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Juizados Especiais Professor: Carlos Hildo Gurgel Pompeu carlos.pompeu@uninta.edu.br carloshildogpompeu 9.9961-1031 OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DOS JUIZADOS ESPECIAIS Princípios gerais do direito são fundamentos jurídicos aplicáveis a diversas áreas do direito. São diretrizes amplas e abstratas que orientam a interpretação e aplicação das normas jurídicas, buscando a justiça, equidade, segurança jurídica e a harmonia com os valores e princípios constitucionais. Os princípios possuem tríplice função, como indica o professor Inocêncio Mártires Coelho: informadora para o legislado; normativa para os casos de lacunas; e interpretadora, como critério de orientação para o intérprete e para a magistratura. Os princípios que norteiam o Sistema dos Juizados Especiais Cíveis convergem: na viabilização do amplo acesso ao Judiciário, na busca da conciliação entre as partes, sem violação das garantias constitucionais do contraditório e da ampla defesa. Assim, as formas tradicionais de condução do processo devem ser sempre afastadas, cedendo lugar à obediência aos princípios que regem o procedimento especial. Eventuais decretações de nulidade devem ser precedidas da comprovação de existência de prejuízo para a parte. Lei 9.099/95 Art. 2º O processo orientar-se-á pelos critérios da oralidade, simplicidade, informalidade, economia processual e celeridade, buscando, sempre que possível, a conciliação ou a transação. Os elementos previstos no art. 2º representam aquilo que a doutrina identifica como princípios fundamentais dos Juizados Especiais Princípio da oralidade O princípio da oralidade consiste na prevalência da palavra oral sobre a forma escrita. Processo oral é aquele que oferece às partes meios eficazes para praticarem os atos processuais por meio da palavra falada, ainda que esses atos tenham que ser registrados por escrito. Nos Juizados Especiais, a oralidade estende-se por todo o rito sumaríssimo. Desde a petição inicial até a prolação da sentença, os atos mais importantes do processo podem ser praticados pela palavra falada. No processo oral o uso da palavra falada não é, via de regra, uma obrigação uma vez que pode ser dispensada pelas partes, quando lhes for conveniente, ou pelo juiz, quando julgar necessário e seguro. Entretanto, em algumas situações a oralidade é imperativa, para permitir o funcionamento do procedimento especial. Lei 9.099/95 Art. 14. O processo instaurar-se-á com a apresentação do pedido, escrito ou oral, à Secretaria do Juizado. Art. 29. Serão decididos de plano todos os incidentes que possam interferir no regular prosseguimento da audiência. As demais questões serão decididas na sentença. Parágrafo único. Sobre os documentos apresentados por uma das partes, manifestar-se-á imediatamente a parte contrária, sem interrupção da audiência. Quatro aspectos podem ser associados ao chamado processo oral: a) a concentração dos atos processuais; b) a identidade física do juiz; c) a irrecorribilidade em separado das decisões interlocutórias; d) a imediação. A concentração dos atos processuais A concentração se manifesta pela proximidade dos atos processuais. Representa uma decorrência lógica da oralidade, pois, se tais atos forem praticados de forma escalonada ao longo do procedimento, o uso da palavra oral perde seu sentido. Se o procedimento for muito fracionado, sem a documentação tradicional, quando for o momento de se proferir a sentença, elementos importantes que foram expressos por meio da palavra falada poderão ser perdidos. Lei 9.099/95 Art. 28. Na audiência de instrução e julgamento serão ouvidas as partes, colhida a prova e, em seguida, proferida a sentença. Art. 29. Serão decididos de plano todos os incidentes que possam interferir no regular prosseguimento da audiência. As demais questões serão decididas na sentença. (...) Art. 33. Todas as provas serão produzidas na audiência de instrução e julgamento, ainda que não requeridas previamente, podendo o Juiz limitar ou excluir as que considerar excessivas, impertinentes ou protelatórias. A identidade física do juiz A identidade física do juiz manifesta-se na pessoalidade de condução da audiência pelo mesmo magistrado, do início ao fim da instrução, até a prolação da sentença. Para que as partes possam se sentir confiantes em usar a palavra falada, é preciso garantir que o juiz que realizar a sua coleta ficará vinculado para proferir o julgamento da causa. Por isso, a identidade física do juiz é um componente tão importante da oralidade. A identidade física do juiz pode ser extraída da estrutura procedimental prevista na Lei 9.099/1995 como um princípio implícito. Neste sentido, por exemplo, a Lei estabelece que o juiz deve sentenciar ao final da audiência de instrução e julgamento (art. 28), onde as partes devem se manifestar e a prova deve ser produzida (art. 33). Assim, se essa determinação for cumprida, a identidade física do juiz estará assegurada. A irrecorribilidade em separado das decisões interlocutórias A irrecorribilidade imediata das decisões interlocutórias passou a figurar como uma característica própria da oralidade, voltada para evitar que discussões incidentais possam comprometer a utilização da palavra falada. Com isso, em tese, as decisões interlocutórias proferidas nos Juizados Especiais são tidas como irrecorríveis em separado. O imediatismo A mediação manifesta-se pelo imediato contato do juiz com as partes e as provas. Trata-se do dever que tem o juiz de coletar diretamente as provas, em contato com as partes, seus representantes, testemunhas e peritos, visceralmente relacionado à identidade física do juiz. Neste sentido, diz o art. 28 que o debate entre as partes e a produção da prova serão feitos na audiência de instrução e julgamento, perante o juiz. PRINCÍPIO DA SIMPLICIDADE Toda atividade desenvolvida nos Juizados Especiais deve ser externada de modo a ser bem compreendida pelas partes, especialmente aquelas desacompanhadas de advogado. Lei 9.099/95: Art. 14. O processo instaurar-se-á com a apresentação do pedido, escrito ou oral, à Secretaria do Juizado. § 1º Do pedido constarão, de forma simples e em linguagem acessível: (...) O princípio da simplicidade seria um corolário do princípio democrático, buscando aproximar a população e os jurisdicionados da atividade judicial. PRINCÍPIO DA INFORMALIDADE A informalidade jurídica deve ser entendida como a falta de regras específicas sobre a forma de um componente do universo jurídico. O direito brasileiro adotou a diretriz segundo a qual as manifestações de vontade não têm forma predeterminada, exceto quando a lei assim estabelecer (arts. 104, III, e 107 do CC e 188 do CPC). A cultura jurídica nacional é profundamente impregnada pela formalidade. existem formas que são essenciais (integrantes do conteúdo do ato) e formas não essenciais (circunstanciais ao conteúdo do ato) O princípio da informalidade pode ser definido como a busca pela eliminação das formas não essenciais do ato. Foram inseridos na Lei 9.099/1995 dois princípios diretamente relacionados à informalidade: o princípio da instrumentalidade das formas (art. 13, caput) e o princípio do prejuízo (art. 13, § 1º). O princípio do prejuízo estabelece que a declaração da nulidade de um ato dependerá da demonstração do correspondente prejuízo (não há nulidade sem prejuízo) O princípio da instrumentalidade, que o ato processual é válido, ainda que praticado de forma diversa daquela prevista em lei, desde que atinja a sua finalidade. Assim, os atos processuais nos Juizados Especiais poderão ser praticados sem a observância das formas não essenciais, desde que atinjam seus objetivos, sem causar prejuízo às partes. Le 9.099/95: Art. 13. Os atos processuais serão válidos sempre que preencherem as finalidades para as quais forem realizados, atendidos os critérios indicados no art. 2º desta Lei. § 1º Não se pronunciará qualquer nulidade sem quetenha havido prejuízo. Le 9.099/95: Art. 18. A citação far-se-á: (...) III - sendo necessário, por oficial de justiça, independentemente de mandado ou carta precatória. Art. 19. As intimações serão feitas na forma prevista para citação, ou por qualquer outro meio idôneo de comunicação. Art. 38. A sentença mencionará os elementos de convicção do Juiz, com breve resumo dos fatos relevantes ocorridos em audiência, dispensado o relatório. Art. 46. O julgamento em segunda instância constará apenas da ata, com a indicação suficiente do processo, fundamentação sucinta e parte dispositiva. Se a sentença for confirmada pelos próprios fundamentos, a súmula do julgamento servirá de acórdão. PRINCÍPIO DA ECONOMIA PROCESSUAL O princípio da economia processual pode ser definido como a busca pela racionalidade das atividades processuais, para obter o maior número de resultados com a realização do menor número de atos. A toda evidência, o princípio da economia processual está diretamente ligado ao aproveitamento dos atos processuais. Deve-se buscar extrair o máximo de utilidade dos atos processuais, evitando o descarte de um ato processual defeituoso, se dele puder ser extraído algum resultado. Desse modo, analisando o texto da Lei dos Juizados Especiais, é possível identificar em diversos pontos a marca da economia processual, como, por exemplo, na possibilidade de realização imediata da audiência de conciliação (art. 17), na formulação de pedido contraposto na contestação (art. 31), na previsão de intimação da sentença na própria sessão de julgamento (art. 52, III) etc. Lei 9.099/95 Art. 17. Comparecendo inicialmente ambas as partes, instaurar-se-á, desde logo, a sessão de conciliação, dispensados o registro prévio de pedido e a citação. Parágrafo único. Havendo pedidos contrapostos, poderá ser dispensada a contestação formal e ambos serão apreciados na mesma sentença. Art. 31. Não se admitirá a reconvenção. É lícito ao réu, na contestação, formular pedido em seu favor, nos limites do art. 3º desta Lei, desde que fundado nos mesmos fatos que constituem objeto da controvérsia. Art. 52. A execução da sentença processar-se-á no próprio Juizado, aplicando-se, no que couber, o disposto no Código de Processo Civil, com as seguintes alterações: III - a intimação da sentença será feita, sempre que possível, na própria audiência em que for proferida. Nessa intimação, o vencido será instado a cumprir a sentença tão logo ocorra seu trânsito em julgado, e advertido dos efeitos do seu descumprimento (inciso V); PRINCÍPIO DA CELERIDADE A celeridade se caracteriza pela rápida e eficiente prestação da tutela jurisdicional, observando a segurança jurídica e a ampla defesa. O processo, em geral, deve se equilibrar sobre dois valores: a rapidez e a segurança. Todo processo precisa ter um tempo de maturação, pois é esse tempo que respalda e legitima a decisão proferida nele. Por outro lado, a demora processual, além de não produzir uma decisão mais justa, ainda coloca em risco o próprio bem jurídico deduzido em juízo. A lentidão processual gera descrédito para o Poder Judiciário e aumenta o número de processos em tramitação. O princípio da celeridade apregoa que, sempre que possível, os atos processuais devem ser praticados de forma a permitir o andamento mais rápido do processo, quando a questão em julgamento não demandar uma proteção especial do ordenamento jurídico. O PRINCÍPIO DA BUSCA PELA SOLUÇÃO CONSENSUAL DOS CONFLITOS Lei 9.099/95: Art. 2º O processo orientar-se-á pelos critérios da oralidade, simplicidade, informalidade, economia processual e celeridade, buscando, sempre que possível, a conciliação ou a transação. A Lei 9.099 previu uma audiência dedicada para a autocomposição, tanto no procedimento sumaríssimo (art. 21), como no procedimento executivo (art. 53); previu severas sanções na hipótese de as partes deixarem de comparecer às audiências (arts. 20, 51, § 2º, e 53, § 1º); tornou irrecorrível a sentença homologatória de acordo (art. 41) e permitiu aos interessados a possibilidade de levarem à homologação os acordos celebrados extrajudicialmente (art. 57). conciliação Lei 9.099/95: Art. 2º O processo orientar-se-á pelos critérios da oralidade, simplicidade, informalidade, economia processual e celeridade, buscando, sempre que possível, a conciliação ou a transação. Nos Juizados Especiais deverão ser envidados todos os esforços para promover a conciliação entre as partes, mirando, preferencialmente, na resolução marcada pela realização de concessões recíprocas (transação). A Lei 9.099/1995, visando estimular a transação, prevê expressamente que nas audiências de conciliação ambas as partes podem exceder o teto de 40 salários mínimos ao celebrar um acordo (art. 3º, § 3º). mediação Na mediação, a busca da composição é conduzida por um terceiro imparcial, chamado de mediador, que auxilia as partes a restabelecer o diálogo e a construir um entendimento sobre a questão. A atuação do mediador não se confunde com a do conciliador, embora ambas as técnicas sejam consideradas autocompositivas e possam ser aplicadas num mesmo caso arbitragem A arbitragem, também prevista pela Lei 9.099/1995 (arts. 24 ao 26), é caracterizada pela intervenção de um terceiro imparcial – o árbitro –, que recebe poderes das partes em conflito para analisar e solucionar a questão conflituosa. Diferentemente da conciliação e da mediação, na arbitragem as partes em conflito têm que se submeter à solução apresentada pelo árbitro. Por isso, a arbitragem é considerada uma técnica de heterocomposição. image2.png image3.png image4.png image5.png image6.png image7.png image1.png