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Instituto Universal Brasileiro Educação de Jovens e Adultos a Distância BRASILEIRO Curso a distância de: SUPLETIVO PREPARATÓRIO ENSINO MÉDIO Série LiteraturaENSINO MÉDIO LITERATURA SÉRIE AULA 5 SEGUNDA FASE DO MODERNISMO PARTE) PROSA Na prosa da Segunda fase do Modernismo, destacam-se textos que podem ser classificados como romances regionalistas. Focalizam o Nordeste brasileiro e suas principais características: o misticismo, o cangaço, a seca e os problemas dela decorrentes, como a injustiça social, o drama dos retirantes, a exploração, a fome e a Há também romances que focalizam a cidade e seus elementos, e ainda aqueles que buscam desvendar o mundo interior de seus personagens, analisando seus conflitos interiores. Esses são chamados romances psicológicos. Quanto à linguagem utilizada, predomina o uso da linguagem coloquial. Graciliano Ramos Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo em Fez seus estudos secundários em Maceió e, em 1914, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou em alguns jornais como revisor. Depois regressou a Alagoas e fixou-se em Palmeira dos Índios como comerciante. Em 1928, chegou a prefeito da cidade, renunciando ao cargo em 1930. Em estava em Maceió e lá conheceu outros autores desse período, como José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Jorge Amado. Também nesse ano, publicou seu primeiro livro Caetés visivelmente influenciado por Eça de Queiroz. Nessa época, era diretor da Imprensa Oficial do Estado e da Instrução Pública de Alagoas. Em foi preso sob acusação de envolvimento com o Partido Comunista. Foi demitido do cargo de diretor da Instrução Pública e deportado no porão de um navio, passando por vários presídios. Essa experiência foi relatada no livro Memórias do Cárcere, publicado em 1953. Em 1945, filiou-se ao Partido Comunista e, em viajou pela antiga União Soviética e parte da Europa, rela- tando o fato no livro Viagem, publicado em 1954, Quando regressou ao Brasil, adoeceu e faleceu em 953, no Rio de Janeiro. Seus textos caracterizam-se por uma linguagem enxuta, concisa, resultado de um árduo trabalho. Reelaborava constantemente seus textos, revelando-se sempre insatisfeito com o resultado. Seu tema principal é o homem de seu meio e de seu tempo e a angústia que acompanha todos os homens. Há também referência a questões políticas da época. Nos romances Caetés, já citado, São Bernardo, de 1934, e Angústia, de 1936, desenvolve-se a reflexão sobre mundo interior dos personagens e também é focalizado um contexto sócio-político definido: o nordeste dos anos 30. Apresenta-se o conflito entre o "eu interior" e o mundo que o cerca em narrativas em primeira pessoa. Vidas secas, de 938, escrito em terceira pessoa, retrata o drama social do nordeste, apresentando o homem vinculado ao meio natural e quase totalmente submetido a ele, ao mesmo tempo em que luta para sobreviver. Em todos esses romances temos relacionamentos violentos entre as personagens e a personalidade delas trans- parece como moldada ou transfigurada pela relação tensa com o meio social. final trágico, nos três primeiros romances é inevitável, resultando de problemas de relacionamento que levam fatalmente a confrontos. Além desses romances e do livro de memórias já citado, Graciliano Ramos escreveu Infância, publicado em 945, que também é classificado como livro de memórias, embora contenha muitos elementos ficcionais. Escreveu tam- bém o livro de contos Insônia, de 1947, e crônicas que foram reunidas em Vivente das Alagoas. Apresentamos a seguir resumos e fragmentos de São Bernardo e Vidas secas. romance São Bernardo é uma narrativa em primeira pessoa em que o fazendeiro Paulo Honório faz uma reflexão sobre seu passado, sobre a vida que levou. Tendo vivido uma infância pobre, passa a viver em função do dinheiro e da riqueza que conseguiu às custas deatitudes condenáveis: comprou a fazenda São Bernardo, em que trabalhava, e fez dela uma fonte de riquezas. Com atitudes corruptas e desonestas, amedrontava as pessoas para se impor e, em seus relacionamentos, via tudo inclusive as próprias pessoas como objeto, importando-se apenas com o lucro que lhe poderiam trazer. Com o objetivo de ter um herdeiro para sua fazenda, casou-se com Madalena, uma professora. Como ela tinha outros valores, ele não conseguiu "transformá-la em objeto" e passaram a viver em constante conflito. Nem mesmo o nascimento do filho do casal amenizou a situação. Paulo Honório ficava confuso e irritado porque ela defendia os empregados da fazenda. Ela vivia angustiada com as pressões e conflitos que tinha que suportar, com o ciúme exagerado de Paulo Honório e acabou suicidando-se. Os empregados abandonaram a fazenda, os negócios entraram em decadência e Paulo Honório viu-se arruinado e só. Então propôs-se a escrever a história de sua vida numa tentativa de compreender, pelas palavras, os fatos ocorri- dos, as pessoas com quem se relacionou, suas próprias atitudes e sua visão de mundo. À medida que avança na escritura do livro, progride na consciência de seus atos e, percebendo sua desumaniza- ção, conclui com um balanço trágico: "Cinqüenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo? A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste." Vamos ler um fragmento dessa obra: As janelas estão fechadas. Meia-noite. Nenhum rumor na casa deserta. Levanto-me, procuro uma vela, que a luz vai apagar-se. Não tenho sono. Deitar-me, rolar no colchão até a madrugada, é uma tortura. Prefiro ficar sentado, concluindo isto. Amanhã não terei com que me entreter. Ponho a vela no castiçal, risco um fósforo e acendo-a. Sinto um arrepio. A lembrança de Madalena persegue- me. Diligencio afastá-la e caminho em redor da mesa. Aperto as mãos de tal forma que me firo com as unhas, e quando caio em mim estou mordendo os beiços a ponto de tirar sangue. De longe em longe sento-me fatigado e escrevo uma linha. Digo em voz baixa: Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente. A agitação diminui. Estraguei a minha vida estupidamente. Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível Para que enganar-me? Se fosse possi- vel recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige. A molecoreba de Mestre Caetano arrasta-se por aí, lambuzada, faminta. A Rosa, com a barriga quebrada de tanto parir, trabalha em casa, trabalha no campo e trabalha na cama. o marido é cada vez mais molambo. E os moradores que me restam são uns cambembes como ele. Para ser franco, declaro que esses infelizes não me inspiram simpatia. Lastimo a situação em que se acham, reconheço ter contribuído para isso, mas não vou além. Estamos tão separados! A princípio estávamos juntos, mas esta desgraçada profissão nos distanciou. Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbar- raram com a minha brutalidade e o meu Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins. E a desconfiança terrível, que me aponta inimigos em toda a parte! A desconfiança é também da profissão. Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleija- do. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes. Se Madalena me via assim, com certeza me achava extraordinariamente feio. Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas. A vela está quase a extinguir-se. Julgo que delirei e sonhei com atoleiros, rios cheios e uma figura de lobisomem. Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto o luar entra por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas no chão. É horrível! Se aparecesse alguém Estão todos dormindo. Se ao menos a criança chorasse... Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que miséria!Casimiro Lopes está dormindo. Marciano está dormindo. Patifes! E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos. Vidas secas retrata o drama de uma família de retirantes - Fabiano, Sinhá Vitória, dois meninos e a cachorra Baleia - que foge da seca. Encontram uma fazenda abandonada e a ocupam. Mas na época da chuva, o proprietário volta e Fabiano tem que se submeter a ele para continuar na fazenda, trabalhando como vaqueiro. Além de ser explorado no trabalho, sente-se enganado pelo dono da fazenda e é humilhado em muitas situações por não saber ler, fazer contas nem falar direito. Por sente verdadeiro pelas palavras e classifica aqueles que se expressam bem e dominam a comunicação escrita como pertencentes ao mundo dos "homens sabidos". Com a volta da seca, a família abandona a fazenda e retoma a sua caminhada com alguma esperança, mas mar- cada pela falta de horizontes. Vamos ler um trecho do romance: Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinhá Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concen- trou-se, distribuiu no chão as sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinhá Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros. Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que ele era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria! patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda. Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. la lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpas e jurava não cair noutra. o amo abrandou, e Fabiano saiu de costas, o chapéu varrendo o tijolo. Na porta, virando-se, enganchou as rosetas das esporas, afastou-se tropeçando, os sapatões de couro cru batendo no chão como cascos. Foi até a esquina, parou, tomou fôlego. Não deviam tratá-lo assim. Dirigiu-se ao quadro lentamente. Diante da bodega de seu Inácio virou o rosto e fez uma curva larga. Depois que acontecera aquela miséria, temia passar ali. Sentou-se numa calçada, tirou do bolso o dinheiro, examinou-o, procurando adivinhar quanto lhe tinham furtado. Não podia dizer em alta que aquilo era um furto, mas era. Tomavam-lhe o gado quase de graça e ainda inventavam juro. Que juro! o que havia era safadeza. Ladroeira. Nem lhe permitiam queixas. Porque reclamara, achara a coisa uma exorbitância, o branco se levantara furioso, com quatro pedras na mão. Para que tanto espalhafato? Hum! hum! Recordou-se do que lhe sucedera anos atrás, antes da seca, longe. Num dia de apuro recorrera ao porco magro que não queria engordar no chiqueiro e estava reservado às despesas do Natal: matara-o antes de tempo e fora vendê-lo na cidade. Mas o cobrador da prefeitura chegara com o recibo e atrapalhara-o. Fabiano fingira-se desentendido: não compreendia nada, era bruto. Como o outro lhe explicasse que, para vender o porco, devia pagar imposto, tentara convencê-lo de que ali não havia porco, havia quartos de porco, pedaços de carne. o agente se aborrecera, insultara-o, e Fabiano se encolhera. Bem, bem. Deus o livrasse de história com o governo. Julgava que podia dispor dos seus troços. Não entendia de imposto. Um bruto, está percebendo? Supunha que o cevado era dele. Agora se a prefeitura tinha uma parte, estava acabado. Pois la voltar para casa e comer a carne. Podia comer a carne? Podia ou não podia? funcionário batera o pé agastado e Fabiano sedesculpara, o chapéu de couro na mão, o espinhaço curvo. - Quem foi que disse que eu queria brigar? o melhor é a gente acabar com isso. Despedira-se, metera a carne no saco e fora vendê-la noutra rua, escondido. Mas, atracado pelo cobrador, gemera no imposto e na multa. Daquele dia em diante não criaria mais porcos. Era perigoso criá-los. José Lins do Rego José Lins do Rego Cavalcanti nasceu em 1901, na Paraíba, e morreu em 1957, no Rio de Janeiro. Passou a infância no engenho de seu avô, pois sua família era ligada à economia cafeeira. Fez o curso secundário em João Pessoa e foi para Recife estudar Direito. Em 1922, participou do grupo regiona- lista do Recife. Em 1935, mudou-se para o Rio de Janeiro e lá trabalhou em jornais e também junto à diplomacia. próprio autor classificou seus romances em três ciclos: ciclo da Menino de engenho, de Doidinho, de 1933; de 1934; Usina, de 1936; Fogo morto, de 943; - ciclo do cangaço, misticismo e seca: Pedra bonita, de 1938; Cangaceiros, de 1953; obras independentes: Moleque Ricardo, de 1934; Pureza, de 1937; Riacho doce, de 1939 esses romances têm alguma relação com os ciclos anteriores; Água - mãe, de 1941, e Eurídice, de 1947, são os únicos romances que não têm o nordeste como cenário. Os romances do "ciclo da caracterizam-se pela recordação da infância e da adolescência. São apre- sentadas lembranças do engenho em Menino de engenho, do internato em Doidinho e da cidade em Moleque Ricardo. Os romances do primeiro e do segundo ciclo retratam a decadência dos senhores de engenho em virtude da pas- sagem do engenho para a usina. Paralelamente a isso, o autor apresenta a tensão entre o atraso e o progresso, as intrigas políticas locais, as ati- tudes arbitrárias dos coronéis e o cangaço. Sua linguagem é marcada pelo tom coloquial. José Lins do Rego escreveu também crônicas e ensaios aos quais não vamos nos dedicar. Vamos focalizar alguns de seus romances. Em Menino de engenho são apresentados personagens e situações que voltarão a aparecer em romances pos- teriores. No trecho a seguir, é apresentado o Engenho Santa Fé, que reaparecerá no romance Fogo morto. o Santa Fé ficava encravado no engenho do meu avô. As terras do Santa Rosa andavam léguas e léguas de norte a sul. velho José Paulino tinha este gosto: o de perder a vista nos seus domínios. Gostava de descansar os olhos em horizontes que fossem seus. Tudo o que tinha era para comprar terras e mais terras. Herdara o Santa Rosa pequeno, e fizera dele um reino, rompendo os seus limites pela compra de propriedades anexas. Acompanhava o Paraíba com as várzeas extensas e entrava de caatinga adentro. la encontrar as divisas de Pernambuco nos tabu- leiros de Pedra de Fogo. Tinha mais de três léguas, de estrema a estrema. E não contente de seu engenho possuía mais oito, comprados com os lucros da cana e do algodão. Os grandes dias de sua vida, lhe davam as escrituras de compra, os bilhetes de sisa que pagava, os bens de raiz, que lhe caíam nas mãos. Tinha para mais de quatro mil almas debaixo de sua proteção. Senhor feudal ele foi, mas os seus párias não traziam a servidão como um ultraje. o Santa Fé, porém resistira a essa sua fome de latifúndios. Sempre que via aqueles condados na geografia, espremi- dos entre grandes países, me lembrava do Santa Fé. o Santa Rosa crescera a seu lado, fora ganhar outras posses contornando as suas encostas. Ele não aumentara um palmo e nem um palmo diminuíra. Os seus marcos de pedra estavam ali nos mesmos lugares de que falavam os papéis. Não se sentiam, porém, rivais o Santa Fé e o Santa Rosa. Era como se fossem dois irmãos muito amigos, que tivessem recebido de Deus uma proteção de mais ou uma proteção de menos. Coitado do Santa Fél Já o conheci de fogo morto. E nada é mais triste do que um engenho de fogo morto. Uma desolação de fim de vida, de ruína, que dá à paisagem rural uma melancolia de cemitério abandona- do. Na bagaceira, crescendo, o mata-pasto de cobrir gente, o melão entrando pelas fornalhas, os moradores fugindo para outros engenhos, tudo deixado para um canto, e até os bois de carro vendidos para dar de comer aos seus donos. Ao lado da prosperidade e da riqueza do meu avô, eu vira ruir, até no prestígio de sua autoridade, aquele sim- pático velhinho que era o Coronel Lula de Holanda, com o seu Santa Fé caindo aos pedaços. Todo barbado, aqueles velhos dos álbuns de retratos antigos, sempre que saía de casa era de cabriolé e de casimira preta. A sua vida parecia um mistério. Não plantava um pé de cana e não pedia um tostão emprestado a ninguém.Fogo morto é considerado ponto máximo de sua obra. três partes: mestre José Amaro; 2 - o engenho de seu Lula; 3 - capitão Vitorino. A primeira parte é centrada na figura do seleiro frustrado José Amaro que mora no Engenho Santa Fé com a mulher e a filha. dono do engenho quer que ele vá embora e sua vida é bastante tumultuada pelas brigas com o senhor de engenho. Enfrenta ainda desilusões com a profissão e problemas familiares. Na segunda parte, é apresentado o Engenho Santa Fé que fora próspero com seu antigo dono - Tomás Cabral de Melo - mas que estava decadente nas mãos de seu genro, seu Lula - cujo nome é César de Holanda Chacon casado com Amélia. Na terceira parte, destaca-se o Capitão Vitorino, compadre do mestre José Amaro. Capitão caracteriza-se por estar sempre lutando e brigando por justiça e igualdade, defendendo os humildes e enfrentando os poderosos. Por essa atitude, é freqüentemente ridicularizado. Porém é o único que se mantém firme até o fim. Mestre José Amaro suicida-se, por não suportar a frustração decorrente da morte da filha e do abandono pela mulher. Seu Lula, atacado por doenças, não viverá muito. Destacam-se ainda outros personagens: o cangaceiro Antônio Silvino, o cego Torquato, o negro Passarinho e o coronel José Paulino. A expressão "Fogo morto" é usada para caracterizar a total decadência de um engenho, o que acompanhamos nesse romance, do qual destacamos alguns trechos. A seguir, vamos ler sobre a decadência do Engenho Santa Fé sob a ótica de D. Amélia: D. Amélia conformava-se com as impertinências do marido. Cada vez mais sentia ela que a doença do seu Lula morreria com ele. Não lutou mais, não sofreu mais. Era tudo como Deus quisesse. A vida que tinha que viver seria aquela, sem outro remédio que vivê-la. Tinha pena da filha, mas ao mesmo tempo para que lhe desejar casamento que fosse como o seu? Para que ligar-se a um homem que viesse arrancando-lhe a paz de Via Neném no seu jardim, nos seus silêncios, na sua paz e não se queixava de não vê-la casada. lam comendo com o pouco que faziam. É verdade que cada ano que se passava, mais o Santa Fé minguava, menos fazia. feitor que Lula botara para ver tudo não era homem de tino, era para ser mandado. E quem mandaria nele? As coisas caminhavam como água de rio, com a correnteza levando tudo. Tinha às vezes vontade de chamar o feitor e dar ordens, mas não queria irritar o marido, era homem que não podia se contrariar. Felizmente que os ataques, aqueles ataques, tinham diminuído. Raras vezes vira o marido naquela posição de endemoniado. Havia ali aquele moleque Floripes, cheio de mesuras, com cavilações que agradavam ao seu marido. Por mais de uma vez tivera que chamar o moleque à ordem. Lula dava-lhe muito fogo. Lula, que era tão indiferente com os escravos, tão superior com os negros da senzala, agora parecia outro homem, no trato com moleque Floripes. Não sabia como explicar semelhante mudança. Via aquele moleque ajoelhado, ao lado de Lula, no quarto dos santos, e não podia descobrir a razão daquele pegadio do seu marido, tão orgulhoso, tão cheio de si. Lula era para ela, ali dentro da casa, como se fosse um estranho. Há muito que ela não existia para ele. Em relação a ela, não era nada. era ver como ele se esquecera por completo da filha. Viviam tão pegados, tão íntimos, e depois daqueles barulhos por causa do promotor ficara Lula daquele jeito com Neném. Lembrava-se daquela noite do tiro na besta, no alpendre, e cobria-se de vergonha. marido imaginando coisas absurdas. A notícia correu pelo Pilar. Aquela Adriana, mulher do capitão Vitorino, chegara em sua cozinha falando no caso com a cozinheira. Tinham caído no A pobre da Neném sofreu com tudo aquilo como uma mártir. Tudo loucura do pai, exagero, tolice. Felizmente que aqueles dias de Lula furioso dentro de casa, aos gritos, como um tigre, haviam passado. A paz que reinava ali dentro de casa era uma tristeza, mas, muito melhor assim que com os sobressaltos dos outros tem- pos, com a peitica do marido, atormentando a filha, descobrindo namorados, inventando fugidas. Tudo havia passa- do. Tudo era agora aquela mansidão, a pobreza de uma casa-grande que se escondia das vistas dos outros. Sim, todos ali viviam a se esconder dos ricos e dos pobres. E ela mesma é quem mais força fazia para que vivessem longe de tudo. Lula era como se não soubesse das dificuldades por que passavam. Só ela tinha os olhos para ver o Santa Fé como estava, na petição de miséria em que vivia. Lula, naquela devoção, no seu rezar, era como um homem de outro mundo, fora de tudo que fosse da terra, indiferente ao seu tempo. Podia chover e fazer sol, podia o rio descer nas enchentes, e a seca queimar a folha da cana, que ele não tomava conhecimento do tempo. Mas ela via tudo, sentia tudo. Todos os pedaços de miséria que a família sofria, era ela quem mais sofria. Todos em sua casa pareciam de um mundo que não era o seu. Até Neném perdera a noção das coisas. Naquele jardim, no meio das rosas, mudando plantas, aguando a terra, não queria saber de mais nada. Seria somente ela quem teria coração, quem teria olhos para ver, ouvidos para ouvir, que era a ruína do Santa Fé.No trecho a seguir, temos um episódio envolvendo o capitão Vitorino que livrara da cadeia o mestre José Amaro, o negro Passarinho e o cego Torquato. A velha deixou o quarto e saiu para o fundo da casa. Vitorino fechou os olhos, mas estava muito bem acordado com os pensamentos voltados para a vida dos outros. Ele muito tinha que fazer ainda. Ele tinha o Pilar para tomar conta, ele tinha o seu eleitorado, os seus adversários. Tudo isto precisava de seus cuidados, da força do seu braço, de seu tino. Lá se fora o seu compadre José Amaro, o negro Passarinho, o cego Torquato. Todos necessitavam de Vitorino Carneiro da Cunha. Fora à barra do tribunal para arrastá-los da cadeia. Que lhe importava a violência do Tenente Maurício? o que valia era a petição que, com a sua letra, com a sua assinatura, botara para a rua três homens inocentes. Ele era homem que não se entregava aos grandes. Que lhe importava a riqueza de José Paulino? Tinha o seu voto e não dava ao primo rico, tinha eleitores que não votavam nas chapas do governo. governo não podia com a sua determinação. Ele sabia que havia muitos outros Tenentes Maurícios na dependência e às ordens do governo. Todos seriam capangas, guarda-costas do Presidente. Mas Vitorino Carneiro da Cunha mandava no que era seu, na sua vida. As feridas que lhe abriam no corpo nada queriam dizer. Não havia força que pudesse com ele. Os parentes se riam de seus rompantes, de suas franquezas. Eram todos uns pobres ignorantes, verdadeiros bichos que não sabiam onde tinham as ventas. Quando parava no engenho, quando conversava com um Manuel Gomes do Riachão, via que era melhor ser como ele, homem sem um palmo de terra, mas sabendo que era capaz de viver conforme os seus dese- jos. Todos tinham medo do governo, todos iam atrás de José Paulino e de Quinca do Engenho Novo, como se fossem carneiros de rebanho. Não possuía nada e se como se fosse senhor do mundo. A sua velha Adriana quisera abandoná-lo para correr atrás do filho. Desistiu para ficar ali como uma pobre. Podia ter ido. Ele, Vitorino Carneiro da Cunha, não precisava de ninguém para viver. Se lhe tomassem a casa onde morava, armaria a sua rede por debaixo dum pé de pau. Não temia a desgraça, não queria a riqueza. Lá se foram os três homens que libertara, a quem dera toda a sua ajuda. tenente se enfurecera com o seu poder. Nunca pensara que existisse um homem que fosse capaz de enfrentá-lo como fizera. A sua letra, o papel que assinara com o seu nome, dera com a força do miserável no chão. Era Vitorino Carneiro da Cunha. Tudo podia fazer, e nada temia. Um dia tomaria conta do município. E tudo faria para que aquele calcanhar-de-judas fosse mais alguma coisa. Então Vitorino se via no dia do seu triunfo. Haveria muita festa, haveria tocata de música, discurso do Dr. Samuel, e dança na casa da Câmara. Viriam todos os chaleiras do Pilar falar com ele. Era o chefe, era o mais homem da terra. E não teria as besteiras de José Paulino, aquela tolerância para com sujeitos safados, que só queriam comer no cocho da municipalidade. Com Vitorino Carneiro da Cunha não haveria ladrões, fiscais de feira roubando o povo. Tudo andaria na correta, na decência. Rachel de Queiroz Rachel de Queiroz nasceu em 1910 em Fortaleza, no Ceará. Passou parte da infância nessa cidade e parte na fazenda da família no interior do estado, viajando algumas vezes para Belém do Pará e Rio de Janeiro. Essas mudanças foram causadas pela seca de 1915, que atingiu a propriedade de sua família. Em 1927, já havia concluído o curso secundário e passou a colaborar em jornais escrevendo crônicas. Nos anos 30, participou do PC e, em 1937, foi presa por suas idéias de esquerda. A partir de 1940, passou a dedicar-se ao teatro, além da literatura. Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1977. Seu primeiro romance, o Quinze, foi publicado em 1930. Sua obra é essencialmente regionalista, apresentando, em seus romances, o Ceará, as pessoas da região, a seca, numa narrativa dinâmica com diálogos fáceis. Em o Quinze, de 1930, e João Miguel, de 1932, convivem elementos sociais e psicológicos, mas predomina social. Caminhos de pedra, de 1937, é seu romance mais político e de esquerda. Porém, em decorrência da situação política do país, começa a abandonar a questão social, detendo-se mais na questão psicológica, o que podemos ver em As três Marias, de 1939. o Quinze, seu romance mais popular, trata da grande seca de 1915, da qual sua família foi vítima. São apresen- tadas duas situações paralelas: 1) a seca e suas para uma pessoa simples - o vaqueiro Chico Bento e sua família - e para grande criador de gado e proprietário Vicente; 2) a relação entre Vicente - um homem rude - e Conceição - uma moça culta da capital.Embora seja um romance social, não enfoca muito a exploração entre os homens, mas sim o drama da seca de forma ampla. Vamos ler dois trechos do romance. primeiro que enfoca a questão da seca e o segundo, que apresenta as diferenças entre Conceição e Vicente: 1 Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarnada nudez das latas raspadas. - cadê a janta? - Cala a boca, menino! Já vem! - Vem lá o quê!... Angustiado, Chico Bento apalpava os bolsos.. nem um triste vintém azinhavrado. Lembrou-se da rede nova, grande e de listras que comprara em Quixadá por conta do vale de Vicente. Tinha sido para a viagem. Mas antes dormir no chão do que ver os meninos chorando, com a barriga roncan- do de fome. Estavam já na estrada do Castro. E se arrancharam debaixo dum velho pau-branco seco, nu e retorcido, a bem dizer ao tempo, porque aqueles cepos apontados para o céu não tinham nada de abrigo. vaqueiro saiu com a rede, resoluto: - Vou ali naquela bodega, ver se dou um jeito... Voltou mais tarde, sem a rede, trazendo uma rapadura e um litro de farinha: Tá aqui. homem disse que a rede estava velha, só deu isso, e ainda por cima se fazendo de Faminta, a meninada avançou; e até Mocinha, sempre mais ou menos calada e indiferente, estendeu a mão com avidez. Contudo, que representava aquilo para tanta gente? Horas depois, os meninos gemiam: - Mãe, tou com fome de novo... - Vai dormir, dianho! Parace que tá espritado! Soca um quarto de rapadura no bucho e ainda fala em fome! Vai dormir! E Cordulina deu o exemplo, deitando-se com o Duquinha na tipóia muito velha e remendada. A redinha estalou, gemendo. Cordulina se ajeitou, macia, e ficou quieta, as pernas de fora, dando ao menino o peito rechupado. Chico Bento estirou-se no chão. Logo, porém, uma pedra aguda lhe machucou as costelas. Ele ergueu-se, limpou uma cama na terra, deitou-se de novo. - Ah! minha rede! chão duro dos diabos! E que fome! Levantou-se, bebeu um gole na cabaça. A água fria, batendo no estômago limpo, deu-lhe uma pancada dolorosa. E novamente estendido de ilharga, inutilmente procurou dormir. A rede de Cordulina que tentava um balanço, para enganar o menino - pobrezinho! o peito estava seco como uma sola velha! - gemia, estalando mais, nos rasgões. E o intestino vazio se enroscava como uma cobra faminta, e em roncos surdos resfolegava furioso: rum, rum rum... De manhã cedo, Mocinha foi ao Castro, ver se arranjava algum serviço, uma lavagem de roupa, qualquer coisa que lhe desse para ganhar uns vinténs. Chico Bento também já não estava no rancho. Vagueava à toa, diante das bodegadas, à frente das casas, enganando a fome e enganando a lembrança que lhe vinha, constante e impertinente, da meninada chorando, do Duquinha gemendo: tum fome! dá Parou. Num quintalejo, um homem tirava o leite a uma vaquinha magra. Chico Bento estendeu o olhar faminto para a lata onde o leite subia, branco e fofo como um capucho.. E a mão servil, acostumada à sujeição do trabalho, estendeu-se maquinalmente num pedido mas a língua ainda orgulhosa endureceu na boca e não articulou a palavra humilhante. A vergonha da atitude nova o cobriu todo; o gesto esboçado se retraiu, passadas nervosas o afastaram. Sentiu a cara ardendo e um engasgo angustioso na garganta. Mas dentro da sua turbação lhe zunia ainda aos ouvidos: dá E o homenzinho ficou, espichando os peitos secos de sua vaca, sem ter a menor idéia daquela miséria que passara tão perto, e fugira, quase correndo...2 Deitada na cama, com a luz apagada, Conceição recordava Vicente e sua visita. A verdade é que ela era sem- pre uma tola muito romântica para lhe emprestar essa auréola de herói de novela! Metido com não se dava a respeito... E ainda por cima, não se importava nem em negar... Mãe Nácia, porque naturalmente, no tempo dela, agüentou muitas dessas, diz que não vale nada... E a moça comparou Dona Inácia senhoras de alma azul, de que fala o Machado de Assis... Foi então que se lembrou de que, provavelmente, Vicente nunca lera o Machado.. Nem nada do que ela lia. Ele dizia sempre que, de livros, só o da nota do gado... Num relevo mais forte, tão forte quanto nunca sentira, foi-lhe aparecendo a diferença que havia entre ambos, de gosto, de tendências, de vida. o seu pensamento, que até há pouco se dirigia ao primo como a um fim natural e feliz, esbarrou nessa encruzilhada difícil e não soube ir adiante. Ele lhe aparecia agora como um desses recantos da mata, próximo a um riacho, num sombrio misterioso e confortante. Passando num meio-dia quente, ao trote penoso do cavalo, a gente pára ali, olha a sombra e o verde como se fosse para um cantinho do céu... Mas volvendo depois, numa manhã chuvosa, encontra-se o doce recanto enlameado, escavacado de minho- cas, os lindos troncos escorregadios e lodosos, os galhos de redor pingando tristemente. Da primeira vez, pensa-se em passar a vida inteira naquela frescura e naquela paz; mas à última, sai-se com o coração pesado, curado de bucolismo por muito tempo, vendo-se na realidade como é agressiva e inconstante a Ele era bom de ouvir e de olhar, como uma bela paisagem, de quem só se exigisse beleza e cor. Mas nas horas de tempestade, de abandono, ou solidão, onde iria buscar o seguro companheiro que entende e ensina, e completa o pensamento incompleto, e discute as idéias que vêm vindo, e compreende e retruca às invenções que a mente vagabunda vai criando? Pensou no esquisito casal que seria o deles, quando à noite, nos serões da fazenda, ela sublinhasse num livro querido um pensamento feliz e quisesse repartir com alguém a impressão recebida. Talvez Vicente levantasse a vista e lhe murmurasse um "é" distraído por detrás do jornal... Mas naturalmente a que distância e com quanta Pensou que, mesmo o encanto poderoso que a sadia fortaleza dele exercia nela, não preencheria a tremenda largura que os separava. Já agora, o caso da Zefinha lhe parecia mesquinho e sem importância. Qualquer coisa maior se cavava entre os dois. E cansada, foi fechando os olhos e confundindo as idéias, que aumentaram como sombras de pesadelo, e dormiu, num sono fatigado e triste, sob uma estranha impressão de estar sozinha no mundo. Jorge Amado Jorge Amado de Faria nasceu em Itabuna, na Bahia, em 1912, mas passou a infância em Estudou em Salvador, no colégio dos padres mas fugiu de lá para a casa do avô, em Sergipe. Então seu pai matriculou-o como interno em outro colégio, em Salvador. Formou-se em Direito, no Rio de Janeiro, mas antes de ir para o Rio já trabalhava como jornalista. Com apenas 19 anos, lançou o romance o país do carnaval, em 1931. Seu livro seguinte, Cacau, foi apreendido pela polícia. Em 932, filiou-se ao PC. Entre 936 e esteve preso e o motivo de sua prisão foi a oposição ao Estado Novo. Quando foi solto, exilou-se na Argentina e depois no Uruguai. De volta ao Brasil, em 1945, elegeu-se deputado federal pelo estado de São Paulo, mas teve seu mandato caça- do em 1948. Então, deixou novamente o país, dessa vez com destino à Europa, retornando em 1952. Sua obra é muito vasta. Além de ser um escritor bastante popular, teve algumas de suas obras adaptadas para o cinema, o teatro e a televisão. Alguns de seus romances, ambientados em Salvador, caracterizam-se pela denúncia das injustiças sociais. Entre eles, estão o país do carnaval, Suor e de Areia. Outros, que têm como cenário as fazendas de cacau sul da Bahia, denunciam a exploração dos trabalhadores nas fazendas e os conflitos entre o trabalhador rural e o exportador de cacau. Isso está presente em Cacau, São Jorge de e Terras do sem-fim.Ainda tendo a Bahia como cenário, há os romances de costumes em que se destaca o comportamento social das personagens. Os heróis são malandros e vagabundos compondo narrativas líricas, como Mar morto e A morte e a morte de Quincas Berro d'água. Destacam-se também como romances de costumes Gabriela cravo e canela, Tieta do agreste e Dona flor, entre outros. Seu livro mais recente, Navegação de cabotagem, de 1992, reúne escritos dotados em que o autor relata pas- sagens de sua vida pessoal e de sua carreira literária, mas não os apresenta ordenados cronologicamente. Vamos ler um trecho do romance Terras do sem-fim, no qual é apresentada a luta pela conquista de terras para o cultivo do cacau em no sul da Bahia. Destaca-se a rivalidade entre o coronel Horácio da Silveira e o chefe de uma família de plantadores de cacau, Juca Badaró, que disputam violentamente as terras não-cultivadas. Paralelamente a essa situação conflituosa, desen- volve-se o romance de Ester, esposa de Horácio, com um amante, Virgílio, um jovem advogado. Os homens vão recuando. Levaram frente a mata, o príncipio do mundo. horas, dias e noites, para chegar até ali. Seus olhos estavam cheios de outra Atravessaram rios, picadas quase intran- visão. Via aquela terra negra, a melhor sitáveis, fizeram caminhos, terra do mundo para o plantio do cacau. atoleiros, um foi mordido de cobra e ficou Via na sua frente não mais a mata ilumi- enterrado ao lado da estrada recém-aberta. nada pelos raios, cheia de estranhas Uma cruz tosca, o barro mais alto, era tudo vozes, enredada de cipós, fechada nas que lembrava o cearense que havia caído. árvores centenárias, habitada de ani- Não puseram o seu nome, não havia com mais ferozes e assombrações. Via o que escrever. Naquele caminho da terra do campo cultivado de cacaueiros, as cacau aquela foi a primeira cruz das muitas árvores dos frutos de ouro regularmente que depois iriam ladear as estradas, lem- plantadas, os cocos maduros, amarelos. brando homens caídos na conquista da Via as roças de cacau se estendendo na terra. Outro se arrastou com a febre, mordi- terrra onde antes fora a mata. Era belo. do por aquela febre que matava até maca- Nada mais belo no mundo que as roças Se arrastando chegou e agora ele de cacau. Juca Badaró, diante da mata também recua, a febre fá-lo ver visões alu- misteriosa, sorria. Em breve ali seriam cinantes. Grita para os demais: os cacaueiros, carregados de frutos, É o lobisomem.. uma doce sombra sobre o solo. Nem via Vão recuando. A princípio devagar. os homens com medo, recuando. Passo a passo até alcançar o caminho Quando os viu, só teve tempo de mais largo, onde são menos numerosos os correr na sua frente, se postar na entra- espinhos e os atoleiros. A chuva de junho da do caminho de parabélum na mão, cai sobre eles, encharcando as roupas, uma decisão no olhar: fazendo-os tremer. Diante deles a mata, a Meto bala no primeiro que der tempestade, os fantasmas. Recuam. um passo.. Agora chegam à picada, é uma cor- Os homens pararam. Ficaram um rida só, atingirão as margens do rio onde instante assim, sem saber o que fazer. uma canoa os espera. Quase respiram Atrás estava a floresta, na frente Juca aliviados. o que vai com febre já não Badaró disposto a atirar. Mas o que sente a febre. o medo dá-lhe uma nova tinha febre gritou: força ao corpo alquebrado. É o lobisomem... e avançou Mas diante deles, parabélum na num pulo. mão, rosto contraído de raiva, está Juca Juca Badaró atirou, novo raio Badaró. Também ele estava ante a mata, atravessou a noite. A mata repetiu num também ele viu os raios e ouviu os trovões, eco o som do tiro. Os outros homens escutou o miado das onças e o silvo das ficaram em torno do que caíra, as cobras, também seu coração se apertou cabeças baixas. Juca Badaró se aproxi- com o grito agourento do corujão. Também mou vagarosamente, o parabélum ainda ele sabia que ali moravam as assom- na mão. brações. Mas Juca Badaró não via na sua Antônio Vítor tinha se baixado, se-gurava a cabeça do ferido. A bala Adiante disse Juca Badaró. atravessara o ombro. Juca Badaró Os homens se espiavam uns aos falou com a voz muito calma: outros. Juca suspendeu o parabélum: - Não atirei para matar, só - Adiante... para mostrar que vocês têm que Os machucados e os co- obedecer... apontou para um: - a cair num ruído monótono Vá buscar água para lavar a ferida. sobre a mata, perturbando seu sono. Assistiu todo o tratamento, Juca Badaró olhou na sua frente. Via ele mesmo amarrou um pedaço de novamente toda aquela terra negra plan- pano no ombro do homem ferido e ajudou a levá-lo para o acampa- tada de cacau, roças e roças carregadas mento junto da mata. Os homens de frutos amarelos. A chuva de junho iam tremendo, mas iam. Deitaram rolava sobre os homens, o ferido pedia o ferido que delirava. Na mata as água numa voz entrecortada. Juca assombrações estavam soltas. Badaró guardou o parabélum. Vocabulário Adelgaçado: Delgado; fino; estreito. Agourenta: Que envolve agouro, ameaça, desgraça. Alpendre: Telheiro; pátio coberto. Alquebrado: Curvado; dotado; enfraquecido. Arranchar: Reunir-se em rancho ou mesa comum. Arrastão: Esforço violento para arrastar. Ascite: Barriga d'água. Autofagia: Auto digestão; nutrição ou sustento de um organismo à custa de sua própria substância. Avidez: Ansiedade; voracidade; sede. Azinhavado: Coberto de azinhave camada verde de hidrocarboneto de cobre que se forma nos objetos de cobre expostos ao ar e à umidade. Barreiro: Fosso cavado em terreno argiloso para conservar por algum tempo as águas pluviais. Bilhetes de sisa: Imposto sobre o valor de imóveis. Bodega: Taberna; pequeno armazém de secos e molhados. Cabaça: Cuia feita com fruto do porongo. Cabriolé: Carruagem leve, de duas rodas, puxada por um cavalo. Cambembe: Desajeitado; pessoa humilde que mora no campo. Cangaço: Gênero de vida dos cangaceiros homens do sertão nordestino que anda sempre armado. Capucho: Cápsula dentro da qual se forma o algodão. Carta de alforria: o título que conferia liberdade ao escravo. Cavilação: Astúcia; manha. Cepo: Pedaço de madeira. Cevado: Engordado; nutrido. Condado: Antigo território de conde. Dianho: Diabo. Diligenciar: Esforçar-se; empenhar-se. Encosta: Vertente; declive de montanha em cujo sentido correm as águas de um rio. Enviesado: Posto ao viés; oblíquo. Erosivo: Que tem o efeito da erosão; que corroe. Escoteiro: Sem bagagem. Espalhafato: Barulho; estardalhaço; confusão. Espasmódico: Que se manifesta por espasmos - arroubos. Espritado: Extremamente enfurecido. Estrema: Marco divisório de propriedades rústicas. Estropiado: aleijado; mutilado. Ex-voto: Quadro, imagem, ou órgão de cera, madeira etc., que se oferece e expõe numa igreja em comemoração devoto ou promessa cumpridos. Fanfarronice: Qualidade ou modos de fanfarrão, valentão. Feitor: Capataz; administrador de bens alheios. Hidrópico: Aquele que tem hidropisia acumulação anormal de líquido em tecido ou cavidade do corpo. Cada uma das partes laterais e inferiores do baixo-ventre. Impertinência: Falar de maneira ofensiva, inconveniente. Insolência: Atrevimento; desaforo; ousadia. Jejuno: Que está em jejum. Lacuna: Vácuo; espaço vazio. Latifúndio: Propriedade rural de grande extensão, explorada por um só proprietário. Lodoso: Que tem lodo ou lama. Melancolia: Desgosto; pesar; tristeza. Mesura: Cortesia; cumprimento; reverência. Misticismo: Disposição para crer no sobrenatural. Molecoreba: Molecada. Parabélum: Certa pistola automática de procedência Pária: Homem excluído da sociedade. Pegadio: Apego a alguém; amizade; afeição. Peitica: Atitude importuna. Potreiro: Lugar cercado, pouco extenso, no qual se guardam os animais empregados nos trabalhos cotidianos. Quintalejo: Pequeno quintal. Redivivo: Que retornou à vida, ressuscitado; rejuvenescido. Resfolegar: Tomar fôlego; respirar com esforço e / ou ruído. Roseta: Pequena roda dentada da espora. Poleiro: Vara de onde as aves pousam e dormem, na gaiola ou na capoeira. Tartamudear: Gaguejar; falar com voz trêmula, por susto, medo ou surpresa. Tifo: Doença infecciosa. Tino: Juízo, discernimento, descrição, tato. Tipóia: Rede pequena. Titä: Pessoa que tem caráter de grandeza gigantesca. Torvo: Que causa terror; carrancudo; pavoroso. Trôpego: Que com dificuldade, arrastadamente. Tropilha: Tropa de cavalos. Turbação: Transtorno; perturbação; inquietação. Ultraje: insulto; afronta; ofensa extremamente grave. Várzea: Planície fértil e cultivada, em um vale; vale. Xucro: Animal de sela ainda não domesticado; indivíduo ignorante, rude, bronco. EXERCÍCIOS PARA VOCÊ ESTUDAR Leia texto a seguir para responder os itens 1 e 2: negrinhas no areal, por vezes feriam com navalhas ou punhal homens de polícias. Mas, no entanto, eram Tá fazendo um dia lindo. bons, uns eram amigos dos outros. Se faziam tudo Essas palavras foram com Pirulito pela rua. Um dia aquilo é que não tinham casa, nem pai, nem mãe, a lindo, e o menino ia despreocupado, assoviando um vida deles era uma vida sem ter comida certa e dor- samba que lhe ensinara o Querido-de-Deus, recordan- mindo num casarão quase sem teto. Se não fizessem do que o padre José Pedro prometera tudo fazer para tudo aquilo morreriam de fome, porque eram raras as lhe conseguir um lugar no seminário. Padre José Pedro casas que davam de comer a um, de vestir a outro. E lhe dissera que toda aquela beleza que caía envolvendo nem toda a cidade poderia dar a todos. Pirulito pen- a terra e os homens era um presente de Deus e que era sou que todos estavam condenados ao inferno. Pedro preciso agradecer a Deus. Pirulito mirou o céu azul Baba não acreditava no inferno, Professor tampouco, onde Deus devia estar e agradeceu num sorriso e pen- riam dele. João Grande acreditava era em Xangô, em sou que Deus era realmente bom. E pensando em Deus Omolu, nos deuses dos negros que vieram da África. pensou também nos da Areia. Eles furta- (...) Pirulito se entristeceu na beleza do dia. Estariam vam, brigavam nas ruas, xingavam nomes, derrubavam todos condenados ao inferno? o inferno era um lugar dea) ( Vidas secas. fogo eterno, era um lugar onde os condenados ardiam b) ( ) o Quinze. uma vida que nunca acabava. E no inferno havia c) ( Fogo morto. martírios desconhecidos mesmo na Polícia, mesmo d) (X) Tieta do Agreste. no Reformatório de menores. Pirulito vira há poucos dias um frade alemão que descrevia o inferno num Texto para as questões 3 e 4: sermão na Igreja na Piedade. (...) Deus, no sermão do frade, era justiceiro e castigador, não era o Deus "Até que afinal conseguira o meu carneiro para montar. dos dias lindos do padre José Pedro. Depois Vivia a pedi-lo ao Tio Juca, ao primo Baltazar do Beleza, a explicaram a Pirulito que Deus era a suprema bon- todos os parentes que tinham rebanho. Um dia chegou um dade, a suprema justiça. E Pirulito envolveu seu amor carneiro para mim. Já vinha manso e era mocho. Carneiro a Deus numa capa de temor a Ele e agora vivia entre nascido para montaria. Chamava-se Jasmim. Via chegar os dois sentimentos. Sua vida era uma vida desgraça- ao engenho os meninos do Zé Medeiros, do Pilar, cada da de menino abandonado e por isso tinha que ser um no seu carneiro carreado, esquipando pela estrada. E uma vida de pecados, de furtos quase diários, de uma grande inveja enchia o meu coração. mentiras nas portas das casas ricas. Por isso na Comecei então a alimentar o sonho de ser dono beleza do dia Pirulito mira o céu com os olhos cresci- também de um cavalinho daquele. E um sonho de dos de medo e pede perdão a Deus tão bom (mas menino é maior que de gente grande, porque fica mais não tão justo também...) pelos seus pecados e os dos próximo da realidade. meu tomara conta de todas as da Areia. Mesmo porque eles não tinham minhas faculdades. E de tanto pedir, eu entrara na culpa. A culpa era da vida..." posse do objeto sonhado." 1. trecho anterior integra o romance de (...) Areia, de Jorge Amado. Com base no fragmento lido, podemos afirmar que seu tema é 3. o texto anterior, que tem como tema a recordação da infância do menino no engenho, foi escrito por a) ( o drama da seca vivido por uma família. b) (X) a vida de menores carentes que não têm família e a) ) Rachel de Queiroz. vivem nas ruas de Salvador, o que não é dito clara- b) Jorge Amado. mente, mas se pode afirmar já que a maioria dos c) (X) José Lins do Rego. romances do autor é ambientada em Salvador. d) ( Graciliano Ramos. c) a infância do autor num engenho no Ceará, em que se destaca a decadência do engenho e suas conse- 4. Assinale o título de outra obra escrita pelo mesmo qüências. autor do texto anterior: d) a história da formação de uma cidade do Nordeste que não está definida. a) A bagaceira b) Cacau 2. Assinale, entre as alternativas a seguir, o nome de c) (X) Fogo morto outra obra que foi escrita pelo autor do texto anterior: d) Angústia EXERCÍCIOS PARA VOCÊ RESOLVER Texto para as questões 1 a 3: manual de zootecnia. Depois dessa conversa, a colheita do algodão Está visto que o casamento para as mulheres é prendeu-me duas semanas em São Bernardo. Refleti uma situação... algumas vezes no caso. Era provável que D. Glória Razoável, D. Glória. E até é bom para a saúde. houvesse batido com a língua nos dentes. Que teria Mas há tantos casamentos desastrados. Demais dito? Aparecia a Madalena com medo de ser mal isso não é coisa que se imponha. recebido por causa da sugestão. Fui bem recebido: Não, É preciso propor. Tudo mal (...) organizado, D. Glória. Há lá ninguém que saiba com o que you dizer é Deve quem deve casar? Enfim, para não estarmos com prólogos, arreio a Quanto a mim, acho que em questões de senti- trouxa e falo com o coração na mão. mento é indispensável haver reciprocidade. Tossi, encalistrado: Qual reciprocidade! Preguice. Se o casal for bom, Está aí. Resolvi escolher uma companheira. E os filhos saem bons; se for ruim, os filhos não prestam. como a senhora me quadra... Sim, como me engracei A vontade dos pais não tira nem Conheço o meu da senhora quando a vi pela primeira vez...encaminhando-se para um final feliz. Engasguei-me. Séria, pálida, Madalena permaneceu calada, mas não parecia surpreendida. 2. Podemos dizer que o trecho lido integra o romance Já se vê que não sou o homem ideal que a senho- ra tem na cabeça. a) ) Vidas secas Afastou a frase com a mão fina, de dedos compridos: b) ) Terras do sem-fim Nada disso. que há é que não nos conhecemos. c) ) São Bernardo Ora essa! Não lhe tenho contado pedaços de d) ) Fogo Morto minha vida? o que não vale pouco. A senhora, pelo que mostra e pelas informações que peguei, é 3. Outro romance da segunda Fase do Modernismo em sisuda, econômica, sabe onde tem as ventas e pode que é apresentada incompatibilidade entre duas pessoas dar uma boa mãe de família. que se relacionam é (...) a) Quinze. Deve haver muitas diferenças entre nós. b) ) Vidas Secas. Diferenças? E então? Se não houvesse diferenças, c) Cacau. nós seríamos uma pessoa só. Deve haver muitas. Com d) Menino de engenho. licença, vou acender o cachimbo. A senhora aprendeu várias embrulhadas na escola, eu aprendi outras 4. Assinale com um (X), a alternativa em que NÃO há quebrando a cabeça por este mundo. (...)" correspondência entre o autor e a obra citados: 1. Assinale a afirmação INCORRETA sobre o texto a) ) Graciliano Ramos Vidas secas. anterior: b) ) Rachel de Queiroz o quinze. c) ( ) José Lins do Rego Menino de engenho. a) texto apresenta uma personagem que vê os d) Jorge Amado Infância seus semelhantes como coisas, ou como animais. b) A proposta de casamento se faz entre per- 5. Assinale com um (X), o único romance que não tem como tema a seca do nordeste: sonagens muito diferentes, que vêem o mundo de for- mas diferentes. a) ) Vidas secas. c) ( A proposta de casamento não leva em conta os b) ) de Areia. sentimentos das personagens. c) ) A bagaceira. d) ( ) relacionamento entre as personagens é apre- d) ) o quinze. sentado como nos romances românticos do século XIX, CHAVE DE RESPOSTAS 1. Assinale a afirmação INCORRETA sobre o texto anterior: que se relacionam é a) o texto apresenta uma personagem que vê os a) (X) o Quinze. seus semelhantes como coisas, ou como animais. b) Vidas Secas. b) ( A proposta de casamento se faz entre duas per- c) Cacau. sonagens muito diferentes, que vêem o mundo de for- d) Menino de engenho. mas diferentes. c) ( ) A proposta de casamento não leva em conta os 4. Assinale com um (X), a alternativa em que NÃO há sentimentos das personagens. correspondência entre o autor e a obra citados: d) (X) relacionamento entre as personagens é apre- sentado como nos romances românticos do século XIX, a) Graciliano Ramos Vidas secas. encaminhando-se para um final feliz. b) Rachel de Queiroz o quinze. c) ) José Lins do Rego Menino de engenho. 2. Podemos dizer que o trecho lido integra o romance d) (X) Jorge Amado Infância. a) ( ) Vidas Secas. 5. Assinale com um (X), o único romance que não tem b) ( ) Terras do sem-fim. como tema a seca do nordeste: c) (X) São Bernardo. d) ( ) Fogo Morto. a) Vidas secas. b) (X) de Areia. 3. Outro romance da segunda Fase do Modernismo em c) A bagaceira. que é apresentada incompatibilidade entre duas pessoas d) o quinze.