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COLONIALISMO, RAÇA E CLASSE NA AMÉRICA LATINA: o 
pensamento de Florestan Fernandes. 
 
 
GUSTAVO DOS SANTOS LIMA 
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA 
ICSLA 
 
 
 
 
Ao analisarmos o impacto do sistema capitalista de produção na 
América Latina, é essencial considerar os elementos que constituem este 
continente. Para compreender as raízes e a trajetória das relações que 
atravessam a América Latina, é necessário olhar atentamente para o fio 
inquebrantável do colonialismo. Na ontogênese do sistema capitalista, 
fortemente vinculado ao colonialismo, a América Latina desempenha o papel 
de periferia do capitalismo, uma função que, desde o século XVI, se resume a 
satisfazer as demandas do desenvolvimento do capitalismo central. Essa é a 
definição do que Florestan Fernandes denomina “capitalismo dependente”. 
Assim, a operação desse sistema na América Latina se fundamenta na 
superexploração do trabalho, herdada do contexto colonial escravista, 
resultando em funções distintas para as relações de classe nessa região. 
 Dentro desse sistema periférico e dependente, o racismo se revela um 
fenômeno inseparável. A construção histórica da raça tem sido, e continua 
sendo, uma ferramenta ideológica que sustenta a perpetuação desse sistema 
dependente. Portanto, podemos concluir que o processo de colonização não se 
encerra com o fim da fase colonial; ele se transforma em um sistema de 
dependência entre periferia e centro, onde a dominação externa está 
intimamente ligada ao crescimento e à reprodução do capitalismo. Na América 
Latina, o neocolonialismo, como forma de dominação externa, fragmenta o 
antigo sistema colonial, mantendo a submissão nos processos econômicos e 
assegurando o controle do centro sobre o trabalho e a produção. 
Segundo Fernandes (2009), essa nova forma de colonialismo se 
estabelece como a única via para que as ex-colônias permaneçam em 
atividades econômicas dependentes e exportadoras, sem modificar a estrutura 
econômica já consolidada. O capitalismo monopolista exerce, portanto, um 
papel central na dominação externa, garantindo que o desenvolvimento 
capitalista global ocorra por meio da apropriação privada de riquezas 
produzidas socialmente por uma pequena elite capitalista. Esse “imperialismo 
total”, como Fernandes o define, subordina a América Latina não apenas ao 
domínio europeu, mas também, e especialmente, aos Estados Unidos. A 
supressão externa limita significativamente a autonomia da região, impondo 
uma relação de dependência econômica e sociocultural, o que transforma a 
América Latina em uma economia satélite. De acordo com Fernandes, ela “não 
possui as condições estruturais e dinâmicas para superar, por meio dos 
esforços da burguesia, o subdesenvolvimento e suas consequências” 
(FERNANDES, 2009, p. 27-28). 
Frente a esse cenário, Fernandes questiona a existência e a natureza 
das classes sociais na América Latina. Essa perspectiva nos permite perceber 
as limitações da teoria marxista tradicional para responder às novas 
configurações do capitalismo tardio. A divisão entre proletariado e burguesia é 
desafiada pela emergência de novos movimentos sociais na América Latina, 
articulados por identidades que se formam fora do mundo do trabalho 
tradicional, o que Fernandes chama de "destituídos". Ele argumenta que as 
explicações sociológicas clássicas devem ser ajustadas para refletir as 
especificidades históricas e sociais de cada contexto, como ocorre na América 
Latina. O conceito de classe social deve ser ampliado para incorporar diversas 
manifestações histórico-sociais, rompendo com as limitações dos clássicos ao 
abordar as particularidades dos países periféricos. Fernandes afirma que "o 
capitalismo dependente requer e conduz à sociedade de classes como 
formação histórico-social típica" (FERNANDES, 1975, p. 61). Portanto, na 
América Latina, a sociedade de classes deve estar associada ao capitalismo 
dependente, caracterizado pela falta de autonomia e pela incapacidade de 
crescimento econômico independente. 
Para entender mais a fundo as especificidades desse sistema, é 
fundamental considerar os principais subprodutos do capitalismo moderno: o 
imperialismo econômico e o capitalismo dependente. Fernandes sugere que 
somente uma mudança de perspectiva que incorpore esses subprodutos 
permitirá uma compreensão adequada da sociedade de classes nas periferias 
capitalistas. 
Como mencionado anteriormente, a questão racial é inextricavelmente 
vinculada ao contexto de superexploração do trabalho no capitalismo 
dependente. Para compreender o processo colonial do trabalho na América 
Latina, é fundamental reconhecer o racismo como um elemento determinante 
nas relações sociais e nos meios de produção. Mesmo após a desagregação 
do antigo sistema colonial, o racismo persiste, estruturando a sociedade em 
termos de uma hierarquia entre a "zona do ser" e a "zona do não ser" (Fanon, 
1961). Assim, entender a formação das classes sociais na América Latina 
requer uma análise do papel histórico da racialização do trabalho. 
No antigo sistema colonial, a construção da raça funcionava como uma 
engrenagem essencial do sistema socioeconômico, em que o trabalho escravo 
girava em torno do capital. Segundo Quijano (2005), a tecnologia de 
dominação baseada na raça e no trabalho se articulou de maneira a parecer 
"naturalmente associada". No capitalismo dependente, no entanto, houve uma 
transição. No Brasil, por exemplo, o mercado de trabalho livre, que emergiu 
após séculos de escravidão, não conseguiu absorver os ex-escravos. Assim, o 
racismo passou a desempenhar uma função de exploração e de expropriação: 
se antes a raça era usada para forçar povos a posições de exploração, agora 
serve para expropriá-los de seus meios de sobrevivência, marginalizando-os 
ainda mais. 
Esse movimento se intensifica com a decadência do sistema escravista, 
quando os grandes proprietários de terra começam a dispensar a mão de obra 
servil, o que resulta em um êxodo de negros e mulatos para as áreas urbanas 
em busca de melhores condições de trabalho. No Brasil, a decadência do 
trabalho escravo abriu espaço para a imigração europeia, criando uma situação 
em que os negros recém-libertos não encontravam oportunidades de emprego. 
As relações sociais e de trabalho, então, passam a apresentar novas facetas. 
Entre as mulheres negras, que trabalham como domésticas, costureiras, 
lavadeiras, e os homens negros e mulatos em empregos temporários, como em 
terrenos baldios ou bares, surge uma nova classe social: os destituídos. Esta é 
uma classe cujos membros, frequentemente, ocupam subempregos 
marginalizados e não reconhecidos, e cuja contribuição para a produção de 
riquezas é invisibilizada. A exclusão dos negros do mercado formal de trabalho 
também os empurra para um estilo de vida marcado pela criminalidade, onde o 
roubo, o tráfico ou a prostituição se tornam alternativas para enfrentar a falta de 
oportunidades. 
No seu livro “A Integração do Negro na Sociedade de Classes”, 
Fernandes investiga o contexto pós-abolicionista e identifica uma divisão social 
entre os "negros do eito" e os "negros da casa-grande" ou "elite negra". Os 
"negros do eito" eram aqueles que dedicaram sua vida ao trabalho escravo e à 
exploração, sem acesso à educação formal. Os "negros da casa-grande", por 
outro lado, tiveram algumas oportunidades dentro do sistema escravista, 
possuindo habilidades de leitura e escrita e conexões que os levaram a ocupar 
alguns cargos mais estáveis. 
Com isso, torna-se insustentável a ideia de democracia racial. O período 
pós-abolicionista não garantiu liberdade para os negros; ao contrário, os 
prendeu ainda mais em um sistema que os empurra para a margem do 
trabalho formal e que perpetua sua marginalização. O conceito de raça não 
desapareceu com o fim da escravidão; ele apenas se adaptou gradualmente às 
novas condições do capitalismo dependente.Diante disso, para entender a reprodução do capitalismo em escala 
global e seu impacto na América Latina, é indispensável reconhecer o 
colonialismo como fio condutor. Todas as relações sociais — sejam de classe, 
trabalho ou economia — na América Latina devem ser interpretadas a partir de 
um contexto colonial que as estruturou e moldou. A superexploração do 
trabalho continua desempenhando um papel crucial na manutenção do 
capitalismo central, subordinando as periferias à sua dominação econômica. O 
colapso do antigo sistema colonial não representa o fim da subordinação das 
ex-colônias, mas o início de uma reestruturação capitalista que, por meio do 
neocolonialismo, preserva o controle das periferias. 
As classes sociais que se formam nas periferias precisam ser estudadas 
a partir de suas particularidades. Como ressalta Fernandes, há, sim, classes 
sociais na América Latina, mas elas não se limitam ao modelo marxista 
clássico; abrangem um amplo espectro histórico-social estruturado em bases 
coloniais. Para entender a sociedade de classes nas periferias, é essencial 
reconhecer o surgimento de uma classe social destituída, que alimenta o 
capitalismo dependente. Também é necessário compreender que o conceito de 
raça não se extinguiu com o fim da escravidão; ele continua a ser uma 
ferramenta de marginalização, empurrando os negros para a periferia do 
processo produtivo e confinando-os a subempregos e atividades informais. 
Só ao reconhecermos a base colonial que dá forma ao capitalismo 
dependente, seremos capazes de entender o papel de raça e classe como 
elementos fundamentais desse sistema. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
REFERÊNCIAS 
 
FERNANDES, Florestan. Capitalismo dependente e classes sociais na 
América Latina. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. 
 
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização 
Brasileira, 1961. 
 
QUIJANO, Aníbal. Colonialidad do poder, eurocentrismo e América Latina. 
In LANDER, Eduardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências 
sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. 
 
FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. 3. 
ed. São Paulo: Ática, 1978, v. 1.

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