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Relatório narrativo-técnico: Contabilidade de empresas de peças automotivas
Introdução
Ao assumir, há cinco anos, a responsabilidade contábil de uma rede regional de autopeças, deparei-me com um retrato composto de pequenos dramas: estoque vasto e fragmentado, clientes com ciclos de compra imprevisíveis, fornecedores com prazos variados e tributos que permeavam cada negociação. Este relatório descreve, em tom narrativo e técnico, as práticas contábeis que se mostraram eficazes para empresas de peças automotivas, apontando procedimentos, riscos e recomendações operacionais.
Contexto e desafio
A contabilidade dessas empresas não se resume ao registro de receitas e despesas. No meu primeiro mês, identifiquei milhares de SKUs, desde fusíveis até componentes de transmissão, muitos com pouca rotatividade. Esse mix cria necessidade de políticas rígidas de avaliação e controle de estoques, que impactam diretamente no resultado e na liquidez. Além disso, a complexidade tributária brasileira — ICMS, PIS/COFINS, ISS em serviços associados, possíveis regimes como Simples Nacional, Lucro Presumido ou Real — exige atenção na escrituração fiscal e no planejamento tributário.
Metodologia adotada
Adotei uma dupla abordagem: operacional e contábil. Operacionalmente, implantei codificação padronizada (NCM + código interno), curva ABC trimestral e política de giro mínimo por categoria. Contabilmente, padronizei a escrituração com integração entre o ERP comercial e o sistema contábil, garantindo que notas fiscais eletrônicas (NF-e) alimentassem automaticamente o livro de entradas e saídas (EFD Contribuições/ICMS conforme aplicável).
Avaliação e mensuração de estoques
Para a valoração, priorizei o método do custo médio ponderado permanente, compatível com a variabilidade intensa de preços de peças e com a necessidade de homogeneidade para apuração de margem. Implantou-se inventário cíclico para reduzir o impacto operacional do inventário anual e detectar perdas por furtos, avarias ou obsolescência. As provisões para perda de estoque e devoluções foram parametrizadas com percentuais por faixa de antiguidade (p.ex., >12 meses com provisão crescente), registrados como despesa operacional e ajustados trimestralmente.
Receitas, devoluções e garantias
A contabilização da receita seguiu critérios de competência: vendas com garantia ou com política de devolução geravam contas a receber segregadas (realizáveis e contingentes). Criei código contábil para provisão de garantia e acionei controladoria para acompanhar índice de devolução por fornecedor/produto, o que serviu também de base para negociações de recompra ou crédito com fornecedores.
Tributação e conformidade fiscal
A conformidade fiscal exigiu atenção ao regime tributário escolhido. Em empresas com margens estreitas e grande volume de operações, o regime de Lucro Real demandou controles apurados de PIS/COFINS não cumulativos, exigindo documentação fiscal rigorosa e cruzamento com SPED Fiscal e EFD Contribuições. Para lojas optantes pelo Simples, o desafio foi monitorar limites de receita e desdobramentos na subcontratação de serviços e vendas interestaduais. A conciliação entre ICMS destacado, créditos de insumos e CST/NCM apropriados foi rotina mensal.
Fluxo de caixa e gestão financeira
Narrativamente, lembro-me de uma situação em que um grande pedido para frota local quase quebrou a liquidez da empresa: caixa comprometido por compras antecipadas. A lição foi a implantação de projeção de fluxo de caixa em horizonte móvel de 90 dias, relacionando compras previstas, prazos médios de pagamento a fornecedores e prazo médio de recebimento de clientes. A política de crédito a clientes passou a ser formalizada: análise cadastral, limites e garantias, com provisionamento para inadimplência.
Controles internos e auditoria
Implantamos segregação de funções: quem opera vendas não faz conferência física de saída do estoque nem faz conciliação bancária. A auditoria interna trimestral cobria amostras de notas fiscais, confronto de etiquetas de estoque com ERP e verificação de baixas por sucata/obsolescência. Sistemas de autenticação e trilha de auditoria no ERP reduziram fraudes internas.
Indicadores e decisões gerenciais
Os principais KPIs acompanhados foram: giro de estoque, estoque médio em dias, margem bruta por família, índice de devolução, GMROI (Gross Margin Return on Investment) e days sales outstanding (DSO). Esses indicadores orientaram decisões sobre mix de produtos, políticas de recompras e acordos comerciais com fornecedores (consignação, descontos por volume, prazo diferenciado).
Considerações finais e recomendações
A contabilidade em empresas de peças automotivas exige integração intensa entre processos logísticos, fiscais e comerciais. Recomendo: 1) adoção de inventário cíclico e provisões claras para obsolescência; 2) integração ERP-contábil com automação de NF-e e SPED; 3) rigor na análise de crédito e fluxo de caixa previsional; 4) auditorias internas periódicas e segregação de funções; 5) mapeamento tributário por operação para evitar riscos fiscais. Narrativamente, foi gratificante ver que, quando a contabilidade se aproxima da operação, as decisões comerciais ganham previsibilidade — e a lucratividade, sustentabilidade.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1) Qual método de valoração de estoque é mais indicado?
Resposta: Custo médio ponderado permanente, por oferecer estabilidade em mercados com preços voláteis e facilitar integração contábil.
2) Como reduzir perdas por obsolescência de peças?
Resposta: Inventário cíclico, curva ABC, provisões por idade e políticas de promoção/consignação para itens de baixa rotatividade.
3) Quais tributos merecem maior atenção?
Resposta: ICMS, PIS/COFINS (especialmente no Lucro Real) e obrigações acessórias (SPED, EFD), por impacto direto no fluxo e créditos fiscais.
4) Como controlar crédito e inadimplência de clientes?
Resposta: Política formal com análise cadastral, limites, garantias, monitoramento por DSO e provisão para devedores duvidosos.
5) Que KPIs são essenciais para gestão?
Resposta: Giro de estoque, estoque em dias, margem bruta por família, GMROI, índice de devolução e DSO.

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