Prévia do material em texto
MORTE DIGNA NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA: ANÁLISE DO CASO NANCY CRUZAN José Eduardo de Siqueira Doutor em Medicina pela Universidade Estadual de Londrina (UEL); Mestre em Bioética pela Universidade do Chile; Professor Titular do Curso de Medicina da PUCPR; Coordenador do Curso de Medicina da PUCPR/Campus Londrina; Professor do Programa de Pós-Graduação em Bioética da PUCPR – Curitiba – Paraná- Brasil. Jussara Maria Leal de Meirelles Doutora em Direito das Relações Sociais pela UFPR; Pós-Doutorado no Centro de Direito Biomédico da Universidade de Coimbra; Professora do Programa de Pós-Graduação em Direito Econômico e Socioambiental (Mestrado e Doutorado) e do Programa de Pós-Graduação em Bioética (Mestrado) da PUC-PR. Curitiba – Paraná - Brasil. Sumário: 1. Breve histórico do caso – 2. O processo judicial e seus desdobramentos – 3. Outras reflexões derivadas da decisão da suprema corte – 4. Sobre a morte e o morrer na era da medicina tecnológica – 5. A eutanásia e a legislação brasileira – 6. Considerações finais – 7. Referências. 1. BREVE HISTÓRICO DO CASO Na noite do dia 11 de janeiro de 1983, a jovem de 25 anos Nancy Cruzan, ao dirigir próximo à cidade de Carteville, no Estado de Missouri, perdeu o controle de seu carro e após capotar, teve seu corpo arremessado para fora do veículo, tendo sido encontrada por prof issionais paramédicos inconsciente e sem sinais vitais. Os atendentes procederam as manobras de reanimação cardiorrespiratória e a transpor- taram para hospital da região. Examinada por neurocirurgião que após estimar ter transcorrido prazo superior a dez minutos para que a recuperação dos dados vitais da paciente fosse restaurada, condição que teria promovido anoxia severa ao sistema nervoso central, formulou a hipótese diagnóstica de dano cerebral irreversível com provável estado vegetativo persistente (EVP). Após a internação, Nancy permaneceu em estado de coma por três semanas, sem esboçar qualquer sinal de retomada de contato com o meio ambiente. Como deglutia irregularmente, a equipe médica optou por alimentá-la por sonda gástrica, procedimento consentido pelo seu esposo. Passados dez meses de internação, em outubro do mesmo ano, não tendo ocorrido mudança no quadro clínico, com diagnóstico def initivo de EVP, os pais e o marido da paciente solicitaram aos médicos a suspensão dos procedimentos de suporte vital, incluindo alimentação e hidratação. Argumentaram os familiares que, conforme explicação detalhada dos prof issionais de saúde, o EVP constituía condição clínica irreversível e que Nancy jamais recuperaria vida de relação, permanecendo indef inidamente em estado vegetativo. O hospital e a equipe médica se negaram a atender à solicitação dos familiares, admitindo rever a decisão somente diante da apresentação de uma ordem judicial que determinasse expressamente a suspensão dos procedimentos que mantinham a vida da paciente. A busca empreendida pelos familiares para a obtenção da ordem desencadeou um prolongado debate na esfera judicial, cujos pormenores vêm apresentados a seguir, neste ensaio. 2. O PROCESSO JUDICIAL E SEUS DESDOBRAMENTOS Em primeiro grau de jurisdição, o pedido dos familiares de Nancy foi julgado procedente, tendo sido concedida a ordem de interrupção do tratamento. No entanto, um Curador nomeado pelo mesmo Tribunal do Estado de Missouri, considerando haver possível conf lito de interesses entre Nancy e seus familiares peticionantes, recorreu à Suprema Corte do Estado, que reformou a decisão, recusando o pedido de interrupção dos procedimentos de suporte vital, por entender inexistir, no momento, prova clara e convincente de expressão da vontade autônoma da paciente. Os pais recorreram, então, à Suprema Corte do país, alegando violação a um direito constitucional de Nancy, qual seja o de rejeitar um tratamento médico não desejado. Alegaram os familiares peticionantes que a jovem, em conversa pretérita mantida com colega de quarto, por ocasião do período de graduação acadêmica, havia explicitamente declarado sua vontade de renunciar a tratamentos fúteis caso padecesse de enfermidade incurável que a mantivesse em estado vegetativo. Observa-se que a grande questão que chegou à Suprema Corte dos Estados Unidos, de início, era se as cláusulas constitucionais do devido processo legal e da igual proteção concedida pela lei permitiriam que os pais de Nancy decidissem pela recusa em manter a vida da f ilha, ainda que em EVP. No entendimento dos progenitores, na condição de autênticos representantes da paciente, então inconsciente, teriam sim, o direito de solicitar fossem cumpridas as manifestações prévias de vontade da f ilha, o que justif icaria, portanto, a suspensão das medidas de suporte vital que mantinham Nancy artif icialmente viva. Argumentaram, outrossim, que o direito constitucional à privacidade, permitiria que a decisão de suspender as medidas de suporte artif icial da vida da paciente fosse tomada diretamente com os médicos. Entretanto, o problema passou a assumir contornos ainda mais abrangentes e de difícil solução imediata, pois qualquer decisão tomada pela Suprema Corte não afetaria tão somente o caso em pauta, já que à época, outras dez mil pessoas nos EUA sobreviviam em EVP dependentes dos mesmos procedimentos de suporte artif icial da vida que eram ofertadas à Nancy. Por essas razões, enquanto os familiares de Nancy lutavam pela ordem judicial que desse f im ao estado vegetativo da f ilha, tanto o Procurador Geral do Estado de Missouri, Robert Pressen, quanto o representante do Presidente Bush, Kenneth Starr, defenderam a tese de que ao Estado cabia, acima de quaisquer outros interesses, o dever de proteger a vida como um bem de valor superior e, portanto, indisponível. Em 25 de junho de 1990, a Suprema Corte dos Estados Unidos, em uma decisão bastante estreita - por 05 (cinco) votos a 04 (quatro) - concluiu que, embora todos os cidadãos norte-americanos detivessem o direito de recusar tratamento médico, pessoas incapacitadas para fazê-lo expressamente estariam inaptas para exercê-lo. Assim sendo, os Estados só poderiam autorizar medidas dessa natureza quando o próprio paciente fosse capaz de expressar sua vontade de forma “clara e convincente”. Tais precauções se mostravam procedentes, posto que era razoável considerar a possibilidade real da ocorrência de eventuais “abusos” em outras circunstâncias clínicas similares ao EVP, e que igualmente poderiam postular a suspensão de terapias consideradas fúteis. Nesse ponto, a Corte demonstrou estar em dúvida sobre se a família, na ausência de uma prova “clara e convincente”, estaria a cumprir o real desejo da paciente. Por outro lado, foi levado em consideração as consequências irreversíveis de uma eventual decisão errônea, pois teria como resultado inevitável a morte da paciente. Em agosto de 1990, os pais da paciente ajuizaram outra ação no Tribunal do Estado de Missouri, alegando terem obtido novas provas, reveladas por depoimentos de três amigas que conviveram com Nancy e que declaravam ter ouvida dela própria o desejo de não ser mantida artif icialmente com vida e que se dispunham a testemunhar em favor do pedido dos pais para que fossem suspensas as medidas extraordinárias de suporte vital que mantinham Nancy viva. Desta feita, o tribunal concedeu provimento ao pedido dos pais e, por outro lado, o Procurador Geral do Estado entendeu por bem não recorrer da decisão. Tendo sido suspensas todas as medidas de suporte artif icial de vida, Nancy Cruzan faleceu em 26 de dezembro de 1990. 3. OUTRAS REFLEXÕES DERIVADAS DA DECISÃO DA SUPREMA CORTE Muito embora a decisão da Suprema Corte dos EUA tenha negado o pedido dos familiares de Nancy Cruzan, alguns dos fundamentos utilizados pelos julgadores foram considerados, à época, um avanço na maneira de compreender casosde EVP ou outros que guardassem semelhança, como seria a condição reconhecida como “suicídio assistido”, importa aqui fazer a devida distinção entre a expressão “suicídio assistido” e os termos eutanásia, distanásia, mistanásia e ortotanásia. Em rápidas palavras, eis que o espaço reservado para o presente ensaio não comporta considerações mais profundas. A eutanásia caracteriza-se por ser um ato de compaixão, no sentido de causar a morte sem sofrimento a um doente que sofre de enfermidade grave e reconhecidamente incurável e terminal. Trata-se, entretanto, de uma prática ativa, realizada por meio de injeção de droga com a declarada intenção de promover a morte do paciente, procedimento esse vedado pelo código de ética médica brasileiro. A mistanásia ou eutanásia social é compreendida como a eliminação de pessoas em decorrência de condições sociais iníquas como a fome e a miséria absoluta. É a chamada “morte severina”, descrita no poema de João Cabral de Melo Neto como “a morte da velhice antes dos trinta e de fome um pouco por dia”. A distanásia consiste no prolongamento artif icial da vida do paciente em estado terminal por meio de procedimentos médicos desproporcionais e fúteis, já que em nada modif icam o prognóstico do caso, apenas adiando o momento do passamento do enfermo, também denominado pelos autores de língua espanhola como “encarniçamento terapêutico”. Já o termo ortotanásia é utilizado para def inir a morte natural, no seu tempo certo, de forma digna, com o emprego de medidas terapêuticas proporcionais, por meio de cuidados paliativos que visam o bem-estar do paciente, condição essa reconhecida como boa prática médica pelo ordenamento deontológico do exercício da medicina. Por f im, o suicídio assistido, muitas vezes erroneamente confundido com a prática da eutanásia, e que ocorre quando o paciente, impossibilitado de praticar por si mesmo o ato de tirar a própria vida, recebe auxílio de terceiro para concretizar sua vontade, seja mediante a administração de drogas letais, seja mediante mero encorajamento, instigação ou induzimento ao ato propriamente dito Nota-se, também que a maioria dos juízes norte-americanos, ao deixarem de atender ao pleito dos pais de Nancy por entenderem inexistir uma prova convincente do desejo da paciente em não ser mantida em estado vegetativo, reconheceram, embora de forma um pouco oblíqua, a liberdade constitucional de qualquer outro enfermo em rejeitar tratamento médico que o mantivesse vivo contra sua própria vontade. Também se percebe que a Suprema Corte não estabeleceu distinção entre alimentação, hidratação, uso de medicamentos ou quaisquer outros procedimentos médicos de manutenção da vida humana. Daí ser possível concluir que a preocupação dos juízes era a de autorizar ou não a interrupção da vida da paciente, não interessando ao foco do julgado quais os meios que a mantinham viva. Isso é bastante signif icativo, pois afasta a ideia muitas vezes simplista de se entender que a decisão de interromper a vida humana somente poderia ser autorizada se os métodos de manutenção fossem considerados “artif iciais”, o que poderia levar à conclusão equivocada de que tanto a alimentação, quanto a hidratação por serem consensualmente considerados procedimentos naturais, não poderiam merecer o amparo tal decisão. Por f im, importa ressaltar o relevo dado pela Suprema Corte às manifestações de vontade dos pacientes antes de entrarem no estado de inconsciência. Nesse sentido, vale aqui lembrar a importância da Resolução do Conselho Federal de Medicina, sob nº 1995, de 09 de agosto de 2012, que trata das chamadas Diretivas Antecipadas de Vontade (DAV), e que consistem no “...conjunto de desejos, prévia e expressamente manifestados pelo paciente, sobre cuidados e tratamentos que quer, ou não, receber no momento em que estiver incapacitado de expressar, livre e autonomamente, sua vontade”. 4. SOBRE A MORTE E O MORRER NA ERA DA MEDICINA TECNOLÓGICA “Houve um tempo em que nosso poder perante a morte era muito pequeno. E, por isso, os homens e as mulheres dedicavam-se a ouvir a sua voz e podiam tornar-se sábios na arte de viver. Hoje, nosso poder aumentou, a morte foi denida como inimiga a ser derrotada, fomos possuídos pela fantasia onipotente de nos livrarmos de seu toque. Com isso, nós nos tornamos surdos às lições que ela pode nos ensinar. E nos encontramos diante do perigo de que, quanto mais poderosos formos perante ela (inutilmente, porque só podemos adiar...), mais tolos nos tornamos na arte de viver. E, quando isso acontece, a morte que poderia ser conselheira sábia transforma-se em inimiga que nos devora por detrás.” A partir da segunda metade do passado século, a Medicina passou a incorporar um extraordinário avanço tecnológico que facultou aos prof issionais de saúde a manutenção de suporte artif icial da vida mesmo em pacientes portadores de enfermidades incuráveis em situações clínicas de terminalidade da vida. Se no início do século XX, o tempo estimado de sobrevida desses pacientes não ultrapassava cinco dias, com os recursos que passaram a estar disponíveis a partir dos anos 1970, esse intervalo de tempo cresceu dez vezes e os médicos passaram a sentir-se obrigados a utilizar todos os procedimentos disponíveis, não importando quão limitado fosse o prognóstico do caso em pauta. Esse comportamento desarrazoado passou a ser conhecido como distanásia, obstinação ou futilidade terapêutica, ou seja, além de não proporcionar cura, prolongava de maneira insensata a agonia do paciente, motivo pelo qual os Conselhos Médicos incluíram em suas normativas deontológicas a vedação de sua prática. Autores, como Bernard Lown, entre outros, apontaram como o principal responsável por esse desvio na formação prof issional, a exagerada ênfase dada a disciplinas curriculares que ministram ensinamentos referentes à área de tecnologias médicas em detrimento daquelas que deveriam oferecer conteúdos de humanidades médicas. Assim se expressou o então Professor de Cardiologia da Faculdade de Medicina de Harvard: “As escolas de medicina e o estágio nos hospitais os preparam [os estudantes] para tornarem-se oficiais maiores da ciência e gerentes de biotecnologias complexas. Muito pouco se ensina sobre a arte de ser médico. A realidade mais fundamental é que houve uma revolução biotecnológica que possibilita o prolongamento interminável do morrer” Com semelhante percepção, Sherwing Nuland, Professor de Cirurgia e História da Medicina da Universidade de Yale, publicou em 1993 “How we die”, obra traduzida para vários idiomas, sendo de 1995, a versão em português, onde o eminente cirurgião assim descreveu o processo de despersonalização do paciente: “O paciente é a cada dia menos um ser humano e mais um complicado desao na terapia intensiva, testando o gênio de alguns dos mais brilhantemente agressivos dos guerreiros clínicos do hospital (...) permanece um pouco da pessoa que ele foi, mas para os superespecialistas que titulam as últimas evidências moleculares de sua vitalidade reduzida, ele é um caso. Se ao moribundo ainda restou alguma sorte, ele, a essa altura, não está mais consciente do drama em que é o ator principal.” Concordamos com os supracitados professores norte-americanos, que parte signif icativa desse desvio na formação prof issional deve ser atribuída ao aparelho formador que se esmera em preparar médicos com conhecimentos e habilidades técnicas, subestimando os aspectos psicossociais e espirituais do enfermo, circuns- tância que acabou por descaracterizar a verdadeira arte médica, segundo o propósito originalmente descrito por Hipócrates, no século IV aC. O fato é que cresceu enor- memente o poder da medicina tecnológica sem que ocorresse simultaneamente a necessária ref lexão ética sobre o impacto dessas condutas na qualidade de vida dos pacientes.Todavia, seria ocioso ressaltar os benefícios obtidos por meio da adoção de procedimentos médicos invasivos em pacientes portadores de doenças agudas ameaçadoras da vida, bastando para tanto considerar a impressionante queda na mortalidade decorrente de infarto agudo do miocárdio. Igualmente importante destacar o fato de pessoas que foram benef iciadas por cirurgia de revascularização miocárdica ou pela introdução de stents na luz das artérias coronárias ocluídas por ateromas, que ao se restituir o f luxo sanguíneo arterial garantiram a plenitude da função mecânica do coração, condição indispensável para manter a vida do organismo como um todo. Ocorre que nossas UTIs, ao mesmo tempo em que realizam esses verdadeiros “mi- lagres”, continuam recebendo pacientes portadores de doenças crônicas incuráveis ou em estado vegetativo persistente, como o caso de Nancy Cruzan, que têm suas mortes adiadas às custas de uma agonia prolongada e preenchida por injustif icável sofrimento. Desse modo, os médicos permaneceram moralmente imobilizados e dominados pela dúvida sobre o real signif icado da vida e da morte e tornando-se impotentes para reconhecer o momento sensato de suspender os procedimentos de suporte artif icial da vida, aturdidos ante a questão de quando interrompê-los e quais deveriam ser os valores morais e legais que suportariam tais decisões. A pediatra norte-americana Karen Teel publicou em 1975, no periódico jurídico Baylor Law Review, artigo com o título “The Physician’s Dilema - A Doctor’s view: What the law should be”. No texto, a autora pede auxílio aos operadores do Direito para produzirem um instrumento que pudesse oferecer amparo legal às decisões médicas diante dos complexos problemas morais presentes na f initude da vida. Argumentou, a autora que várias crianças portadoras de enfermidades terminais, estavam sendo mantidas artif icialmente vivas, ao tempo em que se lhes impunha enormes sofrimentos, extensivos a seus familiares. Como o Poder Judiciário poderia auxiliar os médicos a tomar decisões mais humanas e sensatas com vistas a minimizar os injustif icáveis sofrimentos impostos aos pequenos enfermos e seus familiares, era o que indagava a pediatra. Nos EUA, o debate sobre essa temática teve início em 1976, no Estado da Califórnia, com o reconhecimento do direito de qualquer pessoa registrar suas vontades prévias em forma de um documento dotado de validade jurídica, instrumento que f icou conhecido como “living will”. Nesse mesmo ano, a Suprema Corte do Estado de New Jersey emitiu uma sentença acolhendo o pedido de suspensão dos procedimentos médicos artif iciais que mantinham viva a jovem Karen Ann Quinlan, que há meses permanecia inalterada em estado vegetativo persistente - EVP. Os pais de Karen, tais quais os de Nancy, enfrentaram uma longa batalha judicial até a decisão unânime da Suprema Corte do Estado que reconheceu-lhes o direito de decidir pela f ilha. Importante resgatar o roteiro adotado pelo tribunal para assentir com o pleito dos genitores da jovem. Foram examinados vários argumentos, sempre partindo do pressuposto que a questão central não era simplesmente a questão da morte, mas sim a pertinência de interromper o tratamento de uma pessoa que sofrera danos neurológicos severos e irreversíveis. Considerou-se, portanto, que o ponto em discussão deveria ser o direito de abrir mão de tratamento que visasse prolongamento artif icial da vida em pessoa incapaz de manifestar sua vontade por estar em estado vegetativo. Assim sendo, o entendimento unânime dos juízes foi o de que a família de Karen seria judicialmente competente para tomar todas as decisões que eles considerassem adequadas e respeitassem os melhores interesses da paciente. Por outro lado, a decisão do tribunal deixou claro que os princípios deontológicos da corporação médica não poderiam representar um peso decisivo quando se estava julgando se era ou não razoável a recusa de tratamento por parte dos representantes legais da paciente. Curiosamente, no caso de Karen Quinlan, o Presidente do Supremo Tribunal, juiz Richard Hughes, inspirado pela leitura do artigo de Karen Teel publicado no mesmo ano na Baylor Law Review e presumindo a existência de um Comitê de Ética do Hospital St. Clair, onde estava internada a paciente, motivo daquela ação penal, solicitou o Magistrado que aquele colegiado que tratava de questões éticas se pronunciasse sobre o prognóstico da paciente e que assegurasse que ela estaria def initivamente incapacitada para reassumir qualquer forma de vida de relação. Todavia, o Comitê não existia of icialmente, o que obrigou gestores e médicos do hospital, a implantá-lo incontinente, para que pudessem atender à ordem do juiz. Após ter sido regularmente instalado, o Comitê emitiu parecer declarando que a paciente tinha seu estado de coma irreversível, o que conf irmava o EVP. Mesmo tendo suspensa a assistência ventilatória, Karen permaneceu com vida em EVP por mais longos nove anos até seu falecimento. Segundo a f ilósofa Marilena Chauí, vivemos num mundo dominado pelos avanços da tecnologia e cujo “progresso” sequestra a identidade das pessoas e que mesmo aqueles que circunstancialmente podem usufruir dos resultados da fartura trazidos pela ciência e pela tecnologia tornam-se reféns daquilo que o pensador Otá- vio Paz interpretou como sendo a condição de o progresso ter preenchido a história humana com as maravilhas e os monstros da tecnologia, ao mesmo tempo em que roubava dos indivíduos a essência de suas vidas pessoais, dando-lhes mais coisas e simultaneamente retirando-lhes a condição de seres biográf icos9. Ramón Sampedro, morador da província de La Coruña, no noroeste da Espanha, que sobreviveu tetraplégico por 30 anos, deixou como legado pessoal inúmeras correspondências dirigidas às autoridades de seu país e, até mesmo, ao Tribunal de Direitos Humanos de Estrasburgo, pleiteando o direito de recorrer ao suicídio assistido para interromper seu prolongado e insuportável sofrimento existencial. Toda essa correspondência foi reunida em uma publicação que teve como título “Cartas do Inferno”, que inspirou o f ilme Mar Adentro, dirigido por Alejandro Amenábar, contemplado em 2005 com o Oscar de melhor f ilme estrangeiro. Pois bem, uma das cartas mais pungentes de Ramón era dirigida a Deus, nos seguintes termos: Querido Deus: em maior ou menor grau, todas as religiões propõem o sofrimento como meio de puricação espiritual. Segundo elas, a verdadeira vida está depois da morte. Para que somos racionais então? Para nos transformar em sofredores vocacionais? Para nos convencer é muito comum se recorrer à exemplaridade do paciente sofredor. Mas se alguns seres humanos, para compreender o quanto são afortunados, necessitam ver outros sofrerem, é porque estão incapacitados para amar. Não é então nenhuma vontade suprema que nega à pessoa o legítimo direito de se libertar do sofrimento, mas sim a corrupção moral do ser humano que se converte em um parasita da dor dos demais sempre que lhe traga algum benefício ou satisfação pessoal. A maior das corrupções morais do ser humano é, sem dúvida, ter procurado justicar o sofrimento como meio de ganhar a benevolência da vontade do princípio criador da vida.” A percepção de que a ciência poderia trazer respostas satisfatórias para todas as formas de sofrimento humano, f icou provado ser equivocada, o que nos obri- gou, desde então, a preservar o espírito crítico, reconhecendo como inconsequente qualquer postura obscurantista que pretendesse conter os avanços da tecnociência sob a alegação de que os mesmos poderiam impor riscos inaceitáveis para a espécie humana, mas seria igualmente insensato cultivar um otimismo acrítico, glorif icando todos os avanços da biomedicina. Outrossim, faz-se imperioso acolher o paciente em sua dimensão psicossocial e espiritual,pois inúmeros são os dados da literatura que evidenciam um despreparo dos prof issionais de saúde em compreender o sofrimento protagonizado por pessoas portadoras de enfermidades incuráveis e terminais. Praticar uma Medicina que privilegia a manutenção artif icial de variáveis f isiológicas por meio de procedimentos tecnocientíf icos sem considerar os sofrimentos decorrentes de uma agonia prolongada é seguramente desumano. Tese de doutorado apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), tendo como objetivo estudar a conduta de 107 médicos intensivistas das onze UTIs do complexo do Hospital das Clínicas da USP, mostrou quão distantes estamos de um atendimento humanizado à pacientes portadores de EVP. Tratamentos invasivos como ventilação mecânica, uso de drogas vasoativas e, até mesmo, hemodiálise em enfermos incuráveis e portadores de EVP, foram mantidos por signif icativa parcela dos médicos intensivistas entrevistados, o que além de práticas desprovidas de amparo ético, são reconhecidas como procedimentos desproporcionais pelo Conselho Federal de Medicina. Há que se compreender, todavia, que tal comportamento dos médicos encontra explicação no temor dos prof issionais em tornarem-se passíveis de processos judiciais sob a alegação de possível omissão de socorro ao suspenderem as medidas de suporte artif icial da vida daqueles pacientes. Inevitavelmente cada vida humana chega ao seu f inal. Assegurar que essa passagem ocorra de forma digna, com cuidados médicos e buscando-se o menor sofrimento possível é missão daqueles que assistem os pacientes terminais. A pergunta central que se impõe aos médicos é sobre o que ocorreu com o exercício da Medicina na sociedade contemporânea que permitiu transformá-la em prática impessoal dependente de equipamentos. O modelo cartesiano-f lexneriano, matriz clássica da formação médica, introduziu práticas na atenção à saúde que resultaram em signif icativas mudanças no relacionamento médico-paciente. O extraordinário avanço da tecnologia biomédica aliada ao uso acrítico de métodos de semiologia armada descaracterizou a medicina como arte levando o prof issional a se distanciar das dimensões psicossociais das pessoas enfermas. Efetivamente, como previra nos anos 1970, Andres Hellegers, fundador do Instituto Kennedy de Bioética, nossos problemas em Medicina no alvorecer do século XXI, seriam cada vez mais éticos e menos técnicos. A ética médica tradicional concebida pelo modelo hipocrático é marcada pela assimetria de poder entre médico e paciente. Outorga ao primeiro a responsabilidade de formular e tomar todas as decisões diagnósticas e terapêuticas, restando ao paciente apenas a obrigação de obedecê-las. Assim, até a primeira metade do século XX, qualquer ato médico era julgado levando-se em conta apenas a competência técnica do prof issional subestimados os valores e crenças dos enfermos. Somente a partir da década de 1960, os códigos de ética prof issionais passaram a reconhecer o paciente como agente autônomo capaz de opinar e tomar decisões sobre procedimentos a serem realizados em seu próprio corpo. O atual ordenamento deontológico médico brasileiro estabelece no parágrafo único do artigo 41, a seguinte norma: “Nos casos de doença incurável e terminal, deve o médico oferecer todos os cuidados paliativos disponíveis sem empreender ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas, levando sempre em consideração a vontade expressa do paciente ou, na sua impossibilidade, a de seu representante legal.” No mesmo sentido, o Código de Ética Médica Canadense, atualizado em 2004, ao apresentar as “dez responsabilidades fundamentais” atribuídas aos médicos, no que tange ao tema da terminalidade da vida, estabelece a necessidade de: “Prover cuidados apropriados ao seu paciente, mesmo quando a cura não é mais possível, incluindo-se o conforto físico e espiritual, bem como o suporte psicossocial”. Igualmente, a Associação Médica Americana, em sua Declaração sobre cuidados no f im da vida, publicada em 2005, considera que na fase nal da vida [...] os pacientes devem conar que seus valores pessoais terão prioridade, seja na comunicação com a família e seus amigos, no cuidado de necessidades espirituais, na tarefa de concluir uma questão de natureza moral ainda pendente ou na escolha do local de seu passamento. Essas percepções concordantes dos legisladores dos códigos deontológicos prof issionais resgatam o ensinamento contido no antigo aforismo, de autoria ainda controversa, que a Medicina deve ser reconhecida como a arte de “curar às vezes, aliviar muito frequentemente e confortar sempre”. Portanto, a obsessão em manter a vida biológica a qualquer custo não mais tem amparo moral. Para aqueles que ainda defendem a tese de ser a vida um bem sagrado e por nenhuma justif icativa possa se afastar da determinação de tudo ser feito enquanto restar mesmo que apenas um “débil sopro de vida”, recomenda-se a leitura do documento sobre eutanásia publicado em 1980 pela Igreja Católica, que assim se pronunciou sobre a questão da futilidade terapêutica: “É sempre lícito contentar-se com os meios normais que a medicina proporciona e renunciar a certas intervenções médicas inadequadas a situações reais do doente, porque não proporcionadas aos resultados que se poderiam esperar ou ainda porque demasiado gravosas para ele [paciente] e sua família. Na iminência de morte inevitável, é lícito em consciência tomar a decisão de renunciar a tratamentos que dariam somente prolongamento precário e penoso da vida…” O propósito dos cuidados paliativos como nova especialidade médica, parte de visão mais abrangente do adoecer e propõe aos prof issionais de saúde um modelo de cuidados holísticos que levem em conta todas as dimensões que integram a vida do paciente. A compaixão deve estar presente em todas as ações nessa ordem de cuidados e pode ser resumida no termo hospitalidade, cuja raiz latina hospitale, deu origem às palavras hospital, hospitaleira e do inglês hospice. Nesse momento especial da existência do paciente, marcado pela f initude de sua vida e pela mais profunda expressão da vulnerabilidade humana, o encontro dos cuidadores com o enfermo impõe que os prof issionais de saúde promovam o acolhimento incondicional como a mais genuína expressão do amor ao paciente. Nessa circunstância, especialmente, a pessoa do cuidador deve assumir um novo signif icado, qual seja o de estar preparado para ouvir atentamente as angústias existenciais dos pacientes que se fazem presentes no momento de despedida da vida. O objetivo maior, portanto, é o de auxiliar o paciente no processo de enfrentar o f im de sua vida pessoal com o máximo de serenidade possível. Elizabeth Kubler-Ross, pioneira na abordagem das questões relacionadas à f initude da vida, publicou em 1969 “On Death and Dying”, obra traduzida para o português em 1981 e que traz na contracapa a seguinte recomendação: “Neste livro, transcrevo simplesmente as experiências de meus pacientes que me comunicaram suas agonias, expectativas e frustrações. É de se esperar que outros se encorajem a não se afastarem dos doentes ‘condenados’, mas a se aproximarem mais deles para melhor ajudá-los em seus últimos momentos.” Harding argumenta que insuportável não é simplesmente a presença da dor física, mas a falta de sentido que a acompanha e o sofrimento que marca de maneira indelével a f initude da vida. Por outro lado, a espiritualidade diz respeito à busca do ser humano pelo sentido e signif icado transcendental da vida. A religião, por sua vez, é um conjunto de crenças e ritos próprios de uma comunidade particular de devotos que busca por um signif icado imanente da vida perante os diferentes infor- túnios que cercam a existência humana, desde o nascimento até a morte. O cultivo da espiritualidade pode propiciara sensação de bem-estar, conforto e esperança, o que torna necessário dotar os serviços de saúde públicos e privados de condições adequadas para ofertar esse tipo de assistência aos pacientes. Os prof issionais que atuam nas Unidades de Terapia Intensiva lidam frequentemente com a questão da terminalidade da vida, entretanto, desconhecem as possíveis consequências jurídicas da não indicação de procedimentos como a ordem de não reanimação, ou, mais grave ainda, a retirada de procedimentos de suporte artif icial da vida. O médico teme pelos riscos de se expor a possíveis processos civis ou criminais caso registre no prontuário suas decisões diante de um caso de enfermidade terminal. 5. A EUTANÁSIA E A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA Não há no Direito brasileiro atual, norma específ ica sobre a eutanásia. Tam- pouco há previsão legislativa sobre distinções entre os termos eutanásia, distanásia, mistanásia, ortotanásia, bem como a seus signif icados, limites e possibilidades de caracterização. Isso se dá em razão da def inição legal do crime de homicídio (art. 121 do Código Penal) ou do crime de auxílio ou induzimento ao suicídio (art. 122 do Código Penal). Há, no entanto, possibilidade também prevista em lei de que o agente que comete o homicídio possa receber tratamento penal privilegiado, atenuando-se a pena, pelo relevante valor moral que motivou o agente (há possibilidade legal de o juiz reduzir a pena de um sexto a um terço). Mas importa observar que, mesmo nos casos em que o homicídio possa receber tratamento legal dito privilegiado não se leva em conta ter havido ou não consentimento da vítima para descaracterizar a prática como criminosa, pois o ato em si continua sendo tipif icado como crime. No Projeto de Lei que pretende promover a reforma do Código Penal brasileiro (PLS 236/2012), a previsão sobre a eutanásia é exposta nos seguintes termos: Eutanásia: § 3.º. Se o autor do crime é cônjuge, companheiro, ascendente, descendente, irmão ou pessoa ligada por estreitos laços de afeição à vítima, e agiu por compaixão, a pedido desta, imputável e maior de dezoito anos, para abreviar-lhe sofrimento físico insuportável, em razão de doença grave e em estado terminal, devidamente diagnosticados: Pena: reclusão, de dois a cinco anos. Exclusão de ilicitude:§ 4.º. Não constitui crime deixar de manter a vida de alguém por meio articial, se previamente atestada por dois médicos a morte como iminente e inevitável, e desde que haja consentimento do paciente ou, em sua impossibilidade, de cônjuge, companheiro, ascendente, descendente ou irmão. Observa-se, portanto, ao menos pela redação atual do Projeto de Lei, a tendên- cia de manter criminalizada a eutanásia, exceto quando o agente deixar de manter a vida de alguém por meio artif icial, ou seja, dependente de aparelhos, desde que https://app.vlex.com/vid/38859569 https://app.vlex.com/vid/38859569 https://app.vlex.com/vid/38859569 https://app.vlex.com/vid/38859569 https://app.vlex.com/vid/38859569 previamente atestada por dois médicos a morte como iminente e inevitável, e desde que haja consentimento do paciente ou de parentes. Além das normas penais aplicáveis a todos os cidadãos, existe ainda sobre o tema a normativa aplicável somente aos prof issionais da Medicina, uma vez que oriunda do órgão de classe que rege a prof issão. É o que vem contido na Resolução 1.805/06 do Conselho Federal de Medicina, que permite ao médico “limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente em fase terminal, de enfermidade grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante legal.” Cumpre assinalar que essa Resolução foi motivo de Ação Civil Pública que resultou, inicialmente, na suspensão liminar de sua vigência, em outubro de 2007. Em sua petição inicial, o Procurador da República af irmou que “a ortotanásia não passa de artifício homicida; expediente desprovido de razões lógicas e violador da Constituição Federal, mero desejo de dar ao homem, pelo próprio homem, a possibilidade de uma decisão que nunca lhe pertenceu”22. Posteriormente, em fevereiro de 2011, o mesmo magistrado reviu seu entendimento anterior, revogando a liminar e assim fundamentou sua decisão f inal: “sobre muito ref letir a propósito do tema, chego à convicção de que a Resolução [Resolução CFM 1.805/06] que regulamenta a possibilidade de o médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente na fase terminal realmente não ofende o ordenamento jurídico” Tal revogação permitiu reconhecer a legalidade da Resolução para todo país. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS O espantoso crescimento da produção científ ica em todas as áreas do conhe- cimento obrigou a universidade moderna a multiplicar o número de disciplinas acadêmicas, o que resultou numa progressiva atomização do conhecimento e no distanciamento entre as diferentes áreas do saber. Segundo Habermas, o caminho mais adequado para revitalizar o espírito cooperativo na sociedade somente poderá ser feito por meio de diálogo inclusivo num ambiente de pluralismo moral em que se respeite a autonomia de escolha de cada indivíduo como autêntico membro da comunidade humana de comunicação. Para alcançar esse objetivo na relação médico-paciente será necessário introduzir profundas mudanças nos conteúdos ministrados no curso de Medicina, que permitam estimular a realização de processo deliberativo entre os dois protagonistas e reconhecer como imprescindível oferecer ao paciente todas as informações referentes aos procedimentos diagnósticos e terapêuticos eventualmente indicados para o tratamento de sua enfermidade. A comunidade atual de docentes dos cursos de Medicina é composta por um conjunto de prof issionais dotado de indiscutível saber científ ico, com sólidos conhecimentos técnicos, entretanto, pouco habituada a prática do processo deliberativo, que somente será ef icaz se realizada por meio de diálogo simétrico e respeitoso entre médico e paciente. O maior obstáculo para alcançar esse desiderato encontra-se na extrema dif iculdade para inserir temas de humanidades na grade curricular dos cursos de Medicina que tradicionalmente privilegiam os conteúdos de ordem técnica, em detrimento dos humanistas. Como resultado desse modelo pedagógico herdado do racionalismo científ ico, os estudantes de Medicina estão sendo educados para interpretar a doença como https://app.vlex.com/vid/38915377 fenômeno estritamente biológico, subestimando-se os aspectos psicossociais e espirituais dos pacientes. Despreparados para avaliar os complexos conf litos morais presentes no processo da morte e do morrer, os médicos sentem-se inseguros para tomar decisões relativas à introdução ou retirada de suportes artif iciais de vida nos casos de enfermidades terminais. Portanto, o enorme desaf io que se apresenta aos responsáveis em formar prof issionais de saúde que estejam sintonizados com a realidade de uma sociedade que cultiva o pluralismo moral e a autonomia do ser humano pode ser formulado por meio do seguinte dilema: manter o atual modelo pedagógico, tributário do imperativo cartesiano-f lexneriano ou acolher a proposta socrática-habermasiana de utilizar metodologias ativas de ensino que possibilitem formar egressos dotados de novas atitudes de responsabilidade social e que respeitem os valores e crenças dos pacientes ! A adoção da primeira alternativa certamente redundará, como a experiência nos tem demonstrado, em formar mais do mesmo, ou seja, prof issionais reféns do fundamentalismo tecnocientíf ico. O caminho para eleger o segundo modelo já vem sendo trilhado em grande número de escolas médicas de todo mundo e busca formar médicos preparados para atender cada paciente, segundo seus valores pessoais, reconhecendo todos os determinantes da doença daquele indivíduo, em suas dimensões biológicas,psicológicas, sociais e espirituais, pois só assim será possível retomar o humanismo no exercício da arte médica, conforme formulado no século IV a.C. por Hipócrates de Cós, o pai da Medicina.Sempre será saudável recordar uma história recente que registrou o emblemático passamento de uma das personalidades mais marcantes do século XX, o Papa João Paulo II que, após longo sofrimento, escolheu viver os derradeiros momentos de sua vida recolhido em seus aposentos no Vaticano, de onde podia ouvir as preces da multidão de pessoas, reunidas na Praça São Pedro. Preferiu, o Sumo Pontíf ice,reservar seus últimos dias de vida recebendo o conforto das orações dos f iéis e não optar pela improvável melhora que lhe fora oferecida para retornar à UTI da Policlínica Gemelli em Roma, onde seria tratado por meio de drogas de última geração e sof isticada aparelhagem de suporte avançado da vida. O último dia de vida de João Paulo II foi singelamente descrito pelo testemunho de Renato Buzzonetti, médico pessoal do Papa, da seguinte forma: “Na manhã de sábado, 2 de abril, pelas 07:30 foi celebrada a missa na presença do Santo Padre que já começava a revelar indícios, embora descontínuos, de comprometimento de seu estado de consciência. Pelas 15:30 da tarde do mesmo dia, com voz fraquíssima e em língua polaca, o Santo Padre pediu: Deixem-me partir para o Senhor! Os médicos se deram conta de que o seria iminente e que qualquer novo procedimento [esforço terapêutico] seria inútil. Às 21:37 daquela noite, o Papa exalou seu último suspiro.” O modelo de ensino médico que ainda predomina em nosso país permanece estruturado de modo a circunscrever as disciplinas básicas e clínicas em limites rígidos e desconectadas umas das outras. Em função dessa persistente distorção, o processo educativo torna-se refém de uma grade curricular que não acolhe saberes ref lexivos e críticos, enquanto a sociedade, ao contrário, pede por prof issionais qua- lif icados para considerar os valores e crenças dos pacientes, que se façam presentes e não se omitam diante de complexos conf litos morais que invariavelmente se fazem presentes quando da terminalidade da vida. Faz-se imperioso, portanto, resgatar o humanismo da arte médica, que reside menos na capacidade de colher informações oferecidas por equipamentos de alta tecnologia e mais na capacidade de ouvir e decifrar os enigmas e sofrimentos contidos na história de vida de cada paciente.