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HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA FACULDADE DE MEDICINA DE RIBEIRÃO PRETO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO MANUAL DE HIGIENIZAÇÃO DAS MÃOS Responsáveis pela atualização Enfª. Fernanda de Paula Rossini Enfª. Lucinéia Alves Pereira Validação Dr. Gilberto Gambero Gaspar Ribeirão Preto 2017/2018 Membros do Núcleo Executivo da CCIH – HCFMRP-USP Gilberto Gambero Gaspar Presidente da CCIH Lécio Rodrigues Médico Assistente e Vice-Presidente Ana Elisa Ricci Lopes Enfermeira Cinara Feliciano Médica Assistente Cláudio Penido Médico Assistente Fabiana Murad Rossin Molina Enfermeira Fernanda de Paula Rossini Enfermeira Giovana Marcão Araújo Badran Farmacêutica Lucas Barbosa Agra Médico Assistente Lucinéia Alves Pereira Enfermeira Luiz Sérgio D’Oliveira da Rocha Médico Assistente Magda Fabbri Isaac Silva Enfermeira Mayra Gonçalves Menegueti Enfermeira Seila Israel do Prado Médica Assistente CAMPUS Ramal: 2319 - BIP Médico 7112 BIP Enfermeira 7113 UE Ramal: 1168 – BIP Médico 7199 BIP Enfermeira 7214 HIGIENE DAS MÃOS EM SERVIÇOS DE SAÚDE Finalidade Prevenir e controlar as Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS), visando a segurança do paciente, dos profissionais de saúde e de todos aqueles envolvidos nos cuidados aos pacientes. Abrangência Este manual deverá ser aplicado em todas as unidades que prestam cuidados à saúde, seja qual for o nível de complexidade, no ponto de assistência. Entende-se por Ponto de Assistência, o local onde três elementos estejam presentes: o paciente, o profissional de saúde e a assistência ou tratamento envolvendo o contato com o paciente ou suas imediações (ambiente do paciente). Para tal, é necessário o fácil acesso a um produto de higienização das mãos, como por exemplo, a preparação alcoólica. O produto de higienização das mãos deverá estar tão próximo quanto possível do profissional, ou seja, ao alcance das mãos no ponto de atenção ou local de tratamento, sem a necessidade do profissional se deslocar do ambiente no qual se encontra o paciente. O produto mais comumente disponível é a preparação alcoólica para as mãos, que deve estar em dispensadores fixados na parede, frascos fixados na cama / na mesa de cabeceira do paciente, nos carrinhos de curativos / medicamentos levados para o ponto de assistência, podendo também ser portado pelos profissionais em frascos individuais de bolso. Introdução O papel das mãos na transmissão de microrganismos por contato é baseado na capacidade da pele de abrigá-los e transferi-los de uma superfície para outra, direta ou indiretamente. O frequente contato das mãos com mobiliários, artigos, equipamentos e pacientes durante o atendimento assistencial, destaca a importância deste meio de transmissão. Para prevenção e controle de infecções nos ambientes de saúde é primordial a correta higienização das mãos. Apesar de ser a mais importante ação isolada no controle das infecções, a falta de adesão dos profissionais a esta prática é facilmente constatável. É uma conduta simples, de baixo custo, com técnicas preconizadas, que requer estrutura mínima para ser praticada adequadamente, minimizando os vários problemas decorrentes das infecções. Definição “Higiene das mãos” é um termo geral, que se refere a qualquer ação de higienizar as mãos para prevenir a transmissão de microrganismos e consequentemente evitar que pacientes adquiram IRAS. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA, o termo engloba a higiene simples, a higiene antisséptica, a fricção antisséptica das mãos com preparação alcoólica e a antissepsia cirúrgica das mãos. Mecanismos de transmissão Microrganismos presentes em um paciente, ou em objetos inanimados por ele tocados, são transferidos para as mãos dos profissionais da saúde durante a prestação da assistência. Estes microrganismos devem sobreviver por, pelo menos, vários minutos nas mãos dos profissionais. Em seguida, a higienização das mãos deverá ser omitida ou realizada de forma inadequada pelo profissional. Finalmente, as mãos contaminadas transferem os microrganismos a outro paciente através do contato direto ou indireto, mediado por artigos de assistência. Momentos para a higiene das mãos As mãos devem ser higienizadas em momentos essenciais e necessários de acordo com o fluxo de cuidados assistenciais para prevenção de IRAS causadas por transmissão cruzada pelas mãos: “Meus cinco momentos para a higiene das mãos”. A ação correta no momento certo é a garantia de cuidado seguro para os pacientes. 1. Antes de tocar o paciente 2. Antes de realizar procedimento limpo/asséptico 3. Após o risco de exposição a fluidos corporais ou excreções 4. Após tocar o paciente 5. Após tocar superfícies próximas ao paciente Figura 1. Meus cinco momentos para a higiene das mãos HIGIENIZAÇÃO SIMPLES DAS MÃOS COM ÁGUA E SABONETE LÍQUIDO Finalidade: Remover os microrganismos que colonizam as camadas superficiais da pele, assim como o suor, a oleosidade e as células mortas, retirando a sujidade propícia à permanência e à proliferação de microrganismos. Conceito: a higiene simples das mãos é constituída pela aplicação de água corrente e sabonete líquido neutro ou com antisséptico (higiene antisséptica), seguida da fricção de uma mão contra a outra, em toda a sua superfície, seguida pelo enxágue em água corrente e secagem em papel toalha. Objetivo: remoção mecânica da sujidade eventualmente presente nas mãos e da maior parte de sua microbiota transitória. Quando realizada com antisséptico, tem por objetivos adicionais reduzir a concentração da microbiota residente e promover efeito “persistente” ou “residual”, de modo a minimizar a probabilidade de sobrevivência e transferência de germes patogênicos. Indicações: de modo geral, pode-se afirmar que o profissional de saúde deve lavar as mãos antes e após qualquer contato com os pacientes e objetos inanimados nas suas imediações, também entre um paciente e outro e sempre que elas contiverem sujidade visível. Também é importante ressaltar que o uso de luvas não dispensa a necessidade de lavagem das mãos antes e após o seu calçamento. Isto porque as mãos previamente contaminadas podem transferir germes para as luvas e destas para os pacientes, e as luvas podem conter furos microscópicos ou romper durante o uso, permitindo a contaminação das mãos durante a manipulação do paciente. Duração do procedimento: A higienização simples das mãos deve ter duração mínima de 40 a 60 segundos. Uso de antissépticos: segundo o Ministério da Saúde, durante a prestação de assistência a pacientes críticos (pacientes em terapia intensiva, imunossuprimidos ) ou antes da realização de procedimentos invasivos, a lavagem das mãos deverá ser realizada com soluções contendo detergente e uma substância antisséptica, como PVP-I ou Clorexidina. Efeitos adversos: por desnaturarem proteínas do estrato córneo, alterarem os lipídeos intercelulares e diminuírem a coesão entre os corneócitos, os detergentes produzem dermatite irritativa nas mãos de parte considerável dos profissionais da saúde. Além disso, PVP-I e Clorexidina podem agravar esse efeito irritativo, que parece estar relacionado a frequência de lavagem das mãos. Paradoxalmente, a dermatite pode promover o aumento das concentrações microbianas nas mãos. Não se recomenda o uso de sabão sólido para esta finalidade, tendo em vista que diversos microrganismos podem contaminar e inclusive se multiplicar na sua superfície, fazendo com que ele sirva, a partir de então, como fonte de contaminação das mãos. Também não se recomenda a utilização de toalhas de pano paraa secagem, porque a umidade residual favorece a multiplicação de germes que poderiam recontaminar as mãos, após a lavagem. Técnica de Higienização Simples das Mãos 1. Molhe as mãos com água; 2. Aplique na palma da mão quantidade suficiente de sabonete líquido para cobrir toda a superfície das mãos; 3. Ensaboe as palmas das mãos friccionando-as entre si; 4. Esfregue a palma da mão direita contra o dorso da mão esquerda, entrelaçando os dedos e vice-versa; 5. Entrelace os dedos e friccione os espaços interdigitais; 6. Esfregue o dorso dos dedos de uma mão com a palma da mão oposta, segurando os dedos, com movimentos de vai e vem e vice-versa; 7. Esfregue o polegar esquerdo com o auxílio da palma da mão direita utilizando-se de movimento circular e vice-versa; 8. Friccione as polpas digitais e unhas da mão direita contra a palma da mão esquerda, fazendo movimento circular e vice-versa; 9. Enxágue bem as mãos com água; 10. Seque as mãos com papel toalha descartável; 11. No caso de torneiras de fechamento manual, para fechar sempre utilize o papel toalha; 12. Agora as suas mãos estão prontas para o trabalho. HIGIENIZAÇÃO DAS MÃOS COM FORMULAÇÃO ALCOÓLICA Conceito: aplicação de uma formulação alcoólica (na concentração final mínima de 70%), em gel ou solução, seguida pela fricção de uma mão contra a outra, em toda a sua superfície, e a secagem espontânea. Objetivo: inativar instantaneamente os microrganismos da microbiota transitória e residente das mãos, de modo a reduzir sua concentração e a probabilidade de transferência destes agentes aos pacientes. Pode substituir a higienização com água e sabonete líquido quando as mãos não estiverem visivelmente sujas. Eficácia: a antissepsia das mãos com formulações alcoólicas exibe eficácia superior à lavagem simples das mãos, quando a pele não contém sujidade visível. Seu efeito se baseia na desnaturação das proteínas da célula microbiana. Indicações: de modo geral, pode-se afirmar que as indicações para higienização das mãos com álcool são as mesmas da higiene das mãos com água e sabão/antisséptico, exceto quando as mãos estão visivelmente sujas, quando então devem ser lavadas. Em todas as demais situações, o uso do álcool gel deverá ser preferido, tendo em vista sua eficácia superior e toxicidade inferior. Deve também ser empregada antes da realização de procedimentos invasivos de curta duração, como curativos, sondagem vesical ou punção para acesso venoso central. Duração do procedimento: a fricção das mãos com preparação alcoólica antisséptica deve ter duração de no mínimo 20 a 30 segundos. Efeitos adversos: a incidência de dermatite irritativa nas mãos dos profissionais da saúde que realizam higiene das mãos com formulações alcoólicas é significativamente menor que aquela observada entre profissionais que realizam a higiene das mãos com água e sabão/antisséptico. Por conterem emolientes, essas formulações também ressecam menos as mãos. Adesão: por consumir menos tempo para aplicação, irritar menos as mãos, e poder ser levado a qualquer local, a adesão à antissepsia alcoólica tende a ser superior àquela observada para a lavagem das mãos. Entretanto, a adesão pode ser profundamente influenciada pelo grau de esclarecimento e incentivo dos profissionais de saúde identificados em cada instituição. É importante saber que, se você lavar suas mãos com água e sabão/antisséptico, não é necessário a aplicação adicional do álcool gel, pois isso poderia irritá-las ou agredi-las. Nas enfermarias, o álcool gel está disponível em: dispensadores de álcool gel nas paredes dos corredores das enfermarias, almotolias com álcool gel (que podem ser levadas para dentro da enfermaria, estando por vezes, disponíveis a beira do leito). Estas almotolias são solicitadas via farmácia, devem permanecer fechadas e desprezadas ao término da solução. Técnica de Higienização das Mãos com Preparação Alcoólica 1. Aplique uma quantidade suficiente de preparação alcoólica em uma mão em forma de concha para cobrir todas as superfícies das mãos; 2. Friccione as palmas das mãos entre si; 3. Friccione a palma de mão direita contra o dorso da mão esquerda, entrelaçando os dedos e vice-versa; 4. Friccione a palma das mãos entre si com os dedos entrelaçados; 5. Friccione o dorso dos dedos de uma mão com a palma da mão oposta, segurando os dedos, com movimento vai e vem e vice-versa; 6. Friccione o polegar esquerdo com o auxílio da palma da mão direita, utilizando-se de movimento circular e vice-versa; 7. Friccione as polpas digitais e unhas da mão direita contra a palma da mão esquerda, fazendo um movimento circular e vice-versa; 8. Quando estiverem secas, suas mãos estarão prontas para o trabalho. DEGERMAÇÃO CIRÚRGICA DAS MÃOS Finalidade: Eliminar a microbiota da pele e reduzir a microbiota residente, além de proporcionar efeito residual na pele do profissional. As escovas utilizadas no preparo cirúrgico das mãos devem ser de cerdas macias e descartáveis, impregnadas ou não de antisséptico e de uso exclusivo em leito ungueal e subungueal. Conceito: a degermação cirúrgica das mãos consiste na aplicação de água corrente e antisséptico degermante (PVP-I ou Clorexidina), seguida da escovação das unhas e fricção de uma mão contra a outra e contra os antebraços, em toda a sua superfície, de 3 a 5 minutos para a primeira cirurgia e de 2 a 3 minutos para as cirurgias subsequentes, seguida pelo enxágue em água corrente e secagem em compressa estéril. Técnica Degermação Cirúrgica das Mãos Outros aspectos importantes: Mantenha unhas curtas e limpas, O uso das cerdas durante a escovação só deve ser utilizada na fricção das pontas dos dedos, sendo os passos restantes, aplicado com a parte esponjosa. Não use unhas postiças quando houver contato direto com o paciente, Evite utilizar anéis, pulseiras e outros adornos quando assistir ao paciente, Aplique creme hidratante nas mãos, diariamente, para evitar o ressecamento na pele. Quadro 1. Espectro antimicrobiano e características de agentes antissépticos utilizados para higienização das mãos. Grupo Bactérias Gram- positivas Bactérias Gram- negativas Micobactéria Fungos Vírus Velocidade de Ação Comentários Álcoois +++ +++ +++ +++ +++ Rápida Concentração ótima: 70%; não apresenta efeito residual. Clorexidina (2% ou 4%) +++ ++ + + +++ Intermediária Apresenta efeito residual; raras reações alérgicas. Compostos de Iodo +++ +++ +++ ++ +++ Intermediária Causa queimaduras na pele; irritantes quando usados na higienização anti séptica das mãos. Iodóforos +++ +++ + ++ ++ Intermediária Irritação de pele menor que a de compostos de iodo; apresenta efeito residual; aceitabilidade variável. Triclosan +++ ++ + - +++ Intermediária Aceitabilidade variável para as mãos. +++ excelente ++ bom + regular - nenhuma atividade antimicrobiana ou insuficiente Fonte: Adaptada de CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Guideline for hand hygiene in health- care settings: recommendations of the Healthcare Infection Control Practices Advisory Committee and HICPAC/SHEA/APIC/IDSA Hand Hygiene Task Force. MMWR v. 51, n. RR-16, p. 1-45, Out./2002. Bibliografia BRASIL. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA – ANVISA. Higienização das Mãos em Serviços de Saúde. Brasília, 2007. Disponível em:. Acesso em: 21 mar. 2014. BRASIL. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA – ANVISA. RDC n°. 42, de 25 de outubro de 2010. Dispõe sobre a obrigatoriedade de disponibilização de preparação alcoólica para fricção antisséptica das mãos, pelos serviços de saúde do País e dá outras providências.Diário Oficial da União, Brasília, DF, 26 out. 2010. BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE/ANVISA/FIOCRUZ. Protocolo para a prática de higienização das mãos em Serviços de Saúde, 2013. BRASIL. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA – ANVISA. Segurança do Paciente em Serviços de Saúde – Higienização das Mãos. Brasília, 2009. 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