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ESCRITA 
LITERÁRIA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
 > Reconhecer o novo panorama imposto à literatura no mundo contemporâneo.
 > Examinar as diferentes formas de construção dos textos nas mídias.
 > Investigar as possibilidades do texto literário como hipertexto.
Introdução
Na contemporaneidade, a escrita literária precisou se adaptar aos novos supor-
tes trazidos pela tecnologia da internet, como e-books, sites, blogs, podcasts, 
vídeos e redes sociais. O livro físico ainda permanece, bem como os audiolivros, 
mas os autores hoje precisam estar atentos aos seus públicos, oferecendo 
possibilidades tanto para os amantes da materialidade do livro impresso 
quanto para os mais conectados, que preferem a leitura nos ambientes virtuais. 
A construção dos textos será diferente de acordo com o suporte escolhido. 
Não só a diagramação textual varia, mas também a abordagem do assunto, 
a intertextualidade e a utilização de hipertextos e de links, que expandem o 
conteúdo explorado pelos autores e apresentado aos leitores.
Neste capítulo, vamos apresentar os desafios de um novo panorama imposto à 
literatura no mundo contemporâneo. Detalhadamente, vamos examinar as formas 
de construção dos textos nas mídias e investigar as possibilidades de se trabalhar 
o texto literário como hipertexto.
Escrita criativa e 
multimodalidade
Elisa Lima Abrantes
Panorama imposto à literatura no mundo 
contemporâneo 
Sabe-se que a literatura não é um retrato da realidade, mas uma recriação 
da realidade, ou a criação de novas realidades, de modo que o texto lite-
rário é assim classificado a partir da forma como os temas são abordados. 
Além do aspecto da literariedade, a sua valorização qualitativa se baseia 
em parâmetros de controle editorial: históricos, políticos, sociais, religiosos 
e mercadológicos. Durante muito tempo, a criação dos textos literários de-
pendia de impressões das obras patrocinadas por instituições e editores, ou 
de impressões independentes, que circulavam a partir do esforço dos seus 
autores em distribuir e vender os seus exemplares. Com o avanço tecnológico 
e a acessibilidade e popularidade dos meios digitais, a produção e divulgação 
de textos literários no espaço virtual foi facilitada, já que não acarretam custos 
significativos e não há controle editorial para se publicar uma obra em sites 
ou blogs. O autor interessado em divulgar a sua obra pode escrever um blog 
ou um site pessoal, ou publicá-la em sites especializados. 
Essa liberdade ilimitada de produzir e divulgar literatura democratiza 
esses processos e dá visibilidade aos autores, que, muitas vezes, chamam 
a atenção da crítica especializada e passam a ter as suas obras publicadas 
também no suporte impresso. O mercado editorial, por sua vez, passa a 
oferecer versões digitalizadas dos livros impressos, cuja venda se popula-
rizou com os e-readers, tablets e celulares. Como a obra digitalizada pode 
migrar para diversas plataformas e misturar-se a outros textos e imagens, 
com ferramentas simples, existe uma convergência entre a cultura literária 
e a cultura das mídias. Por outro lado, a escrita e publicação no computador 
exibe apenas a versão final de um documento, perdendo-se as notas marginais 
feitas pelo autor nos seus manuscritos. Essa questão de uma modificação 
do próprio processo criativo do autor a partir de parâmetros impostos à 
literatura contemporânea traz reflexões importantes a respeito do que é ser 
autor e leitor no ciberespaço. A quase obrigatoriedade de um autor usar as 
redes sociais, manter sites e blogs, e participar de eventos on-line revela a 
pressão que é sentida pelos escritores para que se atualizem com o mundo 
digital, sob pena de serem esquecidos caso resistam a ele.
A interação nas mídias sociais aproxima autores do seu público, e per-
cebemos um interesse maior por clubes de leitura, entrevistas e grupos de 
bate-papo na internet. Esse interesse, atualmente, foi bastante ampliado com 
a modificação das relações de trabalho e de estudo e pelo fato de grande 
parte das livrarias terem fechado desde o início da pandemia de Covid-19 no 
Escrita criativa e multimodalidade2
ano de 2020. A pandemia modificou tendências de consumo, e, com as livrarias 
fechadas por conta das medidas restritivas, o canal digital de vendas cresceu 
bastante, de maneira rápida. Livros eletrônicos e audiolivros ganharam espaço, 
bem como as lives com escritores, professores de literatura, blogueiros e 
youtubers que escrevem e tratam dos assuntos leitura e escrita e os clubes 
de leitura, como noticiado pela CNN Brasil em março de 2021 (VITORIO, 2021). 
O ciberespaço, que é o espaço virtual em que as pessoas, mediadas por 
computadores, se conectam a uma rede mundial (internet), permite que as 
pessoas interajam em tempo real nos mais diversos espaços geográficos. 
Criaram-se conexões e relacionamentos, fundando-se um espaço de sociabi-
lidade virtual. Esse espaço é a cibercultura, definida como “[...] um conjunto 
de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, atitudes, modos de pen-
samento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do 
ciberespaço” (LEVY, 1999, p. 17). E de que forma os textos literários e os autores 
se relacionam com essa nova realidade de livros e leitores, já que, nesse 
contexto, a leitura tem sido amplamente discutida, pois transformaram-se 
os modos de ler e as relações com a escrita? 
Para começar, devemos pensar no leitor, que lerá uma narrativa em meio 
digital e precisará interagir ativamente com esse texto para decidir que 
caminho seguir, escolhendo entre as opções disponíveis por meio de hiper-
links. No ciberespaço, o leitor pode desenvolver leituras não lineares por 
meio de links, que permitem a leitura de diversos textos ao mesmo tempo. 
Por intermédio do hipertexto, é possível fazer várias leituras instantâneas 
em tempo real. Nesse contexto, cabe ao leitor aprender a usá-las da melhor 
maneira para que não perca o foco do raciocínio e não fique sobrecarregado 
de informações. O autor, por sua vez, pode usar o hipertexto para expor a sua 
criatividade produzindo trabalhos de forma lúdica e utilizando recursos que 
a rede oferece, como som, imagem e movimento, além de ter seus trabalhos 
divulgados rapidamente. 
A multimodalidade presente na literatura contemporânea, com lin-
guagens sonoras, visuais e até mesmo tácteis, exige do leitor um tipo 
de letramento, multimodal e digital, para que interaja e explore as possibilidades 
expressivas de diferentes semioses (sistemas de signos). Essa necessidade de 
letramento está contemplada nos documentos que regem o sistema educacional 
brasileiro, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Escrita criativa e multimodalidade 3
Com relação à divulgação, a rede facilita bastante. Um autor pode, por 
exemplo, criar um portifólio, ter uma página própria na internet (site), com 
textos literários, ensaios, poemas, fotos, imagens, sons, dados biográficos e 
links para as suas redes sociais e blog, por onde pode interagir com os seus 
leitores. Por meio do próprio site, ou sites de comércio eletrônico, o artista 
pode vender os seus trabalhos. Diante da realidade de um espaço virtual, 
o ciberespaço, e das novas possibilidades de escrita, como o hipertexto, vimos 
surgir um novo perfil, muito democrático, tanto do leitor quanto do escritor. 
O hipertexto lança a possibilidade de quebrar paradigmas das desigualdades a 
partir do momento que os usuários estão conectados e todos que têm acesso 
à rede podem acessar uma gama de textos e informações. Alguns autores 
contemporâneos, por sua vez, podem não estar no cânone literário, mas têm 
obras riquíssimas, que têm muito a oferecer e contribuir com a formação de 
novos leitores. Assim, leitores e autores se encontram no ciberespaço muito 
mais facilmente do que o tempo devido entre a produção e a circulação de 
uma obra no modelo físico tradicional. 
Na literatura recente, uma nova geração de escritores passou a lançar 
os seus escritos na rede, seja paratrocar experiências, seja como forma de 
expressão ou difusão de informação. Além disso, qualquer cidadão pode 
criar um blog ou um site e escrever e ler o que outros escrevem, compartilhar 
textos, fotos, ou seja, produzir conteúdo, compartilhá-lo e, em poucos se-
gundos, torná-lo visível em todo o mundo. Não devemos esquecer, contudo, 
que muitos leitores não têm acesso à rede, pois, ainda que os dispositivos 
móveis sejam amplamente utilizados por todas as camadas da população 
brasileira, o acesso aos dados e a possibilidade de leitura nesses dispositivos 
nem sempre é possível, o que faz permanecer ainda certa desigualdade em 
relação à possibilidade de leitura no ambiente digital.
O livro físico é mais um formato, dividindo espaço com os arquivos em 
PDF (do inglês portable document format), legíveis por smartphones, tablets, 
laptops e inúmeros leitores digitais. A leitura ocorre, portanto, sob diferentes 
perspectivas e plataformas. Quando lemos em meio eletrônico, realizamos 
múltiplas conexões hipertextuais, fazendo entrecruzamentos diversos. Não 
se pode mais dissociar escrita literária de ferramentas do ciberespaço. Para 
Munari (2012), a internet é uma ferramenta de universalização da leitura e 
da literatura, e o leitor pode acessar diferentes materiais e navegar fontes 
de informação distintas. A prática da leitura também foi facilitada com os 
smartphones, dispositivos móveis que permitem a leitura em diversos mo-
mentos e locais, conquistando um maior número de adeptos, o que expande 
os ambientes tradicionais de leitura, como bibliotecas e livrarias, que passam 
também a fazer parte das redes sociais. 
Escrita criativa e multimodalidade4
As redes sociais consistem na união de pessoas ou organizações que 
compartilham os mesmos valores e interesses (perfis), sem estarem 
condicionadas a uma estrutura hierárquica, presente em diferentes espaços. 
As redes, então, compreendem a conexão e a interação on-line de pessoas 
no espaço virtual, com troca de mensagens e compartilhamento de conteúdo 
multimídia. São exemplos de rede o Facebook, o Youtube, o Twitter, o Instagram 
e o WhatsApp. Os algoritmos utilizados na programação dessas redes nos fazem 
receber conteúdos com ideologias semelhantes às nossas, de acordo com o que 
expomos na mesma rede.
Os autores contemporâneos utilizam as redes também para publicar 
as suas obras, e até mesmo o Twitter, com a sua limitação de caracteres, 
antes 140, e agora 280, é usado para difundir a minificção e os microrrelatos, 
atraindo um público leitor diversificado, adepto da dispersão, multifuncio-
nalidade e imediatismo. O texto fica exposto como em um mural público, 
e os leitores reagem a ele, expressando A sua visão. A maioria dos usuários do 
Twitter não é formada por escritores reconhecidos na cena cultural, e, nessa 
rede, desenvolvem uma produção independente, desvinculada de qualquer 
limitação burocrática do meio literário. Essa situação tende a se modificar, 
já que alguns nomes conhecidos do grande público já podem ser localizados 
no Twitter. Escrever nessa rede demonstra o apagamento das fronteiras que 
separam as funções de escritor e de leitor. Quanto à concisão necessária a 
uma publicação desse tipo, não devemos nos esquecer de que narrativas 
curtas, de linguagem essencial, não são novidade, já que a poesia haicai, por 
exemplo é milenar. A ela, somam-se breves contos de fadas, fábulas e lendas. 
Para concluir, é importante ter em mente que o escritor contemporâneo é 
diferente da figura distante e cultuada do passado. Hoje, o seu perfil é seguido 
nas redes, o leitor e o autor expressam as suas opiniões sem intermediários 
e o próprio leitor pode se aventurar na escrita literária, sem maiores preo-
cupações. Vivemos um tempo de experimentações no campo literário, com 
mudanças nos modos de produção e consumo de literatura com a mediação 
das tecnologias digitais.
Escrita criativa e multimodalidade 5
Para se conhecer um pouco mais da literatura mediada pelas redes 
sociais, vale a pena conferir o que pensam os escritores que utilizam 
esses recursos para publicar e interagir com seus leitores. Acesse o YouTube e 
assista ao vídeo “Mesa 7: O consumo da literatura mediado pelas redes sociais”, 
que exibe a mesa interativa da Feira do Livro da Universidade Estadual de Feira 
de Santana (UEFS).
Formas de construção dos textos nas mídias
A literatura digital é aquela que nasce nesse formato. Textos inicialmente 
impressos não se configuram como literatura digital ao serem convertidos 
para o suporte digital. A construção dos textos nas mídias exige planejamento 
e execução no meio virtual. Para a crítica literária estadunidense Katherine 
Hayles (2009), a literatura digital é um objeto digital criado em um computador. 
Além disso é híbrida, por ser composta de elementos gráficos do livro impresso 
e, também, de animações, artes digitais, entre outros. Ou seja, para Hayles 
(2009, p. 22), a literatura digital engloba “[...] trabalhos artísticos criativos que 
interrogam os contextos, as histórias e as produções de literatura, incluindo 
também a arte verbal da literatura propriamente dita”. 
Depreende-se, portanto, que a literatura digital precisa de formas e es-
tratégias que se adequem ao ciberespaço. Veja as definições das novas 
formas de publicação de literatura presentes no “Manifesto Literatura Digital”, 
do site Literatura Digital:
Manifesto Literatura Digital
1 — A Literatura Digital é aquela obra literária feita especialmente para mídias 
digitais, impossível de ser publicada em papel.
2 — A Literatura Digital busca criar uma nova experiência de leitura para o usuário.
3 — A Literatura Digital requer um novo tipo de texto e de autor.
4 — Por literatura, entende-se a arte da palavra; portanto, um projeto de literatura 
digital deve conter texto. Não ser um projeto de literatura digital não é ser melhor 
ou pior, apenas outra coisa, como video-arte.
5 — A Literatura Digital é um novo gênero literário, não substituindo os gêneros 
da literatura tradicional em papel ou e-book.
6 — A Literatura Digital pode ser multimídia, hipertextual, colaborativa, etc., mas 
não é necessário que todos os recursos sejam usados simultaneamente.
7 — A Literatura Digital pode ser encarada como uma ferramenta para incentivar 
a leitura em ambientes digitais. Não queremos que um usuário largue um livro 
para ler literatura digital, e sim que ele largue por 10 minutos seus joguinhos ou 
redes sociais e leia um projeto de literatura digital.
Escrita criativa e multimodalidade6
8 — Livro digital não é livro digitalizado; confundi-los seria o mesmo que filmar 
uma peça de teatro e chamar isso de cinema.
9 — A Literatura Digital é uma atividade lúdica, mas não é um jogo, pois num jogo 
o “objetivo principal é antes de mais nada e principalmente a vitória” (vide Homo 
Ludens, de Huizinga).
10 — Substitui-se aqui o conceito de livro pelo conceito de obra, entendido como 
“um objeto dotado de propriedades estruturais definidas, que permitam, mas 
coordenando-os, o revezamento das interpretações, o deslocar-se das perspectivas” 
(vide Obra Aberta, de Umberto Eco) (LITERATURA DIGITAL, [20--?], documento on-line).
A ciberliteratura constitui um texto considerado literário que é disponi-
bilizado em meio digital. Um exemplo é a cibernarrativa. Esse tipo de narra-
tiva, construída no ciberespaço, que não se desdobra de forma convencional, 
mas que recorre aos mais variados recursos tecnológicos, tecendo, na rede, 
um mosaico literário completamente original, compõe o que hoje se conhece 
como cibernarrativa, ou narrativa hipertextual. Conforme Tiphaine Samoyault 
(2008), trata-se de uma espécie de texto fragmentário e infinito. Assim como 
a escrita de um roteiro de televisão ou de cinema, ou, ainda, de uma peça de 
teatro, esses textos são diferentes de um romance ou poema, cujo suporte 
é o livro físico. Cada gênero, então, será elaborado com recursos próprios, 
que possibilitam interações diferenciadas. Assim, enquanto a peça teatralpode ser apresentada por meio de gestos, palavras, expressões fisionômicas, 
sons, figurino, entre outros, as cibernarrativas, no contexto interativo, tam-
bém têm elementos específicos. A linguagem e os recursos hipermidiáticos 
disponíveis nas redes se ajustam bem às obras criadas no ciberespaço e ao 
perfil dos seus leitores.
Para narrar histórias no espaço virtual, deve-se atentar para a arquitetura 
da linguagem e a possibilidade de conexão com os internautas, que podem 
intervir no debate sobre a construção da obra, oferecendo algum tipo de 
cooperação ao texto virtual. Além disso, o próprio mecanismo de leitura 
é modificado com o uso do hipertexto, que direciona o leitor para outro 
documento ou site da internet, escrito pelo próprio autor ou por outros, 
explorando-se a leitura multilinear de uma narrativa. O leitor é convidado 
a interagir com essa criação lúdica, podendo escolher os caminhos a seguir 
na construção da trama virtual. Muitas vezes, desvia-se do caminho original, 
o que lhe dá um status de coautor, como acontece no romance Terminal, de 
Flavio Komatsu (KOMATSU, 2017).
Em todas as narrativas, lineares ou não, em suportes físicos ou virtuais, 
o autor estrutura o tempo em uma configuração em que os fatos aparecem 
ordenados de certa forma, a fim de expressarem um determinado sentido. 
No entanto, as narrativas só se completam com o leitor, que enfrenta o texto e 
Escrita criativa e multimodalidade 7
a organização narrativa sugerida, preenche os vazios do texto e o reconfigura 
segundo a própria percepção, em uma relação de intersubjetividade. Portanto, 
em alguma medida, para que a narrativa se efetive plenamente, existe um 
nível de contato entre autores e leitores. Assim, a experiência do leitor na 
construção de significados de um texto na narrativa convencional é bastante 
ampliada no ciberespaço, em que o internauta pode navegar, por meio dos 
hipertextos, nas diferentes arquiteturas de significados, enriquecendo a sua 
leitura da cibernarrativa.
No ciberespaço, a linguagem deve ser mais breve, clara e direta. Em su-
portes como blogs e redes sociais, configura-se como uma espécie de escrita 
oralizada, em tom mais próximo do leitor. A linguagem da literatura nas redes 
se mescla a outras linguagens, dialogando com imagens, sons e vídeos, 
e gerando conteúdos atraentes e plenos de sentido. Essa linguagem plural 
não busca substituir o livro impresso, mas atender a uma necessidade do 
momento histórico contemporâneo. Não se trata de uma transposição de um 
tipo de suporte para outro, como no caso dos e-books, mas de narrativas que 
já nasceram levando-se em consideração os recursos tecnológicos disponíveis 
na rede e o público de internautas a que se destina. A cibernarrativa é uma 
nova maneira de se contar histórias, por meio de ressignificações geradas 
a partir de múltiplos pontos de vista e ordenação do enredo, a partir das 
escolhas do leitor.
O processo de leitura das cibernarrativas também difere das narrativas 
impressas no aspecto da intertextualidade, que é a presença de um texto 
dentro do outro. Isso porque, nas narrativas digitais, os hipertextos, que são 
palavras do próprio texto que têm um hiperlink, quando clicados, possibilitam 
entrecruzamentos de textos que podem ter sido escritos por autores dife-
rentes. As decisões do leitor ao buscar novos dados sobre o que está lendo 
traz essas novas informações, que também tratam do assunto em questão. 
Embora, na literatura impressa, esse processo de busca também possa ocorrer, 
nela ele se dá de forma autônoma ou independente, pelo leitor, que procura 
por outros textos para, por exemplo, compreender melhor o que leu ou para 
buscar referências mencionadas naquele livro. 
Concluindo, o ciberespaço propõe um novo tipo de arte, com outra lin-
guagem e convenções adaptadas às inovações tecnológicas. Com relação 
à autonomia do leitor, destacamos o acesso simultâneo a vários textos, 
o controle do tempo de leitura, a escolha do nível de colaboração para a 
leitura e a interpretação do texto. Quanto à atividade criativa do autor, 
a literatura digital exige uma mudança de postura, com novas possibilidades 
de expressão e formas de acesso. 
Escrita criativa e multimodalidade8
A literatura digital não deve ser confundida com aquela que foi 
digitalizada. A primeira surge inteiramente no meio digital, com uma 
poética própria, que é baseada, sobretudo, na hipertextualidade. A segunda 
sofreu um processo de transposição do meio real para o virtual, como no caso 
dos livros eletrônicos (e-books). No caso da literatura digitalizada, a poética 
da obra original não é modificada. 
Texto literário como hipertexto
O termo “hipertexto” foi cunhado por Theodor H. Nelson em 1965, em uma 
comunicação apresentada à Conferência Nacional da Association for Com-
puting Machinery, nos Estados Unidos. Trata-se de uma forma não linear de 
apresentar o texto, uma espécie de texto em paralelo, dividido em unidades 
básicas, que estão ligadas por elos conceituais, como uma rede. A hipertex-
tualidade é o que confere esse caráter de rede para os produtos literários 
que emergem no meio virtual. Esse princípio permite que um texto resgate 
outro de forma rápida e instantânea.
Quando converge com a literatura, o hipertexto é denominado hiperficção. 
Trata-se de um texto que funciona como um labirinto com várias bifurcações, 
permitindo que o leitor, dentro de uma narrativa inicial, realize escolhas 
durante a sua leitura, clicando ou não em hiperlinks previamente escolhidos 
pelo autor, propiciando variadas sequências narrativas. Dessa forma, cada 
leitor cria a sua própria história. A participação do leitor é ativa, possibilitando 
que ele escolha o destino dos personagens e, também, contribua na escrita 
da sequência da história.
Esse conceito de hiperficção pode ser estendido ao meio impresso, como 
As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino (1972), e O jogo da amarelinha, de Julio 
Cortazar (1963), além da série infanto-juvenil de livros-jogos dos anos 1980, 
publicada pela Ediouro, Escolha sua aventura. Essa série funcionava da se-
guinte maneira: no final de alguns capítulos, o autor apresentava escolhas que 
o leitor deveria fazer e o número da página a que o leitor deveria ir se tomasse 
aquela decisão. Por sua vez, o romance experimental O jogo da amarelinha 
pode ser lido de duas maneiras. A primeira de forma linear, do capítulo um 
ao 56, desprezando-se a leitura dos capítulos prescindíveis. A segunda, que 
desafia o leitor a participar da construção da narrativa, faz uso dos capítulos 
prescindíveis, iniciando no capítulo 73 e tendo a sua ordenação indicada ao 
final de cada capítulo, dando movimento ao jogo proposto pelo autor. 
Escrita criativa e multimodalidade 9
Em Cidades invisíveis, Calvino cria um diálogo fictício entre o navegador 
Marco Polo e o imperador mongol Kublai Khan, em que o aventureiro des-
creve com detalhes impossíveis várias cidades sob o domínio do imperador. 
A narrativa é estruturada por pequenos textos formados pelos relatos de 
viagem de Marco Polo e os diálogos entre o imperador e o viajante. As cidades, 
ao todo 55, todas com nomes femininos e divididas em grupos, desafiando 
a geografia, os conceitos de tempo e de espaço, são cidades arquetípicas da 
memória, do imaginário, de emoções e de magia, construídas por palavras, 
imagens e lembranças. A narrativa é emoldurada pelo capítulo inicial e pelo 
final, e os capítulos de cidades podem ser lidos na ordem que o leitor preferir. 
As histórias são fragmentadas. Como nos sistemas hipertextuais digitais, 
não há nenhum caminho físico que conduza às cidades: as suas ligações se 
fazem ao imaginar. Essa leitura é flutuante e o seu ritmo encaminha o leitor 
a diversos percursos, que ele determinará. O jogo literário proposto pelo 
autor leva o leitor a parar, retroceder, avançar, confrontar páginas e buscar 
sentido nessa emaranhada escrita aberta. 
A cidade de Moriana, por exemplo, exibe um confronto de pares opostos, 
como um jogode espelhos. Existe uma Moriana cujas portas são de alabastro 
transparentes à luz do sol, cujas aldeias são inteiramente de vidro como aquá-
rios, e existe o avesso, a sua face obscura: “[...] uma ampla lâmina enferrujada, 
pedaços de pano, eixos hirtos de pregos, tubos negros de fuligem, montes de 
potes de vidro, muros escuros com escritas desbotadas, caixilhos de cadeiras 
despalhadas, cordas que servem apenas para se enforcar numa trave podre” 
(CALVINO, 1990, p. 91). Essas cidades-espelhos permitem um desdobramento 
que lembra a construção hipertextual eletrônica. Sem falar de Zemrude, cuja 
composição dupla depende de quem olha; de Aglaura, que é o resultado das 
virtudes e dos defeitos proverbiais ditados pelos seus habitantes (existindo, 
portanto, duas Aglauras — a segunda que se vê, diferentemente da primeira, 
que se descreve); de Valdrada, uma cidade construída de forma perpendicular 
sobre o lago cujos reflexos projetam uma outra Valdrada, refletida de cabeça 
para baixo; e de Raíssa, cidade infeliz que contém uma cidade feliz. O reflexo 
dessas cidades traz um aspecto de ilusão, oferece uma imagem invertida da 
realidade: há duas faces, sendo uma delas obscura.
O hipertexto se distingue de outros textos por ser um processo de escrita 
que multiplica as narrações, como você pode perceber na estrutura do romance 
de Ítalo Calvino. A sua narrativa não cessa de produzir novas narrativas sobre 
si mesma, em um texto caleidoscópico e espelhado. Enredos como esses 
quebram a linearidade dos livros tradicionais, que têm começo, meio e fim, 
e possibilitam a construção de enredo variável, de acordo com as decisões 
Escrita criativa e multimodalidade10
tomadas pelo leitor. Ou seja, mesmo limitados pela estrutura do livro tra-
dicional, alguns autores conseguiram criar formas mais flexíveis de leitura. 
Um sistema específico do suporte digital é extensivo ao meio impresso, e os 
princípios que norteiam as obras hipertextuais impressas e no meio eletrônico 
são similares. A produção hipertextual é um processo de escrita e leitura 
que não depende do aparato técnico (que facilita imensamente o processo), 
mas dos procedimentos narrativos utilizados pelo autor e da disposição do 
leitor para interagir. 
Usando o palimpsesto como metáfora, Genette (2010) formulou o conceito 
de hipertexto para mostrar que uma obra sempre pode ser lida por ela mesma 
e em relação a obras de épocas anteriores. O trabalho de escrita é visto por 
Genette como resultado da transformação de um texto em outro, ou seja, 
uma obra sempre deriva de uma anterior. A intertextualidade é o resultado 
de uma sobreposição de textos. Ao pensar o hipertexto como um texto em 
relação com outros textos, observamos que a exploração da intertextuali-
dade dá maior flexibilidade ao texto, independentemente do seu aparato 
textual. Essa constatação desmistifica a ideia de que o hipertexto eletrônico 
se apresenta como uma escrita mais interativa, mais dinâmica, cujas relações 
de intertextualidade são mais intensas do que as do hipertexto impresso, 
pois o hipertexto é uma escrita que se constitui a partir das possibilidades 
de combinação dos fragmentos, caracterizada pela combinação dos princí-
pios de fragmentariedade e de interatividade. Quanto mais uso fizer o texto 
dessas possibilidades de conexão com outros textos, maior será o seu grau 
de intertextualidade.
Para se aprofundar no assunto de textos literários impressos que 
são hipertextos, leia o interessante artigo “Leitura, literatura e hi-
pertextualidade”, de Carla Viana Coscarelli, disponível na web.
Referências
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Escrita criativa e multimodalidade 11
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Leituras recomendadas 
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Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos 
testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da 
publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas 
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Escrita criativa e multimodalidade12

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