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09 Até 1890, era incontestado o domínio dessa estética, 41. em que prosa e poesia se acumpliciaram na objetiva pintura da SIMBOLISMO expressão do interesse geral da época pelas coisas materiais. Desde então, porém, idéias novas começam a circular, a contaminar espíritos inquietos, IMPRESSIONISMO mudança que não passou despercebida a um crítico sagaz, Araripe Júnior.² MODERNISMO cansaço e.o anquilosamento da velha escola já se faziam notar, com evidente queda da produção e da criatividade segundo os moldes naturalis- Texto tas. É verdade que a vitória sobre o Romantismo não havia sido completa, e o período fora atravessado pelo filete romântico, tendo mesmo a própria A no estética realista-naturalista herdado traços e caracteres do Romantismo. Mas, se os elementos românticos tiveram alguma vida, naquela fase, esta sa foi de natureza latente, até ressurgir, mais tarde, sob a forma do Simbo- Uma literatura em mudança: oposição lismo, como uma revanche da subjetividade contra a objetividade, da inte- Valorização riorização contra a exteriorização, do indivíduo contra a sociedade. entrecruzamento de correntes estéticas constitui a dinâmica do século do Simbolismo e sua influência. Ori- em seu último quartel. aparecimento do Simbolismo não logrou afastar a gens do Simbolismo. Definição e caracte- corrente ao contrário foi por ela abafado, sob cer- res. Cronologia do Simbolismo no Brasil: tos aspectos, não tendo logrado senão escassamente impor-se ao registro os diversos grupos e figuras. Impressio- nismo: gênese, caracteres, influências. crítico, e a importância só muito mais tarde foi reconhecida. Resultou que, como movimentos poéticos, o Parnasianismo e o Simbolismo, fenômenos Impressionismo no Brasil. A incorporação literários diversos na atitude espiritual, na linguagem geracional e do nacional à literatura. Desintegração e de expressão, permaneceram muito tempo ora paralelos, ora misturando- aventura: preparação do Modernismo se. Escritores houve que se caracterizaram pelas impregnações parnasia- antecedentes europeus e nacionais. Ex- nas e simbolistas. De modo que, nenhum tendo conseguido afastar o ou- pressionismo. "moderno" em literatura: definição e caracteres. A Revolução Mo- tro, penetraram ambos pelo século XX, continuando o Parnasianismo iso- lado em certas figuras de epígonos, ou constituindo, de mistura com ele- derna no Brasil: definição, antecedentes, mentos do Simbolismo, uma fase de poesia de transição e sincretismo, eclosão. A Semana de Arte Moderna. Fu- turismo e Modernismo. Modernismos bra- que, de 1910 a 1920, preparou o advento do Modernismo. sileiro, português e hispano-americano. Mas o Simbolismo, além de sua importância própria, como movi- Graça Aranha. Os grupos e correntes do mento independente, pelas altas figuras que inspirou no crepúsculo do sé- Modernismo. Regionalismo. Gilberto culo XIX, teve um grande papel como fertilizante do espírito literário em Freyre. As revistas e os manifestos teóri- geral, e promotor de singular transformação na prosa, inclusive de ficção cos. Cronologia e caracteres do Moder- Foi Araripe Júnior quem primeiro registrou essa tendência finissecular: nismo. Mário de Andrade. Saldo e legado do movimento: problema da língua; poe- Esse encontro da última obra do poeta de guarani com as sia; ficção; crônica; teatro; crítica, etc. primeiras tentativas de misticismo literário do Brasil força-me a externar uma idéia, que talvez cause pena a muitos entu- siastas do Realismo de Zola. A poesia, que o Naturalismo expelira do romance nacio- UMA LITERATURA EM MUDANÇA nal, a título de análise e de estudo de caracteres, parece que vai por algum tempo reconquistar os redutos abandonados. 1. Dominava a cena artística brasileira o Coelho Neto já em alguns de seus trabalhos deu a nota carac- terística da fase nova. E esse retorno ao amor da natureza, ao sistema de idéias e normas estéticas implantado pela poderosa geração de lirismo da vida, ao sonho acordado, à tendência natural para 1870, e que constituíram o complexo estilístico do Realismo-Naturalis- 315 314dramática da narração, a estrutura orgânica, certa frouxidão de enredo, vi- a lenda e para a confusão do real com o ideal, será entre nós sando à aproximação da realidade e a um retrato do homem, Machado ti- tão fácil quanto em todo o escritor nacional há um poeta líri- de ordinário pouco inclinado a trabalhos de observação nha clara consciência da diferença entre a arte e a vida, o que já o distan- aturada, e que é sempre obrigado a deformar a sua índole ciava dos ortodoxos realistas e naturalistas. Diferentemente deles, Ma'- para empreender analíticos, se o microscópio por chado sabia encarar a literatura como um corpo de símbolos e conven- acaso não lhe oferece as ilusões dos infinitamente pequenos. ções, sem cuja manipulação se torna inartístico o uso que ela faz dos ele- Se, porém, é fácil prever a influência da imaginação poética mentos da vida. Ele sabia que a missão do artista era, à custa daqueles nas obras que se tem de produzir em futuro próximo, dificí- símbolos, artifícios e convenções, criar um mundo especial, semelhante ao limo seria determinar desde já a forma que deverão tomar os real, que despertasse uma ilusão da vida, sem ser a vida. É claro que esse livros em prosa destinados a descrever em concreto a vida mundo tinha que ser verossímil, mas de uma verossimilhança mais pro- brasileira. dependentes como somos ainda e imediatamente funda, porque mais universal, bastando para captá-la e representá-la mos- das correntes caprichosas do pensamento europeu.³ trar a realidade através de pequenos flagrantes representativos, devida- mente selecionados e estruturados, que comunicassem a impressão do E, como crítico de agudas antenas, Araripe Júnior aponta em seguida efeito total. às gerações novas do Brasil o caminho da ampliação de horizontes, para Há uma diferença de grau e de matéria, bem como de tratamento, na buscar inspiração nos novos exemplos fornecidos pelos russos e escandi- obra de Machado em relação ao típico naturalista. Sobretudo a paisagem navos, Tolstoi, Dostoiévski, Ibsen, Bjornson, nos quais fugiriam das ten- dominante é a do espírito humano, a região misteriosa e vária, a cuja son- dências mórbidas da última estética e dos "livros cansativos dos psicólo- dagem especializou sua arte, transfigurando suas perspectivas em mitos e gos franceses". Seriam os autores reconhecidos mais tarde como alguns símbolos. Machado embarcou numa tendência da literatura àqueles decê- dos luzeiros da nova estética, e que tanta influência viriam a ter no desen- nios terminais do século, a tendência a vasculhar a vida interior do'indiví- volvimento posterior da arte literária. duo, para o que; aliás, se continuavam a usar as técnicas realistas servação exata. A ficção introspectiva e psicológica vinha colocar 2. Essa transformação que se operou na prosa, e que tão bem ficou uma nova espécie de realidade, da qual não estavam longe a faculdade in- entrevista por Araripe Júnior, era a resultante de um processo estético ventiva e a fantasia, e a que Machado aliou uma radical visão consistente na confluência do Simbolismo com o Naturalismo, vindo a existência. produzir em prosa o que hoje conhecemos pelo nome de Impressionismo, A evolução de Machado de Assis, acompanhando a marcha da litera- processo que viria influir na gênese do Modernismo. Em vez de desapare- tura, faz-se evidente no sentido de um Realismo transfigurado, de um Re- cerem e de nascerem novos, os estilos estéticos se fecundam mutuamente alismo alargado pelo Simbolismo e pela mitologia. o fato é tanto mais'sen- e se transformam, resultando aos poucos, novas formas, que jamais são sível quanto mais o escritor se aproxima do final da carreira libertando-se, totalmente novas, porque integram muitos elementos das anteriores. no curso de um esforço consciente, das cadeias naturalistas. É nítida, na literatura, após 1890, essa superação do Realismo natura- exação Eugênio como a "floresta de símbolos", que atravessou o lista, através da introspecção e do Simbolismo, a despeito de ser um fato espírito do romancista desde Brás Cubas, se acentuou em Esaú que passou mais ou menos despercebido até bem pouco tempo. A esse "de maneira significativa e excitante", tendo passado "a pensar por respeito, mesmo a posição de Machado de Assis revela-se sobremodo sig- gem ou metáfora, e esta, ainda quando sutil, pode dissimular com o pito- nificativa. Posto que tenha recebido impregnações da ideologia positivista resco o sentido metafísico ou alegórico da criação enriquecido e da técnica naturalista, Machado jamais se deixou vencer, devedor con- seu universo de um idealismo moral, povoado de símbolos do Bem e do fesso ao leite tendo mesmo produzido a melhor crítica aos ro- Mal. Assim é em Esaú Jacó (1904), e assim muitos de seus contos: um mances naturalistas de Eça de Queirós, páginas magistrais ainda hoje váli- mundo de símbolos e alegorias. A sua fidelidade à técnica realista fazia das como exemplo modelar de crítica de cunho estético. A doutrina realis- com que ele mergulhasse no contemporâneo a fim de colher o material da ta-naturalista absoluta não era o clima ideal para um escritor como Ma- vida que, atingindo o inconsciente, se transformaria num símbolo de arte. chado de Assis, antes um transfigurador da realidade do que um mero re- Suas crônicas documentaram esse fato: muitos assuntos observados no co- tratista, antes o criador de uma obra semelhante à vida do que uma cópia tidiano, recolhidos na leitura do fait divers dos jornais, iriam servir-lhe da realidade. Desta maneira, usando embora alguns dos processos da esco- como material para crônicas, depois desdobrados em contos ou introduzi- la, como o método autobiográfico, a observação da realidade, a técnica dos nos romances, perdendo-se no caminho como realidade e ganhando 316 317em intangível artístico, através de diversos estratos de significado. fato SOB SIGNO DO SÍMBOLO era assim escamoteado, rejeitado como fato, transformado em substância estética. Era a vida salvando-se pela arte, adquirindo perenidade, mu- 1. Origens do Simbolismo. Nem toda literatura que usa o símbolo é dando de forma e estrutura, revelando, através da arte, os seus segredos simbolista. A poesia universal é toda ela na essência simbólica. Os símbo- íntimos, a sua verdade eterna e profunda, dela e da natureza humana. los povoam a literatura desde Bastava que o homem procurasse Essa religião da arte ou essa vitória da vida pela arte encontrará ver- exprimir-se de forma indireta e pela representação figurativa, fugindo à dadeira apoteose na mensagem final inscrita no Memorial de Aires (1908). linguagem prática e à fixação do visível.⁷ Todavia, ao longo da década de Aqui a arte o salva, o redime, humaniza-o. "O sofrimento fez-se arte do 1890, desenvolveu-se em França um movimento estético a princípio apeli- Memorial", disse Graça Aranha. Machado converteu-se à humanidade, à dado "decadentismo" e depois "Simbolismo"." Por muitos aspectos liga- vida, reconciliando-se com o sentido poético da existência, com o mundo do ao Romantismo e tendo tido berço comum com o o moral, com a vida espiritual.⁶ Simbolismo gerou-se como uma reação contra a fórmula estética parnasia- na, que dominava a cena literária durante a década de 1870 ao lado do Re- 3. Se na prosa se operava a superação da estética naturalista na dire- alismo e do Naturalismo, defendendo o impessoal, o objetivo, o gosto do ção do Impressionismo, na poesia o processo transformador se fez sentir detalhe e da precisa representação da natureza, a preferência pela forma indisfarçável. Na prosa, além da obra final de Machado de Assis, deu lu- em detrimento do conteúdo, a ênfase no descritivo exterior, no fatual, na gar à produção de Raul Pompéia e Graça Aranha, e a toda uma galeria de pintura do lugar-comum e do cotidiano.¹⁰ ficcionistas cujos livros estão impregnados dos mesmos valores estéticos, Posto não constituísse unidade de métodos, antes de ideais, o que conduziriam ao Modernismo. Simbolismo procurou instalar um credo estético baseado no subjetivo, no Na poesia, depois do Simbolismo da primeira fase, a nova corrente pessoal, na sugestão e no vago, no misterioso e ilógico, na expressão indi- multiplica-se em diversos movimentos que enchem o período de sincre- reta e simbólica. Como pregava Mallarmé, não se devia dar nome ao obje- tismo e transição do início do século XX. to, nem mostrá-lo diretamente, mas sugeri-lo, evocá-lo pouco a pouco, Ao romper a década de 1890, diversos moços inquietos e descontentes processo encantatório que caracteriza o símbolo. com a nota literária dominante, que era a do Naturalismo-Parnasianismo, O berço tanto do Simbolismo como do Parnasianismo, afirma-o Cor- reuniram-se no Rio de Janeiro em torno de novos ideais estéticos e literá- é o primeiro volume do Parnasse Contemporain (1866), não só por rios, conhecidos como "decadentistas", de inspiração francesa. Era o adven- alguns de seus colaboradores, que formam entre os antepassados comuns to do Simbolismo brasileiro, e no jornal Folha Popular, em 1891, o grupo, aos dois movimentos, como também por dar guarida aos primeiros vagidos constituído principalmente de B. Lopes, Oscar Rosas, Cruz e Sousa, Emi- daquela "emoção que seria um dos mais típicos elementos simbo- liano Perneta, lançou o primeiro manifesto renovador, tendo como signo listas. É assaz curioso esse fenômeno da história literária moderna em que mallarmeano um fauno. Como assinala Araripe Júnior no ensaio aludido, e dois movimentos, unidos na origem, identificados ou misturados pelos que constitui o melhor registro da mudança no seu início, já desde 1887 seus elementos formais e ideológicos na obra dos mesmos artistas, diver- haviam tido penetração entre nós as idéias "decadentistas" oriundas da gem à medida que avançam no tempo, e se tornam paralelos e adversários. França, e que se manifestavam pelas "sutilezas de um hieratismo gramati- É Baudelaire (1821-1867) o grande precursor do Simbolismo, aquele cal, em que a sintaxe passava por caprichosos truncamentos para a obten- Baudelaire de quem Rimbaud, em 1871, dando início ao culto baudelai- ção de certos e determinados efeitos", pelo gosto da mitologia, da riano que se tornaria a nova religião, afirmou ser premier voyant, roi sica, do ocultismo e do invisível, a serem exprimidos pelo poeta como se des poètes, un vrai Antes, porém, de Baudelaire, é a Edgar Allan fosse um mago. Essa tendência estava sendo recebida como "arma de Poe (1809-1849) que se atribuiu a paternidade do movimento, pela sua in- demolição da escola naturalista de Zola", continua Araripe e assim a cor- fluência em Baudelaire. A estes, é mister acrescentar Verlaine (1844-1896), rente invadiu o noticiário. Rimbaud (1854-1891), Mallarmé (1842-1899), como os maiores responsá- Além do grupo do Rio de Janeiro, de 1891, no Ceará outra plêiade de veis pela transformação poética, para falar, como fez nas fontes jovens, em 1892, fundava uma sociedade literária, chamada "Padaria Es- remotas e antecedentes filosóficos do movimento, que havia muito vi- piritual", também dedicada ao culto das excentricidades da nova arte. Es- nham preparando "the mystic and idealistic approach to literature" se- tava, destarte, lançado no Brasil o movimento simbolista, e, em 1893, gundo o qual a arte não seria comunicação ou informação, mas "a fonte de Cruz e Sousa inaugurou-o com livros: Missal e Broquéis. fortes experiências emocionais e a revelação do mistério do 318 319Schopenhauer e Hegel formam a sua principal base filosófica, e Wagner e prosa metafórica. sentimentalismo romântico foi de todo extirpado da o romance russo são outras influências decisivas. poesia, bem como o didatismo, a banalidade, o puro descritivismo. Foi as- A década de 70 é realista e parnasiana, ao passo que a de 80 se torna sim um movimento de singular importância, com repercussão internacio- nal e a distância. decadentista e simbolista, cultivando uma poesia de sugestão e musicali- dade, correspondências e inter-relações de sentidos, e uma vida literária 2. Definições e caracteres. Não é fácil definir o Simbolismo, nem marcada pela excentricidade, artifício, insânia. A mudança é gradual, e se deduzi-lo de doutrinas com um programa de propósitos definidos e coeren- evidencia com a crescente influência de Baudelaire, Mallarmé, Verlaine e tes e unidade de métodos. Seus representantes uniram-se por certos Rimbaud, como os grandes mestres da poesia não-objetiva e não-descriti- ideais comuns, e outros elementos díspares, de significado independente. va. Por volta de 1880, espalha-se a idéia de decadência, caracterizada em Primeiramente, o Simbolismo foi uma reação contra o Realismo, o Na- 1881 por Paul Bourget em um artigo em que ele identifica o estado de de- turalismo e o Positivismo, e contra o Parnasianismo na poesia. Como ob- cadência com Baudelaire, místico, libertino e analisador, típico de uma sé- serva Martino, foi uma revolta contra o espírito positivista em todos os rie de indivíduos "incapazes de encontrar seu lugar próprio no trabalho do setores: arte, moral, filosofia. mundo", lúcidos para com "a incurável máscara de seu pessi- Por outro lado, representa 0 Simbolismo resultado final de um de- mistas e individualistas extremos, querendo submeter o mundo às suas ne- senvolvimento que se iniciou com Romantismo, isto é, com a descoberta cessidades íntimas, e sentindo a época como de crise e enfado, fadiga e da metáfora como célula germinal da poesia, descoberta que conduziu à degenerescência, dissolução e má consciência. O decadentismo, tal como riqueza da imagística impressionista; mas assim como se distanciou do foi representado em A rebours de Huysmans, com seu famoso personagem Impressionismo por causa de sua visão materialista do mundo, e do Parna- des Esseintes, refletia profunda revolta contra a sociedade burguesa e sianismo em virtude de seu formalismo e racionalismo, ele repeliu o Ro- seu conceito da moral familiar.¹⁵ Depois de 1885, e do artigo de Moréas, o mantismo devido ao seu emocionalismo e ao convencionalismo de sua lin- termo foi sendo substituído pelo de "simbolismo", que afinal prevaleceu guagem no uso corrente, embora aqui e ali ainda se continuasse a empregar o pri- E acrescenta Hauer: "Em certos aspectos o Simbolismo pode ser con- meiro. siderado a reação contra toda a poesia anterior; ele descobriu algo que Além dos grandes pioneiros, Baudelaire, Verlaine, Mallarmé e Rim- ainda não havia sido conhecido ou enfatizado antes: a 'poesia pura', a po- baud, enquadram-se no Simbolismo os seguintes nomes: Laforgue, Cor- esia que surge do espírito irracional, não-conceitual da linguagem, oposto bière, Samain, Le Cardonnel, Guérin, Moréas, Ghil, Maeterlinck, Villiers a toda interpretação lógica. Para o Simbolismo, a poesia nada mais é do de l'Isle, Adam, Régnier, Huysmans, Stuart Merrill, Dujardin, Fontainas, que a expressão daquelas relações e correspondências, que a linguagem, Moekel, Francis Jammes, Vielé-Griffin, Paul Fort, Verhaeren. Fenômeno abandonada a si mesma, cria entre o concreto e o abstrato, o material e o tipicamente de origem francesa, teve no entanto caráter centrífugo, ideal, e entre as diferentes esferas dos sentidos." irradiando-se por todo o Ocidente, impregnando outras literaturas. Sobre- O Simbolismo foi assim uma forma do espírito romântico, sob certos tudo, deixou uma herança muito forte, analisada por C. M. Bowra,¹⁶ atra- aspectos uma sua continuação, um Romantismo indireto e extremado, vés de cinco individualidades poéticas que, do final do século XIX, invadi- tanto quanto ele fugindo do mundo exterior por acreditar que só é real ram o século XX: Valéry, Rilke, George, Blok e Yeats, às quais se pode- aquilo que é refletido pela consciência individual. Destarte, para o Simbo- riam acrescentar, como herdeiros dessa ou daquela forma do Simbolismo, lismo o que importa são os estados de alma e destes somente os que po- Proust, Apollinaire, Claudel. Na Inglaterra, o movimento similar foi o es- dem ser conhecidos os seus próprios. Daí a sua religião do eu, a forte teticismo de Rossetti, Pater e Wilde. Na Escandinávia, Ibsen (1828-1906). nota individualista, oposta à filosofia social e a religião das sensações Como movimento, o Simbolismo durou até os últimos anos do século em lugar da filosofia da estética. E como decorrência natural desses dois XIX, com sintomas de nítido declínio depois de 1896. princípios, as atitudes anti-racionais e místicas, o tom idealista e religioso, Sua contribuição à literatura foi imperecível, havendo quem lhe em- a tendência ao isolamento, o respeito pela música, a teoria das correspon- preste a categoria de movimento mais importante, pelo seu aspecto posi- dências sensoriais, a religião da beleza. A poesia foi separada da vida so- tivo e pela herança legada, da poesia moderna. Bowra salienta a mudança cial, confundida com a música, explorando o inconsciente, à custa de sím- havida na poesia européia depois de 1890, devida ao Simbolismo. Cornell bolos e sugestões, preferindo o mundo invisível ao visível, querendo com- assinala as novas possibilidades e poderes advindos à poesia depois das ex- preender a vida pela intuição e pelo irracional, explorando a realidade si- periências dos anos de 1885 e 1898, experiência que a enriqueceu de múlti- tuada além do real e da razão. plas formas de expressão através de poemas em prosa, verso livre e Sendo a vida misteriosa e inexplicável, como pensavam os simbolis- 321tas, era natural que fosse representada de maneira imprecisa, vaga, nebu- j) Pouco interesse pelo enredo e ação, na narrativa; interesse losa, ilógica, ininteligível e obscura. A coisa em si não lhes parecia o ele- 1) As personagens são seres humanos em momentos incomuns; por is- mento principal a exprimir, mas o símbolo da coisa e suas essências ine- rentes, alguns de seus aspectos essenciais e particulares, em vez do todo. so, o interesse recai no espírito íntimo das pessoas; m) Procura selecionar os elementos que contribuem para a fantasia ou Em lugar da expressão direta, incapaz de captar as essências internas os que apresentam a essência em vez da realidade; e os sentimentos mais intimamente pessoais, o Simbolismo usava processos indiretos, associações de idéias, representadas por feixes de metáforas e símbolos. poeta, assevera Hauer, devia exprimir algo que escapava a Com n) Uma linguagem ornada, colorida, exótica, poética, em que as pala- vras são escolhidas pela sonoridade, ritmo, colorido, fazendo-se arranjos artificiais de partes ou detalhes para criar impressões sensíveis, sugerindo uma forma definida e não podia ser abordado por uma rota direta. Aquilo a antes que descrevendo e explicando. que visavam, informa Bowra, era a captação de uma experiência sobrenatu- Aparecido em meio a um mundo dominado pelo positivismo, mecani- ral das coisas visíveis, daí que toda palavra é um símbolo, usado não pelo propósito comum, mas pelas associações, que evoca uma realidade situada cismo e Naturalismo, um mundo baseado no ideal realista da objetividade, o Simbolismo constituiu uma reação contra a ordem mecânica científica além dos sentidos. Por isso, insiste Hauer, o poeta tornou-se "vidente", em nome do indivíduo, seu valor intrínseco e sua realidade subjetiva. Foi cujos sentidos abandonam sua função normal. A essência do Simbolismo, uma nova revolta do indivíduo, um novo Romantismo. Sua obra foi da afirma ainda Bowra, é'a ênfase num mundo de beleza ideal e a convicção maior importância, tendo reformado a poesia desde então, quiçá toda a li- de que ele é realizado através da beleza. Donde a atitude religiosa do Sim- teratura. A esse respeito, declara Edmundo Wilson, "a história literária de bolismo, que encontra na prática de seu ofício o estado de êxtase idêntico nosso tempo é em grande parte a do desenvolvimento do Simbolismo e da ao da contemplação e oração. Além do símbolo, como representação da vida, a poesia simbolista re- sua fusão ou conflito com o Naturalismo"." E Oto Maria Carpeaux: tirava grande efeito dos elementos musicais, tonais e rítmicos, bem como "Como toda a poesia moderna tem no Simbolismo o seu ponto de parti- da cor. Foi uma das características da época simbolista a fusão da música, 3. Simbolismo no Brasil: cronologia e Movimento pintura e literatura. Reintroduzir a música na poesia, realizar por palavras de cunho idealista, o Simbolismo teve que enfrentar no Brasil a atmosfera o que as notas faziam na música, através da sugestão e evocação, criando uma atmosfera, eis o que idealizava o simbolista. de oposição e hostilidade criada pelo Zeitgeist realista positivista domi- A primazia do eu individual, das impressões íntimas, a fuga das emo- nante desde 1870. O prestígio do Parnasianismo, que condicionou inclu- ções vulgares, a concentração nas visões interiores constituem, como as- sive a fundação da Academia Brasileira de Letras (1896), não deixou mar- gem para que se reconhecesse o movimento simbolista avaliasse o seu sinala ainda Bowra, entre outros, um traço típico do Simbolismo, respon- sável pela atitude de isolamento da de aristocracia intelectual e valor e alcance, tão importantes que a sua repercussão influência remo- de recusa à ação. O ideal simbolista é a torre-de-marfim e o seu herói tí- tas são notórias em relação à literatura modernista. Assim, entre nós, são pico o Duc des Esseintes do rebours de Huysmans, em busca de retiro expressões de Oto Maria Carpeaux "o Simbolismo, apesar de ter produ- onde pudesse fugir às vilezas do mundo. zido um Cruz e Sousa e um Alphonsus de Guimaraens, foi estrangula- E noutro ponto, afirma ainda o mesmo crítico: Simbolismo bra- Em resumo, com podemos caracterizar o Simbolismo pe- los seguintes elementos: sileiro recebe só hoje a devida consideração, negligenciado como era sob o regime artificialmente prolongado do Parnasianismo, que significou a reti- a) elemento intelectual: conteúdo relacionado com o espiritual, o mís- tico e o subconsciente; rada da poesia do mundo do colonialismo artificialmente Modernismo, Simbolismo inconsciente a meu ver, possibilitou a transfor- b) concepção mística da vida; mação do Simbolismo privado em poesia pública". universal; c) interesse maior pelo particular e individual do que pelo geral ou De qualquer modo, abafado pela ideologia dominante, Simbolismo d) tom altamente poético; surgiu no Brasil sob forte oposição, e seus adeptos foram pejorativamente cognominados e) procura escapar da realidade e da sociedade contemporânea; É mister mencionar aqui a eclosão de idêntico movimento em Portu- f) conhecimento intuitivo e não lógico; gal, onde, a partir de 1890 e igualmente em pleno clima parnasiano- g) ênfase na imaginação e fantasia; foram surgindo as obras simbolistas de Eugênio de Castro, Guerra h) a Natureza é desprezada em troca do místico e do sobrenatural: Junqueiro, Antônio Nobre, Cesário Verde, João Barreira, que tiveram in- i) arte pela arte; da ao fluència no Simbolismo brasileiro, conforme registra Andrade 322 as do 323Mas a entrada do Simbolismo no Brasil foi diretamente da França, como relata Araripe Júnior, por intermédio de Medeiros e Albuquerque, luz, a cor, o ar e fazendo com que elas recorressem a formas picturais de expressão. Foi o esse tipo de estilo que dominou as que, desde 1887, recebera os livros dos decadentistas franceses. Em 1891, artes ocidentais no período referido. Na pintura e na música, tem sido es- o manifesto da Folha Popular congrega os principais cultores das novas idéias estéticas. A crítica reagiu diversamente em relação às no- tudado amplamente, e sua importância reconhecida como o último grande estilo de unidade universal. Na literatura, contudo, o fenômeno só recen- vas tendências. Araripe Júnior tentou compreendê-las com isenção, o que temente vem sendo caracterizado como um período estilístico, com sua não ocorreu com José Veríssimo; Adolfo Caminha, Sílvio Romero e Nes- individualidade bem marcada, não obstante a dificuldade de isolá-lo com- tor sentiram a singularidade e importância de Cruz e Sousa, mas Alphonsus de Guimaraens e os demais tiveram que aguardar muitos anos pletamente do Realismo-Naturalismo, no seu início, e do Simbolismo, no outro extremo. para um julgamento à altura e uma compreensão do significado de sua obra. A sua gênese, como fenômeno literário, dá-se no seio do Realismo- O movimento simbolista brasileiro desenvolveu-se por ondas sucessi- Naturalismo, de que ele é um produto. Em verdade, o Impressionismo é vas de gerações, de que oferece notícia e classificação Andrade uma forma do Realismo, resultante de sua transformação por efeito das variações estéticas e culturais do fim do século e da reação idealista. É o Além do movimento propriamente dito, e dos grupos a que deu ori- produto da fusão de elementos simbolistas e realístico-naturalistas A re- gem, como os do "penumbrismo" e "dandismo", o Simbolismo inspirou artistas de períodos posteriores. produção da realidade, de maneira impessoal, objetiva, exata, minuciosa, O Simbolismo impregnou ainda mesmo alguns parnasianos adversá- constituía a norma realista; para o impressionista, a realidade ainda per- siste como foco de interesse, mas, ao contrário, o que pretende é registrar rios do movimento, como Alberto Oliveira e Coelho Neto, e os neoparna- a impressão que a realidade provoca no espírito do artista, no momento sianos de maior significação, como Augusto dos Anjos e Raul de Leoni. E é a germes simbolistas que se deve também o impulso inicial de muitos mesmo em que se dá a impressão. O mais importante no Impressionismo é o instantâneo e único, tal como aparece ao olho do observador. Não é o poetas da geração transicional que vieram, afinal. realizar-se em pleno Modernismo, como Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Onestaldo de objeto, mas as sensações e emoções que ele desperta, num dado instante, Pennafort, sem falar na linha espiritualista do Modernismo, o grupo de no espírito do observador, que é por ele reproduzido caprichosa e vaga- Festa, Cecília Meireles, Tasso da Silveira e outros. mente. Não se trata de apresentar o objeto tal como visto, mas como é Por volta de 1910, tanto o Simbolismo como o Parnasianismo estavam visto e sentido num dado Ao contrário, portanto, do Realismo, estagnados, resultando daí uma fase de transição e sincretismo, durante a há colaboração da subjetividade na arte impressionista, foi graças a esse qual epígonos ainda se esforçavam por poetar segundo os cânones gastos e elemento que o Impressionismo se destacou do Realismo, como estilo pe- culiar de arte, confundindo-se, no final, com Simbolismo, na tendência superados. Reinava uma atmosfera de dúvida e hesitação. Certa inquieta- para a reespiritualização da arte. No Impressionismo, o real é visto atra- ção, porém, fazia pressentir reformas radicais, que estavam como que no ar. vés de um temperamento, pelas sensações e impressões que desperta, num singular momento que passa. Ao transferir o registro das relações externas para o das relações internas, isto é, das impressões despertadas no espírito pelo contato com as coisas, cenas, paisagens ou pessoas, os impressionis- DO REALISMO AO IMPRESSIONISMO tas introduziram um mundo novo na 2. Características. Se se quiser sintetizar numa fórmula filosófica a 1. Ao longo da década de 1880, o Naturalismo declina como movi- essência da atitude impressionista, esta deverá ser, como sugeriu Arnold mento literário, acompanhando a crise do Positivismo e do Materialismo. Hauser, a idéia de Heráclito de que o homem não mergulha duas vezes no Ao mesmo tempo, crescia uma onda de reação idealista, humanismo e re- ligiosidade, gerada pelo cansaço com a crua pintura da realidade e com a rio da vida em eterno movimento para diante. Os fenômenos jamais são os mesmos nesse constante fluxo. Daí, como acentua Hauser, domínio do crença de que arte e natureza se identificam. Passou a era da natureza, disse o personagem de Huysmans, como a sintetizar o estado de espírito. momento sobre a continuidade e a permanência, pois a realidade não é um Desse entrechoque de tendências estéticas desenvolve-se um novo es- estado coerente e estável, mas um vir-a-ser, um processo em curso, em crescimento e decadência, uma metamorfose. Dessa teoria decorre o mé- tilo, que se tornou comum às diversas artes, predominando em toda a Eu- ropa na última década do século XIX. A pintura sobrepujou as demais ar- todo impressionista que é a captação do momento, do fragmentário, do instável, do móvel, do subjetivo. A noção de tempo, aliás, constitui o cen- tes, emprestando-lhes as suas próprias características e elementos a tro do pensamento e da arte impressionistas, como acentua Hauser, uma 324 325concepção nova do tempo, que teve expressão na filosofia de Bergson e f) a natureza é interpretada, a paisagem inventada, antes que vista e no romance de Proust. toda a experiência da realidade que se modifica, descrita objetivamente; pois através do fluir do tempo e da soma dos diversos momentos de nossa g) a verdade do impressionista é a sua verdade, num determinado mutável realidade existencial é que logramos a integração da nossa vida momento. A vida sendo mudança constante uma mesma paisagem é di- espiritual. O presente é o resultado do passado, daí a necessidade de re- ferente em horas diversas do dia ao artista cumpre captar os estados cordar, reviver, ressuscitar o passado perdido. de alma criados no contato desse fluxo, as pessoas e os episódios em seu A técnica impressionista é o "pontilhismo", ou pintura com palavras, resvalar contínuo; captando a realidade não em estado de repouso, mas nas impressões e no h) sentimento, emoções, sensações suplantam os aspectos intelec- conhecimento afetivo de aspectos e partes do real. tuais. A razão cede o passo às sensações. De acordo com Addison Hibbard, em seu livro Writers of the Western Ao lado dessas qualidades gerais, a arte impressionista criou um estilo World, podem ser resumidas do seguinte modo as características da litera- que é, por assim dizer, a técnica de expressão adequada à reprodução des- tura impressionista: ses estados. A reprodução impressionista da realidade consiste na capta- a) Registro das impressões, emoções, sentimentos, despertados na ção do instantâneo e do único. Há, portanto, uma concepção lingüfstica do. alma do artista, através dos sentidos, pelas cenas, incidentes, caracteres. Impressionismo, que foi muito bem estudada por Amado Alonso Rai- mundo Lida.²⁷ Emoções e sentimentos, estados de alma são mais importantes que en- redo e narrativa, e o efeito suplanta a estrutura. Em vez da relação causal Se, como acentuam aqueles estudiosos do problema, não há uma exterior entre indivíduos e acontecimentos, o que importa é a relação in- guagem há, todavia, uma linguagem usada pelos escrito- terna evocada na mente do artista; em vez de uma seqüência objetiva de res impressionistas, exprimindo um conteúdo impressionista. causa e efeito, uma lógica diferente, subjetiva, pessoal, vaga e inconse- Desta maneira, apontam-se os seguintes traços preferenciais de estilo, qüente. Em vez das coisas, as sensações das coisas; sintaxe, figuras, cuja constelação, e não seu uso isolado, caracteriza b) na revelação do momento. O que procura captar, graças a Impressionismo: a) impassibilidade e impersonalidade, mesmo na repro- dução de notações subjetivas, e visando à captação objetiva das percep-: uma exposição instantânea, é a essência do momento, do incidente ou pai- sagem, interpretado pelo espírito e pelo estado de alma do artista. Destar- ções sensoriais e instantâneas; b) sintaxe esquemática, oposta à sintaxe estruturada, clássica, e em que, como afirmam Alonso Lida, se abando- te, aparece mais do espírito do observador do que do mundo exterior; nam a estrutura regular da frase, a ordem lógica, as ligações c) Valorização da cor, dos efeitos tonais, da atmosfera. Esse traço subordinantes e coordenantes; c) a ordem inversa da frase, anacoluto; revela a influência da pintura. As cenas e situações são quebradas e reuni- d) a supressão da conjunção, que liberta e anima a frase; e) modo im- das de novo, salientando-se apenas os detalhes que interessam ao efeito perfeito, que visa a dar ao leitor a impressão de que assiste ou testemunha em vista. Por outro lado, os episódios não são apresentados como se fos- os fatos descritos, ficando a ação, por assim dizer, aos olhos sem conhecidos, mas antes como são vistos ou sentidos. É a percepção visual do instante; do leitor" (Brunetière; f) uso largo da metáfora do g) linguagem expressiva, colorida e sonora; h) linguagem da fantasia imaginação, li- d) Reprodução de emoções, sentimentos, atitudes individuais. O berdade de expressão, animação, riqueza de imagens. Pela pressionista é um poeta, lidando com estados de alma, emoções momentâ- écriture artiste ficou identificado o conjunto de qualidades formais da neas, cores, sons. É a vida interior em todos os seus mais requintados ma- tendência. tizes que lhe interessa retratar; 3. Com a estética dos Goncourt (1851-1870), que se deu a transfor- e) Violação da estrutura e convenções tradicionais da técnica da nar- mação do Realismo-Naturalismo no Impressionismo, ficando como os rativa. O enredo é retorcido, subordinado ao estado de alma, que, assim, fundadores e representantes típicos do novo estilo. As exposições de pin- dá lugar a uma técnica própria de narração. Não são os acontecimentos tura impressionista foram entre 1874 e 1886, embora já viessem de mais que importam acima de tudo, porém o deleite das sensações e emoções longe os sinais da renovação. Pissarro (1830-1903), Manet (1832-1883), De- criadas; a unidade, a coerência, o suspense são condicionados à atmosfe- gas (1834-1917), Monet (1840-1926), Renoir (1841-1919), Rodin (1840-1917), ra, às sensações, às cores e qualidades tonais de que deriva o efeito total. são alguns dos pintores impressionistas mais notórios, lado de músicos Os elementos literários cedem o lugar aos aspectos pictóricos. As massas como Debussy (1862-1918), Ravel (1875-1937), Respighi quebram-se em detalhes. Daí certa impressão de vago, difuso, obscuro, Arte de cunho pictórico, o Impressionismo literário acompanha a téc- sem sentido, sem começo nem fim; nica dominante na pintura com o "pontilhismo", acu- 326 327mulando sensações isoladas, detalhes, para a captação de um mundo de Impressionismo como herdeiro e continuador do Realismo; o Simbolismo, aparências efêmeras, que o leitor apreende, depois sintetizando, somando prolongamento do Romantismo, e em que invadiu o "decadentismo"; o os aspectos parciais. O impressionista "inventa" paisagens, que parecem Parnasianismo, expressão do na poesia. Vale acen- mais autênticas do que a realidade. tuar que o Realismo não desapareceu; ao contrário, foi o movimento que No fim do século, o Impressionismo tornou-se movimento literário modelou a literatura contemporânea, o moderno espírito literário, pene- mais fecundo em prosa de ficção, penetrando pelo século XX. São suas trando no século XX, através do Impressionismo, do Expressionismo, e, expressões mais altas: Henry James (1843-1916), Pierre Loti (1850-1923), em certos países, do Regionalismo. Será difícil muitas vezes separar ou Joseph Conrad (1857-1924), Anton Tchecov (1860-1904), Stephen Crane identificar em certas expressões literárias da época as formas impressio- (1871-1900), Marcel Proust (1871-1922), Katherine Mansfield (1888-1923), nistas, expressionistas e simbolistas, tantos são os elementos em que se Thomas Wolfe (1900-1938). Antes deles, em pleno século XIX, pode-se misturam e confundem. captar a técnica impressionista no estilo de Flaubert, em Baudelaire, Ver- 5. No Brasil, a primeira grande repercussão do Impressionismo é em laine, Rimbaud, e sobretudo nos irmãos Goncourt e Daudet. Em Portugal, Raul Pompéia. Discípulo dos Goncourt, adepto da écriture artiste e da é Fialho de Almeida (1875-1911) o representante típico, particularmente o prosa poética, depois de formar o espírito na doutrina do Naturalismo, re- contista. cebeu a influência da estética simbolista e só encontrou plena e satisfatória 4. De mistura com as forças desencadeadas pelo Impressionismo, pe- expressão dentro dos cânones do Impressionismo. A evolução de Ma- lo Simbolismo e pela reação idealista e desmaterializante, para o fim do sé- chado de Assis revela uma independência em relação aos postulados do culo a atmosfera foi impregnada de correntes artísticas e atitudes filosófi- Naturalismo positivista que o conduz ao mesmo clima impressionista, ca- cas que emprestaram à época uma fisionomia bem marcada. De um lado, o racterístico de sua fase final. Graça Aranha denota, em Canaã, a mesma movimento esteticista, que encara a obra de arte como um fim em si mes- impregnação impressionista, e como ele outros escritores da época não mo, "não somente um jogo auto-suficiente, cujo encanto pode ser des- puderam escapar ao dualismo de um lado, os laços no Realismo (ou truído por qualquer propósito exterior extra-estético, não somente o mais mesmo Naturalismo), do outro a influência simbolista. Coelho Neto, Afrâ- belo presente que a vida tem a oferecer, para o gozo do qual o homem nio Peixoto e muitos outros, que escapam, por certos aspectos, das classi- deve preparar-se primordialmente, mas também, em sua autonomia, sua ficações comuns, traem a forma impressionista. caso de Adelino Maga- falta de consideração por tudo o que estiver fora de sua alçada, um padrão lhães não pode doutro modo ser explicado e para a vida, para a vida do diletante", que passa a ser o ideal da Assim, Impressionismo é um conceito literário, de uso compreen- O esteticismo implica, no dizer ainda de Hauser, o esforço de fazer da são recentes, que auxilia a interpretação de diversos escritores outrora in- vida uma obra de arte, algo inútil, supérfluo, extravagante, dedicado à be- classificados, e de uma época tida como marginal ou secundária, mas que leza pura, à contemplação passiva, "arte pela arte". ofereceu uma contribuição duradoura à literatura brasileira moderna. Es- De par com o esteticismo, e com ele amalgamado, invade os espíritos critores como Pompéia, Graça Aranha, Adelino Magalhães constituem os um sentimento de desgosto, tédio, repulsa, pelo mundo do real, da nature- marcos de uma corrente estética antigamente sem classificação. za, uma ânsia por um mundo ideal e fictício, um subjetivismo e misticis- Não tendo havido, no Brasil, as condições sociais as transformações mo, uma atitude de reação contra a sociedade burguesa, com sua moral econômicas, geradas pela industrialização (que só ocorreu muito mais tar- estreita. Esse complexo de sentimentos foi batizado como "decadência", de), não encontrou o Naturalismo, no século XIX, o ambiente próprio a "decadentismo"; e "decadentes" os homens que o exprimiram. Deu mar- sua florescência maior. A época não oferecia as condições de receptivi- gem ao aparecimento da "boêmia", que encarnava a reação antiburguesa, dade necessárias ao seu desenvolvimento. Por isso, foi um movimento e do "exotismo", busca de mundos novos para onde se pudesse escapar. frustrado, que só produziu poucos frutos e não de alta qualidade. Não ha- Tinha-se a impressão de que se vivia em fim de época, em estado de via, além disso, a preocupação com a ciência aplicada técnica, daí que só crise, de degenerescência e fadiga. Mas, ao contrário de outras épocas tiveram guarida entre os naturalistas brasileiros as teorias Des- de decadência, os homens de então encontravam orgulho nessa situa- tarte, somente depois de 1930, já em pleno clima de transformação indus- ção de abismo em que pensavam viver. Baudelaire, Verlaine, Gautier, trial, é que surgiram as circunstâncias sociais propícias ao Naturalismo. Nerval, Huysmans, Wilde, Rimbaud, Barbey d'Aurevilly foram os mode- Nessa época, entretanto, a ideologia que informou o Naturalismo Neo- los e inspiradores dessa moda, que deu tão singular colorido à vida artís- naturalismo que surgiu não foi mais a do positivismo cientificista, po- tica do fim do século. rém, a da luta social decorrente da proletarização A forma lite- Dessa maneira, o quadro da literatura na passagem do século mostra o rária que procurou expressá-la foi o Realismo ou Naturalismo socialista. 328 329De modo que, em suma, o desaparecimento do Naturalismo da escola de Zola não implicou a morte do Realismo, que se desdobrou e transfor- mou no Impressionismo, e mais tarde renasceu sob a forma, aparentada com o Naturalismo positivista, do Realismo socialista. Há que assinalar, ademais, que o Realismo encontrou, no Brasil, uma temática e uma situa- ção ideais para desenvolver-se precisamente a partir das últimas décadas do século XIX, no movimento regionalista.³⁰ Nos albores do século XX, a literatura brasileira mergulha em uma fase de transição e sincretismo, em que confluem elementos do Parnasia- nismo, Simbolismo, Impressionismo. Esse estilo de transição, a que se deve o tom incaracterístico da fase de 1910-1920, revela predomínio de traços ora parnasianos, ora simbolistas, ora impressionistas. Mas a impor- tância da fase é inegável, pois ela traía a transformação que se processava, e que desaguará no Modernismo. Outras tendências estéticas se lhe so- mam, Expressionismo, Futurismo, Dadaísmo, Super-realismo, conduzindo à revolução modernista, que assim foi, por todos esses esforços, pre- parada. Sem ter tido, portanto, a nitidez de contornos da época modernista espanhola, a fase simbolista-impressionista decadente brasileira, de 1890 a 1910, revelou os mesmos valores estéticos: intimismo, misticismo, esteti- cismo, individualismo, gosto do mistério, da interiorização. Por outro lado, não se pode separar essa tendência da corrente parna- siana, que atravessa o período estreitamente ligada à primeira, a ponto de se misturarem seus elementos em diversos autores. A linha parnasiana re- siste e domina, prolongando-se por toda uma galeria de epígonos até pró- ximo do dealbar modernista. No Brasil, ela suplantou as outras tendên- cias, a ponto de, na época, o movimento simbolista passar despercebido, a sua importância só muito mais tarde tendo sido reconhecida, graças à in- fluência que a sua herança teve sobre certos aspectos do Modernismo. O ou ao menos a desatenção com que a época tratou o Simbolis- mo, excepcionalmente reconhecido apenas por um grande crítico, Araripe Júnior, está bem expresso no fato de que a Academia Brasileira de Letras não acolheu, na sua fundação (1896), nenhum dos representantes do Sim- bolismo, rechaçados para segundo plano. Foi no seio da grande geração parnasiana, então no apogeu e no controle da literária, que se recruta- ram os fundadores da Academia. Assim, o Simbolismo e o Parnasianismo, na poesia, prolongam-se, com características menores, por ondas de transição neoparnasianas e neo-simbolistas, que preparam o advento do Modernismo. A INCORPORAÇÃO DO NACIONAL A época estudada neste passo, situada entre as últimas décadas do sé- culo XIX e o meado do século XX, assistiu, além do mais, a um movi- 330