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Encontro 8 - E a vida segue em outra situação...
Assistência Integral no Puerpério: Fisiologia, Saúde Mental e Cuidado de
Enfermagem na Atenção Primária
Introdução
O puerpério, período que se sucede ao parto, representa uma fase de intensas e
complexas transformações para a mulher, englobando aspectos físicos, hormonais,
psicológicos e sociais que reverberam em toda a dinâmica familiar.1 A magnitude dessas
mudanças confere ao puerpério um caráter de vulnerabilidade, mas também de
oportunidade para a promoção da saúde e o fortalecimento de vínculos. Nesse contexto,
a assistência qualificada, humanizada e contínua por parte dos profissionais de saúde, em
especial da enfermagem na Atenção Primária à Saúde (APS), assume um papel
preponderante. Uma atenção bem estruturada é fundamental para promover a recuperação
física e emocional da puérpera, prevenir agravos, identificar precocemente
intercorrências, apoiar a adaptação à nova dinâmica familiar e fomentar o
desenvolvimento saudável do recém-nascido.
Este relatório tem como objetivos centrais: descrever as fases e os principais
fenômenos fisiológicos do puerpério, com ênfase particular nos períodos tardio e remoto;
analisar os transtornos psicológicos mais prevalentes que podem acometer a mulher no
pós-parto, detalhando seus fatores de risco, manifestações e implicações; detalhar a
sistemática da consulta de enfermagem no puerpério, em consonância com os protocolos
da Atenção Primária à Saúde (APS), com destaque para as diretrizes da Secretaria de
Estado de Saúde do Distrito Federal (SES/DF), incluindo a Portaria SES/DF Nº 182 de
03 de maio de 2024, referenciada como norteadora das ações 3; e, por fim, elaborar um
plano de cuidados de enfermagem individualizado e contextualizado para um caso clínico
– o de Juliana e sua recém-nascida – aplicando os conhecimentos discutidos e os
protocolos vigentes. A compreensão aprofundada desses elementos é crucial para a oferta
de um cuidado integral e efetivo, capaz de atender às múltiplas necessidades da díade
mãe-bebê e de suas famílias durante essa etapa singular da vida.
Seção 1: Compreendendo o Puerpério: Fases e Fisiologia
1.1. Definição e Classificação do Puerpério
O puerpério é definido como o período do ciclo gravídico-puerperal durante o qual
as modificações locais e sistêmicas que ocorreram no organismo materno em função da
gestação e do parto retornam, em sua maioria, ao estado pré-gravídico.2 Este período tem
início logo após a dequitação placentária, ou seja, a expulsão da placenta,
independentemente da via de parto.2
Para fins didáticos e para orientar a assistência, o puerpério é classicamente
dividido em três fases principais, cujas delimitações temporais podem apresentar
pequenas variações na literatura, mas que, em geral, seguem um consenso:
• Puerpério Imediato: Compreende do 1º ao 10º dia após o parto.1 Esta é uma fase
de adaptações agudas e intensas, com maior risco de complicações como
hemorragias e infecções.
• Puerpério Tardio: Estende-se do 11º dia até o 42º dia 2 ou 45º dia pós-parto.1
Neste relatório, considerar-se-á a faixa de 11 a 42-45 dias. Durante esta fase, a
involução uterina continua e muitas das alterações sistêmicas começam a se
estabilizar.
• Puerpério Remoto: Inicia-se a partir do 43º ou 45º dia pós-parto e seu término é
considerado imprevisível ou indeterminado.1 Nesta fase, embora muitas das
grandes transformações já tenham ocorrido, o organismo materno continua seu
processo de readequação, especialmente se a mulher estiver amamentando. O
retorno completo à condição pré-gravídica de alguns sistemas pode levar meses.
A distinção entre essas fases é fundamental, pois orienta o planejamento do
acompanhamento da mulher e do recém-nascido, permitindo a identificação de
necessidades específicas e a programação de intervenções de saúde adequadas a cada
momento. O conhecimento da cronologia dos eventos fisiológicos puerperais permite ao
profissional de saúde, especialmente ao enfermeiro, antecipar orientações e detectar
desvios da normalidade.
1.2. Fisiologia do Puerpério Tardio e Remoto
Durante o puerpério tardio e remoto, o organismo materno continua o processo de
restauração das condições pré-gestacionais, embora em um ritmo menos acelerado que
no puerpério imediato.
Involução Uterina:
No puerpério tardio, o útero, que já diminuiu consideravelmente de tamanho,
continua seu processo involutivo. Por volta do 10º ao 14º dia pós-parto, o fundo uterino
geralmente não é mais palpável acima da sínfise púbica, tornando-se um órgão
intrapélvico. A involução completa, com o útero retornando ao seu tamanho e peso
aproximados do estado não gravídico (cerca de 60-80 gramas), ocorre tipicamente ao final
do puerpério tardio ou no início do puerpério remoto.
Os lóquios, secreção vaginal pós-parto, também sofrem modificações. Após a fase
rubra (predominantemente sanguínea) do puerpério imediato, evoluem para lochia serosa
(mais aquosa, rosada ou acastanhada) e, subsequentemente, para lochia alba
(esbranquiçada ou amarelada), composta principalmente por leucócitos e células
deciduais. A loquiação geralmente cessa ao final da terceira ou quarta semana, podendo,
em alguns casos, persistir de forma escassa até o final do puerpério tardio.
Do ponto de vista histológico, o endométrio passa por um processo de regeneração
completa. A camada superficial necrótica é eliminada com os lóquios, e uma nova camada
endometrial é formada a partir das porções profundas das glândulas endometriais. Esse
processo está geralmente completo em cerca de três semanas, exceto no sítio de inserção
placentária, cuja regeneração é mais lenta, podendo levar de seis a oito semanas.
Alterações Hormonais:
A queda abrupta dos níveis de estrogênio e progesterona placentários, ocorrida
logo após o parto, desencadeia uma série de adaptações endócrinas que se estendem pelo
puerpério tardio e remoto.2
Em mulheres que amamentam, a prolactina sérica permanece elevada devido ao
estímulo da sucção mamilar. Níveis elevados de prolactina, juntamente com a ausência
de picos de LH (hormônio luteinizante), contribuem para a supressão da ovulação e a
amenorreia lactacional. Em mulheres que não amamentam, os níveis de prolactina
retornam aos valores basais pré-gravídicos em poucas semanas (geralmente duas a três).
Os hormônios tireoidianos podem apresentar flutuações no pós-parto. Algumas
mulheres podem desenvolver tireoidite pós-parto, uma condição inflamatória da tireoide
que pode cursar com uma fase inicial de hipertireoidismo transitório, seguida por
hipotireoidismo, que pode ser temporário ou, em alguns casos, permanente.
O eixo hipotálamo-hipófise-ovariano retoma gradualmente sua função. A
liberação de GnRH (hormônio liberador de gonadotrofinas) pela hipotálamo, que estava
suprimida durante a gestação, é restabelecida, levando à secreção de FSH (hormônio
folículo-estimulante) e LH pela hipófise, o que culmina no desenvolvimento folicular,
ovulação e retorno dos ciclos menstruais.
Sistema Cardiovascular:
O volume sanguíneo, que aumentou significativamente durante a gestação, retorna
gradualmente aos níveis pré-gravídicos ao longo das primeiras semanas do puerpério. O
débito cardíaco, que também se eleva na gestação, diminui rapidamente após o parto e
continua a cair, normalizando-se geralmente entre 6 a 12 semanas. A frequência cardíaca
e a pressão arterial também tendem a retornar aos seus valores basais. Apesar da melhora
progressiva, o estado de hipercoagulabilidade persiste por algumas semanas no puerpério,
mantendo um risco aumentado, embora decrescente, de eventos tromboembólicos.
Sistema Urinário:
A dilatação fisiológica do sistema coletor renal (pelve renal e ureteres), comum
na gestação, regride gradualmente, usualmente se resolvendo em até 6-8 semanas pós-
parto. O tônus e a capacidade da bexiga, que podem estarCuidados
com o
Bebê
(5604);
Orientaçã
o
Antecipat
ória
(5510);
Apoio na
Tomada
de
Decisões
(5250).
Esclare
cer dúvidas da
mãe. Fornecer
material
educativo.
Avaliar
confiança da
mãe nos
cuidados.
Risco
de
Crescimento
Desproporcion
al (00113) ou
Risco de
Atraso no
Desenvolvime
nto (00112).
Cre
scimento
(0110)
adequado;
Desenvolv
imento
Infantil: 1º
Mês
(0104)
adequado.
M
onitoração
Nutriciona
l (1160)
do RN;
Vigilância
do
Desenvolv
imento
(6487);
Encaminh
amento
(8100)
Acomp
anhar peso,
comprimento e
PC nas
consultas.
Orientar sobre
marcos do
desenvolvime
nto.
para
puericultu
ra.
O caso de Juliana demanda uma abordagem de enfermagem que transcenda os
aspectos puramente biológicos. Seus proeminentes fatores de risco psicossociais e os
sintomas emocionais relatados exigem uma visão holística e a implementação de um
plano de cuidados que integre intervenções de suporte emocional, encaminhamento para
saúde mental e fortalecimento de suas capacidades de enfrentamento. A colaboração
interdisciplinar com psicólogos, médicos e assistentes sociais será fundamental para
oferecer o suporte abrangente que Juliana necessita.
Apesar de sua atual vulnerabilidade, o fato de Juliana ser estudante de enfermagem
3 pode ser um recurso a ser explorado com sensibilidade. O enfermeiro pode,
respeitosamente, reconhecer seu conhecimento prévio, envolvendo-a ativamente nas
discussões sobre os cuidados e nas tomadas de decisão, o que pode contribuir para seu
empoderamento e adesão ao plano terapêutico. No entanto, é crucial evitar sobrecarregá-
la ou presumir que ela "já sabe de tudo", dado seu estado de fragilidade emocional e física.
Dada a história familiar de depressão, os sintomas atuais e os múltiplos
estressores, o risco de Juliana desenvolver uma Depressão Pós-Parto clinicamente
significativa é alto. Portanto, a avaliação sistemática da ideação suicida, conforme
preconizado pelo protocolo da SES/DF 8, e o encaminhamento ágil e assertivo para uma
avaliação especializada em saúde mental são intervenções de alta prioridade. A segurança
de Juliana e de sua recém-nascida é primordial. A dor abdominal referida também
necessita de investigação para descartar causas orgânicas importantes, sem, contudo,
negligenciar o impacto do contexto psicossocial em suas manifestações físicas.
Embora a consulta descrita ocorra na UBS, o protocolo do DF 8 também
recomenda a visita domiciliar (VD) no puerpério. Para Juliana, que se encontra sem rede
de apoio e relata medo e ansiedade com os cuidados em casa, a VD seria particularmente
valiosa. Essa estratégia permitiria ao enfermeiro avaliar o ambiente doméstico, observar
a dinâmica real dos cuidados, identificar barreiras ou facilitadores não mencionados na
consulta, e oferecer suporte prático e emocional in loco, fortalecendo o vínculo
terapêutico e a confiança de Juliana.
Conclusão
O período puerperal, com suas profundas e multifacetadas transformações,
constitui uma fase de significativa importância para a saúde da mulher, do recém-nascido
e da família. A análise da fisiologia do puerpério tardio e remoto evidencia um processo
contínuo de involução e adaptação do organismo materno, que se estende para além das
primeiras semanas pós-parto, demandando um olhar atento e prolongado dos profissionais
de saúde. A compreensão detalhada dessas alterações fisiológicas, desde a regressão
uterina até o complexo reequilíbrio hormonal e o retorno da fertilidade, é fundamental
para a prestação de uma assistência de enfermagem qualificada e individualizada.
A vulnerabilidade psicológica inerente ao puerpério, exacerbada por fatores
sociais, econômicos e pela ausência de suporte, como observado no caso de Juliana, torna
a vigilância da saúde mental uma prioridade absoluta. A distinção entre a disforia
puerperal ("baby blues"), a depressão pós-parto e a psicose puerperal, com seus
respectivos fatores de risco, manifestações clínicas e abordagens terapêuticas, é crucial
para o diagnóstico precoce e o manejo adequado, minimizando o impacto negativo sobre
a mãe e o desenvolvimento infantil. A aplicação de instrumentos de rastreio, como a
Escala de Edimburgo, e a utilização de critérios diagnósticos padronizados (DSM-5 e
CID-11) são ferramentas essenciais nesse processo.
A consulta de enfermagem na Atenção Primária à Saúde, embasada em protocolos
como os da SES/DF, incluindo a referência à Portaria SES/DF Nº 182 de 03 de maio de
2024, configura-se como um espaço privilegiado para a implementação de um cuidado
integral. Desde a anamnese e o exame físico detalhados até as intervenções educativas, o
suporte emocional e os encaminhamentos necessários, o enfermeiro desempenha um
papel central na promoção da saúde, na prevenção de agravos e no apoio à adaptação da
mulher e sua família a esta nova fase da vida. O plano de cuidados elaborado para Juliana
e sua recém-nascida ilustra a aplicação prática desses princípios, destacando a
necessidade de uma abordagem holística, interdisciplinar e centrada nas necessidades
singulares da díade.
Em suma, a assistência de enfermagem qualificada no puerpério, pautada no
conhecimento científico, na escuta ativa e na humanização do cuidado, é um pilar para a
saúde materno-infantil. Para otimizar essa assistência, recomenda-se:
• A implementação e o fortalecimento de programas de rastreamento universal e
sistemático para transtornos mentais perinatais em todas as unidades de saúde que
atendem gestantes e puérperas.
• A expansão e o fortalecimento das redes de apoio psicossocial comunitárias e
institucionais para puérperas, especialmente aquelas em situação de maior
vulnerabilidade.
• A promoção da educação continuada e permanente para os profissionais de saúde
da APS, com foco no manejo das intercorrências físicas e emocionais do
puerpério, e no desenvolvimento de habilidades de comunicação e
aconselhamento.
• A valorização de um modelo de cuidado longitudinal, que transcenda as consultas
formais do puerpério imediato e tardio, garantindo um acompanhamento contínuo
da saúde da mulher no puerpério remoto e ao longo de seu ciclo vital.
Ao investir na saúde e no bem-estar da mulher durante o puerpério, investe-se na
saúde das futuras gerações e na construção de uma sociedade mais saudável e equitativa.
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também se normalizam. A diurese acentuada dos primeiros dias pós-parto, que auxilia na
eliminação do excesso de líquido acumulado, cessa à medida que o equilíbrio hídrico é
restaurado.2
Sistema Hematológico:
A leucocitose fisiológica da gestação e do parto regride nas primeiras semanas.
Os níveis de plaquetas e de fatores de coagulação, que se elevam durante a gestação,
também retornam gradualmente ao normal, contribuindo para a diminuição do risco
trombótico. A anemia ferropriva, se presente devido a perdas sanguíneas no parto ou
deficiência prévia, necessita de correção com suplementação de ferro, que deve ser
mantida durante o puerpério.
Retorno da Fertilidade:
O retorno da ovulação e, consequentemente, da fertilidade, é variável e fortemente
influenciado pela amamentação.
• Mulheres não lactantes: A ovulação pode ocorrer já a partir da 4ª semana pós-
parto, sendo comum entre a 6ª e a 8ª semana. A primeira menstruação geralmente
ocorre entre 6 a 12 semanas após o parto. É importante ressaltar que a ovulação
pode preceder a primeira menstruação, havendo risco de gravidez antes do retorno
dos ciclos regulares.
• Mulheres em amamentação exclusiva e em livre demanda (Método da
Amenorreia Lactacional - LAM): A sucção frequente do bebê mantém os níveis
de prolactina elevados, o que pode inibir a ovulação e prolongar a amenorreia por
vários meses.6 A LAM pode ser um método contraceptivo eficaz nos primeiros
seis meses pós-parto, desde que a mulher esteja em amenorreia, amamentando
exclusivamente (ou quase exclusivamente) e o bebê tenha menos de seis meses.
Contudo, sua eficácia diminui significativamente com a introdução de outros
alimentos para o bebê ou com o retorno da menstruação.6
Outras Alterações:
A perda de peso continua no puerpério tardio e remoto, embora de forma mais
gradual. Além da perda imediata relacionada ao feto, placenta e líquido amniótico, há
uma eliminação adicional de fluidos e, com o tempo, uma possível redução do tecido
adiposo acumulado. A função gastrointestinal, que pode estar lentificada no puerpério
imediato, geralmente se normaliza. Alterações na pele (como hiperpigmentação) e cabelo
(como eflúvio telógeno pós-parto) tendem a regredir gradualmente ao longo de meses. A
densidade mineral óssea pode diminuir durante a lactação, mas há uma remineralização
compensatória após o desmame.7
A compreensão da fisiologia puerperal, especialmente a variabilidade no retorno
da função ovariana e da fertilidade, é crucial para que o enfermeiro possa prover
aconselhamento contraceptivo individualizado e oportuno. O fato de a ovulação poder
anteceder a primeira menstruação pós-parto reforça a necessidade de discutir métodos
contraceptivos precocemente, independentemente do padrão de amamentação.
Ademais, a caracterização do puerpério remoto como de "término imprevisível" 1
tem implicações diretas para a prática da enfermagem na APS. Embora os protocolos
formais de consulta puerperal frequentemente se concentrem nas primeiras 6 semanas (42
dias) 8, a mulher pode continuar a vivenciar adaptações e a apresentar necessidades de
saúde (físicas ou emocionais) que se estendem para além desse período. Isso sublinha a
importância de um modelo de cuidado continuado e longitudinal, onde o enfermeiro,
através do vínculo terapêutico estabelecido, permanece atento a essas necessidades,
mesmo que não haja consultas puerperais formais agendadas. O acompanhamento da
saúde da mulher deve ser integrado às outras ações da APS, como puericultura e
planejamento familiar.
Embora os processos fisiológicos gerais do puerpério tardio sejam bem
compreendidos, as informações disponíveis sobre as alterações histológicas detalhadas e
o perfil hormonal completo no puerpério remoto, particularmente comparando lactantes
e não lactantes a longo prazo (ex: após 6 meses ou 1 ano), podem ser menos explícitas
em manuais básicos. O foco da assistência, contudo, reside na aplicação do conhecimento
disponível para promover o bem-estar e identificar desvios da normalidade.
Seção 2: Saúde Mental no Puerpério: Desafios e Transtornos Psicológicos
2.1. A Vulnerabilidade Psicológica da Puérpera
O puerpério é universalmente reconhecido como um período de acentuada
vulnerabilidade psicológica para a mulher.1 Esta fase, embora frequentemente idealizada,
constitui uma crise vital, caracterizada por uma confluência de mudanças drásticas que
ocorrem em um curto espaço de tempo. As intensas flutuações hormonais, com a queda
abrupta de estrogênio e progesterona após o parto, somam-se à recuperação física das
demandas da gestação e do parto, à privação de sono e ao cansaço extremo inerentes aos
cuidados com um recém-nascido.2
Paralelamente, a mulher enfrenta uma profunda reconfiguração de sua identidade
e de seus papéis sociais. A transição para a maternidade implica novas responsabilidades,
preocupações constantes com o bem-estar e a segurança do bebê, e uma renegociação da
dinâmica conjugal e familiar. Alterações na autoimagem corporal, a interrupção ou
modificação da vida profissional e social, e as expectativas (pessoais e culturais) em torno
do "ser mãe" podem gerar sentimentos de inadequação, ansiedade e sobrecarga.2
Nesse cenário de transição e estresse, a presença de uma rede de apoio social e
familiar robusta emerge como um fator protetor crucial.2 O suporte emocional, prático e
informativo oferecido pelo parceiro, familiares e amigos pode mitigar o impacto dos
estressores e facilitar a adaptação da puérpera. Em contrapartida, a ausência ou
insuficiência desse suporte, como ilustrado no caso de Juliana – uma jovem de 18 anos,
mãe solo, residindo longe de sua família de origem e sem uma rede de apoio em Brasília
3 – potencializa significativamente a vulnerabilidade a transtornos psicológicos. A
interação complexa entre fatores biológicos, psicológicos e sociais define o risco
individual para o desenvolvimento de dificuldades emocionais no período pós-parto.
2.2. Transtornos Psiquiátricos Comuns no Pós-Parto
Os transtornos mentais perinatais representam um importante problema de saúde
pública, com impacto significativo na saúde da mulher, do bebê e da família. Dentre eles,
destacam-se a disforia puerperal, a depressão pós-parto e, mais raramente, a psicose
puerperal.
2.2.1. Disforia Puerperal ("Baby Blues" ou "Tristeza Materna")
A disforia puerperal, popularmente conhecida como "baby blues" ou "tristeza
materna", é uma condição emocional transitória e de leve intensidade que afeta uma
parcela considerável de mulheres no pós-parto imediato.
• Fatores de Risco: Embora seja considerada uma reação adaptativa comum, sua
intensidade pode ser exacerbada por fatores como cansaço excessivo, estresse
relacionado ao parto e às novas responsabilidades, e falta de sono.
• Fisiopatologia/Fisiopatogenia: Acredita-se que o "baby blues" esteja
primariamente associado às abruptas flutuações hormonais que ocorrem após o
parto, especialmente a queda nos níveis de estrogênio e progesterona.1 O estresse
fisiológico do parto e a fadiga acumulada também contribuem para essa
instabilidade emocional.
• Manifestações Clínicas: Caracteriza-se por humor lábil, com alternância de
sentimentos, choro fácil e aparentemente imotivado, irritabilidade, ansiedade leve,
tristeza fugaz, dificuldade de concentração e hipersensibilidade emocional. Os
sintomas geralmente surgem nos primeiros dias após o parto, tipicamente entre o
segundo e o quinto dia, e não comprometem significativamente a capacidade da
mulher de cuidar de si e do bebê.2
• Diagnóstico: O diagnóstico é clínico, baseado na natureza transitória e na leveza
dos sintomas. É fundamental diferenciá-lo de quadros depressivos mais
estabelecidos. Não preenche os critérios para um transtorno depressivo maior.
• Tratamento: Geralmente, não requer intervenção medicamentosa.2O manejo
consiste em oferecer suporte emocional, tranquilização, informações sobre a
natureza benigna e autolimitada do quadro, incentivo ao descanso e à expressão
dos sentimentos, e promoção de um ambiente familiar compreensivo e acolhedor.
A remissão espontânea dos sintomas ocorre, na maioria dos casos, em até duas a
três semanas.1
• Complicações: Normalmente, não acarreta complicações diretas. No entanto, se
os sintomas persistirem além de duas ou três semanas, ou se intensificarem, deve-
se suspeitar de uma evolução para depressão pós-parto, o que pode gerar confusão
diagnóstica se não houver acompanhamento adequado.
• Implicações Psicossociais: Pode gerar angústia e confusão na mulher e em seus
familiares, caso não seja compreendido como uma reação adaptativa comum e
passageira. A educação em saúde sobre o "baby blues" durante o pré-natal e no
pós-parto imediato é importante para desmistificar o quadro e reduzir a ansiedade
associada.
• Prevalência: É uma condição bastante comum, afetando entre 70% a 90% das
puérperas, segundo diferentes estudos.1
2.2.2. Depressão Pós-Parto (DPP)
A Depressão Pós-Parto (DPP) é um transtorno de humor que pode afetar mulheres
após o nascimento de um filho, caracterizando-se por uma tristeza mais profunda e
persistente do que a observada no "baby blues", com impacto significativo no
funcionamento da mulher e na sua relação com o bebê.
• Fatores de Risco: A DPP é multifatorial, e diversos fatores de risco têm sido
consistentemente identificados na literatura. Entre os mais importantes estão:
história prévia de depressão ou outros transtornos psiquiátricos (pessoal ou
familiar) 2, episódio depressivo durante a gestação atual 9, ausência ou
insuficiência de suporte social, familiar ou conjugal 2, gravidez não planejada ou
indesejada 2, ocorrência de eventos de vida estressantes recentes 9, dificuldades
socioeconômicas 9, baixa autoestima 9, história de abuso físico ou sexual 9,
complicações obstétricas ou neonatais 9, idade materna (particularmente mulheres
mais jovens) 10, baixo nível educacional 10, e insatisfação com a imagem corporal.9
O caso de Juliana, detalhado nos materiais 3, exemplifica a confluência de
múltiplos desses fatores, como idade jovem, ser mãe solo, ausência de rede de
apoio, dificuldades financeiras, histórico de ansiedade na gestação e história
familiar de depressão.
• Fisiopatologia/Fisiopatogenia: A etiologia da DPP é complexa e envolve uma
interação de fatores genéticos, neuroendócrinos, neuroquímicos e psicossociais.
Há evidências de predisposição genética e de alterações na sensibilidade
individual às flutuações hormonais do período perinatal (estrogênio, progesterona,
cortisol, hormônios tireoidianos).2 Disfunções no eixo hipotálamo-pituitária-
adrenal (HPA), alterações em neurotransmissores (como serotonina,
noradrenalina e dopamina), deficiências nutricionais (particularmente de ácidos
graxos ômega-3, vitamina B12, vitamina D, selênio, folato, zinco e ferro) 2 e
processos inflamatórios também têm sido implicados.2
• Manifestações Clínicas: Os sintomas da DPP são semelhantes aos de um
episódio depressivo maior ocorrido em outras fases da vida, mas podem incluir
matizes relacionados à maternidade. Os sintomas centrais são humor deprimido
na maior parte do dia, quase todos os dias, e/ou anedonia (perda acentuada de
interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades).2 Outros sintomas
comuns incluem: labilidade emocional acentuada, crises de choro frequentes,
irritabilidade, ansiedade intensa (frequentemente com preocupações excessivas e,
por vezes, obsessivas sobre a saúde e segurança do bebê), sentimentos de culpa
(muitas vezes relacionados à percepção de não ser uma "boa mãe"), inutilidade,
desesperança, sensação de incapacidade de cuidar do bebê, fadiga extrema ou
perda de energia, alterações do sono (insônia ou hipersonia, mesmo quando o bebê
dorme), alterações significativas do apetite ou peso, dificuldades de concentração
ou tomada de decisões, e, em casos mais graves, ideação suicida ou pensamentos
de morte.2 Podem ocorrer também sintomas psicossomáticos, como cefaleia,
dores difusas, entre outros.9 O início dos sintomas é geralmente gradual,
ocorrendo tipicamente entre a quarta e a oitava semana pós-parto, mas pode surgir
em qualquer momento até um ano após o parto.9
• Diagnóstico:
o Critérios DSM-5: A DPP é classificada no Manual Diagnóstico e
Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª Edição (DSM-5) como um
Transtorno Depressivo Maior com o especificador "com início no
periparto". Este especificador é aplicado se o início dos sintomas do
episódio depressivo maior ocorrer durante a gestação ou nas quatro
semanas seguintes ao parto.9 Para o diagnóstico de um episódio depressivo
maior, é necessária a presença de humor deprimido ou anedonia,
acompanhados de pelo menos quatro (ou cinco, no total) outros sintomas
depressivos, persistindo por um período mínimo de duas semanas e
representando uma mudança em relação ao funcionamento anterior,
causando sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no
funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da
vida.14
o Critérios CID-11: Na Classificação Internacional de Doenças, 11ª
Revisão (CID-11), a DPP pode ser diagnosticada como um Episódio
Depressivo (código 6D10, com especificadores de gravidade).
Adicionalmente, a CID-11 introduziu a categoria "Transtornos mentais ou
comportamentais associados à gravidez, parto ou puerpério", que inclui o
código MB23.0 para "Transtornos mentais ou comportamentais
associados à gravidez, parto ou puerpério, sem sintomas psicóticos".16 A
CID-11 preconiza uma abordagem de codificação dupla, onde tanto o
transtorno específico (ex: Episódio Depressivo) quanto o contexto
perinatal (MB23.0) são registrados.19 O início para a categoria MB23.0 é
geralmente considerado em até aproximadamente seis semanas após o
parto.16
o Instrumentos de Rastreio: A Escala de Depressão Pós-Parto de
Edimburgo (EPDS) é um instrumento de autorrelato com 10 itens,
amplamente utilizado e validado para o rastreamento de sintomas
depressivos no período pós-parto, sendo uma ferramenta útil para a
identificação de mulheres em risco.2
• Tratamento: A abordagem terapêutica da DPP deve ser multimodal e
individualizada, considerando a gravidade dos sintomas, as preferências da
mulher e o contexto da amamentação.
o Psicoterapia: Diversas abordagens psicoterapêuticas têm demonstrado
eficácia, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Terapia
Interpessoal (TIP).2
o Farmacoterapia: Os antidepressivos são frequentemente indicados,
especialmente em casos moderados a graves. Os Inibidores Seletivos da
Recaptação de Serotonina (ISRS), como a Sertralina, Paroxetina e
Fluoxetina, são considerados de primeira linha devido ao seu perfil de
eficácia e tolerabilidade. Antidepressivos tricíclicos, como a Nortriptilina,
também são opções.2 A escolha do medicamento deve levar em conta a
segurança durante a amamentação, discutindo os riscos e benefícios com
a paciente.
o Suporte Psicossocial: O fortalecimento da rede de apoio social, a
participação em grupos de apoio para mães e o envolvimento do parceiro
e da família no processo de cuidado são componentes importantes do
tratamento.
o Pré-natal Psicológico: Programas de pré-natal psicológico, que visam
preparar a gestante e sua família para as mudanças da maternidade e
paternidade, têm sido propostos como um fator de proteção contra a
DPP.21
• Complicações: A DPP não tratada pode ter consequências significativas e
duradouras. Para a mãe, inclui o risco de cronicidade da depressão, maior
vulnerabilidade a futuros episódios depressivos e, em casos graves, risco de
suicídio. Para o bebê, a DPP materna pode impactar negativamente o vínculo mãe-
bebê, levar a dificuldades na amamentação, e está associadaa atrasos ou
problemas no desenvolvimento cognitivo, emocional, social e comportamental da
criança (como problemas de conduta e dificuldades de aprendizado).9 As relações
familiares e conjugais também podem ser severamente afetadas.
• Implicações Psicossociais: A DPP frequentemente carrega um estigma social, o
que pode levar ao isolamento da mulher e dificultar a busca por ajuda. As
dificuldades no desempenho do papel materno podem gerar sentimentos intensos
de culpa e inadequação, e a condição pode impor uma sobrecarga considerável
aos familiares.
• Prevalência: A DPP afeta entre 10% a 20% das mulheres no período pós-parto.2
É uma condição frequentemente subdiagnosticada e subtratada 2, o que reforça a
importância do rastreamento ativo e da conscientização dos profissionais de saúde
e da população em geral.
2.2.3. Psicose Puerperal
A Psicose Puerperal é o transtorno psiquiátrico mais grave do período pós-parto,
caracterizado por um início súbito de sintomas psicóticos e alterações profundas do
humor e do comportamento. É considerada uma emergência psiquiátrica.
• Fatores de Risco: O fator de risco mais significativo para a psicose puerperal é
uma história pessoal ou familiar de transtorno bipolar ou um episódio anterior de
psicose puerperal (o risco de recorrência em gestações subsequentes é estimado
entre 30-50%).9 História de esquizofrenia também aumenta o risco. A
primiparidade (primeira gestação) tem sido associada a um risco aumentado em
alguns estudos.9 Fatores genéticos desempenham um papel importante na sua
etiologia.22
• Fisiopatologia/Fisiopatogenia: A etiologia da psicose puerperal é complexa e
ainda não completamente elucidada, mas há uma forte associação com o espectro
do transtorno bipolar. Hipóteses atuais sugerem uma vulnerabilidade
neurobiológica individual que é desencadeada pelas drásticas mudanças
hormonais do pós-parto (especialmente a queda de estrogênio e progesterona e
suas repercussões no sistema dopaminérgico e outros neurotransmissores).16
Desregulação do sistema imunológico e fatores genéticos específicos também são
investigados como contribuintes.22
• Manifestações Clínicas: O quadro clínico da psicose puerperal é marcado por um
início abrupto e dramático dos sintomas, geralmente ocorrendo nas primeiras duas
a quatro semanas após o parto, podendo surgir até mesmo nos primeiros dias.22
Os sintomas incluem: estado confusional, desorientação no tempo e espaço,
delírios (frequentemente bizarros e com temática relacionada ao bebê, como
delírios de perseguição, de que o bebê foi trocado, está possuído, ou tem poderes
especiais), alucinações (principalmente auditivas, como vozes que comandam ou
comentam, mas também visuais), alterações graves e flutuantes do humor
(podendo variar rapidamente entre euforia maníaca, irritabilidade intensa e
depressão profunda, ou apresentar um estado misto), agitação ou retardo
psicomotor acentuado, comportamento bizarro, desorganizado e imprevisível,
insônia severa (muitas vezes com recusa em dormir), recusa alimentar, e uma
acentuada labilidade emocional.16 Há um alto risco de suicídio materno e de
infanticídio (morte do bebê pela mãe), tornando a psicose puerperal uma
emergência psiquiátrica que requer intervenção imediata.9
• Diagnóstico:
o Critérios DSM-5: A psicose puerperal não é uma categoria diagnóstica
distinta no DSM-5. Geralmente, o quadro é diagnosticado como um
Transtorno Psicótico Breve com o especificador "com início no pós-parto"
(se o início dos sintomas psicóticos ocorrer durante a gravidez ou nas
quatro semanas seguintes ao parto e durar menos de um mês).22
Alternativamente, pode ser a primeira manifestação ou uma exacerbação
de um Transtorno Bipolar (tipo I ou II) com características psicóticas, ou
de um Transtorno Esquizoafetivo, com início no periparto.
o Critérios CID-11: Na CID-11, a psicose puerperal se enquadra na
categoria MB23.1 "Transtornos mentais ou comportamentais associados à
gravidez, parto ou puerpério, com sintomas psicóticos".16 Assim como na
DPP, a CID-11 recomenda uma codificação dupla, registrando-se também
o transtorno psicótico específico subjacente (ex: Episódio Maníaco com
sintomas psicóticos, Transtorno Psicótico Agudo e Transitório).16 O início
para a categoria MB23.1 é geralmente considerado em até
aproximadamente seis semanas após o parto.16
o Diagnóstico Diferencial: É crucial diferenciar a psicose puerperal de
delirium (estado confusional agudo de causa orgânica), DPP com sintomas
psicóticos (onde o humor depressivo é primário e os sintomas psicóticos
são congruentes com o humor), e outras condições médicas que podem
mimetizar sintomas psicóticos.
• Tratamento: O tratamento da psicose puerperal requer intervenção imediata e
intensiva, geralmente com hospitalização psiquiátrica. Unidades de internação
mãe-bebê, quando disponíveis, são ideais, pois permitem o tratamento da mãe sem
separá-la do recém-nascido, o que pode ser benéfico para o vínculo, desde que a
segurança de ambos seja garantida.22
o Farmacoterapia: A base do tratamento farmacológico inclui
estabilizadores de humor (o Lítio é frequentemente considerado de
primeira linha, especialmente se há suspeita de transtorno bipolar
subjacente), antipsicóticos (antipsicóticos atípicos como Olanzapina,
Risperidona, Quetiapina são preferidos devido ao melhor perfil de efeitos
colaterais, mas antipsicóticos típicos como o Haloperidol também podem
ser usados), e benzodiazepínicos para controle da agitação e insônia.22
o Eletroconvulsoterapia (ECT): A ECT é uma opção terapêutica altamente
eficaz e de ação rápida para a psicose puerperal, sendo particularmente
indicada em casos de catatonia, risco iminente de suicídio ou infanticídio,
recusa alimentar grave, ou quando há falha ou contraindicação aos
medicamentos.22
o Suporte Psicossocial: Após a estabilização do quadro agudo, o suporte
psicossocial para a mãe e a família é fundamental, incluindo
psicoeducação sobre o transtorno, manejo do estresse e apoio para o
restabelecimento do vínculo mãe-bebê.
• Complicações: As complicações potenciais da psicose puerperal são graves e
incluem o risco significativo de suicídio materno e infanticídio (estimado entre
1% a 4,5% dos casos) 22, trauma psicológico para a mãe e seus familiares, impacto
duradouro no vínculo mãe-bebê, e estigmatização social.
• Implicações Psicossociais: A psicose puerperal tem um impacto devastador na
mulher e em sua família. Requer um suporte intensivo e multidisciplinar. O
planejamento para gestações futuras deve ser cuidadosamente discutido, dado o
alto risco de recorrência.
• Prevalência: A psicose puerperal é uma condição relativamente rara, ocorrendo
em aproximadamente 1 a 2 casos para cada 1.000 nascimentos.9
A sobreposição inicial de alguns sintomas, como labilidade emocional e tristeza,
entre o "baby blues" e a Depressão Pós-Parto (DPP), bem como a possibilidade de uma
condição aparentemente leve evoluir para um quadro mais grave se não houver melhora
2, ressalta a imperatividade de um acompanhamento atento e contínuo da saúde mental da
puérpera. A consulta de puerpério, geralmente realizada por volta do sétimo dia pós-parto,
representa uma janela de oportunidade crucial para o enfermeiro da APS identificar sinais
precoces de DPP que poderiam ser erroneamente minimizados como "apenas baby blues".
A persistência ou intensificação dos sintomas deve sempre acender um alerta para uma
avaliação mais aprofundada.
A abordagem diagnóstica proposta pela CID-11, que sugere uma codificação
dupla para os transtornos mentais no puerpério (o código MB23.x, referente ao contexto
perinatal, associado ao código do transtorno mental específico, como um Episódio
Depressivo) 16, oferece uma perspectiva mais completa e nuançada em comparação com
o uso isolado do especificador "de início no periparto" do DSM-5. Estadupla codificação
permite registrar tanto a relevância do período perinatal como um fator desencadeante ou
de contexto, quanto a natureza fenomenológica precisa do transtorno mental apresentado.
Tal abordagem pode facilitar uma comunicação mais eficaz entre diferentes
especialidades médicas (como obstetrícia e psiquiatria) e contribuir para a coleta de dados
epidemiológicos mais precisos e comparáveis, fundamentais para o planejamento de
políticas de saúde pública.
No caso de Juliana 3, observa-se uma complexa interconexão de fatores de risco
para DPP. Sua juventude, a condição de mãe solo, a ausência de uma rede de apoio social
e familiar em Brasília, as dificuldades financeiras decorrentes da perda do auxílio
familiar, o histórico de ansiedade relatado durante o pré-natal e a presença de história
familiar de depressão são elementos que, somados, criam um cenário de acentuada
vulnerabilidade. Esta confluência de fatores sublinha a necessidade de uma avaliação
psicossocial abrangente e individualizada, que vá além de uma simples listagem de riscos
isolados, buscando compreender como esses fatores interagem e se potencializam no
contexto de vida da puérpera.
É fundamental reconhecer que a Depressão Pós-Parto não se limita a afetar a saúde
da mãe; suas repercussões estendem-se ao desenvolvimento da criança, podendo gerar
impactos significativos e, por vezes, duradouros nas esferas cognitiva, emocional e
social.9 Esta perspectiva eleva a prevenção e o tratamento da DPP a uma questão de saúde
infantil e familiar, com implicações que podem transcender gerações. Nesse sentido,
estratégias preventivas, como o pré-natal psicológico 21, ganham ainda mais relevância,
pois ao intervir precocemente na saúde mental materna, promove-se também um
ambiente mais saudável para o desenvolvimento infantil.
Apesar da prevalência relativamente alta da DPP (estimada entre 10% a 20%), a
subnotificação e o subdiagnóstico ainda são desafios importantes.2 Muitas mulheres não
buscam ajuda devido ao estigma associado aos transtornos mentais, ao medo de serem
julgadas como "mães ruins", ou por não reconhecerem seus sintomas como uma condição
tratável. Os enfermeiros da Atenção Primária à Saúde, devido ao contato próximo e
regular com as puérperas durante as consultas de puerpério e visitas domiciliares, estão
em uma posição privilegiada para realizar o rastreamento ativo de transtornos mentais,
utilizando escalas validadas como a EPDS, observar a interação mãe-bebê, e investigar
ativamente a presença de sintomas depressivos ou ansiosos.
A tabela a seguir visa consolidar e comparar as principais características dos
transtornos psiquiátricos abordados:
Tabela 1: Comparativo dos Transtornos Psiquiátricos Pós-Parto
Caract
erística
Disf
oria
Puerperal
("Baby
Blues")
Depr
essão Pós-
Parto
(DPP)
Psic
ose
Puerperal
Prevalê
ncia
Muit
o Comum
(70-90%) 1
Com
um (10-
20%) 2
Rar
a (1-2 casos
/ 1000
nascimento
s) 9
Início
Típico
Prim
eiros dias
pós-parto
(2º-5º dia) 2
Gera
lmente entre
4ª-8ª semana
pós-parto,
podendo
surgir até 1
ano 9
Súb
ito,
geralmente
nas
primeiras
2-4
semanas
pós-parto 22
Duraçã
o
Tran
sitória (até
2-3
semanas) 1
Persi
stente
(semanas a
meses, ou
Var
iável
(semanas a
meses),
mais, se não
tratada)
requer
tratamento
imediato
Sintom
as Chave
Hum
or lábil,
choro fácil,
irritabilidad
e leve,
tristeza
passageira
Hum
or deprimido
persistente,
anedonia,
ansiedade,
culpa,
fadiga,
alterações de
sono/apetite,
dificuldade
de
concentraçã
o, possível
ideação
suicida 2
Con
fusão,
desorientaç
ão, delírios,
alucinações
, alterações
graves de
humor,
comportam
ento
bizarro,
agitação/ret
ardo
psicomotor
22
Gravid
ade
Leve
Mod
erada a
Grave
Gra
ve
(Emergênci
a
Psiquiátric
a)
Necessi
dade de Trat.
Espec.
Gera
lmente não
(suporte e
orientação) 2
Sim
(psicoterapi
a,
farmacotera
pia) 2
Sim
(hospitaliza
ção,
estabilizad
ores de
humor,
antipsicótic
os, ECT) 22
Risco
para
Mãe/Bebê
Míni
mo
Mod
erado a Alto
(impacto no
vínculo,
desenvolvim
ento infantil,
risco de
suicídio) 9
Mui
to Alto
(risco de
suicídio
materno e
infanticídio
) 9
Seção 3: A Consulta de Enfermagem no Puerpério na Atenção Primária à
Saúde (APS)
3.1. Protocolos e Diretrizes da APS para o Cuidado Puerperal
A assistência à mulher e ao recém-nascido no período puerperal é uma prioridade
na Atenção Primária à Saúde (APS), sendo norteada por políticas e protocolos que visam
garantir um cuidado integral, humanizado e resolutivo. No Distrito Federal, as ações de
saúde da mulher no puerpério seguem as diretrizes da Secretaria de Estado de Saúde
(SES/DF), com a Portaria SES/DF Nº 182 de 03 de maio de 2024 sendo um documento
referencial para essas práticas, conforme indicado no material de estudo.3 Dada a
indisponibilidade do texto completo desta portaria específica, este relatório se baseará
extensivamente no "Protocolo de Atenção à Saúde da Mulher no Pré-Natal e Puerpério"
da SES/DF 8, um documento técnico robusto que detalha as condutas e fluxos
assistenciais, presumindo-se seu alinhamento com a referida portaria.
Complementarmente, serão consideradas as diretrizes do Ministério da Saúde (MS) para
o cuidado puerperal na APS.1
O fluxo de atendimento no DF, conforme o protocolo da SES/DF 8, preconiza que
a consulta puerperal na Unidade Básica de Saúde (UBS) ocorra, preferencialmente, entre
o 5º e o 7º dia após a alta hospitalar da mulher e do recém-nascido. Para assegurar esse
acesso, o sistema de saúde do DF busca garantir a "Alta Segura e Vinculada" das
maternidades públicas, onde a puérpera já sairia com o agendamento para a primeira
consulta puerperal na sua UBS de referência. Adicionalmente, recomenda-se a realização
de uma visita domiciliar pela equipe de APS à puérpera e ao recém-nascido em até 10
dias após o parto, sendo esta visita antecipada para até o 3º dia pós-alta para recém-
nascidos de risco.8
Os objetivos da atenção puerperal na APS são amplos e multifacetados, visando
8:
• Avaliar as condições gerais de saúde da mulher e do recém-nascido.
• Investigar as relações familiares e a dinâmica de adaptação à chegada do bebê.
• Facilitar o acesso contínuo aos serviços de saúde.
• Fortalecer o vínculo da família com a equipe de saúde da APS.
• Oferecer escuta qualificada e apoio emocional.
• Estimular o desenvolvimento da parentalidade e o envolvimento do parceiro nos
cuidados.
• Orientar sobre os cuidados com o bebê e com a puérpera.
• Identificar precocemente sinais e sintomas de depressão puerperal ou outros
transtornos mentais.
• Promover, proteger e apoiar o aleitamento materno exclusivo até os seis meses.
• Prevenir agravos e acidentes.
• Identificar sinais de perigo para a saúde da díade.
• Orientar sobre planejamento reprodutivo e direitos sexuais e reprodutivos.
A articulação entre a maternidade e a APS é um pilar para a efetividade desse
cuidado, visando a não interrupção da assistência.
3.2. Componentes da Consulta de Enfermagem no Puerpério Tardio e
Remoto
A consulta de enfermagem no puerpério é um momento estratégico para a
avaliação integral da saúde da mulher e do recém-nascido, permitindo a identificação de
necessidades, a implementação de cuidados e a oferta de orientações essenciais.
Primeira Consulta de Puerpério (realizada até 7 dias pós-parto, abrangendo
o final do puerpério imediato e início do tardio, conforme Protocolo SES/DF 8):
• Anamnese: A enfermeira deve realizar uma anamnese detalhada, investigando:
o Condições da gestação, tipo de parto, intercorrências durante o parto e no
pós-parto imediato (ex: hemorragia, febre, hipertensão).6
o Resultados de testagens para sífilis, HIV e outras ISTs durante a gestaçãoe/ou parto.6
o Uso de medicações atuais e pregressas.
o Amamentação: início, frequência, dificuldades (dor, fissuras,
ingurgitamento), percepção da mãe sobre a satisfação do bebê.6
o Estado das mamas: dor, ingurgitamento, sinais flogísticos.
o Hábitos da puérpera: alimentação, sono, nível de atividade física,
repouso.6
o Presença de dor (local, intensidade, característica), especialmente
abdominal ou perineal.
o Características dos lóquios: volume, cor, odor.6
o Queixas urinárias (disúria, polaciúria, incontinência) ou intestinais.
o Presença de febre ou calafrios.
o Planejamento familiar: desejo de futuros filhos, conhecimento e uso prévio
de métodos contraceptivos, método de preferência para o momento atual.6
o Estado psicoemocional: humor, presença de tristeza excessiva, choro fácil,
irritabilidade, ansiedade, preocupações, sentimentos de incapacidade,
fadiga, alterações de sono ou apetite, e investigação ativa de ideação
suicida.6
o Condições sociais: rede de apoio familiar e social, suporte do parceiro,
condições de moradia e saneamento, dificuldades financeiras.6
o Para mães com diagnóstico de HIV, HTLV ou Hepatites, investigar
seguimento em serviço de referência e orientações específicas sobre
amamentação e cuidados.8
• Exame Físico:
o Aferição de sinais vitais: pressão arterial (especial atenção se histórico de
HAS gestacional), frequência cardíaca, frequência respiratória,
temperatura.6
o Avaliação do estado psíquico e nível de consciência.
o Avaliação do estado geral: coloração de pele e mucosas (pesquisa de
palidez, icterícia), hidratação, presença de edemas.6
o Exame das mamas: inspeção e palpação, observando tamanho, simetria,
presença de ingurgitamento, nódulos, hiperemia, calor, dor, características
dos mamilos (presença de fissuras, sangramentos).6
o Exame abdominal: palpação da altura do fundo uterino (para avaliar
involução), consistência uterina, presença de dor à palpação, observação
de cicatriz cirúrgica (cesariana), se houver.6
o Inspeção do períneo e genitais externos: observar cicatrização de
lacerações ou episiotomia (se houver), presença de edema, hematoma,
sinais de infecção (hiperemia, calor, secreção purulenta), características
dos lóquios.6
o Exame dos membros inferiores: pesquisa de edema, sinais de
tromboflebite (dor, rubor, calor, empastamento muscular na panturrilha,
sinal de Homans – embora sua sensibilidade seja questionada).6
o Observação da interação mãe-bebê e avaliação da mamada: observar a
pega do bebê ao mamilo, posicionamento da mãe e do bebê, sinais de
transferência efetiva de leite.6
• Cuidados de Enfermagem e Orientações:
o Orientar sobre higiene pessoal, cuidados com o períneo e/ou incisão
cirúrgica.
o Reforçar a importância de uma alimentação nutritiva e hidratação
adequada, especialmente durante a amamentação.
o Orientar sobre repouso relativo e retorno gradual às atividades físicas.
o Discutir o retorno à atividade sexual, abordando mitos, medos e a
importância do desejo da mulher, além da prevenção de Infecções
Sexualmente Transmissíveis (IST/HIV/AIDS) com o uso de
preservativos.6
o Realizar aconselhamento e apoio intensivo ao aleitamento materno,
abordando técnicas corretas, manejo de dificuldades comuns (fissuras,
ingurgitamento), ordenha manual do leite, e os benefícios para a mãe e o
bebê. Considerar a situação de mulheres que não podem ou não desejam
amamentar, oferecendo apoio e orientação adequados.6
o Orientar sobre os cuidados básicos com o recém-nascido (banho, higiene
do coto umbilical, troca de fraldas, sono seguro, identificação de sinais de
alerta).
o Informar sobre os direitos da mulher (direitos reprodutivos, sociais,
trabalhistas).
o Iniciar a discussão sobre planejamento familiar, apresentando os métodos
contraceptivos disponíveis e adequados ao puerpério e à amamentação,
como o Método da Amenorreia Lactacional (LAM), métodos de barreira,
DIU, e contraceptivos hormonais compatíveis com a lactação. Ajudar na
escolha informada e fornecer o método, se disponível na UBS.6
o Administrar suplementação de ferro (40 mg de ferro elementar/dia por até
três meses pós-parto para mulheres sem anemia diagnosticada).6
o Verificar e atualizar o calendário vacinal da puérpera (ex: dT, Tríplice
Viral), se necessário.6
o Oferecer testagem rápida para HIV e VDRL, com aconselhamento pré e
pós-teste, para mulheres não testadas durante a gestação ou parto.6
o Realizar encaminhamentos necessários (ex: para avaliação médica,
psicológica, odontológica, Banco de Leite Humano).
o Agendar a consulta de retorno e orientar sobre quando procurar o serviço
de saúde em caso de intercorrências.
Segunda Consulta de Puerpério (realizada até 6 semanas/42 dias pós-parto,
no puerpério tardio, conforme Protocolo SES/DF 8):
• Reavaliação da saúde geral da mulher e do recém-nascido, identificando possíveis
intercorrências surgidas desde a última consulta.
• Avaliação contínua da amamentação, oferecendo suporte e manejo de
dificuldades.
• Investigação sobre o retorno da menstruação (especialmente se não estiver em
LAM) e da atividade sexual.
• Realização da coleta de Citologia Oncótica (CCO), popularmente conhecida como
Papanicolau, para prevenção do câncer do colo do útero, conforme as
recomendações da SES-DF e do Instituto Nacional de Câncer (INCA).8 Este é um
momento oportuno, pois a mulher já está inserida no serviço de saúde.
• Reforçar a importância da continuidade da suplementação de ferro, conforme
orientação.
• Reavaliar e dar seguimento ao planejamento reprodutivo, ajustando ou
confirmando o método contraceptivo escolhido, com ênfase em métodos de longa
duração (como o DIU de cobre, disponível na APS) e, se for desejo da mulher e
ela se enquadrar nos critérios legais, orientar sobre métodos contraceptivos
definitivos (laqueadura tubária e vasectomia).8
• Avaliar ativamente a presença de sintomas de depressão pós-parto, utilizando
escalas de rastreio (como a EPDS) e observação clínica.8
• Orientar sobre a importância de um intervalo interpartal mínimo de dois anos para
a saúde da mulher e de futuras gestações.8
Consulta de Enfermagem no Puerpério Remoto (após 42 dias):
Os protocolos do Ministério da Saúde 6 e da SES/DF 8 detalham as consultas de
rotina até o 42º dia pós-parto. Para o período subsequente, o puerpério remoto, o Conselho
Federal de Enfermagem (COFEN) indica que o cuidado deve ser singularizado, ou seja,
adaptado às necessidades individuais de cada mulher.26 Não há um "protocolo" rígido de
consultas seriadas específicas para o puerpério remoto na APS da mesma forma que para
as primeiras semanas. O acompanhamento torna-se mais longitudinal e oportunístico,
integrado às demais ações de saúde da mulher.
As ações de enfermagem no puerpério remoto podem incluir:
• Acompanhamento e manejo do método contraceptivo escolhido, avaliando
adaptação, eficácia e satisfação.
• Suporte contínuo à amamentação, caso a mulher prossiga com a lactação, e
orientações sobre o desmame gradual e a introdução alimentar complementar do
lactente.
• Avaliação da saúde mental a longo prazo, permanecendo atenta a sinais de
depressão ou ansiedade de início mais tardio ou persistente.
• Orientações para a realização de exames de rotina da mulher, conforme faixa
etária e fatores de risco (ex: seguimento da citologia oncótica, solicitação ou
encaminhamento para mamografia).
• Reforço de hábitos de vida saudáveis (alimentação, atividade física, cessação do
tabagismo/etilismo).
• Identificação de necessidades sociais contínuas e encaminhamentos para a rede de
apoio intersetorial, se necessário.
A estrutura das consultas de puerpério, especialmente no DF com a "Alta Segura
e Vinculada" e a recomendação de visita domiciliar 8, demonstra um esforço para
assegurar a integralidade e a continuidade do cuidado entre os diferentesníveis de
atenção. Contudo, a efetividade dessa transição depende da real articulação entre os
serviços de maternidade e a APS. O enfermeiro da APS desempenha um papel crucial na
busca ativa de puérperas que, porventura, não compareçam às consultas agendadas,
garantindo sua captação e acompanhamento.
As rotinas estabelecidas para as consultas 8 evidenciam um forte enfoque na
prevenção de agravos e na detecção precoce de problemas, abrangendo riscos físicos,
psicológicos e sociais. A inclusão explícita da investigação de ideação suicida e de
sintomas depressivos 8 é um componente vital dessa abordagem preventiva.
No que tange ao puerpério remoto, a ausência de um cronograma fixo de consultas
nos protocolos detalhados 8, em contraste com a diretriz do COFEN 26 pela singularização
do cuidado, implica que a responsabilidade de identificar e atender às necessidades
contínuas da mulher recai sobre a vigilância epidemiológica, o vínculo terapêutico e a
proatividade da equipe de APS. O enfermeiro deve aproveitar outras oportunidades de
contato com a mulher (como durante as consultas de puericultura do bebê, vacinação, ou
em atividades de grupo na UBS) para monitorar sua saúde física e mental, oferecendo um
cuidado que verdadeiramente se estenda ao longo do tempo.
A menção à Portaria SES/DF Nº 182 de 03 de maio de 2024 3 como documento
norteador é importante, mas, na ausência de seu conteúdo específico nos materiais
consultados, o "Protocolo de Atenção à Saúde da Mulher no Pré-Natal e Puerpério" da
SES/DF 8 serve como a referência prática mais detalhada e robusta para a descrição da
assistência no Distrito Federal, presumindo-se que este protocolo esteja alinhado aos
princípios da referida portaria.
Seção 4: Plano de Cuidados para Juliana e seu Recém-Nascido na Atenção
Primária
4.1. Análise do Caso de Juliana: Identificação de Necessidades e Fatores de
Risco
A análise do caso de Juliana, conforme descrito no material de estudo 3, revela um
cenário complexo e multifacetado, com diversas necessidades e fatores de risco que
demandam uma atenção de enfermagem integral e individualizada.
Dados de Juliana:
Juliana tem 18 anos e comparece à UBS com sua recém-nascida de 7 dias de vida
para a primeira consulta de puerpério. Ela é mãe solo. A gravidez, inicialmente não
planejada, tornou-se desejada ao longo dos meses. O pai da criança não quis assumir a
paternidade, e Juliana aguarda a realização de um teste de DNA. Reside em Brasília há
dois anos, tendo se mudado do Piauí, e não possui rede de apoio familiar ou social na
cidade. É estudante de enfermagem, mas precisou se afastar do curso. Iniciou um trabalho
como atendente em uma rede de fast food para se sustentar, onde realiza suas principais
refeições, após sua família no Piauí ter cortado o auxílio financeiro ao saber da gestação.
Durante o pré-natal, foi encaminhada ao serviço de apoio psicológico devido a relatos de
medo e ansiedade com o término da gestação. Juliana também informou aos profissionais
que possui familiares com diagnóstico de depressão. Sua gestação foi considerada de alto
risco devido à hipertensão gestacional e obesidade, estando em uso apenas de medicação
anti-hipertensiva.
Queixas Atuais na Consulta de Puerpério:
Juliana expressa muitas dúvidas sobre se seu corpo retornará à forma anterior à
gestação. Refere sentir medo e ansiedade ao realizar os cuidados com sua recém-nascida
em casa. Relata também falta de apetite, fraqueza e dificuldade em realizar as tarefas do
dia a dia, atribuindo esta última à dor que sente na região abdominal.
Fatores de Risco Identificados:
Com base nos dados apresentados e na literatura sobre saúde mental perinatal 2,
identificam-se múltiplos fatores de risco para o desenvolvimento de Depressão Pós-Parto
(DPP) e outras complicações em Juliana:
• Demográficos e Sociais: Idade jovem (18 anos), ser mãe solo, ausência crítica de
rede de apoio social e familiar em Brasília, isolamento social.
• Econômicos e Ocupacionais: Estresse financeiro devido à perda do suporte
familiar e necessidade de trabalhar, interrupção dos estudos.
• Psicológicos e Histórico Pessoal/Familiar: Gravidez inicialmente não planejada,
conflito com o pai da criança, histórico de ansiedade durante a gestação (com
encaminhamento para apoio psicológico), história familiar de depressão.
• Relacionados à Gestação e Parto: Gestação de alto risco (hipertensão
gestacional, obesidade).
• Sintomas Atuais Sugestivos: Medo e ansiedade intensos, preocupações com o
corpo, falta de apetite, fraqueza (podendo ser sintomas depressivos ou físicos),
dor abdominal.
Necessidades do Recém-Nascido:
A recém-nascida de Juliana, com 7 dias de vida, necessita de uma avaliação
completa de saúde conforme os protocolos de puericultura para a primeira semana de
vida. Isso inclui avaliação do crescimento e desenvolvimento inicial, suporte e avaliação
da amamentação, verificação e orientação sobre imunizações (BCG, Hepatite B), teste do
pezinho, e orientações gerais aos cuidadores sobre os cuidados neonatais e identificação
de sinais de alerta.
A situação de Juliana é emblemática da interação complexa entre fatores
biológicos, psicológicos e sociais que podem comprometer o bem-estar no puerpério. Sua
vulnerabilidade é acentuada pela ausência de suporte, o que torna a intervenção da equipe
de APS ainda mais crucial.
4.2. Diagnósticos de Enfermagem Prioritários para Juliana (Exemplos)
Com base na análise do caso e utilizando a taxonomia da NANDA International
(NANDA-I), alguns diagnósticos de enfermagem prioritários para Juliana incluem:
• Ansiedade (00146) relacionada à transição para o papel materno,
responsabilidades com o recém-nascido e falta de rede de apoio social,
evidenciada por relato de medo e preocupação com os cuidados do RN, e relato
de ansiedade.
• Risco de Depressão Pós-Parto (constructo baseado nos fatores de risco e
sintomas iniciais, formalmente seria Risco de Humor Instável 00280 ou Risco
de Resposta Disfuncional ao Estresse 00177, com foco na DPP) relacionado a
múltiplos fatores de risco identificados (idade jovem, isolamento social, estresse
financeiro, história pessoal de ansiedade, história familiar de depressão, gravidez
de alto risco, sintomas atuais como falta de apetite, fraqueza, medo e ansiedade).
• Dor Aguda (00132) relacionada a processo de recuperação pós-parto (natureza a
ser investigada: uterina, incisional se cesárea, muscular, etc.), evidenciada por
relato de dor na região abdominal e dificuldade em realizar tarefas do dia a dia.
• Conhecimento Deficiente (00126) sobre autocuidado no puerpério e cuidados
com o recém-nascido, evidenciado por relato de dúvidas e ansiedade ao cuidar da
filha.
• Nutrição Desequilibrada: Menor que as Necessidades Corporais (00002)
relacionada à falta de apetite e possível estresse psicossocial e demandas da
amamentação, evidenciada por relato de falta de apetite e alimentação principal
em rede de fast food.
• Fadiga (00093) relacionada às demandas do puerpério, privação de sono, dor e
estresse emocional, evidenciada por relato de fraqueza e dificuldade em realizar
tarefas.
• Baixa Autoestima Situacional (00120) relacionada às mudanças corporais pós-
parto e preocupações sobre o retorno à forma física anterior, evidenciada por
relato de dúvidas se seu corpo voltará a ser como antes.
• Isolamento Social (00053) relacionado à ausência de rede de apoio familiar e
social em Brasília e mudança recente de cidade, evidenciado por relato de não
possuir rede de apoio na cidade.
4.3. Plano de Cuidados de Enfermagem para Juliana
O plano de cuidados para Juliana deve ser abrangente, individualizado e baseado
no Protocolo da SES/DF 8, considerando suas necessidades físicas, emocionais e sociais.
Dada a complexidade do caso, uma abordagem interdisciplinar será fundamental.
• Acolhimento e Escuta Ativa:o Estabelecer um ambiente de confiança e empatia, validando os
sentimentos, medos e preocupações expressos por Juliana. Assegurar que
ela se sinta ouvida e compreendida.
• Avaliação Física Completa (conforme Protocolo SES/DF 8):
o Aferir e registrar sinais vitais, com especial atenção à Pressão Arterial
(PA), devido ao histórico de hipertensão gestacional.
o Avaliar a involução uterina (altura e consistência do fundo uterino).
o Observar características dos lóquios (quantidade, cor, odor).
o Inspecionar períneo (se parto vaginal) ou incisão cirúrgica (se cesariana),
avaliando cicatrização e sinais de infecção.
o Examinar as mamas, avaliando ingurgitamento, presença de fissuras,
mastalgia e o processo de amamentação.
o Investigar minuciosamente a dor abdominal referida: localização,
intensidade, tipo, fatores de melhora ou piora, irradiação. Descartar
complicações como infecção puerperal, subinvolução uterina, ou outras
causas não obstétricas.
o Avaliar membros inferiores quanto à presença de edema ou sinais de
tromboflebite.
• Avaliação Psicossocial e de Saúde Mental:
o Aplicar a Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo (EPDS) como
instrumento de rastreio, devido aos múltiplos fatores de risco e aos
sintomas sugestivos apresentados por Juliana.
o Investigar ativamente a presença de ideação suicida, conforme
preconizado pelo protocolo.8
o Avaliar detalhadamente a rede de apoio social e familiar (confirmar a
ausência de suporte local e explorar a possibilidade de contatos remotos
com familiares no Piauí ou identificação de recursos comunitários em
Brasília).
o Discutir o histórico de ansiedade durante a gestação e o encaminhamento
anterior ao serviço de apoio psicológico, verificando se houve seguimento.
• Intervenções e Orientações de Enfermagem:
o Manejo da Dor Abdominal: Após avaliação e descarte de causas graves
(com avaliação médica se necessário), orientar sobre medidas de conforto
(posicionamento, repouso relativo). Se indicada, administrar ou orientar
sobre analgesia conforme prescrição.
o Recuperação Física e Autocuidado: Explicar a fisiologia do puerpério e
o processo gradual de retorno do corpo às condições pré-gravídicas,
buscando tranquilizá-la quanto às suas preocupações.3 Orientar sobre a
importância do repouso relativo, intercalado com pequenas caminhadas.
Discutir estratégias para melhorar a qualidade da alimentação,
considerando sua rotina e o fato de realizar refeições em fast food; orientar
sobre escolhas mais saudáveis e a importância da hidratação,
especialmente se estiver amamentando.
o Saúde Mental:
▪ Realizar psicoeducação sobre as alterações emocionais comuns no
puerpério, diferenciando "baby blues" de Depressão Pós-Parto, e
validar seus sentimentos de medo e ansiedade.
▪ Encaminhamento formal e URGENTE para avaliação
psicológica e/ou psiquiátrica na própria UBS (se houver
profissional) ou em serviço de referência da rede SES/DF. A
urgência se justifica pelos múltiplos fatores de risco, sintomas
atuais e história familiar de depressão. Tentar articular com o
serviço de apoio psicológico que ela frequentou durante o pré-
natal, se possível, para continuidade do cuidado.
▪ Ensinar técnicas simples de manejo de estresse e ansiedade, como
exercícios de respiração diafragmática e relaxamento muscular
progressivo.
▪ Incentivar a expressão de sentimentos e pensamentos em um
ambiente seguro.
o Cuidados com o Recém-Nascido: Reforçar e demonstrar, se necessário,
os cuidados básicos com a recém-nascida (amamentação, banho, higiene
do coto umbilical, troca de fraldas, sono seguro). Observar Juliana
realizando os cuidados e oferecer feedback positivo e construtivo para
aumentar sua confiança e reduzir a ansiedade.
o Fortalecimento da Rede de Apoio: Explorar ativamente com Juliana
quaisquer possibilidades de contato, mesmo que remoto, com familiares
ou amigos que possam oferecer algum tipo de suporte emocional. Informar
sobre recursos comunitários, como grupos de mães ou serviços de
assistência social da UBS, que possam oferecer apoio ou orientação.
o Planejamento Familiar: Iniciar a discussão sobre métodos
contraceptivos conforme o protocolo 8, considerando seu estado
emocional atual e sua situação de vida. Oferecer informações claras e
auxiliar na escolha de um método adequado e desejado.
o Promoção do Autocuidado: Incentivar Juliana a identificar pequenos
momentos para si mesma, mesmo com as intensas demandas do bebê,
como um banho mais demorado ou alguns minutos de descanso quando o
bebê dormir.
• Agendamentos e Encaminhamentos:
o Agendar consulta de retorno para Juliana e para a recém-nascida
(puericultura) na UBS, conforme protocolo.
o Realizar os encaminhamentos para psicologia/psiquiatria e, se pertinente,
para o serviço social.
o Registrar todas as avaliações, diagnósticos, intervenções e
encaminhamentos no prontuário de Juliana.
Tabela 2: Plano de Cuidados de Enfermagem para Juliana
Dia
gnóstico
de
Enfermag
em
(NANDA-
I)
Res
ultados
Esperados
(NOC)
Inter
venções de
Enfermage
m (NIC)
Avaliaçã
o/Observações
An
siedade
Nív
el de
Apoi
o Emocional
Monitora
r verbalização de
(00146)
relacionad
a à
transição
para o
papel
materno,
responsabil
idades com
o RN e
falta de
rede de
apoio.
Ansiedade
(1211)
reduzido;
Autocontr
ole da
Ansiedade
(1402)
melhorado.
(5270);
Aconselham
ento (5240);
Ensino:
Cuidados
com o Bebê
(5604);
Técnicas de
Relaxamento
(5880);
Aumentar o
Enfrentamen
to (5230).
ansiedade e
medo. Avaliar
eficácia das
técnicas de
relaxamento.
Observar
interação com o
RN.
Ris
co de
Depressão
Pós-Parto
(constructo
)
Be
m-estar
Psicológic
o (2002)
mantido/m
elhorado;
Detecção
de Risco
(1908).
Rastr
eamento de
Saúde
Mental (6526
- aplicação
da EPDS);
Encaminham
ento (8100)
para
psicologia/ps
iquiatria;
Vigilância
(6650);
Apoio
Familiar
(7140) -
explorar
contatos.
Aplicar
EPDS. Observar
sinais de humor
deprimido,
anedonia,
alterações de
sono/apetite.
Acompanhar
encaminhament
o.
Do
r Aguda
(00132)
relacionad
a a
processo
de
recuperaçã
o pós-
parto.
Nív
el de Dor
(2102)
reduzido;
Controle
da Dor
(1605).
Mane
jo da Dor
(1400);
Administraç
ão de
Analgésicos
(2210) se
prescrito;
Aplicação de
Calor/Frio
(1380) se
apropriado;
Ensino:
Procediment
o/Tratament
o (5618).
Avaliar
características da
dor (escala 0-
10). Investigar
causa específica.
Monitorar
eficácia da
analgesia.
Co
nheciment
o
Deficiente
(00126)
sobre
autocuidad
o no
puerpério e
cuidados
com o RN.
Co
nheciment
o:
Cuidados
com o
Lactente
(1803);
Conhecim
ento:
Manejo da
Depressão
(1837);
Conhecim
ento:
Processo
da Doença
Ensin
o: Cuidados
com o
Lactente
(5604);
Ensino:
Processo da
Doença
(5602);
Ensino:
Individual
(5606);
Demonstraçã
o (5515).
Avaliar
compreensão das
orientações.
Observar
habilidade nos
cuidados com o
RN. Esclarecer
dúvidas.
(Puerpério
) (1803).
Nu
trição
Desequilib
rada:
Menor
que as
Necessida
des
Corporais
(00002)
relacionad
a à falta de
apetite.
Est
ado
Nutriciona
l (1004)
melhorado
; Apetite
(1014)
aumentado
.
Acon
selhamento
Nutricional
(5246);
Manejo da
Nutrição
(1100);
Monitoração
Nutricional
(1160).
Investiga
r causas da falta
de apetite.
Orientar sobre
escolhas
alimentares
saudáveis e
fracionamento
das refeições.
Monitorar peso e
sinais de
desnutrição.
Fa
diga
(00093)
relacionad
a às
demandas
do
puerpério,
privação
de sono e
dor.
Nív
el de
Fadiga
(0007)
reduzido;
Conservaç
ão de
Energia
(0002).
Mane
jo de Energia
(0180);
Ensino: Sono
(5628);
Promoçãodo
Exercício
(0200) - leve,
quando
apropriado.
Orientar
sobre estratégias
de conservação
de energia e
aproveitamento
de períodos de
descanso.
Isol
amento
Social
(00053)
En
volviment
o Social
(1503)
Mobi
lização
Familiar
(7180) -
Explorar
recursos
comunitários
(grupos de mães,
relacionad
a à
ausência
de rede de
apoio.
aumentado
; Suporte
Social
(1504)
percebido.
incentivar
contato com
família no
Piauí;
Facilitação
de Visitas
(7560) a
grupos de
apoio;
Desenvolvim
ento de Rede
Social
(5330).
CRAS).
Incentivar
participação em
atividades
sociais, se
houver interesse
e possibilidade.
4.4. Plano de Cuidados de Enfermagem para o Recém-Nascido de Juliana
O plano de cuidados para a recém-nascida (RN) de Juliana deve seguir as
diretrizes do Ministério da Saúde 6 e do Protocolo da SES/DF 8, com foco na avaliação
da saúde neonatal, promoção do aleitamento materno e orientações à mãe para os
cuidados.
• Avaliação do Recém-Nascido 6:
o Verificar a existência e o preenchimento da Caderneta de Saúde da Criança
com os dados da maternidade (peso ao nascer, comprimento, perímetro
cefálico, Apgar, tipo de parto, intercorrências).
o Realizar antropometria: peso atual, e se não realizado na maternidade ou
se houver preocupações, aferir comprimento e perímetro cefálico (PC).
Comparar com os dados de nascimento.
o Avaliar o estado geral: nível de atividade (alerta, sonolento, irritado),
postura e tônus muscular, padrão respiratório (frequência, esforço, ruídos),
estado de hidratação (fontanela, turgor da pele, mucosas), eliminações
(frequência e aspecto de diurese e evacuações), presença e intensidade de
icterícia, palidez, cianose.
o Realizar exame físico segmentar:
▪ Crânio: formato, fontanelas (tamanho, tensão), suturas, presença
de bossa serossanguínea ou cefalohematoma.
▪ Face: simetria, olhos (secreção, icterícia escleral), orelhas
(implantação), nariz (permeabilidade), boca (presença de dentes
neonatais, anquiloglossia, palato íntegro).
▪ Pescoço: mobilidade, presença de massas.
▪ Tórax: formato, simetria da expansão respiratória, ausculta
pulmonar e cardíaca.
▪ Abdômen: formato, distensão, palpação (massas,
visceromegalias), avaliação do coto umbilical (presença de
secreção, sangramento, sinais de infecção como hiperemia ou odor
fétido).
▪ Genitália: aspecto, presença de secreção vaginal fisiológica em
meninas, testículos tópicos em meninos.
▪ Membros: simetria, movimentos, pesquisa de displasia do
desenvolvimento do quadril (manobras de Ortolani e Barlow, se o
profissional for treinado e o protocolo local incluir).
▪ Coluna vertebral: alinhamento, presença de tufos de pelos,
depressões ou massas na região sacral.
o Avaliação da amamentação: observar uma mamada completa, avaliando o
posicionamento da mãe e do bebê, a pega do bebê ao seio (boca bem
aberta, lábios evertidos, queixo tocando a mama, mais aréola visível acima
da boca do que abaixo), a coordenação sucção-deglutição-respiração, e
sinais de transferência efetiva de leite (deglutições audíveis, bebê relaxado
e satisfeito após a mamada, mamas mais macias).
• Intervenções e Orientações de Enfermagem (direcionadas a Juliana sobre os
cuidados com a RN):
o Promoção e Apoio ao Aleitamento Materno: Reforçar os benefícios da
amamentação exclusiva e em livre demanda. Orientar sobre técnicas
corretas de posicionamento e pega. Ensinar ou reforçar a técnica de
ordenha manual do leite, caso necessário (ex: para alívio de
ingurgitamento ou para oferecer ao bebê se houver dificuldade temporária
na pega). Se identificadas dificuldades persistentes, encaminhar para o
Banco de Leite Humano (BLH) ou Posto de Coleta de Leite Humano
(PCLH) de referência.8
o Imunização: Verificar na Caderneta da Criança se as vacinas BCG e
Hepatite B foram administradas na maternidade. Caso não tenham sido,
providenciar a administração na UBS, conforme calendário nacional de
imunização.6 Orientar sobre as próximas vacinas e a importância de
manter o calendário atualizado.
o Triagem Neonatal ("Teste do Pezinho"): Verificar se o teste do pezinho
foi realizado (idealmente entre o 3º e o 5º dia de vida). Orientar sobre a
importância do exame e como acessar o resultado.6
o Cuidados Gerais com o Recém-Nascido:
▪ Banho: orientar sobre a frequência, temperatura da água, uso de
sabonete neutro, e cuidados para evitar hipotermia.
▪ Higiene do coto umbilical: orientar a limpeza com álcool a 70% a
cada troca de fralda e após o banho, mantendo-o seco e exposto até
sua queda.
▪ Troca de fraldas e prevenção de assaduras.
o Promoção do Sono Seguro: Orientar sobre a posição supina (barriga para
cima) para dormir, em superfície firme, sem travesseiros, cobertas soltas
ou protetores de berço, para reduzir o risco de Síndrome da Morte Súbita
do Lactente (SMSL).
o Identificação de Sinais de Alerta no Recém-Nascido: Orientar Juliana a
procurar imediatamente um serviço de saúde se a RN apresentar: febre
(temperatura axilar ≥ 37,5°C) ou hipotermia (temperatura axilar