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Capítulo 40 DECADÊNCIA E PRESCRIÇÃO NO DIREITO DO TRABALHO 1 DECADÊNCIA 1.1 Conceito Decadência provém do verbo latino cadens (cair, perecer, cessar). É palavra formada pelo prefixo latino de (de cima de), pela forma verbal cado (decadere) e pelo sufixo encia (ação ou estado), tendo por significado a ação de cair ou o estado daquilo que caiu. Juridicamente, decadência indica a extinção do direito pelo decurso do prazo fixado a seu exercício. Decadência é palavra que tem por significado caducidade, prazo extintivo ou preclusivo, que compreende a extinção do direito. A decadência não se interrompe nem se suspende, ao contrário da prescrição. 2 PRESCRIÇÃO 2.1 Histórico A prescrição é um instituto que se relaciona com a ação. Historicamente, a prescrição surgiu no sistema formulário no processo romano, como exceção. O pretor, ao criar uma ação, previa um prazo dentro do qual ela deveria ser exercida, sob pena de prescrição. Esta, assim, constituía um instrumento contra o titular do direito que deixou de protegê-lo por meio da ação. Pela prescrição, portanto, o que se atinge é a ação. 2.2 Conceito Praescripto (do verbo praescribero, de prae + scribero), escrever antes do começo, mostra a parte preliminar (escrita antes) da fórmula em que o pretor romano determinava, ao juiz, a absolvição do réu, caso estivesse esgotado o prazo de ação. Uma vez extinto o lapso de tempo para o uso da ação, cabia a exceção de “prescrição temporal”, em razão da falta do exercício da ação. Isto se dava no Direito pretoriano, pois no Direito Romano antigo as ações eram perpétuas ou inatingíveis. Com a evolução do conceito de prescrição, esta passou a significar a extinção da ação pela expiração do prazo de sua duração (exercício tardio da ação). Há necessidade de se ter certeza e estabilidade nas relações jurídicas, respeitando o direito adquirido, de acordo com determinado espaço de tempo. O interesse público não se compadece com a incerteza das relações jurídicas, criadoras de desarmonia e instabilidade, e é protegido quando se baixam normas de prescrição, evitando que se eternizem, sem solução, as situações duvidosas ou controvertidas. As pretensões tardias são inadmissíveis, trazendo incertezas nas relações humanas. Trata-se, pois, de um instituto de ordem jurídica que estabiliza as relações jurídicas. Na ordem pública, os fatos que por muito tempo não sofrem contestação adquirem a presunção de se acharem elaborados a terem gerado direito, pelo que não convém aos interesses sociais a modificação de tal situação. Na conhecida frase de Windscheid, “o que durou muito tempo, só por essa razão, parece alguma coisa de sólido e indestrutível”. Prescrição é a perda da pretensão da exigibilidade do direito, em razão da falta do seu exercício dentro de um determinado período. O art. 189 do Código Civil mostra que a prescrição não é mais perda do direito da ação, mas perda da exigibilidade do direito ou da pretensão do direito. 2.3 Distinção Distingue-se a decadência da prescrição, embora ambas tenham pontos em comum. Decorrem da inércia do detentor do direito, em dado período de tempo. Na decadência há a perda do direito pelo decurso de prazo e não a perda da exigibilidade do direito. A decadência não é interrompida ou fica suspensa, ao contrário da prescrição. A prescrição começa a fluir a partir da violação do direito (actio nata). A decadência é contada do nascimento do direito. A prescrição é decorrente de lei. A decadência pode ser estabelecida pela convenção das partes. Pode haver renúncia da decadência convencional. A decadência prevista em lei pode ser declarada de ofício pelo juiz. Representa a prescrição o fenômeno extintivo de uma ação ajuizável, em razão da inércia de seu titular, durante determinado espaço de tempo que a lei estabeleceu para esse fim. O silêncio da relação jurídica durante um espaço de tempo determinado pela lei significa a perda da exigibilidade do direito e da correspondente capacidade defensiva. Tem a prescrição um interesse público visando à harmonia social e o equilíbrio das relações jurídicas, tuteladas pela ordem pública. A prescrição compreende inércia do titular e decurso do tempo. 2.4 Fundamentos A prescrição é um instituto que se relaciona com a ação. Historicamente, a prescrição surgiu no sistema formulário no processo romano, como exceção. O pretor, ao criar uma ação, previa um prazo dentro do qual ela deveria ser exercida, sob pena de prescrição. Esta, assim, constituía um instrumento contra o titular do direito que deixou de protegê-lo por meio da ação. Pela prescrição, portanto, o que se atinge é a ação. Os fundamentos da prescrição revelam os motivos pelos quais ela foi criada. Os autores indicam, de modo geral, os seguintes fundamentos para a prescrição: (a) ação destruidora do tempo;103 (b) castigo à negligência;104 (c) presunção de abandono ou renúncia;105 (d) presunção de extinção do direito;106 (e) proteção do devedor;107 (f) diminuição das demandas;108 (g) interesse social e estabilidade das relações jurídicas, obtendo- se a paz social. Não se pode pretender a instabilidade das relações sociais, a incerteza das relações sociais, sacrificando a harmonia social. O Estado deve estabelecer alguma coisa para promover o equilíbrio social em razão da inércia do titular do direito. A relação jurídica não pode ser perpétua entre as partes, sem limitação de tempo. Daí a utilização da prescrição. A prescrição envolve: (a) a inércia do titular do direito em exercê-lo; (b) o decurso do prazo para o exercício do direito. 2.5 Requisitos da prescrição Para que ocorra a prescrição, mister se faz a existência dos seguintes pressupostos: (a) existência de uma ação exercitável pelo titular de um direito; (b) inércia desse titular em relação ao uso da ação durante certo tempo; (c) ausência de um ato ou um fato a que a lei atribua uma função impeditiva (suspensiva ou interruptiva) do curso do prazo prescricional. 3 NATUREZA JURÍDICA A prescrição, assim como a decadência, são temas de direito material e não de direito processual. São formas de extinção da obrigação. O reconhecimento da prescrição gera efeitos processuais, isto é, a sua operacionalização. Entretanto, trata-se de direito material, tanto que é previsto em normas que versam sobre o direito material, como no Código Civil, no Código Penal, no Código Tributário etc., que tratam do prazo de prescrição, de questões de interrupção e suspensão e não no CPC. A prescrição compreende o decurso de prazo, enquanto o processo é concernente à atividade do juízo ou das partes. Consuma-se a prescrição com o decurso do prazo previsto em lei, sendo regulada pela lei em vigor no momento dessa consumação. A sentença apenas declara a prescrição já consumada. O juiz não cria a prescrição. A sentença apenas reconhece uma realidade, que já havia se constituído no mundo fático. O devedor seria, inclusive, livre ou não para arguir a prescrição ou discutir o mérito, provando que cumpriu a obrigação. A prescrição não pode ser considerada um prêmio para o devedor. Não se trata de proteção ao devedor. Representa um limite ao direito de cobrar a dívida. A falta de cobrança por negligência do credor não pode gerar insegurança para a sociedade. A prescrição é fato extintivo do direito do autor. Menciona o inciso II do art. 487 do CPC que é julgado o mérito quando se acolhe a prescrição. Não se trata de pressuposto processual ou condição da ação. As relações jurídicas abrangidas pela prescrição são, de modo geral, privadas. 4 DECADÊNCIA NO CÓDIGO CIVIL As leis trabalhistas não tratam, de modo geral, de decadência, mas de prescrição, como o inciso XXIX do art. 7º da Constituição e o art. 11 da CLT. Logo, é de se observar o Código Civil no que for compatível com o Direito do Trabalho (§ 1º do art. 8º da CLT). Dispõe o art. 210 do Código Civil que deveo juiz, de ofício, conhecer da decadência, quando estabelecida em lei. Se a decadência é estabelecida em norma contratual, deve ser arguida pelo -interessado. Exemplo de decadência no processo do trabalho ocorre no inquérito para apuração de falta grave que não for proposto no prazo de 30 dias após a suspensão do empregado estável (S. 62 do TST e S. 403 do STF). O juiz, nessa hipótese, deve declarar de ofício a decadência em relação ao inquérito ajuizado tardiamente pela empresa contra o trabalhador. O mesmo ocorre em relação à ação rescisória que não for ajuizada no prazo de dois anos a contar do trânsito em julgado da decisão (art. 975 do CPC e S. 100 do TST). O juiz poderá declarar de ofício a decadência. Em relação à decadência, não se aplicam as normas que impedem, suspendem ou interrompem a prescrição, salvo disposição legal em contrário (art. 207 do CC). 5 PRESCRIÇÃO O prazo de prescrição para o empregado urbano ou rural propor ação na Justiça do Trabalho é de dois anos a contar da cessação do contrato de trabalho (art. 7º, XXIX, da Constituição). Observado esse prazo, é possível o empregado postular os direitos relativos aos últimos cinco anos a contar do ajuizamento da ação (S. 308, I, do TST). Os créditos trabalhistas são prescritíveis, como se verifica do inciso XXIX do art. 7º da Constituição e do art. 11 da CLT. Não se pode dizer, portanto, que os créditos trabalhistas não prescrevem. O inciso XLII do art. 5º mostra quando a Constituição quer estabelecer que o crime é imprescritível. Logo, os direitos fundamentais na Constituição também são prescritíveis, salvo o mencionado. Não estabelecer prazo de prescrição seria entender que o devedor deveria manter indefinidamente os comprovantes de pagamento da dívida. A prescrição do direito de reclamar a concessão das férias ou o pagamento da respectiva remuneração é contada do término do período concessivo ou, se for o caso, da cessação do contrato de trabalho (art. 149 da CLT). 5.1 Empregado rural Previa o art. 10 da Lei nº 5.889/73 que “a prescrição dos direitos assegurados por esta Lei aos trabalhadores rurais só ocorrerá após 2 (dois) anos de cessação do contrato de trabalho”. Na redação original da alínea b do inciso XXIX do art. 7º da Lei Magna de 1988, o trabalhador tinha prazo de prescrição de dois anos após o término do contrato de trabalho, porém não existia limite de prazo para postular verbas trabalhistas, entendendo-se que a postulação poderia ser feita quanto a todo o período trabalhado pelo empregado. A Lei nº 9.658/98 deu nova redação ao art. 11 da CLT, estabelecendo no inciso II que o direito de ação quanto a créditos resultantes das relações de trabalho prescreve em dois anos, após a extinção do contrato de trabalho, para o trabalhador rural. A referida norma adaptava a CLT à alínea b do inciso XXIX do art. 7º da Constituição. A Emenda Constitucional nº 28 foi promulgada em 25-5-2000, tendo sido publicada no Diário Oficial da União de 26-5-2000. Ela determina nova redação ao inciso XXIX do art. 7º da Constituição, que está assim redigido: “ação, quanto aos créditos resultantes da relação de trabalho, com prazo prescricional de cinco anos para os trabalhadores urbanos e rurais, até o limite de dois anos após a extinção do contrato de trabalho”. Há, portanto, modificação em relação ao prazo de prescrição do trabalhador rural. Prescrição iniciada e não consumada não representa direito adquirido, mas mera expectativa de direito, pois poderia ocorrer sua interrupção ou suspensão. Antes da consumação o prescribente não pode invocar o direito à prescrição. A nova norma constitucional não pode ser aplicada retroativamente, em relação às situações jurídicas já consumadas. Se a prescrição se iniciou e se consumou sob o império da lei antiga, aplica-se esta, mesmo que os prazos sejam aumentados ou diminuídos. Começando a fluir a prescrição pela lei nova e de acordo com ela terminando, observa-se a referida norma. Sujeitar às regras da lei nova o tempo transcorrido durante a vigência da lei antiga significaria atribuir a esse tempo valor que não lhe era conferido antes.109 Em certos casos poderia ocorrer de a prescrição ter fluído integralmente na vigência da lei velha e, quando promulgada a lei nova, o direito de ação estaria integralmente prescrito. Seriam aplicadas duas diferentes legislações (a nova e a velha), ao mesmo tempo, para reger a mesma relação jurídica. A norma constitucional não está reduzindo prazo prescricional que estava em curso para o empregado rural. Está criando prazo prescricional de cinco anos onde não existia prazo prescricional. O trabalhador não tinha nenhuma verba prescrita em 25-5-2000. A violação de seu direito, a actio nata, só surge em 26-5-2000, quando teria ocorrido a lesão. Assim, a lei nova não pode ser retroativa, só podendo ser observada a partir de sua vigência. O tempo transcorrido antes da vigência da Emenda Constitucional nº 28 não será contado para efeito da verificação do prazo prescricional do rurícola. Com isso, a lei nova não será aplicada de forma retroativa. A Emenda Constitucional nº 28 não pode ser observada em relação a contratos que cessaram antes de 26-5-2000, quando foi publicada no Diário Oficial da União. Nesse caso, deve ser aplicada a lei vigente na data da cessação do pacto laboral, que não previa a limitação de prazo prescricional em cinco anos. Entender em sentido contrário seria dar efeito retroativo à norma constitucional. O prazo de cinco anos só poderia ser aplicado a contar da vigência da Emenda Constitucional nº 28 em 26-5-2000, isto é, sendo observado em 26-5-2005. Com a nova determinação do inciso XXIX do art. 7º da Lei Maior, há a derrogação do inciso II do art. 11 da CLT, no ponto em que não há limite de prazo para o empregado rural reclamar verbas trabalhistas. O mesmo ocorre em relação ao art. 10 da Lei nº 5.889, que, a meu ver, tinha sido revogado pelo inciso II do art. 11 da CLT. Os contratos de trabalho rurais celebrados a partir da vigência da Emenda Constitucional nº 28 terão a observância do prazo prescricional por ela estabelecido. Para o trabalhador rural dispensado na vigência da redação original do inciso XXIX do art. 7º da Constituição, aplica-se a alínea b do referido dispositivo. A Orientação Jurisprudencial 271 da SBDI-1 do TST esclarece que “o prazo prescricional da pretensão do rurícola, cujo contrato de emprego já se extinguira ao sobrevir a Emenda Constitucional nº 28, de 26-5-2000, tenha sido ou não ajuizada a ação trabalhista, prossegue regido pela lei vigente ao tempo da extinção do contrato de emprego”. 5.2 Empregado doméstico O parágrafo único do art. 7º da Constituição estabelece quais são os incisos do mesmo artigo que são aplicados ao doméstico. Entre eles não está o inciso XXIX, que trata da prescrição. Entretanto, houve omissão deliberada do constituinte, que não pretendeu que o inciso XXIX do art. 7º da Constituição fosse aplicado ao doméstico, pois, caso contrário, teria sido expresso nesse sentido. O direito de ação quanto a créditos resultantes das relações de trabalho prescreve em cinco anos até o limite de dois anos após a extinção do contrato de trabalho (art. 43 da Lei Complementar nº 150/2015). E se o empregado doméstico for menor, qual o prazo de prescrição aplicável? Entendo que o fundamento legal não seria o invocado, mas exatamente o do Código Civil. A CLT não se aplica ao doméstico (art. 7º, a), inclusive ao menor que é doméstico, mas ao menor trabalhador urbano. Assim, a regra a ser aplicada é a do Código Civil, no inciso I do art. 198, isto é, contra os menores de 16 anos que sejam domésticos não corre a prescrição (art. 3º, do Código Civil). Contra os maiores de 16 anos, a prescrição correrá normalmente. 5.3 Trabalhador avulso O inciso XXXIV do art. 7º da Constituição dispõe que o avulso tem os mesmos direitosdo trabalhador com vínculo empregatício permanente. Isso significa que o prazo de prescrição é o mesmo, aplicando-se o inciso XXIX do art. 7º da Lei Maior, pois o dispositivo faz referência a créditos decorrentes da relação de trabalho. O limite de dois anos previsto no inciso XXIX do art. 7º da Constituição diz respeito à extinção do contrato de trabalho. Avulsos não têm especificamente contrato de trabalho para se aplicar, em princípio, tal dispositivo. A referida regra poderia, porém, ser aplicada se houvesse o término da relação de trabalho. Seria observada a prescrição bienal, pois haveria término do trabalho. Tem dois anos a contar do término da relação de trabalho para postular as verbas dos cinco anos a contar da propositura da ação. 5.4 Empregador O inciso XXIX do art. 7º da Constituição diz respeito ao processo de conhecimento, tanto que faz referência à ação e não a execução. Dispõe o caput do art. 7º da Constituição: “São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social”. O referido dispositivo não dispõe que são direitos dos empregadores ou das empresas, mas dos trabalhadores urbanos e rurais. O inciso XXIX do art. 7º da Constituição faz referência a créditos resultantes das relações de trabalho, mas em relação aos trabalhadores urbanos e rurais e não para o empregador. O citado dispositivo constitucional não estabelece prazo prescricional para o empregador. Logo, o referido preceito não poderia ser aplicado ao empregador, mas apenas ao empregado. Determina o art. 11 da CLT: “Art. 11. O direito de ação quanto a créditos resultantes das relações de trabalho prescreve: I – em cinco anos para o trabalhador urbano, até o limite de dois anos após a extinção do contrato”. A redação do art. 11 da CLT está de acordo com a determinação original do inciso XXIX do art. 7º da Constituição, que posteriormente foi alterado pela Emenda Constitucional nº 28, de 25 de maio de 2000. Mesmo assim, o art. 11 da CLT trata de trabalhador urbano e rural e não do empregador. Quem alega prescrição como forma de extinção das obrigações trabalhistas é o devedor, o empregador, e não o empregado. O prazo de prescrição do empregador é de dez anos, previsto no art. 206 do Código Civil. 5.5 Ato nulo e prescrição no Direito do Trabalho Nulidade é a sanção que priva os efeitos do negócio jurídico pela não observância das formalidades previstas em lei. Há artigos na CLT que fazem referência ao ato ser “nulo de pleno direito” (art. 9º, 117). Usa-se também a expressão “sob pena de nulidade” (art. 468). Para que o ato seja considerado nulo há necessidade, porém, de declaração nesse sentido pelo Poder Judiciário, pois, provavelmente, as partes não irão considerar que o ato é nulo. A nulidade não opera ipso iure. Mesmo nos casos de garantia de emprego, o empregado tem de postular a declaração da nulidade, como na hipótese de reintegração no emprego do cipeiro (parágrafo único do art. 165 da CLT). Para se chegar à conclusão se o ato nulo prescreve ou não, a interpretação tem de ser feita de forma sistemática com outros dispositivos do ordenamento jurídico. Embora a prescrição no Direito do Trabalho compreenda questão de ordem pública, em razão do prejuízo que causa ao empregado quanto à verba de natureza alimentar, o tema em discussão deve ser interpretado sistematicamente de acordo com o ordenamento jurídico. Dispõe o art. 9º da CLT que “serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na presente Consolidação”. Não se pode, portanto, interpretar isoladamente apenas o art. 9º da CLT. Há necessidade de conjugá-lo com outros dispositivos. Actio nata é a ação nascida. A prescrição só começa a correr a partir do momento em que nasce o direito de ação. Antes disso, o prazo não poderia ser contado, pois o interessado estaria incapacitado de fazer valer seu direito. Enquanto não nasce a ação não pode ela prescrever (actione non nata non praescribitur). No Direito do Trabalho, o prazo de prescrição a ser observado é o previsto no inciso XXIX do art. 7º da Constituição. O citado comando constitucional não faz qualquer distinção quanto ao prazo prescricional, nem indica matéria específica, apenas menciona que é um crédito resultante da relação de trabalho. Logo, também abrange os atos nulos. Estabelece o art. 11 da CLT que “o direito de ação quanto a créditos resultantes das relações de trabalho prescreve: I – em cinco anos para o trabalhador urbano, até o limite de dois anos após a extinção do contrato(...)”. O ato nulo no Direito do Trabalho prescreve. A Constituição e a CLT estabelecem que há prescrição em relação a créditos resultantes da relação de trabalho. Passados dois anos do término do contrato de trabalho ou cinco anos a contar da propositura da ação, estão prescritos os direitos do trabalhador por força de disposição constitucional e legal. Os dispositivos acima citados não podem ser considerados como inúteis dentro do ordenamento jurídico. Assim, o ato nulo ou anulável prescreve no Direito do Trabalho. O inciso XXIX do art. 7º da Constituição ou o art. 11 da CLT não fazem distinção entre atos nulos e anuláveis. Todos os atos praticados pelo empregador são suscetíveis de prescrição. Na verdade, se os atos nulos não prescrevessem, não haveria prescrição no Direito do Trabalho, pois muitos dos atos do empregador têm por objetivo impedir, fraudar ou desvirtuar a aplicação dos preceitos trabalhistas. 5.6 Dano moral Causa dano de natureza extrapatrimonial a ação ou omissão que ofenda a esfera moral ou existencial da pessoa física ou jurídica, as quais são as titulares exclusivas do direito à reparação (art. 223-B da CLT). Dano de natureza extrapatrimonial é o dano moral, pois o dano patrimonial é o material. A honra, a imagem, a intimidade, a liberdade de ação, a autoestima, a sexualidade, a saúde, o lazer e a integridade física são os bens juridicamente tutelados inerentes à pessoa física (art. 223-C da CLT). A imagem, a marca, o nome, o segredo empresarial e o sigilo da correspondência são bens juridicamente tutelados inerentes à pessoa jurídica (art. 223-D da CLT). São responsáveis pelo dano extrapatrimonial todos os que tenham colaborado para a ofensa ao bem jurídico tutelado, na proporção da ação ou da omissão (art. 223-E da CLT). A reparação por danos extrapatrimoniais pode ser pedida cumulativamente com a indenização por danos materiais decorrentes do mesmo ato lesivo (art. 223-F da CLT). Se houver cumulação de pedidos, o juízo, ao proferir a decisão, discriminará os valores das indenizações a título de danos patrimoniais e das reparações por danos de natureza extrapatrimonial. A composição das perdas e danos, assim compreendidos os lucros cessantes e os danos emergentes, não interfere na avaliação dos danos extrapatrimoniais. Ao apreciar o pedido, o juízo considerará: “I – a natureza do bem jurídico tutelado; II – a intensidade do sofrimento ou da humilhação; III – a possibilidade de superação física ou psicológica; IV – os reflexos pessoais e sociais da ação ou da omissão; V – a extensão e a duração dos efeitos da ofensa; VI – as condições em que ocorreu a ofensa ou o prejuízo moral; VII – o grau de dolo ou culpa; VIII – a ocorrência de retratação espontânea; IX – o esforço efetivo para minimizar a ofensa; X – o perdão, tácito ou expresso; XI – a situação social e econômica das partes envolvidas; XII – o grau de publicidade da ofensa” (art. 223-G da CLT). O STF entende que os critérios do § 1º do art. 223-G da CLT poderão orientar o juiz, mas não impedem a fixação em valor superior (ADIns 6.050, 6.069, 6.082, Rel. Min. Gilmar Mendes), cabendo ao juiz fixar a indenização por dano moral com base no que entender mais justo em relação ao caso concreto, observados os critériosde razoabilidade e proporcionalidade. Na reincidência de quaisquer das partes, o juí-zo poderá elevar ao dobro o valor da indenização. Para fins do disposto no § 3º, a reincidência ocorrerá se ofensa idêntica ocorrer no prazo de até dois anos, contado do trânsito em julgado da decisão condenatória. Os parâmetros supramencionados não se aplicam aos danos extrapatrimoniais decorrentes de morte. Neste caso, o juiz é livre para decidir. Em relação ao prazo de prescrição quanto ao dano moral trabalhista há duas teorias. A primeira entende que a prescrição é a prevista no inciso XXIX do art. 7º da Constituição. O empregado tem dois anos para ajuizar a ação contados do término do contrato de trabalho ou reclamar os últimos cinco anos se o contrato estiver em vigor. A segunda teoria afirma que a indenização é civil, devendo ser observada a prescrição contida no Código Civil. Na vigência do Código Civil de 1916 o prazo era de 20 anos (art. 177). No Código Civil de 2002, o prazo é de três anos para a pretensão de reparação civil (art. 206, § 3º, V). Se o dano moral decorre do contrato de trabalho, o crédito é trabalhista e não civil. Se a competência é da Justiça do Trabalho, a prescrição deve ser a trabalhista. Se a relação ocorre entre empregado e empregador quanto a créditos resultantes da relação de trabalho, a prescrição é de dois anos a contar da cessação do contrato de trabalho. O inciso XXIX do art. 7º da Constituição não faz distinção se a matéria é prevista no Código Civil ou na CLT, mas apenas se é um crédito resultante da relação de trabalho, como, de fato, é. A verba é de natureza trabalhista, decorrente do contrato de trabalho. A CLT prevê situações que compreendem dano moral trabalhista, como nas letras j e k do art. 482 e na letra e do art. 483. Não há omissão na lei trabalhista para se aplicar o Código Civil. Não é o caso de se aplicar a norma mais favorável, pois a prescrição só pode ser regulada por uma norma e não por várias. Há regra específica, que é o inciso XXIX do art. 7º da Lei Maior. A ação penal não suspende ou interrompe o prazo prescricional. Não é o caso de se aplicar o art. 200 do Código Civil, pois a Constituição não dispõe nesse sentido. 5.7 Aplicação do Código Civil A CLT não contém regras procedimentais relativas à prescrição. É aplicável o Código Civil nas hipóteses a seguir referidas. Reza o art. 193 do Código Civil que a prescrição pode ser alegada em qualquer grau de jurisdição, pela parte a quem aproveita. Não se fala mais em qualquer instância, como era previsto no art. 162 do Código Civil de 1916. Instância em 1916 não tinha significado de grau de jurisdição, mas de processo. A nova orientação vai de encontro ao entendimento da Súmula 153 do TST. Poderá, agora, a prescrição ser alegada no TST ou no STF, que são graus de jurisdição. Não poderá ser alegada na execução, que não é grau de jurisdição, mas fase processual ou processo, além do que violaria a coisa julgada. Entendo que a regra contida no art. 193 do Código Civil fere o contraditório e é inconstitucional (art. 5º, LV, da Constituição). Prescrição é matéria de defesa, na qual o réu deve alegar todos os motivos de fato e de direito com que impugna a pretensão do autor (art. 336 do CPC), o que incluiria a prescrição. Logo, a prescrição não pode ser alegada após ser oferecida a defesa, pois viola o contraditório e suprime instância. A prescrição deve ser arguida apenas pela parte a quem aproveita (art. 193 do CC) e não por outras pessoas. O Ministério Público não tem legitimidade para arguir a prescrição em favor de entidade de direito público, quando atua como fiscal da lei, pois não é parte (OJ 130 da SBDI-1 do TST). O juiz pode suprir, de ofício, a alegação de prescrição (art. 487, II, do CPC). A interrupção da prescrição ocorrerá apenas uma vez (art. 202 do CC). A reclamação trabalhista arquivada, pelo não comparecimento do empregado na primeira audiência na Justiça do Trabalho, importa a interrupção da prescrição. Ela não se interromperá novamente pelo arquivamento de outra reclamação. A prescrição interrompida recomeça a correr da data do ato que a interrompeu, ou do último ato do processo para a interromper (parágrafo único do art. 202 do CC). O prazo de prescrição no caso de interrupção é contado novamente de forma integral. Exemplo: do arquivamento da reclamação. O empregado em gozo de auxílio-doença tem os efeitos do seu contrato de trabalho suspensos. Na concessão do auxílio-doença acidentário há a interrupção dos efeitos do seu contrato de trabalho, pois o empregador tem de depositar o FGTS (§ 5º do art. 15 da Lei nº 8.036/90). O empregador deve pagar os salários dos 15 primeiros dias de afastamento do empregado (§ 3º do art. 60 da Lei nº 8.213/91). Depois disso, o INSS paga o benefício previdenciário. O ideal seria que durante a vigência do contrato de trabalho não corresse prazo de prescrição, pois o empregado pode ser dispensado pelo empregador pelo fato de ajuizar a ação trabalhista. Não dispõe o inciso XXIX do art. 7º da Constituição que há suspensão ou interrupção do prazo de prescrição. A CLT não dispõe que durante o período em que o empregado está afastado por doença há suspensão ou interrupção do prazo prescricional. Ela repete no art. 11 o conteúdo do inciso XXIX do art. 7º da Constituição. A lei, portanto, não prevê que no período em que o empregado está afastado por doença há a suspensão do prazo de prescrição. Reza o inciso I do art. 199 do Código Civil que não corre igualmente a prescrição: “pendendo condição suspensiva”. Na condição suspensiva há cláusula estatuída pelas partes para subordinar os efeitos do negócio jurídico a evento futuro e incerto. Exemplo de condição suspensiva é: enquanto você não se casar não lhe darei um automóvel. Não existe exatamente condição suspensiva no afastamento do empregado para gozar de auxílio-doença ou auxílio- doença acidentário. Não há nenhum impedimento para que o empregado ajuíze ação na Justiça do Trabalho e postule o que entende devido. A pretensão da parte surge com a lesão e nesse momento passa a fluir o prazo prescricional para postular a reparação. É clara a Orientação Jurisprudencial 375 da SBDI-1 do TST ao mencionar: A suspensão do contrato de trabalho, em virtude da percepção do auxílio-doença ou da aposentadoria por invalidez, não impede a fluência da prescrição quinquenal, ressalvada a hipótese de absoluta impossibilidade de acesso ao Judiciário. Absoluta impossibilidade de acesso ao Judiciário pode ser a hipótese em que o empregado fica doente por longo tempo, internado no hospital, sem ter alta médica, não tendo condições sequer de outorgar procuração ao advogado. A prescrição iniciada contra uma pessoa continua a correr contra seu sucessor (art. 196 do CC). O novo Código troca a palavra herdeiro, que era prevista no art. 165 do CC de 1916, por sucessor. A exceção é se existirem menores, hipótese em que não correrá a prescrição (art. 198, I, do CC). A interrupção da prescrição efetuada contra o devedor solidário compreende os demais (§ 1º do art. 204 do CC). É o que ocorre no grupo de empresas, em que as empresas pertencentes ao grupo são solidárias (§ 2º do art. 2º da CLT). A prescrição do direito de reclamar a concessão das férias ou o pagamento da respectiva remuneração é contada do término do período concessivo (art. 134 da CLT) ou, se for o caso, da cessação do contrato de trabalho (art. 149 da CLT). Em relação ao salário mínimo, prescreve em dois anos a ação para reaver a diferença, contados, para cada pagamento, da data em que o mesmo tenha sido efetuado (art. 119 da CLT). Esse dispositivo tem de ser interpretado com base no inciso XXIX do artigo 7º da Constituição. O trabalhador tem de ajuizar a ação dentro de dois anos a contar do término do contrato de trabalho, podendo reclamar os últimos cinco anos acontar da data da propositura da ação. Da extinção do último contrato é que começa a fluir o prazo prescricional do direito de ação, objetivando a soma dos períodos descontínuos de trabalho (S. 156 do TST). Na demanda de equiparação salarial, a prescrição só alcança as diferenças salariais vencidas no período anterior a cinco anos que precederam o ajuizamento da ação (S. 6, IX, do TST), desde que a ação seja proposta no prazo de dois anos a contar da extinção do contrato de trabalho. O mesmo ocorre em relação à demanda relativa à postulação para corrigir desvio funcional (S. 275, I, do TST). Tratando-se de demanda que compreenda pedido de prestações sucessivas decorrente de alteração do pactuado, a prescrição é total, exceto quando o direito à parcela esteja também assegurado por preceito de lei (§ 2º do art. 11 da CLT e S. 294 do TST). A supressão das comissões, ou a alteração quanto à forma ou ao porcentual, em prejuízo do empregado, é suscetível de operar a prescrição total da ação, nos termos da Súmula 294 do TST, em virtude de cuidar-se de parcela não assegurada por preceito de lei (OJ 175 da SBDI-1 do TST). A pretensão à complementação de aposentadoria jamais recebida prescreve em dois anos contados da cessação do contrato de trabalho (S. 326 do TST). A pretensão a diferenças de complementação de aposentadoria sujeita-se à prescrição parcial e quinquenal, salvo se o pretenso direito decorrer de verbas não recebidas no curso da relação de emprego e já alcançadas pela prescrição, à época da propositura da ação (S. 327 do TST). Tratando-se de pedido de diferença de gratificação semestral que teve seu valor congelado, a prescrição aplicável é a parcial (S. 373 do TST). O prazo de prescrição com relação à ação de cumprimento de decisão normativa flui apenas a partir da data de seu trânsito em julgado (S. 350 do TST). Entretanto, a ação de cumprimento não necessita do trânsito em julgado do dissídio coletivo para ser proposta. Assim, o prazo de prescrição deveria ser contado a partir de dois anos a contar do término do contrato de trabalho, observado o prazo de cinco anos para a propositura da ação. Embora haja previsão legal para o direito à hora extra, inexiste previsão para a incorporação ao salário do respectivo adicional, razão pela qual deve incidir a prescrição total (OJ 242 da SBDI-1 do TST). Se existe pré-contratação das horas extras e elas são suprimidas, opera-se a prescrição total se a ação não for ajuizada no prazo de cinco anos, a partir da data em que foram suprimidas (S. 199, II, do TST). A interrupção da prescrição somente ocorrerá pelo ajuizamento de reclamação trabalhista, mesmo que em juízo incompetente, ainda que venha a ser extinta sem resolução do mérito, produzindo efeitos apenas em relação aos pedidos idênticos (§ 3º do art. 11 da CLT, S. 268 do TST). O marco inicial da contagem do prazo prescricional para o ajuizamento de ação condenatória, quando advém a dispensa do empregado no curso de ação declaratória que possua a mesma causa de pedir remota, é o trânsito em julgado da decisão proferida na ação declaratória e não a data da extinção do contrato de trabalho (OJ 401 da SBDI-1 do TST). Tratando-se de pedido de pagamento de diferenças salariais decorrentes da inobservância dos critérios de promoção estabelecidos em Plano de Cargos e Salários criado pela empresa, a prescrição aplicável é a parcial, pois a lesão é sucessiva e se renova mês a mês (S. 452 do TST). Ocorre a prescrição intercorrente no processo do trabalho no prazo de dois anos (art. 11- A da CLT). É a prescrição que ocorre no curso da execução. A fluência do prazo prescricional intercorrente inicia-se quando o exequente deixa de cumprir determinação judicial no curso da execução. A declaração da prescrição intercorrente pode ser requerida ou declarada de ofício em qualquer grau de jurisdição. Questões Qual a diferença entre prescrição e decadência? Quais são os fundamentos da prescrição? Qual é o prazo de prescrição para o trabalhador avulso? Qual é o prazo de prescrição para o empregado doméstico? Os atos nulos prescrevem no Direito do Trabalho? Por quê? Qual é a prescrição para o empregador?