Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS 
AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Rafael Alves Cazuza 
 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Nesta aula traremos um panorama geral dos dados epidemiológicos de 
prevalência e incidência do abuso de drogas no Brasil e no mundo. Abordaremos 
o tema de forma a compreender os determinantes emocionais e sociais dos 
transtornos decorrentes do uso de SPAs. 
Para isso, abordaremos temas como a epidemiologia e dados 
demográficos do uso de substâncias psicoativas, fatores de vulnerabilidade 
emocional e social, ambientes promotores e nutridores que podem aumentar ou 
reduzir as chances de transtornos relacionados ao uso, além de sugerir uma 
compreensão complexa do uso de substâncias que inclua fatores genéticos e 
biológicos, psicológicos e sociais no uso nocivo e na dependência de 
substâncias psicoativas (SPAs). 
TEMA 1 – EPIDEMIOLOGIA E DADOS DEMOGRÁFICOS 
Veremos neste tema os principais dados sobre transtornos decorrentes 
do uso de substâncias psicoativas no Brasil e no mundo. Segundo dados do 3° 
Levantamento do Repositório Institucional da Fiocruz (Arca) (Bastos et al., 2017), 
3,2% dos brasileiros usaram substâncias ilícitas no ano de 2016, o que equivale 
a 4,9 milhões de pessoas. Esse percentual é maior entre os homens: 5% (entre 
as mulheres fica em 1,5%). E entre os jovens: 7,4% de pessoas entre 18 e 24 
anos haviam consumido drogas ilegais no ano anterior à entrevista. 
Segundo este estudo, a substância ilícita mais consumida no Brasil é a 
maconha, sendo constatado que 7,7% dos brasileiros de 12 a 65 anos já a 
usaram pelo menos uma vez na vida. Em seguida vem a cocaína em pó: 3,1% 
já consumiram a substância. Aproximadamente 1,4 milhão de pessoas entre 12 
e 65 anos relatam ter feito uso de crack e similares alguma vez na vida, o que 
corresponde a 0,9% da população de pesquisa, com um diferencial pronunciado 
entre homens (1,4%) e mulheres (0,4%), um número bastante elevado se levado 
em conta o dano que esta droga pode causar. É importante ressaltar que o crack 
possui o mesmo princípio ativo da cocaína, entretanto, é administrado pela via 
respiratória (fumaça), aumentando o efeito e dependência, além de ser muito 
mais tóxico e “impuro”, contando com diversas outras substâncias solventes em 
sua composição. 
 
 
3 
No ano anterior ao levantamento deste estudo da Fiocruz, o uso do crack 
foi reportado por 0,3% da população. A pesquisa destaca, porém, que esses 
resultados devem ser observados com cautela, uma vez que o inquérito 
domiciliar não é capaz de captar as pessoas que são usuárias e não se 
encontram regularmente domiciliadas ou estão em situações especiais, como 
vivendo em abrigos ou em presídios. A computação de pessoas que vivem em 
ambientes onde a coleta de dados é difícil pode impactar no número de usuários, 
tendo em vista o caso das “cracolândias” no Brasil. 
Os números do levantamento em relação ao uso de crack são importantes 
por revelarem uma discrepância em relação ao dado e a realidade. O percentual 
do 3º Levantamento é inferior ao que aparece na Pesquisa Nacional do Uso do 
Crack (Bastos; Bertoni, 2014), já que o levantamento foi domiciliar nesta 
pesquisa mais atual. Entretanto, como comentado anteriormente, os usuários de 
crack fazem parte de uma população majoritariamente marginalizada, que vive 
em situação de rua e/ou em grandes centros de usuários de crack. Sendo assim, 
os dados corroboram o problema de saúde pública, que é o uso de crack no 
Brasil. A frequência mais baixa quando levantamos dados domiciliares revela 
que o consumo dessa substância no país é um fenômeno socioeconômico grave 
nos espaços públicos. 
Este grande estudo também levanta dados sobre o abuso de 
medicamentos sem prescrição. Ou seja, drogas de uso clínico sendo usadas de 
forma recreativa ou desordenada, causando prejuízos aos usuários e pacientes. 
Por exemplo, o uso dos analgésicos opioides e de tranquilizantes 
benzodiazepínicos se apresentaram como as maiores escolhas como drogas de 
abuso. Os dados apontam que 30 dias antes do fim do estudo os usuários 
relataram ter consumido de forma não prescrita, ou de modo diferente àquele 
recomendado pela prescrição médica, sendo 0,6% e 0,4% da população 
brasileira, respectivamente. Esse é um número que se assemelha a dados 
obtidos em países norte-americanos, onde o abuso de opioides é grande, 
principalmente em pacientes com dores crônicas. 
Com relação às drogas lícitas, o estudo demonstrou uma redução no 
consumo do tabaco. Entretanto, há um aumento no fumo por vias alternativas 
como cigarros eletrônicos e narguilés. Cerca de 33% dos brasileiros declarou ter 
fumado cigarro industrializado pelo menos uma vez na vida. Já nos 30 dias 
 
 
4 
anteriores à pesquisa, foram 13,6%, o que corresponde a 20,8 milhões de 
pessoas. 
A substância psicoativa mais consumida continua sendo o álcool. É um 
grande problema quando nos referimos ao uso de drogas, ainda mais por ser 
uma droga lícita no Brasil. Mais da metade da população brasileira de 12 a 65 
anos declarou ter consumido bebida alcóolica alguma vez na vida. 
Aproximadamente 46 milhões de brasileiros, o que se aproxima de 30,1%, 
informaram ter consumido pelo menos uma dose nos 30 dias anteriores à 
pesquisa. Além disso, aproximadamente 2,3 milhões de pessoas apresentaram 
critérios para dependência de álcool nos 12 meses anteriores à pesquisa. Um 
dado alarmante no que se refere a problemas associados ao uso de substâncias, 
já que sabemos da relação do álcool com diversos outros transtornos. 
Neste sentido, a relação entre álcool e diferentes formas de violência 
também foi abordada pelo estudo. Aproximadamente 14% dos homens 
brasileiros de 12 a 65 anos dirigiram após consumir bebida alcoólica, nos 12 
meses anteriores à entrevista. Entre as mulheres houve uma estimativa de 1,8%. 
A percentagem de pessoas que estiveram envolvidas em acidentes de trânsito 
enquanto estavam sob o efeito de álcool foi de 0,7%. Cerca de 4,4 milhões de 
pessoas reportaram ter discutido com alguém sob efeito de álcool nos 12 meses 
anteriores à entrevista, sendo que destes, 2,9 milhões eram homens e 1,5 
milhão, mulheres. A prevalência de ter reportado que “destruiu ou quebrou algo 
que não era seu” sob efeito de álcool também foi estaticamente significativa e 
maior entre homens do que entre mulheres (1,1% e 0,3%, respectivamente). 
Estes dados são extremamente preocupantes e possivelmente a maior 
preocupação quando o assunto é problemas relacionados ao uso de substância. 
Em relação à toxicidade e riscos de morte, levantou-se que a percepção 
do brasileiro quanto às drogas atribui mais risco ao uso do crack do que ao álcool: 
44,5% acreditam que crack é a droga associada ao maior número de mortes no 
país, enquanto apenas 26,7% colocaram o álcool no topo do ranking. Entretanto, 
dados deste estudo e da Organização Mundial de Saúde atribuem um risco de 
mortalidade maior ao uso abusivo de álcool, direta ou indiretamente, seja por 
intoxicação, doenças hepáticas, acidentes de trânsito ou violência doméstica. 
No Brasil, o álcool e o crack representam grandes desafios à saúde 
pública. O álcool pela sua ampla penetração na sociedade, e o crack pelo seu 
efeito deletério rápido e com alta carga de marginalização. Os jovens brasileiros 
 
 
5 
estão consumindo drogas com mais potencial de provocar danos e riscos, como 
o próprio crack. Além disso, entre jovens há uma tendência ao multiusuário, ou 
seja, usuários que utilizam diversas drogas ao mesmo tempo. 
Referente ao abuso de álcool e outras drogas no mundo, a prevalência 
estimada entre a população adulta era de 18,4% para uso pesado de álcool, 
15,2% para o tabagismo diário, e 3,8% para o uso de Cannabis (maconha), 
0,77% para anfetamina, 0,37% para opioide e 0,35% para o uso de cocaína. Os 
países europeus tiveram a maior prevalência de uso de álcool e uso diário de 
tabaco. A prevalênciade dependência de álcool padronizada por idade foi de 
843,2 por 100 mil habitantes; para Cannabis, opioides, anfetaminas e 
dependência de cocaína foi de 259,3, 220,4, 86,0 e 52,5 por 100 mil habitantes, 
respectivamente. 
Regiões de alta renda na América do Norte tiveram uma das maiores 
taxas de dependência de Cannabis, opioides e cocaína no mundo. Uma 
ferramenta usada para mensurar o dano causado pelas drogas, aponta que 
estes foram mais elevados para o tabagismo (170,9 milhões), seguido por álcool 
(85 milhões) e drogas ilícitas (27,8 milhões). As taxas de mortalidade associadas 
ao uso de substâncias psicoativas foram mais altas para o tabagismo (110,7 
mortes por 100.000 habitantes), seguidas por álcool e drogas ilícitas (33,0 e 6,9 
mortes por 100.000 habitantes, respectivamente). As taxas de mortalidade 
padronizadas por idade associadas aos danos à vida causados pelo álcool e 
drogas ilícitas eram mais altas na Europa Oriental; as taxas de mortalidade por 
tabaco padronizadas por idade associadas, assim como seu dano, foram mais 
altas na Oceania. Ao que parece, o tabagismo no mundo é um problema mais 
grave que o que observamos aqui no Brasil. 
Em 2015, o uso de álcool e tabagismo custou à população humana mais 
de um quarto de bilhão de anos de vida, com as drogas ilícitas custando mais 
dezenas de milhões. Os europeus sofreram proporcionalmente mais, mas em 
termos absolutos a taxa de mortalidade foi maior em países de renda baixa e 
média com grandes populações e onde a qualidade dos dados era mais limitada. 
É importante ressaltar que métodos mais padronizados e rigorosos para coleta 
de dados, comparação e relatórios são necessários para avaliar com mais 
precisão as tendências geográficas e temporais no uso de substâncias e sua 
carga de doenças. É importante ressaltar também que os fatores sociais, como 
discutiremos a seguir, são importantes fatores na vulnerabilidade e mortalidade 
 
 
6 
de usuários de substâncias psicoativas. Todos os dados referentes ao consumo 
mundial de álcool e outras drogas encontram-se em Peacock et al., 2018. 
TEMA 2 – VULNERABILIDADE EMOCIONAL 
Indivíduos podem ser mais ou menos propensos a desenvolverem 
transtornos relacionados às substâncias psicoativas (SPAs). É sabido que 
transtornos psicológicos emocionais são fatores de risco para o desenvolvimento 
de transtornos aditivos (de dependência). Ao que parece, sintomas depressivos 
ou ansiosos podem promover um ambiente fértil para a fuga da sua condição ou 
até mesmo dependência de medicamentos controlados como os 
benzodiazepínicos. 
Abordaremos os fatores de vulnerabilidade emocional que levam a 
desordens psicológicas ou dependência às drogas. Iniciaremos abordando a 
relação entre o estresse e abuso de drogas. É importante ressaltar que o uso de 
substâncias está intimamente ligado com mecanismos cerebrais emocionais de 
recompensa e motivação. Neste sentido, o eixo endócrino controlado por vias 
cerebrais descendentes também faz parte desse controle emocional e participa 
do controle da motivação (Ruisoto; Contador, 2019). O estresse é uma quebra 
da homeostase comportamental que leva a alterações cerebrais de longo prazo. 
Um estímulo estressor provoca alterações neuroquímicas como a liberação de 
um hormônio chamado fator liberador de corticotrofina (CRF), que altera regiões 
emocionais importantes no cérebro, aumentando as chances de recaída em 
casos de abstinência de drogas e que também pode aumentar a sensação de 
fissura pela droga. Esse mecanismo fornece um componente importante para 
compreender como a droga pode ser reforçadora e sua abstinência pode 
provocar efeitos estressores que geram esses efeitos descritos (Ruisoto; 
Contador, 2019). Dessa forma, podemos entender o estresse como fator 
primordial no estabelecimento de transtornos aditivos. 
A genética exerce um papel importante neste mecanismo, já que funciona 
como uma predisposição à resiliência (resistência ao estresse). É sabido que 
alguns genes que codificam proteínas relacionadas ao estresse, como 
receptores corticoides, fazem parte do arsenal antiestresse que o ser humano 
possui. A resiliência é muito importante tanto na forma como o indivíduo lida com 
o estresse quanto em como reage frente ao uso, à predisposição ao abuso e 
dependência de drogas. A genética e epigenética também contribuem para o 
 
 
7 
aparecimento de transtornos psicológicos, que podem ser estressores e permitir 
que o indivíduo possua problemas com as drogas. É importante ressaltar, 
também, que o ambiente e o contexto social podem ser grandes estressores, 
alterando a reação emocional dos indivíduos e possibilitando mais transtornos 
associados ao uso de SPAs. Esse assunto em específico trataremos no tema a 
seguir. 
TEMA 3 – VULNERABILIDADE SOCIAL 
Ao longo deste tema discutiremos a vulnerabilidade social e como o meio 
pode influenciar na dependência e transtornos relacionados às SPAs. Como 
discutimos anteriormente, a vulnerabilidade emocional provocada por 
transtornos emocionais prévios é importante no aparecimento de transtornos 
aditivos ou associados ao uso de substâncias. Entretanto, fenômenos 
emocionais não estão descolados do meio social em humanos. 
Questões ambientais e sociais podem ser fortes estressores para o 
indivíduo. Esses estressores levam a alterações emocionais que podem se 
tornar vulnerabilidades emocionais. Além disso, sabemos que ambientes 
inócuos podem apresentar um fator importante no surgimento de problemas 
associados ao uso de substâncias. Como comentado em conteúdos anteriores, 
animais roedores mantidos em ambientes inócuos apresentavam problemas 
relacionados a crises de abstinência, mesmo que consumindo a mesma 
quantidade de etanol que animais em ambientes enriquecidos (Nobre, 2016). 
Além disso, como mencionado no tema anterior, o estresse é um fator importante 
que impacta na aquisição de dependência e abuso de drogas. 
Dentre os estressores sociais podemos citar a pobreza, a criminalidade e 
guerras às drogas e, por fim, o ambiente infértil e sem acesso a condições 
básicas de vida. Mas como cada item desse impacta diretamente no abuso de 
drogas e problemas relacionados ao seu uso? É importante ressaltar que os 
problemas relacionados ao uso de substância são extremamente amplos e que 
extrapolam os problemas individuais, podendo gerar questões sociais graves 
como criminalidade e crises de saúde pública. Nesse sentido abordaremos como 
as questões sociais geram vulnerabilidade para o uso e abuso de drogas e como 
os problemas gerados pelo seu uso impactam a sociedade, gerando um 
mecanismo de retroalimentação. 
 
 
8 
Como comentado em aulas anteriores, a questão do abuso de drogas está 
atrelada sempre a uma legalidade suposta pelo contexto político vigente. Esse 
controle legal das drogas por vezes pode gerar complicações no que se refere à 
disponibilidade de SPAs, qualidade e controle. Nesse quesito, a ausência de 
controle de qualidade permite a circulação de substâncias mais perigosas e mais 
tóxicas. Além disso, a compra e venda dessas substâncias estão nas mãos de 
criminosos, expondo usuários à esta situação. Em um contexto de pobreza o 
crime organizado faz uso destes mecanismos para dominar uma região e 
disponibilizar a essa população tais substâncias. Nesse contexto, por exemplo, 
há o surgimento de drogas como o crack no Brasil ou o krokodil no leste europeu 
(droga à base de heroína com outros solventes fortes injetáveis com graves 
reações orgânicas que levam à necrose). Estas substâncias são extremamente 
baratas e geram outros problemas de vulnerabilidade social mais danosos que 
o próprio uso da cocaína ou heroína. 
Populações mais pobres estão sempre à disposição deste tipo de 
situação. Além disso, situações econômicas desfavoráveis são fatores de 
vulnerabilidade para o abuso de drogas. Por exemplo, pessoas em crises 
econômicas tendem a consumirmais substâncias entorpecentes no sentido de 
fugir, mesmo que momentaneamente, da realidade à qual vivem. Isso pode 
também aproximar o usuário de situações de risco e dependência ao uso, como 
o abuso de álcool. Como abordado anteriormente, fatores de pobreza estão 
atrelados ao nível de mortalidade associado ao uso de substâncias (Peacock et 
al., 2018). 
 É importante dizer também que estas situações vulneráveis acabam por 
impactar negativamente os gastos em saúde pública. Sabemos que no mundo e 
no Brasil gasta-se muito por ano com o tratamento de usuários com problemas 
associados ao uso de substâncias. É preciso que problemas do uso de 
substâncias sejam abordados de maneira multifatorial, compreendendo que 
alterações sociais são extremamente importantes se quisermos alcançar uma 
melhor eficácia no manejo de situações em que haja problemas relacionados ao 
uso de substâncias. 
TEMA 4 – AMBIENTES NUTRIDORES 
Neste tema aprofundaremos mais nesta questão de modificações sociais 
no sentido da melhora da qualidade de vida e redução de fatores de 
 
 
9 
vulnerabilidade social e emocional. Abordaremos a questão da promoção de 
ambientes nutridores. Este conceito como forma de compreender o fenômeno 
psicossocial no abuso de drogas. Ele foi forjado por Anthony Biglan, psicólogo, 
a fim de contribuir para uma metodologia integrativa que visa a redução de 
fatores de vulnerabilidade. 
O contexto ambiental pode ser promotor de diversos problemas 
associados ao uso de substâncias e outros transtornos psicológicos. Dessa 
forma, é importante modificar o ambiente no sentido de prevenir que os 
comportamentos problemáticos ocorram, já que sua prevalência é alta em 
ambientes problemáticos. Nesse sentido, Biglan (2015) apresenta um modelo de 
estímulo de comportamentos pró-sociais, o que significa dizer: a ampliação de 
comportamentos empáticos por meio de modificações ambientais. 
 A definição do conceito de ambientes nutridores seria o de ambientes 
eficazes em nutrir o desenvolvimento humano, promovendo relações mais 
afetuosas e menos coercitivas. O entendimento é de que o ambiente coercitivo 
promove vulnerabilidades emocionais e sociais e que podem ser promotoras de 
problemas relacionados às drogas, embora o conceito não se limite a isso. 
O desenvolvimento desses ambientes seria capaz de produzir pessoas 
empáticas e produtivas, valorizadas pela sociedade. As intervenções que 
buscam os ambientes mais nutridores devem possibilitar alguns aspectos como 
promover e reforçar o comportamento pró-social, minimizar condições tóxicas 
tanto a nível social como biológico, limitar e monitorar as oportunidades para que 
pessoas se engajem em comportamentos-problema, e promover a busca 
flexível, consciente e pragmática de valores pró-sociais. 
 Comportamentos pró-sociais são comportamentos que beneficiam os 
indivíduos e aqueles ao seu redor. Isso inclui cooperar com os outros auxiliando 
no seu desenvolvimento. Indivíduos pró-sociais se articulam e cooperam com os 
demais por meio da gentileza, trabalhando de forma produtiva, melhorando a sua 
comunidade e dando suporte a familiares, amigos e colegas. 
As pessoas desenvolvem comportamentos pró-sociais quando vivem em 
contextos que os reforcem. Quando um ambiente não dispõe de atitudes 
nutridoras, geralmente isso está associado ao desenvolvimento de padrões de 
comportamentos danosos a si e aos outros, como autolesão e abuso de drogas. 
Neste sentido, um ambiente nutridor incluirá ações parentais no 
desenvolvimento de seus filhos, estimulando a cooperação; ação das escolas no 
 
 
10 
ensino e educação de alunos à cidadania, respeito e cooperação; e comunidades 
prósperas, com redução de pobrezas e disponibilidade de mobilidade social a 
partir do reconhecimento individual de seus esforços e comportamentos 
cooperativos. 
Em relação às mudanças sociais na comunidade, é necessário o controle 
de condições tóxicas como a pobreza. A pobreza é um fator de vulnerabilidade 
social como comentamos anteriormente. Ela impõe problemas de acesso e 
manutenção da saúde, além da questão do acesso à educação e condições 
básicas e dignas de vida. 
 As famílias também podem atuar na manutenção de ambientes 
nutridores. Elas criam ambientes férteis para o desenvolvimento de seus filhos, 
diminuindo as interações aversivas. As ações de prevenção com famílias podem 
diminuir o número de jovens que desenvolvem algum tipo de problema 
psicológico que se inicia no período pré-natal à adolescência (Biglan, 2015). 
Dessa forma, ao abordarmos o conceito de ambientes nutridores, 
chamamos a atenção para a implementação de medidas de prevenção no 
surgimento de transtornos, incluindo os relacionados ao uso de substâncias 
psicoativas. De acordo com Biglan, as ações necessitam da implementação de 
políticas públicas baseadas em evidências, com constante avaliação e 
disseminação generalizada. Essas políticas públicas devem promover o bem-
estar humano, redução da pobreza e de desigualdades econômicas e sociais. 
Além disso, a mídia deve exercer um papel primordial na disseminação dessas 
ações. 
Os transtornos relacionados com o uso de drogas possuem um grande 
impacto social e econômico como discutimos anteriormente. Sendo assim, o 
delineamento de políticas públicas no sentido da promoção de ambientes 
nutridores é de extrema importância na prevenção do aparecimento desses 
problemas, tratamento dos casos e acompanhamento seguro dos usuários de 
substâncias. Os ambientes nutridores teriam por objetivo reduzir a 
vulnerabilidade desses usuários em questões como a dependência e outros 
transtornos psicológicos que surgem com o seu uso. 
 
 
 
11 
TEMA 5 – COMPREENSÃO BIOPSICOSSOCIAL DO ABUSO DE DROGAS E 
DEPENDÊNCIA 
Abordaremos neste tema como fatores biológicos, psicológicos e sociais 
interagem na manutenção do abuso e dependência de drogas. Entendemos aqui 
que o uso e abuso de substâncias, assim como os seus transtornos 
relacionados, fazem parte de um fenômeno multifatorial e, portanto, devem ser 
entendidos de forma interdisciplinar e integrativa. Como vimos anteriormente, 
fatores emocionais, sociais e genéticos fazem parte do arcabouço explicativo de 
situações de vulnerabilidade que predizem transtornos associados ao abuso de 
drogas. 
Possuir uma compreensão integrativa e interdisciplinar significa dizer que 
para entender os transtornos gerados pelas drogas não podemos nos ater a 
fenômenos estritamente individuais ou sociais, mas compreendê-los 
contextualmente. Fatores de seleção do comportamento de dependência às 
drogas dependem da compreensão de que há um mecanismo comportamental 
de condicionamento operante, no qual o comportamento é reforçado pela 
substância e seu contexto. Além disso, é importante ressaltar que o 
comportamento reforçado depende de uma circuitaria neural que foi selecionada 
pela evolução em que os estímulos reforçados são processados e promovem 
reações motivadoras a um objetivo, busca da droga e do prazer. Essa circuitaria 
depende de um conjunto de genes que sintetiza proteínas, que são os receptores 
dessas regiões e que serão ativados por substâncias exógenas. 
Não menos importante, discutimos também como fatores sociais podem 
gerar vulnerabilidade no abuso de drogas, mortalidade e dependência 
relacionadas a elas. Para além disso, o meio social pode ser extremamente 
reforçador e se associar ao uso de substâncias. Comportamento sexual, 
ambientes de interação social como festas e confraternizações, e até mesmo o 
circuito familiar e religioso, são componentes importantes na previsão do abuso 
de drogas e os problemas relacionados a elas. Por exemplo, em ambientes de 
festas eletrônicas é comum observarmos jovens multiusuários mesclando 
diversas substâncias perigosas por reforço social. Outro exemplo é o uso de 
psicodélicos em ambientes religiosos, que pode gerar problemas de longo prazo. 
Ouseja, o ambiente social é promotor, mantenedor e pode gerar 
vulnerabilidades pelo uso de drogas. 
 
 
12 
NA PRÁTICA 
Para compreendermos a prevalência do uso de SPAs na prática, 
abordaremos o uso problemático do crack em jovens pobres no Brasil. Nesse 
sentido, podemos verificar que há propensões genéticas selecionadas 
evolutivamente para a dependência desta droga, além de fatores pessoais 
relacionados ao desenvolvimento e questões sociais. 
Referente às propensões genéticas da prevalência do uso de crack 
podemos abordar primeiramente a via de absorção (fumado – vias respiratórias), 
que permite a rápida absorção e rápido efeito, assim como rápida eliminação do 
organismo, gera reforço intenso e fugaz, o que estimula a busca e fissura pela 
droga. Além disso, o sistema de recompensa do indivíduo é selecionado para 
receber estimulação por vias dopaminérgicas, aumentando o prazer e 
necessidade de usar a droga. 
No sentido de propensões individuais levamos em conta questões de 
aprendizado comportamental e fisiológico ao longo do desenvolvimento. Neste 
sentido, o esquema de reforço provocado pelo crack permite uma manutenção 
constante do comportamento. Além disso, o uso constante treina o organismo a 
responder à exaustão, gerando tolerância, como comentado em aulas 
anteriores. Também podemos dizer que a vulnerabilidade emocional em 
populações de risco pode aproximar o indivíduo do uso do crack. Por fim, a 
tolerância aos efeitos tanto fisiológicos quanto comportamentais induzidos pelo 
prazer rápido do crack, permitem a dependência da substância. 
Finalmente, em relação à propensão social, abordaremos uma questão 
tão complexa quanto mecanismos genéticos, fisiológicos e comportamentais da 
dependência do crack. A prevalência do crack possui raízes sociais importantes. 
Por ser uma droga barata, a busca por ela evidencia um problema social grave 
de pobreza e descaso com a saúde mental. As “cracolândias”, regiões de 
acúmulo de usuários, permitem verificar que grande parte dos usuários 
dependentes do crack sofrem de problemas de vulnerabilidade econômica e 
social. Isso ajuda a formar essas pequenas comunidades de usuários onde o 
foco é o uso pelo uso, criando uma espiral de uso, venda e consumo. A venda 
da droga se torna um meio para a manutenção do próprio uso. Nesse sentido, a 
guerra às drogas toma um protagonismo perigoso, em que um problema de 
 
 
13 
cunho social-econômico e de saúde se torna uma questão de segurança e 
polícia. 
FINALIZANDO 
Nesta aula abordamos os principais dados epidemiológicos dos 
transtornos decorrentes do uso de substâncias no Brasil e no mundo. Vimos que 
a substância que mais causa problema em seu uso descontrolado, tanto 
referente a problemas crônicos quanto agudos são o álcool, seguido do tabaco, 
apesar de seu número estar reduzindo no mundo. Vimos que o problema com 
álcool inclui tanto problemas comportamentais como o aumento da violência e 
agressividade, quanto acidentes de trânsito e dependência. Vimos que os 
principais efeitos do abuso de drogas na saúde estão atrelados ao surgimento 
de transtornos emocionais, psicoses, acidentes de trânsito e suicídio. 
Abordamos dados de vulnerabilidade social e emocional. Vimos que 
fatores emocionais como comorbidades e transtornos emocionais prévios são 
fatores de vulnerabilidade para o surgimento de transtornos relacionados ao uso 
de substâncias psicoativas, como dependência, overdoses e suicídios por 
overdose, além de outros transtornos ou agravamento de transtornos 
psicológicos. Em relação aos fatores de vulnerabilidade social, abordamos a 
questão de forma multifatorial e retroalimentada em que fatores sociais 
promovem o surgimento de vulnerabilidades econômicas e sociais para o abuso 
de drogas, assim como a promoção de vulnerabilidades emocionais. Além disso, 
o aumento dos transtornos relacionados ao uso de SPAs contribuem para o 
agravamento de fatores sociais que geram vulnerabilidade, como o impacto na 
saúde pública e a relação com a criminalidade. Vimos que, questões políticas 
relacionadas à guerra às drogas também estão envolvidas no surgimento de 
vulnerabilidades sociais no uso e abuso de drogas. Discutimos a proposta feita 
por Anthony Biglan sobre ambientes nutridores como promotores de qualidade 
de vida. 
Por fim, discutimos sobre uma perspectiva psicossocial do fenômeno dos 
transtornos decorrentes de SPAs. Vimos que o abuso de drogas está atrelado a 
fatores biológicos, comportamentais e sociais e que também pode gerar 
problemas sociais graves. Neste sentido, devemos observar os efeitos sobre a 
sociedade e como podemos desenvolver novos tratamentos no combate aos 
transtornos associados ao uso de SPAs, e como diminuir fatores de 
 
 
14 
vulnerabilidade sociais e emocionais pela redução de estressores sociais, 
promovendo um ambiente enriquecido e nutrido. Isso significa dizer: lutar por 
mudanças estruturais que modifiquem questões da pobreza e criminalidade, que 
impactam no consumo desordenado e problemático das drogas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
BALTAR, J. G. da C.; IGLESIAS, A.; BORLOTI, E. B. Comorbidade entre uso de 
álcool e outras drogas, transtornos psiquiátricos e comportamento suicida: uma 
revisão. Revista Psicologia e Saúde, v. 12, n. 2, abr./jun. 2020. 
BASTOS, F. I. P. M. et al. (Org.). III Levantamento nacional sobre o uso de 
drogas pela população brasileira. Rio de Janeiro: Fiocruz/ICICT, 2017. 528 p. 
BASTOS F. I.; BERTONI N. Pesquisa nacional sobre uso de crack: quem são 
os usuários de crack e/ou similares no Brasil? Quantos são nas capitais 
brasileiras? Rio de Janeiro: Fiocruz/ICICT, 2014. 224 p. 
BIGLAN, A. The nurture effect: how the science of human behavior can improve 
our lives and our world. Oakland, Califórnia: New Harbinger Publications, 2015. 
CARNEIRO, H. Drogas: a história do proibicionismo. São Paulo: Autonomia 
Literária, 2018. 
GRIGG, D. The worlds of tea and coffee: patterns of consumption. GeoJournal, 
v. 57, n. 4, p. 283-294, 2002. 
HICKMAN, M. et al. Competing global statistics on prevalence of injecting drug 
use–why does it matter and what can be done? Addiction (Abingdon, England), 
v. 113, n. 10, p. 1768, 2018. 
MORTENSEN, J. T. et al. Socioeconomic correlates of drug use based on 
prescription data. Dan Med Bull, v. 54, p. 62-6, 2007. 
NOBRE, M. J. Environmental enrichment may protect against neural and 
behavioural damage caused by withdrawal from chronic alcohol intake. 
International Journal of Developmental Neuroscience, v. 55, p. 15-27, 2016. 
OLEKALNS, N.; BARDSLEY, P. Rational addiction to caffeine: an analysis of 
coffee consumption. Journal of Political Economy, v. 104, n. 5, p. 1100-1104, 
1996. 
PEACOCK, A. et al. Global statistics on alcohol, tobacco and illicit drug use: 2017 
status report. Addiction, v. 113, n. 10, p. 1905-1926, 2018. 
REHM, J.; TAYLOR, B.; ROOM, R. Global burden of disease from alcohol, illicit 
drugs and tobacco. Drug and alcohol review, v. 25, n. 6, p. 503-513, 2006. 
 
 
16 
RODRIGUES, L. B. F. Controle penal sobre as drogas ilícitas: o impacto do 
proibicionismo no sistema penal e na sociedade. Programa de Pós-Graduação 
em Direito, Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006. 
RUISOTO, P.; CONTADOR, I. The role of stress in drug addiction. An integrative 
review. Physiology & Behavior, v. 202, p. 62-68, 2019. 
SANTOS, J. A. T.; DE OLIVEIRA, M. L. F. Políticas públicas sobre álcool e outras 
drogas: breve resgate histórico. Saúde & Transformação Social/Health & 
Social Change, v. 4, n. 1, p. 82-89, 2013. 
SOARES, M. K. et al. Proibicionismo e poder regulatório: uma pesquisa 
documental sobre o processo administrativo de classificação das drogas. 
Cadernos Ibero-americanos de Direito Sanitário, v. 5, n. 3, p. 135-156, 2016.

Mais conteúdos dessa disciplina