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Acesso e Acolhimento na Atenção Primária e a Política de Humanização Prf. Ms. Nadja Oliveira Reflexões: As demandas e necessidades de saúde são construídas socialmente, ou seja, não têm uma essência imutável e não devem ser naturalizadas. Dessa forma, é restritivo falar em “reais necessidades de saúde da população”, pois isso parte da premissa de que é possível definir as verdadeiras necessidades de saúde, quando, de fato, estas são construções produzidas na dinâmica social (LUZ, 2006; CAMARGO JR., 2005; CECÍLIO, 2001). Rede de Atenção o caráter estruturante e estratégico que a ATENÇÃO BÁSICA (ou Atenção Primária à Saúde2) pode e deve ter na constituição das redes de atenção à saúde, na medida em que (a atenção básica) se caracteriza pela grande proximidade ao cotidiano da vida das pessoas e coletivos em seus territórios , pois as unidades básicas são o tipo de serviço de saúde com maior grau de descentralização e capilaridade Papel da atenção Básica As equipes da atenção básica têm o papel de se vincular aos usuários e atuar de forma responsável na promoção da saúde e na prevenção de doenças, tanto em ações coletivas no território quanto no cuidado individual e familiar. Elas também participam da (co)gestão dos projetos terapêuticos singulares, que muitas vezes exigem articulação com outros serviços para garantir um cuidado integral. O Papel da Atenção Básica na Integralidade do Cuidado 1. Potencial da Atenção Básica Embora não consiga garantir atenção integral sozinha, a atenção básica é capaz de resolver grande parte dos problemas de saúde da população. Atua com diferentes tecnologias e estratégias, desde que compreenda as demandas e intervenha de forma resolutiva. 2. Superando Limites e Reduções Não pode se restringir apenas à promoção e prevenção coletiva. Tampouco deve se limitar à realização de consultas e procedimentos. É necessário integrar ações clínicas e de saúde pública, sem dicotomias. 3. Desafios e Influências A busca excessiva por serviços especializados é influenciada pelo imaginário social e pelo complexo médico-industrial. Essa procura também reflete a oferta e a capacidade de resposta da atenção básica. 4. A Atenção Básica como Porta Aberta Deve ser uma porta de entrada acolhedora e resolutiva. Não pode se tornar um espaço burocrático de encaminhamento. Precisa oferecer respostas positivas e efetivas aos usuários. Tecnologias no Trabalho em Saúde 1. Tipos de Tecnologias Utilizadas Tecnologias Duras Equipamentos, máquinas, instrumentos e infraestrutura física. Ex: aparelhos de ultrassom, computadores, mobiliário clínico. Tecnologias Leve-Duras Conhecimentos estruturados e saberes técnicos. Ex: clínica médica, epidemiologia, psicanálise. Tecnologias Leves Relacionais e subjetivas, presentes nos encontros entre profissionais e usuários. Ex: escuta qualificada, vínculo, acolhimento, diálogo. 2. Composição do Trabalho em Saúde Todos os serviços de saúde, inclusive a atenção básica, utilizam os três tipos de tecnologias. A diferença está na ênfase e na forma como essas tecnologias são combinadas no cuidado. 3. Importância das Tecnologias Leves São fundamentais para a humanização do cuidado. Modulam o uso das tecnologias leve-duras e duras. Tornam o trabalho vivo em ato mais efetivo e significativo. O que é o acolhimento? Prática presente em todas as relações de cuidado. Ocorre nos encontros reais entre profissionais de saúde e usuários. Envolve escuta, recepção e atenção às necessidades. Acolhimento: prática e não apenas discurso Não é, por definição, algo bom ou ruim. Deve ser analisado como acontece, e não apenas se acontece. Se revela nas práticas concretas, mais do que nas falas sobre ele. Diversidade de formas Existem diferentes formas de acolher (“há acolhimentos e acolhimentos”). Cada serviço pode expressar o acolhimento de maneira singular. Acolhendo a demanda espontânea É essencial pensar em modos efetivos de acolher quem chega sem agendamento. O acolhimento deve ser resolutivo, humanizado e integrado ao cuidado. Acolhimento: Acolher é dar acolhida, admitir, aceitar, dar ouvidos, dar crédito a, agasalhar, receber, atender, admitir (FERREIRA, 1975). O acolhimento como ato ou efeito de acolher expressa, em suas várias definições, uma ação de aproximação, um “estar com” e um “estar perto de”, ou seja, uma atitude de inclusão. Essa atitude implica, por sua vez, estar em relação com algo ou alguém. Afirmar o acolhimento como uma das diretrizes de maior relevância ética/estética/política da Política Nacional de Humanização do SUS: • ética no que se refere ao compromisso com o reconhecimento do outro, na atitude de acolhê-lo em suas diferenças, suas dores, suas alegrias, seus modos de viver, sentir e estar na vida; • estética porque traz para as relações e os encontros do dia-a-dia a invenção de estratégias que contribuem para a dignificação da vida e do viver e, assim, para a construção de nossa própria humanidade; • política porque implica o compromisso coletivo de envolver-se neste “estar com”, potencializando protagonismos e vida nos diferentes encontros Dimensões constitutivas do acolhimento O acolhimento como mecanismo de ampliação/facilitação do acesso O acolhimento na atenção básica é uma prática que promove a inclusão dos usuários, atendendo não apenas grupos definidos por agravos prevalentes ou ciclos de vida, mas também pessoas com outras necessidades de saúde. Ele amplia o acesso ao considerar tanto a agenda programada quanto a demanda espontânea, respeitando as especificidades de cada situação. Mais do que verificar sua existência, é essencial analisar como o acolhimento ocorre na prática. O acolhimento como postura, atitude e tecnologia de cuidado O acolhimento é uma tecnologia leve, expressa nas atitudes, posturas e relações entre profissionais e usuários. Envolve escuta sensível, construção de vínculos e manejo do imprevisto, influenciando o uso das demais tecnologias no cuidado. Essa prática facilita a continuidade e a redefinição dos projetos terapêuticos, especialmente quando o usuário busca o serviço fora das atividades agendadas, como no caso de uma mãe que leva o filho ao posto em situação não programada. O acolhimento como dispositivo de (re)organização do processo de trabalho em equipe A implantação do acolhimento da demanda espontânea exige mudanças na organização das equipes, nas relações entre os profissionais e nos modos de cuidar. Não basta limitar o acesso por senhas ou encaminhar todos os casos ao médico. É necessário que a equipe reflita sobre suas ofertas de cuidado e defina coletivamente como será o acolhimento, incluindo avaliação de risco, encaminhamentos e intervenções. Isso demanda ampliar a capacidade clínica da equipe para escutar de forma qualificada, reconhecer vulnerabilidades e agir de maneira resolutiva. Situação: Uma mulher chega à unidade de saúde com seu filho de 2 anos, que está com diarreia. Ela não costuma levá-lo às consultas de puericultura agendadas e aparece em um dia sem marcação. Ação da Equipe: Recepção e Escuta Qualificada A agente comunitária de saúde recebe a mãe com acolhimento, escuta sua preocupação e identifica a urgência da situação. Avaliação Inicial A enfermeira realiza uma avaliação clínica rápida, identificando sinais de desidratação leve. Reconhece a vulnerabilidade da criança e a necessidade de intervenção imediata. Encaminhamento e Intervenção O caso não é encaminhado diretamente ao médico. A enfermeira inicia o plano de hidratação oral, orienta a mãe e agenda uma consulta médica para o dia seguinte, garantindo continuidade do cuidado. Revisão do Projeto Terapêutico A equipe discute o caso em reunião e decide incluir a criança em um acompanhamento mais próximo, com visitas domiciliares e reforço da educação em saúde. Reflexão e Organização Interna A situação leva a equipe a revisar seus fluxos de acolhimento, definindo que enfermeiros e agentes comunitários serão os primeiros pontos de escuta da demanda espontânea, com protocolos para avaliação de risco e encaminhamentos.PARA VIABILIZAR A IMPLEMENTAÇÃO DO ACOLHIMENTO À DEMANDA ESPONTÂNEA NA ATENÇÃO BÁSICA Novos personagens na produção do acolhimento O acolhimento à demanda espontânea e a Rede de Atenção às Urgências Apoio dos gestores às equipes de saúde Diálogo com os usuários Referências: Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. Acolhimento nas práticas de produção de saúde / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. – 2. ed. 5. reimp. – Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2010. 44 p. : il. color. – (Série B. Textos Básicos de Saúde Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Acolhimento à demanda espontânea / Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. – 1. ed.; 1. reimpr. – Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 56 p. : il. – (Cadernos de Atenção Básica; n. 28, V. 1) image4.png image1.png image5.png image2.jpeg image3.jpeg