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ESCRITA LITERÁRIA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Reconhecer o novo panorama imposto à literatura no mundo contemporâneo. > Examinar as diferentes formas de construção dos textos nas mídias. > Investigar as possibilidades do texto literário como hipertexto. Introdução Na contemporaneidade, a escrita literária precisou se adaptar aos novos supor- tes trazidos pela tecnologia da internet, como e-books, sites, blogs, podcasts, vídeos e redes sociais. O livro físico ainda permanece, bem como os audiolivros, mas os autores hoje precisam estar atentos aos seus públicos, oferecendo possibilidades tanto para os amantes da materialidade do livro impresso quanto para os mais conectados, que preferem a leitura nos ambientes virtuais. A construção dos textos será diferente de acordo com o suporte escolhido. Não só a diagramação textual varia, mas também a abordagem do assunto, a intertextualidade e a utilização de hipertextos e de links, que expandem o conteúdo explorado pelos autores e apresentado aos leitores. Neste capítulo, vamos apresentar os desafios de um novo panorama imposto à literatura no mundo contemporâneo. Detalhadamente, vamos examinar as formas de construção dos textos nas mídias e investigar as possibilidades de se trabalhar o texto literário como hipertexto. Escrita criativa e multimodalidade Elisa Lima Abrantes Panorama imposto à literatura no mundo contemporâneo Sabe-se que a literatura não é um retrato da realidade, mas uma recriação da realidade, ou a criação de novas realidades, de modo que o texto lite- rário é assim classificado a partir da forma como os temas são abordados. Além do aspecto da literariedade, a sua valorização qualitativa se baseia em parâmetros de controle editorial: históricos, políticos, sociais, religiosos e mercadológicos. Durante muito tempo, a criação dos textos literários de- pendia de impressões das obras patrocinadas por instituições e editores, ou de impressões independentes, que circulavam a partir do esforço dos seus autores em distribuir e vender os seus exemplares. Com o avanço tecnológico e a acessibilidade e popularidade dos meios digitais, a produção e divulgação de textos literários no espaço virtual foi facilitada, já que não acarretam custos significativos e não há controle editorial para se publicar uma obra em sites ou blogs. O autor interessado em divulgar a sua obra pode escrever um blog ou um site pessoal, ou publicá-la em sites especializados. Essa liberdade ilimitada de produzir e divulgar literatura democratiza esses processos e dá visibilidade aos autores, que, muitas vezes, chamam a atenção da crítica especializada e passam a ter as suas obras publicadas também no suporte impresso. O mercado editorial, por sua vez, passa a oferecer versões digitalizadas dos livros impressos, cuja venda se popula- rizou com os e-readers, tablets e celulares. Como a obra digitalizada pode migrar para diversas plataformas e misturar-se a outros textos e imagens, com ferramentas simples, existe uma convergência entre a cultura literária e a cultura das mídias. Por outro lado, a escrita e publicação no computador exibe apenas a versão final de um documento, perdendo-se as notas marginais feitas pelo autor nos seus manuscritos. Essa questão de uma modificação do próprio processo criativo do autor a partir de parâmetros impostos à literatura contemporânea traz reflexões importantes a respeito do que é ser autor e leitor no ciberespaço. A quase obrigatoriedade de um autor usar as redes sociais, manter sites e blogs, e participar de eventos on-line revela a pressão que é sentida pelos escritores para que se atualizem com o mundo digital, sob pena de serem esquecidos caso resistam a ele. A interação nas mídias sociais aproxima autores do seu público, e per- cebemos um interesse maior por clubes de leitura, entrevistas e grupos de bate-papo na internet. Esse interesse, atualmente, foi bastante ampliado com a modificação das relações de trabalho e de estudo e pelo fato de grande parte das livrarias terem fechado desde o início da pandemia de Covid-19 no Escrita criativa e multimodalidade2 ano de 2020. A pandemia modificou tendências de consumo, e, com as livrarias fechadas por conta das medidas restritivas, o canal digital de vendas cresceu bastante, de maneira rápida. Livros eletrônicos e audiolivros ganharam espaço, bem como as lives com escritores, professores de literatura, blogueiros e youtubers que escrevem e tratam dos assuntos leitura e escrita e os clubes de leitura, como noticiado pela CNN Brasil em março de 2021 (VITORIO, 2021). O ciberespaço, que é o espaço virtual em que as pessoas, mediadas por computadores, se conectam a uma rede mundial (internet), permite que as pessoas interajam em tempo real nos mais diversos espaços geográficos. Criaram-se conexões e relacionamentos, fundando-se um espaço de sociabi- lidade virtual. Esse espaço é a cibercultura, definida como “[...] um conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, atitudes, modos de pen- samento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (LEVY, 1999, p. 17). E de que forma os textos literários e os autores se relacionam com essa nova realidade de livros e leitores, já que, nesse contexto, a leitura tem sido amplamente discutida, pois transformaram-se os modos de ler e as relações com a escrita? Para começar, devemos pensar no leitor, que lerá uma narrativa em meio digital e precisará interagir ativamente com esse texto para decidir que caminho seguir, escolhendo entre as opções disponíveis por meio de hiper- links. No ciberespaço, o leitor pode desenvolver leituras não lineares por meio de links, que permitem a leitura de diversos textos ao mesmo tempo. Por intermédio do hipertexto, é possível fazer várias leituras instantâneas em tempo real. Nesse contexto, cabe ao leitor aprender a usá-las da melhor maneira para que não perca o foco do raciocínio e não fique sobrecarregado de informações. O autor, por sua vez, pode usar o hipertexto para expor a sua criatividade produzindo trabalhos de forma lúdica e utilizando recursos que a rede oferece, como som, imagem e movimento, além de ter seus trabalhos divulgados rapidamente. A multimodalidade presente na literatura contemporânea, com lin- guagens sonoras, visuais e até mesmo tácteis, exige do leitor um tipo de letramento, multimodal e digital, para que interaja e explore as possibilidades expressivas de diferentes semioses (sistemas de signos). Essa necessidade de letramento está contemplada nos documentos que regem o sistema educacional brasileiro, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Escrita criativa e multimodalidade 3 Com relação à divulgação, a rede facilita bastante. Um autor pode, por exemplo, criar um portifólio, ter uma página própria na internet (site), com textos literários, ensaios, poemas, fotos, imagens, sons, dados biográficos e links para as suas redes sociais e blog, por onde pode interagir com os seus leitores. Por meio do próprio site, ou sites de comércio eletrônico, o artista pode vender os seus trabalhos. Diante da realidade de um espaço virtual, o ciberespaço, e das novas possibilidades de escrita, como o hipertexto, vimos surgir um novo perfil, muito democrático, tanto do leitor quanto do escritor. O hipertexto lança a possibilidade de quebrar paradigmas das desigualdades a partir do momento que os usuários estão conectados e todos que têm acesso à rede podem acessar uma gama de textos e informações. Alguns autores contemporâneos, por sua vez, podem não estar no cânone literário, mas têm obras riquíssimas, que têm muito a oferecer e contribuir com a formação de novos leitores. Assim, leitores e autores se encontram no ciberespaço muito mais facilmente do que o tempo devido entre a produção e a circulação de uma obra no modelo físico tradicional. Na literatura recente, uma nova geração de escritores passou a lançar os seus escritos na rede, seja paratrocar experiências, seja como forma de expressão ou difusão de informação. Além disso, qualquer cidadão pode criar um blog ou um site e escrever e ler o que outros escrevem, compartilhar textos, fotos, ou seja, produzir conteúdo, compartilhá-lo e, em poucos se- gundos, torná-lo visível em todo o mundo. Não devemos esquecer, contudo, que muitos leitores não têm acesso à rede, pois, ainda que os dispositivos móveis sejam amplamente utilizados por todas as camadas da população brasileira, o acesso aos dados e a possibilidade de leitura nesses dispositivos nem sempre é possível, o que faz permanecer ainda certa desigualdade em relação à possibilidade de leitura no ambiente digital. O livro físico é mais um formato, dividindo espaço com os arquivos em PDF (do inglês portable document format), legíveis por smartphones, tablets, laptops e inúmeros leitores digitais. A leitura ocorre, portanto, sob diferentes perspectivas e plataformas. Quando lemos em meio eletrônico, realizamos múltiplas conexões hipertextuais, fazendo entrecruzamentos diversos. Não se pode mais dissociar escrita literária de ferramentas do ciberespaço. Para Munari (2012), a internet é uma ferramenta de universalização da leitura e da literatura, e o leitor pode acessar diferentes materiais e navegar fontes de informação distintas. A prática da leitura também foi facilitada com os smartphones, dispositivos móveis que permitem a leitura em diversos mo- mentos e locais, conquistando um maior número de adeptos, o que expande os ambientes tradicionais de leitura, como bibliotecas e livrarias, que passam também a fazer parte das redes sociais. Escrita criativa e multimodalidade4 As redes sociais consistem na união de pessoas ou organizações que compartilham os mesmos valores e interesses (perfis), sem estarem condicionadas a uma estrutura hierárquica, presente em diferentes espaços. As redes, então, compreendem a conexão e a interação on-line de pessoas no espaço virtual, com troca de mensagens e compartilhamento de conteúdo multimídia. São exemplos de rede o Facebook, o Youtube, o Twitter, o Instagram e o WhatsApp. Os algoritmos utilizados na programação dessas redes nos fazem receber conteúdos com ideologias semelhantes às nossas, de acordo com o que expomos na mesma rede. Os autores contemporâneos utilizam as redes também para publicar as suas obras, e até mesmo o Twitter, com a sua limitação de caracteres, antes 140, e agora 280, é usado para difundir a minificção e os microrrelatos, atraindo um público leitor diversificado, adepto da dispersão, multifuncio- nalidade e imediatismo. O texto fica exposto como em um mural público, e os leitores reagem a ele, expressando A sua visão. A maioria dos usuários do Twitter não é formada por escritores reconhecidos na cena cultural, e, nessa rede, desenvolvem uma produção independente, desvinculada de qualquer limitação burocrática do meio literário. Essa situação tende a se modificar, já que alguns nomes conhecidos do grande público já podem ser localizados no Twitter. Escrever nessa rede demonstra o apagamento das fronteiras que separam as funções de escritor e de leitor. Quanto à concisão necessária a uma publicação desse tipo, não devemos nos esquecer de que narrativas curtas, de linguagem essencial, não são novidade, já que a poesia haicai, por exemplo é milenar. A ela, somam-se breves contos de fadas, fábulas e lendas. Para concluir, é importante ter em mente que o escritor contemporâneo é diferente da figura distante e cultuada do passado. Hoje, o seu perfil é seguido nas redes, o leitor e o autor expressam as suas opiniões sem intermediários e o próprio leitor pode se aventurar na escrita literária, sem maiores preo- cupações. Vivemos um tempo de experimentações no campo literário, com mudanças nos modos de produção e consumo de literatura com a mediação das tecnologias digitais. Escrita criativa e multimodalidade 5 Para se conhecer um pouco mais da literatura mediada pelas redes sociais, vale a pena conferir o que pensam os escritores que utilizam esses recursos para publicar e interagir com seus leitores. Acesse o YouTube e assista ao vídeo “Mesa 7: O consumo da literatura mediado pelas redes sociais”, que exibe a mesa interativa da Feira do Livro da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Formas de construção dos textos nas mídias A literatura digital é aquela que nasce nesse formato. Textos inicialmente impressos não se configuram como literatura digital ao serem convertidos para o suporte digital. A construção dos textos nas mídias exige planejamento e execução no meio virtual. Para a crítica literária estadunidense Katherine Hayles (2009), a literatura digital é um objeto digital criado em um computador. Além disso é híbrida, por ser composta de elementos gráficos do livro impresso e, também, de animações, artes digitais, entre outros. Ou seja, para Hayles (2009, p. 22), a literatura digital engloba “[...] trabalhos artísticos criativos que interrogam os contextos, as histórias e as produções de literatura, incluindo também a arte verbal da literatura propriamente dita”. Depreende-se, portanto, que a literatura digital precisa de formas e es- tratégias que se adequem ao ciberespaço. Veja as definições das novas formas de publicação de literatura presentes no “Manifesto Literatura Digital”, do site Literatura Digital: Manifesto Literatura Digital 1 — A Literatura Digital é aquela obra literária feita especialmente para mídias digitais, impossível de ser publicada em papel. 2 — A Literatura Digital busca criar uma nova experiência de leitura para o usuário. 3 — A Literatura Digital requer um novo tipo de texto e de autor. 4 — Por literatura, entende-se a arte da palavra; portanto, um projeto de literatura digital deve conter texto. Não ser um projeto de literatura digital não é ser melhor ou pior, apenas outra coisa, como video-arte. 5 — A Literatura Digital é um novo gênero literário, não substituindo os gêneros da literatura tradicional em papel ou e-book. 6 — A Literatura Digital pode ser multimídia, hipertextual, colaborativa, etc., mas não é necessário que todos os recursos sejam usados simultaneamente. 7 — A Literatura Digital pode ser encarada como uma ferramenta para incentivar a leitura em ambientes digitais. Não queremos que um usuário largue um livro para ler literatura digital, e sim que ele largue por 10 minutos seus joguinhos ou redes sociais e leia um projeto de literatura digital. Escrita criativa e multimodalidade6 8 — Livro digital não é livro digitalizado; confundi-los seria o mesmo que filmar uma peça de teatro e chamar isso de cinema. 9 — A Literatura Digital é uma atividade lúdica, mas não é um jogo, pois num jogo o “objetivo principal é antes de mais nada e principalmente a vitória” (vide Homo Ludens, de Huizinga). 10 — Substitui-se aqui o conceito de livro pelo conceito de obra, entendido como “um objeto dotado de propriedades estruturais definidas, que permitam, mas coordenando-os, o revezamento das interpretações, o deslocar-se das perspectivas” (vide Obra Aberta, de Umberto Eco) (LITERATURA DIGITAL, [20--?], documento on-line). A ciberliteratura constitui um texto considerado literário que é disponi- bilizado em meio digital. Um exemplo é a cibernarrativa. Esse tipo de narra- tiva, construída no ciberespaço, que não se desdobra de forma convencional, mas que recorre aos mais variados recursos tecnológicos, tecendo, na rede, um mosaico literário completamente original, compõe o que hoje se conhece como cibernarrativa, ou narrativa hipertextual. Conforme Tiphaine Samoyault (2008), trata-se de uma espécie de texto fragmentário e infinito. Assim como a escrita de um roteiro de televisão ou de cinema, ou, ainda, de uma peça de teatro, esses textos são diferentes de um romance ou poema, cujo suporte é o livro físico. Cada gênero, então, será elaborado com recursos próprios, que possibilitam interações diferenciadas. Assim, enquanto a peça teatralpode ser apresentada por meio de gestos, palavras, expressões fisionômicas, sons, figurino, entre outros, as cibernarrativas, no contexto interativo, tam- bém têm elementos específicos. A linguagem e os recursos hipermidiáticos disponíveis nas redes se ajustam bem às obras criadas no ciberespaço e ao perfil dos seus leitores. Para narrar histórias no espaço virtual, deve-se atentar para a arquitetura da linguagem e a possibilidade de conexão com os internautas, que podem intervir no debate sobre a construção da obra, oferecendo algum tipo de cooperação ao texto virtual. Além disso, o próprio mecanismo de leitura é modificado com o uso do hipertexto, que direciona o leitor para outro documento ou site da internet, escrito pelo próprio autor ou por outros, explorando-se a leitura multilinear de uma narrativa. O leitor é convidado a interagir com essa criação lúdica, podendo escolher os caminhos a seguir na construção da trama virtual. Muitas vezes, desvia-se do caminho original, o que lhe dá um status de coautor, como acontece no romance Terminal, de Flavio Komatsu (KOMATSU, 2017). Em todas as narrativas, lineares ou não, em suportes físicos ou virtuais, o autor estrutura o tempo em uma configuração em que os fatos aparecem ordenados de certa forma, a fim de expressarem um determinado sentido. No entanto, as narrativas só se completam com o leitor, que enfrenta o texto e Escrita criativa e multimodalidade 7 a organização narrativa sugerida, preenche os vazios do texto e o reconfigura segundo a própria percepção, em uma relação de intersubjetividade. Portanto, em alguma medida, para que a narrativa se efetive plenamente, existe um nível de contato entre autores e leitores. Assim, a experiência do leitor na construção de significados de um texto na narrativa convencional é bastante ampliada no ciberespaço, em que o internauta pode navegar, por meio dos hipertextos, nas diferentes arquiteturas de significados, enriquecendo a sua leitura da cibernarrativa. No ciberespaço, a linguagem deve ser mais breve, clara e direta. Em su- portes como blogs e redes sociais, configura-se como uma espécie de escrita oralizada, em tom mais próximo do leitor. A linguagem da literatura nas redes se mescla a outras linguagens, dialogando com imagens, sons e vídeos, e gerando conteúdos atraentes e plenos de sentido. Essa linguagem plural não busca substituir o livro impresso, mas atender a uma necessidade do momento histórico contemporâneo. Não se trata de uma transposição de um tipo de suporte para outro, como no caso dos e-books, mas de narrativas que já nasceram levando-se em consideração os recursos tecnológicos disponíveis na rede e o público de internautas a que se destina. A cibernarrativa é uma nova maneira de se contar histórias, por meio de ressignificações geradas a partir de múltiplos pontos de vista e ordenação do enredo, a partir das escolhas do leitor. O processo de leitura das cibernarrativas também difere das narrativas impressas no aspecto da intertextualidade, que é a presença de um texto dentro do outro. Isso porque, nas narrativas digitais, os hipertextos, que são palavras do próprio texto que têm um hiperlink, quando clicados, possibilitam entrecruzamentos de textos que podem ter sido escritos por autores dife- rentes. As decisões do leitor ao buscar novos dados sobre o que está lendo traz essas novas informações, que também tratam do assunto em questão. Embora, na literatura impressa, esse processo de busca também possa ocorrer, nela ele se dá de forma autônoma ou independente, pelo leitor, que procura por outros textos para, por exemplo, compreender melhor o que leu ou para buscar referências mencionadas naquele livro. Concluindo, o ciberespaço propõe um novo tipo de arte, com outra lin- guagem e convenções adaptadas às inovações tecnológicas. Com relação à autonomia do leitor, destacamos o acesso simultâneo a vários textos, o controle do tempo de leitura, a escolha do nível de colaboração para a leitura e a interpretação do texto. Quanto à atividade criativa do autor, a literatura digital exige uma mudança de postura, com novas possibilidades de expressão e formas de acesso. Escrita criativa e multimodalidade8 A literatura digital não deve ser confundida com aquela que foi digitalizada. A primeira surge inteiramente no meio digital, com uma poética própria, que é baseada, sobretudo, na hipertextualidade. A segunda sofreu um processo de transposição do meio real para o virtual, como no caso dos livros eletrônicos (e-books). No caso da literatura digitalizada, a poética da obra original não é modificada. Texto literário como hipertexto O termo “hipertexto” foi cunhado por Theodor H. Nelson em 1965, em uma comunicação apresentada à Conferência Nacional da Association for Com- puting Machinery, nos Estados Unidos. Trata-se de uma forma não linear de apresentar o texto, uma espécie de texto em paralelo, dividido em unidades básicas, que estão ligadas por elos conceituais, como uma rede. A hipertex- tualidade é o que confere esse caráter de rede para os produtos literários que emergem no meio virtual. Esse princípio permite que um texto resgate outro de forma rápida e instantânea. Quando converge com a literatura, o hipertexto é denominado hiperficção. Trata-se de um texto que funciona como um labirinto com várias bifurcações, permitindo que o leitor, dentro de uma narrativa inicial, realize escolhas durante a sua leitura, clicando ou não em hiperlinks previamente escolhidos pelo autor, propiciando variadas sequências narrativas. Dessa forma, cada leitor cria a sua própria história. A participação do leitor é ativa, possibilitando que ele escolha o destino dos personagens e, também, contribua na escrita da sequência da história. Esse conceito de hiperficção pode ser estendido ao meio impresso, como As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino (1972), e O jogo da amarelinha, de Julio Cortazar (1963), além da série infanto-juvenil de livros-jogos dos anos 1980, publicada pela Ediouro, Escolha sua aventura. Essa série funcionava da se- guinte maneira: no final de alguns capítulos, o autor apresentava escolhas que o leitor deveria fazer e o número da página a que o leitor deveria ir se tomasse aquela decisão. Por sua vez, o romance experimental O jogo da amarelinha pode ser lido de duas maneiras. A primeira de forma linear, do capítulo um ao 56, desprezando-se a leitura dos capítulos prescindíveis. A segunda, que desafia o leitor a participar da construção da narrativa, faz uso dos capítulos prescindíveis, iniciando no capítulo 73 e tendo a sua ordenação indicada ao final de cada capítulo, dando movimento ao jogo proposto pelo autor. Escrita criativa e multimodalidade 9 Em Cidades invisíveis, Calvino cria um diálogo fictício entre o navegador Marco Polo e o imperador mongol Kublai Khan, em que o aventureiro des- creve com detalhes impossíveis várias cidades sob o domínio do imperador. A narrativa é estruturada por pequenos textos formados pelos relatos de viagem de Marco Polo e os diálogos entre o imperador e o viajante. As cidades, ao todo 55, todas com nomes femininos e divididas em grupos, desafiando a geografia, os conceitos de tempo e de espaço, são cidades arquetípicas da memória, do imaginário, de emoções e de magia, construídas por palavras, imagens e lembranças. A narrativa é emoldurada pelo capítulo inicial e pelo final, e os capítulos de cidades podem ser lidos na ordem que o leitor preferir. As histórias são fragmentadas. Como nos sistemas hipertextuais digitais, não há nenhum caminho físico que conduza às cidades: as suas ligações se fazem ao imaginar. Essa leitura é flutuante e o seu ritmo encaminha o leitor a diversos percursos, que ele determinará. O jogo literário proposto pelo autor leva o leitor a parar, retroceder, avançar, confrontar páginas e buscar sentido nessa emaranhada escrita aberta. A cidade de Moriana, por exemplo, exibe um confronto de pares opostos, como um jogode espelhos. Existe uma Moriana cujas portas são de alabastro transparentes à luz do sol, cujas aldeias são inteiramente de vidro como aquá- rios, e existe o avesso, a sua face obscura: “[...] uma ampla lâmina enferrujada, pedaços de pano, eixos hirtos de pregos, tubos negros de fuligem, montes de potes de vidro, muros escuros com escritas desbotadas, caixilhos de cadeiras despalhadas, cordas que servem apenas para se enforcar numa trave podre” (CALVINO, 1990, p. 91). Essas cidades-espelhos permitem um desdobramento que lembra a construção hipertextual eletrônica. Sem falar de Zemrude, cuja composição dupla depende de quem olha; de Aglaura, que é o resultado das virtudes e dos defeitos proverbiais ditados pelos seus habitantes (existindo, portanto, duas Aglauras — a segunda que se vê, diferentemente da primeira, que se descreve); de Valdrada, uma cidade construída de forma perpendicular sobre o lago cujos reflexos projetam uma outra Valdrada, refletida de cabeça para baixo; e de Raíssa, cidade infeliz que contém uma cidade feliz. O reflexo dessas cidades traz um aspecto de ilusão, oferece uma imagem invertida da realidade: há duas faces, sendo uma delas obscura. O hipertexto se distingue de outros textos por ser um processo de escrita que multiplica as narrações, como você pode perceber na estrutura do romance de Ítalo Calvino. A sua narrativa não cessa de produzir novas narrativas sobre si mesma, em um texto caleidoscópico e espelhado. Enredos como esses quebram a linearidade dos livros tradicionais, que têm começo, meio e fim, e possibilitam a construção de enredo variável, de acordo com as decisões Escrita criativa e multimodalidade10 tomadas pelo leitor. Ou seja, mesmo limitados pela estrutura do livro tra- dicional, alguns autores conseguiram criar formas mais flexíveis de leitura. Um sistema específico do suporte digital é extensivo ao meio impresso, e os princípios que norteiam as obras hipertextuais impressas e no meio eletrônico são similares. A produção hipertextual é um processo de escrita e leitura que não depende do aparato técnico (que facilita imensamente o processo), mas dos procedimentos narrativos utilizados pelo autor e da disposição do leitor para interagir. Usando o palimpsesto como metáfora, Genette (2010) formulou o conceito de hipertexto para mostrar que uma obra sempre pode ser lida por ela mesma e em relação a obras de épocas anteriores. O trabalho de escrita é visto por Genette como resultado da transformação de um texto em outro, ou seja, uma obra sempre deriva de uma anterior. A intertextualidade é o resultado de uma sobreposição de textos. Ao pensar o hipertexto como um texto em relação com outros textos, observamos que a exploração da intertextuali- dade dá maior flexibilidade ao texto, independentemente do seu aparato textual. Essa constatação desmistifica a ideia de que o hipertexto eletrônico se apresenta como uma escrita mais interativa, mais dinâmica, cujas relações de intertextualidade são mais intensas do que as do hipertexto impresso, pois o hipertexto é uma escrita que se constitui a partir das possibilidades de combinação dos fragmentos, caracterizada pela combinação dos princí- pios de fragmentariedade e de interatividade. Quanto mais uso fizer o texto dessas possibilidades de conexão com outros textos, maior será o seu grau de intertextualidade. Para se aprofundar no assunto de textos literários impressos que são hipertextos, leia o interessante artigo “Leitura, literatura e hi- pertextualidade”, de Carla Viana Coscarelli, disponível na web. Referências CALVINO, Í. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. CORTAZAR, J. O jogo da amarelinha. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. GENETTE, G. Palimpsestos: a literatura de segunda mão. Belo Horizonte: Viva Voz, 2010. KOMATSU, F. Manual de instruções. 2017. Disponível em: https://t-e-r-m-i-n-a-l.blogspot. com/2017/10/voce-vai-comecar-ler-o-novo-romance.html. Acesso em: 16 set. 2021. Escrita criativa e multimodalidade 11 LEVY, P. Cibercultura. Rio de Janeiro: Edições 34, 1999. LITERATURA DIGITAL. Manifesto literatura digital. [20--?]. Disponível em: http://www. literaturadigital.com.br/?pg=25012. Acesso em: 16 set. 2021. MUNARI, A. C. Literatura e internet. 2012. Disponível em: https://editora.pucrs.br/anais/ XISemanaDeLetras/pdf/anamunari.pdf. 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