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O Organon da Arte de Curar 6ª Edição SAMUEL HAHNEMANN §1 A mais elevada e única missão do médico é tornar saudáveis as pessoas doentes, o que se chama curar *. * Não se trata, porém, do engendramento de sistemas de idéias vazias e hipóteses acerca do âmago do processo vital e sobre as origens da doença no interior invisível do organismo (com que tantos médicos até hoje vêm esbanjando ambiciosamente forças e tempo) ou das inúmeras tentativas de explicar os sintomas nas doenças e suas causas imediatas, que sempre permanecem ocultas, tentativas estas envoltas em palavras incompreensíveis e estilo rebuscado de expressões abstratas que pretendem soar eruditas a fim de impressionar os ignorantes, enquanto o mundo doente clama inutilmente por auxílio. Estamos fartos deste tipo de extravagancia erudita (que tem o nome de arte medicamentosa teórica e até cátedras específicas); é hora de todo aquele que se intitula médico deixar, finalmente, de uma vez por todas, de iludir os pobres indivíduos com palavrórios, começando, então, em contrapartida, a agir, isto é, a auxiliar e curar realmente. §2 O mais alto ideal da cura é o restabelecimento rápido, suave e duradouro da saúde ou a remoção e destruição integral da doença pelo caminho mais curto, mais seguro e menos prejudicial, segundo fundamentos nitidamente compreensíveis. §3 Se o médico compreende nitidamente o que deve ser curado nas doenças, isto é, em cada caso individualmente (reconhecimento da doença, indicação) e compreende o elemento curativo dos medicamentos, isto é, em cada medicamento em particular (conhecimento das forças medicamentosas), sabendo, segundo fundamentos nítidos, adequá-lo ao que ele, sem sombra de dúvida, detectou de patológico no doente, tendo em vista o restabelecimento e objetivando, tanto a adequação do medicamento no caso, segundo seu modo de ação (escolha do meio de cura, Indicat), como também a adequação relativa ao preparo exato e à exata quantidade dos mesmos (dose certa) e ao tempo apropriado de repetição da dose; se ele conhece, enfim, os obstáculos ao restabelecimento em cada caso e sabe como afastá-los, de modo que a cura seja duradoura, saberá, então, agir racional e profundamente e será um legitimo artista da cura. §4 Ao mesmo tempo, ele é um conservador da saúde se conhecer os fatores que a perturbam e que provocam e sustentam a doença e souber afastá-los das pessoas sadias. §5 Como auxílio à cura, são úteis ao médico os pormenores acerca da causa mais provável da doença aguda, assim como os momentos mais significativos de toda a história clínica da doença crônica, a fim de descobrir sua causa fundamental, que provém, geralmente, de um miasma crônico, devendo ser levados em consideração a constituição física evidente do doente (principalmente do doente crônico), seu caráter com seu psiquismo e mente, suas ocupações, seus hábitos e modo de vida, suas relações sociais e domésticas, sua idade e função sexual etc. §6 O observador imparcial, conhecedor da ineficácia das formulações metafísicas que sua experiência não pode comprovar, até mesmo o mais perspicaz, não percebe, em cada caso individual de doença, senão alterações do corpo e da alma, reconhecíveis exteriormente através dos sentidos, sinais mórbidos, acidentes, sintomas, isto é, desvios das anteriores condições de saúde do doente atual, que ele próprio sente, que as pessoas que o rodeiam percebem e que o médico nele observa. Todos esses sinais perceptíveis representam a doença em toda sua extensão, isto é, eles formam, juntos, o verdadeiro e único quadro concebível da doença * * Portanto, não entendo: como era possível à cabeceira do doente ocorrer a idéia de procurar e querer encontrar o que devia ser curado na doença apenas no interior oculto e inacessível, sem ater-se criteriosamente aos sintomas e sem voltar-se justamente para eles durante o tratamento com a pretensão arrogante e ridícula de que se pode conhecer isso sem dedicar especial atenção a eles e restabelecer a ordem no interior invisível alterado e ainda com medicamentos (desconhecidos!); e que tal procedimento se chame curar única e racionalmente? Nas doenças, o que se manifesta aos sentidos pelos sinais não e’ para o artista da cura a própria doença? Já que a essência não material, a força vital que produz a doença nunca pode ser vista mas somente seus efeitos mórbidos há por ventura, necessidade de ver a própria doença a fim de poder cura-la? 0 que mais quer a velha escola procurar como prima causa morbi no interior oculto, enquanto rejeita e desdenha altivamente como objeto de cura a representação sensível e claramente perceptível da doença, os sintomas, que nos falam tão nitidamente? 0 que mais ela quer curar nas doenças alem disso? §7 Visto que não se pode perceber nada além de sinais mórbidos numa doença em que não há, para ser afastada, uma causa manifesta que a provoque ou sustente (causa occasionalis)*, então, deve ser também unicamente através dos sintomas, considerando algum eventual miasma e as circunstâncias acessórias (§5), que a doença pode requerer e indicar o medicamento apropriado para a sua cura - desse modo, a totalidade destes seus sintomas, este quadro do ser interior da doença que se reflete no exterior, isto é, do padecimento da força vital, deve ser o principal ou o único através do qual a doença dá a conhecer o meio de cura de que ela necessita, o único que pode determinar a escolha do meio de auxílio adequado - em suma, a totalidade2* dos sintomas deve ser, para o artista da cura, a coisa principal, senão a única que ele, em cada caso de doença, precisa conhecer e afastar através de sua arte, a fim de que a doença seja curada e transformada em saúde. * Entende-se que todo médico sensato irá primeiramente afastá-la; o mal-estar cessa, então, de um modo geral, espontaneamente. Ele removerá do quarto flores de odor forte que provocam desmaio e fenômenos histéricos; tirará da córnea o corpo estranho que causa inflamação no olho; afrouxará atadura muito apertada de um membro ferido que ameaça gangrena, substituindo-a por outra mais adequada; descobrirá a artéria ferida causadora do desmaio e fará ligaduras; procurará remover pelo vômito bagas de Belladonna ingeridas etc.; extrairá substâncias estranhas que tenham penetrado nos orifícios do corpo (nariz, garganta, ouvido, uretra, reto, vagina); triturará o cálculo vesical, abrirá o ânus imperfurado do recém-nascido etc. 2* Em todas as épocas, a velha escola, como não se conhecia, muitas vezes, outro procedimento, procurava combater com medicamentos e suprimir, se possível, um sintoma isolado entre vários - uma unilateralidade que sob o nome de tratamento sintomático, causou, com razão, desprezo geral porque, através dela não só nada se ganha como também há muitos prejuízos. Um único sintoma entre os atuais representa tão pouco a própria doença quanto um único pé representa o próprio Homem. Esse procedimento foi tanto mais condenável na medida em que se tratou tal sintoma isolado apenas através de meio oposto (portanto, somente de maneira meramente enantiopática e paliativa) mediante a qual, após breve alívio, o sintoma só se agrava mais. §8 Não se concebe nem se pode provar através de experiência alguma no mundo que, depois da remoção de todos os sintomas mórbidos e da completa essência dos fenômenos perceptíveis, reste ou possa restar algo que não seja a saúde, de modo a supor que a alteração mórbida no interior não desaparecesse * . * Quando alguém foi recuperado de sua doença por um verdadeiro artista da cura de tal modo que não reste mais nenhum sintoma da doença e todos os sinais de saúde tenham retornado de maneira duradoura, pode-se admitir, sem ofender o bom senso, que a própria doença na sua integridade mesmo assim ainda esteja presente no interior deação quase instantânea e favorável salta aos olhos) não tivesse, de algum modo, mantido sua credibilidade. §56 Com este método paliativo (antipático, enantiopático) introduzido há 17 séculos, de acordo com os ensinamentos de Galeno: contraria contrariis, os médicos podiam até agora esperar ganhar a confiança do doente, iludindo-o com uma melhora quase instantânea. Contudo, veremos, a seguir, como este tipo de tratamento em doenças de evolução não muito rápida é fundamentalmente inútil e nocivo. Sem dúvida, ele é o único tipo de tratamento dos alopatas que tem alguma relação evidente com uma parte dos sintomas da doença natural - mas, que tipo de relação! Em verdade, é somente uma relação oposta que, se não se quiser enganar o doente crônico e dele zombar, deveria ser cuidadosamente evitada* . * Tentou-se um terceiro método através da Isopatia, como é chamado, isto é, curar uma doença com o mesmo miasma que a produziu. Contudo, mesmo supondo que se pudesse fazer isso, visto que tal método só dá ao doente o miasma altamente potencializado, e, conseqüentemente alterado, ele somente ativaria a cura mediante a oposição de um "simillimum" ao "simillimum". Essa pretensão de curar mediante uma mesma força morbífica (per idem) contudo, contradiz todo bom senso humano normal e, conseqüentemente, toda experiência. O beneficio que a humanidade conheceu com o uso da vacina provavelmente forneceu àqueles que primeiramente abordaram a isopatia a vaga idéia de que a inoculação protegia contra todos os contágios futuros, como que curando por antecipação. Ambas, porém, a vacina e a varíola são apenas muito semelhantes, não sendo, de modo algum, a mesma doença. Elas são diferentes uma da outra em muitos aspectos, sobretudo na rapidez do curso e na benignidade da vacina e principalmente no fato de que esta nunca é contagiosa pela simples proximidade. Assim, mediante a expansão geral de sua inoculação, de tal maneira, pôs fim a todas as epidemias da mortífera e terrível varíola, que a geração atual já não mais possui idéia alguma daquela antiga e abominável peste variólica. Desse modo, algumas doenças próprias aos animais, por serem semelhantes, nos fornecerão no futuro, forças curativas e medicamentosas para importantes doenças humanas muito semelhantes. Mas, daí, a pretensão de curar com uma substância morbífica humana (por ex. um Psorikum retirado da sarna humana) a mesma doença humana, a sarna humana ou um mal dela decorrente, vai uma grande distância! Nada além de padecimento e agravamento da doença resulta disso. §57 Para proceder ao método antipático, tal médico comum dá, para um único sintoma incômodo da doença, entre os muitos que ele deixou de observar, um medicamento conhecido por produzir exatamente o contrário do sintoma mórbido que se pretende atenuar, do qual, pois, ele pode esperar o alívio mais rápido (paliativo), de acordo com a regra que lhe foi prescrita há mais de 15 séculos pela antiquíssima escola de medicina (contraria contrariis). Dá grandes doses de ópio para qualquer tipo de dor porque este medicamento entorpece rapidamente a sensibilidade, administrando também o mesmo medicamento para as diarréias porque detém rapidamente o movimento peristáltico do tubo intestinal, tornando-o insensível em pouco tempo; também para insônia, porque o ópio logo produz um sono profundo e letárgico; dá purgativos quando o doente sofre há muito tempo de constipação e de prisão de ventre; manda mergulhar mãos queimadas em água fria, o que parece fazer desaparecer a dor da queimadura instantaneamente e como que por encanto, graças à sua baixa temperatura; coloca o doente que se queixa de tremores de frio e deficiência de calor vital em banhos quentes que, no entanto, só momentaneamente o aquecem e manda o paciente com debilidade prolongada beber vinho, com o qual consegue reanimá-lo e aliviá-lo momentaneamente, assim empregando também outros meios terapêuticos antipáticos; porém, além destes, dispõe de um número muito reduzido, pois a arte medicamentosa comum só conhece parte da ação peculiar (primária) de poucos medicamentos. §58 Se, ao julgar esta maneira de empregar os medicamentos, eu omitisse o fato de que se procede de modo errôneo e somente sintomático (ver nota do §7), isto é, que não se trata senão de um único sintoma de maneira unilateral, portanto, de uma e pequena parte do todo, da qual não se pode, evidentemente, esperar o alívio de toda a doença, única coisa que pode desejar o paciente, - deve-se, então, por outro lado, interrogar a experiência se em um único caso particular de afecção crônica ou persistente em que se empregaram tais medicamentos antipáticos, depois de uma melhora passageira, não sobreveio uma agravação, não somente do sintoma, tão aliviado de início, mas de toda a doença. E todo observador atento concordará que, após esse ligeiro alivio antipático (de curta duração) seguir-se-á, sempre e sem exceção, uma agravação, embora o médico comum explique de outro modo ao paciente esta subseqüente agravação, atribuindo-a à nocividade da doença original que só agora se manifesta ou à formação de uma nova doença* * Por mais que os médicos até hoje tenham se descuidado da observação criteriosa, não lhes podia passar despercebida a agravação que sem dúvida ocorre após o emprego de tais paliativos. Encontra-se um exemplo marcante disso em J. H. Schulze, Diss. qua corporis humani momentanearum alterationum specimina quaedam expenduntur, Halae 1741. §28. Algo semelhante testemunha Willis, Pharm. rat. Sect. 7. Cap. 1 pág. 298. Opiata dolores atrocissimos plerumque sedant aique indolentiam procurant, eamque aliquamdiu et pro stato quodam tempore continuant, quo spatio elapso dolores mox recrudescunt et brevi ad solitam ferociam augentur. E também na pag 295: Exactis opii viribus illico redeunt tormina, nec atrocitatem suam remittunt, nisi dum ab eodem pharmaco rursus incantatur. J. Huntei; do mesmo modo, diz (sobre as doenças venéreas, pag. 13), que o vinho aumenta a energia nos enfraquecidos sem contudo conferir-lhes uma força real, voltando, a seguir a diminuição das forças na mesma proporção em que anteriormente foram estimuladas, não se obtendo vantagem alguma com isso; pelo contrário, grande parte das forças é perdida. §59 Jamais, no mundo, os sintomas importantes de uma doença persistente foram tratados com tais paliativos de ação oposta, sem que, ao fim de poucas horas, o estado contrário, a recaída, e mesmo uma evidente agravação do mal ocorressem. Para uma tendência persistente à sonolência diurna, prescrevia-se café, cujo efeito primário e a excitação; quando, porém, seu efeito terminava, a sonolência diurna aumentava. Para o freqüente despertar noturno, dava-se ópio - sem levar em conta os demais sintomas da doença - que, em virtude de sua ação primária, produzia um sono anestesiante e entorpecedor; porém, nas noites subseqüentes, a insônia se tornava ainda mais forte. Sem considerar os outros sinais mórbidos, prescrevia-se, para a diarréia crônica, justamente o ópio, cujo efeito primário é a prisão de ventre mas que, após breve melhora da diarréia, só servia para torná-la ainda mais grave. As dores violentas e freqüentes de toda espécie que podiam ser suprimidas apenas por pouco tempo com o ópio entorpecedor, voltavam, então, agravadas, muitas vezes, de modo insuportável ou sobrevinha outra afecção bem mais séria. Contra a antiga tosse noturna o médico comum não conhece nada melhor do que o ópio, cujo efeito primário é suprimir toda irritação, que talvez ceda na primeira noite mas que só se agrava mais nas noites subseqüentes, sobrevindo febre e suores noturnos, no caso de insistir-se em suprimi-la mediante doses cada vez maiores deste paliativo. Procurou-se vencer a debilidade da bexiga e sua conseqüente retenção de urina com a tintura de cantárida, que irrita as vias urinárias pelasua ação antipática contraria, pela qual se efetuou, certamente, a princípio, a eliminação da urina; a seguir, porém, a bexiga se tornou mais insensível e menos contrátil, prestes a ficar paralisada. Com grandes doses de medicamentos purgativos e sais laxativos, que estimulam os intestinos a constantes evacuações, tentou-se curar uma tendência crônica a constipação, mas seus efeitos secundários tornaram os intestinos ainda mais constipados. O médico comum pretende suprimir a debilidade crônica ministrando vinho, que, no entanto, somente possui ação estimulante em seu efeito primário, caindo, então, muito mais as forças do paciente durante sua ação secundária. Através de substâncias amargas e condimentos quentes, ele pretende fortalecer e aquecer o estômago cronicamente fraco e frio, mas a ação secundária destes paliativos, estimulantes apenas em seu efeito primário, serve 50mente para tornar o estômago ainda mais inativo. A prolongada deficiência de calor vital e sensação de frio deveriam ceder à prescrição de banhos mornos, mas os pacientes, a seguir, se tornam mais fracos e sentem mais frio. Partes do corpo muito queimadas, na verdade, encontram alívio imediato com aplicação de água fria; porém, a dor da queimadura aumenta inacreditavelmente a seguir e a inflamação atinge um grau ainda mais elevado. Mediante medicamentos provocadores de espirros, e que causam a secreção das mucosas, pretende-se curar a coriza crônica acompanhada de entupimento das fossas nasais, não reparando, porém, que, mediante tais medicamentos antagônicos, ela continua se agravando (no efeito secundário) e o nariz fica mais obstruído. Por meio das forças elétricas e do galvanismo, grandes estimulantes da atividade muscular em sua ação primária, membros cronicamente fracos e quase paralisados, foram rapidamente ativados; a conseqüência, porém (a ação secundária) foi o completo amortecimento de toda a excitabilidade muscular e total paralisia. Com sangrias, pretendeu-se remover o afluxo congestivo de sangue à cabeça e outras partes do corpo, como por exemplo, durante as palpitações, mas sempre se seguiam congestões ainda mais graves nestes órgãos, palpitações mais fortes e mais freqüentes etc. Para tratar o torpor paralisante físico e mental, a par da perda de consciência que predominam em muitos tipos de tifo, a arte medicamentosa comum não conhece nada melhor do que grandes doses de valeriana, por ser ela um dos medicamentos mais poderosos como reanimador e estimulante da faculdade motora; sua ignorância, contudo, impede de saber que esta é apenas uma ação primária e que o organismo, após a mesma, na ação secundária (antagônica) certamente cai em torpor e imobilidade ainda maiores, isto é, paralisação física e mental (mesmo morte); eles não enxergaram que foram justamente os doentes aos quais foi dada alta quantidade de valeriana, cuja ação é antipática, aqueles que mais seguramente vieram a morrer. O médico da antiga escola* se vangloria de poder reduzir por diversas horas a velocidade do pulso fraco e acelerado, em pacientes caquéticos, já com a primeira dose de digitalis purpurea, redutora da pulsação no seu efeito primário; contudo, sua velocidade logo retorna duplicada; então, repetidas e mais fortes, as doses fazem cada vez menos efeito, terminando por não mais poder diminuir a velocidade do pulso que várias vezes se torna impossível de calcular na ação secundária. O sono, apetite e força diminuem e a morte breve e inevitável, quando não sobrevém a loucura. Em uma palavra, a falsa teoria não se convence, mas a experiência nos ensina de maneira assustadora quantas vezes se agrava uma doença ou se produz algo ainda pior pela ação secundária de tais medicamentos antagônicos (antipáticos). * M. S. Hufeland em seu panfleto: die Homöopathie pag. 20. §60 Se, como é muito natural prever, resultados desagradáveis sobrevêm de tal emprego antipático dos medicamentos, o médico comum imagina, então, que a cada piora da doença é suficiente uma dose mais forte do medicamento, com o que, do mesmo modo, há um alívio apenas passageiro* e, quando quantidades cada vez maiores do paliativo se fazem necessárias, segue-se um outro mal maior ou, muitas vezes, a incurabilidade, o perigo para a vida e a morte; nunca, porém, a cura de um mal há algum tempo ou há muito tempo existente. * Todos os usuais paliativos para os sofrimentos dos doentes produzem ( como se constata aqui ), como efeito posterior, um aumento desse mesmo sofrimento e os velhos médicos precisavam, por isso, repetir a dose, elevando-a, a fim de produzir uma diminuição semelhante, que, contudo jamais era duradoura e tampouco suficiente para impedir uma reincidência mais forte do sofrimento. Enquanto Broussais, porém, há 25 anos combateu a mistura irracional de várias drogas nas receitas dos médicos, dando-lhe um fim na França (o que a humanidade de bom grado lhe agradece), introduziu, mediante seu chamado sistema fisiológico (sem atentar para a arte de curar homeopática já em expansão) um método de tratamento que minorava eficazmente o 50frimento do doente, impedindo (coisa que os outros paliativos não tinham sido capazes de fazer até então) uma reincidência recrudescida de todos os seus padecimentos de modo duradouro, aplicável a todas as doenças dos Homens. Incapaz de realmente curar as doenças com medicamentos suaves e de restabelecer a saúde, Broussais encontrou o caminho mais fácil: amenizar cada vez mais e mais as dores dos doentes às custas da destruição gradativa de suas vidas, terminando, finalmente, por extinguilas por completo; um método que, lamentavelmente satisfazia seus limitados contemporâneos. Quanto mais forças o doente ainda detém, tanto mais manifestos são seus padecimentos e mais agudamente ele sente suas dores. Lamenta-se, geme, grita por socorro cada vez mais forte, de modo que as pessoas que o rodeiam não podem chamar o médico a tempo, a fim de proporcionar-lhe alívio. Vejam só: Broussais só precisava reduzir cada vez mais e mais a força vital do doente! Quanto mais freqüentes eram as sangrias, quanto mais sanguessugas e ventosas lhe chupavam o sumo vital (pois, segundo ele, em quase todos os padecimentos, o sangue inocente e insubstituível devia ser o culpado!) mais o doente perdia a força para sentir dores ou para a agravação de seu estado através de queixas e gestos violentos. O doente parece, então, tanto mais calmo quanto mais estiver enfraquecido; os acompanhantes alegram-se com sua aparente melhora e, quando as cãibras, a sufocação, as crises de medo ou as dores ameaçam recomeçar, apressam-se em recorrer novamente aos meios que anteriormente tanto haviam calmado o doente, prenunciando-lhe nova tranqüilidade (nas doenças de longo curso e quando o doente ainda se achava um tanto fortalecido, tinha que suprimir sua alimentação, mantendo uma dieta de fome, a fim de deprimir mais eficazmente a vida e pôr um termo nas condições perturbadoras). O doente, já debilitado, sente-se incapaz de recusar ou de protestar contra os novos debilitamentos através de sangrias, sanguessugas, vesicatórios, banhos quentes etc. Cada vez menos no domínio de sua consciência já não mais percebe que a morte forçosamente irá suceder a essa diminuição e esgotamento da força vital, tantas vezes reiterados e seus parentes ficam tão entorpecidos por algum alívio do doente nas últimas horas pela perda de sangue e banhos mornos que se admiram como ele pôde nesse justo momento finar-se inesperadamente em suas mãos. "Pelo visto, por não se ter tratado, sabe Deus (!) o doente em seu leito com violência, pois a pequena picada e lanceta a cada sangria não é nem mesmo dolorosa e a solução de goma dissolvida na água, (eau de gomme, praticamente o único medicamento que Broussais permitia) que só tem sabor suave, sem efeito manifesto e também porque mesmo as sanguessugas mordem só um pouquinho, tirandoa quantidade de sangue prescrita pelo médico na maior calma, enquanto que os banhos em água morna só podem acalmar, a doença provavelmente deve ter sido fatal desde o princípio, de modo que o doente, apesar de todos os esforços do médico tinha que deixar a Terra" . Assim se consolavam os parentes e principalmente os herdeiros do saudoso defunto. Os médicos na Europa e em outros lugares admitiam esse método de tratamento de uma regra só e tão cômodo a todas doenças, pois ele lhes poupava toda reflexão (o trabalho mais penoso sob o Sol!) precisando se preocupar somente em "aplacar os remorsos da consciência e talvez se consolarem com o fato de que não eram os criadores desse sistema e desse método de cura, que todos os outros milhares de seguidores de Broussais faziam exatamente a mesma coisa e que talvez tudo terminasse mesmo com a morte, como lhes ensinava publicamente seu mestre". Assim, milhares de médicos foram miseravelmente levados (esquecidos das palavras sonoras do mais antigo dos legisladores: "não derramarás o sangue, pois a vida está no sangue") a verter com o coração frio, a cântaros, o sangue quente de seus doentes passíveis de serem curados e assim, gradativamente, privar de sua vida (à moda de Broussais) mais homens do que os que caíram impetuosamente nos campos de batalha de Napoleão. Será que era necessário, por uma disposição de Deus, que o sistema de Broussais, aniquilando pela medicina a vida de doentes curáveis precedesse a homeopatia, a fim de abrir os olhos do mundo para a única, verdadeira arte de curar, na qual todos os doentes curáveis encontram a saúde e novo alento quando essa mais difícil de todas as artes é exercida por um médico infatigável e perspicaz, de maneira pura e conscienciosa? §61 Se os médicos tivessem sido capazes de refletir sobre estes tristes resultados do emprego de medicamentos antagônicos, teriam, então, há muito tempo, descoberto a grande verdade: que é justamente, no oposto de tal tratamento antipático dos sintomas da doença que deve ser encontrado o verdadeiro e sólido método de cura: Eles teriam percebido que, assim como uma ação medicamentosa antagônica (medicamento empregado de modo antipático) tem alívio apenas temporário, agravando-se sempre após sua ação, o procedimento oposto, o emprego homeopático dos medicamentos, de acordo com a semelhança dos sintomas, deveria, necessariamente, realizar uma cura duradoura e perfeita se, neste processo, o oposto de suas grandes doses, as doses mais diminutas fossem empregadas. Mas, apesar disso, nem pelo fato de que qualquer médico jamais realizou cura duradoura de males antigos, a não ser que se encontrasse em sua prescrição, por acaso, como principal agente, um medicamento homeopático; nem, ainda, pelo fato de que toda cura rápida e perfeita que a natureza já realizou (§ 46), foi feita sempre apenas pela superveniência sobre a doença primitiva de uma doença semelhante, chegaram eles, depois de tantos séculos, a esta única verdade que conduz à cura. §62 Porém, de onde provém tal resultado pernicioso do procedimento paliativo, antipático, bem como a eficácia do procedimento oposto, o homeopático, esclarecem as seguintes experiências extraídas de várias observações e que não atraíram a atenção de ninguém antes de mim, embora tão próximas, tão evidentes e também infinitamente importantes para a obtenção da cura. §63 Toda força que atua sobre a vida, todo medicamento afeta, em maior ou menor escala, a força vital, causando certa alteração no estado de saúde do Homem por um período de tempo maior ou menor. A isto se chama ação primária. Embora produto da força vital e do poder medicamentoso, faz parte, principalmente, deste último. A esta ação, nossa força vital se esforça para opor sua própria energia. Tal ação oposta faz parte de nossa força de conservação, constituindo uma atividade automática da mesma, chamada ação secundária ou reação. §64 Durante a ação primária dos agentes mórbidos artificiais (medicamentos) sobre nosso organismo sadio, nossa força vital (como se conclui dos exemplos seguintes), parece conduzir-se de maneira meramente suscetível (receptiva, por assim dizer, passiva) e então, como que obrigada, parece permitir as sensações do poder artificial exterior que age sobre ela e que modifica seu estado de saúde, mas, então, é como se recobrasse o ânimo e, ante este efeito (ação primária) recebido: a) parece produzir um estado exatamente oposto (ação secundária, reação), no caso de tal estado existir no mesmo grau em que o efeito (ação primária) do agente morbífico artificial ou potência medicamentosa atuou sobre ela e proporcional à sua própria energia - ou, b) se não houver na natureza um estado que seja exatamente o oposto da ação primária, ela parece esforçar-se em fazer valer seu poder superior, extinguindo a alteração nela causada pelo agente exterior (através do medicamento), restabelecendo seu estado normal (ação secundária, ação curativa) §65 Exemplos de a) estão à vista de todos. A mão que é banhada em água quente, a princípio fica muito mais quente do que a outra não banhada (ação primária); porém, após ser retirada da água quente e estar completamente enxuta novamente, torna-se fria depois de algum tempo e, finalmente, muito mais fria do que a outra (ação secundária). Depois de aquecida por um intenso exercício físico (ação primária), a pessoa é atingida por frio e tremores (ação secundária). Para quem ontem se aqueceu com bastante vinho (ação primária), hoje qualquer ventinho é muito frio (ação oposta do organismo, secundária). Um braço mergulhado por tempo muito longo em água muito fria é, a princípio, muito mais pálido e frio (ação primária) do que o outro; porém, fora da água e enxuto, torna-se, a seguir, não apenas mais quente do que o outro, mas também vermelho, quente e inflamado (ação secundária, reação da força vital). Á ingestão de café forte, segue-se uma superexcitação (ação primária); porém, um grande relaxamento e sonolência (reação, ação secundária) permanecem por algum tempo se não continuarem a ser suprimidos através de mais café (paliativo, de curta duração). Após o sono profundo e entorpecedor produzido pelo ópio (ação primária), a noite seguinte será tanto mais insone (reação, ação secundária). Depois da constipação produzida pelo ópio (ação primária), segue-se a diarréia (ação secundária) e, após purgativos que irritam os intestinos, sobrevêm obstrução e constipação por vários dias (ação secundária). Assim, por toda parte, após a ação primária de uma potência capaz de, em grandes doses, transformar profundamente o estado de saúde do organismo sadio, é justamente o oposto que sempre ocorre (se, como se disse, tal fato realmente existe) na ação secundária, através de nossa força vital. §66 Contudo, na atuação de doses homeopáticas mínimas, não se faz sentir no corpo sadio, uma evidente ação secundária antagônica dos agentes perturbadores, o que é facilmente compreensível. Um pouco destes agentes produz, certamente, uma ação primária perceptível quando se está atento, mas o organismo vivo somente desencadeia um reação (ação secundária) na medida em que ela seja necessária ao restabelecimento do estado normal. §67 Essas incontestáveis verdades que se nos oferecem espontaneamente à observação na natureza e na experiência nos explicam o procedimento benéfico nas curas homeopáticas, assim como, por outro lado, demonstram o absurdo do tratamento antipático e paliativo das doenças com medicamentos de ação antagônica. * * Apenas nos casos extremamente urgentes em que o risco de vida e a morte iminente não permitem a um meio homeopático de socorro agir durante algumas horas, muitas vezes nem mesmo quartos de horas ou poucos minutos em acidentes repentinos com pessoas até então sadias, por ex., asfixia, a morte aparente causada por raios, a sufocação, congelamento,afogamento etc, é permitido e conveniente, pelo menos a princípio, reanimar a excitabilidade ( a vida física) mediante um paliativo, por ex., pequenos choques elétricos, clisteres, café forte, um meio odorífico de estimulação, aquecimento progressivo etc. Estando novamente reanimada a vida, prossegue o jogo dos órgãos vitais seu curso natural anterior, pois aqui não havia nenhuma doença + a ser removida mas sim unicamente uma obstrução e uma supressão da força vital sadia. A essa categoria pertencem vários antídotos contra envenenamentos súbitos: alcalis contra absorção de ácidos minerais, Hepar sulfuris contra os venenos metálicos, café e cânfora (e Ipecacuanha) contra envenenamentos por ópio etc. Daí não se conclui que um medicamento homeopático para um caso de doença foi mal escolhido porque um ou outro sintoma do medicamento somente corresponde de modo antipático a algum sintoma mórbido de pequena ou média intensidade. Se apenas os sintomas mais fortes, especialmente marcantes (característicos) e peculiares da doença são cobertos e amenizados, isto é, vencidos, destruídos e exterminados mediante esse mesmo medicamento com semelhança de sintomas (homeopático), os poucos sintomas opostos também desaparecerão espontaneamente após o período de ação do medicamento, sem retardar a cura de modo algum. + E contudo (mar em vão) a nova seita mesclada apela para essa observação a fim de encontrar por toda a parte nas doenças tais exceções à regra e bem comodamente introduzir seus paliativos alopáticos, bem como outros entulhos alopáticos nocivos, unicamente com a intenção de poupar o esforço de procurar o medicamento homeopático adequado para cada caso de doença e assim, bem comodamente, figurar como médicos homeopatas sem sê-lo. Seus atos são, contudo, também do mesmo teor: perniciosos. §68 Nas curas homeopáticas a experiência nos mostra que, em relação às doses extraordinariamente pequenas (§275-287) que são necessárias neste método de tratamento e que são exatamente suficientes para dominar, através da semelhança de seus sintomas, a doença natural e removê-la das sensações do princípio vital, na verdade, após a extinção desta última, às vezes deixam subsistir, ainda, a princípio, certa doença medicamentosa, isolada no organismo, porém, em virtude da extraordinária exigüidade da dose, ela é tão passageira, tão ligeira e desaparece espontaneamente tão depressa, que a força vital não precisa opor, contra esse pequeno desarranjo artificial de sua saúde, nenhuma reação mais significativa do que a necessária para conduzir o estado atual ao estado saudável (isto é, adequada ao restabelecimento completo) para o que, após a extinção do desarranjo mórbido, ela requer um pequeno esforço (§64b). §69 No método antipático de tratamento (paliativo), contudo, ocorre justamente o contrário. O sintoma medicamentoso (p.ex., a insensibilidade e entorpecimento produzidos na ação primária do ópio contra dores agudas) que o médico opõe ao sintoma mórbido, não lhe é, na verdade, estranho, nem totalmente alopático, existindo, seguramente uma relação evidente entre o sintoma medicamentoso e o mórbido, mas uma relação em sentido inverso, em que se pretende obter a eliminação do sintoma mórbido através de um sintoma medicamentoso contrário, o que, entretanto, é impossível. Sem dúvida, o medicamento alopático escolhido atinge também o mesmo ponto afetado no organismo de modo tão seguro quanto o medicamento causador dos sintomas semelhantes, escolhido homeopaticamente; o primeiro, porém, como um oposto, esconde o sintoma mórbido oposto apenas ligeiramente e o torna imperceptível ao nosso princípio vital apenas por um curto período de tempo, de modo que, no primeiro momento da ação do paliativo contrário, a força vital nada sente de desagradável em nenhum dos dois (nem no sintoma da doença nem no sintoma oposto do medicamento), visto que ambos parecem ao principio vital ter se removido mutuamente e como que se neutralizado dinamicamente (por exemplo, a força entorpecedora do ópio, a dor). A força vital, nos primeiros minutos, sente-se como se estivesse sã e não sente nem o entorpecimento provocado pelo ópio nem a dor da doença. Mas, uma vez que o sintoma medicamentoso oposto não pode (como no procedimento homeopático) ocupar o lugar do desarranjo mórbido no organismo (na sensação do princípio vital) na qualidade de doença semelhante, mais forte (artificial), não podendo, portanto, do mesmo modo que um medicamento homeopático, afetar a força vital com uma doença artificial muito semelhante, colocando-se, assim, no lugar da atual perturbação mórbida natural, o medicamento paliativo, então, como algo que, através da oposição, é totalmente diferente do distúrbio mórbido, tem que deixá-lo intacto; na verdade, ele o torna (como foi dito), a princípio, imperceptível à força vital por uma aparente neutralização dinâmica* , que em breve se extingue espontaneamente, como toda doença medicamentosa, não somente deixando atrás de si a doença tal qual era anteriormente, como também obrigando (visto que, como todos os paliativos, deve ser dado em grandes doses a fim de obter-se um alívio aparente) a força vital a produzir uma condição oposta (§ 63 a 65) a esse medicamento paliativo, isto é, o contrário da ação medicamentosa, ou seja, um estado análogo, portanto, ao da perturbação mórbida natural existente e não destruída, que foi necessariamente reforçado e agravado por esse acréscimo produzido pela força vital (reação ao paliativo)2*. O sintoma da doença (esta parte avulsa da doença), após ter cessado o efeito do paliativo, piora tanto mais quanto mais forte tenha sido sua dose. Portanto (para utilizar os mesmos exemplos), quanto maior for a dose de ópio administrada para aliviar a dor, mais esta aumenta em sua intensidade original, assim que o ópio tenha cessado o seu efeito3* * No ser humano vivo não há nenhuma neutralização constante de sensações antagônicas ou opostas como acontece no laboratório químico com substâncias que possuem propriedades opostas, onde por ex. o ácido sulfúrico e a potassa se unem formando outra entidade totalmente diferente, um sal neutro que agora já não é mais nem mesmo ácido nem alcalino, não se decompondo nem mesmo com a ação do fogo. Tais misturas e combinações íntimas, formando algo constantemente neutro e indiferente jamais ocorrem, como já foi dito, em nossos aparelhos sensitivos por ocasião de impressões dinâmicas de natureza oposta. Nesse caso, somente ocorre, a princípio, uma neutralização aparente e de remoção mútua, mas as sensações' opostas não se suspendem mutuamente de maneira duradoura. Secar-se-ão as lágrimas daquele que sofre somente por um breve momento mediante um espetáculo divertido; ele, em breve, esquece, contudo, as situações burlescas, vertendo lágrimas ainda mais abundantes. 2* Esta proposição é tão clara e no entanto foi mal compreendida e contra ela se objetou "que o paliativo em sua ação secundária, que seria então semelhante à doença em curso, deveria ser capaz de curar exatamente tão bem quanto um medicamento homeopático o faria em sua ação primaria". Contudo, não se considerou que a ação secundária nunca é um produto do medicamento, mas sempre da ação contrária da força vital do organismo. Portanto, essa ação secundária, resultante da força vital pelo emprego de um paliativo, é um estado semelhante aos sintomas da doença que o paliativo não aliviou e, que a ação contrária da força vital sobre o paliativo, portanto, aumenta ainda mais. 3* É como se, num calabouço escuro em que o prisioneiro só aos poucos e com grande dificuldade pode reconhecer os objetos à sua volta, subitamente o álcool aceso iluminasse tudo para o infeliz, de maneira consoladora e, quando cessasse essa chama, somente o rodeasse uma noite que é tanto mais negra quanto mais brilhante era a chama, tornando tudo muitomais escuro do que antes. §70 Do que, até então, foi exposto, não se pode negar: que tudo o que o médico pode descobrir de caráter realmente mórbido em doenças e que deva ser curado, consiste apenas no estado do doente, de seus padecimentos e das alterações de sua saúde, perceptíveis aos sentidos; em uma palavra, na totalidade dos sintomas por meio dos quais a doença exige o medicamento adequado para seu alívio. Em contrapartida, cada causa interna a ela imputada, cada qualidade oculta ou matéria morbífica imaginária não passam de uma vá ilusão; que esse desarranjo do estado de saúde que chamamos doença somente pode ser convertido em saúde mediante outro desarranjo da força vital por meio de medicamentos, cujo único poder curativo, por conseguinte, só pode consistir na alteração do estado de saúde do Homem, isto é, no estímulo peculiar de sintomas mórbidos e que estes são identificados com a máxima pureza e nitidez quando são experimentados no organismo sadio. que, de acordo com todas as experiências, medicamentos capazes de produzir no indivíduo sadio um estado mórbido diferente, estranho à doença a ser curada (sintomas mórbidos dessemelhantes) nunca podem curar uma doença natural e dessemelhante em relação a eles (portanto, o tratamento alopático nunca o fará) e que, na própria natureza jamais ocorre uma cura na qual uma doença existente possa ser eliminada, destruída e curada por uma segunda, dessemelhante, acrescentada à outra, por mais forte que seja a nova doença. que, além disso, segundo todas as experiências, através de medicamentos que têm a tendência de produzir no indivíduo sadio um sintoma mórbido artificial oposto para um só sintoma a ser curado, somente haverá um breve alívio passageiro, nunca, porém, a cura de um antigo padecimento, ocorrendo antes, sempre a posterior agravação e que, em uma palavra, esse método antipático e somente paliativo em doenças graves e de longa duração é absolutamente inoportuno. que, finalmente, o terceiro tratamento e o único que ainda é possível (o homeopático), por meio do qual se emprega um medicamento em dose conveniente capaz de produzir os sintomas mais semelhantes possíveis no indivíduo sadio contra a totalidade dos sintomas, é o único método benéfico, através do qual as doenças, na qualidade de meros estímulos dinâmicos de perturbação, mediante estímulo semelhante e mais forte do medicamento homeopático na sensação do principio vital, são dominadas e extintas natural, completa e duradouramente, tendo que deixar de existir. A própria natureza, livre, também vai à frente com seus exemplos nos acontecimentos casuais, quando acrescenta a uma doença antiga uma nova e semelhante, por meio da qual a antiga é aniquilada e curada, rápida e permanentemente. §71 Já que não há mais dúvidas de que as doenças do Homem consistem apenas em grupos de certos sintomas e mediante uma substância medicamentosa, porém capaz de originar artificialmente sintomas mórbidos semelhantes, são destruídas e transformadas em saúde (sobre o que todo o processo de uma verdadeira cura se baseia), a realização da cura, portanto limitar- se-á aos três seguintes pontos: I - Como o médico investiga o que ele precisa saber com vistas à obtenção da cura da doença? II- Como ele investiga os devidos instrumentos para a cura das doenças naturais, isto é, a potência morbífica dos medicamentos? III- Como ele emprega estas potências morbíficas artificiais (medicamentos) para a cura das doenças naturais, da maneira mais conveniente? §72 No que concerne ao primeiro ponto, as seguintes considerações servirão, antes de tudo, de uma visão geral. As doenças dos Homens são, de um lado, processos mórbidos; tais processos tendem a completar seu curso de um modo mais ou menos moderado, num curto período de tempo - são as chamadas doenças agudas; por outro lado, são doenças que, insignificantes e muitas vezes imperceptíveis a princípio, afetam dinamicamente o organismo vivo, cada uma à sua própria maneira, afastando-o gradativamente do estado normal de saúde de tal modo que a energia vital, chamada força vital (principio vital), destinada a preservar a saúde, somente lhes opõe, no início e ao longo de seu curso, uma imperfeita resistência, inadequada e inútil, sendo, porém, incapaz, através de sua própria força, de destruir a doença por si mesma, tendo que sofrer, impotente, a sua expansão e a sua própria transformação cada vez mais anormal, até a destruição final do organismo; são as chamadas doenças crônicas. Provêm do contágio dinâmico através de um miasma crônico. §73 Em relação às doenças, diremos que elas são, por um lado, doenças que atacam os Homens individualmente, através de influências prejudiciais às quais, precisamente este indivíduo já se expusera especificamente. Excessos na alimentação ou sua deficiência, impressões físicas intensas, resfriamentos ou aquecimentos, fadigas, esforços etc, ou excitações psíquicas, emoções etc., são causas de tais febres agudas; no fundo, porém, são, na maioria das vezes, somente a explosão passageira da psora latente que retorna espontaneamente ao seu estado de adormecimento se as doenças agudas não foram muito violentas e se foram prontamente afastadas. Por outro lado, são de tal espécie que atacam diversas pessoas ao mesmo tempo, aqui e ali (esporadicamente), por ocasião de influências meteóricas ou telúricas e agentes nocivos, sendo que, somente alguns são suscetíveis de ser por elas afetados ao mesmo tempo; próximas a estas, estão aquelas que atacam epidemicamente muitas pessoas por semelhantes causas e com padecimentos muito semelhantes, habitualmente se tornando contagiosas quando envolvem massas humanas compactas. Assim, surgem febres* de natureza peculiar em cada caso e, devido à identidade da sua origem, colocam sempre os doentes em um processo mórbido idêntico que, abandonado a si mesmo, num espaço de tempo relativamente curto, opta pela morte ou pelo restabelecimento. As calamidades da guerra, as inundações e a fome, não raro as provocam e são sua origem. Por outro lado, os miasmas agudos peculiares que retornam sempre da mesma forma (dai serem conhecidos por algum nome tradicional) são aqueles que, ou atacam os Homens apenas uma vez na vida, como a varíola, o sarampo, a coqueluche, a antiga febre escarlate lisa de Sydenham2* , a caxumba etc, ou podem voltar freqüentemente de maneira bastante semelhante, como a peste do Levante, a febre amarela do litoral, a cólera asiática etc. * O médico homeopata que não é intimidado pelos preconceitos que a escola comum inventou ( a qual estabeleceu alguns poucos nomes de tais febres, além dos quais a grande natureza, por assim dizer, não era autorizada a produzir nenhuma outra, de modo a poder proceder durante seu tratamento segundo uma determinada diretriz) não reconhece os nomes febre dos cárceres, febre biliar, febre tifóide, febre de putrefação, febre nervosa ou catarral; pelo contrário, sem conferir- lhes nomes determinados, trata cada uma delas segundo sua peculiaridade. 2* Após o ano de 1801 os médicos confundiram uma espécie de "purpura miliaris" (Roodvonk) que era proveniente do ocidente, com a febre escarlate, embora possuísse sintomas totalmente diferentes. Esta encontrou seu medicamento curativo e profilático na beladona e aquela no acônito; sendo geralmente apenas esporádica, enquanto que a primeira surgia sempre de forma epidêmica. Nos últimos anos ambas parecem ter se unido aqui e ali, dando origem a uma febre eruptiva de tipo peculiar, contra a qual esses dois medicamentos isolados não mais possuem ação completamente homeopática. §74 Ás doenças crônicas devemos ainda acrescentar, infelizmente (!) aquelas universalmente espalhadas, produzidas artificialmente pelos tratamentos alopáticos e pelo emprego contínuo de medicamentos heróicos violentos em grandes e progressivas doses, peloabuso do calomelano, do sublimado corrosivo, do ungüento de mercúrio, do nitrato de prata, do iodo e seus compostos, do ópio, da valeriana, da quina e do quinino, da digital, do ácido prússico, do enxofre e ácido sulfúrico, dos purgativos durante vários anos, das sangrias* vertendo sangue aos borbotões, das sanguessugas, dos exutórios etc., pelo que, por um lado, é impiedosamente enfraquecida a força vital e, por outro, quando já não sucumbe, é anormalmente afetada, pouco a pouco (pelo abuso de cada meio de modo peculiar) de tal maneira que, a fim de preservar a vida contra tais ataques hostis e destrutivos, tem que transformar o organismo, seja retirando a excitabilidade e a sensibilidade de alguma de suas partes, seja elevando-as excessivamente ou causando dilatação ou contração, relaxamento ou endurecimento e mesmo sua total destruição, ocasionando, vez por outra, interna e externamente, alterações orgânicas falhas2* (avariando o corpo por dentro e por fora), a fim de proteger o organismo da 'completa destruição da vida por parte dos ataques hostis, constantemente renovados, de uma tal potência arrasadora. * Entre todos os métodos que foram inventados para o socorro às doenças, nenhum foi mais alopático, mais irracional e mais inadequado do que o tratamento enfraquecedor de Broussais, mediante sangrias e dieta de fome, há muitos anos difundido em grande parte da Terra. Nenhum indivíduo de bom senso pode ver nele algo de médico ou alguma ajuda medicamentosa, ao passo que os verdadeiros medicamentos, mesmo quando escolhidos às cegas e ministrados ao doente, podiam esporadicamente ser benéficos, porque, eventualmente, eram homeopáticos. Mas o raciocínio humano sadio nada mais pode esperar da sangria além de uma inevitável diminuição e encurtamento da vida. É uma ilusão lamentável e completamente infundada crer que a maioria das doenças, senão todas, são provenientes de inflamações locais. Mesmo para a verdadeira inflamação, obtém-se uma cura segura e rápida graças a medicamentos capazes de vencer dinamicamente a irritação arterial de onde ela se origina, sem a mínima perda de humores ou energia, enquanto que a sangria local, mesmo que na parte afetada, só consegue aumentar a tendência a uma reiterada inflamação no mesmo local. Da mesma forma, geralmente, é inadequado e mesmo homicida, extrair muitos litros de sangue das veias nas febres inflamatórias, quando uma pequena quantidade de medicamento adequado dissiparia, em algumas horas, juntamente com a doença, esse estado de irritação arterial que agita o sangue, antes tão tranqüilo, sem a mínima perda de humores ou energia. Uma perda de sangue tão grande é manifestamente insubstituível para a continuidade da vida, pois os órgãos destinados pelo Criador para a formação do sangue, enfraquecem-se tanto que, apesar de serem capazes de novamente produzir a mesma quantidade de sangue, não o fazem com a mesma qualidade. E quão impossível é o fato de que a fictícia pletora que se ordena eliminar por freqüentes sangrias tenha podido formar-se com tamanha rapidez, já que na hora anterior (antes do período febril), o pulso desse doente tão febril estava tão tranqüilo. Nenhum indivíduo, nenhum doente jamais tem sangue ou energia em demasia +; pelo contrário, a cada doente faltam forças , pois, de outro modo, seu princípio vital teria impedido o desenvolvimento da doença. Assim, causar ao doente, já por si só enfraquecido e sem remover-lhe a doença, que é sempre dinâmica, só podendo ser eliminada por forças dinâmicas, uma debilidade maior e mais grave que somente é concebível na imaginação, é tão irracional quanto cruel, é mera malvadeza criminosa, fundamentada em uma teoria fictícia e mentirosa. 2* Se, por fim, o doente sucumbe, o responsável por tal tratamento costuma apresentar, de modo bem astuto, aos parentes inconsoláveis, por ocasião da necropsia, essas deformações internas que provêm de sua não-arte como uma doença original incurável; ver meu livro : "die Allöopathie, ein Wort der Warnung an Kranke jeder Art." Leipz. em Baumgärtner. As obras de Anatomia patológica com ilustrações de enganosas lembranças conservam o produto de tais estragos lamentáveis. As pessoas do campo e os moradores pobres da cidade, mortos por doenças naturais, sem terem sido expostos a tais estragos mediante meios nocivos, a anátomo-patologia não costuma abrir. Contudo, jamais seriam encontradas tais deformações e iniquidades em seus cadáveres. Por ai se pode julgar o valor comprobatório dessas belas ilustrações e a integridade desses senhores escritores de livros. + O único caso possível de pletora ocorre na mulher sadia alguns dias antes de seu período menstrual no qual ela tem uma certa sensação de plenitude no útero e nos seios, sem qualquer inflamação. §75 Estes estragos (atualmente bem maiores) produzidos na saúde humana, através da arte alopática de não-curar, são, de todas as doenças crônicas, os mais tristes, os mais incuráveis e lamento que seja praticamente impossível poder descobrir ou imaginar meios de cura para elas, quando já foram levadas a atingir um certo nível. §76 Somente contra as doenças naturais o Todo Poderoso nos agraciou com o auxílio através da Homeopatia mas aqueles enfraquecimentos impiedosos, forçados durante vários anos (através do desperdício de sangue, enfraquecimento mediante sedenhos e exutórios), assim como os estragos e avarias do organismo humano, externos e internos, mediante medicamentos nocivos e tratamentos inadequados por parte de uma falsa arte, a força vital deveria remover, ela própria (com uma ajuda adequada, além disso, contra um eventual miasma crônico que possa estar oculto), se já não estiver bastante enfraquecida devido a tais atrocidades e se puder empregar vários anos nesta monstruosa empreitada, sem ser perturbada. Uma arte de curar humana que normalize cada uma das inumeráveis anormalidades cometidas tão freqüentemente pela arte alopática de não-curar, não existe nem pode existir. §77 São impropriamente chamadas de doenças os padecimentos dos indivíduos que constantemente se expõem a influências nocivas evitáveis, abusando habitualmente de bebidas ou alimentos nocivos; entregando-se a excessos de toda sorte que minam a saúde, suprimindo continuamente as necessidades básicas da vida;, vivendo em regiões insalubres, sobretudo pantanosas; residindo em porões, oficinas úmidas ou em qualquer moradia sem ventilação, privando-se de movimento e de ar puro, arruinando sua saúde mediante excessivos esforços físicos e mentais; vivendo constantes dissabores etc. Tais estados de falta de saúde, ocasionados pelas próprias pessoas, cessam espontaneamente (desde que não exista um miasma crônico no organismo) e não podem levar o nome de doenças crônicas. §78 As verdadeiras doenças crônicas naturais são aquelas provenientes de um miasma crônico; quando entregues à própria sorte, sem ser tratadas através de algum medicamento específico, continuam se intensificando e, mesmo diante do melhor regime físico e mental, atormentam o Homem até o fim de seus dias com padecimentos crescentes. Excetuando-se as doenças produzidas por tratamento médico errôneo (§74), estas são as mais numerosas e a maior calamidade do gênero humano, pois a constituição física mais robusta, o mais regrado modo de vida e a força vital de maior energia não têm condições de destruí-la.* * Durante os anos mais floridos da juventude e ao iniciar-se a menstruação regular, a par de um modo de vida benéfico à mente, ao coração e ao corpo, elas freqüentemente passam despercebidas vários anos; os afetados por elas aparentam, pois, saúde perfeita aos amigos e parentes, como se a doença neles arraigada por contágio ou hereditariedade houvesse desaparecido completamente. Contudo, nos anos seguintes, por ocasião de acontecimentos e circunstâncias adversas da vida, ela infalivelmenteressurge, desenvolvendo-se com maior rapidez e adquirindo um caráter mais grave quanto mais o princípio vital tiver sido afetado por paixões debilitantes, infortúnios e preocupações, mas, principalmente, mediante um tratamento médico inadequado. §79 Até agora, somente a sífilis era razoavelmente conhecida como uma doença crônica miasmática que, não curada, somente se extingue com a vida. A sicose (doença da verruga do figo) não curada, que a força vital igualmente não pode erradicar, não era reconhecida como doença crônica miasmática de uma espécie particular, como de fato o é, acreditando-se tê-la curado com a destruição das excrescências na pele, sem levar em consideração a persistente discrasia que ainda permanecia. §80 Incalculavelmente mais expandido e, conseqüentemente, mais importante do que os dois mencionados, é o miasma da psora, pelo qual (enquanto os dois revelam sua discrasia interior específica, um pelo cancro venéreo e o outro pelas excrescências em forma de couve-flor), também se revela, após o término da infecção interna de todo o organismo, por uma erupção cutânea peculiar, consistindo, às vezes, de pequenas vesículas acompanhadas de um insuportável prurido voluptuoso e odor peculiar, o miasma crônico monstruoso - a psora, a verdadeira causa fundamental e produtora de quase todos os demais tipos de doenças* freqüentes e incalculáveis que, com o nome de debilidade nervosa, histeria, hipocondria, mania, melancolia, demência, furor, epilepsia e convulsões de toda espécie, amolecimento dos ossos (raquitismo), escrofulose, escoliose e cifose, cárie óssea, câncer, " fungus haematodes", afecções anais, gota, hemorróidas, icterícia, cianose, hidropisia, amenorréia, hemorragia gástrica, nasal, pulmonar, da bexiga ou do útero; asma e abscesso pulmonar, impotência e esterilidade, enxaqueca, surdez, catarata e amaurose, cálculos renais, paralisia, quadros sensoriais, milhares de tipos de dores etc., figuram na patologia como doenças peculiares e isoladas. * Empreguei doze anos nisso, a fim de encontrar a fonte dessa incrivelmente abundante quantidade de afecções crônicas, de pesquisar essa grande verdade que permaneceu desconhecida de todo o mundo antigo e atual, torna-la uma certeza e, ao mesmo tempo descobrir os principais meios de cura (antipsóricos) que pudessem, na maioria dos casos enfrentar esse monstro de mil cabeças em suas variadas formas e manifestações. Apresentei minhas experiências a esse respeito no livro: Die chronischen Krankheiten (4 partes Dresd. por Arnold 1828.1830 e segunda edição em 5 volumes, por Schaub). Antes de adquirir esses conhecimentos eu apenas podia ensinar a tratar todas as doenças crônicas como entidades isoladas e peculiares, com substâncias medicamentosas cujos efeitos puros tinham sido experimentados até então em pessoas sadias, de modo que cada caso de doença crônica era tratado por meus discípulos de acordo com o grupo de sintomas aí encontrado, do mesmo modo que um tipo singular de doença, sendo freqüentemente tão bem curada que a humanidade doente podia regozijar-se ante uma riqueza já tão vasta de meios de auxílio da nova arte de curar. Que grande satisfação ela pode sentir agora que o fim almejado está tão mais próximo, pois os medicamentos homeopáticos ainda bem mais específicos, recentemente descobertos para os padecimentos crônicos oriundos da psora, assim como instruções especiais de preparo e emprego foram revelados. O verdadeiro médico, agora vai escolher entre eles, aquele cujos sintomas medicamentosos melhor correspondam homeopaticamente aos da doença crônica a ser curada e que, desse modo, provoquem quase sempre uma cura completa. §81 Em virtude desta centelha contagiosa muitíssimo antiga ter passado, gradativamente, através de milhões de organismos humanos, por centenas de gerações, havendo atingido, assim, incrível desenvolvimento, de certa forma se compreende como pôde, até agora, desdobrar-se em tantas formas mórbidas na vasta espécie humana, principalmente quando nos pomos a refletir sobre o número de circunstâncias* que contribuem para a produção desta grande diversidade de doenças crônicas (sintomas secundários da psora) e também sobre a indescritível diversidade de pessoas em relação à sua constituição física natural, já por si tão infinitamente diferente uma da outra. Não é de admirar, portanto, que tantas influências nocivas externas e internas produzam, em organismos tão diferentes, impregnados pelo miasma psórico, uma tão incontável variedade de falhas, desvios, alterações e padecimentos que até hoje têm sido apresentados pela velha patologia2* sob alguns nomes específicos, como doenças de caráter independente. * Algumas dessas causas que mudam o curso da psora, transformando-a em males crônicos, residem manifestamente, em parte no clima e no caráter peculiar e natural do lugar de moradia e em parte na educação tão irregular do corpo e da mente dos jovens no desenvolvimento negligente, excêntrico ou excessivo de ambos no seu abuso na profissão, nas condições de vida, no tipo de regime, nas paixões humanas, em seus costumes, usos e hábitos de toda sorte. 2* Quantos nomes impróprios e ambíguos que figuram ai designando condições mórbidas muitíssimo diferentes, muitas vezes semelhantes apenas num único sintoma como: malária, icterícia, hidropisia, tuberculose, leucorréia, hemorróidas, reumatismo, apoplexia, cãimbras, histeria, hipocondria, melancolia, mania, angina, paralisia etc, que são tidas como doenças de caráter fixo e invariável e que, em virtude de seu nome, são tratadas segundo uma diretriz habitual! Como se pode justificar um mesmo tratamento medicamentoso em função de um nome? E se o tratamento não deve ser sempre o mesmo, para que, então, o nome idêntico pressupondo erroneamente a adoção do mesmo tratamento? "Nihil sane in artem medicam pestiferum magis unquam irrepsit malum, quam generalis quaedeam nomina morbis imponnere usque aptare velie generalem quandam medicinam,"diz Huxharn (Op. phys. Med. Tom. 1) homem tão esclarecido quanto venerável por sua consciência sensível. E do mesmo modo queixa-se Fritze (Annalen 1. pag. 80) "de que doenças essencialmente diferentes sejam designadas pelo mesmo nome". Mesmo aquelas doenças agudas do povo que bem possivelmente podem propagar-se em cada epidemia isolada por uma substância contagiosa peculiar ainda desconhecida por nós são designadas na velha escola medicamentosa por nomes específicos, como se fossem doenças fixas já conhecidas e que sempre retornam do mesmo modo: febre tifóide, de asilo, de cárcere, de campo, de putrefação, nervosa, ou catarral etc, embora cada epidemia de tais febres migrantes se apresente cada vez como uma diferente e nova doença, jamais tendo surgido exatamente do mesmo modo, diferindo muito em seu curso bem como em vários de seus sintomas mais marcantes e em todas as suas atuais reações, cada uma delas é tão diferente da epidemia anterior com esse ou aquele nome que será preciso renegar toda exatidão lógica nas idéias se dermos a essas doenças que diferem tanto entre si, um daqueles nomes introduzidos na patologia e ainda quisermos tratá-las medicamentosamente com essa abusiva denominação. Apenas o íntegro Sydenham compreendeu isso (Oper. Cap. 2. de morb. epid. pag. 43), pois insiste na necessidade de não considerar nenhuma doença epidêmica como havendo ocorrido antes e de não tratá-la do mesmo modo que a outra, pois todas elas, não obstante muitas aparecerem sucessivamente, são muito diferentes entre si: animum admiratione percellit, quam discolor et sui plane dissimilis morborum epidemicorum facies; quae tam aperta horum morborum diversitas tum proprus ac sibi peculiaribus symptomatis tum etiam medendi ratione, quam hi ab illis disparem sibi vindicant, satis illucescit. Ex quibus constat, morbos epidemicos, utut externa quatantenus specie etsymptomatis aliquot utrisque pariter convenire paullo incautioribus videantur, re tamen ipsa, si bene adverteris animum, alienae esse admodum indolis et distare ut aera lupinis. De tudo que foi exposto fica claro que esses nomes de doenças inúteis e arbitrárias não podem ter nenhuma influência no tratamento empregado por um legítimo artista da cura, qual sabe que deve julgar e tratar as doenças não de acordo com a semelhança dos nomes de um sintoma isolado, mas sim de acordo com a essência completa de todos os sinais do estado individual de cada doente isolado, cujos padecimentos ele tem o dever de investigar cuidadosamente e nunca meramente pressupor de maneira hipotética. Contudo, quando se achar conveniente utilizar os nomes das doenças a fim de se fazer entender com poucas palavras pelas pessoas acerca de um doente, deve-se fazer uso delas somente na qualidade de nomes coletivos e dizer, por ex.: o doente tem uma espécie de São Vito, uma espécie de hidropisia, uma espécie de febre nervosa, uma espécie de malária, jamais porém (para evitar de uma vez por todas enganos causados por tais nomes): ele sofre da doença de São Vito, da febre nervosa, da hidropisia, da malária, pois certamente não existem quaisquer doenças de caráter fixo e invariável com semelhantes denominações. §82 Embora, através da descoberta desta grande fonte de males crônicos, a arte de curar tenha avançado alguns passos no conhecimento da natureza da maior parte das doenças a serem curadas e também no conhecimento dos meios de cura homeopáticos específicos, principalmente para a psora, permanece sempre para o médico homeopata o dever - tão indispensável quanto o era antes da descoberta - de uma interpretação cuidadosa dos sintomas característicos que possam ser averiguados, pois é impossível, nestas doenças, como em todas as outras, realizar uma verdadeira cura sem um estrito tratamento particular (individualização) de cada caso de doença - só que, nessa averiguação, deve-se fazer uma diferença segundo se trate de uma doença aguda de rápido desenvolvimento ou de uma doença crônica. Visto que, na doença aguda, os sintomas principais nos impressionam mais rapidamente, evidenciando-se a nossos sentidos, necessitasse de muito menos tempo para traçar o quadro patológico e de bem menos perguntas* (já que quase tudo é evidente por si) do que diante dos sintomas muito mais difíceis de descobrir, como é o caso de uma doença crônica já há vários anos em progressivo desenvolvimento. * Resulta daí que o esquema seguinte para a investigação é somente em parte aplicável às doenças agudas. §83 Este exame individualizador de um caso de doença, para o qual só darei aqui instruções gerais e do qual o observador da doença somente conserva o que for aplicável em cada caso, não requer do artista da cura mais do que imparcialidade, sentidos perfeitos, atenção na observação e fidelidade ao traçar o quadro da doença. §84 O doente se queixa do desenvolvimento de seus males; as pessoas que o rodeiam relatam suas queixas, seu comportamento e o que perceberam nele; o médico vê, ouve e observa com os demais sentidos o que há nele de alterado ou fora do comum. Escreve exatamente tudo o que o paciente e seus amigos lhe disseram, com as mesmas expressões por eles utilizadas. Se possível, permanece em silêncio deixando-os falar sem interrompê-los, a menos que se desviem para outros assuntos* . Logo no início do exame, o médico lhes pede apenas que falem devagar, a fim de que ele possa acompanhar o relato, anotando o necessário. * Cada interrupção perturba o encadeamento do pensamento do narrador, posteriormente não lhe ocorrendo de novo tudo exatamente como ele pretendia dizer a princípio. §85 A cada informação do doente ou dos acompanhantes ele passa para a outra linha a fim de que os sintomas sejam todos colocados separadamente, um abaixo do outro. Desse modo, ele pode acrescentar a cada um deles aquilo que lhe fora relatado de maneira vaga no princípio, mas que depois se torna mais claro. §86 Depois que os narradores houverem terminado de falar o que pretendiam, o médico acrescenta a cada sintoma, separadamente, informações mais precisas, averiguadas da seguinte maneira: ele lê, um por um, todos os sintomas relatados e faz perguntas específicas sobre cada um deles; p.ex.: quando ocorreu tal fato? Foi antes de usar o atual medicamento? Durante o período de uso? Ou somente alguns dias após deixar de usá-lo? Que tipo de dor, que sensação precisamente se apresentou nesta região? A dor era intermitente, isolada? Ou era contínua, ininterrupta? Por quanto tempo? A que horas do dia ou da noite e em que posição do corpo se agravava ou cessava? Em que consistia, exatamente, este ou aquele acontecimento ou circunstância descritos? (descrever com palavras claras). §87 E assim, o médico toma conhecimento dos pormenores mais precisos acerca de cada uma das informações sem, contudo, sugerir a resposta através da formulação da pergunta* ou, então, fazer com que o doente tenha que responder simplesmente sim ou não; do contrário, este será induzido a afirmar ou negar algo inverídico, incerto ou realmente existente, seja por comodismo, seja para agradar o entrevistador, devendo, obrigatoriamente, resultar dai um fal50 quadro da doença e um tratamento inadequado. * Por ex., o médico não deve perguntar: "Porventura esta ou aquela circunstância também não ocorreram?". Igualmente não se pode permitir incorrer no erro de fornecer sugestões que induzam a uma resposta ou informação falsa. §88 Se, durante estas informações espontâneas nada se mencionou em relação às várias partes ou funções do corpo ou acerca da disposição psíquica, o médico pergunta o que mais ele recorda que se relacione a estas partes e funções, assim como às condições psíquicas e mentais do doente* , usando, porém, expressões gerais, a fim de que o informante seja obrigado a se expressar mais particularmente acerca de si. * Por ex. ,Como estão as evacuações? E a eliminação de urina? Como é seu sono diurno e noturno? Como está seu psiquismo, seu humor, sua memória? Como está o apetite e a sede? Sente algum gosto na boca? Que alimentos e bebidas lhe apetecem mais? Quais os que mais o repugnam? Sente o sabor natural de cada um ou um outro gosto estranho? Como se sente após comer e beber? Tem algo a dizer sobre a cabeça, membros ou abdômen? §89 Depois que o doente, - pois é principalmente a ele que se deve dar crédito (exceto nas doenças simuladas) no que diz respeito às suas sensações - através deste depoimento espontâneo e meramente induzido, tiver fornecido ao médico informações adequadas e completado, razoavelmente, o quadro da doença é permitido sendo mesmo necessário, ao médico (quando ele achar que não está suficientemente informado) fazer perguntas mais precisas e mais particulares* . * Por ex. Qual a freqüência de suas evacuações? Qual a consistência exata das fezes? A evacuação esbranquiçada era constituída de catarro ou fezes? Sentia dores ao evacuar? Exatamente em que local e de que tipo? O que o paciente vomitou? O mau gosto da boca é pútrido, amargo, ácido ou de que tipo? Antes, durante ou depois de comer ou beber? Em que período do dia era pior? Que gosto apresentam as eructações? A urina fica turva somente após alguns minutos ou enquanto é expelida? Qual sua cor imediatamente após a eliminação? Qual a cor do sedimento? Como o paciente se comporta ou se manifesta enquanto dorme? Geme, queixa-se, fala ou grita? Sobressalta-se? Ronca ao inspirar ou expirar? Dorme apenas de costas ou de que lado? Cobre-se bem ou não suporta cobertas? Desperta com facilidade ou dorme profundamente? Como se sente logo após despertar? Quantas vezes ocorre este ou aquele sintoma? Qual é a causa de cada um? Costuma ocorrer quando está sentado, em pé ou em movimento? Somente quando estáem jejum ou pela manhã, apenas à tarde, só após uma refeição ou quando? Quando se manifesta calafrio? Foi somente uma sensação de frio ou realmente estava frio ao mesmo tempo? Em que partes? Ou ele estava quente ao toque durante o calafrio? Foi apenas uma sensação de frio, sem tremores? Estava quente sem ter as faces ruborizadas? Que partes do corpo estavam quentes ao tato? Ou ele se queixava de calor sem estar quente ao tato? Quanto tempo durou o calafrio? E o calor? Quando se apresentou a sede? Durante o frio? Durante o calor? Antes? Depois? Qual a intensidade da sede e de quais bebidas? Quando se apresenta a transpiração, no começo ou no fim do calor? Ou quantas horas após esta sensação? Durante o sono ou em vigília? Qual a intensidade da transpiração? Era quente ou fria? Em que partes? Com que cheiro? De que se queixa ele? Antes ou durante o calafrio? E durante o período de calor? E após este período? E durante ou após a transpiração? Como são (nas mulheres) o fluxo mensal ou outros fluxos? §90 Depois que o médico tiver terminado tais anotações, escreve, então, o que ele próprio percebe no doente* , verificando, em relação ao que foi relatado, o que era peculiar ao mesmo no período de saúde. * Por ex., como o doente se comporta durante a visita: mal humorado, birrento, apressado, choroso, ansioso, desesperado ou triste, confiante, tranqüilo etc; se está sonolento ou alheio; se fala com voz rouca, muito baixo ou de maneira inconveniente ou de outra forma. Qual a cor de sua face, dos seus olhos e de sua pele de modo geral. Que grau de vivacidade e força há em sua expressão e em seus olhos. Qual o estado de sua língua, do seu hálito e de sua audição. Se suas pupilas estão dilatadas ou contraídas. Com que rapidez e que extensão se modificam no escuro ou no claro. Como está seu pulso. Qual é o estado do abdômen. Que grau de umidade ou secura, calor ou frio tem sua pele ao tato, neste ou naquele local de um modo geral. Se ele se deita com a cabeça inclinada para trás, com a boca inteiramente ou semi aberta, com os braços sobre a cabeça, de costas ou em que outra posição. Que esforço faz para levantar-se e tudo aquilo que possa chamar a atenção do médico. §91 As ocorrências e o estado de saúde do doente, durante o período de uso do medicamento, não fornecem o quadro puro da doença; por outro lado, aqueles sintomas e distúrbios que ele sofria antes do uso dos medicamentos ou depois de sua suspensão por vários dias, dão a verdadeira idéia da configuração original da doença, sendo especialmente estes que o médico deve anotar. Ele pode, inclusive, deixá4o alguns dias sem medicamento nenhum ou, nesse ínterim, dar-lhe algo não-medicamentoso, no caso de doença crônica e quando o doente ainda estiver tomando medicamentos até aquela data, adiando o exame mais preciso dos sinais mórbidos, a fim de compreender, na sua pureza, os sintomas duradouros, independentes, da antiga doença, podendo, então, traçar-lhe um quadro seguro. §92 Quando se trata, porém, de uma doença de curso rápido, que pelo seu caráter premente não permite demora e se o médico não puder verifica-los sintomas existentes antes do uso do medicamento, ele deve contentar-se com a condição mórbida, apesar de alterada por medicamentos, a fim de, pelo menos, resumir num quadro completo a configuração atual da doença original associada à doença medicamentosa que, mediante o uso de meios inadequados, é geralmente mais considerável e mais perigosa do que a original, requerendo, portanto, uma ajuda eficaz e urgente, podendo, com isso, vencê4a com um medicamento homeopático adequado, a fim de que o doente não pereça em virtude dos medicamentos nocivos ingeridos. §93 Se a doença foi desencadeada por algum fato notório, recentemente ou há muito tempo, como é o caso de um mal prolongado, então o doente ou, pelo menos, os que o cercam, quando interrogados em particular, mencioná4o-áo, seja espontaneamente ou através de um interrogatório cuidadoso* . * As prováveis causas que o doente ou as pessoas que os acompanham não queiram confessar, pelo menos voluntariamente, o médico procurará descobrir através de rodeios astuciosos ou graças a informações particulares. Pertencem a esta categoria: envenenamento, tentativa de suicídio, onanismo, excesso de atos libidinosos comuns ou anormais, abuso de vinhos, licores, ponche e outras bebidas quentes, chá ou café; excessos alimentares em geral ou de algum alimento nocivo em particular. Contágios venéreos ou pela sarna, amores infelizes, ciúme, infelicidade doméstica, preocupações, tristeza causada por algum infortúnio familiar, maus tratos, vingança frustrada, orgulho ferido, dificuldades econômicas, temor supersticioso, fome, eventuais imperfeições das partes pudendas, hérnia, prolapso etc. §94 Durante a averiguação do estado de doenças crônicas, devem-se considerar e ponderar muito bem as condições especiais do doente com respeito a suas habituais ocupações, modo de vicia, sua dieta, situação doméstica etc. e o que nelas ocasiona ou sustenta a sua doença, a fim de, através de sua remoção, poder promover4he a saúde* . * Nas doenças crônicas femininas é especialmente necessário atentar para a gravidez, esterilidade, desejo sexual, partos, abortos, aleitamento, corrimentos e as condições do fluxo mensal. Especialmente no que concerne a essa última informação, não se deve descuidar do seguinte: se ocorre em intervalos curtos ou se ocorrem atrasos além do tempo normal, quantos dias dura, se o fluxo é contínuo ou intermitente, em que quantidade, se possui cor escura, se há leucorréia (fluxo branco) antes ou depois, mas especialmente que incômodos físicos e da alma, que sensações e dores o precedem, acompanham ou seguem. No caso de haver fluxo branco, que sensações acompanham o fluxo, qual a quantidade deste e quais as condições e ocasiões em que ocorrem. §95 Nas doenças crônicas, o exame dos sinais mórbidos acima avaliados e de todos os demais deve, por esta razão, ser efetuado tão cuidadosa e pormenorizadamente quanto possível e abranger até a mínima particularidade, em parte porque, nestas doenças são os mais característicos e os que menos se assemelham aos das doenças agudas, não podendo ser tomados com suficiente precisão ao pretender-se bons resultados na cura e, em parte, porque os doentes estão tão acostumados aos longos padecimentos que prestam pouca ou nenhuma atenção aos pequenos fatos acessórios, muitas vezes muito ricos em sinais (característicos) e decisivos na procura do meio de cura. Eles consideram tais padecimentos como uma parte de sua natural condição, cuja verdadeira noção eles praticamente esqueceram ao longo dos mesmos, que muitas vezes vêm de quinze ou vinte anos, dificilmente acreditando que esses sintomas acessórios, esses desvios maiores ou menores do estado de saúde possam estar relacionados ao seu mal principal. §96 Além disso, os próprios doentes possuem temperamentos tão diversificados que alguns, especialmente os chamados hipocondríacos e outros muito sensíveis ou mal humorados pintam suas queixas com cores excessivamente fortes e, a fim de induzir o médico a ajudá-lo, apresentam seus males com expressões exageradas* . * Provavelmente nunca se encontrará entre os hipocondríacos mesmo os mais impacientes, uma invenção pura e simples dos fenômenos e padecimentos; é o que demonstra a comparação dos incômodos de que se queixam em períodos de tempos diferentes, quando o médico nada lhes ministra ou lhes dá algo sem valor medicamentoso algum. Mas é preciso descontar alguma coisa de seu exagero, pelo menos atribuir o caráter forte de suas expressões à sua excessiva sensibilidade. Sob esse aspecto, o próprio tom exaltado de suas expressões sobre seus sofrimentos se torna por si só um importante sintoma na série de todos os outros dos quais se compõem o quadro da doença. O casoé outro quando se trata de loucos ou daqueles que, por má fé, simulam doenças. §97 Todavia, pessoas cujo temperamento é oposto, ocultam uma série de males, seja por indolência, por um senso equivocado de pudor, por uma certa displicência ou timidez, apresentando-os em termos vagos ou considerando alguns deles sem importância. §98 Tão certo quanto ouvir principalmente o próprio doente acerca de seus males e sensações e dar crédito às suas próprias expressões, com as quais procura esclarecer seus padecimentos, é certo também - porque estas expressões costumam ser modificadas e adulteradas pelos amigos e por aqueles que cuidam dele - em todas as doenças, mas especialmente nas crônicas, que a investigação do verdadeiro e completo quadro das mesmas e de suas particularidades requeira cuidado especial, ponderação, conhecimento da natureza humana, prudência na indagação e um elevado grau de paciência. §99 Em geral, a investigação de doenças agudas ou daquelas surgidas há pouco tempo é mais fácil para o médico, porque todos os fenômenos e alterações da saúde recém-perdida estão ainda vivos e presentes na memória recente do doente e de seus amigos. Certamente, também aí, o médico precisa saber tudo, mas ele tem que investigar bem menos; a maior parte lhe é dita de forma espontânea. §100 Na investigação da essência sintomática das doenças epidêmicas ou esporádicas, é indiferente que tenha ocorrido algo semelhante no mundo, sob este ou aquele nome. A novidade ou a peculiaridade de uma tal epidemia não faz diferença, quer no exame, quer no tratamento, visto que o médico, mesmo assim, deve pressupor o quadro puro de cada doença atual dominante como algo novo e desconhecido e investigá-lo pela base, se pretender ser um genuíno e criterioso artista da cura, não podendo nunca colocar a suposição no lugar da observação, nem supor, total ou parcialmente, conhecido um caso de doença que estiver encarregado de tratar, sem explorar cuidadosamente todas as suas manifestações, tanto mais que, em muitos aspectos, cada doença dominante é um fenômeno com suas próprias características e, num exame meticuloso, é identificado como completamente diferente de todas as epidemias anteriores, erroneamente documentadas sob certos nomes; excetuando-se as epidemias resultantes do princípio contagioso, que sempre é o mesmo, como a varíola, o sarampo etc. §101 E bem provável, ao se lhe apresentar o primeiro caso de um mal epidêmico, que o médico não obtenha, de imediato, o quadro completo do mesmo, visto que cada uma dessas doenças coletivas apresenta o conjunto característico de seus sintomas e sinais somente ao longo de uma observação precisa de vários casos. No entanto, o médico investigador criterioso, logo no primeiro ou segundo doente, pode chegar, muitas vezes, tão perto de sua verdadeira situação que apreende dai um quadro característico - e encontra logo um medicamento adequado e homeopaticamente conveniente. §102 Ao tomar nota dos sintomas de diversos casos desta espécie, o esboço da doença se torna cada vez mais completo, não no sentido de extensão ou riqueza de vocabulário, porém se torna mais significativo (mais característico), abrangendo mais particularidades desta doença coletiva. Os sintomas gerais (p.ex. perda de apetite, insônia etc.) encontram suas próprias e exatas definições; por outro lado, surgem os sintomas mais notáveis e especiais que são peculiares somente a poucas doenças e mais raros - ao menos nesta combinação - e formam o quadro característico desta epidemia* . E certamente de uma mesma fonte que provem, consequentemente, a mesma doença de todos aqueles que contraíram a epidemia em curso, mas toda a extensão de tal epidemia e a totalidade de seus sintomas (cujo conhecimento faz parte da visão de conjunto do quadro completo da doença, a fim de permitir a escolha do meio de cura homeopático mais adequado para este conjunto característico de sintomas) não pode ser percebida num único doente isoladamente, mas, ao contrário, somente será perfeitamente deduzida e descoberta (abstraída) através dos sofrimentos de vários doentes de diferentes constituições físicas. * Ao médico que já tenha podido escolher nos primeiros casos o medicamento que se aproxima daquele que é especificamente homeopático, os casos subseqüentes ratificarão a conveniência do medicamento escolhido ou lhe indicarão um outro ainda mais adequado, o mais adequado meio de cura homeopático. §103 Da mesma forma como foi ensinado aqui a respeito dos males epidêmicos, geralmente de caráter agudo, os males miasmáticos crônicos, que sempre permanecem os mesmos - principal e especialmente a psora - tiveram que ser averiguados por mim, quanto à amplitude de seus sintomas, muito mais detalhadamente do que até então. Enquanto um doente é portador de apenas uma parte dos sintomas, um segundo, um terceiro etc., apresentam alguns outros dados que são, igualmente, apenas uma parte como que fragmentada da totalidade dos sintomas que constituem toda a extensão da única e mesma doença, de modo que o conjunto característico de todos esses sintomas que pertencem a tais doenças crônicas pode ser averiguado, isoladamente, em numerosos doentes portadores da mesma doença crônica, sem cuja completa visão de conjunto e um quadro integral não é possível descobrir os medicamentos capazes de curar homeopaticamente todo o mal (isto é, antipsóricos) e que são, ao mesmo tempo, os verdadeiros meios de cura dos doentes que sofrem individualmente desse mesmo mal crônico. §104 Uma vez registrada de modo preciso a totalidade dos sinto-mas que caracterizam e distinguem especialmente o caso da doença, ou, em outras palavras, o quadro de uma doença qualquer* está concluída a parte mais difícil do trabalho. O artista da cura tem, então, a imagem da doença sempre diante de si durante o tratamento, especialmente quando se tratar de uma doença crônica, podendo descobri-la em todas as suas partes e salientar os sinais característicos, a Fim de lhes opor, isto é, contra o próprio mal, uma potência morbífica artificial muito semelhante, escolhida homeopaticamente na relação de sintomas de todos os medicamentos cujos efeitos puros ele conhece. E, quando, durante o tratamento, ele deseja averiguar qual foi o efeito do medicamento e quais alterações ocorreram no estado do doente, basta apenas retirar de seu manual, por ocasião de um novo exame, os sintomas que, entre os anteriormente anotados do grupo original, apresentam melhora, colocando aí os que ainda persistem e outros novos eventuais sintomas que possam haver surgido. * Em relação a isso, os médicos da velha escola se acomodaram extremamente em seus tratamentos. Assim, não se ouvia qualquer informação precisa acerca de todas as circunstâncias do doente; ao invés disso, o médico freqüentemente interrompia o relato de seus padecimentos isolados a fim de não se deixar perturbar na rápida redação da receita, composta de vários ingredientes, cuja verdadeira ação lhe era desconhecida. Nenhum médico alopata, como se disse, exigia conhecer em conjunto as exatas circunstâncias do doente e muito menos as anotava. Quando, pois, voltava a ver o doente após vários dias, não sabia, das poucas circunstâncias anteriormente relatadas (visto ter atendido, desde então, muitos outros doentes diferentes) mais nada ou quase nada; deixava que entrasse por um ouvido e saísse por outro. E nas visitas subseqüentes ele fazia algumas poucas perguntas de caráter geral, procedia como se estivesse tomando o pulso do paciente, examinava a língua, ao mesmo tempo em que prescrevia outra receita, mesmo sem um fundamento racional ou mandava dar continuidade à primeira prescrição (diversas vezes ao dia em porções mais consideráveis), apressando-se com elegante gesto em direção ao qüinquagésimo, sexagésimo doente que ele negligentemente ainda tinha queseu organismo ? E no entanto, é isso mesmo o que afirma o antigo chefe da velha escola Hufeland, nos seguintes termos (ver Homeopatia, pag. 27 linha 19): “A Homeopatia pode remover os sintomas; a doença, porém, permanece”. - afirmou ele, em parte por desgosto pelos progressos da Homeopatia em benefício dos Homens, em parte porque ele ainda possuía conceitos completamente materiais acerca da doença que ele ainda não podia imaginar como um estado alterado do organismo dinamicamente modificado pela força vital morbidamente desarranjada, vendo-a, pelo contrário, como coisa material, que, após a ocorrência da cura, ainda pudesse permanecer oculta em um canto qualquer no interior do organismo, a fim de, a seu bel-prazer, irromper um belo dia com sua presença material em meio à plena saúde! Como ainda é crassa a cegueira da velha patologia! Não é de admirar que somente tenha sido capaz de produzir uma terapia que se dedica exclusivamente à purgação do pobre doente. §9 No estado de saúde do indivíduo reina, de modo absoluto, a força vital de tipo não material (Autocratie) que anima o corpo material (organismo) como “Dynamis”, mantendo todas as suas partes em processo vital admiravelmente harmônico nas suas sensações e funções, de maneira que nosso espírito racional que nele habita, possa servir-se livremente deste instrumento vivo e sadio para o mais elevado objetivo de nossa existência. §10 O organismo material, pensado sem a força vital, não é capaz de qualquer sensação, qualquer atividade, nem de autoconservação* ; somente o ser imaterial (princípio vital, força vital) que anima o organismo no estado saudável ou doente lhe confere toda sensação e estimula suas funções vitais. * Ele está morto e submetido apenas ao poder do mundo físico exterior, apodrecendo e se decompondo novamente em seus componentes químicos. §11 Quando o Homem adoece é somente porque, originalmente, esta força de tipo não material presente em todo o organismo, esta força vital de atividade própria (principio vital) foi afetada através da influência dinâmica* de um agente morbífero, hostil à vida; somente o principio vital afetado em tal anormalidade pode conferir ao organismo as sensações adversas, levando-o, assim, a funções irregulares a que damos o nome de doença, pois este ser dinâmico, invisível por si mesmo e somente reconhecível nos seus efeitos no organismo, fornece sua distonia mórbida somente através da manifestação da doença nas sensações e funções (o único lado do organismo voltado aos sentidos dos observadores e artistas da cura), isto é, através do reconhecimento dos sintomas da doença, não havendo outra forma de torná-lo conhecido. * O que é influência dinâmica, força dinâmica? Percebemos que a nossa Terra, por uma força secreta e invisível faz girar sua Lua em 28 dias e algumas horas e como, por sua vez a Lua, alternadamente, em horas fixas faz subir nossos mares do norte nas marés cheias e durante as mesmas horas novamente os faz descer nas marés baixas (sem contar algumas diferenças por ocasião da Lua cheia e da Lua nova). Vemos isso e nos admiramos, porque nossos sentidos não percebem de que modo ocorre. Sem dúvida, tal não acontece por meio de instrumentos materiais nem por disposições mecânicas, como nas obras humanas. E vemos, ainda, ao nosso redor, outros numerosos acontecimentos, como resultado do efeito de uma substância sobre outra, sem que possamos reconhecer uma relação perceptível entre causa e efeito. Somente o Homem culto, afeito à comparação e à abstração, tem capacidade para formar uma espécie de idéia transcendental que baste para manter longe de seus pensamentos tudo o que é material e mecânico na concepção de tais conceitos; ele chama tais efeitos de dinâmicos, virtuais, isto é, efeitos que resultam de um poder e ação absolutos, específicos, puros de uma substância sobre outra. Assim, por ex., a ação dinâmica das influências morbíficas no Homem sadio, bem como a força dinâmica dos medicamentos sobre o principio vital, a fim de tornar o Homem novamente sadio, nada mais é do que contagio, não sendo absolutamente material nem absolutamente mecânica, assemelhando-se à força de um ímã quando atrai poderosamente um pedaço de ferro ou aço que esteja próximo. Vê-se que o pedaço de ferro é atraído pela extremidade (pólo); como isso acontece, porém, não se vê. Essa força invisível dispensa qualquer meio auxiliar mecânico (material), qualquer gancho ou alavanca, para atrair o ferro; ela o atrai e age sobre ele ou sobre uma agulha de aço por meio de uma força pura, imaterial, invisível, de tipo incorpórea, própria, isto é, comunicando dinamicamente à agulha de aço a força magnética de maneira igualmente invisível, dinâmica; a agulha de aço, mesmo sem ser tocada pelo ímã e mesmo a uma certa distância se imanta, contagiando novamente outras agulhas de aço (dinamicamente, com a mesma propriedade magnética com a qual foi anteriormente contagiada pelo imã, assim como uma criança com varíola ou sarampo transmite a outra criança sadia, que esteja próxima, sem que haja contato, a varíola ou o sarampo, de maneira invisível (dinamicamente), isto é, contagia à distância, sem que algo material tenha passado ou pudesse passar da criança contagiada à outra normal. Tampouco, algo material pode passar do pólo do ímã para a agulha de aço próxima. Uma influência meramente específica de tipo não material, transmitiu à criança a varíola ou o sarampo, do mesmo modo como o ímã comunicou a propriedade magnética à agulha que estava próxima. De modo semelhante devemos considerar a ação dos medicamentos no Homem vivo. As substâncias naturais que se nos apresentam como medicamentos, apenas são medicamentos na medida em que possuam o poder (cada qual um próprio, específico) de alterar, através de uma influência dinâmica, de tipo não material (por meio da fibra sensitiva viva) sobre o principio vital de tipo não material, que governa a vida. A propriedade medicamentosa daquelas substâncias naturais às quais damos especificamente o nome de medicamentos, reside apenas em seu poder de produzir alterações no estado da vida animal; sua influência não material (dinâmica) capaz de alterar o estado de saúde atua exclusivamente sobre esse princípio vital não material; assim como a proximidade de um pólo magnético só pode comunicar força magnética ao aço (e por uma espécie de contágio), mas não outras propriedades (por ex., maior dureza ou flexibilidade etc). E assim, cada substância medicamentosa altera, por uma espécie de contágio, o estado do Homem à sua maneira exclusivamente peculiar e não à maneira peculiar a outro medicamento, tão certo quanto a proximidade de uma criança portadora de varíola transmitirá a uma criança sadia somente a varíola e não o sarampo. Essa influência dos medicamentos sobre nosso estado de saúde ocorre dinamicamente, como por contágio, absolutamente sem comunicação de partes materiais da substância medicamentosa. O poder curativo se manifesta muito mais, em um dado caso de doença, com a menor dose do medicamento dinamizado o mais possível na qual, segundo cálculos realizados, haverá tão pouca substância material que sua pequenez não pode ser imaginada nem concebida pela melhor cabeça de matemático - do que em grandes doses do mesmo medicamento em substância. Aquela pequeníssima dose pode, portanto, conter quase exclusivamente só a força medicamentosa pura, livremente desenvolvida, de tipo não material e produzir apenas dinamicamente efeitos tão poderosos que nunca seriam obtidos com a substância medicamentosa pura, mesmo ingerida em grandes doses. Não são os átomos corpóreos desses medicamentos altamente dinamizados nem sua superfície física ou matemática (com os quais se quer continuar interpretando, mas em vão, as forças superiores dos medicamentos dinamizados como ainda consideravelmente materiais) que constituemvisitar nesta mesma manhã. Assim, era exercida por médicos que se intitulavam racionais artistas da cura a atividade que praticamente é a mais reflexiva de todas: a conscienciosa investigação criteriosa das circunstâncias de cada doente em particular e a cura das pessoas especialmente nela baseada. O resultado, naturalmente, era, sem exceções, ruim, não obstante, os doentes tinham que a eles recorrer, em parte porque não havia nada melhor, em parte por causa da etiqueta e porque isso estava muito arraigado. §105 O segundo ponto da atividade de um verdadeiro artista da cura concerne à aquisição do conhecimento dos instrumentos destinados à cura das doenças naturais, à averiguação do poder patogenético dos medicamentos, a fim de que, quando precisar curar; possa escolher, entre eles, um cujas manifestações sintomáticas possam constituir uma doença artificial tão semelhante quanto possível à totalidade dos sintomas principais da doença natural a ser curada. §106 Todos os efeitos patogenéticos de cada medicamento precisam ser conhecidos, isto é, todos os sintomas e alterações mórbidas da saúde que cada um deles é especialmente capaz de provocar no Homem sadio devem ser primeiramente observados antes de se poder esperar encontrar e escolher, entre eles, o meio de cura homeopático adequado para a maioria das doenças naturais. §107 Se, para averiguar isso, os medicamentos são ministrados unicamente a pessoas doentes, mesmo dados um a um, pouco ou nada quanto à precisão de seus verdadeiros efeitos será conhecido, pois as alterações peculiares que se esperam do medicamento, confundidas com os sintomas da doença, apenas raras vezes podem ser percebidas claramente. §108 Não existe, pois, nenhum outro caminho pelo qual se possam verificar fielmente os efeitos peculiares dos medicamentos sobre o estado de saúde do Homem, não existe uma única providência mais segura, mais natural para este fim do que administrar experimentalmente os diversos medicamentos em doses moderadas a pessoas sadias a fim de descobrir quais são as alterações, sintomas e sinais da influência que cada um produz no estado de saúde físico e mental, isto é, quais são os elementos morbíficos que eles são capazes ou possuem tendência de produzir* , visto que, como foi mostrado (§24-27), toda potência curativa dos medicamentos reside exclusivamente em seu poder de alterar o estado de saúde do Homem, o que se depreende da observação desse estado. * Nem um único médico, que eu saiba, num período de 2.500 anos teve a idéia de realizar esta experimentação dos medicamentos nos seus puros e característicos efeitos que perturbam o estado de saúde do Homem a fim de conhecer o estado mórbido que cada medicamento é capaz de curar, a não ser o grande imortal Albrecht von Halier. Somente ele, antes de mim, embora não fosse um médico prático, viu a necessidade disso (vide o prefácio da Pharmacopea Helvet. Basil. 1771. fol. S.12.): "Nempe primum in corpore sano medela tentanda est, sine peregrina ulia miscela; odoreque et sapore ejus exploratis, exigua ilhus dosis ingerenda et ad omnes, quae inde contingunt, affectiones, quis pulsus, qui calor, quae respiratio, quaenam excretiones, attendendum. Inde ad ductum phaenomenorum, in sano obviorum, transeas ad experimenta in corpore aegroto etc. Mas ninguém, nem um único médico prestou atenção a esta sua inestimável advertência. §109 Fui o primeiro a escolher esse caminho com uma perseverança que só pôde nascer e ser mantida através de perfeita convicção desta grande verdade tão benéfica aos Homens, a de que somente através do emprego homeopático dos medicamentos * - possível a cura certa para as doenças dos Homens.2* * É impossível que além do puro método homeopático possa haver ainda um outro melhor e verdadeiro para curar as doenças dinâmicas (isto é, todas não cirúrgicas) tanto quanto é impossível traçar mais do que uma linha reta entre dois pontos dados. Como deve estar longe dos fundamentos da Homeopatia aquele que presume haver outros modos de curar além dela, exercendo-a sem o cuidado suficiente; quão poucas curas homeopáticas bem motivadas ele deve ter visto ou lido e, por outro lado, quão pouco deve ter ponderado sobre a falta de fundamento dos procedimentos alopáticos nas doenças ou se informado sobre seus resultados tão maus e muitas vezes até espantosos efeitos, colocando com frívola indiferença, a única verdadeira arte de curar no mesmo plano que os métodos nocivos ou pretendendo que estes sejam irmãos do método homeopático, sem o qual não podem passar! Que os meus conscienciosos seguidores, os legítimos, puros homeopatas, com seus tratamentos afortunados que quase nunca falham, possam ensinar algo melhor. ** Os primeiros frutos desse esforço, tão desenvolvidos quanto então podiam ser, estão no: Fragmenta de viribus medicamentorum positivis, sive in sano corp. hum. observatis, P. 1.11. Lipsiae, 8.1805. ap. J.A. Barth; os mais moderno estão em: Reine Arzneimittellehre I.Th. dritte Ausg. II. Th. dritte ausg. 1833.111. Th. zw. Ausg. 1825.1V. Th. zw. Ausg. 1825. V.Th. zw. Ausg. 1826. VI. Th. zw. Ausg. 1827. und im zweiten, dritten und vierten Theile der chronischen Krankheiten, 1828.1830. Dresden beiArnold, und zweiteAusgabe der chronischen Krankheiten II., III., IV., V. Th. 1835, 1837, 1838, 1839, Dússeldorf, bei Schaub. §110 Além disso, observei que os efeitos das alterações mórbidas registrados por autores anteriores a mim como resultantes de substâncias medicamentosas quando chegam ao estômago das pessoas sadias em grande quantidade, seja por engano, seja para causar a própria morte ou a de outros, ou ainda sob outras circunstâncias, aproximavam-se muito das minhas observações ao experimentar as mesmas substâncias em mim próprio ou em outras pessoas sadias. Os referidos autores relatam estes processos como histórias de envenenamento e como provas dos prejuízos causados por tais substâncias poderosas, principalmente tendo em vista advertir contra eles e, em parte, também para exaltar sua própria habilidade, quando o uso de seus meios contra estes graves acidentes permitiu o restabelecimento progressivo da doença e, em parte, para buscar uma justificativa no caráter perigoso dessas substâncias que eles então chamavam venenos, quando as pessoas assim afetadas morriam sob seu tratamento. Nenhum desses observadores jamais suspeitou que os sintomas que registraram apenas como provas do caráter nocivo e tóxico destas substâncias contivessem seguros indícios do poder destas drogas de extinguir curativamente males semelhantes, presentes em doenças naturais; que estes seus fenômenos patológicos fossem uma indicação de sua influência curativa homeopática e que a única averiguação possível de seu poder medicamentoso reside na mera observação de tais mudanças do estado de saúde que os medicamentos produzem no organismo sadio, enquanto as potências puras, peculiares dos medicamentos para cura não podem ser apreendidas nem por raciocínios sutis apriorísticos, nem pelo cheiro, gosto ou aparência dos mesmos, nem por sua análise química, nem ainda pelo emprego de um ou vários deles, em uma mistura (receita) para as doenças; nunca houve a suposição de que essas histórias de doenças medicamentosas algum dia viessem fornecer os primeiros fundamentos do ensino da verdadeira matéria médica pura que, desde os primórdios até hoje, consistiu apenas de falsas conjecturas e invenções, isto é, absolutamente não existiam* . * Vide o que relatei sobre o assunto no esclarecimento das fontes da matéria médica comum, antes da terceira parte da minha matéria médica pura. §111 A concordância de minhas observações sobre os efeitos puros dos medicamentos com aquelas observações mais antigas - embora descritas sem referência ao fim terapêutico - e mesmo a concordância destes relatos com outros deste tipo de diversosautores, facilmente nos convence de que, nas alterações mórbidas que produzem no organismo humano, as substâncias medicamentosas agem conforme leis naturais definidas e imutáveis em virtude das quais são capazes de produzir sintomas mórbidos seguros e confiáveis, cada um de acordo com seu caráter peculiar. §112 Nas descrições mais antigas dos efeitos muitas vezes perigosos dos medicamentos ingeridos em doses excessivas, notam-se também certos estados que surgem não no início, mas no fim desses tristes acontecimentos que eram de natureza exatamente oposta aos que haviam surgido inicialmente. São estes sintomas opostos da ação primária (§63) ou ação própria dos medicamentos sobre a força vital a reação do princípio vital do organismo, portanto, ação secundária (§ 62-67), da qual, contudo, raramente ou quase nunca resta o menor vestígio em experiências feitas com doses moderadas em organismos sadios; quando, porém, as doses são pequenas, nunca resta absolutamente nada. No processo homeopático de cura, o organismo vivo produz contra tais doses, tão somente a reação necessária para restabelecer o estado normal de saúde §113 Os medicamentos narcóticos parecem ser a única exceção. Por removerem, em sua ação primária, algumas vezes a sensibilidade e a sensação, outras vezes a excitabilidade , mesmo com doses moderadas experimentais, costuma ser notado freqüentemente nos organismos sadios um aumento de sensibilidade e uma maior excitabilidade na ação secundária. §114 Com exceção dessas substâncias narcóticas, nos experimentos com doses moderadas de medicamentos no organismo sadio, somente os efeitos primários são percebidos, isto é, aqueles sintomas mediante os quais o medicamento altera o estado de saúde do Homem, produzindo nele um estado mórbido de menor ou maior duração. §115 Em certos medicamentos, entre tais sintomas, não poucos existem, que, parcialmente ou sob certas circunstâncias, são diretamente opostos aos sintomas anteriores ou posteriores, mas que não devem ser considerados como uma verdadeira ação secundária ou simples reação da força vital, mas que somente representam o estado alternante dos diversos paroxismos da ação primária; são chamados efeitos alternantes. §116 Alguns sintomas são produzidos pelos medicamentos com maior freqüência, isto é, em muitos organismos; alguns mais raramente ou em poucas pessoas e outros somente em pouquíssimos organismos sadios. §117 Fazem parte destes últimos, as chamadas idiossincrasias, que são entendidas como constituições físicas particulares, as quais , embora sejam sadias sob outros aspectos, possuem uma tendência a desenvolver um estado mais ou menos mórbido mediante certas coisas que, em muitas outras pessoas não parecem produzir a mínima impressão ou mudança* . Contudo, tal ausência de impressão em algumas pessoas é apenas aparente. Visto que, para produzir essas alterações, assim como todas as demais alterações mórbidas no estado de saúde do Homem são necessárias tanto a força inerente à substância agente quanto a disposição da "Dynamis" (princípio vital) em se deixar afetar, os processos mórbidos evidentes nas assim chamadas idiossincrasias não podem ser atribuídos somente a essas constituições peculiares mas devem também ser imputados às coisas que os provocam, nas quais reside, do mesmo modo, o poder de causar impressões no organismo humano, embora somente um pequeno número de constituições sadias tenda a se deixar levar por elas a um estado mórbido tão evidente. O fato de que tais agentes, ao serem empregados como meios de cura prestam efetiva ajuda a todas as pessoas doentes em seus sintomas mórbidos semelhantes àqueles produzidos por eles próprios (embora, aparentemente, somente nas pessoas chamadas idiossincrásicas) demonstra que tais potências causam essa impressão em todos os organismos2* * Algumas pessoas podem desmaiar com o cheiro das rosas e cair em vários outros estados mórbidos, por vezes perigosos, ao comerem mexilhões, caranguejos ou ovas de barbo ou após terem tocado as folhas de certas espécies de sumagre etc. 2* É assim que a princesa Maria Porphyrogeneta restabeleceu a saúde de seu irmão, o Imperador Alexius que sofria de desmaios, borrifando-o com água de rosas na presença de sua tia Eudoxia (Hist. byz. Alexias lib. 15 S. 503. ed. Posser) e Hostius (Oper. III S. 59)constatou que o vinagre de rosas é muito eficaz contra desmaios. §118 Cada medicamento apresenta, no organismo humano, ações peculiares que nenhuma outra substância medicamentosa de espécie diferente é capaz de produzir exatamente da mesma maneira * Isto também constatou o venerável A. v. Hailer, pois ele disse (prefácio de sua hist. stirp.): latet immensa virium diversitas in us ipsis plantis, quarum facies externas dudum novimus, animas quasi et quodcunque caelestius habent, nondum perspeximus. §119 Tão certo quanto cada tipo de planta diferir uma da outra em sua forma externa, modo de vida e de crescimento, em seu sabor e odor, cada mineral e cada sal diferirem um do outro em suas propriedades externas e internas, físicas e químicas (que por si sós seriam suficientes para impedir qualquer confusão) é o fato de todos diferirem e divergirem entre si em seus efeitos mórbidos e, consequentemente, nos terapêuticos* . Cada uma destas substâncias atua de forma peculiar, diferente, não obstante definida, que impede qualquer confusão de umas com as outras, produzindo alterações na saúde e no bem-estar do Homem2* . * Qualquer pessoa que conheça com precisão e saiba avaliar os efeitos de cada substância isolada - tão notavelmente diversos dos de todas as outras - sobre o estado de saúde do ser humano, facilmente compreenderá que entre elas não pode haver, em relação ao aspecto medicamentoso, quaisquer medicamentos equivalentes, quaisquer substitutos. Somente aquele que não conhece os diferentes medicamentos segundo seus efeitos puros e positivos pode ser tão tolo a ponto de querer nos persuadir de que um pode servir em lugar de outro, sendo tão eficaz para a mesma doença quanto o outro. Do mesmo modo, crianças ignorantes confundem os mais diferentes objetos, pois mal os conhecendo segundo o seu exterior, menos ainda os conhecem pelo seu valor, pela sua verdadeira importância e por suas qualidades intrínsecas muito distintas entre si. 2* Se essa é a pura verdade, como de fato o é, então, no futuro, nenhum médico que não queira ser olhado como desprovido de razão nem deseje agir contra a voz de sua consciência, a única certidão da dignidade humana, não poderá empregar no tratamento das doenças, absolutamente nenhuma substância medicamentosa que não conheça exata e completamente em seu significado verdadeiro, isto é, cuja ação virtual no estado de saúde de Homens sadios haja experimentado, a fim de saber exatamente que ele é capaz de produzir um estado mórbido muito semelhante - mais semelhante do que qualquer outro medicamento com o qual esteja perfeitamente familiarizado - ao caso de doença a ser curado, pois como foi dito acima, nem o Homem nem a própria natureza poderosa podem realizar uma cura rápida, completa e duradoura a não ser por meio de um medicamento homeopático. Daqui por diante, nenhum médico genuíno poderá abster-se de fazer tais experimentos, especialmente os realizados em si mesmo, a fim de obter esse conhecimento exclusivo dos medicamentos que é essencial para a arte de curar e que, até então, havia sido menosprezado pelos médicos de todos os tempos. Em todas as épocas anteriores - dificilmente a posteridade acreditará - os médicos se contentaram - até hoje em prescrever às cegas, nas doenças, medicamentos cujo valor era desconhecido e que nunca haviam sido experimentados em relação à ação dinâmica pura muito variada e altamente importante na saúde do Homem; além disso, misturaram diversos medicamentos desconhecidos quediferiam tanto entre si em uma única fórmula, deixando ao acaso o efeito que produziriam no doente. É como se um louco entrasse à força na oficina de um artesão e pegasse ferramentas inteiramente diferentes, cujas finalidades desconhecesse por completo a fim de fazer o que ele presume que seja trabalhar nas obras de arte que visse a seu redor. Inútil será insistir em lembrar que estas seriam destruídas, e talvez irreparavelmente destruídas, por seus atos insensatos. §120 Portanto, os medicamentos, dos quais dependem a vida e a morte, a saúde e a doença, devem ser distinguidos uns dos outros de maneira precisa e por isto devem ser testados em seu poder e em seus verdadeiros efeitos por meio de experimentos puros e cuidadosos no organismo sadio, com a finalidade de conhecê-los perfeitamente e evitar qualquer erro em seu emprego terapêutico, pois somente a escolha acertada do medicamento pode restabelecer, de maneira rápida e duradoura, o maior dos bens da Terra: a saúde do corpo e da alma. §121 Ao experimentar medicamentos com o intuito de verificar seus efeitos em organismos sadios, é preciso considerar que as substâncias fortes, chamadas heróicas, mesmo em doses pequenas, costumam provocar alterações até no estado de saúde de pessoas robustas. Para tais experimentos, os que possuem um poder mais moderado devem ser administrados em doses consideravelmente maiores; os mais fracos, contudo, podem simplesmente ser experimentados naquelas pessoas que, livres de doenças, sejam de constituição frágil, excitáveis e sensíveis. §122 Não se pode, nestes experimentos dos quais depende a exatidão de toda arte de curar e o bem-estar de todas as gerações futuras, não se pode, repito, empregar outro medicamento além daqueles que se conhecem perfeitamente e de cuja pureza, autenticidade e atividade estejamos completamente convencidos. §123 Cada um desses medicamentos precisa ser tomado na forma perfeitamente simples e natural: as plantas nativas sob a forma de suco recém-extraído, misturado com um pouco de álcool para impedir sua deterioração; as substâncias vegetais estrangeiras, contudo, em forma de pó ou, enquanto ainda frescas, na forma de tintura alcoólica, diluída, depois, em algumas partes de água; sais e gomas, contudo, precisam ser dissolvidos em água, antes de serem ingeridos. Se a planta só puder ser obtida no estado seco e se seus poderes forem, por natureza, fracos, convém fazer, para tal experimento, uma infusão que é obtida, colocando-se a erva reduzida a pequenos pedaços em água fervente; deve ser ingerida ainda quente, logo após seu preparo, pois todos os sucos vegetais e todas as infusões aquosas de ervas, sem o acréscimo de álcool, entram rapidamente em fermentação e decomposição, perdendo, então, toda a sua força medicamentosa. §124 Para esse fim, é preciso empregar cada substância medicamentosa completamente só e perfeitamente pura, sem misturá-la com qualquer outra substância estranha ou tampouco ingerir alguma outra de natureza medicamentosa no mesmo dia nem nos subseqüentes, enquanto se deseja observar os efeitos do medicamento. §125 Durante o período da experimentação, é preciso também ser estabelecida uma dieta estritamente moderada, tanto quanto possível sem condimentos, de teor puramente simples e nutritivo, de modo que os legumes verdes, as raízes* , todas as saladas e as hortaliças para sopa (que, mesmo quando preparadas com o maior cuidado, possuem alguma força medicamentosa perturbadora) devem ser evitadas. As bebidas devem ser as habituais e tão pouco estimulantes quanto possível2* . * Ervilhas verdes (vagens), feijões verdes, batatas cozidas e, eventualmente, cenouras são permitidos, por serem os menos medicamentosos dos alimentos. 2* O experimentador não deve ter o hábito de beber vinho, aguardente, café ou chá ou deve apresentar abstinência já há muito tempo do uso dessas bebidas nocivas, algumas das quais são estimulantes, enquanto que outras possuem efeito medicamentoso. §126 O experimentador escolhido para este fim necessita, antes de tudo, ser uma pessoa fidedigna e conscienciosa; durante o experimento deve evitar excessivos esforços físicos e mentais, principalmente desregramentos e paixões perturbadoras; nenhuma atividade urgente poderá desviá-lo da adequada observação; terá, de bom grado, que dirigir uma atenção cuidadosa sobre si mesmo, não podendo ser perturbado neste mister; portador de um organismo sadio, dentro de seus padrões, terá que possuir suficiente entendimento para ser capaz de expressar e descrever suas sensações em expressões claras. §127 Os medicamentos devem obrigatoriamente ser experimentados tanto em pessoas do sexo masculino como em pessoas do sexo feminino, a fim de revelarem as alterações que produzem correspondentes à esfera sexual. §128 As experimentações mais recentes ensinaram que, quando as substâncias medicamentosas são ingeridas em estado bruto pelo experimentador com o propósito de provar seus efeitos peculiares, não manifestam tanto toda a riqueza de seus poderes que estão nelas ocultos como quando são ingeridas com o mesmo objetivo em altas diluições, potencializadas por trituração e sucussão adequadas; através destas simples manipulações, a força que permanece oculta em seu estado bruto e~ como que adormecida, desenvolve-se e sua atividade desperta de maneira incrível. Desse modo, investigam-se melhor, então, as forças medicamentosas mesmo das substâncias consideradas fracas, dando ao experimentador, diariamente e em jejum, de 4 a 6 glóbulos muito pequenos da 30a potência, umedecidos em um pouco de água ou dissolvidos ou misturados em uma quantidade menor ou maior de água, continuando-se, assim, por vários dias. §129 Se, mediante tais doses surgirem apenas efeitos fracos, pode-se, então, aumentar a dose diária dos glóbulos, até que tais efeitos se tornem mais nítidos e mais fortes e as alterações do estado de saúde sejam mais sensíveis, pois poucas pessoas são afetadas por um medicamento com a mesma intensidade, havendo, ao contrário, imensa diversidade nesse sentido, de modo que, às vezes, uma pessoa aparentemente débil quase não é afetada por uma dose moderada de um medicamento considerado muito ativo, mas será fortemente afetada por muitos outros que, em contrapartida, são bem mais fracos. E, por outro lado, existem pessoas muito robustas que apresentam consideráveis sintomas mórbidos devido a um medicamento aparentemente suave e apenas sintomas mais leves devido a medicamentos mais fortes etc. Ora, como não se pode saber isso com antecedência, é aconselhável, em cada caso, começar com uma pequena dose medicamentosa e, quando for conveniente e necessário, aumentar progressivamente a dose diária. §130 Se, logo no início, administrar-se, pela primeira vez, uma dose medicamentosa suficientemente forte, tem-se a vantagem de fazer com que o experimentador tome conhecimento da ordem de sucessão dos sintomas e possa anotar com precisão a época em que cada um ocorreu, o que contribui muito para o conhecimento do caráter do medicamento, pois, então, a ordem das ações primárias, bem como a das ações alternantes se manifesta de maneira mais inequívoca. Mesmo uma dose muito moderada, por vezes, é suficiente para o experimento, desde que o experimentador seja suficientemente sensível e preste a máxima atenção possível ao seu estado de saúde. A duração do efeito de um medicamento somente pode ser conhecida mediante a comparação de diversos experimentos. §131 Se, contudo, a fim de conhecer algo, é necessário dar o mesmo medicamento à mesma pessoa em vários dias sucessivos em doses sempre crescentes, toma-se conhecimento, então, dos diversos estados mórbidos que este medicamento pode produzir de modo geral, mas não sua ordem de sucessão; a dose subseqüente age terapeuticamente, eliminando, muitas vezes, um ououtro sintoma ou produz um estado oposto. Tais sintomas necessitam ser registrados entre parênteses, como ambíguos, até que posteriores experimentos, mais puros, mostrem se eles são uma reação do organismo e uma ação secundária ou uma ação alternante desse medicamento. §132 Quando se quer, porém, averiguar apenas os sintomas em si, especialmente os de uma substância medicamentosa fraca, sem considerar a ordem de sucessão dos fenômenos e a duração do efeito do medicamento, é preferível, então, dá-la durante diversos dias sucessivos, aumentando-se a dose diariamente. Desse modo, a ação de um medicamento ainda desconhecido, mesmo o mais suave, revelar-se-á, principalmente se experimentado em pessoas sensíveis. §133 Sentindo esse ou aquele distúrbio, em virtude do medicamento, é útil e até necessário, mobilizar-se em diversas condições e observar se o fenômeno se agrava, diminui, cessa ou retorna ao se voltar à posição primitiva, ao mover-se a parte afetada, ao caminhar pelo aposento ou ao ar livre, ao levantar-se ou ao deitar-se, ou se ele se altera ao comer, beber ou mediante outra circunstância ou ao falar, tossir, espirrar ou mediante outra função do organismo, bem como observar a que horas do dia ou da noite, principalmente, ele costuma aparecer; isto fará com que se evidenciem particularidades características de cada sintoma. §134 Todas as forças externas, principalmente os medicamentos, possuem a propriedade de produzir no estado de saúde do organismo vivo um tipo especial de alteração; porém, nem todos os sintomas peculiares de um medicamento se manifestam em uma única pessoa e nem todos ao mesmo tempo ou no mesmo experimento, mas em algumas pessoas ocorrem alguns deles num determinado momento; outros, novamente, num segundo e terceiro experimento, sendo que, em outras pessoas, surge especialmente esse ou aquele sintoma, mas de tal modo que, provavelmente, alguns que se revelam na quarta, quinta, oitava, décima pessoa etc., já haviam ocorrido na segunda, sexta, nona pessoa e assim por diante; além disso, podem não se repetir na mesma hora. §135 A essência de todos os elementos da doença que um medicamento é capaz de produzir somente pode aproximar-se do quadro completo mediante numerosas observações feitas em vários organismos de pessoas de ambos os sexos, diversamente constituídos e adequados para esse fim. E somente então que se pode estar seguro de que um medicamento foi inteiramente experimentado em relação aos estados mórbidos que pode produzir, isto é, em relação a seus poderes de alterar o estado de saúde do Homem, quando os experimentadores posteriores pouca coisa nova podem notar em sua ação e quase sempre somente percebem os mesmos sintomas já observados pelos outros. §136 Embora, como já foi dito, um medicamento que é experimentado em pessoas sadias não possa manifestar em uma só, todas as alterações que é capaz de produzir no estado de saúde, somente atuando desse modo em diversas e diferentes pessoas com variadas constituições físicas e psíquicas, existe, ainda assim, a tendência de produzir em todo Homem todos estes sintomas (§110), segundo uma eterna e imutável lei da natureza, graças à qual o medicamento põe em atividade todos os seus efeitos - mesmo aqueles raramente produzidos por ele no organismo sadio - em todo e qualquer indivíduo ao qual é administrado para tratar um estado mórbido de distúrbios semelhantes; mesmo na dose mínima, ele, então, silenciosamente, provoca no doente, quando homeopaticamente escolhido, um estado artificial muito próximo à doença natural, o qual, de maneira rápida e duradoura (homeopática), o liberta e o cura de seu mal original. §137 Quanto mais moderadas, até um certo ponto, forem as doses de um determinado medicamento empregadas em certos experimentos - desde que se procure facilitar a observação mediante a escolha de uma pessoa amante da verdade, moderada em todos os sentidos, sensível e que preste a máxima atenção ao que se passa com ela - mais claramente surgem os efeitos primários e somente aqueles dignos de serem conhecidos e nenhuma ação secundária ou reação do princípio vital. Em contrapartida, no emprego de doses excessivamente grandes, não ocorrem somente várias ações secundárias entre os sintomas, mas também os efeitos primários surgem tão precipitados e confusos e com tal intensidade, que nada pode ser observado com precisão, para não mencionar o perigo que isto representa e que não pode deixar indiferente aquele que tenha respeito por seus semelhantes e que veja o mais humilde indivíduo como seu irmão. §138 Todos os distúrbios, fenômenos e mudanças no estado de saúde dos experimentadores durante o período de ação de um medicamento (no caso de terem sido observadas as condições acima [§124-127] para um bom e puro experimento) derivam-se unicamente deste medicamento e devem ser considerados e registrados como pertencentes especialmente a ele, como seus sintomas, mesmo que o experimentador houvesse observado em si próprio, muito tempo antes, a aparição espontânea de fenômenos semelhantes. A reaparição dos mesmos durante o experimento do medicamento somente demonstra que tal indivíduo, em virtude de sua constituição particular, apresenta uma predisposição especial para ter os sintomas nele despertados. No presente caso, isto ocorre devido ao medicamento; enquanto o medicamento potente ingerido está dominando todo seu estado de saúde, os sintomas, então, não se apresentam espontaneamente, mas são produzidos pelo mesmo. §139 Quando o médico, para o experimento, não ingere, ele próprio, o medicamento, mas o administra a outra pessoa, esta deve anotar claramente suas sensações, distúrbios, fenômenos e alterações no estado de saúde no momento em que eles se produzem, mencionando quanto tempo depois da ingestão cada sintoma se manifesta e o período de sua duração, no caso de ser prolongado. O médico examina o relato na presença do experimentador, logo após o término do experimento ou, se o mesmo durar vários dias, ele o faz diariamente, a fim de interrogá-lo - quando ainda conserva tudo na memória recente - a respeito da natureza exata de cada uma destas ocorrências e a fim de anotar os pormenores mais precisos assim obtidos ou fazer as alterações, de acordo com seus relatos* . * Aquele que revela ao mundo médico tais experimentações se torna responsável pela integridade do experimentador e de suas declarações e com razão, pois é o bem-estar da humanidade sofredora que aqui está em jogo. §140 Se a pessoa não sabe escrever, o médico necessita, então, perguntar diariamente acerca do que lhe ocorreu e como ocorreu. Contudo, o que se vai anotar como diagnóstico tem que ser, principalmente, a narração espontânea da pessoa utilizada para o experimento; nada de conjecturas, suposições, e o menor número possível de respostas sugeridas pelas perguntas; tudo com o cuidado que indiquei acima (§84-89) para a averiguação do diagnóstico e do quadro das doenças naturais. §141 Porém, os melhores experimentos dos efeitos puros dos medicamentos simples, na alteração do estado de saúde humana e dos estados mórbidos e sintomas artificiais que eles podem produzir no indivíduo sadio, são aqueles que o próprio médico sadio, sem preconceitos, criterioso e sensível, realizar em si mesmo, com toda a prudência e cuidados que lhe foram aqui ensinados. Ele sabe, com toda a certeza, o que ele percebeu em si mesmo* . * Essas auto-experimentações feitas pelo médico também possuem para ele outras vantagens inestimáveis. Em primeiro lugar, torna-se para ele um fato indiscutível a grande verdade de que o efeito medicamentoso de todos os medicamentos do qual depende seu poder curativo reside nas alterações de saúde que sofreu em virtude dos medicamentos experimentados e pelo próprio estado mórbido causado pelos mesmos medicamentos. Além disso, atravésdessas observações notáveis realizadas em si mesmo ele se torna, de um lado, apto a compreender suas próprias sensações, seu modo de pensar, seu tipo de psiquismo (o fundamento de toda verdadeira sabedoria: ~ por outro lado, e é o que não pode faltar a qualquer médico, ele aprende a ser um observador. Todas as observações que fazemos nos outros não apresentaram tanto interesse como aquelas que efetuamos em nós próprios. Aquele que observa os outros deve sempre temer que o experimentador não diga o que exatamente sente ou que não descreva suas sensações nos termos mais apropriados. Sempre fica a dúvida se não foi enganado, pelo menos em parte. Esse obstáculo ao conhecimento da verdade, que jamais pode ser removido completamente em nossas pesquisas dos sintomas mórbidos artificiais, provocados em outras pessoas pela ingestão de medicamentos desaparecem por completo nas auto-experimentações. Aquele que as realiza em si mesmo sabe com certeza o que sentiu e cada experimento é um novo estímulo à investigação das forças de outros medicamentos. Assim, torna-se cada vez mais hábil na arte de observar, arte de tão grande importância para o médico, quando ele continuamente observa a si mesmo, em quem pode confiar e que nunca o enganará. Isso ele o fará com tanto mais cuidado ao observar que tais experimentos realizados em si mesmo lhe prometem um conhecimento do verdadeiro valor e importância dos instrumentos para a cura, que geralmente são escassos. Ele não deve imaginar que tais ligeiras indisposições causadas pela ingestão de medicamentos com o fim de experimentá-los podem ser de alguma forma prejudiciais a saúde. A experiência ensina, ao contrário, que o organismo do experimentador, mediante esses freqüentes ataques à sua saúde, torna-se ainda mais apto a repelir todas as influências externas hostis à sua constituição física e todos os agentes morbíficos nocivos naturais e artificiais, tornando-se mais resistente a tudo o que é nocivo mediante esses experimentos moderados nele realizados com medicamentos. Sua saúde se torna mais inalterável, tornando-se mais robusta, como o demonstram todas as experiências. §142 Contudo, saber como podemos descobrir nas doenças - especialmente nas crônicas que permanecem muitas vezes inalteradas - entre os distúrbios da doença original, alguns sintomas * do medicamento simples empregado com Fim curativo é um assunto que diz respeito à mais elevada arte de julgar e deve ser reservado somente aos mestres da observação. * Os sintomas que porventura tenham sido observados muito tempo antes em todo o curso da doença ou nunca anteriormente e que, por conseguinte, são sintomas novos que pertencem ao medicamento. §143 Quando se tiver experimentado, desse modo, um número considerável de medicamentos simples em pessoas sadias e cuidadosa e Fielmente registrado todos os elementos mórbidos e sintomas que eles próprios são capazes de produzir, na qualidade de potências morbíficas artificiais, somente então se terá uma verdadeira Matéria medica - uma coletânea por si só dos legítimos, puros e fidedignos* modos de ação das substâncias medicamentosas simples, um "Codex» da natureza, em que, correspondendo a cada medicamento potente assim pesquisado, está registrada uma série considerável de mudanças peculiares da saúde e sintomas, tal como haviam sido revelados à atenção do observador, nos quais existe semelhança com os elementos mórbidos (homeopáticos) de várias doenças naturais a serem curadas por eles no futuro e que, em uma palavra, contêm estados mórbidos artificiais que proporcionam, por sua similitude com os estados naturais, os únicos, verdadeiros, homeopáticos, isto é, específicos meios de cura para um restabelecimento certo e duradouro. * Recentemente tem-se dado a incumbência de experimentar medicamentos a pessoas desconhecidas, que moram longe e que são pagas pelo seu trabalho, registrando-se suas informações. Desse modo, a mais importante atividade, destinada a fundamentar a única e verdadeira arte de curar e que requer a maior certeza e integridade morais, infelizmente parece tornar-se ambígua e incerta em seus resultados, perdendo todo seu valor. Os falsos dados colhidos, tomados pelos médicos homeopatas, num certo momento, como verdadeiros, só têm que, em seu emprego, resultar em prejuízos enormes para o doente. §144 De tal matéria médica deve-se excluir totalmente tudo o que seja conjectura, mera afirmação ou ficção; tudo deve ser a pura linguagem da natureza, cuidadosa e seriamente interrogada. §145 Sem dúvida, somente uma gama considerável de medicamentos conhecidos com precisão em seus puros efeitos na alteração do estado de saúde humano nos dá condições de descobrir um meio de cura homeopático, um análogo adequado com poder morbífico artificial (curativo) para cada um dos infinitamente numerosos estados mórbidos na natureza, para cada um dos males do mundo* . Entretanto, mesmo agora, graças ao caráter verdadeiro dos sintomas e à abundância dos elementos mórbidos que cada uma das potentes substâncias medicamentosas demostraram mediante sua ação no organismo sadio, restam poucos casos de doença para os quais não haja um meio de cura homeopático razoavelmente apropriado entre aquelas que são experimentadas atualmente na sua ação pura2* , que, sem distúrbios significativos, restabeleça a saúde de uma maneira suave, segura e duradoura - infinitamente mais certa e mais segura do que em todas as terapias gerais e especiais da arte médica alopática vigente até agora, misturando medicamentos desconhecidos que apenas alteram e agravam as doenças crônicas, retardando, ao invés de curar, as doenças agudas, freqüentemente até ocasionando perigo de vida. * No início (há cerca de 40 anos) fui o único a fazer da experimentação das forças medicamentosas puras a mais importante de minhas atividades. Desde então, tenho sido apoiado nisso por alguns jovens que realizaram experimentos em si mesmos, cujas observações examinei acuradamente; a seguir, alguns experimentos genuínos desse tipo foram realizados por outras poucas pessoas. Portanto, em relação à cura, quanto não poderá ser alcançado no âmbito global do infinito território das doenças quando vários observadores rigorosos e idôneos tiverem se tomado merecedores do engrandecimento desses únicos e legítimos ensinamentos sobre substâncias medicamentosas, mediante cuidadosas auto-experimentações! A atividade terapêutica, então, aproximar-se-á, no que tange à fidedignidade, das ciências matemáticas. ** Vide a segunda nota do § 109 §146 O terceiro ponto no exercício de um verdadeiro artista da cura concerne ao emprego mais adequado das potências morbíficas artificiais (medicamentosas) que foram experimentadas em indivíduos sadios a fim de obter uma cura homeopática das doenças naturais. §147 O medicamento - dentre aqueles que foram investigados quanto ao seu poder de alterar a saúde humana - em que for encontrada a maior semelhança entre seus sintomas observados e a totalidade dos sintomas de uma doença natural dada, é aquele que vai e deverá ser o mais adequado, o mais seguro meio de cura homeopático para a doença; nele se encontra o específico para tal caso de doença. §148 A doença natural nunca deve ser considerada como matéria nociva situada em um ponto qualquer interno ou externo do indivíduo (§11-13), mas como algo produzido por um poder hostil, de tipo não material que, como uma espécie de contágio (nota do §11), perturba, em seu domínio instintivo, o princípio vital de tipo não material reinante em todo o organismo e, como um espírito maligno, tortura-o, compelindo-o a produzir certos padecimentos e desordens no curso da vida, aos quais se dá o nome de doenças (sintomas). Se, porém, for novamente retirada do princípio vital a sensação do efeito deste agente hostil que se empenha em causar e em continuaresta perturbação, isto é, se o médico, em contrapartida, faz com que aja no doente uma potência artificial (medicamento homeopático) capaz de alterar morbidamente o princípio vital da maneira mais semelhante possível, o qual excede em energia, ainda que nas doses mínimas, a doença natural semelhante (§33 - 279), perde-se, então, durante a ação deste mal artificial semelhante sobre o princípio vital, a sensação do agente mórbido original; daí em diante, o mal está destruído, não mais existe para o principio vital. Se, como já foi dito, o medicamento homeopático convenientemente escolhido for empregado de maneira adequada, a doença natural aguda que deve ser dominada, se for caso recente, desaparecerá, não raro, em poucas horas, de modo imperceptível, sendo que a doença natural um tanto mais antiga cederá um pouco mais tarde, após o emprego de mais algumas doses do mesmo medicamento ou após cuidadosa seleção* de um outro medicamento homeopático mais semelhante, com todos os vestígios de distúrbios. Seguem-se a saúde e o restabelecimento, muitas vezes em rápidas e imperceptíveis transições. O principio vital se sente novamente livre e capaz de continuar como antes, conduzindo a vida do organismo com saúde, retornando o vigor. * Contudo, essa busca e seleção laboriosa, por vezes muito laboriosa, do medicamento homeopático mais conveniente, em todos os aspectos, para cada caso mórbido, é uma tarefa que, não obstante todos os louváveis livros que procuram suavizá-la, ainda continua a requerer um estudo das próprias fontes e, ao mesmo tempo, muita circunspeção e grave ponderação e que recebe seu melhor pagamento somente da consciência do dever fielmente cumprido. Como podia esse trabalho fatigante e criterioso, o único que possibilita a melhor maneira de curar as doenças, agradar os senhores da nova seita dos misturadores que se vangloriam do honroso nome de homeopatas, aparentando até ministrar medicamentos sob a forma e a aparência que prescreve a Homeopatia, mas, na realidade, escolhendo-os aleatoriamente e que, quando o medicamento inadequado não proporciona alívio imediato, não culpam sua imperdoável preguiça e irreflexão no desempenho da mais importante e séria das atribuições humanas e sim a homeopatia que acusam de grande imperfeição (a de que com efeito ela não conduz espontaneamente até suas bocas, sem qualquer esforço próprio, o medicamento homeopático mais apropriado para cada caso de doença, quais pombos assados!) Mas sabem logo consolar-se, como hábeis pessoas que são, da ineficiência de seus medicamentos que quase não são nem mesmo semi-homeopáticos, mediante o emprego de meios alopáticos que lhes são mais familiares, entre os quais, uma ou mais dúzias de sanguessugas aplicadas nas partes afetadas ou pequenas e inocentes sangrias de oito onças servem muito bem. Caso o doente, apesar de tudo, consiga sair dessa situação, então eles exaltam suas sangrias, sanguessugas etc sem as quais, segundo eles, o doente não teria podido restabelecer-se, dando-nos claramente a entender que essas operações que provêm, sem grande esforço de raciocínio cerebral, da rotina perniciosa da velha escola, foram, na verdade, as que mais contribuíram para a cura. Se, porém, o doente morre, o que não é raro, tratam de consolar seus parentes desconsolados dizendo que "eles próprios foram testemunhas de que se fez tudo o que era concebível para o querido defunto". Quem teria a honra de chamar tal casta frívola e perniciosa de médicos homeopatas, de acordo com o nome dessa arte muito laboriosa mas que, igualmente, proporciona a cura? Que a justa recompensa os aguarde: serem tratados da mesma maneira quando adoecerem! §149 As doenças antigas (e especialmente as complicadas) requerem um tempo proporcionalmente maior para a sua cura. Principalmente as intoxicações medicamentosas crônicas tantas vezes causadas pela não-arte alopática, ao lado da doença natural que ela não curou, requerem um tempo bem maior para o restabelecimento, sendo mesmo freqüentemente incuráveis, devido ao despudorado roubo das forças e humores do doente (sangrias, purgantes etc.), ao freqüente uso prolongado de grandes doses de meios de ação violenta, de acordo com vazias e errôneas conjecturas acerca de sua suposta utilidade em casos de doenças aparentemente semelhantes, assim como devido às prescrições de banhos termais inadequados etc., "as proezas mais comuns da alopatia nos seus assim chamados métodos de tratamento”. §150 Se um ou mais fatos de menor importância, que só momentos antes foram notados, vierem ainda a ser relatados ao médico, ele não deve considerá-los como uma doença plenamente desenvolvida que necessite de uma assistência medicamentosa séria. Uma ligeira alteração na dieta e no regime de vida, geralmente, são suficientes para acabar com esta indisposição. §151 Se, porém, alguns dos distúrbios de que se queixa o doente forem intensos, então o médico investigador normalmente encontrará, a par deles, outros vários fenômenos que, embora mais ligeiros, forneçam um quadro completo da doença. §152 Quanto mais grave for a doença aguda, tanto mais numerosos e evidentes serão os sintomas que a constituem, mas tanto mais seguramente ela permite também encontrar um medicamento apropriado, se houver, à nossa escolha, um número suficiente de medicamentos conhecidos em seu efeito positivo. Entre a série de sintomas de muitos medicamentos é possível encontrar sem dificuldade um cujos elementos mórbidos isolados permitam compor um quadro muito semelhante da doença artificial curativa em contraposição ao conjunto característico dos sintomas da doença natural e é este o medicamento que deve ser o meio de cura desejado. §153 Nessa procura do meio de cura homeopático específico, isto e, nessa confrontação do conjunto característico dos sinais da doença natural contra a série de sintomas dos medicamentos existentes a fim de encontrar um cujas potências mórbidas artificiais correspondam, por semelhança, ao mal a ser curado, deve-se, seguramente, atentar especialmente e quase que exclusivamente para os sinais e sintomas* mais evidentes, singulares, incomuns e próprios (característicos) do caso de doença, pois na série de sintomas produzidos pelo medicamento escolhido, é principalmente a estes que devem corresponder sintomas muito semelhantes, a fim de que seja mais conveniente à cura. Os sintomas mais gerais e indefinidos: falta de apetite, dor de cabeça, debilidade, sono inquieto, mal-estar etc., merecem pouca atenção devido ao seu caráter vago, se não puderem ser descritos com mais precisão, pois algo assim geral pode ser observado em quase todas as doenças e medicamentos. * Graças ao Sr. Conselheiro de Estado Barão von Bönninghausen, através de seu Repertorium, temos a relação dos sintomas característicos dos medicamentos homeopáticos, bem como o Sr. G. H. G. Jahr, em seu manual das principais indicações agora editado pela terceira vez sob o título: "Grand manuel". §154 Se a réplica composta pela série de sintomas do medicamento mais adequado contiver, em maior número e com mais semelhança, os sinais mais peculiares, singulares e evidentes (característicos) presentes na doença a ser curada, esse medicamento é, então, o meio de cura mais adequado homeopático e específico para esse estado mórbido; uma doença que não seja muito antiga é geralmente removida e extinta, sem distúrbio significativo, com a primeira dose. §155 Digo: sem distúrbio significativo, pois, no emprego desse medicamento homeopático mais apropriado, somente agem os sintomas mórbidos correspondentes aos sintomas medicamentosos do meio de cura, ocupando estes o lugar daqueles no organismo, isto é, nas sensações do princípio vital, aniquilando-os por superioridade de forças; os outros sintomas do medicamento homeopático, porém, que, muitas vezes são bem mais numerosos,não encontrando nenhuma aplicabilidade no caso de doença em questão, permanecem totalmente inativos. No estado de saúde do doente que melhora hora após hora, quase nada mais pode ser observado, porque a dose medicamentosa, profundamente diminuta necessária para o uso homeopático, é muito fraca para manifestar os outros sintomas não-homeopáticos nas regiões do corpo isentas de doença e, consequentemente, somente os sintomas homeopáticos podem agir nas regiões do organismo que já se encontram muito irritadas e excitadas pelos sintomas mórbidos semelhantes, a fim de fazer sentir ao princípio vital doente somente uma doença medicamentosa semelhante, porém mais forte, mediante a qual se extingue a doença original. §156 Raramente, porém, existe um medicamento homeopático, ainda que pareça ter sido escolhido de modo adequado, sobretudo se administrado em uma dose insuficientemente reduzida, que não produza em doentes muito excitáveis e sensíveis, ao menos um pequeno distúrbio incomum, um pequeno sintoma durante sua ação, pois é quase impossível que, em seus sintomas, o medicamento e a doença possam se sobrepor tão exatamente um ao outro como dois triângulos de ângulos e lados iguais. Mas esses desvios insignificantes (em um caso favorável) são facilmente eliminados pela própria força em atividade (Autocratie) do organismo vivo sem serem notados por doentes desprovidos de uma extrema sensibilidade; o restabelecimento prossegue, não obstante, objetivando a cura, a menos que seja impedido por influências medicamentosas estranhas nos doentes, devido a erros no regime ou às paixões. §157 Mas, o fato de um medicamento homeopaticamente escolhido, devido à pequenez da dose e sem manifestar seus outros sintomas não-homeopáticos, isto é, sem produzir novos e significativos distúrbios, remover e aniquilar de modo suave uma doença aguda análoga a ele, é também tão certo quanto o fato de que este medicamento produz uma espécie de pequena agravação (mas somente em doses inadequadamente reduzidas) logo após a ingestão, na primeira ou nas primeiras horas (durando, porém, várias horas quando se tratar de doses excessivas), a qual possui tanta semelhança com a doença original que dá ao doente a impressão de que é uma agravação do seu próprio mal. Mas, na verdade, ela nada mais é do que uma doença medicamentosa extremamente semelhante e um tanto superior em forças à doença original. §158 Esta ligeira agravação homeopática durante as primeiras horas - muito bom prognóstico de que a doença aguda geralmente cederá na primeira dose - não é rara, visto que a doença medicamentosa tem que ser, naturalmente, um pouco mais forte do que o mal a ser curado, já que ela deve também dominá-lo e extingui-lo, assim como também uma doença natural só pode remover e aniquilar uma outra semelhante quando for mais forte do que ela (§43-48). §159 Quanto menor a dose do medicamento homeopático no tratamento de doenças agudas, tanto menor e mais curta é também esta intensificação aparente da doença durante as primeiras horas. §160 Mas, visto que, praticamente não se pode preparar uma dose tão pequena de um meio de cura a ponto de que ele não possa aliviar, dominar e até curar e aniquilar a doença natural que lhe é análoga e que não seja de longa duração nem tenha sofrido complicação (§249, nota), compreende-se, então, por que uma dose de um medicamento homeopático adequado - que não seja a mínima possível - sempre produz, durante a primeira hora após sua ingestão, uma evidente agravação homeopática deste tipo* . * Tal intensificação, semelhante a uma agravação, dos sintomas medicamentosos sobre os sintomas mórbidos, que lhe são análogos, outros médicos também observavam quando o acaso lhes indicava um medicamento homeopático. Quando um doente que sofre de sarna, depois de haver ingerido enxofre, queixa-se de aumento da erupção, o médico que não lhe conhece a causa, consola-o assegurando-lhe que a sarna deverá sair completamente antes que se possa curá-la; ele não sabe, contudo, que se trata de uma erupção causada pelo enxofre e que assume a aparência apenas de uma exasperação da sarna. "A erupção facial que foi curada pela viola tricolor foi por ela agravada no começo de sua ação "segundo assegura Leroy (Heilk. fúr Mútter, 8, 406), mas ele não sabe que a agravação aparente era devida à dose excessiva do medicamento que, no caso, era de certo modo homeopático: viola tricolor. Lysons diz (Med. Transact. Vol.II London 1772): que "a casca de olmeiro cura com toda certeza as doenças de pele que se agravam no começo de uma ação". Se ele não houvesse dado essa casca nas doses monstruosas (como é costume na arte medicamentosa alopática), mas nas doses bem pequenas, de acordo com a semelhança dos sintomas medicamentosos, isto é, segundo seu emprego homeopático, teria curado sem ou quase sem notar essa aparente intensificação da doença (agravação homeopática). §161 Se aqui situo a chamada agravação homeopática, ou antes, a ação primária que parece intensificar um pouco os sintomas da doença original na primeira ou nas primeiras horas, é porque, sem dúvida, é assim que ocorre com as doenças mais agudas de origem recente; mas, nos casos em que os medicamentos de ação prolongada tenham que combater uma doença antiga ou muito antiga, não podem surgir agravações aparentes da doença original no curso do tratamento; tampouco se apresentam se o medicamento adequadamente escolhido for administrado em dose suficientemente pequena e somente aumentada gradativamente e a cada nova dinamização for um pouco modificado* (§247). Essa intensificação dos sintomas originais da doença crônica pode, então, surgir somente no fim do tratamento, quando a cura estiver quase ou completamente processada. * Se as doses do medicamento melhor dinamizado (§270) forem suficientemente pequenas e se a dose a cada vez for modificada mediante sucussões, então, devem ser repetidos os medicamentos, ainda que de ação prolongada, em breves intervalos, mesmo em doenças crônicas. §162 Diante do número ainda moderado de medicamentos conhecidos justamente por seu efeito puro e verdadeiro, acontece, às vezes, que, apenas uma parte dos sintomas da doença a ser curada será encontrada na série de sintomas do medicamento mais adequado; tal potência medicamentosa imperfeita deve, consequentemente, ser empregada na falta de outra mais perfeita. §163 Nesse caso, certamente não se pode esperar de tal medicamento nenhuma cura completa e isenta de distúrbios, pois, durante o seu uso, sobrevêm alguns fenômenos que não podiam ser observados na doença e que são sintomas acessórios do medicamento não perfeitamente adequado. Eles não impedem, na verdade, que uma parte do mal (os sintomas mórbidos semelhantes aos sintomas medicamentosos) seja extinta por este medicamento e que disso resulte um princípio conveniente de cura, embora com aqueles distúrbios que são, contudo, apenas moderados, quando a dose do medicamento for suficientemente pequena. §164 O número reduzido de sintomas homeopáticos existente no medicamento melhor escolhido, não causa, contudo, no caso em questão, nenhum prejuízo para a cura se estes poucos sintomas medicamentosos forem, principalmente, de tipo incomum e peculiarmente distintivos (característicos) da doença; segue-se, então, a cura sem distúrbios particulares. §165 Se, porém, não houver exata semelhança entre os sintomas do medicamento escolhido e os sintomas incomuns, peculiares, distintivos (característicos) do caso de doença e se o medicamento apenas corresponde à doença nos seus estados gerais, não exatamente descritos e indefinidos (náusea, debilidade, dor de cabeça etc.) e se não houver, entre os medicamentos conhecidos, nenhum homeopaticamente apropriado, o artista da cura não deve esperar, então, nenhum resultado imediatamente favorável doemprego deste medicamento homeopático. §166 Contudo, esse caso é muito raro diante do aumento do número de medicamentos conhecidos agora pelos seus efeitos puros, e suas danosas conseqüências, caso ocorram, diminuem logo que um medicamento posterior semelhante possa ser escolhido. §167 Com efeito, se com o emprego desse medicamento imperfeitamente homeopático usado inicialmente, ocorrem distúrbios secundários de alguma significação, não se deve permitir, então, nas doenças agudas, que essa primeira dose esgote a sua ação nem se deve deixar o doente à mercê de toda duração de seu efeito, devendo examinar novamente a condição mórbida na sua presente alteração e acrescentar os sintomas restantes originais aos surgidos recentemente, a fim de traçar um novo quadro da doença. §168 Será, então, mais fácil descobrir, entre os medicamentos conhecidos, um análogo a tal estado mórbido, do qual uma única dose, mesmo que não aniquile totalmente a doença, levá-la-á bem mais próximo da cura. E assim se continua, embora esse medicamento não seja suficiente para restabelecer a saúde, mediante reiterados exames do estado mórbido que ainda permanecer e mediante a escolha de um medicamento homeopático tão adequado quanto possível, até que o objetivo de colocar o doente na plena posse da saúde esteja atingido. §169 Se no primeiro exame de uma doença e na primeira escolha de um medicamento, ocorre a constatação de que o conjunto característico de sintomas da doença não é suficientemente coberto pelos elementos mórbidos de um único medicamento - devido ao numero insuficiente de medicamentos conhecidos - mas que dois medicamentos competem para serem os preferidos quanto à sua conveniência, sendo que um é mais adequado homeopaticamente para uma parte dos sintomas e o outro mais conveniente para a outra parte, não é aconselhável, após o emprego do mais conveniente dos dois, administrar o outro sem novo exame* , pois o medicamento que se mostrava como o segundo para a escolha, já não será adequado ao resto dos sintomas que ainda permanecerem, em razão de uma alteração nas circunstâncias ocorridas nesse ínterim. Consequentemente, nesse caso, para o novo grupo de sintomas a ser constatado, deve ser escolhido um outro medicamento homeopático mais adequado, em lugar do segundo. * E ainda muito menos ministrar ambos juntos ( § 272) §170 Por isso, também nesse caso, como em todos os casos em que ocorre alteração da condição mórbida, o atual grupo de sintomas ainda restantes precisa ser questionado (sem levar em conta o medicamento que, no início, pareceu ser conveniente para a segunda escolha) e um outro medicamento homeopático tão apropriado quanto possível ao novo estado atual deve ser escolhido. Se ocorrer, o que não é muito freqüente, que o medicamento que no inicio parecia ser o segundo para a escolha continue, mesmo assim, mostrando-se bem adequado ao estado mórbido que persiste, será, então, tanto mais digno de confiança para ser o preferido. §171 Nas doenças crônicas não-venéreas causadas, portanto, na maioria da vezes pela psora, tem-se, muitas vezes, necessidade, para a cura, de dar diversos medicamentos antipsóricos sucessivamente, mas de modo que cada um que se sucede seja escolhido de acordo com o diagnóstico dos sintomas que permaneceram depois de terminado o efeito do medicamento anterior. §172 Uma dificuldade semelhante decorre do número insignificante dos sintomas de uma doença a ser curada, circunstância esta que merece nossa cuidadosa atenção, pois mediante sua remoção, são eliminadas quase todas as dificuldades desse método de cura - o mais perfeito entre os possíveis (quando não se leva em conta o ainda incompleto arsenal de medicamentos homeopáticos conhecidos). §173 Somente as doenças que se podem chamar parciais e que, por essa razão são mais difíceis de curar, parecem apresentar poucos sintomas, porque revelam apenas um ou dois sintomas principais que ocultam quase todos os demais fenômenos. Elas pertencem, principalmente, à categoria das doenças crônicas. §174 O seu sintoma principal pode ser tanto um padecimento interno (p. ex., uma dor de cabeça de muitos anos, uma diarréia prolongada, cardialgia antiga etc) como um padecimento de natureza mais externa, que costumam ser chamados, geralmente, de doenças locais. §175 Nas doenças parciais do primeiro tipo, o fato de não poder descobrir totalmente os fenômenos para completar o perfil da doença reside, freqüentemente, apenas na falta de atenção do observador. §176 Há, contudo, um pequeno número de males desse tipo que, após toda investigação inicial mais cuidadosa (§84-98), excetuando um ou dois fenômenos mais fortes e intensos, apenas deixam transparecer vagamente todos os demais. §177 A fim de tratar com êxito este caso, embora muito raro, deve-se primeiramente escolher, com base nesses escassos sintomas, o medicamento homeopaticamente indicado segundo o melhor critério. §178 Ás vezes, é bem provável acontecer que esse medicamento, escolhido mediante rigorosa observação da lei homeopática, produza a doença artificial adequada para a extinção do mal em curso, O que mais provavelmente acontecerá quando esses sintomas escassos são muito evidentes, precisos e incomuns ou particularmente distintos (característicos). §179 Em casos mais freqüentes, porém, o medicamento que, então, foi escolhido em primeiro lugar, pode ser apenas em parte adequado, isto é, não exatamente adequado, pois não houve um número significativo de sintomas que orientasse uma escolha acertada. §180 É, então, que o medicamento, na verdade tão bem escolhido quanto possível, mas imperfeitamente homeopático pelos motivos já ponderados, em seu efeito contra a doença que lhe é apenas parcialmente semelhante - como no caso referido acima (§ 162), em que a escassez de meios de cura homeopáticos torna por si só imperfeita a escolha - vai causar distúrbios secundários e diversos fenômenos de sua própria série de sintomas se misturam com o estado de saúde do doente, os quais, contudo, são, ao mesmo tempo, sintomas da própria doença, embora, até então, nunca ou raramente terem sido percebidos; surgirão ou desenvolver-se-ão intensamente fenômenos que o doente há pouco tempo antes absolutamente não percebia ou percebia apenas vagamente. §181 Não se objete que os distúrbios agora surgidos e os novos sintomas dessa doença ocorrem por conta do medicamento que acabou de ser usado. Tais distúrbios provém dele* ; são, porém, apenas certos sintomas cujo aparecimento essa doença também já era capaz de produzir por si nesse organismo e que o medicamento - na qualidade de auto-produtor de sintomas semelhantes - somente atraiu e fez aparecer. Em uma palavra, tem-se que considerar tudo o que agora, seguramente, passou a ser o conjunto característico de sintomas como pertencente à própria doença, como o verdadeiro estado atual e tratá-lo, futuramente, de acordo com ele. * Quando sua causa não foi um erro importante no regime de vida, uma paixão intensa ou um fenômeno tumultuoso no organismo, como o início ou a parada de regras, concepção, parto etc. §182 Assim, a escolha imperfeita do medicamento, inevitável, nesse caso, devido ao número escasso de sintomas presentes, serve, apesar disto, para completar a série de sintomas da doença, facilitando, desse modo, a descoberta de um segundo medicamento homeopático mais seguramente adequado. §183 Portanto, logo que a dose do primeiro medicamento não agir beneficamente (quando os distúrbios recentemente surgidos em razão de sua intensidade não requerem auxílio mais rápido - o que, contudo, quase nunca ocorre com pequenas doses do medicamento homeopático e em doenças muito antigas - deve-se fazer um novo diagnóstico da doença; o Status morbi, tal como ele se apresenta deve ser anotadoe, de acordo com ele, deve ser escolhido um segundo medicamento homeopático que convenha exatamente ao estado em curso e que pode ser ainda mais adequado, pois o grupo dos sintomas se tornou mais numeroso e mais completo* . * No caso em que o doente (o que contudo ocorre muito raramente nas doenças crônicas, porém mais freqüentemente nas doenças agudas) se sente muito mal não obstante sintomas muito leves, de modo que esse estado possa ser atribuído mais ao estado de entorpecimento dos nervos que não permite ao doente perceber claramente as dores e padecimentos, o ópio alivia esse torpor da sensibilidade interna, tornando-se mais claros os sintomas da doença durante sua ação secundária. §184 E assim seguidamente, após a completa ação de cada medicamento, quando ele já não for mais adequado e útil, o estado da doença que ainda permanece é novamente averiguado quanto aos sintomas remanescentes e, de acordo com esse grupo de fenômenos encontrado, mais uma vez é procurado um medicamento homeopático tão adequado quanto possível e, assim por diante, até o restabelecimento. §185 Entre as doenças parciais, ocupam lugar de destaque os chamados males locais, devido aos quais se percebem, nas partes externas do corpo, alterações e distúrbios e sobre os quais se ensinou até agora que somente tais partes eram afetadas, sem que o resto do organismo participasse, postulado este teórico e desprovido de sentido, que tem conduzido a um tratamento médico deveras desastroso. §186 Os chamados males locais, surgidos há pouco tempo e apresentando lesão apenas externa, parecem, à primeira vista, merecer o nome de males tópicos. Mas, então, a lesão deveria ser também insignificante e, por conseguinte, não teria importância especial, pois males de causa externa de alguma gravidade qualquer causam padecimento a todo o organismo, ocorrendo febre etc. A cirurgia se ocupa dos mesmos, mas isto somente é correto quando as partes afetadas requeiram ajuda mecânica mediante a qual os obstáculos externos à cura que não pode provir senão da força vital, podem ser removidos pelos meios mecânicos, p.ex., pelas reduções, pela sutura das bordas de uma ferida, pela pressão mecânica para estancar o fluxo de sangue de artérias abertas, pela extração de corpos estranhos que penetraram nas partes vivas pela abertura de uma cavidade no corpo para remover alguma substância irritante ou para obter a eliminação de derrames ou fluidos acumulados, pela adaptação das partes de um osso fraturado em sua posição correta, mediante uma ligadura apropriada etc. Mas, quando, em tais lesões, todo o organismo vivo requer, como sempre, ajuda dinâmica ativa, a fim de efetuar a tarefa curativa, como p. ex., quando a febre intensa resultante de grandes contusões, músculos, tendões ou vasos sangüíneos dilacerados tem que ser removida mediante medicamentos internos ou quando a dor superficial de áreas queimadas ou cauterizadas deve ser homeopaticamente suprimida, então entra em cena a atividade do médico dinâmico e sua ajuda homeopática. §187 Mas os males, alterações e distúrbios que não têm como causa nenhuma lesão externa ou que foram causados apenas por um pequeno ferimento externo resultam de um tipo completamente diferente, tendo sua origem em um padecimento interno. Considerá-las como meras afecções locais ou tratá-las quase que exclusivamente de maneira como que cirúrgica, com aplicações tópicas ou outros meios semelhantes, como tem feito a medicina até agora desde as origens, é tão fora de propósito quanto muitíssimo pernicioso em suas conseqüências. §188 Consideravam-se esses males meramente tópicos e, por este motivo, foram chamados males locais, como se fossem exclusivamente alterações, em que o organismo tivesse pouca ou nenhuma participação, ou afecções destas partes isoladas e visíveis a respeito das quais o resto do organismo vivo, por assim dizer, nada soubesse* . * Um dos inúmeros e perniciosos disparates da velha escola. §189 E, contudo, uma ligeira reflexão é suficiente para mostrar que nenhum mal externo pode nascer, persistir e muito menos se agravar, sem uma causa interna ou a cooperação do organismo (consequentemente doente). Não pode, absolutamente, dos outros setores surgir sem o consentimento de todo o resto do estado de saúde e sem a participação do conjunto vivo (isto é, do princípio vital dominante em todas as outras partes sensíveis e excitáveis do organismo); com efeito, seu desenvolvimento é impossível de ser concebido sem que toda a vida (alterada) tenha sido ativada para tal, tão intimamente interligadas se encontram todas as partes do organismo formando um todo indivisível de sensações e funções. Não pode haver erupção nos lábios ou panarício sem que haja precedente ou simultaneamente uma perturbação interna do indivíduo. §190 Todo legítimo tratamento médico de um mal originado nas partes exteriores do corpo, quase sem lesão externa, deve, pois, ser dirigido ao conjunto, à extinção e cura do padecimento geral, por meio de medicamentos internos, se se pretender que ele seja oportuno, seguro, eficaz e radical. §191 Isto se confirma de modo inequívoco pela experiência que mostra, em todos os casos, que todo medicamento interno ativo, imediatamente após sua ingestão, causa alterações significativas, tanto no estado geral de saúde de tal doente como, principalmente, nas partes externas afetadas (que, para a medicina comum são partes isoladas), mesmo nas partes mais externas nos chamados males locais e essa alteração é, na verdade, deveras salutar, sendo o restabelecimento da saúde de todo o indivíduo, juntamente com o desaparecimento da afecção externa (sem a ajuda de qualquer meio externo), desde que o medicamento interno, dirigido ao todo, tenha sido escolhido de modo adequadamente homeopático. §192 Isto acontece da forma mais conveniente quando, por ocasião do exame do caso de doença, a par da natureza exata da afecção local, todas as alterações, distúrbios e sintomas evidentes no resto do organismo do doente ou que já haviam sido notados antes do emprego de medicamentos, são considerados em conjunto, objetivando um esboço completo do quadro da doença, antes de se procurar, entre os medicamentos conhecidos pelos seus efeitos mórbidos peculiares, o meio de cura que corresponda à totalidade dos fenômenos, a fim de se efetuar uma escolha acertada. §193 Mediante esse medicamento ministrado apenas internamente (e, quando a doença é recente, já na primeira dose), o estado mórbido geral do organismo e removido juntamente com a afecção local, que é curada ao mesmo tempo que aquele, provando que a afecção local dependia única e exclusivamente de uma doença do resto do organismo e só deveria ser considerada como uma parte inseparável do todo, como um dos maiores e mais evidentes sintomas da doença geral. §194 Não é oportuno, quer nas afecções locais recentes, quer nos males locais já há algum tempo existentes, friccionar ou aplicar um medicamento externo, embora sendo ele o específico que, empregado internamente, seja homeopaticamente salutar, não obstante seja, ao mesmo tempo, administrado internamente, pois as afecções tópicas agudas (p.ex., inflamações de partes isoladas, erisipelas etc.) que não tenham sido precisamente causadas por lesões externas proporcionalmente intensas, mas por causas dinâmicas ou internas, de modo mais seguro cedem, geralmente, de modo exclusivo aos medicamentos internos, homeopaticamente adaptados ao estado de saúde perceptível externa e internamente, escolhidos do arsenal geral dos medicamentos experimentados. Se, porém, restar no local afetado e no estado geral, a par de um regime de vida adequado, um resquício de doença que a força vital não tem condições de fazer retornar à normalidade, então a afecção local aguda foi (como não raro ocorre) um produto da psora atéentão latente no interior e que irrompe, situando-se a ponto de desenvolver-se como doença crônica manifesta. §195 Em tais casos, não raros, após razoável remoção do estado agudo, contra o distúrbio remanescente e o estado mórbido anteriormente habitual do paciente, deve-se dirigir um tratamento antipsórico adequado (como foi ensinado no livro sobre doenças crônicas a fim de se obter uma cura radical*). Nos males crônicos locais que não são manifestamente venéreos, a cura interna antipsórica é, além disso, preferível. * Conforme indiquei no meu livro sobre doenças crônicas. §196 Sem dúvida, poderia parecer que a cura de tal doença seria acelerada se, para todo o conjunto característico de sintomas, o meio de cura conhecido como verdadeiramente homeopático fosse não só interna, mas também externamente empregado, porque o efeito de um medicamento aplicado no próprio local da afecção deveria produzir nela uma mudança mais rápida. §197 Tal tratamento, porém, é totalmente condenável, não só nos sintomas locais que têm sua origem no miasma da psora, mas também naqueles que provêm do miasma da sífilis ou da sicose, pois a aplicação simultânea externa e interna de um medicamento em doenças que têm como sintoma principal uma afecção local constante, tem a grande desvantagem de que o sintoma principal (afecção local*) desaparece geralmente mais rapidamente do que a doença interna, enganando-nos com a aparência de uma cura completa, ou, pelo menos, tornando difícil, impossível mesmo, em alguns casos, determinar, mediante eliminação prematura do sintoma local, se a doença geral foi aniquilada pelo emprego simultâneo do medicamento interno. * Recente erupção de sarna, cancro, doença condilomatosa. §198 A mera aplicação tópica, nos sintomas locais de doenças crônicas miasmáticas, do medicamento de poder interno de cura é reprovável pelo mesmo motivo, pois, se a afecção local da doença crônica for removida apenas parcial e localmente, o tratamento interno, indispensável ao completo restabelecimento da saúde, permanece numa obscura incerteza; o sintoma principal (a afecção local) desaparece, restando somente os outros sintomas menos conhecidos e que são menos constantes e persistentes do que a afecção local, freqüentemente com muito poucas peculiaridades e muito pouco característicos para poder mostrar um quadro de doença com nítidos e completos contornos. §199 Se o medicamento perfeitamente homeopático para a doença não tiver ainda sido encontrado* quando o sintoma local foi eliminado por medicamento externo secativo ou caustico ou pela excisão, o caso se torna, então, muito mais difícil, porque os sintomas ainda remanescentes são demasiadamente imprecisos (não característicos) e inconstantes, pois aquilo que poderia conduzir e determinar a escolha do medicamento mais adequado e seu emprego interno, até o ponto de extinção completa da doença, isto é, o sintoma externo principal, é afastado de nossa observação. * Como ocorreu antes de minha época com os meios de cura para a doença condilomatosa (e os medicamentos antipsóricos). §200 Se tal sintoma externo ainda existisse durante o tratamento interno, ter-se-ia encontrado o meio de cura homeopático para a totalidade da doença e se este fosse encontrado, a persistência da afecção local durante seu emprego interno exclusivo teria mostrado que a cura ainda não havia se completado, mas, se o mal é curado localmente, sem o uso de qualquer meio externo e repelente, isto demonstraria de modo convincente que o mal foi completamente erradicado e que o restabelecimento de toda a saúde foi realizado até o objetivo proposto, o que é uma vantagem inestimável e indispensável para alcançar uma cura perfeita. §201 Quando a força vital humana está obstada por uma doença crônica que não pode vencer por suas próprias forças, direciona de maneira evidente (instintivamente), a formação de uma afecção local em alguma parte externa qualquer, unicamente com o objetivo de acalmar o mal interno que, por sua vez, ameaça destruir os órgãos vitais e arrebatar a vida, tornando e mantendo doente essa parte externa do organismo que não é indispensável para a vida humana, e, por assim dizer, transporta a doença interna para uma afecção local substitutiva, como se a deslocasse do interior. Desse modo, a presença da afecção local acalma por algum tempo a doença interna, sem, contudo, poder curá-la ou diminuí-la sensivelmente* . Contudo, a afecção local nada mais é do que uma parte da doença geral, mas que, parcialmente aumentada pela força vital orgânica, foi transferida para um local (externo) menos perigo50 do organismo, a fim de amenizar o padecimento interno. Entretanto (como já foi dito), mediante esse sintoma local que silencia a doença interna da parte da força vital, ganha-se tão pouco em relação à diminuição ou à cura de todo o mal que o padecimento interno, ao contrário, aumenta progressivamente e a natureza se vê obrigada a intensificar e a agravar cada vez mais o sintoma local, a fim de que seja suficiente para substituir e suavizar o mal interno ampliado. As úlceras antigas das pernas se agravam enquanto a psora interna permanece incurada; o cancro aumenta enquanto a sífilis interna permanece sem cura e as formações condilomantosas aumentam e crescem enquanto a sicose não for curada, razão pela qual se torna cada vez mais difícil de curar, à medida que a doença interna total continua a se desenvolver com o passar do tempo. * Os exutórios do médico da velha escola fazem algo semelhante; como abscessos artificiais nas partes externas acalmam alguns padecimentos crônicos internos mas apenas por um curto espaço de tempo (enquanto causam uma irritação dolorosa a que o organismo doente não está acostumado) sem poder curá-las, enfraquecendo ou destruindo, porém, por outro lado, todo o estado de saúde muito mais do que o fazem as metástases produzidas pela força vital de tipo instintivo. §202 Se o médico da escola que prevaleceu até agora destruir topicamente o sintoma local, mediante um meio externo, crendo, desse modo, curar toda a doença, a natureza, então, o substitui, mediante o despertar do padecimento interno e dos outros sintomas já presentes em estado latente, juntamente com a afecção local, isto é, mediante agravamento da doença interna. Nesse caso, costuma-se dizer, erroneamente, que a afecção interna, mediante os meios externos, foi recolhida para o organismo ou para os nervos. §203 Todo tratamento externo de tais sintomas locais visando à sua remoção da superfície do organismo, sem que a doença interna miasmática tenha sido curada, como eliminar da pele a erupção da sarna mediante diversos tipos de ungüentos, cauterizar o cancro exteriormente e exterminar os condilomas unicamente através da lanceta, ligadura ou ferro incandescente, tratamento esse externo e pernicioso, tão comum até nossos dias, tornou-se a maior fonte de todos os incontáveis padecimentos crônicos conhecidos e desconhecidos dos quais a humanidade tanto se queixa; tal tratamento é uma das práticas mais criminosas que a corporação médica poderia se imputar e, não obstante, foi usualmente adotado até hoje e ensinado pelas cátedras como o único* . * Pois quaisquer medicamentos que viessem a ser ministrados internamente serviam apenas para agravar o mal, já que esses meios não possuíam nenhuma força específica de curar a totalidade da doença, mas atacavam o organismo, enfraquecendo-o e acrescentando-lhe outras doenças medicamentosas crônicas. §204 Se deduzirmos todas as afecções, alterações e doenças prolongadas que dependem de um modo de vida que não é saudável (§77), bem como as inúmeras doenças medicamentosas (v.§74) resultantes do tratamento irracional, persistente, agressivo e pernicioso, mesmo de doenças freqüentemente banais, praticado por médicos da velhaa força medicamentosa especifica. Antes, está invisível no glóbulo umedecido ou na sua solução liberada o mais possível da substância medicamentosa agindo dinamicamente sobre o organismo inteiro, já em contato com a fibra animal viva (sem, contudo transmitir-lhe qualquer matéria, ainda que muito sutil, agindo tanto mais fortemente quanto mais livre e mais imaterial ela se tornou por meio da dinamização (§270). É, portanto, absolutamente impossível em nossa notável época, tão rica em pensadores, imaginar a força dinâmica como algo não corpóreo, visto que, diariamente se vêem fenômenos que não podem ser explicados de outro modo? Se você olha para algo repugnante e sente vontade de vomitar, terá porventura, um vomitivo material entrado em seu estômago, obrigando-o a esse movimento peristáltico? Não foi unicamente o efeito dinâmico do aspecto repugnante sobre a sua imaginação? E quando você levanta seu braço, por, ventura isso ocorre por meio de um instrumento material visível? Uma alavanca? Não é unicamente a força dinâmica, não material de sua vontade, que o levanta? §12 Somente a força vital morbidamente afetada produz as doenças *, de modo que ela se exprime no fenômeno mórbido perceptível aos nossos sentidos, simultaneamente a toda alteração interna, isto é, a toda distonia mórbida da “Dynamis” interna, revelando toda a doença. Por outro lado, contudo, o desaparecimento de todo fenômeno mórbido, isto é, de toda alteração considerável que se afasta do processo vital saudável, por meio da cura, certamente também implica e pressupõe, necessariamente, o restabelecimento da integridade do princípio vital e, consequentemente, o retorno da saúde a todo o organismo. * Como a força vital leva o organismo a desenvolver manifestações mórbidas, isto é, como ela cria doença? O artista da cura não pode tirar proveito algum deste como e porquê, permanecendo a mesma eternamente oculta a ele; o que lhe era necessário e completamente suficiente para o objetivo da cura, o Senhor da vida colocou diante de seus sentidos. §13 Por conseguinte, a doença (que não compete ao processo mecânico da cirurgia) não ocorre de forma alguma segundo consideram os alopatas: como algo separado do conjunto vivo do organismo e da “Dynamis” que o anima, internamente oculta, embora esta entidade tão sutil (um absurdo)* só possa ser produto de cabeças materialistas, fornecendo à medicina em curso, desde milênios, todas as perniciosas diretrizes que fizeram dela uma verdadeira arte de não-curar. * Matéria peccans! §14 Não existe qualquer manifestação patológica no interior do Homem nem alteração mórbida invisível suscetíveis de ser curadas que não se revelem ao médico criterioso e observador, através de sinais e sintomas da doença de acordo com a infinita bondade do onisciente Preservador da vida dos Homens. §15 O sofrimento da “Dynamis” de tipo não material (força vital), animadora de nosso corpo, afetada morbidamente no interior invisível e o conjunto dos sintomas exteriormente observáveis e por ela dispostos no organismo e representando o mal existente, constituem um todo, são uma única e mesma realidade. Sendo, porém, o organismo o instrumento material da vida, ele é tampouco concebível sem a animação pela “Dynamis” instintiva, sua sensora e regularizadora, tanto quanto a força vital sem o organismo; consequentemente, ambos constituem uma unidade, embora, em pensamento, nós a separemos em dois conceitos, a fim de facilitar sua compreensão. §16 Nossa força vital, na qualidade de “Dynamis” de tipo não material somente, pois, de forma não material (dinâmica) pode ser atacada e afetada por influências prejudiciais ao organismo sadio, através de forças hostis vindas do exterior, perturbando o harmonioso jogo da vida. Do mesmo modo, todas essas afecções mórbidas (as doenças) não podem ser afastadas dela pelos artistas da cura senão através das forças modificadoras de tipo não material (dinâmicas * , virtuais) dos medicamentos apropriados agindo sobre nossa força vital de tipo não material e sendo percebidas através da sensibilidade dos nervos presentes em todo o organismo. Por conseguinte, os medicamentos podem restabelecer a saúde e a harmonia vital e, de fato, as restabelecem, somente através do efeito dinâmico sobre o princípio vital, depois que as alterações no estado de saúde do doente, perceptíveis por nossos sentidos (os sintomas essenciais), apresentaram ao médico, que observa e investiga atentamente, a doença de modo tão completo quanto necessário para permitir-lhe a cura. *Vide nota do §11. §17 Visto que, na cura, sempre que há a remoção da completa essência dos sinais e fenômenos perceptíveis da doença, é removida ,ao mesmo tempo, a alteração interna de sua força vital que lhe deu origem - a totalidade da doença* - segue-se, então, que o artista da cura simplesmente deve tomar a essência dos sintomas a Fim de afastar e aniquilar a alteração interna ,isto é, a afecção do princípio vital - portanto, o total da doença, a própria doença2* . A doença aniquilada é a saúde restabelecida, o mais alto e único objetivo do médico que conhece o significado de sua missão, que consiste, não em falatórios que soam a erudição, mas no auxílio ao doente. * Assim também as doenças mais graves podem ser produzidas por uma considerável alteração do princípio vital através da imaginação e, da mesma maneira, podem ser também removidas. Um sonho premonitório, uma superstição ou uma solene profecia sobre a chegada infalível da morte em um certo dia ou a uma certa hora não raro produzindo todos os sinais da doença incipiente e progressiva, da morte próxima ou mesmo a própria morte na hora anunciada, o que não seria possível sem a produção simultânea de uma alteração interna (correspondente a circunstâncias perceptíveis exteriores). Por isso, em tais casos, todos os indícios mórbidos anunciados da morte próxima se dissipam pelo mesmo motivo através de uma artimanha engenhosa ou quando o doente é persuadido do contrário, retornando subitamente a saúde, o que não teria sido possível sem a remoção, através desse meio de cura meramente moral, das alterações mórbidas internas e externas prontas a causar a morte. 2* Só assim Deus, o sustentáculo da humanidade pode revelar sua sabedoria e bondade na cura das doenças às quais ela está sujeita, mostrando ao artista da cura o que ele teria que remover, para, assim, restabelecer a saúde. Mas o que deveríamos pensar de sua sabedoria e bondade, se ele tivesse envolvido e encerrado no âmago, em mística obscuridade aquilo que deve ser curado nas doenças (como pretendia a escola medicamentosa dominante, afetando possuir visão divinatória da essência intima das coisas) e, assim, tivesse tornado impossível ao Homem o claro conhecimento do mal, e, conseqüentemente a sua cura? §18 Desta indubitável verdade, isto é, que não há, de modo algum, nas doenças, salvo a totalidade dos sintomas e suas modalidades, nada que possa ser encontrado e que expresse a necessidade de intervenção do auxílio à doença, depreende-se, inegavelmente, que a essência de todos os sintomas percebidos e das circunstâncias em cada caso individual de doença e a única indicação, o único denotador do meio de cura a ser escolhido. §19 Visto que as doenças não são mais do que alterações do estado de saúde do indivíduo sadio, expressando-se através de sinais mórbidos e que a cura, igualmente, só é possível através da conversão deste estado em saúde, vê-se, então, sem dificuldade, que os medicamentos não poderiam curar as doenças de modo algum, se não possuíssem a força de alterar o estado de saúde do Homem, baseado em sensações e funções e mais: vê-se, que unicamente nesta sua força de alterar o estado de saúde é que se deve basear seu poder de cura. §20 Essa força de tipo não material de transformar o estado de saúde do indivíduoescola, a maior parte do restante dos males crônicos resulta do desenvolvimento dos três miasmas crônicos mencionados: sífilis interna, sicose interna, mas principalmente e, em proporção infinitamente maior, a psora interna. Cada um desses miasmas já estava de posse de todo o organismo, havendo penetrado em todas as suas partes antes do surgimento do sintoma local primário e substituto que impede a eclosão da doença (no caso da psora, a erupção da sarna, no caso da sífilis, o cancro ou a bouba e no da sicose, os condilomas). Se esses miasmas, mediante os meios externos mencionados são privados dos sintomas locais substitutos que silenciam o padecimento geral interno, mais cedo ou mais tarde, estão destinados pelo Criador da natureza a desenvolver-se e a irromper, propagando todas as misérias inominadas, o número inacreditável de males crônicos que vêm afligindo a humanidade há centenas e milhares de anos. Nenhum deles teria existido com tanta freqüência se os médicos tivessem se empenhado judiciosamente em curar radicalmente e em extinguir do organismo esses três miasmas sem empregar medicamentos locais para seus sintomas externos, contando apenas com os medicamentos homeopáticos adequados para cada um deles (ver' nota do § 282). §205 O médico homeopata jamais trata um desses sintomas primários dos miasmas crônicos nem os males secundários que resultam de seu desenvolvimento com medicamentos tópicos (nem por meio dos meios externos que agem dinamicamente* , nem dos que agem mecanicamente> mas, quando surge um ou outro, ele se limita a curar o miasma causador, desaparecendo, desse modo, espontaneamente, os sintomas primários e secundários (excetuando- se alguns casos de sicose inveterada). Porém, como não acontecia o mesmo antes dele, o médico homeopata lamentavelmente já encontra a maioria dos sintomas 2* externamente destruída pelos médicos que o precederam e com os sintomas secundários, isto é, as afecções da irrupção e desenvolvimento desses miasmas inerentes; mas é sobretudo com as doenças crônicas produzidas pela psora interna que ele tem que lidar. Eu mesmo me empenhei em apresentar o seu tratamento interno tanto quanto podia um único médico depois de longos anos de reflexão, observação e experiência em minha obra sobre as doenças crônicas, a qual eu indico. * Daí eu não poder aconselhar, por ex., a extirpação local do chamado câncer dos lábios ou da face (fruto da psora muito desenvolvida, não raro associada à Syphilis) mediante o meio arsenical de Cosme, não somente por ser excessivamente doloroso e, muitas vezes falho, mas sobretudo porque, mesmo que esse meio livre localmente o corpo da úlcera maligna, o mal fundamental, desse modo não será em nada diminuído, tomando-se necessário que a força vital, conservadora da vida, transfira o foco do grande mal interior para um local ainda mais importante (como o faz em todas as metástases) produzindo, desse modo, cegueira, surdez, loucura, asma sufocante, hidropsia, apoplexia etc. Essa liberação local ambígua da parte afetada pela úlcera maligna mediante meio tópico arsenical somente é bem sucedida quando a úlcera ainda não é muito grande nem de origem venérea e a força vital ainda conserva bastante energia; mas é precisamente nestas condições que a cura interior e completa do mal original é ainda praticável. A mesma conseqüência ocorre sem a cura prévia do miasma interior, quando o câncer da face ou do seio são removidos apenas pelo corte e quando tumores enquistados são extirpados; segue-se a isso algo ainda pior e, no mínimo, a morte é acelerada. Esse tem sido o resultado inúmeras vezes, mas a velha escola, em sua cegueira, insiste em provocar em cada novo caso, a mesma calamidade. 2* Erupção da sarna, cancro (bubão), doença condilomatosa. §206 Antes do início do tratamento de uma doença crônica, é indispensável proceder a uma investigação* muito criteriosa para saber se o doente teve algum contágio venéreo (ou um contágio com gonorréia condilomatosa) pois é contra esse contágio exclusivamente que o tratamento deve ser dirigido, quando existirem apenas sinais de sífilis (ou da doença condilomatosa, que e mais rara>, mas hoje em dia é muito raro encontrar tais afecções isoladamente. Contudo, se tal contágio tiver ocorrido antes, isso também deve ser levado em consideração quando a psora tem que ser tratada, porque, em tal caso, a mesma está complicada com aquela, como sucede sempre quando os sinais não são puros, pois sempre ou, quase sempre, o médico, quando julga estar diante de uma antiga doença venérea, terá que tratar um caso acompanhado principalmente pela psora (complicado), pois a discrasia interna da sarna (psora) é, de longe, a mais freqüente causa fundamental das doenças crônicas. Ele, por vezes, também terá que lutar contra esses dois miasmas complicados com a sicose em organismos cronicamente doentes quando, segundo depoimentos, houverem ocorrido contágios dessa última, ou ele descobre, como acontece amiúde, que a psora é a única causa fundamental de todas as outras doenças crônicas (qualquer que seja o seu nome) que, além disso, costumam ser ainda aumentadas e desfiguradas terrivelmente pela (não-arte) alopática. * Em averiguações dessa natureza não nos deixemos iludir pelas freqüentes afirmações dos doentes ou de seus parentes que freqüentemente atribuem a causa de doenças crônicas, mesmo as mais graves e as mais inveteradas a um resfriamento (por haverem se molhado ou bebido água fria com o corpo quente), ou a um susto sofrido há tempos, um esforço excessivo, uma contrariedade (e ainda uma feitiçaria). Tais causas são muitíssimo fracas para provocar uma doença crônica em um corpo sadio, sustentando-a durante muitos anos e tornando-a mais grave a cada ano, como acontece a todas as doenças crônicas resultantes da psora desenvolvida. Causas diversas de caráter muito mais importante do que tais prejuízos mencionados devem residir na base da origem e progresso do mal antigo, grave e pertinaz. Tais causas apontadas somente podem proporcionar um momento de revelação de um miasma crônico. §207 Após haver obtido a informação acima mencionada, o médico homeopata ainda tem que investigar: a que tipos de tratamentos alopáticos foi submetido até então o doente crônico, a que tipo de medicamentos de ação forte ele recorreu preferencialmente e com maior freqüência ele recorreu e também que tipo de banhos minerais haviam sido usados e que efeitos produziram, a fim de compreender, até certo ponto, a degeneração de sua condição original, quando possível, corrigindo em parte essas alterações artificiais perniciosas, ou poder evitar o emprego de medicamentos que já haviam sido impropriamente utilizados. §208 A seguir, devem ser levados em consideração a idade do doente, seu modo de vida e de alimentação, sua situação doméstica, suas relações sociais etc., a fim de verificar se esses elementos contribuíram para aumentar seu mal ou até que ponto poderão favorecer ou dificultar o tratamento. Igualmente não devem ser negligenciados seu psiquismo e sua maneira de pensar, a fim de se saber se apresentam algum obstáculo ao tratamento ou se necessitam de outra direção, psiquicamente sendo estimulados ou modificados. §209 Logo em seguida, o médico procurará, em diversas entrevistas, traçar um quadro da doença tão completo quanto possível, segundo as instruções mencionadas acima, a fim de poder anotar os sintomas mais notáveis e peculiares (característicos), de acordo com os quais vai eleger o primeiro medicamento (antipsórico) que tenha a maior semelhança de sinais possível para iniciar o tratamento e assim por diante. §210 Estão associadas à psora quase todas as doenças que chamei acima de parciais e que, em virtude dessa parcialidade, são mais difíceis de curar (já que todos os seus outros sinais mórbidos como que desaparecem diantedo único grande sintoma predominante). Desse tipo são as chamadas doenças psíquicas e mentais. Elas não constituem, porém, uma classe nitidamente isolada de todas as outras, pois em todas as demais, assim chamadas doenças físicas, a disposição psíquica e mental está sempre se modificando* e, em todos os casos de doença, que devem ser curados, o estado psíquico deve concorrer como um dos mais notáveis no conjunto característico dos sintomas, se quisermos traçar um quadro fidedigno da doença, a fim de, a partir daí, poder tratá-la homeopaticamente, com êxito. * Quantas vezes, por exemplo, não se encontra um psiquismo dócil e suave em doentes que padecem de doenças com dores muito intensas há vários anos, fazendo com que o artista da cura sinta-se inclinado a dispensar-lhe respeito e comiseração. Porém, se ele vencer a doença, restabelecendo a saúde do doente - como não raro é possível ocorrer segundo o método homeopático - o médico, então, freqüentemente se espanta e se atemoriza ante a terrível alteração do psiquismo, pois muitas vezes presencia ingratidão, crueldade, maldade refinada e os caprichos mais degradantes e desonrosos para a humanidade, os quais eram justamente peculiares a tal doente antes de adoecer. Aqueles que, quando sadios, eram pacientes, tornam-se obstinados, violentos, precipitados e até mesmo intolerantes e caprichosos ou impacientes ou desesperados. Os que antes eram castos e tímidos surgem como luxuriosos e despudorados. Uma pessoa de cabeça lúcida se torna não raro embotada, enquanto que uma pessoa lenta, às vezes se torna uma pessoa de grande presença de espírito e rapidez de decisões etc. §211 Isso possui um tamanho alcance, que o estado psíquico do doente, muitas vezes e principalmente, determina a escolha do medicamento homeopático, na qualidade de sinal possuidor de uma característica determinada: entre todos, é o que menos pode permanecer oculto ao médico observador criterioso. §212 Igualmente, o Criador das potências curativas levou em consideração, de maneira notável, esse elemento principal de todas as doenças, o estado psíquico e mental alterado, pois não existe no mundo nenhuma substância com força medicamentosa que não altere de modo evidente o estado psíquico e mental do indivíduo sadio que a experimente, havendo, na verdade, uma maneira diferente de agir para cada medicamento. §213 Por conseguinte, jamais se poderá curar de acordo com a natureza, isto é, homeopaticamente, se não se observar, simultaneamente, em cada caso individual de doença, mesmo nos casos de doenças agudas, o sintoma das alterações mentais e psíquicas e se não se escolher, para alívio do doente, entre os medicamentos, uma tal potência morbífica que, a par da semelhança de seus outros sintomas com os da doença, também seja capaz de produzir por si um estado psíquico ou mental semelhante* . * Assim, o Aconitum raras vezes ou nunca produz uma cura rápida e duradoura em um doente de psiquismo calmo e sempre sereno e muito menos a Nux vomica naquele de caráter suave e fleugmático nem a Pulsatilla em um doente alegre, feliz e obstinado ou Ignatia quando se tratar de estado psíquico inalterável, pouco inclinado ao susto ou ao desgosto. §214 O que tenho a ensinar a respeito da cura das doenças mentais e psíquicas pode se reduzir a poucos tópicos, pois são curáveis da mesma maneira e não outra, que o são todas as outras doenças, isto é, por um medicamento que apresente, pelos sintomas que causar no corpo e na alma de uma pessoa sadia, uma potência morbífica tão semelhante quanto possível àquela existente no caso patológico em questão. §215 Quase todas as chamadas doenças mentais e psíquicas nada mais são do que doenças do corpo nas quais o sintoma peculiar da alteração mental e psíquica aumenta, ao passo que os sintomas do corpo diminuem (com maior ou menor rapidez), até que, por fim, atingem acentuada parcialidade; quase como uma afecção local transposta para órgãos mentais ou psíquicos invisivelmente sutis. §216 Não são raros os casos em que as chamadas doenças físicas que ameaçam matar - como a supuração do pulmão ou a degeneração de qualquer víscera essencial ou qualquer doença intensa (aguda), p.ex., febre puerperal etc., - degeneram-se em loucura, em uma espécie de melancolia ou mania, mediante a rápida intensificação do sintoma psíquico presente até então, fazendo desaparecer, assim, todo risco de vida dos sintomas físicos, que melhoram até quase atingir o estado de saúde ou diminuem muito, a ponto de sua presença constantemente velada só poder ser, então, detectada por um médico persistente e observador perspicaz. Dessa maneira, elas acabam se tornando uma doença parcial, uma espécie de doença local em que o sintoma do distúrbio psíquico, a princípio muito suave, aumenta a ponto de transformar-se em um sintoma principal, ocupando, na maior parte do tempo, o lugar dos outros sintomas (físicos) cuja intensidade ele atenua de maneira paliativa, de modo que, em uma palavra, as afecções dos órgãos físicos maiores são como que conduzidas e transferidas para os órgãos quase não- materiais mentais e psíquicos jamais atingidos e atingíveis pelo bisturi. §217 Em tais doenças deve ser feita cuidadosa investigação de todo o conjunto característico dos sinais relativos aos sintomas físicos, como também e, na verdade, de preferência, dos sinais relativos à compreensão exata da característica precisa (do caráter) de seu sintoma principal, isto é, o peculiar estado mental e psíquico predominante em cada caso, a fim de encontrar-se, para se extinguir toda a doença, entre os medicamentos conhecidos pelos seus efeitos puros, uma potência medicamentosa morbífica homeopática que apresente na sua relação de sintomas a maior semelhança possível, não somente com os sintomas presentes nesse caso, mas também e especialmente com essa condição mental e psíquica. §218 Faz parte dessa enumeração de sintomas, em primeiro lugar, a descrição exata do conjunto dos fenômenos da chamada doença física presente antes que ela se degenere em uma doença mental ou psíquica pela intensificação parcial do sintoma mental. Isso pode ser esclarecido com o relato dos acompanhantes do paciente. §219 A comparação desses sintomas anteriores da doença física com os vestígios ainda subsistentes, não obstante terem se tornado pouco visíveis (mas que mesmo então às vezes se evidenciam, quando ocorre um intervalo de lucidez ou um alívio passageiro da doença mental) será útil para demonstrar sua presença constante e velada. §220 Acrescentando-se a isso o estado mental e psíquico observado pelos acompanhantes do doente e pelo próprio médico* , teremos, assim, montado o quadro completo da doença, para a qual, portanto, a fim de efetuar-se uma cura homeopática, deve-se procurar, entre os medicamentos (antipsóricos etc.), um medicamento capaz de produzir sintomas exatamente semelhantes, notadamente um distúrbio mental semelhante, se a doença mental já tiver atingido certa duração. * Que não raro apresenta mudanças periódicas, por ex., alguns dias de demência furiosa ou furor são seguidos por outros de profunda e silenciosa tristeza etc., retornando apenas em determinados meses do ano. §221 Se, contudo (devido a um susto, contrariedade, bebidas alcoólicas etc), a loucura ou mania irrompe subitamente como doença aguda, substituindo o estado de calma habitual, não deve ser tratada nesse início agudo com medicamentos antipsóricos, não obstante quase sempre surja, em virtude de alguma psora interna (como se uma chama brotasse dela), mas sim, deve ser tratada primeiramente com medicamentos escolhidos em outra classe dos já experimentados* e aqui indicados, em doses pequenas altamente potencializadas e homeopáticas, a fim de afastá-la a tal ponto que a psora retorne temporariamente a seu estado latente anteriorno qual o doente aparenta estar bem de saúde. * Por ex. acônito, beladona, estramônio, hiosciamo, mercúrio etc. §222 Porém, o doente que se restabeleceu de uma doença aguda mental ou psíquica, mediante o emprego desses medicamentos apsóricos, não deve jamais ser considerado curado; ao contrário, não se pode perder tempo, tentando libertá-lo completamente* , por meio de prolongado tratamento antipsórico e talvez até antisifilítico, do miasma crônico da psora que, na verdade, está outra vez latente mas pronto a uma nova investida nos ataques da doença mental ou psíquica anterior, pois então, nenhum futuro ataque semelhante deverá ser temido, se o doente permanecer fiel à dieta e ao tipo de vida que lhe foram prescritos. * É muito raro que uma doença, já de algum tempo, psíquica ou mental, cesse espontaneamente (pois a doença interna se transfere novamente aos órgãos mais grosseiros do corpo); isso ocorre nos casos em que, aqui e ali, um internado até então no manicômio recebia alta por aparentar estar curado. Além disso, todos os manicômios têm estado repletos, de modo que a grande quantidade dos outros que buscam ser aceitos em tais instituições quase nunca podia encontrar lugar a não ser que algum dos internados morresse. Ninguém é curado de modo real e duradouro lá dentro pela velha escola! Uma prova convincente (entre muitas outras) da completa nulidade da arte de não curar, até então praticada, que tem sido ridiculamente honrada pela fanfarronice alopática com o nome de arte de curar racional. Em contrapartida, quantas vezes a verdadeira arte de curar (a genuína, a pura homeopatia) já não conseguiu restabelecer nesses seres infortunados a posse da saúde mental e corporal e restitui-los a seus parentes satisfeitos e ao mundo! §223 Mas, se o tratamento antipsórico (ou até antisifilítico) deixar de ser feito, devemos esperar, quase com certeza, o surgimento rápido de um novo ataque de loucura mais grave e, na verdade, mais persistente, por um motivo muito mais fraco do que o causador do primeiro e durante o qual a psora costuma desenvolver-se de modo completo, convertendo-se num distúrbio mental periódico ou continuado, sendo, então, mais difícil de ser curado com antipsórico. §224 Se a doença mental não estiver plenamente desenvolvida e se ainda existirem algumas dúvidas para saber se realmente resultou de sofrimento do corpo ou se, antes, provém de falhas na educação, maus hábitos, moral corrupta, negligência mental, superstição ou ignorância, serve, então, de indício o fato de diminuir e melhorar mediante exortações amistosas e equilibradas, argumentos consoladores, advertências sérias e sensatas. Em contrapartida, uma verdadeira doença mental ou psíquica que dependa de um mal físico se agravará rapidamente com esse método; a melancolia se torna mais chorosa, inconsolável e mais reservada, assim como a loucura furiosa se torna mais exasperada e a linguagem sem nexo do louco tornar-se-á manifestamente ainda mais absurda* . * Parece que a alma do doente, nesses casos, sente, com indignação e tristeza, a verdade destas advertências, atuando sobre o corpo como se desejasse restabelecer a harmonia perdida, mas que, mediante essa doença, reage muito intensamente nos órgãos mentais e psíquicos, colocando-os em desordem ainda maior, por uma nova transferência de seus sofrimentos para eles. §225 Por outro lado, existem, como foi dito, algumas doenças psíquicas certamente pouco numerosas, que não se desenvolveram apenas desse modo, a partir de doenças físicas, mas, por um processo inverso, principiam e se desenvolvem a partir do psiquismo, com uma ligeira indisposição mediante ansiedade prolongada, preocupações, vexames, insultos e freqüentes e fortes motivos para medo e susto. Essa espécie de doença psíquica destrói freqüentemente, com o passar do tempo, também o estado de saúde do corpo, em alto grau. §226 Tais doenças psíquicas que foram primeiramente trabalhadas e mantidas pela alma, enquanto ainda recentes e antes de terem perturbado em demasia o estado físico, são as únicas que podem ser rapidamente transformadas em bem-estar psíquico (com regime de vida adequado, aparentemente até em bem-estar físico) mediante meios de cura psíquicos, tais como demonstração de confiança, conselhos amigáveis, argumentos sensatos e muitas vezes habilidosas simulações. §227 Contudo, também elas têm como origem o miasma psórico, mas que ainda não atingiu seu pleno desenvolvimento, sendo seguro submeter o convalescente a um tratamento antipsórico (ou até antisifilítico) radical, a fim de que ele não caia novamente numa doença mental semelhante, o que é, afinal, fácil de ocorrer. §228 Nas doenças mentais e psíquicas resultantes de doenças do corpo que só podem ser curadas com medicamentos homeopáticos dirigidos ao miasma interno, a par de um regime de vida cuidadosamente regulado, deve ser observada uma conduta psíquica adequada por parte dos que o cercam e também do médico, como dieta auxiliar da alma. Á loucura com furor é preciso opor um calmo destemor, vontade firme e sangue frio - às lamentações tristes e chorosas, muda piedade nas expressões da face e nos gestos - à loquacidade sem nexo, um silêncio não desprovido de certa atenção - a uma conduta repugnante e abominável e conversação do mesmo tipo, completo desconhecimento. Deve-se procurar somente impedir a destruição e dano dos objetos que o rodeiam, sem repreendê-lo por seus atos, dispondo tudo de modo a abolir completamente todo e qualquer castigo ou tortura fisica* . Isso é tanto mais fácil de realizar na medida em que, na administração do medicamento - o único caso em que ainda se poderia justificar a coação - pelo tratamento homeopático, as pequenas doses do medicamento adequado jamais agridem o paladar, podendo, portanto, ser ministradas ao doente em alguma bebida sem que ele o saiba e sem que seja necessário qualquer tipo de coação. * Temos forçosamente que ficar admirados ante a dureza de coração e da irreflexão dos médicos de muitas instituições de saúde desse tipo. Sem procurar descobrir o único caminho eficaz, homeopaticamente medicamentoso (antipsórico), esses bárbaros contentam-se em castigar aqueles seres, que são os mais dignos de compaixão de todos os Homens, mediante pancadas e outras torturas dolorosas. Com esse procedimento revoltante e sem consciência, situam-se abaixo dos carcereiros de instituições penais, pois estes infligem tais castigos somente por dever de seu cargo, e só nos criminosos, ao passo que aqueles, pela humilhante consciência de sua nulidade médica, parecem descarregar sua própria maldade contra a suposta incurabilidade das doenças psíquicas e mentais mediante brutalidade para com os sofredores inocentes e dignos de comiseração, visto que são demasiadamente ignorantes para ajudar e por demais indolentes para adotar um procedimento de cura conveniente. §229 Por outro lado, a contradição, o empenho em dar explicações, as admoestações e correções rudes, assim como a condescendência débil e tímida são contra-indicadas para tais doentes e constituem, igualmente, um modo prejudicial de tratar sua mente e seu psiquismo. Mas eles se exasperam, na maioria das vezes, agravando a doença, mediante o escárnio, o subterfúgio e o engano. O médico e o enfermeiro precisam sempre dar a impressão de que os julgam lúcidos. Em contrapartida, deve-se remover toda sorte de influências externas de seus sentidos e de seu psiquismo; não existem distrações para sua mente obnubilada, nem diversões salutares, instrução ou lenitivos mediante conversas, leituras ou qualquer outro meio para sua alma que definha ou se revolta sob as cadeias do corpo doente; nenhum fortalecimento possível além da cura; somente com a melhora da saúde do corpo é que a tranqüilidade e o bem estar brilharão de novo em sua mente. * * Somenteem uma instituição destinada especialmente para esse fim é que pode ser realizado o tratamento dos dementes, loucos furiosos e melancólicos, mas não no círculo familiar do doente. §230 Se o medicamento escolhido para cada caso particular de doença mental ou psíquica (elas são incrivelmente diferentes) for bem adequado homeopaticamente ao quadro fielmente traçado da doença a qual, se houver medicamentos dessa espécie em número suficiente conhecidos por seus efeitos puros é também tanto mais fácil de ser atingida através de uma busca incansável do medicamento homeopaticamente mais adequado, pois o estado psíquico e mental de tal doente, na qualidade de sintoma principal, revela-se tão inequivocamente, então, as doses menores possíveis serão suficientes para produzir, em tempo não muito longo, a melhora mais notável, o que não seria conseguido se os doentes fossem tratados até a morte com doses máximas e mais freqüentes de todos os outros medicamentos inadequados (alopáticos). Realmente, posso afirmar, depois de uma longa experiência, que a vasta superioridade da arte de curar homeopática sobre todos os outros métodos terapêuticos imagináveis, não se revela em parte alguma de forma tão triunfante como nas doenças psíquicas e mentais antigas que, originariamente, provieram de padecimentos físicos, ou que se desenvolveram ao mesmo tempo que eles. §231 Merecem uma consideração especial as doenças intermitentes, tanto aquelas que se apresentam em determinados períodos, como grande número de febres intermitentes e de afecções do tipo de febres intermitentes aparentemente não febris que se repetem sob a mesma forma - como também aquelas em que certos estados mórbidos se alternam em períodos indeterminados com outros de espécie diferente. §232 Essas últimas, as doenças alternantes, são igualmente muito numerosas* , mas todas pertencem à classe das doenças crônicas e, geralmente, são apenas uma manifestação de psora desenvolvida e raras vezes complicada com um miasma sifilítico, podendo, portanto, no primeiro caso, ser curadas com medicamentos antipsóricos; contudo, no último caso alternam-se com anti- sifilíticos, como foi ensinado no livro sobre doenças crônicas. * Dois ou mesmo três estados podem alternar-se. É possível, por ex., no caso de duas doenças que se alternam, aparecer certas dores persistentes nos pés e em outros locais, logo após cessar a inflamação ocular, que, então, reaparece, logo após a dor nos membros ter desaparecido momentaneamente; convulsões e espasmos podem alternar-se imediatamente com qualquer outro sofrimento do organismo ou de parte dele; é possível, contudo, que também em três estados que se alternam em uma indisposição persistente possam ocorrer períodos rápidos de melhora aparente da saúde e uma surpreendente elevação das forças mentais e físicas (uma alegria exagerada, uma atividade muito viva do corpo, excessivo bem-estar, apetite imoderado etc) quando, então, surgem de modo inesperado um humor sombrio e melancólico, disposição psíquica hipocondríaca insuportável com perturbação de várias funções vitais da digestão, do sono etc., dando lugar novamente e de modo igualmente repentino ao estado mórbido moderado dos períodos usuais, como também a vários outros múltiplos estados alternantes. Freqüentemente, não mais se percebe qualquer vestígio do estado anterior, quando surge um novo estado. Em outros casos, ainda restam somente poucos vestígios do estado alternante anterior; quando ocorre o outro estado, poucos sintomas do estado anterior permanecem quando aparece o segundo e durante o seu curso. Por vezes, os estados mórbidos alternantes são de natureza completamente oposta, como, por ex., a melancolia que se alterna, periodicamente, com a euforia ou com o delírio. §233 As doenças intermitentes típicas são aquelas em que um estado mórbido de caráter invariável retorna em períodos relativamente determinados enquanto o doente goza aparentemente de boa saúde, desaparecendo em um período igualmente determinados; isso se observa, não somente no grande número de febres intermitentes, mas também naqueles típicos estados mórbidos aparentemente não febris, que vêm e novamente se vão (em determinados períodos). §234 Os típicos estados mórbidos aparentemente não febris, que se apresentam periodicamente em uma mesma pessoa num determinado período (não costumam aparecer esporadicamente ou em epidemias), sempre fazem parte das doenças crônicas, principalmente das puramente psóricas, apenas muito raramente se complicando com a sífilis e recebendo, com êxito, o mesmo tratamento. Contudo, às vezes, faz-se necessário o emprego intercorrente de uma dose muito pequena de solução potencializada de casca de quina a fim de extinguir completamente o seu caráter intermitente. §235 No que concerne às febres intermitentes* que se apresentam esporádica ou epidemicamente (não aquelas endemicamente situadas em regiões pantanosas) freqüentemente nos deparamos com crises (paroxismos) constituídas cada uma delas de dois estados opostos alternantes (frio, calor - calor, frio) e, mais freqüentemente, até de três (frio, calor, transpiração). Portanto, também o medicamento escolhido entre o grupo geral dos medicamentos comuns experimentados, geralmente, não-antipsóricos, tem que ser capaz de produzir, no organismo sadio, igualmente, dois (o que e mais seguro) ou três estados alternantes semelhantes, ou deve corresponder, pela similitude de seus sintomas, na forma mais homeopática possível, ao estado alternante mais forte e mais peculiar (ou ao estado de frio, ou ao de calor, ou ao de transpiração, cada um com seus sintomas secundários, conforme um ou outro estado alternante seja o mais forte e o mais peculiar); mas os sintomas do estado de saúde do doente, durante os intervalos em que não tem febre, devem guiar, principalmente, a escolha do medicamento homeopático mais apropriado2* * A patologia atual ainda na infância insensata tem conhecimento apenas de uma única febre intermitente, denominada, igualmente febre fria, não admitindo qualquer outra variedade senão aquelas que estão constituídas pelos diferentes intervalos em que retornam as crises, febre cotidiana, terçã, quartã etc. Contudo, além dos períodos recidivantes, existem diferenças muito mais significativas entre elas; há inúmeras variedades dessas febres, muitas das quais não podem sequer ser chamadas febres frias, pois suas crises consistem somente de calor, enquanto que outras apresentam somente frio com ou sem transpiração subseqüente; existem, ainda, outras que apresentam frio pelo corpo todo, simultaneamente com calor ou, então, quando o corpo está quente ao tato, apresentam frio; outras ainda, em que um dos paroxismos consiste apenas em calafrio ou simples sensação de frio, seguido de bem-estar enquanto que o outro seguinte se constitui somente de calor, seguido ou não de transpiração; outras há, ainda, em que, após o período de frio ou calor sobrevém a apirexia, apresentando-se apenas a transpiração, freqüentemente muitas horas depois, como uma segunda crise e ainda outras em que não há qualquer transpiração; outras, em que toda crise consiste apenas de transpiração ou nas quais a transpiração somente ocorre durante o período de calor. Assim, apresentam-se incrivelmente outras variedades, principalmente em relação aos sintomas secundários, como dor de cabeça de tipo peculiar, mau gosto na boca, vômitos, diarréia, falta ou excesso de sede, dores de caráter peculiar no corpo ou nos membros, problemas de sono, delírios, alterações psíquicas, espasmos etc - antes, durante ou após o calafrio, antes, durante ou após o calor; antes, durante ou após a transpiração e outras modalidades. Todas elas são, evidentemente, febres intermitentes de espécies muito diferentes, cada uma delas, como é óbvio, requerendo seu próprio tratamento (homeopático).De fato, deve-se admitir que quase todas podem ser dominadas (como acontece freqüentemente) mediante grandes e monstruosas doses de casca de quina e de sua preparação farmacêutica por meio do ácido sulfúrico, chamada quinino, isto é, sua recidiva periódica (seu tipo) é extinta por ela, mas os doentes que sofreram tais febres (como ocorre com todas as febres intermitentes epidêmicas que assolam países inteiros e ainda os lugares montanhosos), aos quais a casca de quina não é conveniente, não se tornam sadios mediante essa extinção do tipo de febre. Não! Permanecem, pelo contrário, doentes, aliás, mais doentes, só que de outra maneira, muitas vezes piorando muito mais do que antes, sendo afetados por peculiares discrasias crônicas pela China, dificilmente podendo restabelecer-se plenamente, mesmo através da legítima arte de curar, ainda que durante longo tempo. E é a isso que o Homem pretende chamar de cura! 2* O conselheiro de governo, Barão von Bönninghausen, foi quem, em primeiro lugar, elucidou esse assunto que demanda tanto cuidado, facilitando a escolha do meio de cura eficaz para as diferentes epidemias de febre, através de seus escritos: Versuch emer homõopathischen Therapie der Wechselfieber, 1833. Múnster bei Regensberg. §236 Nesse caso, a dose do medicamento se torna mais adequada e mais eficaz imediatamente após o termino da crise ou logo após, assim que o doente, de uma certa forma tiver se recuperado, tendo, então, tempo de produzir todas as eventuais alterações do organismo visando ao restabelecimento da saúde, sem grande distúrbio ou comoção intensa; ao passo que a ação de um medicamento, ainda que seja apropriado, se ministrado imediatamente antes da crise, coincide com o retorno natural da doença e causa tal reação no organismo, uma perturbação tão intensa que essa espécie de comoção acarreta, no mínimo, uma grande perda de vigor, quando não coloca a vida em perigo* . Se o medicamento, porém, for ministrado imediatamente após o fim da crise, isto é, no momento em que começar o período apirético e muito tempo antes que se prepare a crise seguinte, então, a força vital se encontra nas melhores condições possíveis para deixar-se modificar suavemente e recuperar, assim, o estado de saúde. * Isso se observa nos casos não muito raros, em que ocorre a morte, nos quais uma dose moderada de suco de papoula ministrada durante o período de calafrio da febre arrebata rapidamente a vida. §237 Contudo, se o período de apirexia for muito curto, como ocorre em algumas febres muito graves, ou se for perturbado por alguns dos padecimentos resultantes da crise anterior, a dose do medicamento homeopático deve ser oferecida quando começarem a diminuir a transpiração ou os outros fenômenos subseqüentes à crise anterior. §238 Não é raro que apenas uma dose do medicamento adequado impeça várias crises e, até mesmo, restitua a saúde; mas, na maioria dos casos, uma outra dose deve ser dada após cada crise; quando o caráter dos sintomas não houver se alterado, podem ser administradas de preferência, sem inconveniente, doses do mesmo medicamento, dinamizando-se cada dose sucessiva (mediante 10, 12 sucussões do frasco que contém a solução medicamentosa), de acordo com a mais recente descoberta sobre a melhor maneira de repetir as doses (ver nota § 270). Contudo, às vezes, há casos, embora raros, em que a febre intermitente reaparece, depois de vários dias de bem estar, como acontece nas regiões pantanosas, caso em que uma cura duradoura muitas vezes só é possível com o afastamento do paciente desse fator causal (como por ex. mediante uma estadia em uma região montanhosa, se se tratar de uma febre dos pântanos). §239 Como quase todo medicamento produz em sua ação pura uma febre especial peculiar e mesmo um tipo de febre intermitente com seus períodos alternantes, distinta das outras febres causadas por outros medicamentos, podemos encontrar medicamentos homeopáticos no vasto rol de medicamentos para todas as variedades de febres intermitentes naturais e, para um grande número de tais febres, já se encontra uma qualidade razoável de medicamentos experimentados atualmente em organismos sadios. §240 Se o medicamento encontrado como específico homeopático para uma epidemia reinante de febre intermitente, não efetua uma cura perfeita em um ou outro doente e quando não for um lugar pantanoso que impeça a cura, então, é sempre o miasma psórico de tocaia que a impede e nesse caso devemos empregar os medicamentos antipsóricos até a obtenção de um alívio completo. §241 As epidemias de febre intermitente em lugares em que não são endêmicas, são da natureza das doenças crônicas e compostas de crises agudas isoladas; cada epidemia isolada é de caráter peculiar, uniforme e particular comum a todos os indivíduos afetados e, quando esse caráter se encontra no conjunto característico dos sintomas comuns a todos, aponta-nos o caminho para a descoberta do medicamento homeopático (especifico) adequado para todos os casos, o qual, então, é praticamente eficaz em todos os doentes que gozavam de saúde razoável antes da epidemia, isto é, que não sofriam cronicamente de psora desenvolvida. §242 Se, contudo, em tal epidemia de febre intermitente não foram curadas as primeiras crises, ou se os doentes tiverem sido enfraquecidos, mediante tratamento alopático inadequado, então, a psora que infelizmente já se encontra no organismo de tantas pessoas, embora em estado latente, desenvolve-se, assumindo a forma de febre intermitente e desempenhando, aparentemente, o papel da febre intermitente epidêmica, de modo que o medicamento que teria sido eficaz nas primeiras crises não mais convém e já não pode prestar nenhuma ajuda. Temos, então, que lidar apenas com uma febre intermitente psórica que, geralmente, é vencida mediante doses mínimas de enxofre ou de fígado de enxofre+ em alta potência. + (N.T.) - Hepar sulfur. §243 Nessas febres intermitentes, muitas vezes perniciosas, que atacam uma pessoa isolada que não vive em região pantanosa, deve-se também, a princípio, como no caso das doenças agudas em geral às quais se assemelham por sua origem psórica, empregar, durante alguns dias, para melhor ajuda possível, primeiramente o medicamento homeopático escolhido para o caso especial entre a classe dos outros medicamentos (não anti-psóricos) experimentados; mas, se, ainda assim, o restabelecimento se faz esperar, então, devemos saber que se trata da psora prestes a desenvolver-se e que somente os medicamentos anti-psóricos podem efetuar ajuda radical. §244 As febres naturais intermitentes endêmicas em regiões pantanosas e lugares sujeitos a inundações deram até hoje muito trabalho ao mundo médico e, contudo, um indivíduo sadio pode, nos anos de juventude, habituar-se a viver em lugares pantanosos sem adoecer, contanto que conserve um regime de vida conveniente e que não seja submetido à miséria, fadiga ou paixões perniciosas. As febres intermitentes, que lá são endêmicas, atacá-lo-iam quando muito por ocasião de sua chegada em tal lugar, mas uma ou duas doses muito pequenas de uma solução altamente potencializada de casca de quina juntamente com um modo de vida regular, como foi mencionado, libertá-lo-ão rapidamente. Mas, nos indivíduos que, apesar de fazerem exercício físico suficiente e seguirem um regime saudável mental e físico não puderem ser libertados da febre intermitente dos pântanos com uma ou algumas pequenas doses do medicamento China, existe sempre, na base da doença, a psora, esforçando-se para desenvolver- se e sua febre intermitente não pode ser curada, no lugar pantanoso, sem tratamento anti-psórico* . Ocorre, por vezes, que, quando esses doentes trocam, sem demora, o local pantanoso por um lugar fresco e montanhoso, a febre os deixa, manifestando-se um aparente restabelecimento se eles aindanão estiverem profundamente doentes, isto é, se a psora ainda não tiver se desenvolvido neles completamente, podendo, consequentemente, retornar ao seu estado latente; jamais, porém, recuperarão uma saúde perfeita sem um tratamento anti-psórico. * Grandes doses, freqüentemente repetidas, de casca de quina, bem como os meios concentrados de China, como o Chininum sulphuricum podem livrar tal doente da típica febre alternante do pântano, mas aqueles equivocados quanto à sua cura, permanecem, como foi mencionado acima, com outro tipo de sofrimento, por uma intoxicação, às vezes incurável, por China (v. nota § 276). §245 Após termos visto a atenção que convém prestar, no tratamento homeopático, às principais diferenças das doenças e às circunstâncias peculiares a elas relacionadas, passamos ao que temos a dizer sobre os medicamentos e a maneira de empregá-los, bem como o regime de vida que deve ser observado durante seu uso. §246 Cada melhora, perceptivelmente progressiva e, evidentemente crescente, durante o tratamento, é uma circunstância que, enquanto perdurar, impede completamente qualquer repetição do emprego de qualquer medicamento, pois todo o benefício que o mesmo ingerido continua a fazer, está prestes a ser inteiramente realizado. Isso não é raro em doenças agudas, mas, nas doenças que já cronificaram, por outro lado, uma única dose de um medicamento homeopático, adequadamente escolhido, também pode desenvolver, às vezes, uma melhora gradual, lenta e progressiva, e proporcionará a ajuda que tal medicamento, no caso, está em condições de efetuar naturalmente em 40, 50, 60, 100 dias. Contudo, esse é um caso raro, e, além disso, deve ser de grande importância para o médico e para o doente que, se for possível, se reduza tal período à metade, a uma quarta parte ou menos ainda, de modo que se obtenha uma cura bem mais rápida. E isso pode ser muito bem obtido, sob as seguintes condições, como me ensinaram minhas experiências recentes e amiúde repetidas: em primeiro lugar, se o medicamento escolhido com o maior cuidado é inteiramente homeopático; em segundo lugar, se é altamente potencializado, diluído em água e dado na pequena dose adequada, nos intervalos mais convenientes, indicados pela experiência, a fim de que a cura se efetue mais rapidamente, mas com o cuidado de que o grau da potência de cada dose difira um pouco da anterior e da seguinte, de modo que o principio vital que deve ser alterado, produzindo uma doença medicamentosa semelhante, não se rebele, provocando reações contrárias, como sempre acontece quando se repete freqüentemente uma dose não modificada do medicamento* . * O que afirmei na quinta edição do Organon em uma longa nota deste parágrafo, para impedir essas reações contrárias da força vital foi tudo quanto me permitiu minha experiência anterior. Mas, durante os últimos 4 ou 5 anos essas dificuldades foram completamente superadas por mim através de meu novo método desde então modificado e aperfeiçoado. Os mesmos medicamentos, cuidadosamente escolhidos, podem agora ser dados diariamente e ao longo de meses, se necessário e de modo que, após ter-se usado durante uma ou duas semanas o grau mais baixo de potência no tratamento de doenças crônicas (iniciando-se com o emprego dos graus mais baixos de acordo com o novo processo de dinamização), passa-se da mesma maneira para os graus mais elevados. §247 Não é exeqüível querer repetir a mesma dose inalterada * do medicamento uma vez, sem falar das freqüentes repetições (e, em certos intervalos, para não retardar a cura). O princípio vital não aceita tais doses inalteradas sem resistência, isto é, sem que outros sintomas do medicamento se manifestem a não ser os semelhantes à doença a ser curada, porque a primeira dose anterior já realizou a alteração esperada do principio vital e uma segunda dose inalterada desse mesmo medicamento, inteiramente igual em dinamização já não mais encontra meios de realizar o mesmo sobre o princípio vital. Mediante tal dose inalterada, o paciente só pode ficar doente de outra maneira, na verdade ficar mais doente do que antes, pois então, somente são ativos os sintomas do medicamento que não são homeopáticos para a doença original, razão pela qual não se poderá dar nenhum passo em direção à cura, mas em direção a um verdadeiro agravamento do doente. Mas, se a dose seguinte é ligeiramente modificada a cada ingestão, isto é, um pouco mais dinamizada (§ 269, 270), o princípio vital doente, então, pode ser mais alterado (sua sensação da doença natural mais atenuada), sem dificuldade, pelo mesmo medicamento, aproximando-se, desse modo, da cura. * Não se deveria, por conseguinte, ainda que se trate do medicamento homeopático melhor escolhido, por ex., um glóbulo do mesmo grau de potência que, inicialmente, foi tão benéfica, fazer com que o doente ingira, logo a seguir, sem líquido, uma segunda ou terceira dose. E se o medicamento foi dissolvido em água e a primeira dose foi benéfica, uma dose igual ou menor, tomada pela segunda ou terceira vez do frasco, sem agitar - ainda que a intervalos de alguns dias - já não mais seria benéfica, mesmo que a preparação primitiva tenha sido potencializada, agitando-se dez vezes, ou, como sugeri mais tarde, apenas duas vezes, a fim de evitar esta desvantagem; isto de acordo apenas com as razões acima expostas. Ao modificar-se, porém, cada dose em seu grau de dinamização, como ensino aqui, não ocorre nenhum prejuízo, mesmo na repetição mais freqüente das doses e mesmo que o medicamento fique altamente potencializado, devido a muitas sucussões. Poder-se-ia quase dizer que, somente se aplicado em diversas formas diferentes, o medicamento homeopático melhor escolhido poderia melhor remover a perturbação mórbida da força vital, extinguindo-a nas doenças crônicas. §248 Em vista disso, a cada nova ingestão, é potencializada (mediante cerca de 8, 10, 12 sucussões do frasco) a solução medicamentosa* da qual se ministrará ao doente uma (aumentando progressivamente) ou mais colheres das de café ou chá; nas doenças de longa duração, diariamente ou a cada dois dias; em doenças agudas, porém, a cada 6, 4, 3, 2 horas e, nos casos mais urgentes a cada hora ou, mais freqüentemente. Assim, nas doenças crônicas, cada medicamento homeopaticamente escolhido de maneira correta, mesmo aquele cuja ação tenha efeito prolongado, pode ter repetições diárias durante meses, com êxito crescente. Se a solução terminar (em 7, 8 ou 14, 15 dias), deve-se acrescentar à próxima solução do mesmo medicamento - se ainda for indicado - um ou (embora raramente) diversos glóbulos de uma outra potência (mais elevada) com a qual se prosseguirá por tanto tempo quanto for necessário ao doente para continuar apresentando melhora sem que sofra nenhuma perturbação significativa que nunca tenha tido antes em sua vida, pois se tal acontece e o restante da doença se manifesta em um grupo de sintomas alterados, deve-se, então, escolher um outro medicamento mais homeopaticamente adequado, no lugar do medicamento anterior, mas, administrá-lo também nas mesmas doses repetidas, porém, somente concebidas dessa forma, isto é, nunca administrar a solução sem modificá-la em seu grau de potência, mediante sucussões convenientemente vigorosas a cada dose, a fim de alterá-lo e aumentá-lo um pouco. Por outro lado, caso surjam, durante a repetição quase diária do medicamento homeopático bem escolhido e perto do fim do tratamento de uma doença crônica, as chamadas agravações homeopáticas (§ 161), com as quais os sintomas mórbidos parecem de novo agravar-se ligeiramente (enquanto a doença medicamentosa semelhante ao mal natural agora se manifesta quase por si mesma), então, devem ser diminuídas ainda mais as doses e repetidas em intervalos mais longos ou mesmo suspensas durante vários dias, a fim de se verificarmos se o restabelecimentojá não reclama ajuda medicamentosa, quando, então, em breve, desaparecerão os sintomas aparentes, meramente causados pelo excesso do medicamento homeopático, dando lugar a uma saúde transparente. Se, para o tratamento, for usado apenas um frasco (contendo aproximadamente um dracma de álcool diluído, no qual se encontra um glóbulo do medicamento dissolvido mediante sucussão), para aspiração nasal diária ou a cada 2, 3, 4 dias, também esse tem que ser bem agitado 8, 10 vezes, antes de cada aspiração. * Em 40, 30, 20, 15 ou 8 colheres de sopa de água à qual se acrescenta um pouco de álcool ou um pedaço de carvão de lenha para conservá-la. Se for empregado carvão, suspende-se o mesmo por um fio no recipiente, retirando-se cada vez que o frasco deva ser agitado. A dissolução do glóbulo medicamentoso (pois raramente se necessita 'mais do que um glóbulo de um medicamento convenientemente dinamizado), em uma quantidade bem grande de água, pode ser dispensada se se fizer uma solução, por ex., de apenas sete ou oito colheres de sopa de água e, após ter-se agitado o recipiente adequadamente, tirar-se deste uma colher de sopa da solução, colocando-a em um copo de água, (contendo cerca de sete ou oito colheres de sopa), agitar-se adequadamente dando-se a dose determinada ao doente. Se o mesmo mostrar-se excepcionalmente agitado e sensível, coloca-se uma colher de chá ou de café cheia dessa solução em um segundo copo de água, mexendo-se bem, a fim de dar ao doente uma colher de café (ou um pouco mais). Existem doentes com tal sensibilidade que necessitam de um terceiro ou quarto copo da solução medicamentosa na diluição conveniente, preparada de maneira semelhante. Cada dia, após a ingestão do medicamento, despreza-se o conteúdo do copo (ou dos copos) assim preparado, a fim de prepará-lo novamente todos os dias. O glóbulo em alta potência é melhor pulverizado com alguns grãos de açúcar de leite, que o doente só precisa agitar no frasco determinado, a fim de serem dissolvidos na quantidade de água necessária. §249 Cada medicamento receitado que, no decurso de sua ação, produz novos sintomas penosos não pertencentes à doença a ser curada, não tem condições de realizar uma verdadeira melhora* e não pode ser considerado como homeopaticamente escolhido; deve, portanto, se a agravação for significativa, ser neutralizado, a princípio, parcialmente, tão breve quanto possível, mediante um antídoto2* antes de se dar o próximo medicamento escolhido mais precisamente quanto à similitude de ação, ou, se os sintomas opostos não forem muito intensos, este último deve ser ministrado imediatamente, a fim de substituir o que foi impropriamente escolhido. * Visto que toda experiência demonstra que quase nenhuma dose de um medicamento homeopático especificamente indicado e altamente dinamizado pode ser preparada tão pequena que provoque a melhora perceptível de uma doença correspondente (§161.279), agir-se-ia contra os objetivos e nocivamente se, diante da ausência de melhora ou de uma pequena agravação, repetíssemos ou mesmo aumentássemos a dose do mesmo medicamento, como ocorre no método de tratamento vigente, na ilusão de que não foi eficaz devido à sua pequena quantidade (sua dose demasiadamente pequena). Toda agravação, pela produção de sintomas novos - quando nada ocorre de prejudicial na dieta física e mental demonstra sempre apenas que o medicamento dado anteriormente foi inadequado no caso dessa doença, jamais apontando, contudo, para a pequenez da dose. 2* Ao médico bem informado e conscienciosamente criterioso jamais pode ocorrer o caso em que se veja obrigado a utilizar um antídoto em seu consultório se ele principia, como deve, o emprego de seu medicamento bem escolhido na menor dose possível; precisamente uma dose assim pequena do medicamento melhor escolhido restabelecerá completamente a ordem. §250 Quando se torna evidente ao artista da cura, pesquisador meticuloso do estado mórbido, que, nos casos urgentes, já, após o decorrer de 6, 8, 12 horas, ele errou na escolha do medicamento administrado por último, agravando-se perceptivelmente, hora após hora, o estado de saúde do doente, embora, aos poucos, com o surgimento de novos sintomas e padecimentos, não só lhe é permitido, mas também é o dever que lhe solicita, reparar o erro cometido, mediante a escolha e a administração, não só de um medicamento homeopático razoavelmente adequado, mas também o mais apropriado possível para o estado de doença em questão (§167). §251 Há alguns medicamentos (como por exemplo Ignatia, eventualmente também a Bryonia e Rhus e, às vezes, Belladonna) cujo poder de alterar o estado de saúde do Homem consiste, principalmente, em efeitos alternantes, uma espécie de sintomas de ação primária que são opostos entre si. Todavia, o artista da cura, caso não perceba melhora, ao receitar uma dessas substâncias escolhidas conforme estritos princípios homeopáticos, logo atingirá seu objetivo (em doenças agudas, já após as primeiras horas), administrando uma nova dose, igualmente diminuta do mesmo medicamento* . * Como descrevi mais pormenorizadamente no prefácio à Ignatia (na segunda parte da Matéria Médica Pura). §252 Julgando-se, porém, durante o emprego dos medicamentos restantes em doenças crônicas, que o medicamento melhor escolhido homeopaticamente na dose adequada (mínima) não produz melhora, então, isso é um sinal certo de que a causa que mantém a doença ainda persiste e de que há alguma circunstância no modo ou no círculo de vida do doente que necessita ser removida para que se realize a cura duradoura. §253 Entre os sinais que, em todas as doenças, principalmente as que surgem de modo rápido (agudas), indicam um ligeiro inicio de melhora ou agravação perceptível a todos, o estado do psiquismo e todo o comportamento do doente são os mais seguros e elucidativos. No caso do início de melhora, por menor que seja, nota-se um maior bem-estar, crescente tranqüilidade, despreocupação e mais ânimo - uma espécie de retorno ao estado normal. No caso da agravação, ainda que muito ligeira, porém, ocorre o contrário: o estado do psiquismo, da mente e todo seu comportamento passam a denotar retraimento, desamparo, requerendo mais compaixão, assim como as suas atitudes em todas as situações e atividades, o que pode facilmente ser percebido mediante uma atenta observação, mas não pode ser descrito em palavras* . * Contudo, os sinais de melhora do estado psíquico e mental somente devem ser esperados logo após a ingestão do medicamento, se a dose tiver sido suficientemente pequena (i. é, o quanto possível); uma dose maior que o necessário, ainda que do medicamento homeopático mais adequado, age com muita intensidade, produzindo, a princípio, uma alteração muito grande e duradoura no psiquismo e na mente para permitir que sejam percebidas melhoras rápidas no doente, sem falar nas outras desvantagens (§276) das doses demasiadamente fortes. Devo aqui observar que essa regra tão necessária é transgredida, sobretudo pelos presunçosos principiantes do método homeopático e pelos médicos alopatas da velha escola, convertidos à arte de curar homeopática. Devido a antigos preconceitos eles abominam as doses mínimas das diluições mais altas dos medicamentos em tais casos, privando-se, por conseguinte, de experimentar as grandes vantagens e benefícios deste procedimento comprovadas em milhares de experiências. Não podem produzir tudo o que a homeopatia legitima é capaz de realizar, intitulando-se, por isso mesmo, injustamente, seus discípulos. §254 Os outros novos fenômenos estranhos à doença a ser curada ou, ao contrário, a diminuição dos primitivos, sem acréscimo de novos, dissipam rapidamente todas as dúvidas do observador perspicaz artista da cura quanto à agravação ou melhora, embora haja, entre os doentes, pessoas incapazes de informarsobre a melhora e, principalmente, sobre a agravação ou que não estão dispostas a confessá-las. §255 Mas, mesmo diante de tais pessoas, podemos nos convencer disso, ao examinar com elas, um por um, todos os sintomas esboçados no quadro da doença, constatando que não se queixam de qualquer sintoma inabitual, além desses e que nenhum dos velhos fenômenos se agravou. Então, se já se houver observado melhora do psiquismo e da mente, o medicamento já deve ter operado uma diminuição efetiva da doença ou, se o tempo para tal, não tiver sido suficiente, em breve isso ocorrerá. Se, porém, a melhora visível tardar muito, no caso de ter sido escolhido convenientemente o meio de cura, isso se deve a um procedimento errôneo por parte do doente ou a outras circunstâncias que impedem a melhora. §256 Por outro lado, se o doente mencionar a ocorrência deste ou daquele fenômeno ou sintomas novos de importância - sinal de que o medicamento não foi escolhido de modo adequadamente homeopático - embora, de boa fé, ele afirme que está melhor* , não devemos acreditar em tal assertiva, mas considerar seu estado agravado, o que logo se tornará, também, evidente. * Este é o caso, não raro, em tuberculosos com lesão pulmonar. §257 O legítimo artista da cura saberá evitar transformar em favoritos, certos medicamentos que talvez, por casualidade, ele tenha mais freqüentemente julgado convenientes e em cujo emprego tenha obtido êxito. Procedendo desse modo, serão deixados de lado alguns medicamentos de emprego mais raro que seriam mais apropriados homeopaticamente e, por conseguinte, mais eficazes. §258 O legitimo artista da cura, tampouco, deixará de empregar em suas atividades clínicas, por falta de confiança, medicamentos que, por escolha inadequada (portanto, por sua própria culpa), às vezes mostraram maus resultados, nem evitará seu emprego por outros motivos (falsos), como o fato de não serem homeopáticos para o caso de doença, tendo em vista a verdade de que, de todas as potências morbíficas medicamentosas, somente merece a preferência e atenção aquela que, em cada caso de doença mais corresponda em exatidão, quanto à semelhança, à totalidade dos sintomas característicos e de que nenhuma paixão mesquinha pode imiscuir-se nessa escolha séria. §259 Diante da pequenez tão necessária, quanto conveniente, das doses no procedimento homeopático, é fácil compreender que no tratamento devem ser suprimidas da dieta e do regime de vida todas as outras coisas que, de uma ou outra forma, possam ter ação medicamentosa, a fim de que a pequena dose não possa ser superada, anulada ou mesmo perturbada por um estímulo medicamentoso estranho* . * Os tons mais suaves de uma flauta à distância, que, no silêncio da meia noite despertam em coração sensível sentimentos elevados, fundindo-os em êxtase religioso, tornam-se inaudíveis e vãos em meio a gritos destoantes e ruídos diversos. §260 Daí, a tão grande necessidade de uma cuidadosa eliminação de tais obstáculos à cura, no caso de doentes crônicos, pois sua doença foi, geralmente, agravada por tais influências nocivas e outros erros no regime de vida causadores de doenças que, freqüentemente, passam despercebidos * * Café, chá da China e outras variedades de chá, cerveja preparada com substâncias vegetais medicamentosas inadequadas ao estado do doente, os chamados licores finos preparados com especiarias medicamentosas, ponches de quaisquer espécies, chocolate aromático, águas-de- cheiro e perfumes de todo tipo, flores muito perfumadas no quarto, pós e essências dentifrícios com medicamentos, sachês, pratos e molhos altamente condimentados, bolos e gelados com substâncias medicamentosas, por ex.: café, baunilha etc, vegetais medicamentosos crus em sopas, pratos de ervas, raízes e talos de plantas medicamentosas (tais como aspargos com longas pontas verdes), broto de lúpulo e todo tipo de vegetal que possua força medicamentosa, aipo, salsa, azedinha, estragão, todo tipo de cebolas; queijos velhos, carne em estado de decomposição (como carne e gordura de porco, patos e gan505 ou carne de vitela muito nova e comidas ácidas; saladas de todo tipo) que possuam efeitos medicamentosos secundários devem justamente ser afastados de doentes desse tipo, assim como quaisquer excessos na alimentação, mesmo no sal e no açúcar e em bebidas alcoólicas não diluídas com muita água; aposentos quentes, roupas de lá diretamente sobre a pele, vida sedentária em recintos fechados ou mera movimentação passiva como montar, dirigir, balançar-se, amamentação prolongada, longa sesta deitado (na cama), leitura em posição horizontal, vida noturna, falta de limpeza, libido anormal, excitação por leituras obscenas, onanismo, relações sexuais imperfeitas ou completamente suprimidas, seja por superstição ou a fim de evitar a concepção no matrimônio; cólera, pesar, despeito, paixão pelo jogo, esforço psíquico e mental demasiado, especialmente após as refeições; permanência em lugares pantanosos e lugares úmidos; passar necessidade etc.; todas estas coisas devem ser, na medida do possível, evitadas ou removidas, a fim de que não se impeça ou impossibilite a cura. Alguns de meus discípulos parecem dificultar ainda mais, sem necessidade, a dieta do doente, proibindo-lhe o uso de outras tantas coisas, razoavelmente indiferentes, o que não é recomendável. §261 O regime de vida mais apropriado, durante o uso de medicamentos em doenças crônicas, baseia-se na remoção de tais obstáculos ao restabelecimento e, eventualmente, quando necessário, acrescentando-se o inverso: distração inofensiva à mente e ao psiquismo, exercício ativo ao ar livre sob quase todas as condições climáticas (passeios diários, pequenas atividades manuais), alimentos e bebidas adequados, nutritivos e desprovidos de ação medicamentosa etc. §262 Em contrapartida, nas doenças agudas - exceto nos casos de alienação mental - é o sentido interno aguçado e infalível do impulso instintivo da conservação da vida, que aí se encontra muito ativo, que decide, de maneira tão clara e exata, que o médico só precisa exortar os acompanhantes e as pessoas que cuidam do doente a não colocarem obstáculos a essa voz da natureza, quer recusando qualquer alimento que o doente deseja com insistência, quer oferecendo-lhe persuasivamente algo prejudicial. §263 O que o doente afetado por um mal agudo deseja, na maior parte das vezes, em relação a alimentos e bebidas, é, sem dúvida, algo que oferece um alívio paliativo, não possuindo propriamente um caráter medicamentoso, satisfazendo apenas uma necessidade momentânea. Os pequenos obstáculos que a satisfação desses desejos, dentro de limites moderados, talvez opusesse à remoção efetiva da doença* serão amplamente compensados e dominados pelo poder do medicamento homeopaticamente adequado e do princípio vital por ele liberado, assim como pelo alívio advindo da obtenção de algo tão ardentemente desejado. Em casos de doenças agudas, a temperatura do quarto, assim como o calor ou frescor das cobertas devem, igualmente, estar de acordo com a vontade do doente. Todo e qualquer esforço, assim como abalo psíquico, devem ser evitados. * Isso, contudo, é raro. Assim, por ex., nas doenças francamente inflamatórias, em que o acônito é tão indispensável e cuja ação seria destruída pela ingestão de vegetais ácidos, o doente deseja, quase sempre, tomar apenas água fria e pura. §264 O verdadeiro artista da cura deve ter à mão os medicamentos mais ativos e mais legítimos, a fim de poder contar com sua força curativa, devendo, ele próprio, conhecê-los por sua legitimidade. §265 Para ele é uma questão de consciência estar convencido de que, em cada caso, o doente está tomando o medicamento adequado, devendo, portanto, ele mesmo dar ao doente o medicamento corretamente escolhido e preparado por suas própriasmãos* . * A fim de manter este importante princípio fundamental de meus ensinos, suportei muitas perseguições desde o inicio de sua descoberta. §266 As substâncias que pertencem aos remos animal e vegetal têm suas qualidades medicamentosas em maior grau no estado cru* . * Todas as substâncias vegetais cruas e animais têm forças medicamentosas maiores ou menores, podendo modificar o estado de saúde dos indivíduos, cada uma à sua própria maneira. As plantas e animais de que se alimentam os povos mais esclarecidos têm sobre os demais a vantagem de conter maior porcentagem de substâncias nutritivas e diferenciar-se das demais porque as forças medicamentosas no estado cru ou são menos intensas ou são diminuídas pelos processos culinários domésticos a que são submetidas ao espremer-se o sumo nocivo (como a raiz da mandioca da América do Sul), ao fermentar-se a farinha de cereais na massa para o preparo do pão, o chucrute preparado sem vinagre e os pepinos em conserva, pela defumação e pela ação do calor (fervendo, assando, tostando; grelhando ou fritando as batatas pela cocção no vapor), pelo que as partes medicamentosas de muitas dessas substâncias são parcialmente destruídas e esgotadas. Mediante a adição de sal de cozinha (salmoura) ou vinagre (molhos, saladas) as substâncias animais e vegetais certamente perdem muito de suas qualidades medicamentosas indesejáveis, adquirindo, porém, outras desvantagens de tal adição. Mas mesmo as plantas possuidoras de maior força medicamentosa perdem tais virtudes em parte ou mesmo totalmente mediante tais processos. Através da secagem completa todas as raízes de diversas espécies de íris, raiz forte, diferentes espécies de Arum e de Paeonia, perdem quase toda sua força medicamentosa. O suco das plantas de ação medicamentosa mais interessante torna-se, muitas vezes, uma massa totalmente inócua e semelhante ao piche, em virtude do calor empregado no preparo comum dos extratos. Só de ficar muito exposto ao ar, o suco das plantas mais facilmente perecíveis torna-se completamente sem força; mesmo a uma temperatura atmosférica moderada, sofre, em pouco tempo, a fermentação alcoólica, perdendo grande parte de sua força medicamentosa e imediatamente depois da fermentação pútrida e ácida, pela qual perde todas as suas propriedades medicamentosas intrínsecas; a fécula que é, então , depositada, se for bem lavada, é completamente inócua, como todo amido comum, mesmo pela transudação que ocorre quando muitas plantas verdes são superpostas, perdendo-se a maior parte de suas forças medicamentosas. §267 A maneira mais segura e mais completa de aproveitar a força das plantas nativas que podem ser obtidas frescas é imediatamente misturar bem o seu sumo recém-extraído com partes iguais de álcool suficiente para acender uma lamparina. Depois de um dia e uma noite em um frasco vedado, depositadas as fibras e a matéria albuminosa, o seu liquido claro é, então, decantado a fim de ser armazenado para emprego medicamentoso* . O álcool que se lhe acrescenta impede instantaneamente toda a fermentação do sumo da planta, detendo o processo dali por diante. Conserva-se, assim, todo o poder do sumo da planta para sempre (perfeito e inalterável) em frascos bem vedados com cera derretida para impedir a evaporação e protegê-los da luz solar2* . * Buchholz (Taschenb. f. Scheidek. u. Apoth. a.d. J. 1815. Weimar, Abth. I. VI. ) garante a seus leitores ( e o revisor no Leipziger Literaturzeitung, 1816; no. 82, não o contradiz ) que esse modo excelente de preparar os medicamentos se deve à campanha da Rússia ( em 1812 ) de onde vieram para a Alemanha em 1813. Conforme o nobre costume de muitos alemães de serem injustos para com seus próprios compatriotas, ele oculta o fato de que esta descoberta e todas aquelas instruções, que cita, em minhas próprias palavras, da primeira edição do Organon da ciência racional da cura (§ 230) e nota, procedem de mim, e que fui eu quem primeiro as publicou ao mundo dois anos antes da campanha da Rússia (o Organon saiu em 1810). Prefere-se atribuir a origem de uma descoberta antes aos desertos da Ásia do que a algum alemão a quem caiba a honra. Que tempos! Que costumes! Certamente já se misturou álcool algumas vezes ao suco de plantas, por ex., para preservá- lo por algum tempo antes de fazer os extratos, mas jamais com a intenção de administrá-los nessa forma. 2* Embora partes iguais de álcool e suco recém-espremido constituam geralmente a proporção mais adequada para permitir a deposição das matérias fibrosas e albuminosas, faz-se necessário, para esse fim, para plantas que contenham muito muco espesso (p. ex. Symphytum offlcinale, Viola tricolor etc.) ou excesso de albumina (por ex. Aethusa cynapium, Solanum nigrum etc.), uma proporção dupla de álcool. Plantas que não contenham muito suco, como Oleander, Buxus, Taxus, Ledum, Sabina etc., devem, primeiramente, ser esmagadas até se tornarem uma pasta fina, sendo, então, mexidas com uma dose dupla de álcool, de modo que o suco se junte e, assim extraído, possa ser espremido; estas últimas podem também, estando secas, quando se emprega força suficiente de atrito, ser trazidas a uma milionésima trituração com açúcar de leite, sendo, então, após dissolução de um grão de produto obtido (v. §271), ainda mais diluídas e dinamizadas. §268 As demais plantas, cascas, sementes e raízes estrangeiras que não podem ser obtidas frescas, jamais serão aceitas com toda confiança em forma de pó pelo sensato artista da cura, mas este deverá convencer-se de sua pureza no estado cru, antes de fazer delas o mínimo uso medicamentoso *. * A fim de conservá-las sob a forma de pó, é preciso tomar uma precaução, praticamente desconhecida até hoje nas farmácias, onde não podem ser guardadas, mesmo em frascos bem tapados, sem que o pó bem seco de substâncias animais e vegetais se altere. As substâncias vegetais cruas, mesmo bem secas, ainda retêm, como condição indispensável de sua constituição, uma certa quantidade de umidade, que não impede que a droga não pulverizada permaneça tão seca quanto é necessário para conservá-la sem sofrer alteração, porém, que é excessiva para o seu estado de pó fino. Portanto, a substância animal ou vegetal inteira bem seca dá um pó ligeiramente úmido que não deixará de alterar-se e deteriorar-se rapidamente nos frascos, embora bem tapados, se antes não se tiver tido o cuidado de privá-los de toda sua umidade supérflua. A melhor maneira de conseguir-se isto é espalhar o pó em uma vasilha de folha-de flandres de bordas elevadas, flutuando em um recipiente com água fervente (isto é, em banho-maria) e secá- lo, revolvendo-o até que suas partes já não se aglomerem, mas facilmente se distanciem umas das outras, espalhando-se como areia fina e seca. Neste estado seco os pós finos podem conservar-se para sempre inalteráveis, em frascos bem fechados e selados, com toda sua força medicamentosa original completa, sem deteriorar. São melhor conservados quando os frascos são protegidos contra a luz do dia (em caixas cobertas). Em recipientes não herméticos e não protegidos da luz, todas as substâncias animais e vegetais perdem com o tempo, gradativamente, cada vez mais sua força medicamentosa, mesmo que estejam inteiras, mas ainda muito mais no estado de pó. §269 A arte de curar homeopática, mediante um procedimento que lhe é próprio e nunca antes tentado, desenvolve, para seus fins específicos, os poderes medicamentosos internos e não materiais das substâncias em estado cru, em um grau até então jamais observado, pelo qual todas elas se tornam incomensuravelmente - "penetrantemente" - eficazes* e benéficas, mesmo aquelas que, no estado cru, não demonstram a menor ação medicamentosa sobre o organismo humano. Essa notável mudança nas qualidades dos corpos naturais, mediante ação mecânica em suas menores partespor atrito e sucussão (partes estas que, por sua vez, são separadas umas das outras, através de uma substância indiferente seca ou líquida), desenvolve os poderes dinâmicos (§11) latentes e, até então, despercebidos, ocultos, como que adormecidos2* , que afetam especialmente o princípio vital, influenciando o bem-estar da vida animal3* . Esse preparo, por conseguinte, é chamado dinamizar, potencializar (desenvolvimento do poder medicamentoso) e os produtos são dinamizações4* ou potências em diferentes graus. * Muito antes desta minha descoberta, eram conhecidas, através da experiência, várias mudanças em diferentes substâncias naturais por meio da fricção ,por ex. o calor, o fogo, desenvolvimento de odor em corpos inodoros, magnetização do aço etc. Mas todas estas propriedades determinadas pela fricção somente se relacionavam ao mundo físico e inanimado; mas há uma lei da natureza pela qual as mudanças fisiológicas e patogênicas ocorrem no organismo vivo, por meio de forças capazes de alterar a matéria crua dos meios medicamentosos, mesmo naquelas que jamais se mostraram medicamentosas, pela trituração e pela sucussão, mas com a condição de interpor um veículo não-medicamentoso (indiferente) em certas proporções. Essa maravilhosa lei física, mas especialmente fisiopatogênica da natureza, não havia sido descoberta antes de meu tempo. Não é de admirar, então, que até agora os atuais naturalistas e médicos (que desconheciam essa lei) acreditassem no poder mágico curativo dos medicamentos preparados conforme os ensinamentos homeopáticos (dinamizados) e aplicados em doses tão pequenas! 2* Observa-se a mesma coisa numa barra de ferro e um bastão de aço na qual não se pode ignorar um vestígio adormecido da força magnética latente. Ambos, depois de forjados e colocados em posição vertical, repelem o pólo norte de uma agulha magnética com a extremidade inferior e atraem o pólo sul, ao passo que a extremidade superior apresenta-se como o pólo sul da agulha magnética. Mas isto é apenas uma força latente; nem sequer uma das partículas mais finas de ferro pode ser atraída magneticamente ou segura a cada uma das extremidades de tal barra. Unicamente depois que o bastão de aço é dinamizado pelo atrito em um único sentido de uma lima não muito afiada, transformar-se-á em um ímã poderoso e verdadeiro, capaz de atrair o ferro e o aço e transmitir seu poder magnético a outro bastão de aço por contato e ainda a alguma distância e isto em um grau tanto maior quanto maior tiver sido o atrito. Do mesmo modo, a trituração de uma droga e a sucussão de sua diluição (dinamização, potenciação) desenvolverá sua força medicamentosa latente e a manifestará cada vez mais, desmaterializando mais a própria matéria, se é que se pode falar desse modo. 3* Isto se refere apenas ao aumento e desenvolvimento mais intenso de seu poder de produzir alterações no estado de saúde dos animais e do Homem quando tais substâncias naturais nesse estado melhorado se coloquem muito próximo das fibras sensíveis ou entrem em contato com elas (por ingestão ou olfação); assim como uma barra imantada, especialmente se sua força é aumentada (dinamizada) pode revelar força magnética somente com uma agulha de aço que esteja próxima de seu pólo ou em contato com ela, permanecendo, contudo, o próprio aço inalterado nas outras propriedades químicas e físicas não podendo produzir alterações em outros metais (por ex. no bronze) e tampouco os medicamentos dinamizados podem exercer qualquer ação sobre coisas inanimadas. 4* Diariamente, ouvimos chamar as potências medicamentosas homeopáticas de meras diluições, quando ocorre o contrário, isto é, um verdadeiro aumento de substâncias naturais que trazem à luz e revelam os poderes medicamentosos específicos ocultos, por meio da fricção e da sucussão, no qual a ajuda de um meio de diluição não medicamentoso concorra apenas como condição secundária. A pura diluição, por ex., a diluição de um grão de sal de cozinha transformar-se-á apenas em água, o grão de sal desaparece na diluição com muita água, jamais se transformando no medicamento que, contudo, mediante nossa dinamização bem preparada, é elevado a uma força admirável. §270 Com a finalidade de efetuar ao máximo esse desenvolvimento da força, uma pequena parte da substância a ser dinamizada, digamos, um grão, é submetido a três horas de trituração com três vezes 100 grãos de açúcar de leite, até à milionésima parte em forma pulverizada, de acordo com o método abaixo descrito* . Pelos fundamentos apontados na nota abaixo, um grão desse pó é primeiramente dissolvido em 500 gotas de uma mistura constituída de uma parte de álcool e quatro partes de água destilada, sendo uma só gota colocada em um frasco. A isso acrescentam- se 100 gotas de álcool puro2* , aplicando-se ao frasco vedado 100 fortes sucussões com a mão contra um corpo duro, porém elástico3* . Este é o medicamento no primeiro grau de dinamização, com o qual se podem, então, umedecer4* pequenos glóbulos de açúcar5* e distribui-los sobre papel de filtro, a fim de secar, guardando-os em um frasco com o sinal (1) do primeiro grau de potência. Somente se toma um desses glóbulos6* para nova dinamização, colocando-o em um novo frasco (com uma gota de água para dissolvê-lo), dinamizando-o, então, com 100 gotas de álcool puro, do mesmo modo, mediante 100 fortes sucussões. Com esse líquido medicamentoso alcoólico, os glóbulos são novamente umedecidos, distribuídos sobre papel de filtro e secados rapidamente, postos em frasco bem fechado e protegido da luz solar com o sinal (II) da segunda potência. E assim se continua procedendo, até que, mediante o mesmo processo, um glóbulo XXIX dissolvido com 100 gotas de álcool, mediante 100 sucussões tenha formado um líquido alcoólico com o qual glóbulos de açúcar secos devidamente umedecidos recebem o grau XXX de dinamização. Por meio dessa manipulação de substâncias medicamentosas em estado bruto, produzem-se preparações que, somente desse modo, alcançam plena capacidade para influenciar completamente as partes afetadas do organismo doente, removendo do principio vital presente no organismo, por meio de uma afecção mórbida semelhante artificial, a sensação da doença natural. Através desse processo mecânico, quando devidamente efetuado de acordo com os ensinos acima, ocorre, afinal, por meio de tais dinamizações crescentes, a completa sutilização e transformação das substâncias medicamentosas que, em estado bruto se nos apresentam apenas como matéria, por vezes até como não medicamentosa, em uma força medicamentosa7* não material que, na verdade, por si só, não mais é percebida pelos nossos sentidos, mas o glóbulo, transformado em medicamento - seco e ainda mais, dissolvido em água - torna-se o veículo, manifestando, nessas condições, o poder curativo dessa força invisível no organismo doente. * Coloca-se uma terça parte de 100 grãos de açúcar de leite em pó em um gral de porcelana vitrificada cujo fundo tenha perdido o polimento mediante fricções de areia fina e úmida, pondo- se, sobre esse pó um grão da substância medicamentosa a ser pulverizada (uma gota de mercúrio, petróleo etc) .0 açúcar de leite empregado para dinamização deve ser de qualidade tão pura que, cristalizado em fios, chegue-nos em forma de bastões arredondados. Mexe-se durante um momento o pó e o medicamento com uma espátula de porcelana, triturando-se vigorosamente em seguida durante 6 a 7 minutos, com o pistilo de porcelana despolido na extremidade inferior. Raspa-se a massa do fundo do gral com a mencionada espátula por 3 a 4 minutos a fim de torná- la mais homogênea. Tritura-se novamente do mesmo modo por 6 a 7 minutos, sem acrescentar-se mais nada e, novamente, raspando-se de 3 a 4 minutos e acrescentando-se aí a segunda terça parte do açúcar de leite, misturando-se tudo durante um 'momento com o pistilo e triturando-se,e, portanto, curar doenças, oculta na essência íntima dos medicamentos, não é reconhecível de modo algum em si mesma por um simples esforço de razão; ela se torna claramente perceptível na experiência, somente através de sua exteriorização ao atuar sobre o estado de saúde do indivíduo. §21 Posto que ninguém pode negar que a essência curativa dos medicamentos não é reconhecível em si e que, nem mesmo em experimentos puros com medicamentos, realizados pelo mais arguto observador, nada do que possa torná-los medicamentos ou meios de cura pode ser percebido, além daquela força de produzir no corpo humano distintas alterações de seu estado de saúde, especialmente do indivíduo sadio e de nele causar determinados sintomas mórbidos diversos, conclui-se que: quando os medicamentos agem como meio de cura, eles também somente podem exercer sua capacidade de curar através desta sua força de alterar o estado de saúde do Homem, gerando sintomas definidos. Nós, portanto, somente podemos ter por base os fenômenos mórbidos que os medicamentos provocam em corpos sadios, como a única manifestação possível de sua força curativa inerente, a fim de descobrir que força causadora de doença e, simultaneamente que força curativa possui cada medicamento. §22 Contudo, como nas doenças, salvo a essência de seus sinais e sintomas, não há nada que indique o que nelas deva ser removido a fim de transformá-las em saúde e também porque os medicamentos não podem apresentar nenhuma força curativa, a não ser sua propensão para provocar sintomas mórbidos em pessoas sadias e para removê-los em pessoas doentes, segue-se, então, por um lado, que os medicamentos só se tornam meios de cura capazes de aniquilar doenças porque produzem certos fenômenos e sintomas, isto é, geram uma certa condição artificial de doença que remove e anula os sintomas já existentes, a saber, o estado mórbido natural a ser curado; por outro lado, conclui-se que, para a essência dos sintomas da doença a ser curada, deve ser buscado aquele medicamento que demonstre a maior propensão para provocar sintomas semelhantes ou sintomas opostos mostrando de acordo com a experiência, se os sintomas mórbidos* são removidos, anulados e transformados em saúde da maneira mais fácil, certa e duradoura pelos sintomas medicamentosos semelhantes ou pelos sintomas opostos. * Além desses dois, um outro modo de emprego possível contra doenças é o método alopático, em que são prescritos medicamentos cujos sintomas não têm relação patológica direta com o estado mórbido, não são nem semelhantes nem opostos aos sintomas da doença, mas sim bem heterogêneos. Esse método, como já mostrei em outra parte, joga de maneira irresponsável e assassina com a vida do doente, através de medicamentos perigosamente violentos e desconhecidos quanto a seus efeitos, oferecidos em doses grandes e mais freqüentes por mera suposição e, além disso, por meio de operações dolorosas a fim de levar a doença para outros lugares por meio da diminuição das forças e humores do doente, através da eliminação por vias superiores e inferiores, transpiração e salivação, mas especialmente através do esbanjamento do sangue insubstituível conforme a prática da rotina reinante, cega e impiedosa, geralmente com o pretexto de que o médico deve imitar e incentivar a natureza em seu esforço de auto ajuda, sem meditar como é irracional querer imitar e incentivar esses esforços tão imperfeitos e, na maior parte das vezes, inadequados da força vital meramente instintiva e irracional que se incorporou em nosso organismo a fim de, enquanto ele se encontra sadio, proporcionar à nossa vida um curso harmonioso; não, porém, a fim de curar-se a si mesma nas doenças. Se ela possuísse essa exemplar capacidade, nunca permitiria que o organismo adoecesse. Quando nossa força vital adoece pela ação de agentes nocivos ela nada pode fazer a não ser exprimir sua perturbação através do desarranjo no curso vital normal do organismo e através de sensações dolorosas com as quais ela apela ao médico sensato por ajuda. Se esta não ocorrer, a força vital, então, esforça-se por salvar-se através da agravação do sofrimento, mas principalmente por meio de violentas evacuações custe o que custar e muitas vezes em meio a grandes sacrifícios ou à destruição da própria vida. A força vital doente e perturbada possui tão pouca habilidade de imitação para curar, que todas as alterações do estado de saúde e sintomas produzidos por ela constituem justamente a própria doença! Que médico sensato quereria imitar a doença no tratamento, se ele não quer sacrificar seu doente? §23 Porém, toda experiência pura e todo experimento exato nos convencem de que sintomas pertinazes de doenças são removidos e eliminados por sintomas opostos de medicamentos de maneira tão insignificante (no método antipático, enantiopático ou paliativo) que, pelo contrário, após um curto e transitório alívio, irrompem novamente com muito maior intensidade, agravando-se a olhos vistos. (vide §58-62 e 69) §24 Não resta, portanto, outra maneira promissora de empregar os medicamentos contra as doenças além do método homeopático, graças ao qual, contra a totalidade dos sintomas do caso de doença - levando-se em conta a causa, quando conhecida e as circunstâncias adjacentes - procuramos um medicamento que, entre todos os outros (conhecidos através de sua comprovada ação patogenética) possua a força e a faculdade de produzir um estado mórbido artificial, apresentando a máxima semelhança com a doença em questão. §25 Todavia, o único oráculo infalível da arte de curar, a experiência pura* , ensina, em todos os experimentos criteriosos, que realmente aquele medicamento que provou ser capaz de produzir em sua atuação sobre organismos humanos sadios, a maior parte dos sintomas semelhantes aos que se encontram nos casos de doença a ser curados, em doses adequadamente potencializadas e reduzidas, também remove, de maneira rápida, radical e duradoura, a totalidade dos sintomas desse estado mórbido, isto é, toda a doença em curso, transformando-a em saúde e que todo medicamento cura, sem exceção, as doenças cujos sintomas mais se assemelham aos seus, não deixando de curar nenhuma delas. * Não me refiro àquela experiência de que tanto se gabam os clínicos comuns da velha escola após terem ministrado, durante anos, uma série de receitas bem complexas para numerosas doenças que eles investigaram minuciosamente segundo, porém, o que já havia sido determinado pela patologia e fiéis aos padrões de sua escola, com a presunção de descobrir nelas alguma substância morbífica (imaginária) ou lhes imputando alguma outra anormalidade interna hipotética. Ali eles sempre enxergavam alguma coisa, mas não sabiam o que viam; resultados que somente Deus e nenhum ser humano teria podido desvendar entre as múltiplas forças que agem sobre objetos desconhecidos; resultados 50bre os quais nada se pode aprender e dos quais não se obtém nenhuma experiência. Possuir tal experiência de cinqüenta anos é como passar cinqüenta anos olhando num caleidoscópio cheio de objetos coloridos e desconhecidos em movimento giratório constante; milhares de configurações em constante mudança e nenhuma explicação! §26 Tal fato se baseia naquela lei homeopática da natureza, desde sempre, fundamentalmente presente em toda verdadeira cura, pressentida, certamente, vez por outra, mas desconhecida até agora: Uma afecção dinâmica mais fraca é extinta de maneira duradoura no organismo vivo por outra mais forte quando esta (de espécie diferente) seja muito semelhante àquela em sua manifestação *. * Assim é que são tratadas também as afecções físicas e males morais. Como pode o luminoso Júpiter desaparecer do olhar do observador no crepúsculo matutino? Por causa de um poder mais forte que age de modo muito semelhante sobre seu nervo óptico: a claridadenovamente, com igual força 6 a 7 minutos; raspa-se, então, novamente, cerca de 3 a 4 minutos e, novamente, tritura-se por 6 a 7 minutos sem qualquer acréscimo e raspa-se por mais 3 a 4 minutos do fundo do almofariz; feito isto, toma-se a última terça parte do açúcar de leite, mistura-se com a espátula, tritura-se energicamente durante cerca de 3 a 4 minutos, finalizando com a última trituração de 6 a 7 minutos e com a mais cuidadosa raspagem. O pó, assim preparado, é conservado em um frasco bem tapado e protegido do sol e da luz do dia, o qual se marca com o nome da substância e com a referência 100 do nome do primeiro produto. Com o fim de elevar este produto a 10 000, mistura-se um grão do pó com a terça parte de 100 grãos de açúcar de leite pulverizados em um almofariz, misturando-se tudo com a espátula, procedendo-se como indicado anteriormente, triturando cuidadosamente cada terça parte duas vezes energicamente, cada vez durante 6 ou 7 minutos e raspando 3 a 4 minutos, antes de acrescentar- se a segunda e a última terça parte. Após a adição de cada uma destas terças partes, procede-se do mesmo modo que anteriormente. Quando estiver tudo terminado, coloca-se o pó em um frasco bem tapado, com a referência li 10.000. Quando se toma um grão deste último pó e se procede do mesmo modo, chega-se, assim, ao grau 1, isto é, de tal maneira que cada grão desse pó contenha a milionésima parte de um grão da substância original. Portanto, tal preparação dos três graus requer 6 vezes de 6 a 7 minutos de trituração e 6 vezes de 3 a 4 minutos para raspagem, o que exige, consequentemente, uma hora para cada grau. Depois de uma hora de trituração, cada grau conterá 1/100 da substância medicamentosa usada; depois da segunda trituração, 1/10.000 e depois da terceira 111.000.000+. O almofariz, o pistilo e a espátula precisam ser bem limpos antes de serem usados na preparação de outro medicamento. Depois de bem lavados com água quente e secados, o almofariz, o pistilo e espátula são colocados a ferver em um recipiente por meia hora. Dever-se-ia até ter o cuidado de colocar esses instrumentos 50bre o calor gradativo de brasas ardentes. +2* Do qual o recipiente para potencialização conterá dois terços. 3* Talvez um livro encadernado com couro. 4* São preparadas sob vigilância por um confeiteiro com fécula e açúcar de cana e os pequenos glóbulos são libertados primeiramente das partes muito finas de pó por meio de uma peneira adequada. Passam, então, por um coador que permita passagem de apenas 100 glóbulos pesando somente um grão - o grau de pequenez mais útil para as necessidades de um médico homeopata. 5* Colocam-se os glóbulos que pretendemos tornar medicamentos em um pequeno vaso cilíndrico em forma de dedal, feito de vidro, porcelana ou prata, com uma pequena abertura no fundo. São umedecidos com o álcool, assim dinamizado medicamentosamente e sacudidos, batendo-se a pequena vasilha (de boca para baixo) sobre um papel de filtro, a fim de secá-los rapidamente. 6* Antes, conforme minhas primeiras instruções, tomava-se uma gota inteira de uma potência mais baixa e se misturava com 100 gotas de álcool para preparar uma potência mais alta. Mas a proporção entre um meio de diluição e o medicamento a dinamizar (100:1) era muito limitada para desenvolver um alto grau de força da substância medicamentosa por meio de tal número de sucussões sem fazer um grande esforço, como me mostraram exaustivas experiências. Mas, se se tomar apenas um desses glóbulos, dos quais 100 pesem um grão a fim de dinamizá-los com 100 gotas (álcool), a proporção passa a ser de 1/50.000, talvez até maior, pois 500 destes glóbulos mal podem absorver uma gota para sua saturação. Com essa relação desigual mais alta entre a substância medicamentosa e o meio de diluição, diversas sucussões do frasco contendo dois terços de sua capacidade de álcool podem produzir um desenvolvimento de força bem maior. Mas, se, com um meio tão pequeno de diluição do medicamento, como 100:1, forem dadas diversas sucussões por meio de uma máquina poderosa, obtêm-se medicamentos que, especialmente nos graus mais elevados de dinamização, agem quase imediatamente, porém com uma intensidade tempestuosa, perigosa até, especialmente em doentes fracos, sem que se siga uma reação duradoura e suave do principio vital. O método por mim descrito, porém, produz um medicamento com desenvolvimento muito alto de potência e efeito muito suave que, contudo, se bem escolhido, atinge todas as partes doentes curativamente+ . Nas febres agudas podem-se repetir as pequenas doses dos graus menos dinamizados desses preparados medicamentosos bem mais aperfeiçoados, mesmo de medicamentos de efeito prolongado (por ex., Belladona), podem ser repetidas em breves intervalos; assim como no tratamento das doenças crônicas, é melhor começar com os mais baixos graus de dinamização e, quando necessário, passar para um grau mais alto que, embora continue a ser elevado, sempre tem um efeito apenas suave. 7* Não se julgará esta afirmação improvável se ponderarmos que, por esse método de dinamização (cujas preparações, após muitas experimentações e contra-experimentações, descobri serem as mais poderosas e, ao mesmo tempo, as de efeito mais suave, isto é, as mais perfeitas). a parte material do medicamento é minimizada com cada grau de dinamização 50.000 vezes e ainda incrivelmente aumentada em poder, de maneira que a dinamização subseqüente dos cardinais elevados ao cubo 125.000.000.000.000.000.000 (50.000) alcança apenas o terceiro grau de dinamização, quando se continuam multiplicando os últimos números por eles mesmos e em tal progressão continua até o 300 grau de dinamização, atingindo uma fração tão grande que é quase impossível de ser expressa por números. Torna-se extraordinariamente evidente que a parte material, mediante essa dinamização (desenvolvimento de sua essência interna verdadeira medicamentosa) desdobrar-se-á, finalmente, em sua essência individual e de tipo não material, podendo ser considerada, portanto, como consistindo realmente apenas dessa essência de tipo não material não desenvolvida. §271 Se o médico prepara, ele mesmo, seus medicamentos homeopáticos, o que é justamente aquilo que ele sempre deveria fazer para salvar as pessoas de suas doenças(*), ele pode usar a própria planta fresca por ser necessária pouca quantidade de substância crua - a não ser que ele necessite talvez do sumo espremido para fins curativos - colocando alguns grãos dessa substância em um almofariz, a fim de submetê-los três vezes à trituração à milionésima com 100 grãos de açúcar de leite (§ 270) antes de proceder à próxima potencialização de uma pequena porção mediante sucussões, procedimento que deve ser observado também com as demais substâncias medicamentosas cruas, secas ou oleosas. * Até que o Estado, algum dia, após haver alcançado a compreensão da indispensabilidade de medicamentos homeopáticos perfeitamente preparados, faça-os preparar por uma pessoa competente e imparcial, a fim de fornecê-los a médicos homeopatas treinados e qualificados, teórica e praticamente em hospitais homeopáticos, de modo que os médicos, não somente se convençam desses instrumentos divinos de curar mas também passem a distribuí-los gratuitamente aos seus doentes (ricos e pobres). §272 Um glóbulo assim preparado* , colocado seco sobre a língua, é uma das menores doses para um caso moderado e recente de doença, no qual somente poucos nervos são atingidos pelo medicamento. Porém, um glóbulo semelhante, esmagado com um pouco de açúcar de leite e dissolvido em muita água (§ 247) e bem agitado, antes de cada ingestão, resultará num medicamento bem mais forte para ser empregado durante vários dias. Em contrapartida, cada porção desse preparado, oferecida como dose, por pequena que seja, atinge imediatamente muitos nervos.* Estes glóbulos (vide §270) conservam sua força medicamentosa durante muitos anos se forem protegidos da luz solar e do calor. §273 Em nenhum caso de tratamento é necessário e, por conseguinte, não é admissível administrar a um doente mais do que uma única e simples* substância medicamentosa de cada vez. É inconcebível que possa existir a menor dúvida acerca do que está mais de acordo com a natureza e é mais racional: prescrever uma única substância medicamentosa simples e bem conhecida num caso de doença ou misturar varias diferentes. Na única, verdadeira, simples e natural arte de curar, a homeopatia, não é absolutamente permitido dar ao doente duas substâncias medicamentosas diferentes de uma só vez. * Duas substâncias opostas, unidas ao formar sais por afinidade química em proporções invariáveis, bem como os metais sulfurados que se encontram na Terra e aqueles produzidos artificialmente em combinações proporcionadas e constantes de enxofre ou sais e terras alcalinas (por ex. Natrium sulfuricum e Calcarea sulph.), bem como os éteres produzidos pela destilação de álcool e ácidos, podem, juntamente com o fósforo ser considerados como substâncias medicamentosas simples pelo médico homeopata e usados em doentes. Em contrapartida, os extratos obtidos por meio de ácidos, dos chamados alcalóides de plantas, estão sujeitos a grande variedade por sua preparação (por ex. o quinino, a estricnina, a morfina) e não podem, portanto, ser aceitos pelo médico homeopata como medicamentos simples, inalteráveis, principalmente porque ele tem, nas próprias plantas em seu estado natural (quina, noz-vômica, ópio) todas as qualidades necessárias para curar. Além disso, os alcalóides não são os únicos constituintes das plantas. §274 Como o verdadeiro artista da cura encontra nos medicamentos simples administrados separadamente e sem mistura tudo o que porventura possa desejar (forças morbíficas artificiais que são capazes, por sua força homeopática de vencer completamente a doença natural, extingui- la na sensação do princípio vital e curá-la de maneira duradoura), conforme reza o sábio provérbio que diz ser um erro empregar meios compostos quando os simples são suficientes, jamais lhe ocorrerá dar como medicamento mais do que uma substância medicamentosa simples, de cada vez e também por ter em vista que, embora os medicamentos simples tivessem sido completamente experimentados quanto a seus efeitos puros peculiares no estado de saúde dos Homens, é impossível prever como duas ou mais substâncias medicamentosas compostas podem mutuamente alterar e obstar a ação da outra sobre o organismo humano e porque, por outro lado, o emprego nas doenças, de uma substância medicamentosa simples cujo conjunto característico de sintomas é conhecido exatamente, já presta, por si só, ajuda completa se foi escolhido homeopaticamente e, mesmo no pior dos casos em que ele possa não ter sido bem selecionado de acordo com a semelhança dos sintomas, não produzindo, portanto, nenhum efeito benéfico, ainda assim será útil por requerer conhecimentos acerca dos meios de cura à medida que, através dos novos padecimentos por ela produzidos em tal caso, vão sendo confirmados os sintomas que a substância medicamentosa já havia mostrado mediante experimentações no organismo humano sadio, vantagem esta que é suprimida pelo emprego de todos os meios compostos* . * A prática de ministrar chás contendo outras substâncias medicamentosas, aplicar infusões ou banhos de várias outras ervas, injetar um clister diferente ou mandar passar este ou aquele ungüento, a par da ingestão do medicamento convenientemente homeopático escolhido para o caso de doença criteriosamente estudado o médico sensato deverá deixar a cargo da insensata rotina alopática. §275 A conveniência de um medicamento, para um caso dado de doença, não se baseia apenas em sua escolha homeopática acertada, mas também, certamente, na grandeza exata, mais justamente, na pequenez de sua dose. Se for dada uma dose demasiadamente forte de um medicamento, mesmo escolhido de maneira completamente homeopática para o estado mórbido em questão, não obstante o inerente caráter benéfico de sua natureza, tornar-se-á prejudicial pela sua grandeza e pela impressão desnecessária e demasiadamente forte que, graças à sua ação homeopática de semelhança, produz na força vital e, por meio desta, justamente sobre as partes mais sensíveis do organismo e que foram mais afetadas pela doença natural. §276 Por essa razão, ainda que um medicamento seja homeopaticamente apropriado ao caso de doença, em cada dose excessiva e, em fortes doses será tanto mais prejudicial quanto maior for a homeopaticidade e quanto maior for a potência escolhida* e, na verdade, bem mais nocivo que qualquer medicamento não-homeopático e sem qualquer adequação ao estado mórbido (alopático). Doses demasiadamente intensas de um medicamento homeopático corretamente escolhido e, principalmente, uma repetição freqüente do mesmo, causam, via de regra, muitos inconvenientes. Não raro, põem em perigo de vida o doente ou tornam sua doença quase incurável. Sem dúvida, extinguem a doença natural quanto à sensação do princípio vital e o doente não sofre mais da doença original desde o momento em que a dose forte do medicamento age sobre ele, mas acha-se agora, consequentemente, mais doente pela doença medicamentosa semelhante que é mais intensamente difícil de ser novamente extinta2* . * O louvor dispensado, ultimamente, por alguns homeopatas às doses maiores deve-se, ou ao fato de que escolheram potências pouco elevadas do medicamento dinamizado a ser administrado segundo o uso corrente (como eu mesmo fazia há uns 20 anos, por não conhecer outra melhor), ou ao fato de que os medicamentos escolhidos eram homeopáticos e imperfeitamente preparados pelo fabricante. 2* Assim, mediante o uso continuado e em grandes doses de meios mercuriais agressivos e alopáticos contra sífilis, desenvolvem-se doenças causadas pelo mercúrio, quase incuráveis; porém, uma ou diversas doses do preparado à base de mercúrio suave porém ativo, certamente teria curado radicalmente em poucos dias a doença venérea, juntamente com o cancro, desde que não tivesse sido destruído por meios externos (como sempre ocorre com a alopatia). Do mesmo modo, o alopata também ministra casca de quina e quinino, diariamente, em doses muito grandes, para febre intermitente, onde elas estavam bem indicadas homeopaticamente e onde uma pequena dose de China em potência alta teria infalivelmente sido eficaz (nas febres palustres intermitentes e mesmo nas pessoas que não foram afetadas por qualquer doença psórica evidente), produzindo, então, (enquanto a psora se desenvolve simultaneamente) uma doença crônica da China que, se não matar o doente aos poucos, danificando os órgãos internos mais importantes, principalmente o baço e o fígado, o fará sofrer, pelo menos, durante muitos anos, em condições de saúde lamentáveis. Quase não é concebível um antídoto homeopático para tal estado produzido pelo abuso de grandes doses de medicamento homeopático. §277 Em vista disso, e porque um medicamento bem dinamizado, com uma suposta pequenez adequada de sua dose se torna tanto mais salutar, podendo quase beirar o milagre em sua eficácia, quanto mais homeopaticamente correta tenha sido sua escolha, assim também um medicamento cuja escolha tenha sido convenientemente homeopática, deve ser tanto mais salutar quanto mais sua dose for reduzida ao grau apropriado de pequenez, para uma suave eficácia terapêutica. §278 Aqui se apresenta a questão: qual o grau de pequenez mais adequado para um efeito medicamentoso certo e seguro ? Qual deve ser a pequenez da dose de cada medicamento unitário escolhido homeopaticamente para um caso de doença, a fim de conseguir a melhor cura? Resolver esse problema e determinarqual deve ser a dose específica suficiente de cada medicamento para fins terapêuticos homeopáticos, sendo tão diminuta que a mais suave e a mais rápida cura pode ser conseguida, facilmente se pode perceber, não constitui um trabalho de especulação teórica. O raciocínio sutil ou a sofismação capciosa trazem tão poucas informações quanto possibilidades de calcular previamente todos os casos imagináveis. Somente a experimentação pura, a observação cuidadosa da sensibilidade de cada doente e a prática correta podem determinar isso em cada caso particular e seria um absurdo colocar as grandes doses de medicamentos inadequados (alopáticos) da antiga escola, que não tocam homeopaticamente o lado doente mas apenas atacam as partes não afetadas pela doença, contra o que a experiência pura declara. §279 Essa experiência pura demonstra cabalmente que a dose do medicamento homeopaticamente escolhido e altamente potencializado para o começo do tratamento de uma doença importante (especialmente crônica) não pode, via de regra, jamais ser preparada tão pequena que não seja mais forte do que a doença natural e que não possa dominá-la, ao menos em parte, removendo-a da sensação do princípio vital, já começando, desse modo, a realizar a cura, se a doença não reside manifestamente em uma deterioração considerável de alguma víscera importante (embora pertença ao rol das doenças crônicas e complicadas) e, mesmo, se durante o tratamento, todas as outras influências medicamentosas estranhas fossem afastadas do doente. §280 A dose do medicamento que está se mostrando útil sem produzir novos sintomas incômodos deve ser continuada, elevando-se gradualmente até que o doente, experimentando uma melhora geral, comece a sentir de forma moderada o retorno de um ou vários de seus antigos padecimentos originais. Isso indica uma cura próxima através de um aumento gradativo das doses moderadas modificadas, cada vez, mediante sucussões (§ 247); indica que, agora, o princípio vital quase não tem mais necessidade de ser afetado por uma doença semelhante, a fim de perder a sensação da doença natural (§ 148), como também indica que o principio vital, agora livre da doença natural, começa a sofrer simplesmente da doença medicamentosa homeopática conhecida, aliás, como agravação homeopática. §281 A fim de que nos convençamos disso, o doente é deixado sem qualquer medicamento por 8, 10, 15 dias e, nesse ínterim, recebe somente um pouco de açúcar de leite em pó. Se os últimos e pouco intensos padecimentos se devem apenas ao medicamento que simulou os sintomas mórbidos originais da doença, então, esses sofrimentos desaparecerão em alguns dias ou horas. Se, durante esses dias sem medicamento e com regime de vida constante não se apresenta nada mais da doença original, então, ele está muito provavelmente curado. Mas, se nos próximos dias se apresentam ainda vestígios dos antigos sintomas mórbidos, são eles resquícios da doença original que não se extinguiu totalmente e devem ser tratados com altos graus de dinamização do medicamento, na forma já indicada. Para obter-se uma cura, as primeiras doses devem ser, igualmente, de maneira gradativa elevadas novamente, mas bem menores e de maneira mais lenta em doentes em que se percebe uma irritabilidade considerável, do que com os menos sensíveis, para os quais se pode elevar a dose de forma mais rápida. Há doentes cuja excitabilidade é de 1000 para 1, comparada com os de pouca suscetibilidade. §282 Será um sinal certo de que as doses foram muito fortes durante o tratamento, principalmente nas doenças crônicas, se as primeiras doses provocarem o surgimento da chamada agravação homeopática, isto é, o aumento marcado dos sintomas mórbidos originais primeiramente investigados e, apesar da ligeira modificação de cada dose (mais altamente dinamizada) repetida (segundo § 247), mediante sucussões a cada ingestão* . * A regra, segundo a qual se deve começar o tratamento homeopático de doenças crônicas com as doses mínimas possíveis e apenas gradativamente aumentadas, sofre uma notável exceção no tratamento dos três grandes miasmas, enquanto ainda afetam a pele, isto é, sarna irrompida, cancro ainda não tratado (nos órgãos sexuais, boca ou lábios etc.) e os condilomas. Estes não só toleram como também requerem, desde o inicio, diariamente grandes doses de seus meios de cura específicos em graus de dinamizações cada vez mais altos (talvez até várias vezes ao dia). Não se deve temer, se se adotar tal procedimento, que, como ocorre no tratamento de doenças ocultas no organismo, a dose excessiva, embora extinga a doença, possa dar inicio a uma doença medicamentosa e, pelo uso continuado, a uma doença medicamentosa crônica. Não é este o caso durante a manifestação externa mencionada desses três miasmas, visto que em sua base, pelo progresso diário em seu tratamento, podemos observar e julgar a que grau as grandes doses obstam ao principio vital, dia após dia, as sensações dessa doença, pois nenhuma das três pode ser curada, sem que dêem ao médico, através de seu desaparecimento, a convicção de que não há mais necessidade de tais medicamentos. Visto que as doenças, de um modo geral, são apenas ataques dinâmicos sobre o principio vital, não estando em sua base qualquer princípio material, qualquer materia peccans' (como a velha escola em seu despropósito tem inventado durante milhares de anos e tratado desse modo os doentes sempre para seu prejuízo), não há, também, nestes casos, nada material a remover, nada a retirar, cauterizar, nada a ligar ou cortar, sem fazer com que o doente se torne cada vez mais doente e mais difícil de curar (v. Doenças Crônicas - parte 1), do que ele era antes de serem tocadas as manifestações exteriores destes três grandes miasmas. A influência dinâmica hostil sobre o princípio vital constitui a essência destes sinais externos dos miasmas maligno8 internos que só se pode extinguir pela ação de um medicamento homeopático sobre o principio vital, afetando o mesmo de forma semelhante porém mais forte, privando-o de tal modo da sensação interna e externa do inimigo mórbido de tipo não material que esta já não mais existe para o principio vital (para o organismo), libertando, assim, o doente de seu mal, curando-o. Não obstante, a experiência ensina na verdade, que apenas a sarna, com sua manifestação externa e o cancro juntamente com o miasma venéreo interno, podem e devem curar-se exclusivamente com os medicamentos específicos tomados internamente. Contudo, quando os condilomas já se encontram há algum tempo sem tratamento, necessitam para sua completa cura a aplicação externa de seu medicamento especifico, a par de sua administração interna. §283 A fim de proceder inteiramente de acordo com a natureza, o verdadeiro artista da cura receitará o medicamento homeopático exatamente escolhido e mais apropriado sob todos os aspectos - por isso mesmo - somente em dose muito pequena, a fim de que, caso seja levado, por fraqueza humana a empregar um medicamento inadequado, o inconveniente que dai resulta para a doença seja tão pequeno que possa, pela própria força da vida e mediante a pronta administração (§ 249) do medicamento corretamente escolhido conforme a similitude dos sintomas (e também em doses muito pequenas), ser rapidamente anulado e corrigido. §284 Além da língua, boca* e estômago, que mais comumente são afetados pela ingestão do medicamento, o nariz e os órgãos respiratórios são especialmente sensíveis ao efeito do medicamento sob forma líquida, mediante olfação e inalação através da boca. Porém, toda a pele do resto do nosso corpo recoberta com sua epiderme está sujeita à ação de soluções medicamentosas, principalmente se a fricção foi associada simultaneamente à ingestão. * É admiravelmente eficaz a força dos medicamentos no lactente através do leite materno ouleite da nutriz. Todas as doenças infantis cedem aos medicamentos homeopáticos corretamente escolhidos, ministrados em doses muito moderadas à lactante, sendo, desse modo, bem mais fácil e mais seguramente aniquiladas nesses novos cidadãos do que jamais seria possível em períodos posteriores. Visto que a psora costuma contagiar a maioria dos lactentes através do leite da nutriz, se já não herdaram da mãe, pode-se protegê-los, ao mesmo tempo, antipsoricamente, pelo leite da nutriz que se tornou medicamentoso pelo processo descrito. Mas, para destruir nas mães e no feto a psora, causadora da maior parte das doenças crônicas e quase sempre presente através do contágio por hereditariedade, a providência a ser tomada é instituir na sua (primeira) gravidez um tratamento suave antipsórico especialmente com Sulphur, preparado conforme as instruções dadas nesta edição (§270), a fim de que a posteridade seja previamente protegida. Tanto isto é verdade que as crianças assim tratadas durante a gravidez vêm ao mundo bem mais sadias e bem mais fortes, espantando a todos. É uma nova confirmação da grande verdade da teoria da psora por mim descoberta. §285 Assim, a cura de doenças muito antigas pode ser promovida quando o médico indica também fricções externas (nas costas, braços, coxas e pernas) diárias do mesmo medicamento, que se mostra eficaz para o doente quando aplicado internamente, evitando, porém, as partes doloridas ou afetadas por cãimbras ou erupções cutâneas* . * Assim se explicam as curas maravilhosas, embora raras, em que doentes com deformações crônicas e cuja pele era, não obstante, sadia e limpa, foram curados rápida e permanentemente após poucos banhos cujas partes constituintes (casualmente) eram homeopaticamente adequadas ao mal antigo. Por outro lado, os banhos minerais também causam de modo muito freqüente prejuízos maiores nos doentes cujas erupções da pele foram suprimidas; comumente, depois de um breve período de bem-estar, o principio vital permite que a doença interna, não curada, apareça em qualquer outra parte do organismo, mais importante para a saúde e a vida, de modo que, às vezes, o nervo ocular ficava paralisado, produzindo amaurose; outras vezes o cristalino se tornava opaco, a audição desaparecia, seguindo-se a loucura ou asma sufocante ou mesmo uma apoplexia vinha pôr um fim nos sofrimentos do doente iludido. Um principio fundamental para o artista da cura (mediante o qual ele se distingue de todos os chamados médicos de todas as escolas mais antigas) é que jamais ele emprega em um só de seus doentes, qualquer medicamento cujos efeitos mórbidos sobre a saúde do indivíduo sadio não tenham sido prévia e cuidadosamente experimentados e estudados por ele (§20.21). Prescrever um meio desconhecido ao doente por mera suposição de que foi um tanto eficaz em uma doença semelhante ou por ouvir dizer "que um meio foi eficaz nesta ou naquela doença", é um peso de consciência que o filantrópico homeopata deixará a cargo do alopata. Um genuíno médico que pratica nossa arte jamais enviará seus doentes a um desses inumeráveis banhos minerais, pois, em sua quase totalidade, são completamente desconhecidos quanto a seus efeitos exatos e positivos sobre o estado normal de saúde do Homem e, quando mal empregados, devem ser incluídos entre os medicamentos mais violentos e perigosos. Deste modo, de mil doentes não curados alopaticamente e enviados cegamente às termas mais famosas, por médicos ignorantes, um ou dois retornam curados por casualidade ou, como é mais freqüente, somente na aparência, proclamando em alta voz o milagre, enquanto centenas deles se esgueiram silenciosamente mais ou menos piores do que antes; aqueles que ficam o fazem para serem enviados dali para o descanso eterno, fato que testemunham tantos cemitérios cheios, circunvizinhos das mais famosas termas+. §286 A força dinâmica do magneto mineral, da eletricidade e do galvanismo não age menos poderosamente sobre nosso principio vital e não é menos homeopática do que os medicamentos propriamente ditos, os quais suprimem doenças mediante sua ingestão, fricção na pele ou inalação, havendo doenças, especialmente as que se relacionam a sensibilidade e irritabilidade, aos desvios da sensação e aos movimentos musculares involuntários, que podem ser curadas por ela. Porém, o modo seguro de emprego das duas últimas, assim como a da chamada máquina eletromagnética, ainda permanece demasiadamente obscuro, para fazer delas uso homeopático. Quando muito, empregou-se até agora a eletricidade e galvanismo somente de modo paliativo, para grande prejuízo dos doentes. Os efeitos positivos e puros de ambos no corpo humano sadio foram, até hoje, ainda pouco testados. §287 Pode-se fazer uso das forças do magneto para fins de cura com maior segurança conforme 9S efeitos positivos de uma poderosa barra magnética com os pólos norte e sul apresentados no ensino puro dos medicamentos. Embora ambos os pólos possuam a mesma força, opõem-se, contudo, mutuamente no seu modo de ação. As doses podem ser reguladas mediante o tempo mais ou menos longo da aplicação de um ou outro pólo, conforme sejam mais indicados os sintomas do pólo sul ou os do pólo norte. A aplicação de uma chapa de zinco polido serve como antídoto a uma ação muito intensa. §288 Nesse ponto, acho ainda necessário fazer menção ao chamado magnetismo animal, ou melhor, ao mesmerismo (como deveria ser chamado, graças a Mesmer, seu fundador), que difere da natureza de todos os outros medicamentos. Essa força curativa, muitas vezes intensamente negada e difamada ao longo de um século inteiro, esse maravilhoso e inestimável presente com que Deus agraciou o Homem, mediante o qual, através da poderosa vontade de uma pessoa bem intencionada sobre um doente, por contato ou, mesmo sem ele e mesmo a uma certa distância, a força vital do mesmerizador sadio, dotado com essa força, aflui dinamicamente para um outro indivíduo, agindo de diversas maneiras: enquanto substitui no doente a força vital deficiente em vários pontos de seu organismo, em outros, onde a força vital se acumulou em demasia, causando e mantendo indescritíveis padecimentos nervosos, desvia-a, suavizando-a, distribuindo-a eqüitativamente, extinguindo principalmente o distúrbio mórbido do princípio vital do doente e substituindo pela força vital normal do mesmerizador que age poderosamente sobre ele, por ex., velhas úlceras, amaurose, paralisias parciais etc. Muitas curas rápidas aparentes realizadas por magnetizadores animais de todos os tempos dotados de grande força natural pertencem a essa categoria. Mas a ação da força humana comunicada a todo o organismo se evidencia de modo mais brilhante na reanimação de algumas pessoas que permaneceram algum tempo em morte aparente, mediante a vontade muito poderosa e muito acolhedora de um indivíduo em pleno gozo de sua força vital* , um tipo de reanimação do qual a história aponta vários exemplos. Se o mesmerista de um outro sexo é capaz, ao mesmo tempo, de um benévolo entusiasmo (mesmo degenerando na beatice, fanatismo, misticismo ou sentimentalismo altruísta), então, ele estará ainda mais em condições, mediante essa conduta filantrópica e abnegada, de, não somente, dirigir a força de sua bondade predominante exclusivamente ao objeto carente de sua ajuda, mas também como que ali concentrá-la, assim operando, por vezes, aparentes milagres. * Especialmente uma dessas pessoas que são poucas entre os Homens e que, além de uma grande bondade e perfeita força física, possui o desejo sexual muito moderado ou nulo e nas quais, portanto, a grande qualidade de sutis fluidos vitais, que em todos os Homens está pronta a ser empregada na formação do esperma, está prestes a transmitir-se a outras pessoas, através do poderoso contato. Conheci alguns magnetizadores com grande poder que possuíam todas essascaracterísticas peculiares. §289 Todos os tipos mencionados de prática do mesmerismo baseiam-se num afluxo dinâmico de maior ou menor força vital no paciente, sendo conhecidos, por isso, como mesmerismo positivo* . Contudo, uma prática oposta do mesmerismo merece ser chamada de mesmerismo negativo, pois age de modo contrário. A essa categoria pertencem os passes que são empregados para despertar do sono sonambúlico, bem como todos os processos manuais que foram catalogados sob o nome de acalmar e ventilar. Essa descarga, através do mesmerismo negativo da força vital acumulada em excesso, em partes isoladas do organismo de pessoas não debilitadas, se faz de modo mais certo e mais simples, efetuando-se um movimento rápido do alto da cabeça até a ponta dos pés com a palma da mão direita estendida paralelamente a uma distância de cerca de uma polegada do corpo2* . Quanto mais rápido for esse passe, tanto mais forte será a descarga. Assim, por ex., por ocasião da morte aparente de uma senhora, até então sadia3*, ocasionada pela suspensão repentina da menstruação, em virtude de um intenso abalo psíquico, a força vital acumulada provavelmente na região precordial, através de tais passes negativos rápidos, é descarregada e retoma o equilíbrio em todo o organismo, resultando, imediatamente, o restabelecimento4*. Assim também um passe negativo suave, um pouco menos rápido em pessoas muito sensíveis, suaviza a excessiva inquietação e a insônia com ansiedade, que provêm, muitas vezes, da aplicação de um passe positivo muito forte, e assim por diante. * Apresso-me em lembrar aqui, que quando me referi à força curativa segura e enérgica do mesmerismo positivo, não me reportava a seu abuso altamente reprovável em que, mediante passes desta espécie, repetidos a cada meia hora, de hora em hora ou mesmo diariamente, produz-se, em doentes de nervos débeis, esse monstruoso transtorno de toda personalidade humana que se chama sonambulismo e clarividência (clairvoyance), no qual o Homem, subtraído do mundo dos sentidos, parece pertencer mais ao mundo dos espíritos - um estado profundamente antinatural e perigoso, por meio do qual muitas vezes se tentou, em vão, curar doenças crônicas. 2* Que a uma pessoa a ser magnetizada positiva ou negativamente não é permitido absolutamente vestir seda em qualquer parte do corpo é uma regra já conhecida; menos conhecido, entretanto, é o fato de que, se o próprio mesmerizador estiver sobre um tecido de seda, poderá transmitir sua força vital ao doente de modo mais completo do que se mantiver seus pés apenas no chão. 3* Dai, um passe negativo, especialmente muito rápido, ser sempre extremamente prejudicial a uma pessoa cronicamente débil e de pouca vitalidade (LEBENSARM). 4* Um camponês, jovem robusto de dez anos de idade, por motivo de ligeira indisposição, recebeu de manhã de uma magnetizadora vários passes muito fortes com as pontas de ambos os polegares do epigástrio até ao redor das costelas inferiores, ficando, no mesmo instante, pálido como se estivesse morto e caindo em um tal estado de inconsciência e imobilidade que nada conseguiu despertá-lo, sendo quase dado por morto. Fiz com que seu irmão mais velho lhe aplicasse um passe rápido negativo desse o topo da cabeça, sobre o corpo até os pés e imediatamente recobrou a consciência, são e salvo. §290 A essa categoria pertence também, em parte, a chamada massagem feita por uma pessoa vigorosa e benévola em um indivíduo que foi doente crônico, que, embora curado, encontra-se em lenta convalescença, sofrendo ainda de enfraquecimento, digestão débil e insônia. Ele segura separadamente os músculos dos membros do doente, peito e costas, comprimindo-os e, como que batendo moderadamente, a fim de, com esse procedimento reanimar o princípio vital, de modo que a reação deste restabeleça o tônus dos músculos e dos vasos sanguíneos e linfáticos. A influência mesmérica é, naturalmente, elemento principal nesse procedimento de que não se deve abusar em pacientes ainda portadores de um psiquismo sensível. §291 Os banhos de água pura se prestam, em parte como paliativos, em parte, como meios de auxílio homeopaticamente úteis na restauração da saúde em males agudos, bem como na convalescença de doentes crônicos recém-curados, devendo-se levar em conta a condição dos convalescentes e a temperatura dos banhos, a duração e a repetição dos mesmos. Eles proporcionam, contudo, ainda quando bem aplicados, apenas mudanças físicas benéficas no organismo doente, não constituindo, por si mesmos, verdadeiros medicamentos. Os banhos mornos de 250 até 270 R servem para despertar a irritabilidade adormecida da fibra responsável pelo entorpecimento da sensação nervosa num morto aparente (afogamento, congelamento, asfixia). Embora apenas paliativos mostram-se, muitas vezes, amplamente eficazes, principalmente quando associados à administração de café e fricções, podendo prestar ajuda homeopática em casos em que a irritabilidade nervosa está distribuída e acumulada de maneira muito desigual em alguns órgãos, como em certos casos de espasmos histéricos e convulsões infantis. Do mesmo modo, agem homeopaticamente os banhos frios de 10 a 60R na convalescença de pessoas com calor vital deficiente curadas de doenças crônicas por medicamentos, mediante imersões instantâneas, repetidas após, com mais freqüência, como restauração paliativa do tônus da fibra exaurida. Tendo isso em vista, tais banhos deverão ser mais demorados, durando até minutos, com temperatura cada vez mais baixa. São um paliativo que, por agir apenas fisicamente, não estão associados à desvantagem de uma temida reação oposta, como ocorre nos paliativos dinamicamente medicamentosos.do dia que nasce! - Como é que se costuma aliviar efetivamente os nervos olfativos afetados em locais onde abundam odores desagradáveis? Com o rapé, que afeta o sentido olfativo de maneira semelhante, porém mais intensa. Música alguma nem o melhor doce que atuem sobre os nervos de outros sentidos seria capaz de curar esse tipo de náusea pelo odor. De que maneira astuta soube o guerreiro suprimir os gemidos dos que eram açoitados aos ouvidos compadecidos dos assistentes? Com estridente e aguda flauta associada ao barulhento tambor! E o longínquo troar dos canhões inimigos, que amedrontavam seu exército? Com o ruído profundamente estremecedor do grande tambor! Em ambos os casos de nada teria adiantado conferir ao regimento peças semelhantes de montaria e tampouco censuras. Assim também o luto e a dor serão extintas do psiquismo diante de um luto mais forte ocorrido a outra pessoa mesmo que seja inverídico. Os inconvenientes da alegria exagerada são suprimidos com a euforia produzida pelo café. Os povos, como o alemão, que por séculos a fio mergulharam gradativamente cada vez mais numa apatia abúlica e numa servidão degradante, precisaram primeiramente ser pisoteados ainda com mais força na poeira pelo conquistador do ocidente até as raias do insuportável; só assim sua baixa auto estima foi derrotada e removida; sua dignidade humana se fez novamente presente e eles voltaram a erguer a cabeça como alemães, pela primeira vez. §27 A capacidade curativa dos medicamentos baseia-se, por conseguinte, nos seus sintomas semelhantes aos da doença e superiores a ela em força (§12-26), de modo que cada caso individual de doença só pode ser eliminado e removido da maneira mais certa, profunda, rápida e duradoura, através de um medicamento capaz de, por si mesmo, produzir a totalidade de seus sintomas no estado de saúde do ser humano, de modo muito semelhante e completo e de, ao mesmo tempo, superar, em forças, a doença. §28 Como tal lei natural se documenta em todas as experimentações puras e em todas as experiências genuínas do mundo, logo, a atividade existe; portanto, pouco importa tentar explicar cientificamente como isso ocorre, e eu dou pouco valor a tal fato. Contudo, essa visão se confirma como a mais provável, por basear-se apenas em premissas advindas da experiência. §29 Como toda doença (não unicamente cirúrgica) consiste somente em uma alteração mórbida dinâmica particular de nossa força vital (princípio vital) em nossas sensações e atividades, assim, na cura homeopática, este princípio vital, dinamicamente alterado pela doença natural, é atingido por uma afecção da doença artificial semelhante, um pouco mais forte, através da administração de uma potência medicamentosa escolhida exatamente segundo a semelhança dos sintomas. Com isso, extingue-se e se desvanece a sensação da afecção da doença natural (mais fraca) dinâmica, que, a partir de então, não mais existe para o princípio vital, ocupado e governado agora somente pela afecção artificial mais forte que atua, contudo, por pouco tempo, deixando o paciente livre e curado. A “Dynamis”, assim liberada pode, então, reconduzir a vida em condições de saúde. Esse processo altamente provável se baseia nas seguintes proposições: * A breve duração do efeito das forças morbíficas artificiais que chamamos medicamentos possibilita, embora sejam mais fortes do que as doenças naturais, que elas possam ser mais facilmente dominadas pela força vital do que as doenças naturais mais fracas às quais somente em virtude da longa duração de seu efeito, geralmente vitalícia (psora, sífilis, sicose) nunca podem ser extintas e vencidas pelo princípio vital sozinho, até que o artista da cura atinja a força vital por meio de uma potência morbífica muito semelhante, porém mais forte (medicamento homeopático). As doenças de longa duração, as quais (segundo §46) foram curadas pela varíola e pelo sarampo (que também possuem apenas um decurso de algumas semanas) são processos semelhantes. §30 Em seu estado de saúde o organismo humano parece ser influenciado mais eficazmente pelos medicamentos do que por estímulos mórbidos naturais (uma das causas reside no fato de que podemos regular a dose), pois as doenças naturais se curam e se vencem com medicamentos adequados. §31 De fato, as forças hostis da vida na Terra, em parte psíquicas, em parte físicas, que são chamadas agentes nocivos mórbidos, não possuem o poder absoluto de alterar a saúde humana* , pois somente adoecemos por seu intermédio quando nosso organismo está precisamente predisposto a isso e suficientemente suscetível aos ataques da causa mórbida em curso e às alterações e perturbações em seu estado de saúde, passando a ter sensações e funções anormais. Eis porque, nem sempre e nem todas as pessoas se tornam doentes em virtude de tais forças. * Quando eu chamo a doença um arranjo ou desarranjo do estado de saúde humano, estou bem longe de querer dar uma explicação hiperfísica sobre a natureza interna das doenças em geral ou de um caso particular de doença. Com esta expressão deve ser apenas entendido aquilo que as doenças não são e não podem ser: alterações mecânicas ou químicas da substância material do corpo físico dependentes de uma substância morbífica material, mas sim mero desarranjo de tipo não material, dinâmico da vida. §32 Porém, algo bem diferente ocorre com as forças morbíficas artificiais que denominamos medicamentos. Todo medicamento verdadeiro age durante todo o tempo e em todas as circunstâncias, em cada ser humano vivo, produzindo nele seus sintomas peculiares (claramente perceptíveis no caso de uma grande dose), de modo que, evidentemente, todo o organismo humano vivo deve ser afetado e como que inoculado pela doença medicamentosa em todo tempo e inteiramente (incondicionalmente) , o que, como foi afirmado, não é, absolutamente, o caso das doenças naturais. §33 De toda experiência *, portanto, depreende-se, de maneira inegável que o organismo humano vivo está muito mais predisposto e suscetível de ser influenciado e de ter seu estado de saúde perturbado por forças morbíficas do que pelos agentes patológicos comuns e miasmas contagiosos ou, em outras palavras, que os agentes nocivos têm somente uma força subordinada e limitada, quase sempre muito limitada, para influenciar morbidamente a saúde humana, enquanto que as forças dos medicamentos possuem um poder absoluto, incondicional, largamente superior àquela. * Um exemplo notório: antes do ano 1801, quando a escarlatina lisa de Sydenham dominava, vez por outra, epidemicamente, atacava sem exceção todas as crianças que dela haviam escapado em epidemia anterior; em uma epidemia semelhante que presenciei em Königslutter, contudo, todas as crianças que haviam ingerido previamente uma dose muito pequena de Belladonna, ficavam livres dessa doença infantil altamente contagiosa. Se os medicamentos podem proteger de alguma doença que se alastra, então têm que possuir um poder preponderante de desviar nossa força vital. §34 A força maior das doenças artificiais a serem produzidas pelos medicamentos não é, contudo, a única condição para a sua capacidade de curar doenças naturais. Para a cura, é necessário, sobretudo, que ela seja uma doença artificial tão semelhante quanto possível à doença a ser curada. Tal doença artificial com uma força um pouco maior, transforma o princípio vital, instintivo por natureza e incapaz de qualquer reflexão ou ato de memória, em estado mórbido muito semelhante à doença natural, afim de, não somente obscurecer nele a sensação da perturbação mórbida natural, como também extingui-la completamente, de modo a aniquilá-la. Tanto isso é verdade, que nenhuma doença já existente pode ser curada, nem mesmo pela própria natureza, pelo acréscimo de uma nova doença dessemelhante, por mais forte que seja e tampouco atravésde tratamentos com medicamentos que não sejam capazes de produzir qualquer estado mórbido semelhante em organismos sadios, como os alopáticos. §35 A fim de explicar isso, vamos considerar, em três diferentes casos, tanto o procedimento da natureza, quando duas doenças naturais diferentes coexistem no indivíduo, como também o resultado do tratamento médico comum de doenças com medicamentos alopáticos inadequados, incapazes de produzir um estado m6rbido artificial semelhante à doença a ser curada, depreendendo-se daí que nem mesmo a natureza é capaz de remover uma doença dessemelhante já existente por outra não homeopática, ainda que mais forte; tampouco o emprego não- homeopático de medicamentos, mesmo os mais fortes, é capaz de curar qualquer doença. §36 I. Quando coexistem doenças dessemelhantes no indivíduo, ambas possuem força igual ou a anterior é mais forte; neste caso, a afecção nova é repelida do corpo pela antiga. Um paciente que sofre de uma grave doença crônica não será afetado por uma disenteria outonal ou por outra doença epidêmica moderada. A peste do Levante, de acordo com Larrey, não atinge os locais onde domina o escorbuto e as pessoas que sofrem de eczema também não são afetadas por este mal. Segundo Jenner, o raquitismo impede que a vacinação contra a varíola surta efeito. Pacientes de tuberculose pulmonar não são contaminados por febres epidêmicas de caráter não muito violento, de acordo com a opinião de von Hildenbrand * Memoires et observations, na Description de l’ Egypte, Tom. 1. §37 Desse modo, um mal crônico antigo permanece incurado num tratamento médico comum quando tratado com um método habitual alopático, isto é, com medicamentos que, por si sós, são incapazes de produzir, no indivíduo sadio, um estado de saúde semelhante à doença, mesmo que o tratamento tenha durado anos* . Isso se observa diariamente na prática, sendo desnecessária qualquer confirmação através de exemplos. * Mas, se for tratado com meios alopáticos fortes formar-se-ão em seu lugar outros tipos de males que são ainda mais penosos e perigosos à vida. §38 II. Ou a nova doença dessemelhante é mais forte. A doença de que sofria o doente, sendo a mais fraca, é, então, retardada e suspensa pelo aparecimento da doença mais forte, até que a nova doença seja extinta ou curada, reaparecendo, então, a doença antiga, não curada. Duas crianças atingidas por um tipo de epilepsia, livraram- se de seus ataques após terem sido contagiadas pela tinha (tinea); porém, logo após cessada a erupção na cabeça, a epilepsia reapareceu com a mesma intensidade anterior, segundo observação de TuIpius* . A sarna, como observou Schöpf 2*, desapareceu com a ocorrência do escorbuto, mas, após a cura do mesmo, novamente se manifestou. Assim também a tuberculose pulmonar permaneceu estacionária quando o paciente foi atacado por um tipo violento de tifo, prosseguindo, porém, seu curso após o término do mesmo3* Quando em um paciente com tuberculose pulmonar ocorre mania, aquela é removida por esta, juntamente com todos os seus sintomas; cessando porém, a loucura, a tuberculose volta logo em seguida e é fatal4*. Quando o sarampo e a varíola dominam ao mesmo tempo e ambas atacam a mesma criança, as marcas do sarampo que haviam irrompido são geralmente detidas pela varíola que ocorreu um pouco mais tarde; até que a varíola esteja curada, o sarampo não retoma seu curso. Não raro, ocorre, porém, que a varíola irrompida após a inoculação fica suspensa por quatro dias pelo aparecimento do sarampo, conforme observou Manget5* após cuja descamação, a varíola completa seu curso. Mesmo quando a inoculação da varíola já surtira efeito há seis dias e o sarampo tenha, então, irrompido, a inflamação da inoculação permanece estacionária, não ocorrendo a varíola até o sarampo ter completado seu curso normal de sete dias6*. Quatro ou cinco dias após a inoculação da varíola, irrompeu uma epidemia de sarampo, que impediu o desenvolvimento da varíola até que ele tivesse completado seu curso, ao fim do qual e somente então, a varíola apareceu e seguiu seu curso normal7*. A verdadeira febre escarlate de Sydenham8*, lisa, do tipo erisipela, acompanhada de hiperemia de garganta, foi interrompida no quarto dia pela irrupção da vacina que seguiu seu curso normal, depois do que e somente então, reapareceu a febre escarlate; todavia - visto que ambas as doenças parecem ser da mesma intensidade - ocorreu, também, o fato de a vacina ser suspensa no oitavo dia, com o aparecimento da verdadeira escarlatina lisa de Sydenham, desaparecendo a aureola rubra da primeira até que passasse a escarlatina, quando a vacina+ retomou, então, seu curso até o fim9*. O sarampo deteve a vacina+ ; no oitavo dia, visto que, a vacina quase atingira seu clímax, irrompeu sarampo, permanecendo estacionaria a vacina que retomou seu curso somente após a descamação das marcas do sarampo, de modo que, no 160 dia apresentava o mesmo aspecto que no décimo, como observou Kortum10* . A vacinação surtiu efeito ainda mesmo após a erupção do sarampo, porém, só desenvolveu seu curso depois do desaparecimento do sarampo, como igualmente testemunhou Kortum11* Eu mesmo vi desaparecer a caxumba (angina parotidea, parotidite, papeira) tão logo a vacina começou a surtir efeito e a aproximar-se de seu clímax; somente depois de ter completado o processo da vacina e do desaparecimento da área rubra é que tal tumefação febril das glândulas parótidas e submaxilares, cansada por um miasma peculiar (caxumba) reaparecem e completam seu curso de sete dias. E assim acontece com todas as doenças dessemelhantes em que a mais forte detém a mais fraca (quando uma não complica a outra, o que raramente ocorre com doenças agudas). Todavia, elas nunca se curam mutuamente. * Obs. lib . 1 obs. 8. 2* No Hufeland’s Journal, XV. II. 3* Chevalier em Hufeland’s Novíssimos Anais da Medicina Francesa II. Pag. 192. 4* Mania phthisi superveniens cam cum omnibus suis phaenomenis aufert, verum max redit phthisis et occidit, abeunte mania. Reil, Memorab. Fasc. III. V. Pag. 171. 5* Em Edinb. med. Comment. Th. 1.1. 6* John Hunter, sobre as doenças venéreas. Pag. 5. 7* Rainay em Med. Comment of Edinb. III. Pag. 480. 8* Também muito corretamente descrita por Withering e Plenciz muito diferente da púrpura ( ou da “Roodvonk” ), a qual se compraz erroneamente em chamar também de febre escarlate. Essas doenças, originariamente muito diferentes, somente nos últimos anos se aproximaram mutuamente em seus sintomas. 9* Jenner nos Anais da Medicina, 1800. Agosto. Pag. 747. 10* No Hufeland’s Journal der practischen Arzneikunde. XX. III. Pag.50. 11* No lugar citado. + N.T. Refere-se à pústula vacínica. §39 Isso a escola medicamentosa oficial já havia notado há muitos séculos: a natureza, por si própria, é incapaz de curar qualquer doença acrescentando-lhe outra, ainda que muito forte, se a doença nova dessemelhante à doença já presente no organismo. O que se deve pensar desta escola que, não obstante, continuou a tratar as doenças crônicas com medicamentos alopáticos, isto é, com medicamentos e prescrições sempre capazes de produzir somente um estado mórbido, sabe Deus, dessemelhante à doença a ser curada! Embora os médicos não tenham até agora observado a natureza com atenção, eles, todavia, deveriam compreender, pelos infelizes efeitos de seu procedimento, que estavam no caminho errado, contrário. Porventura não percebiam, quando empregavam para uma doença crônica, um tratamento alopático agressivo (como de costume), que com isso criavam apenas uma doença dessemelhante que, silenciando o mal original enquanto era mantida, simplesmente o reprimia e suspendia, voltando sempre, porém, como não podia deixar de ser, tão logo as forças do paciente, diminuídas, não mais consentissem que continuassem osataques alopáticos à vida? Assim, sem dúvida, a erupção da sarna desaparece rapidamente da pele com o emprego reiterado de violentos purgativos; mas quando o paciente não pode mais suportar a doença artificial dos intestinos (dessemelhante) e já não pode ingerir purgativos, ou a erupção cutânea irrompe como antes, ou a psora interna se desenvolve com algum sintoma nocivo, tendo, então, o paciente, além de seu mal anterior não atenuado, uma digestão dolorosa e prejudicada, além da perda de suas forças. Assim, quando os médicos comuns mantém ulcerações artificiais da pele e exutórios no exterior do corpo, com o fim de exterminar uma doença crônica, não podem jamais atingir com isso o seu objetivo e nem podem curá-la jamais, visto que tais ulcerações artificiais da pele são totalmente alopáticas e estranhas à afecção interna. Porém, visto que a irritação produzida por diversos exutórios é, pelo menos algumas vezes, um mal mais forte, (dessemelhante) que a doença interior, então este é, às vezes, de início, por ela silenciado e suspenso por algumas semanas, mas depois, só por muito pouco tempo; na verdade, durante o progressivo esvaecimento das forças do doente. A epilepsia reprimida durante muitos anos, por meio de exutórios, reaparece sempre, e de forma mais grave, desde que se permita que eles se curem, de acordo com Pechlin* e outros. Purgantes para a sarna e exutórios para epilepsia não podem ser agentes perturbadores mais heterogêneos, mais dessemelhantes, nem métodos terapêuticos mais alopáticos, mais agressivos do que as receitas comuns de ingredientes desconhecidos usados hoje para as demais formas de doença, inumeráveis e anônimas. Eles também apenas enfraquecem, reprimem e suspendem o mal somente por um curto espaço de tempo, sem curá-lo, acrescentando sempre ao mal antigo um novo estado mórbido, através de seu uso prolongado. * Obs. phys. med. lib. 2. obs. 30. §40 III. Ou a nova doença, após ter agido por muito tempo no organismo, se alia Finalmente à antiga doença dessemelhante, formando, com ela, uma doença complexa, de modo que cada uma delas ocupe uma parte especial do organismo, isto é, dos órgãos especialmente apropriados e, por assim dizer, somente a região que lhe pertence, deixando o restante do organismo à doença que lhe é dessemelhante. Assim, um portador de doença venérea pode tornar-se também portador de sarna e vice-versa. Duas doenças, sendo dessemelhantes entre si, não podem destruir-se nem curar-se mutuamente. Em primeiro lugar, são silenciados e suspensos os sintomas venéreos, enquanto a erupção da sarna começa a surgir; contudo, com o correr do tempo (visto que a doença venérea é pelo menos tão intensa quanto a sarna), ambas se associam* , isto é, cada uma afeta apenas as partes do organismo que lhes são apropriadas, tornando-se o doente, em razão disso, mais doente e mais difícil de ser curado. Quando se encontram duas doenças contagiosas agudas dessemelhantes, como por exemplo varíola e sarampo, uma geralmente suspende a outra, como foi antes referido; contudo, houve também violentas epidemias em que, em raros casos, dois males agudos dessemelhantes desta espécie ocorreram simultaneamente num mesmo organismo, assim como que se complicando mutuamente, durante curto espaço de tempo. Durante uma epidemia em que a varíola e o sarampo dominaram ao mesmo tempo, entre 300 casos em que essas doenças se evitaram ou se suspenderam mutuamente e em que o sarampo somente atacou os doentes 20 dias após haver irrompido a varíola - que reapareceu, contudo, 17 ou 18 dias após o aparecimento do sarampo, de modo que a primeira já houvesse completado o seu curso normal - houve pelo menos um caso em que P. Russel2* encontrou estas duas doenças dessemelhantes na mesma pessoa. Rainey3* presenciou a coexistência do sarampo e da varíola em duas meninas. J. Maurice4* afirma ter observado, durante toda sua experiência clínica, somente dois casos deste tipo. Encontram-se casos semelhantes em Ettmüller5* e ainda alguns poucos autores. Zencker6* viu a vacina manter seu curso normal ao lado do sarampo e da púrpura. A vacina seguiu seu curso sem incidentes durante tratamento mercurial em um caso de sífilis, como observa Jenner. * Após experiências exatas e curas de doenças complexas desse tipo, estou no momento firmemente convencido de que elas não constituem nenhuma fusão, mas, sim, coexistem, em tais casos, lado a lado, cada uma situada na parte que lhe corresponde, pois sua cura é completamente atingida mediante uma oportuna alternância dos melhores meios curativos anti-sifilíticos com os medicamentos que curam a sarna, cada um dos quais na dose e no preparo mais conveniente. 2* vide Transactions of a soc. for the improvem. of med. and chir. Knowl. II. 3* Nos med. Commentarier von Edinb. III. Pag. 480. 4* Nos med. and phys. Journal 1805. 5* Opera, II. P. 1. Cap. 10. 6* No Hufeland's Journal, XVII. §41 Muito mais freqüentes do que as doenças naturais dessemelhantes que se associam, complicando-se, assim, reciprocamente, são aquelas complicações mórbidas que o procedimento médico inadequado (tipo de tratamento alopático) pode causar pelo uso prolongado de medicamentos não adequados. Á doença natural, que deve ser curada, associam-se, em virtude da repetição incessante do agente medicamentoso inadequado, novas condições mórbidas, freqüentemente muito pertinazes, correspondentes à natureza deste agente, as quais, combinando-se, pouco a pouco, ao mal crônico que lhes é dessemelhante (que elas não puderam curar pelo efeito da semelhança da ação, isto é, homeopaticamente, complicam-na, acrescentando à doença original uma doença crônica nova, dessemelhante, artificial, transformando, assim, o doente - até então portador de uma doença simples em um indivíduo duplamente doente, isto é, tornando-o muito mais doente e difícil de ser curado, às vezes completamente incurável, causando-lhe, freqüentemente, até a morte. Muitos casos clínicos publicados na seção de consultas de jornais médicos, bem como histórias clínicas relatadas em escritos médicos comprovam tal fato. Do mesmo tipo são os freqüentes casos em que o cancro venéreo, complicado principalmente com a sarna ou com a discrasia da doença condilomatosa, não é curado com o tratamento prolongado ou muitas vezes repetido de grandes doses de preparados inadequados de mercúrio* , mas toma lugar no organismo ao lado da afecção crônica do mercúrio, até então já progressivamente desenvolvida, formando com ela uma complicação monstruosa e atroz (sob o nome geral de doença venérea dissimulada) que, embora não totalmente incurável, somente com enorme dificuldade pode ser dominada. * Pois o mercúrio, além dos sintomas mórbidos que, na qualidade de semelhantes podem curar homeopaticamente a doença venérea, tem, entre seus efeitos, ainda muitos outros, diferentes dos da sífilis, por ex. inchação e ulceração óssea, etc que, no emprego de grandes doses, provocam novos males e grandes estragos no corpo, especialmente na complicação tão freqüente com a psora. §42 A própria natureza permite, como já foi dito, a presença, em alguns casos, de duas (talvez três) doenças naturais num mesmo e único organismo. Deve-se observar que esta complicação ocorre, porém, somente no caso de duas doenças dessemelhantes entre si, as quais, segundo as leis eternas da natureza, mutuamente não se removem, não se aniquilam nem podem curar-se e que, como tudo indica, tal complicação se dá de maneira que ambas (ou as três) como que se dividem no interior do organismo, ocupando cada uma, a parte e o sistema que lhes são correspondentes de maneira peculiar. Isso pode acontecer em virtude de serem dessemelhantes entre 51 esses males e pelo fato de não ficar comprometida a unidade da vida. §43 O resultado, porém, é completamente diferente quando ocorrem duas doençassemelhantes no organismo, isto é, quando, a uma doença já existente no organismo, vem juntar- se uma outra semelhante, mais forte. Aqui fica evidente como pode realizar-se a cura num processo natural e como tal cura deveria ser realizada pelo Homem. §44 Duas doenças assim semelhantes não podem (como é dito em 1 sobre doenças dessemelhantes) nem repelir-se, nem (como se demonstrou na cláusula II) interromper-se mutuamente, de modo que a doença antiga retorne após o término da nova; tampouco podem duas doenças semelhantes (como fora mostrado em III, com referência às dessemelhantes) coexistir no mesmo organismo ou formar uma doença dupla e complexa. §45 Não; duas doenças realmente diferentes segundo a espécie* mas semelhantes em suas manifestações e efeitos, bem como nos sofrimentos e sintomas que cada uma produz, aniquilam- se em qualquer tempo e lugar, assim que se deparam no organismo. É que a doença mais forte aniquila a mais fraca; na verdade, em virtude de uma causa que raio é difícil adivinhar: a potência morbífica mais forte que surge, em virtude de sua semelhança de ação, ocupa, de preferência, as mesmas partes do organismo que haviam sido afetadas pela irradiação mórbida mais fraca que, consequentemente. não podendo mais agir, extingue-se2* , ou, em outras palavras, assim que a nova potência morbífica semelhante, porém mais forte toma conta das sensações do paciente, o principio vital, em virtude de sua unidade, raio pode mais sentir a potência semelhante, mais fraca; ela está extinta, não existe mais e, portanto. ela não e jamais algo material, mas, pelo contrário, somente uma afecção dinâmica, (de tipo não-material). O principio vital é afetado, então, somente pela potência morbífica nova, porém mais forte, do medicamento, mas apenas temporariamente. * Vide acima §26, nota. 2* Da mesma forma que a imagem da chama de uma lâmpada é apagada e extinta rapidamente pela ação mais fone dos raios de sol que atingem nossos olhos. §46 Poderiam ser citados numerosos exemplos de doenças que foram curadas homeopaticamente num processo natural, por outras doenças com sintomas semelhantes, se nós não fossemos obrigados a deter-nos, para que pomos alar sobre algo determinado e indubitável, somente naquelas poucas doenças que permanecem sempre invariáveis, oriundas de um miasma específico, merecendo, portanto, um nome preciso. Entre elas se destaca a varíola, tão temida em virtude do grande número de seus graves sintomas e que removeu e curou numerosas doenças com sintomas semelhantes. Como são comuns inflamações violentas dos olhos causadas pela varíola, chegando até mesmo a causar cegueira. E vejam: pela sua inoculação, Dezoteux* curou radicalmente uma inflamação crônica dos olhos e Leroy2* uma outra. Uma cegueira de dois anos, proveniente de uma tinha já suprimida, cedeu-lhe totalmente o lugar, segundo Klein3* . Como são freqüentes a surdez e a dispnéia produzidas pela varíola! E ela removeu estas duas doenças crônicas quando atingiu seu clímax, como observou J Fr. Closs4* . O intumescimento dos testículos, também muito violento, é um sintoma freqüente da varíola e graças a isso, ela pôde curar, através da semelhança, um duro e grande edema do testículo esquerdo, resultante de um golpe, como observou Klein5* . E um edema de testículo semelhante da mesma forma foi curado, sob as vistas de um outro observador6* . Assim, entre os acidentes nocivos da varíola, figura também uma diarréia de tipo disentérico, graças à qual a varíola dominou um caso de disenteria, na qualidade de agente morbífico semelhante, segundo observação de Fr Wend7* . A varíola, advinda da vacina, como é sabido, tanto em virtude de sua maior potência, quanto de sua grande semelhança, a remove imediata e inteiramente (homeopaticamente), não permitindo que se desenvolva; em contrapartida, através da vacina que já se aproxima de seu ponto máximo e devido à sua grande semelhança, a varíola que irrompe (homeopaticamente) se torna pelo menos bem mais branda e benigna8* como testemunham Mühry9* e muitos outros. A vacina inoculada, cuja linfa, além da matéria protetora, contém também a centelha para uma erupção cutânea comum de outra natureza, que consiste em botões cônicos (simples) raramente grandes e pustulosos, geralmente pequenos, secos e localizados sobre pequenas manchas rubras; freqüentemente associados a pequenas manchas cutâneas redondas e rubras, não raro acompanhados de prurido muito intenso, cuja erupção surge realmente, em muitas crianças, também muitos dias antes e mais freqüentemente, contudo, após a área rubra da vacina, terminando em poucos dias e deixando pequenas manchas rubras e duras na pele - a vacina inoculada, após "pegar" em crianças, digo, cura de modo homeopaticamente perfeito e duradouro, pela semelhança deste miasma secundário, erupções muitas vezes bem antigas e penosas, como testemunham vários observadores10* A vacina, cujo sintoma peculiar é o intumescimento do braço11*, curou, após sua erupção, um braço semiparalisado e edemaciado12**. A febre por ocasião da vacina, que ocorre com o aparecimento da área rubra, curou (homeopaticamente) uma febre intermitente em duas pessoas, como relata Hardege Jr13*, confirmando o fato já anteriormente observado por J. Hunter14*: duas febres(doenças semelhantes) não podem coexistir num mesmo organismo. O sarampo se assemelha muito à coqueluche, no que se refere à febre e à natureza da tosse e, por essa razão, Bosquillon15* notou, em uma epidemia em que ambas dominavam, que diversas crianças que já haviam tido o sarampo, Ficaram livres da coqueluche. Todas elas teriam ficado livres e protegidas contra a coqueluche, também no futuro, através do sarampo, se a coqueluche não fosse somente em parte uma doença semelhante ao sarampo, isto é, se também apresentasse uma erupção cutânea, como ele. Sendo assim, o sarampo pôde livrar muitos da coqueluche, mas não a todos e somente na epidemia em curso. Contudo, se por ocasião da erupção do sarampo, este deparar-se com uma doença semelhante a ele em seu principal sintoma, a própria erupção, pode, sem dúvida alguma, removê- la e curá-la homeopaticamente. Desse modo, uma erupção crônica foi logo total e duradouramente curada16* pela erupção do sarampo, como observou Kortum17* Uma erupção miliar na face, pescoço e braços, com ardência excessiva, e já durando seis anos, agravando-se a cada mudança de tempo, transformou-se, com a ocorrência do sarampo, em uma superfície cutânea edemaciada; após a passagem do sarampo, a erupção foi curada e não mais voltou18*. * Traité de l 'inoculation, pag. 189. 2* Heilkunde für Mütter, pag. 384. 3* Interpres clinicus, pag. 293. 4* Neue Heilart der Kinderpocken, Ulm 1769. Pag.68 e Specim. Obs. No.18. 5* Idem. 6* Nov. Act. Nat. Cur. Vol. I. Obs. 22. 7* Informação do Instituto de Doenças de Erlangen, 1783. 8* Esse parece ser o fundamento desse acontecimento benéfico e notável: desde a distribuição geral da vacina de Jenner, a varíola humana nunca mais apareceu entre nós de forma tão epidêmica quanto 40 - 50 anos antes, quando uma cidade atingida perdeu pelo menos a metade e muitas vezes três quartos de suas crianças através da mais miserável das mortes causadas por uma peste. 9* Em Robert Willan, sobre a inoculação da vacina. 10* Especialmente Clavie,; Hurel e Desormeaux, no Boletim das Soc. Médicas, publicado pelos membros do comitê central da Soc. de Medicina do departamento de 1 'Eure, 1808. Também no "Journal de Médecine continué", vol. XV Pag. 206. 11* Balhorn, em Huftiand's Journal. X. II. 12* Stevenson em Duncans Annals of Medicine, Lustr. II. Vol. 1. secção 2. No. 9. 13* Em Hufeiand's Journ. der pr. Arzneik. XXIII. 14* Sobre a doença venérea. Pag. 4. 15* Elements de médec. prat de M. Cullen, traduzido P.II. I.3. Ch.7. 16* Ou, pelo menos,removido esse sintoma. 17* No Huftland's Journal XX. III. Pag. 50. 18* Rau, sobre d. Werth des homöop. Heilverfabrens, Heidelb. 1824. Pag. 85. §47 Nenhuma lição além desta poderia ensinar ao médico. de forma mais clara e convincente, que tipo de agente morbífico artificial (medicamento) ele deveria escolher para curar de modo seguro, rápido e duradouro, segundo o processo da natureza. §48 Nem pelo processo natural, como vimos em todos estes exemplos, nem pela arte do médico pode ser removido ou curado um padecimento ou afecção por um agente morbífico dessemelhante, por mais forte que seja, mas sim somente por um agente que seja semelhante em seus sintomas e um tanto mais forte, segundo as eternas e irrevogáveis leis da natureza, até hoje incompreendidas. §49 Poderíamos encontrar maior número de curas deste tipo, legítimas, naturais e homeopáticas, se, por um lado, os observadores tivessem lhes dirigido maior atenção e, por outro lado, se a natureza não fosse tão deficitária em doenças homeopáticas auxiliares §50 A própria natureza, poderosa, possui como instrumentos homeopáticos de cura, como vemos, quase unicamente um pequeno número de doenças miasmáticas específicas, na qualidade de auxiliares: a sarna, o sarampo e a varíola* , agentes morbíficos que2*, como meios de cura, são, ou mais temíveis e mais perigosos para a vida do que as doenças a serem curadas, ou (como a sarna) necessitam, eles próprios, ser curados após efetuada a cura da doença semelhante, para que sejam, por sua vez, eliminados. Estas duas circunstâncias tornam difícil, incerto e perigoso seu emprego como meios homeopáticos. E como são raros os estados mórbidos que encontram seu meio de cura semelhante (homeopático) na varíola, sarampo e sarna! Logo, no processo natural, somente muito poucas doenças podem ser curadas por estes meios homeopáticos de cura duvidosos e incertos e somente depois de muito sofrimento e perigo é que o resultado se faz sentir, em virtude de não se poder diminuir suas doses de acordo com as circunstâncias, como se pode fazer com os medicamentos. Por outro lado, num outro caso, o doente afetado por uma doença antiga e semelhante, estará sujeito a todo padecimento incômodo e doloroso da varíola, do sarampo e da sarna, a fim de curar-se. Apesar disto, como se constata, podemos apontar notáveis curas homeopáticas realizadas por esse feliz encontro, como provas eloqüentes da grande e única lei terapêutica natural que as rege: Cure pela semelhança dos sintomas. * E a centelha eruptiva acima mencionada que, alias, é encontrada na unia da vacina. 2* Isto é, varíola e sarampo. §51 Esta lei terapêutica se torna conhecida à mente humana lúcida, através de tais fatos que se prestaram muito bem a isso. Em compensação, vejam que vantagens possui o Homem sobre a crua Natureza, em seus acontecimentos fortuitos! De quantos milhares de agentes morbíficos homeopáticos não dispõe ele, para alívio de seus irmãos sofredores, nas substâncias medicamentosas espalhadas por toda a criação! Nelas, ele tem produtoras de doenças de todas as variedades de ação possíveis, para todas as inumeráveis doenças naturais concebíveis e inconcebíveis, às quais tais substâncias podem prestar ajuda homeopática - agentes morbíficos (substâncias naturais) cuja força desaparece espontaneamente, cessado seu emprego terapêutico, dominada pelo princípio vital, sem necessidade de outros meios para sua expulsão, como por exemplo, a sarna - agentes morbíficos artificiais que o médico pode atenuar, subdividir e potencializar até as fronteiras do infinito e cuja dose ele pode diminuir tanto que se tornam apenas ligeiramente mais fortes do que a doença natural semelhante que com eles é tratada, de modo que nesse incomparável método de cura, não há necessidade de qualquer ataque ao organismo, mesmo quando se trata da erradicação de uma antiga doença pertinaz, realizando-se a cura como que por uma suave e imperceptível - muitas vezes, porém, rápida - transição do padecimento natural e aflitivo ao estado de saúde desejado e duradouro. §52 Há apenas dois métodos principais de cura: um baseado na criteriosa observação da natureza, na experimentação cuidadosa e na experiência pura, o homeopático (nunca, antes de mim, empregado intencionalmente) e um segundo, que não age assim, o (heteropático, ou) alopático. Cada um se opõe precisamente ao outro e somente aquele que não conhece a ambos pode ter a ilusão de que eles possam aproximar-se um do outro ou se unirem, podendo tornar-se tão ridículo a ponto de proceder ora homeopaticamente ora alopaticamente em seus tratamentos, seguindo a vontade do paciente; trata-se de uma criminosa traição à divina homeopatia! §53 As curas verdadeiras, suaves, realizam-se somente pelo caminho homeopático, um caminho que, como descobrimos (§7-25) anteriormente pela experiência e dedução, é também, inquestionavelmente, o método apropriado, por meio do qual a arte de curar obtém curas mais rápidas, certas e duradouras, pois esse tipo de cura repousa sobre uma lei eterna e infalível da natureza. O método homeopático puro de curar é o único caminho terapêutico correto, o único possível através da arte humana, tão certo como entre dois pontos só é possível existir uma única linha reta. §54 O método terapêutico alopático, que utilizou muitas coisas contra as doenças, embora, sempre as inadequadas (alloia), foi o método dominante desde tempos remotos, sob formas muito diversas chamadas sistemas. Cada um deles, sucedendo-se uns aos outros e diferindo grandemente entre si, honrava-se com o título de ciência racional da cura* . Cada fundador destes sistemas tinha a presunção de ser capaz de penetrar na essência íntima da vida, tanto do Homem sadio, quanto do doente e de compreendê-la; conseqüentemente, decretava qual era a matéria nociva2* e como esta deveria ser eliminada do organismo doente a fim de torná-lo sadio; - tudo de acordo com vagas suposições e hipóteses arbitrárias sem consultar lealmente a natureza e nem ouvir imparcialmente a voz da experiência. Fez-se com que as doenças assumissem o caráter de condições que reapareciam sempre de um modo quase idêntico. A maior parte dos sistemas, portanto, deu nomes a seus quadros imaginados de doenças, classificando-os diferentemente, em cada sistema. De acordo com suposições, atribuíam-se aos medicamentos efeitos (vejam os inúmeros livros sobre a Matéria Médica!) que deveriam suprimir este estado anormal, isto é, deveriam curar3* * Como se uma ciência que deve ser baseada apenas na observação da natureza e exclusivamente na experimentação pura, pudesse ser encontrada através de vás especulações e raciocínios escolásticos 2* Até muito recentemente se procurava aquilo que nas doenças deveria ser curado em uma matéria a ser eliminada, visto que não se podia conceber uma ação dinâmica (obs. § 11) das potências morbíficas, como a dos medicamentos sobre a vida do organismo animal. 3* E para que a medida do alto fanatismo ficasse repleta, vários, mesmo inúmeros diferentes medicamentos eram sempre misturados (muito sabiamente) nas assim chamadas receitas, sendo também administrados freqüentemente e em grandes doses, ficando, assim, muitas vezes em perigo, a preciosa e frágil vida humana, nas mãos desses equivocados, sobretudo porque também se empregavam como meio de auxílio sangrias, vomitórios e purgantes, assim como emplastros, exutórios, sedenhos, efeitos cáusticos e cauterizações. §55 Logo após a introdução destes sistemas e destes métodos de tratamento o público se convenceu de que os sofrimentos dos doentes aumentavam e se intensificavam quando tais métodos eram exatamente seguidos. Há muito tempo esses médicos alopatas teriam sido abandonados se o alívio paliativo que eles sabiam proporcionar, às vezes, ao doente com meios empiricamente descobertos (cuja