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PSICOPATOLOGIA 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Maria Cecília Beltrame Carneiro 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
O exame do estado mental 
Apesar de estudarmos as funções psíquicas e suas alterações de forma 
separada, é preciso lembrar que esse procedimento é artificial. É útil, pois 
podemos aprofundar cada função; porém, devemos ter em mente que cada uma 
delas não são fenômenos psíquicos isolados. Assim, logo veremos como eles 
se inter-relacionam. Essa categorização de funções e seus termos técnicos 
facilitam por uso de uma linguagem universal na área de saúde mental. Mas, 
obviamente, é sempre a pessoa, na sua totalidade, que adoece e que será 
examinada. 
Quando falamos de transtornos mentais, esses não se tratam apenas de 
agrupamentos de sintomas que coexistem entre si mas que também são 
conectados estruturalmente. A psicopatologia, sendo centrada na pessoa, se 
desenvolve com base em determinadas síndromes psiquiátricas, as quais 
detalharemos em outras aulas. Na prática, com o paciente à nossa frente, 
avaliamos seu estado mental atual e nos dias anteriores à consulta (geralmente 
na última semana ou último mês, dependendo do caso). 
Nesta aula, daremos início ao estudo das funções mentais. Devido a ser 
esse um assunto extenso e central do curso, continuaremos tratando-o na aula 
seguinte. Além da definição de cada função, vamos expor como identificar 
alterações em cada uma delas e como correlacioná-las com quadros 
psiquiátricos, lembrando que apenas uma única função mental alterada 
provavelmente não configurará um transtorno mental (obviamente, em pacientes 
sintomáticos e não nos que já estão estabilizados). O exame do estado mental 
é parte fundamental da avaliação psicológica e bastante extenso; portanto, 
daremos ênfase aos dados mais importantes e às sugestões para seu 
aprofundamento. 
TEMA 1 – APARÊNCIA, ATITUDE, CONSCIÊNCIA, ATENÇÃO E ORIENTAÇÃO 
Algumas das funções apresentadas neste tema farão parte de um assunto 
pouco explorado nos livros de psicopatologia, de forma geral: a comunicação 
não verbal (CNV), de que trataremos em aula posterior. 
 
 
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1.1 Aparência 
Pouco foi escrito sobre a aparência física do paciente, na literatura sobre 
psicopatologia. De forma geral, quando um profissional da saúde mental 
examina um paciente, ele pode observar literalmente o que está aparente, ou 
seja, o aspecto global do paciente, expresso pelo seu corpo e sua postura 
corporal, seus trajes (roupas, sapatos etc.), acessórios (colares, brincos, 
piercings etc.), por detalhes como uso de maquiagem, perfumes, odores e 
marcas corporais (tatuagens, cortes etc.), cuidados higiênicos e estéticos 
relativos ao corpo (incluindo cabelos, barba, unhas, dentes). A aparência do 
paciente pode revelar muito de seu estado mental interior, sendo um recurso 
importante para auxiliar no diagnóstico e para conhecer o indivíduo como 
pessoa. É importante ressaltar que esse tópico não se refere, de modo nenhum, 
a julgamento de valores ou preferências estéticas. 
Mas, afinal, como descrevemos alterações na aparência do paciente? Ele 
pode se apresentar de modo cuidado; ou descuidado – com a higiene corporal 
comprometida, roupas sujas, rasgadas ou desalinhadas; mau cheiro; cabelos 
despenteados ou malcuidados; dentes estragados, ausentes; unhas sujas e/ou 
compridas. A aparência do paciente também podemos classificá-la como: 
adequada, bizarra (extravagante ou excêntrica), exibicionista, inadequada para 
o clima (por exemplo, pacientes esquizofrênicos podem trajar roupas de inverno 
durante o verão e vice-versa e pacientes autistas com alterações sensoriais 
táteis podem usar apenas determinados tipos de tecido ou peças de roupa). 
Adolescentes do sexo feminino e adultas jovens que apresentem quadro de 
automutilação podem, muitas vezes, vestir apenas roupas de mangas compridas 
para esconder as lesões, e as pacientes com possível quadro de anorexia 
nervosa, roupas mais largas, para mascararem a magreza excessiva. Já a 
aparência exibicionista caracteriza-se pela excessiva exposição do corpo, sendo 
observada em pacientes com aumento da libido; e, ainda, por maquiagem 
exagerada, que destoa do basal do indivíduo ou da ocasião, frequentemente 
visto em pacientes com mania ou hipomania. 
1.2 Atitude 
Vamos restringir o emprego do termo atitude ao comportamento 
especificamente relacionado ao examinador e à entrevista. O profissional não 
 
 
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deve provocar, ativamente, nenhuma atitude no paciente – esta deve ser 
espontânea, e podemos analisá-la desde antes de o paciente entrar na sala de 
consulta. Não existem muitos termos técnicos para descrever esse quesito e 
muitos extrapolam o seu uso corriqueiro. Algumas atitudes, por parte dos 
pacientes, são consideradas desejáveis, pois contribuem positivamente para a 
realização da avaliação psíquica, tais como: atitudes cooperantes, amistosas, 
confiantes, interessadas, abordáveis. Essas atitudes mostram que o paciente 
apresenta uma plena consciência de sua morbidade. 
Algumas das atitudes observadas em pacientes com transtorno mental – 
lembrando que, durante toda essa nossa imersão no tema, propomos um roteiro 
mínimo para posterior estudo aprofundado – são: não cooperação, oposição ao 
que a eles se apresenta como recomendação, hostilidade, fuga, suspicácia 
(ligada a quadros delirantes), querelância (o paciente discute e briga com o seu 
examinador), reivindicação (o paciente quer ser atendido na hora que bem 
entender), arrogância, evasão, invasão, esquiva, inibição ou desinibição 
excessivas, jocosidade, ironia, muito lamurio, dramaticidade ou teatralidade, 
sedução, puerilidade, simulação ou dissimulação (o paciente tenta ocultar ou 
forjar um sintoma ou doença, com objetivos secundários), indiferença, 
manipulação, submissão e expansividade. 
1.3 Consciência 
A palavra consciência vem do latim cum scientia e significa, literalmente, 
uma ciência acompanhada de outra ciência. Para consciência existem várias 
definições, a depender do campo do estudo. Por ora, citaremos três delas. A 
consciência neuropsicológica seria o estado de estar acordado, vígil, lúcido, o 
que é categorizado em níveis de consciência. Já a definição psicológica 
conceitua o campo da consciência como a soma das experiências conscientes 
de um indivíduo em determinado momento de sua vida (Jaspers, 2005). Na 
relação do eu com o meio à sua volta, a consciência seria a capacidade do 
indivíduo de entrar em contato com a realidade, perceber e conhecer os seus 
objetos, distinguir o eu do não eu, ter consciência de que tem consciência e, 
assim, poder refletir sobre os seus conteúdos psíquicos – trata-se, enfim, do dar-
se conta de si, do mundo externo e de suas vivências subjetivas. A terceira 
definição seria a ético-filosófica, utilizada não só no campo da ética e da filosofia 
como também no do direito. Ela se relaciona a tomar ciência dos deveres éticos 
 
 
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e assumir as responsabilidades, os direitos e os deveres concernentes a essa 
ética. Neste curso, enfocaremos a consciência do ponto de vista neurofisiológico. 
1.3.1 A consciência neurofisiológica 
A consciência dita neurológica pode ser traduzida como um nível geral de 
atividade do sistema nervoso, com variações quantitativas, regulada por 
sistemas moduladores difusos que, por sua vez, são formados por conjuntos de 
neurônios com diferentes neurotransmissores. O estado da consciência 
neurológica é regulado pelo sistema ativador reticular ascendente (Sara) e pelo 
relógio biológico hipotalâmico, que regula o sono mediante modulações da luz 
do dia e produção de melatonina pela glândula pineal. O Sara tem como principal 
função a ativação do córtex cerebral, regulando os estados de alerta e de sono. 
Drogas que deprimem a atividade neuronal do Sara, como os sedativos, 
provocam sonolência; outras, como a anfetamina, que a estimulam, têm efeito 
excitatório.Lesões ou disfunções no Sara causam rebaixamento da consciência 
ou prejuízo cognitivo. 
Vigilância é a capacidade neurofisiológica que serve de suporte a 
qualquer atividade adaptativa. Significa que o indivíduo está vígil, desperto, 
alerta, com o seu nível sensorial funcionando de modo claro. Para melhor 
entendimento, é de suma importância que você se aprofunde no tema ciclo sono-
vigília e ritmos de vida, que compõe as variações normais de níveis de 
consciência. A lucidez constitui um estado de consciência evidente ou de 
vigilância plena. Quando o indivíduo está lúcido, os seus processos psíquicos 
são experimentados com suficiente intensidade, os seus estímulos são 
apreendidos e os seus conteúdos mentais possuem nitidez e são bem 
delimitados. O nível de consciência pode ser modulado tanto por estímulos 
externos como por estímulos internos (como pensamentos, emoções e 
recordações). Uma das principais propriedades dessa modulação dos níveis de 
consciência é facilitar a interação da pessoa com o ambiente de forma adequada 
ao contexto no qual o sujeito se encontra (p. ex., em situações de ameaça, 
alguns estímulos podem ser ignorados e, ao mesmo tempo, a sensibilidade para 
outros, mais relevantes, pode estar aumentada, expressando o chamado estado 
de alerta). Por fim, o campo (ou amplitude) da consciência refere-se à quantidade 
de conteúdos que a consciência abarca em determinado momento e representa 
a dimensão horizontal da consciência. 
 
 
6 
1.3.1.1 Alterações quantitativas da consciência 
As alterações quantitativas da consciência/vigilância referem-se à 
intensidade da clareza das vivências psíquicas. No seu estado de normalidade, 
o indivíduo está constantemente apresentando oscilações na intensidade de sua 
consciência, em geral pequenas. Há certa diminuição no nível de consciência 
quando o indivíduo, por exemplo, está cansado, sonolento, relaxado ou em 
repouso e quando os estímulos sensoriais externos e internos e os afetos são 
pouco intensos. O nível de consciência varia ao longo de um continuum que 
inclui desde o estado total de alerta até os estados de sono (variação normal) ou 
coma (variação patológica mais grave). Algumas alterações patológicas 
quantitativas, nesse espectro, incluem: torpor, estado confusional, confusão 
mental, estado oniroide, estado confuso-onírico, obnubilação (diminuição branda 
da atenção e da sensopercepção) e estupor. Esse espectro traduz as variações 
do rebaixamento do nível de consciência, um comprometimento difuso e 
generalizado do funcionamento cerebral que sempre possui uma etiologia 
orgânica. Alguns autores também descrevem a elevação do nível de consciência 
ou hipervigilância: esse fenômeno ocorre na intoxicação por alucinógenos ou por 
anfetamina, na mania, no início da esquizofrenia, situações em que há um 
aumento de intensidade das percepções, do afeto, da atividade, da memória de 
evocação e da atenção espontânea, porém com prejuízo na concentração, no 
raciocínio e na memória de fixação. 
1.3.1.2 Alterações qualitativas da consciência 
Dentre as variações fisiológicas da consciência, o sonho é a mais 
frequente e definida como uma vivência subjetiva durante o sono. Caracteriza-
se pelo predomínio de imagens visuais (podendo haver sensações motoras, 
auditivas etc.), conteúdos bizarros, falsa crença de que se está acordado, 
diminuição da capacidade de reflexão; mudanças súbitas quanto a tempo, lugar 
e pessoas; dificuldade de se lembrar de seu conteúdo após ter despertado 
(Hobson, 2002). 
No âmbito das alterações patológicas da consciência, temos o 
estreitamento do campo da consciência, que é a característica que define os 
estados crepusculares e que ocorre na epilepsia parcial complexa, na 
intoxicação alcoólica, nos estados dissociativos, no estresse pós-traumático, no 
 
 
7 
sonambulismo e nas crises de terror noturno na infância. Seu curso é breve, de 
início súbito: o paciente apresenta-se um pouco confuso, perplexo, demonstra 
afeto indiferente e tem amnésia anterógrada. Tanto o sonambulismo como o 
terror noturno, que são classificados como parassonias, têm curso benigno. 
O quadro de delirium é definido como uma disfunção transitória no 
metabolismo cerebral – atenção: não confundir com delírio! Tal alteração do 
conteúdo do pensamento será vista mais adiante. O delirium tem início agudo ou 
subagudo e, geralmente, origem orgânica (muitas vezes ligada a quadros 
infecciosos, medicamentosos, de insuficiência renal ou hepática, de tumores 
cerebrais) ou relativa a quadros de abstinência de substâncias (o mais comum é 
o delirium tremens, pela abstinência de álcool, do qual falaremos em outra aula). 
Umas das suas principais características são a flutuação do nível de consciência 
e a desorientação do indivíduo no tempo e no espaço. 
Por último, temos os fenômenos de despersonalização e desrealização, 
caracterizados pela vivência de uma sensação de estranheza para consigo 
mesmo e o mundo ao redor. Pacientes costumam descrevê-los como: percepção 
de forte pressão na cabeça, sensação de sair do corpo, de ver o ambiente de 
fora, como numa desconexão emocional. O indivíduo consegue fazer a crítica da 
sua irracionalidade e tem medo de perder o controle. Por mais peculiar que 
pareçam, esses fenômenos são comuns em transtornos ansiosos, dadas as 
consequentes preocupações e angústias inerentes ao quadro. 
1.4 Atenção 
Segundo definição de Cheniaux Junior (2015, p. 52), 
A atenção é o processo pelo qual a consciência é direcionada para 
determinado estímulo (de origem externa ou interna) sensorial, afetivo 
ou cognitivo. O que é selecionado pela atividade da atenção adquire 
maior clareza e nitidez. Se não tivéssemos esta capacidade de 
selecionar o estímulo, a quantidade de informações externas e internas 
que chegaria à nossa mente seria tão grande que inviabilizaria 
qualquer atividade psíquica. A volição e o afeto/humor também podem 
interferir diretamente na atenção. 
Além disso, a atenção influencia a sensopercepção, a memória (tanto de 
fixação de novos registros como de evocação de antigos) e a orientação do 
indivíduo. 
 
 
 
8 
1.4.1 Principais funções da atenção 
Também classificamos a atenção como voluntária, ou seja, traduzida por 
um esforço intencional e consciente, por parte do indivíduo, concentrado em um 
objeto; ou espontânea, associada à vigilância e definida como uma reação 
automática, não consciente e não intencional do indivíduo aos estímulos. Por 
exemplo, despertam mais a nossa atenção os estímulos mais intensos, 
repentinos e inesperados. 
Avaliamos também a tenacidade e a mobilidade da atenção. A primeira é 
definida como a capacidade de um indivíduo de manter a atenção (ou a 
concentração) em determinado objeto, por certo tempo. Já a segunda seria a 
capacidade de direcionarmos a atenção de um objeto para outro. As duas são 
qualidades opostas: se uma aumenta, a outra tende a diminuir de intensidade. 
1.4.2 Alterações quantitativas da atenção 
Classificamos as alterações quantitativas da atenção somente em 
hipoprosexia e aprosexia. A primeira corresponde a uma diminuição global da 
atividade da atenção, a qual afeta a tenacidade e a mobilidade do indivíduo. 
Nesse quadro, há uma rápida fatigabilidade, associada ao esforço para se 
concentrar, e o paciente necessita de estímulos mais intensos para manter a sua 
atenção em algo. Pode ocorrer nos estados de fadiga, tédio e sonolência e em 
decorrência da apatia ou da falta de interesse, como na esquizofrenia, na 
depressão e na demência, e pode ser secundária a um rebaixamento da 
consciência (como em quadros de delirium) e a um déficit intelectual. Já a 
aprosexia consiste na abolição da atenção: nos limites da normalidade, ocorre 
durante o sono sem sonhos; e é também observada no coma, na demência em 
fase terminal e em alguns casos de estupor. 
1.4.3 Alterações qualitativas da atenção 
No caso das alterações qualitativasda atenção, a mobilidade e a 
tenacidade estão em condições opostas. Por exemplo, a rigidez da atenção 
constitui um estado de hipertenacidade/hipomobilidade: por um período longo, o 
indivíduo está concentrado em um único objeto e não é capaz de alterar sua 
atenção para outro foco. Nessas características, podemos observar um 
ensimesmamento do indivíduo, quando a sua atenção está dirigida, 
 
 
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exclusivamente, a um objeto interno (mais comum na esquizofrenia); e pode 
ocorrer no indivíduo sem patologia psiquiátrica (por exemplo, uma pessoa está 
lendo um livro que considera muito interessante e não registra nada do que 
ocorre ao seu redor, com sua atenção voltada exclusivamente para essa vivência 
interna). Nas grandes síndromes, é possível observar tal situação: na depressão, 
em relação a pensamentos e recordações dolorosas; no transtorno obsessivo-
compulsivo, em relação às ideias recorrentes; na hipocondria, em relação às 
sensações corporais. Muitos autores denominam essa alteração de distração. 
Já a labilidade da atenção constitui-se de uma hipotenacidade da atenção 
com uma hipermobilidade, estado em que o paciente não mantém a sua atenção 
a um determinado objeto por muito tempo (Cheniaux Junior, 2015, p. 54). Ocorre 
na mania, na intoxicação por certas substâncias, nas síndromes ansiosas, no 
transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, nos quadros de delirium com 
sintomas psicóticos e nos transtornos cognitivos. 
No exame do seu estado mental, a expressão fisionômica do paciente já 
fornece elementos para a avaliação do seu estado de atenção. Devemos 
observar também a adequação e a velocidade das suas respostas às perguntas 
formuladas, bem como o seu grau de distraibilidade e fatigabilidade durante a 
entrevista. O contato visual do paciente nos fornece informações relacionadas à 
sua atenção: se o seu olhar se mantém direcionado ao examinador ou se é 
constantemente desviado, ou se parece perdido e transpassa o examinador, ou 
seja, o paciente o olha mas dá a impressão de não o estar vendo. 
1.5 Orientação 
A orientação é uma função mental complexa, com a qual o indivíduo é 
capaz de situar-se no tempo, no espaço, em relação a si e ao mundo. É 
interligada com a consciência, a atenção, a memória, a sensopercepção, o afeto 
e o tônus do humor, com cujos aspectos definimos se o paciente está orientado 
alopsiquicamente (no tempo e no espaço) e autopsiquicamente (em relação a si 
e ao ambiente). 
1.5.1 Alterações da orientação 
Registram-se as seguintes possibilidades de alteração da orientação de 
um paciente: 
 
 
10 
• Desorientação de causa orgânica: geralmente alopsíquica, compromete 
o funcionamento cerebral do indivíduo, como nos casos de deficiência 
intelectual, estados confusionais (abuso de drogas, traumatismos 
cranianos, delirium tremens etc.), amnésicos, lacunares (quando o 
paciente não sabe o que aconteceu nem o que está acontecendo em um 
espaço de tempo, comum em quadros pós-concussão), demenciais 
(declínio cognitivo global). 
• Desorientação por alterações da volição e do afeto: em quadros 
dissociativos (fugas, amnésias, transes, em geral aqueles dois podem 
estar alterados), apáticos (depressões graves – o paciente se apresenta 
consciente mas pouco responsivo a estímulos externos, pela falta de 
energia para processar percepções e raciocínios), maníacos (pelo seu 
humor exaltado, agitado, o paciente se perde na fluência do tempo) e 
psicóticos (geralmente com alteração autopsíquica, em função do quadro 
delirante e/ou alucinatório). 
TEMA 2 – SENSOPERCEPÇÃO E MEMÓRIA 
2.1 Sensopercepção 
A sensopercepção pode ser definida como a capacidade do indivíduo de 
apreender, em sua consciência, os objetos reais do mundo externo ou até do 
seu próprio mundo interior. Essa função faz a captação intuitiva (proporcionada 
pelos órgãos sensoriais) e a integração significativa (proporcionada pela 
consciência reflexiva) das informações absorvidas pelo indivíduo. 
Desmembrando, de forma artificial, os processos ligados a essa função mental, 
temos a sensação – “fenômeno passivo, físico, periférico e objetivo que resulta 
das alterações produzidas por estímulos externos sobre os órgãos sensoriais” 
(Cheniaux Junior, 2015, p. 59), por meio do qual podemos identificar cor, forma, 
peso, temperatura etc. de um objeto; e, por sua vez, a percepção, relacionada à 
discriminação dos objetos, dando significação às sensações. Classificamos as 
qualidades sensoriais em: exteroceptivas – visuais, auditivas, gustativas, 
olfativas, cutâneas; interoceptivas – bem-estar, mal-estar, fome, sede, 
sensibilidade visceral; proprioceptivas – cinestésicas, posição segmentar do 
corpo, equilíbrio, barestesia, palestesia, imagem perceptiva e imagem 
representativa. 
 
 
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2.1.1 Alterações quantitativas da sensopercepção 
Consistem em alterações quantitativas da sensopercepção: 
• Agnosia: distúrbio do reconhecimento de estímulos visuais, auditivos ou 
táteis, na ausência de déficits sensoriais. As sensações do indivíduo 
continuam a ocorrer normalmente, porém não são associadas às suas 
representações. O paciente é capaz de descrever a cor e a forma de um 
objeto, mas não o identifica: ele não consegue reconhecer, por exemplo, 
um guarda-chuva, nem dizer para que ele serve. Essa alteração está 
relacionada a lesões cerebrais corticais. 
• Hiperestesia: aumento global da capacidade sensitiva, ou seja, as 
impressões sensoriais do indivíduo tornam-se mais intensas, mais vívidas 
ou mais nítidas. É observada na mania, na intoxicação por anfetamina, 
cocaína, maconha e alucinógenos. Pode se manifestar também como 
uma hipersensibilidade a estímulos sensoriais comuns que se tornam 
extremamente desagradáveis, por exemplo, diante de leves ruídos. 
Costuma ser observada na depressão, em estados de ansiedade e no 
transtorno do espectro autista (TEA), de forma mais intensa. 
• Hipoestesia: diminuição da capacidade sensitiva – o mundo fica sem cor, 
o paladar do indivíduo não sente o gosto dos alimentos e até a sua 
sensação de dor pode se mostrar rebaixada. Observa-se, principalmente, 
em quadros de depressão, esquizofrenia, demências, delirium e 
transtornos conversivos. 
• Anestesia: perda da sensibilidade, encontrada nas mesmas situações que 
a hipoestesia. 
Existem também alterações de sensopercepção relacionadas ao tamanho 
de um objeto: macropsia, micropsia e dismegalopsia. 
2.1.2 Alterações quantitativas da sensopercepção 
As principais alterações, de ordem quantitativa, da sensopercepção são: 
a ilusão, que se trata da percepção falsa de um objeto real e presente, que pode 
ocorrer não só em pessoas com transtornos mentais, mas também em pessoas 
consideradas saudáveis, de que as ilusões visuais são as mais frequentes; a 
pareidolia, que consiste numa imagem criada intencionalmente com base em 
 
 
12 
percepções e que não é patológica, por exemplo ver figuras humanas, animais, 
objetos em nuvens; as alucinoses, em que há uma percepção clara e definida do 
objeto, porém o paciente tem crítica de que a sua sensopercepção é algo 
patológico (diferentemente das alucinações verdadeiras) – são também 
chamadas alucinações neurológicas, já que estão relacionadas a distúrbios de 
origem orgânica, comuns em transtornos orgânicos cerebrais, na intoxicação por 
alucinógenos e no fenômeno do membro fantasma, em amputados. 
Nesse grupo de alterações, há ainda aquela que deve ser mais bem 
estudada: a alucinação, ou seja, a percepção clara, definida e convicta de um 
objeto inexistente, vivenciada como própria do mundo do sujeito. As alucinações 
não se originam de transformações de percepções reais, o que as distinguem 
das ilusões. Conforme o receptor sensorial envolvido, podem ser: auditivas, 
visuais, olfativas, gustativas ou táteis. Podem levar, secundariamente, ao 
desenvolvimento de ideias deliroides, criadas como uma explicação para 
aquelas. As alucinaçõesverdadeiras possuem uma força irresistível de 
convencimento e são aceitas pelo juízo de realidade, por mais que pareçam, 
para o próprio paciente, estranhas ou especiais. Pseudoalucinações são 
imagens representativas involuntárias, fugazes, sem intensidade e pouco 
nítidas, geralmente visuais e auditivas. Os pacientes as percebem com os seus 
olhos (ou ouvidos) internos, com o termo internos referindo-se a algo que se 
opera dentro da mente (e não dentro do corpo ou da cabeça). As alucinações 
manifestam-se na esquizofrenia, em transtornos de humor, situações de abuso 
de substâncias e episódios de estresse e fadiga. Sua manifestação também se 
refere a alucinações factícias em simuladores ou a alucinações em que há crítica 
por parte do paciente (p. ex., em pacientes que têm a sensação de que alguém 
os chama pelo nome). 
As alucinações visuais podem ser simples ou complexas e têm 
geralmente etiologia orgânica, como em quadros de delirium e na intoxicação 
por alucinógenos, sendo mais raras em síndromes psicóticas (como 
esquizofrenia). As alucinações auditivas são as mais comuns e podem ser 
nítidas ou ininteligíveis para o paciente. Descrevemo-las como alucinações 
auditivas de comando quando o paciente relata ouvir vozes imperativas e 
persecutórias, comuns em síndromes psicóticas. Alucinações olfativas e 
gustativas são raras e, em geral, estão associadas entre si, podendo ocorrer na 
esquizofrenia (quando o paciente se recusa a comer por achar que alguém 
 
 
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envenenou sua comida). Entre as alucinações táteis estão incluídas as cutâneas, 
as térmicas, as dolorosas e as hídricas. 
Nas alucinações cenestésicas, as sensações dos indivíduos são 
localizadas nos seus órgãos internos. Também existem as alucinações que 
ocorrem nas transições vigília-sono e sono-vigília, conhecidas respectivamente 
como alucinação hipnagógica e alucinação hipnopômpica, que costumam ser 
visuais, mas também podem ser auditivas ou táteis, ocorrendo em pessoas 
consideradas saudáveis e naquelas com narcolepsia. E, por último, as 
alucinações sinestésicas compreendem estímulos sensoriais, em um órgão dos 
sentidos, que são percebidos como oriundos de outro sentido, por exemplo: ver 
sons, ouvir cores etc., mais comuns na intoxicação por alucinógenos. 
2.1.3 Avaliação da sensopercepção 
Alguns sinais, durante a entrevista com o paciente, podem fazer-nos 
suspeitar que, naquele momento, ele apresente atividades alucinatórias: atenção 
prejudicada (quando o paciente parece estar prestando atenção em outra coisa 
que não nas perguntas do entrevistador); mudanças súbitas da posição da 
cabeça (como se o paciente estivesse vendo algo a mais na direção de onde 
vem a voz que ouve), fisionomia de terror ou perplexidade (principalmente no 
início do quadro psicótico); execução de gestos como tapar os ouvidos, os olhos, 
as narinas ou os órgãos genitais ou “protegê-los” com algodão ou outro material. 
Especificamente nas alucinações auditivas, pode ocorrer o comportamento de o 
paciente falar sozinho (o que é conhecido como solilóquio), dar respostas 
incoerentes em relação às perguntas e rir de forma imotivada. Olhar fixo em 
determinada direção, desvios súbitos do olhar, movimentos defensivos com as 
mãos podem denotar atividade alucinatória visual. 
Em casos mais graves o paciente pode apresentar uma recusa 
sistemática de alimentos (alucinação gustativa e olfativa), isso levando à perda 
de peso excessiva; coçar ou tentar afastar algo da pele (alucinação cutânea). 
Porém, o paciente não apresentar nenhum sinal sugestivo de atividade 
alucinatória durante a sessão não exclui a possibilidade de ele ter sintomas de 
alucinação. Vale reforçar que o exame psíquico do paciente é feito durante a 
sessão e também com seus dados dos dias/semanas anteriores – na prática, 
será muito mais comum o relato prévio do paciente ou familiar sobre os seus 
sintomas do que observá-los facilmente em um consultório. 
 
 
14 
2.2 Memória 
A memorização se constitui de uma atividade psíquica basal pela qual se 
dá a aquisição de conhecimento e aprendizado, os quais são essenciais para o 
desenvolvimento e a sobrevivência do indivíduo. As informações armazenadas 
na memória dizem respeito às nossas experiências perceptivas e motoras, assim 
como às nossas vivências internas. O processo de atividade da memória é 
dividido em três fases: 
1. fixação – refere-se à aquisição de novas informações e depende da 
preservação do nível de consciência (vigilância), atenção e 
sensopercepção do indivíduo; 
2. armazenamento – nessa etapa, ocorre a manutenção das informações 
que foram fixadas, em um processo bastante dinâmico; 
3. memória de evocação – corresponde ao retorno ao presente, de modo 
espontâneo ou voluntário, dos dados fixados. 
Na classificação das memórias temos a memória sensorial (ou imediata), 
que dura menos de 1 segundo, permanece ativa apenas o tempo necessário 
para se dar a percepção e é a mais precisa, pois ainda não se baseia nas 
vivências do indivíduo. Em seguida, a memória de curto prazo (ou recente) dura 
de alguns segundos a minutos, armazenando temporariamente as informações 
para a realização de tarefas cognitivas. A memória de trabalho se compõe de 
três subsistemas: um verbal, que armazena informação auditiva sob a forma de 
linguagem falada; um visuoespacial, que mantém ativas imagens visuais de 
objetos e informações de localização no espaço; e o executivo central, que 
coordena os outros dois e direciona a atenção. Por último, a memória de longo 
prazo corresponde ao registro dos dados e se apoia na vivência do indivíduo, 
armazenando permanentemente as informações. Ela se subdivide em explícita 
(com informações sobre o que é o mundo, que são evocadas voluntariamente e 
podem ser expressas em palavras) e implícita (não declarativa). A memória 
explícita subdivide-se, por sua vez, em memória episódica e memória semântica. 
A primeira é uma memória explícita que se refere a eventos autobiográficos, a 
vivências pessoais do indivíduo, vinculadas a determinado local e ocasião. A 
memória semântica se refere a conceitos atemporais, compartilháveis com as 
outras pessoas. Na memória implícita armazenam-se conhecimentos que são 
adquiridos sem esforço, por exemplo, o processo de desenvolvimento 
 
 
15 
perceptomotor para executar tarefas e seu aprimoramento ao longo do tempo, 
devido às experiências prévias. É um tipo de memória automática e reflexa, não 
descrita por palavras e pré-consciente. 
2.2.1 Alterações quantitativas da memória 
Constituem alterações quantitativas da memória: 
• Amnésia (ou hipomnésia) anterógrada: dificuldade de formar novas 
lembranças de longo prazo e de adquirir novas aprendizagens a partir do 
momento em que a doença se instalou. Ocorre principalmente nos 
quadros demenciais, de déficit intelectual e nos transtornos amnésticos. 
Também pode fazer parte dos quadros de delirium, estados 
crepusculares, transtornos ansiosos e de agitação psicomotora devido à 
diminuição na capacidade de concentração. Nessas situações, o sujeito 
perde objetos, não consegue gravar recados e transmiti-los, nem nomes 
e rostos de pessoas que acabou de conhecer; pode se desorientar quanto 
à localização e ter dificuldade em registrar o dia corrente. 
• Amnésia (hipomnésia) retrógrada ou de evocação: dificuldade ou perda 
da memória de fatos anteriores ao fator causal do distúrbio mnêmico, 
relativa a um período limitado de tempo (horas ou dias) e que ocorre 
principalmente em quadros dissociativos e traumatismos 
cranioencefálicos. 
• Amnésia (hipomnésia) retroanterógrada: também denominada mista ou 
de fixação e vocação, é a forma mais comum de amnésia. Aparece nos 
quadros demenciais e de delirium ou, ainda, após um traumatismo 
cranioencefálico. 
• Amnésia (hipomnésia) lacunar: também chamada de localizada, trata-se 
de falha de memória que abrange especificamente determinado espaçode tempo, com limites mais precisos, durante o qual há um prejuízo na 
capacidade de fixação. Ocorre posteriormente a um estado de coma ou 
delirium ou durante um período maníaco ou psicótico (devido à agitação 
psicomotora), uma crise de pânico ou um evento psicológico traumático. 
• Amnésia (hipomnésia) seletiva: perda de elementos mnêmicos com valor 
psicológico específico, que não afeta a capacidade de reter novas 
 
 
16 
aprendizagens. É observada em quadros dissociativos (como na amnésia 
psicogênica). 
• Hipermnésia anterógrada (de fixação): capacidade exagerada de 
armazenamento de novas informações. Geralmente está relacionada a 
uma habilidade específica, por exemplo, de memorizar uma grande 
quantidade de números ou nomes. Pode ocorrer em pessoas 
consideradas saudáveis, porém é mais frequente em indivíduos com 
déficit intelectual ou TEA. 
• Hipermnésia retrógrada: observada na síndrome maníaca, na qual ocorre 
um excesso de recordações num breve espaço de tempo, as lembranças 
são pouco claras e precisas e não há controle voluntário sobre elas. 
• Hipermnésia seletiva: comum na depressão, em que se relaciona a fatos 
dolorosos ou que despertem sentimento de culpa; na mania, quanto a 
sucessos e realizações pessoais; e nos quadros delirantes, quanto a fatos 
que pareçam confirmar um juízo patológico. 
2.2.2 Alterações qualitativas da memória 
A paramnésia ou alucinação de memória corresponde a uma distorção no 
processo de evocação, quando a lembrança do indivíduo não corresponde à 
sensopercepção original, embora, para o paciente, ela seja verdadeira, podendo 
misturar presente e passado e envolver distorções ou inclusão de detalhes, 
significados ou emoções falsas. A fabulação (ou confabulação) seria um tipo 
especial de paramnésia. 
Na alomnésia, ou ilusão de memória, o paciente evoca lembranças 
verdadeiras ou reais adicionando alguns elementos falsos ao núcleo da imagem 
mnêmica, de forma involuntária. Ela aparece no delirium, na demência, nos 
transtornos amnésticos, nos estados crepusculares, na mania, na depressão, na 
esquizofrenia e no transtorno delirante, como expressão do conteúdo dos 
delírios. 
No déjà vu (já visto), o indivíduo interpreta uma situação nova como uma 
repetição de memória que lhe é anterior, como se ele já a houvesse vivenciado. 
No jamais vu (nunca visto), uma situação antiga é vívida como se fosse a 
primeira vez de sua incidência. Ambos os quadros podem ocorrer na 
esquizofrenia, em síndromes ansiosas e em pessoas sem alterações 
psicopatológicas. 
 
 
17 
Na criptomnésia, as lembranças voltam à mente do indivíduo, mas não 
são reconhecidas como tais, lhes parecendo fatos novos, de forma repetitiva e 
em curto espaço de tempo. 
2.2.3 Avaliação da memória 
Durante a coleta de dados da anamnese do paciente, já é possível ter 
uma estimativa inicial sobre as suas capacidades mnemônicas, principalmente 
a sua memória de evocação, como ele organiza a cronologia dos fatos narrados, 
os detalhes de sua história e sua autonomia de vida diária. Quando necessário, 
solicitamos uma avaliação formal mais detalhada, por intermédio de testes 
neuropsicológicos padronizados como o teste de cópia de figura complexa de 
Rey e alguns subtestes da bateria Wechsler. Convém lembrar que fatores como 
ansiedade e sintomas depressivos podem alterar o desempenho real do 
indivíduo. 
TEMA 3 – A LINGUAGEM 
A linguagem é a principal forma de expressar um pensamento, formada 
principalmente de signos fonéticos e gráficos que mediam o pensamento e o 
mundo externo. Tem como objetivos, conforme Cheniaux Junior (2015, p. 91): “a 
comunicação social, a expressão de vivências internas, a organização da 
experiência sensorial e dos processos mentais, a tradução dos estímulos 
externos, indicação e descrição das coisas, transmissão de conhecimentos e 
regulação da conduta”. 
Linguagem e pensamento são instâncias diferentes, apesar de sua 
ligação direta, já que podem ocorrer alterações do pensamento sem alterações 
da fala e vice-versa. Veremos que o estudo da linguagem tem como objeto as 
palavras e o do pensamento se refere às ideias. 
3.1 Alterações quantitativas da linguagem 
Consistem em alterações quantitativas da linguagem: 
• Afasia e disfasia: a primeira se refere à perda, e a segunda a um prejuízo 
de linguagem. As afasias são distúrbios adquiridos da capacidade 
linguística – na compreensão ou na expressão – que ocorrem na ausência 
de déficit auditivo ou fonoaudiológico. De acordo com Cheniaux Junior 
 
 
18 
(2015), “[...] estão relacionadas a lesões no córtex cerebral causadas 
principalmente por doenças vasculares, tumores e processos 
degenerativos, como a demência de Alzheimer”. As afasias podem ser 
classificadas como: motora (expressiva ou de broca), sensorial (receptiva 
ou de Wernicke), de condução, global, transcortical e anômica 
(semântica, amnéstica). 
• Agrafia: caracteriza-se pela incapacidade isolada para escrever. Pode 
também estar associada às afasias. 
• Alexia: perda da habilidade para a leitura. Pode ocorrer isoladamente ou 
associada às afasias e às agrafias. 
• Aprosódia (hipoprosódia): diminuição da modulação da fala, que se 
apresenta como monótona, com poucas modulações, além de com 
dificuldade em compreender a prosódia da fala das outras pessoas. 
• Mutismo: silêncio voluntário ou inibição psíquica para falar. 
• Oligolalia: expressão verbal diminuída, mas não abolida. 
• Hiperprosódia: acentuação da modulação, frequente nas síndromes 
maníacas, que pode se apresentar com aumento da loquacidade. 
• Logorreia (ou verborragia): refere-se a um comprometimento da fala, 
devido ao aumento de sua velocidade, sendo difícil interrompê-la. Ela é 
observada tipicamente nos estados maníacos. 
A latência da resposta refere-se ao tempo que o paciente demora para 
responder às perguntas do examinador: o aumento pode expressar uma inibição 
psíquica, como na depressão; já a diminuição pode estar relacionada a uma 
síndrome maníaca ou à ansiedade. Vale citar que, em relação ao volume de voz, 
temos, ainda, a hiper e a hipofonia. 
3.3 Alterações qualitativas da linguagem 
A ecolalia consiste na repetição, via fala, da última ou das últimas palavras 
que o indivíduo ouviu, dirigida(s) ou não a ele, e é algo totalmente involuntário. 
Ocorre nas síndromes catatônicas, no TEA e em quadros psico-orgânicos. Na 
palilalia o paciente repete seu próprio discurso. Ela ocorre principalmente nas 
demências (como na demência de Alzheimer). A estereotipia verbal é a repetição 
involuntária, inadequada e sem sentido comunicativo de palavras ou frases, que 
 
 
19 
o paciente faz com base no que ouviu. Ocorre na esquizofrenia, no TEA, nas 
demências, no déficit intelectual e em algumas encefalites. 
A mussitação (murmúrio repetitivo em tom baixo e com pouco movimento 
labial), os neologismos (uso de palavras novas ou já conhecidas a que o paciente 
atribui outro significado) e a jargonofasia (ou salada de palavras) ocorrem 
principalmente na esquizofrenia. O ato de falar sozinho é denominado solilóquio 
e é sugestivo de alucinação auditiva, mas pode ocorrer também em pessoas 
consideradas saudáveis. Por último, a coprolalia é caracterizada pela presença 
de palavras obscenas de maneira repetitiva e involuntária. Quando se constitui 
num tique verbal, é uma manifestação típica da síndrome de Tourette, 
manifestando-se de forma involuntária. 
3.4 O exame da linguagem 
A linguagem expressiva é definida como a capacidade de se expressar, 
através da linguagem falada ou escrita ou de forma não verbal. Essas 
habilidades são avaliadas de modo informal durante toda a entrevista com o 
paciente. Todavia, alguns testes podem ser necessários, como os encontrados 
no miniexame do estado mental (Folstein; Folstein; McHugh, 1975), os quais 
ajudam a avaliar a capacidade de compreensão de nomeação e de repetição de 
um indivíduo, principalmente em suspeitasde declínio cognitivo. 
TEMA 4 – O PENSAMENTO E SUAS ALTERAÇÕES 
O pensar está relacionado à antecipação de acontecimentos, à 
construção de modelos de realidade e à simulação do seu funcionamento. As 
atividades fundamentais do pensamento são: a elaboração de conceitos, a 
formação de juízos e o raciocínio. Um conceito identifica os atributos ou 
qualidades mais gerais e essenciais de um objeto ou fenômeno e é expresso por 
uma palavra. Está relacionado à abstração e à generalização. Por exemplo: céu 
e azul são conceitos. Na sequência, o juízo estabelece uma relação entre dois 
ou mais conceitos e isso consiste no ato de afirmar ou negar algum atributo ou 
qualidade a um objeto ou fenômeno. O raciocínio é composto por um sujeito, um 
verbo de ligação e um predicado. 
O pensamento se estrutura por meio de: curso, forma e conteúdo, que 
constituem a chamada arquitetura do pensamento. O curso refere-se à 
 
 
20 
velocidade e ao ritmo do pensamento, à quantidade de ideias ao longo do tempo. 
A forma, por sua vez, está relacionada à relação entre as ideias. Já o conteúdo 
diz respeito à temática do pensamento, às qualidades ou características das 
ideias. 
4.1 Alterações quantitativas do pensamento 
Na aceleração do curso do pensamento (ou taquipsiquismo), ocorre um 
aumento importante na velocidade do processo associativo envolvido no 
pensamento, e múltiplas ideias aparecem uma atrás da outra. Ela ocorre nas 
síndromes maníacas graves, na intoxicação por estimulantes/alucinógenos e em 
quadros ansiosos graves. Por outro lado, na lentificação do curso do pensamento 
(ou bradipsiquismo), o paciente apresenta um pensamento com progressão 
lenta, há uma redução no seu número de ideias, uma inibição do processo 
associativo, sem comprometimento dos conceitos e juízos, que surgem de modo 
mais moroso. Essa alteração é tipicamente observada na depressão grave, 
ocorrendo também nas demências e no quadro de abuso de determinadas 
substâncias depressoras do sistema nervoso central. A interceptação do curso 
(ou bloqueio do pensamento) é considerada uma alteração quase que exclusiva 
da esquizofrenia e incide abruptamente e sem motivo, podendo ou não o curso 
do pensamento se completar ou se iniciar um outro. A vivência do paciente é a 
de que o fluxo do seu pensamento se rompeu, resultando num branco em sua 
mente. Tal experiência é muitas vezes atribuída pelo paciente a um roubo do seu 
pensamento. 
4.2 Alterações qualitativas do pensamento 
Consistem em alterações qualitativas do pensamento: 
• Fuga de ideias: variação rápida e incessante de temas, podendo ocorrer 
um afastamento da ideia central, mas sem confusão mental – a velocidade 
do pensamento está tão aumentada que produz um “atropelamento” das 
ideias. Pode-se identificar na síndrome maníaca grave e na intoxicação 
por estimulantes e álcool. 
• Desagregação do pensamento: pensamento desarticulado, com ideias 
fragmentadas, incoerentes, difíceis de serem compreendidas ou mesmo 
 
 
21 
irracionais. Manifesta-se na esquizofrenia, no delirium, na demência em 
estágio avançado e na síndrome maníaca. 
• Prolixidade: incapacidade de síntese, raciocínio difícil e sem conclusão do 
tema – o paciente detalha uma série de pormenores desnecessários, 
sendo extenso e cansativo. Alguns autores preferem utilizar os termos 
circunstancialidade e tangencialidade. 
• Perseveração: recorrência excessiva e inadequada de um mesmo tema, 
com fixação em uma única ideia e um déficit nas associações de ideias, 
ocorrendo na demência, no déficit intelectual, no delirium, na epilepsia e 
na esquizofrenia. 
• Ideias obsessivas (ou obsessões): são reconhecidas pelo próprio 
paciente como absurdas, são repetitivas e persistentes (veremos com 
mais detalhes em outra aula). 
• Pensamento concreto (ou pensamento empobrecido): discurso pobre em 
conceitos abstratos, impossibilitando o uso do campo simbólico, com 
estrutura rudimentar e dificuldade para se utilizar metáforas. Em sua 
incidência, há uma intensa adesão do indivíduo ao nível sensorial e 
imediato das suas vivências, com generalizações equivocadas e, além 
disso, uma inflexibilidade ou dificuldade diante de regras. Ocorre na 
demência, no déficit intelectual e na esquizofrenia. 
4.3 O exame do pensamento 
A fala do paciente é a única forma de acessar o seu pensamento, não 
sendo possível, portanto, avaliar o pensamento de um paciente em estado de 
mutismo. Para se examinar a forma do pensamento, observamos o paciente falar 
livremente durante algum tempo, evitando interrompê-lo; se o seu pensamento 
se expressa em um discurso lógico ou ilógico; e também a velocidade com a qual 
o paciente interage. As ideias delirantes ou delírios são alterações do conteúdo 
do pensamento e, devido à grande importância do tema, o abordaremos mais 
detalhadamente a seguir. 
TEMA 5 – ALTERAÇÃO DO CONTEÚDO DO PENSAMENTO: O DELÍRIO 
Os delírios consistem em alterações patológicas do juízo que possuem as 
seguintes características: irredutibilidade, irremovibilidade e conteúdo 
 
 
22 
impossível. Por meio do juízo crítico da realidade, discernimos o que é real do 
que é fruto de nossa imaginação. Dependendo do contexto e das características 
do paciente, a intensidade do delírio pode flutuar e o paciente pode até mesmo 
ter dúvidas ou questionar a sua veracidade. Os delírios que classificamos como 
bizarros são geralmente impossíveis (por exemplo, o paciente ter a sensação de 
que um extraterrestre implantou um chip dentro de sua cabeça). Já os delírios 
não bizarros envolvem temas plausíveis porém improváveis de acontecerem 
(como o paciente achar que está sendo perseguido por um carro preto que para 
todo dia na frente de sua casa). 
A vivência do delírio é muito particular a cada indivíduo e difere das 
crenças culturalmente compartilhadas, como os dogmas religiosos. Além disso, 
é, de certa forma, autorreferente, pois o conteúdo do pensamento está em maior 
ou menor grau relacionado ao paciente e se transforma no eixo em torno do qual 
passa a girar a vida do indivíduo. Em função de sua convicção irredutível, o 
paciente delirante não sente a necessidade de comprovar objetivamente a 
veracidade de seu pensamento e seu juízo crítico, nem de convencer os outros 
de que está certo. 
O delírio primário costuma ser incompreensível, por ser algo novo, 
duradouro e irreversível, sem nenhuma raiz anterior. É um dos sintomas 
cardinais da esquizofrenia, mas também encontrado em outros transtornos do 
espectro psicótico. A percepção delirante consiste na atribuição de um 
significado novo ou na percepção anormal de um objeto real e ocorre 
simultaneamente ao ato perceptivo. Já a ideia deliroide (ou delírio secundário) é 
uma ideia semelhante ao delírio, em relação ao juízo da realidade alterado, 
porém é mais compreensível ao interlocutor, já que se origina de outras 
manifestações emocionais, como alterações do humor, da sensopercepção e da 
consciência, e seriam mais supostamente corrigíveis do que as ideias delirantes. 
Exemplos: na depressão, o humor deprimido é o evento primário, por ser 
incompreensível, e daí podem surgir os conteúdos das ideias deliroides 
depressivas, como as ideias de culpa; na mania, as ideias de grandeza 
decorrentes de um humor eufórico. Por fim, a ideia sobrevalorada é uma ideia 
distorcida, afetada por uma superestimação afetiva. Decorre do fato de a ideia 
estar relacionada a uma carga afetiva muito intensa, que influencia o julgamento 
da realidade pelo paciente, tornando-o pouco racional. A convicção é muito 
menor do que no delírio, é mais influenciável, podendo a ideia sobrevalorada 
 
 
23 
ocorrer inclusive em pessoas consideradas saudáveis. Incide, por exemplo, na 
hipocondria, no transtorno dismórfico corporal, na anorexia nervosa. 
FINALIZANDO 
Daremos continuidade ao estudo das funções psíquicas na próxima aula. 
Até aqui, é notável ter em mente noções de neuroanatomiae de neurofisiologia 
que você já estudou em aulas anteriores. 
 
 
 
24 
REFERÊNCIAS 
CHENIAUX JUNIOR, E. Manual de psicopatologia. 5. ed. Rio de Janeiro: 
Guanabara Koogan, 2015. 
FOLSTEIN, M. F.; FOLSTEIN, S. E.; McHUGH, P. R. Mini-mental state: a 
practical method for grading the cognitive state of patients for the clinician. 
Journal of Psychiatric Research, v. 12, n. 3, p. 189-198, nov. 1975. 
HOBSON, J. A. Dreaming: an introduction to the science of sleep. Nova York: 
Oxford University, 2002. 
JASPERS, K. A abordagem fenomenológica em psicopatologia. Revista Latino-
Americana de Psicopatologia Fundamental, v. 8, n. 4, p. 769-787, 2005.

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