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1
Manual de atuação Funcional 
das ProMotorias de Justiça
da inFância e Juventude
Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro
4º CENTRO DE APOIO OPERACIONAL DAS 
PROMOTORIAS DE JUSTIÇA DA INFÂNCIA E JUVENTUDE
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Manual de atuação Funcional 
das ProMotorias de Justiça 
da inFância e Juventude
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Elaboração
Carla Carvalho Leite
Coordenadora do 4º Centro de Apoio Operacional das Promotorias de 
Justiça da Infância e Juventude
Rodrigo Cézar Medina da Cunha
Subcoordenador do 4º Centro de Apoio Operacional das Promotorias de 
Justiça da Infância e Juventude
Patricia Hauer Duncan
Subcoordenadora do 4º Centro de Apoio Operacional das Promotorias de 
Justiça da Infância e Juventude
Rosa Maria Xavier Gomes Carneiro
Assessora Chefe da Assessoria de Proteção Integral à Infância e à Juventude
Ida Maria Moulin Aledi Monteiro
Assistente da Assessoria de Proteção Integral à Infância e à Juventude
Eliane de Lima Pereira
Promotora de Justiça Titular da 1ª Promotoria de Justiça da Infância e 
Juventude da Capital (matéria infracional)
Revisão
Nanci da Costa Batista 
Gerente do Núcleo de Pesquisa
Jaqueline Soares Leal
Supervisora da Coordenadoria de Acompanhamento de Projetos
Fábio Vieira da Silva
Supervisor da Gerência de Desenvolvimento Profissional
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PROCURADORIA-GERAL DE JUSTIÇA 
DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
(Em 14 de dezembro de 2009)
PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA
Procurador de Justiça Cláudio Soares Lopes
Corregedor-Geral do Ministério Público
Procurador de Justiça Cezar Romero de Oliveira Soares
Subprocuradoria-Geral de Justiça de Administração
Procurador de Justiça Mônica da Silveira Fernandes
Subprocuradoria-Geral de Justiça de Planejamento Institucional
Procurador de Justiça Carlos Roberto de Castro Jatahy
Subprocuradoria-Geral de Justiça de Atribuição Originária 
Institucional e Judicial
Procurador de Justiça Antônio José Campos Moreira
Subprocuradoria-Geral de Justiça de Direitos Humanos e Terceiro Setor
Procurador de Justiça Leonardo de Souza Chaves
Chefia de Gabinete
Procurador de Justiça Astério Pereira dos Santos
Consultoria Jurídica
Procurador de Justiça José dos Santos Carvalho Filho
Secretaria-Geral do Ministério Público
Procurador de Justiça José Augusto Guimarães
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Órgão Especial do Colégio de Procuradores de Justiça
(Em 14.12.2009)
Membros natos
Procurador-Geral de Justiça: Cláudio Soares Lopes
Corregedor-Geral: Cezar Romero de Oliveira Soares
Secretária: Márcia Álvares Pires Rodrigues
Membros natos 
Cezar Romero de Oliveira Soares 
Carlos Antonio Navega 
João Baptista Lopes de Assis Filho 
Vera de Souza Leite 
Elio Gitelman Fischberg (afastado)
Maria Cristina Palhares dos Anjos 
 Tellechea 
Levi de Azevedo Quaresma
Dalva Pieri Nunes 
Maria Amélia Couto Carvalho
Hugo Jerke
Membros eleitos 
Márcia Álvares Pires Rodrigues
Fátima Maria Ferreira Melo
Lilian Moreira Pinho
Pedro Elias Erthal Sanglard
Nilo Augusto Francisco Suassuna
Maria da Conceição Lopes de Souza
Walberto Fernandes de Lima
Kátia Aguiar Marques Selles Porto 
Leila Machado Costa 
Patrícia da Silveira da Rosa
Conselho Superior do Ministério Público
(Em 14.12.2009)
Procurador-Geral de Justiça: Cláudio Soares Lopes
Corregedor-Geral: Cezar Romero de Oliveira Soares
Sérgio Roberto Ulhôa Pimentel 
Dirce Ribeiro de Abreu 
Denise Freitas Fabião Guasque 
Guilherme Eugênio Vasconcelos 
Denise Muniz de Tarin 
José Maria Leoni Lopes de Oliveira 
Julio Cesar Lima dos Santos 
Orlando Carlos Neves Belém 
Membros suplentes 
Eleitos pelos Procuradores
Israel Stoliar 
Eleitos pelos Promotores 
Anna Maria Di Masi 
José Augusto Guimarães 
Mendelssohn Erwin Kieling Cardona 
 Pereira
Marlon Oberst Cordovil
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PreFácio
Após intenso trabalho dos Centros de Apoio Operacional, vêm a 
lume os manuais de atuação funcional do Ministério Público do Estado 
do Rio de Janeiro, fruto dos esforços de Coordenadores e Subcoorde-
nadores, que se debruçaram nas questões técnicas mais relevantes em 
suas respectivas áreas.
Considerada uma das prioridades da Administração Superior, a ela-
boração dos Manuais tem o escopo de conciliar e interligar dois prin-
cípios básicos da Instituição: a Unidade e a Independência Funcional.
Traçaram-se, assim, diretrizes de trabalho. Longe de ferir o prima-
do da Independência Funcional, os Manuais – que se sujeitam, como 
qualquer obra humana, a aperfeiçoamento futuro – visam à padroni-
zação de procedimentos, para que, do Noroeste ao Sul Fluminense, 
Promotoras e Promotores de Justiça tenham um guia seguro de atuação, 
em favor da Unidade Institucional.
É com este espírito, e grato ao trabalho de toda a Equipe, que 
entregamos os Manuais à Classe.
Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 2009
Cláudio Soares Lopes
Procurador-Geral de Justiça
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aPresentação
Prezado(a) Colega,
Segundo a diretriz estabelecida pela Administração Cláudio Soares 
Lopes, de ênfase na qualidade institucional, a Subprocuradoria-Geral 
de Justiça de Planejamento Institucional tem o prazer de apresentar à 
classe a coleção de manuais de atuação funcional do Ministério Pú-
blico do Estado do Rio de Janeiro, elaborada pelos Centros de Apoio 
Operacional e pela Coordenadoria de Acompanhamento de Projetos.
A coleção será composta por obras dedicadas a cada área de atua-
ção institucional do Ministério Público, além de uma abordando ques-
tões relativas à redação oficial e outra, editada pelo Conselho Nacional 
de Procuradores-Gerais, que versa sobre o Controle Externo da Ativi-
dade Policial.
Deve-se destacar que o Manual de Redação Oficial também será 
distribuído aos servidores, vez que constatada a necessidade de padro-
nização da forma de atuação do corpo auxiliar do Ministério Público.
Esperamos que a coleção atinja sua finalidade, qual seja a de ser-
vir como um roteiro sugestivo de atuação, dentre a enorme gama de 
atribuições que possui o Membro do Ministério Público, visando à má-
xima efetividade da atuação institucional no Estado do Rio de Janeiro.
Finalmente, não poderíamos deixar de registrar nossos agradeci-
mentos à Fundação Escola Superior do Ministério Público do Estado do 
Rio de Janeiro (FEMPERJ) e ao Centro de Estudos Jurídicos (CEJUR) pelo 
apoio indispensável na consecução deste objetivo.
Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 2009
Carlos Roberto de Castro Jatahy
Subprocurador-geral de Justiça de Planejamento Institucional
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suMário
INTRODUÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
PARTE 1. MATÉRIA NÃO INFRACIONAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
1. Breves Considerações sobre a Atuação do Promotor de Justiça 
 na Área da Infância e Juventude . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
2. Proteção do Direito à Vida e à Saúde . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
 2.1. Considerações sobre o Sistema Único de Saúde e Temas 
 Correlatos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
 2.2. Considerações sobre Saúde Mental e Drogadição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
3. Proteção do Direito à Educação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
4. Proteção do Direito à Cultura, ao Esporte a ao Lazer . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
5. Proteção do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade . . . . . . . . . . 33
6. Proteção do Direito à Convivência Familiar e Comunitária . . . . . . . . . . . . 38
 6.1. Breves Considerações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .inclusão em abrigo de família ou em programas de moradia 
(aluguel social, assentamento) ou, ainda, de auxílio financeiro. Efetiva-
mente, é mais barato para o poder público cuidar da criança dentro da 
família do que em entidade de acolhimento institucional, a par, é claro, 
e acima de tudo, do imensurável custo social dessa separação.
As mudanças introduzidas pela nova lei – que prevê a necessidade 
de Guia de Acolhimento para o encaminhamento às instituições que 
executam programas de acolhimento institucional (art. 101, § 3º do 
ECA), a elaboração de plano individual de atendimento pela entidade 
de acolhimento (art. 101, § 4º), a reavaliação da medida no mínimo 
a cada seis meses (art. 19, § 1º), o prazo máximo de dois anos para a 
institucionalização (art. 19, § 2º), o prazo de 30 (trinta) dias para que o 
Ministério Público deflagre ação de destituição do poder familiar após 
o recebimento de relatório apontando a impossibilidade de reintegra-
ção à família de origem (art. 101, § 10º) – são mudanças significativas, 
que visam à modificação da grave realidade do quadro de abrigamento 
que aflige inúmeras crianças e adolescentes e suas famílias. Apenas 
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uma atuação atenta, rápida, técnica e eficiente de toda a rede de prote-
ção e, em especial, dos membros do Ministério Público, possibilitarão 
a desejada mudança. 
6.2. Sugestões de Atuação 
Para que a esperada mudança aconteça, faz-se necessário que os 
atores da rede de proteção cumpram fielmente seus papéis.
No que compete ao Ministério Público, que tem por missão institu-
cional a defesa do ordenamento jurídico e dos direitos sociais e indivi-
duais indisponíveis (art. 127 do C.R.) e, tendo a Carta Magna conferido 
prioridade absoluta à proteção aos direitos infantojuvenis (art. 227 da 
C.R.), os Promotores de Justiça com atribuição na área da infância e ju-
ventude vêm se dedicando, desde o início da década de 90, a cumprir 
as relevantes funções cometidas à Instituição pelo legislador constitu-
cional e estatutário.
Em consonância com as diretrizes traçadas na Lei nº 8.069/90 e 
no Plano Nacional de Convivência Familiar, o Ministério Público do 
Estado do Rio de Janeiro vem trabalhando arduamente pela garantia 
desse direito fundamental, vindo a Lei nº 12.010/09 trazer um novo 
incentivo para otimizar essa atuação.
Nesse sentido, é importante que o Promotor de Justiça verifique, no 
Município em que atua, a situação das políticas públicas de convivên-
cia familiar. Para tanto, diante da ausência ou oferta irregular de ações 
e serviços que garantam esse direito fundamental, deve o Promotor de 
Justiça instaurar Inquérito Civil Público visando a identificar as falhas 
existentes, podendo buscar a solução extrajudicial do problema através 
de ajustamento de conduta das autoridades responsáveis pela política 
em comento. Caso não se mostre possível a via extrajudicial, deve o 
membro do Parquet deduzir em juízo a ação civil pública cabível, na 
forma prevista no art. 201, inc. V c/c o art. 208, inc. IX, ambos do ECA, 
com a redação dada pela Lei nº 12.010/09.
A existência de programas eficazes em prevenir o afastamento de 
crianças e adolescentes do convívio familiar ou para acelerar o retorno 
daqueles que se encontrem institucionalizados ao núcleo de origem, 
não apenas é premissa fundamental para a concretização de mudanças 
no quadro existente, como também imperativo legal. O poder público 
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é responsável pela oferta de ações, serviços e programas de orientação, 
apoio e promoção social destinados ao pleno exercício do direito à 
convivência familiar (art. 208, inc. IX do ECA, com a redação dada pela 
Lei nº 12.010/09). Além desses programas, também se faz necessária a 
existência de opções de acolhimento familiar e institucional.
A par das indispensáveis políticas públicas, cada criança ou adoles-
cente afastado do convívio familiar necessita ter sua situação jurídica 
definida, de modo que seja trabalhada, com a eficiência e a celerida-
de a que fazem jus, sua reintegração familiar ou, quando esta não se 
mostrar possível, sua colocação em família substituta. Assim, por força 
da redação dada pela Lei nº 12.010/09 ao art. 101, § 2º do ECA, os 
infantes e jovens encaminhados para acolhimento institucional neces-
sitam ter sua situação apreciada mediante a deflagração, pelo Ministé-
rio Público, de procedimento judicial contencioso em face dos pais ou 
responsável legal.
Nesse contexto, o Promotor de Justiça deve envidar esforços no sen-
tido de que: (i) crianças, adolescentes e suas famílias sejam incluídos 
nos programas de promoção à família, de modo que sejam mantidos 
em seu núcleo de origem ou que a ele retornem com a maior brevidade 
possível; (ii) eventual afastamento seja excepcional e provisório, como 
a lei determina; (iii) seja dada preferência ao acolhimento familiar, em 
lugar do institucional; (iv) a situação desses meninos e meninas seja re-
avaliada, no mínimo, a cada seis meses; (v) o acolhimento institucional 
não ultrapasse o período de dois anos; (vi) diante da impossibilidade 
de retorno à família de origem, sejam colocados em família substituta.
Para acompanhar a situação dos meninos e meninas privados do 
direito à convivência familiar, o Ministério Público desenvolveu o 
Módulo Criança e Adolescente (MCA), sistema informatizado, via 
web – acessado através da página do Ministério Público na internet 
(www.mp.rj.gov.br) –, que integra todos os órgãos de proteção envol-
vidos com as medidas de acolhimento institucional e familiar e de co-
locação em família substituta, e que contem os dados de todas as enti-
dades de acolhimento e de todas as crianças e adolescentes acolhidos 
no Estado.
A resolução GPGJ nº 1.369/07 instituiu e regulamentou o sistema 
no âmbito do MPRJ, tornando obrigatória sua alimentação pelas Pro-
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motorias de Justiça com atribuição na área da infância e juventude, nos 
termos de seu art. 3º.
O MCA busca ser uma ferramenta para o trabalho das Promotorias 
de Justiça e Juízos da Infância e da Juventude, Conselhos Tutelares e de 
Direitos, entidades de acolhimento institucional, Secretarias de Assis-
tência etc. Através do fornecimento de informações em tempo real, o 
sistema é capaz de auxiliar na agilidade dos procedimentos que envol-
vem os milhares de meninas e meninos institucionalizados, de modo 
a garantir, com rapidez e eficiência, seu fundamental direito de viver 
em família. O diagnóstico da situação de acolhimento institucional, em 
cada Município e no Estado como um todo, permite ainda a elabora-
ção de políticas públicas e de programas voltados para a manutenção 
dessas crianças e adolescentes no seio de suas famílias, para sua rein-
tegração familiar ou, na hipótese de serem esgotadas as possibilidades 
de retorno ao núcleo familiar natural, para sua colocação em família 
substituta.
Esse sistema inédito do Ministério Público do Rio de Janeiro, que 
lhe valeu no ano de 2008 o V Prêmio Innovare, Categoria Ministério 
Público, foi adotado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelo 
Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) para ser o cadastro 
nacional de crianças e adolescentes institucionalizados, a ser utilizado 
em todo o Brasil. O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro 
também firmou convênio para a utilização do referido banco de dados, 
passando a ter dever de alimentá-lo, nos termos do disposto no 101, § 
11 do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09.
Com base nos dados inseridos no sistema, o MPRJ já elaborou três 
censos da população infantojuvenil abrigada, verificando que, ainda 
nos dias de hoje, os principais motivos de acolhimento relacionam-se 
com a pobreza das famílias, não obstante o disposto no art. 23 do ECA.
Em caso de designação para uma Promotoria de Justiça com atri-
buição na área da infância e juventude (não infracional), o membro 
do Parquet deve solicitar ao gestor do sistema (Assessoria de Proteção 
Integral à Infância e Juventude) sua senha de acesso, além de informa-
ções sobre o funcionamentodo Módulo.
Tendo o Ministério Público Fluminense eleito o enfrentamento do 
grave problema de crianças e adolescentes abrigados como prioridade 
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institucional, expediu o Conselho Superior recomendação aos Promo-
tores de Justiça com atribuição na área da infância e juventude – Reco-
mendação nº 05, de 08/01/2009 – visando à efetiva garantia do direito 
à convivência familiar dessa parcela da população.
A Recomendação CSMP nº 05/2009 orienta os Promotores de 
Justiça com atuação na área da infância e juventude em matéria não 
infracional a adotar, em caráter continuado, as seguintes medidas: (i) 
verificação da implementação das políticas públicas de apoio sócio-
familiar voltadas a prevenir o abrigamento e a estimular a reintegração 
familiar; (ii) fiscalização das entidades de abrigo; e (iii) análise e acom-
panhamento individualizado de cada criança ou adolescente abrigado, 
adotando as medidas cabíveis para garantir o seu direito à convivência 
familiar e comunitária.
Na defesa dos direitos infantojuvenis, especialmente dessa popu-
lação privada de direitos fundamentais, constitui relevante função do 
Promotor de Justiça com atribuição na área de proteção dos direitos de 
crianças e adolescentes a periódica fiscalização pessoal das instituições 
de acolhimento (art. 95 do ECA), visando a verificar a observância dos 
requisitos elencados nos artigos 90 a 94 do ECA, com a redação dada 
pela Lei nº 12.010/09. 
Com o advento da Lei nº 12.010/09, será necessário o reordena-
mento das entidades de acolhimento, uma vez que a referida lei torna 
obrigatória a observância das resoluções dos Conselhos de Direitos de 
todos os níveis (art. 90, § 3º, inc. I e art. 93, § 1º, alínea e do ECA, com 
a redação dada pela Lei nº 12.010/09).
Nesse aspecto, o CONANDA e o CNAS editaram deliberação (deno-
minada “Orientações Técnicas: Serviços de Acolhimento para Crianças 
e Adolescentes”) que estipula parâmetros objetivos para o atendimento 
de crianças e adolescentes em regime de acolhimento institucional (o 
texto se encontra na página do 4º CAOp na intranet). O não atendi-
mento às normas em questão pode levar a não renovação do registro da 
entidade junto ao Conselho Municipal de Direitos (CMDCA) e à des-
tituição do dirigente da entidade (art. 92, § 6º do ECA, com a redação 
dada pela Lei nº 12.010/09).
Conforme orientação da Corregedoria-Geral do Ministério Público 
constante do formulário de relatório estatístico on line, faz-se neces-
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sário o encaminhamento àquele órgão correicional de cópia dos rela-
tórios de inspeção às entidades de acolhimento, sem prejuízo do pre-
enchimento do referido formulário (quesito “fiscalizações/inspeções”).
Tal função fiscalizatória do Promotor de Justiça pode ser comple-
mentada através de visitas interdisciplinares, cuja realização pode ser 
solicitada às equipes técnicas existentes nos CRAAIs institucionais. 
Caso necessário, pode o Promotor de Justiça solicitar o acompanha-
mento da equipe técnica do CRAAI para a inspeção a ser por ele pes-
soalmente realizada. A propósito, consta da intranet, na página do 4º 
Centro de Apoio, trabalho doutrinário elaborado por sua equipe técni-
ca, intitulado “Plano Personalizado de Abrigo”.
Constatadas irregularidades nas entidades e programas fiscaliza-
dos, sugere-se que o Promotor de Justiça adote medidas extrajudiciais 
para a solução do problema, tais como a instauração de inquérito 
civil público, a expedição de recomendação e a realização de reu-
niões com os responsáveis pelas entidades ou programas de atendi-
mento, visando à celebração de Termos de Ajustamento de Conduta 
(TAC’s). Não sendo viável a solução extrajudicial da questão, pode o 
Promotor de Justiça deflagrar em juízo representação para apuração 
de irregularidade em entidade de atendimento (artigo 191 do ECA) ou 
ação civil pública.
Além das inspeções periódicas para averiguação das condições 
gerais de funcionamento das entidades de acolhimento institucional, 
deve o Promotor de Justiça, outrossim, zelar para que a permanência 
de crianças e adolescentes não se prolongue mais do que o absoluta-
mente necessário, diligenciando para a celeridade dos procedimentos e 
mantendo controle sobre o seu andamento, verificando as providências 
adotadas pela equipe técnica da entidade de acolhimento, da equipe 
responsável pela política municipal de convivência familiar e do Juízo 
da Infância e Juventude, junto aos familiares, para a reinserção familiar 
das crianças / adolescentes institucionalizados.
Não é demais repisar que são indispensáveis a análise e o acompa-
nhamento individualizado de cada criança ou adolescente institucio-
nalizado, devendo o Promotor de Justiça adotar as medidas cabíveis 
para garantir o seu direito à convivência familiar e comunitária, seja 
mediante a reintegração à família de origem (família natural ou, em não 
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sendo possível, à família extensa) ou, esgotadas as possibilidades para 
tanto, através da sua colocação em família substituta.
A nova Lei nº 12.010/09 dispõe, expressamente, que o afastamento 
de criança ou adolescente do convívio familiar importa em deflagra-
ção, pelo Ministério Público, de procedimento judicial contencioso, 
no qual se garanta aos pais ou responsável o exercício do contraditório 
e da ampla defesa (art. 101, par. 2º do ECA, com a redação dada pela 
Lei nº 12.010/09).
Como já mencionado, a citada alteração estatutária devolveu à au-
toridade judiciária a competência exclusiva para a apreciação das situ-
ações de acolhimento institucional, nos termos do disposto no art. 93, 
parágrafo único do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09.
Tendo em vista a excepcionalidade e a provisoriedade da medida 
protetiva de acolhimento, deve zelar o Promotor de Justiça no sentido 
da adoção das medidas extrajudiciais e judiciais que se mostrarem ne-
cessárias à reintegração familiar de crianças e adolescentes institucio-
nalizados ou, não sendo isto viável, à sua colocação em família substi-
tuta em tempo hábil, permitindo-lhes, assim, o sadio desenvolvimento 
físico e psíquico. Os danos causados pela institucionalização prolon-
gada e pelo rompimento dos vínculos familiares e afetivos podem ser 
irreversíveis na vida da criança ou adolescente, devendo o Promotor 
de Justiça atentar para o fato e preveni-lo. Artigos doutrinários sobre o 
tema podem ser consultados na página do 4º CAOp na intranet.
Nas hipóteses em que crianças ou adolescentes acolhidos não re-
cebam, injustificadamente, visitas de seus genitores ou responsáveis há 
mais de 03 (três) meses, preconiza a Recomendação CSMP nº 05/09 a 
averiguação da ocorrência de justa causa para a propositura de ação de 
destituição do poder familiar, no intuito de torná-los aptos à adoção e 
de garantir-lhes o direito fundamental à convivência familiar.
No que se refere à atuação do Ministério Público na esfera judicial, 
merecem destaque as seguintes medidas que podem ser deflagradas 
pelo Promotor de Justiça: (i) representação cível pela prática de infra-
ção administrativa prevista no artigo 249 do ECA (negligência, maus-
tratos, abuso sexual, etc.) em face dos genitores, visando à aplicação da 
penalidade de multa e/ou das medidas que se mostrarem cabíveis, den-
tre as elencadas no rol do artigo 129 do ECA; (ii) pedido de nomeação 
48
de tutor ou guardião para crianças e adolescentes institucionalizados, 
como forma de viabilizar o direito à convivência familiar e comunitária 
e o consequente desligamento da entidade de acolhimento, após veri-
ficada a impossibilidade de reinserção familiar (v. art. 1.734 do Código 
Civil, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09); (iii) pedido de alimen-
tos em face dos genitores, nas hipóteses em que as crianças e os adoles-
centes se encontrem institucionalizados por ação ou omissão dos pais; 
(iv) ação civil pública visando, por exemplo, à inclusão da família da 
criança/adolescente em programa de auxílio ou moradia, ou à matrícula 
da criança/adolescente em creche ou em escola em horáriointegral, 
com vistas à sua reintegração familiar, impedindo-se o acolhimento 
institucional de crianças e adolescentes pelo exclusivo fundamento da 
carência de recursos materiais ou de vagas em creches e escolas; (v) pe-
dido de destituição do poder familiar em face dos genitores, visando à 
disponibilização da criança ou adolescente para adoção, nos casos em 
que não for viável a sua reintegração à família de origem.
A destituição do poder familiar é medida extrema, uma vez que 
a convivência com a família natural configura direito fundamental da 
criança e do adolescente. Da mesma forma, a colocação em famí-
lia substituta constitui medida excepcional, aplicável às situações em 
que não for possível que a criança ou adolescente – em garantia à sua 
integridade física, psicológica, mental e sexual – permaneça ou seja 
criada pela família natural (ou, ainda, pela família extensa), bem como 
às situações em que, não obstante os esforços dos atores do sistema de 
proteção no sentido da reintegração familiar, permaneça abandonada 
em entidade de acolhimento.
Mostrando-se inviável a manutenção da criança ou adolescente na 
família natural, em razão de violação aos deveres do poder familiar, 
deve o Promotor de Justiça diligenciar para a sua inserção na família 
biológica extensa, levando em conta o grau de parentesco e a relação 
de afinidade ou de afetividade, a fim de minorar as consequências de-
correntes da medida. Não sendo possível ainda esta via, recomenda-se 
que o Promotor de Justiça, em tais hipóteses, deflagre em Juízo pedido 
de destituição ou suspensão do poder familiar, observando o proce-
dimento previsto nos art. 155 e seguintes do Estatuto da Criança e do 
Adolescente, bem como o disposto no artigo 1.635 e seguintes do Có-
digo Civil de 2002, visando à futura colocação em família substituta. 
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O pedido de colocação em família substituta deve obedecer aos 
requisitos do art. 165 do Estatuto da Criança e do Adolescente, ou aos 
do artigo 166, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09, se os pais 
forem falecidos ou destituídos do poder familiar, ou ainda se tiverem 
aderido expressamente ao pedido. O rito do procedimento conten-
cioso encontra-se previsto nos arts. 155 a 170 do ECA, com a redação 
dada pela nova lei.
Por fim, cumpre salientar não ser recomendável, para os casos de 
crianças e adolescentes inseridos em acolhimento institucional ou fa-
miliar, o ajuizamento, pelo Ministério Público, dos chamados “Pedido 
de Aplicação de Medida Protetiva (PAMP)”, “Pedido de Providências 
(PP)” ou “Pedido de Aplicação de Medida de Abrigo (PAMA)”, eis que 
destituídos de previsão legal, importando em violação aos princípios 
constitucionais garantidores do contraditório e da ampla defesa, diante 
da inexistência de pólo passivo de relação processual. Aliás, não há 
sequer relação processual. 
Outrossim, a Lei nº 12.010/09 fulminou expressamente essa prá-
tica, ao introduzir parágrafo único ao art. 153 do ECA, dispondo que 
o procedimento previsto no caput do dispositivo não se aplica para 
o fim de afastamento da criança ou do adolescente de sua família de 
origem. Vale lembrar que o procedimento judicial contencioso a que 
se refere o art. 101, § 2º do ECA, com a nova redação dada pela Lei nº 
12.010/09, a ser deflagrado pelo Ministério Público em face dos pais 
ou responsável na hipótese de não reintegração familiar, deve observar 
as garantias constitucionais do contraditório e da ampla defesa. 
6.3. Colocação em Família Substituta
A colocação em família substituta se faz através de guarda, tutela 
ou adoção (art. 28, caput do ECA), devendo tal medida ser adotada 
apenas quando esgotadas as possibilidades de manutenção da criança 
ou adolescente no seio de sua família natural (art. 1º, §§ 1º e 2º da Lei 
nº 12.010/09 e art. 19, caput do ECA), aí incluída a família extensa, na 
forma do disposto no art. 19, § 3º c/c art. 25, parágrafo único do ECA, 
com a redação dada pela Lei nº 12.010/09.
À falta de familiar que possa receber a criança ou adolescente, por 
vezes, outra solução não se verifica, salvo a colocação em família subs-
50
tituta. A adoção é uma das formas de colocação em família substituta, 
sendo a que normalmente se mostra indicada quando inviável a reinte-
gração familiar em qualquer tempo. 
Dispõe o ECA, em seu artigo 50, que a autoridade judiciária deverá 
manter, em cada comarca ou foro regional, um registro de crianças 
e adolescentes em condições de serem adotados e outro de pessoas 
interessadas na adoção. O deferimento da inscrição se dá após prévia 
consulta aos órgãos técnicos do Juízo, ouvido o Ministério Público (art. 
50, § 1º, do ECA). Assim, pretensos adotantes devem deduzir em juízo 
pedido de habilitação (art. 197-A e ss do ECA) e, uma vez acolhida a 
pretensão, passam a integrar o cadastro local.
Além do cadastro local, previsto no art. 50 do ECA, foi criado, em 
29/04/08, pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Cadastro Nacio-
nal de Adoção (CNA), que pretende reunir os dados de todas as crianças 
e adolescentes disponíveis para adoção no Brasil e de todas as pessoas 
habilitadas à medida, fazendo-se o cruzamento dessas informações, na 
busca por uma família para estes infantes e jovens privados do direito 
fundamental à convivência familiar. A Lei nº 12.010/09 tornou obriga-
tória a criação e implementação do mencionado cadastro nacional (art. 
50, § 5º do ECA), prevendo a responsabilização da autoridade que dei-
xar de providenciar sua instalação e operacionalização, bem como da-
quele que negligenciar em sua devida alimentação (art. 258-A do ECA).
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Conselho Nacional do 
Ministério Público (CNMP), atendendo a solicitação do MPRJ, firma-
ram convênio de cooperação técnica que disponibilizará o acesso ao 
Cadastro Nacional de Adoção (CNA) aos Ministérios Públicos de todo 
o Brasil, o que facilitará o trabalho dos Promotores de Justiça no tocan-
te à fiscalização dos cadastros locais e estaduais, bem como na garantia 
do direito à convivência familiar de crianças e adolescentes. A Lei nº 
12.010/09 contemplou essa necessidade, através da alteração introdu-
zida no art. 50, § 12º do ECA.
Para fins de inscrição no CNA, consideram-se aptos à adoção so-
mente crianças e adolescentes cujos pais tenham consentido com a 
medida, ou que sejam órfãos, ou, ainda, cujos pais sejam desconheci-
dos ou tenham sido destituídos do poder familiar através de sentença 
transitada em julgado.
51
Os pedidos de adoção devem respeitar a ordem de inscrição no 
cadastro judicial local ou regional, devendo o Promotor de Justiça re-
querer consulta ao cadastro central se for constatada a inexistência de 
pretendente previamente inscrito.
A regra geral comporta exceções apenas nas hipóteses previstas no 
art. 50, § 3º, do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09, dis-
positivo que fulminou a controvertida prática das “adoções prontas”. 
Na hipótese da criança ou adolescente ter pai e/ou mãe vivo(s), 
detentor(es) do poder familiar, quando ausente o consentimento 
deste(s), deverá o pedido de adoção ser cumulado com o pedido de 
destituição do poder familiar (artigos 156 e 165 do ECA), podendo o(s) 
demandante(s) pleitear(em) liminarmente a guarda do(a) adotando(a). 
Já na hipótese de consentimento dos genitores com a medida de 
adoção, ou quando os pais não forem conhecidos, não há lide, carac-
terizando-se o procedimento como de jurisdição voluntária, não sendo 
necessária a cumulação do pedido de destituição do poder familiar ao 
pedido de adoção, assim como desnecessário que se proceda à citação 
dos pais. No primeiro caso, de consentimento com a medida, os pais 
devem ser ouvidos em Juízo, na forma prevista no art. 166, § 1º do 
ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09.
Quando os pais forem conhecidos, mas não constarem do registro 
de nascimento da criança ou adolescente, sugere-se que seja requerida a 
destituição do poder familiar, de modo a evitar futura arguição de nulida-
dedo feito, por não terem se instalado o contraditório e a ampla defesa.
Como já mencionado, nosso sistema jurídico dispõe que a adoção 
nacional (aquela requerida por pessoa, nacional ou estrangeira, domi-
ciliada no Brasil) deve ter preferência em relação à adoção internacio-
nal (aquela pleiteada por pessoa, nacional ou estrangeira, com domi-
cílio no exterior), conforme se verifica do disposto nos arts. 31, 50, § 
10º e 51, § 1º, inc. II, ambos do ECA, com a redação dada pela Lei nº 
12.010/09.
Desse modo, apenas crianças e adolescentes de mais difícil colocação 
em família substituta acabam sendo disponibilizados para adoção inter-
nacional, tais como grupos de irmãos, crianças mais velhas ou com pro-
blemas graves de saúde. Isto porque bebês, crianças pequenas e saudá-
veis são facilmente inseridas em famílias substitutas residentes no Brasil.
52
A Lei nº 12.010/09 deferiu ao brasileiro residente no exterior pre-
ferência em relação ao estrangeiro na mesma situação (art. 51, § 2º do 
ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09).
O artigo 52 do Estatuto estabelece que a adoção internacional pode 
ser condicionada a estudo prévio e análise de uma comissão estadual 
judiciária de adoção (CEJA), a qual fornecerá o respectivo laudo de ha-
bilitação para instruir o processo judicial. Dispõe o parágrafo único da 
referida norma que compete à comissão manter registro centralizado 
de interessados estrangeiros em adoção.
No Estado do Rio de Janeiro, a CEJA-RJ é o órgão do TJRJ que analisa 
os requerimentos de adoção internacional, havendo requisitos especí-
ficos para essa modalidade de colocação em família substituta, além 
daqueles disciplinados pelo ECA, os quais encontram-se definidos na 
Convenção da Haia sobre cooperação em matéria de adoção interna-
cional. O Ministério Público oficia nesses procedimentos de habilita-
ção para adoção internacional, havendo um Promotor de Justiça espe-
cialmente designado para tanto.
É importante que, na análise dos pedidos de adoção, os Promotores 
de Justiça atentem para o real domicílio dos requerentes. É comum que 
pessoas de nacionalidade brasileira, mas residentes no exterior, pos-
tulem a adoção como se aqui morassem, prestando informação falsa 
sobre seu endereço correto de moradia. Ocorre que esse fato, além de 
ilegal, pode gerar problemas futuros para a criança ou adolescente que, 
ao chegar ao País de residência do adotante, pode não ter reconhecida 
sua nova situação jurídica ou não ter admitido seu ingresso.
Pedidos de adoção apresentados por brasileiros ou estrangeiros 
residentes ou domiciliados fora do País devem ser acompanhados da 
demonstração de que foram esgotadas todas as possibilidades de colo-
cação da criança ou do adolescente em família substituta residente no 
Brasil, inclusive por meio de consulta ao Cadastro Central (art. 51, § 1º, 
inc. II do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09), devendo ser 
respeitada a ordem de inscrição/habilitação dos pretendentes estrangei-
ros junto à Comissão Judiciária de Adoção Internacional (CEJA).
53
7. CONSELHOS E FUNDOS
7.1. Considerações Iniciais 
O artigo 204 da Constituição da República, em seu inciso II, consagra 
o princípio da democracia participativa, que se concretiza, na área da 
infância e juventude, por intermédio da atuação dos Conselhos de Direi-
tos de Crianças e Adolescentes e dos Conselhos Tutelares. Tais órgãos 
permitem que a comunidade, por intermédio de seus representantes 
eleitos, tenha efetiva participação nas decisões e deliberações relativas 
à promoção dos direitos e garantias da população infantojuvenil local.
Incumbe aos Conselhos de Direitos, nos níveis nacional (Conselho 
Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente / CONANDA), es-
tadual (Conselho Estadual de Direitos da Criança e do Adolescente do 
RJ / CEDCA) e municipal (Conselhos Municipais de Direitos da Crian-
ça e do Adolescente / CMDCAs), a deliberação das políticas públicas 
voltadas para as crianças e os adolescentes (art. 88, II, do ECA). Tais 
órgãos colegiados possuem composição paritária de representantes do 
governo e da sociedade civil. 
Prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente, outrossim, a manu-
tenção de fundos especiais (nacional, estaduais e municipais) vincula-
dos aos respectivos conselhos de direitos da criança e do adolescente 
(inciso IV do art. 88). 
Diante da diretriz da municipalização da política de atendimento 
(inciso I do mencionado artigo 88, do ECA) e da área de abrangência de 
atuação de cada Promotoria de Justiça com atribuição na área da Infân-
cia e Juventude, serão adiante analisadas as hipóteses mais comuns de 
atuação do Parquet com relação aos Conselhos Municipais de Direitos 
da Criança e do Adolescente, bem como aos Fundos Municipais a eles 
vinculados.
Os Conselhos Tutelares, conforme disposto nos artigos 131 e 132 
do ECA, são órgãos permanentes e autônomos, não jurisdicionais, en-
carregados de zelar pelo cumprimento dos direitos de crianças e adoles-
centes. Deve existir, no mínimo, um Conselho Tutelar em cada Muni-
cípio, composto de cinco membros escolhidos pela comunidade local. 
As atribuições dos Conselhos Tutelares encontram-se enumeradas no 
artigo 136 do ECA, incumbindo-lhes, especialmente, o atendimento 
54
e a aplicação de medidas de proteção a crianças e adolescentes que 
tenham qualquer de seus direitos fundamentais violados nas hipóteses 
previstas no artigo 98 do Estatuto, conforme se extrai do artigo 136, 
inciso I, bem como o atendimento e a aplicação de medidas – dentre 
as previstas nos incisos I a VII do artigo 129 – aos pais ou responsável, 
conforme disposto no inciso II do artigo 136. 
7.2. Conselhos Municipais de Direitos da Criança e do 
Adolescente e Fundos Municipais. Sugestões de Atuação.
Os Conselhos de Direitos são órgãos da Administração Pública, co-
legiados, deliberativos e controladores das ações, que ostentam parcela 
do poder estatal na definição e na gestão das políticas vinculadas à 
população infantojuvenil. Incumbe aos Conselhos de Direitos a formu-
lação da política de atendimento (art. 88, II, do ECA), devendo exercer 
o seu múnus com independência e autonomia. 
A propósito, as deliberações do Conselho de Direitos vinculam o 
Poder Executivo, posto que retratam a vontade estatal, podendo os ór-
gãos legitimados, aí incluído o Ministério Público, postular junto ao 
Poder Judiciário a observância das deliberações do CMDCA, conforme 
entendimento do Superior Tribunal de Justiça.
O Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente 
(CMDCA) é órgão deliberador de políticas públicas municipais na área 
da infância e juventude, integrado por representantes governamentais e 
não governamentais, em composição necessariamente paritária. Deve 
o Promotor de Justiça fiscalizar o processo de escolha dos representan-
tes da sociedade civil para integração do CMDCA, bem como compa-
recer regularmente às reuniões ordinárias e extraordinárias do referido 
Conselho, ocasiões em que são definidas as políticas públicas munici-
pais prioritárias para a população infantojuvenil local. Se necessário, 
poderá o Promotor de Justiça expedir recomendações ao CMDCA, para 
que efetue as Deliberações Colegiadas acerca das políticas públicas 
prioritárias na área infantojuvenil.
Ao CMDCA, o Estatuto da Criança e do Adolescente incumbe a res-
ponsabilidade sobre a realização do processo de escolha dos membros 
dos Conselhos Tutelares, sob a fiscalização do Ministério Público (art. 
139 do ECA). 
55
Outra função do CMDCA consiste no registro dos programas de 
atendimento a crianças e adolescentes executados pelas entidades go-
vernamentais e não governamentais no Município, devendo comunicar 
o registro ao Conselho Tutelar e à autoridade judiciária, bem como 
manter atualizado o respectivo cadastro (parágrafo único do art. 90 
e art. 91, ambos do ECA). Convém ao Promotor de Justiça oficiar ao 
CMDCA requisitando o envio da relação das entidades de atendimento 
e dos programas existentes noMunicípio.
O CMDCA é o gestor do Fundo Municipal da Infância e Juventu-
de (FIA), também conhecido como Fundo Municipal dos Direitos da 
Criança e do Adolescente (FMDCA), o qual tem natureza jurídica de 
fundo especial e tem por finalidade financiar políticas e programas des-
tinados a crianças e adolescentes cujos direitos fundamentais sejam 
violados, na forma do artigo art. 98 do ECA. 
Os recursos do Fundo são oriundos, basicamente, de repasses go-
vernamentais, doações de pessoas físicas e jurídicas, multas judiciais 
em razão da prática de infrações administrativas (art. 214 do ECA) e 
outras receitas. Após o ingresso dos recursos no FMDCA, estes passam 
a assumir a natureza de verba pública, gerando ao doador a possibili-
dade de realizar a dedução no Imposto de Renda, conforme disposto 
no Regulamento do Imposto de Renda (RIR n º 3.000/99). Por essa 
razão, não se deve admitir a “doação casada” ou o direcionamento da 
verba doada a entidades específicas, escolhidas pela pessoa física ou 
jurídica doadora, devendo o Promotor de Justiça adotar as medidas 
extrajudiciais e judiciais que se mostrarem cabíveis a fim de coibir tais 
práticas, que não encontram autorização legislativa em nosso ordena-
mento jurídico. 
O Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente do 
RJ instituiu, por intermédio da Deliberação CEDCA nº 17, de 25.06.08, 
o “Banco de Projetos”, que visa a apoiar os projetos públicos e privados 
voltados à promoção e à defesa dos direitos da infância e juventude no 
Estado do Rio de Janeiro, tendo por finalidade precípua “atrair patrocí-
nio e financiamento dos recursos do FIA” em âmbito estadual.
O “Banco de Projetos”, porém, evidencia reiteração da reprovável 
prática da “doação casada” ou direcionamento de verbas, pois permite 
que o doador selecione os projetos e entidades que serão beneficiadas 
56
com as verbas do Fundo Estadual da Infância e Juventude, retirando do 
Conselho Estadual de Direitos o poder de efetiva deliberação acerca 
das políticas públicas estaduais prioritárias na área da infância e juven-
tude. A propósito, encontra-se na página do 4º CAOp na intranet o 
teor da petição inicial de ação civil pública deflagrada pelas 6ª, 7ª, 9ª e 
10ª Promotorias de Justiça da Infância e Juventude da Capital, visando 
à suspensão do referido Banco de Projetos (instituído pelo CEDCA).
Por oportuno, frise-se que o Ministério Público sempre atua como 
fiscal dos Conselhos, não devendo integrá-los, seja a que título for, ou 
exercer direito a voto. Tais atividades são incompatíveis com o rele-
vante múnus público de fiscal da lei, que exige a imparcialidade do 
Promotor de Justiça.
É dever funcional do Promotor de Justiça com atribuição na maté-
ria de infância e juventude fiscalizar o CMDCA do Município em que 
atua, no que se refere à regular composição paritária, bem como ao 
funcionamento e à gestão do FIA. Para o exercício dessa atribuição, 
poderá ser instaurado inquérito civil para o acompanhamento das ati-
vidades do referido Conselho de Direitos e a eventual apuração de 
irregularidades.
7.3. Conselhos Tutelares. Sugestões de Atuação 
Conforme dispõem os artigos 131 e 132 do ECA, o Conselho Tu-
telar é órgão permanente e autônomo, não jurisdicional, encarregado 
pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos de crianças e 
adolescentes, devendo existir, no mínimo, um Conselho Tutelar em 
cada Município, composto de cinco membros escolhidos pela comu-
nidade local para mandato de três anos, permitida uma recondução.
Apesar de se tratar de eleição cujo voto é facultativo, verifica-se 
uma crescente participação da comunidade no processo de escolha 
dos membros do Conselho Tutelar, sendo certo que a maior parte dos 
pleitos realizados no Estado do Rio de Janeiro tem se equiparado às 
eleições municipais, no que se refere ao número de eleitores partici-
pantes e à repercussão social do sufrágio popular.
As eleições para o Conselho Tutelar são realizadas em cada Municí-
pio pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente 
(CMDCA), cabendo ao Ministério Público fiscalizar todo o processo 
57
eletivo, desde a publicação do edital, zelando pela divulgação e re-
gularidade do processo de escolha. Se necessário, deve o Promotor 
de Justiça expedir recomendações ao Conselho Municipal de Direitos 
e adotar as medidas cabíveis diante de eventuais irregularidades. É 
necessário que o Promotor acompanhe as habilitações de candidatos 
e a satisfação dos requisitos, podendo, se for o caso, impugnar can-
didaturas. O processo de apuração dos votos deve ser pessoalmente 
acompanhado pelo Promotor de Justiça.
As relevantes atribuições do Conselho Tutelar estão elencadas no 
art. 136 do ECA. Para bem exercê-las e atuar prontamente, necessário 
é o seu aparelhamento. Deve o Conselho Tutelar estar sediado em 
local de fácil acesso à população, bem como ser provido, pelo Muni-
cípio, de estrutura adequada ao atendimento (linhas telefônicas ampla-
mente divulgadas à população, aparelhos de fax e computador, viatura, 
mobiliário, etc.), e, se possível, de equipe técnica, cabendo também ao 
Município o custeio da manutenção do referido Conselho. Portanto, o 
Promotor de Justiça deve averiguar o que dispõe a Lei Municipal sobre 
a implantação, a estrutura, o processo de escolha e o funcionamento do 
Conselho Tutelar do Município em que atua e, dependendo do caso, 
celebrar Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Município 
ou, não sendo isso possível, deflagrar em juízo ação civil pública que 
tenha por objeto o adequado aparelhamento do Conselho Tutelar.
O regular funcionamento dos Conselhos Tutelares também deve 
ser fiscalizado pelo Promotor de Justiça. Como órgãos permanentes, 
ressalte-se a necessidade da realização de plantões pelos Conselhos 
Tutelares fora do horário de expediente regular, viabilizando o aten-
dimento de crianças e adolescentes que tenham seus direitos funda-
mentais violados, fato que pode acontecer a qualquer hora do dia e em 
qualquer dia da semana.
Eventuais irregularidades no funcionamento dos Conselhos Tutela-
res (inadequação do atendimento prestado à população, descumpri-
mento de plantões de finais de semana ou de plantões noturnos etc.), e 
dos Conselhos Municipais de Direitos devem ser apuradas pelo Promo-
tor de Justiça, o qual pode fazê-los mediante a instauração de inquérito 
civil público visando à formação da sua opinio para o eventual ajuiza-
mento da ação cabível.
58
Nas hipóteses em que restar demonstrado o reiterado cometimento 
de faltas funcionais pelos Conselheiros Tutelares ou mesmo a práti-
ca de atos incompatíveis com o relevante múnus que exercem, im-
portando em violação aos direitos de crianças e adolescentes, deve o 
Promotor de Justiça noticiar os fatos à Comissão de Ética do Conselho 
Tutelar, caso existente, para a adoção das medidas cabíveis, a par do 
ajuizamento de ação civil pública para a destituição do Conselheiro. A 
esse respeito, é importante que a lei municipal preveja as hipóteses de 
destituição de Conselheiros, de modo a facilitar eventuais pretensões 
nesse sentido.
A propósito das atribuições do Conselho Tutelar, previstas no art. 
136 do ECA, vale destacar as seguintes: (i) inciso I - atendimento a crian-
ças e adolescentes e aplicação de medidas de proteção nos casos sub-
sumidos aos artigos 98 e 105 do ECA; (ii) inciso II - atendimento e acon-
selhamento aos pais ou responsável, bem como aplicação de medidas 
dentre as previstas nos incisos I a VII do artigo 129 do ECA; (iii) inciso III, 
alínea a – requisição de serviços públicos nas áreas de saúde, educação, 
serviço social, previdência, trabalho e segurança; (iv) inciso III, alínea 
b – representação (cível) deflagrada perante o Juízo da Infância e Juven-
tude na hipótese de descumprimento injustificado de suas deliberações, 
o que configura infração administrativa tipificada no art. 249 do ECA; 
(v) inciso IX – assessoramento ao Poder Executivo local na elaboração 
da proposta orçamentáriapara planos e programas de atendimento dos 
direitos da criança e do adolescente; (vi) inciso XI – representar ao Mi-
nistério Público, nos casos em que se vislumbrar a necessidade de se 
deflagrar pedido de destituição ou de suspensão de poder familiar.
No tocante à medida protetiva extrema de acolhimento institucio-
nal, a Lei nº 12.010/09 alterou a sistemática anterior. O Conselho 
Tutelar ainda pode aplicar a medida, mas a decisão acerca da manuten-
ção da criança no acolhimento cabe, agora, à autoridade judiciária, nos 
termos do disposto no art. 93, parágrafo único do ECA, com a redação 
dada pela Lei nº 12.010/09. 
Enquanto órgão de grande relevância no sistema de proteção, é im-
portante que o Conselho Tutelar alimente o MCA (Módulo Criança e 
Adolescente), nele inserindo os dados relativos às crianças e aos ado-
lescentes por ele institucionalizados, inclusive a causa do acolhimento 
e as medidas aplicadas aos infantes, jovens e suas famílias.
59
8. OUTRAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A ATUAÇÃO 
 DO MINISTÉRIO PÚBLICO NA ÁREA DA INFÂNCIA E 
 JUVENTUDE
8.1. Sistema Único de Assistência Social (SUAS) 
Importante tema que exige a intervenção do Ministério Público, 
especialmente na seara de proteção de direitos da criança e do ado-
lescente, o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) é uma ferra-
menta de gestão da Política Nacional de Assistência Social (PNAS) que 
define níveis de proteção social e de gestão, com as responsabilidades 
dos gestores nos âmbitos federal, estadual e municipal. A fiscalização 
das ações do SUAS implica no conhecimento do Plano de Assistência 
Social do Município, do nível de gestão em que está inserido (inicial, 
básica ou plena), dos valores obtidos através do sistema de co-financia-
mento e dos beneficiários dos programas.
Os serviços e programas no nível da Proteção Social Básica têm 
caráter preventivo e são executados de forma direta pelos Centros de 
Referência de Assistência Social (CRASs) - unidades públicas, de base 
municipal, localizadas em áreas com maiores índices de vulnerabilida-
de social –, podendo-se citar os seguintes: Programa de Atenção Inte-
gral à Família (PAIF); programa de inclusão produtiva; serviços socio-
educativos para crianças, adolescentes e jovens, entre outros. Alguns 
desses serviços, como o PAIF, têm que ser desenvolvidos no CRAS, 
mas outros podem ser realizados fora do seu espaço físico. Contudo, 
cabe ao CRAS a coordenação de todas as ações desse nível de proteção 
na sua área de abrangência.
A Proteção Social Especial é voltada para aqueles que se encon-
tram em situações de risco, decorrentes de abandono, maus tratos, uso 
abusivo de drogas, cumprimento de medidas socioeducativas, situação 
de rua etc. O Programa mantém estreita relação com o Sistema de Ga-
rantia de Direitos e seus serviços são classificados em dois níveis de 
proteção: média complexidade (houve violação de direitos, mas sem 
o rompimento dos vínculos familiares e comunitários) e alta complexi-
dade (com ameaça ou rompimento dos vínculos). Os Centros de Refe-
rência Especializados de Assistência Social (CREASs) são responsáveis 
pela coordenação e articulação da proteção social especial de média 
complexidade, devendo oferecer serviços de orientação e apoio espe-
60
cializados e continuados: violência e exploração sexual de crianças 
e adolescentes, abordagem de rua, adolescentes em cumprimento de 
medida socioeducativa em meio aberto (PSC e LA), entre outros. Quan-
to aos serviços de alta complexidade, são aqueles que oferecem prote-
ção integral, com o afastamento do convívio familiar, como os abrigos 
para crianças e adolescentes, os abrigos de família e os programas de 
acolhimento familiar.
Consta do CD ROM que acompanha este Manual listagem atualiza-
da de endereços dos CRAS e CREAS existentes no Estado.
8.2. Recursos 
Algumas observações são necessárias a respeito de recursos inter-
postos perante o Tribunal de Justiça na área da Infância e Juventude:
(i) O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê a possibilidade do 
exercício do juízo de retratação pelo Juiz de Direito (artigo 198, in-
ciso VII). A autoridade judiciária, antes de determinar a remessa dos 
autos à instância superior, no caso do recurso de apelação, ou, no 
caso do agravo de instrumento, ao tomar conhecimento da interpo-
sição do recurso, deve se manifestar, no prazo de cinco dias, através 
de despacho fundamentado, mantendo ou reformando a decisão 
recorrida.
(ii) Conforme se extrai do inciso II do artigo 198 do ECA, o prazo para 
a interposição do recurso de apelação é de 10 dias. Contudo, diante 
da prerrogativa legal do prazo em dobro conferido ao Ministério 
Público, o prazo para o Parquet é de 20 dias. 
(iii) Consoante o disposto no Regimento Interno do TJERJ a respeito da 
competência dos órgãos recursais em matéria de Infância e Juventude:
• as Câmaras Cíveis têm competência para julgar recursos referen-
tes à matéria cível, abrangendo as hipóteses previstas no artigo 
148, incisos III a VII, e parágrafo único, e no artigo 149, ambos 
do ECA (art. 6º, inciso II, alínea a, do RITJRJ);
• o Conselho da Magistratura tem competência para o julgamento 
de pedidos de reexame e, em geral, de recursos contra decisões 
de natureza estritamente administrativa proferidas por Juízes da 
Infância e Juventude (art. 9º, inciso XVII, do RITJRJ);
61
• as Câmaras Criminais têm competência para julgar os recursos 
interpostos de decisões proferidas por Juízo da Infância e da Ju-
ventude em processos referentes a atos infracionais (art. 8º, inci-
so II, alínea a, do RITJRJ).
(iv) A Lei nº 12.010/09 alterou alguns dispositivos do Estatuto da Crian-
ça e do Adolescente em matéria recursal. Revogou os incisos IV a 
VI do artigo 198 e introduziu os artigos 199-A, 199-B, 199-C, 199-D 
e 199-E. Merecem destaque os seguintes aspectos: (a) o recurso de 
apelação interposto de sentença que destituir o(a)(s) genitor(a)(es) 
do poder familiar será recebido apenas no efeito devolutivo (art. 
199-B); (b) os recursos interpostos em processos de adoção e de 
destituição de poder familiar serão processados com prioridade ab-
soluta, terão distribuição imediata e serão colocados em mesa para 
julgamento sem revisão e com parecer urgente do Ministério Públi-
co (art. 199-C); (c) o relator deverá colocar o processo em mesa para 
julgamento no prazo máximo de 60 (sessenta) dias, contados de sua 
conclusão (art. 199-D); (d) “o Ministério Público poderá requerer a 
instauração de procedimento para apuração de responsabilidades 
se constatar o descumprimento das providências e do prazo previs-
tos nos artigos anteriores” (art. 199-E).
Importante ferramenta para o Promotor de Justiça consiste no sis-
tema de acompanhamento de recursos do 1º Centro de Apoio Ope-
racional, que possibilita não apenas o acompanhamento dos recursos 
interpostos, mas também um maior estreitamento no contato entre os 
membros do Ministério Público de 1º e 2º graus.
Sugere-se, assim, ao Promotor de Justiça que comunique ao 4º Cen-
tro de Apoio Operacional os casos de sua atuação que importem em 
relevante interesse institucional, a fim de que sejam divulgados aos 
demais colegas.
 
62
Parte 2. MatÉria inFracional
9. ATUAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO NA ÁREA DO 
DIREITO SOCIOEDUCATIVO
9.1. Breves Considerações sobre Ato Infracional
Ato infracional é definido como toda conduta análoga a crime ou 
contravenção penal (art.103 do ECA), devendo, pois, ser típico, antiju-
rídico e culpável.
A criança a quem se atribua a prática de ato infracional deve ser en-
caminhada ao Conselho Tutelar para a aplicação das medidas protetivas 
cabíveis (artigos 101 e 105 do ECA), devendo o Promotor de Justiça pro-
mover o arquivamento de procedimento porventura instaurado, eis que 
crianças não são passíveis de aplicação de medidas socioeducativas.
Em relação ao adolescente autor de ato infracional, o ECA prevê 
procedimento para sua apuração, podendo ser-lhe aplicada, sob a égi-
de do devido processo legal, medida socioeducativa,caso comprovada 
a sua autoria e materialidade.
As garantias processuais vêm relacionadas nos artigos 110 a 111 do 
ECA, devendo o Promotor de Justiça zelar pela estrita observância dos 
dispositivos legais e pelo efetivo cumprimento dos direitos individuais 
previstos nos arts. 106 a 109 do Estatuto, registrando-se que a inob-
servância desses direitos pode acarretar a prática de crime, como, por 
exemplo, aquele tipificado no art. 231.
O procedimento para a apuração de ato infracional atribuído a ado-
lescente pode ser dividido em três fases: policial, pré-processual e ju-
dicial.
Na fase policial (primeira fase), o adolescente é encaminhado à uni-
63
dade policial por força de ordem judicial (mandado de busca e apreen-
são) ou em flagrante prática de ato infracional (arts. 171 e 172, caput, 
do ECA). O art. 173, caput, do Estatuto regulamenta a conduta da 
autoridade policial no caso de apreensão de adolescente em flagrante 
prática de ato infracional cometido com violência ou grave ameaça 
a pessoa, enquanto o parágrafo único prevê as demais hipóteses de 
flagrante.
O artigo 174 prevê a possibilidade de liberação do adolescente pela 
Autoridade Policial e a sua entrega aos pais ou responsável, cabendo 
ao Promotor de Justiça zelar pelo estrito cumprimento desta norma. 
Nos casos de afastamento de flagrante ou de liberação do adoles-
cente pela autoridade policial, são encaminhados pela Autoridade Poli-
cial ao Ministério Público a cópia do auto de apreensão ou do boletim 
de ocorrência, na forma do disposto nos artigos 176 e 177 do ECA.
Pode a autoridade policial, nas hipóteses autorizadas por lei e à 
similitude do que ocorre no processo penal, representar à autoridade 
judiciária pela expedição de mandado de busca e apreensão de adoles-
cente, sendo imperiosa a manifestação do Ministério Público.
O adolescente apreendido e não liberado em razão de critérios le-
gais deve ser apresentado ao Promotor de Justiça para oitiva no prazo 
de 24 horas, conforme estabelecido no art. 175 e seus parágrafos. O 
transporte e a condução do adolescente devem respeitar a sua dignida-
de e integridade, sob pena de responsabilização criminal (art. 232 do 
ECA). Na capital do Rio de Janeiro, os adolescentes apreendidos são 
encaminhados ao Centro de Recepção e Triagem (CTR), unidade do 
Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE), situada na 
Ilha do Governador, de onde são levados ao Ministério Público para a 
realização da oitiva prevista no art. 179 do ECA.
A fase pré-processual ou de atuação do Ministério Público (segunda 
fase) é inaugurada com a apresentação do adolescente, preferencial-
mente acompanhado dos pais ou responsável, para que o Promotor de 
Justiça proceda à sua oitiva pessoal (art. 179 do ECA). O ato de oitiva 
é privativo do Promotor de Justiça, admitindo-se que o investigado se 
faça acompanhar por advogado ou defensor público. 
Antes de iniciar os questionamentos acerca da prática do ato infra-
cional, o Promotor de Justiça deve dar ciência ao adolescente quanto a 
64
seu direito de permanecer calado (artigo 5º, inciso LXIII, da Constitui-
ção da República), passando a indagar sobre as circunstâncias do ato e 
sua motivação, sendo conveniente perguntar, ainda, sobre sua família, 
moradia, escolaridade, profissionalização, uso de drogas, existência de 
anteriores passagens pelo Sistema de Justiça, e outros fatores que per-
mitam a avaliação de eventual possibilidade de concessão de remissão. 
Vale lembrar que o art. 179 do ECA exige que os fatos estejam consubs-
tanciados em “auto de apreensão, boletim de ocorrência ou relatório 
policial, devidamente autuados pelo cartório judicial e com informação 
sobre os antecedentes do adolescente”. 
Após a oitiva informal, o Promotor de Justiça deve adotar uma das 
seguintes medidas: (i) promoção do arquivamento, (ii) concessão de re-
missão ou (iii) oferecimento de representação socioeducativa, na forma 
do art. 180 do ECA.
O arquivamento deve ser promovido quando se verificar a inexis-
tência do fato ou quando não constituir ele ato infracional ou, ainda, 
quando não for o adolescente o seu autor.
A remissão pode ser concedida como forma de exclusão do pro-
cesso, com fulcro no art. 180, inciso II c/c art. 126, caput, do ECA. 
Permite-se a concessão de remissão cumulada com a aplicação de me-
dida socioeducativa, exceto as de semiliberdade e internação (parte 
final do art. 127 do ECA). Vale lembrar a possibilidade de cumulação 
de mais de uma medida em meio aberto ou, ainda, a possibilidade 
de substituição de uma por outra, caso a primeira medida aplicada se 
mostre inadequada no caso concreto, diante do disposto nos artigos 99, 
100 e 113 do ECA). 
Na hipótese de concessão de remissão cumulada com medida, 
deve o Promotor de Justiça fazer constar no termo de oitiva informal 
a concordância do adolescente e de seu responsável, considerando a 
natureza jurídica de tal instituto, qual seja, o de transação.
Tanto o arquivamento quanto a remissão devem ser submetidos à 
homologação judicial (art. 181 e parágrafos do ECA).
O oferecimento de representação, oral ou escrita, inaugura a ação 
socioeducativa, devendo conter breve resumo dos fatos, tipificação da 
conduta imputada, requerimentos de diligências e rol de testemunhas 
(art. 182 e parágrafos).
65
Promovido o arquivamento, concedida a remissão ou ofertada a 
representação pelo Ministério Público, inicia-se a fase judicial (terceira 
fase).
Nas duas primeiras hipóteses, a autoridade judiciária homologa a 
manifestação do Parquet, ou, em caso de sua discordância, remete os 
autos ao Procurador-Geral de Justiça (art. 181 e parágrafos). 
Iniciada a ação socioeducativa mediante o oferecimento de repre-
sentação, pode a autoridade judiciária, a qualquer tempo, conceder a 
remissão como forma de extinção ou suspensão do processo, ouvido o 
Ministério Público (art. 126 do ECA). 
Oferecida representação, o Juiz de Direito adota as providências 
elencadas no art. 184 e parágrafos, destacando-se a importância da de-
cisão sobre a decretação ou a manutenção da internação provisória. 
Eventual requerimento de internação provisória deve ser formulado 
pelo Promotor de Justiça quando do oferecimento da representação, 
não sendo recomendável que o Promotor de Justiça formule apenas 
o pedido de internação provisória, sem deflagrar simultaneamente a 
representação socioeducativa. O pedido de internação provisória deve 
ser fundamentado, não devendo se basear a medida apenas na gravi-
dade do ato infracional, mas sim na efetiva necessidade de sua decre-
tação. Em razão disso, os modelos de requerimento de decretação de 
internação provisória são apresentados neste Manual separadamente 
dos modelos de representação. Registre-se, outrossim, que parte da 
doutrina entende ser incabível a decretação da internação provisória 
nos casos em que o ato imputado não é capaz de ensejar a aplicação 
de medida não privativa de liberdade. 
Imperiosa se faz a observância do prazo de 45 (quarenta e cinco) 
dias previsto nos arts. 108 e 183 do ECA para a conclusão do feito 
quando o adolescente estiver internado provisoriamente, sob pena de 
cometimento do crime previsto no art. 235 do ECA. A propósito, no Es-
tado do Rio de Janeiro, tão logo decretada a internação provisória, o(a) 
adolescente é encaminhado(a) a uma das seguintes unidades, ambas 
situadas na Capital, até a criação de maior número de unidades a fim de 
descentralizar o atendimento prestado a adolescentes em conflito com 
a lei: Instituto Padre Severino/IPS (adolescentes do sexo masculino) e 
Educandário Santos Dumont / ESD (sexo feminino), ambas localizadas 
66
na Ilha do Governador, onde pode permanecer pelo prazo máximo de 
45 dias. 
Destaque-se a necessidade da presença do Promotor de Justiça e 
do advogado ou defensor público na audiência de apresentação (art. 
201, inc. II, art. 204 e art. 207, todos do ECA). A propósito, o Superior 
Tribunal de Justiça, através da Súmula 343, reconhece a nulidade dasentença nos casos em que houver desistência de outras provas em face 
da confissão do adolescente, em que pesem os argumentos contrários 
pautados no art. 186, §2º, do ECA. 
De qualquer sorte, a fim de se evitar nulidade processual em razão 
do entendimento consagrado pelo STJ, vale lembrar a possibilidade le-
gal de que, na audiência de apresentação, a pedido do Ministério Públi-
co, o Juízo conceda remissão como forma de suspensão ou de extinção 
do processo, cumulada com medida socioeducativa em meio aberto, 
diante do disposto no art. 126, parágrafo único do ECA. Também neste 
caso, como já mencionado, faz-se necessária a concordância do adoles-
cente com relação à concessão de remissão, diante da natureza jurídica 
do referido instituto.
Não sendo localizado o adolescente, aplica-se a regra do art. 184, 
§3º do ECA, com a expedição de mandado de busca e apreensão e 
sobrestamento do feito.
Deve o Promotor de Justiça atentar para eventual ocorrência de 
prescrição, em seguimento ao entendimento sumulado do E. Superior 
Tribunal de Justiça, sob o verbete 338.
Terminada a instrução probatória, o Juiz profere decisão: (i) conce-
dendo remissão, de acordo com art. 188 do ECA; ou (ii) deixando de 
aplicar medida nos casos previstos no art. 189 do ECA; ou, enfim, (iii) 
julgando procedente o pedido, aplicando ao adolescente uma das me-
didas socioeducativas elencadas no art. 112 do ECA, ou mais de uma 
delas, cumulativamente, em razão do disposto no art. 113, c/c o art. 99, 
ambos do ECA.
Em caso de recurso, aplicam-se as regras do CPC por força do art. 
198 do ECA.
Por fim, nos termos do artigo 112, parágrafo 3º, do ECA, os adoles-
centes portadores de doença mental devem receber tratamento indivi-
dual e especializado, em local adequado às suas condições. Da mesma 
67
forma, os dependentes químicos devem ser encaminhados a tratamento 
especializado, na forma no disposto no art. 101, inciso VI, c/c art. 112, 
inciso VII, ambos do ECA.
9.2. Breves Considerações sobre Medidas Socioeducativas:
As medidas socioeducativas, previstas no art. 112 do ECA, são as 
seguintes: advertência, obrigação de reparação do dano, prestação de 
serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e internação 
em estabelecimento educacional.
Cumpre registrar a existência de divergência na doutrina e na juris-
prudência, inclusive com oscilações nos tribunais superiores, quanto à 
natureza dessas medidas. Resumidamente, pode-se dizer que prevale-
ce o entendimento de que a sua natureza é retributiva e sua finalidade, 
socioeducativa, em contraposição ao reconhecimento anteriormente 
apregoado de que sua natureza seria pedagógica. 
Eventual decisão judicial de regressão de medida deve ser precedi-
da da oitiva do adolescente em audiência, consoante o entendimento 
sumulado sob o verbete 265 do STJ.
a) Advertência
A mais leve das medidas nada mais é do que uma admoestação 
verbal, reduzida a termo, que prescinde da prova cabal de autoria (o 
Estatuto exige apenas prova de materialidade e indícios suficientes de 
autoria) e está regulamentada nos arts. 114 e parágrafo único e 115 do 
ECA.
b) Obrigação de Reparação do dano
Esta medida só tem cabimento quando o ato infracional causar pre-
juízos materiais e o adolescente for possuidor de patrimônio, para que 
ele próprio efetue o ressarcimento, e não os seus pais ou responsável 
legal, sob pena de violação do disposto no art. 5º, inciso XLV, da Cons-
tituição da República. Caso contrário, aplica-se o disposto no art. 116, 
parágrafo único, do ECA, devendo o Promotor de Justiça requerer a 
substituição da medida por outra adequada.
c) Prestação de Serviços à Comunidade
Quanto à aplicação da medida de prestação de serviços à comu-
68
nidade, prevista no art. 117 e parágrafo único do ECA, é fundamental 
observar a fixação do prazo máximo de seis meses, bem como a jorna-
da máxima de seis horas semanais, de modo que não haja prejuízo à 
escolarização e a eventual jornada de trabalho do adolescente.
O cumprimento das medidas socioeducativas em meio aberto (pres-
tação de serviços à comunidade e liberdade assistida) já está pratica-
mente municipalizado ou em processo bem acelerado de municipaliza-
ção no Estado do Rio de Janeiro, mediante os serviços prestados pelos 
Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREASs), 
órgãos municipais integrantes do SUAS, responsáveis pela coordena-
ção e articulação da proteção social especial de média complexidade.
d) Liberdade Assistida
Está disciplinada nos arts. 118 e 119 do ECA, devendo ser aplicada 
com a finalidade de orientar o adolescente, observado o prazo mínimo 
de seis meses para o seu cumprimento. Da mesma forma como ocorre 
com a medida de prestação de serviços à comunidade, por se tratar 
de medida socioeducativa em meio aberto, o atendimento deve ser 
municipalizado.
e) Semiliberdade
Prevista no art. 120 e parágrafos, a medida de semiliberdade pode 
ser aplicada desde o início ou como forma de transição para o meio 
aberto, com a realização de atividades externas, sem a necessidade de 
autorização judicial para tanto.
Imperioso lembrar que regras e horários para as saídas nos finais 
de semana devem ser estabelecidas pela direção de cada unidade que 
desenvolve programa de atendimento socioeducativo em regime de 
semiliberdade, e não pelo Juízo ou pelo Ministério Público.
De acordo com o disposto no art. 120, § 2º, do ECA, aplicam-se à 
medida de semiliberdade as normas relativas à medida de internação, 
não havendo, desta forma, prazo determinado para o seu cumprimento.
No Estado do Rio de Janeiro, as medidas de semiliberdade são 
cumpridas em unidades designadas por CRIADs (Centros de Recurso 
Integrado de Atendimento ao Adolescente), existentes em número de 
dezessete em todo o Estado (vide endereços elencados no Anexo 3 
deste Manual).
69
f) Internação
Regulada pelos arts. 121 a 125 do ECA, a mais extrema das medidas 
é regida pelos princípios da brevidade, excepcionalidade e respeito à 
condição peculiar da pessoa em desenvolvimento.
As hipóteses de aplicação da medida extrema são taxativamente 
arroladas no art. 122 do ECA, observando-se a limitação temporária 
de três meses no caso do inciso III do citado dispositivo, tratada pela 
doutrina como “internação-sanção”, quando deverá o adolescente ter 
a sua medida automaticamente progredida ao final do referido prazo.
A medida de internação não comporta prazo determinado, devendo 
ser reavaliada a cada período máximo de seis meses e não podendo 
exceder o período máximo de três anos, nem ser aplicada a maiores 
de 21 anos completos.
No Estado do Rio de Janeiro, a medida socioeducativa de interna-
ção é cumprida nos seguintes estabelecimentos: Escola João Luis Alves 
/ EJLA, Escola Santos Dumont / ESD, ambos localizados na Capital (Ilha 
do Governador), CAI Baixada (situado em Belford Roxo), e Educandá-
rio Santo Expedito / ESE (localizado em Bangu).
9.3. Breves Considerações sobre Execução das Medidas 
Socioeducativas
O Estatuto da Criança e do Adolescente não trata da execução das 
medidas socioeducativas, fazendo-se imperiosa a necessidade de re-
gulamentação da matéria. A propósito, tramita no Congresso Nacional 
projeto de lei que trata do assunto (PL 1627).
Consoante os ditames constitucionais e a diretriz da política de aten-
dimento traçada no art. 88 do ECA, as medidas de Liberdade Assistida 
e de Prestação de Serviços à Comunidade (medidas socioeducativas 
em meio aberto) devem ser municipalizadas, cabendo ao Promotor de 
Justiça fiscalizar a municipalização da execução das referidas medidas, 
bem como a existência e o funcionamento dos respectivos programas.
Deve o Promotor de Justiça inspecionar pessoal e periodicamente 
as entidades destinadas ao cumprimento dos regimes de semiliberdade 
e internação, localizadas em sua comarca de atuação. Vale lembrar 
que, conforme orientação da Corregedoria-Geral do Ministério Públi-
70
co, constante do formulário de relatório estatístico on line, faz-sene-
cessário o encaminhamento de cópia dos relatórios de inspeção àquele 
órgão correicional, sem prejuízo do preenchimento do referido formu-
lário (quesito “fiscalizações/inspeções”).
No acompanhamento da execução da medida de internação, deve 
o Promotor de Justiça zelar pela estrita observância do prazo máximo 
de internação, bem como atentar para a ocorrência da obrigatória rea-
valiação, no máximo a cada seis meses, da necessidade de manutenção 
da medida.
71
10. FLUXOGRAMA DO PROCEDIMENTO DE APURAÇÃO 
 DO ATO INFRACIONAL
(SARAIVA, João Batista Costa, in Compêndio de direito penal juvenil: adoles-
cente e ato infracional, Terceira Edição, Porto Alegre, Livraria do Advogado 
Editora, 2006, página 223)
72
73
74
75
76. . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
 6.2. Sugestões de Atuação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
 6.3. Colocação em Família Substituta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
7. Conselhos e Fundos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
 7.1. Considerações Iniciais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
 7.2. Conselhos Municipais de Direitos da Criança e do 
 Adolescente e Fundos Municipais. Sugestões de Atuação . . . . . . .54
 7.3. Conselhos Tutelares. Sugestões de Atuação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
8. Outras Considerações sobre a Atuação do Ministério Público na 
 Área da Infância e Juventude . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
 8.1. Sistema Único de Assistência Social (SUAS) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
 8.2. Recursos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
12
PARTE 2. MATÉRIA INFRACIONAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62
9. Atuação do Ministério Público na Área do Direito 
 Socioeducativo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62
 9.1. Breves Considerações sobre Ato Infracional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62
 9.2. Breves Considerações sobre Medidas Socioeducativas . . . . . . . . . . . 67
 9.3. Breves Considerações sobre Execução das Medidas 
 Socioeducativas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69
10. Fluxograma do Procedimento de Apuração do Ato Infracional . . . . . . . 71
13
introdução
O presente Manual visa a fornecer informações básicas e práticas, 
além de sugestões de modelos de peças – em sua maioria fornecidas 
gentilmente por membros do Ministério Público do Estado do Rio de 
Janeiro atuantes na área. Esse material destina-se a subsidiar o Promotor 
de Justiça iniciante no exercício das suas relevantes funções na área de 
proteção e garantia dos direitos da criança e do adolescente, alçados à 
categoria de prioridade absoluta pela Constituição da República, que, 
em seu artigo 227, recepcionou a Doutrina da Proteção Integral, regu-
lamentada pela Lei nº 8.069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente.
O legislador estatutário ampliou sobremaneira as funções conferi-
das ao Ministério Público nessa matéria e, na esteira do disposto no 
artigo 127 da Constituição da República, transformou a Instituição em 
guardiã dos interesses sociais e individuais indisponíveis de crianças e 
adolescentes.
De fato, à luz do princípio constitucional da prioridade absoluta (art. 
227, caput, da CR), a defesa dos direitos infantojuvenis também deve 
constituir prioridade no exercício das funções institucionais do Minis-
tério Público. A atuação diligente, técnica e eficaz do órgão ministerial 
é indispensável à efetivação dos direitos e garantias consagrados em 
nosso ordenamento jurídico em favor de crianças e adolescentes.
14
Parte 1. MatÉria não inFracional
1. BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A ATUAÇÃO DO 
PROMOTOR DE JUSTIÇA NA ÁREA DA INFÂNCIA E 
JUVENTUDE
O artigo 201 do Estatuto da Criança e do Adolescente prevê as 
atribuições do Ministério Público na área de proteção aos direitos de 
crianças e adolescentes em ambas as esferas de atuação (extrajudicial 
e judicial). Vale lembrar que, nesse último caso (atuação judicial), ao 
oficiar como autor, o Parquet exerce a função de substituto processual 
em favor dessa parcela da população.
Na seara extrajudicial, a atuação do Parquet é de suma importân-
cia, pois, não raro, o Promotor de Justiça, através dos instrumentos 
jurídicos pertinentes, consegue garantir eficaz e rapidamente os di-
reitos fundamentais – individuais ou transindividuais – de crianças e 
adolescentes. 
Ao tomar conhecimento de fato que constitua ameaça ou violação a 
direito individual indisponível ou a direito transindividual de criança(s) 
e/ou adolescente(s), o Promotor de Justiça, em regra, instaura procedi-
mento administrativo ou inquérito civil público visando à sua apura-
ção, devendo, caso verificada a sua veracidade, tentar esgotar, primei-
ramente, as possibilidades extrajudiciais de solução. A propósito, vale 
observar o disposto na Resolução GPGJ nº 1.522, de 07/07/09, que 
disciplina, no âmbito do Ministério Público do Estado do Rio de Janei-
ro, a instauração e a tramitação do inquérito civil público.
A experiência na área da infância e juventude demonstra que a atu-
ação extrajudicial do Ministério Público tem o condão de solucionar 
15
eficazmente a maioria dos casos levados ao conhecimento do Promo-
tor de Justiça.
Na esfera de atuação extrajudicial, merecem destaque dois impor-
tantes instrumentos jurídicos: a Recomendação e o Termo de Ajusta-
mento de Conduta (TAC).
A Recomendação visa à melhoria dos serviços públicos e de re-
levância pública afetos à criança e ao adolescente, com a fixação de 
prazo razoável para a sua perfeita adequação, conforme estabelece o 
artigo 201, parágrafo 5º, “c” do ECA. A propósito, observe-se o dispos-
to no artigo 27 da Resolução GPGJ nº 1.522/09.
O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) consiste na tomada 
de compromisso de entidades públicas e privadas a ajustarem as suas 
condutas às exigências legais, mediante cominações, tendo eficácia de 
título executivo extrajudicial, em consonância com o disposto no artigo 
5º, § 6º, da Lei nº 7.347/85 (Lei da Ação Civil Pública). A respeito do 
assunto, observe-se o disposto nos artigos 23 a 26 da Resolução GPGJ 
nº 1.522/09.
Caso as tratativas, na esfera extrajudicial, não sejam eficazes para 
garantir o direito ameaçado ou violado, deve o Promotor de Justiça 
provocar o Poder Judiciário, deflagrando a demanda judicial adequada.
Assim, ao atuar em órgão de execução com atribuição na área de 
defesa de direitos infantojuvenis, deve o Promotor de Justiça tomar 
conhecimento de todos os procedimentos administrativos e inquéritos 
civis instaurados e que estejam em tramitação na Promotoria de Justiça, 
a fim de lhes dar o devido andamento, adotando as providências cabí-
veis: expedição ou renovação de ofícios, oitiva de pessoas, designação 
de datas para a realização de reuniões com agentes públicos ou priva-
dos, solicitação de diligências à equipe multidisciplinar técnica porven-
tura existente no CRAAI / MPRJ local, expedição de Recomendações, 
celebração de Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) ou dedução 
em juízo da medida cabível.
Embora tais assuntos sejam adiante tratados nos capítulos pertinen-
tes, cumpre salientar a conveniência de o Promotor de Justiça, ao as-
sumir a titularidade em órgão de atuação na área da infância e juven-
tude, estabelecer contato pessoal com os membros do(s) Conselho(s) 
de Direitos e com os Conselheiros Tutelares do(s) Município(s), com 
16
os representantes do Poder Executivo local, em especial, a Chefia e as 
Secretarias de Saúde, Educação e Assistência Social, além de outros 
órgãos relacionados com a matéria, visando à integração da rede de 
atendimento local. Com relação à área da Assistência Social, deve o 
Promotor de Justiça verificar como se encontra estruturado o Sistema 
Único de Assistência Social(SUAS) no Município, fazendo contato, 
ainda, com o Coordenador do Centro de Referência de Assistência So-
cial (CRAS) e, se houver, com o Coordenador do Centro de Referência 
Especializado de Assistência Social (CREAS). Importante, outrossim, 
fazer contato com os Conselhos Municipais de Saúde, de Assistência 
Social e de Educação, a fim de verificar como se encontra a sua atuação 
no tocante às políticas voltadas para a população infantojuvenil.
Assim, diante de uma notícia de violação ou ameaça a direito in-
fantojuvenil, o Promotor de Justiça deve aferir se a hipótese é de sua 
atribuição, instaurando procedimento, em caso afirmativo. No caso de 
a atribuição ser de outro órgão (Conselho Tutelar, Promotoria de Inves-
tigação Penal, etc.), a este deve ser remetido o expediente ou sua cópia 
para a adoção das medidas porventura cabíveis. Neste caso, por óbvio, 
não há que se falar em arquivamento com submissão ao Conselho Su-
perior do Ministério Público, por força da ausência de atribuição do 
órgão ministerial.
Quando for caso de remessa da promoção de arquivamento para 
exame do CSMP, faz-se necessária a observância do prazo legal de três 
dias para o envio dos autos do inquérito civil público ou peças de infor-
mação àquele Conselho (art. 223, § 2º, ECA), observando-se o disposto 
no artigo 18, §§ 1º e 2º, da Resolução GPGJ nº 1.522/09.
A propósito, deve o Promotor de Justiça, atendendo aos princípios 
da publicidade e da transparência, informar a parte interessada sobre a 
decisão de arquivamento do inquérito civil público, peças de informa-
ção ou procedimento preparatório, conforme se extrai da norma pre-
vista no artigo 223, § 3º, do ECA, que possibilita ao interessado a apre-
sentação de razões escritas ou documentos em face da promoção de 
arquivamento lançada pelo membro do Ministério Público. Observe-se 
o disposto no artigo 15, § 1º, da Resolução GPGJ nº 1.522/09.
De acordo com o teor da Súmula nº 01 do Conselho Superior do 
Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, “no exame dos arqui-
17
vamentos submetidos ao Conselho, o Relator ou o Colegiado poderá 
determinar a realização de diligências complementares, delegando o 
seu cumprimento ao Promotor oficiante”.
Se o CSMP baixar os autos do procedimento para a realização de 
diligências complementares, deve-se observar o disposto no artigo 19, 
§ 1º, inciso II, da Resolução GPGJ nº 1.522/09.
Já de acordo com a Súmula nº 02 do CSMP, “os arquivamentos 
dos inquéritos civis, dos procedimentos preparatórios, das peças de 
informação, dos procedimentos administrativos e outros a eles asse-
melhados, instaurados para garantir a tutela de direitos individuais in-
disponíveis ou homogêneos referentes a idosos, deficientes, crianças e 
adolescentes, que não tenham sido submetidos ao crivo do judiciário, 
estão sujeitos à revisão do Conselho Superior do Ministério Público”. 
Nesse sentido, o CSMP editou a Recomendação nº 08 de 
15/04/2009, publicada no D.O. de 29/04/09, no sentido de que, quan-
do o arquivamento se fundar no ajuizamento de ação civil pública ou 
de outra medida judicial cujo pedido contemple o objeto constante da 
Portaria de Instauração do Procedimento Administrativo, baseando-se 
na perda do interesse procedimental, nos termos do Enunciado nº 18 
do CSMP, deve ser acompanhado de cópia da respectiva petição inicial 
e/ou eventual decisão proferida.
Quanto a notícias de fatos que ensejem a intervenção do Parquet 
encaminhadas pelo sistema da Ouvidoria-Geral do Ministério Público, 
vale lembrar que o Promotor de Justiça deve informar àquele setor, 
através do próprio sistema, o encaminhamento dado às notícias dire-
cionadas ao órgão de execução ministerial.
No tocante à atuação judicial, o legislador estatutário legitimou o 
Ministério Público para deflagrar inúmeras medidas judiciais em prol 
de crianças e adolescentes que se encontrem com seus direitos funda-
mentais ameaçados ou violados.
Dentre as hipóteses de legitimação ativa do Ministério Público pre-
vistas no Estatuto, destacam-se as seguintes: ações civis públicas, de 
alimentos, de suspensão ou destituição de poder familiar, de nomeação 
e remoção de tutor ou de guardião, mandado de segurança, representa-
ção por infração às normas de proteção (artigo 201).
A Lei Federal nº 12.010/09, que alterou o Estatuto da Criança e 
18
do Adolescente, prevê expressamente o cabimento de ação de investi-
gação de paternidade, deflagrada pelo Ministério Público (artigo 102, 
§3º), conforme preconizado pela Lei nº 8.560/92.
A atribuição judicial do Promotor de Justiça está atrelada à compe-
tência do Juízo da infância e da juventude. O artigo 148 do Estatuto tra-
ta da competência desse Juízo, exigindo que, nos casos elencados em 
seu parágrafo único, esteja presente qualquer das hipóteses previstas 
no artigo 98 da referida lei. Em não se constatando qualquer dessas hi-
póteses, o Juízo competente será aquele indicado na lei de organização 
judiciária local. No caso do Estado do Rio de Janeiro, de acordo com 
o Código de Organização Judiciária (CODJERJ), situações envolvendo 
violações de direitos de crianças e adolescentes que não se encontram 
em situação de abandono, por exemplo, são de competência do Juízo 
de Família, Orfanológico ou de Registro Civil, dependendo do caso.
Ainda no tocante à atuação judicial, levando-se em consideração 
os requisitos formais de admissibilidade dos recursos constitucionais, 
ao deflagrar uma demanda judicial, deve o Promotor de Justiça fazer 
o necessário prequestionamento, a fim de viabilizar, eventualmente, 
futura interposição de Recurso Especial e/ou Recurso Extraordinário 
nos Tribunais Superiores. Assim, deve o Promotor de Justiça indicar 
na petição inicial as questões constitucionais ou a lei federal afetada, 
veiculando expressamente a matéria constitucional ou federal debati-
da. Convém, outrossim, a indicação de casos similares já julgados por 
outros tribunais, diante do disposto na alínea c do inciso III do art. 105 
da Constituição da República.
19
2. PROTEÇÃO DO DIREITO À VIDA E À SAÚDE
2.1. Considerações sobre o Sistema Único de Saúde e Temas 
Correlatos
O ordenamento jurídico nacional, em perfeita consonância com 
a legislação internacional relativa à proteção de direitos infantojuve-
nis, adotou, quando da promulgação da Constituição da República de 
1988, a doutrina da proteção integral, assegurando a crianças e adoles-
centes todos os direitos fundamentais necessários a lhes proporcionar 
pleno desenvolvimento como seres humanos (artigo 227 caput). Den-
tre estes direitos fundamentais, destacam-se os direitos à vida e à saúde, 
sem os quais os demais direitos sequer apresentam relevância. 
De fato, consoante o disposto nos artigos 6º, 196, 197, 227, caput, 
da Constituição da República, a saúde é direito de todos e dever do Po-
der Público, que deve garantir o acesso universal e igualitário, inclusive 
a crianças e adolescentes.
As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regiona-
lizada e hierarquizada, constituindo o Sistema Único de Saúde (SUS), 
instituído pela Constituição da República (art. 198) e regulamentado 
pela Lei Federal nº 8.080/90 (Lei Orgânica do SUS), a qual estabelece 
modelo geral próprio de gestão que integra os três entes federativos.
Sabe-se que crianças e adolescentes têm direito ao atendimento in-
tegral à saúde, com acesso universal e igualitário por meio de políticas 
sociais públicas, em regime de absoluta prioridade, permitindo, inclu-
sive, o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em con-
dições dignas de existência, sendo assegurado à gestante, através do 
SUS, o atendimento pré e perinatal. A esse respeito, leia-se o disposto 
nos arts. 4º, 7º, 8º e 11 do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Na seara da saúde, deve o Promotor de Justiça verificar o efetivo 
funcionamento do SUS no Município em que atua, levando em con-
sideração – o que é fundamental – o nível de gestão do Município 
(gestão básica ou gestão plena). 
De qualquersorte, independente do nível de gestão, o Município é 
o gestor do sistema local de saúde e responsável pelo cumprimento dos 
princípios da atenção básica, devendo, para tanto, coordenar, articular, 
negociar e planejar o sistema de saúde dentro do seu território de forma 
20
universal. Caso não se trate de Município de gestão plena, deve-se ga-
rantir aos munícipes referências a serviços e ações de saúde de média 
e alta complexidade, na forma da Portaria nº 648/06 (Política Nacional 
de Atenção Básica).
Importante, portanto, a instauração de inquérito civil público para 
fiscalizar o regular funcionamento do SUS, através de Termo de Ajusta-
mento de Conduta ou Recomendações, se verificada a inexistência ou 
o oferecimento irregular de programas ou serviços na área de saúde. 
Importa, também, ao Promotor de Justiça buscar, no âmbito do SUS, a 
adoção de medidas destinadas a assegurar, por exemplo, a melhoria do 
acesso, da cobertura e da qualidade de acompanhamento do pré-natal, 
da assistência ao parto e puerpério e da assistência neonatal, com a 
implementação das redes de assistência à gestação de alto risco (UTI 
neonatal).)
A par da fiscalização da rede de atendimento à saúde, é importante 
que o Promotor de Justiça leve em consideração outros aspectos que 
merecem ser fiscalizados, como por exemplo:
• A necessária edição de Lei Municipal criadora do Fundo Municipal 
de Saúde, onde necessariamente devem ser alocados os recursos 
financeiros destinados à implementação das políticas públicas de 
saúde, cuja fiscalização compete ao Conselho Municipal de Saú-
de, materializando uma das diretrizes constitucionalmente previstas 
para o SUS - a participação da comunidade na gestão dos recursos 
destinados às ações e serviços públicos de saúde -, consoante o 
disposto no artigo 198, inciso III da Constituição da República, no 
artigo 33 da Lei Federal nº 8.080/90 e no artigo 4º da Lei Federal nº 
8.142/90.
• O processo de planejamento e orçamento do SUS, que consiste na 
compatibilização das necessidades da política de saúde do municí-
pio com a disponibilidade de recursos constantes do plano de saúde 
municipal, conforme estabelece o art. 36, caput da Lei Federal nº 
8.080/90.
• O plano de saúde municipal, que é a base das atividades e progra-
mações do SUS, cujo financiamento deve ser previsto na corres-
pondente proposta orçamentária, sendo vedada a transferência de 
recursos para o financiamento de ações não previstas no aludido 
21
plano, exceto em situações emergenciais ou de calamidade pública, 
conforme previsto no artigo 36, § 1º e 2º da nº 8.080/90 e no artigo 
4º, inciso III, da Lei Federal nº 8.142/90.
• A imprescindível elaboração do relatório de gestão, viabilizando o 
adequado controle da correta destinação dos recursos pelo Ministé-
rio da Saúde, para as ações e serviços de saúde outrora programa-
dos no plano de saúde municipal, conforme o disposto no artigo 
33, § 4º da Lei Federal nº 8.080/90 e no artigo 4º, inciso IV da Lei 
Federal nº 8.142/90.
• A apresentação, pelo gestor municipal, de dados trimestrais sobre o 
montante e a fonte de recursos aplicados, sobre as auditorias con-
cluídas ou iniciadas no período, bem como sobre a oferta e produ-
ção de serviços na rede assistencial própria. A prestação de contas 
deverá ser feita perante o Conselho de Saúde e em audiência públi-
ca na Câmara dos Vereadores.
• O funcionamento das Comissões Intergestoras Bipartite e Tripartite, 
que constituem espaços de pactuação entre os entes federativos, ob-
jetivando articular políticas e programas de interesse para a saúde, 
envolvendo áreas não compreendidas pelo SUS, consoante dispõe 
o artigo 12 da Lei Federal nº 8.080/90.
• A possibilidade dos entes federativos constituírem consórcios pú-
blicos para desenvolver, em conjunto, ações e serviços de saúde, 
observando-se os princípios, diretrizes e normas que regulam o 
SUS, segundo disposto no artigo 10º da Lei Federal nº 8.080/90.
Ainda no que se refere à proteção dos direitos à vida e à saúde, 
saliente-se a eventual necessidade de fornecimento de medicamentos 
e/ou tratamentos específicos pelo Poder Público Municipal ou Estadu-
al, podendo o Promotor de Justiça deflagrar ação civil pública para a 
garantia do interesse individual indisponível à vida ou à saúde de crian-
ça ou adolescente. Trata-se de atribuição não exclusiva do Ministério 
Público, pois o titular do direito lesado (criança ou adolescente), repre-
sentado ou assistido pelos pais ou responsável legal, também poderá 
pleitear a tutela específica em Juízo, através de advogado particular 
ou de Defensor Público. Tal possibilidade não afasta, porém, a legiti-
midade do Ministério Público, consoante pacífico entendimento dos 
Tribunais Superiores nesse sentido.
22
2.2. Considerações sobre Saúde Mental e Drogadição
Outra importante área de atuação em matéria de direitos de crian-
ças e adolescentes é a da saúde mental, em que também é fundamental 
a instauração de inquérito civil público para a fiscalização quanto à 
existência e à regularidade da rede de atendimento. Considerando-se 
o porte do Município, especialmente o número de habitantes, sugere-
se a celebração de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para a 
implantação de unidades de atendimento pertinentes. Tais unidades, 
estabelecidas pela Portaria/GM nº 336 de 19 de fevereiro de 2002 (dis-
ponível para consulta na página da intranet do 4º CAOp) e designadas 
por Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), possuem base territorial 
e comunitária e constituem dispositivos de Atenção Psicossocial que, 
após a reforma psiquiátrica, têm sido o esteio do processo de substitui-
ção dos antigos manicômios. Os CAPS são divididos entre cinco mo-
dalidades de serviços, de acordo com o número de habitantes abran-
gidos e a complexidade do atendimento: CAPS I, CAPS II e CAPS III, 
definidos por ordem crescente de porte/complexidade e abrangência 
populacional, e CAPSi e CAPSad.
O CAPSi - serviço de atenção psicossocial específico no atendimen-
to de crianças e adolescentes, consoante o item 4.4 da citada Portaria, 
tem como objetivo principal ser a porta de entrada e o ordenador da 
rede de políticas públicas de saúde mental direcionadas para a popula-
ção infantojuvenil. O item 4.5 norteia as diretrizes de funcionamento 
do CAPSad, equipamento que atende pacientes com transtornos decor-
rentes do uso e dependência de substâncias psicoativas.
Quanto ao atendimento no setor da Saúde Mental, a Portaria nº 
1.060/GM de 5 de junho de 2002 (Plano Nacional de Saúde da Pessoa 
Portadora de Deficiência) e o Plano de Saúde Mental do Estado do Rio 
de Janeiro 2007/2010 (ambos disponíveis para consulta na página da 
intranet do 4º CAOp) preveem que a assistência à saúde da pessoa 
portadora de deficiência não deve ocorrer somente nas instituições es-
pecíficas de reabilitação, devendo-lhe ser assegurado o atendimento na 
rede de serviços, nos diversos níveis de complexidade e especialidades 
médicas.
No tocante à proteção de crianças e adolescentes usuários de dro-
gas, a Constituição da República e o Estatuto da Criança e do Adoles-
23
cente estabeleceram importantes princípios, mas somente nos anos de 
2001 e 2004 entraram em vigor normas federais específicas sobre a 
matéria.
O primeiro exercício necessário aos operadores de todas as discipli-
nas envolvidas na assistência e no cuidado aos usuários de drogas é a 
conciliação entre as normas federais relativas à saúde mental e as nor-
mas constitucionais e infraconstitucionais afetas a crianças e adolescen-
tes. A despeito de algumas polêmicas existentes nesse campo, alguns 
princípios são consensuais e prevalentes, como o da proteção integral, 
que assegura, além dos direitos fundamentais garantidos a qualquer 
pessoa, oportunidades e facilidades na busca do desenvolvimento fí-
sico, mental, moral, espiritual e social de crianças e adolescentes, em 
condições de liberdade e dignidade. 
A diversidade de ações necessárias à concretização desses direitose 
garantias impõe o concurso de profissionais e setores no atendimento a 
crianças e adolescentes, configurando o que se tem chamado de “inter-
setorialidade” e “rede de atendimento”. Contudo, apesar dos esforços e 
da criatividade da maioria dos profissionais envolvidos no atendimen-
to direto, a construção da rede de atendimento vem se realizando de 
modo empírico, a partir dos casos concretos, faltando sistemática na 
implementação de uma política pública para o setor. 
Por isso, uma medida importante a todos os atores do Sistema de 
Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente e, especialmente, 
ao Promotor de Justiça atuante na área, é o conhecimento da rede de 
saúde mental existente e do fluxo para o atendimento de crianças e 
adolescentes usuários de drogas, aí considerados todos os níveis de 
complexidade e, portanto, todos os dispositivos de saúde disponíveis, 
como por exemplo: emergências clínicas e psiquiátricas, SAMU, CAPS, 
CAPSi, CAPSad, Postos de Saúde e cobertura do Programa de Saúde 
da Família. Para tanto, além da expedição de ofício à autoridade mu-
nicipal (Prefeito ou Secretário Municipal de Saúde) requisitando tais 
informações, mostra-se muito eficaz o contato do Promotor de Justiça 
com o Coordenador de Saúde Mental do Município, não apenas para 
a obtenção de tais dados, como também para a otimização dos enca-
minhamentos e a integração entre a rede de atendimento e os órgãos 
protetivos da infância e da adolescência.
24
Da mesma forma, é necessário conhecer a rede da assistência so-
cial, tanto para o acolhimento de crianças e adolescentes usuários de 
drogas que estejam com os vínculos familiares rompidos (equipes de 
abordagem, abrigos e/ou Programa Família Acolhedora – SUAS), quan-
to para o atendimento das famílias, através de programas de apoio que 
não se limitem à transferência de renda, com vistas a potencializar os 
detentores do poder familiar. 
Uma vez conhecida a rede existente, torna-se possível ao Promo-
tor de Justiça analisar se os parâmetros da legislação já apontada vêm 
sendo atendidos e, por conseguinte, as medidas a serem adotadas, 
levando-se em consideração, principalmente, como já mencionado, o 
porte do município e as peculiaridades locais. Para melhor subsidiar a 
decisão a respeito da medida (extrajudicial ou judicial) a ser adotada, é 
fundamental a análise de alguns aspectos relevantes acerca da situação 
da criança ou adolescente a que se deve proteger e de suas famílias. 
Nesse sentido, é preciso avaliar os vínculos e o suporte familiar existen-
te, bem como se o uso da droga vem impedindo o exercício de direitos 
fundamentais, como o convívio em família, a frequência à escola, a 
prática de esporte e o lazer, representando a droga o único interesse na 
vida da criança ou do adolescente. 
Nessa linha, sugerem-se algumas diretrizes:
• Usuário de drogas, com suporte familiar e em exercício de direitos 
fundamentais: pode ser atendido na rede de atenção básica, CAPSi 
, CAPSAd, com apoio à família através dos CREAS/CRAS e interlo-
cução entre os órgãos (sobre CREAS e CRAS, órgãos do SUAS, v. 
Capítulo 8).
• Usuário de drogas, sem suporte familiar (inclusive família extensa) 
e em exercício de direitos fundamentais: em tese, é cabível medida 
protetiva de abrigo cumulada com cuidados de saúde mental espe-
cializados nos CAPS ou ambulatórios, com a busca da promoção da 
família. Vale lembrar que a autoridade legitimada para a aplicação 
primária de medidas de proteção é o Conselho Tutelar (v. Capítulo 
7). Entretanto, se houver necessidade de afastamento compulsório 
da criança ou do adolescente do seio familiar, o Promotor de Justiça 
deve requerer tal medida à autoridade judiciária, nos termos do art. 
102, § 2º do Estatuto da Criança e do Adolescente, com a redação 
25
dada pela Lei nº 12.010/09. Não sendo possível a reintegração fa-
miliar, após esgotadas todas as possibilidades nesse sentido, deve-
se viabilizar a colocação em família substituta (v. Capítulo 6).
• Usuário de drogas, sem suporte familiar e sem conseguir exercer 
seus direitos fundamentais: necessidade da medida de abrigo (ex-
cepcional e provisória, conforme exposto no Capítulo 6) ser acom-
panhada da garantia do cuidado intensivo de saúde mental até que 
se possa gradativamente reforçar a auto-estima, promover a família, 
buscar a colocação em família substituta e a reinserção social, e o 
posterior encaminhamento aos demais dispositivos da rede. O lugar 
deve oferecer proteção e cuidado, através de um projeto terapêu-
tico individualizado, que proporcione condições de escolhas con-
sonantes com seus direitos fundamentais. Tal serviço só se mostra 
viável através da efetiva integração entre as Secretarias Municipais 
de Assistência Social e de Saúde, o que pode ser buscado pelo Mi-
nistério Público.
• Usuários de drogas com ou sem suporte familiar com sintomas que 
indiquem clinicamente a necessidade de internação psiquiátrica: o 
estado de saúde da criança ou adolescente deve ser avaliado por 
profissionais da saúde, valendo ressaltar que, de acordo com o art. 
4º da Lei nº 10.216/01, “a internação, em qualquer de suas moda-
lidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se 
mostrarem insuficientes”.
Percebe-se que a definição do fluxo do atendimento, a sua divul-
gação e a permanente articulação entre os órgãos afiguram-se instru-
mentos essenciais para a garantia do direito à saúde, que pressupõe o 
direito de ser cuidado a tempo, sem a necessidade de qualquer inter-
venção do Ministério Público ou do Poder Judiciário. Evitam-se assim 
eventuais internações compulsórias descabidas, sobretudo pela falta de 
“lugares” adequados àqueles que estão sob grave risco social e deman-
dam cuidados intensivos de saúde mental. 
Ressalte-se que, a Lei Federal nº 10.216/01, em seu artigo 2º, garan-
te a pessoas portadoras de transtorno mental o direito ao acesso ao me-
lhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo às suas necessidades 
(inciso I) e o direito de ser tratada em ambiente terapêutico pelo meio 
menos invasivo possível (inciso II).
26
Caso o acolhimento e o tratamento dos usuários de drogas não se-
jam garantidos a crianças e adolescentes, restará configurada a hipótese 
prevista no artigo 98, inciso I, do ECA, impondo-se a atuação do Con-
selho Tutelar e do Ministério Público. 
 Sem prejuízo das medidas destinadas à efetiva implementação da 
rede ideal, importa frisar a necessidade de ser garantida a assistência 
através da rede possível, através da comunicação e da troca de infor-
mações, afinando-se a sintonia de solução para cada caso concreto. 
Além das medidas judiciais com vistas a compelir o Poder Executivo 
a implementar os dispositivos de tratamento dos usuários de drogas, é 
pertinente e, na maioria das vezes, mais eficiente, como pontuado no 
Capítulo 1, a atuação extrajudicial do Promotor de Justiça com atribui-
ção na área da Infância e Juventude, através do incentivo e da promo-
ção de reuniões e recomendações aos gestores públicos.1
Enfim, apontam-se algumas normas jurídicas pertinentes ao tema 
tratado neste Capítulo:
Convenção da ONU sobre Direitos da Criança (Decreto nº 
99710/90); art. 227, parágrafo 3º, inciso VII, da CR; arts. 2º, 3º, 4º, 5º, 
6º, 7º, 15, 16, 17, 18, 81, II e III, 90 e seguintes, 98, 100, 101, 129, 
136, 208, VII e 243, todos da Lei Federal nº 8.069/90 (ECA); Lei Fede-
ral nº 10.216/01; Portaria nº 336/02, do Ministério da Saúde; Portaria 
GM nº 154, de 24/01/2008; Portaria nº 245/GM, de 17/02/2005; Por-
taria GM nº 1.612, de 09/09/2005; Portaria nº 251/GM, de 31/01/02.
1 Por oportuno, recomenda-se a leitura do texto Saúde Mental passo a passo: como organizar 
a rede de saúde mental no seu município?, disponibilizado no endereço eletrônico http://
portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/rede_de_saude_mental_revisado_6_11_2008.pdf.
27
3. PROTEÇÃO DO DIREITO À EDUCAÇÃO
O direito fundamental de crianças e adolescentes à educação vem 
sendo reiteradamente descumprido pelo PoderPúblico, sendo notório 
o descaso com a oferta e a qualidade do ensino público gratuito. A 
falta de vagas em creches e escolas, a carência de professores, a au-
sência de profissionais com aptidões para lidar com alunos especiais, 
a péssima qualidade do ensino, a não conservação das escolas, a falta 
de transporte escolar, dentre outros, constituem fatores recorrentes que 
geram inestimáveis prejuízos à formação escolar dessa população em 
desenvolvimento.
Diante de ameaça ou violação ao direito à educação, deve o Pro-
motor de Justiça adotar as medidas extrajudiciais e judiciais que se 
mostrarem cabíveis em cada caso concreto, a fim de garantir o acesso 
universal de crianças e adolescentes ao sistema educacional. 
Em diversos municípios fluminenses, como ocorre em todo o país, 
pode-se constatar a enorme carência de vagas em creches e em escolas 
municipais e estaduais, bem como o insuficiente número de professo-
res para dar cumprimento à grade curricular, especialmente nas escolas 
de ensino médio. Em muitos casos, a atuação na esfera extrajudicial do 
Ministério Público é suficiente para a solução do problema, através da 
celebração de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que tenha por 
objeto a construção de novas creches e escolas, a ampliação do nú-
mero de vagas para crianças e adolescentes ou a adoção das medidas 
que se mostrarem necessárias para o cumprimento da grade curricular, 
como a realização de concurso público para o cargo de professor ou 
o aumento da carga horária de professores da rede pública de ensino, 
através da Gratificação por Lotação Prioritária (GLP). 
Se a atuação na esfera extrajudicial não se mostrar viável, deverá o 
Promotor de Justiça deflagrar em juízo ação civil pública em face do 
ente político-administrativo autônomo responsável pela prestação do 
serviço educacional, em regra, o Município para a educação infantil 
e o ensino fundamental, e o Estado para o ensino médio, conforme o 
disposto no artigo 211 e seus parágrafos, da Constituição da República.
No que se refere ao ensino fundamental, merece registro a questão 
relativa à pretensa limitação do seu acesso à idade mínima de seis anos. 
O artigo 32 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei Fe-
28
deral nº 9.394/96) prevê que o ingresso de crianças na educação infan-
til ocorre aos seis anos de idade. Por sua vez, o artigo 2º da Delibera-
ção CEE nº 308, expedida pelo Conselho Estadual de Educação do Rio 
de Janeiro em 23 de outubro de 2007, dispõe que somente as crianças 
que completarem seis anos até o primeiro dia do ano letivo poderão se 
matricular no primeiro ano do ensino fundamental. Todavia, pesquisa 
jurisprudencial revela a existência de julgados proferidos por tribunais 
do país admitindo a matrícula, no ensino fundamental, de crianças que 
vierem a completar a idade de seis anos após o início das aulas, com 
fulcro no princípio da razoabilidade, conduzindo ao entendimento de 
que a deliberação do CEE, nesse particular, é inconstitucional. 
A legislação pertinente a esta matéria e as ementas dos acórdãos 
mencionados encontram-se disponíveis na página do 4º CAOp na in-
tranet. Na hipótese de eventual recusa do ente público em realizar a 
matrícula de criança na situação mencionada, é possível a impetração 
de mandado de segurança ou o ajuizamento de ação civil pública pelo 
Ministério Público.
O direito fundamental à educação, em sua acepção mais ampla, 
não se esgota na garantia da matrícula de crianças e adolescentes em 
creches e escolas em determinado município. Tal direito somente se 
concretiza, em sua plenitude, pelo efetivo acesso de crianças e ado-
lescentes às instituições de ensino, as quais devem estar localizadas 
em área próxima às suas residências, ou, caso assim não ocorra, o seu 
acesso deve se dar por intermédio de transporte escolar público e gra-
tuito, o qual deve ser diretamente oferecido pelos entes municipais e 
estaduais, facultada a concessão a particulares. Verificada a deficiência 
do transporte escolar, sugere-se que o Promotor de Justiça realize con-
tatos e reuniões com Secretários Municipais (de Educação e de Trans-
portes) e, também, caso tenha havido concessão, com representantes 
de empresas particulares de transporte, visando à solução do problema 
na esfera extrajudicial, podendo haver a celebração de Termo de Ajus-
tamento de Conduta (TAC). Não se mostrando viável a composição, 
deve o Promotor de Justiça deflagrar ação civil pública em face do ente 
municipal (educação infantil e ensino fundamental) ou do ente estadu-
al (ensino médio), a fim de garantir que as crianças e os adolescentes 
da localidade tenham acesso às suas escolas.
Outro desafio na área da educação é o combate à evasão escolar, 
29
que pode ocorrer pelos mais variados motivos, tais como: desinteresse 
do aluno, dificuldades familiares, problemas de relacionamento com 
colegas e professores, dentre outros. Cabe aos pais, em decorrência do 
poder familiar, o dever de matricular e acompanhar a frequência e o 
aproveitamento escolar de seus filhos menores de 18 anos. 
À escola incumbe, consoante o disposto no artigo 56, inciso II, do 
ECA, o dever de, uma vez configurada a reiteração de faltas injustifica-
das ou a evasão escolar, notificá-las ao Conselho Tutelar. Compete ao 
Conselho Tutelar, portanto, o controle da evasão escolar, bem como a 
aplicação de medidas de proteção à criança ou ao adolescente faltoso 
ou evadido e, se for o caso, de medidas aos pais, dentre aquelas previs-
tas nos incisos I a VII do artigo 129 do ECA, consoante o disposto no 
art. 136, incisos I e II do referido Diploma Legal. Sugere-se ao Promo-
tor de Justiça que fiscalize, nesse particular, a efetividade do trabalho 
desenvolvido pelo referido órgão municipal em sua área de atuação. 
Esgotadas as tentativas do Conselho Tutelar, em sua esfera de atu-
ação administrativa, no sentido de viabilizar o retorno de crianças e 
adolescentes às escolas, pode ele deflagrar representação cível em face 
dos pais ou responsáveis pela prática da infração administrativa prevista 
no artigo 249 do ECA (descumprimento dos deveres inerentes ao poder 
familiar), consoante o disposto no artigo 194 do ECA. Registre-se que o 
Ministério Público também é legitimado a deflagrar em juízo represen-
tação cível em face dos pais, na forma do mencionado dispositivo legal.
Por fim, é oportuno lembrar que o artigo 6º da Lei Federal nº 9.870/99 
veda a retenção de histórico escolar em razão do inadimplemento no 
pagamento de mensalidades. Algumas escolas particulares reiteram a 
prática ilegal, exigindo a quitação das mensalidades em atraso, ao invés 
de pleitearem judicialmente a cobrança ou a execução cabível em face 
dos genitores inadimplentes. Ao ser cientificado dessa prática abusiva, 
pode o Promotor de Justiça expedir ofício à direção da escola, recomen-
dando a entrega do histórico escolar em prazo estipulado, na sede do 
Parquet ou diretamente aos genitores do aluno. Caso a medida extraju-
dicial não seja suficiente, sugere-se que o Promotor de Justiça impetre 
mandado de segurança ou, conforme o caso, deflagre ação de obrigação 
de fazer com pedido de tutela antecipada visando à entrega do histórico, 
requerendo, nesta última hipótese, a fixação de multa diária em caso de 
descumprimento de eventual decisão judicial favorável ao pleito.
30
4. PROTEÇÃO DO DIREITO À CULTURA, AO ESPORTE E AO 
 LAZER
Prevê o artigo 71 do ECA o direito da criança e do adolescente à 
informação, cultura, lazer, esportes, diversões, espetáculos e produtos 
e serviços que respeitem sua condição peculiar de pessoa em desen-
volvimento.
Estabelece, ainda, o artigo 74, a obrigação do poder público de 
regular as diversões e espetáculos públicos, informando sua natureza, 
faixas etárias a que não se recomendem, além de locais e horários em 
que sua apresentação se mostre inadequada.
Prossegue o legislador afirmando que toda criança e adolescente 
terão acesso a diversões e espetáculos públicos classificadoscomo ade-
quados à sua faixa etária (art. 75).
O artigo 149 do ECA prevê ainda que a entrada de crianças e ado-
lescentes desacompanhados dos pais ou responsável nos estabele-
cimentos de diversão elencados no citado dispositivo, assim como a 
participação em espetáculos públicos e certames de beleza deve ser 
disciplinada pela autoridade judiciária, mediante portaria, ou alvará, 
sendo este requerido em Juízo pelo interessado. 
No requerimento de alvará judicial, o pedido deve ser analisado 
individualmente, em especial no que se refere à adequação da faixa 
etária para ingresso de crianças e adolescentes desacompanhados, bem 
como no tocante à observância de todas as normas de segurança. Nes-
se particular, comumente são exigidos o laudo de liberação do local 
do evento expedido pelo Corpo de Bombeiros, a comprovação de co-
municação do evento à Polícia Militar, informações sobre o número 
de seguranças contratados, dentre outros requisitos que se mostrarem 
cabíveis no caso concreto. 
Também, no que concerne às portarias, as hipóteses devem ser 
disciplinadas pela autoridade judiciária caso a caso, atendo-se exclu-
sivamente ao exaustivo rol previsto no dispositivo em comento (art. 
149). Ao contrário do que facultava a revogada legislação (Código de 
Menores de 1979), no atual sistema, o procedimento para a expedição 
de portaria demanda, ainda, a observância dos princípios constitucio-
nais garantidores da legalidade, do contraditório, da ampla defesa e do 
31
devido processo legal, devendo ser intimados os interessados atingidos 
pela medida, devendo, é claro, oficiar no procedimento o Ministério 
Público, sob pena de nulidade.
Nas hipóteses em que a autoridade judiciária expedir portaria ju-
dicial fundamentada no artigo 149 do ECA sem a observância das ga-
rantias constitucionais e legais anteriormente indicadas, é possível a 
impetração de mandado de segurança ou de recurso de apelação (art. 
199 do ECA), conforme o caso concreto.
Cumpre fazer referência às Resoluções nº 2 e 30, ambas expedi-
das, no ano de 2006, pelo Conselho de Magistratura do Tribunal de 
Justiça do Estado do Rio de Janeiro. A Resolução nº 2/06 determinou 
a revogação de todas as portarias judiciais, provimentos e quaisquer 
outras disciplinas normativas emitidas por Juízes da Infância e da Ju-
ventude do Estado do Rio de Janeiro, que não se refiram às hipóteses 
do artigo 149 do Estatuto da Criança e do Adolescente. A Resolução 
nº 30/06, por sua vez, regulamentou a expedição de portarias judiciais 
pelos Juízes da Infância e da Juventude, observando-se o princípio da 
razoabilidade e os ditames do ECA, prevendo, em seu Anexo I, o rito 
para edição das portarias, com a necessária manifestação do Ministério 
Público, no prazo de 05 (cinco) dias.
Desta forma, nas hipóteses em que o Juiz de Direito expede portaria 
judicial sem observar o procedimento previsto no Anexo I da Reso-
lução nº 30/06, estando eivado ou não de inconstitucionalidade ou 
ilegalidade o teor da portaria, poderá o Promotor de Justiça impetrar 
mandado de segurança, atacando o ato administrativo violador dos in-
teresses de crianças e adolescentes.
Por outro lado, nas hipóteses em que o Juízo expede portaria com 
a observância do procedimento acima mencionado, havendo disposi-
tivo ilegal ou inconstitucional, poderá o Promotor de Justiça interpor 
recurso de apelação.
Em muitos casos, o Promotor de Justiça tem ciência prévia da reali-
zação de eventos sem que o organizador tenha requerido alvará judi-
cial para o ingresso de crianças e/ou adolescentes desacompanhados. 
Caso o Promotor de Justiça possa aferir, no caso concreto, que a reali-
zação de determinado evento é lesiva a direitos das crianças e/ou dos 
adolescentes, expondo-os a situações que coloquem em risco a sua 
32
integridade física e/ou psíquica, é cabível o ajuizamento de ação civil 
pública com pedido liminar que tenha por objeto obrigação de não 
fazer consistente, por exemplo, na não realização do evento.
Nas hipóteses de grandes eventos, que certamente contarão com 
a presença de crianças e adolescentes, tais como feiras agropecuárias, 
shows de grande porte, dentre outros, pode o Promotor de Justiça ce-
lebrar Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o organizador do 
evento, visando a resguardar os interesses da população infantojuvenil.
 
33
5. PROTEÇÃO DO DIREITO À LIBERDADE, AO RESPEITO E 
 À DIGNIDADE
A Carta Magna de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente 
introduziram uma radical mudança de paradigmas no que concerne à 
garantia e à proteção de direitos infantojuvenis. Crianças e adolescen-
tes passaram da histórica condição de objetos de medidas por parte 
da família, da sociedade e do Estado, para o patamar de sujeitos de 
direitos.
A doutrina da proteção integral confere a infantes e adolescentes to-
dos os direitos fundamentais inerentes aos adultos, compatíveis com a 
sua peculiar condição de pessoas em desenvolvimento, além de outros, 
especiais, que se mostrem necessários a garantir a sua plena formação. 
Nesse contexto, os direitos à liberdade, ao respeito e à dignidade se 
sobressaem, merecendo especial atenção, posto que, secularmente, fo-
ram sonegados a essa parcela da população.
Dispõe o Estatuto, em seu art. 15, que a criança e o adolescente têm 
direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas 
em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, hu-
manos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.
O art. 16 elenca os principais aspectos compreendidos pelo direito 
à liberdade: I – ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços co-
munitários, ressalvadas as restrições legais; II – opinião e expressão; III 
– crença e culto religioso; IV – brincar, praticar esportes e divertir-se; 
V – participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação; VI – 
participar da vida política, na forma da lei; VII – buscar refúgio, auxílio 
e orientação.
Dentre tais aspectos, cabe pontuar que, não obstante crianças e ado-
lescentes tenham o direito de ir, vir e estar nos logradouros públicos e 
espaços comunitários, a própria lei ressalva as restrições legais (art. 16, 
I, in fine). A esse propósito, cabe registrar que crianças e adolescentes 
em situação de rua estão em inegável risco social, tendo os seus direi-
tos fundamentais à proteção, à convivência familiar, à vida, à saúde, 
à educação e à moradia, dentre outros, frontalmente violados. Assim, 
deve-se levar em consideração que todos esses direitos fundamentais 
devem ser respeitados.
34
Como se sabe, o direito à liberdade não implica em falta de limites. 
Ademais, sabe-se da importância da imposição de limites e da inter-
venção de normas sociais para a formação do ser humano, que é um 
ser social.
Assim, é falacioso o discurso adotado por alguns no sentido de que 
o ECA somente atribui direitos a crianças e adolescentes, sem os de-
veres correlatos, partindo de uma equivocada compreensão sobre o 
direito à liberdade, no sentido de que crianças e adolescentes teriam o 
direito de viver nas ruas, de não respeitar os pais, etc. 
O direito ao respeito, consistente na inviolabilidade da integridade 
física, psíquica e moral da criança e do adolescente, também merece 
especial atenção, posto que, culturalmente, é comum a aceitação de 
condutas que, juridicamente, constituem atentados contra este direito 
fundamental. Casos de abusos físicos e sexuais contra crianças e ado-
lescentes são frequentes e nem sempre recebem a reprimenda necessá-
ria por parte da família, da sociedade ou do próprio Estado.
A dignidade da pessoa humana, fundamento da República Federati-
va do Brasil (art. 1º, III da CF), também se refere a crianças e adolescen-
tes, pessoas em condição de desenvolvimento, sendo dever de todos 
velar por sua dignidade, colocando-os a salvo de qualquer tratamento 
desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor (art. 18 
do ECA). Cabe ao Ministério Público, alçado pela sociedade, através 
do Poder Constituintee da legislação infraconstitucional, à condição 
de guardião dos direitos infantojuvenis, exercer sua relevante missão 
institucional de contribuir para a transformação da realidade, garan-
tindo a plena efetivação dos direitos fundamentais dos quais crianças 
e adolescentes são titulares. Certamente, o exercício dessa relevante 
missão se dá diante das questões que cotidianamente se apresentam 
ao Promotor de oportunidades em que tem o poder-dever de interferir 
positivamente como agentes de transformação social.
Várias são as hipóteses de violação aos direitos à liberdade, ao res-
peito e à dignidade de crianças e adolescentes, as quais demandam 
diversas providências.
O Promotor de Justiça, ao receber notícia de ameaça ou violação 
desses direitos, poderá, dependendo do caso concreto, adotar as se-
guintes medidas:
35
(i) Nas hipóteses de suspeita ou confirmação de maus tratos, verificar 
se o caso está sendo apurado pelo Conselho Tutelar (art. 13 do ECA) 
e se aquele órgão aplicou as medidas de proteção cabíveis.
(ii) Se o fato noticiado, em tese, configurar crime, verificar se a auto-
ridade policial ou a Promotoria de Investigação Penal ou, se for o 
caso, a Promotoria com atribuição nas hipóteses de crimes de me-
nor potencial ofensivo foi devidamente comunicada.
(iii) Verificar a necessidade de medida judicial urgente a ser deflagra-
da perante o Juízo da Infância e da Juventude para salvaguardar a 
integridade física, psíquica ou moral da criança ou adolescente, de 
modo a assegurar os direitos fundamentais em comento (por exem-
plo, afastamento do agressor do lar comum, com fulcro no artigo 
130, do ECA, busca e apreensão da criança, dentre outras). O exem-
plo clássico seria a hipótese em que o pai abusa física ou sexual-
mente da criança e a mãe, ciente do fato, permanece omissa. Tais 
pedidos podem ser deduzidos autonomamente ou no bojo de uma 
representação cível em decorrência da prática de infração adminis-
trativa tipificada no artigo 249 do ECA ou, ainda, se for o caso, de 
destituição de poder familiar. Já numa situação de abuso físico ou 
sexual por parte de um dos genitores (por exemplo, o pai), mas com 
atitude protetiva do outro (no caso, a mãe), esta deve ser orientada 
a requerer as medidas judiciais cabíveis perante o Juízo de Família 
(afastamento do lar, perda da guarda, suspensão de visitação, dentre 
outras), através de advogado, público ou particular.
(iv) Na hipótese de se mostrar necessária a apuração mais aprofundada 
dos fatos, sugere-se a instauração de procedimento administrativo 
que, futuramente, caso comprovada a sua veracidade, embasará o 
pedido a ser deduzido em juízo (representação cível por infração 
administrativa tipificada no artigo 249 do ECA, pedido de nomea-
ção de guardião ou pedido de destituição de poder familiar, dentre 
outros, conforme o caso).
O abuso sexual de crianças e adolescentes, prática infelizmente co-
mum, na maioria dos casos ocorrida dentro do seio familiar (abuso se-
xual intrafamiliar), constitui grave violação aos direitos de que se trata 
neste capítulo. Crianças e adolescentes têm direito ao desenvolvimento 
sexual sadio. Nas hipóteses em que o(a) abusador(a) exerce o poder fa-
36
miliar, sendo o outro genitor omisso, cabe ao Promotor de Justiça ana-
lisar, no caso concreto, o cabimento de ação de destituição do poder 
familiar que, em razão da natureza do pedido, torna-se medida gravosa 
e excepcional em nosso ordenamento jurídico. 
A par dessa análise, sempre se faz cabível representação cível pela 
prática de infração administrativa em face do(a) abusador(a) e do outro 
genitor omisso, em razão da prática da infração tipificada no artigo 249 
do ECA (descumprimento doloso dos deveres inerentes ao poder fami-
liar ou decorrente de tutela e guarda). 
Numa ou noutra hipótese, o pedido principal deve ser cumulado 
com o pedido cautelar de afastamento do agressor da moradia comum, 
com fulcro no artigo 130 do ECA, e como forma de resguardar a integri-
dade física de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual.
Lamentavelmente, em diversas hipóteses a própria família não asse-
gura a proteção da criança / adolescente vítima de abuso sexual, haven-
do uma tendência frequente de não se dar o devido crédito ao relato da 
vítima. Não se deve olvidar, ainda, da “síndrome do silêncio” ou “lei 
do segredo”, uma espécie de pacto, inconsciente, estabelecido entre 
os membros da família em que ocorre o abuso sexual, tendo por obje-
tivo ocultar a situação abusiva e, por conseguinte, manter a estrutura 
familiar. 
Em tais situações, em que pese a garantia prevista no artigo 130 do 
ECA, que determina o afastamento do agressor da moradia comum, e 
não da criança / adolescente vítima de abuso sexual, é possível que 
tal medida seja infrutífera, razão pela qual sugere-se que o Promotor 
de Justiça verifique a possibilidade de que a criança ou adolescente 
seja acolhida, mediante a concessão de guarda, por membro da famí-
lia extensa ou seja incluída em programa de família acolhedora, caso 
existente no Município. 
Quando tais hipóteses não se mostrarem viáveis no caso concreto, 
a criança ou adolescente poderá ser encaminhado para acolhimento 
institucional, devendo o Promotor de Justiça zelar para que tal medida 
protetiva de abrigamento tenha o caráter de excepcionalidade e pro-
visoriedade que a lei lhe confere, zelando pelo direito da criança ou 
adolescente vitimado de ser criado e de se desenvolver no seio de uma 
família saudável e protetora. 
37
Tais casos de abuso sexual demonstram inegável omissão dos geni-
tores, podendo ser ajuizada representação cível pela prática de infra-
ção administrativa prevista no artigo 249 do ECA ou mesmo a ação de 
destituição do poder familiar, caso tal providência se mostre adequada 
no caso concreto.
De qualquer sorte, é recomendável que a criança ou adolescente 
vítima de abuso sexual seja encaminhado(a) a tratamento psicológico 
especializado, oferecido pela rede municipal de saúde ou por organi-
zações não governamentais existentes no Município.
A inexistência de registro de nascimento configura outra hipótese 
de violação dos mais basilares direitos fundamentais de crianças e ado-
lescentes, conferindo ao Promotor de Justiça em atuação na área da 
infância e da juventude atribuição para agir na defesa desses direitos 
(artigo 102 e artigo 201, inciso VIII do ECA). Deve o Promotor de Jus-
tiça, visando à regularização da situação do registro civil de crianças e 
adolescentes, acionar o Conselho Tutelar, que tem por atribuição pre-
cípua atender a crianças e adolescentes que tenham qualquer de seus 
direitos fundamentais violados, bem como a seus pais ou responsável. 
Pode, ainda, o Promotor de Justiça expedir ofício aos estabelecimentos 
de ensino existentes no Município, solicitando que comuniquem casos 
de alunos matriculados que nunca tiveram registro civil de nascimento, 
utilizando, de forma facultativa, o modelo de ficha de notificação de 
ausência de registro civil elaborada para esse fim. 
Constatada a omissão dos genitores na regularização da situação 
jurídica de crianças e adolescentes, e esgotada a atuação não jurisdi-
cional do Conselho Tutelar, deve o Promotor de Justiça requerer, judi-
cialmente, o registro civil de nascimento, a título provisório (quando 
os genitores também não possuem registro civil ou quaisquer outros 
documentos) ou definitivo (quando há reconhecimento de paternidade 
ou declaração de nascido vivo – DNV), possuindo os genitores docu-
mentos de identificação.
 
38
6. PROTEÇÃO DO DIREITO À CONVIVÊNCIA FAMILIAR E 
 COMUNITÁRIA
6.1. Breves Considerações
O direito de crianças e adolescentes à convivência familiar e comu-
nitária encontra-se assegurado no artigo 227 da CR e é regulamentado 
pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, recentemente alterado pela 
Lei nº 12.010/09, que aperfeiçoou a sistemática prevista para a garantia 
do referido direito fundamental.
A família é o lugar natural da criança e do adolescente,onde poderá 
se desenvolver plenamente, garantindo-lhes o ordenamento jurídico 
pátrio o direito de serem criados e educados em seu seio e, excepcio-
nalmente, em família substituta, assegurada a convivência familiar e 
comunitária (art. 19 do ECA).
Num País que historicamente afastou crianças e adolescentes po-
bres de seus núcleos familiares, sob os mais diversos fundamentos, 
precisou o legislador estatutário dispor que a falta ou a carência de 
recursos materiais não constitui motivo suficiente para a perda ou a 
suspensão do poder familiar. Inexistindo outro motivo que por si só au-
torize a decretação da medida, a criança ou o adolescente será mantido 
em sua família de origem, a qual deverá obrigatoriamente ser incluída 
em programas oficiais de auxílio (art. 23 do ECA).
Diante da necessidade de mudança da cultura e da prática existente 
no País em relação ao afastamento de crianças e adolescentes do conví-
vio familiar, com vistas à urgente adequação da realidade nacional aos 
ditames legais, a sociedade brasileira, capitaneada pelo Conselho Na-
cional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) e pelo 
Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS), elaborou, no ano de 
2006 – com base nos subsídios fornecidos pela Comissão Intersetorial 
para Promoção, Defesa e Garantia do Direito de Crianças e Adolescen-
tes à Convivência Familiar e Comunitária, composta por órgãos gover-
namentais e por entidades da sociedade civil – o Plano Nacional de 
Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes 
à Convivência Familiar e Comunitária, documento que busca nortear 
as políticas e ações voltadas para a garantia do direito de crianças e 
adolescentes serem criados e educados no seio de uma família. 
39
Esse Plano, cuja íntegra pode ser consultada através da página do 4º 
CAOP na intranet, constitui um marco nas políticas públicas no Brasil, 
ao romper com a cultura da institucionalização de crianças e adoles-
centes e fortalecer o paradigma da proteção integral e da preservação 
dos vínculos familiares e comunitários preconizados pelo Estatuto da 
Criança e do Adolescente. 
Nesse processo de mudança, a nova Lei nº 12.010/09 reforça a op-
ção do legislador pela família de origem da criança, estatuindo que a 
intervenção estatal será prioritariamente voltada à orientação, apoio e 
promoção social da família natural, junto à qual a criança e o adoles-
cente devem permanecer, ressalvada absoluta impossibilidade (art. 1º, 
§ 1º da Lei nº 12.010/09), reafirmando a preferência pelas medidas que 
fortaleçam os vínculos familiares (art. 19, § 3º do ECA, com a redação 
dada pela Lei nº 12.010/09).
A manutenção dos vínculos familiares e comunitários – fundamen-
tais para a estruturação das crianças e dos adolescentes como sujeitos e 
cidadãos – está diretamente relacionada ao investimento nas políticas 
públicas de atenção à família.
Para que isso se concretize, é essencial a existência de políticas, 
programas e ações adequados a prevenir o afastamento de crianças 
e adolescentes do núcleo familiar originário. A nova lei, por sua vez, 
enfatiza a responsabilidade do poder público (arts. 97, § 2º e 100, 
parágrafo único, inciso III do ECA, com a redação dada pela Lei nº 
12.010/09), merecendo destaque as inúmeras funções conferidas pelo 
legislador às equipes responsáveis pelas políticas públicas municipais 
de convivência familiar (art. 19, § 3º, art. 28, § 5º, art. 87, inc. VI, art. 
88, inc. VI, art. 101, §§ 9º e 12º, art. 197-C, §§ 1º e 2º, todos do ECA, 
com a redação dada pela Lei nº 12.010/09).
Nessa linha, constituindo o afastamento da criança ou do adoles-
cente do seio de sua família de origem uma excepcionalidade, a colo-
cação em família substituta também configura medida extrema, assim 
como o acolhimento institucional ou familiar de infantes ou adolescen-
tes, definido como medida provisória e excepcional, utilizável como 
forma de transição para reintegração familiar ou, não sendo esta possí-
vel, para colocação em família substituta (art. 101, § 1º, do ECA, com 
a redação dada pela Lei nº 12.010/09).
40
O sistema pátrio instituiu uma verdadeira ordem de prioridades no 
tocante à garantia do direito de crianças e adolescentes à convivência 
familiar, a ser respeitada e perseguida pelos diversos órgãos da rede de 
proteção, quais sejam: a preferência pela família natural, seguida pela 
família extensa (art. 25, parágrafo único do ECA, com a redação dada 
pela Lei nº 12.010/09); a excepcionalidade das medidas de acolhimen-
to familiar e institucional (art. 101, § 1º do ECA, com a redação dada 
pela Lei nº 12.010/09); a preferência pelo acolhimento familiar em re-
lação ao institucional (art. 34, § 1º e art. 93, parágrafo único, ambos do 
ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09); a excepcionalidade 
da colocação em família substituta (art. 19, caput e § 3º do ECA, com 
a redação dada pela Lei nº 12.010/09); a preferência da colocação em 
família substituta residente no país em relação à residente no exterior 
(arts. 31 e 51, § 1º, inc. II do ECA, com a redação dada pela Lei nº 
12.010/09); e, por último, a preferência em favor do brasileiro residen-
te no exterior em relação ao estrangeiro na mesma situação (art. 19 c/c 
arts. 31 e 51, § 2º, do ECA, com a redação dada pela Lei nº 12.010/09).
A nova lei modifica o sistema anterior, devolvendo ao Poder Judi-
ciário a competência para decidir se uma criança ou adolescente en-
caminhado a entidade de acolhimento institucional pode ser mantido 
afastado do convívio familiar (art. 93 e parágrafo único do ECA, com a 
redação dada pela Lei nº 12.010/09). Dispõe a lei que as referidas en-
tidades podem receber, em caráter excepcional e de urgência, infantes 
e adolescentes sem prévia determinação da autoridade competente, 
devendo, contudo, fazer a comunicação do fato à autoridade judiciária 
em até 24 (vinte e quatro) horas, sob pena de responsabilidade (arts. 
93 e parágrafo único e 101, § 2º do ECA, com a redação dada pela Lei 
nº 12.010/09).
Recebida a comunicação, o Juízo de Direito, ouvido o Ministério 
Público, tomará as medidas necessárias para promover a imediata reinte-
gração familiar da criança ou adolescente ou, se isso não se mostrar pos-
sível ou recomendável, determinará seu encaminhamento a programa de 
acolhimento familiar, institucional ou a família substituta, observando-se 
o disposto no art. 101, § 2º do ECA que, em sua nova redação, determi-
na que, na impossibilidade de reintegração familiar, o Ministério Público 
deflagre procedimento judicial contencioso, no qual se garanta aos pais 
ou ao responsável o exercício do contraditório e da ampla defesa.
41
Este é um ponto importantíssimo, que demanda especial atenção 
por parte dos Promotores de Justiça com atribuição na área da infância 
e juventude. O afastamento de uma criança ou adolescente do conví-
vio familiar, ainda que absolutamente necessário, importa na privação 
de um direito fundamental, constituindo grave violação a esse direito, o 
que implica na pronta atuação ministerial e justifica uma variada gama 
de medidas judiciais, que podem ir desde uma mera representação 
para apuração da infração administrativa prevista no art. 249 do ECA, 
a um pedido de suspensão do poder familiar, nomeação de guardião 
ou tutor (conforme o caso), ação de alimentos, destituição do poder 
familiar, etc.
Não pode mais o Ministério Público permitir que crianças e adoles-
centes sejam abrigados exclusivamente em razão da pobreza de suas 
famílias. Nessas hipóteses, além de trabalhar, de forma global, a ques-
tão da criação de políticas e programas de orientação e auxílio, através 
da instauração de inquéritos civis ou da deflagração de ações civis pú-
blicas, deve-se promover medidas extrajudiciais ou judiciais para resol-
ver a situação individual do menino ou menina que estiver em situação 
de privação material, que venha a dar causa a seu afastamento familiar. 
Casos, por exemplo, de falta de moradia podem ser minimizados atra-
vés da

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