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O GRANDE MERCADO DA EDUCAÇÃO E O EMBRUTECIMENTO HUMANO 
Diocelia M da Silva 
Resumo: o texto trata-se de uma reflexão tendo como eixo articulador as transformações provocadas pelo neoliberalismo nas subjetividades e nos processos educacionais. Tem-se como base os textos trabalhados ou citados na aula da disciplina Neoliberalismo, Estado, Política E Mercantilização Da Educação, tais como os de Laval (2004), Dardot e Laval (2016) e Martha Nussbaum (2015). 
Palavras-chave: Privatização e mercantilização da educação. Racionalidade neoliberal. Embrutecimento humano. 
Os textos de Laval (2004) e Dardot e Laval (2016) oferecem uma análise crítica sobre as mudanças ocorridas no século atual, destacando como o fortalecimento do mercado tem ocorrido às custas do enfraquecimento e desvalorização das políticas sociais, diminuição das ações do estado sobre a economia e a inclusão das regras do mercado em instituições públicas. Essa situação é resultado da influência da lógica do neoliberalismo.
 Na obra A Nova Razão do Mundo de Dardot e Laval (2016), eles exploram o modo como o neoliberalismo se torna uma racionalidade, isso é, um modo de vida, abrangente, lógico e a razão pela qual a humanidade deveria agir. O neoliberalismo tem origem no liberalismo clássico. No entanto, segundo o autor, adquire características diferentes e próprias, tornando-se uma racionalidade por extrapolar os limites de sua ação interferindo nas esferas sociais como na escola e na família como um novo modo de ser e pensar. 
Na introdução do capítulo 3 do livro A Escola não é uma Empresa, Laval (2004) inicia sua argumentação com a epígrafe: “a educação deve ser considerada como um serviço prestado ao mundo econômico”, retirada do Relatório da Mesa Redonda Européia de fevereiro de 1995. Essa epígrafe evidencia a função que a educação deve desempenhar nesse contexto: servir ao mercado e à economia. Mas, para servir ao mercado e a economia, a educação é despida de suas características fundamentais, ser pública e, um direito garantido para todos nós, e envolvida em um sistema que gere algum tipo de lucro e status a economia. Daí, que o neoliberalismo envolve a educação com características de um grande mercado educacional. 
Para Dardot e Laval (2016), na prática, os discursos mais comuns atualmente indicam que os ‘novos homens’ que se pretendem formar são, principalmente, trabalhadores e consumidores do futuro. Por essa razão, depois do ideal religioso, do cidadão do Estado e do homem cultivado do humanismo clássico, a industrialização e a mercantilização da vida estão mudando a ideia do que é o ser humano, que passa a ser visto principalmente como um ser econômico e privado. Trata-se de uma concepção que procura dar a resposta às perguntas ‘quem é o ser humano’ nos tempos modernos? O que rege esses tempos modernos ? E que educação esses tempos modernos e concepção de ser humano é necessária? 
 A lógica/racionalidade do neoliberalismo é um pacote completo que implica em uma nova forma de ver e se relacionar com o mundo e com a formação humana. Segundo Laval (2004), na escola, essa racionalidade traz um repertório de novas palavras e conceitos, como competência, aprendizagem ao longo da vida, gestão, desempenho e competição. A ideia de competência adotada na escola vem de uma longa e ambígua discussão sobre o conceito. Utilizado no ambiente profissional foi transferido o conceito para a educação segundo fomento de organizações que têm influências mundiais como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico/OCDE (Laval, 2004). As competências se transformaram na “moeda global do século 21. Sem investimento adequado em competências, as pessoas permanecem à margem da sociedade, o progresso tecnológico não se traduz em crescimento econômico” diz a OCDE em março de 2014 em publicação intitulada Melhores competências, melhores empregos, melhores condições de vida: uma abordagem estratégica da política das competências. A palavra ‘estratégia’ é um elemento importante para compreender a adoção das competências e da aprendizagem ao longo da vida na educação. Segundo Laval (2004), esses conceitos são ambíguos, no cenário em que são empregados com discurso salvacionista, é um movimento estratégico de garantir simpatia popular e, ao mesmo tempo, empregar ideais privados e lucrativos na educação. 
 O principal objetivo do movimento do mercado na privatização indireta/ direta da educação, está inserido em um contexto da privatização gradual da educação pública, impulsionada por uma lógica global que prioriza a eficiência (Nussbaum, 2015). Destaca-se que essa influência se manifesta não apenas na gestão das escolas, mas também no conteúdo curricular, na produção de materiais didáticos, na avaliação e nos programas de formação de professores. A escola passa a ser encarada como um lugar para acumular um ‘capital humano’. Na prática, o que se busca é uma formação que forneça competências necessárias para um trabalhador polivalente e flexível, que possa atuar em diferentes funções. A educação, nesse contexto, deixa de ser uma busca por desenvolvimento integral humano e passa a ser uma preparação para o mercado de trabalho, com foco na formação de habilidades práticas e comportamentos. Além disso, nesse mesmo pacote, as avaliações tornam-se mecanismos de competição entre escolas e alunos e os livros didáticos são mercadorias que movimentam o capital e a disputa entre as empresas fornecedoras. A aprendizagem ao longo da vida é outro conceito estratégico inserido no ambiente escolar, pois é entendida como ‘formação’ contínua de modo a permitir às pessoas a acompanhar a evolução do nosso tempo. No entanto, a palavra formação pode ser substituída por adaptação/treinamento das competências humanas para contribuir com o desenvolvimento econômico. 
A análise que os textos de Laval (2004), Dardot e Laval (2016) assim com outros autores como Nussbaum (2015), é fundamental para a reflexão sobre os interesses envolvidos na formulação das políticas educacionais, formação docente e os impactos dessas influências na qualidade, na equidade e na autonomia da educação pública. Aliás, pensar em privatização da educação pública é solução para quem? Que tipo de ser humano queremos formar para a democracia nessa lógica? Esse fenômeno promove o distanciamento da educação como direito e a aproximação da educação como mercadoria. Dentro dessa promoção será que o bem público, o comum e o direito à educação humanizadora ainda pode sobreviver? 
De fato, com o avanço do neoliberalismo, as políticas sociais e os direitos são reduzidos. Essa redução criada pelos mercados oportuniza novos negócios e assim o mercado cresce, mas o crescimento integral humano diminui. A mercadorização da educação é a solução exclusiva para o mercado, para a economia. A política educacional está sendo usada como um laboratório para as experiências do mercado. E dessas experiências é possível resultar grandes retrocessos, principalmente no que se entende por público e humano hoje em dia, porque essas concepções favorecem um tipo de embrutecimento da educação e de nós mesmos. Pois, para haver mais diminuição das políticas sociais, privatização da educação e cada vez mais o desenvolvimento econômico, nada mais necessário e conveniente que o embrutecimento humano, visto que esse embrutecimento nos deixa cegos. 
O embrutecimento humano não trata-se de uma metáfora, é uma realidade. Com o avanço do neoliberalismo, um modo de pensar que ludibria a mente e o comportamento em vista do lucro, o meio ambiente é destruído, o desmatamento, o aquecimento global ocorre em prol do progresso sem o mínimo de noção sobre os seus efeitos, inclusive, alguns dos efeitos, como catástrofes, inundações, tempestades, climas destemperados, são fenômenos naturais já presenciados, mas pouco vistos. O uso de agrotóxicos de forma desenfreada em plantações, ultra processamento de alimentos e consumismo estão nos adoecendo, as pessoas pobres e em situação de vulnerabilidade social ficam ainda mais vulneráveisao sofrimento, à fome, à falta de saúde pública e educação. Nada disso o pensamento neoliberal enxerga ou nos deixa enxergar. Nessas perspectivas, como dizem os estudos de Nussbaum (2015), Laval (2004), Dardot e Laval (2016), a democraacia e a vida são ameaçadas, visto que a falta de entendimento e visão sobre o humano nos torna embrutecidos. Esse embrutecimento acontece quando a nossa educação é deformada pelo capital. 
Referência
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaios sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. 
LAVAL, Christian. A Escola não é uma empresa: o neo-liberalismo em ataque ao ensino público. Londrina: Editora Planta, 2004. 
NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2015. 
OECD (2014), Melhores competências, melhores empregos, melhores condições de vida: Uma abordagem estratégica das políticas de competências. Santillana, Brazil, São Paulo, SP, https://doi.org/10.1787/9788563489197-pt.

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