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REVISÃO COMPLETA: NOÇÕES
DE DIREITO PENAL PARA
AGENTE DE POLÍCIA CIVIL -
PCSC
Material didático preparado especificamente para o concurso de Agente de Polícia
Civil de Santa Catarina (PCSC). Este conteúdo aborda todos os tópicos relevantes de
Direito Penal cobrados no edital, com explicações objetivas, exemplos práticos e
destaques importantes para sua aprovação.
Agenda do Material
Aplicação da Lei Penal
Princípios fundamentais, lei penal no tempo e no espaço, teorias de aplicação
Teoria do Crime
Fato típico, ilicitude, culpabilidade e seus elementos constitutivos
Concurso de Pessoas e Crimes
Coautoria, participação, consumação e tentativa
Crimes em Espécie
Crimes contra a pessoa, patrimônio e administração pública
Penalidades e Extinção da Punibilidade
Tipos de penas, regimes de cumprimento e causas extintivas
Princípios Fundamentais do Direito Penal
Os princípios do Direito Penal funcionam como garantias ao cidadão contra o poder punitivo do Estado,
estabelecendo limites à intervenção estatal nas liberdades individuais.
Princípio da Legalidade
Nullum crimen, nulla poena sine lege: Não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem
prévia cominação legal (art. 5º, XXXIX, CF e art. 1º do CP).
Princípio da Anterioridade
A lei penal deve ser anterior ao fato que se pretende punir, vedando-se a criação retroativa de
crimes.
Princípio da Intervenção Mínima
O Direito Penal deve ser a ultima ratio, intervindo apenas quando outros ramos do direito não
forem suficientes.
Irretroatividade da Lei Penal
Regra: Irretroatividade
A lei penal não retroage, aplicando-se apenas aos fatos ocorridos após
sua vigência (art. 5º, XL, CF).
Exceção: Retroatividade Benéfica
A lei penal retroagirá quando:
Deixar de considerar o fato como criminoso (abolitio criminis)
De qualquer modo favorecer o réu (novatio legis in mellius)
Base legal: Art. 5º, XL, CF e Art. 2º, parágrafo único, CP.
Conflito de Leis Penais no Tempo
Lei mais severa (lex gravior)
Não retroage, aplica-se somente aos fatos
praticados após sua vigência.
Exemplo: Lei que cria novo crime ou aumenta
pena.
Lei mais benéfica (lex mitior)
Retroage para beneficiar o réu, mesmo após
trânsito em julgado.
Exemplo: Lei que reduz pena ou
descriminaliza conduta.
Combinação de leis (lex tertia)
Posição majoritária: não é possível combinar
partes benéficas de leis diferentes.
STF: veda a combinação de leis, aplicando-se
integralmente a mais benéfica.
Lei Penal no Tempo: Conceitos
Importantes
Vigência
Período durante o qual a lei produz seus efeitos jurídicos, desde sua entrada
em vigor até sua revogação.
Ab-rogação
Revogação total da lei por outra posterior. Exemplo: O Código Penal de 1940 ab-
rogou o Código Penal de 1890.
Ultra-atividade
Fenômeno pelo qual uma lei revogada continua a regular fatos ocorridos
durante sua vigência, quando mais benéfica ao réu.
Lei Excepcional e Lei Temporária
Lei Excepcional
Editada em situações anormais, como
calamidade pública ou estado de
defesa.
Exemplo: Lei criada durante pandemia
que aumenta penas para crimes contra
a saúde pública.
Lei Temporária
Possui período de vigência
predeterminado em seu próprio texto.
Exemplo: Lei que vigorará por 90 dias
para combater determinada situação.
Característica comum: Ultra-atividade (Art. 3º CP)
Ambas são sempre ultrativas, ou seja, mesmo após cessarem sua vigência,
continuam aplicáveis aos fatos praticados durante sua vigência, independentemente
de serem mais ou menos benéficas.
Lei Penal no Espaço
Princípio da Territorialidade
Regra geral: a lei brasileira aplica-se aos crimes cometidos no
território nacional (Art. 5º, caput, CP).
Território nacional inclui: solo, mar territorial, espaço aéreo,
embarcações e aeronaves brasileiras (públicas) onde quer que
estejam.
Princípio da Extraterritorialidade
Exceção: a lei brasileira pode ser aplicada a crimes cometidos fora do
território nacional nas hipóteses previstas no Art. 7º do CP.
Pode ser incondicionada (Art. 7º, I) ou condicionada (Art. 7º, II).
Extraterritorialidade da Lei Penal
Extraterritorialidade Incondicionada (Art. 7º, I, CP)
Crimes contra a vida/liberdade do Presidente da República
Crimes contra o patrimônio/fé pública da União
Crimes contra a administração pública por funcionário
Genocídio por brasileiro ou residente no Brasil
Extraterritorialidade Condicionada (Art. 7º, II, CP)
Condições (cumulativas):
Entrar o agente no território nacional
Ser o fato punível também no país onde foi praticado
Estar o crime na lista do Art. 7º, II
Não ter o agente sido absolvido ou punido no estrangeiro
Tempo e Lugar do Crime
Tempo do Crime
Adota-se a Teoria da Atividade (Art. 4º CP)
"Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão,
ainda que outro seja o momento do resultado."
Importante para determinar:
Lei aplicável
Imputabilidade do agente
Prescrição
Lugar do Crime
Adota-se a Teoria da Ubiquidade (Art. 6º CP)
"Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou
omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria
produzir-se o resultado."
Finalidade: ampliar a aplicação da lei penal brasileira, evitando
impunidade em crimes à distância.
Conceito de Crime
O Código Penal brasileiro não traz um conceito explícito de crime. A doutrina desenvolveu diferentes teorias para sua definição:
Conceito Formal
Crime é toda conduta proibida por lei e sancionada com pena criminal.
Conceito Material
Crime é toda ação ou omissão que lesa ou expõe a perigo bens jurídicos relevantes protegidos
pela lei penal.
Conceito Analítico (Tripartido)
Crime é todo fato típico, ilícito e culpável.
Teoria Tripartida do Crime
1
Culpabilidade
Reprovação da conduta
2
Ilicitude
Contrariedade ao direito
3
Fato Típico
Adequação ao modelo legal
A teoria tripartida, adotada majoritariamente pela doutrina brasileira, entende que o
crime é composto por três elementos essenciais: fato típico, ilicitude e culpabilidade.
A ausência de qualquer um desses elementos descaracteriza o crime.
Nas próximas slides, analisaremos cada um desses elementos detalhadamente.
Fato Típico: Definição e Elementos
O fato típico é o primeiro elemento do crime e consiste na adequação da conduta praticada pelo agente ao modelo abstrato previsto na lei penal (tipo
legal).
Conduta
Comportamento humano voluntário, que
pode ser:
Ação (comportamento positivo)
Omissão (não fazer o que devia)
Nexo Causal
Relação de causa e efeito entre a conduta e
o resultado.
Teoria adotada: equivalência dos
antecedentes causais (Art. 13, CP).
Resultado
Modificação no mundo exterior provocada
pela conduta. Pode ser:
Naturalístico (nos crimes materiais)
Normativo/jurídico (em todos os crimes)
Tipicidade
Adequação da conduta ao tipo penal, que
pode ser:
Formal: mero enquadramento da conduta
Material: efetiva lesão/perigo ao bem
jurídico
Conduta: Teorias e Elementos
Teorias da Conduta
Teoria Causal/Naturalista
Conduta é movimento corpóreo voluntário que causa
modificação no mundo exterior.
Teoria Finalista
Conduta é comportamento humano voluntário dirigido a uma
finalidade. Dolo e culpa são elementos da conduta.
Teoria Social
Conduta é comportamento socialmente relevante, controlável
pela vontade humana.
Ausência de Conduta
Não há fato típico quando há ausência de conduta. Situações:
Atos reflexos (espirros, convulsões)
Força física irresistível (externa ao agente)
Estados de inconsciência absoluta
Movimentos durante o sono
Coação física irresistível (vis absoluta)
Nexo Causal
O nexo causal é a relação de causa e efeito entre a conduta e o resultado. É elemento
fundamental para a responsabilização do agente nos crimes materiais.
Teoria da Equivalência dos Antecedentes (Art. 13, CP)
Também chamada de conditio sine qua non, considera causa toda condição sem a
qual o resultado não teria ocorrido. Todas as causas têm valor equivalente para a
produção do resultado.
Método de verificação
Realiza-se o processo de eliminaçãohipotética: se, suprimida mentalmente a
conduta, o resultado desaparece, há nexo causal.
Limitação
A exigência de tipicidade e de dolo ou culpa restringe o alcance dessa teoria, evitando
o regresso ao infinito.
Causas Interruptivas do Nexo Causal
Causa Absolutamente
Independente
Rompe totalmente o nexo causal com a
conduta anterior, quando por si só produz o
resultado.
Pode ser preexistente, concomitante ou
superveniente.
Causa Relativamente
Independente
Não rompe o nexo causal, mantendo a
relação de causalidade com a conduta
anterior.
O agente responde normalmente pelo
resultado.
Causa Superveniente
Relativamente Independente
Rompe o nexo apenas quando, por si só,
produz o resultado (Art. 13, § 1º, CP).
Neste caso, o agente responde apenas pelos
atos já praticados.
Resultado
Conceito
O resultado é a modificação no mundo
exterior provocada pela conduta do
agente. No Direito Penal, pode ser
entendido sob duas perspectivas:
Resultado Naturalístico
Modificação física no mundo exterior,
perceptível pelos sentidos (ex: morte,
lesão).
Presente apenas nos crimes materiais.
Resultado Jurídico ou
Normativo
Lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico
tutelado pela norma penal.
Presente em todos os crimes.
Classificação dos Crimes
quanto ao Resultado
Crimes Materiais
Exigem a produção do resultado
naturalístico para a consumação
(ex: homicídio).
Crimes Formais
A consumação ocorre com a
prática da conduta,
independentemente do
resultado (ex: extorsão).
Crimes de Mera Conduta
Não exigem nem permitem
resultado naturalístico (ex: porte
ilegal de arma).
Tipicidade: Conceito e Tipos
Conceito
A tipicidade é a adequação da conduta praticada pelo agente ao
modelo abstrato previsto na lei penal (tipo legal).
Tipicidade Formal
Mera adequação da conduta à descrição do tipo penal, sem
análise valorativa.
Tipicidade Material
Além da adequação formal, exige efetiva lesão ou perigo
concreto ao bem jurídico protegido.
Causas de Exclusão da Tipicidade Material
Princípio da Insignificância: Conduta causa lesão mínima,
inexpressiva ao bem jurídico
Princípio da Adequação Social: Conduta socialmente aceita e
tolerada
Requisitos para aplicação do Princípio da
Insignificância (STF)
Mínima ofensividade da conduta
Ausência de periculosidade social da ação
Reduzido grau de reprovabilidade
Inexpressividade da lesão jurídica
Ilicitude ou Antijuridicidade
A ilicitude é a relação de contrariedade entre a conduta praticada e o ordenamento
jurídico como um todo. É o segundo elemento do crime na teoria tripartida.
Conceito
É a contrariedade da conduta à ordem jurídica. Uma conduta típica será ilícita quando
não estiver acobertada por nenhuma causa de justificação (excludente de ilicitude).
Características
Unitária: O que é ilícito para um ramo do direito é ilícito para todos
Objetiva: Não depende de elementos subjetivos do agente
Normativa: Estabelecida por uma valoração jurídica negativa
Excludentes de Ilicitude
São circunstâncias que, quando presentes, tornam lícita uma conduta típica. Estão previstas no art. 23 do Código Penal:
Estado de Necessidade
Sacrifício de um bem jurídico para salvar
outro em situação de perigo atual não
provocado pelo agente (Art. 24, CP).
Exemplo: Quebrar janela de casa em chamas
para salvar pessoa.
Legítima Defesa
Reação proporcional a agressão injusta,
atual ou iminente (Art. 25, CP).
Exemplo: Ferir assaltante que ameaça com
arma.
Estrito Cumprimento do Dever
Legal
Conduta de funcionário público que atua no
cumprimento de obrigação imposta por lei.
Exemplo: Policial que prende alguém em
flagrante.
Exercício Regular de Direito
Prática de conduta autorizada pelo
ordenamento jurídico.
Exemplo: Médico que realiza cirurgia com
consentimento.
Estado de Necessidade
Conceito (Art. 24, CP)
"Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para
salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de
outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas
circunstâncias, não era razoável exigir-se."
Requisitos
Perigo atual
Perigo não provocado voluntariamente
Inevitabilidade do comportamento lesivo
Inexigibilidade de sacrifício do bem ameaçado
Conhecimento da situação justificante
Tipos de Estado de Necessidade
Justificante (Art. 24, §1º)
Quando o bem protegido é de valor superior ao sacrificado.
Exclui o crime.
Exculpante (Art. 24, §2º)
Quando o bem protegido é de igual valor ao sacrificado. Pode
haver redução de pena.
Exemplo Prático
Náufragos que disputam tábua de salvação insuficiente para todos:
caso clássico de estado de necessidade exculpante.
Legítima Defesa
Conceito (Art. 25, CP)
"Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos
meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito
seu ou de outrem."
Requisitos
Agressão injusta (ilícita)
Agressão atual ou iminente
Defesa de direito próprio ou alheio
Uso moderado dos meios necessários
Conhecimento da situação justificante
Modalidades de Legítima Defesa
Legítima Defesa Própria
Defesa de direito próprio (ex: vida, integridade física,
patrimônio).
Legítima Defesa de Terceiros
Defesa de direito alheio (ex: intervir para impedir agressão a
outra pessoa).
Legítima Defesa Putativa
Defesa contra agressão imaginária. É erro de tipo permissivo.
Estrito Cumprimento do Dever Legal e Exercício Regular
de Direito
Estrito Cumprimento do Dever Legal
Ocorre quando o agente pratica um fato típico no cumprimento de uma
obrigação imposta por lei.
Características:
Aplicável principalmente a funcionários públicos
Deve decorrer de imposição legal
Os meios empregados devem ser necessários e proporcionais
Exemplo: Policial que prende um indivíduo em flagrante delito,
restringindo sua liberdade.
Exercício Regular de Direito
Ocorre quando o agente pratica um fato típico no exercício de uma
faculdade jurídica, autorizada pelo ordenamento.
Características:
Aplica-se a qualquer pessoa
Deve haver autorização no ordenamento jurídico
Os meios devem ser moderados
Exemplos: Médico que realiza cirurgia com consentimento, práticas
esportivas que envolvem violência controlada (boxe, MMA).
Excesso nas Excludentes de
Ilicitude
O excesso ocorre quando o agente, ao praticar uma conduta inicialmente acobertada
por excludente de ilicitude, ultrapassa os limites da necessidade ou da moderação.
Excesso Doloso
O agente consciente e voluntariamente extrapola os limites da excludente.
Responde pelo crime praticado com dolo.
Exemplo: Continuar a agredir agressor já dominado e incapacitado.
Excesso Culposo
O agente excede os limites por imprudência, negligência ou imperícia.
Responde pelo crime praticado com culpa, se previsto em lei.
Exemplo: Atirar para defender-se e, por imperícia, acertar terceiro inocente.
Excesso Exculpante
O excesso ocorre por perturbação emocional em situação de extremo perigo.
Pode haver isenção de pena (controvérsia doutrinária).
Exemplo: Reação desproporcional por medo intenso durante um assalto.
Culpabilidade
A culpabilidade é o terceiro elemento do crime na teoria tripartida, representando o
juízo de reprovação pessoal que recai sobre o agente que praticou um fato típico e
ilícito.
Conceito
É a reprovabilidade da conduta típica e ilícita do agente. Representa um juízo de
censura pessoal que recai sobre o autor do fato por ter agido de forma contrária ao
direito quando podia ter agido conforme o direito.
Evolução Histórica
Teoria Psicológica: Culpabilidade como relação psíquica entre agente e fato (dolo
e culpa)
Teoria Psicológico-normativa: Acrescenta elemento normativo (exigibilidade de
conduta diversa)
Teoria Normativa Pura: Dolo e culpa migram para tipicidade, culpabilidade é
puramente normativa
Elementos da Culpabilidade
Imputabilidade Penal
Capacidade de entender o caráter ilícito do
fato e de determinar-se de acordo com
esse entendimento.
Causas de inimputabilidade:
Doença mental (art. 26, CP)
Menoridadepenal (art. 27, CP)
Embriaguez completa acidental (art. 28,
§1º, CP)
Potencial Consciência da Ilicitude
Possibilidade de o agente conhecer o caráter
ilícito de sua conduta.
Excludente: Erro de proibição inevitável (art.
21, CP)
Exigibilidade de Conduta Diversa
Possibilidade de exigir do agente
comportamento conforme o direito nas
circunstâncias concretas.
Excludentes:
Coação moral irresistível (art. 22, CP)
Obediência hierárquica (art. 22, CP)
Imputabilidade Penal
Conceito
Imputabilidade é a capacidade de culpabilidade, ou seja, a capacidade
de o agente entender o caráter ilícito do fato e de determinar-se de
acordo com esse entendimento.
Sistemas de Aferição
Biológico: Considera apenas a condição mental ou etária
Psicológico: Considera apenas a capacidade de compreensão
Biopsicológico: Combina os dois critérios (adotado no Brasil)
Causas de Inimputabilidade
Doença mental (art. 26, caput): Desenvolvimento mental
incompleto ou retardado, que retire a capacidade de entendimento
ou autodeterminação
Menoridade penal (art. 27): Menores de 18 anos são inimputáveis
por presunção absoluta
Embriaguez completa acidental (art. 28, §1º): Embriaguez por caso
fortuito ou força maior que retire totalmente a capacidade de
entendimento
Semi-imputabilidade e
Embriaguez
Semi-imputabilidade (Art. 26,
parágrafo único)
Ocorre quando o agente, por
perturbação mental ou
desenvolvimento mental incompleto ou
retardado, não possuía, ao tempo da
ação ou omissão, plena capacidade de
entender o caráter ilícito do fato ou de
determinar-se.
Consequência: Redução de pena de 1/3
a 2/3 ou medida de segurança, a
depender da necessidade de
tratamento.
Embriaguez e Imputabilidade
(Art. 28)
Embriaguez Voluntária ou
Culposa
Não exclui a imputabilidade
(teoria da actio libera in causa)
Embriaguez Preordenada
Agravante genérica (art. 61, II, "l",
CP)
Embriaguez Acidental
Completa
Caso fortuito/força maior que
retire totalmente a capacidade:
exclui a imputabilidade
Embriaguez Acidental
Incompleta
Caso fortuito/força maior que
diminua a capacidade: redução
de pena
Potencial Consciência da Ilicitude e Erro de Proibição
Potencial Consciência da Ilicitude
É a possibilidade de o agente, nas circunstâncias concretas, conhecer
o caráter ilícito de sua conduta. Não se exige conhecimento técnico-
jurídico, mas sim a compreensão leiga da contrariedade ao direito.
A excludente da potencial consciência da ilicitude é o erro de proibição
inevitável.
Erro de Proibição (Art. 21, CP)
Ocorre quando o agente, por desconhecimento ou equívoco, acredita
estar agindo licitamente quando, na verdade, sua conduta é ilícita.
Erro de Proibição Inevitável: Exclui a culpabilidade (isenta de pena)
Erro de Proibição Evitável: Atenua a culpabilidade (redução de
pena)
Diferença fundamental do erro de tipo: no erro de proibição, o agente
sabe o que faz, mas acredita que é lícito.
Exigibilidade de Conduta Diversa
É a possibilidade de se exigir do agente que, nas circunstâncias concretas, aja conforme o direito. Existem
situações em que, embora o agente seja imputável e tenha potencial consciência da ilicitude, não se pode
exigir que ele se comporte de acordo com o ordenamento jurídico.
Coação Moral Irresistível (Art. 22, 1ª parte)
É a grave ameaça dirigida contra alguém para que pratique um crime. Para excluir a culpabilidade, deve
ser:
Irresistível (insuperável para o homem médio)
Atual ou iminente
Dirigida contra o agente ou pessoa próxima
O coator responde pelo crime. O coagido é isento de pena.
Obediência Hierárquica (Art. 22, 2ª parte)
Ocorre quando um subordinado cumpre ordem ilegal não manifestamente ilegal de superior
hierárquico. Requisitos:
Relação de direito público
Ordem não manifestamente ilegal
Subordinado não exceder os limites da ordem
O superior responde pelo crime. O subordinado é isento de pena.
Concurso de Pessoas
Conceito
Concurso de pessoas (ou concurso de agentes) é a cooperação de dois ou mais
agentes na prática de uma mesma infração penal. Está previsto nos artigos 29 a 31 do
Código Penal.
Teoria adotada no Brasil
O Código Penal brasileiro adota a teoria monista ou unitária (art. 29): todos os que
concorrem para o crime incidem nas penas a ele cominadas, na medida de sua
culpabilidade.
Exceções à teoria monista
Casos de impunibilidade (art. 181, CP)
Crimes próprios (art. 30, CP)
Cooperação dolosamente distinta (art. 29, §2º, CP)
Comunicabilidade das circunstâncias (art. 30, CP)
Requisitos do Concurso de Pessoas
Pluralidade de Agentes
Exige-se a participação de duas ou mais
pessoas na prática da infração penal. Não há
concurso consigo mesmo.
Relevância Causal das Condutas
Todas as condutas devem contribuir
efetivamente para o resultado criminoso,
ainda que minimamente.
Liame Subjetivo
Deve haver vínculo psicológico entre os
agentes (consciência de colaborar para a
mesma infração penal).
Não existe concurso de pessoas culposo.
Identidade de Infração Penal
Todos devem colaborar para a mesma
infração penal, ainda que com diferentes
modos de participação.
Autoria e Participação
Autoria
É a realização direta da conduta típica. Autor é quem pratica o núcleo do
tipo penal.
Autoria Direta
O agente executa pessoalmente a conduta típica.
Coautoria
Dois ou mais agentes executam conjuntamente a conduta
típica.
Autoria Mediata
O agente usa outra pessoa como instrumento para praticar o
crime.
Participação
É a colaboração para o crime sem praticar o núcleo do tipo. Caráter
acessório: depende da existência de um autor principal.
Modalidades de Participação
Participação moral: Instigação (ideia de cometer o crime) ou
induzimento (reforça ideia preexistente)
Participação material: Auxílio ou cumplicidade (fornecimento de
recursos materiais)
Teoria do Domínio do Fato
A teoria do domínio do fato é uma das principais teorias sobre autoria e participação.
Embora não expressamente adotada pelo Código Penal brasileiro, é amplamente
utilizada pela doutrina e jurisprudência para distinguir autores de partícipes.
Conceito
Segundo esta teoria, autor é quem tem o domínio final do fato, ou seja, quem decide
sobre a execução, interrupção e circunstâncias do crime. O autor é o "senhor do fato",
aquele que detém o poder de decisão sobre a realização do tipo penal.
Formas de Domínio do Fato
Domínio da ação: Na autoria direta (execução pessoal)
Domínio da vontade: Na autoria mediata (uso de instrumento)
Domínio funcional: Na coautoria (divisão de tarefas)
A teoria do domínio do fato é especialmente útil nos casos em que o "homem de trás"
(mandante) não executa diretamente o crime, mas detém o controle sobre sua
realização.
Punibilidade no Concurso de Pessoas
Regra Geral (Art. 29, CP)
"Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a
este cominadas, na medida de sua culpabilidade."
Embora adote a teoria monista (todos respondem pelo mesmo crime), o
CP permite dosagem diferenciada da pena conforme a contribuição de
cada agente.
Participação de Menor Importância (Art. 29, §1º)
"Se a participação for de menor importância, a pena pode ser diminuída
de um sexto a um terço."
Cooperação Dolosamente Distinta (Art. 29, §2º)
"Se algum dos concorrentes quis participar de crime menos grave, ser-
lhe-á aplicada a pena deste; essa pena será aumentada até metade, na
hipótese de ter sido previsível o resultado mais grave."
Comunicabilidade das Circunstâncias (Art. 30)
Comunicam-se as circunstâncias objetivas (materiais), mesmo que os
outros agentes não as conheçam.
As circunstâncias subjetivas (pessoais) só se comunicam quando
constituem elementares do crime.
Desistência Voluntária e Arrependimento Eficaz
Desistência Voluntária (Art. 15, 1ª parte)
"O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou
impede que o resultado se produza, só responde pelos atos já
praticados."
Características
Ocorre durante a execução do crime
O agente interrompe voluntariamente a execução
Não exigemotivação nobre ("voluntário b espontâneo")
Fórmula de Frank: "Posso continuar, mas não quero."
Arrependimento Eficaz (Art. 15, 2ª parte)
O agente, após concluir todos os atos executórios, impede
voluntariamente a produção do resultado.
Características
Ocorre após a execução completa
O agente age positivamente para evitar o resultado
Também não exige motivação nobre
Exemplo: Ministrar antídoto após envenenar a vítima.
Consequência
Em ambos os casos, o agente responde apenas pelos atos já praticados
que constituam crimes autônomos.
Arrependimento Posterior
Conceito (Art. 16, CP)
"Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa,
reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia
ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um
a dois terços."
Natureza Jurídica
Causa de diminuição de pena (não exclui o crime nem a punibilidade)
Requisitos
Crime já consumado
Ausência de violência ou grave ameaça à pessoa
Reparação total do dano ou restituição da coisa
Voluntariedade do agente
Limite temporal: até o recebimento da denúncia ou queixa
Exemplo
Agente que comete furto e depois devolve o objeto furtado à vítima
antes do recebimento da denúncia.
Crime Consumado e Crime Tentado
Crime Consumado (Art. 14, I)
"Diz-se o crime consumado quando nele se reúnem todos os elementos
de sua definição legal."
Caracteriza-se pela realização completa do tipo penal, com a produção
de todos os seus elementos.
O momento da consumação varia conforme o tipo de crime:
Crimes materiais: produção do resultado
Crimes formais: realização da conduta
Crimes de mera conduta: prática da ação
Crime Tentado (Art. 14, II)
"Diz-se o crime tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma
por circunstâncias alheias à vontade do agente."
Requisitos da Tentativa
Início da execução (atos executórios)
Não consumação do crime
Circunstância alheia à vontade do agente
Dolo de consumação (finalidade de consumar)
Punição (Art. 14, parágrafo único)
Pena do crime consumado, diminuída de 1/3 a 2/3, conforme o iter
criminis percorrido.
Iter Criminis (Caminho do Crime)
Cogitação
Fase interna, onde o agente idealiza o crime. Não é punível (cogitationis poenam nemo patitur).
Exemplo: Pessoa que planeja mentalmente um roubo.
Preparação
Fase em que o agente reúne meios para executar o crime. Em regra, não é punível, salvo quando constitui crime autônomo.
Exemplo: Comprar ferramentas para um arrombamento.
Execução
Início da realização do núcleo do tipo. Punível a título de tentativa quando não ocorre a consumação.
Exemplo: Iniciar o arrombamento da porta.
Consumação
Realização de todos os elementos do tipo penal. Punível como crime consumado.
Exemplo: Subtração completa do bem alheio.
Exaurimento
Fase posterior à consumação, com a obtenção da finalidade pretendida. Pode agravar a pena.
Exemplo: Vender o bem furtado ou usufruir dele.
Espécies de Tentativa
Tentativa Imperfeita ou Inacabada
O agente não realiza todos os atos executórios
que pretendia, sendo interrompido por
circunstâncias alheias à sua vontade.
Exemplo: Ladrão que começa a arrombar porta,
mas é surpreendido pela polícia.
Tentativa Perfeita ou Acabada
O agente realiza todos os atos executórios,
mas o resultado não ocorre por circunstâncias
alheias à sua vontade.
Exemplo: Atirar contra a vítima, mas errar o alvo.
Tentativa Branca ou Inadequada
Os meios empregados são absolutamente
ineficazes para produzir o resultado, mas o
agente desconhece essa circunstância.
Exemplo: Tentar envenenar alguém com
substância inofensiva que o agente acredita
ser tóxica.
Crime Impossível
Conceito (Art. 17, CP)
"Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por
absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime."
Fundamento
A conduta não apresenta qualquer periculosidade objetiva, sendo
impossível a produção do resultado.
Espécies
Ineficácia absoluta do meio: O instrumento utilizado é
absolutamente incapaz de produzir o resultado
Impropriedade absoluta do objeto: O objeto material sobre o qual
recai a conduta é absolutamente inadequado
Exemplos
Tentar matar com arma desmuniciada (meio ineficaz)
Tentar furtar cofre vazio (objeto impróprio)
Tentar matar cadáver (objeto impróprio)
Diferença para Tentativa Inidônea
No crime impossível, a ineficácia ou impropriedade é absoluta,
tornando impossível a consumação em qualquer circunstância.
Na tentativa inidônea (punível), a ineficácia ou impropriedade é
relativa, havendo possibilidade de consumação em outras
circunstâncias.
Crimes Contra a Pessoa
Os crimes contra a pessoa estão previstos no Título I da Parte Especial do Código Penal (arts. 121 a 154).
Protegem bens jurídicos fundamentais como a vida, a integridade física e a honra.
Crimes Contra a Vida
Homicídio, induzimento ao suicídio, infanticídio e aborto.
São julgados pelo Tribunal do Júri, conforme determina a Constituição Federal (art. 5º, XXXVIII).
Lesões Corporais
Ofensa à integridade corporal ou à saúde de outrem.
Classificadas em: leve, grave, gravíssima e seguida de morte.
Periclitação da Vida e da Saúde
Perigo de contágio, abandono de incapaz, omissão de socorro, maus-tratos.
Punem a exposição a perigo de bem jurídico alheio.
Crimes Contra a Honra
Calúnia, difamação e injúria.
Protegem a honra objetiva (reputação) e subjetiva (dignidade e decoro).
Homicídio (Art. 121, CP)
Conceito
Homicídio é a conduta de matar alguém. É o crime mais grave contra a pessoa, pois atinge o bem jurídico mais valioso: a vida humana.
Elementos do Tipo
Sujeito ativo: Qualquer pessoa (crime comum)
Sujeito passivo: Qualquer pessoa viva (crime comum)
Elemento objetivo: Conduta de matar alguém
Elemento subjetivo: Dolo (direto ou eventual) ou culpa (nos parágrafos 3º e 4º)
Consumação e Tentativa
Consuma-se com a morte da vítima. Admite tentativa quando, iniciada a execução, o resultado morte não ocorre por circunstâncias alheias à vontade
do agente.
Modalidades de Homicídio
Homicídio Simples (Art. 121, caput)
Forma básica, sem circunstâncias
qualificadoras ou privilegiadoras.
Pena: reclusão de 6 a 20 anos.
Homicídio Privilegiado (Art. 121,
§1º)
Cometido por motivo de relevante valor
social/moral ou sob domínio de violenta
emoção.
Causa de diminuição de pena (1/6 a 1/3).
Homicídio Qualificado (Art. 121,
§2º)
Cometido com circunstâncias que denotam
maior reprovabilidade.
Pena: reclusão de 12 a 30 anos.
Crime hediondo (Lei 8.072/90).
Homicídio Culposo (Art. 121, §3º)
Causado por imprudência, negligência ou
imperícia.
Pena: detenção de 1 a 3 anos.
Qualificadoras do Homicídio (Art. 121,
§2º)
Motivo (incisos I e II)
Mediante paga ou promessa de recompensa (homicídio mercenário)
Motivo torpe (repugnante, ignóbil)
Motivo fútil (desproporcional, insignificante)
Meio (inciso III)
Emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel
Recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido
Finalidade (inciso IV)
Para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de outro crime
Outras (incisos V, VI, VII)
Feminicídio (contra mulher por razões da condição de sexo feminino)
Contra autoridade ou agente (por sua função)
Contra agente de segurança pública ou familiar
Lesão Corporal (Art. 129, CP)
Conceito
Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem. Pode ser física ou
mental.
Modalidades
Lesão Corporal Leve (caput)
Forma básica. Pena: detenção de 3 meses a 1 ano.
Lesão Grave (§1º)
Incapacidade por mais de 30 dias, perigo de vida, debilidade
permanente de membro, sentido ou função, aceleração de
parto. Pena: reclusão de 1 a 5 anos.
Lesão Gravíssima (§2º)
Incapacidade permanente para o trabalho, enfermidade
incurável, perda/inutilização de membro, sentido ou função,
deformidade permanente, aborto. Pena: reclusão de 2 a 8 anos.
Lesão Seguida de Morte (§3º)
Resultado morte para o qual o agente não quis nem assumiu o
risco (preterdolo).Pena: reclusão de 4 a 12 anos.
Lesão Corporal Culposa (§6º)
Causada por imprudência, negligência ou imperícia. Pena:
detenção de 2 meses a 1 ano.
Periclitação da Vida e da Saúde
São crimes que punem a conduta de expor a perigo a vida ou a saúde de outrem, independentemente de
ocorrer um dano efetivo.
Perigo de Contágio (Arts. 130-132)
Exposição de alguém a contágio de moléstia grave. Inclui doenças venéreas e doenças em geral.
Abandono de Incapaz (Art. 133)
Abandonar pessoa que está sob seu cuidado, guarda, vigilância ou autoridade, não podendo defender-se
dos riscos.
Omissão de Socorro (Art. 135)
Deixar de prestar assistência à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao
desamparo ou em grave e iminente perigo.
Maus-tratos (Art. 136)
Expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade, guarda ou vigilância, privando-a de
alimentação ou cuidados, sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado, ou abusando de meios de
correção ou disciplina.
Crimes Contra a Honra
Os crimes contra a honra protegem a reputação, dignidade e decoro das pessoas. Estão previstos nos artigos 138 a 145 do Código Penal.
Calúnia (Art. 138)
Imputar falsamente a alguém fato definido
como crime.
Pena: detenção de 6 meses a 2 anos e
multa.
Exemplo: "João roubou dinheiro da
empresa."
Difamação (Art. 139)
Imputar a alguém fato ofensivo à sua
reputação (não precisa ser crime nem
falso).
Pena: detenção de 3 meses a 1 ano e multa.
Exemplo: "Maria traiu o marido várias
vezes."
Injúria (Art. 140)
Ofender a dignidade ou o decoro de alguém
(atributos pessoais negativos).
Pena: detenção de 1 a 6 meses ou multa.
Exemplo: "Você é um incompetente!"
Características dos Crimes
Contra a Honra
Aspectos Comuns
Ação penal privada (regra geral)
Admitem exceção da verdade (com
restrições)
Retratação possível antes da
sentença (art. 143)
Não constituem crime se o agente
faz crítica literária, artística ou
científica (art. 142, I)
Diferenças Principais
Crime Honra Conteú
do
Calúnia Objetiva Fato
criminos
o falso
Difamaç
ão
Objetiva Fato
ofensivo
(não
crime)
Injúria Subjetiv
a
Qualidad
e
negativa
Exceção da Verdade
Possibilidade de o agente provar a
veracidade do fato imputado, evitando a
condenação.
Calúnia: Sempre admitida, exceto se
o ofendido foi absolvido por
sentença penal irrecorrível
Difamação: Admitida apenas se o
ofendido é funcionário público e o
fato é relativo às funções
Injúria: Não admitida (o fato ser
verdadeiro não afasta a ofensa)
Injúria Real
Modalidade qualificada (art. 140, §2º)
quando a injúria consiste em violência
ou vias de fato (ex: tapa no rosto). Pena
aumentada em 1/3.
Injúria Preconceituosa
Modalidade qualificada (art. 140, §3º)
quando a injúria utiliza elementos
referentes a raça, cor, etnia, religião,
origem, condição de pessoa idosa ou
com deficiência.
Crimes Contra o Patrimônio
Os crimes contra o patrimônio estão previstos no Título II da Parte Especial do Código Penal (arts. 155 a
183). Protegem bens jurídicos de valor econômico.
Crimes de Subtração
O agente retira a coisa da esfera de vigilância da vítima.
Exemplos: furto (art. 155) e roubo (art. 157).
Crimes de Fraude
O agente usa meios ardilosos para obter vantagem ilícita.
Exemplos: estelionato (art. 171) e fraude eletrônica (art. 171-A).
Crimes de Violência/Ameaça
O agente emprega violência ou grave ameaça para obter vantagem.
Exemplos: extorsão (art. 158) e extorsão mediante sequestro (art. 159).
Crimes de Dano
O agente destrói, inutiliza ou deteriora coisa alheia.
Exemplos: dano (art. 163) e dano qualificado (art. 163, parágrafo único).
Furto (Art. 155, CP)
Conceito
"Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel."
Elementos do Tipo
Conduta: Subtrair (retirar, tirar)
Objeto: Coisa alheia móvel (com valor econômico)
Elemento subjetivo: Dolo + especial fim de agir (para si ou para
outrem)
Consumação e Tentativa
Consuma-se quando a coisa sai da esfera de vigilância da vítima (teoria
da amotio ou apprehensio).
Admite tentativa quando, iniciada a execução, a subtração não se
consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente.
Furto Simples (caput)
Forma básica. Pena: reclusão de 1 a 4 anos e multa.
Furto Qualificado (§4º)
Destruição/rompimento de obstáculo
Abuso de confiança/fraude
Escalada/destreza
Emprego de chave falsa
Concurso de pessoas
Pena: reclusão de 2 a 8 anos e multa.
Furto Privilegiado (§2º)
Agente primário, coisa de pequeno valor. Pena: redução de 1/3 a 2/3,
substituição por multa ou aplicação somente de multa.
Roubo (Art. 157, CP)
Conceito
"Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave
ameaça ou violência à pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio,
reduzido à impossibilidade de resistência."
Elementos do Tipo
Conduta: Subtrair mediante grave ameaça ou violência
Objeto: Coisa alheia móvel
Meio de execução: Grave ameaça, violência ou redução à
impossibilidade de resistência
Elemento subjetivo: Dolo + especial fim de agir
É crime complexo: fusão de furto + constrangimento ilegal/lesão
corporal.
Modalidades
Roubo próprio: Violência usada para subtrair a coisa
Roubo impróprio: Violência usada após a subtração, para assegurar
a posse da coisa ou a impunidade
Roubo Majorado (§2º)
Circunstâncias que aumentam a pena de 1/3 até metade:
Emprego de arma
Concurso de pessoas
Restrição da liberdade da vítima
Transporte de valores
Veículo automotor com destino a outro estado
Substância que cause dependência
Extorsão e Extorsão Mediante Sequestro
Extorsão (Art. 158)
Conceito: "Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e
com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem
econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar de fazer alguma coisa."
Diferenças do roubo:
No roubo, o agente subtrai; na extorsão, a vítima entrega
No roubo, o objeto é coisa móvel; na extorsão, é qualquer vantagem
econômica
Na extorsão, a vítima pratica, tolera ou omite ato
Pena: reclusão de 4 a 10 anos e multa.
Extorsão Mediante Sequestro (Art. 159)
Conceito: "Sequestrar pessoa com o fim de obter, para si ou para
outrem, qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate."
É crime hediondo (Lei 8.072/90).
Pena: reclusão de 8 a 15 anos e multa.
Formas qualificadas
Se o sequestro dura mais de 24 horas
Se o sequestrado é menor de 18 anos
Se resulta em lesão corporal grave
Se resulta em morte (pena: 24 a 30 anos)
Causa de diminuição: delação eficaz (§4º) - redução de 1/3 a 2/3 da
pena.
Estelionato e Apropriação Indébita
Estelionato (Art. 171)
Conceito: "Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo
alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil,
ou qualquer outro meio fraudulento."
Elementos:
Obtenção de vantagem ilícita
Prejuízo alheio
Meio fraudulento (engano da vítima)
Consumação: quando o agente obtém a vantagem ilícita.
Pena: reclusão de 1 a 5 anos e multa.
Apropriação Indébita (Art. 168)
Conceito: "Apropriar-se de coisa alheia móvel, de que tem a posse ou a
detenção."
Elementos:
Apropriação (inversão do título da posse)
Coisa alheia móvel
Posse ou detenção lícita prévia
Diferença do furto: na apropriação indébita, o agente já tem a posse
lícita da coisa.
Pena: reclusão de 1 a 4 anos e multa.
Formas qualificadas: em razão de ofício, emprego ou profissão (§1º), ou
contra idoso (§3º).
Dano e Receptação
Dano (Art. 163)
Conceito: "Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia."
Elementos:
Destruir (acabar, demolir)
Inutilizar (tornar imprestável)
Deteriorar (danificar, estragar)
Coisa alheia (móvel ou imóvel)
Pena: detenção de 1 a 6 meses ou multa.
Dano qualificado (parágrafo único):
Violência ou grave ameaça
Emprego de substância inflamável ou explosiva
Contra patrimônio público
Motivo egoístico ou prejuízo considerável
Receptação (Art. 180)
Conceito: "Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em
proveito próprio ou alheio, coisa que sabeser produto de crime, ou
influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte."
Elementos:
Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar
Coisa produto de crime
Ciência da origem ilícita
Modalidades:
Própria: Para proveito próprio ou alheio
Imprópria: Influir para que terceiro de boa-fé receba
Pena: reclusão de 1 a 4 anos e multa.
Crimes Contra a Administração
Pública
Os crimes contra a Administração Pública estão previstos no Título XI da Parte Especial
do Código Penal (arts. 312 a 359). Protegem o regular funcionamento, a probidade e o
prestígio da Administração Pública.
Divisão
Crimes Praticados por
Funcionário Público
Exigem a qualidade de funcionário
público do sujeito ativo (crimes
próprios).
Exemplos: peculato, concussão,
corrupção passiva, prevaricação.
Crimes Praticados por
Particular
Podem ser praticados por qualquer
pessoa (crimes comuns).
Exemplos: corrupção ativa,
contrabando, desacato,
desobediência.
Crimes Contra a Administração da Justiça
Atingem especificamente o funcionamento da Justiça.
Exemplos: denunciação caluniosa, falso testemunho, favorecimento.
Peculato e Concussão
Peculato (Art. 312)
Conceito: "Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou
qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em
razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio."
Modalidades:
Peculato-apropriação: Funcionário se apropria do bem
Peculato-desvio: Funcionário dá destinação diversa ao bem
Peculato-furto (§1º): Funcionário subtrai bem de que não tem
posse
Peculato culposo (§2º): Negligência permite que outrem subtraia
Pena: reclusão de 2 a 12 anos e multa.
Concussão (Art. 316)
Conceito: "Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda
que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem
indevida."
Elementos:
Conduta de exigir (impor, ordenar)
Vantagem indevida (geralmente econômica)
Em razão da função pública
Diferença da corrupção passiva: na concussão, o funcionário exige; na
corrupção passiva, solicita ou aceita.
Diferença da extorsão: na concussão, a exigência é em razão da função;
na extorsão, há violência ou grave ameaça.
Pena: reclusão de 2 a 12 anos e multa.
Corrupção Ativa e Passiva
Corrupção Passiva (Art. 317)
Conceito: "Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou
indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em
razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem."
Elementos:
Solicitar, receber ou aceitar promessa
Vantagem indevida
Em razão da função pública
Sujeito ativo: funcionário público (crime próprio)
Pena: reclusão de 2 a 12 anos e multa.
Forma qualificada (§1º): se o funcionário pratica, deixa de praticar ou
retarda ato de ofício em razão da vantagem (pena aumentada de 1/3).
Corrupção Ativa (Art. 333)
Conceito: "Oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário
público, para determiná-lo a praticar, omitir ou retardar ato de ofício."
Elementos:
Oferecer ou prometer
Vantagem indevida
Para determinação de ato de ofício
Sujeito ativo: qualquer pessoa (crime comum)
Pena: reclusão de 2 a 12 anos e multa.
Causa de aumento (parágrafo único): se, em razão da vantagem ou
promessa, o funcionário retarda ou omite ato de ofício, ou o pratica
infringindo dever funcional (pena aumentada de 1/3).
Prevaricação, Advocacia Administrativa e
Outros Crimes
Prevaricação (Art. 319)
"Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição
expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal."
Elemento subjetivo específico: satisfazer interesse ou sentimento pessoal.
Pena: detenção de 3 meses a 1 ano e multa.
Advocacia Administrativa (Art. 321)
"Patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a Administração Pública, valendo-se
da qualidade de funcionário."
Consiste em defender interesse particular junto à Administração usando-se da condição de
funcionário.
Pena: detenção de 1 a 3 meses ou multa.
Resistência (Art. 329)
"Opor-se à execução de ato legal, mediante violência ou ameaça a funcionário competente para
executá-lo ou a quem lhe esteja prestando auxílio."
Protege a execução de atos legais da Administração.
Pena: detenção de 2 meses a 2 anos.
Desacato (Art. 331)
"Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela."
Tutela a dignidade, o prestígio e o respeito devidos à função pública.
Pena: detenção de 6 meses a 2 anos ou multa.
Desobediência e Falsidade Documental
Desobediência (Art. 330)
Conceito: "Desobedecer a ordem legal de funcionário público."
Elementos:
Ordem legal e direta de funcionário público
Competência do funcionário para expedir a ordem
Conhecimento da ordem pelo destinatário
Não cumprimento deliberado
Diferença da resistência: na desobediência, não há violência ou
ameaça.
Pena: detenção de 15 dias a 6 meses e multa.
Falsidade Documental (Arts. 297-304)
Falsificação de Documento Público (Art. 297)
Falsificar, no todo ou em parte, documento público ou alterar
documento público verdadeiro.
Falsidade Ideológica (Art. 299)
Omitir ou inserir declaração falsa em documento público ou
particular.
Uso de Documento Falso (Art. 304)
Fazer uso de qualquer documento falsificado ou alterado.