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1 Manual de atuação Funcional das ProMotorias de Justiça da inFância e Juventude Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro 4º CENTRO DE APOIO OPERACIONAL DAS PROMOTORIAS DE JUSTIÇA DA INFÂNCIA E JUVENTUDE 2 3 Manual de atuação Funcional das ProMotorias de Justiça da inFância e Juventude 4 Elaboração Carla Carvalho Leite Coordenadora do 4º Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça da Infância e Juventude Rodrigo Cézar Medina da Cunha Subcoordenador do 4º Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça da Infância e Juventude Patricia Hauer Duncan Subcoordenadora do 4º Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça da Infância e Juventude Rosa Maria Xavier Gomes Carneiro Assessora Chefe da Assessoria de Proteção Integral à Infância e à Juventude Ida Maria Moulin Aledi Monteiro Assistente da Assessoria de Proteção Integral à Infância e à Juventude Eliane de Lima Pereira Promotora de Justiça Titular da 1ª Promotoria de Justiça da Infância e Juventude da Capital (matéria infracional) Revisão Nanci da Costa Batista Gerente do Núcleo de Pesquisa Jaqueline Soares Leal Supervisora da Coordenadoria de Acompanhamento de Projetos Fábio Vieira da Silva Supervisor da Gerência de Desenvolvimento Profissional 5 PROCURADORIA-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (Em 14 de dezembro de 2009) PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA Procurador de Justiça Cláudio Soares Lopes Corregedor-Geral do Ministério Público Procurador de Justiça Cezar Romero de Oliveira Soares Subprocuradoria-Geral de Justiça de Administração Procurador de Justiça Mônica da Silveira Fernandes Subprocuradoria-Geral de Justiça de Planejamento Institucional Procurador de Justiça Carlos Roberto de Castro Jatahy Subprocuradoria-Geral de Justiça de Atribuição Originária Institucional e Judicial Procurador de Justiça Antônio José Campos Moreira Subprocuradoria-Geral de Justiça de Direitos Humanos e Terceiro Setor Procurador de Justiça Leonardo de Souza Chaves Chefia de Gabinete Procurador de Justiça Astério Pereira dos Santos Consultoria Jurídica Procurador de Justiça José dos Santos Carvalho Filho Secretaria-Geral do Ministério Público Procurador de Justiça José Augusto Guimarães 6 Órgão Especial do Colégio de Procuradores de Justiça (Em 14.12.2009) Membros natos Procurador-Geral de Justiça: Cláudio Soares Lopes Corregedor-Geral: Cezar Romero de Oliveira Soares Secretária: Márcia Álvares Pires Rodrigues Membros natos Cezar Romero de Oliveira Soares Carlos Antonio Navega João Baptista Lopes de Assis Filho Vera de Souza Leite Elio Gitelman Fischberg (afastado) Maria Cristina Palhares dos Anjos Tellechea Levi de Azevedo Quaresma Dalva Pieri Nunes Maria Amélia Couto Carvalho Hugo Jerke Membros eleitos Márcia Álvares Pires Rodrigues Fátima Maria Ferreira Melo Lilian Moreira Pinho Pedro Elias Erthal Sanglard Nilo Augusto Francisco Suassuna Maria da Conceição Lopes de Souza Walberto Fernandes de Lima Kátia Aguiar Marques Selles Porto Leila Machado Costa Patrícia da Silveira da Rosa Conselho Superior do Ministério Público (Em 14.12.2009) Procurador-Geral de Justiça: Cláudio Soares Lopes Corregedor-Geral: Cezar Romero de Oliveira Soares Sérgio Roberto Ulhôa Pimentel Dirce Ribeiro de Abreu Denise Freitas Fabião Guasque Guilherme Eugênio Vasconcelos Denise Muniz de Tarin José Maria Leoni Lopes de Oliveira Julio Cesar Lima dos Santos Orlando Carlos Neves Belém Membros suplentes Eleitos pelos Procuradores Israel Stoliar Eleitos pelos Promotores Anna Maria Di Masi José Augusto Guimarães Mendelssohn Erwin Kieling Cardona Pereira Marlon Oberst Cordovil 7 PreFácio Após intenso trabalho dos Centros de Apoio Operacional, vêm a lume os manuais de atuação funcional do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, fruto dos esforços de Coordenadores e Subcoorde- nadores, que se debruçaram nas questões técnicas mais relevantes em suas respectivas áreas. Considerada uma das prioridades da Administração Superior, a ela- boração dos Manuais tem o escopo de conciliar e interligar dois prin- cípios básicos da Instituição: a Unidade e a Independência Funcional. Traçaram-se, assim, diretrizes de trabalho. Longe de ferir o prima- do da Independência Funcional, os Manuais – que se sujeitam, como qualquer obra humana, a aperfeiçoamento futuro – visam à padroni- zação de procedimentos, para que, do Noroeste ao Sul Fluminense, Promotoras e Promotores de Justiça tenham um guia seguro de atuação, em favor da Unidade Institucional. É com este espírito, e grato ao trabalho de toda a Equipe, que entregamos os Manuais à Classe. Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 2009 Cláudio Soares Lopes Procurador-Geral de Justiça 8 9 aPresentação Prezado(a) Colega, Segundo a diretriz estabelecida pela Administração Cláudio Soares Lopes, de ênfase na qualidade institucional, a Subprocuradoria-Geral de Justiça de Planejamento Institucional tem o prazer de apresentar à classe a coleção de manuais de atuação funcional do Ministério Pú- blico do Estado do Rio de Janeiro, elaborada pelos Centros de Apoio Operacional e pela Coordenadoria de Acompanhamento de Projetos. A coleção será composta por obras dedicadas a cada área de atua- ção institucional do Ministério Público, além de uma abordando ques- tões relativas à redação oficial e outra, editada pelo Conselho Nacional de Procuradores-Gerais, que versa sobre o Controle Externo da Ativi- dade Policial. Deve-se destacar que o Manual de Redação Oficial também será distribuído aos servidores, vez que constatada a necessidade de padro- nização da forma de atuação do corpo auxiliar do Ministério Público. Esperamos que a coleção atinja sua finalidade, qual seja a de ser- vir como um roteiro sugestivo de atuação, dentre a enorme gama de atribuições que possui o Membro do Ministério Público, visando à má- xima efetividade da atuação institucional no Estado do Rio de Janeiro. Finalmente, não poderíamos deixar de registrar nossos agradeci- mentos à Fundação Escola Superior do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (FEMPERJ) e ao Centro de Estudos Jurídicos (CEJUR) pelo apoio indispensável na consecução deste objetivo. Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 2009 Carlos Roberto de Castro Jatahy Subprocurador-geral de Justiça de Planejamento Institucional 10 11 suMário INTRODUÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 PARTE 1. MATÉRIA NÃO INFRACIONAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 1. Breves Considerações sobre a Atuação do Promotor de Justiça na Área da Infância e Juventude . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 2. Proteção do Direito à Vida e à Saúde . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 2.1. Considerações sobre o Sistema Único de Saúde e Temas Correlatos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 2.2. Considerações sobre Saúde Mental e Drogadição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 3. Proteção do Direito à Educação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 4. Proteção do Direito à Cultura, ao Esporte a ao Lazer . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 5. Proteção do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade . . . . . . . . . . 33 6. Proteção do Direito à Convivência Familiar e Comunitária . . . . . . . . . . . . 38 6.1. Breves Considerações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .inclusão em abrigo de família ou em programas de moradia (aluguel social, assentamento) ou, ainda, de auxílio financeiro. Efetiva- mente, é mais barato para o poder público cuidar da criança dentro da família do que em entidade de acolhimento institucional, a par, é claro, e acima de tudo, do imensurável custo social dessa separação. As mudanças introduzidas pela nova lei – que prevê a necessidade de Guia de Acolhimento para o encaminhamento às instituições que executam programas de acolhimento institucional (art. 101, § 3º do ECA), a elaboração de plano individual de atendimento pela entidade de acolhimento (art. 101, § 4º), a reavaliação da medida no mínimo a cada seis meses (art. 19, § 1º), o prazo máximo de dois anos para a institucionalização (art. 19, § 2º), o prazo de 30 (trinta) dias para que o Ministério Público deflagre ação de destituição do poder familiar após o recebimento de relatório apontando a impossibilidade de reintegra- ção à família de origem (art. 101, § 10º) – são mudanças significativas, que visam à modificação da grave realidade do quadro de abrigamento que aflige inúmeras crianças e adolescentes e suas famílias. Apenas 42 uma atuação atenta, rápida, técnica e eficiente de toda a rede de prote- ção e, em especial, dos membros do Ministério Público, possibilitarão a desejada mudança. 6.2. Sugestões de Atuação Para que a esperada mudança aconteça, faz-se necessário que os atores da rede de proteção cumpram fielmente seus papéis. No que compete ao Ministério Público, que tem por missão institu- cional a defesa do ordenamento jurídico e dos direitos sociais e indivi- duais indisponíveis (art. 127 do C.R.) e, tendo a Carta Magna conferido prioridade absoluta à proteção aos direitos infantojuvenis (art. 227 da C.R.), os Promotores de Justiça com atribuição na área da infância e ju- ventude vêm se dedicando, desde o início da década de 90, a cumprir as relevantes funções cometidas à Instituição pelo legislador constitu- cional e estatutário. Em consonância com as diretrizes traçadas na Lei nº 8.069/90 e no Plano Nacional de Convivência Familiar, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro vem trabalhando arduamente pela garantia desse direito fundamental, vindo a Lei nº 12.010/09 trazer um novo incentivo para otimizar essa atuação. Nesse sentido, é importante que o Promotor de Justiça verifique, no Município em que atua, a situação das políticas públicas de convivên- cia familiar. Para tanto, diante da ausência ou oferta irregular de ações e serviços que garantam esse direito fundamental, deve o Promotor de Justiça instaurar Inquérito Civil Público visando a identificar as falhas existentes, podendo buscar a solução extrajudicial do problema através de ajustamento de conduta das autoridades responsáveis pela política em comento. Caso não se mostre possível a via extrajudicial, deve o membro do Parquet deduzir em juízo a ação civil pública cabível, na forma prevista no art. 201, inc. V c/c o art. 208, inc. IX, ambos do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09. A existência de programas eficazes em prevenir o afastamento de crianças e adolescentes do convívio familiar ou para acelerar o retorno daqueles que se encontrem institucionalizados ao núcleo de origem, não apenas é premissa fundamental para a concretização de mudanças no quadro existente, como também imperativo legal. O poder público 43 é responsável pela oferta de ações, serviços e programas de orientação, apoio e promoção social destinados ao pleno exercício do direito à convivência familiar (art. 208, inc. IX do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09). Além desses programas, também se faz necessária a existência de opções de acolhimento familiar e institucional. A par das indispensáveis políticas públicas, cada criança ou adoles- cente afastado do convívio familiar necessita ter sua situação jurídica definida, de modo que seja trabalhada, com a eficiência e a celerida- de a que fazem jus, sua reintegração familiar ou, quando esta não se mostrar possível, sua colocação em família substituta. Assim, por força da redação dada pela Lei nº 12.010/09 ao art. 101, § 2º do ECA, os infantes e jovens encaminhados para acolhimento institucional neces- sitam ter sua situação apreciada mediante a deflagração, pelo Ministé- rio Público, de procedimento judicial contencioso em face dos pais ou responsável legal. Nesse contexto, o Promotor de Justiça deve envidar esforços no sen- tido de que: (i) crianças, adolescentes e suas famílias sejam incluídos nos programas de promoção à família, de modo que sejam mantidos em seu núcleo de origem ou que a ele retornem com a maior brevidade possível; (ii) eventual afastamento seja excepcional e provisório, como a lei determina; (iii) seja dada preferência ao acolhimento familiar, em lugar do institucional; (iv) a situação desses meninos e meninas seja re- avaliada, no mínimo, a cada seis meses; (v) o acolhimento institucional não ultrapasse o período de dois anos; (vi) diante da impossibilidade de retorno à família de origem, sejam colocados em família substituta. Para acompanhar a situação dos meninos e meninas privados do direito à convivência familiar, o Ministério Público desenvolveu o Módulo Criança e Adolescente (MCA), sistema informatizado, via web – acessado através da página do Ministério Público na internet (www.mp.rj.gov.br) –, que integra todos os órgãos de proteção envol- vidos com as medidas de acolhimento institucional e familiar e de co- locação em família substituta, e que contem os dados de todas as enti- dades de acolhimento e de todas as crianças e adolescentes acolhidos no Estado. A resolução GPGJ nº 1.369/07 instituiu e regulamentou o sistema no âmbito do MPRJ, tornando obrigatória sua alimentação pelas Pro- 44 motorias de Justiça com atribuição na área da infância e juventude, nos termos de seu art. 3º. O MCA busca ser uma ferramenta para o trabalho das Promotorias de Justiça e Juízos da Infância e da Juventude, Conselhos Tutelares e de Direitos, entidades de acolhimento institucional, Secretarias de Assis- tência etc. Através do fornecimento de informações em tempo real, o sistema é capaz de auxiliar na agilidade dos procedimentos que envol- vem os milhares de meninas e meninos institucionalizados, de modo a garantir, com rapidez e eficiência, seu fundamental direito de viver em família. O diagnóstico da situação de acolhimento institucional, em cada Município e no Estado como um todo, permite ainda a elabora- ção de políticas públicas e de programas voltados para a manutenção dessas crianças e adolescentes no seio de suas famílias, para sua rein- tegração familiar ou, na hipótese de serem esgotadas as possibilidades de retorno ao núcleo familiar natural, para sua colocação em família substituta. Esse sistema inédito do Ministério Público do Rio de Janeiro, que lhe valeu no ano de 2008 o V Prêmio Innovare, Categoria Ministério Público, foi adotado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) para ser o cadastro nacional de crianças e adolescentes institucionalizados, a ser utilizado em todo o Brasil. O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro também firmou convênio para a utilização do referido banco de dados, passando a ter dever de alimentá-lo, nos termos do disposto no 101, § 11 do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09. Com base nos dados inseridos no sistema, o MPRJ já elaborou três censos da população infantojuvenil abrigada, verificando que, ainda nos dias de hoje, os principais motivos de acolhimento relacionam-se com a pobreza das famílias, não obstante o disposto no art. 23 do ECA. Em caso de designação para uma Promotoria de Justiça com atri- buição na área da infância e juventude (não infracional), o membro do Parquet deve solicitar ao gestor do sistema (Assessoria de Proteção Integral à Infância e Juventude) sua senha de acesso, além de informa- ções sobre o funcionamentodo Módulo. Tendo o Ministério Público Fluminense eleito o enfrentamento do grave problema de crianças e adolescentes abrigados como prioridade 45 institucional, expediu o Conselho Superior recomendação aos Promo- tores de Justiça com atribuição na área da infância e juventude – Reco- mendação nº 05, de 08/01/2009 – visando à efetiva garantia do direito à convivência familiar dessa parcela da população. A Recomendação CSMP nº 05/2009 orienta os Promotores de Justiça com atuação na área da infância e juventude em matéria não infracional a adotar, em caráter continuado, as seguintes medidas: (i) verificação da implementação das políticas públicas de apoio sócio- familiar voltadas a prevenir o abrigamento e a estimular a reintegração familiar; (ii) fiscalização das entidades de abrigo; e (iii) análise e acom- panhamento individualizado de cada criança ou adolescente abrigado, adotando as medidas cabíveis para garantir o seu direito à convivência familiar e comunitária. Na defesa dos direitos infantojuvenis, especialmente dessa popu- lação privada de direitos fundamentais, constitui relevante função do Promotor de Justiça com atribuição na área de proteção dos direitos de crianças e adolescentes a periódica fiscalização pessoal das instituições de acolhimento (art. 95 do ECA), visando a verificar a observância dos requisitos elencados nos artigos 90 a 94 do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09. Com o advento da Lei nº 12.010/09, será necessário o reordena- mento das entidades de acolhimento, uma vez que a referida lei torna obrigatória a observância das resoluções dos Conselhos de Direitos de todos os níveis (art. 90, § 3º, inc. I e art. 93, § 1º, alínea e do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09). Nesse aspecto, o CONANDA e o CNAS editaram deliberação (deno- minada “Orientações Técnicas: Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes”) que estipula parâmetros objetivos para o atendimento de crianças e adolescentes em regime de acolhimento institucional (o texto se encontra na página do 4º CAOp na intranet). O não atendi- mento às normas em questão pode levar a não renovação do registro da entidade junto ao Conselho Municipal de Direitos (CMDCA) e à des- tituição do dirigente da entidade (art. 92, § 6º do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09). Conforme orientação da Corregedoria-Geral do Ministério Público constante do formulário de relatório estatístico on line, faz-se neces- 46 sário o encaminhamento àquele órgão correicional de cópia dos rela- tórios de inspeção às entidades de acolhimento, sem prejuízo do pre- enchimento do referido formulário (quesito “fiscalizações/inspeções”). Tal função fiscalizatória do Promotor de Justiça pode ser comple- mentada através de visitas interdisciplinares, cuja realização pode ser solicitada às equipes técnicas existentes nos CRAAIs institucionais. Caso necessário, pode o Promotor de Justiça solicitar o acompanha- mento da equipe técnica do CRAAI para a inspeção a ser por ele pes- soalmente realizada. A propósito, consta da intranet, na página do 4º Centro de Apoio, trabalho doutrinário elaborado por sua equipe técni- ca, intitulado “Plano Personalizado de Abrigo”. Constatadas irregularidades nas entidades e programas fiscaliza- dos, sugere-se que o Promotor de Justiça adote medidas extrajudiciais para a solução do problema, tais como a instauração de inquérito civil público, a expedição de recomendação e a realização de reu- niões com os responsáveis pelas entidades ou programas de atendi- mento, visando à celebração de Termos de Ajustamento de Conduta (TAC’s). Não sendo viável a solução extrajudicial da questão, pode o Promotor de Justiça deflagrar em juízo representação para apuração de irregularidade em entidade de atendimento (artigo 191 do ECA) ou ação civil pública. Além das inspeções periódicas para averiguação das condições gerais de funcionamento das entidades de acolhimento institucional, deve o Promotor de Justiça, outrossim, zelar para que a permanência de crianças e adolescentes não se prolongue mais do que o absoluta- mente necessário, diligenciando para a celeridade dos procedimentos e mantendo controle sobre o seu andamento, verificando as providências adotadas pela equipe técnica da entidade de acolhimento, da equipe responsável pela política municipal de convivência familiar e do Juízo da Infância e Juventude, junto aos familiares, para a reinserção familiar das crianças / adolescentes institucionalizados. Não é demais repisar que são indispensáveis a análise e o acompa- nhamento individualizado de cada criança ou adolescente institucio- nalizado, devendo o Promotor de Justiça adotar as medidas cabíveis para garantir o seu direito à convivência familiar e comunitária, seja mediante a reintegração à família de origem (família natural ou, em não 47 sendo possível, à família extensa) ou, esgotadas as possibilidades para tanto, através da sua colocação em família substituta. A nova Lei nº 12.010/09 dispõe, expressamente, que o afastamento de criança ou adolescente do convívio familiar importa em deflagra- ção, pelo Ministério Público, de procedimento judicial contencioso, no qual se garanta aos pais ou responsável o exercício do contraditório e da ampla defesa (art. 101, par. 2º do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09). Como já mencionado, a citada alteração estatutária devolveu à au- toridade judiciária a competência exclusiva para a apreciação das situ- ações de acolhimento institucional, nos termos do disposto no art. 93, parágrafo único do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09. Tendo em vista a excepcionalidade e a provisoriedade da medida protetiva de acolhimento, deve zelar o Promotor de Justiça no sentido da adoção das medidas extrajudiciais e judiciais que se mostrarem ne- cessárias à reintegração familiar de crianças e adolescentes institucio- nalizados ou, não sendo isto viável, à sua colocação em família substi- tuta em tempo hábil, permitindo-lhes, assim, o sadio desenvolvimento físico e psíquico. Os danos causados pela institucionalização prolon- gada e pelo rompimento dos vínculos familiares e afetivos podem ser irreversíveis na vida da criança ou adolescente, devendo o Promotor de Justiça atentar para o fato e preveni-lo. Artigos doutrinários sobre o tema podem ser consultados na página do 4º CAOp na intranet. Nas hipóteses em que crianças ou adolescentes acolhidos não re- cebam, injustificadamente, visitas de seus genitores ou responsáveis há mais de 03 (três) meses, preconiza a Recomendação CSMP nº 05/09 a averiguação da ocorrência de justa causa para a propositura de ação de destituição do poder familiar, no intuito de torná-los aptos à adoção e de garantir-lhes o direito fundamental à convivência familiar. No que se refere à atuação do Ministério Público na esfera judicial, merecem destaque as seguintes medidas que podem ser deflagradas pelo Promotor de Justiça: (i) representação cível pela prática de infra- ção administrativa prevista no artigo 249 do ECA (negligência, maus- tratos, abuso sexual, etc.) em face dos genitores, visando à aplicação da penalidade de multa e/ou das medidas que se mostrarem cabíveis, den- tre as elencadas no rol do artigo 129 do ECA; (ii) pedido de nomeação 48 de tutor ou guardião para crianças e adolescentes institucionalizados, como forma de viabilizar o direito à convivência familiar e comunitária e o consequente desligamento da entidade de acolhimento, após veri- ficada a impossibilidade de reinserção familiar (v. art. 1.734 do Código Civil, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09); (iii) pedido de alimen- tos em face dos genitores, nas hipóteses em que as crianças e os adoles- centes se encontrem institucionalizados por ação ou omissão dos pais; (iv) ação civil pública visando, por exemplo, à inclusão da família da criança/adolescente em programa de auxílio ou moradia, ou à matrícula da criança/adolescente em creche ou em escola em horáriointegral, com vistas à sua reintegração familiar, impedindo-se o acolhimento institucional de crianças e adolescentes pelo exclusivo fundamento da carência de recursos materiais ou de vagas em creches e escolas; (v) pe- dido de destituição do poder familiar em face dos genitores, visando à disponibilização da criança ou adolescente para adoção, nos casos em que não for viável a sua reintegração à família de origem. A destituição do poder familiar é medida extrema, uma vez que a convivência com a família natural configura direito fundamental da criança e do adolescente. Da mesma forma, a colocação em famí- lia substituta constitui medida excepcional, aplicável às situações em que não for possível que a criança ou adolescente – em garantia à sua integridade física, psicológica, mental e sexual – permaneça ou seja criada pela família natural (ou, ainda, pela família extensa), bem como às situações em que, não obstante os esforços dos atores do sistema de proteção no sentido da reintegração familiar, permaneça abandonada em entidade de acolhimento. Mostrando-se inviável a manutenção da criança ou adolescente na família natural, em razão de violação aos deveres do poder familiar, deve o Promotor de Justiça diligenciar para a sua inserção na família biológica extensa, levando em conta o grau de parentesco e a relação de afinidade ou de afetividade, a fim de minorar as consequências de- correntes da medida. Não sendo possível ainda esta via, recomenda-se que o Promotor de Justiça, em tais hipóteses, deflagre em Juízo pedido de destituição ou suspensão do poder familiar, observando o proce- dimento previsto nos art. 155 e seguintes do Estatuto da Criança e do Adolescente, bem como o disposto no artigo 1.635 e seguintes do Có- digo Civil de 2002, visando à futura colocação em família substituta. 49 O pedido de colocação em família substituta deve obedecer aos requisitos do art. 165 do Estatuto da Criança e do Adolescente, ou aos do artigo 166, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09, se os pais forem falecidos ou destituídos do poder familiar, ou ainda se tiverem aderido expressamente ao pedido. O rito do procedimento conten- cioso encontra-se previsto nos arts. 155 a 170 do ECA, com a redação dada pela nova lei. Por fim, cumpre salientar não ser recomendável, para os casos de crianças e adolescentes inseridos em acolhimento institucional ou fa- miliar, o ajuizamento, pelo Ministério Público, dos chamados “Pedido de Aplicação de Medida Protetiva (PAMP)”, “Pedido de Providências (PP)” ou “Pedido de Aplicação de Medida de Abrigo (PAMA)”, eis que destituídos de previsão legal, importando em violação aos princípios constitucionais garantidores do contraditório e da ampla defesa, diante da inexistência de pólo passivo de relação processual. Aliás, não há sequer relação processual. Outrossim, a Lei nº 12.010/09 fulminou expressamente essa prá- tica, ao introduzir parágrafo único ao art. 153 do ECA, dispondo que o procedimento previsto no caput do dispositivo não se aplica para o fim de afastamento da criança ou do adolescente de sua família de origem. Vale lembrar que o procedimento judicial contencioso a que se refere o art. 101, § 2º do ECA, com a nova redação dada pela Lei nº 12.010/09, a ser deflagrado pelo Ministério Público em face dos pais ou responsável na hipótese de não reintegração familiar, deve observar as garantias constitucionais do contraditório e da ampla defesa. 6.3. Colocação em Família Substituta A colocação em família substituta se faz através de guarda, tutela ou adoção (art. 28, caput do ECA), devendo tal medida ser adotada apenas quando esgotadas as possibilidades de manutenção da criança ou adolescente no seio de sua família natural (art. 1º, §§ 1º e 2º da Lei nº 12.010/09 e art. 19, caput do ECA), aí incluída a família extensa, na forma do disposto no art. 19, § 3º c/c art. 25, parágrafo único do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09. À falta de familiar que possa receber a criança ou adolescente, por vezes, outra solução não se verifica, salvo a colocação em família subs- 50 tituta. A adoção é uma das formas de colocação em família substituta, sendo a que normalmente se mostra indicada quando inviável a reinte- gração familiar em qualquer tempo. Dispõe o ECA, em seu artigo 50, que a autoridade judiciária deverá manter, em cada comarca ou foro regional, um registro de crianças e adolescentes em condições de serem adotados e outro de pessoas interessadas na adoção. O deferimento da inscrição se dá após prévia consulta aos órgãos técnicos do Juízo, ouvido o Ministério Público (art. 50, § 1º, do ECA). Assim, pretensos adotantes devem deduzir em juízo pedido de habilitação (art. 197-A e ss do ECA) e, uma vez acolhida a pretensão, passam a integrar o cadastro local. Além do cadastro local, previsto no art. 50 do ECA, foi criado, em 29/04/08, pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Cadastro Nacio- nal de Adoção (CNA), que pretende reunir os dados de todas as crianças e adolescentes disponíveis para adoção no Brasil e de todas as pessoas habilitadas à medida, fazendo-se o cruzamento dessas informações, na busca por uma família para estes infantes e jovens privados do direito fundamental à convivência familiar. A Lei nº 12.010/09 tornou obriga- tória a criação e implementação do mencionado cadastro nacional (art. 50, § 5º do ECA), prevendo a responsabilização da autoridade que dei- xar de providenciar sua instalação e operacionalização, bem como da- quele que negligenciar em sua devida alimentação (art. 258-A do ECA). O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), atendendo a solicitação do MPRJ, firma- ram convênio de cooperação técnica que disponibilizará o acesso ao Cadastro Nacional de Adoção (CNA) aos Ministérios Públicos de todo o Brasil, o que facilitará o trabalho dos Promotores de Justiça no tocan- te à fiscalização dos cadastros locais e estaduais, bem como na garantia do direito à convivência familiar de crianças e adolescentes. A Lei nº 12.010/09 contemplou essa necessidade, através da alteração introdu- zida no art. 50, § 12º do ECA. Para fins de inscrição no CNA, consideram-se aptos à adoção so- mente crianças e adolescentes cujos pais tenham consentido com a medida, ou que sejam órfãos, ou, ainda, cujos pais sejam desconheci- dos ou tenham sido destituídos do poder familiar através de sentença transitada em julgado. 51 Os pedidos de adoção devem respeitar a ordem de inscrição no cadastro judicial local ou regional, devendo o Promotor de Justiça re- querer consulta ao cadastro central se for constatada a inexistência de pretendente previamente inscrito. A regra geral comporta exceções apenas nas hipóteses previstas no art. 50, § 3º, do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09, dis- positivo que fulminou a controvertida prática das “adoções prontas”. Na hipótese da criança ou adolescente ter pai e/ou mãe vivo(s), detentor(es) do poder familiar, quando ausente o consentimento deste(s), deverá o pedido de adoção ser cumulado com o pedido de destituição do poder familiar (artigos 156 e 165 do ECA), podendo o(s) demandante(s) pleitear(em) liminarmente a guarda do(a) adotando(a). Já na hipótese de consentimento dos genitores com a medida de adoção, ou quando os pais não forem conhecidos, não há lide, carac- terizando-se o procedimento como de jurisdição voluntária, não sendo necessária a cumulação do pedido de destituição do poder familiar ao pedido de adoção, assim como desnecessário que se proceda à citação dos pais. No primeiro caso, de consentimento com a medida, os pais devem ser ouvidos em Juízo, na forma prevista no art. 166, § 1º do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09. Quando os pais forem conhecidos, mas não constarem do registro de nascimento da criança ou adolescente, sugere-se que seja requerida a destituição do poder familiar, de modo a evitar futura arguição de nulida- dedo feito, por não terem se instalado o contraditório e a ampla defesa. Como já mencionado, nosso sistema jurídico dispõe que a adoção nacional (aquela requerida por pessoa, nacional ou estrangeira, domi- ciliada no Brasil) deve ter preferência em relação à adoção internacio- nal (aquela pleiteada por pessoa, nacional ou estrangeira, com domi- cílio no exterior), conforme se verifica do disposto nos arts. 31, 50, § 10º e 51, § 1º, inc. II, ambos do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09. Desse modo, apenas crianças e adolescentes de mais difícil colocação em família substituta acabam sendo disponibilizados para adoção inter- nacional, tais como grupos de irmãos, crianças mais velhas ou com pro- blemas graves de saúde. Isto porque bebês, crianças pequenas e saudá- veis são facilmente inseridas em famílias substitutas residentes no Brasil. 52 A Lei nº 12.010/09 deferiu ao brasileiro residente no exterior pre- ferência em relação ao estrangeiro na mesma situação (art. 51, § 2º do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09). O artigo 52 do Estatuto estabelece que a adoção internacional pode ser condicionada a estudo prévio e análise de uma comissão estadual judiciária de adoção (CEJA), a qual fornecerá o respectivo laudo de ha- bilitação para instruir o processo judicial. Dispõe o parágrafo único da referida norma que compete à comissão manter registro centralizado de interessados estrangeiros em adoção. No Estado do Rio de Janeiro, a CEJA-RJ é o órgão do TJRJ que analisa os requerimentos de adoção internacional, havendo requisitos especí- ficos para essa modalidade de colocação em família substituta, além daqueles disciplinados pelo ECA, os quais encontram-se definidos na Convenção da Haia sobre cooperação em matéria de adoção interna- cional. O Ministério Público oficia nesses procedimentos de habilita- ção para adoção internacional, havendo um Promotor de Justiça espe- cialmente designado para tanto. É importante que, na análise dos pedidos de adoção, os Promotores de Justiça atentem para o real domicílio dos requerentes. É comum que pessoas de nacionalidade brasileira, mas residentes no exterior, pos- tulem a adoção como se aqui morassem, prestando informação falsa sobre seu endereço correto de moradia. Ocorre que esse fato, além de ilegal, pode gerar problemas futuros para a criança ou adolescente que, ao chegar ao País de residência do adotante, pode não ter reconhecida sua nova situação jurídica ou não ter admitido seu ingresso. Pedidos de adoção apresentados por brasileiros ou estrangeiros residentes ou domiciliados fora do País devem ser acompanhados da demonstração de que foram esgotadas todas as possibilidades de colo- cação da criança ou do adolescente em família substituta residente no Brasil, inclusive por meio de consulta ao Cadastro Central (art. 51, § 1º, inc. II do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09), devendo ser respeitada a ordem de inscrição/habilitação dos pretendentes estrangei- ros junto à Comissão Judiciária de Adoção Internacional (CEJA). 53 7. CONSELHOS E FUNDOS 7.1. Considerações Iniciais O artigo 204 da Constituição da República, em seu inciso II, consagra o princípio da democracia participativa, que se concretiza, na área da infância e juventude, por intermédio da atuação dos Conselhos de Direi- tos de Crianças e Adolescentes e dos Conselhos Tutelares. Tais órgãos permitem que a comunidade, por intermédio de seus representantes eleitos, tenha efetiva participação nas decisões e deliberações relativas à promoção dos direitos e garantias da população infantojuvenil local. Incumbe aos Conselhos de Direitos, nos níveis nacional (Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente / CONANDA), es- tadual (Conselho Estadual de Direitos da Criança e do Adolescente do RJ / CEDCA) e municipal (Conselhos Municipais de Direitos da Crian- ça e do Adolescente / CMDCAs), a deliberação das políticas públicas voltadas para as crianças e os adolescentes (art. 88, II, do ECA). Tais órgãos colegiados possuem composição paritária de representantes do governo e da sociedade civil. Prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente, outrossim, a manu- tenção de fundos especiais (nacional, estaduais e municipais) vincula- dos aos respectivos conselhos de direitos da criança e do adolescente (inciso IV do art. 88). Diante da diretriz da municipalização da política de atendimento (inciso I do mencionado artigo 88, do ECA) e da área de abrangência de atuação de cada Promotoria de Justiça com atribuição na área da Infân- cia e Juventude, serão adiante analisadas as hipóteses mais comuns de atuação do Parquet com relação aos Conselhos Municipais de Direitos da Criança e do Adolescente, bem como aos Fundos Municipais a eles vinculados. Os Conselhos Tutelares, conforme disposto nos artigos 131 e 132 do ECA, são órgãos permanentes e autônomos, não jurisdicionais, en- carregados de zelar pelo cumprimento dos direitos de crianças e adoles- centes. Deve existir, no mínimo, um Conselho Tutelar em cada Muni- cípio, composto de cinco membros escolhidos pela comunidade local. As atribuições dos Conselhos Tutelares encontram-se enumeradas no artigo 136 do ECA, incumbindo-lhes, especialmente, o atendimento 54 e a aplicação de medidas de proteção a crianças e adolescentes que tenham qualquer de seus direitos fundamentais violados nas hipóteses previstas no artigo 98 do Estatuto, conforme se extrai do artigo 136, inciso I, bem como o atendimento e a aplicação de medidas – dentre as previstas nos incisos I a VII do artigo 129 – aos pais ou responsável, conforme disposto no inciso II do artigo 136. 7.2. Conselhos Municipais de Direitos da Criança e do Adolescente e Fundos Municipais. Sugestões de Atuação. Os Conselhos de Direitos são órgãos da Administração Pública, co- legiados, deliberativos e controladores das ações, que ostentam parcela do poder estatal na definição e na gestão das políticas vinculadas à população infantojuvenil. Incumbe aos Conselhos de Direitos a formu- lação da política de atendimento (art. 88, II, do ECA), devendo exercer o seu múnus com independência e autonomia. A propósito, as deliberações do Conselho de Direitos vinculam o Poder Executivo, posto que retratam a vontade estatal, podendo os ór- gãos legitimados, aí incluído o Ministério Público, postular junto ao Poder Judiciário a observância das deliberações do CMDCA, conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça. O Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) é órgão deliberador de políticas públicas municipais na área da infância e juventude, integrado por representantes governamentais e não governamentais, em composição necessariamente paritária. Deve o Promotor de Justiça fiscalizar o processo de escolha dos representan- tes da sociedade civil para integração do CMDCA, bem como compa- recer regularmente às reuniões ordinárias e extraordinárias do referido Conselho, ocasiões em que são definidas as políticas públicas munici- pais prioritárias para a população infantojuvenil local. Se necessário, poderá o Promotor de Justiça expedir recomendações ao CMDCA, para que efetue as Deliberações Colegiadas acerca das políticas públicas prioritárias na área infantojuvenil. Ao CMDCA, o Estatuto da Criança e do Adolescente incumbe a res- ponsabilidade sobre a realização do processo de escolha dos membros dos Conselhos Tutelares, sob a fiscalização do Ministério Público (art. 139 do ECA). 55 Outra função do CMDCA consiste no registro dos programas de atendimento a crianças e adolescentes executados pelas entidades go- vernamentais e não governamentais no Município, devendo comunicar o registro ao Conselho Tutelar e à autoridade judiciária, bem como manter atualizado o respectivo cadastro (parágrafo único do art. 90 e art. 91, ambos do ECA). Convém ao Promotor de Justiça oficiar ao CMDCA requisitando o envio da relação das entidades de atendimento e dos programas existentes noMunicípio. O CMDCA é o gestor do Fundo Municipal da Infância e Juventu- de (FIA), também conhecido como Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (FMDCA), o qual tem natureza jurídica de fundo especial e tem por finalidade financiar políticas e programas des- tinados a crianças e adolescentes cujos direitos fundamentais sejam violados, na forma do artigo art. 98 do ECA. Os recursos do Fundo são oriundos, basicamente, de repasses go- vernamentais, doações de pessoas físicas e jurídicas, multas judiciais em razão da prática de infrações administrativas (art. 214 do ECA) e outras receitas. Após o ingresso dos recursos no FMDCA, estes passam a assumir a natureza de verba pública, gerando ao doador a possibili- dade de realizar a dedução no Imposto de Renda, conforme disposto no Regulamento do Imposto de Renda (RIR n º 3.000/99). Por essa razão, não se deve admitir a “doação casada” ou o direcionamento da verba doada a entidades específicas, escolhidas pela pessoa física ou jurídica doadora, devendo o Promotor de Justiça adotar as medidas extrajudiciais e judiciais que se mostrarem cabíveis a fim de coibir tais práticas, que não encontram autorização legislativa em nosso ordena- mento jurídico. O Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente do RJ instituiu, por intermédio da Deliberação CEDCA nº 17, de 25.06.08, o “Banco de Projetos”, que visa a apoiar os projetos públicos e privados voltados à promoção e à defesa dos direitos da infância e juventude no Estado do Rio de Janeiro, tendo por finalidade precípua “atrair patrocí- nio e financiamento dos recursos do FIA” em âmbito estadual. O “Banco de Projetos”, porém, evidencia reiteração da reprovável prática da “doação casada” ou direcionamento de verbas, pois permite que o doador selecione os projetos e entidades que serão beneficiadas 56 com as verbas do Fundo Estadual da Infância e Juventude, retirando do Conselho Estadual de Direitos o poder de efetiva deliberação acerca das políticas públicas estaduais prioritárias na área da infância e juven- tude. A propósito, encontra-se na página do 4º CAOp na intranet o teor da petição inicial de ação civil pública deflagrada pelas 6ª, 7ª, 9ª e 10ª Promotorias de Justiça da Infância e Juventude da Capital, visando à suspensão do referido Banco de Projetos (instituído pelo CEDCA). Por oportuno, frise-se que o Ministério Público sempre atua como fiscal dos Conselhos, não devendo integrá-los, seja a que título for, ou exercer direito a voto. Tais atividades são incompatíveis com o rele- vante múnus público de fiscal da lei, que exige a imparcialidade do Promotor de Justiça. É dever funcional do Promotor de Justiça com atribuição na maté- ria de infância e juventude fiscalizar o CMDCA do Município em que atua, no que se refere à regular composição paritária, bem como ao funcionamento e à gestão do FIA. Para o exercício dessa atribuição, poderá ser instaurado inquérito civil para o acompanhamento das ati- vidades do referido Conselho de Direitos e a eventual apuração de irregularidades. 7.3. Conselhos Tutelares. Sugestões de Atuação Conforme dispõem os artigos 131 e 132 do ECA, o Conselho Tu- telar é órgão permanente e autônomo, não jurisdicional, encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos de crianças e adolescentes, devendo existir, no mínimo, um Conselho Tutelar em cada Município, composto de cinco membros escolhidos pela comu- nidade local para mandato de três anos, permitida uma recondução. Apesar de se tratar de eleição cujo voto é facultativo, verifica-se uma crescente participação da comunidade no processo de escolha dos membros do Conselho Tutelar, sendo certo que a maior parte dos pleitos realizados no Estado do Rio de Janeiro tem se equiparado às eleições municipais, no que se refere ao número de eleitores partici- pantes e à repercussão social do sufrágio popular. As eleições para o Conselho Tutelar são realizadas em cada Municí- pio pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), cabendo ao Ministério Público fiscalizar todo o processo 57 eletivo, desde a publicação do edital, zelando pela divulgação e re- gularidade do processo de escolha. Se necessário, deve o Promotor de Justiça expedir recomendações ao Conselho Municipal de Direitos e adotar as medidas cabíveis diante de eventuais irregularidades. É necessário que o Promotor acompanhe as habilitações de candidatos e a satisfação dos requisitos, podendo, se for o caso, impugnar can- didaturas. O processo de apuração dos votos deve ser pessoalmente acompanhado pelo Promotor de Justiça. As relevantes atribuições do Conselho Tutelar estão elencadas no art. 136 do ECA. Para bem exercê-las e atuar prontamente, necessário é o seu aparelhamento. Deve o Conselho Tutelar estar sediado em local de fácil acesso à população, bem como ser provido, pelo Muni- cípio, de estrutura adequada ao atendimento (linhas telefônicas ampla- mente divulgadas à população, aparelhos de fax e computador, viatura, mobiliário, etc.), e, se possível, de equipe técnica, cabendo também ao Município o custeio da manutenção do referido Conselho. Portanto, o Promotor de Justiça deve averiguar o que dispõe a Lei Municipal sobre a implantação, a estrutura, o processo de escolha e o funcionamento do Conselho Tutelar do Município em que atua e, dependendo do caso, celebrar Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Município ou, não sendo isso possível, deflagrar em juízo ação civil pública que tenha por objeto o adequado aparelhamento do Conselho Tutelar. O regular funcionamento dos Conselhos Tutelares também deve ser fiscalizado pelo Promotor de Justiça. Como órgãos permanentes, ressalte-se a necessidade da realização de plantões pelos Conselhos Tutelares fora do horário de expediente regular, viabilizando o aten- dimento de crianças e adolescentes que tenham seus direitos funda- mentais violados, fato que pode acontecer a qualquer hora do dia e em qualquer dia da semana. Eventuais irregularidades no funcionamento dos Conselhos Tutela- res (inadequação do atendimento prestado à população, descumpri- mento de plantões de finais de semana ou de plantões noturnos etc.), e dos Conselhos Municipais de Direitos devem ser apuradas pelo Promo- tor de Justiça, o qual pode fazê-los mediante a instauração de inquérito civil público visando à formação da sua opinio para o eventual ajuiza- mento da ação cabível. 58 Nas hipóteses em que restar demonstrado o reiterado cometimento de faltas funcionais pelos Conselheiros Tutelares ou mesmo a práti- ca de atos incompatíveis com o relevante múnus que exercem, im- portando em violação aos direitos de crianças e adolescentes, deve o Promotor de Justiça noticiar os fatos à Comissão de Ética do Conselho Tutelar, caso existente, para a adoção das medidas cabíveis, a par do ajuizamento de ação civil pública para a destituição do Conselheiro. A esse respeito, é importante que a lei municipal preveja as hipóteses de destituição de Conselheiros, de modo a facilitar eventuais pretensões nesse sentido. A propósito das atribuições do Conselho Tutelar, previstas no art. 136 do ECA, vale destacar as seguintes: (i) inciso I - atendimento a crian- ças e adolescentes e aplicação de medidas de proteção nos casos sub- sumidos aos artigos 98 e 105 do ECA; (ii) inciso II - atendimento e acon- selhamento aos pais ou responsável, bem como aplicação de medidas dentre as previstas nos incisos I a VII do artigo 129 do ECA; (iii) inciso III, alínea a – requisição de serviços públicos nas áreas de saúde, educação, serviço social, previdência, trabalho e segurança; (iv) inciso III, alínea b – representação (cível) deflagrada perante o Juízo da Infância e Juven- tude na hipótese de descumprimento injustificado de suas deliberações, o que configura infração administrativa tipificada no art. 249 do ECA; (v) inciso IX – assessoramento ao Poder Executivo local na elaboração da proposta orçamentáriapara planos e programas de atendimento dos direitos da criança e do adolescente; (vi) inciso XI – representar ao Mi- nistério Público, nos casos em que se vislumbrar a necessidade de se deflagrar pedido de destituição ou de suspensão de poder familiar. No tocante à medida protetiva extrema de acolhimento institucio- nal, a Lei nº 12.010/09 alterou a sistemática anterior. O Conselho Tutelar ainda pode aplicar a medida, mas a decisão acerca da manuten- ção da criança no acolhimento cabe, agora, à autoridade judiciária, nos termos do disposto no art. 93, parágrafo único do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09. Enquanto órgão de grande relevância no sistema de proteção, é im- portante que o Conselho Tutelar alimente o MCA (Módulo Criança e Adolescente), nele inserindo os dados relativos às crianças e aos ado- lescentes por ele institucionalizados, inclusive a causa do acolhimento e as medidas aplicadas aos infantes, jovens e suas famílias. 59 8. OUTRAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A ATUAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO NA ÁREA DA INFÂNCIA E JUVENTUDE 8.1. Sistema Único de Assistência Social (SUAS) Importante tema que exige a intervenção do Ministério Público, especialmente na seara de proteção de direitos da criança e do ado- lescente, o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) é uma ferra- menta de gestão da Política Nacional de Assistência Social (PNAS) que define níveis de proteção social e de gestão, com as responsabilidades dos gestores nos âmbitos federal, estadual e municipal. A fiscalização das ações do SUAS implica no conhecimento do Plano de Assistência Social do Município, do nível de gestão em que está inserido (inicial, básica ou plena), dos valores obtidos através do sistema de co-financia- mento e dos beneficiários dos programas. Os serviços e programas no nível da Proteção Social Básica têm caráter preventivo e são executados de forma direta pelos Centros de Referência de Assistência Social (CRASs) - unidades públicas, de base municipal, localizadas em áreas com maiores índices de vulnerabilida- de social –, podendo-se citar os seguintes: Programa de Atenção Inte- gral à Família (PAIF); programa de inclusão produtiva; serviços socio- educativos para crianças, adolescentes e jovens, entre outros. Alguns desses serviços, como o PAIF, têm que ser desenvolvidos no CRAS, mas outros podem ser realizados fora do seu espaço físico. Contudo, cabe ao CRAS a coordenação de todas as ações desse nível de proteção na sua área de abrangência. A Proteção Social Especial é voltada para aqueles que se encon- tram em situações de risco, decorrentes de abandono, maus tratos, uso abusivo de drogas, cumprimento de medidas socioeducativas, situação de rua etc. O Programa mantém estreita relação com o Sistema de Ga- rantia de Direitos e seus serviços são classificados em dois níveis de proteção: média complexidade (houve violação de direitos, mas sem o rompimento dos vínculos familiares e comunitários) e alta complexi- dade (com ameaça ou rompimento dos vínculos). Os Centros de Refe- rência Especializados de Assistência Social (CREASs) são responsáveis pela coordenação e articulação da proteção social especial de média complexidade, devendo oferecer serviços de orientação e apoio espe- 60 cializados e continuados: violência e exploração sexual de crianças e adolescentes, abordagem de rua, adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa em meio aberto (PSC e LA), entre outros. Quan- to aos serviços de alta complexidade, são aqueles que oferecem prote- ção integral, com o afastamento do convívio familiar, como os abrigos para crianças e adolescentes, os abrigos de família e os programas de acolhimento familiar. Consta do CD ROM que acompanha este Manual listagem atualiza- da de endereços dos CRAS e CREAS existentes no Estado. 8.2. Recursos Algumas observações são necessárias a respeito de recursos inter- postos perante o Tribunal de Justiça na área da Infância e Juventude: (i) O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê a possibilidade do exercício do juízo de retratação pelo Juiz de Direito (artigo 198, in- ciso VII). A autoridade judiciária, antes de determinar a remessa dos autos à instância superior, no caso do recurso de apelação, ou, no caso do agravo de instrumento, ao tomar conhecimento da interpo- sição do recurso, deve se manifestar, no prazo de cinco dias, através de despacho fundamentado, mantendo ou reformando a decisão recorrida. (ii) Conforme se extrai do inciso II do artigo 198 do ECA, o prazo para a interposição do recurso de apelação é de 10 dias. Contudo, diante da prerrogativa legal do prazo em dobro conferido ao Ministério Público, o prazo para o Parquet é de 20 dias. (iii) Consoante o disposto no Regimento Interno do TJERJ a respeito da competência dos órgãos recursais em matéria de Infância e Juventude: • as Câmaras Cíveis têm competência para julgar recursos referen- tes à matéria cível, abrangendo as hipóteses previstas no artigo 148, incisos III a VII, e parágrafo único, e no artigo 149, ambos do ECA (art. 6º, inciso II, alínea a, do RITJRJ); • o Conselho da Magistratura tem competência para o julgamento de pedidos de reexame e, em geral, de recursos contra decisões de natureza estritamente administrativa proferidas por Juízes da Infância e Juventude (art. 9º, inciso XVII, do RITJRJ); 61 • as Câmaras Criminais têm competência para julgar os recursos interpostos de decisões proferidas por Juízo da Infância e da Ju- ventude em processos referentes a atos infracionais (art. 8º, inci- so II, alínea a, do RITJRJ). (iv) A Lei nº 12.010/09 alterou alguns dispositivos do Estatuto da Crian- ça e do Adolescente em matéria recursal. Revogou os incisos IV a VI do artigo 198 e introduziu os artigos 199-A, 199-B, 199-C, 199-D e 199-E. Merecem destaque os seguintes aspectos: (a) o recurso de apelação interposto de sentença que destituir o(a)(s) genitor(a)(es) do poder familiar será recebido apenas no efeito devolutivo (art. 199-B); (b) os recursos interpostos em processos de adoção e de destituição de poder familiar serão processados com prioridade ab- soluta, terão distribuição imediata e serão colocados em mesa para julgamento sem revisão e com parecer urgente do Ministério Públi- co (art. 199-C); (c) o relator deverá colocar o processo em mesa para julgamento no prazo máximo de 60 (sessenta) dias, contados de sua conclusão (art. 199-D); (d) “o Ministério Público poderá requerer a instauração de procedimento para apuração de responsabilidades se constatar o descumprimento das providências e do prazo previs- tos nos artigos anteriores” (art. 199-E). Importante ferramenta para o Promotor de Justiça consiste no sis- tema de acompanhamento de recursos do 1º Centro de Apoio Ope- racional, que possibilita não apenas o acompanhamento dos recursos interpostos, mas também um maior estreitamento no contato entre os membros do Ministério Público de 1º e 2º graus. Sugere-se, assim, ao Promotor de Justiça que comunique ao 4º Cen- tro de Apoio Operacional os casos de sua atuação que importem em relevante interesse institucional, a fim de que sejam divulgados aos demais colegas. 62 Parte 2. MatÉria inFracional 9. ATUAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO NA ÁREA DO DIREITO SOCIOEDUCATIVO 9.1. Breves Considerações sobre Ato Infracional Ato infracional é definido como toda conduta análoga a crime ou contravenção penal (art.103 do ECA), devendo, pois, ser típico, antiju- rídico e culpável. A criança a quem se atribua a prática de ato infracional deve ser en- caminhada ao Conselho Tutelar para a aplicação das medidas protetivas cabíveis (artigos 101 e 105 do ECA), devendo o Promotor de Justiça pro- mover o arquivamento de procedimento porventura instaurado, eis que crianças não são passíveis de aplicação de medidas socioeducativas. Em relação ao adolescente autor de ato infracional, o ECA prevê procedimento para sua apuração, podendo ser-lhe aplicada, sob a égi- de do devido processo legal, medida socioeducativa,caso comprovada a sua autoria e materialidade. As garantias processuais vêm relacionadas nos artigos 110 a 111 do ECA, devendo o Promotor de Justiça zelar pela estrita observância dos dispositivos legais e pelo efetivo cumprimento dos direitos individuais previstos nos arts. 106 a 109 do Estatuto, registrando-se que a inob- servância desses direitos pode acarretar a prática de crime, como, por exemplo, aquele tipificado no art. 231. O procedimento para a apuração de ato infracional atribuído a ado- lescente pode ser dividido em três fases: policial, pré-processual e ju- dicial. Na fase policial (primeira fase), o adolescente é encaminhado à uni- 63 dade policial por força de ordem judicial (mandado de busca e apreen- são) ou em flagrante prática de ato infracional (arts. 171 e 172, caput, do ECA). O art. 173, caput, do Estatuto regulamenta a conduta da autoridade policial no caso de apreensão de adolescente em flagrante prática de ato infracional cometido com violência ou grave ameaça a pessoa, enquanto o parágrafo único prevê as demais hipóteses de flagrante. O artigo 174 prevê a possibilidade de liberação do adolescente pela Autoridade Policial e a sua entrega aos pais ou responsável, cabendo ao Promotor de Justiça zelar pelo estrito cumprimento desta norma. Nos casos de afastamento de flagrante ou de liberação do adoles- cente pela autoridade policial, são encaminhados pela Autoridade Poli- cial ao Ministério Público a cópia do auto de apreensão ou do boletim de ocorrência, na forma do disposto nos artigos 176 e 177 do ECA. Pode a autoridade policial, nas hipóteses autorizadas por lei e à similitude do que ocorre no processo penal, representar à autoridade judiciária pela expedição de mandado de busca e apreensão de adoles- cente, sendo imperiosa a manifestação do Ministério Público. O adolescente apreendido e não liberado em razão de critérios le- gais deve ser apresentado ao Promotor de Justiça para oitiva no prazo de 24 horas, conforme estabelecido no art. 175 e seus parágrafos. O transporte e a condução do adolescente devem respeitar a sua dignida- de e integridade, sob pena de responsabilização criminal (art. 232 do ECA). Na capital do Rio de Janeiro, os adolescentes apreendidos são encaminhados ao Centro de Recepção e Triagem (CTR), unidade do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE), situada na Ilha do Governador, de onde são levados ao Ministério Público para a realização da oitiva prevista no art. 179 do ECA. A fase pré-processual ou de atuação do Ministério Público (segunda fase) é inaugurada com a apresentação do adolescente, preferencial- mente acompanhado dos pais ou responsável, para que o Promotor de Justiça proceda à sua oitiva pessoal (art. 179 do ECA). O ato de oitiva é privativo do Promotor de Justiça, admitindo-se que o investigado se faça acompanhar por advogado ou defensor público. Antes de iniciar os questionamentos acerca da prática do ato infra- cional, o Promotor de Justiça deve dar ciência ao adolescente quanto a 64 seu direito de permanecer calado (artigo 5º, inciso LXIII, da Constitui- ção da República), passando a indagar sobre as circunstâncias do ato e sua motivação, sendo conveniente perguntar, ainda, sobre sua família, moradia, escolaridade, profissionalização, uso de drogas, existência de anteriores passagens pelo Sistema de Justiça, e outros fatores que per- mitam a avaliação de eventual possibilidade de concessão de remissão. Vale lembrar que o art. 179 do ECA exige que os fatos estejam consubs- tanciados em “auto de apreensão, boletim de ocorrência ou relatório policial, devidamente autuados pelo cartório judicial e com informação sobre os antecedentes do adolescente”. Após a oitiva informal, o Promotor de Justiça deve adotar uma das seguintes medidas: (i) promoção do arquivamento, (ii) concessão de re- missão ou (iii) oferecimento de representação socioeducativa, na forma do art. 180 do ECA. O arquivamento deve ser promovido quando se verificar a inexis- tência do fato ou quando não constituir ele ato infracional ou, ainda, quando não for o adolescente o seu autor. A remissão pode ser concedida como forma de exclusão do pro- cesso, com fulcro no art. 180, inciso II c/c art. 126, caput, do ECA. Permite-se a concessão de remissão cumulada com a aplicação de me- dida socioeducativa, exceto as de semiliberdade e internação (parte final do art. 127 do ECA). Vale lembrar a possibilidade de cumulação de mais de uma medida em meio aberto ou, ainda, a possibilidade de substituição de uma por outra, caso a primeira medida aplicada se mostre inadequada no caso concreto, diante do disposto nos artigos 99, 100 e 113 do ECA). Na hipótese de concessão de remissão cumulada com medida, deve o Promotor de Justiça fazer constar no termo de oitiva informal a concordância do adolescente e de seu responsável, considerando a natureza jurídica de tal instituto, qual seja, o de transação. Tanto o arquivamento quanto a remissão devem ser submetidos à homologação judicial (art. 181 e parágrafos do ECA). O oferecimento de representação, oral ou escrita, inaugura a ação socioeducativa, devendo conter breve resumo dos fatos, tipificação da conduta imputada, requerimentos de diligências e rol de testemunhas (art. 182 e parágrafos). 65 Promovido o arquivamento, concedida a remissão ou ofertada a representação pelo Ministério Público, inicia-se a fase judicial (terceira fase). Nas duas primeiras hipóteses, a autoridade judiciária homologa a manifestação do Parquet, ou, em caso de sua discordância, remete os autos ao Procurador-Geral de Justiça (art. 181 e parágrafos). Iniciada a ação socioeducativa mediante o oferecimento de repre- sentação, pode a autoridade judiciária, a qualquer tempo, conceder a remissão como forma de extinção ou suspensão do processo, ouvido o Ministério Público (art. 126 do ECA). Oferecida representação, o Juiz de Direito adota as providências elencadas no art. 184 e parágrafos, destacando-se a importância da de- cisão sobre a decretação ou a manutenção da internação provisória. Eventual requerimento de internação provisória deve ser formulado pelo Promotor de Justiça quando do oferecimento da representação, não sendo recomendável que o Promotor de Justiça formule apenas o pedido de internação provisória, sem deflagrar simultaneamente a representação socioeducativa. O pedido de internação provisória deve ser fundamentado, não devendo se basear a medida apenas na gravi- dade do ato infracional, mas sim na efetiva necessidade de sua decre- tação. Em razão disso, os modelos de requerimento de decretação de internação provisória são apresentados neste Manual separadamente dos modelos de representação. Registre-se, outrossim, que parte da doutrina entende ser incabível a decretação da internação provisória nos casos em que o ato imputado não é capaz de ensejar a aplicação de medida não privativa de liberdade. Imperiosa se faz a observância do prazo de 45 (quarenta e cinco) dias previsto nos arts. 108 e 183 do ECA para a conclusão do feito quando o adolescente estiver internado provisoriamente, sob pena de cometimento do crime previsto no art. 235 do ECA. A propósito, no Es- tado do Rio de Janeiro, tão logo decretada a internação provisória, o(a) adolescente é encaminhado(a) a uma das seguintes unidades, ambas situadas na Capital, até a criação de maior número de unidades a fim de descentralizar o atendimento prestado a adolescentes em conflito com a lei: Instituto Padre Severino/IPS (adolescentes do sexo masculino) e Educandário Santos Dumont / ESD (sexo feminino), ambas localizadas 66 na Ilha do Governador, onde pode permanecer pelo prazo máximo de 45 dias. Destaque-se a necessidade da presença do Promotor de Justiça e do advogado ou defensor público na audiência de apresentação (art. 201, inc. II, art. 204 e art. 207, todos do ECA). A propósito, o Superior Tribunal de Justiça, através da Súmula 343, reconhece a nulidade dasentença nos casos em que houver desistência de outras provas em face da confissão do adolescente, em que pesem os argumentos contrários pautados no art. 186, §2º, do ECA. De qualquer sorte, a fim de se evitar nulidade processual em razão do entendimento consagrado pelo STJ, vale lembrar a possibilidade le- gal de que, na audiência de apresentação, a pedido do Ministério Públi- co, o Juízo conceda remissão como forma de suspensão ou de extinção do processo, cumulada com medida socioeducativa em meio aberto, diante do disposto no art. 126, parágrafo único do ECA. Também neste caso, como já mencionado, faz-se necessária a concordância do adoles- cente com relação à concessão de remissão, diante da natureza jurídica do referido instituto. Não sendo localizado o adolescente, aplica-se a regra do art. 184, §3º do ECA, com a expedição de mandado de busca e apreensão e sobrestamento do feito. Deve o Promotor de Justiça atentar para eventual ocorrência de prescrição, em seguimento ao entendimento sumulado do E. Superior Tribunal de Justiça, sob o verbete 338. Terminada a instrução probatória, o Juiz profere decisão: (i) conce- dendo remissão, de acordo com art. 188 do ECA; ou (ii) deixando de aplicar medida nos casos previstos no art. 189 do ECA; ou, enfim, (iii) julgando procedente o pedido, aplicando ao adolescente uma das me- didas socioeducativas elencadas no art. 112 do ECA, ou mais de uma delas, cumulativamente, em razão do disposto no art. 113, c/c o art. 99, ambos do ECA. Em caso de recurso, aplicam-se as regras do CPC por força do art. 198 do ECA. Por fim, nos termos do artigo 112, parágrafo 3º, do ECA, os adoles- centes portadores de doença mental devem receber tratamento indivi- dual e especializado, em local adequado às suas condições. Da mesma 67 forma, os dependentes químicos devem ser encaminhados a tratamento especializado, na forma no disposto no art. 101, inciso VI, c/c art. 112, inciso VII, ambos do ECA. 9.2. Breves Considerações sobre Medidas Socioeducativas: As medidas socioeducativas, previstas no art. 112 do ECA, são as seguintes: advertência, obrigação de reparação do dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e internação em estabelecimento educacional. Cumpre registrar a existência de divergência na doutrina e na juris- prudência, inclusive com oscilações nos tribunais superiores, quanto à natureza dessas medidas. Resumidamente, pode-se dizer que prevale- ce o entendimento de que a sua natureza é retributiva e sua finalidade, socioeducativa, em contraposição ao reconhecimento anteriormente apregoado de que sua natureza seria pedagógica. Eventual decisão judicial de regressão de medida deve ser precedi- da da oitiva do adolescente em audiência, consoante o entendimento sumulado sob o verbete 265 do STJ. a) Advertência A mais leve das medidas nada mais é do que uma admoestação verbal, reduzida a termo, que prescinde da prova cabal de autoria (o Estatuto exige apenas prova de materialidade e indícios suficientes de autoria) e está regulamentada nos arts. 114 e parágrafo único e 115 do ECA. b) Obrigação de Reparação do dano Esta medida só tem cabimento quando o ato infracional causar pre- juízos materiais e o adolescente for possuidor de patrimônio, para que ele próprio efetue o ressarcimento, e não os seus pais ou responsável legal, sob pena de violação do disposto no art. 5º, inciso XLV, da Cons- tituição da República. Caso contrário, aplica-se o disposto no art. 116, parágrafo único, do ECA, devendo o Promotor de Justiça requerer a substituição da medida por outra adequada. c) Prestação de Serviços à Comunidade Quanto à aplicação da medida de prestação de serviços à comu- 68 nidade, prevista no art. 117 e parágrafo único do ECA, é fundamental observar a fixação do prazo máximo de seis meses, bem como a jorna- da máxima de seis horas semanais, de modo que não haja prejuízo à escolarização e a eventual jornada de trabalho do adolescente. O cumprimento das medidas socioeducativas em meio aberto (pres- tação de serviços à comunidade e liberdade assistida) já está pratica- mente municipalizado ou em processo bem acelerado de municipaliza- ção no Estado do Rio de Janeiro, mediante os serviços prestados pelos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREASs), órgãos municipais integrantes do SUAS, responsáveis pela coordena- ção e articulação da proteção social especial de média complexidade. d) Liberdade Assistida Está disciplinada nos arts. 118 e 119 do ECA, devendo ser aplicada com a finalidade de orientar o adolescente, observado o prazo mínimo de seis meses para o seu cumprimento. Da mesma forma como ocorre com a medida de prestação de serviços à comunidade, por se tratar de medida socioeducativa em meio aberto, o atendimento deve ser municipalizado. e) Semiliberdade Prevista no art. 120 e parágrafos, a medida de semiliberdade pode ser aplicada desde o início ou como forma de transição para o meio aberto, com a realização de atividades externas, sem a necessidade de autorização judicial para tanto. Imperioso lembrar que regras e horários para as saídas nos finais de semana devem ser estabelecidas pela direção de cada unidade que desenvolve programa de atendimento socioeducativo em regime de semiliberdade, e não pelo Juízo ou pelo Ministério Público. De acordo com o disposto no art. 120, § 2º, do ECA, aplicam-se à medida de semiliberdade as normas relativas à medida de internação, não havendo, desta forma, prazo determinado para o seu cumprimento. No Estado do Rio de Janeiro, as medidas de semiliberdade são cumpridas em unidades designadas por CRIADs (Centros de Recurso Integrado de Atendimento ao Adolescente), existentes em número de dezessete em todo o Estado (vide endereços elencados no Anexo 3 deste Manual). 69 f) Internação Regulada pelos arts. 121 a 125 do ECA, a mais extrema das medidas é regida pelos princípios da brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar da pessoa em desenvolvimento. As hipóteses de aplicação da medida extrema são taxativamente arroladas no art. 122 do ECA, observando-se a limitação temporária de três meses no caso do inciso III do citado dispositivo, tratada pela doutrina como “internação-sanção”, quando deverá o adolescente ter a sua medida automaticamente progredida ao final do referido prazo. A medida de internação não comporta prazo determinado, devendo ser reavaliada a cada período máximo de seis meses e não podendo exceder o período máximo de três anos, nem ser aplicada a maiores de 21 anos completos. No Estado do Rio de Janeiro, a medida socioeducativa de interna- ção é cumprida nos seguintes estabelecimentos: Escola João Luis Alves / EJLA, Escola Santos Dumont / ESD, ambos localizados na Capital (Ilha do Governador), CAI Baixada (situado em Belford Roxo), e Educandá- rio Santo Expedito / ESE (localizado em Bangu). 9.3. Breves Considerações sobre Execução das Medidas Socioeducativas O Estatuto da Criança e do Adolescente não trata da execução das medidas socioeducativas, fazendo-se imperiosa a necessidade de re- gulamentação da matéria. A propósito, tramita no Congresso Nacional projeto de lei que trata do assunto (PL 1627). Consoante os ditames constitucionais e a diretriz da política de aten- dimento traçada no art. 88 do ECA, as medidas de Liberdade Assistida e de Prestação de Serviços à Comunidade (medidas socioeducativas em meio aberto) devem ser municipalizadas, cabendo ao Promotor de Justiça fiscalizar a municipalização da execução das referidas medidas, bem como a existência e o funcionamento dos respectivos programas. Deve o Promotor de Justiça inspecionar pessoal e periodicamente as entidades destinadas ao cumprimento dos regimes de semiliberdade e internação, localizadas em sua comarca de atuação. Vale lembrar que, conforme orientação da Corregedoria-Geral do Ministério Públi- 70 co, constante do formulário de relatório estatístico on line, faz-sene- cessário o encaminhamento de cópia dos relatórios de inspeção àquele órgão correicional, sem prejuízo do preenchimento do referido formu- lário (quesito “fiscalizações/inspeções”). No acompanhamento da execução da medida de internação, deve o Promotor de Justiça zelar pela estrita observância do prazo máximo de internação, bem como atentar para a ocorrência da obrigatória rea- valiação, no máximo a cada seis meses, da necessidade de manutenção da medida. 71 10. FLUXOGRAMA DO PROCEDIMENTO DE APURAÇÃO DO ATO INFRACIONAL (SARAIVA, João Batista Costa, in Compêndio de direito penal juvenil: adoles- cente e ato infracional, Terceira Edição, Porto Alegre, Livraria do Advogado Editora, 2006, página 223) 72 73 74 75 76. . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 6.2. Sugestões de Atuação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42 6.3. Colocação em Família Substituta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 7. Conselhos e Fundos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53 7.1. Considerações Iniciais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53 7.2. Conselhos Municipais de Direitos da Criança e do Adolescente e Fundos Municipais. Sugestões de Atuação . . . . . . .54 7.3. Conselhos Tutelares. Sugestões de Atuação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56 8. Outras Considerações sobre a Atuação do Ministério Público na Área da Infância e Juventude . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59 8.1. Sistema Único de Assistência Social (SUAS) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59 8.2. Recursos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60 12 PARTE 2. MATÉRIA INFRACIONAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62 9. Atuação do Ministério Público na Área do Direito Socioeducativo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62 9.1. Breves Considerações sobre Ato Infracional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62 9.2. Breves Considerações sobre Medidas Socioeducativas . . . . . . . . . . . 67 9.3. Breves Considerações sobre Execução das Medidas Socioeducativas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69 10. Fluxograma do Procedimento de Apuração do Ato Infracional . . . . . . . 71 13 introdução O presente Manual visa a fornecer informações básicas e práticas, além de sugestões de modelos de peças – em sua maioria fornecidas gentilmente por membros do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro atuantes na área. Esse material destina-se a subsidiar o Promotor de Justiça iniciante no exercício das suas relevantes funções na área de proteção e garantia dos direitos da criança e do adolescente, alçados à categoria de prioridade absoluta pela Constituição da República, que, em seu artigo 227, recepcionou a Doutrina da Proteção Integral, regu- lamentada pela Lei nº 8.069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente. O legislador estatutário ampliou sobremaneira as funções conferi- das ao Ministério Público nessa matéria e, na esteira do disposto no artigo 127 da Constituição da República, transformou a Instituição em guardiã dos interesses sociais e individuais indisponíveis de crianças e adolescentes. De fato, à luz do princípio constitucional da prioridade absoluta (art. 227, caput, da CR), a defesa dos direitos infantojuvenis também deve constituir prioridade no exercício das funções institucionais do Minis- tério Público. A atuação diligente, técnica e eficaz do órgão ministerial é indispensável à efetivação dos direitos e garantias consagrados em nosso ordenamento jurídico em favor de crianças e adolescentes. 14 Parte 1. MatÉria não inFracional 1. BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A ATUAÇÃO DO PROMOTOR DE JUSTIÇA NA ÁREA DA INFÂNCIA E JUVENTUDE O artigo 201 do Estatuto da Criança e do Adolescente prevê as atribuições do Ministério Público na área de proteção aos direitos de crianças e adolescentes em ambas as esferas de atuação (extrajudicial e judicial). Vale lembrar que, nesse último caso (atuação judicial), ao oficiar como autor, o Parquet exerce a função de substituto processual em favor dessa parcela da população. Na seara extrajudicial, a atuação do Parquet é de suma importân- cia, pois, não raro, o Promotor de Justiça, através dos instrumentos jurídicos pertinentes, consegue garantir eficaz e rapidamente os di- reitos fundamentais – individuais ou transindividuais – de crianças e adolescentes. Ao tomar conhecimento de fato que constitua ameaça ou violação a direito individual indisponível ou a direito transindividual de criança(s) e/ou adolescente(s), o Promotor de Justiça, em regra, instaura procedi- mento administrativo ou inquérito civil público visando à sua apura- ção, devendo, caso verificada a sua veracidade, tentar esgotar, primei- ramente, as possibilidades extrajudiciais de solução. A propósito, vale observar o disposto na Resolução GPGJ nº 1.522, de 07/07/09, que disciplina, no âmbito do Ministério Público do Estado do Rio de Janei- ro, a instauração e a tramitação do inquérito civil público. A experiência na área da infância e juventude demonstra que a atu- ação extrajudicial do Ministério Público tem o condão de solucionar 15 eficazmente a maioria dos casos levados ao conhecimento do Promo- tor de Justiça. Na esfera de atuação extrajudicial, merecem destaque dois impor- tantes instrumentos jurídicos: a Recomendação e o Termo de Ajusta- mento de Conduta (TAC). A Recomendação visa à melhoria dos serviços públicos e de re- levância pública afetos à criança e ao adolescente, com a fixação de prazo razoável para a sua perfeita adequação, conforme estabelece o artigo 201, parágrafo 5º, “c” do ECA. A propósito, observe-se o dispos- to no artigo 27 da Resolução GPGJ nº 1.522/09. O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) consiste na tomada de compromisso de entidades públicas e privadas a ajustarem as suas condutas às exigências legais, mediante cominações, tendo eficácia de título executivo extrajudicial, em consonância com o disposto no artigo 5º, § 6º, da Lei nº 7.347/85 (Lei da Ação Civil Pública). A respeito do assunto, observe-se o disposto nos artigos 23 a 26 da Resolução GPGJ nº 1.522/09. Caso as tratativas, na esfera extrajudicial, não sejam eficazes para garantir o direito ameaçado ou violado, deve o Promotor de Justiça provocar o Poder Judiciário, deflagrando a demanda judicial adequada. Assim, ao atuar em órgão de execução com atribuição na área de defesa de direitos infantojuvenis, deve o Promotor de Justiça tomar conhecimento de todos os procedimentos administrativos e inquéritos civis instaurados e que estejam em tramitação na Promotoria de Justiça, a fim de lhes dar o devido andamento, adotando as providências cabí- veis: expedição ou renovação de ofícios, oitiva de pessoas, designação de datas para a realização de reuniões com agentes públicos ou priva- dos, solicitação de diligências à equipe multidisciplinar técnica porven- tura existente no CRAAI / MPRJ local, expedição de Recomendações, celebração de Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) ou dedução em juízo da medida cabível. Embora tais assuntos sejam adiante tratados nos capítulos pertinen- tes, cumpre salientar a conveniência de o Promotor de Justiça, ao as- sumir a titularidade em órgão de atuação na área da infância e juven- tude, estabelecer contato pessoal com os membros do(s) Conselho(s) de Direitos e com os Conselheiros Tutelares do(s) Município(s), com 16 os representantes do Poder Executivo local, em especial, a Chefia e as Secretarias de Saúde, Educação e Assistência Social, além de outros órgãos relacionados com a matéria, visando à integração da rede de atendimento local. Com relação à área da Assistência Social, deve o Promotor de Justiça verificar como se encontra estruturado o Sistema Único de Assistência Social(SUAS) no Município, fazendo contato, ainda, com o Coordenador do Centro de Referência de Assistência So- cial (CRAS) e, se houver, com o Coordenador do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS). Importante, outrossim, fazer contato com os Conselhos Municipais de Saúde, de Assistência Social e de Educação, a fim de verificar como se encontra a sua atuação no tocante às políticas voltadas para a população infantojuvenil. Assim, diante de uma notícia de violação ou ameaça a direito in- fantojuvenil, o Promotor de Justiça deve aferir se a hipótese é de sua atribuição, instaurando procedimento, em caso afirmativo. No caso de a atribuição ser de outro órgão (Conselho Tutelar, Promotoria de Inves- tigação Penal, etc.), a este deve ser remetido o expediente ou sua cópia para a adoção das medidas porventura cabíveis. Neste caso, por óbvio, não há que se falar em arquivamento com submissão ao Conselho Su- perior do Ministério Público, por força da ausência de atribuição do órgão ministerial. Quando for caso de remessa da promoção de arquivamento para exame do CSMP, faz-se necessária a observância do prazo legal de três dias para o envio dos autos do inquérito civil público ou peças de infor- mação àquele Conselho (art. 223, § 2º, ECA), observando-se o disposto no artigo 18, §§ 1º e 2º, da Resolução GPGJ nº 1.522/09. A propósito, deve o Promotor de Justiça, atendendo aos princípios da publicidade e da transparência, informar a parte interessada sobre a decisão de arquivamento do inquérito civil público, peças de informa- ção ou procedimento preparatório, conforme se extrai da norma pre- vista no artigo 223, § 3º, do ECA, que possibilita ao interessado a apre- sentação de razões escritas ou documentos em face da promoção de arquivamento lançada pelo membro do Ministério Público. Observe-se o disposto no artigo 15, § 1º, da Resolução GPGJ nº 1.522/09. De acordo com o teor da Súmula nº 01 do Conselho Superior do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, “no exame dos arqui- 17 vamentos submetidos ao Conselho, o Relator ou o Colegiado poderá determinar a realização de diligências complementares, delegando o seu cumprimento ao Promotor oficiante”. Se o CSMP baixar os autos do procedimento para a realização de diligências complementares, deve-se observar o disposto no artigo 19, § 1º, inciso II, da Resolução GPGJ nº 1.522/09. Já de acordo com a Súmula nº 02 do CSMP, “os arquivamentos dos inquéritos civis, dos procedimentos preparatórios, das peças de informação, dos procedimentos administrativos e outros a eles asse- melhados, instaurados para garantir a tutela de direitos individuais in- disponíveis ou homogêneos referentes a idosos, deficientes, crianças e adolescentes, que não tenham sido submetidos ao crivo do judiciário, estão sujeitos à revisão do Conselho Superior do Ministério Público”. Nesse sentido, o CSMP editou a Recomendação nº 08 de 15/04/2009, publicada no D.O. de 29/04/09, no sentido de que, quan- do o arquivamento se fundar no ajuizamento de ação civil pública ou de outra medida judicial cujo pedido contemple o objeto constante da Portaria de Instauração do Procedimento Administrativo, baseando-se na perda do interesse procedimental, nos termos do Enunciado nº 18 do CSMP, deve ser acompanhado de cópia da respectiva petição inicial e/ou eventual decisão proferida. Quanto a notícias de fatos que ensejem a intervenção do Parquet encaminhadas pelo sistema da Ouvidoria-Geral do Ministério Público, vale lembrar que o Promotor de Justiça deve informar àquele setor, através do próprio sistema, o encaminhamento dado às notícias dire- cionadas ao órgão de execução ministerial. No tocante à atuação judicial, o legislador estatutário legitimou o Ministério Público para deflagrar inúmeras medidas judiciais em prol de crianças e adolescentes que se encontrem com seus direitos funda- mentais ameaçados ou violados. Dentre as hipóteses de legitimação ativa do Ministério Público pre- vistas no Estatuto, destacam-se as seguintes: ações civis públicas, de alimentos, de suspensão ou destituição de poder familiar, de nomeação e remoção de tutor ou de guardião, mandado de segurança, representa- ção por infração às normas de proteção (artigo 201). A Lei Federal nº 12.010/09, que alterou o Estatuto da Criança e 18 do Adolescente, prevê expressamente o cabimento de ação de investi- gação de paternidade, deflagrada pelo Ministério Público (artigo 102, §3º), conforme preconizado pela Lei nº 8.560/92. A atribuição judicial do Promotor de Justiça está atrelada à compe- tência do Juízo da infância e da juventude. O artigo 148 do Estatuto tra- ta da competência desse Juízo, exigindo que, nos casos elencados em seu parágrafo único, esteja presente qualquer das hipóteses previstas no artigo 98 da referida lei. Em não se constatando qualquer dessas hi- póteses, o Juízo competente será aquele indicado na lei de organização judiciária local. No caso do Estado do Rio de Janeiro, de acordo com o Código de Organização Judiciária (CODJERJ), situações envolvendo violações de direitos de crianças e adolescentes que não se encontram em situação de abandono, por exemplo, são de competência do Juízo de Família, Orfanológico ou de Registro Civil, dependendo do caso. Ainda no tocante à atuação judicial, levando-se em consideração os requisitos formais de admissibilidade dos recursos constitucionais, ao deflagrar uma demanda judicial, deve o Promotor de Justiça fazer o necessário prequestionamento, a fim de viabilizar, eventualmente, futura interposição de Recurso Especial e/ou Recurso Extraordinário nos Tribunais Superiores. Assim, deve o Promotor de Justiça indicar na petição inicial as questões constitucionais ou a lei federal afetada, veiculando expressamente a matéria constitucional ou federal debati- da. Convém, outrossim, a indicação de casos similares já julgados por outros tribunais, diante do disposto na alínea c do inciso III do art. 105 da Constituição da República. 19 2. PROTEÇÃO DO DIREITO À VIDA E À SAÚDE 2.1. Considerações sobre o Sistema Único de Saúde e Temas Correlatos O ordenamento jurídico nacional, em perfeita consonância com a legislação internacional relativa à proteção de direitos infantojuve- nis, adotou, quando da promulgação da Constituição da República de 1988, a doutrina da proteção integral, assegurando a crianças e adoles- centes todos os direitos fundamentais necessários a lhes proporcionar pleno desenvolvimento como seres humanos (artigo 227 caput). Den- tre estes direitos fundamentais, destacam-se os direitos à vida e à saúde, sem os quais os demais direitos sequer apresentam relevância. De fato, consoante o disposto nos artigos 6º, 196, 197, 227, caput, da Constituição da República, a saúde é direito de todos e dever do Po- der Público, que deve garantir o acesso universal e igualitário, inclusive a crianças e adolescentes. As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regiona- lizada e hierarquizada, constituindo o Sistema Único de Saúde (SUS), instituído pela Constituição da República (art. 198) e regulamentado pela Lei Federal nº 8.080/90 (Lei Orgânica do SUS), a qual estabelece modelo geral próprio de gestão que integra os três entes federativos. Sabe-se que crianças e adolescentes têm direito ao atendimento in- tegral à saúde, com acesso universal e igualitário por meio de políticas sociais públicas, em regime de absoluta prioridade, permitindo, inclu- sive, o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em con- dições dignas de existência, sendo assegurado à gestante, através do SUS, o atendimento pré e perinatal. A esse respeito, leia-se o disposto nos arts. 4º, 7º, 8º e 11 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Na seara da saúde, deve o Promotor de Justiça verificar o efetivo funcionamento do SUS no Município em que atua, levando em con- sideração – o que é fundamental – o nível de gestão do Município (gestão básica ou gestão plena). De qualquersorte, independente do nível de gestão, o Município é o gestor do sistema local de saúde e responsável pelo cumprimento dos princípios da atenção básica, devendo, para tanto, coordenar, articular, negociar e planejar o sistema de saúde dentro do seu território de forma 20 universal. Caso não se trate de Município de gestão plena, deve-se ga- rantir aos munícipes referências a serviços e ações de saúde de média e alta complexidade, na forma da Portaria nº 648/06 (Política Nacional de Atenção Básica). Importante, portanto, a instauração de inquérito civil público para fiscalizar o regular funcionamento do SUS, através de Termo de Ajusta- mento de Conduta ou Recomendações, se verificada a inexistência ou o oferecimento irregular de programas ou serviços na área de saúde. Importa, também, ao Promotor de Justiça buscar, no âmbito do SUS, a adoção de medidas destinadas a assegurar, por exemplo, a melhoria do acesso, da cobertura e da qualidade de acompanhamento do pré-natal, da assistência ao parto e puerpério e da assistência neonatal, com a implementação das redes de assistência à gestação de alto risco (UTI neonatal).) A par da fiscalização da rede de atendimento à saúde, é importante que o Promotor de Justiça leve em consideração outros aspectos que merecem ser fiscalizados, como por exemplo: • A necessária edição de Lei Municipal criadora do Fundo Municipal de Saúde, onde necessariamente devem ser alocados os recursos financeiros destinados à implementação das políticas públicas de saúde, cuja fiscalização compete ao Conselho Municipal de Saú- de, materializando uma das diretrizes constitucionalmente previstas para o SUS - a participação da comunidade na gestão dos recursos destinados às ações e serviços públicos de saúde -, consoante o disposto no artigo 198, inciso III da Constituição da República, no artigo 33 da Lei Federal nº 8.080/90 e no artigo 4º da Lei Federal nº 8.142/90. • O processo de planejamento e orçamento do SUS, que consiste na compatibilização das necessidades da política de saúde do municí- pio com a disponibilidade de recursos constantes do plano de saúde municipal, conforme estabelece o art. 36, caput da Lei Federal nº 8.080/90. • O plano de saúde municipal, que é a base das atividades e progra- mações do SUS, cujo financiamento deve ser previsto na corres- pondente proposta orçamentária, sendo vedada a transferência de recursos para o financiamento de ações não previstas no aludido 21 plano, exceto em situações emergenciais ou de calamidade pública, conforme previsto no artigo 36, § 1º e 2º da nº 8.080/90 e no artigo 4º, inciso III, da Lei Federal nº 8.142/90. • A imprescindível elaboração do relatório de gestão, viabilizando o adequado controle da correta destinação dos recursos pelo Ministé- rio da Saúde, para as ações e serviços de saúde outrora programa- dos no plano de saúde municipal, conforme o disposto no artigo 33, § 4º da Lei Federal nº 8.080/90 e no artigo 4º, inciso IV da Lei Federal nº 8.142/90. • A apresentação, pelo gestor municipal, de dados trimestrais sobre o montante e a fonte de recursos aplicados, sobre as auditorias con- cluídas ou iniciadas no período, bem como sobre a oferta e produ- ção de serviços na rede assistencial própria. A prestação de contas deverá ser feita perante o Conselho de Saúde e em audiência públi- ca na Câmara dos Vereadores. • O funcionamento das Comissões Intergestoras Bipartite e Tripartite, que constituem espaços de pactuação entre os entes federativos, ob- jetivando articular políticas e programas de interesse para a saúde, envolvendo áreas não compreendidas pelo SUS, consoante dispõe o artigo 12 da Lei Federal nº 8.080/90. • A possibilidade dos entes federativos constituírem consórcios pú- blicos para desenvolver, em conjunto, ações e serviços de saúde, observando-se os princípios, diretrizes e normas que regulam o SUS, segundo disposto no artigo 10º da Lei Federal nº 8.080/90. Ainda no que se refere à proteção dos direitos à vida e à saúde, saliente-se a eventual necessidade de fornecimento de medicamentos e/ou tratamentos específicos pelo Poder Público Municipal ou Estadu- al, podendo o Promotor de Justiça deflagrar ação civil pública para a garantia do interesse individual indisponível à vida ou à saúde de crian- ça ou adolescente. Trata-se de atribuição não exclusiva do Ministério Público, pois o titular do direito lesado (criança ou adolescente), repre- sentado ou assistido pelos pais ou responsável legal, também poderá pleitear a tutela específica em Juízo, através de advogado particular ou de Defensor Público. Tal possibilidade não afasta, porém, a legiti- midade do Ministério Público, consoante pacífico entendimento dos Tribunais Superiores nesse sentido. 22 2.2. Considerações sobre Saúde Mental e Drogadição Outra importante área de atuação em matéria de direitos de crian- ças e adolescentes é a da saúde mental, em que também é fundamental a instauração de inquérito civil público para a fiscalização quanto à existência e à regularidade da rede de atendimento. Considerando-se o porte do Município, especialmente o número de habitantes, sugere- se a celebração de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para a implantação de unidades de atendimento pertinentes. Tais unidades, estabelecidas pela Portaria/GM nº 336 de 19 de fevereiro de 2002 (dis- ponível para consulta na página da intranet do 4º CAOp) e designadas por Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), possuem base territorial e comunitária e constituem dispositivos de Atenção Psicossocial que, após a reforma psiquiátrica, têm sido o esteio do processo de substitui- ção dos antigos manicômios. Os CAPS são divididos entre cinco mo- dalidades de serviços, de acordo com o número de habitantes abran- gidos e a complexidade do atendimento: CAPS I, CAPS II e CAPS III, definidos por ordem crescente de porte/complexidade e abrangência populacional, e CAPSi e CAPSad. O CAPSi - serviço de atenção psicossocial específico no atendimen- to de crianças e adolescentes, consoante o item 4.4 da citada Portaria, tem como objetivo principal ser a porta de entrada e o ordenador da rede de políticas públicas de saúde mental direcionadas para a popula- ção infantojuvenil. O item 4.5 norteia as diretrizes de funcionamento do CAPSad, equipamento que atende pacientes com transtornos decor- rentes do uso e dependência de substâncias psicoativas. Quanto ao atendimento no setor da Saúde Mental, a Portaria nº 1.060/GM de 5 de junho de 2002 (Plano Nacional de Saúde da Pessoa Portadora de Deficiência) e o Plano de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro 2007/2010 (ambos disponíveis para consulta na página da intranet do 4º CAOp) preveem que a assistência à saúde da pessoa portadora de deficiência não deve ocorrer somente nas instituições es- pecíficas de reabilitação, devendo-lhe ser assegurado o atendimento na rede de serviços, nos diversos níveis de complexidade e especialidades médicas. No tocante à proteção de crianças e adolescentes usuários de dro- gas, a Constituição da República e o Estatuto da Criança e do Adoles- 23 cente estabeleceram importantes princípios, mas somente nos anos de 2001 e 2004 entraram em vigor normas federais específicas sobre a matéria. O primeiro exercício necessário aos operadores de todas as discipli- nas envolvidas na assistência e no cuidado aos usuários de drogas é a conciliação entre as normas federais relativas à saúde mental e as nor- mas constitucionais e infraconstitucionais afetas a crianças e adolescen- tes. A despeito de algumas polêmicas existentes nesse campo, alguns princípios são consensuais e prevalentes, como o da proteção integral, que assegura, além dos direitos fundamentais garantidos a qualquer pessoa, oportunidades e facilidades na busca do desenvolvimento fí- sico, mental, moral, espiritual e social de crianças e adolescentes, em condições de liberdade e dignidade. A diversidade de ações necessárias à concretização desses direitose garantias impõe o concurso de profissionais e setores no atendimento a crianças e adolescentes, configurando o que se tem chamado de “inter- setorialidade” e “rede de atendimento”. Contudo, apesar dos esforços e da criatividade da maioria dos profissionais envolvidos no atendimen- to direto, a construção da rede de atendimento vem se realizando de modo empírico, a partir dos casos concretos, faltando sistemática na implementação de uma política pública para o setor. Por isso, uma medida importante a todos os atores do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente e, especialmente, ao Promotor de Justiça atuante na área, é o conhecimento da rede de saúde mental existente e do fluxo para o atendimento de crianças e adolescentes usuários de drogas, aí considerados todos os níveis de complexidade e, portanto, todos os dispositivos de saúde disponíveis, como por exemplo: emergências clínicas e psiquiátricas, SAMU, CAPS, CAPSi, CAPSad, Postos de Saúde e cobertura do Programa de Saúde da Família. Para tanto, além da expedição de ofício à autoridade mu- nicipal (Prefeito ou Secretário Municipal de Saúde) requisitando tais informações, mostra-se muito eficaz o contato do Promotor de Justiça com o Coordenador de Saúde Mental do Município, não apenas para a obtenção de tais dados, como também para a otimização dos enca- minhamentos e a integração entre a rede de atendimento e os órgãos protetivos da infância e da adolescência. 24 Da mesma forma, é necessário conhecer a rede da assistência so- cial, tanto para o acolhimento de crianças e adolescentes usuários de drogas que estejam com os vínculos familiares rompidos (equipes de abordagem, abrigos e/ou Programa Família Acolhedora – SUAS), quan- to para o atendimento das famílias, através de programas de apoio que não se limitem à transferência de renda, com vistas a potencializar os detentores do poder familiar. Uma vez conhecida a rede existente, torna-se possível ao Promo- tor de Justiça analisar se os parâmetros da legislação já apontada vêm sendo atendidos e, por conseguinte, as medidas a serem adotadas, levando-se em consideração, principalmente, como já mencionado, o porte do município e as peculiaridades locais. Para melhor subsidiar a decisão a respeito da medida (extrajudicial ou judicial) a ser adotada, é fundamental a análise de alguns aspectos relevantes acerca da situação da criança ou adolescente a que se deve proteger e de suas famílias. Nesse sentido, é preciso avaliar os vínculos e o suporte familiar existen- te, bem como se o uso da droga vem impedindo o exercício de direitos fundamentais, como o convívio em família, a frequência à escola, a prática de esporte e o lazer, representando a droga o único interesse na vida da criança ou do adolescente. Nessa linha, sugerem-se algumas diretrizes: • Usuário de drogas, com suporte familiar e em exercício de direitos fundamentais: pode ser atendido na rede de atenção básica, CAPSi , CAPSAd, com apoio à família através dos CREAS/CRAS e interlo- cução entre os órgãos (sobre CREAS e CRAS, órgãos do SUAS, v. Capítulo 8). • Usuário de drogas, sem suporte familiar (inclusive família extensa) e em exercício de direitos fundamentais: em tese, é cabível medida protetiva de abrigo cumulada com cuidados de saúde mental espe- cializados nos CAPS ou ambulatórios, com a busca da promoção da família. Vale lembrar que a autoridade legitimada para a aplicação primária de medidas de proteção é o Conselho Tutelar (v. Capítulo 7). Entretanto, se houver necessidade de afastamento compulsório da criança ou do adolescente do seio familiar, o Promotor de Justiça deve requerer tal medida à autoridade judiciária, nos termos do art. 102, § 2º do Estatuto da Criança e do Adolescente, com a redação 25 dada pela Lei nº 12.010/09. Não sendo possível a reintegração fa- miliar, após esgotadas todas as possibilidades nesse sentido, deve- se viabilizar a colocação em família substituta (v. Capítulo 6). • Usuário de drogas, sem suporte familiar e sem conseguir exercer seus direitos fundamentais: necessidade da medida de abrigo (ex- cepcional e provisória, conforme exposto no Capítulo 6) ser acom- panhada da garantia do cuidado intensivo de saúde mental até que se possa gradativamente reforçar a auto-estima, promover a família, buscar a colocação em família substituta e a reinserção social, e o posterior encaminhamento aos demais dispositivos da rede. O lugar deve oferecer proteção e cuidado, através de um projeto terapêu- tico individualizado, que proporcione condições de escolhas con- sonantes com seus direitos fundamentais. Tal serviço só se mostra viável através da efetiva integração entre as Secretarias Municipais de Assistência Social e de Saúde, o que pode ser buscado pelo Mi- nistério Público. • Usuários de drogas com ou sem suporte familiar com sintomas que indiquem clinicamente a necessidade de internação psiquiátrica: o estado de saúde da criança ou adolescente deve ser avaliado por profissionais da saúde, valendo ressaltar que, de acordo com o art. 4º da Lei nº 10.216/01, “a internação, em qualquer de suas moda- lidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes”. Percebe-se que a definição do fluxo do atendimento, a sua divul- gação e a permanente articulação entre os órgãos afiguram-se instru- mentos essenciais para a garantia do direito à saúde, que pressupõe o direito de ser cuidado a tempo, sem a necessidade de qualquer inter- venção do Ministério Público ou do Poder Judiciário. Evitam-se assim eventuais internações compulsórias descabidas, sobretudo pela falta de “lugares” adequados àqueles que estão sob grave risco social e deman- dam cuidados intensivos de saúde mental. Ressalte-se que, a Lei Federal nº 10.216/01, em seu artigo 2º, garan- te a pessoas portadoras de transtorno mental o direito ao acesso ao me- lhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo às suas necessidades (inciso I) e o direito de ser tratada em ambiente terapêutico pelo meio menos invasivo possível (inciso II). 26 Caso o acolhimento e o tratamento dos usuários de drogas não se- jam garantidos a crianças e adolescentes, restará configurada a hipótese prevista no artigo 98, inciso I, do ECA, impondo-se a atuação do Con- selho Tutelar e do Ministério Público. Sem prejuízo das medidas destinadas à efetiva implementação da rede ideal, importa frisar a necessidade de ser garantida a assistência através da rede possível, através da comunicação e da troca de infor- mações, afinando-se a sintonia de solução para cada caso concreto. Além das medidas judiciais com vistas a compelir o Poder Executivo a implementar os dispositivos de tratamento dos usuários de drogas, é pertinente e, na maioria das vezes, mais eficiente, como pontuado no Capítulo 1, a atuação extrajudicial do Promotor de Justiça com atribui- ção na área da Infância e Juventude, através do incentivo e da promo- ção de reuniões e recomendações aos gestores públicos.1 Enfim, apontam-se algumas normas jurídicas pertinentes ao tema tratado neste Capítulo: Convenção da ONU sobre Direitos da Criança (Decreto nº 99710/90); art. 227, parágrafo 3º, inciso VII, da CR; arts. 2º, 3º, 4º, 5º, 6º, 7º, 15, 16, 17, 18, 81, II e III, 90 e seguintes, 98, 100, 101, 129, 136, 208, VII e 243, todos da Lei Federal nº 8.069/90 (ECA); Lei Fede- ral nº 10.216/01; Portaria nº 336/02, do Ministério da Saúde; Portaria GM nº 154, de 24/01/2008; Portaria nº 245/GM, de 17/02/2005; Por- taria GM nº 1.612, de 09/09/2005; Portaria nº 251/GM, de 31/01/02. 1 Por oportuno, recomenda-se a leitura do texto Saúde Mental passo a passo: como organizar a rede de saúde mental no seu município?, disponibilizado no endereço eletrônico http:// portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/rede_de_saude_mental_revisado_6_11_2008.pdf. 27 3. PROTEÇÃO DO DIREITO À EDUCAÇÃO O direito fundamental de crianças e adolescentes à educação vem sendo reiteradamente descumprido pelo PoderPúblico, sendo notório o descaso com a oferta e a qualidade do ensino público gratuito. A falta de vagas em creches e escolas, a carência de professores, a au- sência de profissionais com aptidões para lidar com alunos especiais, a péssima qualidade do ensino, a não conservação das escolas, a falta de transporte escolar, dentre outros, constituem fatores recorrentes que geram inestimáveis prejuízos à formação escolar dessa população em desenvolvimento. Diante de ameaça ou violação ao direito à educação, deve o Pro- motor de Justiça adotar as medidas extrajudiciais e judiciais que se mostrarem cabíveis em cada caso concreto, a fim de garantir o acesso universal de crianças e adolescentes ao sistema educacional. Em diversos municípios fluminenses, como ocorre em todo o país, pode-se constatar a enorme carência de vagas em creches e em escolas municipais e estaduais, bem como o insuficiente número de professo- res para dar cumprimento à grade curricular, especialmente nas escolas de ensino médio. Em muitos casos, a atuação na esfera extrajudicial do Ministério Público é suficiente para a solução do problema, através da celebração de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que tenha por objeto a construção de novas creches e escolas, a ampliação do nú- mero de vagas para crianças e adolescentes ou a adoção das medidas que se mostrarem necessárias para o cumprimento da grade curricular, como a realização de concurso público para o cargo de professor ou o aumento da carga horária de professores da rede pública de ensino, através da Gratificação por Lotação Prioritária (GLP). Se a atuação na esfera extrajudicial não se mostrar viável, deverá o Promotor de Justiça deflagrar em juízo ação civil pública em face do ente político-administrativo autônomo responsável pela prestação do serviço educacional, em regra, o Município para a educação infantil e o ensino fundamental, e o Estado para o ensino médio, conforme o disposto no artigo 211 e seus parágrafos, da Constituição da República. No que se refere ao ensino fundamental, merece registro a questão relativa à pretensa limitação do seu acesso à idade mínima de seis anos. O artigo 32 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei Fe- 28 deral nº 9.394/96) prevê que o ingresso de crianças na educação infan- til ocorre aos seis anos de idade. Por sua vez, o artigo 2º da Delibera- ção CEE nº 308, expedida pelo Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro em 23 de outubro de 2007, dispõe que somente as crianças que completarem seis anos até o primeiro dia do ano letivo poderão se matricular no primeiro ano do ensino fundamental. Todavia, pesquisa jurisprudencial revela a existência de julgados proferidos por tribunais do país admitindo a matrícula, no ensino fundamental, de crianças que vierem a completar a idade de seis anos após o início das aulas, com fulcro no princípio da razoabilidade, conduzindo ao entendimento de que a deliberação do CEE, nesse particular, é inconstitucional. A legislação pertinente a esta matéria e as ementas dos acórdãos mencionados encontram-se disponíveis na página do 4º CAOp na in- tranet. Na hipótese de eventual recusa do ente público em realizar a matrícula de criança na situação mencionada, é possível a impetração de mandado de segurança ou o ajuizamento de ação civil pública pelo Ministério Público. O direito fundamental à educação, em sua acepção mais ampla, não se esgota na garantia da matrícula de crianças e adolescentes em creches e escolas em determinado município. Tal direito somente se concretiza, em sua plenitude, pelo efetivo acesso de crianças e ado- lescentes às instituições de ensino, as quais devem estar localizadas em área próxima às suas residências, ou, caso assim não ocorra, o seu acesso deve se dar por intermédio de transporte escolar público e gra- tuito, o qual deve ser diretamente oferecido pelos entes municipais e estaduais, facultada a concessão a particulares. Verificada a deficiência do transporte escolar, sugere-se que o Promotor de Justiça realize con- tatos e reuniões com Secretários Municipais (de Educação e de Trans- portes) e, também, caso tenha havido concessão, com representantes de empresas particulares de transporte, visando à solução do problema na esfera extrajudicial, podendo haver a celebração de Termo de Ajus- tamento de Conduta (TAC). Não se mostrando viável a composição, deve o Promotor de Justiça deflagrar ação civil pública em face do ente municipal (educação infantil e ensino fundamental) ou do ente estadu- al (ensino médio), a fim de garantir que as crianças e os adolescentes da localidade tenham acesso às suas escolas. Outro desafio na área da educação é o combate à evasão escolar, 29 que pode ocorrer pelos mais variados motivos, tais como: desinteresse do aluno, dificuldades familiares, problemas de relacionamento com colegas e professores, dentre outros. Cabe aos pais, em decorrência do poder familiar, o dever de matricular e acompanhar a frequência e o aproveitamento escolar de seus filhos menores de 18 anos. À escola incumbe, consoante o disposto no artigo 56, inciso II, do ECA, o dever de, uma vez configurada a reiteração de faltas injustifica- das ou a evasão escolar, notificá-las ao Conselho Tutelar. Compete ao Conselho Tutelar, portanto, o controle da evasão escolar, bem como a aplicação de medidas de proteção à criança ou ao adolescente faltoso ou evadido e, se for o caso, de medidas aos pais, dentre aquelas previs- tas nos incisos I a VII do artigo 129 do ECA, consoante o disposto no art. 136, incisos I e II do referido Diploma Legal. Sugere-se ao Promo- tor de Justiça que fiscalize, nesse particular, a efetividade do trabalho desenvolvido pelo referido órgão municipal em sua área de atuação. Esgotadas as tentativas do Conselho Tutelar, em sua esfera de atu- ação administrativa, no sentido de viabilizar o retorno de crianças e adolescentes às escolas, pode ele deflagrar representação cível em face dos pais ou responsáveis pela prática da infração administrativa prevista no artigo 249 do ECA (descumprimento dos deveres inerentes ao poder familiar), consoante o disposto no artigo 194 do ECA. Registre-se que o Ministério Público também é legitimado a deflagrar em juízo represen- tação cível em face dos pais, na forma do mencionado dispositivo legal. Por fim, é oportuno lembrar que o artigo 6º da Lei Federal nº 9.870/99 veda a retenção de histórico escolar em razão do inadimplemento no pagamento de mensalidades. Algumas escolas particulares reiteram a prática ilegal, exigindo a quitação das mensalidades em atraso, ao invés de pleitearem judicialmente a cobrança ou a execução cabível em face dos genitores inadimplentes. Ao ser cientificado dessa prática abusiva, pode o Promotor de Justiça expedir ofício à direção da escola, recomen- dando a entrega do histórico escolar em prazo estipulado, na sede do Parquet ou diretamente aos genitores do aluno. Caso a medida extraju- dicial não seja suficiente, sugere-se que o Promotor de Justiça impetre mandado de segurança ou, conforme o caso, deflagre ação de obrigação de fazer com pedido de tutela antecipada visando à entrega do histórico, requerendo, nesta última hipótese, a fixação de multa diária em caso de descumprimento de eventual decisão judicial favorável ao pleito. 30 4. PROTEÇÃO DO DIREITO À CULTURA, AO ESPORTE E AO LAZER Prevê o artigo 71 do ECA o direito da criança e do adolescente à informação, cultura, lazer, esportes, diversões, espetáculos e produtos e serviços que respeitem sua condição peculiar de pessoa em desen- volvimento. Estabelece, ainda, o artigo 74, a obrigação do poder público de regular as diversões e espetáculos públicos, informando sua natureza, faixas etárias a que não se recomendem, além de locais e horários em que sua apresentação se mostre inadequada. Prossegue o legislador afirmando que toda criança e adolescente terão acesso a diversões e espetáculos públicos classificadoscomo ade- quados à sua faixa etária (art. 75). O artigo 149 do ECA prevê ainda que a entrada de crianças e ado- lescentes desacompanhados dos pais ou responsável nos estabele- cimentos de diversão elencados no citado dispositivo, assim como a participação em espetáculos públicos e certames de beleza deve ser disciplinada pela autoridade judiciária, mediante portaria, ou alvará, sendo este requerido em Juízo pelo interessado. No requerimento de alvará judicial, o pedido deve ser analisado individualmente, em especial no que se refere à adequação da faixa etária para ingresso de crianças e adolescentes desacompanhados, bem como no tocante à observância de todas as normas de segurança. Nes- se particular, comumente são exigidos o laudo de liberação do local do evento expedido pelo Corpo de Bombeiros, a comprovação de co- municação do evento à Polícia Militar, informações sobre o número de seguranças contratados, dentre outros requisitos que se mostrarem cabíveis no caso concreto. Também, no que concerne às portarias, as hipóteses devem ser disciplinadas pela autoridade judiciária caso a caso, atendo-se exclu- sivamente ao exaustivo rol previsto no dispositivo em comento (art. 149). Ao contrário do que facultava a revogada legislação (Código de Menores de 1979), no atual sistema, o procedimento para a expedição de portaria demanda, ainda, a observância dos princípios constitucio- nais garantidores da legalidade, do contraditório, da ampla defesa e do 31 devido processo legal, devendo ser intimados os interessados atingidos pela medida, devendo, é claro, oficiar no procedimento o Ministério Público, sob pena de nulidade. Nas hipóteses em que a autoridade judiciária expedir portaria ju- dicial fundamentada no artigo 149 do ECA sem a observância das ga- rantias constitucionais e legais anteriormente indicadas, é possível a impetração de mandado de segurança ou de recurso de apelação (art. 199 do ECA), conforme o caso concreto. Cumpre fazer referência às Resoluções nº 2 e 30, ambas expedi- das, no ano de 2006, pelo Conselho de Magistratura do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. A Resolução nº 2/06 determinou a revogação de todas as portarias judiciais, provimentos e quaisquer outras disciplinas normativas emitidas por Juízes da Infância e da Ju- ventude do Estado do Rio de Janeiro, que não se refiram às hipóteses do artigo 149 do Estatuto da Criança e do Adolescente. A Resolução nº 30/06, por sua vez, regulamentou a expedição de portarias judiciais pelos Juízes da Infância e da Juventude, observando-se o princípio da razoabilidade e os ditames do ECA, prevendo, em seu Anexo I, o rito para edição das portarias, com a necessária manifestação do Ministério Público, no prazo de 05 (cinco) dias. Desta forma, nas hipóteses em que o Juiz de Direito expede portaria judicial sem observar o procedimento previsto no Anexo I da Reso- lução nº 30/06, estando eivado ou não de inconstitucionalidade ou ilegalidade o teor da portaria, poderá o Promotor de Justiça impetrar mandado de segurança, atacando o ato administrativo violador dos in- teresses de crianças e adolescentes. Por outro lado, nas hipóteses em que o Juízo expede portaria com a observância do procedimento acima mencionado, havendo disposi- tivo ilegal ou inconstitucional, poderá o Promotor de Justiça interpor recurso de apelação. Em muitos casos, o Promotor de Justiça tem ciência prévia da reali- zação de eventos sem que o organizador tenha requerido alvará judi- cial para o ingresso de crianças e/ou adolescentes desacompanhados. Caso o Promotor de Justiça possa aferir, no caso concreto, que a reali- zação de determinado evento é lesiva a direitos das crianças e/ou dos adolescentes, expondo-os a situações que coloquem em risco a sua 32 integridade física e/ou psíquica, é cabível o ajuizamento de ação civil pública com pedido liminar que tenha por objeto obrigação de não fazer consistente, por exemplo, na não realização do evento. Nas hipóteses de grandes eventos, que certamente contarão com a presença de crianças e adolescentes, tais como feiras agropecuárias, shows de grande porte, dentre outros, pode o Promotor de Justiça ce- lebrar Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o organizador do evento, visando a resguardar os interesses da população infantojuvenil. 33 5. PROTEÇÃO DO DIREITO À LIBERDADE, AO RESPEITO E À DIGNIDADE A Carta Magna de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente introduziram uma radical mudança de paradigmas no que concerne à garantia e à proteção de direitos infantojuvenis. Crianças e adolescen- tes passaram da histórica condição de objetos de medidas por parte da família, da sociedade e do Estado, para o patamar de sujeitos de direitos. A doutrina da proteção integral confere a infantes e adolescentes to- dos os direitos fundamentais inerentes aos adultos, compatíveis com a sua peculiar condição de pessoas em desenvolvimento, além de outros, especiais, que se mostrem necessários a garantir a sua plena formação. Nesse contexto, os direitos à liberdade, ao respeito e à dignidade se sobressaem, merecendo especial atenção, posto que, secularmente, fo- ram sonegados a essa parcela da população. Dispõe o Estatuto, em seu art. 15, que a criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, hu- manos e sociais garantidos na Constituição e nas leis. O art. 16 elenca os principais aspectos compreendidos pelo direito à liberdade: I – ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços co- munitários, ressalvadas as restrições legais; II – opinião e expressão; III – crença e culto religioso; IV – brincar, praticar esportes e divertir-se; V – participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação; VI – participar da vida política, na forma da lei; VII – buscar refúgio, auxílio e orientação. Dentre tais aspectos, cabe pontuar que, não obstante crianças e ado- lescentes tenham o direito de ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, a própria lei ressalva as restrições legais (art. 16, I, in fine). A esse propósito, cabe registrar que crianças e adolescentes em situação de rua estão em inegável risco social, tendo os seus direi- tos fundamentais à proteção, à convivência familiar, à vida, à saúde, à educação e à moradia, dentre outros, frontalmente violados. Assim, deve-se levar em consideração que todos esses direitos fundamentais devem ser respeitados. 34 Como se sabe, o direito à liberdade não implica em falta de limites. Ademais, sabe-se da importância da imposição de limites e da inter- venção de normas sociais para a formação do ser humano, que é um ser social. Assim, é falacioso o discurso adotado por alguns no sentido de que o ECA somente atribui direitos a crianças e adolescentes, sem os de- veres correlatos, partindo de uma equivocada compreensão sobre o direito à liberdade, no sentido de que crianças e adolescentes teriam o direito de viver nas ruas, de não respeitar os pais, etc. O direito ao respeito, consistente na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, também merece especial atenção, posto que, culturalmente, é comum a aceitação de condutas que, juridicamente, constituem atentados contra este direito fundamental. Casos de abusos físicos e sexuais contra crianças e ado- lescentes são frequentes e nem sempre recebem a reprimenda necessá- ria por parte da família, da sociedade ou do próprio Estado. A dignidade da pessoa humana, fundamento da República Federati- va do Brasil (art. 1º, III da CF), também se refere a crianças e adolescen- tes, pessoas em condição de desenvolvimento, sendo dever de todos velar por sua dignidade, colocando-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor (art. 18 do ECA). Cabe ao Ministério Público, alçado pela sociedade, através do Poder Constituintee da legislação infraconstitucional, à condição de guardião dos direitos infantojuvenis, exercer sua relevante missão institucional de contribuir para a transformação da realidade, garan- tindo a plena efetivação dos direitos fundamentais dos quais crianças e adolescentes são titulares. Certamente, o exercício dessa relevante missão se dá diante das questões que cotidianamente se apresentam ao Promotor de oportunidades em que tem o poder-dever de interferir positivamente como agentes de transformação social. Várias são as hipóteses de violação aos direitos à liberdade, ao res- peito e à dignidade de crianças e adolescentes, as quais demandam diversas providências. O Promotor de Justiça, ao receber notícia de ameaça ou violação desses direitos, poderá, dependendo do caso concreto, adotar as se- guintes medidas: 35 (i) Nas hipóteses de suspeita ou confirmação de maus tratos, verificar se o caso está sendo apurado pelo Conselho Tutelar (art. 13 do ECA) e se aquele órgão aplicou as medidas de proteção cabíveis. (ii) Se o fato noticiado, em tese, configurar crime, verificar se a auto- ridade policial ou a Promotoria de Investigação Penal ou, se for o caso, a Promotoria com atribuição nas hipóteses de crimes de me- nor potencial ofensivo foi devidamente comunicada. (iii) Verificar a necessidade de medida judicial urgente a ser deflagra- da perante o Juízo da Infância e da Juventude para salvaguardar a integridade física, psíquica ou moral da criança ou adolescente, de modo a assegurar os direitos fundamentais em comento (por exem- plo, afastamento do agressor do lar comum, com fulcro no artigo 130, do ECA, busca e apreensão da criança, dentre outras). O exem- plo clássico seria a hipótese em que o pai abusa física ou sexual- mente da criança e a mãe, ciente do fato, permanece omissa. Tais pedidos podem ser deduzidos autonomamente ou no bojo de uma representação cível em decorrência da prática de infração adminis- trativa tipificada no artigo 249 do ECA ou, ainda, se for o caso, de destituição de poder familiar. Já numa situação de abuso físico ou sexual por parte de um dos genitores (por exemplo, o pai), mas com atitude protetiva do outro (no caso, a mãe), esta deve ser orientada a requerer as medidas judiciais cabíveis perante o Juízo de Família (afastamento do lar, perda da guarda, suspensão de visitação, dentre outras), através de advogado, público ou particular. (iv) Na hipótese de se mostrar necessária a apuração mais aprofundada dos fatos, sugere-se a instauração de procedimento administrativo que, futuramente, caso comprovada a sua veracidade, embasará o pedido a ser deduzido em juízo (representação cível por infração administrativa tipificada no artigo 249 do ECA, pedido de nomea- ção de guardião ou pedido de destituição de poder familiar, dentre outros, conforme o caso). O abuso sexual de crianças e adolescentes, prática infelizmente co- mum, na maioria dos casos ocorrida dentro do seio familiar (abuso se- xual intrafamiliar), constitui grave violação aos direitos de que se trata neste capítulo. Crianças e adolescentes têm direito ao desenvolvimento sexual sadio. Nas hipóteses em que o(a) abusador(a) exerce o poder fa- 36 miliar, sendo o outro genitor omisso, cabe ao Promotor de Justiça ana- lisar, no caso concreto, o cabimento de ação de destituição do poder familiar que, em razão da natureza do pedido, torna-se medida gravosa e excepcional em nosso ordenamento jurídico. A par dessa análise, sempre se faz cabível representação cível pela prática de infração administrativa em face do(a) abusador(a) e do outro genitor omisso, em razão da prática da infração tipificada no artigo 249 do ECA (descumprimento doloso dos deveres inerentes ao poder fami- liar ou decorrente de tutela e guarda). Numa ou noutra hipótese, o pedido principal deve ser cumulado com o pedido cautelar de afastamento do agressor da moradia comum, com fulcro no artigo 130 do ECA, e como forma de resguardar a integri- dade física de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual. Lamentavelmente, em diversas hipóteses a própria família não asse- gura a proteção da criança / adolescente vítima de abuso sexual, haven- do uma tendência frequente de não se dar o devido crédito ao relato da vítima. Não se deve olvidar, ainda, da “síndrome do silêncio” ou “lei do segredo”, uma espécie de pacto, inconsciente, estabelecido entre os membros da família em que ocorre o abuso sexual, tendo por obje- tivo ocultar a situação abusiva e, por conseguinte, manter a estrutura familiar. Em tais situações, em que pese a garantia prevista no artigo 130 do ECA, que determina o afastamento do agressor da moradia comum, e não da criança / adolescente vítima de abuso sexual, é possível que tal medida seja infrutífera, razão pela qual sugere-se que o Promotor de Justiça verifique a possibilidade de que a criança ou adolescente seja acolhida, mediante a concessão de guarda, por membro da famí- lia extensa ou seja incluída em programa de família acolhedora, caso existente no Município. Quando tais hipóteses não se mostrarem viáveis no caso concreto, a criança ou adolescente poderá ser encaminhado para acolhimento institucional, devendo o Promotor de Justiça zelar para que tal medida protetiva de abrigamento tenha o caráter de excepcionalidade e pro- visoriedade que a lei lhe confere, zelando pelo direito da criança ou adolescente vitimado de ser criado e de se desenvolver no seio de uma família saudável e protetora. 37 Tais casos de abuso sexual demonstram inegável omissão dos geni- tores, podendo ser ajuizada representação cível pela prática de infra- ção administrativa prevista no artigo 249 do ECA ou mesmo a ação de destituição do poder familiar, caso tal providência se mostre adequada no caso concreto. De qualquer sorte, é recomendável que a criança ou adolescente vítima de abuso sexual seja encaminhado(a) a tratamento psicológico especializado, oferecido pela rede municipal de saúde ou por organi- zações não governamentais existentes no Município. A inexistência de registro de nascimento configura outra hipótese de violação dos mais basilares direitos fundamentais de crianças e ado- lescentes, conferindo ao Promotor de Justiça em atuação na área da infância e da juventude atribuição para agir na defesa desses direitos (artigo 102 e artigo 201, inciso VIII do ECA). Deve o Promotor de Jus- tiça, visando à regularização da situação do registro civil de crianças e adolescentes, acionar o Conselho Tutelar, que tem por atribuição pre- cípua atender a crianças e adolescentes que tenham qualquer de seus direitos fundamentais violados, bem como a seus pais ou responsável. Pode, ainda, o Promotor de Justiça expedir ofício aos estabelecimentos de ensino existentes no Município, solicitando que comuniquem casos de alunos matriculados que nunca tiveram registro civil de nascimento, utilizando, de forma facultativa, o modelo de ficha de notificação de ausência de registro civil elaborada para esse fim. Constatada a omissão dos genitores na regularização da situação jurídica de crianças e adolescentes, e esgotada a atuação não jurisdi- cional do Conselho Tutelar, deve o Promotor de Justiça requerer, judi- cialmente, o registro civil de nascimento, a título provisório (quando os genitores também não possuem registro civil ou quaisquer outros documentos) ou definitivo (quando há reconhecimento de paternidade ou declaração de nascido vivo – DNV), possuindo os genitores docu- mentos de identificação. 38 6. PROTEÇÃO DO DIREITO À CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA 6.1. Breves Considerações O direito de crianças e adolescentes à convivência familiar e comu- nitária encontra-se assegurado no artigo 227 da CR e é regulamentado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, recentemente alterado pela Lei nº 12.010/09, que aperfeiçoou a sistemática prevista para a garantia do referido direito fundamental. A família é o lugar natural da criança e do adolescente,onde poderá se desenvolver plenamente, garantindo-lhes o ordenamento jurídico pátrio o direito de serem criados e educados em seu seio e, excepcio- nalmente, em família substituta, assegurada a convivência familiar e comunitária (art. 19 do ECA). Num País que historicamente afastou crianças e adolescentes po- bres de seus núcleos familiares, sob os mais diversos fundamentos, precisou o legislador estatutário dispor que a falta ou a carência de recursos materiais não constitui motivo suficiente para a perda ou a suspensão do poder familiar. Inexistindo outro motivo que por si só au- torize a decretação da medida, a criança ou o adolescente será mantido em sua família de origem, a qual deverá obrigatoriamente ser incluída em programas oficiais de auxílio (art. 23 do ECA). Diante da necessidade de mudança da cultura e da prática existente no País em relação ao afastamento de crianças e adolescentes do conví- vio familiar, com vistas à urgente adequação da realidade nacional aos ditames legais, a sociedade brasileira, capitaneada pelo Conselho Na- cional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) e pelo Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS), elaborou, no ano de 2006 – com base nos subsídios fornecidos pela Comissão Intersetorial para Promoção, Defesa e Garantia do Direito de Crianças e Adolescen- tes à Convivência Familiar e Comunitária, composta por órgãos gover- namentais e por entidades da sociedade civil – o Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária, documento que busca nortear as políticas e ações voltadas para a garantia do direito de crianças e adolescentes serem criados e educados no seio de uma família. 39 Esse Plano, cuja íntegra pode ser consultada através da página do 4º CAOP na intranet, constitui um marco nas políticas públicas no Brasil, ao romper com a cultura da institucionalização de crianças e adoles- centes e fortalecer o paradigma da proteção integral e da preservação dos vínculos familiares e comunitários preconizados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Nesse processo de mudança, a nova Lei nº 12.010/09 reforça a op- ção do legislador pela família de origem da criança, estatuindo que a intervenção estatal será prioritariamente voltada à orientação, apoio e promoção social da família natural, junto à qual a criança e o adoles- cente devem permanecer, ressalvada absoluta impossibilidade (art. 1º, § 1º da Lei nº 12.010/09), reafirmando a preferência pelas medidas que fortaleçam os vínculos familiares (art. 19, § 3º do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09). A manutenção dos vínculos familiares e comunitários – fundamen- tais para a estruturação das crianças e dos adolescentes como sujeitos e cidadãos – está diretamente relacionada ao investimento nas políticas públicas de atenção à família. Para que isso se concretize, é essencial a existência de políticas, programas e ações adequados a prevenir o afastamento de crianças e adolescentes do núcleo familiar originário. A nova lei, por sua vez, enfatiza a responsabilidade do poder público (arts. 97, § 2º e 100, parágrafo único, inciso III do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09), merecendo destaque as inúmeras funções conferidas pelo legislador às equipes responsáveis pelas políticas públicas municipais de convivência familiar (art. 19, § 3º, art. 28, § 5º, art. 87, inc. VI, art. 88, inc. VI, art. 101, §§ 9º e 12º, art. 197-C, §§ 1º e 2º, todos do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09). Nessa linha, constituindo o afastamento da criança ou do adoles- cente do seio de sua família de origem uma excepcionalidade, a colo- cação em família substituta também configura medida extrema, assim como o acolhimento institucional ou familiar de infantes ou adolescen- tes, definido como medida provisória e excepcional, utilizável como forma de transição para reintegração familiar ou, não sendo esta possí- vel, para colocação em família substituta (art. 101, § 1º, do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09). 40 O sistema pátrio instituiu uma verdadeira ordem de prioridades no tocante à garantia do direito de crianças e adolescentes à convivência familiar, a ser respeitada e perseguida pelos diversos órgãos da rede de proteção, quais sejam: a preferência pela família natural, seguida pela família extensa (art. 25, parágrafo único do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09); a excepcionalidade das medidas de acolhimen- to familiar e institucional (art. 101, § 1º do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09); a preferência pelo acolhimento familiar em re- lação ao institucional (art. 34, § 1º e art. 93, parágrafo único, ambos do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09); a excepcionalidade da colocação em família substituta (art. 19, caput e § 3º do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09); a preferência da colocação em família substituta residente no país em relação à residente no exterior (arts. 31 e 51, § 1º, inc. II do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09); e, por último, a preferência em favor do brasileiro residen- te no exterior em relação ao estrangeiro na mesma situação (art. 19 c/c arts. 31 e 51, § 2º, do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09). A nova lei modifica o sistema anterior, devolvendo ao Poder Judi- ciário a competência para decidir se uma criança ou adolescente en- caminhado a entidade de acolhimento institucional pode ser mantido afastado do convívio familiar (art. 93 e parágrafo único do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09). Dispõe a lei que as referidas en- tidades podem receber, em caráter excepcional e de urgência, infantes e adolescentes sem prévia determinação da autoridade competente, devendo, contudo, fazer a comunicação do fato à autoridade judiciária em até 24 (vinte e quatro) horas, sob pena de responsabilidade (arts. 93 e parágrafo único e 101, § 2º do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09). Recebida a comunicação, o Juízo de Direito, ouvido o Ministério Público, tomará as medidas necessárias para promover a imediata reinte- gração familiar da criança ou adolescente ou, se isso não se mostrar pos- sível ou recomendável, determinará seu encaminhamento a programa de acolhimento familiar, institucional ou a família substituta, observando-se o disposto no art. 101, § 2º do ECA que, em sua nova redação, determi- na que, na impossibilidade de reintegração familiar, o Ministério Público deflagre procedimento judicial contencioso, no qual se garanta aos pais ou ao responsável o exercício do contraditório e da ampla defesa. 41 Este é um ponto importantíssimo, que demanda especial atenção por parte dos Promotores de Justiça com atribuição na área da infância e juventude. O afastamento de uma criança ou adolescente do conví- vio familiar, ainda que absolutamente necessário, importa na privação de um direito fundamental, constituindo grave violação a esse direito, o que implica na pronta atuação ministerial e justifica uma variada gama de medidas judiciais, que podem ir desde uma mera representação para apuração da infração administrativa prevista no art. 249 do ECA, a um pedido de suspensão do poder familiar, nomeação de guardião ou tutor (conforme o caso), ação de alimentos, destituição do poder familiar, etc. Não pode mais o Ministério Público permitir que crianças e adoles- centes sejam abrigados exclusivamente em razão da pobreza de suas famílias. Nessas hipóteses, além de trabalhar, de forma global, a ques- tão da criação de políticas e programas de orientação e auxílio, através da instauração de inquéritos civis ou da deflagração de ações civis pú- blicas, deve-se promover medidas extrajudiciais ou judiciais para resol- ver a situação individual do menino ou menina que estiver em situação de privação material, que venha a dar causa a seu afastamento familiar. Casos, por exemplo, de falta de moradia podem ser minimizados atra- vés da