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Falei para vocês que 70% dos exames são exames em pessoas vivas e geralmente é trauma. Vocês têm que conhecer muito bem os traumas para saber quais são os instrumentos que produzem as lesões e saber as repercussões desses traumas, as repercussões que esses traumas podem trazer para o corpo que são as lesões corporais. Traumatologia é o ramo da medicina legal que é responsável por estudar os traumas e suas consequências jurídicas. O trauma é a ação de uma energia capaz de produzir uma lesão, ou seja, o trauma é uma ação da energia vulnerante e a energia vulnerante são das mais variáveis espécies, tem energia vulnerante mecânica, tem energia vulnerante elétrica, energia vulnerante de calor, de pressão etc. → Tudo isso produz lesões, o resultado da ação da energia vulnerante é a lesão. Então, a energia vulnerante pode ser física, química, biológica, mista. Energia vulnerante física, por exemplo, é a mecânica, térmica, elétrica, sonora, barométrica, luminosa, radiante → isso tudo produz lesão. ✓ A eletricidade (natural ou artificial) produz lesão. ✓ A térmica, o calor produz lesão como as queimaduras, os mais variados casos de queimaduras. ✓ A pressão sonora dar a perda auditiva induzida por ruídos ocupacionais. ✓ A barométrica, a diferença de pressão, a pressão alta, ou seja, quando o cara mergulha e a pressão baixa, quando o cara sobe uma determinada montanha pode sofrer algumas lesões corpóreas. Vamos nos ater da energia física mecânica que é a energia do movimento. Falaremos primeiro da energia física mecânica. Falei para vocês que tem vários tipos de energias vulnerantes, a combinação entre elas também. Porém, vamos nos ater a energia vulnerável mecânica, que é a energia do movimento. Nessa energia do movimento, a gente vai ter que considerar o objeto, que é qualquer produto que foi manufaturado pelo homem ou não. Quando a gente dar uma determinada função a um objeto, eu tenho o instrumento. As lesões podem ser provocadas por movimentos desse objeto que tem uma determinada finalidade ou então as lesões podem ser provocadas pelo próprio agente vulnerante sem passar pelo objeto, sem ser a energia transmitida pelo objeto. ✓ Por exemplo, um agente vulnerante pode produzir uma lesão, um trauma diretamente, por exemplo, o fogo, você não precisa de um objeto interposto para produzir a lesão. Quando é que vai ter um objeto interposto para produzir a lesão? Quando você tem uma barra quente, água, mas o próprio agente vulnerante pode produzir uma lesão. Agora, posso ter um agente vulnerante em si associado a força humana com um objeto e aí se eu pegar o agente vulnerante, um objeto associado a força humana, esse objeto passa a ser um instrumento e esse instrumento pode ser a lesão. ✓ Posso pegar uma madeira qualquer, eu pego a minha força do movimento, essa energia do movimento, pego essa madeira e taco na cabeça de uma pessoa. Aquela madeira passou de objeto, passa a ser um instrumento porque quando você imprime uma determinada funcionalidade a um objeto, ele tem o nome de instrumento, ou seja, ele passou a ser um cacete e se eu bater na cabeça de alguém vai provocar uma lesão. Então, o agente vulnerante pode agir por si só e produzir uma lesão ou ele pode agir através da força humana, através de um objeto que vai receber a ação da força humana e consequentemente produzir a lesão. ENERGIA FÍSICA MECÂNICA Quando está falando de energia mecânica, energia do movimento, o instrumento pode ir de encontro ao corpo, por exemplo, eu dar um tapa na pessoa, a minha mão está indo para o rosto da pessoa, então a ação foi ativa, foi um meio ativo. ✓ Se eu dou um tapa em uma pessoa, a cara está parada, mas a minha mão (o instrumento) está em movimento e se o instrumento está em movimento, eu chamo de meio ativo. Às vezes o instrumento que está produzindo a lesão está parado e o corpo é quem vai de encontro ao instrumento que está parado. ✓ Uma precipitação, o cara está lá encima do prédio e se joga, então o corpo que está em movimento, o instrumento, que é o chão, está parado, então é um meio passivo. Quando tanto o instrumento quanto o corpo estão em movimento, eu tenho um meio misto. ✓ Por exemplo, o rapaz está movimentando a cabeça no boxe, e o outro dá um tapa nele, ali o corpo atua sobre o instrumento e o instrumento sobre o corpo. Pergunta: “Professor, se a vítima se joga em cima de uma faca, considerando que não tem força humana, mesmo assim consideramos que é um instrumento?” O meio é passivo, a faca está parada. A pessoa se joga em cima da faca, mas a faca não deixa de ser instrumento, mesmo se não tiver força humana. FÓRMULAS IMPORTANTES PROVENIENTES DA ENERGIA VULNERANTE FÍSICA MECÂNICA Existem 2 grandezas, que quando se fala de energia mecânica, não se podem esquecer. É a energia cinética e a pressão. Energia cinética é massa x (velocidade)² /2. ✓ À medida que aumenta a energia cinética, aumenta o poder de penetração de um determinado corpo e aumenta a lesão. ✓ Exemplo: um projétil de arma de fogo (de um revólver). Ele tem uma massa, tem uma velocidade e vai ter uma energia cinética x. o Agora se eu atirar numa uma pistola, com o mesmo projétil que tem uma mesma massa, o projétil vai sair com uma velocidade 2 a 3 vezes mais rápida de que com o revólver. A pistola é diferente do revólver. o Se você aumenta a velocidade, o que acontece com a energia cinética? Ela eleva ao quadrado. o Se uma velocidade é x no revólver e é 2x na pistola, a energia cinética é multiplicada em 4 vezes. o Portanto, o estrago do projétil que sai na pistola vai ser muito maior do que no revólver. o Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Ocorre uma transferência de energia cinética da arma para o projétil, do projétil para o alvo. Por isso, o estrago da pistola é muito maior que do revólver. o A energia cinética maior, causa um estrago cada vez maior. o Vou dar um exemplo: um tiro de fuzil, a bala entra bem pequenininho e sai um “rombo”. o Quanto maior a velocidade, maior a energia cinética, maior o estrago. Quanto maior a massa, maior a energia cinética, e maior o estrago. Outra grandeza que é bastante importante, é a questão da pressão. A pressão é a força sobre a área. ✓ Exemplo: as mulheres gostam de andar com o salto “Luis XVI”, aquele salto alto bem fininho. Se eu pegar um salto “Luis XVI”, e bater com a força da queda do braço na cabeça de alguém, ela vai provocar uma lesão X. Se eu pegar um sapato de um homem e bater com a mesma força, de queda do braço na cabeça de uma pessoa. o Qual é a que vai fazer mais estrago? O salto luis XVI ou o sapato do homem? o Pressão é força sobre superfície: a força é a queda do braço. o A superfície, se ele for considerar a área do salto, a superfície que vai bater na cabeça do homem é bem pequenininha, vou ter uma pressão x. o Agora se eu pegar um solado do sapato de um homem, a área do solado é bem maior, portanto, a pressão vai ser bem menos que a pressão exercida pelo salto. o Portanto, se você diminui a superfície de contato, a pressão vai ser muito maior, e o estrago, consequentemente, vai ser maior também. Essas duas fórmulas são bastante importantes! AGENTES VULNERANTES E LESÕES DE ORDEM MECÂNICA As energias físicas, mecânicas são: perfurantes, cortantes, contundentes, pérfuro -cortante, perfuro-contundente e corto-contundente → São essas energias que vocês vão entender. • É aquele que tem ponta! • Qual o mecanismo de ação de um instrumento perfurante? Pressão sobre determinada área. • Por exemplo, uma agulha → a agulha, você faz uma pressão e ela afasta a linha de força da pele, quando vocêtira a agulha, ela não rasga nada, não fica nem um buraquinho, ela só afasta a linha de força da pele e depois a pele volta. • São instrumentos que não tem ponta, mas tem gume! • Gume é aquela parte que corta, tipo faca. • Exemplo de um instrumento que só tem gume, mas não tem ponta: Gillette. • Qual o mecanismo de ação dos instrumentos cortantes? Deslizamento sobre determinada linha, se você for cortar com a Gillette, você desliza a Gillette sobre determinada linha (vertical, horizontal ou oblíqua). • Eles não têm ponta, nem gume. • Eles têm uma superfície plana ou romba. • Como é o mecanismo de ação de instrumentos contundentes? Pressão sobre determinada área. • Exemplo: o cassetete → ele não tem ponta nem gume, mas ele age sobre pressão. Pressão na cabeça, nas pernas de alguém (pressão, choque, esmagamento). • Instrumento que tem ponta e tem gume. • Age sobre pressão e deslizamento. • Exemplo: faca → ela corta e perfura • Tem ponta, e a ponta é contundente. Como assim? Ponta romba! • A ponta por si só, não perfura nada. É necessário implementar alta energia para aquela ponta perfurar. • Exemplo: projétil de arma de fogo → se você pegar uma bala, a ponta dela é romba, ela não fura nada. Se você imprimir alta energia, ela vai penetrar na cabeça de alguém. • Portanto, pérfuro-contundente, o instrumento tem ponta, ela só não é aguda a ponto de penetrar à pressão da força humana, é necessária alta energia. • Tem gume, mas o gume não é afiado, não corta nada. • Exemplo: enxada, facão, machado, guilhotina. • Você pode pegar um machado e tentar cortar uma carne, não corta porque é cego. O gume do machado, da enxada, é cego. Porém, se você imprimir uma alta pressão sobre determinada linha você corta a carne. Apenas o deslizamento em si, não é capaz de fazer o machado cortar uma carne. Cada instrumento desses, vai produzir uma lesão e essas lesões têm nome específico. O mesmo instrumento (instrumento pérfuro-cortante, como a faca) pode fazer lesões contusas. ✓ Como assim? Ele não vai agir com sua forma típica. ✓ Na faca, a forma típica é dar pressão e deslizamento (perfurar e cortar), mas você pode bater em uma pessoa com o lado ou o cabo da faca (sem ser o gume, a lateral da faca). ✓ Quando você bate com o lado da faca, ou com o cabo, você tem uma ação atípica de um instrumento. ✓ O instrumento vai produzir uma lesão contusa, ao invés de incisa ou punctória. ✓ Isso é importante porque, às vezes, chega a paciente acusando alguém de ter “furado” com a faca, mas não tem nenhuma lesão punctória ou cortante, mas tem uma equimose, a marca da Tramontina. Foi uma ação atípica, contusa, de um instrumento perfuro-cortante. Essas lesões têm nome específico. ▪ Lesão de instrumentos perfurantes ou punctórios: lesão punctória. ▪ Lesão de instrumentos cortantes: lesão incisa. ▪ Instrumentos contundentes: lesão contusa. ▪ Instrumentos pérfuro - cortantes: lesão perfuro-incisa. ▪ Instrumentos pérfuro - contundentes: lesão perfuro-contusa. ▪ Instrumentos corto - contundente: lesão corto-contusa. CAMADAS DA PELE Quando falamos de lesão, temos que entender as camadas da pele. Tem a epiderme, que é a camada mais externa, e a derme que é a camada mais interna. ✓ A derme é mais irrigada, base de inserção dos pelos, glândulas sudoríparas, glândulas sebáceas. Portanto, a derme é bem rica. ✓ A epiderme é que é formada até por células mortas. Quando a gente bate na pele de alguém, vai ocorrer na derme, uma série de reações: é a Tríplice de Reações de Lewis. ✓ Vai ocorrer vasodilatação → quando ocorre vasodilatação, os vasos se dilatam, vai ocorrer um pequeno extravasamento de plasma. ✓ Vai ocorrer extravasamento de plasma, porque os vasos tem poros, e pela transparência da epiderme, é possível visualizar uma vermelhidão, ocorre uma dilatação da pele, ou seja, formação de edema, além de eritema, rubor, calor → chamamos de Tríplice Reação de Lewis. ✓ Essa reação só tem quem é “vivo”. Se você dar um tapa no morto, e ele ficar corado, é porque ele estava era vivo, não estava morto. ✓ Isso é importante para quando encontramos lesão no cadáver, como equimose, ou rubefação (lesão de natureza leve, provocada por uma ação contundente, em decorrência da vasodilatação dos vasos sanguíneos locais), ou seja, lesões provocadas quando ainda vivo porque morto não tem a Tríplice Reação de Lewis. A epiderme é formada por células mortas, de maneira que, lesão que são localizadas na epiderme, uma arranhadura por exemplo, é chamada de escoriação ✓ Escoriação é considerada até a primeira camada da derme, quando ainda não tem vasos mais calibrosos. No entanto, qualquer lesão, produzida por qualquer tipo de instrumento (perfurante, etc.) que chega na derme, eu chamo de ferida (camadas mais profundas, presença de vasos, sangramento mais calibroso). Então vamos ter as feridas contusas, as punctórias, por exemplo. INSTRUMENTOS PERFURANTE O instrumento perfurante, tem como mecanismo de ação sobre um determinado ponto exercendo pressão (não há corte, ele afasta as linhas de força). ✓ O corpo humano tem uma série de linhas de força → é por isso que quando vai fazer sutura tem que conhece-las para não deixar a cicatriz deformante. Exemplos: agulha, instrumento cilíndrico, cone, picador de gelo (médio calibre) → Resultando em feridas puntiformes ou punctórias. Na imagem, a criança foi perfurada com um anzol. Quando insere instrumento perfurante numa linha de força, por exemplo, uma agulha (ela afasta, mas quando retirada, colaba), ou seja, não corta nada, não será visto nenhum furo. Os presidiários fazem instrumentos perfurantes caseiros com os vergalhões das celas, e afinam a ponta, para usar para matar o oponente, eles chamam esse instrumento de “chucho”. Existem três leis que não podemos esquecer quando se fala de instrumento perfurante, que é a lei de Filhos e a de Langer. A primeira Lei de Filhos diz o seguinte: os instrumentos perfurantes de até médio calibre quando atuam numa determinada região que tenha a mesma linha de força, elas são semelhantes. Ou seja, a primeira Lei de Filhos é a Lei da semelhança, e a segunda Lei de Filhos é a Lei do paralelismo. Ou seja, são paralelas entre si. E a Lei de Langer, diz o seguinte, quando um instrumento perfurante age no ponto de encontro das linhas de força, vai ter um aspecto de forma de seta, ou seja, porque as linhas de força vão puxar as bordas da ferida, ficando assim na forma de seta (polimórfica). Ou seja, Lei de Langer é a Lei do Polimorfismo. No peitoral direito, é possível observar perfurações SEMELHANTES e PARALELAS. Qual a conclusão? Foi produzido por instrumento perfurante de até médio calibre. A linha de força foi aberta, sem corte, onde ficaram com a conformação acima. Já no peitoral esquerdo, é possível visualizar lesões SEMELHANTES, MAS NÃO OBEDECE AO MESMO SENTIDO. Qual a conclusão? O instrumento cortou a linha de força não foi um instrumento cortante, foi instrumento com gume que fez o corte. Pode-se, então, dizer que quando são instrumentos perfurantes, as lesões são em casa de botão (lesões em botoeira, entreaberta), e as lesões vão ser semelhantese paralelas, seguindo as linhas de força da região (no caso do peitoral, são linhas obliquas). Se for feito por uma faca, por exemplo, o gume da faca corta a linha de força, não segue a linha de força. As lesões podem até ser semelhantes, mas não obedecem ao mesmo sentido (o agressor não segue o mesmo sentido ao dar várias facadas). Então, quando existir lesões desse formato, a única certeza, é que as lesões perfurantes/punctórias (que são até de médio calibre), elas têm o mesmo sentido e são paralelas quando aplicadas na mesma linha de força. Agora se forem feitas no ponto de encontro da linha de força, como no esterno, região bregmática, glabela... se forem aí as bordas vão ficar “repuxadas”. Então, haverá um polimorfismo (parecido com a ponta de uma seta, uma estrela), as linhas de força vão puxar as bordas dessa lesão (Lei de Langer). CORTANTE Quando se trata de ferimento CORTANTE, produzida pelo gume da faca ou gilete, que possui mecanismo de ação de deslizamento em determinada linha, e ao deslizar (entra forte e sai suave), essa saída é chamada de cauda de escoriação, é que você consegue determinar o SENTIDO do golpe (se da direita para esquerda, e vice-versa). Se tiver uma cauda de escoriação maior, isso quer dizer que ali foi a saída do golpe → consegue determinar o sentido da lesão. E como pode ser visto o perfil do corte? Golpe produzido por uma gilete, olhando por cima (visão de topo), é possível visualizar uma lesão grande, profunda no meio e uma lesão menor. Pode-se dizer que o golpe foi dado da esquerda para a direita. Por causa a cauda de escoriação. Através da cauda de escoriação é possível dizer de a pessoa deu o golpe com a mão esquerda ou direita. É possível observar que o golpe foi dado com força, e o objeto retirado suavemente. “Entra com força (profundo) e sai suave!” Quando é cortado atrás do pescoço (posterior) → é degolamento. Quando é ântero-lateral (anterior e lateral) → é esgorjamento. Quando a cabeça sai → é decaptação.