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PSICOPATOLOGIA AULA 3 Profª Maria Cecília Beltrame Carneiro 2 CONVERSA INICIAL O exame do estado mental Apesar de estudarmos as funções psíquicas e suas alterações de forma separada, é preciso lembrar que esse procedimento é artificial. É útil, pois podemos aprofundar cada função; porém, devemos ter em mente que cada uma delas não são fenômenos psíquicos isolados. Assim, logo veremos como eles se inter-relacionam. Essa categorização de funções e seus termos técnicos facilitam por uso de uma linguagem universal na área de saúde mental. Mas, obviamente, é sempre a pessoa, na sua totalidade, que adoece e que será examinada. Quando falamos de transtornos mentais, esses não se tratam apenas de agrupamentos de sintomas que coexistem entre si mas que também são conectados estruturalmente. A psicopatologia, sendo centrada na pessoa, se desenvolve com base em determinadas síndromes psiquiátricas, as quais detalharemos em outras aulas. Na prática, com o paciente à nossa frente, avaliamos seu estado mental atual e nos dias anteriores à consulta (geralmente na última semana ou último mês, dependendo do caso). Nesta aula, daremos início ao estudo das funções mentais. Devido a ser esse um assunto extenso e central do curso, continuaremos tratando-o na aula seguinte. Além da definição de cada função, vamos expor como identificar alterações em cada uma delas e como correlacioná-las com quadros psiquiátricos, lembrando que apenas uma única função mental alterada provavelmente não configurará um transtorno mental (obviamente, em pacientes sintomáticos e não nos que já estão estabilizados). O exame do estado mental é parte fundamental da avaliação psicológica e bastante extenso; portanto, daremos ênfase aos dados mais importantes e às sugestões para seu aprofundamento. TEMA 1 – APARÊNCIA, ATITUDE, CONSCIÊNCIA, ATENÇÃO E ORIENTAÇÃO Algumas das funções apresentadas neste tema farão parte de um assunto pouco explorado nos livros de psicopatologia, de forma geral: a comunicação não verbal (CNV), de que trataremos em aula posterior. 3 1.1 Aparência Pouco foi escrito sobre a aparência física do paciente, na literatura sobre psicopatologia. De forma geral, quando um profissional da saúde mental examina um paciente, ele pode observar literalmente o que está aparente, ou seja, o aspecto global do paciente, expresso pelo seu corpo e sua postura corporal, seus trajes (roupas, sapatos etc.), acessórios (colares, brincos, piercings etc.), por detalhes como uso de maquiagem, perfumes, odores e marcas corporais (tatuagens, cortes etc.), cuidados higiênicos e estéticos relativos ao corpo (incluindo cabelos, barba, unhas, dentes). A aparência do paciente pode revelar muito de seu estado mental interior, sendo um recurso importante para auxiliar no diagnóstico e para conhecer o indivíduo como pessoa. É importante ressaltar que esse tópico não se refere, de modo nenhum, a julgamento de valores ou preferências estéticas. Mas, afinal, como descrevemos alterações na aparência do paciente? Ele pode se apresentar de modo cuidado; ou descuidado – com a higiene corporal comprometida, roupas sujas, rasgadas ou desalinhadas; mau cheiro; cabelos despenteados ou malcuidados; dentes estragados, ausentes; unhas sujas e/ou compridas. A aparência do paciente também podemos classificá-la como: adequada, bizarra (extravagante ou excêntrica), exibicionista, inadequada para o clima (por exemplo, pacientes esquizofrênicos podem trajar roupas de inverno durante o verão e vice-versa e pacientes autistas com alterações sensoriais táteis podem usar apenas determinados tipos de tecido ou peças de roupa). Adolescentes do sexo feminino e adultas jovens que apresentem quadro de automutilação podem, muitas vezes, vestir apenas roupas de mangas compridas para esconder as lesões, e as pacientes com possível quadro de anorexia nervosa, roupas mais largas, para mascararem a magreza excessiva. Já a aparência exibicionista caracteriza-se pela excessiva exposição do corpo, sendo observada em pacientes com aumento da libido; e, ainda, por maquiagem exagerada, que destoa do basal do indivíduo ou da ocasião, frequentemente visto em pacientes com mania ou hipomania. 1.2 Atitude Vamos restringir o emprego do termo atitude ao comportamento especificamente relacionado ao examinador e à entrevista. O profissional não 4 deve provocar, ativamente, nenhuma atitude no paciente – esta deve ser espontânea, e podemos analisá-la desde antes de o paciente entrar na sala de consulta. Não existem muitos termos técnicos para descrever esse quesito e muitos extrapolam o seu uso corriqueiro. Algumas atitudes, por parte dos pacientes, são consideradas desejáveis, pois contribuem positivamente para a realização da avaliação psíquica, tais como: atitudes cooperantes, amistosas, confiantes, interessadas, abordáveis. Essas atitudes mostram que o paciente apresenta uma plena consciência de sua morbidade. Algumas das atitudes observadas em pacientes com transtorno mental – lembrando que, durante toda essa nossa imersão no tema, propomos um roteiro mínimo para posterior estudo aprofundado – são: não cooperação, oposição ao que a eles se apresenta como recomendação, hostilidade, fuga, suspicácia (ligada a quadros delirantes), querelância (o paciente discute e briga com o seu examinador), reivindicação (o paciente quer ser atendido na hora que bem entender), arrogância, evasão, invasão, esquiva, inibição ou desinibição excessivas, jocosidade, ironia, muito lamurio, dramaticidade ou teatralidade, sedução, puerilidade, simulação ou dissimulação (o paciente tenta ocultar ou forjar um sintoma ou doença, com objetivos secundários), indiferença, manipulação, submissão e expansividade. 1.3 Consciência A palavra consciência vem do latim cum scientia e significa, literalmente, uma ciência acompanhada de outra ciência. Para consciência existem várias definições, a depender do campo do estudo. Por ora, citaremos três delas. A consciência neuropsicológica seria o estado de estar acordado, vígil, lúcido, o que é categorizado em níveis de consciência. Já a definição psicológica conceitua o campo da consciência como a soma das experiências conscientes de um indivíduo em determinado momento de sua vida (Jaspers, 2005). Na relação do eu com o meio à sua volta, a consciência seria a capacidade do indivíduo de entrar em contato com a realidade, perceber e conhecer os seus objetos, distinguir o eu do não eu, ter consciência de que tem consciência e, assim, poder refletir sobre os seus conteúdos psíquicos – trata-se, enfim, do dar- se conta de si, do mundo externo e de suas vivências subjetivas. A terceira definição seria a ético-filosófica, utilizada não só no campo da ética e da filosofia como também no do direito. Ela se relaciona a tomar ciência dos deveres éticos 5 e assumir as responsabilidades, os direitos e os deveres concernentes a essa ética. Neste curso, enfocaremos a consciência do ponto de vista neurofisiológico. 1.3.1 A consciência neurofisiológica A consciência dita neurológica pode ser traduzida como um nível geral de atividade do sistema nervoso, com variações quantitativas, regulada por sistemas moduladores difusos que, por sua vez, são formados por conjuntos de neurônios com diferentes neurotransmissores. O estado da consciência neurológica é regulado pelo sistema ativador reticular ascendente (Sara) e pelo relógio biológico hipotalâmico, que regula o sono mediante modulações da luz do dia e produção de melatonina pela glândula pineal. O Sara tem como principal função a ativação do córtex cerebral, regulando os estados de alerta e de sono. Drogas que deprimem a atividade neuronal do Sara, como os sedativos, provocam sonolência; outras, como a anfetamina, que a estimulam, têm efeito excitatório.Lesões ou disfunções no Sara causam rebaixamento da consciência ou prejuízo cognitivo. Vigilância é a capacidade neurofisiológica que serve de suporte a qualquer atividade adaptativa. Significa que o indivíduo está vígil, desperto, alerta, com o seu nível sensorial funcionando de modo claro. Para melhor entendimento, é de suma importância que você se aprofunde no tema ciclo sono- vigília e ritmos de vida, que compõe as variações normais de níveis de consciência. A lucidez constitui um estado de consciência evidente ou de vigilância plena. Quando o indivíduo está lúcido, os seus processos psíquicos são experimentados com suficiente intensidade, os seus estímulos são apreendidos e os seus conteúdos mentais possuem nitidez e são bem delimitados. O nível de consciência pode ser modulado tanto por estímulos externos como por estímulos internos (como pensamentos, emoções e recordações). Uma das principais propriedades dessa modulação dos níveis de consciência é facilitar a interação da pessoa com o ambiente de forma adequada ao contexto no qual o sujeito se encontra (p. ex., em situações de ameaça, alguns estímulos podem ser ignorados e, ao mesmo tempo, a sensibilidade para outros, mais relevantes, pode estar aumentada, expressando o chamado estado de alerta). Por fim, o campo (ou amplitude) da consciência refere-se à quantidade de conteúdos que a consciência abarca em determinado momento e representa a dimensão horizontal da consciência. 6 1.3.1.1 Alterações quantitativas da consciência As alterações quantitativas da consciência/vigilância referem-se à intensidade da clareza das vivências psíquicas. No seu estado de normalidade, o indivíduo está constantemente apresentando oscilações na intensidade de sua consciência, em geral pequenas. Há certa diminuição no nível de consciência quando o indivíduo, por exemplo, está cansado, sonolento, relaxado ou em repouso e quando os estímulos sensoriais externos e internos e os afetos são pouco intensos. O nível de consciência varia ao longo de um continuum que inclui desde o estado total de alerta até os estados de sono (variação normal) ou coma (variação patológica mais grave). Algumas alterações patológicas quantitativas, nesse espectro, incluem: torpor, estado confusional, confusão mental, estado oniroide, estado confuso-onírico, obnubilação (diminuição branda da atenção e da sensopercepção) e estupor. Esse espectro traduz as variações do rebaixamento do nível de consciência, um comprometimento difuso e generalizado do funcionamento cerebral que sempre possui uma etiologia orgânica. Alguns autores também descrevem a elevação do nível de consciência ou hipervigilância: esse fenômeno ocorre na intoxicação por alucinógenos ou por anfetamina, na mania, no início da esquizofrenia, situações em que há um aumento de intensidade das percepções, do afeto, da atividade, da memória de evocação e da atenção espontânea, porém com prejuízo na concentração, no raciocínio e na memória de fixação. 1.3.1.2 Alterações qualitativas da consciência Dentre as variações fisiológicas da consciência, o sonho é a mais frequente e definida como uma vivência subjetiva durante o sono. Caracteriza- se pelo predomínio de imagens visuais (podendo haver sensações motoras, auditivas etc.), conteúdos bizarros, falsa crença de que se está acordado, diminuição da capacidade de reflexão; mudanças súbitas quanto a tempo, lugar e pessoas; dificuldade de se lembrar de seu conteúdo após ter despertado (Hobson, 2002). No âmbito das alterações patológicas da consciência, temos o estreitamento do campo da consciência, que é a característica que define os estados crepusculares e que ocorre na epilepsia parcial complexa, na intoxicação alcoólica, nos estados dissociativos, no estresse pós-traumático, no 7 sonambulismo e nas crises de terror noturno na infância. Seu curso é breve, de início súbito: o paciente apresenta-se um pouco confuso, perplexo, demonstra afeto indiferente e tem amnésia anterógrada. Tanto o sonambulismo como o terror noturno, que são classificados como parassonias, têm curso benigno. O quadro de delirium é definido como uma disfunção transitória no metabolismo cerebral – atenção: não confundir com delírio! Tal alteração do conteúdo do pensamento será vista mais adiante. O delirium tem início agudo ou subagudo e, geralmente, origem orgânica (muitas vezes ligada a quadros infecciosos, medicamentosos, de insuficiência renal ou hepática, de tumores cerebrais) ou relativa a quadros de abstinência de substâncias (o mais comum é o delirium tremens, pela abstinência de álcool, do qual falaremos em outra aula). Umas das suas principais características são a flutuação do nível de consciência e a desorientação do indivíduo no tempo e no espaço. Por último, temos os fenômenos de despersonalização e desrealização, caracterizados pela vivência de uma sensação de estranheza para consigo mesmo e o mundo ao redor. Pacientes costumam descrevê-los como: percepção de forte pressão na cabeça, sensação de sair do corpo, de ver o ambiente de fora, como numa desconexão emocional. O indivíduo consegue fazer a crítica da sua irracionalidade e tem medo de perder o controle. Por mais peculiar que pareçam, esses fenômenos são comuns em transtornos ansiosos, dadas as consequentes preocupações e angústias inerentes ao quadro. 1.4 Atenção Segundo definição de Cheniaux Junior (2015, p. 52), A atenção é o processo pelo qual a consciência é direcionada para determinado estímulo (de origem externa ou interna) sensorial, afetivo ou cognitivo. O que é selecionado pela atividade da atenção adquire maior clareza e nitidez. Se não tivéssemos esta capacidade de selecionar o estímulo, a quantidade de informações externas e internas que chegaria à nossa mente seria tão grande que inviabilizaria qualquer atividade psíquica. A volição e o afeto/humor também podem interferir diretamente na atenção. Além disso, a atenção influencia a sensopercepção, a memória (tanto de fixação de novos registros como de evocação de antigos) e a orientação do indivíduo. 8 1.4.1 Principais funções da atenção Também classificamos a atenção como voluntária, ou seja, traduzida por um esforço intencional e consciente, por parte do indivíduo, concentrado em um objeto; ou espontânea, associada à vigilância e definida como uma reação automática, não consciente e não intencional do indivíduo aos estímulos. Por exemplo, despertam mais a nossa atenção os estímulos mais intensos, repentinos e inesperados. Avaliamos também a tenacidade e a mobilidade da atenção. A primeira é definida como a capacidade de um indivíduo de manter a atenção (ou a concentração) em determinado objeto, por certo tempo. Já a segunda seria a capacidade de direcionarmos a atenção de um objeto para outro. As duas são qualidades opostas: se uma aumenta, a outra tende a diminuir de intensidade. 1.4.2 Alterações quantitativas da atenção Classificamos as alterações quantitativas da atenção somente em hipoprosexia e aprosexia. A primeira corresponde a uma diminuição global da atividade da atenção, a qual afeta a tenacidade e a mobilidade do indivíduo. Nesse quadro, há uma rápida fatigabilidade, associada ao esforço para se concentrar, e o paciente necessita de estímulos mais intensos para manter a sua atenção em algo. Pode ocorrer nos estados de fadiga, tédio e sonolência e em decorrência da apatia ou da falta de interesse, como na esquizofrenia, na depressão e na demência, e pode ser secundária a um rebaixamento da consciência (como em quadros de delirium) e a um déficit intelectual. Já a aprosexia consiste na abolição da atenção: nos limites da normalidade, ocorre durante o sono sem sonhos; e é também observada no coma, na demência em fase terminal e em alguns casos de estupor. 1.4.3 Alterações qualitativas da atenção No caso das alterações qualitativasda atenção, a mobilidade e a tenacidade estão em condições opostas. Por exemplo, a rigidez da atenção constitui um estado de hipertenacidade/hipomobilidade: por um período longo, o indivíduo está concentrado em um único objeto e não é capaz de alterar sua atenção para outro foco. Nessas características, podemos observar um ensimesmamento do indivíduo, quando a sua atenção está dirigida, 9 exclusivamente, a um objeto interno (mais comum na esquizofrenia); e pode ocorrer no indivíduo sem patologia psiquiátrica (por exemplo, uma pessoa está lendo um livro que considera muito interessante e não registra nada do que ocorre ao seu redor, com sua atenção voltada exclusivamente para essa vivência interna). Nas grandes síndromes, é possível observar tal situação: na depressão, em relação a pensamentos e recordações dolorosas; no transtorno obsessivo- compulsivo, em relação às ideias recorrentes; na hipocondria, em relação às sensações corporais. Muitos autores denominam essa alteração de distração. Já a labilidade da atenção constitui-se de uma hipotenacidade da atenção com uma hipermobilidade, estado em que o paciente não mantém a sua atenção a um determinado objeto por muito tempo (Cheniaux Junior, 2015, p. 54). Ocorre na mania, na intoxicação por certas substâncias, nas síndromes ansiosas, no transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, nos quadros de delirium com sintomas psicóticos e nos transtornos cognitivos. No exame do seu estado mental, a expressão fisionômica do paciente já fornece elementos para a avaliação do seu estado de atenção. Devemos observar também a adequação e a velocidade das suas respostas às perguntas formuladas, bem como o seu grau de distraibilidade e fatigabilidade durante a entrevista. O contato visual do paciente nos fornece informações relacionadas à sua atenção: se o seu olhar se mantém direcionado ao examinador ou se é constantemente desviado, ou se parece perdido e transpassa o examinador, ou seja, o paciente o olha mas dá a impressão de não o estar vendo. 1.5 Orientação A orientação é uma função mental complexa, com a qual o indivíduo é capaz de situar-se no tempo, no espaço, em relação a si e ao mundo. É interligada com a consciência, a atenção, a memória, a sensopercepção, o afeto e o tônus do humor, com cujos aspectos definimos se o paciente está orientado alopsiquicamente (no tempo e no espaço) e autopsiquicamente (em relação a si e ao ambiente). 1.5.1 Alterações da orientação Registram-se as seguintes possibilidades de alteração da orientação de um paciente: 10 • Desorientação de causa orgânica: geralmente alopsíquica, compromete o funcionamento cerebral do indivíduo, como nos casos de deficiência intelectual, estados confusionais (abuso de drogas, traumatismos cranianos, delirium tremens etc.), amnésicos, lacunares (quando o paciente não sabe o que aconteceu nem o que está acontecendo em um espaço de tempo, comum em quadros pós-concussão), demenciais (declínio cognitivo global). • Desorientação por alterações da volição e do afeto: em quadros dissociativos (fugas, amnésias, transes, em geral aqueles dois podem estar alterados), apáticos (depressões graves – o paciente se apresenta consciente mas pouco responsivo a estímulos externos, pela falta de energia para processar percepções e raciocínios), maníacos (pelo seu humor exaltado, agitado, o paciente se perde na fluência do tempo) e psicóticos (geralmente com alteração autopsíquica, em função do quadro delirante e/ou alucinatório). TEMA 2 – SENSOPERCEPÇÃO E MEMÓRIA 2.1 Sensopercepção A sensopercepção pode ser definida como a capacidade do indivíduo de apreender, em sua consciência, os objetos reais do mundo externo ou até do seu próprio mundo interior. Essa função faz a captação intuitiva (proporcionada pelos órgãos sensoriais) e a integração significativa (proporcionada pela consciência reflexiva) das informações absorvidas pelo indivíduo. Desmembrando, de forma artificial, os processos ligados a essa função mental, temos a sensação – “fenômeno passivo, físico, periférico e objetivo que resulta das alterações produzidas por estímulos externos sobre os órgãos sensoriais” (Cheniaux Junior, 2015, p. 59), por meio do qual podemos identificar cor, forma, peso, temperatura etc. de um objeto; e, por sua vez, a percepção, relacionada à discriminação dos objetos, dando significação às sensações. Classificamos as qualidades sensoriais em: exteroceptivas – visuais, auditivas, gustativas, olfativas, cutâneas; interoceptivas – bem-estar, mal-estar, fome, sede, sensibilidade visceral; proprioceptivas – cinestésicas, posição segmentar do corpo, equilíbrio, barestesia, palestesia, imagem perceptiva e imagem representativa. 11 2.1.1 Alterações quantitativas da sensopercepção Consistem em alterações quantitativas da sensopercepção: • Agnosia: distúrbio do reconhecimento de estímulos visuais, auditivos ou táteis, na ausência de déficits sensoriais. As sensações do indivíduo continuam a ocorrer normalmente, porém não são associadas às suas representações. O paciente é capaz de descrever a cor e a forma de um objeto, mas não o identifica: ele não consegue reconhecer, por exemplo, um guarda-chuva, nem dizer para que ele serve. Essa alteração está relacionada a lesões cerebrais corticais. • Hiperestesia: aumento global da capacidade sensitiva, ou seja, as impressões sensoriais do indivíduo tornam-se mais intensas, mais vívidas ou mais nítidas. É observada na mania, na intoxicação por anfetamina, cocaína, maconha e alucinógenos. Pode se manifestar também como uma hipersensibilidade a estímulos sensoriais comuns que se tornam extremamente desagradáveis, por exemplo, diante de leves ruídos. Costuma ser observada na depressão, em estados de ansiedade e no transtorno do espectro autista (TEA), de forma mais intensa. • Hipoestesia: diminuição da capacidade sensitiva – o mundo fica sem cor, o paladar do indivíduo não sente o gosto dos alimentos e até a sua sensação de dor pode se mostrar rebaixada. Observa-se, principalmente, em quadros de depressão, esquizofrenia, demências, delirium e transtornos conversivos. • Anestesia: perda da sensibilidade, encontrada nas mesmas situações que a hipoestesia. Existem também alterações de sensopercepção relacionadas ao tamanho de um objeto: macropsia, micropsia e dismegalopsia. 2.1.2 Alterações quantitativas da sensopercepção As principais alterações, de ordem quantitativa, da sensopercepção são: a ilusão, que se trata da percepção falsa de um objeto real e presente, que pode ocorrer não só em pessoas com transtornos mentais, mas também em pessoas consideradas saudáveis, de que as ilusões visuais são as mais frequentes; a pareidolia, que consiste numa imagem criada intencionalmente com base em 12 percepções e que não é patológica, por exemplo ver figuras humanas, animais, objetos em nuvens; as alucinoses, em que há uma percepção clara e definida do objeto, porém o paciente tem crítica de que a sua sensopercepção é algo patológico (diferentemente das alucinações verdadeiras) – são também chamadas alucinações neurológicas, já que estão relacionadas a distúrbios de origem orgânica, comuns em transtornos orgânicos cerebrais, na intoxicação por alucinógenos e no fenômeno do membro fantasma, em amputados. Nesse grupo de alterações, há ainda aquela que deve ser mais bem estudada: a alucinação, ou seja, a percepção clara, definida e convicta de um objeto inexistente, vivenciada como própria do mundo do sujeito. As alucinações não se originam de transformações de percepções reais, o que as distinguem das ilusões. Conforme o receptor sensorial envolvido, podem ser: auditivas, visuais, olfativas, gustativas ou táteis. Podem levar, secundariamente, ao desenvolvimento de ideias deliroides, criadas como uma explicação para aquelas. As alucinaçõesverdadeiras possuem uma força irresistível de convencimento e são aceitas pelo juízo de realidade, por mais que pareçam, para o próprio paciente, estranhas ou especiais. Pseudoalucinações são imagens representativas involuntárias, fugazes, sem intensidade e pouco nítidas, geralmente visuais e auditivas. Os pacientes as percebem com os seus olhos (ou ouvidos) internos, com o termo internos referindo-se a algo que se opera dentro da mente (e não dentro do corpo ou da cabeça). As alucinações manifestam-se na esquizofrenia, em transtornos de humor, situações de abuso de substâncias e episódios de estresse e fadiga. Sua manifestação também se refere a alucinações factícias em simuladores ou a alucinações em que há crítica por parte do paciente (p. ex., em pacientes que têm a sensação de que alguém os chama pelo nome). As alucinações visuais podem ser simples ou complexas e têm geralmente etiologia orgânica, como em quadros de delirium e na intoxicação por alucinógenos, sendo mais raras em síndromes psicóticas (como esquizofrenia). As alucinações auditivas são as mais comuns e podem ser nítidas ou ininteligíveis para o paciente. Descrevemo-las como alucinações auditivas de comando quando o paciente relata ouvir vozes imperativas e persecutórias, comuns em síndromes psicóticas. Alucinações olfativas e gustativas são raras e, em geral, estão associadas entre si, podendo ocorrer na esquizofrenia (quando o paciente se recusa a comer por achar que alguém 13 envenenou sua comida). Entre as alucinações táteis estão incluídas as cutâneas, as térmicas, as dolorosas e as hídricas. Nas alucinações cenestésicas, as sensações dos indivíduos são localizadas nos seus órgãos internos. Também existem as alucinações que ocorrem nas transições vigília-sono e sono-vigília, conhecidas respectivamente como alucinação hipnagógica e alucinação hipnopômpica, que costumam ser visuais, mas também podem ser auditivas ou táteis, ocorrendo em pessoas consideradas saudáveis e naquelas com narcolepsia. E, por último, as alucinações sinestésicas compreendem estímulos sensoriais, em um órgão dos sentidos, que são percebidos como oriundos de outro sentido, por exemplo: ver sons, ouvir cores etc., mais comuns na intoxicação por alucinógenos. 2.1.3 Avaliação da sensopercepção Alguns sinais, durante a entrevista com o paciente, podem fazer-nos suspeitar que, naquele momento, ele apresente atividades alucinatórias: atenção prejudicada (quando o paciente parece estar prestando atenção em outra coisa que não nas perguntas do entrevistador); mudanças súbitas da posição da cabeça (como se o paciente estivesse vendo algo a mais na direção de onde vem a voz que ouve), fisionomia de terror ou perplexidade (principalmente no início do quadro psicótico); execução de gestos como tapar os ouvidos, os olhos, as narinas ou os órgãos genitais ou “protegê-los” com algodão ou outro material. Especificamente nas alucinações auditivas, pode ocorrer o comportamento de o paciente falar sozinho (o que é conhecido como solilóquio), dar respostas incoerentes em relação às perguntas e rir de forma imotivada. Olhar fixo em determinada direção, desvios súbitos do olhar, movimentos defensivos com as mãos podem denotar atividade alucinatória visual. Em casos mais graves o paciente pode apresentar uma recusa sistemática de alimentos (alucinação gustativa e olfativa), isso levando à perda de peso excessiva; coçar ou tentar afastar algo da pele (alucinação cutânea). Porém, o paciente não apresentar nenhum sinal sugestivo de atividade alucinatória durante a sessão não exclui a possibilidade de ele ter sintomas de alucinação. Vale reforçar que o exame psíquico do paciente é feito durante a sessão e também com seus dados dos dias/semanas anteriores – na prática, será muito mais comum o relato prévio do paciente ou familiar sobre os seus sintomas do que observá-los facilmente em um consultório. 14 2.2 Memória A memorização se constitui de uma atividade psíquica basal pela qual se dá a aquisição de conhecimento e aprendizado, os quais são essenciais para o desenvolvimento e a sobrevivência do indivíduo. As informações armazenadas na memória dizem respeito às nossas experiências perceptivas e motoras, assim como às nossas vivências internas. O processo de atividade da memória é dividido em três fases: 1. fixação – refere-se à aquisição de novas informações e depende da preservação do nível de consciência (vigilância), atenção e sensopercepção do indivíduo; 2. armazenamento – nessa etapa, ocorre a manutenção das informações que foram fixadas, em um processo bastante dinâmico; 3. memória de evocação – corresponde ao retorno ao presente, de modo espontâneo ou voluntário, dos dados fixados. Na classificação das memórias temos a memória sensorial (ou imediata), que dura menos de 1 segundo, permanece ativa apenas o tempo necessário para se dar a percepção e é a mais precisa, pois ainda não se baseia nas vivências do indivíduo. Em seguida, a memória de curto prazo (ou recente) dura de alguns segundos a minutos, armazenando temporariamente as informações para a realização de tarefas cognitivas. A memória de trabalho se compõe de três subsistemas: um verbal, que armazena informação auditiva sob a forma de linguagem falada; um visuoespacial, que mantém ativas imagens visuais de objetos e informações de localização no espaço; e o executivo central, que coordena os outros dois e direciona a atenção. Por último, a memória de longo prazo corresponde ao registro dos dados e se apoia na vivência do indivíduo, armazenando permanentemente as informações. Ela se subdivide em explícita (com informações sobre o que é o mundo, que são evocadas voluntariamente e podem ser expressas em palavras) e implícita (não declarativa). A memória explícita subdivide-se, por sua vez, em memória episódica e memória semântica. A primeira é uma memória explícita que se refere a eventos autobiográficos, a vivências pessoais do indivíduo, vinculadas a determinado local e ocasião. A memória semântica se refere a conceitos atemporais, compartilháveis com as outras pessoas. Na memória implícita armazenam-se conhecimentos que são adquiridos sem esforço, por exemplo, o processo de desenvolvimento 15 perceptomotor para executar tarefas e seu aprimoramento ao longo do tempo, devido às experiências prévias. É um tipo de memória automática e reflexa, não descrita por palavras e pré-consciente. 2.2.1 Alterações quantitativas da memória Constituem alterações quantitativas da memória: • Amnésia (ou hipomnésia) anterógrada: dificuldade de formar novas lembranças de longo prazo e de adquirir novas aprendizagens a partir do momento em que a doença se instalou. Ocorre principalmente nos quadros demenciais, de déficit intelectual e nos transtornos amnésticos. Também pode fazer parte dos quadros de delirium, estados crepusculares, transtornos ansiosos e de agitação psicomotora devido à diminuição na capacidade de concentração. Nessas situações, o sujeito perde objetos, não consegue gravar recados e transmiti-los, nem nomes e rostos de pessoas que acabou de conhecer; pode se desorientar quanto à localização e ter dificuldade em registrar o dia corrente. • Amnésia (hipomnésia) retrógrada ou de evocação: dificuldade ou perda da memória de fatos anteriores ao fator causal do distúrbio mnêmico, relativa a um período limitado de tempo (horas ou dias) e que ocorre principalmente em quadros dissociativos e traumatismos cranioencefálicos. • Amnésia (hipomnésia) retroanterógrada: também denominada mista ou de fixação e vocação, é a forma mais comum de amnésia. Aparece nos quadros demenciais e de delirium ou, ainda, após um traumatismo cranioencefálico. • Amnésia (hipomnésia) lacunar: também chamada de localizada, trata-se de falha de memória que abrange especificamente determinado espaçode tempo, com limites mais precisos, durante o qual há um prejuízo na capacidade de fixação. Ocorre posteriormente a um estado de coma ou delirium ou durante um período maníaco ou psicótico (devido à agitação psicomotora), uma crise de pânico ou um evento psicológico traumático. • Amnésia (hipomnésia) seletiva: perda de elementos mnêmicos com valor psicológico específico, que não afeta a capacidade de reter novas 16 aprendizagens. É observada em quadros dissociativos (como na amnésia psicogênica). • Hipermnésia anterógrada (de fixação): capacidade exagerada de armazenamento de novas informações. Geralmente está relacionada a uma habilidade específica, por exemplo, de memorizar uma grande quantidade de números ou nomes. Pode ocorrer em pessoas consideradas saudáveis, porém é mais frequente em indivíduos com déficit intelectual ou TEA. • Hipermnésia retrógrada: observada na síndrome maníaca, na qual ocorre um excesso de recordações num breve espaço de tempo, as lembranças são pouco claras e precisas e não há controle voluntário sobre elas. • Hipermnésia seletiva: comum na depressão, em que se relaciona a fatos dolorosos ou que despertem sentimento de culpa; na mania, quanto a sucessos e realizações pessoais; e nos quadros delirantes, quanto a fatos que pareçam confirmar um juízo patológico. 2.2.2 Alterações qualitativas da memória A paramnésia ou alucinação de memória corresponde a uma distorção no processo de evocação, quando a lembrança do indivíduo não corresponde à sensopercepção original, embora, para o paciente, ela seja verdadeira, podendo misturar presente e passado e envolver distorções ou inclusão de detalhes, significados ou emoções falsas. A fabulação (ou confabulação) seria um tipo especial de paramnésia. Na alomnésia, ou ilusão de memória, o paciente evoca lembranças verdadeiras ou reais adicionando alguns elementos falsos ao núcleo da imagem mnêmica, de forma involuntária. Ela aparece no delirium, na demência, nos transtornos amnésticos, nos estados crepusculares, na mania, na depressão, na esquizofrenia e no transtorno delirante, como expressão do conteúdo dos delírios. No déjà vu (já visto), o indivíduo interpreta uma situação nova como uma repetição de memória que lhe é anterior, como se ele já a houvesse vivenciado. No jamais vu (nunca visto), uma situação antiga é vívida como se fosse a primeira vez de sua incidência. Ambos os quadros podem ocorrer na esquizofrenia, em síndromes ansiosas e em pessoas sem alterações psicopatológicas. 17 Na criptomnésia, as lembranças voltam à mente do indivíduo, mas não são reconhecidas como tais, lhes parecendo fatos novos, de forma repetitiva e em curto espaço de tempo. 2.2.3 Avaliação da memória Durante a coleta de dados da anamnese do paciente, já é possível ter uma estimativa inicial sobre as suas capacidades mnemônicas, principalmente a sua memória de evocação, como ele organiza a cronologia dos fatos narrados, os detalhes de sua história e sua autonomia de vida diária. Quando necessário, solicitamos uma avaliação formal mais detalhada, por intermédio de testes neuropsicológicos padronizados como o teste de cópia de figura complexa de Rey e alguns subtestes da bateria Wechsler. Convém lembrar que fatores como ansiedade e sintomas depressivos podem alterar o desempenho real do indivíduo. TEMA 3 – A LINGUAGEM A linguagem é a principal forma de expressar um pensamento, formada principalmente de signos fonéticos e gráficos que mediam o pensamento e o mundo externo. Tem como objetivos, conforme Cheniaux Junior (2015, p. 91): “a comunicação social, a expressão de vivências internas, a organização da experiência sensorial e dos processos mentais, a tradução dos estímulos externos, indicação e descrição das coisas, transmissão de conhecimentos e regulação da conduta”. Linguagem e pensamento são instâncias diferentes, apesar de sua ligação direta, já que podem ocorrer alterações do pensamento sem alterações da fala e vice-versa. Veremos que o estudo da linguagem tem como objeto as palavras e o do pensamento se refere às ideias. 3.1 Alterações quantitativas da linguagem Consistem em alterações quantitativas da linguagem: • Afasia e disfasia: a primeira se refere à perda, e a segunda a um prejuízo de linguagem. As afasias são distúrbios adquiridos da capacidade linguística – na compreensão ou na expressão – que ocorrem na ausência de déficit auditivo ou fonoaudiológico. De acordo com Cheniaux Junior 18 (2015), “[...] estão relacionadas a lesões no córtex cerebral causadas principalmente por doenças vasculares, tumores e processos degenerativos, como a demência de Alzheimer”. As afasias podem ser classificadas como: motora (expressiva ou de broca), sensorial (receptiva ou de Wernicke), de condução, global, transcortical e anômica (semântica, amnéstica). • Agrafia: caracteriza-se pela incapacidade isolada para escrever. Pode também estar associada às afasias. • Alexia: perda da habilidade para a leitura. Pode ocorrer isoladamente ou associada às afasias e às agrafias. • Aprosódia (hipoprosódia): diminuição da modulação da fala, que se apresenta como monótona, com poucas modulações, além de com dificuldade em compreender a prosódia da fala das outras pessoas. • Mutismo: silêncio voluntário ou inibição psíquica para falar. • Oligolalia: expressão verbal diminuída, mas não abolida. • Hiperprosódia: acentuação da modulação, frequente nas síndromes maníacas, que pode se apresentar com aumento da loquacidade. • Logorreia (ou verborragia): refere-se a um comprometimento da fala, devido ao aumento de sua velocidade, sendo difícil interrompê-la. Ela é observada tipicamente nos estados maníacos. A latência da resposta refere-se ao tempo que o paciente demora para responder às perguntas do examinador: o aumento pode expressar uma inibição psíquica, como na depressão; já a diminuição pode estar relacionada a uma síndrome maníaca ou à ansiedade. Vale citar que, em relação ao volume de voz, temos, ainda, a hiper e a hipofonia. 3.3 Alterações qualitativas da linguagem A ecolalia consiste na repetição, via fala, da última ou das últimas palavras que o indivíduo ouviu, dirigida(s) ou não a ele, e é algo totalmente involuntário. Ocorre nas síndromes catatônicas, no TEA e em quadros psico-orgânicos. Na palilalia o paciente repete seu próprio discurso. Ela ocorre principalmente nas demências (como na demência de Alzheimer). A estereotipia verbal é a repetição involuntária, inadequada e sem sentido comunicativo de palavras ou frases, que 19 o paciente faz com base no que ouviu. Ocorre na esquizofrenia, no TEA, nas demências, no déficit intelectual e em algumas encefalites. A mussitação (murmúrio repetitivo em tom baixo e com pouco movimento labial), os neologismos (uso de palavras novas ou já conhecidas a que o paciente atribui outro significado) e a jargonofasia (ou salada de palavras) ocorrem principalmente na esquizofrenia. O ato de falar sozinho é denominado solilóquio e é sugestivo de alucinação auditiva, mas pode ocorrer também em pessoas consideradas saudáveis. Por último, a coprolalia é caracterizada pela presença de palavras obscenas de maneira repetitiva e involuntária. Quando se constitui num tique verbal, é uma manifestação típica da síndrome de Tourette, manifestando-se de forma involuntária. 3.4 O exame da linguagem A linguagem expressiva é definida como a capacidade de se expressar, através da linguagem falada ou escrita ou de forma não verbal. Essas habilidades são avaliadas de modo informal durante toda a entrevista com o paciente. Todavia, alguns testes podem ser necessários, como os encontrados no miniexame do estado mental (Folstein; Folstein; McHugh, 1975), os quais ajudam a avaliar a capacidade de compreensão de nomeação e de repetição de um indivíduo, principalmente em suspeitasde declínio cognitivo. TEMA 4 – O PENSAMENTO E SUAS ALTERAÇÕES O pensar está relacionado à antecipação de acontecimentos, à construção de modelos de realidade e à simulação do seu funcionamento. As atividades fundamentais do pensamento são: a elaboração de conceitos, a formação de juízos e o raciocínio. Um conceito identifica os atributos ou qualidades mais gerais e essenciais de um objeto ou fenômeno e é expresso por uma palavra. Está relacionado à abstração e à generalização. Por exemplo: céu e azul são conceitos. Na sequência, o juízo estabelece uma relação entre dois ou mais conceitos e isso consiste no ato de afirmar ou negar algum atributo ou qualidade a um objeto ou fenômeno. O raciocínio é composto por um sujeito, um verbo de ligação e um predicado. O pensamento se estrutura por meio de: curso, forma e conteúdo, que constituem a chamada arquitetura do pensamento. O curso refere-se à 20 velocidade e ao ritmo do pensamento, à quantidade de ideias ao longo do tempo. A forma, por sua vez, está relacionada à relação entre as ideias. Já o conteúdo diz respeito à temática do pensamento, às qualidades ou características das ideias. 4.1 Alterações quantitativas do pensamento Na aceleração do curso do pensamento (ou taquipsiquismo), ocorre um aumento importante na velocidade do processo associativo envolvido no pensamento, e múltiplas ideias aparecem uma atrás da outra. Ela ocorre nas síndromes maníacas graves, na intoxicação por estimulantes/alucinógenos e em quadros ansiosos graves. Por outro lado, na lentificação do curso do pensamento (ou bradipsiquismo), o paciente apresenta um pensamento com progressão lenta, há uma redução no seu número de ideias, uma inibição do processo associativo, sem comprometimento dos conceitos e juízos, que surgem de modo mais moroso. Essa alteração é tipicamente observada na depressão grave, ocorrendo também nas demências e no quadro de abuso de determinadas substâncias depressoras do sistema nervoso central. A interceptação do curso (ou bloqueio do pensamento) é considerada uma alteração quase que exclusiva da esquizofrenia e incide abruptamente e sem motivo, podendo ou não o curso do pensamento se completar ou se iniciar um outro. A vivência do paciente é a de que o fluxo do seu pensamento se rompeu, resultando num branco em sua mente. Tal experiência é muitas vezes atribuída pelo paciente a um roubo do seu pensamento. 4.2 Alterações qualitativas do pensamento Consistem em alterações qualitativas do pensamento: • Fuga de ideias: variação rápida e incessante de temas, podendo ocorrer um afastamento da ideia central, mas sem confusão mental – a velocidade do pensamento está tão aumentada que produz um “atropelamento” das ideias. Pode-se identificar na síndrome maníaca grave e na intoxicação por estimulantes e álcool. • Desagregação do pensamento: pensamento desarticulado, com ideias fragmentadas, incoerentes, difíceis de serem compreendidas ou mesmo 21 irracionais. Manifesta-se na esquizofrenia, no delirium, na demência em estágio avançado e na síndrome maníaca. • Prolixidade: incapacidade de síntese, raciocínio difícil e sem conclusão do tema – o paciente detalha uma série de pormenores desnecessários, sendo extenso e cansativo. Alguns autores preferem utilizar os termos circunstancialidade e tangencialidade. • Perseveração: recorrência excessiva e inadequada de um mesmo tema, com fixação em uma única ideia e um déficit nas associações de ideias, ocorrendo na demência, no déficit intelectual, no delirium, na epilepsia e na esquizofrenia. • Ideias obsessivas (ou obsessões): são reconhecidas pelo próprio paciente como absurdas, são repetitivas e persistentes (veremos com mais detalhes em outra aula). • Pensamento concreto (ou pensamento empobrecido): discurso pobre em conceitos abstratos, impossibilitando o uso do campo simbólico, com estrutura rudimentar e dificuldade para se utilizar metáforas. Em sua incidência, há uma intensa adesão do indivíduo ao nível sensorial e imediato das suas vivências, com generalizações equivocadas e, além disso, uma inflexibilidade ou dificuldade diante de regras. Ocorre na demência, no déficit intelectual e na esquizofrenia. 4.3 O exame do pensamento A fala do paciente é a única forma de acessar o seu pensamento, não sendo possível, portanto, avaliar o pensamento de um paciente em estado de mutismo. Para se examinar a forma do pensamento, observamos o paciente falar livremente durante algum tempo, evitando interrompê-lo; se o seu pensamento se expressa em um discurso lógico ou ilógico; e também a velocidade com a qual o paciente interage. As ideias delirantes ou delírios são alterações do conteúdo do pensamento e, devido à grande importância do tema, o abordaremos mais detalhadamente a seguir. TEMA 5 – ALTERAÇÃO DO CONTEÚDO DO PENSAMENTO: O DELÍRIO Os delírios consistem em alterações patológicas do juízo que possuem as seguintes características: irredutibilidade, irremovibilidade e conteúdo 22 impossível. Por meio do juízo crítico da realidade, discernimos o que é real do que é fruto de nossa imaginação. Dependendo do contexto e das características do paciente, a intensidade do delírio pode flutuar e o paciente pode até mesmo ter dúvidas ou questionar a sua veracidade. Os delírios que classificamos como bizarros são geralmente impossíveis (por exemplo, o paciente ter a sensação de que um extraterrestre implantou um chip dentro de sua cabeça). Já os delírios não bizarros envolvem temas plausíveis porém improváveis de acontecerem (como o paciente achar que está sendo perseguido por um carro preto que para todo dia na frente de sua casa). A vivência do delírio é muito particular a cada indivíduo e difere das crenças culturalmente compartilhadas, como os dogmas religiosos. Além disso, é, de certa forma, autorreferente, pois o conteúdo do pensamento está em maior ou menor grau relacionado ao paciente e se transforma no eixo em torno do qual passa a girar a vida do indivíduo. Em função de sua convicção irredutível, o paciente delirante não sente a necessidade de comprovar objetivamente a veracidade de seu pensamento e seu juízo crítico, nem de convencer os outros de que está certo. O delírio primário costuma ser incompreensível, por ser algo novo, duradouro e irreversível, sem nenhuma raiz anterior. É um dos sintomas cardinais da esquizofrenia, mas também encontrado em outros transtornos do espectro psicótico. A percepção delirante consiste na atribuição de um significado novo ou na percepção anormal de um objeto real e ocorre simultaneamente ao ato perceptivo. Já a ideia deliroide (ou delírio secundário) é uma ideia semelhante ao delírio, em relação ao juízo da realidade alterado, porém é mais compreensível ao interlocutor, já que se origina de outras manifestações emocionais, como alterações do humor, da sensopercepção e da consciência, e seriam mais supostamente corrigíveis do que as ideias delirantes. Exemplos: na depressão, o humor deprimido é o evento primário, por ser incompreensível, e daí podem surgir os conteúdos das ideias deliroides depressivas, como as ideias de culpa; na mania, as ideias de grandeza decorrentes de um humor eufórico. Por fim, a ideia sobrevalorada é uma ideia distorcida, afetada por uma superestimação afetiva. Decorre do fato de a ideia estar relacionada a uma carga afetiva muito intensa, que influencia o julgamento da realidade pelo paciente, tornando-o pouco racional. A convicção é muito menor do que no delírio, é mais influenciável, podendo a ideia sobrevalorada 23 ocorrer inclusive em pessoas consideradas saudáveis. Incide, por exemplo, na hipocondria, no transtorno dismórfico corporal, na anorexia nervosa. FINALIZANDO Daremos continuidade ao estudo das funções psíquicas na próxima aula. Até aqui, é notável ter em mente noções de neuroanatomiae de neurofisiologia que você já estudou em aulas anteriores. 24 REFERÊNCIAS CHENIAUX JUNIOR, E. Manual de psicopatologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015. FOLSTEIN, M. F.; FOLSTEIN, S. E.; McHUGH, P. R. Mini-mental state: a practical method for grading the cognitive state of patients for the clinician. Journal of Psychiatric Research, v. 12, n. 3, p. 189-198, nov. 1975. HOBSON, J. A. Dreaming: an introduction to the science of sleep. Nova York: Oxford University, 2002. JASPERS, K. A abordagem fenomenológica em psicopatologia. Revista Latino- Americana de Psicopatologia Fundamental, v. 8, n. 4, p. 769-787, 2005.