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Universidade Federal de Uberlândia Instituto de Psicologia Disciplina: Teoria e Técnica de Grupo Alunas: Débora de Jesus Barbosa (11911PSI017), Isadora Resende Duarte Luz (11911PSI047), Maria Laura de Freitas Andrade Telles (11911PSI049) e Noelle Tavares Ferreira (11911PSI055) Professor: Emerson Rasera Projeto de Ensaio Visando contribuir para o bom planejamento da redação do ensaio, o projeto consiste em um plano de trabalho em que os principais argumentos já estão apontados. Assim, o projeto deve apresentar um parágrafo para cada um dos itens abaixo: 1) Problema de investigação Reconhecendo a importância dos processos de gênese e constituição de grupos para a vida cotidiana e que esses processos acontecem em cenários mais inusitados possíveis, mostra-se relevante buscar compreender um pouco mais sobre tais processos. Atrelado a isso e compreendendo os aspectos que influenciam um indivíduo dentro de um grupo, o presente artigo procura atrelar uma narrativa cinematográfica, marcada por mudanças individuais frente a um coletivo, analisando a problemática dos impactos sociais entre membros durante a formação de grupos. A análise desse problema se centra frente ao aspecto de que interações sociais normalmente geram impactos nas pessoas constituintes das relações, quer esses impactos sejam positivos ou negativos. 2) Justificativa para a investigação desse problema Para Lewin, o grupo faz parte do espaço vital dos indivíduos, sendo que a atmosfera grupal possui uma grande influência sobre o sujeito, influenciando seu comportamento, ações e até mesmo seus ideais (Godoi & Freitas, 2008). O grupo é caracterizado também pela interdependência entre seus membros, podendo ser definido como um todo dinâmico, em que a mudança em uma das partes modifica o estado de todas as partes constituintes do grupo. Por conta disso, os indivíduos tendem a manter seus comportamentos em proximidade com aquilo que é estabelecido pelo grupo, sendo que, nesses casos, o fenômeno de resistência à mudança pode ser algo muito comum (Godoi & Freitas, 2008). Porém, deve-se considerar que, para Lewin, o grupo acaba se configurando também como um espaço e um dispositivo privilegiado para as mudanças sociais de seus membros (Pasqualini, Martins & Filho, 2021). No entanto, pouco se tem falado sobre os impactos sociais entre membros de um grupo recém-formado e sobre as mudanças sociais advindas de tais impactos. Portanto, é de grande necessidade compreender melhor como se dão essas mudanças em contextos de formação de novos grupos. Mais ainda, considerando fases específicas da vida como, por exemplo, a adolescência, em que mudanças são constantes e a convivência grupal se mostra de extrema relevância, fica evidente a importância de discutir tais impactos sociais a fim de entender mais profundamente o processo de formação da subjetividade dos sujeitos. Além disso, discutir sobre essa temática também se mostra relevante para investigar como a constituição de novos grupos e seus impactos sociais podem alterar a influência dos grupos familiares no modo de ser dos sujeitos. 3) Objetivo do artigo Considerando o problema de investigação centrado nos impactos sociais causados por membros na constituição de novos grupos, o presente artigo propõe investigar de forma mais aprofundada esse aspecto a partir do “Clube dos cinco”. Assim, o artigo objetiva compreender a formação de grupos e seu impacto nas mudanças sociais entre seus membros. A partir desse objetivo, espera-se investigar como se constituem grupos, como os membros do grupo se relacionam, como a comunicação se estabelece entre esses membros e também como a formação de um novo grupo pode trazer modificações para todos que o constituem. Espera-se também que a discussão se centre principalmente em torno da adolescência e dos contextos que a cercam, em especial o contexto de grupo familiar. 4) Filme/obra a ser analisada A obra analisada será o filme Clube dos cinco (“The breakfast club”), de 1985, dirigido por John Hughes. O enredo traz cinco adolescentes (Andrew, Alisson, Brian, Claire e John), que são confinados no colégio durante todo um sábado como uma advertência escolar, com a tarefa de escrever uma redação de mil palavras sobre o que pensam de si mesmos. Devido à detenção, os personagens são obrigados a conviver minimamente entre si, fato que gera desconfortos e inúmeros conflitos, uma vez que cada um dos adolescentes faz parte de um grupo social diferente no cotidiano escolar. Sendo assim, eles não se consideravam amigos e não estavam dispostos a se enturmarem, enxergando uns aos outros apenas a partir de preconceitos e estereótipos. No entanto, ao longo da trama os personagens se unem para enfrentar o professor que lhes deixou de castigo, infringindo regras e ordens escolares. Assim, aos poucos os estudantes começam a se integrar, falando sobre seus problemas familiares e sobre as dificuldades que enfrentam em seu cotidiano. É aberto, então, um espaço de escuta e de confiança entre os adolescentes, em que eles fazem coisas nunca antes feitas e passam a se enxergar a partir de novas perspectivas. Apesar de o filme deixar em aberto a possibilidade de eles continuarem ou não a amizade após o dia do castigo, algo de fixo se mantém: o Clube dos Cinco havia sido criado. 5) Quatro conceitos teóricos a serem ilustrados Dentre os conceitos trazidos por Lewin e seus colaboradores, pretende-se responder ao objetivo do artigo utilizando-se de quatro conceitos teóricos recortados da Psicologia Social acerca da dinâmica de grupo. Considerando a narrativa do filme e a forma como se dá a constituição do grupo pelos personagens, o conceito de distância psicológica será apresentado para explicar a disposição inicial dos adolescentes, disposição essa marcada por confrontos e conflitos e que impedia a aproximação dos personagens. Para explorar um dos elementos chaves para a constituição do grupo, o professor responsável pela detenção, será utilizado o conceito de liderança autocrática, avaliando sua influência para a formação de grupos e como a presença desse tipo de liderança se reflete no comportamento dos indivíduos em uma situação grupal. Por fim, serão utilizados dois conceitos básicos da teoria das necessidades interpessoais de Schutz buscando entender a evolução dos personagens ao longo do filme e também as mudanças sociais ocorridas a partir das influências entre os membros do grupo. Para isso, serão utilizados os conceitos de necessidade de inclusão (que diz respeito ao sentimento de integração dos membros em relação ao grupo) e de necessidade de afeição (relacionado ao sentimento de ser percebido como insubstituível dentro do grupo) (Mailhoit, 1991). Tais conceitos serão utilizados buscando analisar personagens específicos e suas trajetórias de mudanças pessoais ao longo da trama do filme. 6) Análise completa e ilustrativa de um conceito a partir do filme e da teoria selecionados Dentro da teoria lewiniana, existem questões-chaves que compõem os principais elementos quando se busca investigar a dinâmica de grupos e sua autenticidade. Dentro dessas questões-chaves encontra-se a comunicação, sendo que os tipos de comunicação estabelecidas dentro de um grupo seriam um preditor fundamental da forma como ele se estrutura e funciona. Nesse sentido, apenas grupos que conseguem estabelecer comunicações abertas e adequadas é que conseguiriam atingir maior integração entre seus membros, assim como maior produtividade e eficiência (Pasqualini, Martins & Filho, 2021). Porém, existem barreiras que impedem a efetivação de uma comunicação adequada entre os membros de um grupo, fato que traz prejuízos para as relações interpessoais estabelecidas (Mailhiot, 1991; Pasqualini et al., 2021). Segundo Mailhiot (1991), uma dessas barreiras seria a distância psicológica, pois a comunicação humana não poderia se iniciar e muito menos se estabelecer enquanto houvessem distâncias psicológicas entre os membros do grupo. O conceito de distância psicológica diz respeito a um fenômeno intragrupo que se caracterizapelo outro ser percebido como incompatível. Ou seja, dentro de uma determinada relação interpessoal, indivíduos de um grupo podem perceber-se como incompatíveis e manterem-se à distância, sendo que a comunicação é interrompida por ser considerada impossível de ser estabelecida (Mailhiot, 1991). No filme “O clube dos cinco” é possível perceber a presença de distâncias psicológicas na cena que representa o início da detenção dos personagens. Após receberem um sermão do professor e serem orientados a escreverem o ensaio, os alunos ficam em um estado de permanente conflito, em que a comunicação estabelecida entre eles se baseia em insultos e provocações. Assim, John tenta irritar a todos e os outros integrantes do grupo, em especial Andrew e Claire, o respondem violentamente. Nesse momento, uns julgam os outros baseando-se apenas em estereótipos: Andrew seria o covarde, Brian o nerd, Claire a virgem e John o imbecil. Se relacionar com os outros membros do grupo se mostra tão desagradável nesse momento que Claire até mesmo relata que não acredita estar sendo obrigada a estar ali. Nesse contexto, distâncias psicológicas claras se mostram presentes entre os personagens do filme. Sendo todos pertencentes a grupos sociais diferentes, mostra-se quase impossível que os personagens compreendam uns aos outros como pessoas acessíveis e compatíveis, sendo que, por conta disso, eles não conseguem estabelecer uma comunicação que vá para além de insultos e frases violentas. Uma comunicação aberta e adequada nesse momento é, portanto, quase impossível, visto que as barreiras à comunicação se mostram praticamente intransponíveis e os outros são sempre mantidos à distância. Referências Freitas, S. F., & Godoi, C. K. (2009). A aprendizagem organizacional sob a perspectiva sócio-cognitiva: contribuições de Lewin, Bandura e Giddens. Revista de Negócios, 13(4), 40-55. http://dx.doi.org/10.7867/1980-4431.2008v13n4p40-55. Mailhiot, G. B. (1991). Comunicação humana e relações interpessoais. In G. B. Mailhiot, Dinâmica e gênese dos grupos (pp. 63 – 88). São Paulo: Duas Cidades. Pasqualini, J. C., Martins, F. R., & Euzébios Filho, A. (2021). A" Dinâmica de Grupo" de Kurt Lewin: proposições, contexto e crítica. Estudos de Psicologia (Natal), 26(2), 161-173. Doi: 10.22491/1678-4669.20210016.