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Revisão técnica:
Gustavo da Silva Santanna
Bacharel em Direito
Especialista em Direito Ambiental Nacional 
e Internacional e em Direito Público
Mestre em Direito
Professor em cursos de graduação e pós-graduação em Direito
Catalogação na publicação: Karin Lorien Menoncin CRB -10/2147
D597 Direito constitucional I [recurso eletrônico] / Miriany Cristini 
Stadler Ilanes... et al.; [revisão técnica: Gustavo da Silva
Santanna]. – Porto Alegre: SAGAH, 2018.
ISBN 978-85-9502-445-8
1. Direito constitucional. I. Ilanes, Miriany Cristini 
Stadler. 
CDU 342
BOOK_Direito_Constitucional_I.indb 2 11/06/2018 15:36:44
Constitucionalismo
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Explicar a evolução histórica do constitucionalismo: da Antiguidade 
à época contemporânea.
  Reconhecer a existência do pós-constitucionalismo e neoconsti-
tucionalismo.
  Apresentar a dinâmica político-constitucional na experiência brasileira.
Introdução
Constitucionalismo é como designamos o movimento social, político, 
jurídico e até mesmo ideológico a partir do qual surgem as constituições 
nacionais. Em termos genéricos e supranacionais, constitui-se de normas 
fundamentais de um ordenamento jurídico de um Estado, situadas no 
topo da pirâmide normativa, ou seja, a sua Constituição.
Neste capítulo, você verá como surgiu o constitucionalismo e como 
se deu a sua evolução ao longo da história, tanto no cenário mundial 
quanto no brasileiro.
Evolução histórica do constitucionalismo: 
do antigo ao contemporâneo
“O constitucionalismo antigo é o conjunto de princípios escritos ou consuetu-
dinários alicerçadores da existência de direitos estamentais perante o monarca 
e simultaneamente limitadores do seu poder” (CANOTILHO, 1998, p. 48).
Como exemplo de constitucionalismo antigo, podemos citar os constitu-
cionalismos hebreu e grego, os quais unicamente almejavam descentralizar 
a vida política, vez que não existiam leis escritas que regulamentassem a 
ordem civil nem as penalidades aplicáveis para quem as descumprisse. Esse 
constitucionalismo apenas objetivava:
[...] limitar alguns órgãos do poder estatal como reconhecimento de certos 
direitos fundamentais, cuja garantia se cingia no esperado respeito espon-
tâneo do governante, uma vez que inexistia sanção contra o príncipe que 
desrespeitasse os direitos de seus súditos (CUNHA JÚNIOR, 2006, p. 24).
Os primórdios do movimento do constitucionalismo surgiram entre os 
hebreus, por meio da lei do Senhor, em um Estado Teocrático, governado 
pela casta sacerdotal, logo existia um limite no poder político (TAVARES, 
2004). Posteriormente, ocorreu o movimento do constitucionalismo nas 
cidades gregas, onde os cidadãos eram eleitos para cargos públicos por meio 
de um regime de votação peculiar na época. Por mais primitiva que fosse essa 
votação, existia uma participação do povo na vida política, consolidando, 
assim, uma real democracia (TAVARES, 2004).
A Idade Média, por sua vez, foi marcada pela época do despotismo, ou seja, 
pela soberania dos governantes tratados como deuses. Uma verdadeira forma 
absolutista de governar, vez que não existiam limitações às suas condutas. 
Aplicavam penalidades e impunham condutas desumanas não previstas em 
leis, pois não havia um poder maior do que o do próprio governante. Assim, 
este estava imune de qualquer sanção (TAVARES, 2004).
Todavia, foi durante a Idade Média, mais precisamente na Inglaterra, que 
culminou o anseio por uma luta de liberdades e garantias fundamentais ao 
indivíduo, objetivando romper com o padrão absolutista e centralizador até 
então vigente (TAVARES, 2004). Contudo, ainda na Idade Média, o cons-
titucionalismo reapareceu como o movimento de conquista de liberdades 
individuais, como bem demonstra a aparição de uma Magna Carta. Não se 
limitou a impor balizas para a atuação soberana, mas também representou o 
resgate de certos valores, como garantir direitos individuais em contraposição 
à opressão estatal (TAVARES, 2004).
O maior legado deixado pela Idade Média, em relação ao constitucionalismo, foi o 
fato de que todo poder político deve ser limitado em lei para ser justo e democrático, 
respeitando as garantias e os direitos individuais.
O constitucionalismo moderno eclodiu em meados do século XVII com carac-
terísticas próprias e com a ideologia de limitação do poder estatal, preservando os 
Constitucionalismo2
direitos e as garantias fundamentais, bem como transcrevendo os anseios populares 
com a lei do povo: a Constituição escrita (CUNHA JÚNIOR, 2006). Nesse mo-
vimento, a noção de Constituição envolvia uma força capaz de limitar e vincular 
todos os órgãos do poder político. Por isso, era concebida como um documento 
escrito e rígido, manifestando-se como uma norma suprema e fundamental, porque 
hierarquicamente superior a todas as outras, das quais constituía o fundamento 
de validade, que só poderia ser alterado por procedimentos especiais e solenes 
previstos no seu próprio texto. Consequentemente, institui-se um sistema de res-
ponsabilização jurídico-política do poder que a desrespeitar, inclusive por meio de 
controle de constitucionalidade dos atos do Parlamento (CUNHA JÚNIOR, 2006).
O constitucionalismo moderno rompeu com as barreiras de garantias 
fundamentais limitadas pelos Estados absolutistas, destruindo o paradigma 
de soberania e supremacia das forças estatais. Trouxe o ideal de justiça, de 
direito igualitário e, acima de tudo, de organização na seara da política go-
vernamental, limitando o poder de atuação do Estado e descentralizando os 
Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, pautando em um documento de 
lei: a Constituição. Portanto, a Constituição deixou de ser concebida como 
simples manifesto político para ser compreendida como uma norma jurídica 
fundamental e suprema, elaborada para exercer dupla função: garantia do 
existente e programa ou linha de direção para o futuro (CANOTILHO, 1998).
A primeira Constituição escrita, formalmente elaborada com as leis que regulamenta-
vam as condutas e determinavam a estrutura de poder, foi a Constituição da França, 
editada em 1791, a qual tinha como preâmbulo a Declaração Universal dos Direitos 
Humanos promulgada em 1789 (TAVARES, 2004).
Com o fim da Primeira Guerra, os Estados perceberam a necessidade 
de intervir na sociedade de forma a promover o bem-estar social, a paz e 
a recondução à vida pública dos cidadãos, por meio de serviços públicos, 
saúde, alimentação, tratamentos médicos e educação, com fulcro sempre na 
promoção do desenvolvimento econômico-social, haja vista a barbárie social 
que eclodia no mundo (TAVARES, 2004).
A Constituição brasileira de 1988 elenca, nos seus arts. 170 e 193, ideais de 
um constitucionalismo moderno, em uma política democrática socioliberal, o 
conhecido Estado Democrático de Direito (TAVARES, 2004).
3Constitucionalismo
Por fim, insta salientar que a elaboração do Texto Constitucional teve 
formação e influência nos movimentos contratualistas que justificavam a 
agremiação do homem em sociedade com base em um pacto, o famoso contrato 
social de Rousseau (TAVARES, 2004).
Atualmente, o constitucionalismo não se deu por pronto e acabado. Está em 
constante desenvolvimento, sempre observando as necessidades dos cidadãos 
e o desenvolvimento socioeconômico.
O constitucionalismo deverá ser influenciado até se identificar com a ver-
dade, a solidariedade, o consenso, a continuidade, a participação, a integração 
e a universalização (TAVARES, 2004).
Para André Tavares (2004), o constitucionalismo da verdade existe em 
duas categorias de normas:
  uma parcela constituída de normas que jamais passam de programáticas 
e são praticamente inalcançáveis pela maioria dos Estados;
  uma outra sorte de normas que não são implementadas por simples falta 
de motivação política dos administradores e governantes responsáveis.
As primeiras precisam ser erradicadas dos corpos constitucionais, podendo 
figurar, no máximo,apenas como objetivos a serem alcançados a longo prazo, 
não como declarações de realidades utópicas, como se bastasse a mera decla-
ração jurídica para transformar-se o férreo em ouro. As segundas precisam ser 
cobradas do Poder Público com mais força, o que envolve, em muitos casos, 
a participação da sociedade na gestão das verbas públicas e a atuação de or-
ganismos de controle e cobrança, como o Ministério Público, na preservação 
da ordem jurídica e na consecução do interesse público vertido nas cláusulas 
constitucionais (TAVARES, 2004).
O autor quis evidenciar que, em uma norma jurídica posta, não podem 
existir normas mortas, sem eficácia concreta na sociedade. Se a lei é posta, 
ela deve ser cumprida; se existem leis programáticas, elas devem atender às 
necessidades dos indivíduos e não permanecer estáticas e cristalizadas como 
meras declarações utópicas (TAVARES, 2004).
Em relação àquelas não implementadas pelo Poder Público, deve haver 
uma participação popular cobrando a presteza dos serviços públicos, pois se 
trata de um direito coletivo, o qual não é respeitado pelo gestor responsável. 
Assim, somente a força popular é capaz de mobilizar o aparelho estatal e 
fiscalizá-lo, para que tenha consentimento de suas obrigações, a fim de que 
cumpra com deveres preestabelecidos em lei e ofereça uma continuidade na 
prestação de serviços públicos e sociais.
Constitucionalismo4
Em contrapartida, quanto ao constitucionalismo da continuidade, o autor 
assevera que é muito perigoso em nosso tempo conceber Constituições que 
produzam uma ruptura da lógica dos antecedentes, uma descontinuidade com 
todo o sistema precedente (TAVARES, 2004).
No tocante à globalização, é notório que a União Europeia visa consolidar 
uma Constituição única para os países que integram o bloco econômico. 
Com a ocorrência de tal fato, poderíamos falar em um constitucionalismo 
globalizado com uma miscigenação de povos, culturas, costumes, princípios, 
regras e condutas que acabariam por eclodir na formação de uma única 
nação, com uma única Constituição, a qual propagaria a unificação dos 
ideais humanos consagrados juridicamente (TAVARES, 2004).
Existência do pós-constitucionalismo 
e neoconstitucionalismo
O pós-constitucionalismo (novo Direito Constitucional — ou neoconstitu-
cionalismo) identifi ca, nas palavras de Barroso (2005, documento on-line):
[...] um conjunto amplo de transformações ocorridas no Estado e no direito 
constitucional, em meio às quais podem ser assinalados, (i) como marco his-
tórico, a formação do Estado constitucional de direito, cuja consolidação se 
deu ao longo das décadas finais do século XX; (ii) como marco filosófico, o 
pós-positivismo, com a centralidade dos direitos fundamentais e a reaproxima-
ção entre Direito e ética; e (iii) como marco teórico, o conjunto de mudanças 
que incluem a força normativa da Constituição, a expansão da jurisdição 
constitucional e o desenvolvimento de uma nova dogmática da interpretação 
constitucional. Desse conjunto de fenômenos resultou um processo extenso 
e profundo de constitucionalização do Direito. 
A forma e o modus operandi do ordenamento jurídico brasileiro vem 
sofrendo reiteradas mudanças. Essa quebra de paradigmas na teoria jurídica 
e na prática dos tribunais, desenvolvidos sob a égide da Constituição da Re-
pública de 1988, pode ser chamada de neoconstitucionalismo (BARROSO, 
2005, documento on-line). O termo empregado para essa nova ordem, forma 
e modelo é derivado da doutrina espanhola e italiana, mas a difusão do termo 
no Brasil se deve principalmente à coletânea do doutrinador mexicano Miguel 
Carbonell, que a intitulou de neoconstitucionalismo. 
O marco histórico do neoconstitucionalismo foi estabelecido na Europa pós-
-guerra, marco que alterou a realidade mundial em diversos fatores e principalmente 
5Constitucionalismo
a mentalidade da sociedade da época, com um motivo simples: o receio de passar 
pela mesma experiência árdua novamente. Dessa forma, a Europa Ocidental se 
encontrava devastada e com a esperança de encontrar um modelo novo em que 
se sustentar, com base em aspectos suprimidos pelo contexto político e social da 
época, surgindo assim uma ênfase maior nos direitos fundamentais da pessoa.
A Constituição servia como base, mas não tinha força normativa, pois era 
um instrumento para o Legislativo se inspirar. Assim, só a partir da lei em 
si que poderia ocorrer qualquer proteção, punição ou caráter axiológico no 
ordenamento jurídico. A influência da Constituição só ocorreu com o fim da 
Segunda Guerra, primeiramente na Alemanha e, logo após, na Itália.
A principal referência no desenvolvimento do novo Direito Constitucional 
foi a Lei Fundamental de Bonn (Constituição alemã), de 1949, e, especialmente, 
a criação do Tribunal Constitucional Federal, instalado em 1951. A partir disso, 
teve início uma fecunda produção teórica e jurisprudencial, responsável pela 
ascensão científica do Direito Constitucional no âmbito dos países de tradição 
romano-germânica. A segunda referência de destaque foi a Constituição da 
Itália de 1947 e a subsequente instalação da Corte Constitucional, em 1956. 
Ao longo da década de 1970, a redemocratização e a reconstitucionalização 
de Portugal (1976) e da Espanha (1978) agregaram valor e volume ao debate 
sobre o novo Direito Constitucional (BARROSO, 2005, documento on-line). 
Esse novo contexto histórico que batia à porta da Europa Ocidental propiciava 
uma teoria jurídica diferente do modelo anterior, com base, como dito anterior-
mente, em uma Constituição normativa e de valor, sendo amplamente estruturada 
em proteção de direitos fundamentais e baseada principalmente na dignidade da 
pessoa como sustento da Carta normativa. O papel exercido pela Constituição 
teve um alcance maior e a finalidade de proteção a direitos extintos da sociedade 
no período que acabara, dessa forma, o que atribuiu valor e caráter axiológico à 
Constituição terminava por ser uma tentativa de modelo em que se privilegiava 
um respeito aos direitos mencionados (BARROSO, 2005, documento on-line).
Dessa forma, o papel da Constituição referente às instituições contemporâ-
neas foi alterado, passando, assim, ao centro do ordenamento jurídico, com um 
peso de referência e também um caráter normativo atribuído, expressamente 
demonstrado no Texto Constitucional dessas cartas e facilmente percebido. 
Assim, com a introdução desse novo modelo na Europa, a segunda metade 
do século XX foi pautada no crescimento e na expansão desse novo formato 
constitucional. No Brasil, em 1988, com a promulgação da Constituição da 
República, ocorre sua recepção no País (BARROSO, 2005, documento on-line).
A recepção no ordenamento jurídico brasileiro surgiu em um momento 
similar ao do contexto europeu. O Brasil acabava de passar por um regime 
Constitucionalismo6
totalitário, da mesma forma que a Europa. Assim, o fim da ditadura brasileira 
ficou caracterizado como o marco histórico da redemocratização e da recepção 
do neoconstitucionalismo (BARROSO, 2005, documento on-line).
A promulgação da Carta de 1988 trouxe esse novo modelo, com uma 
nova concepção de direitos e valores, tendo como proteção basilar os direitos 
fundamentais e a dignidade da pessoa, fruto de um momento de procura por 
suprir a falta de participação democrática no período da ditadura e todos os 
desrespeitos cometidos. A dignidade da pessoa passa a exercer um papel 
diferenciado, amplo e com um peso maior no sentido de relevância e base 
para os direitos fundamentais.
Diversos preceitos constitucionais inalienáveis se originam no princípio da 
dignidade da pessoa, como se observa na Lei Maior pátria de 1988 (BRASIL, 1988):
  a cidadania, os valores sociais do trabalho e da livre-iniciativa (art. 1º, 
II, III e IV); 
  os objetivos fundamentais da República de construir uma sociedade 
livre, justa e solidária e promover o bem de todos, sem preconceitos 
de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discri-
minação(art. 3º, I e IV); 
  a prevalência dos direitos humanos (art. 4º, II).
Todos esses preceptivos revelam a preocupação do legislador constituinte 
com a dimensão em que a dignidade da pessoa se mostra superior em si e 
como razão de uma série de outras garantias e princípios de raiz constitucional.
É devido à elevação e extensão da importância do homem no mundo 
que decorrem direitos fundamentais como os citados a seguir, entre outras 
prerrogativas essenciais à própria existência do ser humano, as quais podem 
ser encontradas na Constituição Federal brasileira: 
  a liberdade;
  o direito de integridade física e moral, sendo possível o dever de inde-
nização dos danos morais e materiais causados; 
  o necessário respeito, mesmo pelo Estado, da vida privada e da inti-
midade das pessoas; 
  o livre-arbítrio, tendo assim a liberdade para o exercício de profissões, 
reunião e credo religioso;
  a ajuda para casos de necessidades básicas como a alimentação; 
  o trabalho como fonte de sobrevivência legítima e honesta, demons-
trando assim o valor social do trabalho; 
7Constitucionalismo
  a saúde;
  a educação; 
  o lazer; 
  o repouso corporal e mental; 
  a não submissão a tratamento desumano; 
  a justiça; 
  a pluralidade de ideias e orientações políticas;
  a vedação ao preconceito e à discriminação racial.
Houve, a partir do texto promulgado, uma centralização da Constituição 
no ordenamento jurídico brasileiro. Sob a Constituição de 1988, o Direito 
Constitucional no Brasil passou da desimportância ao apogeu em menos de 
uma geração.
Uma Constituição não é só técnica. Tem de haver, por trás, a capacidade de simbolizar 
conquistas e de mobilizar o imaginário das pessoas para novos avanços. O surgimento 
de um sentimento constitucional no País é algo que merece ser celebrado. Trata-se 
de um sentimento ainda tímido, mas real e sincero, de maior respeito pela Lei Maior, 
a despeito da volubilidade do seu texto. É um grande progresso. Superamos a crônica 
indiferença que, historicamente, mantínhamos em relação à Constituição. E, para os 
que sabem, é a indiferença, não o ódio, o contrário do amor (BARROSO, 2005).
Como a realidade se alterou, a Constituição passou a disciplinar uma 
diversidade de temas antes não abordados. A lei antes valia muito mais, pois 
o peso das leis e decretos era mais significativo: antes, o Código Civil; hoje, 
a Constituição. Essa substituição de importância foi estabelecida exatamente 
nesse momento, quando a Carta de 1988 traz um elenco de temas antes não 
abordados: direitos individuais, políticos, sociais e difusos, além de trazer 
uma série de princípios dotados de carga axiológica, o que termina por dar 
ensejo ao processo de constitucionalização do Direito.
Nessa nova ordem constitucional, o papel do Poder Judiciário foi fortalecido 
e, em conjunto com o Ministério Público, ganhou uma maior autonomia, que, 
com o passar do tempo, resultou na questão do controverso ativismo judicial. 
Com essa Constituição dotada de diversos princípios abrangentes de diferentes 
aspectos, ocorreu a chamada filtragem constitucional, em que as matérias 
Constitucionalismo8
dos inúmeros ramos do Direito passariam pelo crivo constitucional, adiante 
analisado. Essa questão só se tornou possível pela importância que o Direito 
Constitucional passou a conter.
A participação da doutrina brasileira foi de fundamental importância para 
difundir esse novo modelo. A recepção do neoconstitucionalismo no Brasil 
foi pautada por esse momento histórico e baseada nele, sendo importante 
demonstrar essa questão no aspecto filosófico chamado pós-positivismo.
Dinâmica político-constitucional 
na experiência brasileira
O Brasil já editou oito Constituições e, sem sombra de dúvidas, os movimentos 
constitucionalistas serviram de grande infl uência para cada Carta elaborada. 
Boa parte delas expressou, ao menos textualmente, as tendências globais da sua 
época. A questão brasileira foi a pouca efetividade das regras e o desrespeito 
às condicionantes do poder (TAVARES, 2004).
O avanço do constitucionalismo, como movimento político e jurídico, sobre 
o continente americano teve importância primordial na independência das
colônias em relação às suas metrópoles europeias. Nesse cenário de libertação,
a Constituição era o instrumento mais precioso para selar a independência,
rompendo com as amarras do regime de submissão à metrópole e instalando
uma nova organização, de acordo com o poder de autodeterminação de cada
Estado emergente naquele momento (TAVARES, 2004).
Essa extensão fulminante do movimento a todo o mundo civilizado não significa, 
porém, que em toda parte o governo moderado, constitucional, tenha deixado 
raízes. Em muitos casos, o êxito do constitucionalismo não foi além das aparências, 
fornecendo roupagem brilhante para vestir uma realidade adversa.
Diferentemente dos demais processos revolucionários americanos, o Brasil 
não imprimiu, no seu território, guerras sangrentas para se sagrar independente 
de Portugal. Contudo, a contradição destacada anteriormente também esteve 
presente no constitucionalismo brasileiro do século XIX (TAVARES, 2004).
9Constitucionalismo
A experiência constitucional brasileira teve início em 1824, ainda sob a 
forma de governo imperial, com a outorga da primeira Constituição do Brasil 
em 25 de março daquele ano. Descontente com os rumos da constituinte, o 
imperador D. Pedro I a dissolve e propõe a elaboração de um novo projeto da 
Constituição, que incorporou a cláusula de separação de poderes, estabelecendo 
a clássica divisão de funções estatais: Poder Legislativo, Poder Executivo e 
Poder Judiciário. Além desses, o Brasil instituiu a figura de um quarto poder, 
chamado de Poder Moderador, que permitia amplos direitos ao monarca e 
nenhum tipo de responsabilização deste. A proteção da Carta de 1824 foi dada 
ao Poder Legislativo. Para o Poder Judiciário, houve a criação de um órgão 
de cúpula, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ), mas sem qualquer controle 
sobre a constitucionalidade das leis (TAVARES, 2004).
Como podemos perceber, o início do constitucionalismo no Brasil foi 
tímido durante a Constituição de 1824, pois havia uma nítida incoerência entre 
a realidade social brasileira e o que se apregoava nos movimentos constitu-
cionalistas (TAVARES, 2004).
A inovação trazida pela nova Constituição ao Poder Judiciário foi a criação 
de um novo órgão de cúpula, o Supremo Tribunal Federal (precedido pelo já 
citado STJ), com sua estrutura também federativa e dual, com uma Justiça 
Federal e outra Estadual (SOUZA NETO; SARMENTO, 2014).
No âmbito social, a Constituição de 1934 trouxe grande inovação ao prever 
não só as garantias dos direitos individuais e sociais, como também as ações 
estatais em defesa dessas garantias. O absenteísmo estatal não era mais bem 
visto, e o Estado, por meio dos poderes públicos, deveria atuar para a defesa 
de direitos dos seus governados. Essa Carta, porém, gozou de passagem 
efêmera, pois não suportou as pressões internas proporcionadas pela disputa 
entre capitalismo e socialismo.
Já em 1937, o governo, sob o comando de Getúlio Vargas, outorgou uma 
nova Constituição brasileira, instaurando, no Brasil, a ditadura varguista. A 
legitimidade para a instauração desse novo regime foi trazida pela justificativa 
de uma possível invasão comunista.
O País permaneceu na escuridão da ditadura até o ano de 1946, quando 
então foi promulgada a terceira Constituição brasileira, com conteúdo predo-
minantemente constitucionalista, tendo em vista que o mundo acabava de pôr 
fim à Segunda Guerra. Houve o retorno da figura do vice-presidente, ausente 
desde a Carta de 1934, e a Justiça do Trabalho foi integrada ao Poder Judiciário; 
houve também a recomposição da Justiça Eleitoral; além da instituição de um 
Tribunal Federal. O Supremo Tribunal Federal continuou o órgão de cúpula 
e aos magistrados foram dadas as seguintes garantias:
Constitucionalismo10
  vitaliciedade; 
  inamovibilidade; irredutibilidade de subsídios.
As decisões sobre a inconstitucionalidade das leis proferidas pelos tribunais 
não mais poderiam ser submetidas ao Parlamento. Outro importante marco 
foi a consagração do direito à inafastabilidade da tutela jurisdicional.
O ano de 1964 marca a história brasileira, pois foi dado o maior golpe 
ditatorial sofrido pelo País, com os militares tomando o poder.
Em 1967, foi derrogada a Constituição de 1946. Durante quase 20 anos, o 
País viveu em quase plena democracia e estabilidade governamental.
Mesmo com a promulgação da Constituição, o governo ainda lançava 
mão de vários atos institucionais que, do dia para noite, modificavam o rol 
de garantias e liberdades individuais, bem como concentrava cada vez mais o 
poder nas mãos dos militares. O mais severo ato institucional foi o AI-5, que 
definitivamente deixou claro os novos traços do regime político que o País 
iria vivenciar até o ano de 1984.
A partir dessa data, o País passou por um novo processo de redemocratiza-
ção, cuja solidificação se deu em 5 de outubro de 1988, com a promulgação da 
Carta cidadã. Essa nova Constituição brasileira de 1988 inovou porque tratou 
da matéria não no capítulo dedicado à Ordem Econômica e Financeira ou à 
Ordem Social. Antes, cuidou deles enquanto verdadeiros direitos fundamentais 
e não expressões de uma determinada ordem. Tratou como verdadeiros direitos 
fundamentais os contemplados no art. 6º (BRASIL, 1988):
  o direito à saúde, na verdade, à proteção da saúde;
  o direito ao trabalho, do qual o direito do trabalho é uma dimensão;
  o direito ao lazer, porque nem só de trabalho vive o homem;
  o direito à moradia, incorporado mais tarde pela Emenda Constitucional 
nº 26, de 14 de fevereiro de 2000; 
  o direito à educação;
  o direito à previdência;
  o direito à segurança;
  o direito à assistência aos desamparados;
  o direito à proteção da infância;
  o direito à proteção da maternidade.
11Constitucionalismo
A Islândia, país com apenas 320 mil habitantes (menos da metade da população de 
Campo Grande/MS), decidiu por uma nova Constituição motivada pelo colapso eco-
nômico de 2008. Elegeu, então, um grupo de 25 cidadãos, entre 552 que se ofereceram 
como candidatos a representantes-constituintes, o qual apresentou uma proposta 
constitucional compilada a partir de contribuições enviadas por redes sociais, como 
Facebook, Twitter e YouTube (ISLÂNDIA..., 2012).
BARROSO, L. R. Neoconstitucionalismo e constitucionalização do direito: o triunfo 
tardio do direito constitucional no Brasil. Revista de Direito Administrativo, Rio de Janeiro, 
v. 240, abr./jun. 2005. Disponível em: . Acesso em: 2 abr. 2018.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, 
DF: Senado Federal, 1988. Disponível em: . Acesso em: 2 abr. 2018. 
CANOTILHO, J. J. G. Direito Constitucional e teoria constitucional. 6. ed. Coimbra: Al-
medina, 1998.
CUNHA JÚNIOR, D. da. Controle de constitucionalidade: teoria e prática. Salvador: Jus 
Podvm, 2006.
ISLÂNDIA referendo aprova nova Constituição feita por cidadãos. A Folha, out. 2012. 
Disponível em: . 
Acesso em: 2 abr. 2018.
SOUZA NETO, C. P. de; SARMENTO, D. Direito Constitucional: teoria, história e métodos 
de trabalho. 2. ed. Belo Horizonte : Fórum , 2014.
TAVARES, A. R. Curso de Direito Constitucional. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2004.
Constitucionalismo12
http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
http://afolha.pt/islandia-referendo-aprova-constituicao-cidadaos
Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para 
esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual 
da Instituição, você encontra a obra na íntegra.

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