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Michel Foucault
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Sua obra pode ser dividida em três fases cronometodológicas: 
arqueológica, genealógica e ética.
Na fase arqueológica, busca compreender como os discursos e saberes são formados e organizados ao longo do tempo, em descontinuidades. 
Na fase genealógica, analisa as relações entre saber e poder, mostrando como o conhecimento é uma ferramenta de controle social, especialmente nas instituições como prisões, hospitais e escolas. 
Na fase ética, Foucault se concentra na subjetivação, ou seja, ele explora como os indivíduos constroem suas identidades por meio de práticas sociais e pessoais, e não apenas com resultados passivos de forças externas. 
"O que posso saber?"
"O que posso fazer?"
"Quem eu sou?"
ser-saber: 
ser-poder: 
ser-consigo: 
Da “genealogia” desenvolvida por Foucault
“É o desenvolvimento da arqueologia; uma perspectiva que procura desnudar a maneira como os discursos se investem em instituições diversas e, com efeito, balizam praticas intradiscursivas que informa determinadas formas do exercício poder. [...] ‘A genealogia é uma análise histórica das condições políticas de possibilidade dos discursos’. 
MACHADO, Roberto. Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 91-92
“Nas obras características do período genealógico – Vigiar e punir e A vontade de saber – Foucault se debruça no estudo da formação do sujeito, do indivíduo moderno, enquanto produto objetivo dos sistemas de saber e de poder. [...]
“No primeiro caso, o que estará em foco é o “nascimento das prisões”, isto é, a forma punitiva característica da Modernidade, que é o exercício do poder que incide sobre o corpo dos indivíduos a partir de técnicas de vigilância constante e de gestão de condutas que visam torná-lo dócil e útil (o poder disciplinar). No segundo caso, será a sexualidade, na medida em que ela expressa um referencial daquilo que se poderia descrever como sendo a grande empresa de normalização no Ocidente moderno: o sexo aprendido como uma instância reveladora dos dispositivos de um tipo de exercício do poder que incide sobre o controle da população (a biopolítica).
MACHADO, Roberto. Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 95
		
	não é a capacidade de alcançar algo por meio de direito, controle ou influência.	
	b) não é autoridade para comandar, como no caso de pais sobre filhos ou governos sobre cidadãos, envolvendo força e obediência.
	
	c) não está localizado em instituições específicas
	
	d) não está concentrado no Estado, mediado por contratos.
	
	e) não é dominação de classes através do controle econômico.
	
Poder em Foucault
	Consequências foucautiana do poder:		
	a	Poder e saber estão entrelaçados	O poder não está ausente do saber, mas é tramado com ele. É preciso liquidar o mito platônico de que “a verdade nunca pertence ao poder político”.
	b	Poder como exercício, 
não essência	O poder não tem natureza própria, mas deve ser entendido pelo seu exercício efetivo, como prática social historicamente constituída.
	c	Poder como rede capilar	O poder não se limita ao Estado, manifesta-se nas periferias, nos gestos, atitudes, hábitos e comportamentos dos indivíduos, em sua forma microfísica.
	d	Poder como produção,
 não só repressão	Deve-se apreender o poder por seus aspectos produtivos, e não apenas por seus efeitos negativos (como repressão e proibição).
	e	O corpo como alvo privilegiado	O poder atua sobre o corpo do indivíduo em sua singularidade, para torná-lo útil, produtivo e submisso, por meio de múltiplas técnicas.
Microfísica do poder: 
Para Foucault, o poder não é uma substância ou um bem que pode ser possuído ou retirado. Ele opera de modo difuso, espalhando-se por uma rede social que inclui diversas instituições e permeando todas as interações humanas de maneira fluida. O poder está presente em todos os lugares e em todas as relações, e qualquer pessoa pode estar simultaneamente envolvida em sua submissão ou exercício. Ele deve ser analisado como algo que funciona em cadeia, sem estar localizado em um ponto específico ou nas mãos de poucos. 
Microfísica do Poder
“O poder não opera em um único lugar, mas em lugares múltiplos: a família, a vida sexual, a maneira como se trata os loucos, a exclusão dos homossexuais, as relações entre os homens e as mulheres [...] todas essas relações são relações políticas. Só podemos mudar a sociedade sob a condição de mudar essas relações”. (FOUCAULT, Michel. Diálogo sobre o poder. In:______. Estratégia, poder-saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006, p. 262)
um exercício assimétrico
Para o filósofo, o poder encontra-se sempre associado a alguma forma de saber. Exercer o poder torna-se possível mediante conhecimentos que lhe servem de justificação. Ele explica que os “discursos de verdade” da sociedade, são relações constituídas de poder. Ou seja, ele é exercido através de normas, discursos e práticas que definem o que é considerado verdadeiro. Tais discursos são sustentados pela linguagem, valores e comportamentos que, por sua vez, aprisionam os sujeitos dentro de determinadas formas de pensamento e ação:
“Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade, isto é, os tipos de discurso que aceita e faz funcionar como verdadeiros..., os meios pelo qual cada um deles é sancionado, as técnicas e procedimentos valorizados na aquisição da verdade; o status daqueles que estão encarregados de dizer o que conta como verdadeiro.” (FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979, p. 12)
Poder e saber
Poder e resistência
Foucault explica que o poder não se manifesta apenas de forma repressiva, mas também produtiva. Essa resistência não é externa ao poder, mas emerge dentro da própria rede de poder. 
Sociedade Disciplinar e Biopoder
Foucault nos apresenta duas tecnologias de poder, divididas em duas séries:
série corpo :
 organismo/disciplina/instituições, que são os mecanismos disciplinares;
série população : 
processos biológicos (que são os mecanismos regulamentares)/Estado.
Uma técnica que é centrada no corpo, produz efeitos individualizantes, manipula o corpo como foco de forças que é preciso tornar úteis e dóceis ao mesmo tempo. E, de outro lado, temos uma tecnologia que, por sua vez, é centrada não no corpo, mas na vida; uma tecnologia que agrupa os efeitos de massas próprios de uma população. 
(FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no College de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 297) 
Sociedade Disciplinar
Segundo Foucault, as relações de poder estabelecidas no século XX nas instituições, seja na família, na escola, nas prisões ou nos quartéis, “instituições de sequestro”, foram marcadas pela que opera operam como uma forma de "ortopedia social", ordenando as multiplicidades humanas. 
Sociedade Disciplinar: distribuição no tempo e no espaço
“As disciplinas, organizando as “celas”, os “lugares” e as “fileiras”, criam espaços complexos: ao mesmo tempo arquiteturais, funcionais e hierárquicos. São espaços que realizam a fixação e permitem a circulação; recortam segmentos individuais e estabelecem ligações operatórias; marcam lugares e indicam valores; garantem a obediência dos indivíduos, mas também uma melhor economia do tempo e dos gestos [...]. A primeira das grandes operações da disciplina é então a constituição de ‘quadros vivos’ que transformam as multidões confusas, inúteis ou perigosas em multiplicidades organizadas.” (FOUCAULT, Michel, A sociedade punitiva. In História da sexualidade 2, Resumo dos cursos do Collège de France. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.1977, p. 135, aspas do original).
“
Sociedade Disciplinar
A disciplina é um dispositivo, vale dizer, uma rede de relações entre elementos heterogêneos (instituições, construções, regulamentos, discursos, leis, enunciados científicos, disposições administrativas) que surge com vistas a uma determinada finalidade estratégica(nesse caso, a produção de indivíduos politicamente dóceis e economicamente rentáveis) e cujo funcionamento e cujos objetivos podem modificar-se para adaptar-se às novas exigências.
[...] a “disciplina” não pode identificar-se nem com uma instituição nem com um aparato; é um tipo de poder, uma modalidade para exercê-lo, que comporta todo um conjunto de instrumentos, de técnicas, de procedimentos, de níveis de aplicação, de objetivos; é uma “física” ou uma “anatomia” do poder, uma tecnologia. (FOUCAULT, 1987, p. 217; p. 177).
Poder Pastoral x Poder Disciplinar
	Aspecto	Poder Pastoral	Poder Disciplinar
	Origem	Surge no cristianismo, com foco no cuidado das almas.	Surge na modernidade, ligado à gestão de corpos e comportamentos.
	Finalidade	Salvação espiritual e bem-estar individual.	Controle e normalização dos indivíduos para a ordem social.
	Métodos	Confissão, obediência, vigilância constante para salvar a alma.	Vigilância, exame, punição e treinamento para moldar o comportamento.
	Vigilância	Individualizada, baseada na confissão e na guia espiritual.	Constante e abrangente, focada no controle de grupos e indivíduos.
	Instituições	Igreja, líderes espirituais.	Escolas, prisões, fábricas, hospitais.
A genealogia dos dispositivos disciplinares coloca em oposição entre dois modelos punitivos:
o suplício no qual Damiens, em 1757, é esquartejado publicamente. 
a elaboração, por Léon Faucher em 1838, do horário que regulamenta o emprego do tempo em uma casa de detenção de jovens em Paris. 
Segundo Foucault, o objeto desse segundo dispositivo punitivo já não é o corpo dos indivíduos, mas sua vida ou, melhor dizendo, seu corpo por intermédio da alma. A reforma do direito penal não nasce, da sensibilidade para a crueldade das penas, mas de um cálculo econômico e político da função punitiva. 
	Momento Histórico	Características Principais	Tecnologia de Poder
	1. Sociedade do Suplício	Pena como espetáculo, castigos corporais, punição física direta. O corpo é o alvo do poder.	Poder soberano: punição visível, vingança do soberano.
	2. Reforma Penal do século XVIII	Substituição dos suplícios por penas moderadas e proporcionais; reorganização do sistema penal; crítica à justiça penal irregular; foco na utilidade, eficácia e custo da punição.	Poder disciplinar emergente: normalização, internalização da norma, vigilância.
	3. Sociedade Disciplinar	Substituição do espetáculo da punição pela vigilância contínua; surgimento do panoptismo; controle por meio da visibilidade e internalização do olhar vigilante.	Panoptismo: vigilância contínua, controle do corpo e da conduta, poder difuso.
Dispositivos disciplinares podem 
resumir-se em três eixos:
Em primeiro lugar, a necessidade de ajustar entre si os movimentos de acumulação de capital e de acumulação de corpos. 
Em segundo lugar, o poder disciplinar resulta complementar de uma concepção social fundada em princípio abstrato de igualdade de direitos, porque para poder funcionar requeria a normalização da vida dos indivíduos.
 Em terceiro lugar, os mecanismos da sociedade disciplinar permitiram a formação de novos saberes que, por sua vez, fortaleceram os mecanismos disciplinares.
Panoptismo
Seu modelo arquitetônico foi descrito por Bentham como uma construção em forma de anel com uma torre no centro. Na periferia circular se acha o espaço atribuído a cada corpo (ex.: as celas de uma prisão) e, na torre central, os que exercem as funções de vigilância e controle. 
“O panóptico define o princípio geral da dinâmica de poder das sociedades de normalização disciplinar que se poderia considerar uma invenção tecnológica equivalente à máquina de vapor no processo produtivo”. (FOUCAULT, 1994, t. III, p. 35; t. IV, p. 183).
Panoptismo
Câmeras de vigilância em locais públicos.
Monitoramento digital e de redes sociais.
Supervisão no ambiente de trabalho.
Monitoramento de saúde por dispositivos digitais.
Foucault vê o panoptismo como um mecanismo de controle social que se estende para além das prisões e instituições (metáfora para funcionamento da sociedade moderna). Dado que o vigiado não pode ver se é efetivamente vigiado, porém é consciente dessa possibilidade termina introjetando a disciplina: cada um se converte no normalizador de si mesmo. As técnicas e práticas que induzem ao comportamento da internalização de movimentos sem questionamentos são chamadas de tecnologias do eu. Portanto, as tecnologias de poder são produtoras da subjetividade. 
Quais cenas são da sociedade disciplinar?
	Quem vê?	As instituições modernas.
	Quais instituições?	- Escola
- Prisão
- Hospital
- Quartel
- Fábrica
- Família
- Assistência social
- Empresas e tecnologias digitais (no presente)
	Por que veem?	Para disciplinar, normalizar e adestrar os corpos e condutas. O objetivo não é só punir, mas produzir sujeitos úteis e obedientes.
	Como veem?	Por meio de técnicas de observação contínua, registro, avaliação, comparação com normas, testes, recompensas e punições discretas.
	Quem controla?	O controle não vem de uma pessoa ou Estado central, mas de uma rede de saberes e práticas que produz o que é considerado normal ou anormal.
	Exemplos de saber-poder	- A pedagogia que define o “bom aluno”
- A psiquiatria que define o “normal”
- A medicina que define o “saudável”
- O direito que define o “legal” e “ilegal”
Técnicas discipulares: lei e norma 
A lei discrimina entre o permitido e o proibido. 
A norma se move em relação a um campo de comparação no qual há maior ou menor adequação a respeito do que se considera ótimo; para estabelecer esse padrão de referência, não se serve de códigos, mas de saberes e, finalmente, não busca separar uns de outros, mas adequar e homogeneizar, normalizar. Nesse sentido, a instituição carcerária, o hospital ou a escola, não são, estritamente falando, formas de exclusão, mas práticas de normalização inclusiva
Técnicas discipulares: lei e norma 
As sanções normalizadoras se referem à imposição de ordem, escala hierárquica, dispositivos de comando e à previsão de comportamentos aceitáveis e eficientes. Não são instituições que excluem, mas que sequestram. A escola não só ensina ou o hospital não só cura; exercem um controle indireto sobre a existência, em particular a propósito do corpo, da sexualidade e das relações interpessoais.
Sociedade de normalização
“O poder em sua genealogia exigira o estabelecimento de diferenças entre a lei e norma: 
ao passo que a primeira refere a conduta individual a um corpus de códigos legais, a segunda refere os atos e a conduta individual ao âmbito de um campo regido pela comparação, diferenciação e pela regra de conduta a seguir; 
se o primeiro cabe qualificar o ato individual como permitido ou proibido, com a segunda o que se observa é a medida do ato em termos de valor a capacidade funcional dos indivíduos; 
se a lei aprende as condutas com referências ao seu interior, isto é, o que está ‘dentro da lei’, a norma traça a fronteira daquilo que lhe é exterior, com relação a seus parâmetros.”
MACHADO, Roberto. Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 96
O exame transforma o saber em poder 
o exame inverte a economia da visibilidade no exercício do poder - o poder disciplinar, ao contrário, é exercido com invisibilidade.
o exame faz também a individualidade entrar num campo documentário – porque coloca os indivíduos num campo de vigilância, em que os documentos escritos captam, classificam, qualificam, quantificam e fixam os resultados desenvolvidos.
o exame faz de cada indivíduo um caso - torna-se a modalidade que personifica o indivíduo, dando-o o status que o configura, através das medidas, notas, desvios que os tornam um “caso”.
o exame é uma técnica de poder disciplinar que combina vigilância e avaliação
Biopoder
“Para a sociedade capitalista, o que importava era antes de tudo o biopolítico; o biológico, o somático, o corporal” (FOUCAULT, 1994, t. III, p. 210; 1984d, p. 80).
“Tomado como objeto desofisticadas tecnologias políticas, o corpo torna-se público, e o público “somatocrático” (Foucault, 2010c, p. 171). 
“o conjunto dos mecanismos pelos quais aquilo que, na espécie humana, constitui suas características biológicas fundamentais, vai poder entrar numa política, numa estratégia política, numa estratégia geral do poder” (Foucault, 2008a, p. 3).
 
“Isto significa que “vivemos num regime em que uma das finalidades da intervenção estatal é o cuidado do corpo, a saúde corporal, a relação entre as doenças e a saúde, etc.” (Foucault, 2010c, p. 171). 
Enquanto o poder soberano expõe a vida à morte, o biopoder, em contrapartida, se exerce de maneira positiva sobre a vida, busca administrar e aumentar suas forças, para distribui-las em um campo de valor e utilidade. Pois bem, essa nova forma de exercício do poder se desenvolve em duas direções diferentes e complementares. 
Por um lado, uma “anatomopolítica do corpo humano”: as disciplinas, a normalização do corpo dos indivíduos. 
Por outro, “uma biopolítica das populações”: a normalização de sua vida biológica (FOUCAULT, 1986b, p. 183; p. 131). A primeira, anatômica e individualizante, toma forma a partir do século XVII e a segunda, biológica e orientada à espécie, mais tarde, desde meados do século XVIII.
Quadro comparativo entre o poder disciplinar e o biopoder. Retirado de POGREBINSCHI, Thamy. Foucault, para além do poder disciplinar e do biopoder.
A sexualidade
Na análise de Foucault, a sexualidade não deve ser vista apenas como uma ocorrência biológica ou natural, mas como uma construção histórica e social central para as relações de poder nas sociedades ocidentais. A sexualidade, assim, funciona como um dispositivo (discursos, instituições, leis e práticas que respondem a uma necessidade social específica) que se infiltra em todos os aspectos da vida social e pessoal, moldando comportamentos, identidades e relações.
Para Foucault, os processos de controle da sexualidade não são apenas formas de exclusão ou marginalização, mas estratégias ativas de produção de novas identidades e subjetividades. A patologização da homossexualidade, por exemplo, não apenas estigmatizou os homossexuais, mas também criou uma nova identidade homossexual, que passou a ser definida sob termos médicos, e psicológicos e sociais. O mesmo se aplica às mulheres e crianças, cujas identidades foram moldadas por discursos que as colocavam em posições de vulnerabilidade ou dependência. 
O que esse exemplo mostra?
 A sexualidade não é algo natural nem apenas íntimo. Ela é produzida por instituições e normas sociais que definem quem pode ou não pode exercer certos papéis (como adotar uma criança).
No exemplo, o casal gay é avaliado por sistemas de justiça, psicologia e serviço social, mostrando que a sexualidade é regulada por uma rede de saberes e poderes, como afirma Foucault.
O que esse exemplo mostra?
 Mesmo sem prática sexual, o corpo da jovem é monitorado, regulado, inscrito em saberes médicos, escolares, jurídicos e familiares.
 Isso não é uma repressão, mas uma forma ativa de controle e organização da sexualidade – como Foucault explica ao falar em “tecnologia de poder”.
O que esse exemplo mostra?
Não há nada biologicamente errado em um menino brincar de boneca. Mas a reação da professora revela um dispositivo social, que atua por meio da escola, da cultura e da família para normatizar comportamentos.
Esse dispositivo: a) Define o que se espera de um “homem” ou de uma “mulher” b) Estabelece o que é considerado “normal” ou “anormal” c) Produz identidades sexuais e de gênero antes mesmo da experiência do desejo.
Esfera social: a vitória do animal laborans e a sociedade de massas
Para Arendt, a sociedade moderna é caracterizada pela uniformização e conformismo, onde a individualidade é suprimida em favor de padrões socialmente aceitos. Essa sociedade caracterizada pela multidão, é a primazia do anonimado e ausência de relações, onde o tempo devota-se ao trabalho e a eliminação do espaço para a ação pública
A ação política: liberdade e diversidade
A ação é a atividade política por excelência do homem, e corresponde à condição humana da pluralidade e da liberdade. (BARROS, Alberto Ribeiro Gonçalves de; MELO, Rurion Soares; LOPES, Marisa da Silva (Org.). Manual de Filosofia Política. 4. ed. São Paulo: SaraivaJur, 2021, p. 273)
A pluralidade humana, condição básica da ação e do discurso, tem o duplo aspecto de igualdade e da distinção. [...] Se não fosses distintos, sendo cada ser humano distinto de qualquer outro que é, foi ou será, não precisariam do discurso, nem da ação para se fazerem compreender. (ARENDT, H. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. Revisão de Adriano Correia. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 217, p. 217) 
Escola de Frankfurt
"A indústria cultural perfidamente realizou o homem como ser genérico. Cada qual é cada vez mais somente aquilo pelo qual pode substituir qualquer outro: ser consumível, apenas exemplar. Ele próprio, como indivíduo, é o absolutamente substituível, o puro nada [...] E isso pode ser visto também no divertimento, que não é mais o lugar da recreação, da liberdade, da genialidade. É a indústria cultural que fixa o divertimento e seus horários. E o individuo se submete. Como se submete às regras do ‘tempo livre’, que é tempo programado.”
A indústria cultural, constituída essencialmente pela mídia (cinema, televisão, rádio, redes sociais, etc.). É com a mídia que o poder impõe valores e modelos de comportamento, cria necessidades e estabelece a linguagem que são uniformes porque devem alcançar a todos; não emancipam, nem estimulam a criatividade; pelo contrário, bloqueiam-na, porque habituam a receber passivamente as mensagens.
A indústria cultural
A indústria cultural tornou-se um mecanismo de massificação da opinião, dos gostos e da necessidade de consumo, uniformizando as percepções e necessidades da sociedade e reforçando o sistema capitalista vigente. Ocorre, pois, um processo de industrialização da cultura que visa entorpecer e conformar os indivíduos, ocupando seus espaços de lazer com produtos culturais padronizados e massificados​. 
Na medida em que nesse processo a indústria cultura inegavelmente especula sobre o estado de consciência e inconsciência de milhões de pessoas às quais ela se dirige, as massas não são, então, o fator primeiro, mas um elemento secundário, um elemento de cálculo; acessório de maquinaria. O consumidor não é rei, como na indústria cultura gostaria de fazer crer, ele não é o sujeito dessa indústria, mas seu objeto. (Adorno, T. A indústria cultura. In: COHN, G (Org.). São Paulo: Ática. 1986, p 93. (Coleção Grandes Cientistas Sociais)
A história do ocidente: a busca do universal (Ser/Deus/Razão) e a exclusão da diversidade
Foucault, a Escola de Frankfurt e Arendt concordam que o mundo atual padece de uma homogenização que, respectivamente, disciplina, instrumentaliza e massifica, ou seja, vivemos em um tempo de padronização que resulta no exílio do pensamento criativo e crítico, nos riscos de governos totalitários e na anemia do reconhecimento ético. 
Governamentalidade
A ideia de governamentalidade articula-se à formação de subjetividades e modos de vida, mostrando que governar não se limita ao governo político, mas envolve uma rede de práticas que atravessam a vida social, desde as estruturas familiares até a gestão estatal. 
Governamentalidade
A governamentalidade se define pelo conjunto de instituições, cálculos e táticas que têm “como objetivo principal o governo da população, como forma maior a economia política e como instrumento técnico essencial os dispositivos de segurança” (FOUCAULT, 2004c, p. 111, p. 143).
Ao invés de usar a repressão direta, o Estado usa técnicas de gestão para garantir o controle e a governabilidade, estabelecendo normas e intervenções para garantir que a população se comporte de maneira "saudável" e "eficiente"
“Arqueologia’’ desenvolvida por Foucault“a arqueologia tem por objetivo descrever conceitualmente a formação dos saberes, sejam eles científicos ou não, para estabelecer suas condições de existência, e não de validade, considerando a verdade como uma produção histórica cuja análise remete a suas regras de aparecimento, organização e transformação no nível do saber” (MACHADO, Foucault , a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p.166)
A arqueologia, voltada ao saber e não à ciência, recusa a ideia de progresso rumo à objetividade e reivindica independência em relação à cientificidade. Constitui-se como crítica à racionalidade global e ao sujeito racional, buscando descrever as condições de enunciação dos discursos, a positividade dos saberes e as regras de formação que organizam objetos, conceitos e posições do sujeito na ordem discursiva, em articulação com práticas extradiscursivas.
A arqueologia em três momentos da obra de Foucault: História da loucura, O nascimento da clínica e As palavras e as coisas.
Foucault analisa como os saberes são organizados em cada época por meio de formações discursivas, definidas por regras do discurso em constante relação com práticas extradiscursivas (ações sociais, políticas e institucionais). Mostra que o saber está atravessado por relações de poder e exclusão, e que a constituição de objetos e sujeitos do saber depende de regras históricas específicas, distintas da lógica científica tradicional. 
A arqueologia analisa os saberes em sua positividade, revelando as condições históricas que tornam possíveis certos discursos e práticas.
As Epistemes e As Palavras e as Coisas
Foucault busca descreve as condições históricas de possibilidade dos discursos, revelando os regimes de saber que estruturam o pensamento ocidental. Através da análise das formas de relação entre as palavras e as coisas, Foucault identifica três epistêmês , cada uma marcada por um modo específico de ordenar o mundo. 
Mais do que formas de conhecimento, essas epistêmês delineiam a experiência do saber em cada época e mostram como, na modernidade, o “homem” surge como figura simultaneamente objeto e sujeito do saber, finita e historicamente determinada.
	Epistêmê	Fundamento do saber	Explicação
	Renascença	Semelhança e analogia	O saber se constrói a partir da semelhança entre as coisas, que se manifestam por conveniência, emulação, analogia e simpatia. O signo está ligado diretamente ao que indica, e conhecer é “só conhecer sempre a mesma coisa”.
	Idade Clássica	Representação e ordem	O saber se organiza por meio da representação, que rompe com a antiga relação entre signo e semelhança. Agora se busca distinguir segundo identidade e diferença, compondo uma ordem geral do real.
	Modernidade	História e empiricidade (condições de possibilidade no tempo)	O saber se torna histórico e passa a analisar as condições de surgimento dos fenômenos no tempo. A representação desaparece como eixo do saber. O valor deixa de ser signo e torna-se produto, ligado à vida, linguagem e produção.
A loucura
A obra investiga como a loucura, vista no Renascimento como uma forma de saber, passa a ser tratada como desrazão na era clássica (séculos XVII e XVIII). Um dos marcos históricos desse período foi o "grande internamento" de diversos grupos marginalizados, incluindo mendigos, prostitutas e loucos, que foram isolados da sociedade. Esses eventos pavimentaram o caminho para o surgimento da psiquiatria no século XIX, que apropriou-se da loucura, reduzindo-a à condição de doença mental e transformando o louco em objeto do saber médico. 
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O momento da indiferenciação: do comércio entre razão e loucura
“Na experiência renascentista da loucura (séc. XV e XVI) a loucura é um saber, uma das ‘próprias formas de razão’. Não se tem a diferenciação clara – nem tampouco a cisão – entre razão e loucura: não há ainda a prisão ou o hospital para o louco; ao contrário, o louco é figura errante, expulso das cidades e entregue a comerciantes, peregrinos e navegantes.”
MACHADO, Roberto. Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 46
O momento da segregação: a separação entre razão e desrazão.
“a loucura que estava instalada na vida quotidiana, com o sec. XVII veremos sua rejeição e banimento. Em A grande internação: dois temas: ‘o golpe’ realizado por Descartes, no exercício da duvida metódica, localiza a loucura ao lado do sonho e de todas as formas de erro; a formação do espaço de internação como contraface instituição de um racionalismo que exclui a loucura do âmbito da razão.”
MACHADO, Roberto. Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 49-50
O momento da instituição asilar: da loucura como objeto para o saber médico
“Entre os fins do séc. XVIII e XIX, o aparecimento do asilo representa este confisco da loucura pela razão; sua forma institucional se dará através da reestruturação da experiência clássica a partir da transformação do ‘internamento terapêutico’. A loucura se individualizará, sua forma própria de ‘doença mental’, passando a ocupar o espaço da reclusão. Os domínios do saber psiquiátrico e psicológico não são produto da humanização e do desenvolvimento da ciência, mas de uma reestruturação [...] na qual o médico a torna doença mental.”
MACHADO, Roberto. Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 51-52
“No registro das práticas sociais, Foucault aborda, em primeiro lugar, a descrição da circulação da loucura, cuja figura maior está representada por essas naves, com os loucos embarcados [...] Passa depois à grande reclusão (XVII e XVIII) [...] E, finalmente, surge o asilo psiquiátrico como o lugar de internação reservado aos doentes mentais. [...] Ela foi, para o Renascimento, a expressão de outro mundo, linguagem cósmica e trágica; para a Idade Clássica, desrazão; e para a Modernidade, doença mental. (CASTRO, Edgardo. Introdução a Foucault. Tradução de Beatriz de Almeida Magalhães. 1. ed., 1. reimpressão. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015. p. 26-27. (Coleção Filô/Margens).
A loucura
	Período	Evento/Contexto	Significado para Foucault
	Idade Média	Loucura integrada à sociedade, ora sagrada, ora maligna.	Loucos conviviam com a sociedade, sem exclusão.
	Século XV/XVI	"Naus dos Loucos".	Primeira forma de exclusão social dos loucos.
	Século XVII	"Grande Encarceramento".	Confinamento de loucos com pobres e criminosos.
	Século XVIII	Criação de hospitais para loucos.	Loucura passa a ser tratada como questão médica.
	Século XIX	Ascensão da psiquiatria.	A psiquiatria exerce controle social e domina o discurso sobre a loucura.
	Século XX	Críticas ao poder psiquiátrico.	Questionamento da "normalização" pela psiquiatria.
58
A loucura, o saneamento social e a higienização do ócio
A internação emerge como uma necessidade da sociedade capitalista nascente, cujo objetivo era tanto sanear os espaços urbanos quanto disciplinar corpos e mentes (Passos; Beato, 2003).
Foucault destaca que o internamento da loucura estava mais relacionado ao controle social e moral do que a uma real preocupação médica. A ociosidade era vista como um problema ético, e os loucos, incapazes de se ajustar às normas de trabalho, eram encarados como uma ameaça à ordem. 
No Brasil, entre os séculos XVI e XVIII, a loucura coexistia com a sociedade, mas, a partir do século XIX, passou a ser vista como desrazão, resultando na exclusão de pessoas consideradas insanas para hospitais e prisões. A partir de 1841, surgiram hospícios para tratamento, organizados por médicos e autoridades. Nos anos 1950 começou o movimento da Luta Antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica, iniciadas em 1978.
60
Em O Nascimento da clínica: a medicina classificatória 
“A medicina clássica corresponde aos séculos XVII e XVIII -´nela, tendo como modelo ‘a história natural’ o âmbito de espacialização da doença é taxonômica [...] o olhar do medico é da classificação [...] e não haverá lugar para o olhar de profundidade que faça do corpo a condição indispensável da enfermidade.MACHADO, Roberto. Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 56
Em O Nascimento da clínica: a medicina clínica 
“Em fins do séc. XVIII, Foucault localiza uma mutação na ordem do conhecimento médico: o seu saber dando lugar à medicina clínica. [...] Se a medicina clássica dependia o mínimo possível de percepção na medicina clínica a doença se oferece à inspeção do olhar. [...] Para a clássica o sintoma não revela a natureza da doença, mas penas seu desenvolvimento no corpo do doente; para a clínica, a essência da doença torna-se sua própria manifestação sensível.”
MACHADO, Roberto. Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 59-60
Em O Nascimento da clínica: a medicina anatomapatológica
“No início do séc. XIX uma terceira mutação: a feição moderna da medicina, a prática clínica com a anatomia patológica. [...] Se instaura com a introdução da autopsia na experiencia médica. [...] é preciso localizar – no interior do corpo – a condição necessária da doença em um órgão afetado. [...] o domínio hospitalar, reorganizado no sentido de assumir as funções de prática médica e de pedagogia do saber médico a partir das epidemias ocorridas no séc. XVIII.”
MACHADO, Roberto. Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 61-62
	Período	Ideias Centrais
	Antiguidade Clássica	A sexualidade era parte de um regime moral, onde os indivíduos desviavam controlar seus desejos para alcançar a harmonia.
	Cristianismo (Idade Média)	O cristianismo colocou a sexualidade no centro da moralidade, controlando-a por meio da confissão e da vigilância dos desejos
	Séculos XVII a XIX	Houve uma explosão de discursos sobre o sexo, principalmente através da medicina e das ciências, não uma simples repressão
	Era Moderna	A sexualidade tornou-se um dispositivo de controle social, regulamentado por discursos médicos e jurídicos para normatizar comportamentos.
O cuidado de si
Essa prática não se limitou ao âmbito individual, mas influenciou também a política e as relações sociais, pois ao governar a si mesmo, o sujeito se tornou apto a governar os outros. A liberdade , para Foucault, não era uma condição natural, mas algo a ser constantemente exercitada. O cuidado de si oferece um caminho para resistir ao poder e às normatizações contemporâneas. Foucault via essa prática antiga como relevante para a sociedade moderna, proporcionando uma transformação tanto pessoal quanto social.
	Conceito	Descrição Resumida	Período Histórico
	Cuidado de si	Prática de autocuidado e transformação ética, focada na melhoria pessoal para agir melhor na sociedade.	Antiguidade Clássica : Grécia e Roma (V aC - II dC)​
	Conhecimento de si	Reflexão sobre si mesmo, no cristianismo substitui o cuidado de si pelo controle moral através da confissão.	Cristianismo : 
Idade Média​
	Técnicas de si	Práticas de autotransformação, como meditação, para moldar o sujeito.	Antiguidade e Modernidade: Usadas tanto para ética quanto controle​.
	Asceses (Áscese)	Disciplina e treinamento pessoal constante para alcançar o autocontrole e a verdade.	Antiguidade Clássica ​
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