a avaliação formativa transforma a dinâmica da sala de aula. O professor deixa de ser um mero transmissor de conhecimento e assume o papel de mediador atento, capaz de ajustar suas estratégias conforme as necessidades reais de seus alunos. Já os estudantes passam a compreender melhor o que estão aprendendo, por que estão aprendendo e como podem avançar. É uma construção conjunta, marcada pelo diálogo, pela escuta ativa e pela reflexão sobre o próprio processo de aprender. Do ponto de vista teórico e prático, esse tipo de avaliação tem se consolidado como um tema central nas discussões sobre qualidade da educação. Pesquisadores e educadores vêm reforçando sua importância como alternativa aos modelos tradicionais, muitas vezes centrados apenas em provas padronizadas e resultados numéricos. Nesse contexto, a avaliação formativa aparece como um convite à mudança de mentalidade: ela valoriza o processo mais do que o produto final, promove a participação ativa dos alunos e busca reconhecer as diversas formas deaprender (Monge, 2025). Apesar do seu potencial transformador, a implementação da avaliação formativa ainda enfrenta obstáculos. Entre eles, estão o excesso de demandas sobre os professores, a falta de formação 116 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos adequada e a pressão por resultados rápidos e quantificáveis. Mesmo assim, cresce o número de experiências que mostram que é possível avaliar de maneira mais humana, crítica e reflexiva, contribuindo para o desenvolvimento integral dos estudantes. Assim, refletir sobre a avaliação formativa é refletir sobre o próprio sentido da educação. É pensar em como tornar o processo de ensinar e aprender mais justo, mais sensível às diferenças e mais conectado com a realidade dos alunos. Nesse cenário, a avaliação deixa de ser um fim e passa a ser um meio: um meio de conhecer melhor, de ensinar melhor e, sobretudo, de aprender melhor. Nesse sentido, a avaliação formativa é um convite à escuta atenta e ao acompanhamento constante da trajetória do estudante. Ela se ancora na observação, na devolutiva qualitativa, na autoavaliação e na coavaliação, estratégias que tornam o estudante sujeito do seu processo formativo. Para Libâneo (2013), esse tipo de avaliação favorece o protagonismo discente e amplia as possibilidades de aprendizagem significativa. No entanto, a operacionalização da avaliação formativa enfrenta diversos entraves no cotidiano escolar. A estrutura rígida do sistema educacional, os currículos extensos, o tempo exíguo e as demandas burocráticas muitas vezes inviabilizam a adoção de práticas avaliativas mais reflexivas e dialógicas. Como destaca Silva (2020), o contexto de massificação da educação limita a individualização do processo avaliativo. Outro desafio diz respeito à formação inicial e continuada dos professores. Muitos educadores não foram formados para práticas avaliativas críticas, o que gera insegurança e resistência. Além disso, há uma tendência à reprodução de modelos avaliativos tradicionais, ancorados na cultura da nota e da reprovação, mesmo quando há abertura para inovações metodológicas (Rabelo, 2018). Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 117 As desigualdades sociais também impactam diretamente as possibilidades de uma avaliação formativa. Em contextos de vulnerabilidade, a falta de acesso a recursos, a descontinuidade nos estudos e as dificuldades estruturais impõem limites reais à implementação de práticas avaliativas mais complexas. Como lembra Arroyo (2017), não se pode ignorar que a avaliação também é atravessada por questões de classe, raça e território. Apesar dessas limitações, existem experiências exitosas que demonstram a viabilidade da avaliação formativa quando há compromisso pedagógico e institucional. Projetos como os portfólios reflexivos, as rodas de conversa avaliativas e os pareceres descritivos mostram que é possível ressignificar a avaliação e torná-la parte integrante do processo educativo (Zabala & Arnau, 2010). É importante destacar que a avaliação formativa não se opõe à exigência acadêmica ou à busca por qualidade educacional. Ao contrário, ela qualifica o processo de ensino-aprendizagem ao fornecer subsídios concretos para o planejamento pedagógico e para a aprendizagem dos estudantes. Segundo Fernandes (2021), avaliar formativamente é também assumir a responsabilidade de garantir o direito à aprendizagem. No entanto, para que a avaliação formativa não se torne apenas um discurso progressista, é fundamental que ela esteja ancorada em princípios éticos e políticos claros. Avaliar de forma formativa é também questionar as estruturas que geram exclusão e desigualdade e buscar formas de garantir uma educação mais justa e democrática. O uso das tecnologias pode, se bem conduzido, favorecer a avaliação formativa. Ferramentas como rubricas digitais, registros audiovisuais e plataformas colaborativas podem auxiliar na organização e sistematização de evidências de aprendizagem. Contudo, é preciso cuidado para que a 118 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos tecnologia não reforce o controle e a vigilância, mas amplie a autonomia e o protagonismo dos estudantes (Selwyn, 2020). A avaliação formativa, portanto, é tanto uma prática quanto uma atitude pedagógica. Ela requer escuta, sensibilidade, intencionalidade e diálogo. Exige uma postura ética de respeito ao outro, de reconhecimento da singularidade de cada trajetória e de compromisso com a aprendizagem de todos e todas. Dessa forma, embora os limites reais existam e devam ser enfrentados, as práticas de avaliação formativa representam caminhos promissores para a construção de uma escola mais humana, democrática e comprometida com a emancipação dos sujeitos. Avaliação externa e accountability: tensões entre controle e qualidade As avaliações externas têm desempenhado um papel cada vez mais central nas políticas educacionais contemporâneas. Testes padronizados, como o SAEB no Brasil, o PISA em nível internacional e outros exames similares, são utilizados como instrumentos de aferição da qualidade da educação. No entanto, a crescente influência dessas avaliações tem provocado questionamentos acerca de seus efeitos sobre o currículo, a prática docente e o direito à educação (Freitas, 2018). A lógica da accountability, que busca responsabilizar escolas e professores por meio dos resultados obtidos nessas avaliações, introduz uma racionalidade de controle e desempenho na educação pública. Essa lógica, muitas vezes inspirada em modelos de gestão empresarial, desloca o foco da aprendizagem para a obtenção de metas, comprometendo o papel formativo e crítico da escola (Barroso, 2021). Segundo Ravitch (2013), há um risco real de que o ensino se reduza ao treinamento para as provas, empobrecendo o currículo e Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 119 desvalorizando disciplinas que não são cobradas nas avaliações externas. Esse fenômeno, conhecido como "teaching to the test", compromete a formação integral dos estudantes e reduz a autonomia pedagógica dos professores. Além disso, as avaliações externas tendem a homogeneizar os critérios de qualidade, desconsiderando as especificidades locais, culturais e sociais das diferentes realidades escolares. Isso gera um efeito perverso: escolas com contextos socioeconômicos mais vulneráveis são sistematicamente penalizadas, reforçando desigualdades históricas em vez de superá-las (Bonamino & Koslinski, 2012). Ainda que forneçam dados importantes para o diagnóstico de políticas públicas, as avaliações externas devem ser compreendidas com cautela. Como destaca Fernandes (2021), é necessário diferenciar entre avaliação como instrumento de reflexão e avaliação como mecanismo de controle. O uso que se faz dos resultados é tão relevante quanto a qualidade técnica do exame. Outro ponto crítico é a pressão que tais avaliações exercem sobre os estudantes e professores. A cultura do ranqueamento e da meritocracia gera ansiedade, competitividade e desvalorização da diversidade de formas de aprender e ensinar. Nesse sentido, a avaliação externa pode ser percebida como uma sentença, e não como um caminho para a melhoria educacional. Algumas experiências têm buscado articular avaliações externas com processos formativos, mas ainda são minoritárias. Um exemplo promissor é o Revalide, avaliação de egressos de cursos de Medicina, que inclui critérios qualitativos e reflexivos. No entanto, a maior parte das políticas de avaliação segue pautada por métricas quantitativas e descontextualizadas (Vieira, 2022). 120 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos É importante destacar que a existência de avaliações externas não é, por si só, um problema. O que está em questãoé o seu uso instrumentalizado para fins de ranqueamento, punição e privatização da educação pública. Como alerta Apple (2018), essas avaliações podem servir a interesses neoliberais quando dissociadas de um compromisso com a equidade e a justiça social. Portanto, há uma tensão permanente entre controle e qualidade na política de avaliação externa. Para superá-la, é necessário reposicionar a avaliação como parte de um projeto pedagógico emancipador, no qual os resultados sejam utilizados para fortalecer práticas docentes, apoiar as escolas e garantir o direito à educação de qualidade para todos. É urgente, assim, reverter a lógica da competição por uma lógica da colaboração. Avaliações externas podem ser importantes aliadas da gestão educacional democrática, desde que articuladas com os contextos escolares e utilizadas para promover equidade e inclusão, e não para aprofundar desigualdades e punir vulnerabilidades. Somente com uma perspectiva crítica e comprometida com os sujeitos da educação será possível reconstruir o papel da avaliação externa como instrumento de diagnóstico, e não de condenação. Nesse sentido, cabe ao Estado garantir o uso ético, pedagógico e formativo das avaliações em larga escala. Considerações finais: entre diagnósticos críticos e horizontes transformadores A avaliação educacional na contemporaneidade se apresenta como um campo em disputa, onde diferentes concepções, interesses e práticas se entrelaçam. Ela pode ser compreendida como diagnóstico, como caminho formativo ou como sentença, a depender do projeto pedagógico e político que a sustenta. É nesse cenário complexo e Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 121 contraditório que se impõe a necessidade de reflexão crítica sobre o papel e os sentidos da avaliação no processo educativo. A persistência de práticas avaliativas classificatórias e excludentes revela a permanência de uma cultura escolar fortemente ancorada na lógica meritocrática. Apesar dos avanços conceituais promovidos por autores como Luckesi (2011), Hoffmann (2014) e Perrenoud (1999), a ideia de avaliação como sentença ainda molda o cotidiano de muitas escolas, seja por pressão institucional, seja por formação precária dos educadores. No entanto, também se observam movimentos de resistência e transformação. A avaliação formativa tem sido incorporada, ainda que parcialmente, em muitas experiências educativas que buscam promover uma pedagogia mais dialógica, inclusiva e centrada nos sujeitos. Nesses contextos, a avaliação se torna caminho de aprendizagem e de construção da autonomia, superando a lógica da punição e da homogeneização. A tensão entre políticas de controle e práticas emancipatórias se torna evidente quando analisamos o papel das avaliações externas. Embora possam fornecer subsídios relevantes para o planejamento e o diagnóstico, essas avaliações frequentemente assumem um caráter punitivo e hierarquizante, contribuindo para a desvalorização da diversidade e a intensificação das desigualdades educacionais (Freitas, 2018; Apple, 2018). Diante disso, cabe aos educadores e gestores repensar o uso pedagógico da avaliação, articulando-a com os princípios da justiça social, da equidade e do direito à educação. A avaliação precisa ser situada no contexto de um projeto educativo democrático e transformador, comprometido com a formação integral e crítica dos sujeitos. A formação docente desempenha papel estratégico nesse processo. É urgente fortalecer a formação inicial e continuada de professores, 122 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos com ênfase na avaliação como prática ética, dialógica e pedagógica. Isso inclui tanto o domínio de instrumentos e estratégias avaliativas quanto a reflexão crítica sobre os pressupostos teóricos e políticos da avaliação (Silva, 2020). Além disso, é necessário fortalecer espaços de escuta e participação dos estudantes nos processos avaliativos. A autoavaliação e a coavaliação são práticas potentes para a construção de sujeitos reflexivos e responsáveis por sua trajetória de aprendizagem. Tais práticas contribuem para o desenvolvimento da consciência crítica e da cidadania ativa. A tecnologia pode ser aliada da transformação da avaliação, desde que utilizada com intencionalidade pedagógica e com foco na humanização dos processos. Ferramentas digitais que promovam devolutivas qualitativas, acompanhamento contínuo e personalização da aprendizagem podem ampliar as possibilidades da avaliação formativa (Selwyn, 2020). No plano das políticas públicas, é fundamental repensar os critérios de qualidade da educação, superando a lógica dos rankings e incorporando indicadores que valorizem a inclusão, a equidade, o bem- estar e a participação democrática. A avaliação institucional deve ser articulada a um projeto educacional comprometido com a justiça social. Portanto, avaliar na contemporaneidade é, acima de tudo, um ato político. Implica escolher entre reforçar as estruturas excludentes do sistema ou apostar em práticas que promovam a emancipação dos sujeitos. É preciso coragem para romper com as práticas tradicionais e construir novas formas de compreender e praticar a avaliação. A avaliação, longe de ser uma sentença, pode e deve ser caminho: caminho de escuta, de mediação, de reconstrução permanente do ensino e da aprendizagem. Quando concebida como processo, ela se transforma Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 123 em instrumento de humanização, de reconhecimento da diversidade e de promoção da justiça educativa. Assim, os desafios da avaliação na contemporaneidade nos convocam a um exercício constante de reflexão, revisão e reinvenção. Somente com compromisso ético, sensibilidade pedagógica e postura crítica será possível construir uma cultura avaliativa que contribua para uma educação verdadeiramente democrática, inclusiva e transformadora. Referências APPLE, M. Educação e poder. São Paulo: Cortez, 2018. BARROSO, J. Globalização e políticas educativas: o discurso da qualidade e da avaliação. Cadernos de Pesquisa, v. 51, n. 178, 2021. BONAMINO, A. C.; KOSLINSKI, M. C. Os efeitos das avaliações externas em larga escala na educação básica brasileira. Estudos em Avaliação Educacional, v. 23, n. 53, p. 09- 40, 2012. FERNANDES, C. D. 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A gestão escolar é apresentada como espaço de construção de práticas colaborativas e de fortalecimento da democracia. Fundamentos da gestão democrática na educação A gestão democrática na educação é um princípio fundamental estabelecido pela Constituição Federal de 1988 e reiterado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), representando um marco na construção de uma escola pública mais participativa, plural e voltada para os interesses coletivos. Esse modelo de gestão se contrapõe às formas centralizadoras e autoritárias, buscando consolidar espaços de escuta e de decisão compartilhada com a comunidade escolar (Quadro 1). 126 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Historicamente, a gestão escolar no Brasil esteve marcada por práticas verticalizadas e clientelistas. A inserção do princípio da gestão democrática representou uma tentativa de romper com essas heranças e promover uma cultura de participação cidadã. De acordo com Paro (2018), a gestão democrática deve ser entendida como a expressão da democracia no cotidiano da escola, exigindo uma postura ativa dos sujeitos envolvidos no processo educativo. Quadro 1 – Fundamentos da Gestão Democrática na Escola. Fundamento Descrição Práticas Associadas Participação coletiva Envolvimento ativo de todos os segmentos da comunidade escolar (professores, estudantes, pais e funcionários) nas decisões da escola. Conselho escolar, assembleias, reuniões pedagógicas. Autonomia da escola Capacidade da escola de elaborar e executar seu projeto político- pedagógico com base em sua realidade e necessidades. Construção do PPP, gestão do tempo e currículo escolar. Transparência Clareza e acesso às informações sobre decisões, recursos e processos educacionais. Prestação de contas, murais informativos, relatórios abertos. Ação dialógica e colaborativa Valorização do diálogo, da escuta ativa e da cooperação entre todos os envolvidos no processo educativo. Reuniões participativas, escuta dos estudantes, mediação de conflitos. Equidade e inclusão Garantia de que todos tenham condições justas de participação e aprendizagem, respeitando as diferenças. Ações afirmativas, acessibilidade, respeito à diversidade. Planejamento participativo Construção coletiva dos objetivos, metas e ações da escola. Elaboração conjunta do PPP, planos de ensino integrados. Compromisso com a qualidade social A busca por uma educação que vá além de resultados quantitativos, promovendo a justiça social, formação crítica e participativa. Avaliação diagnóstica, práticas pedagógicas emancipatórias. Gestão colegiada Decisões são tomadas em grupo, por meio de conselhos, comissões ou núcleos de gestão. Conselho de classe, grêmio estudantil, colegiado escolar. Formação continuada Atualização constante dos profissionais para fortalecer a prática democrática e pedagógica. Grupos de estudo, oficinas, formação em serviço. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 127 Controle social A comunidade acompanha, fiscaliza e contribui com a gestão escolar, garantindo a legitimidade e eficácia das ações. Participação nos conselhos, ouvidorias, reuniões abertas. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). A gestão democrática na escola é fundamentada em princípios que visam construir um ambiente educacional participativo, justo e comprometido com a qualidade social do ensino. Ela se organiza a partir de diferentes eixos que, juntos, fortalecem a atuação coletiva e a corresponsabilidade entre os diversos sujeitos da comunidade escolar (Rocha et al., 2024). Um dos pilares essenciais dessa perspectiva é o incentivo à participação de todos os envolvidos no cotidiano escolar. Professores, estudantes, familiares e demais profissionais da educação são convidados a integrar os espaços de deliberação e decisão, contribuindo com suas experiências, saberes e expectativas. Esse envolvimento conjunto fortalece o sentimento de pertencimento e o compromisso com os rumos da escola. Segundo Pinzetta et al. (2024), outro aspecto central é a autonomia da instituição escolar. Isso significa que a escola deve ter liberdade para construir suas propostas pedagógicas com base em sua realidade específica, respeitando as características culturais, sociais e territoriais da comunidade em que está inserida. Essa autonomia favorece a elaboração de projetos mais coerentes, contextualizados e eficazes. A transparência também é um valor fundamental. As informações sobre decisões, uso de recursos e planejamentos precisam estar acessíveis a todos, promovendo um ambiente de confiança e de corresponsabilidade. A clareza na comunicação fortalece os vínculos e assegura que a gestão atue com ética e compromisso público (Rocha et al., 2024). 128 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Além disso, o diálogo e a colaboração são princípios que permeiam todas as relações na escola democrática. Valorizar a escuta, o debate respeitoso e a construção conjunta de soluções contribui para um clima escolar mais saudável e produtivo, onde os conflitos são compreendidos como oportunidades de aprendizado. A equidade e a inclusão caminham junto à ideia de justiça social, garantindo que todas as pessoas tenham acesso às mesmas oportunidades de participação e aprendizagem, independentemente de suas diferenças. Isso exige ações concretas que promovam o respeito à diversidade e assegurem condições reais de acesso, permanência e sucesso escolar. O planejamento, por sua vez, deve ser construído de forma participativa. Ao envolver os diversos sujeitos na definição dos objetivos e ações da escola, amplia-se o engajamento e a corresponsabilidade com os resultados, além de tornar o processo mais democrático e eficaz. Outro princípio é o compromisso com a qualidade social da educação, que vai além de índices e avaliações externas. Busca-se uma formação crítica, voltada à transformação social, à cidadania ativa e ao desenvolvimento integral dos estudantes. A tomada de decisões coletivas também é característica marcante da gestão democrática. Através de conselhos, comissões ou colegiados, a escola constrói um modelo de governança mais horizontal, em que as vozes são ouvidas e respeitadas (Pinzetta et al., 2024). Por fim, a formação continuada dos profissionais e o controle social exercido pela comunidade são componentes indispensáveis desse modelo de gestão. Investir na qualificação permanente da equipe escolar e garantir que a comunidade possa acompanhar, avaliar e sugerir ações fortalece a legitimidade e a eficácia das práticas educativase administrativas da escola. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 129 No entanto, a efetivação da gestão democrática depende da construção de uma cultura institucional que valorize a participação, a autonomia da escola e o compromisso com a equidade social. Autores como Dourado (2020) alertam para os desafios da implementação desse princípio em contextos marcados pela precarização do trabalho docente e pela desvalorização da escola pública. Na perspectiva de Apple (2019), a gestão democrática está relacionada à luta por uma educação emancipadora, que se oponha à lógica mercantilista e tecnicista imposta por reformas neoliberais. A gestão não pode ser vista apenas como um aspecto técnico da administração, mas como um campo de disputa ideológica e política. Diversas experiências exitosas no Brasil demonstram a potência da gestão democrática como instrumento de transformação social. Projetos que envolvem conselhos escolares ativos, assembleias escolares e participação efetiva de estudantes e famílias têm conseguido melhorar a qualidade da educação e fortalecer o vínculo entre escola e comunidade. Entretanto, a mera formalização de mecanismos participativos não garante a efetividade da gestão democrática. Conforme Cândido (2021), há uma tendência à burocratização desses espaços, esvaziando o seu caráter político e emancipador. Por isso, é necessário investir na formação política dos sujeitos escolares. Nesse sentido, o diretor escolar assume um papel central na promoção de uma gestão verdadeiramente democrática. Segundo Lücio (2015), o gestor deve atuar como articulador de processos, mediador de conflitos e facilitador da participação coletiva, rompendo com a lógica do poder unilateral. A gestão democrática também pressupõe a articulação entre as dimensões pedagógica, administrativa e financeira da escola. Essa 130 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos articulação deve estar orientada por um projeto político-pedagógico construído de forma coletiva e com base nos princípios da educação inclusiva, antirracista e socialmente referenciada. A experiência internacional também oferece subsídios relevantes para pensar a gestão democrática. Segundo Fullan (2016), o envolvimento de toda a comunidade no processo de tomada de decisão é essencial para a melhoria da qualidade educacional e para o fortalecimento da cultura escolar. Portanto, a gestão democrática deve ser compreendida como um processo em constante construção, que demanda formação continuada, compromisso ético e político dos gestores e abertura da escola para o diálogo com a comunidade. É um instrumento de resistência contra as ameaças à escola pública e de afirmação de um projeto educacional emancipador. Neoliberalismo, controle e os desafios da resistência na escola pública O avanço das políticas neoliberais sobre o campo educacional, especialmente a partir da década de 1990, impôs profundas alterações à gestão das escolas públicas. A lógica da eficiência, da competitividade e da accountability passou a reconfigurar o papel da escola, dos gestores e dos professores. A gestão democrática, nesse contexto, se viu tensionada por mecanismos de controle externo e padronização, promovidos por avaliações em larga escala, rankings e metas. Ball (2017) argumenta que o neoliberalismo não apenas impõe uma lógica gerencial ao campo educacional, como também redefine os sujeitos escolares, transformando professores em técnicos e gestores em gerentes. Essa reconfiguração impacta diretamente a possibilidade Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 131 de uma gestão verdadeiramente democrática, uma vez que reduz a autonomia escolar e subordina a educação aos ditames do mercado. No Brasil, políticas como o IDEB e os sistemas estaduais de avaliação, embora importantes para o diagnóstico educacional, têm sido utilizadas como ferramentas de controle, resultando em punições às escolas com desempenho considerado insuficiente. Essa lógica meritocrática desconsidera as desigualdades estruturais e reforça a exclusão de comunidades vulneráveis. Freitas (2021) alerta que a responsabilização individual de professores e gestores ignora o papel do Estado como garantidor do direito à educação. Ao transferir a culpa pelo fracasso escolar aos sujeitos que atuam diretamente na escola, o discurso neoliberal contribui para a deslegitimação da escola pública e enfraquece a gestão democrática. O enfraquecimento da gestão democrática também se expressa nas tentativas de centralização das decisões educacionais. A imposição de currículos padronizados, a redução da participação dos conselhos escolares e a militarização de escolas públicas são exemplos de medidas que minam a autonomia das comunidades escolares e reduzem a educação a uma função disciplinadora. Entretanto, é nesse contexto adverso que emergem práticas de resistência. Professores, gestores e comunidades escolares têm buscado formas de subversão das lógicas impostas, revalorizando a participação coletiva, os projetos pedagógicos autônomos e a formação crítica dos sujeitos. A resistência se manifesta no cotidiano, por meio da recusa ao ensino padronizado e da valorização das especificidades culturais, sociais e territoriais dos estudantes. Segundo Sousa Santos (2019), a resistência implica reconhecer os saberes locais e promover uma ecologia de saberes que se oponha à 132 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos monocultura do pensamento único. Essa perspectiva fortalece a gestão democrática como prática insurgente e como alternativa à colonialidade do saber e do poder. Importa destacar que a resistência não ocorre de forma homogênea. Ela depende das condições concretas de cada escola, do engajamento da comunidade, da formação política dos sujeitos e da existência de espaços institucionais que garantam a participação. Por isso, é essencial investir em políticas públicas que fortaleçam a autonomia escolar e valorizem os processos democráticos. A gestão democrática, nesse cenário, deve ser vista como um ato político de resistência. Não se trata apenas de um modelo organizacional, mas de uma prática de emancipação coletiva. É por meio dela que a escola pública pode afirmar-se como espaço de formação cidadã, de combate às desigualdades e de promoção da justiça social. Autores como Oliveira (2020) e Lima (2022) enfatizam a importância de construir coletivamente estratégias de enfrentamento aos retrocessos, defendendo a retomada do caráter público da educação e a centralidade da participação na construção de políticas educacionais. Dessa forma, a resistência à lógica neoliberal na educação passa necessariamente pela afirmação da gestão democrática como princípio e prática cotidiana. Cabe aos sujeitos escolares protagonizarem essa luta, reconfigurando o espaço escolar como território de participação, autonomia e transformação social. Participação, autonomia e construção coletiva do projeto político- pedagógico A participação efetiva da comunidade escolar na construção do projeto político-pedagógico (PPP) representa um dos pilares centrais da Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 133 gestão democrática. Esse processo vai além da elaboração formal de um documento: constitui-se como um movimento coletivo, dialógico e formativo que expressa os valores, as práticas e os objetivos educacionais da instituição. Segundo Veiga (2013), o PPP deve ser compreendido como o instrumento político que articula a prática pedagógica com os princípios democráticos, expressando o compromisso da escola com a transformação social. Para isso, é necessário que sua construção seja participativa, envolvendo professores, estudantes, funcionários, pais e gestores. A autonomia da escolapública está intrinsecamente ligada à sua capacidade de elaborar um PPP que considere as especificidades da comunidade em que está inserida. Quando imposto de forma padronizada ou elaborado por poucos, o PPP perde sua função democrática e se converte em mero artefato burocrático. Nesse sentido, a formação política e pedagógica da comunidade escolar é condição indispensável para o fortalecimento da participação. Como destaca Gadotti (2014), a escola deve educar para a cidadania ativa, criando espaços reais de escuta e decisão. Essa formação não ocorre espontaneamente, exigindo investimento público e compromisso institucional. A gestão democrática do PPP também implica rupturas com práticas conservadoras de gestão escolar, baseadas na hierarquia e na centralização. A descentralização das decisões deve vir acompanhada de mecanismos de responsabilização coletiva, em que todos os sujeitos compartilhem as conquistas e os desafios da escola. De acordo com Oliveira (2020), o PPP só se torna instrumento real de gestão democrática quando incorporado ao cotidiano escolar, sendo constantemente revisto à luz das práticas pedagógicas e dos debates 134 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos coletivos. É preciso superar a visão do PPP como produto acabado e reconhecê-lo como processo em permanente construção. A experiência de escolas que adotam assembleias escolares, rodas de diálogo e conselhos participativos demonstra que a construção coletiva do PPP fortalece o sentimento de pertencimento e a corresponsabilidade dos sujeitos pela escola. Esses espaços se tornam formadores de consciência crítica e fomentadores da cultura democrática. Entretanto, a efetivação dessa lógica participativa enfrenta entraves como a sobrecarga de trabalho docente, a ausência de tempo institucional para discussão coletiva e a escassez de recursos. Tais limitações estruturais não podem ser ignoradas e demandam políticas públicas que garantam as condições materiais para a democratização da gestão. Outro aspecto central na construção do PPP é a valorização da diversidade cultural, social e epistemológica. O reconhecimento das múltiplas identidades e realidades presentes na comunidade escolar contribui para a formulação de um projeto pedagógico inclusivo, antirracista e decolonial. Autores como Walsh (2022) e Macedo (2019) apontam que o PPP pode ser um instrumento potente na luta contra as opressões estruturais, desde que concebido como espaço de disputa política e de afirmação dos saberes marginalizados. Isso requer uma postura ética e política dos gestores, comprometida com a justiça social. A autonomia escolar, nesse contexto, não pode ser confundida com isolamento institucional. Pelo contrário, deve se constituir em articulação com os sistemas educacionais, redes de apoio e movimentos sociais. A construção coletiva do PPP precisa dialogar com os direitos educacionais garantidos por lei e com as demandas concretas da população. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 135 Dessa forma, a construção do projeto político-pedagógico é uma arena estratégica para o exercício da gestão democrática. Por meio dela, é possível promover uma educação enraizada no território, orientada pela equidade e comprometida com a formação integral dos sujeitos. Mais do que um documento, o PPP é a expressão viva da escola que queremos construir. Práticas insurgentes e reinvenção da escola pública democrática A consolidação da gestão democrática em tempos de retrocesso político e social demanda práticas insurgentes que desafiem a lógica da homogeneização e da exclusão. A escola pública democrática não se faz apenas por decretos legais ou documentos institucionais, mas se materializa na ação concreta de sujeitos comprometidos com a transformação da realidade. As práticas insurgentes emergem do cotidiano escolar como formas de resistência e criação. Elas se expressam em projetos pedagógicos que valorizam a escuta dos estudantes, em currículos flexíveis que reconhecem a diversidade e em ações que rompem com o autoritarismo e promovem a coletividade. Segundo Freire (1996), a pedagogia da autonomia pressupõe uma prática educativa em que ensinar exige respeito aos saberes dos educandos e compromisso com a transformação social. Essas práticas insurgentes são marcadas pela capacidade criativa dos sujeitos escolares. Em muitas escolas públicas, professores e estudantes têm se articulado para criar espaços de diálogo, projetos de mediação de conflitos, hortas comunitárias, feiras culturais e outras ações que ampliam o sentido da escola como território de vida. Tais experiências não apenas resistem, mas reinventam o fazer escolar. 136 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos De acordo com Rancière (2011), a política se faz no momento em que aqueles que não têm voz tomam a palavra e se colocam como sujeitos. A gestão democrática, nesse sentido, ganha potência quando reconhece e valoriza essas vozes silenciadas, promovendo uma escuta ativa e a abertura para a alteridade. A insurgência na escola pública não é isenta de tensões. Ela desafia estruturas de poder estabelecidas, enfrenta resistências internas e externas e, muitas vezes, se vê ameaçada por políticas de perseguição ideológica. No entanto, é nessa luta que reside sua força política e educativa. Os coletivos escolares que constroem práticas democráticas frequentemente recorrem a redes de apoio, como universidades, movimentos sociais e organizações da sociedade civil. Essas articulações ampliam o repertório de atuação da escola e fortalecem sua autonomia frente às pressões conservadoras e autoritárias. É importante reconhecer que tais práticas insurgentes também geram impacto formativo nos sujeitos. Professores tornam-se agentes críticos, estudantes desenvolvem consciência política e as famílias passam a se ver como parte da escola. Como afirma Arroyo (2012), a escola que escuta e acolhe é aquela que educa na perspectiva da emancipação. A gestão democrática, nesse cenário, é uma pedagogia política em ação. Ela convoca todos os sujeitos escolares a assumirem responsabilidades, a construírem coletivamente e a enfrentarem as injustiças com coragem e solidariedade. Como destaca Boaventura de Sousa Santos (2019), “não há transformação sem indignação organizada”. A escola pública democrática é também um lugar de invenção. É onde se criam alternativas em meio à escassez, onde a arte, a cultura e Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 137 a ciência se entrelaçam para produzir sentido e pertencimento. As práticas pedagógicas que emergem desse ambiente são mais do que estratégias didáticas: são atos políticos de afirmação da vida. As experiências de escolas quilombolas, indígenas, do campo e periféricas evidenciam a potência da gestão democrática como resistência e criação. Nessas realidades, a escola se reinventa cotidianamente para atender às demandas de seus territórios e reafirmar identidades historicamente marginalizadas. Para além das práticas, é necessário também construir narrativas que visibilizem essas experiências. A sistematização de práticas pedagógicas e de gestão democrática permite não apenas o compartilhamento de saberes, mas também a construção de uma memória coletiva de resistência. Concluir que a gestão democrática se realiza em práticas insurgentes é afirmar que a educação pública pode ser mais do que uma instituição reprodutora de normas: ela pode ser um espaço de luta, de invenção e de esperança. Uma escola pública democrática se constrói no embate cotidiano com a realidade, movida pelo desejo de justiça, equidade e liberdade. Considerações finais A gestão democrática na educação pública emerge como um campo de disputa e de resistência diante dosnovas formas de ensino híbrido e remoto. Política Crescimento de discursos autoritários, polarização, crise das instituições democráticas. Enfraquecimento da participação cidadã; desafios para a educação democrática, crítica e emancipatória; aumento da desinformação e do negacionismo. Ética Crises morais e dilemas em torno de justiça, equidade, privacidade e valores humanos. Conflitos de valores em ambientes escolares; urgência de desenvolver educação ética, humanizadora e voltada à convivência em diversidade. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 17 As incertezas atuais não são apenas passageiras ou conjunturais, são consideradas estruturais e permanentes. Morin (2001), corrobora com a discussão ao tratar da complexidade e dos saberes necessários à educação do futuro, quando afirma que vivemos entre incertezas, onde o amanhã é uma construção em aberto, que está sujeita a surpresas e descontinuidades. Segundo Morin, educar é preparar para essa incerteza, implicando em uma superação da visão fragmentada do conhecimento e das práticas pedagógicas, promovendo assim, uma formação que relacione ciência, sensibilidade, ética e cidadania. Morin (2001), também compreende a sala de aula como sendo um espaço de complexidade, reunindo diferentes realidades sociais, emocionais, econômicas e culturais. Essa diversidade faz da escola um ambiente essencialmente heterogêneo. Morin, portanto, enxerga nesse espaço a possibilidade concreta para promover uma mudança nos paradigmas tradicionais que regem a educação. É fundamental então, que o contexto social seja significativo aos estudantes, ao conectar com suas vivências e despertar engajamento autêntico no processo de aprendizagem. O século XXI apresenta um número grande de contradições: ao mesmo tempo em que temos avanços tecnológicos inéditos, enfrentamos o aumento da desigualdade e da exclusão; enquanto as comunicações se globalizam, os discursos de ódio e a polarização política se intensificam. A escola é atravessada por tensões e deve ser capaz de enfrenta-las criticamente. Não se trata de adaptar-se passivamente às mudanças, mas de posicionar-se como agente transformador. Não podemos falar dessas contradições sem citar Paulo Freire, que em sua vasta obra, já alertava que “educação é um ato político” e que a neutralidade é, muitas vezes, uma forma de opressão (Freire, 2021a). O 18 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos educador, portanto, precisa reconhecer seu lugar no mundo e o poder de sua atuação. Em Pedagogia da Esperança (Freire, 2021b) reforça a importância de manter a esperança como força propulsora da ação pedagógica, mesmo em diferentes contextos. Ou seja, mesmo diante do caos, educar continua sendo um ato de fé no ser humano e em sua capacidade de transformação. A crise do modelo escolar tradicional também se evidencia, mediante a rigidez curricular, a homogeneidade das práticas, o foco excessivo na memorização e na avaliação padronizada. Essas evidências do modelo tradicional entram em choque com as necessidades de uma geração que nasce conectada, plural e inquieta. A escola precisa, portanto, ressignificar seus espaços, tempos e relações. Isso não significa abandonar a tradição, mas, reinterpreta-la à luz das urgências contemporâneas (Gadotti, 2000). Diante disso, a escola do século XXI precisa ser corajosa. Segundo Santos et al. (2023), é preciso ter coragem para dialogar com a complexidade, para escutar os silêncios da comunidade e romper com práticas opressoras para apostar em pedagogias que libertam. É necessário reinventar a escola como um território de cuidado e solidariedade. Em tempos de incerteza, a educação precisa ser farol: não porque aponta respostas definitivas, mas porque ilumina caminhos possíveis (Santos, 2020). Crises Contemporâneas: Entre os Desafios Ambientais e Tecnológicos e o Chamado à Educação Planetária Estamos vivendo um momento histórico cheio de crises que acontecem ao mesmo tempo: guerras, fome, desigualdade social e os efeitos duradouros de uma pandemia que ficou por mais de três anos assustando o mundo todo. Mas, um dos maiores problemas que aparece Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 19 com mais força agora é o colapso do meio ambiente, que está ficando cada vez mais sério (Torres et al., 2024). Exemplos desse colapso podem ser visualizados no crescimento do desmatamento de lugares importantes como a Amazônia, recordes de temperaturas altas, como os 49,5ºC na Turquia em 2023, entre outros. Isso mostra que estamos de fato em uma emergência climática, que afeta a nossa vida, dos animais e das plantas. Aquilo que a gente achava que era só preocupação para o futuro, já virou tragédia: ondas de calor tão fortes que matam pessoas, o nível do mar subindo e ameaçando cidades pelo mundo. Quando as temperaturas sobem, além de causar eventos climáticos cada vez mais extremos, o planeta também fica desregulado, o que causa prejuízos econômicos e crises humanas (Torres et al., 2024). Todos esses problemas nos mostram que precisamos refletir: somos responsáveis por tudo isso, como sociedade, porque nosso jeito de crescer e explorar os recursos naturais está destruindo tudo? É fundamental que as discussões sejam feitas tentando diminuir os efeitos das mudanças no clima e repensar nossas ações sociais, econômicas e políticas, tudo isso para proteger a vida no planeta. A crise ambiental é, sem dúvida, uma das expressões mais dramáticas da contemporaneidade. A degradação acelerada dos ecossistemas, o aquecimento global, a perda de biodiversidade e o colapso climático são sintomas de um modelo de desenvolvimento predatório e insustentável. Diante disso, a escola precisa assumir um papel decisivo na formação de uma consciência ecológica crítica e engajada. Não basta ensinar conteúdos sobre o meio ambiente; é preciso criar experiências formativas que conduzam à reflexão ética sobre o lugar do ser humano na Terra. Como afirma Gadotti (2000), a educação ambiental é o eixo de um novo projeto civilizatório. Isso exige que a escola reveja 20 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos suas práticas, promova a interdisciplinaridade e estimule o protagonismo estudantil em ações concretas de sustentabilidade. A educação ambiental crítica, conforme propõe Sauvé (2005), vai além da ecologização superficial do currículo. Ela busca problematizar as relações de poder que estão na origem da destruição ambiental, conectando ecologia com justiça social, consumo consciente, saúde, economia e cultura. Essa abordagem se distancia de campanhas moralistas ou pontuais, propondo uma mudança de paradigma. A Unesco, por meio de iniciativas como a Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável, representada por Tilbury (2011), reforça que o papel da escola é formar cidadãos globais, com capacidade de pensar sistemicamente, colaborar e agir localmente para o bem comum. Essa visão amplia o sentido de pertencimento, conectando a comunidade escolar com os desafios planetários. Edgar Morin também enfatiza que a educação deve ensinar a Terra como uma pátria e fomentar a compreensão de que todos os seres vivos compartilham o mesmo destino. A escola, nesse contexto, precisa cultivar a empatia não só entre seres humanos, mas entre espécies e gerações. Cuidar da Terra é, portanto, um ato de cidadania e de sobrevivência (Morin, 2001). Integrar a ecopedagogia ao cotidiano escolar significa revisar o modo como usamos os recursos, como nos alimentamos, como ocupamos os espaços e como nos relacionamos com a natureza. Significa transformar o ambiente escolar em laboratório vivo de práticas sustentáveis. Mais do que um conteúdo, a questão ambiental deve serinúmeros desafios impostos pelas políticas neoliberais, pela precarização do trabalho docente e pelas pressões autoritárias que buscam restringir a participação efetiva da comunidade escolar. Este capítulo demonstrou que a gestão democrática não é um conceito estático ou burocrático, mas um 138 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos processo dinâmico e político, que exige o engajamento coletivo, a formação continuada e o compromisso ético dos sujeitos escolares. As práticas insurgentes, que se manifestam na reinvenção cotidiana da escola pública, são o coração pulsante da gestão democrática. Elas indicam que a resistência não é apenas reação, mas criação de novos modos de pensar e agir na educação. A escola pública democrática, assim, torna-se um território de experimentação social e pedagógica, onde se constrói a esperança e a possibilidade de transformação. A construção coletiva do projeto político-pedagógico reafirma o protagonismo da comunidade escolar e a importância da autonomia para enfrentar os retrocessos e as desigualdades estruturais. A participação efetiva nos processos decisórios fortalece o sentimento de pertencimento e amplia o compromisso com uma educação inclusiva, equitativa e emancipadora. O desafio para os gestores e educadores é manter viva a chama da democracia em meio a contextos adversos, compreendendo que a luta pela escola pública democrática é, acima de tudo, uma luta por justiça social, direitos humanos e cidadania plena. Assim, a gestão democrática se apresenta como uma prática política essencial para a construção de uma educação que reconheça e valorize a diversidade, a pluralidade e a dignidade dos sujeitos. Acredita-se que este capítulo possa contribuir para o debate acadêmico e para a atuação prática dos gestores escolares, ao destacar que a gestão democrática e a resistência são inseparáveis e necessárias para a afirmação da escola pública como espaço de direitos e de construção coletiva. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 139 Referências APPLE, M. W. Educating the ‘Right’ Way: Markets, Standards, God, and Inequality. 2. ed. New York: Routledge, 2019. ARROYO, M. Pedagogia da escuta e acolhimento. Revista Brasileira de Educação, v. 17, n. 51, p. 45-60, 2012. BALL, S. J. The Education Debate. 3. ed. Bristol: Policy Press, 2017. CÂNDIDO, M. L. Participação e burocratização: tensões na gestão escolar democrática. Cadernos de Pesquisa, v. 51, n. 182, p. 112-130, 2021. DOURADO, L. M. Desa�os da gestão democrática em contextos precários. São Paulo: Cortez, 2020. FREITAS, J. P. Neoliberalismo e responsabilização na educação pública. Rio de Janeiro: Vozes, 2021. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. FULLAN, M. Leading in a Culture of Change. 2. ed. San Francisco: Jossey-Bass, 2016. GADOTTI, M. Educação e cidadania: o desa�o da participação. São Paulo: Autores Associados, 2014. LÚCIO, C. A função do gestor escolar na promoção da democracia. 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A Cultura Digital e os Novos Paradigmas Geracionais Vivemos em uma era marcada por intensas transformações impulsionadas pelo avanço das tecnologias digitais, que têm remodelado não apenas os modos de comunicação e interação social, mas também as formas de ensinar e aprender. Na educação, essa revolução digital não se resume à inserção de novas ferramentas tecnológicas nas salas de aula, mas implica uma mudança mais ampla, que atinge a organização do conhecimento, o papel do professor e a experiência do estudante. 142 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos A cultura digital configura-se como um dos principais vetores de transformação da contemporaneidade, incidindo diretamente sobre as formas de comunicação, relação e aprendizagem das juventudes (Quadro 1). Segundo Castells (2018), vivemos em uma "sociedade em rede", em que os fluxos digitais moldam não apenas as estruturas econômicas, mas também os imaginários coletivos, as identidades e os vínculos sociais. Quadro 1 – Culturas digitais e sua influência na juventude. Eixo Temático Descrição Exemplos Práticos Protagonismo Juvenil Digital Jovens como produtores de conteúdo, agentes de transformação e inovação. Criação de podcasts, canais de YouTube, perfis ativistas no TikTol, coletivos online. Aprendizagem em Rede Processos de aprendizagem mediados por tecnologias e interações digitais. Cursos online, tutoria entre pares, uso de fóruns, grupos de WhatsApp e Discord. Identidade e Expressão Online Construção da identidade por meio de perfis digitais e interações sociais. Avatares, selfies, bios personalizados, criação de memes e narrativas digitais. Cultura da Conexão Cotidiano marcado pela presença constante das redes e da comunicação digital. Streaming simultâneo, lives, compartilhamento instantâneo, cultura do “ao vivo”. Participação Sociopolítica Ativismo digital, engajamento em causas e debates nas redes sociais. Hashtags de mobilização, petições virtuais, campanhas de conscientização. Consumo e Criação de Conteúdo Interação dinâmica entre quem consome e quem cria nas plataformas digitais.Produção de fanfics, vídeos curtos, filtros de realidade aumentada, trends. Educação Midiática Desenvolvimento de habilidades críticas para lidar com informações digitais. Análise de fake news, leitura crítica de vídeos e postagens, curadoria de fontes. Cidadania Digital Compreensão dos direitos, deveres e ética no uso das tecnologias. Práticas de segurança online, respeito à privacidade, combate ao discurso de ódio. Culturas Híbridas Mistura entre o presencial e o virtual nas experiências culturais juvenis. Eventos híbridos, jogos com realidade aumentada, festas transmitidas ao vivo. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 143 Nesse contexto, as juventudes passam a se constituir como sujeitos hiperconectados, protagonistas de práticas socioculturais mediadas pelas tecnologias digitais. Conforme Jenkins et al. (2015), essas práticas envolvem não apenas o consumo, mas também a produção de conteúdo, em uma dinâmica de participação ativa nas redes. A cultura digital transforma o ambiente educacional em seu conjunto, influenciando desde os recursos utilizados até os vínculos entre os sujeitos envolvidos no processo de aprendizagem. Essa transformação implica uma reconfiguração do ecossistema escolar, exigindo dos educadores uma postura reflexiva e aberta às novas formas de mediação do conhecimento. Nesse contexto, a tecnologia deixa de ser um acessório e passa a ocupar um lugar central como mediadora das práticas pedagógicas. Demuner et al. (2024) aponta que a presença da cultura digital na educação não pode ser pensada apenas como um acréscimo instrumental, mas como um convite à revisão das metodologias e dos modos de pensar o próprio ensino. Trata-se de adotar uma nova mentalidade, em que o digital contribui para enriquecer o processo educativo, desde que orientado por intencionalidade pedagógica. As possibilidades são diversas e promissoras. Entre elas, destacam- se o acesso democrático a uma grande quantidade de informações, a ampliação do diálogo com diferentes culturas e perspectivas, e a personalização da aprendizagem. Essas potencialidades abrem caminhos para uma educação mais inclusiva, participativa e conectada com os desafios contemporâneos. Contudo, a integração da cultura digital no cotidiano escolar também levanta desafios importantes. A exclusão digital ainda é uma realidade em muitos contextos, gerando desigualdades no acesso às tecnologias. Além disso, a falta de formação adequada para os 144 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos educadores pode comprometer o uso crítico e criativo desses recursos. Demuner et al. (2024) alerta que a adoção irrefletida de tecnologias pode não apenas falhar em melhorar o ensino, como também acentuar desigualdades sociais e gerar novas tensões éticas no uso dos dados educacionais. Dessa forma, torna-se indispensável investir na formação docente voltada ao desenvolvimento de competências digitais alinhadas às demandas pedagógicas atuais. Como defende Costa (2021), preparar o professor para atuar nesse cenário envolve mais do que capacitação técnica: exige uma compreensão crítica das tecnologias e de como elas podem servir à construção do conhecimento. Outro aspecto que merece atenção é a necessidade de repensar os modelos de avaliação. As competências promovidas pela cultura digital, como a criatividade, a colaboração e a resolução de problemas, muitas vezes não se encaixam nos moldes tradicionais de mensuração do desempenho escolar. Demuner et al. (2024) reforça a importância de criar formas de avaliação que estejam em sintonia com as dinâmicas do mundo digital e com os novos perfis de aprendizagem que emergem nesse contexto. Diante disso, é possível afirmar que a cultura digital representa, ao mesmo tempo, um desafio e uma oportunidade. A educação do século XXI demanda abertura à inovação, mas também responsabilidade e criticidade. Cabe aos educadores, gestores e formuladores de políticas públicas refletirem coletivamente sobre como integrar o digital de forma significativa, sem perder de vista os princípios éticos, a equidade e a centralidade da aprendizagem humana. A dinâmica das gerações anteriores, marcada pela transmissão vertical do conhecimento, é tensionada por uma nova ordem comunicativa, mais horizontal e colaborativa. As tecnologias promovem Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 145 um deslocamento na relação entre saberes, abrindo espaço para o protagonismo juvenil na construção de significados. Buckingham (2012) observa que a cultura digital desafia os modelos tradicionais de mediação adulta, pois os jovens estão frequentemente mais aptos tecnicamente do que os adultos para lidar com os dispositivos digitais. Esse fosso geracional tênue, por vezes ampliado por discursos alarmistas sobre o "vício" ou a "superexposição" digital, pode ser repensado a partir de uma escuta ativa e dialógica. Como propõe Prensky (2010), é necessário superar a dicotomia entre nativos e imigrantes digitais, entendendo que as competências digitais são construídas socialmente, e não apenas determinadas pela idade. As gerações anteriores precisam reconhecer os saberes juvenis como legítimos e significativos. Tais saberes, muitas vezes invisibilizados no contexto escolar, ganham expressividade nos espaços digitais, como os canais de YouTube, as redes sociais, os games e os podcasts. Sibilia (2015) chama atenção para o modo como o corpo e a identidade são reconfigurados nesse universo midiático, ampliando as possibilidades de autoexpressão. Ademais, a cultura digital impõe um novo tempo às relações intergeracionais. Trata-se de um tempo acelerado, não-linear, onde o saber é fragmentado e hipertextual. Lemos (2020) destaca que a lógica das redes pressupõe conexões e não hierarquias, tensionando os modelos escolares baseados na sequencialidade e na autoridade do professor. No entanto, essa dinâmica não está isenta de conflitos. Muitos adultos sentem-se inseguros diante da agilidade dos jovens em lidar com as tecnologias, o que pode gerar discursos moralistas ou punitivistas. Ao invés de interditar as práticas juvenis, é preciso compreendê-las dentro de seus contextos culturais e afetivos. 146 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos A cultura digital, portanto, oferece um campo fecundo para o diálogo entre gerações, desde que haja abertura para o reconhecimento mútuo dos saberes e vivências. Isso exige, como afirma Santos (2019), uma postura intercultural e descolonial, que não hierarquize os modos de saber e viver. Nesse sentido, pensar as juventudes na cultura digital é também pensar em novos modos de socialização e aprendizagem. É preciso reconhecer que os dispositivos tecnológicos são parte constitutiva das subjetividades juvenis, influenciando não apenas o modo como se informam, mas também como constroem relações e projetos de vida. O reconhecimento dos saberes juvenis na cultura digital passa por uma escuta pedagógica que valorize as experiências cotidianas dos estudantes. Como propõem Freire (1996), educar é um ato de amor e coragem, que demanda abertura para o inusitado e respeito pelas narrativas do outro. Portanto, a cultura digital não pode ser vista apenas como um desafio, mas também como uma oportunidade de reinventação das relações educativas. Conectar saberes e gerações é, sobretudo, reconhecer a juventude como sujeito de direitos, portadora de memórias, linguagens e futuros possíveis. Juventudes, Subjetividades e Identidades em Rede As juventudes contemporâneas constroem suas identidades em múltiplos territórios, sendo a internet um dos mais significativos. Os espaços digitais funcionam como arenas de exposição e negociação simbólica, onde os jovensperformam, contestam e resignificam suas subjetividades. De acordo com Bauman (2013), vivemos em uma modernidade líquida, na qual os vínculos são voláteis e as identidades Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 147 estão em constante reconstrução, o que é intensificado pelas redes sociais. Na cultura digital, o “eu” torna-se compartilhável. Os perfis digitais tornam-se curadorias da própria vida, em que os jovens escolhem o que mostrar, omitir ou reinventar. Segundo Sibilia (2015), há uma crescente estetização da existência, marcada pelo imperativo da visibilidade. Estar online é mais do que uma condição técnica; é uma exigência cultural. Essa lógica de exposição tem implicações profundas nas formas de sociabilidade juvenil. As redes digitais operam como espaços de pertencimento e reconhecimento, ao mesmo tempo em que produzem vulnerabilidades. Como destaca Turkle (2017), a mediação constante pelas telas pode gerar solidões paradoxais: estamos juntos, mas sozinhos. A validação pelo outro – via curtidas, comentários, seguidores – torna-se um medidor de autoestima e pertencimento. No entanto, não se pode ignorar o potencial político e emancipador dessas práticas. Muitos jovens utilizam as plataformas digitais como espaços de denúncia, mobilização e resistência. Os coletivos juvenis feministas, antirracistas, LGBTQIA+ e indígenas têm nas redes um canal de expressão e visibilidade que muitas vezes lhes é negado em espaços institucionais. As identidades juvenis, assim, se tornam múltiplas, híbridas, fluídas – atravessadas por marcadores sociais como raça, gênero, classe e território. Hall (2006) já apontava para o deslocamento da identidade fixa para uma identidade cultural não essencializada, em constante processo de formação. Nas redes, esse processo se intensifica, gerando novas formas de pertença e exclusão. O risco de patologização das juventudes digitais também precisa ser enfrentado criticamente. Discursos moralistas que associam o uso 148 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos intenso da tecnologia à alienação, à superficialidade ou à falta de engajamento ignoram a complexidade das experiências juvenis. Como destaca Nemer (2022), a periferia também produz conteúdo digital de qualidade, apropriando-se criativamente das tecnologias. Cabe à escola e aos educadores compreenderem essas identidades em rede como expressões culturais válidas, e não como desvios a serem corrigidos. Reconhecer a cultura digital como campo legítimo de formação subjetiva é também uma estratégia de inclusão e combate às desigualdades. A construção da identidade juvenil nas redes é atravessada por processos de negociação com o olhar do outro, o que pode tanto fortalecer quanto fragilizar os sujeitos. O ciberbullying, a exposição de imagens, a desinformação e a cultura do cancelamento são manifestações do lado sombrio dessa hiperconectividade. Por outro lado, a cultura de influenciadores e microinfluenciadores também revela o desejo de muitos jovens de ocuparem espaços de fala, ainda que mediados pelo algoritmo. A monetização da visibilidade impõe novos desafios à educação, pois modifica as expectativas juvenis em relação à escola, ao trabalho e à projeção de futuro. Em face disso, a formação docente precisa incorporar discussões sobre cultura digital, identidades e juventudes. Não se trata apenas de usar tecnologia em sala, mas de entender os impactos culturais e subjetivos dessa presença tecnológica no cotidiano escolar. Conectar gerações é também um ato de escuta e de reconstrução de sentidos sobre o que significa ser jovem em uma era de fluxos e telas. A escola precisa abrir espaço para que os estudantes possam narrar a si mesmos, em suas línguas, tempos e modos. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 149 Educação e Mediação Intergeracional na Era Digital A inserção das tecnologias digitais no cotidiano escolar não se limita à presença de dispositivos eletrônicos, mas envolve uma profunda transformação nas formas de ensinar e aprender. O desafio da mediação intergeracional está justamente em articular os saberes tradicionais com as novas práticas sociotécnicas das juventudes. Segundo Moran (2020), a educação contemporânea exige uma postura dialógica, flexível e centrada no protagonismo do estudante. Nesse cenário, a figura do professor deixa de ser o detentor exclusivo do conhecimento e passa a atuar como mediador de aprendizagens significativas. A lógica bancária criticada por Freire (1996) torna-se ainda mais obsoleta diante da cultura digital, que demanda uma educação mais investigativa, colaborativa e contextualizada. O espaço escolar precisa abrir-se para os repertórios juvenis construídos nas redes. Os saberes adquiridos fora da escola – em plataformas como TikTok, YouTube, Twitch ou Discord – devem ser compreendidos como recursos legítimos para a aprendizagem. Como afirmam Behrens e Oliveira (2021), é necessário ressignificar o currículo, integrando as linguagens juvenis e as múltiplas mídias. Contudo, o fosso entre gerações ainda se faz presente em muitas práticas escolares. Professores que não compreendem as dinâmicas digitais tendem a adotar uma postura de rejeição ou desqualificação dos saberes juvenis, o que gera desmotivação e resistência por parte dos estudantes. O enfrentamento desse abismo exige formação continuada docente com foco em cultura digital crítica. Além da instrumentalização técnica, é preciso desenvolver competências digitais relacio nadas à cidadania, ética, autoria e leitura 150 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos crítica da informação. A BNCC (2018) já aponta para essa necessidade ao incorporar a competência geral número 5, que trata da cultura digital como eixo formativo transversal. A mediação intergeracional, nesse contexto, requer escuta ativa e abertura ao novo. Segundo Nóvoa (2019), o professor do século XXI deve ser um pesquisador de sua prática e um aprendiz permanente. Isso implica, entre outras coisas, a disposição para aprender com os próprios alunos, reconhecendo-os como sujeitos produtores de conhecimento. Essa inversão de papeis pedagógicos não significa uma perda de autoridade, mas sim uma reconfiguração da mesma. Autoridade, aqui, deve ser entendida como capacidade de inspirar, orientar e dialogar, e não como imposição vertical de saberes. A construção de vínculos genuínos entre professores e estudantes passa pela valorização das experiências e das histórias de vida. A cultura digital oferece inúmeras oportunidades para práticas pedagógicas inovadoras, como projetos interdisciplinares mediados por tecnologias, produção de conteúdo digital, narrativas transmídia, gamificação e aprendizagem baseada em problemas (ABP). Tais práticas favorecem a autonomia e o engajamento dos estudantes. No entanto, a presença da tecnologia não garante, por si só, uma educação transformadora. Como alerta Kenski (2013), é preciso que o uso das tecnologias esteja articulado a um projeto pedagógico crítico, comprometido com a justiça social e com a formação cidadã. A mediação intergeracional implica também em reconhecer as desigualdades de acesso, conectividade e letramento digital. Muitos estudantes e professores enfrentam desafios concretos para inserir-se plenamente na cultura digital. A inclusão digital deve ser compreendida como um direito e uma condição para a efetivação da equidade educacional. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 151 Assim, a escola do século XXI precisa se reinventar como um espaço dialógico de encontro entre saberes e gerações. A cultura digital pode e deve ser ponte entre mundos, linguagens e histórias. Para isso, é necessário reconstruir coletivamente o sentido da escola como lugar depertencimento, criação e transformação. Conectar juventudes e gerações, portanto, não é tarefa simples, mas é urgente e possível. Exige coragem pedagógica, sensibilidade cultural e compromisso ético. É nesse movimento que se constrói uma educação verdadeiramente significativa, inclusiva e cidadã. Desafios e Potencialidades Compreender as juventudes no contexto da cultura digital demanda um olhar sensível e atento às múltiplas realidades que atravessam os sujeitos. A conectividade constante, embora propicie novas formas de expressão e aprendizado, também intensifica desigualdades, pressões psicológicas e riscos associados à superexposição. É nesse cenário complexo que se inscrevem os desafios da educação, da cidadania e da justiça social. A questão do acesso continua sendo um dos maiores entraves à democratização da cultura digital. Segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br, 2023), ainda há significativa desigualdade entre regiões e classes sociais no que tange à conectividade e à qualidade da internet. Tais disparidades dificultam a plena participação das juventudes nas dinâmicas digitais, acentuando a exclusão social em múltiplos níveis. Outro ponto crítico é a formação de professores para atuar em contextos digitalizados. A ausência de políticas públicas consistentes de formação continuada, somada à sobrecarga de trabalho e à escassez de 152 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos recursos pedagógicos, impede que muitos educadores se sintam seguros e motivados para integrar práticas digitais em suas aulas. A cultura digital exige uma atualização contínua, que só será viável se respaldada institucionalmente. Além disso, é fundamental problematizar o modelo tecnocêntrico que muitas vezes orienta políticas educacionais. A simples introdução de equipamentos ou plataformas digitais não garante transformações significativas na aprendizagem. Como bem pontuam Selwyn (2022) e Cysneiros (2021), é preciso investir em políticas educacionais que articulem criticamente tecnologia, currículo, inclusão e autonomia docente. No entanto, a cultura digital também apresenta potências transformadoras. As redes sociais e os ambientes colaborativos abrem espaço para o surgimento de novas pedagogias – mais participativas, plurais e horizontais. As juventudes têm criado linguagens próprias, formas de organização política, de produção cultural e de aprendizagem que escapam à lógica escolar tradicional. Movimentos como o “rolezinho”, os coletivos de mídia alternativa, os influenciadores educativos e as redes de mobilização por direitos são exemplos de como os jovens ressignificam os usos da tecnologia a partir de seus contextos e necessidades. Como afirma Dussel (2018), o digital não apenas transforma a forma como aprendemos, mas também quem pode ensinar e com que legitimidade. É preciso reconhecer essas práticas como epistemologias outras, que desafiam o monopólio ocidental e escolarizado do conhecimento. A escuta pedagógica das juventudes digitais implica um movimento de descentralização do poder, de abertura à alteridade e de diálogo intercultural. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 153 As juventudes não são um bloco homogêneo. Há múltiplas juventudes: periféricas, indígenas, negras, LGBTQIA+, rurais, urbanas, conectadas e desconectadas. Cada uma delas experiencia a cultura digital de maneira singular, com suas possibilidades e limites. Ignorar essa diversidade é incorrer em um reducionismo que compromete qualquer projeto educativo emancipador. Nesse sentido, as políticas públicas devem considerar a cultura digital como um direito e como parte integrante da formação humana. Isso implica em ações estruturantes, que envolvam infraestrutura, formação docente, produção de conteúdo culturalmente sensível e escuta ativa das demandas juvenis. A educação, enquanto prática social e política, deve se comprometer com a construção de pontes entre saberes, gerações e mundos. A cultura digital não é ameaça, mas potência. É território simbólico onde as juventudes constroem sentidos, imaginários, resistências e futuros. Considerações Finais Este capítulo buscou discutir, sob uma perspectiva crítica e autoral, como as juventudes estão inseridas na cultura digital e de que forma essa realidade desafia e transforma a educação contemporânea. A partir da análise das práticas, identidades e saberes juvenis em rede, evidenciou-se a urgência de repensar as relações intergeracionais e as formas de mediação pedagógica. Conectar saberes e gerações, no contexto da cultura digital, é mais do que uma exigência curricular: é um compromisso ético com a construção de uma sociedade mais justa, plural e democrática. As 154 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos juventudes precisam ser vistas não como problema, mas como potência criadora de sentidos, linguagens e epistemologias. Diante disso, educadores, gestores, formuladores de políticas e a sociedade civil como um todo são chamados à responsabilidade de garantir que a cultura digital não aprofunde desigualdades, mas sim amplie possibilidades de inclusão, participação e emancipação. A escola do século XXI deve ser um espaço de acolhimento das narrativas juvenis, de ressignificação dos vínculos pedagógicos e de valorização das experiências vividas pelos estudantes. O futuro da educação passa, necessariamente, por reconhecer as juventudes como protagonistas da era digital e por construir com elas novas formas de aprender, ensinar e transformar o mundo. Referências BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. BEHRENS, M. A.; OLIVEIRA, M. K. L. de. Currículo, docência e tecnologias: uma abordagem sistêmica e interdisciplinar. Curitiba: Appris, 2021. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. BUCKINGHAM, D. Aprendendo na era digital. Porto Alegre: Penso, 2012. CASTELLS, M. A sociedade em rede. 15. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2018. COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL. Pesquisa TIC Domicílios 2023. Disponível em: https://www.cgi.br. Acesso em: jul. 2025. COSTA, F. A.; ALMEIDA, C. M. Ecossistemas educacionais digitais. 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New York: Basic Books, 2017. https://doi.org/10.56238/arev6n3-044 10 FORMAÇÃO DOCENTE O OS NOVOS SABERES DA PROFISSÃO Iuri da Cruz Oliveira Francisco Gilson Gabriel Maia Gustavo Vasconcelos Santos Mara Romênia Silva Negreiros Rosana de Oliveira Nunes Neto Santina Rodrigues Santana Apresentação Este capítulo discute o papel das universidades e dos programas de formação, como PIBID e Residência Pedagógica, na construção contínua do ser professor. Enfatiza a necessidade da formação docente integrada aos desafios contemporâneos e às demandas da prática escolar. O texto destaca a construção coletiva do conhecimento profissional como base para uma educação inovadora e comprometida com a transformação social. Os desafios contemporâneos da formação docente A formação docente no Brasil, especialmente no contexto da educação básica, enfrenta inúmeros desafios que atravessam dimensões estruturais, políticas e pedagógicas. Em meio a transformações sociais aceleradas, avanços tecnológicos, mudanças curriculares e novas demandas escolares, o professor contemporâneo é convocado a atuar com criatividade, sensibilidade e compromisso ético. No entanto, essa atuação exige uma base sólida de formação que vá além da mera reprodução de conteúdos, e que promova uma compreensão crítica da realidade educacional brasileira (Costa et al. 2024). 158 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos A formação de professores, especialmente nas licenciaturas, tem revelado fragilidades históricas que precisam ser enfrentadas com urgência: desde a desconexão entre universidade e escola até a ausência de políticas públicas consistentes de valorização profissional. Segundo Marcelo (2010), em um cenário permeado por desigualdades, é essencial repensar os processos formativos para garantir o direito à educação de qualidade e para fortalecer o protagonismo docente como agente de transformação social. O quadro a seguir (Quadro 1) apresenta de forma sintética alguns dos principais desafios enfrentados pela formação docente no Brasil na atualidade, organizados por eixos temáticos que ajudam a compreender a complexidade dessa realidade e a necessidade de respostas coletivas e comprometidas com a justiça social e a equidade. Quadro 1 – Desafios Contemporâneos da Formação Docente no Brasil. Eixo Temático Descrição do Desafio Formação Inicial Fragmentada Os cursos de licenciatura muitas vezes carecem de integração entre teoria e prática, resultando em formação distanciada da realidade escolar. Valorização e Condições de Trabalho Baixos salários, sobrecarga de trabalho e desvalorização social desmotivam futuros professores e afetam a permanência na profissão. Prática Reflexiva Insuficiente Falta de incentivo à reflexão crítica durante a formação compromete o desenvolvimento da autonomia pedagógica. Tecnologia e Cultura Digital Muitos cursos ainda não preparam adequadamente os docentes para atuar em contextos mediados por tecnologias e cultura digital. Inclusão e Diversidade A formação docente ainda carece de abordagens mais consistentes sobre educação inclusiva, anticapacitista, antirracista e de gênero. Formação Continuada Precária Ausência de políticas efetivas e continuas de atualização profissional para acompanhar as transformações educacionais. Descompasso com a Realidade Escolar Currículos universitários muitas vezes estão distantes das vivências e desafios concretos das escolas públicas brasileiras. Políticas Públicas Inconstantes Mudanças frequentes nas diretrizes educacionais geram instabilidade e dificultam a consolidação de programas formativos. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 159 O quadro sistematiza os principais desafios contemporâneos da formação docente no Brasil, agrupando-os em eixos temáticos que evidenciam a complexidade do cenário educacional. Cada item busca sintetizar tensões, ausências e contradições que impactam diretamente a preparação e a atuação dos professores, desde a etapa inicial da formação até a formação continuada. Ao organizar essas questões, o quadro oferece uma visão panorâmica que pode subsidiar reflexões, debates e proposições no campo das políticas públicas e das práticas formativas. A crise de identidade da profissão docente está intrinsecamente relacionada à desvalorização histórica da carreira, à precarização das condições de trabalho e à falta de formação continuada articulada com as demandas reais da prática. Como destaca Tardif (2014), os saberes docentes são construídos na confluência entre a formação acadêmica, a experiência profissional e o conhecimento do cotidiano escolar. Nesse sentido, pensar a formação docente implica reconhecer sua dimensão complexa, que não pode ser reduzida a modelos tecnicistas e prescritivos. A docência é uma prática social que exige reflexividade, engajamento político e compromisso com a transformação social. Como afirma Freire (1996), ensinar é um ato político e amoroso, que demanda coragem e responsabilidade. A formação inicial, por sua vez, ainda se mostra distante da realidade escolar, muitas vezes centrada em teorias descoladas da prática e em estágios supervisionados burocratizados. Estudos como os de Gatti e Barretto (2019) revelam que grande parte dos egressos dos cursos de licenciatura sentem-se despreparados para lidar com os desafios concretos da sala de aula. 160 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Ademais, a formação docente deve considerar as especificidades dos contextos em que os professores atuam. A diversidade regional, cultural e socioeconômica do Brasil exige formações situadas, que dialoguem com as realidades locais e valorizem os saberes da experiência (Costa et al., 2024). A articulação entre teoria e prática é uma das chaves para superar a fragmentação da formação. Como propõe Zeichner (2010), é fundamental integrar os saberes acadêmicos com os saberes práticos dos professores, promovendo espaços de formação colaborativa e reflexiva. A universidade, nesse processo, precisa abrir-se ao diálogo com as escolas e com os professores em exercício. Projetos de formação continuada, residências pedagógicas, estágios supervisionados e programas como o PIBID são exemplos de iniciativas que contribuem para aproximar a formação inicial da realidade escolar. Por outro lado, a formação docente também deve contemplar as novas demandas impostas pela sociedade digital. A cultura da conectividade, a sobrecarga de informações e as novas formas de aprendizagem exigem professores com competências digitais críticas e criativas. Essa transição, no entanto, não pode ser pensada apenas como uma adequação às tecnologias, mas como uma mudança de paradigma. Como aponta Nóvoa (2017), é preciso reinventar a profissão docente, promovendo uma formação baseada na colaboração, na investigação e na autonomia. A valorização da docência passa, assim, pela construção de políticas públicas que assegurem condições de trabalho, tempo para estudos, salários dignos e reconhecimento social. A formação de professores não pode ser tratada como gasto, mas como investimento essencial para o futuro do país. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 161 Portanto, os desafios da formação docente exigem respostas integradas, que envolvam universidades, escolas, governos e a sociedade em geral. Formar professores é formar cidadãos comprometidos com a educação como direito e com a transformação da realidade. Saberes docentes e profissionalização do magistério A discussão sobre os saberes docentesocupa um lugar central nos estudos sobre a profissionalização do magistério. Reconhecer que o professor é um profissional que mobiliza, constrói e ressignifica saberes específicos é um passo fundamental para superar visões reducionistas que ainda permeiam o campo educacional. Segundo Tardif (2014), os saberes docentes não são meramente reproduzidos, mas elaborados ao longo da trajetória formativa e prática do educador. Os saberes da formação, da experiência, do contexto escolar e dos alunos compõem um arcabouço dinâmico que sustenta a prática pedagógica. Ao reconhecer essa pluralidade, amplia-se a compreensão do magistério como profissão complexa, situada e relacional. Essa perspectiva contraria a lógica tecnicista que enxerga o professor como mero executor de conteúdos prontos. A profissionalização docente exige o fortalecimento de políticas públicas que reconheçam e valorizem a autonomia profissional. A LDB (Lei nº 9.394/96), ao tratar da formação de professores, aponta para a necessidade de formação superior e contínua, mas essa exigência, por si só, não garante a profissionalização se não estiver acompanhada de condições de trabalho dignas. A construção da identidade profissional do professor é também uma construção coletiva. As interações nos espaços escolares e 162 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos formativos, os conflitos e desafios vivenciados, bem como os processos de reflexão crítica sobre a prática, são elementos que contribuem para a consolidação de um ethos profissional. Como enfatiza Pimenta (2012), a docência deve ser entendida como prática social intencional, ética e política. Nesse contexto, é imprescindível romper com a desvalorização histórica do magistério, marcada por baixos salários, ausência de planos de carreira e condições precárias de infraestrutura. Tais fatores fragilizam a identidade docente e geram desmotivação, comprometendo a qualidade da educação oferecida. A valorização dos saberes docentes também passa pela formação continuada. Espaços formativos que promovam o diálogo entre pares, a reflexão crítica e a construção coletiva de conhecimentos são fundamentais para o fortalecimento da profissão. Não se trata apenas de ofertar cursos, mas de promover processos formativos que respeitem os tempos, os ritmos e as demandas dos professores. A profissionalização do magistério envolve ainda o reconhecimento social da importância do trabalho docente. Campanhas públicas, programas de valorização, incentivos à pesquisa e à produção de conhecimento docente são caminhos possíveis para conferir visibilidade ao papel transformador do professor. Por outro lado, é preciso atentar para as tensões internas à própria categoria. A construção de uma cultura colaborativa entre professores é um desafio que precisa ser enfrentado. Ainda há resistências à troca de saberes e experiências, muitas vezes alimentadas por culturas escolares competitivas ou fragmentadas. A promoção de comunidades de prática e redes de professores pode contribuir significativamente para a valorização dos saberes docentes. Nessas comunidades, os educadores compartilham experiências, Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 163 produzem conhecimentos e constroem soluções coletivas para os desafios cotidianos da escola. A pesquisa sobre a prática, entendida como um dos pilares da profissionalização, permite ao professor tornar-se autor de sua trajetória. Investigar a própria prática, como propõe Cochran-Smith e Lytle (2009), é um exercício de autoria, autonomia e compromisso com a transformação. Finalmente, cabe destacar que a profissionalização do magistério não se dá de forma linear ou homogênea. Ela depende de múltiplos fatores, institucionais, históricos, culturais, políticos, e exige articulações entre formação, condições de trabalho, reconhecimento e políticas públicas consistentes. Metodologias ativas e inovação na formação de professores A incorporação das metodologias ativas na formação de professores tem se configurado como um dos principais desafios e oportunidades para a renovação dos processos formativos no século XXI. As metodologias ativas, ao inverterem a lógica tradicional de ensino centrada na transmissão do conteúdo, promovem a protagonização do estudante e estimulam a construção coletiva do conhecimento (Moran, 2020). Para a formação docente, essa perspectiva implica repensar o papel do professor, não mais apenas como transmissor, mas como mediador, facilitador e coaprendiz no processo educativo. No contexto da inovação pedagógica, o ensino híbrido tem ganhado destaque, pois combina momentos presenciais e virtuais, promovendo flexibilidade e diversidade de recursos para a aprendizagem (Gonçalves; Almeida, 2021). Essa modalidade demanda dos professores competências específicas, como o domínio tecnológico, a capacidade de 164 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos planejamento integrado e o desenvolvimento de estratégias que dialoguem com a autonomia do aluno. A formação docente, por sua vez, precisa preparar o educador para esses desafios, fugindo de abordagens fragmentadas e tecnicistas. Outra metodologia que impacta a formação é a sala de aula invertida (flipped classroom), que promove a preparação prévia dos alunos para a aula, utilizando o tempo presencial para aprofundar conteúdos, realizar discussões e atividades práticas (Bergmann; Sams, 2014). Na formação de professores, o uso dessa metodologia pode ser aplicado para que os futuros educadores experimentem diretamente essa lógica, refletindo criticamente sobre seus efeitos e adaptações necessárias. A aprendizagem baseada em projetos (ABP) constitui um eixo central nas metodologias ativas, pois privilegia a resolução de problemas reais, interdisciplinaridade e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais (Thompson, 2019). A formação docente que incorpora a ABP estimula a criatividade, a colaboração e a reflexão crítica, competências imprescindíveis para o exercício profissional na contemporaneidade. Professores formados sob essa perspectiva tendem a perceber a escola como um espaço dinâmico de produção de saberes e não meramente de reprodução. Ademais, o uso das tecnologias digitais educacionais potencializa as metodologias ativas, possibilitando ambientes virtuais de aprendizagem, gamificação, realidade aumentada e outras ferramentas que ampliam as possibilidades didáticas (Valente, 2020). A formação de professores precisa contemplar essas inovações tecnológicas de modo crítico e contextualizado, evitando a simples apropriação instrumental e promovendo o uso intencional em função dos objetivos pedagógicos. A incorporação das metodologias ativas também exige uma mudança cultural no espaço escolar, que envolve a gestão, os alunos, as Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 165 famílias e a comunidade. Os professores formados precisam estar preparados para atuar em contextos que valorizem a experimentação, o erro como aprendizagem e o desenvolvimento integral do sujeito (Moran, 2020). Isso demanda uma formação que transcenda conteúdos específicos e favoreça o desenvolvimento de competências socioemocionais e éticas. No processo formativo, é importante que os futuros professores tenham experiências práticas que envolvam as metodologias ativas, em estágios supervisionados e residências pedagógicas que fomentem o diálogo entre teoria e prática (Nóvoa, 2019). A vivência concreta dessas metodologias permite uma compreensão mais profunda e crítica dos desafios e potencialidades da inovação pedagógica. Ainda, a formação de professores deve incentivar a investigação e a pesquisa sobre a própria prática, alinhando-se com a lógica das metodologias ativas que privilegiam a autonomia e a autoriado docente (Cochran-Smith; Lythle, 2009). Esse exercício fortalece a profissionalização e contribui para a construção de saberes docentes contextualizados e contextualizadores. Outro aspecto relevante refere-se à inclusão e à diversidade na formação. As metodologias ativas, ao promoverem a participação ativa dos estudantes, podem contribuir para práticas pedagógicas mais inclusivas e sensíveis às diferenças culturais, sociais e cognitivas (Silva; Costa, 2022). Para tanto, a formação precisa preparar os professores para adaptar as metodologias conforme os contextos e necessidades específicos. O papel da formação continuada também ganha relevância, uma vez que as metodologias ativas e as inovações tecnológicas estão em constante evolução. Programas de formação ao longo da carreira, espaços colaborativos e redes de aprendizagem docente são 166 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos fundamentais para a atualização e o aprimoramento contínuo dos profissionais da educação (Moran, 2020). Ademais, é necessário ressaltar as dificuldades enfrentadas na implementação dessas metodologias, como a resistência a mudanças, a falta de infraestrutura adequada e a sobrecarga dos professores (Gonçalves; Almeida, 2021). A formação inicial e continuada deve considerar esses entraves e oferecer suporte teórico-prático que contribua para a superação dessas barreiras. Por fim, a inovação na formação docente por meio das metodologias ativas implica um compromisso ético-político com uma educação democrática, crítica e transformadora. Como afirmam Freire (1996) e Nóvoa (2017), formar professores para o século XXI significa prepará-los para serem agentes de mudança, capazes de responder aos desafios sociais e educacionais de forma criativa e comprometida. Formação docente crítica e emancipatória: caminhos para o futuro A formação docente crítica e emancipatória representa uma perspectiva fundamental para a renovação profunda da profissão de professor, na qual a prática pedagógica é compreendida como espaço de resistência, transformação social e produção de conhecimento. Essa abordagem resgata os fundamentos da pedagogia crítica, cuja principal inspiração encontra-se em Paulo Freire (1996), que defende a educação como um ato político e libertador, capaz de promover a consciência crítica dos educandos e a construção de uma sociedade mais justa. A formação docente, neste sentido, deve promover o desenvolvimento da consciência crítica tanto dos futuros professores quanto dos que já atuam, capacitando-os para problematizar as condições sociais, culturais e políticas que permeiam o cotidiano Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 167 escolar. Isso implica reconhecer o papel do professor como agente ativo na transformação das desigualdades e exclusões presentes na sociedade, o que demanda uma visão ampliada do seu fazer profissional. A formação de professores no Brasil tem sido historicamente marcada por desafios estruturais, entre eles a fragmentação entre teoria e prática. Nesse cenário, iniciativas como o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) e o Programa de Residência Pedagógica se destacaram como propostas de superação dessas lacunas, ao aproximarem os licenciandos da realidade escolar desde os primeiros momentos da formação. No entanto, embora ambos compartilhassem o compromisso com a valorização docente e a melhoria do ensino público, cada um apresentava concepções e metodologias distintas. Programas públicos como o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) e a Residência Pedagógica surgem como iniciativas que potencializam essa formação crítica, ao oferecerem experiências práticas contextualizadas, supervisionadas e articuladas com a teoria acadêmica. O PIBID, por exemplo, possibilita aos licenciandos uma imersão precoce no ambiente escolar, favorecendo a aproximação entre universidade e escola e estimulando o desenvolvimento de saberes docentes fundamentados na realidade concreta (Brasil, 2019). De modo complementar, a Residência Pedagógica oferece uma formação prática intensiva, ampliando o tempo de convivência do futuro professor com a escola, promovendo o desenvolvimento de competências investigativas e reflexivas, essenciais para a prática docente transformadora (BRASIL, 2020). Ambas as políticas públicas contribuem para a profissionalização docente, incentivando a 168 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos colaboração, a pesquisa e a reflexão crítica, fatores que fortalecem a identidade do professor enquanto sujeito emancipado. Além disso, essas iniciativas contribuem para a superação da dicotomia entre teoria e prática, que historicamente fragiliza a formação inicial. Ao inserir o futuro professor em contextos reais de trabalho escolar, elas favorecem a construção de saberes híbridos, que combinam o conhecimento acadêmico com os saberes práticos e populares, essenciais para enfrentar a complexidade da docência contemporânea. O PIBID se consolidou como uma política pública de forte impacto formativo, ao permitir que estudantes de licenciatura atuassem em escolas públicas sob a orientação de professores da educação básica e da universidade. O programa favorecia o trabalho coletivo, a construção interdisciplinar do saber pedagógico e a inserção crítica no cotidiano escolar. Mais do que um estágio antecipado, o PIBID representava um espaço de experimentação, diálogo e reflexão, contribuindo para a ressignificação da identidade docente em formação. Já o Programa de Residência Pedagógica, instituído pela Portaria MEC nº 38/2018, foi idealizado como uma modalidade mais específica de formação prática, inspirada no modelo das residências na área da saúde. Nesse formato, os residentes assumiam um papel mais direto na sala de aula, com atividades de regência supervisionada, planejamento e execução de intervenções pedagógicas, aproximando-se da realidade profissional de forma mais individualizada e intensiva. Entretanto, em 2024, o Governo Federal publicou a Portaria MEC nº 83, de 27 de fevereiro de 2024, revogando a Portaria anterior e extinguindo oficialmente o Programa Residência Pedagógica. A justificativa alegada foi a unificação de esforços e recursos no fortalecimento do PIBID, que passou a assumir um papel ampliado Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 169 dentro das políticas de formação docente. Essa decisão, no entanto, gerou debates no meio acadêmico e entre os profissionais da educação, uma vez que a diversidade de experiências e formatos formativos era vista por muitos como algo enriquecedor para a formação inicial. A comparação entre os dois programas revela não apenas abordagens distintas, mas também visões complementares sobre a formação de professores. O PIBID, com sua ênfase no trabalho colaborativo e no protagonismo estudantil, e a Residência Pedagógica, com seu foco na prática intensiva e na responsabilização do licenciando, ofereciam experiências que, juntas, potencializavam os saberes da profissão docente. Assim, compreender o percurso desses programas é fundamental para refletirmos sobre os rumos da formação de professores no país. A extinção da Residência Pedagógica, embora legalmente respaldada, convida a comunidade educacional a pensar alternativas que não suprimam a pluralidade de vivências formativas, mas que integrem diferentes dimensões da docência com ética, compromisso e qualidade. A formação crítica também deve incorporar o debate sobre as desigualdades e as questões de diversidade presentes no ambiente escolar, como raça, gênero, classe social, sexualidade e deficiência. É necessário formar professores conscientes das múltiplas identidades e das demandas específicas de seus estudantes, capazesde promover práticas inclusivas e antirracistas (Nogueira; Silva, 2021). Nesse processo, a dimensão ética da profissão docente assume papel central, demandando a construção de um compromisso social com a educação como direito humano e com a promoção da justiça social. A formação crítica e emancipatória, portanto, não se restringe ao desenvolvimento de habilidades técnicas, mas envolve a construção de 170 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos uma visão de mundo que articule saberes, valores e práticas pedagógicas. Outro aspecto relevante refere-se ao papel da tecnologia nesse cenário. Embora as tecnologias digitais possam potencializar o processo formativo, é crucial que seu uso seja orientado por princípios críticos, que considerem as implicações éticas, sociais e culturais do ambiente digital. A formação docente deve fomentar uma postura reflexiva e responsável em relação às tecnologias, evitando o uso acrítico e instrumental (Valente, 2020). Ademais, a formação crítica requer espaços de diálogo e colaboração entre professores, gestores, pesquisadores e comunidades escolares. A construção coletiva de saberes e a valorização das experiências docentes são estratégias fundamentais para fortalecer a profissão e promover inovações pedagógicas que respondam às demandas locais e globais. Por fim, é imprescindível que políticas públicas garantam recursos, infraestrutura e condições adequadas para a implementação de formações docentes críticas e emancipatórias. Sem investimentos e apoio institucional, os esforços individuais e coletivos podem se limitar, comprometendo o potencial transformador dessas iniciativas. Em síntese, a formação docente crítica e emancipatória, fortalecida por programas como o PIBID e a extinta Residência Pedagógica, representa um caminho promissor para a construção de uma educação mais democrática, inclusiva e comprometida com a transformação social. Formar professores capazes de pensar, agir e transformar é um desafio que exige o engajamento conjunto de universidades, escolas, governos e sociedade. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 171 Referências BERGMANN, J.; SAMS, A. Flip your classroom: reach every student in every class every day. 2. ed. Washington: International Society for Technology in Education, 2014. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Superior. Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID: diretrizes e orientações básicas. Brasília: MEC, 2019. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Superior. Residência Pedagógica: diretrizes e orientações básicas. Brasília: MEC, 2020. 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Disponível em: https://revformacaodocente.com.br/ index.php/rbpfp/article/view/17. Acesso em: 2 ago. 2025. MORAN, J. M. Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem teórica e prática. 2. ed. São Paulo: Penso, 2020. NÓVOA, A. Repensar a pro�ssão docente. Porto: Porto Editora, 2017. https://seer.facmais.edu.br/rc/index.php/RCE/article/view/184 https://revformacaodocente.com.br/index.php/rbpfp/article/view/17 https://revformacaodocente.com.br/index.php/rbpfp/article/view/17 172 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos NÓVOA, A. Formação de professores e inovação educativa. Porto: Porto Editora, 2019. NOGUEIRA, M. B.; SILVA, A. P. da. Educação antirracista e formação docente: desa�os e possibilidades. Salvador: EDUFBA, 2021. PIMENTA, S. G. Docência no ensino superior: formação e prática. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2012. SILVA, R. T.; COSTA, E. F. da. Metodologias ativas e inclusão na educação: um diálogo necessário. Fortaleza: EdUECE, 2022. TARDIF, M. Saberes docentes e formação pro�ssional. 18. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. THOMPSON, L. A. Aprendizagem baseada em projetos: estratégias para o desenvolvimento de competências. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2019. VALENTE, J. A. Tecnologias digitais na formação de professores: desa�os e possibilidades. Campinas: Papirus, 2020. ZEICHNER, K. M. The struggle for the soul of teacher education. New York: Routledge, 2010. DOS ORGANIZADORES Iuri da Cruz Oliveira Graduação em Licenciatura em Matemática pela Universidade do Tocantins (UNITINS). Graduação em Licenciatura em Pedagogia pela Faculdade Educacional da Lapa (FAEL). Especialista em Ensino de Matemática pela Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal (FACIMED). Especialista em Gestão, Orientação e Supervisão com ênfase em Psicologia Educacional pela Faculdade de Rolim de Moura (FAROL). Especialista em Gestão em Educação à Distância pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO). Mestre em Ensino de Física pela Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Docente na Secretaria de Educação do Estado do Ceará (SEDUC). Integrante do Grupo de Pesquisa em Etnociência, Meio Ambiente e Ensino de Ciências (GPEMAEC). Francisco Gilson Gabriel Maia Graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual do Vale do Acaraú (UVA). Graduação em Letras – Português e Inglês pelo Centro Universitário Cidade Verde (UNICV). Graduação em Marketing Digital pela Uniasselvi. Especialização em Ensino da Língua Inglesa; Especialização em Gestão Escolar e Coordenação Escolar; Especialização em Tutorial em EAD e Docência do Ensino Superior e Especialização em Marketing Digital pela Faculdade Iguaçu. Docente da Secretaria Municipal de Educação de Horizonte, Ceará. DOS AUTORES Alan Lucas de Oliveira Lima Bacharel em Administração Pública na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB. Licenciado em Geografia pela Faculdade Venda Nova do Imigrante – FAVENI. Especialista em Atendimento Educacional Especializado; Especialista em Administração Financeira e Especialista em Controladoria Pública pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci (UNIASSELVI). Secretário de Educação e Cultura no Município de Barreira, Ceará e Docente da Secretaria Municipal de Educação de Aracoiaba, Ceará. Alcielda Carvalho dos Santos Graduação em Pedagogia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Graduação em Licenciatura em Biologia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Especialização em Gestão Ambiental pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Especialização em Educação Especial pela Faculdade Focus. Docente da Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Aluísio Marques da Fonseca Graduação em Química pela Universidade Federal do Ceará. Especialização em Ensino de Ciências pela Universidade Estadual do Ceará. Mestre em Química Orgânica pela Universidade Federa do Ceará. Doutor em Química pela Universidade Federal do Ceará. Professor Titular do Instituto de Ciências Exatas e da Natureza da UNILAB. Atua no PPG em Sociobiodiversidade e Tecnologias Sustentáveis e no Mestrado em Energias e Ambiente. Líderdo Grupo Interdisciplinar em Química (GIQ), com atuação em biocatálise, produtos naturais e simulação computacional. Antonia Pereira de Sousa Graduação em Geografia e História pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Especialização em Gestão e Coordenação Escolar, Atendimento Educacional Especializado e Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional pela UNIFAVENI. Coordenadora Pedagógica da Secretaria de Educação do Município de Horizonte, Ceará. 176 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Antônio Oliveira de Sousa Graduação em Letras – Português pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Especialização em Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo pela Faculdade Venda Nova do Imigrante (FAVENI). Docente da Secretaria Estadual de Educação do Estado do Ceará (SEDUC/CE). Camila Luana Castro Lima Ferreira Graduação em Licenciatura em Pedagogia pela Fundação Universidade Federal de Rondônia - UNIR. Especialização em Neuropsicopedagogia Clínica pela Centro de Ensino Superior Dom Alberto. Especialização em MBA Gestão de Instituições Públicas pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia – IFRO e Graduanda em Gestão Pública Municipal pela Fundação Universidade Federal de Rondônia - UNIR. Docente da Secretaria de Educação do Município de Presidente Médici - RO. Celso Costa Santos Júnior Bacharel e Licenciado em Ciências Biológicas (FACIMED, 2008). Especialização em Biodiversidade da Amazônia (FAROL, 2009). Mestre em Biodiversidade em Unidades de Conservação (ENBT/JBRJ, 2017). Analista Ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBIO/MMA. Cristiano Santos Tamandaré É graduado em Pedagogia (2020) e em Ciências Biológicas (2013). Atualmente é professor titular no município de Seringueiras-RO na Educação Básica. Tem experiência na área de Biologia e Pedagogia, com ênfase em Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: educação ambiental, desperdício de água, meio ambiente, conscientização, consumo sustentável, gestão pública. Experiência em gestão pública como dirigente municipal de educação entre 2018 até 2020 e diretor escolar nos anos 2021 e 2022. Possui pós-graduação em Ensino de Ciências e Biologia; Especialização em Master Business Administration em Gestão de Instituições Públicas e Especialização em Docência do Ensino Superior. Edson Omar da Silva Curso Especial de Formação Pedagógica – Licenciatura Plena pela Faculdade KURIOS. Graduação em Matemática pela FACIG. Especialização em Gestão Pedagógica na Escola Básica pela Universidade Estadual do Ceará. Docente da Secretaria de Educação do Município de Horizonte, Ceará. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 177 Glaucia Maria Melo Soares Graduação em Licenciatura em Pedagogia pela Fundação Universidade Estadual Vale de Acaraú (2022). Especialização em Psicologia Clínica e Institucional pela Fundação Universidade Estadual Vale do Acaraú (2023). Mestranda pela São Luís University. Docente da Carreira do Magistério do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico. Gleisiane Barbosa dos Santos Graduação em Licenciatura Plena em Química pela Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal (FACIMED). Especialização em Química Industrial pela Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal (FACIMED). Especialização em Neuropsicopedagogia, Educação em Tempo Integral e Educação Ambiental pela Faculdade São Luís/SP. Especialização em Microbiologia e em Docência do Ensino Superior pela Faculdade Faveni. Docente da Secretaria de Educação do Estado de Rondônia (SEDUC/RO). Gustavo Vasconcelos Santos Graduado em Licenciatura em Física pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Especialista em Ensino de Ciências pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI). Mestrando em Ensino de Física pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Docente da Secretaria de Educação do Estado do Ceará (SEDUC/CE). Huthysonn Gomes Lima Graduação em Licenciatura Específica em Português pela Universidade Vale do Acaraú – UVA (2008). Especialização em Língua Portuguesa e Literatura pela Faculdade Kurios – FAK (2009). Especialização em Gestão Escolar e Coordenação pela Faculdade Kurius – FAK (2013). Especialização em Educação Global, Inteligências Humanas e Construção da Cidadania pela Faculdade de Ensino Superior do Nordeste – FAESNE (2016). Especialização em Biblioteconomia pela Faculdade Venda Nova do Imigrante – FAVENI (2023). Efetivo como Docente da Secretaria de Educação do Município de Barreira e Docente da Secretaria de Educação do Estado do Ceará. José Juliano Maia de Sousa Graduação em Licenciatura em Biologia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Especialização em Gestão Escolar Integrada e Práticas Pedagógicas pela UCAMProminas. Mestrando em Educação pela Universidade DelSol. Coordenador Escolar e Docente da Secretaria de Educação do Estado do Ceará. 178 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos José Ricardo Martins de Lima Graduado em Pedagogia pela Faculdade Kurios. Especialista em Alfabetização e Letramento pela UniMB; Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica pela FASEC; Neuropsicologia Clínica e Institucional pela FAMEESP; Avaliação Educacional e Terapia Ocupacional Pediátrica pela Facuminas. Formação em Secretariado Escolar pela Fundação Demócrito Rocha. Atualmente, é graduando em Terapia Ocupacional pela UniFaveni. Atua como Assessor Pedagógico na Secretaria de Educação e Cultura de Barreira. Articulador do PAIC Integral na CREDE 08 e Professor no Programa Brasil Alfabetizado. Josiane Araújo Oliveira Batista É graduada em História pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e em Pedagogia pela Faculdade Educacional da Lapa (FAEL). Possui Especialização em Orientação, Supervisão e Administração Escolar e em História e Cultura Afro-Brasileira, ambas realizadas pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi). Mestrado em Ensino de Ciências da Natureza pelo Programa de Pós Graduação em Ensino de Ciências da Natureza (PGECN) da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Atua como professora na Rede Municipal de Ensino de Seringueiras, Rondônia, desenvolvendo seu trabalho na Educação Infantil. Integra o Grupo de Estudo e Pesquisa em História da Educação Matemática na Amazônia (GEPHEMA). Karina José da Silva Graduação em Matemática pela Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal – FACIMED. Graduanda em Física pela UNINTER. Especialização em Alfabetização em Matemática pela Minas Faculdade. Mestranda em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade de Passo Fundo. Docente da Secretaria do Estado de Educação de Rondônia. Docente na Cooperativa Educacional de Cacoal (COOPECC) e na Fanorte. Karla Monise de Souza Silva Doutoranda em Ciências da Educação (UNADES). Mestre em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Especialização em Educação Inclusiva pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Bacharel em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Graduanda em Engenharia Civil (UNIATENEU). Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 179 Kathelly da Silva Alves Monteiro Licenciada em Biologia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e em Pedagogia pela Faculdade Kurius (FAK). Especialista em Docência do Ensino Superior pela Faculdade do Maciço de Baturité (FMB) e em Ensino de Ciências nos anos finais do Ensino Fundamental “Ciência é 10” pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Atua como Coordenadora Pedagógica na EMEIEF Pedro Alexandrino de Lima da Rede Municipal da Secretaria de Educação e Cultura de Barreira, Ceará. Kely Alinny Bezerra Mota Silva Licenciada em Biologia pela Universidade Estadual do Vale do Acaraú (UVA) e em Pedagogiapela Faculdade Kurius (FAK). Especialista em Tecnologias Educacionais (IFCE), Docência no Ensino Superior (FMB) e Gestão Pública Municipal (Unilab). Atua como técnica da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Barreira. Professora na EEM Danísio Dalton da Rocha Corrêa. Supervisora do PIBID na área de Biologia, em parceria com a UNILAB. Formadora regional do Programa PAIC Integral que desenvolve ações voltadas à formação docente e fortalecimento das práticas pedagógicas. Lilian de Sena Marinho Bacharel e Licenciada em Ciências Biológicas (FACIMED, 2008). Especialização em Biodiversidade da Amazônia (FAROL, 2009). Docente da Secretaria de Educação de Rondônia – SEDUC/RO. Ludimilla Ronqui Possui Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Paranaense (2004). Graduação em Pedagogia, Mestrado em Genética e Melhoramento pela Universidade Estadual de Maringá (2006) e Doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Zootecnia pela Universidade Estadual de Maringá (2016). Atualmente é Docente Associada do Departamento Acadêmico de Biologia da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e Docente do Programa de Pós-Graduação Mestrado Acadêmico em Ensino de Ciências da Natureza (PGECN). Mara Romênia Silva Negreiros Graduação em Letras – Português pela Unifacvest e Licenciatura em Pedagogia pela Faculdade Excelência – FAEX. Especialização em Docência no Ensino Superior, 180 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Oralidade e Escrita e Educação em Tempo Integral pela Unifacvest. Docente da Secretaria de Educação do Município de Horizonte, Ceará. Mestrado em Ciências da Educação em andamento pela Inovaeduc, Ceará. Marco Antonio Soares Savi Graduando em Cinema e Audiovisual pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Maria do Socorro Pereira Costa Lima Graduação em Licenciatura Plena em Química e Biologia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA (2004) e Licenciatura Plena em Pedagogia pela Faculdade Kurios – FAK (2016). Especializações pela Faculdade Kurios (FAK) em Química e Biologia (2008), Gestão Escolar e Coordenação (2013) e AEE e Sala Multifuncional (2022). Especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional e em Alfabetização e Letramento pela Facuminas (2022). Mestre em Energia e Ambiente pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB (2025). Docente Efetiva e Gestora do Centro de Educação Infantil Maria de Fátima Lima Pereira da Secretaria de Educação do Município de Barreira e Docente da Secretaria de Educação do Município de Redenção, Ceará. Maria Giselia Lopes Maciel Graduação em Pedagogia. Especialização em Psicopedagogia pela Faesdro. Docente da Secretaria de Educação do Município de Barreira, Ceará. Maria Iraneide Marcelino de Freitas Graduação em História pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Especialização em Psicopedagogia e Metodologias Ativas. Mestranda. Docente na Secretaria de Educação do Munícipio de Itaitinga e na Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Maria Mabelle Pereira Costa Paiva Graduações em Licenciatura Plena em Química pela Universidade Federal do Ceará (2013) e Licenciatura em Pedagogia pela Faculdade Kurios (2016). Especializações em Mídias em Educação pela UNILAB (2016), Ensino de Ciências – Anos Finais do Ensino Fundamental pela UNILAB (2021), Alfabetização, Letramento e Educação Infantil pela FABEMP (2022), e Psicopedagogia Clínica e Institucional pela FABEMP (2022). Mestranda em Sociobiodiversidade e Tecnologias Sustentáveis pela UNILAB. Docente da Secretaria de Educação do Município de Fortaleza, Ceará. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 181 Rosana de Oliveira Nunes Neto Possui Graduação em Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade do Oeste Paulista. Especialização em Docência do Ensino Superior pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Especialização em Gestão Escolar na Educação Básica pela Faculdade Varzeagrandense de Ciências Humanas. Mestrado em Ciências da Saúde pelo Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo (IAMSPE). Atuou como docente, coordenadora pedagógica, diretora acadêmica e coordenadora em EaD da Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal (FACIMED). Rosimeiri de Oliveira Nunes Graduada em Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade do Tocantins (UNITINS). Especialização em Arte pela Faculdade Venda Nova do Imigrante (FAVENI). Atua como docente desde 2005 na Escola Municipal Rural Malvina Evaristo Pescinelli, Assentamento ENA, Feliz Natal, estado de Mato Grosso. Samuel Wesley Leonço da Costa É graduado em Pedagogia (2020) e em Ciências Biológicas (2012). Atualmente é professor da Secretaria de Educação de Rondônia, no município de Seringueiras. Tem experiência em Biologia Geral, com ênfase em Biologia Celular. Possui Especialização em Metodologias do Ensino Superior e EAD e Especialização em Educação de Jovens e Adultos. Santina Rodrigues Santana Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Especialista em Didática do Ensino Superior pela Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal (FACIMED). Mestrado em Saúde e Ambiente, área de Etnobotânica pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Doutorado em Fitotecnia, área de Melhoramento de Plantas, Recursos Genéticos e Biotecnologia, pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Docente da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Tem experiência na área de Botânica, Etnobotânica, atuando principalmente em plantas medicinais e suas formas de uso, na Fitotecnia, onde atua no pré-melhoramento de pimentas do gênero Capsicum e desenvolve atividades de Educação Ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Centro de Estudos Socioambientais (CECISA). 182 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Suzi Maria da Silva Graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú. Graduação em Português pela Universidade Estadual Vale do Acaraú. Especialização em Gestão Pedagógica na Educação Básica pela Universidade Estadual do Ceará. Docente da Secretaria de Educação do Município de Horizonte, Ceará. Atuou como formadora do Ensino Fundamental – Anos Iniciais da Secretaria de Educação do Município de Horizonte, Ceará. Tays Cristina Souza Graduação em Bacharelado e Licenciatura em Ciências Biológicas pela Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal (FACIMED). Especialista em Biologia e Genética Forense pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC). A Editora Fi é especializada na editoração, publicação e divulgação de produção e pesquisa científica/acadêmica das ciências humanas, distribuída exclusivamente sob acesso aberto, com parceria das mais diversas instituições de ensino superior no Brasil e exterior, assim como monografias, dissertações, teses, tal como coletâneas de grupos de pesquisa e anais de eventos. Conheça nosso catálogo e siga as nossas páginas nas principais redes sociais para acompanhar novos lançamentos e eventos. www.editorafi.org contato@editorafi.org http://www.editorafi.org/ Prefácio Reginaldo de Oliveira Nunes 0F Apresentação Iuri da Cruz Oliveira 1F Francisco Gilson Gabriel Maia 2F 1 Educar em tempos de incerteza: a escola no século XXI Iuri da Cruz Oliveira Alan Lucas de Oliveira Lima Antônio Oliveira de Sousa Gleisiane Barbosa dos Santos Rosimeiri de Oliveira Nunes Rosana de Oliveira Nunes Neto Maria do Socorro Pereira Costa Lima Apresentação Introdução: A educação em tempos turbulentos Crises Contemporâneas: Entre os Desafios Ambientais e Tecnológicos e o Chamado à Educação Planetária Educação em Tempos de Crise: Lições da Pandemia, Democracia em Risco e o Papel da Escola na Formação Crítica Educação como práticauma postura ética diante da vida. No que se refere a tecnologias, a era digital transformou profundamente a sociedade e, com ela, os modos de ensinar e aprender. A tecnologia, antes marginal no processo educativo, tornou-se Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 21 onipresente. Plataformas virtuais, redes sociais, inteligência artificial e algoritmos moldam não apenas os conteúdos, mas os próprios sujeitos em formação. No entanto, essa revolução é ambígua: ao mesmo tempo em que amplia possibilidades, também produz exclusão e alienação. Bauman (2007), ao falar da modernidade líquida, alertava que vivemos em um tempo de mudanças tão rápidas que as instituições não conseguem se estruturar. A tecnologia, nesse sentido, é fluida, fugidia, frequentemente desumanizadora. A escola, ao invés de simplesmente incorporar dispositivos, precisa refletir criticamente sobre os impactos dessas tecnologias na formação humana. O acesso à tecnologia ainda é profundamente desigual. A pandemia evidenciou essa disparidade: milhões de estudantes brasileiros não tiveram acesso à internet ou a dispositivos adequados para acompanhar o ensino remoto. A exclusão digital é, portanto, mais uma face da injustiça social. Como afirma Dowbor (2017), tecnologia sem equidade é uma forma de concentração de poder e renda. Contudo, também é verdade que as tecnologias podem ser grandes aliadas da democratização do saber, desde que mediadas por projetos pedagógicos críticos e inclusivos. Papert (1994), ao propor o uso do computador como ferramenta para a construção do conhecimento, afirmava que a tecnologia deve servir para tornar as crianças autoras de suas aprendizagens, não meras receptoras. A formação docente, nesse contexto, é essencial. Não basta saber operar ferramentas, é preciso compreender seus usos pedagógicos, suas limitações e seus potenciais. A escola precisa formar professores que sejam não apenas consumidores de tecnologia, mas criadores e mediadores de experiências digitais transformadoras. Portanto, a questão não é se devemos ou não usar tecnologia, mas como e para quê. Qual o propósito de sua utilização? Que valores 22 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos estamos reforçando? Que competências estamos desenvolvendo? A resposta a essas perguntas pode determinar se a tecnologia será um vetor de emancipação ou um novo instrumento de dominação. Educação em Tempos de Crise: Lições da Pandemia, Democracia em Risco e o Papel da Escola na Formação Crítica A pandemia da Covid-19 representou um marco disruptivo para a educação em todo o mundo. Escolas foram fechadas, aulas presenciais suspensas e o ensino remoto emergencial tornou-se uma necessidade. Esse contexto revelou, com crueza, as profundas desigualdades sociais e tecnológicas que atravessam os sistemas educacionais, sobretudo nos países em desenvolvimento. A crise sanitária, no entanto, também ofereceu lições valiosas sobre a centralidade da escola na vida das comunidades. Santos (2020), em A cruel pedagogia do vírus, afirma que “o vírus revelou a obscenidade das desigualdades”. Enquanto crianças em contextos privilegiados migraram com certa facilidade para o ensino online, outras, em áreas periféricas e rurais, foram deixadas à margem do processo educativo. A pandemia escancarou o fosso entre promessas de inclusão digital e a realidade da exclusão estrutural vivida por milhões. Mas a crise sanitária também nos forçou a repensar práticas pedagógicas arraigadas. A escola, ao perder sua forma tradicional, ganhou novas possibilidades: o ensino híbrido, o uso de plataformas colaborativas, as redes de apoio entre professores e famílias, e a valorização da escuta e do cuidado foram elementos que emergiram com força. Educar deixou de ser, momentaneamente, apenas transmitir conteúdo, para tornar-se cuidar, acolher, manter vínculos. A saúde mental de estudantes e professores também ganhou protagonismo. O luto, o isolamento e a insegurança tornaram-se Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 23 experiências coletivas. A escola precisou se reinventar como espaço de acolhimento, de escuta ativa e de afetividade. Essa dimensão humanizadora da educação, muitas vezes ofuscada pela lógica do desempenho e da produtividade, reapareceu como essencial. O que aprendemos, afinal, com a pandemia? Que a escola é insubstituível como espaço de convivência, que os laços humanos são tão importantes quanto os conteúdos e que a tecnologia deve ser ferramenta, não fim. Aprendemos também que a desigualdade é um obstáculo real e que qualquer proposta pedagógica deve enfrentar essa questão com coragem. Ao olharmos para o futuro, a escola do pós-pandemia não pode simplesmente voltar ao que era. Ela deve ser mais justa, mais atenta às diferenças, mais plural em suas metodologias e mais crítica em suas escolhas. Como propõe Freire (2015), educar é um ato de amor e, portanto, um compromisso ético com o outro — principalmente com aqueles que mais precisam da escola para transformar sua realidade. A democracia, como construção coletiva e permanente, encontra- se sob ameaça. O avanço de discursos autoritários, a disseminação da desinformação e o negacionismo científico colocam em xeque os pilares do pensamento crítico. Nesse contexto, a escola assume um papel vital: formar cidadãos conscientes, capazes de discernir fatos de manipulações, ciência de crença, liberdade de intolerância. A escola é, por excelência, o espaço onde se aprende a conviver com a diferença, a dialogar e a reconhecer a dignidade do outro. No entanto, ela também tem sido alvo de tentativas de censura, controle ideológico e desvalorização do saber científico. Giroux (2006) alerta que quando a educação é reduzida a treinamento técnico e neutralidade, ela perde seu potencial de transformação. A pedagogia precisa, portanto, recuperar seu papel político no sentido mais amplo e ético do termo. 24 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Nesse ambiente de crise, o pensamento crítico se torna uma ferramenta de resistência. Freire (2011) já dizia que ensinar exige respeito aos saberes dos educandos, exige crítica, exige reflexão. Isso implica rejeitar o ensino como transmissão neutra de conteúdos e afirmar a escola como espaço de construção coletiva de conhecimento, com base na problematização da realidade. Harvey (1992) também destaca que o neoliberalismo impôs à educação uma lógica mercantil: escolas tornaram-se produtos, professores, prestadores de serviço, e alunos, consumidores. Essa racionalidade compromete o papel formativo da educação, restringindo-a à utilidade imediata. É preciso recuperar o horizonte utópico da escola como formadora de sujeitos históricos, não apenas de força de trabalho. A defesa da democracia na escola passa também pelo fortalecimento da participação estudantil, do protagonismo juvenil, do respeito à diversidade e da pluralidade de ideias. A educação para a cidadania deve incluir o ensino de direitos humanos, o combate às desigualdades e a promoção de uma cultura de paz. Mais do que nunca, educar é um ato de resistência. Resistir à barbárie, ao individualismo, à indiferença. Como nos lembra Freire (2011), a educação precisa ser um exercício constante de liberdade. Em tempos sombrios, a escola deve ser um lugar de luz, de esperança crítica e de preparação para a democracia real — aquela que se constrói com justiça, escuta e solidariedade. Educação como prática de esperança em tempos de incerteza Se há algo que sustenta a prática educativa em tempos difíceis, é a esperança. Não uma esperança ingênua, de espera passiva, mas uma Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 25 esperança ativa, engajada, que inspira movimento. Freire (2021b) nos ensinou que “esperançarde esperança em tempos de incerteza Referências 2 Tecnologia, IA e humanização: paradoxos da sala de aula digital Francisco Gilson Gabriel Maia Kely Alinny Bezerra Mota Silva Adriana Melo Soares Savi Rosimeiri de Oliveira Nunes Karina José da Silva Tays Cristina Souza Santina Rodrigues Santana Apresentação A revolução digital na educação: promessa e realidade Inteligência Artificial: ferramenta ou ameaça à pedagogia? A dimensão humana da educação: insubstituível Educação Digital Crítica e Justiça Algorítmica: Letramento, Cidadania e Disputas por Autonomia Caminhos para uma Pedagogia Tecnopolítica Referências 3 Educação antirracista, decolonial e inclusiva: para quem é o conhecimento? Iuri da Cruz Oliveira Francisco Gilson Gabriel Maia Edson Omar da Silva Antonia Pereira de Sousa Alan Lucas de Oliveira Lima Josiane Araújo Oliveira Batista Gustavo Vasconcelos Santos Apresentação Descolonizar o currículo: desconstruindo epistemologias autoritárias Educação antirracista: rompendo com estruturas raciais no cotidiano escolar O pensamento decolonial na educação: diálogos entre Freire, Fanon e Cabral Inclusão radical: além da acessibilidade física Educação Intercultural e Avaliação Inclusiva: caminhos para comunidades plurais e decoloniais Referências 4 Aprendizagem ativa e currículos flexíveis: a escola como campo de criação Ludimilla Ronqui Suzi Maria da Silva Samuel Wesley Leonço da Costa Cristiano Santos Tamandaré Kathelly da Silva Alves Monteiro José Ricardo Martins de Lima Karla Monise de Souza Silva Apresentação A crise do modelo tradicional e a urgência de reimaginar a escola Fundamentos das metodologias ativas: da teoria à prática Currículos flexíveis e aprendizagem significativa Protagonismo Juvenil e o Professor como Designer de Experiências: caminhos para uma educação centrada na autoria discente Desafios e possibilidades para a reinvenção da escola Referências 5 Cuidar para ensinar: saúde mental de professores e estudantes Huthysonn Gomes Lima Antonia Pereira de Sousa Alcielda Carvalho dos Santos Rosimeiri de Oliveira Nunes Lilian de Sena Marinho Camila Luana Castro Lima Ferreira Adriana Melo Soares Savi Apresentação A crise do cuidado na educação: uma urgência silenciada Estudantes sob pressão: sofrimentos silenciados na escola Políticas de cuidado e educação emocional: caminhos para a escola que acolhe Referências 6 Educação ambiental crítica e os desafios da sustentabilidade Maria do Socorro Pereira Costa Lima Huthysonn Gomes Lima Samuel Wesley Leonço da Costa Ludimilla Ronqui Maria Mabelle Pereira Costa Paiva Edson Omar da Silva Aluísio Marques da Fonseca Celso Costa Santos Júnior Apresentação Fundamentos da Educação Ambiental Crítica Sustentabilidade em disputa: entre o discurso e a prática A escola como espaço de resistência e práxis ecológica Políticas públicas, justiça ambiental e os caminhos para uma sustentabilidade transformadora Referências 7 Avaliação na contemporaneidade: diagnóstico, caminho ou sentença? Iuri da Cruz Oliveira Suzi Maria da Silva Glaucia Maria Melo Soares José Juliano Maia de Sousa Maria Iraneide Marcelino de Freitas Rosana de Oliveira Nunes Neto Marco Antonio Soares Savi Apresentação Reconfigurações conceituais da avaliação: entre rupturas e permanências Avaliação formativa e emancipação: práticas possíveis e limites reais Avaliação externa e accountability: tensões entre controle e qualidade Considerações finais: entre diagnósticos críticos e horizontes transformadores Referências 8 Gestão democrática e resistência na educação pública Cristiano Santos Tamandaré José Ricardo Martins de Lima Josiane Araújo Oliveira Batista Maria Giselia Lopes Maciel Camila Luana Castro Lima Ferreira Iuri da Cruz Oliveira Francisco Gilson Gabriel Maia Apresentação Fundamentos da gestão democrática na educação Neoliberalismo, controle e os desafios da resistência na escola pública Participação, autonomia e construção coletiva do projeto político-pedagógico Práticas insurgentes e reinvenção da escola pública democrática Considerações finais Referências 9 Juventudes e cultura digital: conectando saberes e gerações Francisco Gilson Gabriel Maia Santina Rodrigues Santana Kely Alinny Bezerra Mota Silva Alan Lucas Oliveira Lima Kathelly da Silva Alves Monteiro José Ricardo Martins de Lima Tays Cristina Souza Marco Antonio Soares Savi Apresentação A Cultura Digital e os Novos Paradigmas Geracionais Juventudes, Subjetividades e Identidades em Rede Educação e Mediação Intergeracional na Era Digital Desafios e Potencialidades Considerações Finais Referências 10 Formação docente o os novos saberes da profissão Iuri da Cruz Oliveira Francisco Gilson Gabriel Maia Gustavo Vasconcelos Santos Mara Romênia Silva Negreiros Rosana de Oliveira Nunes Neto Santina Rodrigues Santana Apresentação Os desafios contemporâneos da formação docente Saberes docentes e profissionalização do magistério Metodologias ativas e inovação na formação de professores Formação docente crítica e emancipatória: caminhos para o futuro Referências Dos Organizadores Dos Autores Página em branco Página em brancoé levantar-se, ir atrás, construir, não desistir”. Em tempos de crise, a esperança torna-se estratégia pedagógica e atitude política. Educar é, nesse sentido, ato profundamente ético. É apostar na possibilidade de que o ser humano pode aprender, transformar-se e transformar o mundo. Essa aposta exige do educador uma postura comprometida com a dignidade do outro, com sua autonomia e com sua inserção crítica na realidade. Esperançar, portanto, é não desistir do humano mesmo quando tudo parece desmoronar. A prática pedagógica precisa integrar razão e afeto, conteúdo e cuidado. Uma educação esperançosa não nega os conflitos, mas os enfrenta com diálogo e sensibilidade. Ela reconhece os limites impostos pelas estruturas sociais, mas não se acomoda neles. Como diz Santos (2020), é preciso substituir o conformismo pela insurgência epistemológica. Essa esperança se concretiza em metodologias participativas, em escutas autênticas, em planejamentos que partem da realidade dos estudantes. Não há espaço para o autoritarismo nem para a padronização acrítica. A escola precisa ser laboratório de utopias concretas, lugar onde se experimentam novas formas de aprender, conviver e criar. O educador, nesse cenário, é um intelectual orgânico, um mediador sensível, um ativador de potências. Sua autoridade se constrói na escuta, no vínculo, na coerência ética. Ele é, ao mesmo tempo, farol e ponte. Não aponta caminhos prontos, mas ilumina trilhas possíveis, sempre em construção conjunta com os educandos. A esperança como prática pedagógica exige também coragem: coragem de mudar, de ousar, de romper com lógicas excludentes. Como 26 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos dizia Freire (2021a), “ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”. E é nesse encontro com o mundo, com suas dores e promessas, que a esperança educativa se fortalece. Em meio às tempestades do presente, a escola precisa se reinventar. Essa reinvenção não se trata apenas de incorporar tecnologias ou adaptar currículos. Trata-se de uma transformação profunda, ética e política, do modo como entendemos o ato de educar. A escola do século XXI não pode ser apenas um espaço de reprodução, mas de resistência, criatividade e emancipação. Reinventar a escola exige coragem. Coragem para questionar estruturas injustas, para romper com o autoritarismo pedagógico, para ousar novas formas de ensinar e aprender. Como propõe Morin (2001), é necessária uma reforma do pensamento que supere a fragmentação do saber e promova a compreensão da complexidade humana e social. José Pacheco, com a experiência da Escola da Ponte, demonstrou que é possível uma escola baseada na autonomia dos estudantes, no diálogo e na personalização da aprendizagem. Essa proposta desafia os modelos tradicionais e revela que outras pedagogias são viáveis, desde que sustentadas por uma visão humanista e democrática da educação (Pacheco, 1999). O futuro da educação passa por práticas colaborativas, por escuta ativa, por projetos interdisciplinares e por uma escola conectada com sua comunidade. A transformação não virá de cima para baixo, mas do chão da escola, das experiências vividas pelos educadores e estudantes que ousam fazer diferente. Essa escola reinventada será, inevitavelmente, uma escola política — no sentido freireano da palavra. Uma escola que não foge do mundo, mas o assume como campo de disputa, de sonho e de ação. Como Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 27 afirmou Paulo Freire, a escola é, antes de tudo, um espaço onde se deve pensar o mundo (Freire, 2021a). Por fim, a utopia, longe de ser uma fantasia, é o motor da reinvenção. Que a escola do século XXI seja esse caminhar esperançoso, crítico e comprometido com a dignidade humana. Referências BAUMAN, Z. Tempos líquidos. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. DOWBOR, L. A era do capital improdutivo: A nova arquitetura do poder, sob dominação �nanceira, sequestro da democracia e destruição do planeta. São Paulo: Autonomia Literária, 2017. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 62. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021a. FREIRE, P. Pedagogia da esperança: Um reencontro com a pedagogia do oprimido. 21. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021b. FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. 34. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. 43. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2015. GADOTTI, M. Educação e sustentabilidade: uma introdução à educação para o desenvolvimento sustentável. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2000. GIRIOUX, H. A. 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Acesso em: 02 ago. 2025. https://ojs.focopublicacoes.com.br/foco/article/view/3448 https://ojs.focopublicacoes.com.br/foco/article/view/3448 https://doi.org/10.1590/s1517-9702201603133875 https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000191442 https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000191442 2 TECNOLOGIA, IA E HUMANIZAÇÃO: PARADOXOS DA SALA DE AULA DIGITAL Francisco Gilson Gabriel Maia Kely Alinny Bezerra Mota Silva Adriana Melo Soares Savi Rosimeiri de Oliveira Nunes Karina José da Silva Tays Cristina Souza Santina Rodrigues Santana Apresentação O capítulo traz reflexões sobre os paradoxos que emergem na integraçãocrescente da tecnologia e da inteligência artificial no ambiente escolar. O momento de explosão das EdTechs e de ferramentas digitais ampliam as possibilidades pedagógicas e o acesso ao conhecimento, mas evidenciam a urgência de preservar a dimensão humana na educação. O texto propõe uma reflexão crítica sobre os desafios e potencialidades dessas inovações, enfatizando a importância do equilíbrio do avanço tecnológico com o respeito às relações, à ética e à singularidade dos sujeitos. A revolução digital na educação: promessa e realidade Estamos em um período em que a tecnologia se impõe como condição ao presente, pois praticamente tudo o que fazemos no dia a dia está relacionado com as tecnologias. Corroborando com a informação, Freitas et al. (2025), destaca que vivemos em um tempo em que a educação não pode ser mais pensada nos moldes do passado, pois a revolução digital, acelerada por inovações como a inteligência artificial, 30 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos realidade virtual e realidade aumentada, está redesenhando o cenário educacional em uma velocidade sem precedentes. Essas tecnologias, antes restritas à ficção ou a ambientes altamente especializados, começam a ocupar espaço no cotidiano das escolas e universidades, propondo novas formas de ensinar e aprender. O desafio que se impõe aos educadores não é apenas técnico, mas também pedagógico: como integrar essas ferramentas de modo a enriquecer a experiência do estudante, sem abrir mão dos princípios formativos da educação? A personalização do ensino, o acesso remoto ao conhecimento e a criação de ambientes imersivos são apenas algumas das possibilidades que emergem nesse novo contexto. Diante disso, repensar o papel da escola, do professor e dos próprios currículos torna-se essencial para que a tecnologia não seja um fim em si mesma, mas uma ponte para uma aprendizagem mais significativa, inclusiva e conectada com as demandas do século XXI (Freitas et al., 2025). O avanço das chamadas EdTechs (startups e plataformas voltadas à educação), transformou de maneira radical os modos de como se ensina e aprende. O crescimento exagerado de ferramentas digitais, ambientes virtuais de aprendizagem, jogos educacionais e agora, a Inteligência Artificial, parece estar anunciando uma revolução educacional em curso, em que precisamos adaptar-se. Muitos discursos sobre tecnologia na educação vêm carregados de otimismo, como eficiência, personalização, acessibilidade, inovação, entre outros. Mas será que essas promessas têm se realizado de forma equitativa e humanizadora? Selwyn (2016) nos convida a olhar de forma crítica para essas inovações, ao afirmar que a tecnologia educacional raramente é neutra, e seus efeitos dependem de contextos sociopolíticos (Quadro 1). Assim, é preciso pensar para quem e para quê a tecnologia está sendo aplicada. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 31 Quadro 1 – Principais aspectos da revolução digital na Educação. Aspectos Observações O que é a Revolução Digital? É o processo de transformação do ensino impulsionado pelo uso de tecnologias digitais, como internet, inteligência artificial, plataformas online e dispositivos móveis. Principais Elementos Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA): Moodle, Google Classroom, Microsoft Teams. Educação a Distância (EaD): Expansão do acesso à educação em qualquer lugar. Gamificação: Uso de jogos para tornar o aprendizado mais dinâmico e motivador. Inteligência Artificial: Personalização da aprendizagem com sistemas adaptativos. Redes Sociais e YouTube: Novos espaços para aprender e ensinar. Impactos Positivos * Acesso democratizado ao conhecimento. * Flexibilidade. * Estímulo à autonomia do estudante. * Recursos multimodais (vídeo, áudio, simulações). * Aprendizagem personalizada e interativa. Desafios e Cuidados * Exclusão digital e falta de acesso à internet. * Dificuldades na formação de professores. * Riscos de superficialidade nos conteúdos. * Necessidade de políticas públicas inclusivas. Caminhos para o Futuro * Formação continuada de professores em tecnologias educacionais. * Infraestrutura adequada nas escolas. * Parcerias entre instituições públicas, privadas e sociedade. * Educação híbrida com modelo integrador. Fonte: Elaborado pelos autores (2025). No Brasil e em vários países do Sul Global, as desigualdades de acesso à internet e a dispositivos móveis são consideráveis. A pandemia da Covid-19 escancarou a exclusão digital que afeta milhões de estudantes. As tecnologias, se não forem acompanhadas de políticas públicas eficazes, correm o risco de ampliar ainda mais essas desigualdades. Segundo Dowbor (2017), a tecnologia só democratiza o conhecimento quando acompanhada de democratização de acesso. 32 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos A relação dos seres humanos e máquinas também exigem atenção ética. Quem programa as tecnologias? Que valores estão embutidos nos algoritmos? Quais interesses econômicos orientam as EdTechs? Sobre esse aspecto, Lyon (2014), lembra que vivemos em uma sociedade da vigilância, e a educação não está restrita a isso: dados de estudantes são coletados, analisados e até comercializados por grandes corporações, muitas vezes sem a devida discussão pública. Se torna necessário então, perceber que a inovação tecnológica por si só não transforma a educação. O que promove a transformação são os projetos pedagógicos críticos, capazes de colocar a tecnologia a serviço da formação integral. O professor, longe de ser substituído por máquinas, torna-se importante no processo educacional como mediador e referência humana em um mundo cada vez mais automatizado. Assim, o grande desafio não está em adotar ou recusar a tecnologia existente, mas sim humaniza-la. A educação do século XXI deve ser digital, sim, mas sobretudo, precisa incorporar a ética, a solidariedade e a inclusão no processo. Assim, a presença da Inteligência Artificial no campo da educação tem se ampliado significativamente, sendo considerada uma ferramenta promissora para tornar o processo de ensino mais personalizado. Essa tecnologia oferece condições para que cada estudante possa aprender de acordo com suas próprias características, respeitando ritmos, interesses e dificuldades individuais, algo que os métodos tradicionais nem sempre conseguem contemplar. Recursos como assistentes virtuais e plataformas que monitoram o desempenho dos alunos em tempo real têm contribuído para práticas pedagógicas mais ajustadas às necessidades específicas de cada indivíduo (Freitas et al., 2025). Assis (2023) ainda ressalta que a IA pode ser usada de forma estratégica para desenvolver percursos de aprendizagem mais flexíveis Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 33 e personalizados. Contudo, sua adoção enfrenta entraves importantes, como a resistência por parte de alguns docentes, a falta de formação adequada e preocupações com a privacidade e o uso de dados sensíveis dos estudantes. Inteligência Artificial: ferramenta ou ameaça à pedagogia? Com o início da Inteligência Artificial (IA) a sala de aula marca uma nova fase da transformação digital na educação. Assistentes virtuais, plataformas adaptativas, tutores automatizados e ferramentas de correção automática estão se tornando cada vez mais presentes no cotidiano escolar. Há quem veja nisso uma revolução capaz de personalizar o ensino e otimizar o processo de aprendizagem. Outros, no entanto, chamam a atenção para os graves riscos à pedagogia crítica e à autonomia docente. A IA promete adaptar o ensino ao ritmo de cada aluno, identificando dificuldades e sugerindo estratégias personalizadas. Essa ideia, inspirada no conceito de adaptive learning, faz com que os olhos de gestores einvestidos brilhem. No entanto, Watters (2021), adverte que muitas dessas soluções reforçam práticas tecnocráticas, mercadológicas e desumanizadas de ensino. Se substituirmos o diálogo pela prescrição algorítmica, estamos fadados a esvaziar o sentido formativo da educação. A crítica apontada não é somente a utilização da IA em si, mas a maneira como ela foi concebida e vem sendo aplicada. Quem controla os algoritmos? Quais epistemologias orientam os padrões de avaliação automatizada? Que critérios determinam o “sucesso” de uma aprendizagem? São tantas dúvidas, que muitos pesquisadores ainda não conseguem encontrar respostas. Segundo Zuboff (2019), ao tratar do 34 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos capitalismo de vigilância, mostra como a coleta massiva de dados educacionais serve a interesses corporativos que nada têm a ver com a emancipação humana. Também há de se destacar outro ponto delicado nesse processo, que é a substituição de professores por sistemas automatizados. Embora a IA possa ser aliada em tarefas repetitivas, como correção de provas objetivas, ela nunca poderá substituir o processo de escuta, o afeto, a mediação de conflitos e o olhar pedagógico. Essas dimensões são constituídas da ação docente e não podem ser reduzidas a scripts ou estatísticas. A formação docente também precisa ser revista à luz da IA. Professores devem entender como usar essas ferramentas, mas precisa também as analisar de forma crítica. Isso implica em incluir discussões sobre os processos de privacidade, equidade, justiça algorítmica e governança digital. Resumidamente, a IA pode ser um processo importante, desde que colocada a serviço de uma pedagogia emancipadora. Para que essa tecnologia realmente beneficie o ambiente educacional, é necessário mais do que simplesmente disponibilizar ferramentas: é preciso repensar as metodologias de ensino e investir na qualificação dos professores, garantindo que estejam preparados para utilizar a IA com consciência crítica, responsabilidade ética e intencionalidade pedagógica. Além disso, se faz necessário a garantia de um protagonismo para os docentes e estudantes nas decisões sobre sua utilização, priorizando sempre a dignidade humana em decorrência da eficiência técnica. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 35 A dimensão humana da educação: insubstituível As transformações digitais que moldam a sociedade contemporânea vêm provocando mudanças profundas no campo educacional, desafiando práticas tradicionais e reformulando a forma como o ensino e a aprendizagem são concebidos (Romão et al., 2025). A passagem de modelos centrados no professor e no quadro negro para ambientes digitais interativos representa mais do que uma atualização tecnológica: trata-se de uma verdadeira reestruturação dos processos pedagógicos. Plataformas digitais, recursos multimídia e inteligência artificial tornaram-se elementos cada vez mais presentes nas salas de aula, físicas ou virtuais, possibilitando novas formas de construção e compartilhamento do conhecimento. No entanto, apesar dos avanços e das oportunidades proporcionadas por essa revolução tecnológica, é fundamental reconhecer que a dimensão humana da educação permanece insubstituível. Nenhuma ferramenta digital, por mais sofisticada que seja, é capaz de substituir a escuta atenta, o acolhimento emocional e a mediação sensível do professor na trajetória formativa dos estudantes. A tecnologia pode enriquecer a experiência educativa, mas é o vínculo humano que confere sentido, ética e propósito ao ato de ensinar. Assim, refletir sobre os impactos da transformação digital na educação exige também reafirmar o papel essencial do educador como sujeito ativo, empático e comprometido com a formação integral dos alunos, um papel que nenhuma máquina é capaz de exercer. Com o rápido avanço das tecnologias, reafirmar a centralidade do humano na educação se torna um ato de resistência. Ensino e aprendizagem são processos que envolvem o afeto, relação e ética. A escola é feita desses encontros, de olhares, de silêncios, de gestos. 36 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, será capaz de substituir a potência transformadora do vínculo humano. Paulo Freire (1996), chama a atenção para a importância da pesquisa para o ensino. Esses que se encontram no corpo do educador que, ao ensinar, pesquisa, e ao pesquisar, “ensina”. A educação, portanto, é um movimento dialógico, imprevisível, singular, e a tentativa de padroniza-la ou automatiza-la é uma violação de sua natureza viva. Assim, a pedagogia do cuidado, proposta por Setton (2010) se torna essencial no mundo fragmentado em que vivemos. O ato de cuidar envolve escutar, acolher, respeitar os tempos e as diferenças. A mediação pedagógica exige a presença, corporeidade, empatia, dimensões essas que nenhuma tela ou robô pode replicar com autenticidade. Além disso, a dimensão humana da educação é também uma dimensão cultural e política. É na escola que se ensina a conviver com o diferente, a resolver conflitos, a argumentar com respeito. A cidadania não se aprende apenas por conteúdos, mas na prática do cotidiano escolar, nas interações que moldam os valores, atitudes e visões de mundo. A tecnologia pode auxiliar, mas nunca substituir. Se torna capaz de mediar, mas não ocupar o lugar do sujeito. A obsessão por métricas, plataformas e automatismos ameaça desumanizar a educação, transformando-a em um processo técnico, frio e ineficaz. A escola não é uma linha de montagem, ela é um espaço de vida e de formação integral. Nesse sentido, defender a dimensão humana da educação é uma defesa da essência do processo formativo, garantindo que, em meio à avalanche digital, a educação permaneça sendo aquilo que sempre foi em sua essência: um encontro de pessoas, com o objetivo de criar sentidos, construir saberes e transformar o mundo. Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 37 Educação Digital Crítica e Justiça Algorítmica: Letramento, Cidadania e Disputas por Autonomia A consolidação das tecnologias digitais no cotidiano escolar exige mais do que domínio técnico, requerendo um letramento digital crítico. Segundo Buckingham (2019), o verdadeiro letramento midiático deve capacitar os estudantes a compreender e questionar as estruturas de poder por trás das mídias digitais. Ao invés de apenas aprender a utilizar ferramentas, é necessário que os estudantes desenvolvam consciência sobre como essas ferramentas moldam sua visão de mundo. Sobre esse aspecto, no Brasil, autores como Ribeiro e Costa (2021) enfatizam a importância da integração da cultura digital ao currículo com intencionalidade pedagógica, para que a escola deixe de ser apenas um espaço de reprodução de conteúdos e passe a formar sujeitos críticos. O letramento digital, nesse caso, inclui habilidades como análise de fontes, reconhecimento de fake news, segurança na internet e uso ético das tecnologias. A promoção da cidadania digital também está em jogo. Vivemos em um tempo em que a participação política, os direitos e os deveres se estendem ao ambiente virtual. Assim, Livingstone (2014), aponta que a preparação dos jovens para a vida democrática no século XXI significa ensinar a navegar por redes sociais, compreender algoritmos e tomar decisões informadas em um cenário de sobrecarga de informações. A função da escola, no entanto, é de formar cidadãos digitais e não apenas ensinar a usar aplicativos. Isso implica discutir temas como privacidade, discurso de ódio, cyberbullying, proteção de dados e direitos digitais. É necessário discutir essas questões, valorizando as experiências dos próprios estudantes em ambientes digitais. É fundamentaltambém que os professores sejam protagonistas nesse processo. Sobre esse aspecto, Kenski e Moran (2023), destacam que a 38 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos formação docente continuada deve incorporar o letramento digital como eixo estruturantes, possibilitando que os educadores atuem com segurança e criticidade diante das inovações tecnológica, sem se tornarem reféns delas. A educação digital crítica deve, portanto, alinhar-se a projetos pedagógicos que tenham como objetivo a autonomia dos sujeitos. Uma escola digitalmente crítica não é aquela que usa tecnologia, mas sim a que melhor forma seus estudantes para fazer escolhas éticas, participar da sociedade e resistir às lógicas de consumo e vigilância impostas pelas grandes corporações tecnológicas. Os algoritmos não são neutros. Segundo Eubanks (2018), os algoritmos podem perpetuar desigualdades quando utilizados sem transparência, sobretudo, em contextos como a educação, onde decisões automatizadas impactam trajetórias de vida. No campo educacional, algoritmos determinam desde sugestões de conteúdos até diagnósticos de aprendizagem, sem que os sujeitos tenham controle sobre esses processos. Essa realidade traz implicações profundas para a justiça social. Se dados de desempenho escolar alimentam sistemas que reforçam padrões meritocráticos, excluindo estudantes por critérios preestabelecidos, temos uma nova forma de exclusão educativa, agora mediada por tecnologias. Como alerta Williamson (2020), a análise de dados educacionais precisa ser acompanhada de debates públicos sobre seus usos, limites e consequências. No Brasil, pesquisadores como Souza e Rabelo (2022) têm destacado os riscos da introdução de sistemas preditivos em avaliações educacionais. Quando algoritmos projetam o “sucesso” de um aluno com base em seu histórico escolar, sem considerar o contexto sociocultural, Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 39 o resultado pode ser a cristalização de desigualdades históricas sob o verniz da objetividade técnica. Nesse cenário, a justiça algorítmica surge como um campo emergente. Trata-se de uma proposta para avaliar o impacto das decisões automatizadas a partir de princípios de equidade, transparência e inclusão. Autores como D’Ignazio e Klein (2020) propõem uma ciência de dados feminista, que questione o poder concentrado nas mãos de quem programa e interpreta os dados, e abra espaço para outras epistemologias. As escolas, como instituições formadoras de sujeitos críticos, devem assumir o papel de discutir esses temas com a comunidade escolar. Isso implica democratizar o conhecimento sobre como funcionam os algoritmos, estimular projetos de cultura de dados e promover a participação ativa dos estudantes no debate sobre sua própria formação digital. Portanto, compreender a educação como campo de disputa é reconhecer que o digital não está isento de ideologia. A justiça social, no contexto da educação digital, passa pela reapropriação dos sentidos da tecnologia, colocando-a a serviço da equidade e da transformação social, e não do lucro ou da exclusão. Caminhos para uma Pedagogia Tecnopolítica Em um cenário marcado por intensas transformações tecnológicas, desigualdades persistentes e disputas por narrativas e sentidos no ambiente digital, torna-se cada vez mais urgente pensar a educação para além do uso instrumental das tecnologias. A proposta de uma pedagogia tecnopolítica vai justamente nessa direção: ela não se contenta em incluir tecnologias na escola, mas 40 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos propõe a sua reinvenção com base em valores emancipatórios, críticos e coletivos. Inspirada nos princípios de Paulo Freire, essa abordagem entende que toda tecnologia carrega intencionalidades políticas e que, portanto, educar nesse contexto exige formar sujeitos capazes de compreender, questionar e transformar as estruturas tecnológicas que moldam a vida em sociedade. Autores como Lemos (2020) nos ajudam a avançar nessa reflexão ao propor o conceito de cibercultura crítica, que rejeita o deslumbramento tecnológico e reconhece as tecnologias como campos de disputa ideológica. Em lugar de uma adesão passiva a plataformas e ferramentas criadas por grandes corporações, essa perspectiva defende uma postura ativa da escola: capaz de "hackear" os sistemas estabelecidos, subvertê-los e criar alternativas baseadas na colaboração, na justiça social e no bem comum. Esse movimento exige que os sujeitos da educação compreendam os códigos que estruturam a linguagem do mundo digital, e não apenas os códigos linguísticos tradicionais, mas também os códigos computacionais e culturais que operam por trás das plataformas, algoritmos e aplicativos. Como alerta Pretto (2022), precisamos construir uma pedagogia que seja digital e libertadora, em que os processos tecnológicos estejam submetidos a princípios éticos e educativos, e não o contrário. Essa crítica tem ganhado ainda mais força em estudos recentes, que defendem a criação de currículos computacionais comprometidos com a justiça social, associando práticas como a programação criativa e a robótica educacional a temas ambientais, territoriais e étnico-raciais. Iniciativas como projetos maker com enfoque crítico, hackathons voltados para soluções comunitárias, laboratórios de mídia independente e produção de conteúdo digital colaborativo mostram que Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 41 é possível reimaginar a escola como um espaço de produção de tecnologia e não apenas de consumo. A chave, porém, está na intencionalidade pedagógica: não basta usar tecnologia, é preciso politizar seu uso. Outro ponto fundamental dessa pedagogia é a gestão democrática das tecnologias educacionais. A adoção de plataformas nas escolas tem sido, em muitos casos, uma decisão tomada de cima para baixo, sem consulta às comunidades escolares. Quem decide quais ferramentas serão usadas? Com base em que critérios? Como assegurar que essas escolhas estejam alinhadas com os valores da educação pública, inclusiva e crítica? Uma pedagogia tecnopolítica exige que educadores, gestores, estudantes e famílias participem ativamente dessas decisões, construindo coletivamente os caminhos da transformação digital na educação. Nesse contexto, o papel docente ganha novas camadas de sentido. O professor deixa de ser apenas um mediador de conteúdos e passa a atuar como articulador entre saberes técnicos e políticos, promovendo práticas pedagógicas que se sustentem na ética, na criatividade e na criticidade. Não se trata apenas de dominar ferramentas, mas de refletir sobre seus usos, seus impactos e seus sentidos na formação humana. Diante de uma realidade marcada pela intensificação da vigilância digital, pela privatização de dados e pela ampliação das desigualdades tecnológicas, educar para a tecnopolítica torna-se um imperativo democrático. Não é mais possível formar cidadãos para o século XXI sem discutir algoritmos, inteligência artificial e regulação das plataformas. Assim, construir uma pedagogia tecnopolítica é formar sujeitos críticos, autônomos e socialmente comprometidos com a construção de um futuro mais justo, diverso e sustentável, com ou sem algoritmos. 42 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos Referências ASSIS, A. C. M. L. A inteligência arti�cial na educação: a utilização constitucionalmente adequada. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITOS HUMANOS DE COIMBRA, 8., 2023. Anais [...]. Coimbra, v. 8, n. 1, p. 12-22, 2023. Disponível em: https://www.trabalhoscidhcoimbra.com/ojs/index.php/anaiscidhcoimbra/article/v iew/3259. Acesso em: 2 ago. 2025. BUCKINGHAM, D. 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A escola, assim, se torna um espaço necessário para descontruir as desigualdades e construir saberes que dialoguem com a pluralidade dos sujeitos. Descolonizar o currículo: desconstruindo epistemologias autoritárias Ainda nos dias atuais, a sala de aula reflete um currículo herdado da época da “colonização”, que naturaliza saberes eurocêntricos e invisibiliza epistemologias afro-brasileiras, indígenas e outras. Pensar a educação brasileira sob a perspectiva da descolonização é reconhecer que os currículos escolares foram, historicamente, construídos a partir de uma lógica excludente, que silenciou vozes, apagou memórias e desvalorizou saberes ancestrais. Desde o século XIX, mesmo sem esse nome, já havia esforços por parte de intelectuais negros e indígenas em questionar os alicerces eurocentrados que sustentavam (e ainda 46 • Educação em transformação: Temas Emergentes e Desafios Contemporâneos sustentam) o sistema educacional no país. Esses esforços compõem uma trajetória de resistência que não apenas denuncia a exclusão, mas propõe novos caminhos de valorização da diversidade cultural brasileira (Santos et al., 2024). O Movimento Negro, em especial, teve papel central nesse processo ao reivindicar a inclusão de perspectivas e conhecimentos historicamente marginalizados nos espaços escolares. A luta por um currículo mais plural não se limita à alteração de conteúdos, mas exige uma profunda revisão de valores e estruturas que por décadas reforçaram uma única narrativa, a do “colonizador”. O desafio é epistemológico: trata-se de desconstruir a ideia de que há uma hierarquia de saberes, em que o conhecimento europeu é colocado como universal, e todos os outros são reduzidos a "alternativos" ou "locais". Não se pode esquecer que, mesmo após a abolição da escravatura, em 1888, muitos intelectuais negros que produziram reflexões fundamentais sobre o Brasil foram ignorados por instituições acadêmicas, editoras e meios de comunicação. Segundo Santos et al. (204), figuras como Machado de Assis, Lima Barreto, Milton Santos, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, entre tantas outras, só mais recentemente têm recebido parte do reconhecimento que sempre lhes foi devido. Ainda assim, esse resgate não apaga o esquecimento histórico a que foram submetidos. O currículo escolar, portanto, é mais do que uma seleção de conteúdos: ele é um espelho da sociedade que se quer construir. Descolonizar o currículo é incluir, com intencionalidade e justiça, as narrativas afro-brasileiras e indígenas como parte constitutiva da formação do país. Como afirmam pesquisadores engajados nessa luta, o objetivo é retirar esses saberes do lugar da marginalidade e permitir que façam parte do centro do debate educacional. Trata-se de uma Iuri da Cruz Oliveira; Francisco Gilson Gabriel Maia • 47 reconstrução profunda, que exige coragem institucional e sensibilidade pedagógica para valorizar a multiplicidade de experiências que moldam o Brasil. Ao reconhecer os saberes negros e indígenas como fundamentais na construção da identidade nacional, a escola deixa de ser apenas reprodutora de um passado colonial e se torna um espaço de reparação, diálogo e transformação social. Descolonizar o currículo é, acima de tudo, um ato político de reconhecimento, justiça e dignidade. Descolonizar o currículo visa enfrentar a hierarquia violenta dos saberes, questionando quem define o que merece ser ensinado e por quais razões. É um processo político, que exige a revisão de escolhas sobre os autores, materiais utilizados, linguagens e metodologias (Quadro 1). Quadro 1 – Descolonização do currículo na sala de aula. Ideia Central • A sala de aula ainda reflete um currículo herdado da colonização. Esse Currículo • Naturaliza saberes eurocêntricos. • Invisibiliza epistemologias afro-brasileiras, indígenas e marginalizadas. Consequências • Hierarquia violenta de saberes. • Determina o que “deve” ser ensinado com base em padrões coloniais. Descolonizar o currículo é... • Enfrentar essa hierarquia. • Questionar: Quem define os conteúdos?