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SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS AULA 4 Prof. Rafael Alves Cazuza 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula traremos um panorama geral dos dados epidemiológicos de prevalência e incidência do abuso de drogas no Brasil e no mundo. Abordaremos o tema de forma a compreender os determinantes emocionais e sociais dos transtornos decorrentes do uso de SPAs. Para isso, abordaremos temas como a epidemiologia e dados demográficos do uso de substâncias psicoativas, fatores de vulnerabilidade emocional e social, ambientes promotores e nutridores que podem aumentar ou reduzir as chances de transtornos relacionados ao uso, além de sugerir uma compreensão complexa do uso de substâncias que inclua fatores genéticos e biológicos, psicológicos e sociais no uso nocivo e na dependência de substâncias psicoativas (SPAs). TEMA 1 – EPIDEMIOLOGIA E DADOS DEMOGRÁFICOS Veremos neste tema os principais dados sobre transtornos decorrentes do uso de substâncias psicoativas no Brasil e no mundo. Segundo dados do 3° Levantamento do Repositório Institucional da Fiocruz (Arca) (Bastos et al., 2017), 3,2% dos brasileiros usaram substâncias ilícitas no ano de 2016, o que equivale a 4,9 milhões de pessoas. Esse percentual é maior entre os homens: 5% (entre as mulheres fica em 1,5%). E entre os jovens: 7,4% de pessoas entre 18 e 24 anos haviam consumido drogas ilegais no ano anterior à entrevista. Segundo este estudo, a substância ilícita mais consumida no Brasil é a maconha, sendo constatado que 7,7% dos brasileiros de 12 a 65 anos já a usaram pelo menos uma vez na vida. Em seguida vem a cocaína em pó: 3,1% já consumiram a substância. Aproximadamente 1,4 milhão de pessoas entre 12 e 65 anos relatam ter feito uso de crack e similares alguma vez na vida, o que corresponde a 0,9% da população de pesquisa, com um diferencial pronunciado entre homens (1,4%) e mulheres (0,4%), um número bastante elevado se levado em conta o dano que esta droga pode causar. É importante ressaltar que o crack possui o mesmo princípio ativo da cocaína, entretanto, é administrado pela via respiratória (fumaça), aumentando o efeito e dependência, além de ser muito mais tóxico e “impuro”, contando com diversas outras substâncias solventes em sua composição. 3 No ano anterior ao levantamento deste estudo da Fiocruz, o uso do crack foi reportado por 0,3% da população. A pesquisa destaca, porém, que esses resultados devem ser observados com cautela, uma vez que o inquérito domiciliar não é capaz de captar as pessoas que são usuárias e não se encontram regularmente domiciliadas ou estão em situações especiais, como vivendo em abrigos ou em presídios. A computação de pessoas que vivem em ambientes onde a coleta de dados é difícil pode impactar no número de usuários, tendo em vista o caso das “cracolândias” no Brasil. Os números do levantamento em relação ao uso de crack são importantes por revelarem uma discrepância em relação ao dado e a realidade. O percentual do 3º Levantamento é inferior ao que aparece na Pesquisa Nacional do Uso do Crack (Bastos; Bertoni, 2014), já que o levantamento foi domiciliar nesta pesquisa mais atual. Entretanto, como comentado anteriormente, os usuários de crack fazem parte de uma população majoritariamente marginalizada, que vive em situação de rua e/ou em grandes centros de usuários de crack. Sendo assim, os dados corroboram o problema de saúde pública, que é o uso de crack no Brasil. A frequência mais baixa quando levantamos dados domiciliares revela que o consumo dessa substância no país é um fenômeno socioeconômico grave nos espaços públicos. Este grande estudo também levanta dados sobre o abuso de medicamentos sem prescrição. Ou seja, drogas de uso clínico sendo usadas de forma recreativa ou desordenada, causando prejuízos aos usuários e pacientes. Por exemplo, o uso dos analgésicos opioides e de tranquilizantes benzodiazepínicos se apresentaram como as maiores escolhas como drogas de abuso. Os dados apontam que 30 dias antes do fim do estudo os usuários relataram ter consumido de forma não prescrita, ou de modo diferente àquele recomendado pela prescrição médica, sendo 0,6% e 0,4% da população brasileira, respectivamente. Esse é um número que se assemelha a dados obtidos em países norte-americanos, onde o abuso de opioides é grande, principalmente em pacientes com dores crônicas. Com relação às drogas lícitas, o estudo demonstrou uma redução no consumo do tabaco. Entretanto, há um aumento no fumo por vias alternativas como cigarros eletrônicos e narguilés. Cerca de 33% dos brasileiros declarou ter fumado cigarro industrializado pelo menos uma vez na vida. Já nos 30 dias 4 anteriores à pesquisa, foram 13,6%, o que corresponde a 20,8 milhões de pessoas. A substância psicoativa mais consumida continua sendo o álcool. É um grande problema quando nos referimos ao uso de drogas, ainda mais por ser uma droga lícita no Brasil. Mais da metade da população brasileira de 12 a 65 anos declarou ter consumido bebida alcóolica alguma vez na vida. Aproximadamente 46 milhões de brasileiros, o que se aproxima de 30,1%, informaram ter consumido pelo menos uma dose nos 30 dias anteriores à pesquisa. Além disso, aproximadamente 2,3 milhões de pessoas apresentaram critérios para dependência de álcool nos 12 meses anteriores à pesquisa. Um dado alarmante no que se refere a problemas associados ao uso de substâncias, já que sabemos da relação do álcool com diversos outros transtornos. Neste sentido, a relação entre álcool e diferentes formas de violência também foi abordada pelo estudo. Aproximadamente 14% dos homens brasileiros de 12 a 65 anos dirigiram após consumir bebida alcoólica, nos 12 meses anteriores à entrevista. Entre as mulheres houve uma estimativa de 1,8%. A percentagem de pessoas que estiveram envolvidas em acidentes de trânsito enquanto estavam sob o efeito de álcool foi de 0,7%. Cerca de 4,4 milhões de pessoas reportaram ter discutido com alguém sob efeito de álcool nos 12 meses anteriores à entrevista, sendo que destes, 2,9 milhões eram homens e 1,5 milhão, mulheres. A prevalência de ter reportado que “destruiu ou quebrou algo que não era seu” sob efeito de álcool também foi estaticamente significativa e maior entre homens do que entre mulheres (1,1% e 0,3%, respectivamente). Estes dados são extremamente preocupantes e possivelmente a maior preocupação quando o assunto é problemas relacionados ao uso de substância. Em relação à toxicidade e riscos de morte, levantou-se que a percepção do brasileiro quanto às drogas atribui mais risco ao uso do crack do que ao álcool: 44,5% acreditam que crack é a droga associada ao maior número de mortes no país, enquanto apenas 26,7% colocaram o álcool no topo do ranking. Entretanto, dados deste estudo e da Organização Mundial de Saúde atribuem um risco de mortalidade maior ao uso abusivo de álcool, direta ou indiretamente, seja por intoxicação, doenças hepáticas, acidentes de trânsito ou violência doméstica. No Brasil, o álcool e o crack representam grandes desafios à saúde pública. O álcool pela sua ampla penetração na sociedade, e o crack pelo seu efeito deletério rápido e com alta carga de marginalização. Os jovens brasileiros 5 estão consumindo drogas com mais potencial de provocar danos e riscos, como o próprio crack. Além disso, entre jovens há uma tendência ao multiusuário, ou seja, usuários que utilizam diversas drogas ao mesmo tempo. Referente ao abuso de álcool e outras drogas no mundo, a prevalência estimada entre a população adulta era de 18,4% para uso pesado de álcool, 15,2% para o tabagismo diário, e 3,8% para o uso de Cannabis (maconha), 0,77% para anfetamina, 0,37% para opioide e 0,35% para o uso de cocaína. Os países europeus tiveram a maior prevalência de uso de álcool e uso diário de tabaco. A prevalênciade dependência de álcool padronizada por idade foi de 843,2 por 100 mil habitantes; para Cannabis, opioides, anfetaminas e dependência de cocaína foi de 259,3, 220,4, 86,0 e 52,5 por 100 mil habitantes, respectivamente. Regiões de alta renda na América do Norte tiveram uma das maiores taxas de dependência de Cannabis, opioides e cocaína no mundo. Uma ferramenta usada para mensurar o dano causado pelas drogas, aponta que estes foram mais elevados para o tabagismo (170,9 milhões), seguido por álcool (85 milhões) e drogas ilícitas (27,8 milhões). As taxas de mortalidade associadas ao uso de substâncias psicoativas foram mais altas para o tabagismo (110,7 mortes por 100.000 habitantes), seguidas por álcool e drogas ilícitas (33,0 e 6,9 mortes por 100.000 habitantes, respectivamente). As taxas de mortalidade padronizadas por idade associadas aos danos à vida causados pelo álcool e drogas ilícitas eram mais altas na Europa Oriental; as taxas de mortalidade por tabaco padronizadas por idade associadas, assim como seu dano, foram mais altas na Oceania. Ao que parece, o tabagismo no mundo é um problema mais grave que o que observamos aqui no Brasil. Em 2015, o uso de álcool e tabagismo custou à população humana mais de um quarto de bilhão de anos de vida, com as drogas ilícitas custando mais dezenas de milhões. Os europeus sofreram proporcionalmente mais, mas em termos absolutos a taxa de mortalidade foi maior em países de renda baixa e média com grandes populações e onde a qualidade dos dados era mais limitada. É importante ressaltar que métodos mais padronizados e rigorosos para coleta de dados, comparação e relatórios são necessários para avaliar com mais precisão as tendências geográficas e temporais no uso de substâncias e sua carga de doenças. É importante ressaltar também que os fatores sociais, como discutiremos a seguir, são importantes fatores na vulnerabilidade e mortalidade 6 de usuários de substâncias psicoativas. Todos os dados referentes ao consumo mundial de álcool e outras drogas encontram-se em Peacock et al., 2018. TEMA 2 – VULNERABILIDADE EMOCIONAL Indivíduos podem ser mais ou menos propensos a desenvolverem transtornos relacionados às substâncias psicoativas (SPAs). É sabido que transtornos psicológicos emocionais são fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos aditivos (de dependência). Ao que parece, sintomas depressivos ou ansiosos podem promover um ambiente fértil para a fuga da sua condição ou até mesmo dependência de medicamentos controlados como os benzodiazepínicos. Abordaremos os fatores de vulnerabilidade emocional que levam a desordens psicológicas ou dependência às drogas. Iniciaremos abordando a relação entre o estresse e abuso de drogas. É importante ressaltar que o uso de substâncias está intimamente ligado com mecanismos cerebrais emocionais de recompensa e motivação. Neste sentido, o eixo endócrino controlado por vias cerebrais descendentes também faz parte desse controle emocional e participa do controle da motivação (Ruisoto; Contador, 2019). O estresse é uma quebra da homeostase comportamental que leva a alterações cerebrais de longo prazo. Um estímulo estressor provoca alterações neuroquímicas como a liberação de um hormônio chamado fator liberador de corticotrofina (CRF), que altera regiões emocionais importantes no cérebro, aumentando as chances de recaída em casos de abstinência de drogas e que também pode aumentar a sensação de fissura pela droga. Esse mecanismo fornece um componente importante para compreender como a droga pode ser reforçadora e sua abstinência pode provocar efeitos estressores que geram esses efeitos descritos (Ruisoto; Contador, 2019). Dessa forma, podemos entender o estresse como fator primordial no estabelecimento de transtornos aditivos. A genética exerce um papel importante neste mecanismo, já que funciona como uma predisposição à resiliência (resistência ao estresse). É sabido que alguns genes que codificam proteínas relacionadas ao estresse, como receptores corticoides, fazem parte do arsenal antiestresse que o ser humano possui. A resiliência é muito importante tanto na forma como o indivíduo lida com o estresse quanto em como reage frente ao uso, à predisposição ao abuso e dependência de drogas. A genética e epigenética também contribuem para o 7 aparecimento de transtornos psicológicos, que podem ser estressores e permitir que o indivíduo possua problemas com as drogas. É importante ressaltar, também, que o ambiente e o contexto social podem ser grandes estressores, alterando a reação emocional dos indivíduos e possibilitando mais transtornos associados ao uso de SPAs. Esse assunto em específico trataremos no tema a seguir. TEMA 3 – VULNERABILIDADE SOCIAL Ao longo deste tema discutiremos a vulnerabilidade social e como o meio pode influenciar na dependência e transtornos relacionados às SPAs. Como discutimos anteriormente, a vulnerabilidade emocional provocada por transtornos emocionais prévios é importante no aparecimento de transtornos aditivos ou associados ao uso de substâncias. Entretanto, fenômenos emocionais não estão descolados do meio social em humanos. Questões ambientais e sociais podem ser fortes estressores para o indivíduo. Esses estressores levam a alterações emocionais que podem se tornar vulnerabilidades emocionais. Além disso, sabemos que ambientes inócuos podem apresentar um fator importante no surgimento de problemas associados ao uso de substâncias. Como comentado em conteúdos anteriores, animais roedores mantidos em ambientes inócuos apresentavam problemas relacionados a crises de abstinência, mesmo que consumindo a mesma quantidade de etanol que animais em ambientes enriquecidos (Nobre, 2016). Além disso, como mencionado no tema anterior, o estresse é um fator importante que impacta na aquisição de dependência e abuso de drogas. Dentre os estressores sociais podemos citar a pobreza, a criminalidade e guerras às drogas e, por fim, o ambiente infértil e sem acesso a condições básicas de vida. Mas como cada item desse impacta diretamente no abuso de drogas e problemas relacionados ao seu uso? É importante ressaltar que os problemas relacionados ao uso de substância são extremamente amplos e que extrapolam os problemas individuais, podendo gerar questões sociais graves como criminalidade e crises de saúde pública. Nesse sentido abordaremos como as questões sociais geram vulnerabilidade para o uso e abuso de drogas e como os problemas gerados pelo seu uso impactam a sociedade, gerando um mecanismo de retroalimentação. 8 Como comentado em aulas anteriores, a questão do abuso de drogas está atrelada sempre a uma legalidade suposta pelo contexto político vigente. Esse controle legal das drogas por vezes pode gerar complicações no que se refere à disponibilidade de SPAs, qualidade e controle. Nesse quesito, a ausência de controle de qualidade permite a circulação de substâncias mais perigosas e mais tóxicas. Além disso, a compra e venda dessas substâncias estão nas mãos de criminosos, expondo usuários à esta situação. Em um contexto de pobreza o crime organizado faz uso destes mecanismos para dominar uma região e disponibilizar a essa população tais substâncias. Nesse contexto, por exemplo, há o surgimento de drogas como o crack no Brasil ou o krokodil no leste europeu (droga à base de heroína com outros solventes fortes injetáveis com graves reações orgânicas que levam à necrose). Estas substâncias são extremamente baratas e geram outros problemas de vulnerabilidade social mais danosos que o próprio uso da cocaína ou heroína. Populações mais pobres estão sempre à disposição deste tipo de situação. Além disso, situações econômicas desfavoráveis são fatores de vulnerabilidade para o abuso de drogas. Por exemplo, pessoas em crises econômicas tendem a consumirmais substâncias entorpecentes no sentido de fugir, mesmo que momentaneamente, da realidade à qual vivem. Isso pode também aproximar o usuário de situações de risco e dependência ao uso, como o abuso de álcool. Como abordado anteriormente, fatores de pobreza estão atrelados ao nível de mortalidade associado ao uso de substâncias (Peacock et al., 2018). É importante dizer também que estas situações vulneráveis acabam por impactar negativamente os gastos em saúde pública. Sabemos que no mundo e no Brasil gasta-se muito por ano com o tratamento de usuários com problemas associados ao uso de substâncias. É preciso que problemas do uso de substâncias sejam abordados de maneira multifatorial, compreendendo que alterações sociais são extremamente importantes se quisermos alcançar uma melhor eficácia no manejo de situações em que haja problemas relacionados ao uso de substâncias. TEMA 4 – AMBIENTES NUTRIDORES Neste tema aprofundaremos mais nesta questão de modificações sociais no sentido da melhora da qualidade de vida e redução de fatores de 9 vulnerabilidade social e emocional. Abordaremos a questão da promoção de ambientes nutridores. Este conceito como forma de compreender o fenômeno psicossocial no abuso de drogas. Ele foi forjado por Anthony Biglan, psicólogo, a fim de contribuir para uma metodologia integrativa que visa a redução de fatores de vulnerabilidade. O contexto ambiental pode ser promotor de diversos problemas associados ao uso de substâncias e outros transtornos psicológicos. Dessa forma, é importante modificar o ambiente no sentido de prevenir que os comportamentos problemáticos ocorram, já que sua prevalência é alta em ambientes problemáticos. Nesse sentido, Biglan (2015) apresenta um modelo de estímulo de comportamentos pró-sociais, o que significa dizer: a ampliação de comportamentos empáticos por meio de modificações ambientais. A definição do conceito de ambientes nutridores seria o de ambientes eficazes em nutrir o desenvolvimento humano, promovendo relações mais afetuosas e menos coercitivas. O entendimento é de que o ambiente coercitivo promove vulnerabilidades emocionais e sociais e que podem ser promotoras de problemas relacionados às drogas, embora o conceito não se limite a isso. O desenvolvimento desses ambientes seria capaz de produzir pessoas empáticas e produtivas, valorizadas pela sociedade. As intervenções que buscam os ambientes mais nutridores devem possibilitar alguns aspectos como promover e reforçar o comportamento pró-social, minimizar condições tóxicas tanto a nível social como biológico, limitar e monitorar as oportunidades para que pessoas se engajem em comportamentos-problema, e promover a busca flexível, consciente e pragmática de valores pró-sociais. Comportamentos pró-sociais são comportamentos que beneficiam os indivíduos e aqueles ao seu redor. Isso inclui cooperar com os outros auxiliando no seu desenvolvimento. Indivíduos pró-sociais se articulam e cooperam com os demais por meio da gentileza, trabalhando de forma produtiva, melhorando a sua comunidade e dando suporte a familiares, amigos e colegas. As pessoas desenvolvem comportamentos pró-sociais quando vivem em contextos que os reforcem. Quando um ambiente não dispõe de atitudes nutridoras, geralmente isso está associado ao desenvolvimento de padrões de comportamentos danosos a si e aos outros, como autolesão e abuso de drogas. Neste sentido, um ambiente nutridor incluirá ações parentais no desenvolvimento de seus filhos, estimulando a cooperação; ação das escolas no 10 ensino e educação de alunos à cidadania, respeito e cooperação; e comunidades prósperas, com redução de pobrezas e disponibilidade de mobilidade social a partir do reconhecimento individual de seus esforços e comportamentos cooperativos. Em relação às mudanças sociais na comunidade, é necessário o controle de condições tóxicas como a pobreza. A pobreza é um fator de vulnerabilidade social como comentamos anteriormente. Ela impõe problemas de acesso e manutenção da saúde, além da questão do acesso à educação e condições básicas e dignas de vida. As famílias também podem atuar na manutenção de ambientes nutridores. Elas criam ambientes férteis para o desenvolvimento de seus filhos, diminuindo as interações aversivas. As ações de prevenção com famílias podem diminuir o número de jovens que desenvolvem algum tipo de problema psicológico que se inicia no período pré-natal à adolescência (Biglan, 2015). Dessa forma, ao abordarmos o conceito de ambientes nutridores, chamamos a atenção para a implementação de medidas de prevenção no surgimento de transtornos, incluindo os relacionados ao uso de substâncias psicoativas. De acordo com Biglan, as ações necessitam da implementação de políticas públicas baseadas em evidências, com constante avaliação e disseminação generalizada. Essas políticas públicas devem promover o bem- estar humano, redução da pobreza e de desigualdades econômicas e sociais. Além disso, a mídia deve exercer um papel primordial na disseminação dessas ações. Os transtornos relacionados com o uso de drogas possuem um grande impacto social e econômico como discutimos anteriormente. Sendo assim, o delineamento de políticas públicas no sentido da promoção de ambientes nutridores é de extrema importância na prevenção do aparecimento desses problemas, tratamento dos casos e acompanhamento seguro dos usuários de substâncias. Os ambientes nutridores teriam por objetivo reduzir a vulnerabilidade desses usuários em questões como a dependência e outros transtornos psicológicos que surgem com o seu uso. 11 TEMA 5 – COMPREENSÃO BIOPSICOSSOCIAL DO ABUSO DE DROGAS E DEPENDÊNCIA Abordaremos neste tema como fatores biológicos, psicológicos e sociais interagem na manutenção do abuso e dependência de drogas. Entendemos aqui que o uso e abuso de substâncias, assim como os seus transtornos relacionados, fazem parte de um fenômeno multifatorial e, portanto, devem ser entendidos de forma interdisciplinar e integrativa. Como vimos anteriormente, fatores emocionais, sociais e genéticos fazem parte do arcabouço explicativo de situações de vulnerabilidade que predizem transtornos associados ao abuso de drogas. Possuir uma compreensão integrativa e interdisciplinar significa dizer que para entender os transtornos gerados pelas drogas não podemos nos ater a fenômenos estritamente individuais ou sociais, mas compreendê-los contextualmente. Fatores de seleção do comportamento de dependência às drogas dependem da compreensão de que há um mecanismo comportamental de condicionamento operante, no qual o comportamento é reforçado pela substância e seu contexto. Além disso, é importante ressaltar que o comportamento reforçado depende de uma circuitaria neural que foi selecionada pela evolução em que os estímulos reforçados são processados e promovem reações motivadoras a um objetivo, busca da droga e do prazer. Essa circuitaria depende de um conjunto de genes que sintetiza proteínas, que são os receptores dessas regiões e que serão ativados por substâncias exógenas. Não menos importante, discutimos também como fatores sociais podem gerar vulnerabilidade no abuso de drogas, mortalidade e dependência relacionadas a elas. Para além disso, o meio social pode ser extremamente reforçador e se associar ao uso de substâncias. Comportamento sexual, ambientes de interação social como festas e confraternizações, e até mesmo o circuito familiar e religioso, são componentes importantes na previsão do abuso de drogas e os problemas relacionados a elas. Por exemplo, em ambientes de festas eletrônicas é comum observarmos jovens multiusuários mesclando diversas substâncias perigosas por reforço social. Outro exemplo é o uso de psicodélicos em ambientes religiosos, que pode gerar problemas de longo prazo. Ouseja, o ambiente social é promotor, mantenedor e pode gerar vulnerabilidades pelo uso de drogas. 12 NA PRÁTICA Para compreendermos a prevalência do uso de SPAs na prática, abordaremos o uso problemático do crack em jovens pobres no Brasil. Nesse sentido, podemos verificar que há propensões genéticas selecionadas evolutivamente para a dependência desta droga, além de fatores pessoais relacionados ao desenvolvimento e questões sociais. Referente às propensões genéticas da prevalência do uso de crack podemos abordar primeiramente a via de absorção (fumado – vias respiratórias), que permite a rápida absorção e rápido efeito, assim como rápida eliminação do organismo, gera reforço intenso e fugaz, o que estimula a busca e fissura pela droga. Além disso, o sistema de recompensa do indivíduo é selecionado para receber estimulação por vias dopaminérgicas, aumentando o prazer e necessidade de usar a droga. No sentido de propensões individuais levamos em conta questões de aprendizado comportamental e fisiológico ao longo do desenvolvimento. Neste sentido, o esquema de reforço provocado pelo crack permite uma manutenção constante do comportamento. Além disso, o uso constante treina o organismo a responder à exaustão, gerando tolerância, como comentado em aulas anteriores. Também podemos dizer que a vulnerabilidade emocional em populações de risco pode aproximar o indivíduo do uso do crack. Por fim, a tolerância aos efeitos tanto fisiológicos quanto comportamentais induzidos pelo prazer rápido do crack, permitem a dependência da substância. Finalmente, em relação à propensão social, abordaremos uma questão tão complexa quanto mecanismos genéticos, fisiológicos e comportamentais da dependência do crack. A prevalência do crack possui raízes sociais importantes. Por ser uma droga barata, a busca por ela evidencia um problema social grave de pobreza e descaso com a saúde mental. As “cracolândias”, regiões de acúmulo de usuários, permitem verificar que grande parte dos usuários dependentes do crack sofrem de problemas de vulnerabilidade econômica e social. Isso ajuda a formar essas pequenas comunidades de usuários onde o foco é o uso pelo uso, criando uma espiral de uso, venda e consumo. A venda da droga se torna um meio para a manutenção do próprio uso. Nesse sentido, a guerra às drogas toma um protagonismo perigoso, em que um problema de 13 cunho social-econômico e de saúde se torna uma questão de segurança e polícia. FINALIZANDO Nesta aula abordamos os principais dados epidemiológicos dos transtornos decorrentes do uso de substâncias no Brasil e no mundo. Vimos que a substância que mais causa problema em seu uso descontrolado, tanto referente a problemas crônicos quanto agudos são o álcool, seguido do tabaco, apesar de seu número estar reduzindo no mundo. Vimos que o problema com álcool inclui tanto problemas comportamentais como o aumento da violência e agressividade, quanto acidentes de trânsito e dependência. Vimos que os principais efeitos do abuso de drogas na saúde estão atrelados ao surgimento de transtornos emocionais, psicoses, acidentes de trânsito e suicídio. Abordamos dados de vulnerabilidade social e emocional. Vimos que fatores emocionais como comorbidades e transtornos emocionais prévios são fatores de vulnerabilidade para o surgimento de transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas, como dependência, overdoses e suicídios por overdose, além de outros transtornos ou agravamento de transtornos psicológicos. Em relação aos fatores de vulnerabilidade social, abordamos a questão de forma multifatorial e retroalimentada em que fatores sociais promovem o surgimento de vulnerabilidades econômicas e sociais para o abuso de drogas, assim como a promoção de vulnerabilidades emocionais. Além disso, o aumento dos transtornos relacionados ao uso de SPAs contribuem para o agravamento de fatores sociais que geram vulnerabilidade, como o impacto na saúde pública e a relação com a criminalidade. Vimos que, questões políticas relacionadas à guerra às drogas também estão envolvidas no surgimento de vulnerabilidades sociais no uso e abuso de drogas. Discutimos a proposta feita por Anthony Biglan sobre ambientes nutridores como promotores de qualidade de vida. Por fim, discutimos sobre uma perspectiva psicossocial do fenômeno dos transtornos decorrentes de SPAs. Vimos que o abuso de drogas está atrelado a fatores biológicos, comportamentais e sociais e que também pode gerar problemas sociais graves. Neste sentido, devemos observar os efeitos sobre a sociedade e como podemos desenvolver novos tratamentos no combate aos transtornos associados ao uso de SPAs, e como diminuir fatores de 14 vulnerabilidade sociais e emocionais pela redução de estressores sociais, promovendo um ambiente enriquecido e nutrido. Isso significa dizer: lutar por mudanças estruturais que modifiquem questões da pobreza e criminalidade, que impactam no consumo desordenado e problemático das drogas. 15 REFERÊNCIAS BALTAR, J. G. da C.; IGLESIAS, A.; BORLOTI, E. B. 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