Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

NARCISISMO E CULTURA 
MIDIÁTICA 
AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Isabela Dalle Varela 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Nos conteúdos anteriores, trabalhamos questões referentes ao 
narcisismo, ao Eu Ideal e Ideal do Eu, e ao narcisismo das pequenas diferenças. 
Nesta etapa, discutiremos o Ciberespaço, uma vez que não é possível avaliar o 
impacto da cultura midiática em nossas vidas sem entender melhor o ambiente 
em que ela se desenvolve. 
Vamos, portanto, abordar os aspectos fundantes do Ciberespaço, tais 
como: definição, origem, principais características, evolução e impactos sociais. 
Veremos também questões relativas à fantasia, realidade e identidade; 
relacionamentos virtuais; anonimato na era digital; e, por fim, o ciberespaço 
como um local de prazer (?). 
Vocês podem se perguntar qual a relação disso com a psicanálise… mas 
eu afirmo que tudo o que envolve nossa forma de ser e estar no mundo é 
relevante para a psicanálise. Devemos, portanto, buscar compreender nossa 
realidade e nosso cotidiano para que possamos ter ferramentas que nos ajudem 
a nos conhecer melhor e a ajudar o outro nesse processo. 
Vamos começar? Estão preparados? 
TEMA 1 – ASPECTOS FUNDANTES 
Uma parcela significativa da população passa grande parte do seu dia (e, 
por que não dizer, de sua vida?) diante de uma tela, imersa em um mundo virtual, 
seja devido ao trabalho, aos estudos ou a atividades ligadas ao lazer. 
Independentemente da motivação, vivemos em um espaço virtual que 
possui as mesmas dimensões de um território geográfico real, ou seja, 
econômica, cultural, política e social. Contudo, apesar da ausência de uma 
dimensão física, não podemos falar em fronteiras, embora possamos pensar em 
limites que deveriam proteger (ou pelo menos deveriam) a individualidade e a 
privacidade do sujeito. 
Vamos, portanto, conhecer um pouco mais sobre esse território em que 
vivemos. 
 
 
 
3 
1.1 Definição 
O termo ciberespaço foi utilizado pela primeira vez por William Gibson em 
seu romance de ficção científica, Neuromancer, publicado em 1984. De acordo 
com Silva e Fernandes (2021, p. 213), Gibson usou esse termo para “designar 
um ambiente virtual onde trafegam dados e são feitas relações sociais de forma 
indiscriminada”. 
Nesta mesma linha, os autores apresentam a definição de Pierre Lévy, 
que vê o ciberespaço como um espaço de comunicação aberto pela 
interconexão mundial de computadores, suas memórias e sistemas de 
comunicação eletrônicos, com funções de transferência de dados e upload, e 
troca de mensagens, permitindo a combinação de diversos modos de 
comunicação. Seria um mundo virtual que favorece e promove o 
desenvolvimento da inteligência coletiva (Silva; Fernandes, 2021). 
Para ir além da definição técnica, o existencialismo sartriano oferece uma 
abordagem teórica interessante. Segundo essa perspectiva, o homem é visto 
como produto e produtor de sua realidade, além de fazer parte da história de 
outros homens. 
Sob uma perspectiva sartriana, o ciberespaço seria visto como uma nova 
síntese entre liberdade e facticidade, um resultado da transcendência humana 
que supera limites espaciais, temporais e materiais, proporcionando novas 
formas de existência e interação humanas (Silva; Teixeira; Freitas, 2015). 
1.2 Principais componentes 
Os principais componentes do ciberespaço incluem as redes de 
comunicação, como a internet, sistemas de comunicação eletrônica, a World 
Wide Web (WWW) e diversas plataformas e aplicativos que permitem a interação 
entre usuários. Além disso, o ciberespaço é sustentado por tecnologias como a 
Internet das Coisas (IoT), que conecta dispositivos físicos à rede, e redes sociais 
digitais, que promovem interações sociais e a criação de comunidades virtuais. 
A internet é a base sobre a qual o ciberespaço é construído, mas, além 
dela, ele também é suportado por diversas redes de comunicação locais (LANs), 
metropolitanas (MANs) e amplas (WANs), que formam sua espinha dorsal e 
possibilitam a transmissão rápida e eficiente de dados entre diferentes lugares. 
 
 
4 
Além das redes digitais, o ciberespaço também é integrado pelas 
estruturas físicas, como computadores e servidores, dispositivos móveis 
(smartphones, tablets, entre outros) e a Internet das Coisas (IoT) — que inclui 
eletrodomésticos, carros, câmeras de segurança e sensores — formando a 
ponte entre os mundos físico e virtual. 
Para facilitar a interação entre usuários, sistemas e dados, existem as 
plataformas e aplicativos. Por definição, as plataformas são estruturas digitais 
que fornecem a base sobre a qual aplicativos e serviços podem ser 
desenvolvidos e executados, servindo como ambientes de suporte para o 
desenvolvimento, implementação e operação de software. Já os aplicativos são 
programas de software que executam funções específicas. 
Dada a diversidade e o volume de dados que circulam nesse ambiente, 
sistemas de proteção, diferentes tipos de linguagem e protocolos de 
comunicação, além de tecnologias específicas para transações financeiras, são 
essenciais para garantir sua segurança e eficiência. 
O conteúdo digital é outro componente importante, abrangendo todas as 
formas de informação e dados que circulam, são acessados e produzidos no 
ciberespaço. Ele desempenha um papel central na forma como os usuários 
interagem nesse ambiente. 
Por fim, mas de forma alguma menos importante, estão os usuários. 
Desempenhamos um papel fundamental na manutenção e evolução do 
ciberespaço, interagindo com plataformas, aplicativos e conteúdos digitais, 
criando não apenas redes de relações, mas também trocando informações e 
influenciando o ambiente digital como um todo. Nossas interações, 
comportamentos e contribuições coletivas moldam as dinâmicas sociais, 
culturais e econômicas do ciberespaço. Influenciamos tudo, desde o 
desenvolvimento de novos produtos e serviços até a formação de normas 
culturais e a propagação de movimentos sociais. 
Podemos, portanto, deduzir que, por mais tecnologia envolvida que o 
ciberespaço tenha, na realidade, esse ambiente somos nós. 
1.3 Evolução 
A trajetória do ciberespaço reflete a progressão de uma rede de 
comunicação rudimentar para um espaço altamente sofisticado e essencial na 
 
 
5 
vida moderna, permeando todos os aspectos da sociedade contemporânea. 
Para facilitar essa análise evolutiva, dividiremos a evolução em quatro períodos 
históricos distintos. Vamos fazer uma pequena viagem? 
• Anos 1960–1980: esse período é marcado pelo desenvolvimento das 
primeiras redes de computadores, protocolos de comunicação e pela 
gradual popularização dos computadores pessoais. Nos Estados Unidos, 
durante os anos 60, principalmente em centros militares e de pesquisa, 
foram desenvolvidos projetos de redes que permitiam a transferência de 
dados de forma segura e eficiente entre diferentes sistemas de 
computadores. Nos anos 70, surgiram novos protocolos de comunicação 
que permitiram a conexão de redes diversas. Outro marco dessa época 
foi o desenvolvimento dos primeiros computadores pessoais. Nos anos 
80, cada vez mais pessoas começaram a ter acesso aos computadores 
pessoais, o que fomentou a necessidade de criar um sistema que 
conectasse todos eles. 
• Anos 1990: esse período marca o início da chamada era da internet, 
quando ela deixou de ser uma ferramenta exclusiva de cientistas e 
militares e passou a integrar nosso cotidiano. A World Wide Web 
democratizou o acesso ao conhecimento ao possibilitar a criação de 
diversos sites, oferecendo desde informações básicas até serviços 
comerciais e entretenimento. Nessa década, também surgiram 
plataformas que foram precursoras das futuras redes sociais, a tecnologia 
de banda larga substituiu as conexões discadas e novas formas de 
comunicação foram criadas. 
• Anos 2000: esta época foi marcada por uma transformação significativa 
da internet, que evoluiu de umaplataforma informática para uma 
plataforma mais interativa e colaborativa. Passamos de simples 
consumidores de conteúdo para participantes ativos na criação e 
compartilhamento de informações. Além disso, houve um avanço 
considerável da tecnologia digital, acompanhado de um aumento no 
comércio eletrônico e nos serviços digitais. 
• Anos 2010–atualidade: nossa forma de viver está passando por uma 
mudança significativa, pois estamos cada vez mais imersos na tecnologia. 
Estamos conectados até mesmo quando pensamos que não estamos… 
 
 
6 
Eletrodomésticos inteligentes, relógios, smartphones, iluminação de 
ambientes, termostatos, casas e dispositivos médicos estão cada vez 
mais presentes. Informações obtidas em tempo real pela IoT são 
disponibilizadas e podem ser usadas pela Inteligência Artificial para que 
os sistemas se tornem cada vez mais adaptáveis e eficientes às nossas 
necessidades, aprendendo com os dados que geramos. 
1.4 Impactos sociais 
Não há dúvida de que a evolução tecnológica trouxe impactos 
socioculturais significativos, e, devido ao curto espaço de tempo, nem todos 
esses avanços foram absorvidos de forma positiva. 
O avanço tecnológico possibilitou novas formas de comunicação em 
tempo real e em escala global, ocasionando alterações profundas no modo como 
nos relacionamos, obtemos informações e como essas informações são 
divulgadas. Temos agora um espaço onde todos podem se comunicar sem 
restrições, novas formas de trabalho e relacionamentos. 
A cibercultura é uma força que altera hábitos, valores, costumes e até 
mesmo processos cognitivos. Caracteriza-se por práticas, atitudes, modos de 
pensamento e valores que se desenvolvem à medida que o ciberespaço se 
expande. A velocidade das mudanças tecno-sociais exige uma participação ativa 
dos usuários, configurando uma realidade em constante transformação. Nesse 
sentido, não podemos deixar de ressaltar Castells: 
Se você não se importa com as redes, as redes se importarão com 
você, de todo modo. Pois, enquanto quiser viver em sociedade, neste 
tempo e neste lugar, você terá de estar às voltas com a sociedade de 
rede. Porque vivemos na Galáxia da Internet. (Castells citado por 
Ferreira-Lemos, 2011) 
Sendo assim, vamos aprofundar nossa análise. 
TEMA 2 – FANTASIA, REALIDADE E IDENTIDADE 
No tópico anterior, vimos como a evolução da tecnologia impactou nosso 
modo de ser e estar no mundo. Podemos dizer que, de certa forma, para sermos 
reais, precisamos estar no virtual. E, de certa maneira, alcançamos a 
imortalidade, já que continuamos a existir virtualmente mesmo depois de mortos. 
 
 
7 
Estamos tão imersos no ambiente cibernético que frequentemente a 
fronteira entre off-line e on-line, realidade e fantasia se misturam. Quem sou eu? 
Sou aquela que existe para meus familiares, a que tem um milhão de seguidores, 
ou ainda a que existe em outra plataforma e possui apenas 425 seguidores? Não 
somos a mesma pessoa? Qual é a minha identidade? Precisamos refletir um 
pouco mais sobre isso. 
2.1 Construção da identidade no ciberespaço 
A construção da identidade no ciberespaço é um fenômeno complexo e 
multifacetado que envolve a interação entre autoexpressão, dissociação e a 
flexibilidade do ambiente digital. A possibilidade de adotar múltiplas identidades 
— frequentemente radicalmente distintas daquelas no mundo off-line — é viável 
devido à natureza do ciberespaço, que facilita a dissociação. 
Ferreira-Lemos (2011) afirma que a vida on-line nos permite demonstrar 
características distintas de nós mesmos, já que podemos assumir diferentes 
papéis e funções que, na maioria das vezes, não correspondem à nossa 
realidade. 
No mundo on-line, não apenas temos a permissão de adotar múltiplas 
identidades, mas também de explorar e experimentar aspectos de nós mesmos 
que podem não ser possíveis ou aceitos socialmente no mundo físico. Essa 
liberdade de experimentação pode proporcionar uma forma de satisfação de 
desejos reprimidos, permitindo que vivamos experiências alternativas sem as 
restrições impostas pelo mundo físico. 
Turkle, citada por Ferreira-Lemos (2011), afirma que para muitas pessoas 
a comunidade virtual permite uma expressão mais livre de si, pois, para muitos, 
é o que se vive no “resto da vida”. Entendemos aqui o que a autora quis dizer: 
para muitos, o mundo virtual permite um rompimento do aqui e agora, uma 
mudança de corpos. 
A questão é que muitos podem acreditar que não são responsáveis pelo 
que esse “outro” faz. Nesse sentido, Ferreira-Lemos (2011) nos diz que o 
ciberespaço, especialmente pela possibilidade de anonimato, parece autorizar a 
manifestação da pluralidade e, de forma mais intensa, dos “eus” que nos 
habitam. 
 
 
8 
Podemos pensar, portanto, que a construção da identidade no 
ciberespaço é profundamente influenciada pela possibilidade de adotarmos 
múltiplas identidades e explorar aspectos que são reprimidos no mundo físico 
por meio da dissociação entre presença física e virtual. 
Todos esses elementos, combinados, favorecem a criação de um 
ambiente onde a identidade pode ser fluida, adaptável e frequentemente 
moldada por desejos e fantasias menos aceitos no ambiente off-line. Assim, 
temos não apenas o reflexo, mas também a ampliação das complexidades e 
nuances da identidade humana. 
2.2 Identidade, imagem e representação 
Giovanetti (2002) nos diz que, no contexto da pós-modernidade, a 
identidade se torna fluida e fragmentada, permitindo que os indivíduos 
modifiquem sua autoapresentação de acordo com as circunstâncias ou 
plataformas digitais em que se encontram. 
Essa capacidade de modificação, apesar de proporcionar uma liberdade 
indiscutível, também pode resultar em uma perda de coesão e consistência 
interna. Nesse sentido, Giovanetti (2002) afirma que o foco na autoimagem e na 
adaptação às expectativas externas pode levar à superficialidade e à alienação 
do self autêntico. 
Ao nos depararmos com os outros no meio digital, mesmo sabendo que 
suas representações foram manipuladas, as tomamos como verdadeiras. Assim, 
moldamos cada vez mais nossa própria imagem para nos conformarmos a 
padrões idealizados de beleza, sucesso ou popularidade. 
A partir do momento em que alinhamos nossa imagem com expectativas 
sociais e digitais (e, por que não, com desejos internos?), pode ocorrer uma 
alienação, onde nosso verdadeiro self é relegado a segundo plano. 
Vimos em conteúdos anteriores sobre narcisismo que buscamos 
validação do outro em maior ou menor grau. Nesse contexto de identidades 
digitais, buscamos validação para algo que não existe no mundo off-line. A forma 
como isso reverbera em nossa psique pode ser extremamente complexa: 
sentiremos validação no mundo off-line se obtivermos tal validação no digital (?); 
ou nos anularemos cada vez mais no off-line porque não correspondemos à 
imagem do on-line, que é a validada (?). 
 
 
9 
Não podemos pensar, contudo, que só existem efeitos negativos. A 
possibilidade de criar diferentes representações permite que exploremos 
diversas identidades. Essa liberdade criativa pode auxiliar na construção da 
autoestima e na consolidação de uma identidade mais coesa. 
A construção de uma imagem on-line também pode nos ajudar a encontrar 
outras pessoas e comunidades que compartilhem interesses, valores e 
experiências em comum. Assim, poderíamos desenvolver um senso de 
pertencimento e suporte emocional que, talvez, não encontramos em nossa vida 
off-line. 
2.3 Realidade e fantasia 
Na psicanálise, a fantasia pode ser entendida como uma construção 
psíquica que permite a realização de desejos que não puderam ser 
concretizados na realidade. Tal entendimento baseia-se na compreensão 
freudiana de que as fantasias têm o mesmo efeito sobre os indivíduos que a 
realidade. É nesse momento que Freud abandona sua teoria da sedução em 
favor da teoria da fantasia, valorizando, consequentemente, a realidadepsíquica. 
Ferreira-Lemos (2011) afirma que, no contexto da psicanálise 
contemporânea, a fantasia é vista como uma tela sobre a qual projetamos nossa 
realidade psíquica. Ela não apenas protege o sujeito do vazio real, mas também 
permite a criação de novos significados e objetos de desejo. Dessa forma, a 
fantasia funcionaria como uma maneira de preencher lacunas deixadas pela 
realidade objetiva. 
Corrêa e Deusdedit Júnior (2018), citando Nobre e Moreira, postulam que 
o aparecimento da realidade virtual oferece novas oportunidades à fantasia, uma 
vez que esse ambiente está sempre se atualizando, independentemente das 
barreiras temporais. A fantasia se movimenta por entre os diversos locais do 
ciberespaço, sem os limites físicos e barreiras da realidade material; assim, ela 
se entrega aos mais variados roteiros virtuais, acessando símbolos culturais 
pertencentes a essa nova realidade. 
Entretanto, a capacidade de viver fantasias também pode se tornar uma 
forma de escapismo, na qual o indivíduo se retira da realidade para evitar 
enfrentar problemas, responsabilidades ou emoções desconfortáveis. Essa fuga 
 
 
10 
para o mundo virtual pode resultar em uma desconexão com o self autêntico e 
com as demandas da vida real, reforçando sentimentos de vazio e insatisfação. 
A busca incessante por gratificação imediata e experiências prazerosas no 
ciberespaço pode levar a um ciclo de dependência, no qual o indivíduo se torna 
cada vez mais afastado da realidade, vivendo em um mundo de fantasias que, 
embora confortante, é fundamentalmente insustentável (Giovanetti, 2002). 
2.4 Contradições 
Ao abordar os tópicos anteriores, já discutimos, mesmo que 
tangencialmente, as contradições entre identidade, fantasia e realidade no 
ciberespaço. Vamos, portanto, sintetizar esses pontos para evitar repetições e 
alongamentos desnecessários. 
• Fluidez versus coesão: o ambiente digital permite a adoção de identidades 
diversas, que muitas vezes entram em conflito com a necessidade de um 
núcleo identitário coeso e estável. 
• Imagem Idealizada versus ansiedade: a manutenção de uma imagem ou 
identidade idealizada no mundo digital pode ser estressante, pois a 
exposição é contínua e requer um esforço permanente para atender às 
expectativas desse mundo on-line. Além disso, pode surgir um sentimento 
de inadequação quando o self real não corresponde à imagem idealizada. 
• Ausência de contato físico versus relações interpessoais: a ausência de 
contato físico pode, por um lado, ser benéfica, permitindo que as pessoas 
compartilhem aspectos de si que seriam difíceis no contato face a face. 
Por outro lado, isso favorece a manipulação. A falta de pistas físicas aliada 
à possibilidade de anonimato pode favorecer a construção de identidades 
falsas e desonestas. 
• Liberdade versus conformidade: o ciberespaço é um local onde podemos 
nos expressar mais livremente (ressaltamos que essa liberdade não 
significa agir de forma preconceituosa). Contudo, vemos um espaço cada 
vez maior de conformidade aos padrões sociais estabelecidos, devido à 
dificuldade de atender a esses padrões no mundo off-line. 
• Autenticidade digital versus realidade psíquica: a busca por ser autêntico 
on-line pode levar a uma desconexão do self verdadeiro, criando uma 
 
 
11 
cisão entre a persona digital e o self real. Isso pode gerar um conflito 
interno sobre quem a pessoa realmente é em comparação com quem ela 
se apresenta como sendo. 
TEMA 3 – RELACIONAMENTOS VIRTUAIS 
Outro tema fundamental a ser abordado são os relacionamentos virtuais, 
considerando que passamos uma parte significativa, senão a maior parte, do 
nosso tempo diante de telas, imersos no meio digital e nos relacionando de 
diversas maneiras. 
Antes de desenvolvermos melhor esse conteúdo, devemos esclarecer um 
ponto crucial: a virtualidade. Essa palavra é frequentemente utilizada para 
designar algo que ocorre ou existe “apenas” no meio digital, como se fosse algo 
não real e em oposição à realidade. 
Lévy (2007) afirma que o virtual deve ser compreendido como uma 
realidade em potencial e não deve ser confundido com o falso ou ilusório. O 
virtual é uma parte integral do real, uma dimensão que coexiste com a atual e 
que pode influenciar e moldar a realidade concreta. Segundo ele, a virtualização, 
longe de ser a negação do real, é uma das formas de existência do ser. 
Com essa perspectiva, podemos entender que o virtual possui e produz 
efeitos que concretizam algo e que se tornam realidade para muitos. Portanto, 
abordaremos o tema dos relacionamentos virtuais com isso em mente. 
3.1 Definição e características 
A expressão relacionamentos virtuais refere-se às interações 
estabelecidas entre indivíduos por meio de plataformas digitais, onde a 
comunicação ocorre predominantemente por textos, imagens, vídeos e outros 
formatos de mídia. Esses relacionamentos podem variar de amizades e 
romances a laços comunitários e colaborações profissionais. Suas principais 
características incluem: ausência de corpo físico, flexibilidade e pluralidade de 
identidades, representações e comunidades virtuais. 
• Ausência de corpo físico: o ciberespaço, por ser um espaço não físico, 
permite que as pessoas assumam identidades virtuais, o que pode evitar 
constrangimentos relacionados à aparência física e permitir que se 
 
 
12 
revelem da forma que desejam. Corrêa e Deusdedit Júnior (2018) afirmam 
que isso é particularmente evidente em ambientes como jogos on-line e 
redes sociais, onde os indivíduos podem criar avatares e perfis que 
representam versões idealizadas de si, livres das restrições impostas pelo 
corpo físico. 
O meio digital funciona como um mundo paralelo em que as pessoas 
podem interagir e viver experiências de maneira que está fora das regras 
impostas pelos seus corpos físicos no mundo real. Portanto, essa ausência do 
corpo físico nos relacionamentos virtuais cria um espaço onde as interações 
podem ser moldadas mais pela fantasia e pelo desejo do que pela realidade 
material, o que pode ter efeitos tanto libertadores quanto desafiadores para a 
identidade e as relações humanas. 
• Flexibilidade e pluralidade de identidades: esta é uma das características 
mais marcantes dos relacionamentos virtuais, uma vez que as pessoas 
podem adotar diferentes vidas, gêneros, imagens e personalidades. Além 
dessa flexibilidade em termos de identidade, há também uma flexibilidade 
temporal e espacial: no meio digital, as pessoas podem interagir 
independentemente das barreiras de tempo e espaço, expandindo suas 
relações pessoais e profissionais além das limitações geográficas. 
Ao unir essas formas de flexibilidade e pluralidade, podemos afirmar que 
o ambiente digital viabiliza uma gama de interações e experiências que seriam 
impossíveis no mundo físico. 
• Representações: Corrêa e Deusdedit Júnior (2018), ao citarem Rendeiro, 
fazem uma observação interessante ao afirmarem que o ciberespaço atua 
como um palco onde os eventos ganham representações virtuais, 
transformando cada gesto em evento e cada paisagem em cenário. Essa 
metáfora evidencia como as interações virtuais muitas vezes se baseiam 
em performances cuidadosamente construídas, que podem ou não refletir 
a realidade do sujeito. 
Os autores discutem ainda como as redes sociais oferecem aos usuários 
a oportunidade de criar diferentes narrativas sobre si, mostrando “meias 
verdades” ou até mesmo construindo personagens de acordo com seus desejos. 
A construção de uma imagem idealizada é reforçada pelo feedback recebido nas 
 
 
13 
interações virtuais, como curtidas e comentários, o que pode levar o próprio 
indivíduo a acreditar na imagem que criou (Corrêa e Deusdedit Júnior, 2018). 
• Comunidades virtuais: tais comunidades representam um aspecto 
importante dos relacionamentos no meio digital, permitindo a criação de 
redes de suporte baseadas em afinidades ideológicasou interesses, que 
transcendem as barreiras físicas (Gomes et al., 2015). 
Podemos perceber que essas comunidades podem gerar efeitos positivos 
e negativos. Se, por um lado, a dinâmica de feedback imediato, como curtidas, 
comentários e compartilhamentos, aumenta o engajamento dos membros e 
reforça o senso de comunidade, por outro lado, contribui para a criação de 
“bolhas” ou grupos fechados onde ideias e valores podem ser intensamente 
compartilhados e reforçados, levando à exclusão do diferente (Gomes et al., 
2015). 
3.2 Impactos, vantagens e desvantagens 
Os relacionamentos virtuais estão cada vez mais presentes em nossas 
vidas, sendo, para muitos, a única forma de socialização. A crescente 
dependência de plataformas on-line para comunicação e conexão traz uma série 
de impactos que moldam profundamente a vida social e individual, oferecendo 
tanto vantagens quanto desvantagens. 
É isso que veremos agora. 
• Impactos: os relacionamentos virtuais produzem impactos profundos e 
multifacetados em nossas vidas e na sociedade como um todo. Podemos 
enumerar alguns desses impactos: alteração na construção da identidade, 
mudança na dinâmica das interações sociais, construção da autoestima, 
percepção do tempo e espaço, pressão social e profundidade, entre 
outros. Como já abordamos alguns desses aspectos em tópicos 
anteriores, vamos focar, de forma objetiva, nos dois últimos: pressão 
social e profundidade. 
Uma discussão recorrente é sobre como a pressão social exercida pelas 
redes sociais influencia a construção das identidades e as interações entre os 
indivíduos. Rodrigues, Silveira e Correa (2020) afirmam que, devido à pressão 
 
 
14 
das redes sociais e à necessidade de se sentir integrado ao que é exposto no 
mundo virtual, o sujeito tende a abandonar a produção de um eu autêntico para 
se tornar um reprodutor do que é veiculado. Isso demonstra como a profundidade 
das interações pode ser comprometida, já que as pessoas se concentram mais 
em reproduzir comportamentos populares do que em expressar sua verdadeira 
individualidade. 
Por outro lado, Gomes et al. (2015) destacam que a constante exposição 
nas redes sociais pode levar os indivíduos a uma autoimagem superficial, onde 
a profundidade das relações é substituída pela necessidade de manter uma 
imagem pública atraente. Isso reflete uma forma de interação que, em vez de 
promover conexões profundas, se baseia em um ciclo contínuo de validação 
superficial e performance. 
• Vantagens: as vantagens dos relacionamentos virtuais também foram 
abordadas em outros tópicos. Aqui, pontuaremos duas das principais 
vantagens: a inexistência de fronteiras geográficas e a flexibilidade. 
De acordo com Giordano Filho (2019), os relacionamentos virtuais 
permitem que as pessoas expandam suas redes de contatos, participem de 
comunidades globais e tenham acesso a perspectivas e experiências diversas. 
Eles oferecem a possibilidade de interagir independentemente das fronteiras de 
tempo e espaço, conhecer pessoas e culturas distantes da sua realidade, e 
expandir suas relações pessoais, profissionais e amorosas. 
A capacidade de ultrapassar as fronteiras físicas não apenas enriquece a 
vida social dos indivíduos, mas também contribui para a formação de uma 
comunidade global mais interconectada e consciente das diferentes realidades 
ao redor do mundo. 
A flexibilidade, por sua vez, pode ser compreendida de várias formas: em 
relação ao modo como os indivíduos constroem suas identidades e na 
possibilidade de se conectar com outras pessoas de maneira que se ajuste às 
suas rotinas e compromissos, facilitando a manutenção dos relacionamentos. 
• Desvantagens: os relacionamentos virtuais, embora ofereçam várias 
vantagens, também apresentam desvantagens, como a ausência de 
proximidade física, os enganos, as interações sociais superficiais, a 
alteração da medida de afetos e a superexibição. 
 
 
15 
Diferentemente das interações presenciais, onde a linguagem corporal, o 
toque e outras formas de comunicação não verbal desempenham um papel 
significativo na construção de vínculos emocionais, os relacionamentos virtuais 
são limitados ao uso de textos, imagens e vídeos. Essa falta de proximidade 
física pode levar a um sentimento de desconexão, dificultar a criação de laços 
profundos, viabilizar enganos devido a perfis falsos e alterar a medida de afetos. 
No ambiente virtual, as respostas emocionais podem ser amplificadas ou 
diminuídas, e os sinais de afeto podem ser interpretados de maneira distinta em 
comparação com as interações físicas. Isso pode levar a mal-entendidos e ao 
enfraquecimento dos laços afetivos, pois a comunicação virtual não captura 
totalmente as complexidades emocionais presentes nas interações humanas. 
Finalmente, a superexibição é outra desvantagem dos relacionamentos 
virtuais, caracterizada pela necessidade de constante validação e atenção nas 
redes sociais. Esse comportamento pode levar a uma ênfase excessiva na 
aparência e na imagem pública, ocasionando ansiedade, estresse e uma 
desconexão com o próprio eu autêntico. 
TEMA 4 – ANONIMATO NA ERA DIGITAL 
Um dos aspectos mais característicos do meio digital é a possibilidade de 
anonimato, que permite aos usuários interagir entre si sem revelar sua identidade 
real. Como quase tudo na vida, essa condição pode ter aspectos positivos e 
negativos. A liberdade de expressão e a proteção à privacidade podem ser vistos 
como benéficos, mas esses mesmos pontos, aliados a comportamentos 
antissociais, tóxicos, antiéticos e à dificuldade de responsabilização, podem ser 
interpretados como negativos. 
Sob uma perspectiva psicanalítica, podemos abordar essa temática de 
diversas formas, como desinibição, desindividuação, perda da reflexividade e 
supereu, e é isso que faremos agora. 
Como já discutido, Freud nos diz que o comportamento humano é 
fortemente influenciado por pulsões instintivas, como as pulsões de vida (Eros) 
e as pulsões de morte (Thanatos). Essas pulsões são frequentemente 
controladas pelo Eu e pelo Superego, que mediam as demandas do Isso com as 
exigências da realidade e as normas sociais. 
 
 
16 
• Desinibição: no contexto do anonimato digital, essas barreiras de controle 
se enfraquecem, uma vez que a ausência de uma identidade explícita em 
interações on-line reduz o medo de julgamento social e das 
consequências das ações, facilitando a expressão de desejos e impulsos 
que normalmente seriam reprimidos. Nesse sentido, Machado (2023) 
afirma que, com a redução do medo de julgamento e a ausência de 
repercussões sociais imediatas, as plataformas digitais se tornam 
terrenos férteis para a expressão de desejos reprimidos e 
comportamentos agressivos. 
• Desindividuação: este conceito refere-se à perda da identidade individual, 
que pode ocorrer em ambientes de grupo ou quando as pessoas se 
escondem atrás do anonimato digital. No contexto das redes sociais, essa 
desindividuação pode ser exacerbada pelo anonimato, permitindo que 
indivíduos atuem sem a preocupação com as consequências pessoais, de 
acordo com Machado (2023). Podemos entender que o ambiente digital 
promove uma sensação de invisibilidade, um fator-chave para a 
desindividuação, uma vez que reduz a autoconsciência e a 
responsabilidade moral. Há, portanto, uma maior probabilidade de 
comportamentos desviantes, pois as normas sociais são enfraquecidas e 
o indivíduo sente-se menos responsável por suas ações. 
• Perda da reflexividade: no contexto das interações sociais, a reflexividade 
está relacionada à capacidade do indivíduo de refletir sobre suas ações, 
considerar as consequências delas e ajustar seu comportamento de 
acordo com as normas e valores sociais. No entanto, o anonimato digital 
pode levar à perda dessa postura, resultando em comportamentos 
impulsivos e menos ponderados, muitas vezes com consequências 
negativas tanto para o indivíduo quantopara os outros (Machado, 2023). 
Ainda de acordo com a autora, a perda da reflexividade é exacerbada pela 
natureza instantânea das interações on-line, na qual há pouca ou nenhuma 
pausa entre o impulso de agir e a ação em si. 
• Supereu: como estudado anteriormente, o supereu internaliza as normas 
sociais, os valores morais e as proibições aprendidas durante o 
desenvolvimento, atuando como uma força reguladora e impondo limites 
 
 
17 
ao Isso, que é a fonte dos desejos e impulsos primários. Em outras 
palavras, o supereu age como uma espécie de “juiz interno”, promovendo 
sentimentos de culpa ou vergonha quando uma pessoa considera ou 
realiza ações que violam esses padrões internalizados. 
Quando o supereu é enfraquecido, há uma maior probabilidade de que o 
comportamento se alinhe mais estreitamente com os desejos do Isso. No 
ambiente on-line, isso pode manifestar-se em uma falta de empatia e respeito 
pelos outros, uma vez que as barreiras internas que normalmente impediriam 
tais comportamentos são menos eficazes. 
TEMA 5 – LOCAL DE PRAZER (?) 
Como compreender esse não-lugar? O ciberespaço deve ser visto como 
um local de prazer, onde experimentamos diversas identidades e nos 
manifestamos sem o rígido controle do supereu? Ou é um local onde 
enfrentamos gatilhos variados que podem gerar sentimentos de inadequação, 
ansiedade ou depressão? Vamos explorar essas questões agora. 
5.1 Local de prazer 
O mundo digital oferece inúmeras possibilidades de prazer, desde o 
acesso instantâneo à informação e ao entretenimento até a facilitação de 
conexões sociais que podem proporcionar satisfação emocional e intelectual. 
• Criação de experiências: as experiências digitais são frequentemente 
moldadas pelas preferências individuais e por algoritmos que adaptam o 
conteúdo para maximizar o engajamento e a satisfação. A possibilidade 
de criar e participar dessas experiências gera uma sensação de prazer, 
pois oferece uma forma de escapar da rotina diária e explorar novas 
realidades. 
• Construção de uma (nova) imagem: o ciberespaço permite a criação de 
uma imagem nova ou idealizada de nós mesmos, algo que pode não ser 
possível na vida real. As redes sociais, em particular, são espaços onde 
podemos manipular cuidadosamente nossa aparência, estilo de vida e 
opiniões, projetando uma versão que desejamos ser ou que acreditamos 
ser mais apreciada pelos outros. 
 
 
18 
• Influência e impacto: a capacidade de influenciar as opiniões, gostos e 
comportamentos de outros é uma poderosa fonte de prazer, 
especialmente em um contexto em que likes, compartilhamentos e 
comentários servem como métricas tangíveis de sucesso e aprovação. 
Esse impacto social proporciona um sentimento de poder e relevância, 
alimentando o prazer de ser socialmente relevante e influente, mesmo que 
isso não se traduza em reconhecimento no mundo off-line. 
• Liberação de dopamina, vício e recompensa: a interação com o 
ciberespaço, especialmente em plataformas de redes sociais, está 
fortemente ligada ao sistema de recompensa do cérebro. Cada 
notificação, like ou nova mensagem pode desencadear a liberação de 
dopamina, um neurotransmissor associado à sensação de prazer e 
recompensa. 
5.2 Local de sofrimento 
Embora o ciberespaço ofereça inúmeras oportunidades para a criação de 
prazer, também pode ser um local de intenso sofrimento psicológico e emocional. 
Vamos explorar isso agora. 
• Idealização da vida alheia: essa é uma das principais causas de 
insatisfação e sofrimento, uma vez que as plataformas sociais 
frequentemente apresentam versões editadas e idealizadas das vidas das 
pessoas, criando uma ilusão de perfeição. Os usuários, ao comparar suas 
vidas reais com essas imagens idealizadas, podem sentir-se inadequados 
ou insatisfeitos. O fenômeno das redes sociais incentiva a 
supervalorização da imagem, o que pode levar à insatisfação pessoal 
quando a realidade não corresponde à imagem idealizada apresentada 
on-line, conforme apontado por Gomes et al. (2015). 
• Competição, pressão social, ansiedade, estresse e depressão: a busca 
constante por validação e reconhecimento frequentemente provoca 
competição e pressão social, uma vez que a manutenção da imagem 
idealizada e do estilo de vida atraente se torna uma prioridade. Esse 
contexto pode resultar em adoecimentos graves, tanto devido ao processo 
 
 
19 
de manutenção dessa imagem quanto ao sentimento de inadequação e 
fracasso quando as expectativas não são atendidas (Gomes et al., 2015). 
• Assédio e bullying: essas formas de agressão são facilitadas pelo 
anonimato e pela desinibição proporcionados pelo ciberespaço. As 
vítimas de assédio on-line enfrentam ataques pessoais que podem causar 
danos emocionais profundos, incluindo depressão, ansiedade e, em 
casos extremos, suicídio (Machado, 2023). 
• Uso compulsivo e medo de perder eventos/experiências (FOMO): o uso 
compulsivo do ciberespaço, especialmente das redes sociais, pode levar 
ao desenvolvimento de comportamentos viciantes, onde o indivíduo se 
sente compelido a estar constantemente conectado. Esse comportamento 
pode ser relacionado à liberação de dopamina, resultando em um ciclo de 
vício, onde a busca por recompensas rápidas e fáceis no ciberespaço 
interfere em outras áreas da vida, como trabalho, estudos e 
relacionamentos pessoais, causando deterioração da saúde mental e 
emocional. É importante destacar ainda o fenômeno conhecido como 
FOMO (Fear of Missing Out). Esse fenômeno se refere à ansiedade 
constante de estar perdendo experiências ou eventos importantes que 
outros estão compartilhando on-line. Esse medo pode levar a um uso 
ainda mais compulsivo das redes sociais, na tentativa de se manter 
atualizado e conectado, alimentando um ciclo de estresse e insatisfação. 
• Exposição indesejada: a exposição indesejada, seja por meio de 
vazamento de informações pessoais ou compartilhamento não autorizado 
de conteúdo íntimo, é uma fonte significativa de sofrimento no 
ciberespaço. Essas violações da privacidade podem ter consequências 
devastadoras para a vida pessoal e profissional da vítima, gerando 
sentimentos de vergonha, humilhação e impotência (Machado, 2023). 
• Distorção da realidade: esse fenômeno ocorre devido às representações 
idealizadas e selecionadas da vida que as pessoas criam on-line, gerando 
frustração e sofrimento. A idealização e a distorção da realidade nas redes 
sociais podem criar uma dissonância cognitiva que afeta severamente a 
saúde mental dos usuários (Gomes et al., 2015). 
• Dependência de validação: os usuários podem se tornar obcecados pelo 
feedback que recebem on-line, baseando sua autoestima e felicidade na 
 
 
20 
quantidade de likes e comentários que suas postagens geram. Isso pode 
criar um ciclo de dependência emocional, onde o valor pessoal é medido 
por indicadores superficiais de aprovação social, gerando insatisfação e 
ansiedade quando essas expectativas não são atendidas (Gomes et al., 
2015). 
• Isolamento social: apesar do ciberespaço oferecer conexões 
aparentemente infinitas, ele também pode levar ao isolamento social. A 
dependência das interações on-line pode diminuir a qualidade e a 
quantidade das interações face a face, resultando em sentimentos de 
solidão e desconexão, e contribuindo para o distanciamento dos 
relacionamentos reais e significativos (Gomes et al., 2015). 
NA PRÁTICA 
Vamos agora examinar um recorte clínico sobre como somos afetados em 
vários níveis no meio digital. Ressaltamos que todos os dados e nomes foram 
alterados para preservar a privacidade e a confidencialidade. 
Luciana (analisanda): Tenho vários compromissos este final de semana. 
Mariana (psicanalista): Tem? 
Luciana: Sim… Mas não poderei ir em nenhum deles. 
Mariana: Não poderá? 
Luciana: São amigos da internet… E eles não podem saber como sou de 
verdade. 
FINALIZANDO 
Vivemos em uma época cheia de contradições,não é mesmo? Estamos 
em um mundo físico, mas também habitamos um território imaterial que não 
podemos simplesmente chamar de virtual, pois é real de diversas maneiras. 
Compreender esse mundo digital é fundamental para a psicanálise, pois 
ele nos oferece novos desafios e oportunidades de entendimento sobre a 
condição humana. Devemos, portanto, continuar explorando as nuances desse 
espaço, sempre atentos aos efeitos que ele tem sobre nós e sobre aqueles que 
buscamos ajudar. 
 
 
21 
Agora, cabe a cada um de nós refletir sobre como essas questões se 
manifestam em nossas próprias vidas e práticas clínicas. Lembremos que o 
ciberespaço, apesar de ser um mundo repleto de inovações e possibilidades, 
também carrega contradições e armadilhas que precisamos compreender e 
manejar com cuidado. 
 
 
 
 
22 
REFERÊNCIAS 
CORRÊA, D. R.; JUNIOR, M. D. Perfis fakes, avatares e exibicionismo virtual: o 
ciberespaço sob a lente da teoria psicanalítica freudiana. Pretextos – Revista 
da Graduação em Psicologia da PUC Minas, v. 3, n. 6, p. 541-559, set. 2018. 
Disponível em: 
. 
Acesso em: 29 ago. 2024. 
FERREIRA-LEMOS, P. do P. Navegar é fantasiar: relações virtuais e psicanálise. 
Psico, v. 42, n. 1, p. 59-66, jan./mar. 2011. Disponível em: 
. Acesso em: 
29 ago. 2024. 
GIORDANO FILHO, G. Melancolia e narcisismo na contemporaneidade das 
selfies. Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul, 2019. Disponível em: 
. Acesso em: 29 ago. 2024. 
GIOVANETTI, J. P. Pós-modernidade e o vazio existencial. In: CASTRO, D. S. 
P.; POKLADEK, D. D.; ÁZAR, F. P.; PICCINO, J. D.; JOSGRILBERG, R. S. 
(Orgs.). Existência e Saúde. São Bernardo do Campo: FENPEC/UMESP – 
SOBRPHE, 2002. p. 91-100. 
GOMES, J. F. et al. Selfie: o espetáculo do narcisismo. In: Estudos 
Interdisciplinares da Comunicação do Intercom Sul, jun. 2015. Disponível 
em: . 
Acesso em: 29 ago. 2024. 
LÉVY, P. O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 2007. 
LIMA, N. L. O fascínio e a alienação no ciberespaço: uma perspectiva 
psicanalítica. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 58, n. 2, p. 38-50, dez. 
2006. Disponível em: 
. Acesso em: 29 ago. 2024. 
 
 
23 
MACHADO, K. S. O anonimato nas relações digitais e direitos de personalidade. 
Ciências Sociais, v. 27, n. 122, mai. 2023. Disponível em: 
. Acesso em: 29 ago. 2024. 
MONTEIRO, S. D. O ciberespaço: o termo, a definição e o conceito. Revista de 
Ciência da Informação, v. 8, n. 3, jun. 2007. Disponível em: 
. Acesso em: 29 ago. 2024. 
RODRIGUES, A. P. G.; SILVEIRA, L. R.; CORREA, C. A. Internet, narcisismo e 
subjetividade: reflexões sobre a constituição do sujeito na/pela rede social. 
Psicanálise & Barroco em Revista, v. 18, n. 1, p. 132-149, jul. 2020. Disponível 
em: . 
Acesso em: 29 ago. 2024. 
SILVA, D. M. da; FERNANDES, V. Ciberespaço, cibercultura e metaverso: a 
sociedade virtual e território cibernético. Revista Humanidades e Inovação, v. 
8, n. 67, dez. 2021. Disponível em: 
. 
Acesso em: 29 ago. 2024. 
SILVA, T. da; TEIXEIRA, T. de O.; FREITAS, S. M. P. de. Ciberespaço: uma 
nova configuração do ser no mundo. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 21, n. 1, 
p. 176-196, jan. 2015. Disponível em: 
. Acesso em: 29 ago. 2024. 
SOUZA, S. B.; SIMÃO, A. M. V.; CAETANO, A. P. Cyberbullying: percepções 
acerca do fenômeno e das estratégias de enfrentamento. Psicologia: Reflexão 
e Crítica, v. 27, n. 3, p. 582-590, 2014. Disponível em: 
. Acesso em: 29 ago. 2024.

Mais conteúdos dessa disciplina