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HISTÓRIA Reg. 066663 FAFI-BH Ex. 007 Vavy Pacheco Borges 002241-007 Obra: 0 que historia Campus : DIAMANTINA Coleção Primeiros Passos J 930.1 B732o 1993 2.ed or Borges, Vavy Pacheco. ila, que é história 4037 8 UNIBH - DI B 00022163 Coleção CUIDE BEM DESTE LIVRO Primeiros Passos SERA OTIL OUTRAS VEZESCopyright by Vavy Pacheco Borges, 1980 Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada, armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer sem autorização prévia da editora. Vavy Pacheco Borges Primeira edição, 1980 edição revisada, 1993 66663 1996 Revisão: Ana Maria M. Barbosa Capa: Luciano Pessoa Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) HISTÓRIA REGISTRO DE (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 22163 Vavy Pacheco que é história / Vavy Pacheco Borges - São Paulo : Brasiliense, 1993. - (Co- primeiros passos; 17) DATA BIBLIOTECA SBN 85-11-01017-3 PERGAMUM 1. História I. Título. II. Série. 94-4145 CDD-900 Índices para catálogo sistemático: 1. História 900 EDITORA BRASILIENSE S.A. R. Barão de Itapetininga, 93 - a. 01042-908 São Paulo SP editora brasiliense Fone (011) 258-7344 Fax 258-7923 Filiada à ABDRSUMÁRIO Por que este livro? 7 A história da história 11 A pré-história da história 11 O aparecimento da história 18 A história teológica 21 A erudição, a razão e progresso na história 26 materialismo histórico e a história acadêmica 35 Perspectivas atuais 40 A história, hoje em dia 47 O que é a história e para que serve 49 Como produzir a história? 58 Para Caio, A história no Brasil 71 com imensa saudade. Indicações para leitura 838 VAVY PACHECO BORGES do mais, somos realmente um país de jovens, com uma população de aproximadamente segundo o PINAD do IBGE realizado em 1987 46% menor de 20 anos. Esse fator "juventude" é conjugado a uma grande porcentagem de analfabetismo, a um notável POR QUE ESTE LIVRO? desprestígio das ciências humanas e da cultura e a um ensino antiquado e desmotivador. O descaso, a destruição dos vestígios concretos de nosso passado (construções, paisagens, documentação pictórica, es- crita e falada, etc.) é enorme. Todos esses elementos resultam num desinteresse pela história do país. Esses jovens têm razão: passado visto por si Há certas definições que parecem desnecessárias. mesmo, passado pelo passado, tem um interesse História é um termo com o qual convivemos diaria- muito limitado, e, por vezes, nulo. Mas a história, hoje mente desde a infância. A maior parte das pessoas em dia, não visa explicar esse passado distante e a quem se fizer a pergunta-título deste livro se consi- morto. a contribuição que ela pode trazer para a derará em condições de respondê-la, coisa que não explicação da realidade em que vivemos que nos leva se daria, por exemplo, se se perguntasse que é a ver como fundamental sua divulgação fora das uni- semiótica?" Mas, ao tentar uma resposta a "o que versidades e das escolas onde ela está prisioneira há é história?", a pessoa se enrolará, não chegando a longos anos. Essa divulgação se torna importante na nenhuma definição precisa, ou dirá, com um certo medida em que se acredita que a história, ajudando desinteresse, refletindo um consenso mais ou menos a explicar realidade, pode ajudar ao mesmo tempo a geral: "A história é que já aconteceu há muito tem- transformá-la. po...". Tudo que dissemos até agora nos incita a este Dentro do quadro da chamada civilização européia pequeno livro, explicação inicial de um tema complexo ocidental, Brasil é um país "novo", quase sem his- e difícil. Muitas obras já foram escritas sobre tema; tória, pois seus quatro séculos não parecem suficien- que aqui escrevo resulta da assimilação de pontos tes para criar uma consciência desse passado. Além de vista de algumas dessas obras, durante anos deQUE É HISTÓRIA 9 10 VAVY PACHECO BORGES ensino e pesquisa. Indicarei alguns livros básicos para se apresenta. Partimos, portanto, de um primeiro ca- quem quiser ir mais a fundo e conhecer que disseram pítulo que aborda essa história da história, desde sua sobre a história OS seus estudiosos. origem nos mitos e na tradição oral. No segundo A história, como as outras formas de conhecimento capítulo articulamos nossa visão atual da história, sua da realidade, está sempre se constituindo: conhe- significação e sua produção. No apêndice final, colo- cimento que ela produz nunca é perfeito ou acabado. camos algumas informações sobre a situação da his- Há inúmeras discussões entre vários especialistas tória no Brasil. sobre que é a história. Historiadores, filósofos, so- ciólogos, politicólogos, estão sempre debatendo sobre isso. Os historiadores, em particular, procuram deli- mitar, entre as outras áreas que* estudam homem, qual campo específico da história. Tomam várias posições, diferentes e até conflitantes. Discutem se a história deve estudar só passado, se pode fazer previsões. Tratam de definir métodos e técnicas mais adequados para se atingir conhecimento his- tórico. A utilização deste, sobretudo, é sempre dos assuntos mais polêmicos: que não se pode fazer com tais conhecimentos! Como se pode manipular, pelas mais diversas razões, passado do homem, passado de um povo, de uma nação! Alguns aspectos dessas discussões estão aqui in- troduzidos de forma breve e facilitada, procurando encaminhar primeiros passos do leitor. Para se compreender satisfatoriamente a história como hoje ela se configura, é preciso se recapitular sua origem e sua evolução. Somente a história da história pode nos fazer compreender como hoje ela12 VAVY PACHECO BORGES cações mágicas e religiosas da realidade. Para nós, homens do século XX, acostumados a um pensamen- to dito científico, uma explicação mítica parece pueril, irracional e ligada à superstição. Mas é preciso que A HISTÓRIA DA HISTÓRIA reconheçamos no mito uma forma de pensamento primitivo, com sua lógica, e coerência próprias, não sendo simples invenção ou mito tem uma força muito grande no tipo primitivo de sociedade. Ele fornece uma explicação que para povos que a aceitam é uma verdade. O mito é sempre uma história com personagens sobrenaturais, deuses. Nos mitos os homens são A pré-história da história objetos passivos da ação dos deuses, que são res- ponsáveis pela criação do mundo (cosmos), da natu- "História" é uma palavra de origem grega, que sig- reza, pelo aparecimento dos homens e pelo seu des- nifica investigação, informação. Ela surge no século tino. VI antes de Cristo (a.C.). Para nós, homens do Oci- Os mitos contam em geral a história de uma criação, dente, a história, como hoje a entendemos, iniciou-se do início de algo. É sempre uma história sagrada. na região mediterrânea, ou seja, nas regiões do Orien- Comumente se refere a um determinado espaço de te Próximo, da costa norte-africana e da Europa Oci- tempo que é considerado um tempo sagrado: é um dental. passado tão distante, tão remoto, que não 0 datam Antes disso, porém, vemos que homens, desde concretamente, não sabem quando ele se deu. É um sempre, sentem necessidade de explicar para si pró- tempo além da possibilidade de cálculos: referem-se prios sua origem e sua vida. A primeira forma de expli- a ele como princípio de todas as coisas", "os pri- cação que surge nas sociedades primitivas é mito, mórdios". Os fatos mitológicos são apresentados um sempre transmitido em forma de tradição oral. Entre após outros, que já mostra, portanto, uma se- os conhecimentos práticos, transmitidos oralmente de qüência temporal; mas mito se refere a um pseudo- geração a geração, essas sociedades incluem expli- tempo e não a um tempo real, pois não é datado deQUE É HISTÓRIA 13 14 VAVY PACHECO BORGES acordo com nenhuma realidade concreta. Daí mito mostrar eterno retorno, a repetição infinita: é um tempo circular, não linear. Em geral mito é visto como um exemplo, um precedente, um modelo para as outras realidades. Ele é sempre aplicado a situações concretas. Existem inúmeros mitos da criação do mundo (mitos cosmo- gônicos) que são vistos como exemplo de toda situa- ção criadora. As sociedades são mostradas como tendo origem, geralmente, em lutas entre as diferentes divindades. Conhecemos a existência, entre IV e III milênios a.C., de sociedades mais complexas, nas quais existe a escrita e um governo centralizado, que dirige uma sociedade organizada em uma hierarquia social. Nes- sas sociedades, as fontes históricas mais remotas são as inscrições, assim como OS anais religiosos (listas de sacerdotes, cerimônias religiosas, etc.). Esse governo é em geral monárquico, e a sua origem é sempre vista como divina Os reis repre- sentam deuses e são eles que tudo decidem, sendo seus atos registrados em anais. São esses os primei- ros registros voluntários para a posteridade. São limi- tados, pois têm objetivos políticos bem explícitos. Entre essas civilizações destacam-se a egípcia e a Registros da mitologia grega: uma estátua da deusa Vênus mesopotâmica, duas das mais importantes na chama- e uma reprodução em cerâmica de Aquiles e seu filho morto. da Antiguidade Oriental. Na sua história, entramos emQUE É HISTÓRIA 15 16 VAVY PACHECO BORGES contato com dois mitos da origem do mundo, que tras gerações de deuses. O último deles, Marduk, vai parecem ter sido muito significativos para elas. vencer em luta deuses antigos que precederam. Esses dois mitos são muito representativos e ex- Ele vai formar mundo com corpo de Tiamat, ume- plicam a origem divina dos homens sempre ligada a decendo-o com sangue de um arquidemônio, Kingu. uma idéia de renascimento. É a morte de um deus e Marduk, o criador dos homens, é o deus da capital da seu renascimento que trazem o aparecimento da Babilônia. Para alguns, esse mito mostra os homens vida, da natureza e dos homens. sendo criados pelos deuses para alimentá-los através No Egito, conta-se que, nos primeiros tempos, Osí- de seu trabalho. Isso justificaria parcialmente a visão ris (deus da terra, do sol poente, responsável pela trágica do mundo e pessimismo característico da fertilidade, e por isso também visto como deus do cultura da Mesopotâmia, ao explicar por que homem Nilo) é assassinado por um outro deus, seu irmão Set não obteve, nem poderia obter, a imortalidade. (deus do vento do deserto, das trevas e do mal), e Na Grécia, por volta do primeiro milênio a.C., o mito seu corpo espalhado por várias partes do país. Sua começa a ter uma conotação diferente: vamos encon- irmã-esposa Isis (deusa da vegetação e das semen- trá-lo na poesia, por exemplo na poema épico tes), auxiliada por seu filho Hórus (deus-falcão e do atribuído a Homero (datado provavelmente por volta sol levante), vai conseguir, através de palavras mági- do ano 1000 a.C.). Nele encontramos lendas e mitos cas, reunir todas as partes, e Osíris revive, indo morar da época micênica, berço inicial da civilização grega. entre deuses. Muitos textos relatam diferentes for- Entre outros mitos, lá referidos, encontramos da mas do mito. Ele é visto como a luta entre a luz e as origem da Europa. Europa era filha de Agenor, rei da trevas, como a vida sucedendo à morte; é visto como Fenícia, país da Asia Menor, no Oriente Próximo. significando a vida que vem do Nilo, que gera a ferti- Zeus, o principal dos deuses gregos, por ela se apai- lidade do Egito. Essa versão da morte e do renasci- xona. Sob a forma de touro, vai seduzi-la e raptá-la, mento de Osíris é a forma de os egípcios explicarem atravessando mar Mediterrâneo e levando-a para a a noção de imortalidade e sua eterna dependência da ilha de Creta. Lá ela vai se tornar a mãe de Minos e natureza. / seu nome vai ser dado a uma das três partes do Na Mesopotâmia, acredita-se em dois princípios mundo antigo. É curioso notar que a civilização euro- originários: Tiamat (o princípio feminino) e Aspu (o péia é, em grande parte, herdeira da civilização grega. princípio masculino), deles descendendo todas as ou- Por esse mito, vemos uma relação entre a Europa eQUE É HISTÓRIA 17 18 VAVY PACHECO BORGES a Fenícia; ora, fenícios são os grandes navegadores que difundiram pelo Mediterrâneo a civilização do Oriente Próximo; a eles devèmos, entre outras con- tribuições, 0 alfabeto europeu ocidental. 0 aparecimento da história A explicação mítica não vai, evidentemente, desa- parecer, continuando até hoje em quase todas as manifestações culturais, não como a única forma de explicação da realidade, mas paralela a outras, como a história. Ao recontar ou recopiar essas explicações, num certo momento, homens passam a refletir sobre elas. É especialmente um estudioso dos mitos, Heca- teu de Mileto (colônia grega da Ásia Menor), no século V a.C., que vai, ao voltar do Egito, dizer: "Vou escrever K L E que acho ser verdade, porque as lendas dos gregos parecem ser muitas e Na região em que Hecateu vive, cruzam-se muitas civilizações, e os viajantes, em seus contatos mútuos, vão-se esclare- P A T R cendo. A história, como forma de explicação, nasce unida Divine Royalty Female à filosofia. Desde início elas estão bastante ligadas; é a filosofia que vai tratar do conhecimento em geral. Um escriba egípcio trabalhando e nome Cleópatra escrito Em seu início, 0 campo filosófico abrange embriona- em hieroglifo. riamente todas as áreas que depois iriam se afirmarQUE É HISTÓRIA 19 20 VAVY PACHECO BORGES como autônomas: a matemática, a biologia, a astro- go, estrategista de Atenas, que vive entre séculos nomia, a política, a psicologia, etc. São próprios V e IV a.C., vai estudar as guerras do Peloponeso, gregos que descobrem a importância específica da entre Esparta e Atenas. explicação histórica. Heródoto, de acordo com a orien- Percebe-se, portanto, que historiadores estão tação empreendida por Hecateu de Mileto, se propõe ligados à sua realidade mais imediata, espelhando a a fazer investigações, a procurar a verdade. Heródoto preocupação com questões do momento. Não vemos é considerado pai da história, pois é primeiro a mais uma preocupação com uma origem distante, empregar a palavra no sentido de investigação, pes- remota, atemporal (como existia no mito), mas sim a quisa. Sua obra mais antiga começa assim: "Eis tentativa de entender um momento histórico concreto, a exposição da investigação realizada por Heródoto presente ou proximamente passado Há uma narração de Halicarnasso para impedir que as ações realizadas temporal cronológica, referente agora a uma reali- pelos homens se apaguem com tempo". Ele e os dade concreta. Não procuram mais conhecer uma primeiros historiadores gregos vão fazer indagações realidade atemporal, mas a realidade específica que entre seus contemporâneos, aproveitando, para es- vivem, a de um determinado tempo e um determinado crever a história, também, as tradições orais e espaço. registros escritos. A explicação não é mais atribuída a causas sobre- Os cidadãos gregos querem conhecer a organiza- humanas, não são mais deuses ção de suas cidades-estado, as transformações que pelos destinos dos homens. Estes começam a exa- elas sofrem. Percebe-se que em geral historiadores minar os fatores humanos, como os costumes, os buscam explicações para momentos e situações interesses econômicos, a ação do clima, etc., embora que atravessam as sociedades nas quais vivem. He- ainda se encontrem referências aos mitos e aos ródoto, por exemplo, estuda sobretudo a guerra entre deuses. gregos e os persas (490-479 a.C.), grande con- Há uma preocupação explícita com a verdade. Po- fronto entre Leste e Oeste que marca século V, líbio, grego historiador do século II a.C. (depois que no qual ele escreve; nessa guerra, os gregos, indo a Grécia foi conquistada por Roma), escreve: "Desde contra a expansão imperialista persa, garantem sua que um homem assume atitude de historiador, tem que independência, que vai permitir seu grande desen- esquecer todas as considerações, como amor aos volvimento posterior. Tucídides, outro historiador gre- amigos e 0 ódio aos inimigos... Pois assim como osQUE É HISTÓRIA 21 22 VAVY PACHECO BORGES seres vivos se tornam inúteis quando privados de deste, temos grandes mudanças. O processo histórico olhos, também a história da qual foi retirada a verdade pelo qual passa a humanidade é então unificado não nada mais é do que um conto sem Ele mais em torno da idéia de Roma, mas de uma visão testemunha a ascensão de Roma: sendo durante de- do cristianismo como fundamento e justificativa da zesseis anos refém em Roma, procura saber como, história. A influência do cristianismo é tão grande em em aproximadamente cinqüenta anos, OS romanos se nossa civilização que toda a cronologia de nosso tornam donos do mundo habitado (na visão de então, passado é feita em termos do seu acontecimento a zona mediterrânea). central, a vinda do filho de Deus à terra. Cristo, tor- A cultura romana é, em grande parte, herdeira da nando-se homem, possibilita a salvação da humani- cultura grega. Às características da história na Grécia, dade, meta final da história. Todo nosso passado é os romanos acrescentam sobretudo uma noção utili- dividido, como já notaram, nos tempos "antes de Cris- tária, pragmática: a história exalta o papel de Roma to" (a.C.) e nos tempos "depois de Cristo" (d.C.). A no mundo, servindo ao seu imperialismo. mesmo história da humanidade se desenrolaria de acordo com Políbio escreve que Roma é "a obra mais bela e útil um plano divino, sendo a vinda de Cristo à terra o do destino" e que todos OS homens devem a ela se centro desse processo. submeter. A história é vista como mestra da vida, A história continua tendo uma visão do tempo linear, levando OS homens a compreenderem seu destino. cujo desenvolvimento é conduzido segundo um plano Roma é o centro do mundo, e a imposição de seu da Providência Divina. É a volta a uma explicação destino é o destino histórico mundial. sobrenatural, semelhante à do mito, e também cos- mogônica. Ela se impõe no início do período medieval (séculos V e VI d.C.), perdurando como forma única A história teológica por toda a Idade Média, quando se forma a civilização européia ocidental. A essa visão unificada da humanidade, judeus, A realidade agora está dividida em dois planos: povo do Oriente Médio dotado de uma religião e uma superior, perfeito (representado por Deus) e inferior, visão do mundo específicas, atribuem um outro sen- imperfeito (representado pelos homens). Essa visão tido. Com a difusão da religião judaico-cristã no Im- é introduzida na história por Santo Agostinho, em sua pério Romano, durante o período da desestruturação obra A Cidade de Deus; ele é primeiro formuladorQUE É HISTÓRIA 24 VAVY PACHECO BORGES 23 de uma interpretação teológica da história (do grego, IV ao VII, através da influência da Igreja, que vai teos, ou seja, "deus"). O plano superior da realidade marcar profundamente toda a sociedade. é a Cidade de Deus, enquanto que plano inferior é É este um período muito importante para nós, pois a Cidade dos Homens. somos, em grande parte e através de muitas vias, O cristianismo é uma religião eminentemente his- herdeiros dessa civilização. Estamos profundamente tórica, pois não prega uma cosmovisão atemporal, impregnados por seu modo de vida, seus valores, mas sim uma concepção que aceita um tempo linear, suas atividades culturais, etc. Todos já vivenciamos que se ordena em função de uma intervenção divina a atração que chamado Velho Mundo exerce sobre real na história. Para a fé cristã, fato de próprio nós, e a propaganda turística faz tudo para aumentar filho de Deus se ter feito homem (sua vinda à terra é esse sentimento. preparada pelo povo judeu, através de seus profetas, Os séculos iniciais da Idade Média são de regressão seus reis e seus patriarcas) é um acontecimento his- demográfica e cultural; a população vive em sua maior tórico, situado de maneira concreta, em determinado parte no campo e quase ninguém sabe ler (até lugar e época. famoso imperador Carlos Magno era analfabeto!). A O sentido global da história da humanidade é re- Igreja, grande proprietária de terras, é quem registra velado por Deus aos homens, e a Igreja é a respon- a organização e as formas de trabalhar essas terras. sável pela orientação da humanidade em sua busca São inventários das abadias de Saint-Germain-dos da salvação. Prés e de Saint-Denis, na França, OS melhores docu- Os primeiros séculos da Idade Média vão ser os mentos para conhecermos como funcionava, no seu da formação da civilização européia ocidental. É então início, chamado sistema feudal, que se torna predo- que temos o aparecimento da Europa na história, com minante do século IX em diante. a afirmação de uma identidade comum a diferentes Somente membros do clero sabem ler e escrever. povos, que vivem uma forma de vida muito semelhan- te. As bases comuns a esses povos são mundo A maior parte do que foi escrito nessa época é feita romano em desestruturação e o chamado mundo bár- pelo clero. Grande parte das fontes são, por exemplo, baro (composto por povos que viviam fora do domínio vidas de santos. A própria palavra clérigo (ou seja, do Império Romano). Os elementos desses dois mun- "do clero") quer dizer letrado, em inglês. Até hoje nessa dos vão se misturar lenta e completamente do século língua a palavra conservou esses dois sentidos.QUE É HISTÓRIA 26 VAVY PACHECO BORGES 25 Os documentos leigos vão começar a aparecer só Aos poucos isso tudo vai sendo substituído por um bem mais tarde, nos séculos XII, XIII, com renasci- melhor conhecimento do globo, que a Europa vai mento urbano e comercial; surgem como registros de descobrir e explorar. São publicados estudos de geo- comerciantes particulares, diários de escudeiros, de grafia, mapas, há uma renovação da visão do mundo cavaleiros famosos, de menestréis, etc. como um todo, e a história acaba refletindo essas A história escrita nesse período não apresenta alterações. mesmo rigor crítico de investigação que apresentava entre OS gregos, nem a mesma procura de compreen- são e explicação: ela se compõe sobretudo das cha- A erudição, a razão e o progresso na história madas crônicas ou anais, em que se relatam fatos, mais do que outra coisa. Os cronistas (a maior parte A sociedade européia ocidental está, no período membros do clero) são elementos contratados por que é considerado como início da Modernidade uma casa real, um ducado, etc., para escrever sua (século XVI), em plena desestruturação do sistema história. Há, portanto, nas obras deles, uma nítida feudal. As condições de sociedade em crise permitem vontade de agradar a quem emprega. Não há uma que um grupo social em formação (a burguesia, em preocupação em aferir a veracidade dos fatos; há um geral constituída por habitantes das cidades, com in- predomínio da tradição oral, sem se verificar que já teresses no comércio e na indústria, de início manu- se escrevera. fatureira, vá se impor pouco a pouco, ao longo de A Idade Média é um período em que se vê, asso- alguns séculos, num fenômeno de urbanização inver- ciada à predominância da fé, uma enorme credulidade so ao que se dera no final do Império Romano, e que geral. Acreditava-se em lendas fantásticas, no paraíso se prolonga até nossos dias de forma inexorável. terrestre, na pedra filosofal, no elixir da vida eterna, Um mundo real devido à expansão comercial se em cidades todas de ouro, etc. Existem lendas sobre estende à frente dos homens da Europa Ocidental, e mares estarem assolados por monstros, sobre a eles vão se dedicar à sua compreensão. Um huma- terra que terminava de forma súbita por ser plana, etc. nismo que procura focalizar sua atenção no homem, Toda essa mentalidade reinante refletiu-se na forma como centro desse universo, se impõe lentamente de se escrever a história, na qual há uma grande desde o final da Idade Média. O interesse pelo homem presença do milagre, do maravilhoso e do impossível. como centro do mundo vai surgir dentro e em oposiçãoQUE É HISTÓRIA 27 28 VAVY PACHECO BORGES a uma sociedade medieval que está preocupada só tantíssimas para conhecimento histórico. Com a com a fé cristã, a qual então encerra a explicação preocupação pelos textos antigos e por sua exatidão, para todas as coisas; peso da tradição é também com a pesquisa e a formação de coleções de moedas, um dos valores dominantes nesse período que termi- de objetos de arte, de inscrições antigas, vai ser le- na. As mudanças são lentas, mas constantes, em vantado um enorme material para a reconstituição direção a um abandono da antiga visão religiosa da desse passado. Do século XVI ao XIX vão-se multi- história que, porém, ainda influencia filósofos e plicar as técnicas para reunir, preparar e criticar toda estudiosos dos séculos posteriores e possui adeptos essa documentação, que fornece dados e ele- até mesmo no nosso século. Q contato com a filosofia mentos para a interpretação histórica. Esse conjunto árabe e, por meio desta, com a filosofia grega, sobre- de técnicas se aperfeiçoa constantemente nesse pe- tudo a aristotélica, modificara bastante o ambiente ríodo e vai auxiliar a história (seu conjunto constitui a cultural da havia já desde séculos XII e XIII erudição). que dividiam e OS que conciliavam fé e razão. Essas técnicas permitem que, nas polêmicas levan- Aos poucos, assim, vai-se formando uma concep- tadas pela divisão interna que se dá na Igreja nesse ção não teológica do mundo e da história. conhe- período (a Reforma), numa procura de exatidão se cimentoinão parte mais de uma revelação divina, mas busque saber exatamente que se passou com a de uma explicação da razão. racionalismo se impõe Igreja e o cristianismo. Um desses casos, por exemplo, daí em diante; não se procura mais a salvação num é de uma mulher-papa, que teria existido nos séculos outro mundo, mas um progresso e a perfeição aqui XI, XII ou XIII, a papisa Joana. No século XVI, des- neste mesmo; não se é mais guiado pela fé, mas pela cobre-se que isso foi algo criado no século XIII. Outro razão. Uma outra corrente de pensamento, posterior- exemplo típico é 0 caso da Doação de Constantino. mente, se fortalece: o empirismo, que enfatiza 0 papel Em 1440, descobriu-se que esse documento, impor- da experiência no conhecimento, recusando explica- tantíssimo durante a Idade Média, era falso, forjado ções que não se apóiem nos fatos. no século VIII ou IX d.C. Seu texto relata a doação Durante Renascimento, a cultura européia oci- feita por Constantino (imperador romano que conce- dental, desprezando os dez séculos medievais, pro- deu a liberdade ao cristianismo no ano 313 d.C.), ao cura retomar a Antiguidade greco-romana, seus valo- papa Silvestre da Itália e da cidade de Roma, assim res, sua arte, etc. Isso vai ter conseqüências impor- como a primazia sobre outros bispados mais im-QUE É HISTÓRIA 29 30 VAVY PACHECO BORGES portantes. Essa doação era a base que justificava as sadas pela fé, como explicação de tudo), mas agora, pretensões do papado, na Idade Média, à posse de com 0 conhecimento se aproxima da territórios na Itália. verdade ("iluminismo" vem de "luz"). Para esses filó- Os estudiosos humanistas, numa linha que surge sofos, a humanidade irá cada vez mais dominar a desde a segunda metade da Idade Média (século XII natureza, numa evolução progressiva constante. Com em diante), revivem a tradição de crítica dos filósofos Voltaire, um dos maiores filósofos dessa escola, surge (estudiosos de texto) e historiadores da Antiguidade. a preocupação com a sociedade em seu sentido mais Do avanço dessas técnicas eruditas é que nascem amplo ele quer ver a "história da ou se afirmam a cronologia (estudo da fixação das preocupação que acabará impondo-se na Europa Oci- datas), a epigrafia (estudo das inscrições), a numis- dental. O homem "iluminado", levado pela fé em sua mática (estudo das moedas), a sigilografia (estudo própria razão, trabalha para seu próprio progresso. dos selos ou a diplomática (estudo dos di- A burguesia, que depois das guerras napoleônicas, plomas), a onomástica (estudo dos nomes próprios), fica cada vez mais presente na Europa, vai procurar a heráldica (estudo dos brasões), a genealogia (estu- reorganizar suas formas de pensamento, buscando do das linhagens familiares), a arqueologia (estudo explicar a nova realidade. Não são mais os teólogos dos vestígios materiais antigos), a filologia (estudo dos que estão no comando dessa explicação, mas sim os escritos antigos). Há um esforço contínuo, através filósofos. O liberalismo é a explicação, a justificação dessas técnicas, para se aprender a escolher os do- racional dessa nova sociedade; essa corrente filosó- cumentos significativos, situá-los no tempo e no es- fica reclama progresso através da liberdade, contra paço, classificá-los quanto ao gênero e criticá-los a forte autoridade das monarquias e da Igreja, que se quanto ao grau de credibilidade. exerceu, durante muito tempo, em todos os níveis da No século XVIII, numa sociedade em plena trans- sociedade. Depois da Revolução Francesa, esse libe- formação, com a desestruturação final do sistema ralismo, agora sem função destruidora, vai se fixar feudal e o avanço da ordem burguesa, surge o mais numa posição organizadora dos estados nacio- nismo, corrente filosófica que procura mostrar a his- nais liberais, cujo melhor exemplo é a Inglaterra. tória como sendo o desenvolvimento linear progres- Alguns historiadores do período, chamados espe- sivo e ininterrupto da razão humana. Para ilumi- cificamente de liberais, são muitas vezes estadistas, nistas, a Idade Média foi período das trevas (cau- homens envolvidos na ação política: com esse intuito 22163QUE É HISTÓRIA 31 32 VAVY PACHECO BORGES amplo produzem suas obras, em geral de caráter ni- tidamente político. No século XIX, temos a afirmação dos nacionalis- mos europeus e conflitos daí recorrentes. Nesse sen- tido, OS Estados em organização e estabilização (como a Inglaterra e a França) e OS Estados ainda em pro- cesso de unificação (como a Alemanha e a Itália) vão estimular interesse pelo estudo de sua história na- cional. Surgem inúmeras sociedades de pesquisa, go- vernamentais ou particulares. Cada país vai levantar a documentação referente ao seu passado. A Alemanha, em sua clara preocu- pação nacionalista, vai pesquisar sobretudo período medieval e procurar valorizar sua origem (bárbara, ou seja, germânica). Compila uma série documental a Monumenta Germaniae Historica, que é a mais im- portante coleção de textos medievais existente até hoje. É uma obra diretamente estimulada pelo governo e leva décadas trabalho de recolhimento de textos, classificação, etc. Aí estão reunidas as mais variadas leis bárbaras e documentos sobre imperadores e pa- pas, crônicas, poemas, etc. Ag. Keystone Dentro dessa visão nacionalista se encaixam alguns historiadores que são classificados como românticos pois, dotados de uma certa contemplação sentimental da história, procuram uma volta ao passado cheia de Voltaire: a razão na História. nostalgia. Para eles, a história não pode ser feita comoQUE É HISTÓRIA 33 34 VAVY PACHECO BORGES uma análise fria: passado deve ser ressuscitado em realmente se passaram". Seu trabalho é exigente, todo o seu ambiente próprio. A sua época predileta seguro, mas essa linha de orientação vai acabar dan- foi a Idade Média, com seus castelos, suas lendas e do força ao positivismo histórico, iniciado no século sua crueldade, seus cavaleiros e seus torneios, suas passado, mas com uma enorme influência até hoje. catedrais e seu misticismo. Para compreender a his- O positivismo como filosofia surge ligado às trans- tória de cada nação, preocupação geral do século, os formações da sociedade européia ocidental, na im- historiadores voltam ao passado, procurando carac- plantação de sua industrialização. Segundo essa for- terizar espírito de cada povo; esse espírito é que ma de pensamento, cabe à história um levantamento explica para eles sua situação e sua maneira de ser. "científico" dos fatos, sem procurar interpretá-los, dei- É na Alemanha que surge a preocupação de trans- xando à sociologia sua interpretação. Para histo- formar a história em uma ciência. A Europa vive uma riadores positivistas, fatos levantados se enca- época de grande desenvolvimento das ciências natu- deiam como que mecânica e necessariamente, numa rais, como a física e a química. Os historiadores ale- relação determinista de causas e conseqüências (ou mães, em reação ao idealismo (que veremos daqui a seja, efeitos). A história por eles escrita é uma suces- pouco), querem que a história se torne uma ciência são de acontecimentos isolados, relatando sobretudo mais segura possível, como as ciências exatas. feitos políticos de grandes heróis, os problemas Pretendem um grau de exatidão científica semelhante: dinásticos, as batalhas, tratados diplomáticos, etc. a elaboração de métodos de trabalho análogos e Para realizarem trabalhos que considerem realmen- efetivos, que estabelecessem leis e verdades de al- te científicos, esses historiadores acham que é preciso cance universal. ver passado como algo morto, com qual o presente Com a finalidade acima, seu trabalho vai se cen- em que vivem nada tem a ver, e que é possível se ter tralizar numa crítica seríssima das fontes, visando ao em relação ao objeto do passado que se estuda uma levantamento criterioso dos fatos. maior nome des- atitude absolutamente neutra. sa tendência, chamada "escola científica é Nessa nova sociedade que se impõe no século XIX Leopold Ranke, cuja frase famosa exprime toda uma aparece uma corrente filosófica, idealismo alemão, forma de contar a história imperante no século pas- que traz enormes conseqüências para a história. He- sado: era preciso levantarem-se os fatos "como eles gel, seu maior nome, vai estabelecer uma nova atitudeQUE É HISTÓRIA 35 VAVY PACHECO BORGES filosófica frente ao conhecimento. Ele supera o racio- Os dois estudam sobretudo capitalismo, a socie- nalismo que endeusa a razão, como a verdade abso- dade burguesa, suas leis de evolução e a transforma- luta, e mostra que conhecimento não é absoluto, ção dessa realidade fundamental que, da Europa, se mas se constitui como um movimento, dos con- estende ao resto do globo. Estudam, introdutoriamen- trários (lei da dialética: tese, antítese e síntese). te, as formas de sociedade que precedem a capitalista. Hegel transforma o conceito de progresso retilíneo Ao fazer esses trabalhos, aplicam método do ma- e indefinido (próprio do iluminismo) numa evolução terialismo histórico, o que vai provocar, até nossos dialética em que não é mais a razão absoluta que dias, uma mudança definitiva na forma de pensar e explica tudo. A dialética, aceita desde a Antiguidade produzir a história. grega por alguns filósofos, é agora retomada em outro Porém, como materialismo histórico e seus fun- sentido. O idealismo de Hegel é uma concepção que dadores estão, desde o início, ligados a uma tentativa mostra a primazia fundamental das idéias do homem de transformação revolucionária da sociedade capita- em relação à realidade e ao desenvolvimento do pro- lista burguesa, sua influência na produção histórica cesso histórico. da segunda metade do século passado é muito pe- quena. O materialismo histórico e a história acadêmica Apesar de haver por parte de muitos uma recusa formal e consciente dessa nova teoria, essa acaba No século XIX, temos a efetivação da sociedade por influenciar todos historiadores ocidentais, ao burguesa e a implantação do capitalismo industrial. chamar a atenção para elementos fundamentais que Ora, desde meados desse século capitalismo é não eram anteriormente levados em conta. criticado como forma de organização da sociedade; materialismo histórico mostra que os homens, nessa linha, destacam-se dois pensadores, Karl Marx para sobreviver, precisam transformar a natureza, e Friedrich Engels. Ambos elaboram uma nova con- mundo em que vivem. Fazem-no não isoladamente, cepção filosófica do mundo (materialismo dialético), mas em conjunto, agindo em sociedade; estabelecem, ao fazerem a crítica da sociedade em que vivem e para tal, relações que não dependem diretamente de apresentarem propostas para sua transformação. Seu sua vontade, mas do mundo que precisam transformar método aplicado à história é materialismo histórico. e dos meios que vão utilizar para isso. Todas as outrasQUE É 37 38 VAVY PACHECO BORGES relações que homens estabelecem entre si depen- mento dos indivíduos à classe a que pertencem, esses dem dessas relações para. a produção da vida, não autores também exercem uma influência decisiva nas sob uma forma de dependência mecânica, direta e formas posteriores de se escrever a história. determinante, mas sob forma de um condicionamento. Seus grandes legados à história, portanto, são a O ponto de partida do conhecimento da realidade são contribuição para a análise do capitalismo e a intro- as relações que homens mantêm com a natureza dução do novo método de análise da realidade. Os e com os outros homens; não são as idéias que vão trabalhos marxistas sobre a história vão proliferar na provocar as transformações, mas as condições ma- Rússia, da segunda década do século em diante, com teriais e as relações entre homens. a subida de Stalin ao poder (1924). Eles são, porém, dominados por uma visão dogmática, autoritária, em Essa atenção para o aspecto da produção da vida que as finalidades políticas de implantação de uma material vai começar a aparecer nos trabalhos dos sociedade socialista, segundo a visão de Stalin e seu historiadores não marxistas: desde o início do século partido, superam a finalidade de uma procura cuida- XX há uma reação contra a história positivista, que dosa de explicação da Esse dogmatismo praticamente nada explicava, e, em sua procura de leva a um empobrecimento do pensamento marxista, explicação, OS historiadores vão começar a levar em pois não vê a realidade como dialética. Ele absolutiza conta fenômenos da produção (para eles produção Estado e poder, simplificando e esquematizando = economia). a história. Somente a partir de 1956, quando dog- Para Marx e Engels, a história é um processo di- matismo stalinista começa a ser denunciado na União nâmico, dialético, no qual cada realidade social traz Soviética, é que se vai, no campo dos historiadores dentro de si princípio de sua própria contradição, o marxistas, procurar superar os erros cometidos. que gera a transformação constante na história. A Na Europa, as primeiras universidades datam do realidade não é estática, mas dialética, ou seja, está século XIII, mas é somente no século XIX que o em transformação pelas suas contradições internas. conhecimento histórico passa, a ter uma presença No processo histórico, essas contradições são gera- específica em seus currículos. Daí em diante, das pela luta entre as diferentes classes sociais. Ao nhecimento histórico passa a ser produzido sobretudo chamar a atenção para a sociedade como um todo, no âmbito das universidades. Nessas domina uma para sua organização em classes, para condiciona- visão filosófica liberal, e materialismo histórico nãoQUE É HISTÓRIA 39 40 VAVY PACHECO BORGES é aí adotado, por estar associado, desde seu surgi- procuram chamar a atenção para a análise de estru- mento, à crítica e transformação revolucionária da turas sociais (econômicas, políticas, culturais, religio- sociedade capitalista. sas, etc.), vendo seu funcionamento e evolução. Acei- Aos poucos, porém, vão aparecendo influências tam uma história total, que veja os grupos humanos dessa teoria da história; elas são parciais e, nos meios sob todos OS seus aspectos e, para tal, uma história universitários, ainda predomina, até século XX, a que esteja aberta às outras áreas do conhecimento chamada história positivista; é uma história escrita humano, numa visão global: economia, sociologia, sempre sob viés nacional, orientada por preocupa- política, etc. ção essencialmente política. É sobretudo na França que ocorrem as primeiras transformações dessa história. Os trabalhos iniciais Perspectivas atuais que revelam essa revisão são os elaborados pelos historiadores franceses, professores universitários, da A expansão colonialista levou a Europa a entrar em década de 30. Esses trabalhos são publicados na contato com outros povos, outras formas de vida, revista Anaes de História Econômica e Social, cujo outros costumes, outras instituições; mas essas outras primeiro número é publicado em janeiro de 1929. Esse formas de organização social eram sempre compara- grupo ficou conhecido como a "escola francesa" ou das com a forma de organização européia, que era "escola dos Anaes"; seus grandes iniciadores foram considerada como padrão. A expansão imperialista Marc Bloch e Lucien Febvre. Numa luta contra uma da Europa (ligada ao seu grande desenvolvimento história que fosse somente política, narrativa e factual, industrial) acentuara esses contatos entre povos e e a partir do desenvolvimento de outras ciências do culturas. O eurocentrismo, esse privilegiamento, essa homem, utilizando como inspiração suas técnicas e colocação da sociedade européia como modelo das seus métodos, são agora responsáveis, como foi outras, porém, continua. Do ponto de vista do euro- materialismo histórico, por um novo grande impulso centrismo, a história é apresentada como um processo no conhecimento histórico. Embora sem uma unidade de desenvolvimento contínuo, desde a pré-história até teórica, abrem, pelo exemplo de inúmeros trabalhos, o período contemporâneo; ela parece ter como meta um campo mais amplo de análise, além do limitado final a civilização européia ocidental conforme esta se positivismo. Em vez do estudo dos fatos singulares, apresenta constituída no início do século, com seu 22163 BIBLIOTECA FAFI BHQUE É HISTÓRIA 41 42 VAVY PACHECO BORGES grande desenvolvimento técnico, econômico e cultu- tas algumas aproximações entre essas duas visões. ral. É lógico que isto não está assim tão claramente Ambas se preocupam com a sociedade como um todo enunciado, mas é que se sente nas entrelinhas de e com a lenta evolução do processo histórico. Há entre muitas das obras de história européia. seus historiadores uma preocupação com uma expli- A Segunda Guerra Mundial, ao projetar a importân- cação histórica do seu tempo e com a produção da cia dos EUA, da Rússia e do Japão, mostra aos vida econômica. historiadores a necessidade de rever suas posições Os herdeiros da chamada "Escola dos Anaes", a eurocentristas. grande papel desempenhado pelos partir dos anos 70, galgaram mais importantes EUA e pela Rússia na vitória contra Hitler e nas pos- postos acadêmicos e editoriais; a partir disso, atingi- teriores conversações de paz levou alguns historia- ram grande público francês muito interessado em dores, em especial o inglês Geoffrey Barraclough, a história, através dos grandes semanários e horários nobres em televisão. Produzem que é chamado não rever o eurocentrismo. A Europa não poderia mais muito corretamente de "nova porque conti- ser vista como o centro do mundo; explicar a história nuam se inspirando em uma tradição interdisciplinar em função da história da civilização ocidental não faz francesa que vem do início deste século; procuram mais sentido. É preciso, para se entender a presente trabalhar a partir de objetos, abordagens, fontes e situação, começar a olhar para as outras partes de documentos utilizados por outras disciplinas. nosso globo. As mudanças ocorrem muito vagarosa- Muitos começaram a trabalhar com a chamada mente, e até hoje temos muita influência dessa visão "história serial", produzindo suas conclusões a partir eurocentrista. de fontes de dados estatísticos organizados em uni- As maiores influências nos trabalhos de história, da dades temporais homogêneas e comparáveis. Em metade do século em diante, são, portanto, no mundo geral, não se interessam somente pelas mudanças, ocidental, a visão do materialismo histórico e a visão mas também pelas permanências. Há cada vez mais da "história das ligada à escola dos uma preocupação pelo que existia dentro da cabeça "Anaes", também chamada "escola Elas dos homens, em todos seus aspectos; assim, al- partem de explicações da realidade bem opostas, pois guns trabalham com a chamada "história das menta- método com que abordam estudo da realidade é lidades", por exemplo, fazendo a história da morte, ou basicamente diferente. Aparentemente podem ser fei- da alimentação, do sexo, ou do medo no Ocidente.QUE É HISTÓRIA 43 44 VAVY PACHECO BORGES Há uma preocupação com detalhes do cotidiano dominante tenta sempre, por mecanismos muito com- dos homens, em seus diversos grupos sociais. Alguns plexos, impor aos outros grupos seu modo de ver a historiadores pretendem iluminar o mais geral do gru- realidade, que vai reforçar seus interesses, pois po, a partir de um único caso bem documentado; outros lhe permite manter sua situação de privilégio. Nessa não se preocupam em pensar a sociedade como um visão de mundo que é imposta estão implícitos seus todo, em localizar na totalidade social seu objeto de valores, seus preconceitos, etc. Essa dominação, evi- estudo. Valorizam então novamente fato único e dentemente, nunca é total (não há nada de "absoluto" singular, embora não como fazia a história positivis- na história dos homens), nem completamente cons- ta, mas a partir do pressuposto que a diferença é a ciente e racional. Se assim fosse, não se poderia forma essencial para se pensar a constituição de uma pensar em transformações. A dominação tem suas sociedade. próprias contradições e ambigüidades. Assim, dentro do campo específico da história, há um certo controle, não explícito mas prático, do registro e da documentação. É muito difícil encontrar-se, por Este breve resumo pretende introduzir leitor no exemplo, documentos da vida dos escravos na Grécia caminho percorrido pelo conhecimento histórico em clássica (século V a.C.). Sabe-se, porém, que lá havia seus aspectos teóricos e metodológicos: quer mostrar uma população com a proporção de um homem livre como foi concebido e até hoje trabalhado. para cada três ou quatro escravos. Eram os cidadãos Percebeu-se, a partir da segunda metade deste livres elementos que constituíam a classe dirigente século XX, que a história que fica escrita é sempre da sociedade ateniense, e não temos quase docu- marcada pela visão, pelos desejos, pelos interesses mentação sobre esses escravos, embora eles não da chamada "classe dominante". Qualquer sociedade fossem analfabetos (eram prisioneiros de guerra de sempre se estrutura em diferentes grupos ou classes, outras regiões). uma das quais detém poder político, poder eco- No caminho percorrido, portanto, vemos que a his- nômico e prestígio social. De uma forma sutil e muito tória nunca foi escrita sob a ótica dos escravos da bem articulada, não visível pelos incautos, e só per- Antiguidade ou dos servos medievais, mas somente ceptível numa análise muito acurada, grupo social sob a dos cidadãos livres da Grécia e de Roma e dos BIBLIOTECA FAFIÉ HISTÓRIA 45 46 VAVY PACHECO BORGES senhores feudais sob a orientação da Igreja; finalmen- sua própria representação. A história se faz com do- te, viu-se a história escrita sob a ótica da burguesia, cumentos e fontes, com idéias e imaginação. em suas inúmeras configurações, em diferentes e Assim conhecimento histórico mergulha cada vez múltiplos caminhos que nos mostram uma sociedade mais nas formas de sua própria produção, em como cada vez mais complexa e da qual possuímos cada foi e em como pode e deve ser escrito, isto é, sua vez mais documentação. própria história e nas formas de procedimento que lhe Do ponto de vista das técnicas de pesquisa, a são próprias como forma de conhecimento. história está em desenvolvimento constante. Desde as primeiras investigações gregas até o uso do com- putador, as formas de registrar fatos históricos e de utilizar suas fontes vêm tendo um contínuo aper- feiçoamento. Hoje, ao terminar o século XX, cada vez mais a perspectiva de que uma obra de história é uma cons- trução do próprio historiador se impõe: é ele quem escolhe seu objeto, escolhe como vai trabalhá-lo, expô-lo, num abandono da crença positivista em uma possível neutralidade, pelo distanciamento entre his- toriador e seu objeto de estudo. Também não se pensa mais a história dos homens como algo absoluto, objetivo, que está prontinho nos arquivos, sendo somente necessário ir lá buscar seus dados para se ter da com "h" maiúsculo somente uma versão "verdadeira e Pode- ríamos dizer então que a história não é o passado, mas um olhar dirigido ao passado: a partir do que esse objeto ficou representado, o historiador elabora48 VAVY PACHECO BORGES outras línguas, como por exemplo alemão, existe mais de um termo. A história é a história do homem, visto como um ser social, vivendo em sociedade. É a história das A HISTÓRIA, HOJE EM DIA transformações humanas, desde 0 seu aparecimento na terra até OS dias em que estamos vivendo. Desde início, portanto, pode-se tirar uma conclusão funda- mental: quer saibamos ou não, quer aceitemos ou não, somos parte da história, e todos desempenhamos nela um papel. E temos então todos, desde que nascemos, uma ação concreta a desempenhar nela. São homens que fazem a história; mas, eviden- temente, dentro das condições reais que encontramos No novo dicionário Aurélio, ao se procurar o termo já estabelecidas, e não dentro das condições ideais "história" encontramos muitos significados para a pa- lavra. Entre uns quinze enumerados, podemos des- que sonhamos. Eis aí a razão de ser, a justificativa da história, em seu segundo sentido: conhecimento tacar alguns que enfocam a história como: o passado da humanidade, estudo desse mesmo passado, uma histórico serve para nos fazer entender, junto com ou- simples narração, uma "lorota", uma complicação, etc. tras formas de conhecimento, as condições de nossa Todos esses conceitos podem ser vistos como rela- realidade, tendo em vista delineamento de nossa cionados ao conceito atual de história. atuação na história. Como se percebe pelo primeiro capítulo, a história Os dois sentidos da palavra estão, pois, estreita- de que aqui tratamos está ligada. aos dois mente ligados: acontecimentos históricos (a histó- sentidos mencionados e que colocam claramente a ria-acontecimento) são objeto de análise do conhe- ambigüidade fundamental do termo: ele significa, ao cimento histórico (da história-conhecimento). mesmo tempo, acontecimentos que se passaram Num extensão ampla dos dois sentidos, história se- e o estudo desses acontecimentos. Em português, ria então aquilo que aconteceu (com homem, com temos um único termo para todos esses sentidos; em a natureza, com 0 universo, enfim) e estudo desses BIBLIOTECAQUE É HISTÓRIA 49 50 VAVY PACHECO BORGES acontecimentos. Tudo tem sua história, pois sabemos tem em sociedade. Cada uma dessas áreas tem seu que tudo se transforma tempo todo. Mas aqui nos enfoque específico. Uma visão mais ampla e mais interessam principalmente as transformações das so- completa, entretanto, exige a cooperação entre as di- ciedades humanas. versas áreas. Isso tem sido tentado pelos estudiosos O sentido mais difundido do termo é o primeiro; a com maior ou menor êxito, no chamado trabalho in- maior parte do tempo em que falamos em "história", terdisciplinar, pois inclui diferentes disciplinas. A his- referimo-nos, por exemplo, à "história da ou tória é hoje, entre as ciências humanas, uma ciência grandes figuras da Mas aqui tratamos bastante fecunda sobretudo devido a isso. especificamente do segundo sentido, de conheci- mento histórico, cujo objeto são as transformações A história procura especificamente ver as transfor- permanentes dos homens vivendo em sociedade. mações pelas quais passaram as sociedade humanas. O primeiro capítulo apresenta um breve resumo de A transformação é a essência da história; quem olhar como foi produzido até hoje este conhecimento. Neste para trás, na história e sua própria vida, compreenderá capítulo veremos como é hoje compreendida e pro- isso facilmente. Nós mudamos constantemente; isso duzida a história. Essa conceituação atual é resultante é válido para indivíduo e também é válido para a do longo caminho da história, observado no primeiro sociedade. Nada permanece igual, e é através do tem- capítulo. po que se percebem a mudanças. Estudar as mudanças significou durante muito tem- O que é a história e para que serve? po uma preocupação com momentos que são vistos como de crise e de ruptura... Hoje se sabe que mesmo A função da história, desde seu início, foi a de mudanças que parecem súbitas, como movimentos fornecer à sociedade uma explicação sobre ela mes- revolucionários, não somente foram lentamente pre- ma. A história se coloca hoje em dia cada vez mais parados de forma voluntária e involuntária, por di- próxima às outras áreas do conhecimento que estu- ferentes circunstâncias mas não conseguiram mu- dam homem (a sociologia, a antropologia, a econo- dar totalmente as estruturas das sociedades onde se mia, a geografia, a psicologia, a demografia, etc.), realizaram; são exemplos significativos tanto a Revo- procurando explicar a dimensão que o homem teve e lução Francesa como a Revolução Russa de 1917.QUE É HISTÓRIA 51 52 VAVY PACHECO BORGES Percebe-se, ligado a isso, uma preocupação cada vez tecnológico, não deve ser um padrão de comparação maior dos historiadores não só com mudanças mas para se estudar a história de qualquer outra parte do também com as permanências. sistema capitalista, como, por exemplo, a América tempo é a dimensão de análise da história. Latina. Não se deve, por meio desse tipo de compa- tempo histórico através do qual se analisam OS acon- ração, julgar se uma sociedade está "atrasada" ou tecimentos não corresponde ao tempo cronológico "adiantada" em seu desenvolvimento histórico. que vivemos e que é definido pelos relógios e calen- Não há uma linha constante e progressiva de de- dários. No tempo histórico podemos perceber mudan- senvolvimento na história da humanidade, para todas ças que parecem rápidas, como OS acontecimentos as sociedades ou nações. Temos, ao mesmo tempo, cotidianos: por exemplo num golpe de Estado, cujo hoje em dia, sociedades com formas de vida primitivas, desenrolar acompanhamos pelos jornais. Vemos tam- consideradas ainda no chamado período pré-histórico bém transformações lentas, como no campo dos va- (por exemplo, como certas tribos na Nova Zelândia), lores morais: o machismo, por exemplo, é um valor e sociedades com um grau de desenvolvimento que que impera na maior parte das sociedades que história permite explorações interplanetárias (como fazem os estuda, a ponto de se poder dizer que a história que americanos e russos). Não se percebe, ainda como está escrita mostra um processo praticamente só exemplo, uma linha constante e progressiva da pas- conduzido pelos homens. No Ocidente, aproximada- sagem, a partir da Antiguidade, do trabalho escravo mente de um século para cá, surge um questiona- ao trabalho assalariado: a escravidão quase que de- mento mais constante desse valor milenar. Isso se dá saparece na Europa Ocidental, durante a Idade Média, em grande parte devido a uma participação maior da para reaparecer na Idade Moderna, imposta pelos mulher no processo de produção. europeus nas Américas, como forma de relação de Quase sempre que a história da humanidade nos trabalho dominante. Não se deve, portanto, identificar é apresentada, é a evolução da sociedade européia a idéia de processo histórico com a de progresso ocidental que é tomada como modelo de desenvolvi- necessário. mento. Essa posição eurocêntrica é errada: do ponto Assim, na chamada História Universal, ou, no cam- de vista da história, a evolução da sociedade européia po mais didático de uma História Geral, portanto, ocidental, com seu alto grau atual de desenvolvimento dizer-se que existe um processo histórico linear, con-QUE É HISTÓRIA 53 54 VAVY PACHECO BORGES tínuo, progressista é algo que não deve ser feito. Uma COS de transformações sociais devem ser procurados história geral ou universal não deve ser assim pensa- nos próprios acontecimentos, através dos procedi- da. O desenrolar de cada sociedade é muito caracte- mentos que aqui introduziremos brevemente. A traje- rístico, é único; hoje em dia estamos cada vez mais tória do homem na terra é indeterminada, em busca temerosos de pensar na possibilidade de leis para suas de sua própria razão de ser. A finalidade desse transformações, pois se acredita que cada uma mude nhecimento não é explicar a razão de ser do homem segundo ritmos e formas específicas. na terra, não é dar uma justificativa do que aqui es- As alterações são decorrente da ação dos próprios tamos fazendo. Sua finalidade é estudar e analisar homens, sujeitos e agentes da história. Não é uma que realmente aconteceu e acontece com os homens, evolução que se possa chamar de natural: a história que com eles se passa concretamente. Essa análise da humanidade é diferente da da natureza e a natureza não é para buscar uma filosofia da vida. também tem sua história, pois ela também passa por Saber que homem fez em sociedade desde que mudanças; todo universo, nas suas mais diferentes está na Terra mostra muito sobre próprio homem, partes, sofre mudanças, e por isso tem sua história. ajuda a entendê-lo e a entender as sociedades, é Mas a história é diferente justamente por ser feita pelos como fato de se saber o que faz e fez uma pessoa homens / São OS homens constituídos em sociedade ajuda a entendê-la. Explicar as transformações sociais que, embora nem sempre deliberada e consciente- esclarecendo seus comos e porquês leva a perceber mente, atuaram e atum para que as coisas se passem que a situação de hoje é diferente da de ontem. Isso de uma ou de outra maneira, para que tomem um pode nos permitir, seja uma grande satisfação propor- rumo ou outro. cionada pelo conhecimento, seja um melhor embasa- A entidade "História" não existe. Uma força superior mento de nossas atuações concretas na sociedade, externa aos homens (uma divindade, a determinação ou mesmo as duas coisas. Não estamos aqui falando das forças produtivas, etc...), que conduzisse como em se tirar lições de moral da história. veículos, não existe. Falamos sempre em humanidade Como ela está Não se deve buscar uma razão para um desenrolar em constantes transformações, não existe uma "es- da história da humanidade. sentido dos diferentes sência humana imutável" desde início dos tempos, acontecimentos histórico e dos processos específi- mas homens diversos, em situações diversas. A hu- FAFIQUE É HISTÓRIA 55 56 VAVY PACHECO BORGES manidade não é um todo homogêneo, e a história não sobretudo através do passado, remoto ou bem próxi- a analisa assim. Na realidade, dificilmente historia- mo. dor pode tratar, ao mesmo tempo, de toda a humani- Conforme 0 presente que vivem historiadores, dade. Ao escrever a história, em geral ele se ocupa são diferentes as perguntas que eles fazem ao pas- especificamente de uma determinada realidade con- sado e diferentes são as projeções de interesses, creta, situada no tempo e no espaço. Estudam-se uma perspectivas e valores que lançam no passado. Eis tribo, um povo, um império, uma nação, uma civili- por que a história é constantemente reescrita. Isso zação, como, por exemplo, povo judeu, antes do se resume bem na frase: "A história é filha de seu nascimento de Cristo; a formação do Império Ma- tempo". Mesmo quando se analisa um passado que cedônico, a civilização greco-romana, surgimento nos parece remoto, portanto, seu estudo é feito com da França, etc. indagações, com perguntas que nos interessam hoje, O homem é um ser finito, temporal e histórico. Ele para avaliar a significação desse passado e sua re- tem consciência de sua historicidade, isto é, de seu lação conosco. caráter eminentemente histórico. O homem vive em um determinado período de tempo, em um espaço A história vista como estudo do passado parece físico concreto; nesse tempo e nesse lugar ele age hoje para todos um ponto pacífico. Mas a história tam- sempre, em relação à natureza, aos outros homens, bém é aceita como o estudo do passado em função etc. É esse seu caráter histórico. Tudo que se de um presente desde OS historiadores gregos. relaciona com o homem tem sua história; para des- A ligação da história com futuro, porém, é bem cobri-la, o historiador vai perguntando: quê? quan- mais sutil: não se pode falar em uma história do futuro. do? onde? como? por quê? para quê?... Qualquer colocação nesse sentido é mera especula- Todos percebemos, por experiência, a ligação bá- ção. Pode-se falar em tendências, probabilidades, pos- sica implícita dentro da idéia geral de tempo: passa- sibilidades históricas, mas não mais do que isso. Fazê- do-presente-futuro. Fazer uma história do presente lo seria impor um esquema prefixado de como as coi- não é, escrever sobre ele, mas sobre indagações e sas devem ser passar, que é impossível. A partir problemas contemporâneos ao historiador. E preciso de um diagnóstico do presente, ela pode ajudar a de- conhecer o presente e, em história, nós fazemos linear ações, não mais que isso.QUE É HISTÓRIA 57 58 VAVY PACHECO BORGES Assim, fica bem claro por que não se define história linha, é visto como ligado à avidez da sociedade con- hoje como desenrolar de um processo evolutivo, temporânea francesa de apreender as relações entre linear, determinado por diferentes forças, mas como valores e normas no campo das motivações das ações um campo de diferentes possibilidades; falando-se por sociais. imagens, podemos pensar desenrolar da história não Para muitos, 0 conhecimento do passado serve como uma régua, mas como um caleidoscópio. Vive- para manter as tradições, por vezes no sentido de mos desde final dos anos oitenta uma crise da cons- tentar impedir as permanentes mudanças; para ou- trução de modelos teóricos explicativos das transfor- tros, sentido da história é propiciar desenvolvi- mações das sociedades criado pelas ciências huma- mento de forças transformadoras das sociedades. nas, em especial pela sociologia e que tiveram uma Portanto, em resposta à pergunta "para que serve a grande influência na história. O historiador deve ficar história?" surgem respostas diversas e por vezes sempre muito atento para não tentar atribuir a poste- opostas. riori pois o historiador trabalha sempre sobre um acontecimento, uma realidade, que já se deu uma racionalidade que não exista. Como produzir a história? Na Europa, em meio às grandes transformações que vêm desde os meados deste século após a Se- O historiador examina sempre uma determinada gunda Guerra Mundial, percebeu-se um grande de- realidade, que se passou concretamente em um tem- senvolvimento do conhecimento histórico, sobretudo po determinado e em um lugar preciso. Sua primeira em função da demanda da sociedade para entender tarefa é situar no tempo e no espaço objeto que ele suas mudanças. O atual impacto da "história política" quer estudar: a Inglaterra no início do capitalismo, hoje renovada de seu enfoque antigo e tradicional, descobrimentos portugueses dos séculos XV e XVI, ou seja, estudo das grandes figuras governantes, a revolta dos estudantes parisienses em maio de 68, das batalhas, dos tratados e das constituições se etc. Cada realidade histórica é única, não se repetindo dá através de exame de novos objetos, como por nunca de forma igual. exemplo estudo do imaginário e das sensibilidades O trabalho de investigação do historiador tem pro- políticas, e tem essa origem. O desenvolvimento atual cedimentos muito semelhantes aos do detetive: é uma de uma "história cultural" na França, nessa mesma pesquisa no sentido policial do termo, buscando indí-É HISTÓRIA 59 60 VAVY PACHECO BORGES cios, provas e testemunhos, para encontrar os condi- cionamentos, os motivos e as razões. Só se pode conhecer algo do passado através do que desse ficou registrado e documentado para a posteridade. A maior parte da documentação utilizada em história é escrita, a ponto de se considerar, impro- priamente, como "tempos históricos" aqueles que se iniciam com a invenção e a difusão da escrita. Na verdade, isso não é correto. O homem tem história desde que ele existe na Terra, mesmo que ela não esteja devidamente documentada para as gerações que vieram depois. 1471 Alguns períodos históricos ficaram muito pouco do- 1971 cumentados por escrito. Para conhecê-los é preciso auxílio das técnicas auxiliares da história, que sur- gem no século XVI e que são as únicas a ajudar a reconstituir uma determinada época. Por exemplo, estudo dos povos bárbaros que invadem 0 Império Romano entre os séculos e V d.C. é um dos mais incompletos, pois praticamente não é documentado por fontes escritas. É só com a ajuda da toponímia (estudo dos nomes de locais), da lingüística (estudo das línguas), da numismática e da arqueologia que Abril Press se pode chegar a algumas conclusões. O importante e essencial é que trabalho do his- toriador se fundamente numa pesquisa dos fatos com- historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em provados concretamente. Em geral, é comum, sobre- plena atividade da pesquisa. tudo em realidades históricas mais próximas de nós, BIBLIOTECA FAFI BHQUE É HISTÓRIA 61 62 VAVY PACHECO BORGES que OS vestígios dessas realidades sejam inúmeros e fatos é ficção histórica, e está muitas vezes a serviço que trabalho do historiador se inicie por uma seleção de outros interesses, em geral mais imediatísticos e desses dados. Essa seleção é feita em função dos ligados a disputas de poder. dados do passado que lhe pareçam mais significa- Os fatos devem ser trabalhados pelo historiador tivos. de forma cuidadosa, conforme OS métodos mais re- A diversidade dos testemunhos do passado é muito centes e aplicáveis ao seu objeto de estudo. Infeliz- grande. Tudo quanto se diz ou se escreve, tudo quanto mente, a pesquisa do historiador, como a do deteti- se produz e se fabrica pode ser um documento his- ve, toma muito tempo e deve ser sobretudo muito tórico. Antigamente a idéia de um documento histórico crítica e cautelosa; é preciso que nos lembremos sem- era a de "papéis velhos", referentes a "pessoas im- pre que a pressa é a grande inimiga do trabalho portantes" (reis, imperadores, generais, grandes no- intelectual. mes das artes ou das etc.), as quais eram Na atual sociedade de massas, todos OS meios de vistas como condutores da história. Atualmente comunicação a chamada mídia fornecem fontes tem-se consciência de que, entre outros exemplos, riquíssimas para a história dos tempos mais próximos, uma caderneta de despesas de uma dona-de-casa, um as quais devem ser manipuladas pelos historiadores programa de teatro, um cardápio de restaurante, um com cuidados específicos. Até agora, as fontes escri- folheto de propaganda sao documentos históricos sig- tas têm sido as mais aproveitadas; muitos trabalhos nificativos e reveladores de seu momento. de história feitos com a imprensa têm utilizado esse As fontes ou documentos não são espelho fiel tipo de fonte respeitando sua especificidade; por exem- da realidade, mas são sempre a representação de plo, jornal. Para OS historiadores positivistas, que parte ou momentos particulares do objeto em questão. procuravam "uma verdade absoluta", jornal não Uma fonte representa muitas vezes um testemunho, dia ser considerado um documento válido na medida a fala de um agente, de um sujeito histórico; devem em que continha uma subjetividade implícita. ser sempre analisadas como tal. Hoje é sabido que um órgão da imprensa está sem- Fazer-se uma listagem de fatos, sem caráter expli- pre defendendo posições, querendo formar opiniões, cativo, não é história, é cronologia, que é uma parte ao vender informação. É justamente isso que permite que deve embasar o trabalho do historiador. Fazer ao historiador detectar a posição político-ideológica uma interpretação histórica sem base concreta dos do jornal, ou seja, que pensam de política e qual aQUE É HISTÓRIA 63 64 VAVY PACHECO BORGES visão da realidade que têm OS proprietários ou dire- tores do jornal, ou melhor, grupo social que eles representam. fácil exemplificar, chamando a aten- ção dos leitores para a diferença entre um jornal da chamada imprensa burguesa e um jornal da cha- HITLER ESTARIA HOMISIADO NA IRLANDA "BOMBA A ESTA ARRASANDO JAPAO revelação feita pelo presidente Truman poder destruidor Questão de dias a queda de Franco Espanha Robies entrade duas no P.S.D mada imprensa alternativa ou. Por meio da multipli- cidade de informações, problemas, temas e teste- munhos que nos chegam em um jornal, podemos atingir muito da riqueza da realidade multifacetada Nos jornais toda a história de uma época. de outros tempos e outros espaços. O historiador deve trabalhar OS documentos com muito cuidado e critérios rigorosos. Nesse trabalho é preciso muitas vezes recurso a técnicas espe- ciais. Por exemplo, para se conhecer a sociedade paulista do século XVII, são fundamentais os origi- maior bomba "Grand Slam" equivalente nais de inventários e testamentos da época (hoje em sua maioria impressos), guardados, para me- conservação, dentro de latas, no Arquivo do Estado. Para lê-los é preciso domínio das já fala- vinte da das técnicas especiais. Na arqueologia, por inúme- ras vezes a aliada fundamental da pesquisa histó- rica, usa-se muito a técnica do carbono 14 para identificar a época a que pertence um objeto bem antigo. As atividades acima descritas são as mais tradi- cionalmente associadas ao trabalho de um historia- dor. Todas as mais sofisticadas descobertas de- Ag. Folhas vem ser incorporadas pelos historiadores, como,QUE É HISTÓRIA 65 66 VAVY PACHECO BORGES há muitos anos, foram a máquina de escrever, tentes entre eles. A história, como toda forma de gravador, depois o xerox, mais recentemente com- conhecimento, procura desvendar, revelar, sistema- putador, etc. No meio da poeira de documentos tizar relações desconhecidas, não claras. antigos, na lama das escavações ou no manuseio Em história, surge sempre uma tarefa primordial: de instrumentos muito desenvolvidos tecnicamen- periodizar, isto é, organizar a sucessão de diferen- te, é sempre homem vivo que historiador procu- tes períodos cronológicos. Já mencionamos a pri- ra encontrar, é a sociedade na qual esse homem meira grande divisão que é feita na história huma- viveu, trabalhou, amou, procriou, guerreou, diver- na: a existente entre a história e a Pa- tiu-se, que o historiador quer decifrar. E, para tal, ra a maior parte dos historiadores, a divisão entre todo tipo de documento que esclareça esses as- OS dois períodos é marcada pelo aparecimento da pectos é de fundamental importância. escrita. Outras opiniões indicam, como critério para Um historiador, ao se propor fazer uma pesquisa, a entrada na chamada "história", início do empre- já faz uma opção bem sua, ao decidir qual objeto go da agricultura ou da metalurgia. Seja qual for que ele vai estudar. Sua escolha é sempre encami- critério, a verdade é que período considerado nhada pela sua situação concreta. O historiador é como pré-histórico, do qual temos bem pouco (ou um homem em sociedade, ele também faz parte da quase nenhum) conhecimento, é muito maior do história que está vivendo. Escreve sua história his- que período histórico: para aproximadamente 600 toricamente situado, ou seja, numa determinada épo- mil anos de pré-história, só temos uns 60 mil de ca, dentro de condições concretas de sua classe, história! Quão pouco realmente sabemos da histó- sua instituição de ensino ou pesquisa, etc. Seu tra- ria do homem na Terra! balho será condicionado tanto pelo nível de conhe- A história dita universal ou geral é dividida, tradi- cimento então existente, pelos métodos e técnicas cional e impropriamente, conforme já colocamos, então à sua disposição, como pelos interesses que em idades: Antiga, Média, Moderna e Contemporâ- ele possa defendendo, mesmo que incons- nea. A maior parte dos estudiosos hoje se bate cientemente. contra essa divisão herdada de uma forma de con- A historia, como vimos, não é so levantamento tar a história mundial em função da civilização eu- de dados ou fatos; elas OS relaciona entre si, pro- ropéia ocidental. Essa divisão se aplica realmente curando descobrir e sistematizar as relações exis- só à história do mundo ocidental. É ele centro das FAFI BHQUE HISTÓRIA 67 68 VAVY PACHECO BORGES atenções, ficando restante do globo em plano tórica. Assim, OS historiadores trabalham com um secundário. A história que é dividida é uma história período de tempo limitado entre datas que se esfor- na qual as outras partes do globo só entram em çam por precisar; nesse sentido, fica muito clara a função de suas ligações com a Europa Ocidental e, frase que diz que a exatidão não é uma qualidade assim mesmo, muito superficialmente. O Brasil, por do trabalho do historiador, mas sim sua obrigação. exemplo, durante as idades Antiga e Média está em A periodização, portanto, pode ser muito importan- plena "pré-história", só entrando na história na Ida- te para mostrar as diversas épocas ou períodos em de Moderna quando é descoberto! Essas divisões que a sociedade se organiza de diferentes formas. implicam uma visão eurocentrista e progressista, Ela é importante para mostrar a especificidade de porque procura mostrar um padrão de desenvolvi- um período, se mostrar no que um período constitui mento histórico do qual a sociedade européia oci- uma totalidade, uma realidade diversa de outra; em dental seria apogeu. Infelizmente, apesar desses resumo, essa forma de periodização deve ter um graves defeitos, essa divisão está tão arraigada em caráter explicativo e não ser um mero enquadra- nossos currículos universitários e escolares quanto mento por balizas cronológicas. em nossas mentalidades. Por que escolher uma data ou outra? Dentro da Na visão de um materialismo histórico dito eta- visão de processo, as transformações em história pista, que se impôs durante o stalinismo, há uma sempre são lentas e é quase impossível marcarem- periodização da história por meio de uma sucessão se datas-limite que indiquem delimitações nítidas, de modos de produção: o comunismo primitivo, o as quais implicariam transformações súbitas. Em- escravista (ou escravo ou escravagista), feudal e bora tenhamos consciência clara de que cada vez capitalista; segundo analisavam adeptos dessa mais se acelera ritmo de mudanças do mundo visão, esses modos de produção seriam seguidos contemporâneo a ponto de nos parecer que pelo modo de produção socialista (já em existência mundo mudou mais neste século do que em todos em regiões como Europa Oriental, China). OS anteriores sabemos que as transformações Periodizar, organizar fatos em sua seqüência cro- profundas e estruturais são muito lentas. nológica é uma etapa básica para estabelecimen- to das relações entre eles, é uma necessidade fun- damental para a construção de uma explicação his-QUE É HISTÓRIA 69 70 VAVY PACHECO BORGES Mais recentemente, percebemos uma discussão Nem por isso se deve cair num total relativismo em de fundo entre OS historiadores já introduzida aqui: que toda e qualquer explicação tenha a mesma im- alguns deles se recusam a se preocupar com a portância, mesmo peso. Para muitos de nós, a chamada macro-história, com grandes sínteses, com história chega ao século XXI como um grande cam- as estruturas sociais. A especialização do conheci- po de possibilidades. mento histórico em inúmeros campos tem um gran- Para esse tipo de conhecimento histórico, todas de papel nessa fragmentação. Para outros historia- as conclusões são provisórias, pois podem ser apro- dores, renunciar a se preocupar com visões glo- fundadas e revistas por trabalhos posteriores. Um bais, abrir mão do sentido político da história e de "saber uma "verdade absoluta" não ser- sua ligação com presente é decretar uma crise vem aos estudiosos sérios e dignos do nome; ser- fatal para conhecimento histórico. Também re- vem aos totalitários, tanto de direita como de es- centemente, sobretudo depois da segunda metade querda, que, colocando-se como donos do saber e dos anos 80, se começa a estudar cada vez mais da verdade, procuram, por meio da explicação his- as relações entre a história e a memória. tórica, justificar a sua forma de poder. Ao concluir o capítulo, fica bem claro que a histó- ria, como todas as formas de conhecimento, está sempre se reformulando, buscando caminhos no- vos e próprios. Este capítulo não é "receitinha ideal" de como escrever a história, válida "para todos tempos e todos OS lugares"! É óbvio que essa é a minha visão, resultante histórica de minha própria posição. Infelizmente, é preciso desiludir-se de início: es- crever história não é estabelecer certezas, mas é reduzir o campo das incertezas, é estabelecer um feixe de probabilidades. Não é dizer tudo sobre uma determinada realidade, determinado objeto do pas- sado, mas explicar que nesses é fundamental.72 VAVY PACHECO BORGES titui um sistema capitalista mundial, do qual Brasil desde então faz parte. O sistema capitalista é composto essencialmente de partes diferentes e relacionadas entre si; não se A HISTÓRIA NO BRASIL deve pensar que, necessariamente, vamos seguir modelo de desenvolvimento das outras partes do sis- tema, que são as regiões altamente desenvolvidas, como países do Mercado Comum Europeu, Suécia, EUA, etc. As diferentes partes do sistema tiveram e têm ainda hoje uma evolução histórica própria; a cres- cente abertura do mundo socialista ou comunista ao mercado capitalista, como se dá no Leste europeu e Nós aqui no Brasil (como nos outros países da na China, é um dado novo para a análise do sistema. América), somos herdeiros da civilização européia É, portanto, dentro desse quadro geral amplo, e, ao ocidental. Dela herdamos instituições, técnicas, valo- mesmo tempo, dentro de uma realidade concreta pró- res, etc., através da colonização portuguesa. Os paí- pria a brasileira que o nosso historiador produz ses da Península Ibérica (Portugal e Espanha) são os história. grandes navegadores dos séculos XV e XVI. A eles Temos, desde início, uma história oficial: é a deve a América Latina o fato de "ter entrado na his- versão escrita pelos cronistas contratados pela casa tória", e toda a nossa formação histórica está ligada, real portuguesa para escrever a história de seu país, desde início de nosso período colonial, à metrópole do qual éramos, depois da perda das Índias, a colônia portuguesa que nos coloniza. mais promissora. Aqui também são criados cargos de Com desenvolvimento capitalista do século pas- cronistas nas diferentes câmaras municipais. Esse sado, laços com a Europa se estreitam por outras gênero de história, essencialmente narrativa e registran- vias, pois já éramos politicamente independentes des- do fatos, continua sendo escrito pelos membros das de a terceira década. O aparecimento de um mercado sociedades históricas, academias e institutos que fo- mundial, através da revolução comercial empreendida ram aqui introduzidos no século XVIII. Seus mem- pelos europeus ocidentais desde século XV, cons- bros são muitas vezes figurões (barões, marqueses, FAFIQUE É HISTÓRIA 73 74 VAVY PACHECO BORGES ministros, senadores), que mostra ainda uma ligação zem-no isoladamente ou no âmbito das instituições direta entre a história escrita e poder oficial, pois oficiais já apontadas. historiadores são vinculados diretamente ao Estado. Nossa história, como a história em geral, também São então criados os arquivos e bibliotecas gover- é, quanto às fontes e documentação existentes e namentais, que se preocupam com a documentação quanto às interpretações, fortemente marcada pela histórica, e que preservam as fontes que possuímos ação dos grupos sociais predominantes no país. Um de nosso passado, embora boa parte da documenta- dos nossos grandes historiadores é Francisco de Var- ção sobre período colonial se encontre nos arquivos nhagen, de formação da referida "escola científica portugueses. alemã" (caracterizada pela grande preocupação com Há uma documentação muito sugestiva do período, a pesquisa e levantamento de fontes). A ele devemos como, por exemplo, a escrita pelos jesuítas (corres- um enorme impulso na produção da história brasileira. pondência, discursos, tratados), ocupados na educa- Ele escreve no Segundo Império (segunda metade do ção de colonos e índios. Outros exemplos magníficos século XIX), em uma época em que aproximadamente são as obras Cultura e Opulência no Brasil (de An- 60% de nossa população é escrava. tonil, publicada em Lisboa no início do século XVIII) Analistas de sua obra mostram como ela se baseia e Diálogo das Grandezas do Brasil (do Século XVII, em dois elementos interpretativos: a superioridade da de autoria discutida); são verdadeiros levantamentos forma monárquica (por ser responsável pela unidade do país após a Independência) e a superioridade da econômicos da situação da colônia, essenciais para raça branca. Isso mostra como seu trabalho está im- o conhecimento do período. Também muito ricos, do pregnado dos valores e preconceitos da sociedade de ponto de vista histórico, são depoimentos escritos sua época. Entretanto, levantamento de fontes feito pelos visitantes estrangeiros. Essa história escrita in- por ele, juntamente com feito por Capistrano de voluntariamente é muito mais atraente e elucidativa Abreu, são fundamentais para trabalhos posterio- do que a oficial. res de história do Brasil. Ao avaliarmos valor da obra Ao contrário da América espanhola, que possui de história, sempre devemos fazê-lo dentro do con- universidades desde o início da colonização, Brasil texto que a produziu. só vai ter universidades a partir do século XX. Os Na Universidade, a introdução da história se dá historiadores que tentam escrever nossa história fa- sobretudo através da influência da Faculdade de Fi-QUE É HISTÓRIA 76 75 VAVY PACHECO BORGES losofia, Ciências e Letras da Universidade de São É uma história feita de vilões e heróis: a metrópole Paulo, fundada na década de 30. Nessa fundação foi (Portugal) contra a colônia (Brasil), imperialismo muito marcante a influência de professores franceses. (primeiro inglês, depois americano) contra a nação No campo da história, em específico, essa influência brasileira, etc., numa divisão maniqueísta, a qual ex- é muito clara, sobretudo nos currículos, programas e plica a realidade pela oposição dos dois princípios livros até hoje utilizados. absolutos, bem e mal. O processo de evolução Nossa história é a biografia política da nação Brasil, é mostrado como tendendo a um progresso cons- à semelhança das histórias nacionais européias do tante e crescente, no qual acabará vencendo herói século XIX. Sua periodização Colônia, Império e Brasil. República é a trilogia de nossas formas políticas Não se vê preocupação em descobrir as origens de organização; é essa tripartição que constitui a das contradições de nossa sociedade; muitos autores, espinha dorsal de nosso currículo mínimo (exigência quando tentam achar essa explicação, atribuem os do MEC) escolar e universitário, e, a partir disso, das males do Brasil ao caráter nacional de nosso povo; preocupações das editoras. Confunde-se facilmente com diferentes variantes, culpam esse povo pela si- com a história oficial que acaba marcando o que tuação brasileira, na linha do romantismo histórico do aparece para a sociedade em geral, para senso século XIX, explicando a realidade por fatores imutá- comum, como "sentido verdadeiro" da história. veis que se originam no passado. Na visão ampla que chega ao público maior de forma leve e esporádica, devido ao desinteresse geral As versões mais recentes mostram a preponderân- pela história é uma história conservadora, do bran- cia do eixo Sul do país (sobretudo São Paulo e Rio CO vencedor em sua democracia racial. Seu desenro- de Janeiro), qual impõe seus valores às outras lar é mostrado sem contradições, incruento, quase regiões, sem se preocupar com os conflitos regionais. sem derramamento de sangue, seja na conquista do Exemplificando concretamente esse tipo de história: território nacional, seja na escravidão, na conquista sob D. Pedro II, o Império é mostrado como uma fase da independência e posterior organização do país calma, rósea, com um imperador sábio, culto, dedica- durante período da Regência, etc. A sociedade bra- do, com a presença de grandes nomes da vida par- sileira aparece como um todo equilibrado, em que o lamentar, com relações paternais entre senhores e "povo" surge de forma imprecisa e esporádica. escravos; estão todos colaborando tão intensamenteQUE É HISTÓRIA 77 78 VAVY PACHECO BORGES para futuro do país que é surpreendente que não tenhamos conseguido evitar nenhum de nossos gra- ves problemas estruturais posteriores. Outro exemplo: a insurreição pernambucana (ex- pulsão dos invasores holandeses do Nordeste, no século XVII) é mostrada como início do sentimento nativista, de amor à terra natal: sua vitória é resultado A história conservadora do branco vencedor. da união fraternal das três raças: a branca (o portu- guês), a negra e a índia. Não se fala da destruição das tribos indígenas pelos portugueses e fato de os bandeirantes saírem para aprisioná-las é elogiado como um grande feito de conquista territorial. Não se explicam quilombos negros, onde se refugiam os negros escravos à pro- cura da liberdade. Nas universidades há toda uma produção que pro- cura rever esses mitos. Certamente não vejo per- curso da produção brasileira como uma mera decor- rência, um reflexo das formas de se produzir história européia; mas esse percurso e nosso apresentam muita semelhança, em razão de nossos laços culturais e de contatos universitários. As discussões sobre conceito de história e sobre sua finalidade marcam aos poucos a partir sobretudo dos anos 70, quando a produção dos cursos de pós-graduação passa a ter um certo peso a produção brasileira, centrada so- bretudo no eixo Centro-Sul.QUE É HISTÓRIA 80 VAVY PACHECO BORGES 79 O marxismo, em suas diversas tendências, influen- ciou nossos trabalhos de história, muitas vezes de forma bastante pragmática. Das análises históricas muito marcadas pela sociologia e pela ciência política, passou-se a recusar a pensar a história através de modelos teóricos, como essas ciências humanas. Paralelamente, nossas próprias mudanças sociais motivam bastante nossas preocupações com a histó- ria. Por exemplo, crescimento da produção de aná- lises sobre o período republicano se deu seguramente pelo seguinte: OS desdobramentos do golpe político- militar-empresarial de abril de 1964 afetaram direta- mente o mundo universitário e historiadores tenta- PEDRO II ram, então, entender que foi a República no Brasil. Há um grande repensar do papel do político, do Es- tado, das classes, etc... Na linha de denúncia da história oficial e conservadora há muito ainda a ser feito, das mais diversas formas. Como um exemplo: nos anos 80 surge, ligado a uma movimentação polí- tica geral da sociedade e sobretudo às greves de 1978 do ABC paulista, tema de estudo de uma "classe essa é muitas vezes estudada através de seu cotidiano e não de seus canais institucionais. Toda essa produção está muito circunscrita ao mun- do acadêmico. Nos anos 80, surgimento de uma atividade editorial acessível a um público maior a partir de coleções como esta Primeiros Passos e Tudo D. Pedro // e a imagem oficial do nosso Império. é História, seguidas de iniciativas semelhantes deQUE É HISTÓRIA 81 82 VAVY PACHECO BORGES outras editoras alterou um pouco quadro da tância. Ensino "decoreba" gera "samba do crioulo transmissão e divulgação do conhecimento histórico doido": embaralham-se em suas cabeças, desarticu- em nosso país. Entretanto, como mostrei no início do ladamente, nomes, datas, fatos e personagens; há livro, a história não tem, como outras manifestações exemplos disso na mídia, por ocasião dos vestibulares, da cultura tradicional, uma presença significativa no engraçados pela sua confusão, se não fossem tão país. tristes em sua significação. Sob muitos aspectos, tem-se às vezes a impressão No momento, a história no Brasil parece defrontar- que resta-nos muitíssimo a fazer; há treze anos, quan- se com um enorme desafio. É preciso encontrar uma do publiquei este pequeno livro pela primeira vez, a solução para um problema complexo: a produção his- situação era, porém, mais desanimadora. Nota-se um tórica deve aproveitar toda a experiência existente (do movimento nos últimos anos que nos permite certa ponto de vista teórico-metodológico, do ponto de vista esperança em relação à preservação do patrimônio do trabalho crítico de fontes, etc.). Mas, ao procurar histórico e artístico. cuidado com preservação, le- atender a esses requisitos que garantem um bom vantamento e organização de documentação histórica nível, a história acadêmica se fecha na "torre de Mar- porém, tem ainda um avanço muito precário. fim" da universidade e não alcança público mais Em relação ao ensino da história em especial amplo, a sociedade à qual se destina. Não se pode ensino público de primeiro e segundo graus é muito ver esse problema como dizendo respeito apenas aos duro ter que escrever que não vejo ainda um raio de historiadores. Somente através de uma ampla luta esperança. As condições de trabalho do professor são pelo ensino e de uma defesa acirrada da cultura, a muito aviltantes, como patenteia a mídia do país; a história, como a expus neste livro terá em nosso formação universitária de professores de história é país melhor produção, ensino e divulgação. demorada, e supõe que professor conheça muito Será que consegui convencer você, meu leitor, que essa luta tem sentido e vale a pena? bem como é produzida essa forma de conhecimento; somente assim estará ele (ela) em condições de evitar um ensino repetitivo e memorizador, que caracteriza ensino da história até hoje. Não se consegue ainda, de forma sistemática e ampla, despertar nos alunos interesse pelo raciocínio histórico, mostrar sua impor-84 VAVY PACHECO BORGES Jacques Le Goff (org.): Enciclopédia Einaudi, vol. 1, "His- Lisboa, Imprensa Nacional, 1984. Também nesse sentido, ver OS manuais universitários: Jean Glénisson: Iniciação aos Estudos Históricos, São Pau- lo, Difel, 1977; INDICAÇÕES PARA LEITURA Ciro F. Cardoso e Hector P. Brignoli: Os Métodos da His- tória, Rio de Janeiro, Graal, 1979. Para discussão das tendências mais recentes: Jacques Le Goff e Pierre Nora: História: Novos Métodos, Novos Problemas e Novas Abordagens (3 vols.), Rio de Ja- neiro, Francisco Alves, 1976; Edward P. Thompson: A Miséria da Teoria: ou um Planetário de Erros. Rio de Janeiro, Zahar, 1981; François Furet: A Oficina da História, Lisboa, Gradiva, 1985; Como se pode perceber pelo livro, as leituras básicas para nós são traduções sobretudo francesas e inglesas; não vamos François Dosse: História em Migalhas: Dos Annales à Nova indicar livros não traduzidos. Como é a tônica da coleção, fiz História, São Paulo, Ensaio, 1992. um esforço muito grande de seleção para esta introdução. Para ver 0 marxismo em seu século de história: Vejamos: Eric J. Hobsbawn (org.): História do Marxismo (vários vols.), Para visão geral das tendências e perspectivas: Rio de Janeiro, Paz e Terra. Guy Bourdé e Hervé Martin: As Escolas Históricas, Publi- Para acompanhar a produção acadêmica mais recente, cações Europa-América, 1990; ver: Geoffrey Barraclough: A História, 2 vols., Lisboa, Bertrand, Revista Brasileira de História, órgão da Associação Nacional 1980; de Professores Universitários de História (ANPUH), com sede Charles Olivier Carbonnel: A Historiografia, Lisboa, Teore- no Departamento de História da Universidade de São Paulo. ma, 1990. Para introdução nas discussões sobre conhecimento Sobre ensino de história: histórico: Marc Bloch: Introdução à História, Coleção Saber, Publi- Suzanne Citron, Ensinar História Hoje: A Memória Perdida cações Europa-América (original dos anos 40); e Reencontrada, Portugal, Livros Horizonte; Edward H. Carr: Que é História, Rio de Janeiro, Paz e Conceição Cabrini e outros: Ensino da História: Revisão Terra, 1973; Urgente. São Paulo, Brasiliense, 1986. BIBLIOTECA FAFIQUE É Coleção Primeiros Passos 17 Uma Enciclopédia Crítica SOBRE A AUTORA Há muito que a História está, no Brasil, confinada à prisão das escolas e universidades. Encontra-se, pois, afastada de sua principal finalidade: levar ser humano a refletir sobre as formas de vida e de organização social Vavy P. Borges é, desde 1987, professora no Departamento de em todos tempos e espaços, História da UNICAMP. Lecionou inicialmente no ensino particular de procurando compreender e explicar e graus; depois, por quase quinze anos, na PUC-SP, onde se suas causas e implicações. E uma vez interessou pelo ensino e divulgação da história. Nessa linha, publicou este livro e em 1986 Ensino da História: Revisão Urgente, resultado que presente e passado estão de projeto que coordenara no início dos anos 80. indissociavelmente ligados na História, Há muitos anos leciona história da Idade Média; leciona e faz ensino e estudo dessa disciplina se pesquisas em história política republicana. Nessa área, tem publicados tornam imprescindíveis para perfeito sua dissertação de Mestrado: Getúlio Vargas e a Oligarquia Paulista: entendimento dos tempos modernos. História de uma Esperança e Muitos Desenganos (Brasiliense, 1979, esgotado) e sua tese de Doutorado: Tenentismo e Revolução Brasileira (Brasiliense, 1992). ISBN 85-11-01017- brasiliense 788511 010176