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PALLAS Era uma vez uma moça, Aqui tem a sua história, Rainha Rainha muito formosa. seus segredos sem mentira, Ela é Maria Padilha, Mais cantigas, simpatias, de todas feiticeira poderosa. trabalhos da sua gira. giras Trabalha na encruzilhada, Padilha vence demanda, e na calunga também. Padilha limpa terreiro. Risca ponto, faz mandinga, Saravá, bela Padilha, vence tudo quando vem. Me proteja ano inteiro. ISBN 978-85-347-0535-6 9788534705356 PALLASPALLAS Rio de Janeiro 2016 Copyright © 2016 Pallas Editora DE Alzira Editoras Cristina Fernandes Warth Mariana Warth da Cigana Padilha Coordenação editorial, diagramação e capa da Praia Aron Balmas Rainha Preparação de originais de todas Eneida D. Gaspar Revisão as giras Dayana Santos (Este livro segue as novas regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.) Todos direitos reservados à Pallas Editora e Distribuidora Ltda. É vetada a reprodução por qualquer meio mecânico, eletrônico, xerográfico etc., sem a permissão por escrito da editora, de parte ou totalidade do material escrito. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ P92 Praia, Alzira da Cigana da Maria Padilha, rainha de todas as giras : sua verdadeira história, seus segredos, poderes e feiti- ços / Alzira da Cigana da Praia. - 1. ed. Rio de Janeiro : Pallas, 2015. 160 p. il. 17 cm. Inclui bibliografia ISBN 978-85-347-0535-6 1. Umbanda. 2. Pombagira. 3. Maria Padilha. I. Título. 15-27922 CDD: 299.672 CDU: 299.6 Pallas Editora e Distribuidora Ltda. Rua Frederico de Albuquerque, 56 Higienópolis CEP 21050-840 Rio de Janeiro RJ Tel./fax: 21 2270-0186 www.pallaseditora.com.br pallas@pallaseditora.com.br PALLAS VERDADEIRA HISTÓRIA, SEUS SEGREDOS, PODERES E FEITIÇOSSumário Palavras iniciais 9 Sobre a umbanda e a quimbanda 12 Sobre exus e pombagiras Alguns temas importantes 17 Sobre as bebidas alcoólicas 20 Sobre fumo 21 Sobre as oferendas 24 Sobre alguns ingredientes e como obtê-los Verdades, mentiras e a Santa Inquisição 27 Um pouco de turismo cultural 30 Um romance espanhol 38 De rainha a feiticeira, da Espanha ao Novo MundoE Maria Padilha chegou na gira 43 Padilha, Mestra e Rainha 50 Maria Padilha na quimbanda Maria Padilha e suas magias 55 Uma observação necessária 58 Uma casa para Maria Padilha 58 Sobre assentamento 63 Sobre a firmeza 65 Oferendas para Maria Padilha 118 Feitiços de Maria Padilha Pontos de Maria Padilha 145 Pontos cantados 152 Pontos riscados 157 ReferênciasPalavras iniciais Sobre a umbanda e a quimbanda Desde 0 século XVI, o Brasil, como colônia por- tuguesa, recebeu muitos imigrantes voluntários ou forçados. Os europeus trouxeram as crenças e práticas do catolicismo popular ibérico - rezas, santos, demônios, feitiços, ervas, adivinhações que encontraram as dos povos indígenas e gera- ram cultos como catimbó. Os africanos criaram candomblés, batuques e outros cultos. Neles vivem os Seres das religiões dos diversos povos que se encontraram aqui, e mais10 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras PALAVRAS INICIAIS 11 alguns: deuses e espíritos ancestrais da África, langes: de Malei, das Almas, dos Caveiras, Nagô, Deus e os santos católicos, os indígenas da de Mossurubi, dos Caboclos Quimbandeiros e terra" os caboclos os mártires escravos os Mista. E de acordo com seu local de trabalho ou pretos-velhos e os feiticeiros, malandros, ciga- morada, se dividem em sete reinos, cada um reu- nos e aventureiros 0 povo da rua. nindo vários povos: os reinos das Encruzilhadas, No século XIX, a elite de origem europeia trouxe dos Cruzeiros, das Matas, da Calunga, das Almas, da França espiritismo, que criou novas formas de da Lira e da Praia. ligação entre os vivos e os espíritos, e foi bem aceito As entidades de quimbanda são comandadas pelas classes médias nas cidades. pelos orixás Exu e Omolu. Dizem que Exu é dia- Em 1908, 0 Caboclo das Sete Encruzilhadas, bo, mas isso é errado. orixá é mensageiro do Se- manifestando-se através do médium espírita Zé- nhor do Destino, e determina sucesso ou fracas- lio Fernandino de Morais, anunciou a fundação so em nossos caminhos, conforme obedeçamos de uma nova religião que daria VOZ aos espíritos ou não às leis divinas. E é Senhor da Vida, pois considerados atrasados e indesejáveis pelo espi- comanda a sexualidade, sem a qual a humanida- ritismo da época: os negros e os indígenas. Esta- de não se reproduziria. va criada a umbanda. Dizem que Omolu é maligno, mas não é bem Os caboclos, os pretos-velhos e as crianças fica- assim. Ele é Senhor da Terra e dirige ciclo da ram na umbanda, organizados em sete linhas: de natureza pelo qual os seres morrem para que ou- Oxalá, de de Xangô, de Ogum, de Oxós- tros possam viver. Entre outras coisas, é quem si, das Crianças e Africana. governa as doenças e epidemias: por isso ele pa- O povo da rua foi para a quimbanda, que é uma rece tão assustador. Mas temos de ver que até a imagem no espelho da umbanda, povoada por doença faz parte do ciclo em que um organismo exus (masculinos) e pombagiras (femininas). Es- luta pelo alimento, sofre os efeitos do envelheci- sas entidades, de acordo com a sua origem, se or- mento e por fim serve para alimentar outros. ganizam em sete linhas divididas em legiões e fa-12 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras PALAVRAS INICIAIS 13 Sobre exus e pombagiras não tem efeito: quando você dá um presente, seja a um deus, a um santo ou a um exu, 0 essencial Alguns dizem que exus e as pombagiras só fa- é a comunicação com essa entidade. Você pensa zem mal; mas isso não é verdade. Essas enti- nela quando escolhe que fazer e se concentra dades são guardiãs, atuando especialmente nas fortemente em tudo que simboliza a entidade; passagens e nos portais: 0 ponto onde os cami- você conversa com ela enquanto prepara e en- nhos da terra se encontram, a fronteira entre os trega a oferenda. E assim cria, cultiva e fortalece mundos dos vivos e dos mortos. Esses são os dois laço espiritual com seus guias e guardiões. grandes domínios da quimbanda: mundo "da Os exus e as pombagiras lidam com dois tipos ruas" e dos mortos. Na divisão de tarefas da de problemas: os "de casa" amores, rivais, sedu- quimbanda, Exu, ligado à vida, governa povo ção, sexo e "de fora de casa" ter um empre- da rua (os exus das encruzilhadas, da natureza, go, ganhar dinheiro, ter sucesso num negócio, so- etc.). Já Omolu, por sua ligação com a morte, go- breviver aos perigos das ruas, vencer os inimigos. verna exus que formam povo do cemitério. Exus e pombagiras jovens são muito ligados às Cada pessoa tem junto de si pelo menos uma paixões, sejam elas referentes ao amor, dinheiro, dessas entidades, além dos seus guias da umban- sucesso ou poder. Já as entidades mais velhas são da. E quem cuida bem de seu guardião (ou sua feiticeiras poderosas, que dominam os mistérios guardiã) tem sua proteção garantida e os cami- da vida e da morte. Suas cores, em geral, são nhos abertos por toda a vida. preto da terra, do mistério e da magia, e 0 ver- Dizem que essas entidades são interesseiras, e melho da vida, do sangue e do fogo. As entida- por isso precisam ganhar presentes. Mas em to- des ligadas ao cemitério também podem usar 0 das as religiões, a oferenda é uma forma de en- branco do osso, da morte purificada, do embrião trar em contato e sintonia com um ser espiritual que dorme na terra antes de nascer. através de um pequeno sacrifício, uma doação. Embora todas essas entidades costumem ser Tanto que uma oferenda feita de modo mecânico alegres e irreverentes, as pombagiras são mais14 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras PALAVRAS INICIAIS 15 sedutoras e os exus são mais brincalhões (quan- ou aconselhar. Você é quem terá de aprender a do não são sérios ou ameaçadores). Mas não de- lição pelo pior caminho, se for preciso. Então, vemos nos iludir: esse comportamento pode ser pense bem antes de fazer pedidos a esses guar- apenas uma forma de nos fazer aceitar fato de diões, para aproveitar melhor seu auxílio. E que "o hábito não faz o monge", e não devemos lembre-se de que pedido está no seu coração, julgar ninguém pelas aparências. não só nas palavras. Por fim, não custa lembrar: exus e pombagiras Dito isto, vamos falar agora de uma entidade são guardiões das leis fundamentais da vida. Toda muito especial: a pombagira Maria Padilha. Da causa tem um efeito, todo ganho tem seu preço. sua história, do que ela gosta, do que pode fazer Toda promessa tem de ser paga, e a entidade irá por você e do que você pode fazer para obter a cobrá-la de uma forma ou de outra nem sem- sua proteção e ajuda. pre agradável para quem tentar trapacear. Devemos lembrar ainda a lei espiritual do re- torno, pela qual tudo que enviamos a alguém volta a nós três vezes. E para terminar, como di- ziam antigos, devemos ter cuidado com o que pedimos, pois podemos ser atendidos, mas de uma forma que não tínhamos imaginado. Tenha certeza de que um exu ou uma pom- bagira não vai lhe dar esses avisos. Para eles, você tem de pensar pela própria cabeça e arcar com as consequências das suas decisões. É por isso que eles parecem atender a qualquer pedi- do, sem ética. Mas, para eles, 0 pedido é seu: se você fez a escolha errada, não cabe a eles avisarAlguns temas importantes Sobre as bebidas alcoólicas Exus bebem cachaça, certo? E Pombagiras gos- tam de champanhe. Assim como os orixás guer- reiros apreciam cerveja, os Pretos-velhos pedem uma dose de vinho tinto e assim por diante. As bebidas alcoólicas fazem parte da tradição das religiões afro-brasileiras. Entretanto, algumas vertentes criticam seu uso, com base na ideia de que O álcool, responsável por um dos mais graves vícios que escravizam a humanidade, é18 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras ALGUNS TEMAS IMPORTANTES 19 danoso para campo espiritual do médium. O das, tanto junto aos assentamentos quanto nos resultado é uma proposta de banir completa- locais de arriada, é a cachaça. A das pombagiras mente essas bebidas do culto. Mas será que isso costuma ser o champanhe. E isso é verdade mes- está totalmente correto? mo para os exus mirins, pois eles são entidades Uma falha pode ser detectada nesse raciocínio. espirituais que se apresentam desta forma, não Ele parte, corretamente, da percepção dos males crianças reais. do alcoolismo, mas não leva em conta as diferen- Já no caso da libação durante os rituais religio- tes formas de uso das bebidas ao propor seu total (ou seja, a bebida tomada pelo médium com banimento. E muita gente pode estar se pergun- a entidade incorporada), problema é diferen- tando: afinal, quem está certo: os que mandam te. É exatamente aqui que devem ser levados usar a bebida, ou os que a condenam? em conta os efeitos físicos e espirituais do uso Para chegar a uma posição equilibrada entre de bebidas alcoólicas. E nada mais justo: afinal, extremos, precisamos fazer uma distinção entre líder religioso é responsável pela segurança a bebida-oferenda e a libação ritual. A oferenda e pelo crescimento espiritual dos membros da é uma entrega simbólica a uma entidade do pla- Casa que dirige. no espiritual. É como a fogueira feita pelos anti- Aqui encontramos algumas variações. As di- gos gregos, que alimentavam seus deuses com a versas vertentes da umbanda têm orientações fumaça dos alimentos queimados que subia ao diferentes sobre as bebidas rituais. Algumas con- céu, não com a comida em si. Na oferenda, nin- sideram natural que as entidades utilizem be- guém é afetado fisicamente pela bebida, pois ela bidas alcoólicas. Outras desencorajam e até é posta nos locais onde as entidades recebem as proíbem essa prática. Assim, enquanto em al- homenagens. Portanto, não há nenhum proble- gumas casas exu toma cachaça e a pombagi- ma no uso das bebidas alcoólicas em oferendas. bebe champanhe, em outras usará bebidas A bebida sagrada dos exus em geral, que deve mais leves ou se absterá totalmente ser usada preferencialmente nas suas oferen- do álcool.20 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras ALGUNS TEMAS IMPORTANTES 21 Sobre o fumo pensar que, até poucos séculos atrás, a expecta- tiva de vida das populações era muito pequena, O uso do fumo na religião merece uma reflexão e simplesmente não havia tempo de aparecerem semelhante à feita para as bebidas. A ciência as doenças que se desenvolvem devagar. comprovou há bastante tempo que o cigarro, o Mas a solução não é simples. Não se pode de- charuto, o cachimbo e outras formas de fumar cretar: a partir de agora ninguém mais fuma! afetam nossa saúde de várias formas: prejudi- Nem Caboclo, nem Exu, nem Preto-velho, nem cam os pulmões, causam problemas no coração Mestre de Jurema... E como eles farão suas puri- e no aparelho circulatório, aumentam risco ficações? Como farão suas curas e suas magias? de desenvolver alguns tipos de câncer. E esses Esses ritos fazem parte da essência, da tradição, problemas não afetam só fumante: quem está do fundamento de várias religiões brasileiras. perto dele também é atingido pelas substâncias Qualquer tentativa de interferência seria, além venenosas do fumo. que é muito pior do que a de desrespeitosa, uma forma de conduzir ri- bebida, que afeta diretamente apenas o organis- tuais ao erro. mo de quem bebe. Então, um desafio para 0 dirigente religioso Mas diversas religiões aceitam e adotam fumo será equilibrar 0 uso necessário do fumo nos ri- em seus ritos. Essa prática veio de tempos antigos, tuais da sua Casa com a proteção aos seus fre- quando não se conheciam os efeitos maléficos quentadores e aos médiuns através dos quais as do fumo e se pensava que a fumaça era apenas entidades têm contato com fumo. uma boa e inocente forma de limpar matéria e energia. Além disso, em geral, 0 uso do fumo era Sobre as oferendas praticamente restrito aos rituais: o ato de fumar, que sabemos ser viciante, não era estimulado e Para apresentar as oferendas diante da imagem difundido a ponto de hoje estarmos submetidos da entidade, na casa religiosa ou na residência aos seus efeitos a cada passo. Também temos de do devoto, durante tempo de preceito, é cos-22 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras ALGUNS TEMAS IMPORTANTES 23 tume usar alguidares de barro ou louça para as para o lixo comum depois de passado o tempo comidas, copos ou taças de vidro para as be- necessário, se desfará rapidamente junto com a bidas, cestos para frutas, etc. Esses utensílios, comida que estava sobre ela. é claro, devem ser comprados e consagrados O recipiente tradicional para arriar os ebós de para uso exclusivo em oferendas, de acordo Exu é a grande folha da mamona, podendo ser com os preceitos religiosos. Uma preparação empregada a folha verde ou a da variedade ver- bem simples, que pode ser feita pelo fiel, con- melha. Outra possibilidade é usar um trançado siste em lavar os utensílios com cachaça antes feito com folhas da palmeira-africana, no feitio de os pôr em uso. de esteira ou cesta. Para quem tiver dificuldade Mas convém pensarmos um pouco mais na de conseguir essas folhas, uma outra possibi- hora de colocar uma oferenda na natureza. Exis- lidade é uso de um papel que se desfaça com tem alguns segredos que tornam a entrega das facilidade e rapidez, como 0 papel de seda ou oferendas um ritual de harmonia com as forças guardanapo de papel. e entidades que honramos. E esses segredos de- Nessa mesma linha de pensamento da oferen- vem ser conhecidos por quem trabalha com as da limpa, as bebidas não são arriadas em gar- entidades dos caminhos, para garantir um me- rafas e copos, mas totalmente derramadas em lhor relacionamento com esses guardiões e com volta da oferenda, sendo os recipientes trazidos o ambiente que eles governam. de volta. Aliás, isso está de acordo com a forma Um dos segredos é uso de folhas como reci- ritual mais correta desse tipo de oferenda, feita pientes, no lugar das tigelas, bandejas, toalhas e desde tempos dos gregos e romanos: a parte cestas. A folha pode ser posta em qualquer lugar dos deuses é derramada para "alimentar a terra". sem risco de poluição: se estiver no mato ou num Charutos, cigarros e velas também são postos no jardim, será reabsorvida pela natureza; numa rua lugar adequado, sem embalagens nem recipien- ou estrada, será igual aos resíduos das plantas deles só restará um pouco de cinzas e os que vivem no lugar e, mesmo sendo recolhida vapores dispersos no ar.24 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras ALGUNS TEMAS IMPORTANTES 25 Para terminar, devemos lembrar que a ofe- Ervas frescas renda não é uma brincadeira de salão nem um joguinho de feitiçaria. A preparação e a entrega Podem ser compradas em lojas de artigos religio- das oferendas são rituais litúrgicos que exigem sos, feiras livres, mercados especializados e ervei- um profundo conhecimento dos segredos da re- ros. Em geral, mesmo que você não conheça a erva, ligião. Mas o fiel de boa vontade pode fazer ofe- vendedor irá dar as informações necessárias com rendas mais simples, partindo da premissa de honestidade. Prefira sempre a erva fresca, pois cai- que a entidade vai ler que está no seu coração e xas com ervas secas são muito sujeitas a fraudes. perdoará pequenos deslizes na forma se a inten- ção for sincera. Produtos religiosos especiais Sobre alguns ingredientes e como obtê-los Este grupo inclui favas, ferramentas e utensílios de entidades, imagens, defumadores, essências, As práticas litúrgicas e mágicas necessitam de di- extratos e materiais raros, como penas, pelos, versos ingredientes, objetos e materiais que mui- etc. Estes produtos, sejam nacionais ou impor- tas vezes são conhecidos apenas pelos pratican- tados da África, são encontrados apenas em lojas tes. Além disso, especialmente no caso das ervas, de artigos religiosos. Mas todas costumam tê-los. é comum que em diferentes regiões do país elas E como acontece com os erveiros, os funcioná- sejam conhecidas por nomes diferentes. O resul- rios dessas lojas costumam se dispor a orientar tado é que quem está começando a conhecer 0 seus clientes com toda a honestidade. assunto, fica preocupado com a possibilidade de não obter os materiais que aparecem nas receitas. Outros produtos Para tentar diminuir um pouco essa ansiedade, aqui vão algumas dicas sobre como obter esses Velas, tigelas, copos, panos, bebidas, comidas, etc. produtos. tanto podem ser adquiridos em lojas de artigos26 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras religiosos quanto no comércio comum. O essen- Verdades, mentiras e a cial é que sejam comprados com a finalidade es- pecífica de serem usados para a entidade: o que Santa Inquisição não se deve fazer é misturar o uso cotidiano com o religioso. Um pouco de turismo cultural Se algum dia você for à Espanha, não deixe de visitar os lugares históricos medievais. Por exemplo, vá a Burgos, capital do antigo reino de Castela, a meio caminho entre Madri e San- tander (no litoral norte). Depois siga de Burgos para sudoeste, na direção de Salamanca, pas- sando pelas velhas cidades de Palência, Dueñas Astudillo.28 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras VERDADES, MENTIRAS E A SANTA INQUISIÇÃO 29 No extremo oeste de Astudillo, na estrada Cir- Um deles é 0 Alcázar Real. Vale a pena enfrentar cunvalación, fica o Real Mosteiro de Nossa Se- a fila que se forma à sua entrada, para ver ma- nhora dos Anjos (ou de Santa Clara), separado ravilhosos jardins que rodeiam Palácio Mudé- do Palácio de Dona Maria de Padilla (hoje Mu- jar, construído pelo rei D. Pedro I de Castela, em seu de D. Pedro I) pela rua Maria de Padilla. No 1364, ao lado do Palácio Gótico, de 1254. Nos fun- retábulo do altar da capela do mosteiro há dois dos deste segundo, onde se chega contornando medalhões com retratos que a tradição local afir- Palácio Mudéjar pelos jardins, há um largo tú- ma serem de D. Maria de Padilla e D. Pedro I de nel com uma porta ao fundo: é a entrada para os Castela, os fundadores da Casa. Banhos de Dona Maria de Padilla, que lembram Se quiser ir daí a Madri, continue até Tordesi- uma caverna encantada das mil e uma noites. lhas e siga para sudeste, passando por Medina Outro tesouro é uma antiga mesquita do sécu- del Campo. Depois estiquè o passeio até Toledo, lo XII, transformada na Catedral de Santa Maria antiga capital do reino visigodo, e aproveite para de Sevilha após a expulsão dos mouros em 1248. visitar Torrijos. Aí mês de junho é alegrado pela Na sua Capela Real fica a urna de prata com os encenação da Crônica do Rei D. Pedro I, que re- restos mortais do rei Fernando III de Castela, au- lembra as festas do batizado da primeira filha tor dessa façanha. Contornando-a, você acha a desse rei, a infanta Beatriz. Você poderá conhe- escada para a cripta onde, numa grande vitrine, cer essa história visitando a biblioteca da prefei- estão ataúdes que guardam os restos mortais tura, que ocupa palácio que D. Pedro mandou do rei Dom Pedro I de Castela, da rainha D. Maria construir para D. Maria de Padilla. de Padilla e do infante Alonso (filho de ambos). Depois, para conhecer a antiga e mística Via da E se quiser saber mais sobre a cidade, a Facul- Prata, vá até Salamanca e daí siga para sul, até che- dade de Geografia e História da Universidade de gar a Sevilha. Porto romano, capital dos califas mou- fica logo ali, na rua Dona Maria de Padilla. ros e depois do reino de Sevilha, a cidade guarda te- Mas afinal, quem é essa Maria de Padilla, ra- souros do Patrimônio da Humanidade da UNESCO. sepultada numa catedral, dona de palácio,30 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras VERDADES, MENTIRAS E A SANTA INQUISIÇÃO 31 fundadora de mosteiro, nome de ruas do norte época como uma jovem de talhe delicado, rosto ao sul da Espanha em Sevilha, Palência, Astu- formoso e grande inteligência, Maria encantou dillo, Almería, Torre de la Reina e da Asocia- rei e ambos se apaixonaram. ción de Mujeres "María de Padilla", em Toledo? E Segundo a versão mais divulgada dessa história, quem é esse D. Pedro que sempre a acompanha? Maria de Padilla tornou-se amante de Dom Pe- dro. Entretanto, conforme a declaração feita anos Um romance espanhol depois pelo rei às Cortes do Reino, eles teriam se casado em maio de 1352, em Sevilha. Segundo Em meados do século XIV, o que hoje conhece- os documentos e depoimentos apresentados na mos como Espanha era um mosaico de peque- ocasião, a cerimônia teria sido oficiada pelo aba- nos reinos. Em março de 1350, rei de Castela e de de Santander, Juan Perez de Orduña, tendo Leão, Alfonso XI, faleceu, e sua viúva, Maria de como testemunhas D. Juan Alfonso de Mayorga, Portugal, voltou para sua terra natal. Assim, a co- Chanceler do Selo, D. Diego Garcia de Padilla, ir- roa de Castela e Leão passou a Pedro I, único fi- mão de Maria e Mestre da Ordem de Calatrava, lho vivo de Alfonso com a esposa. Pedro só com- e D. Juan Fernandez de Henestrosa, 0 tio de Ma- pletaria 16 anos em agosto, mas logo provou ser ria. Embora os registros dessa reunião das Cor- capaz de governar em meio às intrigas políticas e tenham sido destruídos após a morte do rei, disputas dinásticas que perturbaram todo seu por ordem do usurpador do trono, historiadores reinado. Cruel, segundo seus inimigos; justiceiro, espanhóis e biógrafos do casal consideram que segundo os aliados. casamento possivelmente ocorreu como foi Em 1352, um dos homens de confiança do rei, D. Juan Fernandez de Henestrosa, apresentou- Mas um rei nunca pode se casar à sua vonta- -lhe a sobrinha Maria de Padilla, nascida por vol- acima dela estão os interesses do Estado. A ta de 1334 e pertencente a uma família nobre da situação do reino era delicada, pois os irmãos região de Astudillo. Descrita pelos cronistas da de Pedro, Enrique de Trastámara e Fa-32 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras VERDADES, MENTIRAS E A SANTA INQUISIÇÃO 33 drique de Castela, ligados ao reino de Astúrias, Pedro e Maria, velhos costumes ainda sobre- tentavam tomar trono de Castela. Então, para viviam, embora oficialmente rejeitados. Então, evitar atritos com os aliados do rei, casamento não seria de espantar se o rei tivesse duas (ou teria sido realizado secretamente. mais) esposas. Além disso, mesmo se tivessem Em 1352, a mãe do rei, mesmo vivendo em Por- realizado apenas uma cerimônia privada, Pedro tugal, se uniu a alguns nobres de Castela para e Maria podiam ser considerados casados pela negociar o casamento de Pedro com Branca de lei antiga, enquanto Pedro e Branca não eram, Bourbon, irmã da rainha da França, como parte como veremos agora. de um acordo político com esse país. Pedro resis- O casamento real terminou desastrosamente tiu por algum tempo, mas em 1353, pouco depois em poucas horas. poema Entre las gentes se de Maria ter sua primeira filha, Beatriz, concor- suena (Entre 0 povo se fala), do Romancero viejo, dou em casar com Branca. registra que diziam ser a causa do escândalo. Concubinato ou poligamia? Pensemos com a cabeça ibérica medieval. Até o século XIII, os Entre las gentes se suena, reinos hispânicos cristãos seguiam a lei europeia y no por cosa sabida, medieval que dava o valor de casamento legíti- que de ese buen Maestre mo à troca de votos feita em particular, só con- don Fadrique de Castilla, siderava casamento realizado após a união se- la reina estaba preñada; xual, considerava aceitável a existência de mais otros dicen que parida. de uma esposa (comum na nobreza, por razões políticas) e admitia 0 divórcio. No século XII, o rei Mas a causa mais provável, segundo os histo- Alfonso de Castela e Leão compilou, na quarta é que o rei francês não pagou dote das suas Siete Partidas, uma nova legislação que que tornava a França uma parceira impunha o casamento religioso oficial, a mono- para Castela. Seja como for, D. Pedro não gamia e a união indissolúvel. Mas no tempo de a união e mandou Branca para palá-34 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras VERDADES, MENTIRAS E A SANTA INQUISIÇÃO 35 cio real em Medina del Campo. Alí ela ficou con- zão política para casamento, Pedro mandou Joa- finada, mas não encarcerada ou torturada, como na para a vila de Dueñas, onde ela permaneceu até Branca alegou, mas historiadores negam. a morte (em 1374), na mesma situação de Branca. A situação fez a tensão aumentar em Castela. Quando Pedro começou a negociar o novo Branca se tornou 0 pretexto para a formação de casamento, Maria pediu licença ao papa para um partido contra Pedro, reunindo seus irmãos fundar um convento onde pudesse se recolher. bastardos, os nobres simpatizantes dos france- Recebida a autorização, Maria e Pedro criaram 0 ses e a rainha-mãe (que armava suas intrigas em Real Mosteiro de Nossa Senhora dos Anjos, em Portugal). Os nobres insistiam com rei para que Astudillo, com Palácio de Dona Maria de Padil- abandonasse Maria e desse a Branca a condição la ao lado. oficial de rainha. O papa, aliado quase vassalo da Maria residiu no mosteiro por algum tempo, o França (onde estava, na época, a sede da Igreja que acalmou um pouco os ânimos na Corte. Mas Católica), ameaçou excomungar D. Pedro. após malogro do casamento com Joana, o rei Em 1354, enquanto Maria tinha sua segunda voltou a viver com Maria, que teve mais dois fi- filha, Constança, Pedro conseguiu que bispos Isabel, nascida em 1355, e Alonso, nascido de Salamanca e Ávila considerassem nulo casa- em 1359. mento não consumado com Branca. Entretanto, partido dos bastardos contra rei legítimo de em vez de oficializar a união com Maria, preferiu Castela foi se tornando cada vez mais forte, com novamente proteger os interesses do reino. Ten- apoio da França, da Igreja e dos reinos de Astú- tando neutralizar outro inimigo, casou, em abril e Aragão. Visando ganhar adeptos, esse gru- desse ano, com Joana de Castro, irmã de D. Alvar recorreu a falsas acusações, como as de bru- Perez de Castro, que trabalhava para dar a coroa de crueldades e atentados promovidos por D. Castela ao príncipe herdeiro de Portugal. Mas logo Pedro ou por Maria de Padilla. Branca participou depois da cerimônia ficou sabendo de nova trai- das intrigas, desde a anulação do ca- ção armada por D. Alvar. Não havendo mais a até a sua morte, em 1361. E aqui serviu36 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras VERDADES, MENTIRAS E A SANTA INQUISIÇÃO 37 para mais uma calúnia: embora historiadores es- por quitarte de cuidado panhóis afirmem que ela faleceu de causas na- lo hace el rey mi señor. turais, foi dito que fora executada por ordem do Los maceros le dan priesa, rei, como lemos no Romance del rey don Pedro el ella pide confesión: Cruel, que mostra inclusive rei avisando a Ma- perdónalos a ellos, ria de Padilla que irá matar Branca em nome do y puesta en contemplación amor dos dois. danle golpes con las mazas: así la triste murió. Doña María de Padilla, no os me mostredes triste, no [...] Maria morreu em julho desse mesmo ano, viti- que me labren un pendón, mada pela epidemia de peste bubônica que as- será de color de sangre, solava a região. Em 1362, na reunião das Cortes de lágrimas su labor; em Sevilha, Pedro apresentou as provas de que ca- tal pendón, doña María, sara com Maria de Padilla antes do casamento com se hace por vuestro amor. [...] Branca. Assim Maria foi declarada rainha, e suas El rey no le dijo nada, filhas (pois Alonso já morrera) foram designadas en su cámara se entró herdeiras legítimas do trono. Dom Pedro I pôs luto enviara dos maceros, por Maria e fez com que fosse sepultada, com as los cuales él escogió. [...] honras devidas à rainha consorte, na cripta da La reina como los vido [...] Capela Real da Catedral de Sevilha, onde seus con esfuerzo les habló: restos repousam até hoje, ao lado do marido e Ya sé a qué venis, amigos, do que mi alma lo sintió; [...] Doña María de Padilla, esto te perdono yo;38 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras VERDADES, MENTIRAS E A SANTA INQUISIÇÃO 39 De rainha a feiticeira, sedutora perversa e a grande culpada por todas as da Espanha ao Novo Mundo crises do reino das guerras à Peste Negra... Os romanceros espanhóis registraram as intri- Segundo seus contemporâneos, Maria de Padilla gas que corriam na boca do povo. Segundo os era uma dama bondosa, discreta, amável e com- poemas do Romancero viejo, 0 rei teria manda- preensiva, que sempre procurou suavizar os ri- do matar amante de Branca e a própria Branca gores do rei, sem se mostrar ambiciosa nem vin- (fatos que os historiadores negam) "para alegrar gativa, conformada com a posição obscura em a amante", a perversa Padilla, que teria enfei- que fora posta, fiel e digna em seus nove anos de tiçado 0 rei para que ele desprezasse a mulher união com o rei e, como vimos, devota a ponto francesa. Romance de don Fadrique narra a de fundar um convento, ao qual doou as terras morte do irmão bastardo na versão dos adver- que herdara dos pais. Em documentos oficiais sários de D. Pedro. dos séculos seguintes, foi sempre citada como Sua Majestade a Rainha Dona Maria. Em Sevilha [...] la cabeza le han cortado; é lembrada como rainha de Castela e Leão. Sua a doña María de Padilla legitimidade foi aceita pela casa real inglesa, na en un plato la ha enviado. qual suas filhas Constança e Isabel se casaram. Entretanto, foi transformada em mulher deso- poema Llora Doña Blanca..., do Romancero nesta e feiticeira maligna. Como isto se deu? español, mostra, entre Branca e Maria, um con- Pedro foi assassinado em 1369 pelo irmão Enri- fronto que lembra de Guinevere e Morgana na que de Trastámara, que assim se apossou do tro- lenda do Rei Artur inglês: o anjo louro e cristão, no de Castela e Leão. Para legitimar o novo rei, os que arrasta rei para a submissão à ordem esta- nobres que apoiavam se dedicaram a denegrir a e a feiticeira morena, amiga de pagãos memória de Pedro e de todos a ele associados, es- bruxos, que, na verdade, 0 apoia na afirmação pecialmente Maria de Padilla, tratada como uma da sua autoridade independente.40 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras VERDADES, MENTIRAS E A SANTA INQUISIÇÃO 41 Caséme en Valladolid nobre castelhana cristã para se tornar uma bruxa con don Pedro, rey de España. [...] cigana. Imagem que permaneceu viva no imagi- Posesión tomé en la mano, nário europeu, como 0 escritor francês Prosper mas no la tomé en el alma, Mérimée lembrou na novela Carmen (com todas porque se la dio primero as distorções que preconceito causa): a otra más dichosa dama; a una tal doña María [...] elle chantait quelqu'une de ces chansons que de Padilla se llama, magiques où elles invoquent Marie Padilla, la y deja su mesma esposa maîtresse de don Pedro, qui fut, dit-on, la Ban por una manceba falsa. [...] Crallisa, ou la grande reine des bohémiens. Dile una cinta a don Pedro de mil diamantes sembrada, ([...] ela cantava uma das canções mágicas em pensando enlazar con ella que elas invocam Maria Padilha, a amante de lo que amor bastardo enlaza: Dom Pedro, que foi, dizem, a Ban Crallisa, ou húbola doña María, a grande rainha dos ciganos.) que cuanto pretende alcanza; entrególa a un hechicero Quem invocava Maria Padilha era a cigana Car- de la hebrea sangre ingrata; men, operária da Real Fábrica de Tabacos de Se- hizo parecer culebras vilha. Cujo prédio, por coincidência, abriga hoje a las que eran prendas del alma. e as Faculdades de Filologia e de Geogra- História da Universidade de Sevilha, situadas, Em versões posteriores, Maria passou a ser a já sabemos, na rua Dona Maria de Padilla. autora direta da bruxaria: ela própria teria en- lenda de Maria de Padilla se espalhou pela feitiçado um cinto de Branca, para que o rei se Península Ibérica. Em Portugal, seu nome foi tra- afastasse dela. E Doña Padilla deixou de ser uma para Maria Padilha. A fama de feiticeira42 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras a pôs nos conjuros das bruxas, ao lado dos mais E Maria Padilha famosos hereges, pecadores, demônios e até san- tos da tradição cristã, como vemos em processos chegou na gira da Inquisição portuguesa. Por São Pedro e por São Paulo, por Jesus cru- cificado, por Barrabás, Satanás e Caifás, por Maria Padilha com toda a sua quadrilha... E depois as naus dos navegadores europeus a trouxeram para Novo Mundo. Começando, talvez quem sabe? pela frota de Colombo, enviada para conquistar novas terras para a Es- panha e novas almas para a fé cristã pelos devo- tos reis católicos, patrocinadores da Inquisição espanhola, Fernando de Aragão e Isabel de Cas- tela esta, por ironia, bisneta de Constança de Padilha, Mestra e Rainha Castela e, portanto, tataraneta da "demoníaca" Maria Padilha... No começo, Maria Padilha era apenas um nome fórmulas mágicas das feiticeiras da Europa. Mas no Brasil, com passar do tempo, foi-se ambiente certo para que ela se mos- trasse em toda a sua glória. Ou, como se diz por para que "desse a volta por cima", saindo de todas as intrigas de que fora vítima,44 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras E MARIA PADILHA CHEGOU NA GIRA 45 e fazendo da calúnia a sua força: feiticeira, sim, próprio na quimbanda, Padilha foi reconhecida sedutora, sim... mas Rainha de todas elas! como uma pombagira. Não qualquer uma, mas Maria Padilha veio com as bruxas e adivi- Maria Padilha Rainha, mulher do Maioral, Exu nhos condenados ao degredo pela Inquisição. Rei, 0 chefe de todos os exus. Era invocada para encontrar pessoas e recuperar O aviso de Maria Padilha se tornou realidade, bens perdidos, descobrir tesouros e denunciar e hoje conhecemos muitas Padilhas da sua qua- ladrões, realizar curas e conquistar amantes, des- drilha ou, como também se diz, diversos ca- truir inimigos e fazer casamentos. Assim como já minhos de Maria Padilha. Aqui estão as histórias era em Portugal, a poderosa Maria Padilha logo que algumas dessas Padilhas contaram ao se ma- se tornou um dos nomes mais chamados nas re- nifestar pelo Brasil afora. zas e feitiçarias brasileiras. Mais tarde, Maria Padilha surgiu no catimbó Maria Padilha das Almas como Mestra do Reino do Juremal. Conhece- dores do culto da jurema dizem que a entidade a história, esta foi uma mulher casada, se manifestou pela primeira vez em meados do com filhos, que seduziu padre da cidade em século XIX. Nessa ocasião, ela disse ser a Rainha que vivia. Certo dia, ela entrou na igreja como Maria Padilha de Castela, contou a história que já um gritando que estava grávida dele. conhecemos e avisou que outras Padilhas da sua Depois do primeiro susto, o padre raciocinou: a quadrilha também iriam se manifestar. Contam mulher sempre fora infiel, tivera vários amantes ainda que Maria Padilha apareceu pessoalmente filho não podia ser de um deles, ou do ma- no catimbó poucas vezes após essa primeira, e A mulher negou ter tido outro homem de- depois ficou comandando no espaço as suas le dele, e propôs que fugissem. Como padre giões de Marias. alegando que não largaria a carreira Mais tarde, quando povo da rua começou se manifestar na umbanda e recebeu seu para viver com uma prostituta, ela, que com um punhal, esfaqueou mor-46 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras E MARIA PADILHA CHEGOU NA GIRA 47 talmente e em seguida se suicidou. Esse espírito diou a casa. Assim a mulher morreu, realizando passou muito tempo vagando nas trevas, tortu- a profecia da bruxa. Então, depois de muito tem- rado pela lembrança de seus pecados, até que po vagando nas trevas, começou a trabalhar na começou a trabalhar como Maria Padilha das falange do cemitério, ao lado do Senhor Exu das Almas. Hoje ela se esforça para ajudar e aconse- Sete Catacumbas, mesmo que lhe aparecera lhar os que a procuram, para que não cometam em sonhos. os erros em que ela caiu. Maria Padilha das Sete Encruzilhadas Maria Padilha das Sete Catacumbas Contam que esta foi uma moça nobre, amante Esta, segundo contam, foi uma mulher casada do rei do país onde vivia, que decidiu envenenar que se apaixonou por um rapaz. Louca de paixão, a rainha, contando tomar seu lugar. Assim fez e, ela procurou uma feiticeira. A bruxa afirmou que passado O funeral, procurou amante, dizendo a única forma de ficar viva e com amante seria que agora poderiam se casar. Mas o rei, que sa- matar o marido, e que isso exigiria o sacrifício do que ela fizera, mandou prendê-la. Durante filho pequeno. A mulher fugiu apavorada, mas anos ela permaneceu no cárcere, sempre desde então não teve sossego. Ao adormecer, so- visitada pelo espectro da rainha morta, que a en- nhava com um homem todo vestido de preto que com ar de triste acusação. Até que, certo lhe apontava uma bengala e dizia que ela teria de soube que rei ia se casar com uma jovem fazer o feitiço. Certa noite, ela acordou do Quando fantasma a encarou, nessa noi- delo aos gritos. Com barulho, filho começou se enfureceu e avançou sobre ele. Mas tro- a chorar. Fora de si, a mulher pegou uma faca calu e bateu com a cabeça no banco de matou o menino. Percebendo em seguida que da cela, morrendo imediatamente. Seu es- fizera, desmaiou. Com movimento, uma vela vagou por longo tempo, até entender que que iluminava cômodo caiu ao chão e incen mal e precisava se redimir. Desde48 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras E MARIA PADILHA CHEGOU NA GIRA 49 então começou a vir à Terra como Maria Padilha Maria Padilha do Cabaré das Sete Encruzilhadas, procurando sempre pas- sar aos que a procuram que já aprendeu sobre Esta, pelo que dizem, foi uma jovem que, há mui- os caminhos do bem. to tempo atrás, fugiu de casa para não ser obriga- da a casar com um homem escolhido pelos pais. Maria Padilha dos Sete Cruzeiros da Calunga Depois de vagar pelas ruas, seguiu único cami- nho aberto na época para as moças sem família: Dizem que esta foi uma jovem que fora prometida foi trabalhar num bordel. Algum tempo depois, pelos pais a um nobre, mas se apaixonou por um um homem muito rico a tomou como amante dos empregados da propriedade da família. Fican- e montou para ela um cabaré (que era nome do grávida, combinou fugir com amante. Mas dado então aos bordéis). Assim ela passou a viver uma criada da casa os viu e avisou ao pai da moça, da renda do cabaré. tempo passou e a moça que saiu em perseguição ao casal. Alcançando-os começou a ficar insatisfeita com a situação. Ela onde a estrada cruzava um rio, homem atirou no queria casar, mas amante assegurou que não rapaz, matando-o. Então, a jovem pegou a arma iria largar a esposa por ela. Então ela decidiu ma- do amante e com ela matou 0 pai. Em seguida, tá-lo e se suicidar. Conseguiu um veneno forte, atirou-se da ponte sobre 0 rio, morrendo afogada que pôs numa garrafa de vinho. Quando 0 aman- junto com a criança que levava no ventre. Depois te a visitou, ela serviu duas taças da bebida en- de vagar por muito tempo entre os espíritos, car- venenada e, com um brinde, viu amante beber regando a culpa das várias mortes que causara, e em seguida tomou a própria morte. Depois de encontrou entidades de luz que lhe deram apoio e um tempo nas trevas, ela passou a trabalhar nas orientação. Foi assim que se tornou Maria Padilha falanges de pombagiras, tornando-se conhecida dos Sete Cruzeiros da Calunga, como hoje se iden- como a Rainha do Cabaré. tifica ao descer nas giras, sempre amável, educada e atenciosa com os que a procuram.50 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras E MARIA PADILHA CHEGOU NA GIRA 51 Maria Padilha na quimbanda Exu Rei das Sete Liras, também conhecido como Exu Lúcifer. Reino da Lira as entidades Maria Padilha é a principal pombagira da Linha da quimbanda ligadas à alegria e à arte: espíritos Nagô da quimbanda, chefiada por Exu Gererê e boêmios, malandros, músicos, dançarinos; daí o formada por sete falanges dirigidas pelos Exus seu nome de instrumento musical. Ele também é Quebra Galho, Sete Cruzes, Gira Mundo, dos Ce- chamado de Reino do Candomblé, por causa dos mitérios, Capa Preta, Curador e Ganga. Os espí- cantos e danças que caracterizam os rituais des- ritos dessa linha, conhecidos como "gangas", são sa religião. É por isso que Maria Padilha é conhe- grandes conhecedores de feitiçaria. Trabalham cida como Rainha do Candomblé, não por ter li- de forma rápida e eficiente, e podem aplicar sua gação com a religião dos orixás. Por seus hábitos magia para bem e para o mal, às vezes de forma e sua história, a entidade também é chamada de irreversível. Por isso, são considerados muito pe- Rainha da Malandragem, Rainha dos Ciganos, rigosos e os pedidos a eles devem ser feitos com Rainha dos Infernos e Mulher de Lúcifer. muito critério e cuidado. Além de se desdobrar nas manifestações ou ca- A Linha Nagô tem ligação com a Linha de le- minhos que já conhecemos, Maria Padilha tem manjá da umbanda, que reúne as falanges do povo sob seu comando as falanges das Marias, entre d'água (sereias, ondinas, iaras, marinheiros, cabo- as quais se destacam Maria Alagoana, Maria Baia- clas de mar e de rio). Assim, Maria Padilha atua na, Maria Cigana, Maria Colodina, Maria da Praia, como intermediária para esta linha, tendo uma Maria das Almas, Maria Farrapos, Maria Lixeira, afinidade forte com as caboclas de mar e chefian- Maria Mirongueira, Maria Molambo, Maria Na- do a falange de pombagiras que liga em polarida- valha, Maria Quitéria, Maria Rosa e Maria Tunica. de negativa a Linha de à Africana. Como participam da energia da Rainha das Ma- Também chamada de Rainha do Candomblé e rias, elas têm características bem semelhantes. Rainha das Marias, Maria Padilha governa Reino Quem tem vidência a vê na gira como uma da Lira da quimbanda junto com companheiro, mulher muito bonita, morena, com cabelos52 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras E MARIA PADILHA CHEGOU NA GIRA 53 escuros, porte altivo e ar de quem nada teme. Sua guia, em geral, é feita com contas pretas e Ela pode aparentar ser mais jovem ou mais ve- vermelhas alternadas em grupos de três, sete ou lha, pois tem caminhos de diversas idades, mas 21 contas, conforme a orientação da entidade. todas as Padilhas são atraentes e sedutoras. E A firma é preta e vermelha ou preta e banca. As essa pombagira sabe dançar muito bem, co- guias das Padilhas cruzadas nas Almas levam con- nhecendo a arte de seduzir com os movimen- tas brancas separando os grupos das outras cores. tos do corpo. Entidades da Calunga podem pedir que a guia Como rainha que é, Maria Padilha gosta de leve uma pequena caveira ou um pedaço de osso. trajes finos e sofisticados, pois o luxo é para ela As velas acompanham as cores das guias. Po- o modo normal de viver. Embora use sempre 0 dem ser bicolores pretas e vermelhas ou pretas e vermelho e preto das pombagiras, faz questão brancas, ou de uma só cor, vermelha ou branca. de tecidos de qualidade superior em trajes que A pemba para riscar seus pontos pode ser ver- a deixem sempre pronta para uma festa. Longas melha, que é a das pombagiras, ou branca, de saias rodadas, muitos babados e os leques, que uso geral. as antigas damas sabiam usar tão bem, são es- Suas flores prediletas são as rosas bem abertas, senciais para seu jogo de sedução. e palmas, sempre vermelhas e em nú- Padilha adora joias de ouro e artigos de touca- mero Entre as bebidas, prefere licor de dor (perfumes, espelhos, etc.) que lhe podem ser anis, mas também aceita champanhe, vermute presenteados sem medo de errar. Também gosta Suas comidas preferidas são a pata, a de ganhar cigarros ou cigarrilhas. Como pomba e a cabra pretas, ou um bom bife, sempre gira e rainha, não gosta de depender de ninguém por farofa. Também aceita fru- e sabe se defender sozinha. Por isso, gosta de ter especialmente lima-da-pérsia e maçã. uma navalha, um punhal ou outra arma branca Dependendo do local de trabalho da entidade e pequena e bem afiada. Vem daí outro apelido sua orientação específica, se for dada, as ofe- seu: Rainha das Facas. podem ser entregues no cruzeiro de um54 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras cemitério ou numa encruzilhada em T ou em X. Maria Padilha Mas a entrega deve ser, de preferência, na segun- da-feira, que é dia da sua maior força. e suas magias Uma observação necessária Como vimos, Maria Padilha se tornou um espíri- to bruxo na Europa, no fim da Idade Média. Na- quele tempo, povo imaginava uma porção de coisas estranhas sobre as bruxas. Essas esquisiti- ces foram inventadas ou alimentadas, em grande parte, pela Igreja e pela medicina tradicional. E por que razão? Porque as bruxas eram mulhe-56 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 57 res que preservavam a sabedoria antiga do povo isso e muito mais, graças às horríveis torturas de das aldeias e do campo, que sabiam prever como que foram vítimas. Foi assim que os registros da ia ficar 0 tempo numa estação e como isso iria Inquisição ficaram recheados de descrições de afetar as colheitas, lembravam dos velhos rituais feitiços e rituais fantásticos criados, na verda- pré-cristãos com que povo honrava os deuses de, pela imaginação perversa dos torturadores. da natureza, conheciam as ervas medicinais e sa- Também havia na Idade Média outro tipo de biam tratar doenças e fazer partos. Assim desa- magia, esta praticada por homens estudiosos, fiavam as regras da religião dominante e poder quase sempre religiosos. Essa magia, chamada dos médicos. cerimonial, respeitava integralmente as crenças Como o povo é supersticioso, sempre havia al- cristãs: os espíritos das esferas celestes, os anjos, guma intriga: se a mulher sabia ler sinais da na- espíritos bem-aventurados, Deus e, do outro tureza, certamente sabia afetar futuro dos ou- lado, demônios, espíritos da terra e do mundo tros; se realizava os velhos rituais, estes deviam inferior. Utilizava orações e realizava cerimônias ser crimes demoníacos; se conhecia remédios, de invocação do auxílio dos espíritos, que às ve- sabia usar venenos; e aquelas coisas que todo zes lembravam ritos cristãos. mundo fala na hora da raiva tomara que a sua Mais tarde, pessoas que desejavam publicar li- mão apodreça! Tomara que os seus dentes caiam! vros com receitas de bruxaria, mas que não se- na boca da bruxa, pareciam ter a força de uma guiam nenhum tipo de tradição mística ou má- ordem às forças do mal para que atacassem os gica, foram buscar material nos documentos da seus desafetos. Inquisição e nos tratados de magia cerimonial. Daí a dizer que a mulher fazia pactos com dia- Todas as invenções bizarras sobre as bruxas fo- bo, ia aos sabás (que, a propósito, foram inventa- ram divulgadas como verdades, e fragmentos das dos pelos inimigos das bruxas) e matava crianci- práticas de magia foram tirados do seu contexto nhas, foi um passo. E as pobres mulheres, presas e desvirtuados. Esses livros se tornaram muito sob a acusação de bruxaria, confessaram tudo frequentes na literatura popular sobre feitiçaria,58 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 59 escrita por pessoas sem ligações com a magia ge- podendo ser realizado por sacerdote ou sacerdoti- nuína, e que muitas vezes nem sabiam decodifi- sa com 0 preparo necessário. Por isso, não será ex- car vocabulário da tradição. plicado em detalhes aqui. Diremos apenas que Talvez já seja hora de mudar essa situação. Por for possível para dar uma ideia de sua natureza. isso, este livro não apresentará nenhum feitiço assentamento é uma instalação permanente ou simpatia que tenha vindo de fontes duvido- feita em solo consagrado de um templo religioso. sas, e somente citará práticas realmente adota- Ele só será removido se templo for desfeito, e das em contexto religioso ou originadas da sabe- isso implicará num complexo ritual de descon- doria das verdadeiras bruxas e dos magos reais. sagração do lugar. O assentamento é muito mais que um lugar Uma casa para Maria Padillha para depositar oferendas. Ele pode ser enten- dido como uma espécie de gerador de energia Toda entidade espiritual, seja ela um orixá, um combinado com uma antena: é um ponto de guia ou um guardião exu, precisa ter um lugar es- conexão com as entidades espirituais e um foco pecial, que funciona como um foco da sua ener- de atuação dessas energias no ambiente do ter- gia e onde a entidade recebe oferendas e pedidos. reiro, para que elas possam cumprir suas tarefas ponto de energia da entidade pode ser de dois de proteger e fortalecer as pessoas ligadas ao lu- tipos: assentamento e a firmeza. É importan- gar. Para que assentamento permaneça sempre te entender a diferença entre essas duas ideias, imantado e energizado, deve ser objeto de uma para saber que é certo fazer em cada situação. rotina de tratamento, que envolve a alimentação periódica com alimentos e luzes, num dia certo Sobre assentamento da semana, que seja consagrado à entidade ali assentada. assentamento é um ritual litúrgico bastante O assentamento não é individual. Na casa de complexo, que faz parte da iniciação religiosa, só um determinado orixá, por exemplo, ficam os60 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 61 assentamentos de todos médiuns da casa que Antes de ser habitada, a casa deve ter inteiror são filhos dessa entidade. O mesmo ocorre com lavado com uma garrafa de cachaça. os exus. Um terreiro terá, para começar, o assen- Algumas plantas são usadas tradicionalmente tamento do exu dono (guardião) da casa, que é para adornar a casa de exu, como chapéu-tur- plantado quando o chão é consagrado para rece- a hortelã-pimenta e a lanterna-chinesa. ber templo. Terá também, na casa de exu, 0 as- A casa de alvenaria é mais durável e não oferece sentamento dos exus "de trabalho" do chefe (zela- risco de incêndio causado por velas acesas no seu dor ou pai de santo) e dos filhos da casa, que fo- interior; mas pode ser feita de madeira ou outro ram fixados no processo de iniciação de cada um. material adequado. O teto pode ser de laje, telhas Como as entidades do povo da rua são guar- ou sapê, de acordo com a conveniência e, se for diãs, o lugar correto da casa de exu é junto à por- o caso, com as instruções da entidade. A porta ta de entrada, para vigiar tudo que tenta entrar pode ser de madeira ou metal, desde que seja to- na casa que ele protege e para que cada entidade talmente fechada, para proteger assentamento se aproxime do médium que acompanha quan- de olhares curiosos. Pelo mesmo motivo, deve ser do este entrar no templo. trancada com cadeado ou fechadura, sendo aber- A casa de exu fica à direita da porta ou portão, ta somente pelas pessoas autorizadas, quando for para quem sai da casa (à esquerda de quem en- necessário para a realização de alguma cerimônia. tra), e é encostada no muro ou parede, pelo lado Para preparar assentamento, providencia-se de dentro. Deve ter a forma aproximada de um primeiro um alguidar de barro, purificado se- quadrado medindo no mínimo meio metro de gundo os preceitos do ritual. Todos os objetos lado (largura, altura e profundidade). exterior necessários também serão purificados antes do pode ter a cor usada no muro ou parede da casa, seu uso. ou até uma simples caiação, mas 0 interior deve Como Maria Padilha é uma entidade das ruas, ser vermelho. 0 revestimento, seja pintura, seja seu alicerce conterá elementos de todos os ca- material aplicado, deve ser resistente ao fogo. minhos do mundo, como terra de encruzilhada62 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 63 e cemitério, argila branca e vermelha, lama de Sobre a firmeza mangue e areia de praia. A energia desse exu também se concentrará em certos materiais do A firmeza é uma espécie de versão simplificada reino mineral: enxofre, limalha de ferro, carvão. do assentamento. É um ponto de referência para Tudo isso é misturado, formando "chão"do as- entregar oferendas e energizar pedidos à entida- sentamento, que também poderá ter adiciona- de, ou seja, um ponto simples a partir do qual a dos materiais especiais como waji, efum, ossum, entidade possa atuar em relação a uma pessoa azougue (mercúrio) e pólvora. ou uma situação limitada. A firmeza é individual: Para 0 assentamento Propriamente dito, sa- é feita para uma entidade específica, é como um cerdote coloca no fundo do alguidar materiais altar pessoal. como bilhas de aço, moedas e ímã, além do otá A firmeza não precisa ser permanente, sendo da entidade que, no caso de Maria Padilha, é uma de modo a poder ser desfeita quando pedra de hematita ou laterita. Acomoda a mistu- for conveniente. Por isso, ao contrário do assenta- ra por cima, adorna com búzios e põe dentro da mento, ela pode ser feita na moradia do filho da casa da entidade. A próxima etapa será banhar entidade, mesmo que seja um imóvel alugado, ce- assentamento com azeite de dendê apimentado dido ou ocupado de qualquer outra forma instável. e com um sumo de sete folhas de exu. Mesmo no terreiro, a firmeza é feita quando Por fim, são feitas as primeiras oferendas ao exu preciso reforçar a ação de uma entidade. Um assentado. Algumas linhas religiosas farão sacri- exemplo é quando um ritual exige que um ponto fícios animais e darão os axés à entidade. Outras fique firmado durante um certo tempo, a ofertarão apenas alimentos: um padê, um bom fim de manter um ponto fixo para a irradiação da bife e uma bebida. energia da entidade. Tudo isso será realizado de acordo com os pre- Mesmo sendo uma instalação bem simples, a fir- ceitos e fazendo as devidas consultas para verifi- meza deve ser feita num lugar reservado, onde fi- car se a entidade está aceitando o ritual. que protegida contra a atenção de estranhos. Num64 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 65 terreiro, ela pode ser feita no próprio recinto dos entidade. É comum também que as pessoas po- assentamentos. Na residência, a entidade pode ser nham junto à imagem os que fazem à firmada num lugar reservado para esse fim, que entidade, que podem ser uma planta sa- possa sempre funcionar como um oratório. grada até uma joia. No caso específico dos guardiões exus, mesmo nas residências, sua firmeza deve ficar junto da Firmeza para Maria Padilha entrada. Se não for possível separar um cantinho reservado nessa localização, pode ser feita uma 1 vela vermelha, branca pequena casa de madeira ou chapa metálica, na ou bicolor (preta e vermelha) forma de uma caixa com uma portinha frontal, no 1 copo com champanhe ou licor de anis estilo dos antigos oratórios. O cuidado a ser toma- 1 cigarrilha do é sempre lembrar que nesse lugar serão acesos velas e charutos, portanto material deverá ser Acenda a vela no local adequado. Ponha o copo resistente ao fogo e disposto de modo a evitar que ao lado, com a cigarrilha acesa equilibrada na esses objetos caiam e provoquem um incêndio. boca. Faça seus pedidos à entidade. Os objetos essenciais serão: um copo de vidro Deixe tudo no lugar até que a vela termine de (pode ser do mais simples, incolor), um castiçal queimar. Então, despache a em água cor- para que as velas sejam acesas de modo seguro e rente (pode despejar na pia a água aberta) e um recipiente para apresentar a oferenda de co- jogue fora restos da vela e da cigarrilha. Feito mida dada à entidade (geralmente um alguidar isso, lave os utensílios para novamente. de barro de tamanho adequado). É comum que lugar destinado à firmeza te- Oferendas para Maria Padilha nha uma imagem da entidade. Dependendo da vertente religiosa, também é comum ter algum Esta seção apresenta uma coletânea de ebós, ofe- dos símbolos maiores, que são as ferramentas da rendas e trabalhos tradicionais do culto ao povo66 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 67 da rua. Ou seja, trabalhos indicados e realiza- 1 xícara de fubá dos em contexto religioso. Por isso, você poderá Azeite de dendê achar que as descrições deixam de informar so- 1 garrafa de licor de anis bre alguns detalhes ou são um pouco vagas. Mas 1 maço de cigarros isso não é casual. Existe um nível de informação 1 folha de mamona sobre os procedimentos rituais que só é conheci- do pelos praticantes experimentados da religião, Com 0 fubá e azeite de dendê, prepare uma e que não pode ser divulgado levianamente. Se farofa amarela. Ponha-a na folha e leve, junto você se interessa sobre esses detalhes, procu- com os outros materiais, ao lugar escolhido. Ao re a orientação de uma entidade em um terrei- chegar, primeiramente peça licença ao dono dos ro confiável, e poderá, com tempo e dedicação, caminhos. A seguir, cante este ponto: desvendar os segredos da magia de umbanda e quimbanda. Arreia, arreia, Rainha da gira, Oferenda para fazer Vem trabalhar, um pedido a Maria Padilha Exu Pombagira. A oferenda deve ser entregue numa encruzilha- Quando começar a sentir a entidade, cante da fêmea (em T), numa segunda-feira, perto da seguinte: meia-noite. Como a pombagira é de polaridade feminina, trabalho funciona melhor se for feito Salve tata pombagira, pela polaridade masculina. Por isso, um homem Salve exu mullher. pode fazer a entrega sozinho, mas uma mulher Ela é na encruzilhada deve ir acompanhada por um homem. A que faz tudo que quer. O material necessário é seguinte:68 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 69 A seguir, coloque num dos lados da encruzilha- 7 rosas vermelhas abertas da a folha com a farofa. Ponha ao lado um cigar- 7 cigarros ro aceso com outros apagados em volta (sem a embalagem). Derrame o licor em volta. Faça Escolha um dos ramos da encruzilhada para seu pedido e depois diga: arriar a oferenda. Abra a garrafa e derrame toda a cachaça em cruz no chão, salvando Maria Pa- Assim como na encruzilhada você é aquela que dilha. Ponha o papel no centro da cruz. Acenda faz que quer, assim também me faça que a vela e ponha-a em cima do papel. Acenda os quero. Assim como as estrelas brilham, Sol e cigarros e coloque-os em volta da vela. Arrume as a Lua iluminam, assim estou confiante de que rosas em volta da oferenda, formando uma ferra- me fará que eu quero. E logo que conseguir dura, e diga: que eu quero, eu lhe trarei um bom presente (diga que vai dar em agradecimento). Maria Padilha da Encruzilhada, eu lhe ofere- ço este pequeno presente. Em troca, peço que Trabalho para pedir a Maria Padilha que tome conta de (diga nome com- tome providências em relação a um inimigo pleto da pessoa), que ola castigue, que ola tire do meu caminho. Assim que meu pedido for Esse trabalho deve ser feito numa encruzilhada atendido, voltarei aqui para agradá-la com em T, numa segunda-feira. Você precisará levar o um presente melhor. seguinte: Para terminar, peça licença para sair. Afaste-se 1 pedaço de papel branco com 0 nome da pessoa dando sete passos para trás, vire-se e vá embora. escrito 1 vela bicolor (preta e vermelha) 1 garrafa de cachaça70 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 71 Acaçá amarelo 1 xícara de amido de milho 7 quadrados de folha de bananeira As oferendas para Maria Padilha podem levar acaçás de milho. Os ingredientes são: Misture amido com a água. Leve ao fogo, me- xendo sempre, até engrossar. Coloque uma por- ½ xícara de fubá ção da massa em cada folha e embrulhe como 2 xícaras de água fria uma trouxinha. Azeite de dendê A folha de bananeira deve ser passada rapida- 7 quadrados de folha de bananeira mente no calor do fogo antes de usar, para ficar mais flexível. Misture numa panela 0 fubá, a água e um pou- de azeite de dendê. Leve ao fogo, mexendo Champanhe rosada até formar um mingau. Coloque uma porção da massa em cada folha e embrulhe como uma Esta bebida pode ser servida num copo ou taça trouxinha. ao pé do assentamento de Maria Padilha, ou A folha de bananeira deve ser passada rapida- pode fazer parte de um ebó entregue numa en- mente no calor do fogo antes de usar, para ficar cruzilhada. Os ingredientes são: mais flexível. 1 garrafa de vinho espumante (tipo champanhe) Acaçá branco 1 abacaxi maduro Pétalas de uma rosa vermelha 0 acaçá branco para pombagira, a princípio, não leva temperos. Os ingredientes são: Bata no liquidificador 0 abacaxi com o espu- mante. Passe para uma garrafa e junte as pétalas 2 xícaras de água fria de rosa. Empregue imediatamente.72 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 73 Farofa amarela para Maria Padilha Misture a farinha e 0 mel usando as mãos, sem levar ao fogo. Ponha no recipiente e utilize. Esta farofa é a base das oferendas de comida para O padê pode ser posto no pé do assentamen- essa pombagira. Os ingredientes são: to de Maria Padilha, como oferenda, ou pode ser parte de um ebó junto com outros materiais. 1 xícara de fubá Azeite de dendê Coroa de Maria Padilha 1 cebola crua 1 pratinho de papel ou 1 folha de mamona Esta oferenda é simples mas muito forte. Pode ser dada para fazer qualquer tipo de pedido a Misture fubá com azeite usando as mãos, Maria Padilha. Deve ser entregue numa encruzi- sem levar ao fogo. Ponha no prato ou na folha. lhada, na segunda-feira. O material necessário é Enfeite com a cebola cortada em rodelas. O seguinte: Padê de Maria Padilha pacote de farinha de mandioca Mel Esta é uma comida seca que pode estar presente 7 rosas vermelhas com os cabos inteiros nas oferendas a essa pombagira. Você vai preci- / folha de mamona sar do seguinte: 3 velas bicolores (pretas e vermelhas) garrafa de champanhe 1 xícara de farinha de mandioca / maço de cigarros 1 vidrinho de mel 1 pratinho de papel ou 1 folha de mamona Faça uma coroa com as rosas, trançando os seus cabos em círculo.74 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 75 Misture a farinha com mel para fazer 7 azeitonas pretas ou verdes uma farofa soltinha, sem encharcar. Arrume a fa- / garrafa de champanha rofa na folha e ponha a coroa em cima. 7 rosas vermelhas abertas Se for possível, você pode deixar a oferenda 7 velas bicolores (pretas e vermelhas) diante da imagem na casa da pombagira, de um 7 cigarros dia para o outro. Senão, faça a entrega no mes- / folha de mamona mo dia. Leve tudo ao lugar escolhido. Ponha a folha num dos cantos da encruzilhada. Acenda Misture a farinha com o azeite, sem levar ao fogo. as velas e ponha em volta, formando um triân- Misture os camarões e ponha na folha (ponha-a gulo. Acenda um cigarro e ponha ao lado, com numa tigela para facilitar serviço). Passe bife em os outros apagados em volta. Derrame a bebida azeite de dendê. Ponha por cima da farofa, com a em volta de tudo para salvar Maria Padilha. Faça cebola e as azeitonas por cima. Enfeite com as rosas. seus pedidos, agradeça e vá embora. Leve tudo à encruzilhada escolhida. Ponha a folha com a comida num dos cantos da encruzi- Oferenda grande para Maria Padilha Acenda todos os cigarros, dispondo-os em em torno da folha. Acenda as velas e fixe- Esta oferenda deve ser arriada numa segunda-fei- em volta. Derrame a bebida em volta de tudo, ra, para fazer um pedido à pombagira. O material seus pedidos. necessário é seguinte: Presente para Maria Padilha das Sete Calungas 1 bife de carne fresca 1 xícara de farinha de mandioca Este presente pode ser dado por quem quiser 1 punhado de camarões um pedido a essa entidade. A entrega será Azeite de dendê numa segunda-feira, num cemitério. ma- 1 cebola grande cortada em rodelas necessário é seguinte:76 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 77 1 garrafa de licor de anis uma estrela. Acenda os cigarros e ponha-os em 1 maço de cigarros com filtro círculo no centro, com as pontas acesas para 7 rosas vermelhas abertas fora. Acenda as velas e prenda-as no chão em 7 velas bicolores (pretas e vermelhas) volta. Arrume as rosas formando um círculo em 1 folha de papel de seda preto cima dos papéis. Derrame o licor em volta de 1 folha de papel de seda vermelho tudo, salvando Maria Padilha das Sete Calungas, e faça seu pedido. Chegando na entrada do cemitério, bata pé Para terminar, salve novamente Obaluaiê e três vezes no chão, pedindo licença a Exu Portei- peça licença para ir embora. Vá diretamente para ra, que toma conta da porteira da calunga. Assim a porta do cemitério. Chegando lá, salve nova- que passar do portão, peça licença a Ogum Megê, mente Ogum Megê e agradecendo a ajuda guardião dos cemitérios, para ir ao cruzeiro. Peça e pedindo licença para sair. Antes de passar pelo licença também a que governa os eguns portão, salve Exu Porteira. Então saia, andando (os mortos). de costas para a rua, e vá embora. Vá diretamente para cruzeiro. Chegando lá, vá diante dos quatro lados do cruzeiro e repita Trabalho para Maria Padilha dos Sete Cruzei- de cada vez a saudação de Obaluaiê, dono da ros da Calunga calunga: Faça este trabalho para fazer um pedido em "Atotô!" benefício próprio ou de outra pessoa. trabalho deve ser feito durante sete segundas-feiras. Você Feito isso, escolha um dos lados do cruzeiro para vai precisar do seguinte: arriar presente. Ponha os papéis no chão, um em cima do ou- 7 cigarros tro, com as pontas desencontradas para formar 8 velas brancas78 MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 79 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras 1 pedaço de papel branco Maria Padilha dos Sete Cruzeiros da Calunga, 1 base segura para trabalho eu cumpri que prometi. Agora estou esperan- do que meu pedido seja atendido. Em troca, eu Escolha um lugar no exterior da sua casa para lhe darei um presente melhor. começar trabalho. Se não tiver quintal, pode usar uma varanda ou área aberta. Trabalho para pedir a Maria Padilha que abra Escreva no papel nome da pessoa que deve ser os seus caminhos (ou os de outra pessoa) beneficiada. Coloque o papel na base apropriada. Acenda uma das velas junto dele. Acenda um dos Você pode dar esse presente a qualquer cami- cigarros e ponha-o também ao lado. Ofereça a Ma- nho de Maria Padilha. Se ela for cruzada nas Al- ria Padilha dos Sete Cruzeiros da Calunga, pedindo: mas, o trabalho será feito numa sexta-feira; caso contrário, deverá ser feito numa segunda-feira. O Aceite esse pequeno presente, que vou lhe dar horário será sempre perto da meia-noite, e lo- de coração durante sete semanas. Em troca, cal será uma encruzilhada que fique fora de seus eu lhe peço que me ajude e proteja sempre (ou caminhos habituais, para que você possa ficar ajude e proteja Fulanola diga nome com- algum tempo sem passar no lugar após fazer a pleto da pessoa a ser beneficiada). oferenda. Você precisará levar 0 seguinte: Deixe trabalho no mesmo lugar, sem tirar os 7 velas vermelhas restos da vela e do cigarro. Repita a oferenda nas 7 cigarros segundas-feiras seguintes, usando a cada vez um garrafa de licor de anis dos cigarros e uma das velas. Quando completar as sete semanas, recolha as sobras dos cigarros e Leve todo material à encruzilhada escolhida. despache numa encruzilhada ou num cemitério, Acenda todos os cigarros e ponha-os no chão acendendo a oitava vela e dizendo: formando um círculo. Acenda as velas e arru-84 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 85 1 pedaço de papel branco círculo em volta com as velas e os cigarros, todos 1 pacote de farinha de mandioca acesos. Mel 1 maçã Trabalho para esquentar seu romance 7 rosas vermelhas abertas 1 folha de mamona Peça a Maria Padilha que aumente a paixão e re- 1 garrafa de champanhe nove 0 interesse no seu casamento ou namoro, 7 cigarros dando-lhe este presente numa encruzilhada. O 7 velas brancas material necessário é seguinte: Escreva no papel seu próprio nome e da pacote de argila para artesanato pessoa amada. Ponha o papel sobre a folha de Palitos de dentes mamona. 14 velas bicolores (pretas e vermelhas) Misture a farinha com mel suficiente para fazer 14 rosas vermelhas uma farofa soltinha. Arrume essa farofa em cima 2 garrafas de licor de anis do papel, de modo a cobri-lo bem. Corte a maçã em sete rodelas na horizontal, de Use cerca de um terço da argila para modelar modo a mostrar a "estrela" das sementes. Corte um casal de bonecos que representem você e a as hastes das rosas, deixando só uma pontinha pessoa amada. Com os palitos, desenhe os deta- curta. Arrume as rodelas em círculo sobre a faro- lhes, inclusive os órgãos genitais. Escreva 0 seu fa e faça com as rosas um círculo por fora deste, nome no boneco parecido com você e nome da enterrando os cabinhos na farofa. pessoa amada no outro boneco. Leve todo 0 material para lugar escolhido. Po- Com resto da argila, modele um disco com nha a folha de mamona num dos cantos da en- um buraco no centro, onde caibam os dois bone- cruzilhada. Derrame a bebida em volta. Faça um em pé. Em volta desse buraco, faça um círcu-86 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 87 lo com sete velas, alternadas com sete rosas com lugar ideal para a entrega é numa encruzilhada os cabos cortados (deixe só um pedacinho para em T. material necessário é seguinte: prender na argila). Leve os bonecos, disco com as velas e rosas, / toalha de papel vermelha e preta e uma garrafa de licor, ao lugar escolhido. Ponha 7 velas vermelhas disco num dos cantos da encruzilhada. Ponha garrafa de sidra os bonecos no centro, um de frente para 0 outro, / maço de cigarros e acenda as velas. Derrame o licor em volta do 7 rosas vermelhas disco e faça seu pedido. / kg de carne moída Quando seu pedido for atendido, volte ao Pimenta mesmo lugar, levando as outras sete velas, sete 7 tiras de papel de seda vermelho rosas e a segunda garrafa de licor. Arrume as 7 pratinhos de papel dos mais simples rosas em leque, acenda as velas em volta e der- 7 copinhos de papel dos mais simples rame o licor em volta de tudo, agradecendo a Maria Padilha. Tempere a carne moída e faça com ela sete bo- los crus. Escreva em cada fita, numa das pontas, Para resolver um problema muito complicado 0 seu próprio nome e, na outra, seu pedido. Leve tudo para a encruzilhada escolhida. Abra Quando estiver precisando de toda a ajuda toalha num dos lados do cruzamento e diga: piritual que puder obter para resolver um pro blema muito sério de qualquer tipo, ofereça um ofereço este banquete a Maria Padilha e banquete para Maria Padilha e suas suas companheiras, para que me ajudem a re- ras que, como ela, lideram grandes legiões de solver meus problemas sobre (descreva pro- pombagiras e se apresentam em muitos cami blema). Salve, Senhora Maria Padilha e suas nhos, tanto na encruzilhada como na calunga. companheiras Pombagira Dama da Noite,88 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 89 Pombagira Rosa Vermelha, Pombagira Sete cruzeiro ou junto à porta de um cemitério. O ma- Saias, Pombagira Maria Quitéria, Pombagira terial necessário é 0 seguinte: Cigana e Pombagira Maria Molambo. / pedacinho de uma roupa usada de cada um Acenda a primeira vela para Maria Padilha e (botão, fiapo, etc.) fixe no chão perto da toalha. Perto da vela, po- Linha de costura vermelha nha sobre a toalha uma rosa, um cigarro aceso, Agulha de costura um copinho com sidra e um dos pratos de papel / xícara de fubá com um bolo de carne. Disponha tudo como se / vidrinho de azeite de dendê arrumasse lugar de uma pessoa numa mesa de / folha de mamona refeição. A seguir, faça oferecimento do presen- 7 tiras de papel de seda vermelho te a Maria Padilha e explique que deseja. / garrafa de champanhe Repita o procedimento com as outras velas, 7 rosas vermelhas abertas copos, flores, cigarros e pratos. As velas devem 7 velas vermelhas ir seguindo contorno da toalha, formando um 7 cigarros círculo em volta dela, marcando os lugares na "mesa". Quando terminar de arrumar cada con- Prenda os dois pedacinhos das roupas juntos, junto, ofereça-o a uma das outras pombagiras e costurando-os ou amarrando com a linha. repita o seu pedido, até completar círculo. Misture o fubá com dendê, a frio, e ponha na folha de mamona. Trabalho para unir um casal Leve todo 0 material para o local escolhido. Ponha a folha no chão. Arrume as fitas por cima, Este trabalho se destina a pedir a ajuda de Ma- como raios de uma roda, e ponha os pedaços das ria Padilha para reconciliar um casal, e deve ser roupas no centro. Forme em volta três círculos entregue numa segunda-feira, à meia-noite, no concêntricos: primeiro com as rosas, depois90 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 91 com as velas acesas e por fim com os cigarros 7 rosas vermelhas abertas acesos. Despeje a bebida em volta de tudo. 7 velas pretas 7 cigarros Trabalho para separação Prenda os dois pedacinhos das roupas juntos, Este trabalho se destina a pedir a ajuda de Ma- costurando-os com a linha. ria Padilha para afastar duas pessoas. A decisão Misture fubá com dendê, a frio, fazendo de usá-lo deve ser tomada com muito critério, e uma farofa úmida, e ponha na folha. a magia só deve ser feita se for realmente a me- Leve todo 0 material para o local escolhido. lhor alternativa para duas pessoas que não con- Ponha a folha no chão. Arrume as fitas por cima, seguem se libertar de uma relação prejudicial, como raios de uma roda, e ponha os pedaços das seja ela amorosa, de trabalho, etc. Ele deve ser roupas no centro. Forme em volta três círculos entregue numa segunda-feira, à meia-noite, no concêntricos: 0 primeiro com as rosas, depois cruzeiro ou junto à porta de um cemitério. ma- com as velas acesas e por fim com os cigarros terial necessário é o seguinte: acesos. Despeje a bebida em volta de tudo. 1 pedacinho de uma roupa usada de cada um Trabalho para pedir a Maria Padilha dos Sete (botão, fiapo, etc.) Cruzeiros da Calunga ajuda no casamento Linha de costura preta Agulha de costura Quando um homem está se afastando da vida 1 xícara de fubá familiar por causa de jogo e más companhias, 1 vidrinho de azeite de dendê Maria Padilha dos Sete Cruzeiros da Calunga po- 1 folha de mamona de ajudar para que ele se torne mais caseiro. 7 tiras de papel de seda vermelho Deve ser entregue junto ao cruzeiro de um ce- 1 garrafa de champanha mitério, numa segunda-feira em que a Lua es-92 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 93 teja no quarto crescente. O material necessário 7 acaçás brancos (veja a receita neste livro) é seguinte: / porção de farinha de mandioca Mel 7 botões tirados de uma roupa antiga do homem Azeite de dendê 1 xícara de milho de pipoca Azeite de oliva 1 garrafa de licor de anis Vinho tinto doce 7 rosas vermelhas abertas Champanhe ou sidra 7 velas vermelhas Cachaça 1 folha de mamona Agua 7 tiras de papel de seda vermelho rosas vermelhas velas bicolores (pretas e vermelhas) Para começar, prepare a pipoca sem gordura nem sal. folha de mamona Leve todo material para o lugar escolhido. Ponha a folha no chão e coloque a pipoca em cima. Ponha Pegue sete punhados da farinha e faça com eles OS botões no centro. Enfeite com as fitas e as rosas. farofas diferentes: com dendê, outra Prenda as velas acesas no chão, formando um azeite doce, outra com mel, outra com vi- culo em volta da toalha. Despeje licor em volta. outra com champanha, outra com cachaça Butra com água. Apenas misture os ingredien- Oferenda para Maria Padilha e use apenas 0 suficiente para das Sete Encruzilhadas abrir os caminhos a farinha, sem encharcar. as farofas e os acaçás prontos, comece Esta oferenda deve ser entregue numa encruzi no terreiro ou em casa. Passe cada farofa lhada que fique numa subida. O material neces da pessoa a o trabalho se desti- sário é seguinte: VA dentro da folha de mamona94 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 95 (ponha numa tigela para facilitar). Depois faça Mel mesmo com os acaçás e com as rosas, pondo-os 7 velas vermelhas por cima das farofas. Passe também os outros folha de mamona materiais, mas guarde separadamente. Enquan- to faz isso, vá chamando Maria Padilha e fazendo Corte sete pedaços de papel no formato de pedido. cartões pequenos. Escreva em todos eles seu Feito isso, leve tudo para o lugar da entrega. Po- pedido. nha a folha com as farofas e os acaçás no chão, Corte a maior parte do cabo das rosas, deixan- num dos braços da encruzilhada, no sentido da do um pedaço pequeno, sem espinhos. Enrole subida. Arrume em volta da folha as velas e as ci- cada um dos cartões no cabo de uma das rosas garrilhas acesas. e prenda com uma das linhas, arrematando com um laço. Presente para pedidos de amor Corte a maçã em cubinhos bem pequenos e leve ao fogo para caramelar rapidamente. Re- Entregue essa oferenda numa encruzilhada para serve. Misture a frio a farinha com mel, o quanto fazer um pedido de amor a Maria Padilha. O ma- baste para fazer uma farofa úmida, mas não en- terial necessário é seguinte: charcada, e acrescente a maçã. Coloque a farofa na folha e enfeite com as rosas. Papel de seda branco ou cor-de-rosa Leve tudo para o lugar escolhido. Ponha a ofe- Lápis ou caneta renda num dos ramos do cruzamento e acenda 7 rosas vermelhas meio abertas as velas em volta, oferecendo a Maria Padilha. 7 pedaços de linha vermelha fininha, medindo cerca de 20 cada um 2 xícaras de farinha de mandioca 1 maçã vermelha96 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 97 Trabalho forte para desfazer feitiço pemba vermelha que provocou uma separação 1 vela branca comum Sal grosso Este trabalho se destina a pedir auxílio de Ma- ria Padilha para uma pessoa que foi abandona- Escreva nas costas do retrato o nome completo, da pelo companheiro (ou companheira) pela a data de nascimento e o endereço da pessoa que força de um feitiço. Ele deve ser entregue numa abandonou a que será beneficiada pelo trabalho. encruzilhada em cruz, de preferência que seja Escreva num pedaço de papel os dados da pes- de terra, à meia-noite. material necessário é soa que foi abandonada. Escreva em outro pe- seguinte: daço pequeno de papel os nomes das duas pes- soas que foram separadas pelo feitiço. Escreva o Papel de seda branco nome do homem em todos os cigarros do maço e 1 fotografia do casal que foi separado pelo feitiço nome da mulher nos ovos. Farinha de mandioca Misture um pouco da farinha com azeite de Azeite de dendê dendê para fazer uma farofa úmida; ponha no al- Água guidar, por cima da fotografia do casal. Misture 1 folha de mamona resto da farinha com água apenas suficiente para 21 velas bicolores (pretas e vermelhas) fazer uma massa consistente, que possa ser mo- 1 charuto delada; guarde num pote. 1 maço de cigarros A tábua, a pemba, a vela branca e o sal ficarão 1 garrafa de cachaça em casa. Leve o resto do material para lugar es- 1 garrafa de champanha colhido. 7 ovos Chegando lá, acenda uma das velas bicolores 1 pedaço de tábua para riscar ponto de Maria num dos cantos da encruzilhada para Exu Tran- Padilha ca-Rua das Sete Encruzilhadas, outra em outro98 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 99 canto para Ogum de Ronda, outra no terceiro Repita com o quarto bolo, dizendo: canto para Pombagira Cigana e outra no quarto canto para Maria Padilha das Sete Encruzilhadas. Maria Padilha das Sete Encruzilhadas, faça Ponha a folha de mamona no chão perto dessa com que Fulano(a) volte agora para Fulana(o). quarta vela. Divida a massa de farinha em sete bolos. Pegue um deles, parta no meio com as Repita com o quinto bolo, dizendo: mãos e diga: Maria Padilha das Sete Encruzilhadas, abra Maria Padilha das Sete Encruzilhadas, como os caminhos para que Fulano(a) só pense em eu parto este bolo, una Fulano e Fulana. Fulana(o). Ponha na folha as partes separadas. Repita com sexto bolo, dizendo: Repita com outro bolo, dizendo: Maria Padilha das Sete Encruzilhadas, desfa- Maria Padilha das Sete Encruzilhadas, abra ça trabalho que separou Fulano e Fulana. os caminhos para que Fulano(a) volte agora para Fulana(o). Modele sétimo bolo pondo dentro o papel pequeno com os nomes do casal, e coloque-o in- Repita com 0 terceiro bolo, dizendo: teiro sobre a farofa. Ponha ao lado 0 papel com os dados da pessoa abandonada. Fixe em volta Maria Padilha das Sete Encruzilhadas, faça da folha as outras velas acesas e despeje as duas com que Fulano(a) procure logo Fulana(o). bebidas em volta de tudo. Leve charuto para canto onde salvou Exu. Acenda charuto, dê sete tragadas, chamando Maria Padilha e Exu das Sete Encruzilhadas, e100 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 101 depois ponha-o junto da vela. Volte para perto que seja preferivelmente de terra. O material ne- da folha de mamona, acenda todos os cigarros e cessário é seguinte: ponha-os em fila na frente do trabalho. Pegue os ovos, vire-se de costas para o trabalho Papel de seda branco e vá jogando-os para trás, um por um, dizendo a 7 corações de galinha cada um: 7 morangos maduros e perfeitos 7 rosas vermelhas abertas Maria Padilha das Sete Encruzilhadas, assim 7 velas vermelhas como eu quebro estes ovos, quebre trabalho Mel que separou Fulano e Fulana. Azeite de dendê garrafa de champanhe Vá embora sem olhar para trás. Chegando / frasco de perfume da sua preferência em casa, tome um banho com 0 sal grosso (seu 7 cigarros acompanhante deve tomar também). A seguir, / folha de mamona desenhe um ponto de Maria Padilha na tábua, usando a pemba. Cante um ponto de Maria Pa- Corte sete pedaços de papel. Escreva em cada dilha para firmar ponto riscado e acenda a vela um o nome da pessoa amada. Ponha cada papel branca ao lado. Deixe ponto firmado por 21 dentro de um dos corações de galinha e arrume dias ou até que 0 pedido seja atendido. os no centro da folha de mamona, com os mo- rangos em volta. Regue com o mel e 0 dendê. Tire Ebó para amarração com Maria Padilha as pétalas das rosas e espalhe por cima de tudo. Leve material todo ao lugar escolhido. Ponha Faça esta oferenda para pedir a Maria Padilha a folha num dos cantos da encruzilhada. Dispo- que seu amor fique sempre muito apaixonado nha em volta as velas acesas, enquanto chama por você. Entregue numa encruzilhada em cruz, Maria Padilha e faz seu pedido.102 MARIA PADILHA, Rainha de todas as giras MARIA PADILHA E SUAS MAGIAS 103 Espalhe perfume sobre a travessa e em volta sobre a folha de mamona. Ponha por cima 0 dela. Depois despeje champanhe em volta de coração, apoiado na parte larga e com a ponta tudo. Para terminar, acenda todos os cigarros e para cima. arrume em leque na frente da folha. Leve tudo para lugar escolhido. Ponha a ofe- renda num dos cantos da encruzilhada. Enfeite Presente para pedir que Maria Padilha lhe tra- com as fitas de papel, dispondo-as como preferir. ga um novo amor Ponha em volta da folha as rosas, as velas e as ci- garrilhas acesas. Despeje licor em volta. Faça este trabalho se quer que Maria Padilha des- cubra uma boa pessoa para ser seu amor. Entre- Presente para pedir que Maria Padilha traga o gue numa encruzilhada em T, numa segunda-fei- seu amor de volta ra da lua nova. O material é seguinte: Faça este trabalho se 0 seu amor foi embora e 1 coração de boi inteiro você quer de volta. Entregue numa encruzilha- 1 xícara de farinha de mandioca da em T, numa segunda-feira de lua crescente. O Mel material é 0 seguinte: 1 folha de mamona 7 rosas vermelhas abertas, sem cabo coração de boi inteiro 1 garrafa de licor de anis xícara de farinha de mandioca 7 tiras de papel de seda vermelho Mel 7 velas vermelhas folha de mamona 7 cigarrilhas / pedaço de papel branco 7 rosas vermelhas abertas, sem o cabo Misture a farinha com um pouco de mel, de / garrafa de licor de anis modo a fazer uma farofa soltinha. Despeje-a 7 tiras de papel de seda vermelho